Osman Lins (1924-1978)

Osman da Costa Lins nasceu em Vitória de Santo Antão, em 05/071924. Escritor, poeta, ensaísta e dramaturgo. Perdeu a mãe aos 16 dias, em decorrência de um parto complicado. Como ela não deixou fotografia, ele passou a vida procurando construir o rosto inexistente. “Isso configura a minha vida como escritor, pois parece que o trabalho do escritor, metaforicamente, seria construir com a imaginação um rosto que não existe. Isso talvez tenha me conduzido a suprir de algum modo, através da imaginação, essa ausência.” Assim, a fotografia constitui-se num fator que aparece em vários momentos de sua obra.

Foi criado pela avó e, principalmente, pela tia casada com Antônio Figueiredo, caixeiro-viajante, de quem o menino ouvia narrações de suas viagens, e que despertou-lhe o gosto de narrar e o fez escritor. “Foi ele o meu primeiro livro, meu iniciador na arte de narrar, assim como Totônia foi a primeira influência literária de José Lins do Rego. Com a diferença de que as suas histórias não falavam de princesas ou dos Doze pares de França. Mas dos homens que conhecia e do chão onde pisava. Foi a ele, e não a um escritor, que procurei imitar, quando – tateando o meu destino e dando o passo inicial no que viria a ser, mais tarde o projeto central da minha vida – esbocei as primeiras narrativas.”

Sua ligação com o pai, Teófanes da Costa Lima, alfaiate se dá de modo mais distante, porém não menos afetiva. Mais tarde publicará crônicas dedicadas ao dia do alfaiate e fará algumas reflexões sobre as relações entre o trabalho do escritor e do artesão: “Creio, assim, que o Dia do Alfaiate desaparecerá em breve do nosso calendário de comemorações. Desaparecem, com as alfaiatarias, oficiais como meu pai, que mantinham com as medidas e os riscos uma intimidade cheia de nobreza. É, com isto, a razão de ser da homenagem, já que os novos tempos mostram-se desdenhosos para com os oficiais delicados, cujo sentido não está em produzir muito e sim em produzir serenamente”.

Realizou os primeiros estudos no Colégio Santo Antão (1932-35) e no Ginásio de Vitória (1936-40). Aí teve como professor José Aragão, uma espécie de tutor de quem herdou o sentido da disciplina e discernimento na ordenação narrativa. Em 1941, mudou-se para Recife, onde passou a trabalhar como escriturário na secretaria de um Ginásio. Por essa época surge seu primeiro texto publicado no suplemento literário de um jornal do Recife: Menino mau e Fantasmas. Em 1943, passou no concurso para trabalhar no Banco do Brasil e deixou a literatura em repouso. No ano seguinte entrou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife.

Ao mesmo tempo em que estuda Economia, passou a escrever um romance por mais de dois anos. Concluiu-o mas não publicou; foi mais um exercício de escrita criativa exercido com apurado senso crítico. Em 1947 casou-se com Maria do Carmo, torna-se pai de três filhos e passa a escrever com regularidade nas horas vagas. Começou com contos, apresenta-os em concursos e obtém algumas premiações. Em 1951 intensifica a atividade literária fazendo parte do corpo de redação da revista “Memorandum”, da Associação Atlética do Banco do Brasil e colaborador do Suplemento Literário do Diário de Pernambuco. Participou, também, da produção e direção de programas radiofônicos culturais, na Rádio Jornal do Commércio, em Recife.

Por essa época vai se definindo o artesão da palavra, tendo seus livros premiados e aclamados pelo público: O visitante, lançado em 1955, recebeu o prêmio “Fábio Prado” e Os gestos, lançado em 1957, agraciado com o prêmio “Monteiro Lobato”, ambos em São Paulo. Neste mesmo ano publicou a peça teatral O vale sem sol, com a qual obtém destaque especial no concurso da Companhia Tônia-Celi-Autran. Com os contatos mantidos em São Paulo, passou a colaborar com críticas para o jornal “O Estado de São Paulo”. Em 1960, concluiu o curso de Dramaturgia na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, tendo como professores Joel Pontes e Hermilo Borba Filho, que veio a se tornar seu amigo.

Suas viagens ao Rio de Janeiro e São Paulo se intensificam, e tornam o escritor mais conhecido em âmbito nacional. Em 1961, ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa, passou seis meses em Paris. Enquanto isso, no Rio de Janeiro estreia sua peça Lisbela e o prisioneiro, recebendo o prêmio Concurso Cia. Tônia-Celi-Autran. No mesmo ano é publicado o romance O fiel e a pedra, premiado pela UBE-União Brasileira de Escritores. Sobre este romance, ele diz seu lançamento corresponde a uma “plataforma de chegada de saída”, encerrando uma fase de sua ficção em termos tradicionais.

Em seguida e em função de seu projeto literário, muda-se para São Paulo. Observa-se a concretização de um processo que já vinha se desenvolvendo internamente com grandes repercussões na sua vida familiar e na sua escrita. Dois anos após, concretiza-se a separação de sua esposa, que retorna ao Recife junto com as filhas. A partir de agora terá que trabalhar mais para manter a família distante. Lançou Marinheiro de primeira viagem, e passou a publicar contos nas revistas “Cláudia”, “Senhor” e “Vogue”, antecipando futuros capítulos de romances. Sua peça é encenada no Teatro Bela Vista.

O ano de 1964, dominado pela agitação política, é pródigo de acontecimentos: engajou-se na defesa da dramaturgia brasileira com artigos polêmicos na imprensa; sua peça premiada Lisbela e o prisioneiro é publicada em livro; sua fama de intelectual e militante cultural se estabelece; casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. Em 1966, publica Nove novena e dá inicio a outra fase de sua ficção: uma construção estrutural rigorosa, em que se aliam precisão e fantasia, prosa e poesia, reflexão e estória. Tais inovações poéticas atraem o olhar da crítica, que ressaltou sua dimensão política sem fazer concessões à literatura engajada. Ainda em 1966, é publicado, no Recife, seu livro de ensaios Um mundo estagnado. Em 1967, passou a publicar regularmente no jornal “A Gazeta”, de São Paulo.

Em 1969 lançou Guerra sem testemunha: o escritor, sua condição e a realidade social, um ensaio onde faz uma reflexão sobre o ofício do escritor. No ano seguinte, aposentou-se do Banco do Brasil e passou a dar aulas de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília. Ao mesmo tempo em que leciona, realiza o curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo e começa a escrever seu romance mais conhecido e enigmático: Avalovara. Em 1973 defendeu seu doutoramento, com a tese Lima Barreto e o espaço romanesco, que será publicada em 1975. Desiludido com o ensino e o desinteresse dos professores e alunos pela literatura, afastou-se do ambiente universitário e passou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Desde então, passou a colaborar com mais frequência com o Suplemento Literário d’ O Estado de São Paulo e escrever roteiros para a televisão.

Em 1975 deu-se o lançamento de Avalovara, seu livro mais importante, um romance que propõe um complexo jogo de leitura, cuja narrativa é uma obra de engenharia, construída a partir de um palíndromo dentro de uma espiral onde vão sendo desenvolvidos todos os capítulos do livro. O livro é o ponto de chegada de suas inovações narrativas, causando certo alvoroço no meio da crítica literária e certa estranheza no público. Tais experimentos literários são compartilhados com sua esposa, também escritora, com quem escreveu a quatro mãos o livro La Paz existe? a partir de uma viagem que fizeram ao Peru e Bolívia.

Em 1977 e no ano seguinte são publicados vários trabalhos na área do romance, do teatro, do ensaio, roteiros, casos especiais para a TV e até livro infantil (O diabo na noite de Natal). Tais atividades não o desviam da preparação do seu próximo romance: Uma cabeça levada em triunfo. Mas não pode concluí-lo. Surgem os sintomas de um câncer decorrente de um melanoma tardiamente diagnosticado, vindo a falecer aos 54 anos, em 08/07/1978. Foi um escritor “aberto à experimentação, afeito aos vôos e riscos, avesso à repetição dos caminhos conhecidos”. Em 2013, sua filha Angela Lins, junto com outros apreciadores de sua obra, criou o Instituto Cultural Osman Lins, no Recife, com a missão de resgatar a memória, conservar o acervo, criar um espaço para eventos, conceder bolsas de estudos, reeditar os livros e divulgar a obra do escritor.

Concluindo, vale repetir sua última declaração, publicada no Jornal do Comércio, de 16/07/1978: “Como diz T.S. Eliot num de seus poemas, ‘Para nós há somente tentativa. O resto não é de nossa conta.’ Desde a minha estreia com O Visitante, até a publicação, agora, de A Rainha dos Cárceres da Grécia, venho dando o melhor de mim mesmo à literatura, procurando realizar uma obra tão alta quanto permitam as minhas forças. Isto é o que posso fazer e o que tenho feito. Só posso ter certeza, portanto, de que a minha é uma contribuição séria. Quanto á sua importância, dentro do romance brasileiro, não me compete julgar. Mais: a qualidade da obra ‘não é da nossa conta’. Só podemos fazê-la bem: mas fazê-la bem não decorre de uma intenção, de um ato da nossa vontade. (baseado no site do autor: Osman Lins 

2 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Você, a cada dia nos apresenta motivos de orgulho de ser pernambucano.

    Trabalhei com Osman, editei algumas crônicas dele, grande amigo.

    Manso que só um cordeiro.

    Ali tinha muito gás literário, viu.

    Há, num Museu de Vitória, uma grande homenagem a ele. Vale visitar.

  2. Brito disse:

    Grato Carlão, pelo estímulo. Aguarde na próxima 3ª feira, mais um ilustre pernambucano: Lula Cardoso Ayres

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