Barbosa Lima Sobrinho 1897-2000

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho nasceu em Recife, em 22/01/1897. Foi essencialmente um jornalista, mas teve atuação destacada também como atleta, historiador, escritor, advogado e político. Seu nome já apareceu no Guinness of Recordes como o jornalista mais antigo do mundo em atividade. Durante 76 anos escreveu um artigo semanal no Jornal do Brasil (1924-2000), período no qual publicou mais de 4 mil artigos. Presidiu por três vezes a ABI-Associação Brasileira de Imprensa (1926-1927, 1930-1932 e 1978-2000) e a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977. Ou seja, teve toda a sua vida dedicada ao jornalismo entremeada com outras atividades. Oriundo de uma família tradicional do Recife, deve seu nome ao tio Barbosa Lima, que governou Pernambuco no período 1892-1896. O que lhe garantiu tanta longevidade foi o fato de ter sido, na juventude, atleta nadador e remador. “No Clube Náutico Capibaribe, no Recife, eu era o proa da guarnição dos remadores. Nossa guarnição foi a única do Brasil que teve dois acadêmicos, o Múcio Leão e eu”,

Ainda criança, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso primário. Poucos anos depois, retorna ao Recife, onde concluiu os primeiros estudos no Colégio Salesiano e Instituto Ginasial Pernambucano, em 1911. Aos 13 anos já escrevia nos jornaizinhos destas escolas, e aos 15 anos publicou seus primeiros artigos no jornal A Província, do Recife. Em 1913 entrou para a Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1917, quando passou a trabalhar como adjunto de promotor. A partir daí exerceu a advocacia sem deixar de colaborar na imprensa: Diário de Pernambuco, Pequeno Jornal e Jornal do Recife, onde publicava uma crônica dominical de 1919 a 1921. Neste ano mudou-se para o Rio de Janeiro e foi contratado imediatamente pelo Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator-chefe. Em 1926 foi eleito presidente da ABI pela primeira vez. Foi quem instituiu a profissão de jornalista, de fato, no Brasil: conseguiu unificar a classe, então dividida em três associações, reformulou os estatutos da entidade, instituiu a carteira de jornalista e o título de sócio e estabeleceu intercâmbio com as associações de imprensa dos estados, proporcionando a integração dos jornalistas em todo o país.

Em 1931, decidiu se casar com Maria José e foi pedi-la ao pai. O velho Horácio Pereira foi honesto e suscinto:

– “Minha filha não sabe cozinhar, não sabe costurar e nem passar”.

O jovem pretendente não deixou por menos:

– “Se eu quisesse uma empregada, doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do País”.

Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça. No final do mandato foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde atuou também como secretário-geral em 1952; presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955 e 1956; diretor da biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993.

No ano seguinte (1938), foi designado presidente do IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, onde conheceu, deu emprego e ficou amigo de Miguel Arraes. Em sua gestão o IAA realizou com sucesso as primeiras experiências na utilização do álcool como combustível automotivo, através da mistura de álcool anidro e gasolina. Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando escasseou o petróleo, houve um mês, em São Paulo, em que os veículos só contaram com aquele tipo de combustível fornecido pelo IAA. Vê-se hoje o pioneirismo do IAA na política energética: apenas na década de 1970, a política de produção do álcool como substituto da gasolina seria adotada pelo governo, passando a implementar a fabricação de veículos movidos à álcool para fazer frente ao alto custo da importação do petróleo. No plano interno, estabeleceu o serviço assistencial médico e dentário para os funcionários e seus dependentes, além de providenciar a transferência do IAA para uma nova sede, na praça 15 de Novembro, no Rio de Janeiro.

O segundo mandato como deputado se deu em 1946-1948, quando integrou a Comissão de Finanças e designado relator do orçamento do Ministério da Guerra. Em 1948 renunciou ao cargo para assumir o cargo de governador. Seu governo destacou-se pelas obras na área dos transportes, com novas rodovias, e forte investimento na área educacional; incentivou o desenvolvimento da Liga Social contra o Mocambo – depois denominada Serviço Social contra o Mocambo, possibilitando a construção de casas populares; inaugurou a Faculdade de Filosofia e a Escola Superior de Veterinária, posteriormente incorporadas à UFPE. Visando austeridade na área econômica, convidou Miguel Arraes para comandar a Secretaria da Fazenda. Incomodado com o desconhecimento entre nós de um grande brasileiro, reconhecido como herói na Venezuela – “No dia em que o Brasil se interessar realmente pelo seu relacionamento com as repúblicas da América Espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país” -providenciou o resgate histórico desse ilustre pernambucano, dando-lhe seu nome ao povoado de Maricota, na Grande Recife. Outro grande feito de seu governo em Pernambuco, foi a construção da Usina de Paulo Afonso, para o fornecimento de energia elétrica no Nordeste.

Logo após deixar o governo de Pernambuco (1951), mudou-se mais uma vez para o Rio de Janeiro, onde foi nomeado procurador da Prefeitura do Distrito Federal. Neste cargo travou uma luta ferrenha contra a Light, empresa concessionária dos serviços de energia elétrica e transportes elétricos urbanos, no sentido de garantir os interesses nacionais. Em 1952 foi eleito secretário-geral da Academia Brasileira de Letras e no ano seguinte, presidente da mesma. Por essa época atuou em diversas entidades: foi sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro; benemérito da Associação Brasileira de Imprensa e sócio correspondente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e do Instituto de Advogados de São Paulo; professor honorário da Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife; presidente do Pen Clube do Brasil em 1954; membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; membro do Instituto de Direito Público e da Fundação Getúlio Vargas.

Sem se desligar do jornalismo, decidiu retornar à vida política, candidatando-se nas eleições de 1958 a deputado federal, pela terceira vez, por Pernambuco na legenda do PSB-Partido Socialista Brasileiro. Assumiu o mandato em fevereiro do ano seguinte, tornando-se membro da Comissão de Justiça da Câmara e vinculando-se à Frente Parlamentar Nacionalista, bloco suprapartidário criado em 1957 com o objetivo de combater as concessões ao capital estrangeiro e a remessa de lucros para o exterior e de defender uma política de desenvolvimento autônomo da economia nacional. Fiel aos princípios nacionalistas, apresentou a proposta de criação de uma comissão especial para examinar o setor de telecomunicações, que resultou na elaboração do Código Nacional de Telecomunicações, em 1960. Nas eleições presidenciais deste ano, apoiou as candidaturas de Jânio Quadros e João Goulart para vice-presidente. Em 1961 foi eleito vice-líder do PSB na Câmara dos Deputados e, apesar de ter apoiado Jânio, repudiou sua renúncia em agosto de 1961. Sob o regime parlamentarista instituído em setembro, empenhou-se em favor do projeto de regulamentação e restrição da remessa de lucros para o exterior, que deu origem à Lei de Remessa de Lucros, aprovada em setembro de 1962. Após esse período, passou a dedicar-se mais ao jornalismo.

Não obstante ser um crítico do governo de João Goulart, apontando a inexistência de uma orientação segura no desenvolvimento da política econômica e a vacilação do presidente em assumir de fato uma posição nacionalista, se opôs ao movimento político-militar de 31 de março de 1964 que derrubou o governo e instaurou um regime de exceção no país. Coerente com essa perspectiva, após a edição do Ato Institucional nº 2 (27/10/1965) e a posterior implantação do bipartidarismo, aderiu ao partido oposicionista, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). No período seguinte, participou dos trabalhos de organização da ABRA-Associação Brasileira de Reforma Agrária, fundada três anos depois. No auge do Golpe teve sua casa vasculhada pelos militares e fez questão de dizer aos soldados, ao se despedir, que ficava triste de ver o Exército brasileiro naquele papel de cão farejador, “o mesmo Exército glorioso que um dia se recusou a perseguir escravos fugidos”, lamentou-se. Inúmeras vezes se manifestou em defesa dos direitos humanos e a liberdade de expressão, combatendo tanto nos artigos que escrevia como nos depoimentos que prestava à imprensa, os desmando da ditadura militar. Contestou incansavelmente a censura à imprensa, proclamando que “a liberdade de imprensa não existe sem liberdade de informação, que não é um direito do jornalista, mas do público. É, assim, um dever do jornalista”.

Com essa credencial, foi eleito presidente do conselho administrativo da ABI, o final da década de 1960. Em seguida ingressou no magistério como professor universitário. Regeu a cadeira de Política Financeira e, mais tarde, a de História Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas Amaro Cavalcanti, mais tarde incorporada à UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em 1973, a convite da comissão executiva nacional do MDB, aceitou disputar o cargo de vice-presidente da República na chapa encabeçada pelo presidente do partido, Ulisses Guimarães, que se apresentava como “anticandidato” às eleições indiretas previstas para janeiro de 1974. Após a homologação dos dois nomes, foi iniciada a campanha eleitoral – que teve o caráter simbólico de denúncia do regime militar – em defesa da restauração da democracia e do nacionalismo. Realizado o pleito, a chapa do MDB foi derrotada pelos candidatos do partido Arena-Aliança Renovadora Nacional. Os militares continuaram no poder, mas a candidatura simbólica do MDB representou o marco inicial de um amplo movimento oposicionista que se corporificou na expressiva vitória desse partido nas eleições parlamentares de novembro do mesmo ano.

Nos “anos de chumbo” da ditadura ocorreram diversos atentados terroristas, incluído a ABI como alvo dos militares mais ferrenhos reunidos numa organização clandestina que se identificou como Aliança Anticomunista Brasileira. Na condição de jornalista respeitado, ele manifestou forte repúdio a esses atentados terroristas, bem como aos atos antinacionalistas do governo. Quando, em 09/09/1976, o governo Geisel formalizou com a British Petroleum o primeiro contrato de risco para a exploração do petróleo brasileiro, ele contestou através da imprensa a adoção da medida, acusando-a de antinacionalista. Costumava dizer que a melhor forma de combater o comunismo seria a adoção de medidas governamentais de amparo à classe média, que, cada vez mais rebaixada em suas condições econômicas, tendia a se incorporar ao proletariado.

Em 1978 foi eleito, pela terceira vez, presidente da ABI e reafirmou o propósito de lutar pela restauração do estado de direito no país. Iniciava-se o processo de abertura lenta e gradual promovido pelo General Figueiredo, no ano seguinte, e todas as forças políticas se mobilizaram nesse sentido. Eleições diretas e já era o anseio de todos os democratas. Em julho de 1980 participou de uma ampla reunião, proposta pelo PT-Partido dos Trabalhadores, na Câmara dos Deputados, com a finalidade de apurar os atentados terroristas praticados desde o ano anterior contra a OAB, ABI e CNBB. Nessa ocasião protestou enfaticamente contra o “pacote eleitoral” proposto pelo governo, que vinculava os votos para os candidatos na mesma legenda, impedindo as coligações eleitorais. A partir daí iniciou-se um movimento para lançar um candidato de oposição ao regime para concorrer com Paulo Maluf, candidato situacionista à presidência. Formou-se a Aliança Democrática, com a candidatura de Tancredo Neves, tendo José Sarney com vice, que venceu a eleição no Colégio Eleitoral em 15/01/1985. Ato continuo, Tancredo Neves concedeu uma entrevista coletiva como presidente eleito no plenário da Câmara e convidou-o – em reconhecimento por sua participação no movimento das “Diretas Já” – para presidir a mesa que conduziu a entrevista.

Com o falecimento de Tancredo Neves, José Sarney toma posse e torna-se urgente a consolidação da redemocratização do país, a preparação de uma nova Constituição para substituir a de 1967, elaborada durante o regime militar. Para isso, foi constituída uma “comissão de notáveis”, presidida por Afonso Arinos, onde ele foi membro atuante em defesa das causas nacionalistas. Posteriormente ele foi convocado pela própria Assembléia Constituinte para defender em plenário suas posições, particularmente a permanência do monopólio da Petrobrás sobre a exploração do petróleo. A nova Constituição, aprovada em 1988, manteve sua reivindicação. No ano seguinte, com a eleição que elegeu Fernando Collor para presidente, fez oposição sistemática ao programa liberal, que incluía uma ampla agenda de privatizações de empresas públicas e defendeu mudanças na Lei de Imprensa no sentido de não se punir o delito de opinião com a prisão do jornalista.

Em 1992 o governo do dito “caçador de marajás” começa a desmoronar com graves acusações de corrupção. Diante da gravidade das denúncias, o Congresso convocou uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), que reuniu provas do envolvimento de vários auxiliares próximos do presidente em casos de corrupção passiva e ativa. Nesse momento, inicia-se na sociedade um movimento no sentido de pressionar o Congresso para que decretasse o impeachment de Collor. Em agosto, a OAB começa a preparar um documento que deveria ser apresentado ao Congresso Nacional, acompanhado da assinatura de personalidades da vida pública brasileira, pedindo o impeachment do presidente. A ABI foi convidada a participar da elaboração dessa petição, e Barbosa Lima Sobrinho foi solicitado a assinar, junto com Marcelo Lavenère Machado, presidente da OAB, o pedido de impeachment enviado ao Congresso. No final de 1992 o impeachment de Fernando Collor foi aprovado. O vice-presidente Itamar Franco toma posse e designa Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda, eleito presidente nas eleições seguintes, em 1995. A politica liberal de privatizações das empresas públicas tomou novo impulso e, novamente, Barbosa Lima Sobrinho se posiciona contra através de seus artigos na imprensa. Na privatização da Companhia Vale do Rio Doce, juntou-se à OAB para entrar com uma ação no STF tentando cancelar o leilão de privatização. Criticou também veementemente o governo de Fernando Henrique no programa de reformas constitucionais que permitiu a reeleição para presidente da República e dos governos estaduais e municipais e cancelou o monopólio da Petrobras sobre a exploração do petróleo no Brasil.

Em sua trajetória política e profissional recebeu diversas condecorações e homenagens e deixou mais de 70 livros publicados. Em janeiro de 1997, ao completar 100 anos, foi coberto de homenagens públicas em todos os cantos do país. Perguntado por um jornalista, se poderia dar um conselho aos jovens, foi sincero e sucinto: “Se pudesse dar algum conselho, recomendaria que não se quisesse viver além dos 100 anos. É um sofrimento por tudo o que a gente não pode mas que gostaria de fazer”. Faleceu em 16/07/2000, aos 103 anos de idade.

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Barbosa Lima Sobrinho – Patrimônio do Brasil

5 Comentários

  1. alberto santo andre disse:

    realmente o nordeste sempre nos deu grande homens publico e jornaliistas , porem as safras do final do seculo vinte , com rarissimas exceçoes so nos tem trazido e formado corruptos e mentirosos , como rena, collor , lula , sarneis , maranhao , familia gomes e tantos outros que se tornam maioria devido a divisao do brasil e com isto estamos vivenciando , nosso pais ter retornado a mediocridade .

  2. jose Domingos de Brito disse:

    Caro Alberto

    Estás coberto de razão. A safra que tem surgido recentemente, como os citados por você, está toda bichada. É por isso que venho publicando aqui no JBF, relembrando os nomes de alguns ilustres para a rapaziada que aí está não esqueça que essa terra tem nomes que um dia engrandeceram o nome de Pernambuco e do Brasil.

  3. Jonas disse:

    “Se eu quisesse uma empregada, doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do País”.

    Bela resposta, um feminista no início dos anos 30!

  4. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Você tem dado dentro, meu caro, bem no cu da mosca.

    Precisamos educar esta geração com base no que realizaram pelo País; os vultos que fizeram Pernambuco ser em passado recente a Nação que foi em 1817, a República e Pernambuco não este Brasil banânico.

  5. alberto santo andre disse:

    tendo nas raizes de meus filhos sangue pernambucano , visto que minha esposa nasceu em agrestina , assim como meus sogros que tamem eram daquela regiao , e meu sogroembora analfabeto de uma hombridade e moral, e inteligencia , de fazer inveja a muitos intelecyuais

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