16 outubro 2018 HORA DA POESIA

SONETO ERRANTE – Francisca Araújo

De passos quebrados o meu verso manco
Refaz os caminhos trilhados outrora,
Costura sorrisos, porém, sempre chora
Na parte mais rasa da dor que eu estanco…

E todo delírio, de mim, pulsa fora
Nas páginas cobertas por um papel branco.
O canto sentido da mágoa não tranco
Talvez por receio de ver-me em piora!

É nessa mistura de frases sortidas,
Que algumas estrofes achadas perdidas,
Acordam saudades de forma discreta…

E eu, linha cruzada nas mãos do destino,
Qual rima queixosa prossigo sem tino
Fingindo pra o mundo e amando o poeta.

15 outubro 2018 HORA DA POESIA

PROFISSÃO DE FÉ – Anibal Beça

Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.

13 outubro 2018 HORA DA POESIA

SOMENTE – Joaquim Cardozo

Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde, a água doce, o massapé proíbe.

Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites com negridão de corvo,
Antes que ao porto do céu arribe.

A lua assim só tenho essa planície…
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.

De glórias e de alturas e de universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
– Nessa várzea nasci, nasci somente.

11 outubro 2018 HORA DA POESIA

DEBAIXO DO TAMARINDO – Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

7 outubro 2018 HORA DA POESIA

SONETO DO MEMBRO MONSTRUOSO – Manuel Maria Barbosa du Bocage

Esse disforme, e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d’espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para trás:

A espada do membrudo Ferrabrás
De certo não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodais recreações
Não te hão de a rija máquina sofrer
Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vênus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.

5 outubro 2018 HORA DA POESIA

ORGULHO SERTANEJO – Constantino Cartaxo

Não é vergonha, amigo, eu ser um sertanejo…
e ter, por berço, um chão bem castigado e quente,
onde os raios do sol, sem pena, horrivelmente,
maltratam: terra, flora e tudo mais que vejo.

No entanto, no meu Eu perdura este desejo
de sempre repetir, e o faço alegremente,
sem nunca me abalar, dizendo a toda gente:
Não é vergonha, amigo, eu ser um sertanejo.

Pertenço a um povo bravo, “além de tudo, forte”,
que eleva o seu torrão, assim, cheio de orgulho,
sem dele se largar. Nem com a própria morte.

E, quando ela chegar, ou calma ou de repente,
separe o meu ser d’alma… e, sem nenhum barulho,
entregue este meu corpo a terra, de presente.

3 outubro 2018 HORA DA POESIA

RECEBI – Judas Isgorogota

Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,

A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;

E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,

Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.

2 outubro 2018 HORA DA POESIA

SONETO DA CRIAÇÃO – Vinicius de Moraes

Deus te fez numa fôrma pequenina
De uma argila bem doce e bem morena
Deu-te uns olhos minúsculos de china
Que parecem ter sempre um olhar de pena.

Banhou-te o corpo numa fonte fina
Entre os rubores de uma aurora amena
E por criar-te assim, leve e pequena
Soprou-te uma alma calma, cálida e divina.

Tão formosa te fez, tão soberana
Que dar-te aos anjos por irmã queria
Mas ao plasmar-te a carne predileta

Deus, comovido, te criara humana
E para tua justa moradia
Atirou-te nos braços do poeta.

30 setembro 2018 HORA DA POESIA

POETA – Inácio Xavier de Carvalho

Sobre o largo portal do castelo onde mora
Meu grande coração de escritor insubmisso,
Inundada na luz de um resplendor de aurora,
Há uma lira de Rei feita de ouro maciço.

Ao meu trono enfrentar, trono de ouro inteiriço,
Curvam-se as vibrações da Palavra Sonora…
– E, embora seja o aplauso obrigado e postiço,
As mãos de muitos reis batem-me palma, embora!

Um soneto ao fazer, cheio de versos lautos,
Partem do meu palácio uma porção de arautos,
Lembrando o meu poder pela voz de cem trompas!

E os vendilhões, então, do amplo templo do Metro
Fogem em debandada ao fulgor de meu cetro
Feridos pelo Estilo e embriagados de Pompas!

28 setembro 2018 HORA DA POESIA

O IRAPURU – Humberto de Campos

Dizem que o irapuru, quando desata
A voz – Orfeu do seringal tranqüilo –
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata,
Tudo se queda, comovido, a ouvi-lo:
O canoro sabiá susta a sonata,
O canário sutil cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave;
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave:

O que mais no fenômeno me espanta,
É ainda existir um pássaro no mundo
Que se fique a escutar quando outro canta!

27 setembro 2018 HORA DA POESIA

TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO – Carlos Pena Filho

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim…”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

26 setembro 2018 HORA DA POESIA

RÚSTICA – Florbela Espanca

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
– Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

25 setembro 2018 HORA DA POESIA

AQUI MORAVA UM REI – Ariano Suassuna

Aqui morava um Rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão
Pedra da sorte sobre o meu destino
Pulsava junto ao meu seu coração

Para mim, seu cantar era divino
Quando ao som da viola e do bordão
Cantava com voz rouca o desatino
O sangue o riso e as mortes do sertão

Mas mataram meu pai, desde esse dia
Eu me vi como um cego sem meu guia
Que se foi para o sol, transfigurado

Sua Efígie me queima, eu sou a presa
Ele a brasa que impele ao fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto Ensangüentado

23 setembro 2018 HORA DA POESIA

MARASMO – Maria Braga Horta

Tudo parece velho e centenário
neste deserto rude, ermo e sombrio;
as árvores, a gente, o campanário,
tudo parece tiritar de frio.

Tudo é parado e quieto. Até o rio
parece um lago. Aqui, o solitário
Álvares de Azevedo, em seu fastio,
nem escrevia à irmã, no aniversário!

Nada se faz. Nada acontece. A vida
é como a morte: um vago sentimento
de ser e de não ser, despercebida…

É triste a terra e o céu é tão tristonho,
tão fria a lua e tão soturno o vento,
que o próprio amor se cristaliza em sonho.

21 setembro 2018 HORA DA POESIA

PROCURANDO ESTRELAS – Lago Burnett

Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas… (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.

As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.

Sigo tristonho… Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.

Deixo um pouco de dor por onde passo…
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!

20 setembro 2018 HORA DA POESIA

DESTINO – Olegário Mariano

Aquela voz era intranqüila. Trago-a
No ouvido ainda ininterruptamente:
Voz de alma que sofreu, voz de vivente,
Desoladora e trêmula de mágoa.

Era o rio da Vida; a água paciente
Que, arrastando calhaus, de frágua em frágua
Ora beijava a sombra na corrente,
Ora abraçava o Sol com os braços de água.

Deus te leve, água pura e fresca!… A treva
Não te interrompa a marcha transitória,
Porque o Destino ingrato que te leva

Para o vale florido ou o amplo deserto,
É o mesmo que me arrasta o passo incerto
Para o despenhadeiro ou para a Glória.

18 setembro 2018 HORA DA POESIA

A BUNDA – Belmiro Braga

Quando ela passa todo mundo espia,
Não para a cara, que não é formosa,
Mas para a bunda, que é maravilhosa.
Em bunda, nunca vi tanta magia.

Requebra, sobe, treme e rodopia
Dentro de uma expressão maravilhosa.
Deve ser uma bunda cor-de-rosa,
Da cor do céu quando desponta o dia.

E ela sabe que sua bunda é boa.
Vai pela rua rebolando à toa,
Deixando a multidão maravilhada.

Eu a contemplo, num silêncio mudo.
Embora a cara não valesse nada,
Só aquela bunda me valia tudo.

Soneto enviado pelo colunista Pedro Malta

16 setembro 2018 HORA DA POESIA

ILUSÃO – Augusto dos Anjos

Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes mostram ser felizes!

Assim, em Tebas – a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!

Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz…

Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e ainda
Te persuades de que sou feliz!

13 setembro 2018 HORA DA POESIA

MOTIVO – Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

11 setembro 2018 HORA DA POESIA

A CRISTO NOSSO SENHOR CRUCIFICADO – Gregório de Matos (1623-1696)

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro
em cuja lei protesto de viver,
em cuja santa lei hei de morrer
animoso, constante, firme e inteiro:

neste lance, por ser o derradeiro,
pois vejo a minha vida anoitecer,
é, meu Jesus, a hora de se ver
a brandura de um pai, o manso Cordeiro.

Mui grande é o vosso amor e o meu delito:
porém pode ter fim todo o pecar,
e não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
que, por mais que pequei, neste conflito
espero em vosso amor de me salvar.

9 setembro 2018 HORA DA POESIA

VANDALISMO – Augusto dos Anjos

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

8 setembro 2018 HORA DA POESIA

CANTIGA PARA NÃO MORRER – Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

6 setembro 2018 HORA DA POESIA

CONTRASTE – Padre Antonio Tomás

Quando partimos no verdor dos anos
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás!

4 setembro 2018 HORA DA POESIA

FANATISMO – Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

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