Abreu e Lima em Pernambuco é mais conhecido como o nome de uma cidade da Grande Recife do que uma pessoa de carne e osso. No Brasil, então, é totalmente desconhecido, sendo ignorado nos livros de História. Não é como na Venezuela, onde é devidamente reconhecido como herói entre os “Libertadores da América”. Agora que comemoramos o bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817, é hora de fazermos esta singela homenagem.

General Abreu e Lima

José Inácio de Abreu e Lima nasceu em Recife, em 06/04/1794. Foi um militar, político, jornalista e escritor, filho do Padre Roma, ambos heróis da Revolução Pernambucana de 1817. Cursou a Academia Militar do Rio de Janeiro (1812-1816), saindo como capitão de artilharia. Sua patente de general deve-se ao fato de ter sido chefe do Estado-Maior de Bolívar por mais de 10 anos. Teve papel destacado nas campanhas de independência da Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, entre 1818 e 1832. Na Venezuela é considerado um dos “Libertadores da América”, e tem seu busto exposto em praça pública de Caracas.

Seu reconhecimento como herói brasileiro ocorreu apenas na década de 1940, quando o governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, deu o nome de Abreu e Lima ao distrito de Maricota, tornado Município em 1982. Em 1816 foi preso sob a acusação de insubordinação e adesão a rebelião pernambucana que se iniciava. Para mantê-lo isolado do movimento, transferem-no para a Bahia, onde irá cumprir sua pena e é obrigado a presenciar o fuzilamento de seu pai no ano seguinte. Fugiu da prisão em Salvador com a ajuda da Maçonaria, em outubro de 1817, e foi para os EUA, onde se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. Durante um ano conviveu com os libertários norte-americanos e exilados franceses, e entrou em contato com Simón Bolívar, com quem decidiu se aliar na construção da “Pátria Grande”.

Em princípios de 1819, com apenas 24 anos, já estava na cidade de Angostura, no meio da Selva Amazônica, o quartel-general de Bolívar, de quem se tornou fiel escudeiro até sua morte, em 1831. Com a morte de Bolívar, e o não reconhecimento de sua patente pelo governo do General Santander, que o sucedeu, deixou a Colômbia. Dirigiu-se para os Estados Unidos, em Philadelphia, a meca dos Maçons, e manteve contatos com os próceres da Revolução Americana. Na sequência partiu para a França Europa e manteve contatos com os militares rebeldes aliados de Napoleão. Em seguida retornou ao Brasil, em 1832, estabelecendo-se no Rio de Janeiro.

Na década seguinte, em 1844, retorna ao Recife e passa novamente a conspirar contra o governo imperial. Seu envolvimento na Revolução Praieira, em 1848, é controverso. Uns dizem que ele não teve participação direta no conflito; quem teve foram seus irmãos. Outros dizem que sim, participou ativamente dos embates. De qualquer modo, isto lhe custou dois anos de prisão em Fernando de Noronha. Anistiado, retirou-se da política, sem abrir mão de suas convicções libertárias. Em 1855 publica o primeiro livro nas Américas sobre o socialismo intitulado “O Socialismo”, sem citar Marx.

O livro foi reeditado em 1979 pela Editora Paz e Terra, com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho, onde afirmou: “No dia em que o Brasil se interessar realmente pelo seu relacionamento com as repúblicas da América Espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país”. A partir daí passa escrever regularmente no “Diário de Pernambuco”, publicar livros e ensaios históricos e a polemizar com o clero conservador.

Em 1867 publicou dois livros – As Bíblias falsificadas ou duas respostas a Joaquim Pinto Campos e O Deus dos judeus e o Deus dos cristãos – em que expunha as suas ideias liberais sobre religião, defendendo a liberdade religiosa. Tais livros acirraram a briga com o clero recifense, e lhe causaram transtornos mais tarde, quando morreu. Outros livros publicados: Compêndio de História do Brasil (1843), Sinopse cronológica da história do Brasil (1844), História universal (1847), Reforma Eleitoral-Eleição Direta (1862). Sua condição de historiador, não anulava a de polemista que mantinha diversos políticos através da imprensa. Um deles era o republicano Evaristo da Veiga, que o chamava pejorativamente de “General das massas”. A este epíteto, ele respondeu: “Com efeito a minha causa está afeita ao povo; é às massas para quem apelo, porque eu sou parte delas; sou membro desse todo a quem desprezais a cada instante e a quem tendes chamado vil canalha”.

Segundo Vamireh Chacon, autor da biografia Abreu e Lima: General de Bolívar (Rio Janeiro: Paz e Terra, 1983), realizada com o patrocínio do governo Venezuelano), como político, ele “começou como liberal, transformando-se lentamente, pelas decepções, num liberal moderado clássico e ao fim da vida em simpatizante do socialismo utópico, itinerário mais que pessoal, precursor de muitos outros”. Em relação a politica brasileira, passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Tal posicionamento é decorrente de sua decepção o com o esfacelamento da Grã-Colômbia.

A historiadora Claudia Poncioni tem uma explicação para a ausência de Abreu e Lima na História do Brasil: “Entre os personagens históricos brasileiros do século XIX, nenhum teve um percurso comparável ao de Abreu e Lima. No entanto, a constituição do papel dos “grandes homens” brasileiros se faz, no Império, principalmente sob a égide do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição criada em 1838 para sustentar o projeto de construção da identidade nacional imperial, que emerge naquele período. No panteão brasileiro, ilustrado pela revista do Instituto, o lugar de Abreu e Lima, como já foi dito, é proporcionalmente inverso ao alcance histórico do personagem”.

Os ideais revolucionários e republicanos de Abreu e Lima incomodaram bastante o poder constituído na época, ao ponto de ser castigado mesmo depois de morto. Devido às polêmicas que travou com o clero recifense e ao fato de ser Maçom, o bispo de Olinda Dom Francisco Cardoso Aires impediu que ele fosse sepultado no cemitério de Santo Amaro. Assim, teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses, quando faleceu em 08/03/1869.

A lembrança dos brasileiros sobre a importância de Abreu e Lima para a história do Brasil foi reativada em agosto de 1981, com a visita do Presidente da Venezuela Luis Herrera Campins e comitiva ao seu túmulo. Seu nome foi relembrado em 2003, por ocasião da visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acompanhado pelo presidente Lula, à cidade de Abreu e Lima. Na ocasião eles inauguraram os bustos de Abreu e Lima e Simon Bolívar e reafirmaram o desejo de construir naquela cidade uma refinaria de petróleo, fruto de uma parceria entre a Petrobrás e a PDVSA-Petróleo da Venezuela. O projeto de construção da refinaria foi lançado em 2005, mas até o momento não foi concluído no todo.

Busto de Abreu e Lima no extremo oeste da Avenida Bolivar, em Caracas, Venezuela

6 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Brito,

    Sua coluna evoluiu para instruir os brasileiros, dando destaque a pessoas e fatos que estavam escondidos, tanto no Brasil quanto até mesmo em Pernambuco.

    Parabéns!

    Só por este prólogo sua iniciativa já seria merecedora de aplausos:

    Abreu e Lima em Pernambuco é mais conhecido como o nome de uma cidade da Grande Recife do que uma pessoa de carne e osso. No Brasil, então, é totalmente desconhecido, sendo ignorado nos livros de História. Não é como na Venezuela, onde é devidamente reconhecido como herói entre os “Libertadores da América”. Agora que comemoramos o bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817, é hora de fazermos esta singela homenagem.

  2. Paulo Terracota disse:

    Socialista moreno,bolivariano assumido. general que foi, sem nunca rer sido.

  3. J.D. Brito disse:

    Sr. Paulo Terracota
    O sr. por acaso está comparando o Abreu e Lima ao Hugo Chaves?

  4. Paulo Terracota disse:

    J. D. Brito, a história sempre se repete, o ontem sempre vira o hoje.

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