Tempos atrás eu e muitas pessoas no Sudeste tínhamos como certo que Naná fosse nascido e criado em Salvador. Se o “cabra” é o maior tocador de berimbau do mundo, como não ser baiano? Só em 2002, quando ele começou a abrir o carnaval do Recife, é que fui me dar conta. No ano passado ele abriu o carnaval pela última vez, mas no Jornal da Besta Fubana a abertura ainda é dele.

Naná Vasconcelos (1944-2016)

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu no Recife, em 2/08/1944. Músico considerado uma autoridade mundial em percussão, recebeu o Prêmio Grammy oito vezes e foi eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo, pela revista americana “Dow Beat”, a mais prestigiada publicação sobre jazz. Filho de Pierre de Holanda Vasconcelos, também músico de quem ganhou, aos 11 anos, seu primeiro instrumento musical: um bangô. Aos 12 anos já acompanhava o conjunto do pai e tocava nos bailes do clube carnavalesco “Batutas de São José”.

Ainda jovem, foi percussionista da Banda Municipal do Recife, tocou maracas nos frevos de Nelson Ferreira e acompanhou Bienvenido Granda, nos estúdios da gravadora Rozenblit. Até aquela época, a percussão se restringia aos pandeiros, tambores, tumbadores, maracas e bangôs. Em 1966 Naná passou a se interessar pelo berimbau e empenhou-se em explorar todas as potencialidades do instrumento. Uma de suas influências foi Jimi Hendrix, que ao explorar todos os recursos musicais da guitarra, lhe abriu as portas para as ilimitadas possibilidades do berimbau. Passou a tocar vários ritmos transportando a técnica usada na bateria para o berimbau, que era, até então, usado apenas na capoeira.

Segundo o pesquisador Ben-Hur Demeneck, ele “conseguiu fazer do berimbau um instrumento solista, tanto em grupos de jazz quanto em orquestras eruditas. A sua trajetória musical pode encher páginas com as ocorrências nominais de suas conquistas globais. No entanto, para comentar sua musicalidade, nenhuma delas compete com a perturbadora capacidade de arrancar o público de sua realidade mais imediata e de atarantar os críticos com sua variedade de timbres”.

Em 1967 ganhou uma passagem de ônibus do Mestre Capiba e foi para o Rio de Janeiro se aventurar na carreira de músico. No ano seguinte tornou-se o percussionista preferido pela maioria das estrelas da MPB e do Rock “Udigrudi” da época. Gravou com Milton Nascimento, Gal Costa, Jards Macalé, Caetano Veloso, Luiz Eça, Mutantes, Som Imaginário etc. No ano seguinte, viajou para São Paulo junto com Geraldo Azevedo e participou do “Quarteto Novo”, que acompanhou Geraldo Vandré no 3º Festival Internacional da Canção. Em seguida foi convidado para participar das trilhas sonoras dos filmes Pindorama, de Arnaldo Jabor e Minha Namorada, de Zelito Viana.

Em 1970 formou o “Trio do Bagaço”, com Nelson Ângelo e Mauricio Maestro. A convite de Luiz Eça, o trio fez uma apresentação no México. Lá encontraram o saxofonista argentino Gato Barbieri, que o convidou para integrar seu grupo. Gravou o Long play El incredible Naná com Augustin Perreyra Lucena. A partir daí Naná começa a ganhar o mundo (ou foi o mundo que o ganhou?) e fazer sucesso internacional. Se apresentaram em Nova Iorque e Montreaux, na Suiça, onde deixou o público extasiado com seu berimbau. Em 1977 participou do álbum gravado por Egberto Gismonti, Dança das cabeças, que lhe rendeu o prêmio Grammy. Seu trabalho se intensifica, tocando em vários lugares do mundo, e gravando com muitos músicos internacionais que o convidam: Miles Davis, Bib King, Jean-Luc Ponty, Paul Simon, Thelonius Monk, Talking Heads, Pat Metheny etc.

Mesmo após viver 10 anos no exterior, não perdeu a identidade, o que fez com que se tornasse famoso e ficado mais conhecido lá fora do que no Brasil. Todo ano tinha que retornar à Europa, a convite, para realizar concertos nos festivais. De volta para casa, na década de 1980, se aproximou do cenário musical brasileiro a partir da direção artística do festival Panorama Percussivo Mundial, o “PercPan”, em Salvador, onde se apresentam os maiores percussionistas do País e do mundo. Nesta ocasião ao ver tanta criança na rua, mexeu com sua sensibilidade e responsabilidade social “Isso me fez querer fazer alguma coisa”, e criou o projeto “ABC das Artes” e o “ABC Musical” para retirar as crianças desvalidas das ruas.

A partir de 2002 passou a ser o mestre de cerimônias do carnaval do Recife, abrindo as festividades no Marco Zero da cidade, acompanhado pelo cortejo de nações de maracatu. Em 2013 foi o grande homenageado do Carnaval, e declarou emocionado: “Ser homenageado vivo já é uma vitória. Na minha terra, são duas. O que mais posso querer?”. Em 2015 lançou o “Projeto Café no Bule”, juntamente com o cantor Zeca Baleiro e Paulo Lepetit. Em dezembro do mesmo ano recebe o título de “Doutor Honoris Causa” pela UFPE-Universidade Federal de Pernambuco, sem nunca ter diploma de curso superior.

Segundo o músico Pantico Rocha, “o principal legado que ele deixou foi o de ser um grande valorizador da cultura negra, da percussão brasileira, da dança e de todas as influências afro-brasileiras.” Já para o percussionista Hoto Júnior “Naná usava muita percussão corporal, e isso pros gringos era uma coisa que não existia na década de 1970”. E assumindo a influência recebida, declarou: “Posso dizer que sou percussionista porque, quando era criança, vi o Naná se apresentar. Assisti a um show na TV, eu tinha uns seios ou sete anos e ele fazia efeitos com a voz, com a banda inteira parada vendo o cara fugindo de tudo o que é normal, totalmente fora do contexto, construindo a carreira e a identidade musical dele”. Naná deixou gravado 29 discos solo e teve participação em mais de 60 gravações de artistas nacionais e principalmente internacionais, além de trilhas sonoras para diversos filmes.

Em 2015 foi diagnosticado um câncer no pulmão, mas não parou de compor e se apresentar. Em setembro, após iniciar as seções de quimioterapia, gravou um vídeo recitando poesias e divulgou na Internet. Em fevereiro de 2016, abriu os festejos do carnaval, no Recife. Em 27 de fevereiro apresentou-se no I Festival Internacional de Percussão, junto com Lui Coimbra, em Salvador e passou mal logo após o show. Tinha apresentações agendadas na Ásia para o mês de abril e uma turnê internacional com o amigo Egberto Gismonti. Em março foi internado, e na manhã de 9/3/2016 teve uma parada cardíaca e veio a falecer aos 71 anos.

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3 Comentários

  1. jose Domingos de Brito disse:

    Com isto espero ter participado, mesmo não estando lá, para minha tristeza, do Carnaval do Recife, e mantendo Naná na sua abertura, para a alegria dos leitores fubânicos.

  2. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Seu Brito,

    o sinhô é mesmo um Cachorro da Mulesta, para elevar os brios do Pernambuco de Ontem e de Hoje.

    Esta crônica foi magnífica.

    Um abração.

  3. Caio Carneiro disse:

    Muito bom, Brito! O Naná foi um artista tremendamente criativo.

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