Hermilo Borba Filho (1917-1976)

Hermilo Borba Filho nasceu em Palmares, em 8/7/1917. Advogado, escritor, crítico literário, jornalista, tradutor, dramaturgo e fundador do TPN-Teatro Popular do Nordeste. Sua carreira iniciou em 1930 como ator, ponto e diretor na Sociedade de Cultura Palmarense. “Em toda a minha vida quis ser dramaturgo. Mesmo aos 16, 17 anos, escrevi uma peças que eram umas porcarias.”, declarou. Em 1936, mudou-se para o Recife e passou a trabalhar como ponto do Grupo Gente Nossa. Como escritor, teve seu primeiro conto publicado na revista “Renovação”, em 1941. O título do conto – As pernas daquela moça – anunciava o surgimento de um escritor com uma pegada erótica bastante pronunciada. Pensou em ser médico, mas abandonou o curso no 3º ano. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1946, diplomou-se em 1950 e nunca exerceu a profissão de advogado.

Enquanto estudante de Direito, fundou com seu amigo Ariano Suassuna, o TEP-Teatro do Estudante de Pernambuco, em 1946. Ariano deixou um registro desse encontro: “Encontramo-nos, pela primeira vez, quando entramos ambos para a Faculdade de Direito, no ano de 1946. Ali teria início, sob a liderança dele, o importante movimento do Teatro do Estudante de Pernambuco. Nós íamos para a faculdade pela manhã, mas a universidade onde realmente se fazia a nossa verdadeira formação era a casa de Hermilo, na Rua do Capim, casa onde, à noite, nos reuníamos até altas horas, conversando, concordando e discordando, brigando e ensinando. Hermilo, que acreditava demais em mim, metia-me na mão, quase à força, os livros que achava que ajudariam na minha caminhada. Foi ele quem praticamente me intimou a escrever a primeira peça de teatro”.

No ano seguinte iniciou a coluna “Fora de Cena”, no jornal “Folha da Manhã”, do Recife. A partir de 1953 passou a viver em São Paulo, onde fez doublé de jornalista e dramaturgo. Como bom jornalista, atuou como diretor da revista “Visão” e trabalho nos jornais “Última Hora’ e “Correio Paulistano”. No teatro, dirigiu as companhias de Nídia Lícia, Sergio Cardoso, Teatro Paulistano de Comédia e integrou a Comissão Estadual de Teatro. Em 1957, encenou a peça Auto da Compadecida, com a qual recebe o prêmio de Diretor revelação da APCT-Associação Paulista de Críticos Teatrais.

De volta ao Recife, em 1958, foi integrar o corpo docente do curso de teatro da Universidade do Recife (atual UFPE). No mesmo ano fundou, junto com Paulo Freire, o “MCP-Movimento de Cultura Popular. Em 1960, Junto com seu amigo Ariano Suassuna, funda o TPN, afim de abrir caminho para o “teatro de arte” em caráter profissional na região. O objetivo é encontrar uma maneira nordestina de interpretar e de encenar, pautado pela qualidade artística e divulgar uma estética épica, baseada em folguedos populares. Junto com Hermilo e Suassuna, encontram-se outros ex-integrantes do TEP: Gastão de Holanda, José de Moraes Pinho e Capiba. No mesmo ano fundou, também, o Teatro de Arena do Recife, onde encena peças de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, dois expoentes do Teatro Oficina, de São Paulo.

Sua ligação, já de longa data, com a colega Leda leva-o a romper seu casamento com Débora em 1969 e casar-se com a atriz Leda Alves. O casal passa a ter uma intensa vida cultural, levando-o a uma liderança natural no métier das artes cênicas. Tal liderança teve como consequência a ocupação de diversas funções públicas no Recife. Seu trabalho como agitador cultural lhe valeu diversos prêmios e condecorações, como o título de “Chevalier des Arts e des Lettres”, concedido pelo governo francês, em 1969, entregue em 1972 por André Malraux.

Exerceu atividades culturais em muitas entidades: Serviço Nacional de Teatro, Secretaria de Educação e Cultura de São Paulo, Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco, Escolinha de Arte do Recife, Centro Cultural Luiz Freire. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, colabora para a implantação do Curso de Teatro, em 1967; na Universidade Federal da Paraíba, ministra a disciplina de história do espetáculo; no Centro de Comunicação Social do Nordeste-Cecosne, leciona história do espetáculo. Em 1969, criou o “Teatroneco”, dedicado ao teatro de bonecos. Seu amigo Osman Lins, de quem ele encena uma peça no TPN, afirmou que “em todos os cargos e funções que ocupa Hermilo Borba Filho luta pela transformação: Há por trás de quase todos esses títulos e iniciativas um combate que passa desapercebido do público: as incompatibilidades com as funções ou o empenho no sentido de renová-las”.

Em conferências, artigos e nos diversos livros que publicou, relê as teorias universais do teatro a partir da ótica das manifestações festivas do Nordeste. Depois de duas palestras publicadas em 1947, Teatro, Arte do Povo e Reflexões sobre a Mise en scène, escreve o primeiro manual de história do teatro editado no Brasil, História do Teatro, em 1950. Na década de 1960, publicou: Teoria e Prática do Teatro (1960), Diálogo do Encenador (1964), Espetáculos Populares do Nordeste e Fisionomia e Espírito do Mamulengo (1966), Apresentação do Bumba-Meu-Boi (1967), e a nova edição da História do Teatro, com o título de História do Espetáculo (1968). Na dramaturgia, deixou publicada diversas peças: Electra no circo (1944), João sem terra (1947), A barca de ouro (1949), Auto da mula-de-padre (1953), Um Paroquiano Inevitável (1965). Não chegou a ver a encenação de duas de suas peças: A Donzela Joana (1966) e Sobrados e Mocambos (1972), uma peça segundo sugestões de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor.

Na literatura escreveu Os caminhos da solidão (1957), Sol das almas (1964) e a tetralogia que o consagrou, também, como romancista, Um cavaleiro da segunda decadência: Margem das lembranças (1966), A porteira do mundo (1967), O cavalo da noite (1968) e Deus no pasto (1972). Trata-se de uma obra de forte cunho memorialístico e autobiográfico, que o fazem ser comparado, em sua escrita, ao dramaturgo norte-americano Henry Miller, autor, aliás, a quem ele dedicou um ensaio biográfico. Toda sua obra encontra-se na Biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco. Trata-se de uma bibliografia contando com 245 itens entre obras próprias e obras sobre o autor, entre os quais os livros póstumos: Palmares e o coração (1997) e Louvações, encantamentos e outras crônicas (2000). Faleceu em 2/6/1976.

Em sua homenagem, foi instituída, em 1983, pela Prefeitura dos Palmares, a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho; em 1988 foi criado pela Prefeitura da Cidade do Recife, o Centro de Formação das Artes Cênicas APOLO-HERMILO, formado pelo Teatro Hermilo Borba Filho e Teatro Apolo; em 2007, foram reeditadas 12 de suas peças, a Coleção Selecionado, pela FUNARTE-Fundação Nacional da Arte. Foi um dos grandes pesquisadores e propagadores da cultura popular nordestina.

2 Comentários

  1. Quincas disse:

    Formei-me em teatro lendo “Diálogo do Encenador”

  2. José Paulo Weide disse:

    Sensacional. Tantas boas mentes no Brasil, pena que hoje a maioria de tal potencial sejam cooptados pelos zisquerdóides, como nos prova o Ceguinho Teimoso…

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa