Surfando na onda do empreendedorismo, a galeria dos ilustres pernambucanos decidiu incluir um notório empresário: José Ermírio de Moraes, fundador do Grupo Votorantim. Mas eis que o colunista é surpreendido com outro nome, não menos notório: Norberto Odebrecht. Um sobrenome cuja notoriedade foi ampliada ao extremo nos dias atuais com a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e que até agora não apenas você desconhecia que fosse pernambucano. O colunista também.

Norberto Odebrecht (1920-2014)

Nasceu no Recife em 9/10/1920. Filho de Emilio Odebrecht, muda-se para Salvador aos cinco anos, onde conclui os cursos primário e secundário. Aprendeu os ofícios de pedreiro, serralheiro, armador, bem como exerceu cargos de chefia nos setores de almoxarifado e transportes na empresa de construção civil do pai “Emilio Odebrecht & Cia.”, onde começou a trabalhar aos 15 anos. Seu aprendizado profissional se deu com os mestres-de-obras e operários. É a terceira geração de uma família alemã de engenheiros, que emigrou para o Brasil em 1856.

Seguindo a tradição familiar, aos 18 anos ingressou no curso de Engenharia da Escola Politécnica de Salvador. No 3º ano, a empresa passou por algumas dificuldades decorrentes da 2ª Guerra Mundial e uma crise no setor. Emílio retirou-se dos negócios, em 1941, e retorna à Santa Catarina, sua terra natal, fazendo com que ele assuma a direção da empresa aos 21 anos. Conciliando trabalho, estudos e serviço militar, conclui a faculdade em 1943. Seguindo a orientação do Banco da Bahia, fundou sua própria empresa para negociar as dívidas e continuar os negócios do pai. Assim nasceu a Construtora Norberto Odebrecht, tendo como preceitos básicos a parceria e confiança nas pessoas.

Passou a atuar na Bahia, a partir de parcerias com a Petrobrás e a Sudene, e enveredou para outros estados da região. Tem inicio a construção de uma marca diferenciada em termos de qualidade, inovação e produtividade. A conclusão Edifício Belo Horizonte, em Salvador, por exemplo, deu-se em sete meses, quando a média na época era de três anos. A empresa se expandiu rapidamente e em 1965 foi criada a Fundação Odebrecht com propostas de desenvolvimento social e cultural. Três anos depois iniciou a sistematização de seu conhecimento adquirido, publicando alguns livros: De que necessitamos (1968), Pontos de referência (1970), Educação pelo trabalho (1991) e Sobreviver, crescer e perpetuar (1983), com o qual sistematizou a chamada “Tecnologia Empresarial Odebrecht”, com os princípios, conceitos e critérios adotados pela Organização. Esta experiência editorial abriu caminho para o patrocínio de diversas obras de arte brasileira, editadas posteriormente.

Com uma filial no Recife desde 1961, estimulada pela ação da Sudene, conquista algumas obras em Pernambuco, tais como as fábricas da Willys Overland, Coperbo, Alpargatas Confecções e Tintas Coral do Nordeste. Em 1969 inicia-se a expansão para o Sudeste brasileiro, com a construção de grandes obras no Rio de Janeiro: edifício-sede da Petrobras, campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aeroporto Internacional do Galeão e a Usina Termonuclear Angra I. Na década de 1970 já está consolidada como uma das grandes construtoras do país, expandindo e diversificando seus negócios nas áreas de perfuração de poços de petróleo (Odebrecht Perfurações Ltda) e com a aquisição de 1/3 do capital da Companhia Petroquímica de Camaçari. Em seguida a empresa passa por processo de internacionalização com obras no Peru (Hidrelétrica Charcani V) e no Chile (obras de desvio do Rio Mau Le para a Hidrelétrica Colbún Machicura)

Na década de 1980 a expansão é ampliada com incorporação de outra grande construtora, a CBPO-Companhia Brasileira de Projetos e Obras, responsável pelas obras de grandes rodovias paulistas, como Imigrantes, Trabalhadores e Castelo Branco. É criada a holding Odebrecht S/A e amplia-se sua carteira de contratos no exterior. Com a incorporação da empresa Tenenge, os negócios alavancados com a construção de hidrelétricas no Brasil e no exterior. Em 1988 adquire a construtora José Bento Pedroso & Filhos, em Lisboa, e passa a atuar em Portugal. Em 1991 começa a operar nos Estados Unidos, sendo a primeira empresa brasileira a realizar uma obra pública naquele país (Metromover). A ampliação da empresa alcança a Inglaterra com a aquisição da SLP Engineering, especializada na construção de plataformas de petróleo. A empresa vai se firmando como uma das grandes multinacionais do mundo. Em 1994 a Organização Odebrecht completou 50 anos com presença marcada em 21 países, contando com 34 mil integrantes.

Pouco antes disso, em 1991, Norberto, com 71 anos de idade, passou a Presidência da Odebrecht S.A. ao filho Emílio e torna-se presidente do Conselho de Administração, cargo que mais adiante (1998) o filho assume e ele passa a ser o Presidente de Honra da Odebrecht S.A., além de Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht. Por essa época a Fundação Odebrecht redireciona o foco de sua atuação para a educação de jovens da região do Baixo Sul da Bahia. Em 1995 a empresa passa a atuar mais pesado na área de petroquímica e saneamento. É criada a OPP Química e Odebrecht Ambiental com a concessão pelo serviço público de saneamento, em Limeira, SP. No ano seguinte é formada a empresa Triken, a partir da aquisição do controle acionário da CPC e da Salgema. Em 1998 dá-se o inicio da 2ª geração no comando da empresa, com Emilio Odebrecht na presidência do Conselho de Administração.

A empresa torna-se o maior grupo petroquímico da América do Sul com a aquisição do controle da COPENE-Companhia Petroquímica do Nordeste. Em 2001 a principal revista de engenharia do mundo (ENR-Engineering News Records) reconhece a Odebrecht a maior empresa na construção de usinas hidrelétricas e aquedutos, a maior construtora da América Latina e uma das 30 maiores exportadoras de serviços do mundo. O fato é consolidado com a criação da Brasken, que reúne todos os ativos petroquímicos. Nesta ocasião Emilio Odebrecht concentra-se na presidência do Conselho de Administração e transfere a presidência da empresa para Pedro Novis. Em 2004 a empresa ao comemorar 60 anos, com 40 mil funcionários em 16 países, é eleita a Melhor Empresa de Engenharia da América Latina, pela revista Global Finace.

Em 2007 o grupo incorpora mais duas empresas: Odebrecht Agroindustrial e Odebrecht Realizações Imobiliárias, inicia projetos na Líbia e na Libéria e adquire ativos petroquímicos do Grupo Ipiranga. A expansão continua de vento em popa e em 2009 a presidência da empresa passa para Marcelo Odebrecht, neto do patriarca. Com essa mudança na direção, o conglomerado toma novo impulso e é eleita a Melhor Empresa Familiar do Mundo pelo IMD-Institute for Management Development. Novas aquisições são realizadas: a Brasken incorpora a Quattor e a Sunoco Chemicals, tornando-se a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. São intensificados os investimentos em transporte e logística, com a criação da Odebrecht TransPort. Em 2011 passa a atuar na área da Defesa, com a aquisição de duas quatro plantas industriais da Dow Chemical nos EUA e Alemanha. É criada a Odebrecht Defesa e Tecnologia. A empresa entra no ranking das 10 empresas mais admiradas pelos jovens do Brasil, conforme a Companhia de Talentos. Agora o conglomerado emprega mais de 180 mil pessoas com atuação em 23 países em todos os continentes.

Em 2014 a saúde de Norberto Odebrecht dá sinais de esgotamento. É internado no hospital devido a complicações cardíacas e falece em 19/06/2014, aos 94 anos. Em 2015 o conglomerado quintuplicou o faturamento em menos de 10 anos: passou de R$ 24 bilhões em 2006 para R$ 132,5 bilhões em 2015. Tudo isso se deve, dizem, ao talento do neto Marcelo, conhecido como ambicioso e meticuloso, ávido por deixar sua marca na empresa fundada pelo avô, de quem era mais próximo do que mesmo seu pai Emilio. Tal avidez colocou a empresa na rota da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e seu jovem presidente na cadeia, em junho de 2015, onde continua até o momento. A empresa se dispôs a fazer o maior acordo de leniência do mundo e todos os dirigentes assinaram um acordo de delação premiada. A partir daqui é história a ser contada. Uma história que o velho patriarca pernambucano teve a sorte de não vê-la.

Como não dispomos de vídeo entrevistando o biografado, apresentamos uma rara entrevista concedida em novembro de 2008 à Cláudia Pinho, da Revista Brasileiros.

* * *

A vitalidade de Norberto Odebrecht é surpreendente. Aos 88 anos, o fundador das Organizações Odebrecht, uma das maiores empresas de engenharia e construção do País, participa ativamente de todas as decisões e ações da Fundação Odebrecht, que comanda desde 1997. Por isso, fez questão de recepcionar na sede da Fundação, um bonito e moderno prédio em Salvador, as jornalistas convidadas a participar da cerimônia oficial que selou a parceria entre a Fundação e a ONU para a criação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Governança Participativa, na Serra da Papuã, em Ibirapitanga (BA). O evento contou com a participação de membros dos governos municipal, estadual e federal, além do representante do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DPADM) da ONU, Jose Manuel Sucre.

Sempre atencioso, Norberto percorreu as salas da galeria onde está exposta a história da Odebrecht e, entre uma parada e outra para mostrar suas medalhas do Exército, contou um pouco sobre sua trajetória. Diz que o seu dia começa às 3h da manhã, “eu acordo para refletir e só depois começo a trabalhar”, e às seis horas já está em seu escritório. Adora contar histórias e falar sobre filosofia. É tão coerente com seus princípios, que abomina a tecnologia no seu dia-a-dia. “Não gosto de computador. Se mexer em computador viro técnico, imbecil. Mas tem quem faça isso para mim. Se não souber usar internet e computador a pessoa pode ir pro brejo e levar organizações inteiras para o brejo.” Avesso a aparições públicas, Norberto concedeu esta rara entrevista à qual Brasileiros esteve presente.

Brasileiros - O senhor, com toda essa disposição, espera trabalhar até quando?

Norberto Odebrecht – Chego até onde tiver metas, na hora que não tiver metas não chego a lugar nenhum. Espero, pelo menos, colocar para funcionar todo esse projeto do Baixo Sul. Acordo às três da manhã, e durmo umas nove da noite, acordo pra refletir e depois começo a trabalhar. Hoje, sou como uma criança: só trabalho e durmo. Não consigo mais ler o que gosto, por exemplo. Não tenho tempo para nada.

Brasileiros - O senhor é uma pessoa muito culta, fala muito sobre filosofia. De onde vem toda essa bagagem cultural?

N.O. - Da minha infância. O meu avô por parte de mãe era um homem muito rico. Ele fugiu da Alemanha de Bismarck (Otto von Bismarck, o estadista mais importante da Alemanha do século XIX) porque queria ser livre, não queria uma disciplina rígida. Mas no fim não teve liberdade nenhuma, se enterrou aqui para estudar, aplicar os conhecimentos dele e ajudar no desenvolvimento do Brasil. Ele fez com que minha mãe fosse para a Alemanha estudar e preparar-se para ser mãe. Foram cinco anos de estudo de como ter filhos, como criá-los, alimentá-los e prepará-los para o futuro. Aos cinco anos eu fui entregue a um pastor luterano, que passou a viver em casa. Esse homem me educou e me ensinou a base filosófica de toda a minha cultura. Tive uma educação cristã e também uma educação militar. Eu gostava do Exército, era da artilharia, mas depois tive de sustentar a família, organizar toda a família. Eu sabia que ia ter de tomar conta dela.

Brasileiros - Nessa luta atual pela sobrevivência, quais os valores que, na sua opinião, devem ser cultivados e preservados?

N.O. - Aprender a economizar o tempo, ter um foco, um objetivo, tornar produtivas as forças (a minha, a sua e a de quem está acima de mim) e ter prioridades na vida. É tudo um sistema. Eu sozinho não sou nada. Se no jogo do ganha-ganha eu quiser destruir você, se eu não fizer parceria com alguém, eu não vou para lugar nenhum, vamos todos perder. E isso vale para o Brasil. Falta cultura, educação, e somente com princípios filosóficos é possível ter isso. Se isso não tiver impregnado, a comunicação é inviável.

Brasileiros - É isso que falta no Brasil hoje?

N.O. - Sim. O capitalismo não democrático, esse capitalismo voraz que está por aí, que hoje permite que carros sejam vendidos em 72 meses… Isso é uma falsidade, é a destruição de tudo. É o capitalismo que, não contente em derrubar os grandes, agora derruba os miseráveis. É o capitalismo nocivo. Todas essas lojas que vendem com prazo são porcarias.

Brasileiros - Mas não é uma forma de essas pessoas terem acesso a bens de consumo?

N.O. - O que elas precisam é educação. Por que não dão educação? Por que temos tantos excluídos no Brasil? São 6% de ricos e 23% de classe média, o resto é excluído. A educação exige a entrada na economia formal.

Brasileiros - Como o senhor, que já vivenciou várias crises financeiras, analisa essa atual?

N.O. - Aprendi a entrar em crise e a sair de crise. Toda crise é de máxima prioridade e tenho de me concentrar nela senão vou para o chão. Temos de transformar a crise numa oportunidade. Todo problema tem uma ou mais causas, e tem sempre solução. Só temos de decidir o que é certo fazer. Todos somos produtos das escolhas que fazemos e das oportunidades que a vida nos dá. Não estão todos atrás de uma fórmula, uma moeda que não permita que se repitam as crises de 1929 e essa agora? Tem de se concentrar, ver as prioridades para sair por cima, mas para isso é preciso mais coragem do que análise. Se ficar só analisando, o tempo passa. Muita gente, principalmente os economistas, demora a entender. É preciso decidir. Tenho de compreender os limites, os riscos, mas eu tenho de ter resultados.

Brasileiros Em sua opinião, o Brasil é um país competitivo?

N.O. - O Brasil tem a chance de ser o maior país do mundo porque ele é rico. Quem é mais rico, o Brasil ou o Japão? O Japão é mais rico em cultura, mas em termos de país é um dos mais pobres, só tem vulcão e mais nada. Nós temos matas, água, mas estamos destruindo tudo, não sabemos usar a riqueza que temos. Um dos países mais rico do mundo é o Brasil e ao mesmo tempo o mais pobre em educação e disciplina.

Brasileiros Quando vocês perceberam que a Organização Odebrecht poderia ser colocada a serviço da comunidade?

N.O. - A organização cresceu demais, a filosofia não é mais vendida como antes, não percebem o lado nobre da coisa. A cultura e a filosofia não acompanharam esse crescimento. Hoje, 75% das famílias estão na área rural, porque lá ainda existe unidade familiar. Filho se educa em quintal, com animais domésticos, não em apartamentos nas grandes cidades, como Salvador ou Nova York. A criança aprende a filosofia da vida nesse ambiente familiar. Eu aprendi assim, pegando ovo, vendo a galinha botar, sabia, de acordo com a lua, o dia que o pintinho ia furar o ovo. Hoje a criança nem sabe que existe pintinho, ela sabe que tem ovo, mas não sabe de onde vem, não sabe que o chocolate vem do cacau, que o leite vem da vaca… é a destruição de toda civilização e cultura.

Brasileiros - A Odebrecht atua em vários países do mundo. Como vocês controlam essa expansão?

N.O. - Há autonomia. Eles não precisam nos consultar. Nós respeitamos as realidades de cada país. Descentralizamos responsabilidades, centralizamos informações e partilhamos resultados.

Brasileiros - Essa autonomia pode ter causado a crise no Equador?

N.O - Veja bem, minha tranquilidade é tamanha que eu nem entro nisso. Sei que aqui está sendo resolvido, que é problema de dois, três, quatro anos, até que venha o bom senso daquele jovem. Hoje ele é um ditador. Ele precisa deixar de manipular o povo e o povo ainda não está devidamente aculturado para pôr os freios nele. Só isso. O comportamento dele foi o mesmo em relação à Petrobras, só que aí, ele teve mais cuidado.

7 Comentários

  1. Jonas Brito disse:

    “É sabido que o conluio Odebrecht-Governo provocou o maior esquema de corrupção do mundo em todos os tempos. Eu estava estranhando a ausencia de Pernambuco num fato de tamanha magnitude. Agora não estou mais. Vamos incluir isto entre os “Feitos & Fatos Pernambucanos” ou vamos deixar prá lá?”

  2. J.D. Brito disse:

    Não senhor Jonas, não vamos incluir isto entre os feitos pernambucanos, pois o Norberto construiu seu império em Salvador. Como eu sei que o senhor já morou por lá, caso queira pode incluir entre os feitos baianos

  3. Macau disse:

    O autor do artigo, ou o biógrafo, esqueceu de relacionar algumas obras que foram executadas pela empresa em Pernambuco.
    Em 1979 eu estagiei, como técnico em edificações, na CNOSA – Construtora Norberto Odebrecht S. A. (coisa de que tenho orgulho), na obra de conclusão do Hospital da UFPE, acho que hoje é o Hospital da Restauração e fica em frente ao prédio da SUDENE. No mesmo período a empresa estava construindo o Terminal Rodoviário do Curado e o Centro de Convenções em Peixinhos. Eram obras de grande porte e dava orgulho dizer que se trabalhava na Odebrecht.
    “A esperteza, sempre, mata o esperto”

  4. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Macau amigo,

    O Hospital da Restauração fica no Derby e não na Cidade Universitária. Hospital das Clínicas é o da UFPE.

    No resto, tô com você.

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