Categoria: HORA DA POESIA

CONSELHO – Maria Braga Horta

a qualquer donzela, no velho estilo de província, em toda parte Por terdes, por amor, vestido a vossa mais bela roupa de tecido leve e irdes cantando com essa voz que adoça mais que o mel, e pisardes com esse breve mas apressado passo, e serdes moça de mui rosada tez, que se descreve como …

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EU – Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada… a dolorida… Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!… Sou …

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VANDALISMO – Augusto dos Anjos

Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas, Onde um nume de amor, em serenatas, Canta a aleluia virginal das crenças. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia …

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DIVINA MENTIRA – Judas Isgorogota

Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta E o viu cedo partir para as bandas do mar… Nunca mais que ele volte à mansão predileta, Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar… É como a água de um lago, inteiramente quieta, A alma de toda mãe que vive a meditar: O mais …

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A SOLIDÃO E SUA PORTA – Carlos Pena Filho

Quando mais nada resistir que valha a pena de viver e a dor de amar E quando nada mais interessar (nem o torpor do sono que se espalha) Quando pelo desuso da navalha A barba livremente caminhar e até Deus em silêncio se afastar deixando-te sozinho na batalha Arquitetar na sombra a despedida Deste mundo …

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O “ADEUS” DE TERESA – Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa, Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus E amamos juntos E depois na sala “Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala E ela, corando, murmurou-me: “adeus.” Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . . E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando …

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CANTIGA PARA NÃO MORRER – Ferreira Gullar

Quando você se for embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa …

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SE TU VIESSES VER-ME À TARDINHA – Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços… Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca… o eco dos teus passos… O teu riso de fonte… os teus abraços… Os teus beijos… a tua …

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RÚSTICA – Florbela Espanca

Ser a moça mais linda do povoado, Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, Ver descer sobre o ninho aconchegado A bênção do Senhor em cada filho. Um vestido de chita bem lavado, Cheirando a alfazema e a tomilho… – Com o luar matar a sede ao gado, Dar às pombas o sol num grão de …

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CASTELÃ DA TRISTEZA – Florbela Espanca

Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor… E nunca em meu castelo entrou alguém! Castelã da Tristeza, vês?… A quem? … – E o meu olhar é interrogador – Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr… Chora o silêncio… nada…ninguém vem… …

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DESTINO – Maria Braga Horta

O destino… Quem sabe o que é o destino? Será um deus, um carrasco? ou, indiferente, deixa em nós qualquer cousa de divino ou nos crucia dolorosamente? Quem sabe o que é o destino? É independente ou escravo fiel, bom ou ferino? Imutável, temível, inclemente… ou apenas um nome? O que é destino? Será destino …

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CREPÚSCULO SERTANEJO – Castro Alves

A tarde morria! Nas águas barrentas As sombras das margens deitavam-se longas; Na esguia atalaia das árvores secas Ouvia-se um triste chorar de arapongas. A tarde morria! Dos ramos, das lascas, Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos, As trevas rasteiras com o ventre por terra Saíam, quais negros, cruéis leopardos. A tarde morria! …

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INTERMEZZO – Giuseppe Ghiaroni

Um ligeiro intervalo de esperança foi a nossa escapada da rotina: cada dia uma glória repentina cada noite a euforia da mudança. Um ligeiro intervalo de esperança e eu julguei ter achado o ouro e a mina. Vi no teu rosto aquela luz divina, voltei a ser poeta e a ser criança. Foi a nossa …

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O MEU RETRATO – Olegário Mariano

Sou magro, sou comprido, sou bizarro, Tendo muito de orgulho e de altivez. Trago a pender dos lábios um cigarro, Misto de fumo turco e fumo inglês. Tenho a cara raspada e cor de barro. Sou talvez meio excêntrico, talvez. De quando em quando da memória varro A saudade de alguém que assim me fez. …

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SONETO – Cláudio Manuel da Costa

Quando cheios de gosto, e de alegria Estes campos diviso florescentes, Então me vêm as lágrimas ardentes Com mais ânsia, mais dor, mais agonia. Aquele mesmo objeto, que desvia Do humano peito as mágoas inclementes, Esse mesmo em imagens diferentes Toda a minha tristeza desafia. Se das flores a bela contextura Esmalta o campo na …

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SONETO DA FIDELIDADE – Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar …

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SONETO DO EPITÁFIO – Bocage

Lá quando em mim perder a humanidade Mais um daqueles, que não fazem falta, Verbi-gratia – o teólogo, o peralta, Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade: Não quero funeral comunidade, Que engrole “sub-venites” em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu também vos dispenso a caridade: Mas quando ferrugenta enxada idosa Sepulcro …

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LIRISMO – Maria Braga Horta

Fale um outro poeta mais austero de temas, em geral, de alto horizonte, ou imite Camões, Virgílio, Homero, buscando a inspiração em nobre fonte. Que eu não tento transpor tão longa ponte e penetrar num mundo tão severo. Como Kháyyám, Gonzaga e Anacreonte, só canto o amor, só dele a glória espero. “Ser poeta é …

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O MORCEGO – Augusto dos Anjos

Meia noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. “Vou mandar levantar outra parede…” – Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a …

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PRA ALMINHA BOA – Mário Quintana

Na minha rua há um menininho doente. Enquanto os outros partem para a escola, Junto à janela, sonhadoramente, Ele ouve o sapateiro bater sola. Ouve também o carpinteiro, em frente, Que uma canção napolitana engrola, E pouco a pouco, gradativamente, O sofrimento que ele tem se evola… Mas nesta rua há um operário triste: Não …

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