Manezinho Araújo (1910-1993)

Manuel Pereira de Araújo nasceu no Cabo de Santo Agostinho, em 27/09/1910. Cantor, compositor, jornalista e pintor. De origem humilde, passou a infância no bairro de Casa Amarela, no Recife, onde concluiu os primeiros estudos. Na adolescência conheceu Minona Carneiro, grande cantador de emboladas, seu incentivador, através do qual tomou gosto pelo gênero e veio a se tornar um dos maiores intérpretes da embolada. Trata-se uma forma musical do nordestino, cuja origem remonta à literatura de cordel. De forma bem humorada, o embolador discorre sobre pessoas ou fatos cantando vantagens como se fosse um cronista.

Ingressou como soldado no exército, participando da Revolução de 1930. Quando seu pelotão chegou à Bahia, a revolta já havia acabada e sua tropa recebeu como prêmio uma viagem para o Rio de Janeiro já na condição de sargento. Decidiu ficar no Rio, passou por alguns perrengues para sobreviver e começou a cantar emboladas nos cabarés da cidade. Durou pouco essa temporada e voltou ao Recife, numa viagem de navio. Em Salvador embarcou um quarteto famoso: Carmen Miranda, Almirante, o violonista Josué de Barros e seu filho Betinho. Durante a viagem, participou de algumas rodas musicais, foi incentivado pela cantora e recebeu a promessa de Josué de Barros de lançá-lo no Rádio.

Em 1933 voltou ao Rio de Janeiro e pouco depois começou a trabalhar na Rádio Mairynk Veiga, onde assinou um contrato de exclusividade, para atuar como cantador de emboladas no programa “Casé”, comandado por Ademar Casé. Em pouco tempo, passou a viajar para apresentações em outros estados e ficou conhecido como o ”rei da embolada”. Foi o primeiro artista brasileiro a gravar jingles para importantes empresas. Foi contratado para a campanha dos sabonetes “Lifeboy”, fazia propaganda do óleo de peroba ao mesmo tempo em que compunha e se apresentava nos programas de diversas rádios.

Até a década de 1950, gravou mais de 50 discos 78 rpms e quatro LPs e teve suas composições gravadas por diversos cantores(as). Pode-se afirmar que deve-se a ele o interesse dos sulistas pelo folclore e músicas nordestinas. Além da música, participou de vários filmes e cinejornais da Atlântida, seja cantando emboladas ou contando causos. Era também um talentoso humorista. Em 1942, gravou com o cantor e compositor mineiro De Morais a valsa Minas Gerais, que se tornaria o hino popular do estado de Minas Gerais. Em 1945 gravou a música Dezessete e setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel, um de seus grandes sucessos. Com Fernando Lobo, gravou Cuma é o nome dele?, Maria roxa, Pra onde vai valente?, De jeito nenhum, coroné, Vatapá, Amô de rede, Tamanqueiro, Palmatória e Vapô de caragola; com Ismael Neto, compôs Suspiro que vai e vem; com Hervê Clodovil, compôs Rua do sol, Tem dó e A saudade é de matar. Em 1956, gravou mais um de seus grandes sucessos, a embolada Cuma é o nome dele, que serviu de prefixo para seus programas e apresentações.

Em 1957, chateado com diversos aspectos ligados ao meio artístico, entre os quais a autopromoção dos fãs clubes, decidiu “pendurar as chuteiras”, com um grande show no Tijuca Tênis Clube, com cerca de 15 mil pessoas, entre amigos e admiradores. Com o dinheiro arrecadado aproveitou sua fama de brincalhão e hospitaleiro para abrir um restaurante – Cabeça Chata – em Copacabana, onde a cozinha era comandada por sua esposa dona Lálá, e ele divertia a clientela com suas cantorias. O restaurante ficou famoso com alguns pratos, particularmente a “galinha ao molho pardo” e o “bobó de camarão”. Chegou a ser frequentado por gente famosa no âmbito nacional e internacional.

Em 1962, fechou o restaurante e mudou-se para São Paulo, onde reabriu o Cabeça Chata na Rua Augusta. Mas o empreendimento não durou muito; fechou o restaurante e passou a dedicar-se a pintura. A esposa adquiriu uma gravura inglesa para enfeitar a parede. Ele reparou bem, e disse: “Melhor do que isso, eu faço”. Dona Lalá, então, desafiou-o: “Então faça!”. Começou com aquarela e guache sem orientação alguma e dizendo-se “ceguinho em técnica”. Demonstrando algum jeito para a coisa, ganhou da esposa um conjunto de tintas a óleo e passou pintar cenas da infância, e da vida retratando cidades, paisagens, palafitas, barqueiros, pescadores etc.

Em pouco tempo passou de cantor famoso a pintor conceituado em seu estilo primitivo. Em 1963, deu-se a primeira exposição individual, em São Paulo, na Galeria Astréia e, dois anos depois, ocorre outra individual, na Galeria Capela. Publica, no Rio de Janeiro. Em 1968, sai publicado o álbum de serigrafias Meu Brasil, com apresentação de Aldemir Martins. Ao todo, realizou mais de 30 exposições, onde os quadros alcançaram boa vendagem. Alguns dos quadros se encontram em diversos museus do Brasil e no Museu Calouste Gulbenkian , em Lisboa. Segundo os críticos de arte, são três as características recorrentes em sua pintura: a presença das linhas compositivas bem definidas, traçadas com clareza; a cadência marcada, a distribuição marcada de elementos pela superfície da pintura e a escolha de temas ligados ao universo popular: a colheita, a religião, a feira, a favela.

Foi nesta condição de pintor renomado que o “rei da embolada” faleceu em São Paulo, em 23/05/1993, aos 83 anos. Em 2010, Geraldo Maia compilou alguns de seus sucessos e gravou o CD “Ladrão de purezas”, para que seu centenário não passasse em “brancas nuvens” da música. Por esta época, Inconformado com o descaso e o pouco conhecimento do compositor/pintor em sua própria terra, o jornalista José Teles passou a investigar mais sua obra e encontrou apenas um pequeno livro – Um certo Manezinho Araújo – escrito por Bernardo Alves e publicado pela Uzyna Cultural, contendo a vida, discografia e uma entrevista do compositor em 1978. Sua pesquisa resultou no livro lançado em 2013, Cuma é o nome dele? – Manezinho Araújo, o rei da embolada, pela Editora Bagaço. A biografia musical de uma das figuras mais populares do Brasil na época de ouro dos programas de rádio, no período 1930-1954.

2 Comentários

  1. CARLOS EDUARDO CARVALHO DOS SANTOS disse:

    Britão,
    Com Manezão
    Você deu
    Dentrão.
    Carlão.

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