Mata e Silva 1916-1988

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu em Garanhuns, em 28/7/1916. Fundador da Escola Iniciática de Umbanda no Brasil e mais conhecido como Mestre Yapacani. A herança colonialista fez com que os brasileiros adorassem os nomes estrangeiros, e já naquela época seu pai seu pai deu-lhe o nome do 28º presidente dos EUA. Aos 5 anos a família mudou-se para o Rio de janeiro e suas primeiras experiências pré-mediúnicas (visões) ocorreram aos 12 anos, através de visões de Entidades espirituais, sobre as quais não tinha compreensão alguma. Aos 16 anos começam as primeiras incorporações do Preto Velho denominado “Pai Cândido”.

Aos 17 anos, em 1933, passou a buscar um local para o desenvolvimento de seu dom espiritual e visitou diversos terreiros de Umbanda. Entretanto, seu guia espiritual lhe transmitia a ideia que ele teria sua própria casa de auxílio espírita. Aos 21 anos foi morar na Pavuna e montou seu primeiro Terreiro. A partir de 1954, Pai Guiné passou a direcionar sua vida mediúnica com a mensagem “Sete lágrimas de Pai Preto”, que viria a ser um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista.

Neste ano começou a escrever para o “Jornal de Umbanda” e iniciou a escrita de uma obra fundamental que viria reformular os procedimentos da Umbanda. Por essa época teve várias visões mediúnicas em que se via um Velho Payé folheando um grande livro junto a um Colegiado de Mentores Espirituais que discutiam da oportunidade do lançamento do livro. Foi decidido que o momento era chegado e, em 1956, o livro Umbanda de todos nós (A Lei revelada) foi lançado com seus próprios recursos, numa tiragem de 3.500 exemplares.

Esgotado rapidamente, teve a segunda edição lançada pela Livraria Freitas Bastos. O livro foi bem aceito por milhares de umbandistas, mas também incomodou muitos pseudo-umbandistas interessados na venda de ilusões. Durante sua vida escreveu diversas obras mediúnicas de caráter doutrinário a respeito do que ele mesmo gostava de denominar como “Umbanda Esotérica”. Seus livros expunham conceitos hermenêuticos e filosófico-científicos sobre sua religião com a natural austeridade que lhe era própria, não fazendo nenhuma reserva de juízo ao movimento Umbandista de sua época. Também era conhecido pelas suas opiniões contundentes ao método popular (e muitas vezes ignorante) de se praticar a Umbanda. Combatia com toda sua força intelectual os rituais de matança com animais, bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros, as vaidades fetichistas de dirigentes e “Pais-de-santo”, e rejeitava completamente a falta de critério e metodologia dessa massa tida como Umbandista.

Após um breve recesso diante dos ataques que sofreu, Pai Guiné assumiu a manutenção pelo peu reequlibrio astrofísico, para logo orientá-lo na escrita de mais um livro em 1957: Umbanda: sua eterna doutrina, abordando conceitos esotéricos e metafícos nunca expostos. A obra, de novo, foi bem recebida aos estudiosos e ubandistas sérios e, mais uma vez, passou desapercebida pela grande massa de umbandistas pouco afeita ao estudo. Para complementar e ampliar os conceitos expostos nesta obra, lançou pouco depois a Doutrina secreta da Umbanda, um tratado mais completo sobre esta religião.

Mesmo sendo lido e estudado pelos adeptos mais esclarecidos, seu santuário em Itacuruçá era frequentado pela gente simples e humilde, que nem sequer sabiam do renome do Velho Matta como um escritor e pensador renomado no meio umbandista. Em 1961 escreveu outra importante obra doutrinária: Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto Velho, obra mediúnica apresentando um diálogo entre um Filho-de-Fé e a Entidade espiritual que se diz Preto-velho (Pai Guiné). Esta obra apresenta uma maior facilidade de entendimento para grande parte dos umbandistas.

Em seu Santuário eram atendidas pessoas das mais longínquas regiões do Brasil. Lá, os dramas do ser humano eram tratados á Luz da Razão e da Caridade. Durante 10 anos o Velho Matta atendeu e ministrou remédios da flora local e alopatias simples que ele mesmo comprava quando ia á cidade do Rio de Janeiro. Seguindo sua tarefa missionária, escreveu sua quinta obra: Mistérios e práticas da Lei de Umbanda, que relata de forma simples e objetiva as raízes míticas da Umbanda, aprofundando-se no sincretismo dos Cultos Afro-Brasileiros. Em 1962 surge à sexta obra: Segredos da Magia da Umbanda e Quimbanda, que aborda a magia Etéreo-Física e revela de maneira simples e prática determinados rituais seletos da Magia de Umbanda. Sua sétima obra, Umbanda e o Poder da Mediunidade explica como e porque ressurgiu a Umbanda no Brasil, mostrando as verdadeiras origens da Umbanda, contendo aspectos importantíssimos e úteis ao entendimento das pessoas simples e interessadas no aprofundamento destes conhecimentos.

Atendendo a muitos pedidos dos simpatizantes e adeptos de suas obras, lançou em 1969 o livro que sintetizava e simplificava os sete anteriores. Esse livro: Umbanda do Brasil esgotou-se em seis meses. Em 1975, lançou sua última obra: Macumbas e Candomblés na Umbanda, registrando as vivências místicas e religiosas dos chamados Cultos Afro-Brasileiros, mostrando os graus consenciais dos adeptos e praticantes dos vários níveis da Umbanda Popular. Para facilitar o estudo de suas obras, ele mesmo classificou-a da seguinte maneira: 1º grau – Mistérios e práticas da Lei de Umbanda; 2º grau – Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto-Velho; 3º grau – Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda; 4º grau – Umbanda e o poder da Mediunidade; 5º e 6º graus – Umbanda de todos nós; 7º grau – Sua eterna doutrina e doutrina secreta da Umbanda. Segundo a Sagrada Corrente Astral da Umbanda, seus livros levarão mais de 50 anos para serem completamente assimilados e colocados em prática. Sua obras preparam, ajustam e apontam para a Umbanda do 3º milênio.

Segundo alguns relatos, ele era totalmente avesso ao endeusamento e a mistificação de sua pessoa. Era muito sensível e de personalidade firme. Era inteligentíssimo e tinha os sentidos muito aguçados. Mas era um profundo solitário, apesar de cercarem-no centenas de pessoas. A todos tinha uma palavra amiga e individualizada. Não tratava casos, tratava Almas, e tinha para cada pessoa uma forma de agir, segundo o seu grau de entendimento. Sua cultura era exuberante, mas sem perder a simplicidade e originalidade. De tudo falava, era atualizadíssimo nos mínimos detalhes. Discutia ciência, política, filosofia, arte, ciências sociais, com naturalidade. Em 1977 foi convidado por Rogério Sganzerla para participar do filme “Ritos Populares – Umbanda no Brasil, exibido anos depois em diversos festivais de cinema. A produção tem 18 minutos de duração e sua consecução durou 9 anos de 1977 a 1986. O documentário registra o depoimento de Matta e Silva, em passeios pelas ruas do Rio de Janeiro, onde narra sua própria trajetória e a criação da Umbanda Esotérica, alternando com cenas de transe e de rituais filmados na mata e na “Tenda de Umbanda Oriental”, em Itacuruçá. Mostra também o Mestre com suas obras na Livraria Freitas Bastos, no Rio de Janeiro.

Durante 50 anos de mediunidade, Matta e Silva nunca se curvou aos ataques dos encarnados e desencarnados do baixo astral. Sua palavra e sua pena foram armas fiéis defensoras da verdadeira Umbanda. Com elas combateu a vigarice e os vendedores do “conto do orixá”, os vaidosos mistificadores e os fanáticos que proliferam no meio umbandista. Durante 25 anos visitou mais de 600 Terreiros para poder relatar, em suas obras, o que se passava no seio do Movimento Umbandista. Trouxe à Luz a Umbanda Esotérica que, infelizmente, é praticada na atualidade por poucos Terreiros, mas que, segundo o Astral Superior, se instalará definitivamente no meio umbandista a partir deste milênio.

Seus discípulos têm dito que “se você pensa que a Umbanda de verdade é essa manifestação ruidosa da massa, que grita, baba, bebe, berra e se contorce de charutão e cigarro de palha na boca, ao som ensurdecedor dos atabaques (ótimos veículos para estimular o animismo vicioso), não leia as obras de Matta e Silva porque sua decepção será muito grande. Porém, se o grau consciencional lhe permite ver adiante e saber que a verdadeira Umbanda está acima de tudo isso, não deixe de ler seus livros. O “Velho Matta” faleceu em 17/4/1988.

2 Comentários

  1. Carlos Eduardo disse:

    Caro Brito,

    Não sei mesmo onde você vai procurar e encontrar tantos fatos históricos importantes.

    Só sendo mesmo um gênio da bibliografia fubânica.

    Um abração.

  2. J.D. Brito disse:

    Carlão

    Que nada! O velho Matta quase foi meu vizinho. Bastava eu estar lá em Garanhuns 50 anos antes

    Grato e abração

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