Categoria: ANDERSON BRAGA HORTA – SONETO ANTIGO

SONETO ESSENCIAL

Teus olhos, quando verdes, são dois mares;
azuis, dois céus de estonteante altura;
castanhos, quase-negros de cismares,
— sóis noturnos de mórbida ternura.

Teu corpo é como uma ânfora de luares,
e na essência que envolve se mistura.
Tuas mãos são estrelas. Caminhares
são pássaros em viva fioritura.

Nos tênues róseos lábios tens a urna
de que a brisa celeste se fez presa.
Nos cabelos, a langue paz noturna.

O mais belo, o mais alto em ti se apura
de quanto nos doou a natureza.
E és luz, e aroma, e canto, e graça pura.

SONETO DE LOUCURA

Amo-te de um amor tão excessivo
que nem sei te dizer que te amo, e quanto!
Um receio, uma dúvida, um quebranto
empedram-me na véspera em que vivo.

Teu olhar me é delícia e morte. Entanto,
sofro no êxtase — e, morto, sobrevivo.
Livre, chamo-te ainda, e eis-me cativo
desses teus olhos que umedece o pranto.

Quando enfim te direi? Que frase, a medo,
te contará meu pálido segredo,
a ti, que finges não saber, embora?

Hoje? nunca? amanhã? Olho-te, aflito,
o olhar em que sucumbo e ressuscito.
—Te amar é uma alegria dolorosa.

SONETO DE ROSAS

Quinze anos dados, doados,
amados, de sonho e lida,
alguns sóis, muitos cuidados,
enfim — quinze anos de vida.

Caminhos iluminados
dos filhos! — Queda? — Subida!
— Quinze séculos contados?
— Quinze minutos, querida!

Se é grande o sonho que afago
de alma aberta e lábio mudo,
escasso é o que ora te trago

nas minhas mãos carinhosas.
Mas no pouco inscrevo tudo:
— Por quinze anos, quinze rosas!

SONETO DE ALEGRIA

Para pintar o nosso amor, amiga,
prescindirei do instrumental moderno.
Que um quadro assim, de um tema assim, eterno,
fica melhor numa moldura antiga.

Vamos cantando juntos a cantiga
dos pássaros no céu. Que importa o inverno?
Fica tão longe… e é primavera. Terno
é o conchego do lar que nos abriga.

O amor é para nós um sol queimando,
um sol benigno, que, se cresta espinhos,
vai no teu ventre um fruto sazonando.

Existe o inverno?… É primavera! E vamos
inventando ternura nos caminhos
e colhendo a alegria que há nos ramos.

SONETO DE ALFA E ÔMEGA

O teu amor é todo o meu conforto,
o cais a que recolho as minhas velas,
eu — capitão de rotas caravelas,
tu — senhora da noite, enseada e porto.

E, quando irrompe o sol e, rumo ao pego,
ao abismo da vaga ondeante e amarga,
enfuna as velas o meu barco, e larga,
é teu amor o mar em que navego.

Por cinco lustros já teu sol amigo
e tua noite —de outros sóis povoada—
vêm-me dando a jornada e dando o abrigo.

Assim tens sido para mim, querida,
o ponto de partida e o de chegada,
o amor que circunscreve a minha vida.

MADRUGADA

Sonham no espaço estrelas lactescentes,
como um ante-sorriso de alvorada.
Sonhas tu, no teu leito. E eu sonho, amada,
com teus seios de luas turgescentes.

Nua e tímida aponta a madrugada
com seu colar de luzes. Vê! não sentes
o ansiar de lírios pálidos, trementes,
aos ecos de longínqua serenada?

Do extremo arfar do véu de sombras ganha
o último alento o sonho, e arde, e flutua…
Entanto as longes formas da montanha

delineiam-se além, serenamente.
E, esbatido no azul, palpita e estua
o cortejo espectral do sol nascente.

UM PURO AMOR

Busque eu num puro amor força e sustento
com que tanta paixão manter nutrida,
para tão longa noite amanhecida
bem cedo ver em canto e luzimento.

Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida,
e espere, e sonhe, e já não tenha alento:
que é do amor o primeiro mandamento
morrer de amor, por merecer-lhe a vida.

E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado,
vencido e vencedor, possa eu dizer-vos
de meu sofrido amor o fado incerto:

o inferno que sofri por merecer-vos,
tão longe o coração amargurado
quanto o quisera ter aqui bem perto.