TIROU O PIJAMA PARA FANTASIAR-SE DE DEMOCRATA

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COERÊNCIA É ISSO AÍ

Tarso Genro confirma que, quando chega uma eleição, sempre escolhe o lado errado

“Se o presidente Lula, que é o maior líder popular do país, não for candidato, porque está sob ataque de um violento processo de Lawfare, eu vou te apoiar, por uma série de razões que estamos inclusive debatendo aqui”.

Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, dirigindo-se a Guilherme Boulos para avisar que, se não apoiar um criminoso condenado a 12 anos de gaiola, planeja defender a candidatura de outro ainda em liberdade.



PARA AS DEVOTAS, LADROAGEM É CRIME POLÍTICO

Uma consulta a qualquer dicionário informa que presos políticos são indivíduos encarcerados por expressarem, por palavras ou atos, sua discordância com o governante, ou os governantes, de um país sob regime autoritário. Essa espécie de prisioneiro não existe em nações democráticas. O Brasil não tem nenhum. Preso político é coisa de ditadura. Em Cuba, passam de 140.

Simples assim, certo? Errado, ao menos para cérebros em desordem. Despachadas para Havana, onde circulam no momento com o crachá de representantes do PT no encontro do Foro de São Paulo, Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff continuam vendo o mundo pelo avesso. Para pessoas normais, Lula é um caso de polícia como tantos outros. Para as devotas do ex-presidente presidiário, está engaiolado em Curitiba um preso político.

Ao contrário dos oposicionistas cubanos encarcerados por crimes de pensamento, Lula foi instalado numa cela não por chefiar um grupo de ativistas dissidentes, mas uma quadrilha — e uma quadrilha que merece um gordo verbete no Guiness: desde o Dia da Criação, nenhum esquema corrupto engoliu tanto dinheiro. A condenação a 12 anos e 1 mês de cadeia (por enquanto) foi determinada não por alguma Lei de Segurança Nacional, mas pelo Código Penal.

Afinadas com os demais dinossauros reunidos na ilha-presídio, Dilma e Gleisi negam a existência de presos políticos em Cuba. Todos aprenderam com Fidel Castro que o que há são espiões a serviço de potências estrangeiras, agentes da CIA, lacaios do imperialismo americano, gente decidida a fazer o diabo para liquidar o paraíso socialista banhado pelo Caribe.

Além de ordenar a imediata soltura do amigo brasileiro, Raul Castro exigiu num manifesto a presença de Lula nas eleições diretas para presidente. Admita-se: aos 87 anos, o ditador de pijama é um homem de boa memória. Ele ainda lembra o que é eleição direta — coisa que ocorreu em Cuba pela última vez há quase 70 anos.

Quem era criança quando ocorreu a revolução comunista não sabe a diferença entre uma urna e uma escrivaninha.



O FIASCO EM LETRAS E NÚMEROS

Um relatório do Banco Mundial ampliou a sórdida herança legada pela dupla Lula e Dilma Rousseff.

Segundo o documento, divulgado em fevereiro passado, o país vai demorar 260 anos para alcançar o nível dos países desenvolvidos em Leitura e 75 anos em Matemática.

Faz sentido.

O viveiro de 12 milhões de analfabetos elegeu em 2002 e reelegeu em 2006 uma cabeça baldia. O ex-presidente condenado a 12 anos e 1 mês de cadeia acha leitura “pior que exercício em esteira”.

Em 2010, a maioria do eleitorado instalou na Presidência um neurônio solitário e reincidiu na maluquice em 2014.

Num vídeo famoso, a ex-presidente despejada pelo impeachment revela que “13 – 7 = 4”.

Deu no que deu.

O Brasil ficou parecido com Lula em Leitura e é a cara de Dilma em Matemática.



AMANTE IMAGINOSA

Gleisi jura que o mundo inteiro exige que o Brasil liberte os bandidos e prenda os xerifes

“Se não queriam essa decisão, recorressem. Não tem Ministério Público? Recorre. Tem pra onde recorrer. Tem também plantão no STJ, no STF. Agora fazer esse convescote, essa articulação, é vergonhoso para as instituições desse país. Nós tamo sendo motivo de crítica de graça no exterior. Os juristas não entende o que tá acontecendo aqui. Instituições que não se dão o respeito. Esse Sergio Moro já cometeu barbaridades absurdas. A primeira foi levar o presidente Lula sem necessidade, gastando dinheiro da Polícia Federal”.

Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, presenteada pela Odebrecht com alguns milhões e os codinomes Amante e Coxa, jurando que o mundo inteiro quer saber por que a Justiça brasileira insiste em prender bandidos em vez de engaiolar juízes e procuradores que cumprem a lei.



A FICHA CAIU

Lindbergh reconhece que Lula pertence à mesma tribo que inclui Suzane von Richtofen, Marcola, Nem e Marcinho VP

“Quem não lembra das entrevistas de Suzane von Richtofen, Marcola, Nem, Marcinho VP? Mas Lula, preso injustamente após um processo pífio, cheio de irregularidades, sem uma única prova que justificasse sua condenação, não pode falar. O nome disso é arbítrio, é golpe!”.

Lindbergh Farias, senador do PT fluminense, no Twitter, afirmando que Lula deve receber o mesmo tratamento dispensado a quem mata pai e mãe ou chefia organizações criminosas.



SÓ NA CADEIA ELE APRENDEU A LER, ESCREVER E REZAR



JUIZ DE ARAQUE FOI DESMORALIZADO POR LAURITA VAZ



AMADOR X PROFISSIONAL

Lula informa que cobrava bem mais caro que Temer pelas estatais que distribuía entre os comparsas da base alugada

“Nenhum país será grande se não pensar grande. Nenhum país terá um futuro melhor se não construí-lo no presente. A queda de investimentos em educação e das estatais são a cara de um governo que vende o país em liquidação, sem se importar com o amanhã. #RecadoDoLula”.

Lula, no Twitter, revelando que cobrava bem mais caro que o antigo aliado Michel Temer pela distribuição das estatais brasileiras entre os deputados e senadores da base alugada que as sublocavam a empreiteiros e empresários associados aos quadrilheiros.



SERVIÇO COMPLETO

Gilmar avisa que precisa de mais 30 anos para concluir a obra de desmoralização do Supremo

“Acabo de falar em um seminário na Universidade de Londres. Aproveitei para dizer que, nos 30 anos da Constituição, nós devemos planejar os 30 anos vindouros. Após 30 anos de judicialização intensa, devemos preparar, cuidadosamente, um processo de desjudicialização”.

Gilmar Mendes, 62 anos, ameaçando continuar entrincheirado no Supremo até chegar aos 92 porque precisa de mais 30 para concluir a obra de desmoralização do Poder Judiciário.



O FILHO DE MARÍLIA É FILHOTE DE DIRCEU



LADROAGEM & PROGRESSO

Gleisi ensina que a institucionalização do assalto aos cofres públicos modernizou o Brasil

“No Brasil de Lula cabiam todos os brasileiros e ele não deixou ninguém ficar pelo caminho, combinando geração de empregos com políticas de transferência de renda que ajudaram os mais pobres. E foi assim, incluindo ao invés de excluir, que o Brasil cresceu como nunca”.

Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, garantindo que a roubalheira do maior esquema corrupto de todos os tempos fez muito bem ao Brasil.



A FICHA CAIU

Paulo Pimenta revela que até Lula entendeu que deve continuar na cadeia

“Lula pede justiça e o cumprimento da Constituição Federal”.

Paulo Pimenta, deputado federal pelo PT gaúcho, informando que até Lula entendeu que deve continuar na cadeia.



SURTO NA GAIOLA

Lula imagina que está preso na Venezuela bolivariana e pede socorro aos democratas que sempre desprezou

“Chegou a hora de todos os democratas comprometidos com a defesa do Estado Democrático de Direito repudiarem as manobras de que estou sendo vítima, de modo que prevaleça a Constituição e não os artifícios daqueles que a desrespeitam por medo das notícias da televisão“.

Lula, em carta que alguém escreveu, ele assinou e Gleisi Hoffmann leu na reunião do comando do partido que virou bando, fazendo de conta que está preso na Venezuela.



LADRÃO ESPERTO

Lula acusa “eles” de terem roubado estatais e instituições saqueadas pela quadrilha que chefiou

“A verdade é que o tempo deles está acabando. Correm para entregar o que prometeram aos patrocinadores do golpe do impeachment em 2016: nosso petróleo, nossas riquezas, as empresas dos povo, a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos”.

Lula, em artigo no Jornal do Brasil, que alguém escreveu e ele assinou, acusando a misteriosa entidade denominada “eles” de ter esvaziado os cofres das estatais empresas e instituições saqueadas pela quadrilha que chefiou.



DILMÊS DE PALANQUE

Dilma usa o verbo mais conjugado no PT para confirmar que será derrotada na disputa de uma vaga no Senado

“Eu não vou me furtar a participar de uma luta que eu julgava que não mais iria ter uma participação ativa, do ponto de vista eleitoral”.

Dilma, ao informar em dilmês de palanque que será candidata ao Senado pelo PT mineiro, confirmando que os sacerdotes e sacerdotisas da seita da missa negra não conseguem falar de eleições sem conjugarem o verbo furtar.



SIGA O MESTRE

Vanessa Grazziotin mostra que desaprendeu a escrever com Lula

“O povo qr a volta d um gov q olhe p ele, q volte a estab políticas de valorização das pessoas, política de resp às pessoas; q garanta o aumento real do salário, q garanta a abertura de postos de trab e o aumento da renda, junto c a possib d 1 moradia digna, com saúde e educação”.

Vanessa Grazziotin, senadora do PCdoB do Amazonas, no Twitter, imaginando que o povo também quer votar em parlamentares comunistas que escrevem palavrórios incompreensíveis.



DISPUTA DO PRÊMIO DE VILÃO MAIS REPULSIVO

Os desdobramentos do caso Lula dirão qual das duas hipóteses é a correta:

Primeira: Lula é inocente e foi engaiolado por motivos políticos. Nesse caso, está em curso uma gigantesca conspiração – articulada pela elite golpista, naturalmente, em parceria com a imprensa ultradireitista. A conjura reúne juízes de todas as instâncias, incontáveis integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal, empreiteiros que ganharam bilhões de dólares nos governos do PT e dezenas de antigos parceiros de Lula que resolveram trai-lo com delações premiadas repletas de acusações falsas e bandalheiras que só ocorreram na cabeça dos que se dispuseram a contar a verdade.

Segunda hipótese: Lula efetivamente fez o que as investigações da Lava Jato já provaram que fez. Nesse caso, está em curso uma farsa protagonizada por um ex-presidente corrupto, que movimenta um elenco de coadjuvantes composto por ladrões fantasiados de políticos, advogados com doutorado em chicana, comparsas fantasiados de ministros do Supremo e outras ramificações da grande família dos fora-da-lei.

O Brasil decente endossa a segunda hipótese.

Só não sabe quem é, neste momento, o mais repulsivo dos vilões em cena: Lula ou Gilmar Mendes?



DELINQUENTE INSONE

Lindbergh defende a soltura do ex-presidente corrupto por saber que ele é Lula amanhã

“Por que não julgam a ADC do presidente Lula sobre segunda instância? Eles sabem que tem uma maioria no Supremo contra a prisão em segunda instância. Sabe por que tem maioria? Porque o ministro Marco Aurélio deu uma declaração corretíssima numa tevê portuguesa dizendo que a prisão é inconstitucional. Inventaram essa coisa de prisão em segunda instância para prender Lula”.

Lindbergh Farias, senador do PT do Rio de Janeiro, responsabilizando uma misteriosa entidade chamada “eles” pela temporada que vai passar na cadeia quando a Justiça julgar as bandalheiras cometidas por Lindinho e Primo, codinomes que lhe foram presenteados pelo Departamento de Propinas da Odebrecht.



TRÊS SORVETES E UMA TAÇA

Há exatos sessenta anos, o Brasil vencia a Suécia na Copa de 1958, conquistando seu primeiro título mundial. Para comemorar aquele histórico 29 de junho, a coluna republica o texto que narra o jogo pelos olhos de um menino de oito anos.

“Você não vai ouvir o jogo do Brasil? Pensei que gostasse de futebol”, estranhou minha mãe quando avisei que estava de saída para a sorveteria do Abbud. Ela vai ouvir o jogo contra a Suécia?, também estranhei ao vê-la de pé a um metro do rádio, com a caçula no colo e querendo saber dos dois filhos sentados no sofá como era mesmo o nome do juiz. Pensei que dona Biloca não gostasse de futebol.

Eu gostava. Aos 8 anos, ia me entendendo melhor com a bola, meu pai já avisara que eu era torcedor do Palmeiras e tinha decorado antes da estréia contra a Áustria os nomes dos 22 craques da Seleção. Gostava mais de jogar futebol que de ouvir, mas vinha acompanhando as batalhas da pátria em chuteiras na Guerra da Suécia pelo rádio da minha avó, uma imigrante italiana que se juntara à torcida brasileira ao descobrir que o elenco incluía um Bellini, um Mazzola, um De Sordi e um Dino Sani. Eu sabia que o time canarinho estava fazendo bonito, que Garrincha destroçara o futebol científico da comunistada russa e que, naquele domingo, o duelo em Estocolmo não se limitaria a decidir a Copa: também seria decidido se o Brasil tinha jeito.

Pelé chora nos ombros de Gilmar, após a Seleção Brasileira vencer a Suécia por 5 a 2, e conquistar o primeiro título em Copas do Mundo – 29/06/1958

O que eu não sabia é que seriam declarados traidores da nação em perigo, e sumariamente condenados à execração perpétua, sem direito a recursos encaminhados a instâncias superiores ou apelações julgadas por tribunais internacionais, todos os brasileiros – incluídos os recém-nascidos e os mortos do mês, os índios da Amazônia e os imigrantes procedentes de remotíssimas paragens, as normalistas oferecidas e as carmelitas descalças, os inimputáveis em geral e os loucos de hospício em particular – que no dia 29 de junho de 1958 pensassem em qualquer outra coisa além da conquista da Copa. Disso eu não sabia. E gostava muito de sorvete. Acordei pensando não nos dribles de Garrincha ou num gol de Pelé, mas num sorvete de limão.

“Volto antes da metade do primeiro tempo”, comecei a explicar quando fui aparteado por um dos irmãos. “Não dá, são quinze quarteirões. Fala logo que não gosta de futebol”, provocou o inimigo íntimo. Acusei-o de ter passado na casa de um amigo a tarde do duríssimo combate contra o País de Gales. “Só que ouvindo o rádio, não tomando sorvete”, ele mandou no ângulo. “Esse moleque é meio bobo”, resumiu o pensamento geral meu irmão mais velho. Estava planejando um carrinho por trás quando meu pai entrou em casa e os dois times entraram em campo. Aproveitei a distração dos adversários, fingi que recuava para proteger a retaguarda e invadi o quarto. Precisava de uma camisa. O dia estava frio.

O inverno ia chegando ao meio, e ainda havia no sertão paulista outras estações além do verão que acabaria eternizado pelo oceano de cana que engoliu primeiro as plantações de café, depois os laranjais e enfim, quando já não restavam campos a afogar, até os casarões das fazendas, as tulhas, os canteiros, as hortas e os quintais. Vesti uma camiseta verde, sem distintivo nem número nas costas. Continuei descalço. E com aquele calção detestável que todos os menores de 10 anos usavam, feito pelas mães e tias com a amputação, milímetros acima do joelho, das pernas de alguma calça de adulto derrotada pelo tempo.

Se me tratassem com mais cortesia, talvez tivesse deixado o sorvete para depois do jogo. Sob pressão é que não fico em casa mesmo, cismei. E não vou trazer sorvete para essa gente. Nem para a avó, radicalizei no momento em que o juiz, um francês chamado Messiê Guiguê conforme berrou a voz no rádio, apitou o começo da partida e da caminhada rumo à sorveteria. E então estranhei a paisagem: não havia ninguém na rua da minha casa.

Nem na rua General Glicério nem na Marechal Deodoro, fiquei intrigado no segundo minuto de jogo e na primeira esquina. Nem em qualquer outra rua de Taquaritinga, espantei-me aos 4 minutos do primeiro tempo, quando cheguei ao cruzamento da General Glicério com a Duque de Caxias junto com o gol da Suécia marcado na calçada da casa do médico da minha família e transmitido pelo locutor, sem entusiasmo, pelo rádio do sobrado de um vereador que não gostava do meu pai.

Haviam sumido das calçadas e das varandas os quase 10 mil habitantes, e todos os carros estavam nas garagens ou estacionados na rua. O único sinal de vida era a voz do locutor. Achei aquilo muito estranho e achei mais sensato desistir. Caminhei com Didi, ambos lentamente, ele em direção do meio de campo, com a cabeça erguida, a bola na mão esquerda e tranquilizando o time, eu de volta para casa, cabisbaixo, de mãos abanando e tentando preparar-me para a capitulação humilhante que só não foi consumada porque, aos 9 minutos, Vavá empatou na frente do portão do dentista.

Todo mundo estava ouvindo o jogo, confirmou a universalização da voz poderosa que se sobrepunha ao berreiro coletivo, a mesmíssima voz agora vinda de todos os pontos cardeais, do céu e da terra, multiplicada por dezenas, centenas, milhares de aparelhos ligados na mesma estação, atravessando todas as janelas que todas as famílias haviam escancarado para que até os jardins, os pomares ou algum transeunte desavisado testemunhassem, sem perderem um único centésimo de segundo, o triunfo da Seleção incomparável. E então os ouvidos atentos como os olhos do goleiro Gilmar captaram o recado sonoro: era só seguir o caminho das casas.

Deslumbrado, compreendi que poderia tomar sorvete e ouvir o jogo, e depois desconcertar a caipirada lá em casa com o mistério da minha ubiquidade, porque nenhum parente sabia o que eu acabara de saber e não contaria nem sob tortura. Montei o novo plano com a serenidade de um Feola. O roteiro redesenhado pelas circunstâncias singularíssimas agora passaria ao largo de clubes, repartições públicas, associações, bares ou botequins, estabelecimentos comerciais, escolas – tudo que pudesse estar fechado ou desprovido de aparelhos de rádio.

Subi outra vez pela General Glicério, virei à esquerda na Duque de Caxias com a elegância sutil de Nilton Santos, arranquei rente à lateral direita como Djalma Santos, parei feito Orlando diante do adversário na esquina com a Campos Salles, virei o jogo para a direita como Zito e corri para o abraço quando Vavá desempatou debaixo da segunda janela do advogado que discursava nos comícios do meu pai.

O Brasil descia para o vestiário e eu driblava o terreno da Força e Luz para virar à esquerda na esquina da Campos Salles com a Visconde do Rio Branco. O jogo estava no intervalo quando enxerguei a fachada da sorveteria. Hoje é meu dia, avisaram as portas abertas. Além de quatro homens sentados na mesa perto do rádio, que nem me olharam, lá estava um dos donos, que ouviu o pedido sem deixar de ouvir o comentarista.

Antes de terminar o palito de limão, descobri que estava sintonizado na Cadeia Verde-Amarela, liderada pela Bandeirantes, e que o primeiro tempo fora transmitido por Pedro Luiz. Edson Leite narraria o segundo, soube no palito seguinte, outra vez de limão. Igualmente soberba, a voz menos veloz e mais grave que a outra avisou: “Estão começando os 45 minutos que decidirão a sorte do Brasil na Copa do Mundo”. Pedi uma casquinha de abacaxi, só para variar, levantei-me certo de que a Taça já era nossa e fiquei com cara de campeão no momento do golaço de Pelé ao lado da casa do tesoureiro da prefeitura, no fim do primeiro quarteirão do caminho de volta.

Zagallo encaçapou de bico perto da jabuticabeira da minha professora do jardim da infância. Nem me abalei com o segundo da Suécia, marcado em frente do casarão com fama de assombrado ─ em clamoroso impedimento, soube por Edson Leite. Resolvi ganhar alguns minutos para entrar em casa no apito final, mas nem pensei em administrar a posse de bola, isso só existiria no futuro, não naquele junho em que o negócio era jogar pra frente, ou ficar driblando meio mundo, e por isso resolvi aproveitar a falta de espectadores para reproduzir os melhores lances imaginários.

Saí pela direita como Garrincha na esquina, percebi que voltara ao ponto de partida depois da quarta arrancada, sempre pela direita, e achei mais lógico avançar sem pressa como Didi, ultrapassei o Chevrolet rabo-de-peixe do doutor Luizinho Barbosa, encobri com um chapéu o Mercury preto do prefeito, escorei a bola de cabeça junto com Pelé no portão de casa, comemorei o quinto gol com a mão na maçaneta e entrei na sala gritando “Brasil!!!”

“Chegou o único do mundo que não ouviu o jogo”, debochou o irmão mais velho. “Esse bobo não gosta de futebol”, o outro pegou-me de novo no tornozelo. Revidei com elogios à qualidade do sorvete e à voz dos dois locutores, a narração detalhada dos cinco gols da pátria em chuteiras, um sorriso de campeão do mundo e aquele brilho no olhar só concedido a quem, ouvindo o rádio, viu como jogavam os heróis de 1958.



MÁFIA DE TOGA É DESMONTADA POR BARROSO

No mundo civilizado, garantismo é um conjunto de teorias jurídicas e filosóficas que pregam a redução do direito de punir conferido ao Estado.

Nada a ver com a versão degenerada parida por Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, todos especialistas em usar a lei para impedir que se faça Justiça.

Nesta quarta-feira, a trinca foi fulminada pela frase irretocável do ministro Luís Roberto Barroso:

“Garantismo à brasileira é uma mistura de compadrio com omertà”.

Omertà é o código de honra da máfia.

Simples assim.

Com dez palavras, Barroso restabeleceu a verdade e liquidou a conversa fiada dos garantistas de cabaré.