Ascenso Ferreira (1895-1965)

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira Nasceu em Palmares, em 09/05/1895. Poeta integrante da Semana de Arte Moderna de 1922, que se destacou pela temática regional e folclórica de sua terra. Passou toda a infância em Palmares – conhecida como “Atenas Pernambucana” e Terra dos Poetas” – e aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe, Dona Marocas, professora. Ficou órfão do pai aos 6 anos e a família passou por alguns perrengues. Aos 13 anos, passou a trabalhar com o padrinho na bodega “A Fronteira”. Era balconista e teve um aprendizado indispensável ao futuro poeta, na lida com a freguesia em busca de uma quarta de carne seca, bicadas de aguardente, cuias de farinha e meias garrafas de querosene.

Aos 16 anos publicou seu primeiro poema – Flor fenecida – no jornal “A Noticia de Palmares”, e aos 21 fundou a sociedade “Hora Literária” junto com outros poetas da cidade. No ano seguinte, o rapaz que fora registrado como Aníbal Torres, resolveu ser poeta e mudou seu nome para Ascenso Ferreira. Por defender o abolicionismo e a cidadania, passou a ser perseguido politicamente. Por isso, não encontrava trabalho em sua cidade e teve que se mudar para o Recife aos 24 anos. Conseguiu um emprego de escriturário no Tesouro do Estado de Pernambuco e se meteu na boemia recifense. Passou a publicar seus poemas no “Diário de Pernambuco”. Era o poeta preferido dos alunos da Faculdade de Direito do Recife, que certa vez o obrigaram a recitar seus poemas no palco do Teatro Santa Isabel. Era dotado de um aguçado sentido de ritmo e seus poemas engraçados encantavam a rapaziada. Ele não fez faculdade alguma, dizia-se que ele “aprendeu sem se ensinar”.

Certa vez numa roda de conversa sobre as semelhanças entre o nordestino e o gaúcho, realçando a intrepidez e valentia, ele fez um versinho e recitou-o imitando o sotaque sulista:

Riscando os cavalos !
Tinindo as esporas !
Saí de meus pagos em louca arrancada !

Para que ?
Pra nada !

Na década de 1920 fez amizade com Luís da Câmara Cascudo, com o poeta Joaquim Cardoso, Souza Barros, Gouveia de Barros entre outros. Em 1921 casou-se com Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, mas o casamento durou pouco. Em seguida passou a participar do Movimento Modernista e publicou seu primeiro poema modernista intitulado Lusco-Fusco. Em 1927, incentivado por Manuel Bandeira, publicou seu primeiro livro: Catimbó. O livro foi um sucesso de público e crítica e logo saiu uma segunda edição, com lançamentos no Rio de Janeiro e São Paulo. Seus poemas ficam melhor quando recitados , o que ele fazia muito bem. Em São Paulo, deu um recital no Teatro de Brinquedos, sendo muito aplaudido, e fez amizade com vários intelectuais e artistas: Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Alvaro Moreira, Oswald de Andrade, Olívia Penteado, Afonso Arinos, Tarsila do Amaral.

Por essa época passou boa parte de seu tempo viajando pelo Brasil dando recitais. Numa dessas viagens, conheceu e tornou-se amigo do poeta chileno Pablo Neruda, que participava do Congresso de Escritores, em Goiás. Em 1939 publicou o segundo livro Cana caiana, com as ilustrações de Lula Cardoso Ayres. Nessa época, tornara a viajar para o Rio de Janeiro, onde conheceu Cândido Portinari, Sérgio Milliet, Osvaldo Costa, entre outras personalidades. No início da década de 1940, se aposentou como diretor da Receita do Tesouro do Estado de Pernambuco e veio a se apaixonar por uma jovem adolescente – Maria de Lourdes Medeiros – indo viver em sua companhia. Com ela teve uma filha, que passou a ser a grande preocupação de sua vida. Temia morrer antes de poder cria-la.

Em seguida preparou a edição de outro livro – Poemas e xenhehém -, que só pode ser lançado em 1951, incorporado à edição de Poemas, que foi o primeiro livro surgido no Brasil apresentando um disco de poesias recitadas pelo seu autor. Nesta edição foi incluído o poema O trem de Alagoas, musicado por Villa-Lobos. Em 1955 tomou gosta pela política e passou a trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência. Uma vez eleito, JK nomeou-o para dirigir o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Mas a nomeação logo foi cancelada devido a pressão de um grupo de intelectuais que não aceitaram no cargo um poeta irreverente com fama de boêmio. Deve ter pesado também no caso, o fato de ele não ser acadêmico. Mesmo assim, conseguiu ser nomeado assessor do Ministério da Educação e Cultura, onde passava todo mês para pegar o salário.

Em 1956 assinou um contrato com a prestigiada editora José Olympio, para uma nova edição de seus poemas. Pouco depois lançou um álbum duplo de discos com suas obras completas: 64 poemas escolhidos e 3 historietas populares, com apresentação de seu amigo Câmara Cascudo. Em 1963, a Editora José Olympio lançou Catimbó e outros poemas, seu último livro. A figura de Ascenso contribuía com o tipo brincalhão e amigo de todos. Gordo com quase dois metros de altura, vozeirão, chapéu de palha, suspensório e fumando um grande charuto, animava as rodas de amigos ou plateias. Manuel Bandeira descrevia-o assim: “Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama […] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos”. Luís da Câmara Cascudo também fez um retrato semelhante: “Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados”.

Tendo em vista o pouco conhecimento que temos do poeta, vale a pena colocarmos algumas opiniões relevantes sobre sua obra. Mario de Andrade: “Em numerosas passagens de ‘Cana caiana’ é tamanho o equilíbrio e a verdade da expressão lírica e formal, que se tem o sentimento muito firme da perfeição clássica”. Tristão de Athayde: “…um livro profundamente típico do Nordeste, de poemas do campo e do povo, que reflete a feição nativa, bárbara e localista do nosso modernismo: ‘Catimbó’ do sr. Ascenso Ferreira”. José Lins do Rego: “A poesia de ‘Catimbó’ a gente lê sempre e tem sempre vontade de ler outra vez. É uma poesia de verdade mais para o ouvido do que para os olhos. Daí o sr. Medeiros de Albuquerque, que é um homem surdo, não a perceber”. José Condé: “Ascenso Ferreira, incomparável como sempre, vate dos carrascais sertanejos, cantor dos engenhos e dos pastoris nordestinos, dos bêbados de feira, do trem de Alagoas e das velhas ruas do Recife”.

Numa avaliação crítica de sua obra, verifica-se ele iniciou a carreira com modelos poéticos tradicionais, compondo sonetos, baladas e madrigais. Só depois da Semana de Arte Moderna e sob a influência de Mario de Andrade, Joaquim Cardoso e Câmara Cascudo entre outros, é que sua poesia retorna aos temas regionais ligados aos engenhos, vaqueiros, cangaceiros, cegos violeiros, folguedos e das lendas populares. Além disso, a adesão ao modernismo implica também numa incorporação de recursos modernistas, como o aproveitamento poético da linguagem popular e o humor. Tal como Mario de Andrade em Macunaíma, ele gostava de ironizar a ética do trabalho numa referência a “preguiça inata” dos brasileiros: “Hora de comer – comer! / Hora de dormir – dormir! / Hora de vadiar – vadiar! / Hora de trabalhar? / – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!“. Acrescente-se aqui o aguçado senso de ritmo nos versos dedicados ao trem de Alagoas, quando passava por Catende e musicados por Alceu Valença: “Vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende / com vontade de chegar […]“. Mário de Andrade chegou a dizer que seu compromisso entre fala e musicalidade era tanto que “mais sistematização sonora seria diretamente música”.

Em 5 de maio de 1965, faltando apenas quatro dias para completar 70 anos de idade, o poeta faleceu no Hospital Centenário, no Recife. Em sua homenagem e agradecimento, a Prefeitura ergueu seu busto na Rua Apolo, local onde ele gostava de vadear e perambular.

No pedestal do busto foram gravados um de seus versos preferidos:

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife, que atrás do arruado
deserto ficou,
criança , de novo,
eu sinto que sou

0 Comentários

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa