Lula Cardoso Ayres

Luiz Gonzaga Cardoso Ayres nasceu em Rio Formoso, em 26/09/1910. Pintor, desenhista, ilustrador, cenógrafo, fotógrafo, programador visual e professor. Seu talento artístico surgiu na infância e foi incentivado pelo pai João Cardoso Ayres, um dos donos da Usina Cucaú e mais tarde (1930), junto com outros acionistas paulistas, da Companhia União dos Refinadores. Era conhecido na região como o “Rei do Acúcar”. Aos 12 anos estudou desenho e pintura com o artista alemão Heinrich Moser, cujo aprendizado foi fundamental em sua carreira.

“Considero muito importante tudo que aprendi, não como aluno, mas como ajudante do mestre Moser. Ele nos ensinava desde como se deve lavar um pincel, principal instrumento de trabalho do pintor, até as técnicas de pintura. Dizia-me sempre não entender um pintor de uma só técnica – o óleo, a aquarela, o guache ou o bico de pena. Mandava-nos fazer tudo, até pintar em vidro, retocar vitrais que então fazia. Esse meu período junto a Moser foi de 1922 até fins de 1924.”

Em 1925 foi morar em Paris, onde tomou contato com o movimento “Art déco” na Exposição Internacional de Artes Decorativas. Este movimento modificou radicalmente os rumos das artes decorativas e influenciou. Em 1930 retornou ao Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro. Frequentou, como aluno ouvinte, a Escola Nacional de Belas Artes, tendo como professores Rodolfo Amoedo e Carlos Chamberlland, que exerceram grande influência em sua obra. Pouco depois, conheceu Cândido Portinari, de quem se tornou amigo e discípulo. Abriu um ateliê no Bairro Laranjeiras e passou a exercer a veia artística em termos profissionais.

Por essa época, passou a se interessar, também, por cenários para teatro. Trabalhou na companhia de Procópio Ferreira, que lhe deu carta branca para suas criações. Em fins de 1932, com a crise do açúcar, voltou ao Recife a pedido do pai, para ajudar na administração da usina. Não se deu bem nessa atividade e passou a pesquisar a realidade regional, a fazer documentação fotográfica verificando tipos, cenas, costumes e incorporando a fotografia ao seu trabalho de desenho e pintura. Tal vivência lhe possibilitou uma estreita ligação com os temas locais No ano seguinte, já entrosado com os artistas do Recife, como Cícero Dias, passou a realizar exposições e agitar a vida cultural do Recife. Em 1934, participou da exposição de pintura do Congresso Afro Brasileiro, organizado por Gilberto Freyre, com quem fez amizade e recebeu influências “Realmente a obra dele, naquele tempo, abriu-me uma porta que ainda estava fechada, chamando a atenção para as coisas que estavam mais perto da gente. Para o conteúdo social…

Suas exposições individuais e coletivas se expandem para outras capitais do país e no exterior. Porém, em 1945 passou por alguns perrengues financeiros, e retornou ao Recife. Executou cerca de 100 painéis e murais em várias cidades; fez ilustrações para livros; fundou um curso de desenho para crianças e foi professor na Escola de Belas Artes da UFPE. A partir de 1950 sua produção volta-se para o abstracionismo, porém sem abrir mão da figuração. Tal mudança se dá com a participação nas primeiras Bienais de São Paulo, demonstrada nas telas Ex-Votos e Três Ex-Votos, que são exemplos da solução encontrada nessa fase, que trabalha sobre a figura para chegar a uma síntese.

Na década de 1960 seu nome é reconhecido em âmbito nacional com a amostra retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo, organizada por Pietro Maria Bardi. Seus trabalhos incorporam o figurativismo e o abstracionismo. Figuras do carnaval recifense, do frevo, maracatu, bumba meu boi e cortadores de cana são recorrentes em suas pinturas. Para Gilberto Freyre, “O que ele desejava era impregnar-se de povo, de região, de tradição… Nenhum pintor brasileiro de qualquer época, dentre os maiores, que tenha sido ou seja ao mesmo tempo tão moderno e tão da sua terra; tão da sua gente; e, ainda, tão sobrecarregado do que há de misterioso, de irracional, de espiritual na vida, no passado, nos sofrimentos, nas alegrias, nas esperanças, nas ansiedades dessa sua gente”.

Em 1978 sua obra é analisada no livro Lula Cardoso Ayres: Revisăo Crítica e Atualidadedo crítico de arte Clarival do Prado Valladares. Suas obras são expostas nos grandes museus do mundo. Em 1984, foi convidado pelo Metrô do Recife para pintar murais em suas estações, que se constituem em suas últimas obras. Faleceu no Recife, em 30/06/1987. Em 1993 foi criado o Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão dos Guararapes. Trata-se do único museu privado brasileiro dedicado a um único artista plástico. Seu acervo é constituído por mais 300 trabalhos entre pinturas, fotografias, ilustrações, trabalhos gráficos, e mais de 50 projetos de suas cenografias, painéis e murais.

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