Gregório Bezerra (1900-1983)

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas, em 13/03/1900. Trabalhou na agricultura ainda criança e ficou órfão do pai aos sete anos, e da mãe aos nove. Foi morar no Recife junto a família dos fazendeiros que empregavam seus pais, mas não ficou muito tempo. A promessa de estudar não foi adiante e permaneceu analfabeto até os 25 anos. Passou boa parte da infância dormindo na rua e entre as catacumbas do cemitério de Santo Amaro. Nessa época trabalhou como carregador de malas na estação ferroviária, ajudante de pedreiro e jornaleiro.

Foi como vendedor de jornas que começou a se interessar pela política, através da leitura que os colegas faziam para ele. Em 1917 foi preso pela primeira vez, quando participava de uma manifestação de apoio à Revolução Bolchevique, que se passava na Rússia e à greve geral reivindicando direitos trabalhistas. Passou cinco anos preso na Casa de Detenção do Recife, onde conheceu o cangaceiro Antonio Silvino, do quem se tornou amigo. Ao sair da prisão, em 1922, com dificuldades de arrumar emprego, alistou-se no Exército e dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização. Com a intenção de fazer carreira militar, entrou para a Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro e foi instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas. Em 1929, retorna ao Recife e filia-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Dois anos depois, é designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza. Por sua própria conta, criou uma célula do PCB em Fortaleza, contrariando a orientação do partido. Em 1935 participou da “Intentona Comunista”, movimento promovido pela ANL-Aliança Libertadora Nacional, na condição de líder do levante militar. Na tentativa de roubar armamentos do CPOR, foi preso acusado pela morte de um tenente e ferimento de outro. Nesta segunda prisão, recebeu uma condenação de 28 anos, primeiro em Fernando de Noronha, seguida por outra temporada no Rio de Janeiro, no Presídio Frei Caneca. Nesta ocasião, dividiu a cela com o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Foi aí que aprimorou seus conhecimentos sobre as condições econômicas e políticas do Brasil, bem como sobre o movimento comunista internacional.

Com o fim do Estado Novo e a legalização do PCB em 1945, foi anistiado e elegeu-se deputado federal constituinte por Pernambuco, com a maior votação do estado. Em 1948 foi cassado junto com todos os parlamentares comunistas. Passou a viver na clandestinidade por nove anos, e neste período viajou para Goiás e Paraná, organizando núcleos sindicais como militante do PCB. A terceira prisão veio em 1964, com o Golpe Militar. Foi preso enquanto organizava a resistência armada dos camponeses ao golpe em apoio ao governo de João Goulart (federal) e Miguel Arraes (estadual). Levado para o Recife, sofreu as mais terríveis torturas e humilhações públicas: teve os pés imersos em ácido de bateria e foi obrigado a andar sobre britas. Em seguida foi arrastado pelas ruas de Casa Forte, enquanto o tenente-coronel Darcy Viana Vilock incitava a população a linchá-lo. O povo, consternado pela cena, não atendeu a incitação do coronel. Estas cenas foram transmitidas ao vivo pela televisão.

Em 1967 foi condenado a 19 anos de prisão, e foi libertado em 1969, junto com outros 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. Passou a viver na Rússia após um curto período no México e Cuba, só retornando ao Brasil em 1979, com a promulgação da anistia. Logo em seguida começou a divergir do PCB e desligou-se de seus quadros. No mesmo ano publicou sua autobiografia “Memórias” (relançado em 2011 pela Boitempo Editorial).

Pouco depois, filou-se ao PMDB, candidatou-se a Deputado Federal, em 1982, mas perdeu e ficou como suplente. No ano seguinte, já doente, declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas”. Faleceu em 21/10/1983. Em sua homenagem, o poeta Ferreira Gullar compôs o poema-cordel intitulado “História de um valente”.

Valentes, conheci muitos,
e valentões, muito mais.
Uns só Valente no nome
uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
só com capangas atrás.
Mas existe nessa terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor.

Em 2004 foi realizado o documentário de 28 minutos “Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”, dirigido por Anna Paula Novaes, Raquel barros e Rosevanya Albuquerque. O filme ganhou os prêmios de Destaque e Menção Honrosa no Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

* * *

4 Comentários

  1. Quincas disse:

    Britto, esta sua séria é muita BOA E ÚTIL…

  2. Brito disse:

    Obrigado, Quincas, pelo estímulo. isto é o que me faz prosseguir com estas biografias concisas. A próxima é sobre Mario Pedrosa.

  3. Paulo Terracota disse:

    Ptz!

  4. Caio Carneiro disse:

    Outros tempos…

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa