ADEUS

Basta! Se nosso amor é como o vinho amargo
que primeiro embriaga e afinal envenena,
deixa-me só! Assim prefiro, sem embargo
do muito que te quis. Não sentirias pena

de perder-me. E eu, por mim, deste torvo letargo,
nem guardarei rancor, nem desprezo. Serena
irás. E eu, vendo à frente o horizonte tão largo,
tornarei minha dor mais pura e mais amena.

Se outro amor me nascer, será como uma aurora
chuvosa, sonolenta, acanhada e sombria,
em que as frestas de sol brilharão sem ternura.

E os beijos que tiver de outros lábios, agora,
tão fugazes serão, e eivados de ironia,
como a flor que sorri sobre uma sepultura.

ORIGEM DA CHUVA

Na cúpula divina
do claro céu sereno
um garotinho urina
azul-de-metileno.

Ora, às vezes a fina
uretra do pequeno
constringe-se e, mofina,
nega o líqüido ameno.

É quando o céu se turva,
a superfície curva
zangado fecha à luz

e sobre nós despeja
a mijada sobeja
do Menino-Jesus.

SONETO DE PAIXÃO

Meu pecado, meu erro, meu delito
foi te amar. Qual se amor fora pecado!
Foi meu crime pedir, rouco, num grito,
uma nesga de luz a um céu nublado.

Louco, tenho por pena este infinito
de nada: o véu de nuvens eis rasgado,
e é com olhos atônitos que fito
um céu sem sol, sem lua do outro lado!

Céu de chumbo e silêncio, desolado,
apenas, vezes que outras, por um grito,
por um eco do inferno entrecortado.

Ah! meu sonho sem glória, meu conflito,
meu amor sem amor, meu céu nublado,
meu pecado, meu erro, meu delito!

SONETO DE REVELAÇÃO

O que sinto por ti é o mais doce tormento.
Ah, se acaso me fosse um mal, fora sem cura.
É um misto sem razão de calor e brandura,
indivisível, como o céu e o som e o vento.

O que sinto por ti é uma coisa tão pura
como nunca encontrei em nenhum sentimento.
Poderia chamar-se amor, deslumbramento,
amizade… e é bem mais: é quase uma loucura.

O que sinto por ti — vê! — nos meus olhos lavra:
não precisa de um nome, é maior que a palavra,
e é maior que o silêncio espesso em que te chamo.

Mas, pois que em nosso Caos um Fiat é preciso
que ordene o Inferno, o Purgatório e o Paraíso,
eis o Verbo, eis a Luz, eis o Universo: — Eu te amo!

PALIMPSESTO

Que mão desenha em nossa essência o esto
de virginais paixões, esse escarninho
rir do ignorado, uma aura de carinho
que do ódio horrendo anula o horrendo gesto?

e após, como quem raspa um pergaminho,
tudo lhe apaga e um novo manifesto
lhe imprime, como a um velho palimpsesto,
que abandona aos acasos do caminho?

Que verbo misterioso nos insufla
de etérea inspiração a obnóxia mufla
e nos planta no peito este suspiro?

que vamos, feitos vivos incunábulos,
enfunados da fúria dos vocábulos,
vergando ao vento as velas de papiro!

ASCENSÃO

Nossas crenças? — um tanto remendadas;
nossos sonhos? — algo desiludidos,
dirão talvez filósofos descridos,
se não disserem coisas mais pesadas.

Mas, vencidos embora, e malferidos,
creiamos e sonhemos. As estradas
da fé têm algo mais do que emboscadas,
e o amor também tem páramos floridos.

Mergulhados no mar da experiência,
vagamos de olhos cegos ao Perfeito.
Mas ascender é nossa contingência.

Aprenderemos a voar com o vento,
com este pássaro implícito no peito,
na libertada nau do pensamento!

À MARGEM DO TEMPO

As eras que passaram têm o encanto
de uma atmosfera azul de fantasia,
que aumenta os breves surtos de alegria
e apaga as rugas que fizera o pranto.

Por isto, quando os portos do passado
demandamos, na etérea nau da mente,
sentimo-nos levados, de repente,
a imprevisto e fantástico Eldorado.

O tempo inda por vir também descerra
uma encantada e deslumbrante aurora…
E apenas isto o exílio sobre a Terra

mais suportável torna, e menos duro:
a transfiguração feliz do outrora
e a esperança bendita do futuro.

NOTURNO ESTRAMBÓTICO

A manhã foi de orvalho, o dia foi de fogo,
a tarde é todo um mar de calmoso mormaço.
Há uns nimbos a pintar de tons negros o espaço.
E tudo mais parece um colorido jogo.

Ardente fruto há pouco, o sol, feito um bagaço,
vai caindo num poço ensangüentado, e logo,
antes que diga a noite o langoroso rogo,
as nuvens vão fechando o tenebroso abraço.

É noite sobre noite, uma a faiscar nos vivos
pedernais, e uma só de medos e negrumes.
Imagino o terror dos homens primitivos

sem saber para quem, na solidão sem numes,
apelar, do silêncio e das trevas cativos.
E baixo a fronte, enquanto em seus anéis lascivos

outra noite me apaga os vacilantes lumes.

SONETO DE SINGULAR AMOR

Quero-te, meu amor, como te quero;
nem pode o amor, se amor, sofrer confronto.
Toma-me assim! Sou como sou, e pronto!
É como sou que te amo, anseio, espero!

Turva é minha água, de sombrio e fero
aspecto, e é por silêncios que me conto.
Mas hei de te contar ponto por ponto
da roda em que te espero e desespero!

Toma-me assim: minerador sem lavras,
poeta de misérrimas palavras,
pintor do abismo, — o torvo, o só, o sem.

Ama-me como te amo: doidamente!
doido de amor, doido por ti somente,
— um doido qual o mundo já não tem.

SONETO DOS PÉS

Sói-se dizer dos pés das bem-amadas
que são pequenos, alvos e mimosos.
Ah! quantos, quantos versos mentirosos
tornam pés de pavões em pés de fadas!

Tu, grandes não nos tens, nem tão pequenos
(ouço o rumor festivo de teus passos)
que cansem de trazer-te até meus braços;
marfíneos também não, que são morenos.

Se mal os pinto no último quarteto,
é tão-somente, doce amiga, – juro! –
porque de todo inda os não vi descalços…

Não, não calques aos pés o mau soneto!
O sentimento que o ditou é puro,
por mais que os versos te pareçam falsos.

CANÇÃO LÚCIDA

Transformar em beleza a própria dor…
Fora glória demais! fora ventura
imerecida! Arder a criatura
na fogueira solar do Criador…

Seja, entanto, ilusão, crime, o que for,
é mais alto o que anseia, o que procura
esta alma em seu destino de loucura,
este peito em seus dédalos de amor.

Mais que tornar o pranto em flor, quisera
transfigurar do tédio a morna esfera
nesta nuvem de sonhos em que estou.

O que ousara, Senhor, o que desejo
é ser como a canção de um realejo
tocado pelo cego que não sou.

ROGO

Traz-me a noite o silêncio pela mão.
Nas dobras desse duplo manto eu vogo,
desse amargo licor é que me drogo,
perdido entre lições de nunca e não.

Sondo a razão de ser de tudo, e logo
reduplica-se a treva em profusão.
E de tudo me aflora a sem-razão
quando a angústia das cousas interrogo.

Já me embebe da noite o negro sumo,
mas à torpe mudez não me acostumo;
por isso imploro, humilde, ao Criador,

sabendo-me pequeno entre os pequenos,
que, se é lei padecer, me deixe ao menos
transformar em beleza a minha dor.

SONETO DAS MÃOS

Quando na minha a tua mão aperto,
enlouquecem-me todos os sentidos.
Na esquerda mão pendente o peito aberto
vejo-te então de anseios e gemidos.

Duas flores de pétalas esguias
aromando o vergel de teus cabelos.
Pentagramas iriais de meios-dias
luminescendo anelos e desvelos.

Langues lírios de lúcidos desmaios…
Fanam-se as minhas de seus longes maios,
no delicioso inferno de querê-las.

Mãos que sorriem sobrevoando escolhos…
No céu vertiginoso de teus olhos
as tuas mãos cintilam como estrelas!

SONETO DE CIÚME

O monstro vem de súbito e devora
meu coração, meu cérebro, minha alma.
As asas pretas no meu peito espalma,
e soa então eterna e negra a hora.

Os elfos da suspeita, a córnea palma
da angústia, os duendes do ódio, o medo agora
trincham-me o coração já morto embora.
E nem a morte o espírito me acalma.

Que fecundos abismos, que fecundas
trevas, que aparições torvas, imundas!
E unhas, bicos, tentáculos obscenos,

quando o inferno se esgarça e a razão volta,
deixam-me ainda, por medonha escolta,
o ressaibo dos trágicos venenos.

SONETO DE LOUCA ESPERANÇA

Toda a minha alegria era o teu riso,
e minha só tristeza era o teu pranto.
Tudo era claro então; hoje, entretanto,
ando entre luz e trevas indeciso.

Cravaste-me um punhal de gelo enquanto
eu te pedia um sol. Era preciso?
Sei que sabes que sofro. E, pois, o riso
fora-te agora escárnio do meu pranto.

Assim, só sou feliz quando estás triste,
o que me faz tão infeliz… Resiste
um coração em meio a tais escolhos?

Quero em teus olhos ver um sol criança!
E, contudo, só vive esta esperança
do que existe de sombra nos teus olhos…

SONETO DE DESESPERO

Te ofertei meu silêncio, meu orgulho,
mais esta aura de sonho que me veste;
de meus íntimos mares o marulho,
de meus íntimos céus o azul-celeste.

Te dei minha tristeza, meu mergulho
na lágrima detida. Leste e oeste!
Minha essência te dei —silêncio, orgulho…—
pelo mícron de amor que não disseste.

Diz-me: “Eu te amo!”, e serei grato à vida,
e um momento de paz tomará conta
de minha alma a si mesma devolvida.

Ou, se uma frase é de tão grande monta,
— uma palavra! e este martírio finda.
Mas não podes dizê-la! E eu vivo ainda…

SONETO DE TREVAS

Pulsa a morte no tálamo da vida,
insinua-se o gelo em plena frágua.
Ver a queda crescendo na subida!
o amor se confazendo em água, em mágoa!

Se tem dois pólos o bater do peito,
se tudo é núcleo já de seu contrário,
ah Nirvânica paz, Nada perfeito,
por que não vens fundir o certo ao vário?

Anulam-se, com serem, vida e morte?
Só sei que Amor sucumbe à mão mais forte
desta fúria que as fontes me subleva.

E não vem a que o inferno miserando
me anule de ir andando, andando, andando,
mudo e cego, num pântano de treva.

SONETO DAS ESTAÇÕES

Após milênios de monotonia
encontrei o país da primavera.
Era um vale de azuis e verdes, era
um regaço de sonhos que se abria.

Era minha alma, e não o olhar, quem via?
Vida ou miragem? Vida, quem me dera!
Bastava erguer a mão, e em sua esfera
flores, frutos e pássaros colhia.

Gira das estações a roda, e em breve
o ouro, o rubi, a cor torna-se em neve.
Hoje é gris a visão, conquanto linda.

Mas, se é inóspita e fria, esquivo o aspeito,
o mesmo antigo sol arde em meu peito,
e com a mesma ternura eu amo-a ainda!

SONETO DE AMOR ETERNO

Para você não buscarei, querida,
sofisticadas fórmulas modernas.
O bronze antigo, a estrofe bem polida
dizem melhor das afeições eternas.

(E eterno é o nosso amor. Maior que a vida!
sob os ásperos sóis ou sob as ternas
carícias do luar, tem por medida
o desmedido das paixões supernas.)

Para falar de amor, prefiro agora
aquela mais suave poesia
que de risos e lágrimas dizia.

E assim lhe mostro o nosso amor: eterno
e claro e triste — como um deus que chora,
mas cujo pranto abranda os sóis do Inferno.

SONETO DE DESPEDIDA

Novamente fechada está minha alma,
fugida a última ilusão dileta.
De novo a mão do gelo aqui se espalma.
Adeus! Volta ao silêncio e à sombra o poeta.

De minha alma no fundo de tua alma
fique apenas vibrando esta secreta,
inominada luz que é fúria e calma
e que aos céus e aos infernos me projeta.

De mim o puro Canto imaginado
leva contigo. Apague-se a voz rouca.
De ti não levo mais do que o sonhado…

O teu olhar no meu — volúpia louca!
Este incêndio em meus olhos derramado!
Esse gosto de estrela em tua boca!

SONETO DE AUSÊNCIA

Não estás. Mas tu és para sempre comigo,
onde minha alma for. A mente e o coração
gravaste-me de ti. Sabe! sou teu irmão
e pai e amante e esposo e confidente e amigo.

Teu olhar para mim foi-me a revelação
de um mundo que eu sonhava e em lágrimas bendigo.
Sei que sou para ti tudo quanto não digo
mas escutas em sonho… e sou tu mesma então!

Sei que ouves, a distância, o meu mudo acalanto.
Estou contigo, amor! minha alma te socorre
na tua angústia, ansiar, sufocamento… Entanto,

cada estrela de amor que nos teus olhos morre,
nesta separação, mantém-me vivo, enquanto
do olhar morto do tempo um longo pranto escorre.

SONETO DOS CABELOS

Mulher, mas com purezas de menina.
Frágil, de uma fragilidade extrema.
Faces de rosa, lábios de poema,
olhar que o sol do Espírito ilumina.

De uma outra vida ou de um país celeste
trazia-te a fragrância na minha alma.
Revejo-te na Terra. Angústia e calma,
chão e nuvens, de súbito, me deste.

Redoma de carícia e de ternura…
Se sofro, amor, é só pela tortura
de ter-não-ter o céu de teus desvelos.

Mas, feliz de que existas, vai meu sonho
adormecer e despertar, risonho,
nas noturnas manhãs de teus cabelos.

SONETO DO SONHO OCULTO

Não lhe darei aurilavradas formas,
que para tanto é pouco o meu engenho.
E perdoe ao carinho que lhe tenho,
se do soneto extravasar as normas.

Porei aqui não mais do que o patente,
sedas que a rosa expõe aos sóis do mundo.
Pois, como a flor, o oculto sol profundo
cala e retém o coração, ardente.

Ficará nestas rimas a memória
dos beijos, do noivado, da alegria…
do que há de exterior em nossa história.

Mas nestes versos pálidos não fica
o nosso sonho, sol de todo dia,
que nos alumbra e que nos multiplica.

SONETO CÓSMICO

Matriz de tudo, imperatriz serena,
núcleo da nebulosa, sol fecundo,
— mulher — és tu no teu pequeno mundo.
És a luz, que em galáxia o caos ordena.

És todo o azul, que todo me dedicas,
e és destes céus a via-láctea ardente.
E no teu seio acolhes-me a semente,
que em luas e planetas multiplicas.

Longe de ignotos, de impossíveis ninhos,
exposto à fúria, ao tédio dos caminhos,
— sem ti — sou como pássaro sem asa.

De teu microuniverso és o eixo e a norma.
E, como a luz, que, só por ser, conforma,
tua simples presença ordena a casa.


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