SONETO DE AMOR ETERNO

Para você não buscarei, querida,
sofisticadas fórmulas modernas.
O bronze antigo, a estrofe bem polida
dizem melhor das afeições eternas.

(E eterno é o nosso amor. Maior que a vida!
sob os ásperos sóis ou sob as ternas
carícias do luar, tem por medida
o desmedido das paixões supernas.)

Para falar de amor, prefiro agora
aquela mais suave poesia
que de risos e lágrimas dizia.

E assim lhe mostro o nosso amor: eterno
e claro e triste — como um deus que chora,
mas cujo pranto abranda os sóis do Inferno.



SONETO DE DESPEDIDA

Novamente fechada está minha alma,
fugida a última ilusão dileta.
De novo a mão do gelo aqui se espalma.
Adeus! Volta ao silêncio e à sombra o poeta.

De minha alma no fundo de tua alma
fique apenas vibrando esta secreta,
inominada luz que é fúria e calma
e que aos céus e aos infernos me projeta.

De mim o puro Canto imaginado
leva contigo. Apague-se a voz rouca.
De ti não levo mais do que o sonhado…

O teu olhar no meu — volúpia louca!
Este incêndio em meus olhos derramado!
Esse gosto de estrela em tua boca!



SONETO DE AUSÊNCIA

Não estás. Mas tu és para sempre comigo,
onde minha alma for. A mente e o coração
gravaste-me de ti. Sabe! sou teu irmão
e pai e amante e esposo e confidente e amigo.

Teu olhar para mim foi-me a revelação
de um mundo que eu sonhava e em lágrimas bendigo.
Sei que sou para ti tudo quanto não digo
mas escutas em sonho… e sou tu mesma então!

Sei que ouves, a distância, o meu mudo acalanto.
Estou contigo, amor! minha alma te socorre
na tua angústia, ansiar, sufocamento… Entanto,

cada estrela de amor que nos teus olhos morre,
nesta separação, mantém-me vivo, enquanto
do olhar morto do tempo um longo pranto escorre.



SONETO DOS CABELOS

Mulher, mas com purezas de menina.
Frágil, de uma fragilidade extrema.
Faces de rosa, lábios de poema,
olhar que o sol do Espírito ilumina.

De uma outra vida ou de um país celeste
trazia-te a fragrância na minha alma.
Revejo-te na Terra. Angústia e calma,
chão e nuvens, de súbito, me deste.

Redoma de carícia e de ternura…
Se sofro, amor, é só pela tortura
de ter-não-ter o céu de teus desvelos.

Mas, feliz de que existas, vai meu sonho
adormecer e despertar, risonho,
nas noturnas manhãs de teus cabelos.



SONETO DO SONHO OCULTO

Não lhe darei aurilavradas formas,
que para tanto é pouco o meu engenho.
E perdoe ao carinho que lhe tenho,
se do soneto extravasar as normas.

Porei aqui não mais do que o patente,
sedas que a rosa expõe aos sóis do mundo.
Pois, como a flor, o oculto sol profundo
cala e retém o coração, ardente.

Ficará nestas rimas a memória
dos beijos, do noivado, da alegria…
do que há de exterior em nossa história.

Mas nestes versos pálidos não fica
o nosso sonho, sol de todo dia,
que nos alumbra e que nos multiplica.



SONETO CÓSMICO

Matriz de tudo, imperatriz serena,
núcleo da nebulosa, sol fecundo,
— mulher — és tu no teu pequeno mundo.
És a luz, que em galáxia o caos ordena.

És todo o azul, que todo me dedicas,
e és destes céus a via-láctea ardente.
E no teu seio acolhes-me a semente,
que em luas e planetas multiplicas.

Longe de ignotos, de impossíveis ninhos,
exposto à fúria, ao tédio dos caminhos,
— sem ti — sou como pássaro sem asa.

De teu microuniverso és o eixo e a norma.
E, como a luz, que, só por ser, conforma,
tua simples presença ordena a casa.



SONETO DOS LÁBIOS

Finos, firmes, sensuais, no entanto plenos
de espiritualidades misteriosas,
desenham-se os teus lábios como rosas
nas rosas do teu rosto almo e sereno.

Violetas ou rubis, conforme coras
ou descoras na sucessão dos dias,
são teus lábios, nas horas de alegria,
róseos, rubros, rorados — como auroras.

Se tu falas, — são zéfiros tremendo.
Se tu cantas, — enfloram-se de alados,
doces bandos de pássaros nascendo.

Vermelho céu de estrelas pequeninas…
Se os beijo, amor, são como um céu fechado
— que um sorriso, de súbito, ilumina!



SONETO DO CORPO

Teu corpo de menina
é vela ao vento e é o vento,
astro e seu firmamento,
e a noite e a luz divina.

Arquitetura fina
de luz, e brisa, e graça:
matéria tão escassa,
que tanta alma ilumina!

Ânfora em que sem jaça
a luz à luz se enlaça
num mesmo e ardente nume.

Pureza e transparência:
a urna e sua essência
serem ambas perfume!



SONETO ESSENCIAL

Teus olhos, quando verdes, são dois mares;
azuis, dois céus de estonteante altura;
castanhos, quase-negros de cismares,
— sóis noturnos de mórbida ternura.

Teu corpo é como uma ânfora de luares,
e na essência que envolve se mistura.
Tuas mãos são estrelas. Caminhares
são pássaros em viva fioritura.

Nos tênues róseos lábios tens a urna
de que a brisa celeste se fez presa.
Nos cabelos, a langue paz noturna.

O mais belo, o mais alto em ti se apura
de quanto nos doou a natureza.
E és luz, e aroma, e canto, e graça pura.



SONETO DE LOUCURA

Amo-te de um amor tão excessivo
que nem sei te dizer que te amo, e quanto!
Um receio, uma dúvida, um quebranto
empedram-me na véspera em que vivo.

Teu olhar me é delícia e morte. Entanto,
sofro no êxtase — e, morto, sobrevivo.
Livre, chamo-te ainda, e eis-me cativo
desses teus olhos que umedece o pranto.

Quando enfim te direi? Que frase, a medo,
te contará meu pálido segredo,
a ti, que finges não saber, embora?

Hoje? nunca? amanhã? Olho-te, aflito,
o olhar em que sucumbo e ressuscito.
—Te amar é uma alegria dolorosa.



SONETO DE ROSAS

Quinze anos dados, doados,
amados, de sonho e lida,
alguns sóis, muitos cuidados,
enfim — quinze anos de vida.

Caminhos iluminados
dos filhos! — Queda? — Subida!
— Quinze séculos contados?
— Quinze minutos, querida!

Se é grande o sonho que afago
de alma aberta e lábio mudo,
escasso é o que ora te trago

nas minhas mãos carinhosas.
Mas no pouco inscrevo tudo:
— Por quinze anos, quinze rosas!



SONETO DE ALEGRIA

Para pintar o nosso amor, amiga,
prescindirei do instrumental moderno.
Que um quadro assim, de um tema assim, eterno,
fica melhor numa moldura antiga.

Vamos cantando juntos a cantiga
dos pássaros no céu. Que importa o inverno?
Fica tão longe… e é primavera. Terno
é o conchego do lar que nos abriga.

O amor é para nós um sol queimando,
um sol benigno, que, se cresta espinhos,
vai no teu ventre um fruto sazonando.

Existe o inverno?… É primavera! E vamos
inventando ternura nos caminhos
e colhendo a alegria que há nos ramos.



SONETO DE ALFA E ÔMEGA

O teu amor é todo o meu conforto,
o cais a que recolho as minhas velas,
eu — capitão de rotas caravelas,
tu — senhora da noite, enseada e porto.

E, quando irrompe o sol e, rumo ao pego,
ao abismo da vaga ondeante e amarga,
enfuna as velas o meu barco, e larga,
é teu amor o mar em que navego.

Por cinco lustros já teu sol amigo
e tua noite —de outros sóis povoada—
vêm-me dando a jornada e dando o abrigo.

Assim tens sido para mim, querida,
o ponto de partida e o de chegada,
o amor que circunscreve a minha vida.



MADRUGADA

Sonham no espaço estrelas lactescentes,
como um ante-sorriso de alvorada.
Sonhas tu, no teu leito. E eu sonho, amada,
com teus seios de luas turgescentes.

Nua e tímida aponta a madrugada
com seu colar de luzes. Vê! não sentes
o ansiar de lírios pálidos, trementes,
aos ecos de longínqua serenada?

Do extremo arfar do véu de sombras ganha
o último alento o sonho, e arde, e flutua…
Entanto as longes formas da montanha

delineiam-se além, serenamente.
E, esbatido no azul, palpita e estua
o cortejo espectral do sol nascente.



UM PURO AMOR

Busque eu num puro amor força e sustento
com que tanta paixão manter nutrida,
para tão longa noite amanhecida
bem cedo ver em canto e luzimento.

Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida,
e espere, e sonhe, e já não tenha alento:
que é do amor o primeiro mandamento
morrer de amor, por merecer-lhe a vida.

E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado,
vencido e vencedor, possa eu dizer-vos
de meu sofrido amor o fado incerto:

o inferno que sofri por merecer-vos,
tão longe o coração amargurado
quanto o quisera ter aqui bem perto.