Mario Pedrosa (1900-1981)

Mário Xavier de Andrade Pedrosa nasceu em Timbaúba, em 25/04/1900, no Engenho Juçaral. Filho de Pedro da Cunha Pedrosa, ex-senador da República e ex-ministro do Tribunal de Contas. Aos 13 anos foi estudar na Suíça e retornou aos 16 anos. Passou a viver no Rio de Janeiro, onde formou-se na Faculdade de Direito. Em 1924 mudou-se para São Paulo e foi trabalhar como redator de política internacional no jornal “Diário da Noite” ao mesmo tempo em que escreve artigos de crítica literária. Nesta ocasião, aproxima-se dos modernistas, em especial de Mario de Andrade.

Filiado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro em 1926, foi estudar em na Escola Leninista de Moscou, em 1927. Mas devido a problemas de saúde se instalou em Berlim, onde estudou economia filosofia e estética. De volta ao Brasil em 1929, passou a integrar o grupo de simpatizantes do “movimento trotskista internacional” no âmbito do PCB, o que motivou sua expulsão do partido no mesmo ano. Em 1931 fundou a Liga Comunista, junto com os amigos Fúlvio Abramo, Lívio Xavier. Aristides Lobo e Benjamin Péret. Com a Revolução Constitucionalista de 1932, é preso e libertado pouco depois. Com a finalidade de publicar textos marxistas no Brasil, fundou a editora Unitas, e passou a dar palestras sobre as tendências da arte moderna. Em 1936, o grupo de amigos decide criar o Partido Operário Leninista.

Instalado o Estado Novo, em 1937, optou pelo exílio na França. No ano seguinte, no Congresso de Fundação da Quarta Internacional, representou alguns partidos operários da América Latina, com o pseudônimo de Lebrum, e foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional (CEI) da IV Internacional. Três anos após, voltou clandestinamente para o Brasil. Logo foi preso e pouco depois foi solto com a condição de deixar imediatamente o País. Em 1941 seguiu para os EUA, e passou a trabalhar na União Pan-Americana, futura OEA-Organização dos Estados Americanos. Nesta ocasião escreveu um artigo sobre os painéis de Cândido Portinari, exibidos na Biblioteca do Congresso, em Washington. Em seguida passou a trabalhar na seção de cinema do Escritório de Coordenação de Negócios Interamericanos, em Nova Iorque. Durante o período de 1945-1945 exerceu a função de correspondente, nos EUA, do jornal carioca “Correio da Manhã”.

Em 1945 retornou ao Brasil e participou da criação do grupo “União Socialista Popular” e passou a colaborar na edição do semanário “A Vanguarda Socialista”. Por essa época encarou a vida acadêmica mais a sério e, em 1949, ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil. Sua tese sobre arte e Gestalt influenciou jovens artistas, que se tornariam importantes nomes da arte concreta na década de 1950. No ano seguinte obteve o título de professor livre-docente. A partir daí a vida do crítico de arte tomou impulso: participou ativamente da criação do Movimento Concretista; curador da II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953) e Secretário-Geral da IV Bienal (1957); organizou uma exposição sobre arquitetura brasileira, no Japão (1958); organizou o Congresso Internacional Extraordinário dos Críticos de Arte, antecipando a fundação de Brasília, em 1959, quando apresentou seu trabalho “A cidade nova – síntese das artes”; vice-presidente da Associação; vice-presidente da AICA-Associação Internacional dos Críticos de Arte (1957-1970); diretor do Museu de Arte Moderna-MAM, de São Paulo (1961-1963); presidente da Associação Brasileira de Críticos da Arte (1962); Secretário do Conselho Federal de Cultura (1961-62) além de integrar o júri de várias bienais de artes plásticas no mundo.

Chegamos ao ponto onde Mario Pedrosa é um mentor e porta-voz de uma vanguarda artística, uma autoridade no mundo da crítica de arte, que se afasta do objetivismo e racionalismo dos anos 1950. Mas aqui surge uma pergunta: ele é mais político ou é mais artista ou crítico e teórico da arte? Como se fundem estas duas áreas tão distintas? Para ele “arte” e “política” são as duas formas mais elevadas de expressão humana. Assim, propõe que a única postura diante da vida é o engajamento político, mas defendendo a plena liberdade de expressão artística. Desde a juventude envolveu-se com estes dois universos, contando com o amigo e cunhado, o poeta surrealista Benjamin Péret.

No entanto, logo depois ele se afastou da concepção de arte engajada, que embalava boa parte do movimento esquerdista. Tal pensamento estava embasado no “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente”, elaborado por André Breton e Leon Trotsky em 1938, defendendo que a “arte tem um potencial libertário e revolucionário em si”. Já no inicio da década de 1940, conforme Antonio Cândido, ele “surpreendeu ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma”, passando a apoiar uma arte sem mensagem social e desconectada com a política explícita. Dessa forma passou combater a arte do “realismo socialista”, afirmando que toda arte é abstrata e que não é “a maior ou menor fidelidade da representação externa que determinará a maior ou menor qualidade estética”. Essa nova postura clama por “Toda liberdade à arte” e influencia a II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953), trazendo para o Brasil artistas de vanguarda: surrealistas, cubistas, futuristas e abstracionistas.

Em 1957, publicou o livro Poeta e pintor concreto, sobre o novo movimento literário. Sua preocupação era unir a “brasilidade”, a “tradição cultural local” a uma arte mais universal, como a abstrata e o concretismo, pouco aceitos pela velha guarda do movimento modernista. Assim, ele vê na pintura de Alfredo Volpi uma conciliação destes dois aspectos. No inicio da década de 1960, dedicou-se a solidificar o movimento concretista em âmbito nacional ao mesmo tempo em que se preocupa com a situação política do País, com a renúncia de Jânio Quadros em 1961. Pouco depois do Golpe de 1964, passou a se ocupar mais com a temática politica, e publica dois livros em 1966: A opção brasileira e A opção imperialista, onde reflete sobre o golpe e suas consequências, a política imperialista norte-americana, a burguesia nacional etc.

Em 1968, com o recrudescimento da ditadura militar, ele passou a denunciar a tortura aos presos políticos e a combater o regime. Foi processado em 1970, e tornou público seu pedido asilo no Chile. Ao tomar conhecimento do fato, o “The New York Times Review of Books” publicou carta aberta assinada por importantes artistas, como Picasso, Calder, Henry Moore e Max Bill, responsabilizando o governo brasileiro por sua integridade física. No Chile, onde se processava, pelo voto, uma revolução socialista sob o governo de Salvador Allende, fundou o Museu da Solidariedade, um dos mais importantes do país. O acervo, com mais de cinco mil obras de arte, continha obras de Picasso, Calder, Miró, Soulages entre outros, todas elas doadas graças ao seu prestígio internacional. Ainda no Chile contatou militantes brasileiros exilados e com o argentino trotskista Nahud Moreno. De tais contatos surgirão posteriormente novos movimentos organizados, tais como “Liga Operária” e “Convergência Socialista”.

Juntamente com a atividade política, passou a lecionar na Faculdade de Belas Artes de Santiago até a queda e morte de Salvador Allende, em 1973. Em seguida ficou uma temporada no México e logo se muda para Paris, onde viveu quatro anos e publicou inúmeros artigos para revistas de todo o mundo. Seu regresso ao Brasil se dá em outubro de 1977, quando foi absolvido por unanimidade. Passou a escrever regularmente na “Folha de São Paulo” e a batalhar pela reconstrução do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro-MAM, após o incêndio que o destruíra em 1978. No ano seguinte publicou um importante livro reunindo sua tese Da natureza afetiva da forma na obra de arte com outros ensaios intitulado Arte/forma e personalidade. No entanto, a veia política também se expressa ostensivamente, tornando-se o primeiro intelectual a participar da criação do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

Dias antes de falecer, em 11/11/1981, lançou uma coletânea de artigos sobre artes plásticas: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. Sua produção bibliográfica é composta por mais de 20 livros, muitos dos quais vem sendo reeditados até hoje. Sua biblioteca, de oito mil livros, folhetos e periódicos, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. Seu arquivo composto de documentos, correspondência, artigos, fotos etc. estão reunidos no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa-CEMAP, sob os cuidados da UNESP-Universidade Estadual Paulista, em São Paulo.

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3 Comentários

  1. CÍCERO TAVARES DE MELO disse:

    Meu caro colunista fubânico JOSÉ DOMINGOS BRITO:

    Obrigado por esses fragmentos históricos fabulosos sobre pernambucanos ilustres.

    Leio-os de uma tacada só, pápápápápá, como diz o genial cantor, compositor e violonista XANGAI!

  2. J.D. Brito disse:

    Caro Cícero

    Eu é que agradeço pelo estímulo. A gente escreve sem saber onde vai bater. Às vezes bate num lugar que ressoa e isso faz a gente continuar

  3. Caio Carneiro disse:

    Morreu em 1981. Não deve ter tido tempo de se decepcionar com o PT 🙂

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