Francisco Brennand (1927)

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand Nasceu em Recife, em 11/6/1927. Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador e gravador. Aos 10 anos, foi morar no Rio de Janeiro e ingressou no Colégio Aldridge. No ano seguinte transferiu-se para Petrópolis e passa a ser interno no Colégio São Vicente de Paula. Em 1939, retornou ao Recife e matriculou-se no Colégio Marista, onde conclui o ginásio em 1942. Nesta escola, foi colega de Ariano Suassuna, com quem produzia um jornal literário, encarregando-se de realizar as ilustrações para seus textos e poemas. Nessa época, passou a trabalhar na Cerâmica São João, antiga propriedade da família, como aluno informal do escultor Abelardo da Hora.

Acreditava ser a cerâmica uma arte utilitária menor, e assim passou a dedicar-se mais à pintura a óleo, instruído por Alvaro Amorim e Murilo Lagreca. Em 1947, recebeu o 1º prêmio de pintura do Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco, com o quadro de uma paisagem inspirada no engenho São João, intitulada, “Segunda visão da terra”. No ano seguinte, recebeu outro 1º prêmio e uma menção honrosa por seu auto-retrato como Cardeal inquisidor, inspirado no retrato do cardeal inquisidor, Dom Fernando Nino de Guevara, de El Greco. Até o fim da década de 1940, pintou basicamente naturezas-mortas. Por essa época, Cicero Dias realiza uma exposição no Recife e, admirado com o talento do rapaz, convence seu pai a mandá-lo para Paris, para lapidar seu talento.

No final de 1948, casou-se com Deborah e, em fevereiro de 1949, o casal embrarca para Paris. Lá deparou-se com uma exposição de cerâmicas de Picasso, e descobre que muitos dos artistas da Escola de Paris haviam passado pela cerâmica: Chagall, Matisse, Braque, Gauguin e Miró. Fez cursos com André Lhote e Fernand Léger e entrou em contato com grandes pintores, que são também ceramistas, e descobriu seu meio de expressão. Por esta época, numa passagem por Barcelona, descobre Gaudi e o uso de uma técnica tradicional catalã, o “trencardis”. Em 1952, retorna ao Brasil, mas logo em seguida decidiu aprofundar-se no conhecimento das técnicas da cerâmica, iniciando estágio numa fábrica de “majólicas” em Perúgia, Itália. No estágio aprendeu a usar esmaltes cerâmicos e queimas sucessivas da peça, em várias temperaturas. Em cada fornada é aplicada uma camada de esmalte. Dando à superfície uma grande variedade de cores e texturas. Os materiais, levados à temperatura de 1400ºC, fundem-se numa espécie de rocha, dura e resistente como o quartzo.

Sua arte começa a tomar forma e, com a inauguração da fábrica de azulejos da família em 1954, cria seu seu primeiro grande painel em cerâmica. No ano seguinte, participou da III Bienal de Barcelona; em 1958, inaugurou o mural do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife e, em 1961, o mural Anchieta, no Ginásio Itanhaém, em São Paulo. Entre 1961 e 1962 realizou uma das obras mais significativas da sua carreira: Batalha dos Guararapes, para uma agência do Banco da Lavoura de Minas Gerais, no Recife. Em 1963 foi convidado pelo governador Miguel Arraes para chefiar a Casa Civil. Neste cargo convence o Governo a transformar a antiga Casa de Detenção na atual Casa de Cultura do Recife.

Em 1970, integrou o Movimento Armorial, idealizado pelo seu amigo Ariano Suassuna, e inicia a restauração da velha olaria da família, transformando-a num enorme ateliê e passa a expor painéis e esculturas, muitas delas a céu aberto no jardim central. Seu ateliê passou a ser povoado de seres fantásticos, representados em relevos, painéis, objetos cerâmicos e esculturas. Sua fama e originalidade vão se espalhando através de várias exposições nacionais e internacionais, individuais (23) e coletivas (78). Recebeu diversos prêmios, sendo o mais importante deles, o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, concedido pela OEA -Organização dos Estados Americanos, em 1993.

Esta premiação abre caminho para uma grande exposição retrospectiva de sua produção na “Staatliche Kunsthalle”, em Berlim. Em 1997, foi publicado o livro Brennand, pela editora Métron, com texto de Olívio Tavares de Araújo. No ano seguinte, é realizada outra retrospectiva “Brennand: Esculturas 1974-1998”, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand: Oficina de Mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão, em 2000.

Hoje, a Oficina Brennand é um ponto turístico importante da cidade do Recife. Um complexo arquitetônico formado por vários núcleos construtivos que ocupam cerca de 15 mil metros quadrados. Abriga mais de 2000 peças, possui um jardim cujo traçado é de Roberto Burle Marx, uma capela restaurada por Paulo Mendes da Rocha, um Templo do Sacrifício que remete ao massacre das civilizações pré-colombianas, galerias distintas dedicadas à cerâmica e à pintura, lagos, fontes e totens, formando um impressionante museu aberto. Tem até uma loja, a Bibliopolion, onde podem ser encontrados livros sobre o artista, peças cerâmicas, cartões postais, serigrafias e uma lanchonete, chamada Cantina dos Deuses. Trata-se de um santuário das artes, onde se respira modernidade, porém com 100 anos completado neste ano de 2017. O ano em que ele foi condecorado com a Medalha do Mérito Guararapes – Grã Cruz, a mais alta honraria do Estado de Pernambuco.

Ele conta como surgiu a ideia de criar este espaço: “Um belo dia, atravessando a ponte que ligava nossa outra propriedade ao lado de cá, eu encontrei essa fábrica em ruínas. Senti que era meu dever recuperá-la. À medida que eu estudava a origem dessas terras, onde se inscreve a Batalha de Guararapes, pude compreender que esse lugar deveria ser eternizado. Aqui há uma história a glorificar. Tem a dimensão do sagrado”.

Enchendo-se de coragem, foi dizer ao pai o que pretendia. “Estava com 45 anos, era imensamente jovem e absolutamente irresponsável”. Foi essa cerâmica original que garantiu os recursos para Oficina nos primeiros anos. Procurado por um grupo de jovens arquitetos que conheciam seu trabalho, ele venceu a concorrência para fornecer o revestimento do edifício-sede da então poderosa Sudene. “Eu não vendi minha alma para o Diabo. Nunca deixei de ser um artista para ser um empresário”, diz ele.

Sua cerâmica faz sucesso em edifícios de todo o País. Com o dinheiro entrando, viu que era possível manter parte das peças que produzia. Assim, os vazios que resultavam da retirada de equipamentos industriais da Oficina foram preenchidos com esculturas e murais. Ainda assim, seu santuário permaneceria secreto por muito tempo. “Onze anos depois de eu ter restaurado a fábrica, um motorista de táxi trouxe quatro turistas de São Paulo. Eles ficaram admirados. Lá fora, o taxista me abordou e disse: ‘Isso aqui parece o Egito’. Eu entendi que ele estava em busca de uma analogia para a palavra mistério. Percebi que deveria seguir trabalhando daquela mesma forma”.

Visitem o site Oficina Brennad

5 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Este comentário é notável.

    Conheço o homem. Entrevistei-o em 1958 e publiquei. Tenho essa foto e muito me orgulho.

    Você é um gigante ao realçar essas vidas que marcaram a terra pernambucana, e alguns ainda estão em plena vibração.

    Oir isto você é um Britão arretadíssimo!

  2. J.D. Brito disse:

    Carlão

    Você conhece quase todos os ilustres pernambucanos vivos e muitos dos que se foram

  3. Celso Kallarrari disse:

    Brito, bom dia! Vc, como sempre, com sua arte brilhante de resgatar nomes importantíssimos ilustres pernambucanos. Parabéns pelo texto e que bom conhecer um pouco de Brennand.

  4. Glória Bergier Dietrichkeit disse:

    Parabéns, Brito! Muito bom , como sempre, aliás!!!!! Grande abraço!!!!!

  5. Roberto disse:

    Ótima Brito. Um abraço.

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