AMOR NO TEMPO DO VELHO CHICO

Penedo cidade da pedra; penedo, rocha, rochedo. Penedo das ruas estreitas, dos casarões repletos de história. Penedo do Velho Chico, bela cidade para se viver um grande amor. Muitos amores aconteceram tendo o Rio São Francisco por testemunha, muitas histórias de amor se escondem nos seus belos casarões. Penedo, paixão, belas histórias de amor. Penedo de Mauro e Heloísa.

Mais de meio século nos separam daquele Penedo dos casarões, das famílias tradicionais. Heloísa nasceu no berço da aristocracia alagoana família secular, ainda menina chamava atenção pela beleza, pelo bom humor e inteligência. Além da Escola ela tinha aulas particulares de piano, tornou-se uma das maiores pianistas das Alagoas. Certa vez, Paschoal Carlos Magno ao ouvir Heloísa executando as Bachianas de Villa Lobo, implorou a seus para que a moça estudasse no conservatório de música na capital do país, o Rio de Janeiro. Ela não ligou a negativa do pai, Heloísa adorava sua cidade, Penedo.

Aos 16 anos encontrou um jovem falante que a sensibilizou numa festa de rua de natal, foi paixão simultânea. Acontece que o jovem Mauro, também de família tradicional, apenas com 18 anos já era um dos grandes boêmios da cidade, frequentador assíduo da zona do Camartelo, gostava do chamego com as mulheres dos cabarés. Certa noite foi recolhido à cadeia por arruaças numa boate. Vivia nos botequins e na boemia. Tinha a seu favor a simpatia e uma eloquência encantadora. Inteligente, bom aluno planejava fazer vestibular na Faculdade de Direito em Maceió. Assim como os polos antagônicos se atraem, Heloísa ficou atraída, encantada com o bonito rapaz. Os pais consentiram o namoro com muitas restrições. Formavam um belo casal. Viviam uma paixão de jovens românticos em passeios às margens do velho Chico.

Mauro fazia força para ficar sossegado, mas não resistia, à noite caía na gandaia. Na zona do Camartelo era conhecido por todas as raparigas. Certa vez virou a noite, o dia amanhecia quando ele e os amigos bêbados fizeram uma serenata no casarão da família de Heloísa. O pai pediu que ela acabasse aquele namoro, houve pressão. Ela deu mais uma chance para o namorado.

No início de fevereiro o pai de Mauro faleceu. Foi um enterro comovente, era muito querido na cidade. Quinze dias depois iniciava o animado carnaval de Penedo. Heloísa como não podia brincar devido ao falecimento do sogro, foi passar o carnaval na fazenda em Piranhas. Quando retornou na quarta-feira de cinzas, as amigas contaram tudo. Mauro não aguentou os acordes metálicos do frevo, caiu no passo durante os três dias de carnaval na rua e no clube. Heloísa no mesmo instante escreveu uma carta acabando o namoro e mandou entregar a carta a Mauro. Foi definitivo. A família de Heloísa não admitiu a falta de respeito de Mauro com o pai morto há pouco tempo e ele brincar o carnaval.

Cada qual para seu lado. Muitos anos se passaram, Heloísa casou-se com um primo em Penedo, continuou uma virtuosa pianista, quando enviuvou teve o consolo de seus 5 filhos e 8 netos. Mauro cursou a Faculdade de Direito, tornou-se um famoso advogado. Ainda hoje trabalha duro em seu escritório, também ficou viúvo com 5 filhos e 8 netos.

No início desse ano Mauro levou um amigo paulista, historiador, a Penedo. Visitou a Fundação Casa do Penedo, um museu vivo onde se respira história, sonho e invenção do Dr. Francisco Salles, um penedense amante da terra. Certa hora Mauro ouviu um piano belíssimo, ele comovido com a música ao longe perguntou de onde vinha. Alguém informou que era festa de aniversário de uma senhora muita querida, Dona Heloísa. Seu coração voltou à juventude. Pediu licença aos amigos, caminhou em direção à música suave do piano que envolvia a bela noite. Entrou no casarão como se fosse um convidado. Seu coração encheu-se de ternura ao ver Heloísa embevecida tocando seu velho piano. O tempo não foi cruel com ela, tornou-se uma linda senhora. De repente Heloísa olhou ao lado, seus olhos cruzaram com os de Mauro, reconheceu seu amor de sua juventude. Um sentimento forte tomou conta, uma alegria invadiu sua alma, inspirou-se, tocou como nunca havia tocado. Ao terminar a audição, feliz da vida foi cumprimentar seu amigo, seu amor de juventude.

Mauro e Heloísa conversaram bastante, almoçaram juntos no dia seguinte. Encontraram-se várias vezes em Maceió e Penedo. Precisou muita discussão, muita vontade e força para que vencessem a resistência dos filhos. Atualmente Mauro e Heloísa estão viajando pelo mundo. Desfrutando do grande amor, amor maduro. Venceram a resistência dos filhos e netos de ambos os lados, estão em plena lua-de-mel, às vezes recordando os velhos tempos e como era o amor no tempo do Velho Chico.

O CACHIMBO DA VOVÓ

Geraldo nasceu e criou-se no povoado da praia do Francês, um paraíso encrustado na cidade histórica de Marechal Deodoro. Ainda menino aprendeu a surfar nas ondas do mar azul. Embora houvesse uma escola, Geraldinho gostava mesmo das ondas. Seus pais insistiam nos estudos, mas, ele achava que a vida era aquele pedaço de paraíso (pensando bem ele estava certo).

Para ajudar a manter a família, ainda adolescente foi trabalhar no bar de seu pai que era o sustento da família, mulher e mais seis filhos homens. Quando amanhecia o dia, Geraldinho pegava sua velha prancha e se deixava levar pelas ondas perfeitas para o surf. À noite o bar de seu pai fechava, Geraldinho ficava conversando com amigos ou turistas, contando as tomadas nas ondas ou percorria o povoado catando alguma garota disponível a deitar com ele na praia. Não queria compromisso, só ficar.

Certa noite um artista famoso fez um show em Marechal Deodoro e depois, altas horas entrou num bar para tomar uma cervejinha e fumar liamba. O artista estava empolgado com a pequena plateia do bar, tocou violão, cantou, e contou sua vida. De como saiu de Monteiro, uma pequena cidade da Paraíba e tornou-se astro do Brasil. Precisou muito sacrifício, muita dedicação, aprendeu a compor e todos os dias ensaiava no mínimo quatro horas de violão. Quando completou 20 anos arribou de Monteiro e foi para São Paulo. Passou mais de quatro anos tocando no metrô de São Paulo até que um cara ouviu o artista tocando e convidou-o para um Grupo Musical. O Grupo mudou sua vida, vivia de pequenos shows. Sempre compondo músicas novas. Certa noite um olheiro, empresário, depois de um show, o chamou para uma conversa, havia gostado de sua maneira de tocar, ele propôs parceria em suas músicas e assinaram um contrato fazendo show solo, deu-lhe um nome artístico. Ficou famoso, tem um bom apartamento em São Paulo, um bom carro e ótimas mulheres. Mas lutou bastante para conseguir a fama.

Depois da conversa com o cantor, Geraldinho pediu arranjou um violão usado, velho. Ele iniciou a aprendizagem, danou-se a dedilhar. Colocou na cabeça ser músico, compositor, cantor da Rede Globo. Os cinco irmãos, o pai, e a mãe reclamavam do som alto que Géo tirava de seu pinho dentro de casa. Até que teve a ideia de aprender os acordes no sítio de sua velha avó nos arredores do povoado. Quando fechava o bar ao entardecer, Geraldo pedalava sua velha bicicleta até o sítio, ficava sentado embaixo das mangueiras dedilhando as cordas, jantava coma avó. Ele sentia que tinha talento, sonhava tocar para o povo, um belo show. Por muito tempo Geraldinho estabeleceu um roteiro, ao acordar pegava umas ondas, o surf fazia parte de sua vida, depois trabalhava no bar do pai e ao anoitecer aprendia a tocar seu violão e cantar.

Naquela idade os amigos ofereceram um cigarrinho de maconha, ele fumou e adorou. A liamba tornou-se companhia nas aulas musicais autodidatas, embaixo das mangueiras.

Toda noite ao chegar, sua avó pedia para ele fazer seu cachimbo, ou seja, cortar o fumo de rolo e socar, bem socado no cachimbo. A macróbia colocava em sua boca, já torta, e dava baforada até tarde da noite quando chegava o sono.

Certa vez, a avó estava triste, confessou para o neto estar chateada com Malvina, sua filha, depois que o marido largou-a, ela caiu na gandaia, não podia ver homem, e o pior, ela soube que Malvina estava se prostituindo para os turistas, uma vergonha. Precisava fechar as pernas daquela jovem. O neto nada comentou, ele também comia sua gostosa tia.

Certa noite, Geraldinho enquanto socava o cachimbo da avó, com pena de sua tristeza, teve a ideia de colocar um pouco de maconha misturado com o fumo do cachimbo. Com todo cuidado socou bem socado, metade fumo de corda e a outra metade maconha da boa, conseguida com amigos. Levou o cachimbo cheio e bem socado para a avó, e foi dedilhar sua viola embaixo da mangueira. Em pouco tempo, ele ouviu os sorrisos da velhinha, eufórica. De repente ela apareceu às gargalhadas, chegou perto do neto e pediu para tocar músicas de Nelson Gonçalves e danou-se a cantar, “Boemia aqui me tens de regresso… e suplicante te peço… a minha nova inscrição…” Passou a noite sorrindo, cantando e fumando.

Daquela noite em diante, a velhinha só queria que Geraldinho preparasse seu cachimbo. Quando ele não aparecia, a velhinha reclamava. Só ele sabia socar com maestria seu cachimbo.

Em poucos anos Geraldinho aprendeu a tocar violão, e sua avó, sem nunca imaginar, tornou-se uma velhinha maconheira até morrer, nas vésperas do neto se arribar para São Paulo.

ENTRE O PURGATÓRIO E O INFERNO

Outro dia encontrei Horácio, amigo de juventude, ele abriu-me os braços com um vasto sorriso.

– Você é minha alegria do domingo, amo suas histórias, é nosso Nelson Rodrigues. Abro sempre o Jornal na página de sua crônica, minha primeira leitura.

Eu fiquei lisonjeado com a observação de um homem tão digno, esteio de nossa sociedade, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. Conheço Horácio desde os tempos do Colégio Diocesano (Marista), foi um aluno exemplar, religioso, ligado aos princípios morais da civilização cristã. Um apologista aos bons costumes. Jovem que hoje poderíamos classificá-lo de politicamente correto. Fiz ver que sou apenas um despretensioso contador de história do cotidiano, aproveitador de acontecimentos da vida real sem muitos méritos.

Semana passada numa bela manhã de sol eu andava pelo calçadão da praia de Jatiúca, fui abraço por trás, era Horácio, estava alegre. Continuamos caminhando e conversando.

– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.

Surpreso com a aquela confidência tempestiva, eu perguntei o que havia acontecido. Horácio baixou o ritmo da caminhada e da voz eloquente.

-O Satanás está solto, provocando. Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma moça da cor de mel, sorriso cativante, lábios grossos, de uma simpatia avassaladora, diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em nossa casa. A empregada veste um short desfiado, rasgado, como é moda, para suas atividades domésticas. Normal para ela, para mim, uma tentação. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para o trabalho, eu fico sozinho trabalhando num quarto que transformei em escritório. Severina, esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Tenho até engordado, contrariando meu zeloso médico, Dr. Diógenes Bernardes.

A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das 10 da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Marinete varria distraída, vestia short de jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou, perguntou se eu era advogado, se tirava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade (achei uma provocação, detalhe desnecessário da história), estava na prisão, assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela, omiti os detalhes demoníacos que me acenderam a lascívia. Minha mulher pediu para que eu fizesse essa caridade, tentar soltar o rapaz. No sábado fui com a jovem Marinete à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. No retorno da prisão, conversávamos sobre os procedimentos quando de repente ela falou no maior descaramento que notava meus olhares e queria agradecer na cama pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Meu amigo foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo, aprendi coisas que não imaginava acontecer numa cama. Ainda não tive coragem de me confessar a um padre na Igreja, se eu morresse hoje, estaria entre o purgatório e o inferno.

Depois disso tudo, não baixei o fogo, fico torcendo para chegar a quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa num motel às cinco da tarde. Em casa me controlo para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Diabo sabe quando e como provocar nossas fraquezas.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a rua pensando, avaliando como Lúcifer se aproveita da imperfeição humana.

A RAINHA GUINEVERE E A DIANA DO PASTORIL.

Depois que se aposentou, o vício de Odorico é o computador, toda noite depois do Jornal Nacional ele senta-se na bancada abre a tela, a partir daquele momento o homem entra no mundo irreal, navegando nos “sites” de conversas com o apelido de Lancelot. Acontece que apareceu uma Guinevere. Ele se deu bem com a distinta rainha. Conversaram horas seguidas, teclando o computador.

Odorico, homem de pouca conversa ao vivo, soltou-se nas conversas virtuais com sua nova amiga Guinevere. Passaram-se meses, as conversas entraram em detalhes e intimidades. Ele confessou ser casado ter filhos e netos. Guinevere revelou ter um caso esporádico com um alemão, mas se considerava solteira.
Marta, sua esposa, brincava com a nova mania do marido, Odorico preferia ficar no computador a ir ao cinema. Às vezes, ela frustrava-se ao dormir de banho tomado, cheirosinha, esperando os afagos do marido, e ele entretido, teclando, esquecido do mundo real.

Certa tarde, Odorico estava em casa sossegado, descansando depois do almoço quando tocou o telefone. Ao atender, se identificou, ficou surpreso, abalado quando uma voz de mulher falou do outro lado.

– Adivinhe querido sou eu? Guinevere. Não resisti ao levar uma amiga no aeroporto hoje pela manhã, ela veio para Maceió, tomei o mesmo avião, vim conhecer meu Lancelot. Estou a sua espera a qualquer hora nesse maravilhoso hotel. Sei que é loucura, mas que fazer? Sou mulher de impulsos juvenis.

Marta estava perto perguntou quem era no telefone.

– É o Benevides, um amigo de São Paulo fez um curso comigo no Banco, está em Maceió e me quer ver.

Depois do Jornal Nacional, durante a novela, arriscou convidar a esposa ir até o Hotel onde estava o amigo. Ele tinha certeza da recusa de Marta. Danou-se para o hotel.

Quando Guinevere apareceu, surpreendeu Odorico ao ver a elegante senhora, passava dos setenta (ninguém diria), de uma beleza encantadora, conservada e atraente. Abraçaram-se, dirigiram-se à beira da piscina. Em certo momento ela segurou na mão de Odorico, olhou em seus olhos, disse apenas, “Vamos?”

Arrastou-o para o apartamento, onde passaram momentos de amor agradável, maduro.

No dia seguinte Odorico inventou uma viagem a seu sítio em Penedo. Apanhou Guinevere no hotel, partiram para o litoral sul das Alagoas. Visitaram a cidade barroca de Marechal Deodoro, a praia do Francês, Barra de São Miguel, Coruripe, aonde Odorico entrou dirigindo na praia extensa de areia até a Foz do São Francisco. Almoçaram na Praia do Peba. Guinevere encantada ficou mais quatro dias em Maceió. Odorico deu a assistência que pode até ela viajar, antes ela confessou ser uma despedida da vida de solteira, na outra semana viajava para Frankfurt onde ia morar com o alemão. Jamais esqueceria Lancelot e esses dias maravilhosos em Maceió.

Odorico sentiu saudade, havia gostado daquela aventura com a Rainha Guinevere, bela setentona, com muito caldo a dar.
Mês passado ele entrou em uma roda de conversa na internet com o apelido de Guerreiro. Alguém se identificou como Diana do Pastoril. Gostou da interessante conterrânea. Depois de algumas semanas, ele ousou marcar um encontro.

Às quatro da tarde no Shopping em frente ao cinema ele sentou-se à mesa, como havia combinado, vestindo camisa azul. A Diana iria de saia azul e blusa encarnada, Odorico ficou espreitando a chegada.

Passaram-se 15 minutos, ele disfarçava comendo um pastel, com a impressão que todos olhavam para ele; aquele complexo de culpa que se tem quando se faz algo errado. Cumprimentou alguns amigos que passaram. Ficou nervoso ao ver, ao longe, Aninha, sua cunhada, gostosa solteirona. Ele ficou agoniado, com vontade de ir embora. Mas, seu espírito aventureiro fazia-o ficar naquele lugar, mesmo se sentindo alvo de todos os olhares. Mais de 30 minutos de espera levantou-se para dar uma volta, quando Aninha se aproximou perguntando.

– Será que você é o Guerreiro?.

Compreendeu que Diana era a própria cunhada. Ela para não se decepcionar, veio conhecer o parceiro, o Guerreiro, sem o vestir o combinado.

Os dois sorriram em cumplicidade. Odorico pediu discrição e segredo. A bela cunhada, foi de uma discrição exemplar, até porque durante o inesperado encontro aflorou uma empatia contida há muitos anos. O velho Guerreiro hoje tem novo hábito, em algum dia da semana, ensaia folguedos nordestinos com a Diana, cunhada predileta, deixando marcas de amor nos limpos lençóis dos motéis da orla de Jacarecica.

QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu dois pequenos coqueiros morrendo na praia, comprou dois pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância?

Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores?

Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 70 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares ou um porto final além do horizonte.

DE PARATY AO JACINTINHO

Paraty é uma linda cidade antiga, barroca, colonial, localizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo, perto de Minas Gerais, ou seja, fica no centro cultural e econômico do país. Paraty tem uma população em torno de 40.000 habitantes. E tem um ótimo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. Foi nessa cidade que uma grande editora inglesa iniciou um dos melhores eventos culturais do Brasil em 2003, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Contando com a presença de escritores nacionais e estrangeiros que participam de palestras e debates nos prédios históricos ou em tendas armadas nas ruas. A cada ano, a festa é dedicada à memória de um grande escritor. Já foram homenageados vários escritores como, Vinícius de Moraes; Guimarães Rosa; Clarice Lispector; Jorge Amado; Nelson Rodrigues; Machado de Assis; Manuel Bandeira; Gilberto Freyre; Millôr Fernandes; Graciliano Ramos, entre outros. Nesse ano de 2018 a homenageada foi a poeta Hilda Hilst. O custo da FLIP é de aproximadamente R$ 6.300.000,00 (seis milhões e trezentos mil reais), captados pela Lei Rouanet. Tem como objetivo maior a comercialização de livros. Depois da FLIP apareceram nesses 16 anos mais de 500 festas literárias no Brasil.

Em 2009 fui convidado ao cargo de Secretário de Cultura da cidade histórica, colonial e barroca, Marechal Deodoro, Alagoas. Com apoio total do prefeito organizamos a 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro, foi sucesso. A FLIMAR teve uma característica a mais, trabalhar no incentivo à leitura com alunos da rede de ensino. O índice de leitura de um país desenvolvido é de 12 livros lidos por cada habitante. Na América Latina o melhor índice de leitura é da Argentina, cada habitante lê a média de 4 livros por ano. No Brasil essa média é ridícula o brasileiro lê uma média de 1,5 livros por ano. Trabalhamos oito anos junto à Secretaria Municipal de Educação durante o ano letivo, a FLIMAR era o coroamento desse trabalho. Foi uma vitória quando em 2016 fizemos uma pesquisa com alunos da 8ª e 9ª série, eles leram uma média de cinco livros durante o ano. A UNESCO considerou um dos eventos mais efetivos de incentivo à leitura no Brasil. Eu estive na PUC no Rio de Janeiro, mostrando em vídeo os detalhes de nossos trabalhos na FLIMAR. Em 2017 entrou nova administração, não sei se continuaram o mesmo trabalho de leitura. Alguns municípios pediram-me orientação para realizar Festa Literária. Realizamos, como curador, a Festa Literária do Pontal da Barra, de Palmeira dos índios, do Conjunto Graciliano Ramos e agora numa grande ousadia estamos implantando a Festa Literária no Jacintinho, um dos bairros mais populosos, carentes e violentos de nossa cidade. E um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil.

O bairro, que atualmente possui aproximadamente duzentos mil habitantes, possui um comércio, formal e informal, bastante diversificado, funcionando inclusive nos finais de semana.

Até a década de 1940, o que é hoje o bairro mais populoso de Maceió, o Jacintinho, não passava de um imenso sítio com predominância da Mata Atlântica, e, em alguns trechos, pequenas casas de moradores. O nome é uma alusão ao rico proprietário Jacinto Athayde, descendente de portugueses, que construiu seu casarão no Poço (ainda hoje preservado) e a ladeira de pedra que dava acesso ao sítio. Na década de 50, o então governador Arnon de Mello inaugurou a energia elétrica. Mas a água consumida pela população era da cacimba do Reginaldo. Na administração do prefeito Sandoval Caju, construiu-se o grupo escolar João XXIII e uma maternidade. Só em 1968, o bairro ganhou a primeira linha de ônibus coletivo.

O Jacintinho é o verdadeiro “quebra-galho”. Aos domingos e feriados, quando o comercio central fecha suas portas, o do bairro está aberto, com lojas de todos os ramos de negócios, para atender a todo tipo de clientela.

É nesse bairro que a Prefeitura Municipal de Maceió, através da Secretaria Municipal de Ensino (SEMED) e da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) e outros órgãos da Prefeitura realizarão a 1ª Festa Literária do Jacintinho, a FLIJAÇA, entre 15 e 18 de agosto. A abertura será na quarta-feira dia 15 com um Concerto Musical da Banda do Exército Brasileiro. Nos dias 16, 17 e 18, a partir das 9:00 horas da manhã até às 22:00 horas, haverá uma série de atividades em vários toldos instalados na Praça do Mirante com apresentação de trabalhos dos alunos da rede escolar, palestra no auditório da Casa de Direito, livraria, biblioteca volante, exposição do artesanato dos moradores do Jacintinho, e no palco várias apresentações de conjunto do bairro, Concerto da Banda da Guarda Municipal, Dupla de Violeiro e no encerramento sábado um grande show com Naná Martins. Vale à pena conhecer o Jacintinho um belo bairro de nossa cidade.

LEGADO AMERICANO DA 2ª GUERRA

Logo após a II Guerra aconteceu um grave problema com a população solteira e boêmia no Nordeste, houve uma inesperada proliferação de doenças venéreas. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreias e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas de moléstias sexualmente transmissíveis e repassaram para a população nativa. Ainda bem que naquela época não havia AIDS.

Em Maceió foi realizado um trabalho comandado por dois competentes médicos para a erradicação do mal.

O Ministério da Saúde enviou remédios e materiais de propaganda e prevenção. Surgiram as camisinhas. O Governo Federal enviou verba para uma campanha maciça de prevenção e esclarecimento entre as prostitutas e seus clientes.

O ponto mais visado foi o bairro de Jaraguá onde as raparigas exerciam sua profissão. As chiques e bonitas ficavam estabelecidas nos casarões da Rua Sá e Albuquerque, as menos favorecidas ficavam no baixo meretrício, O Duque de Caxias e o Verde, e as decadentes, velhas em fim de carreira, no Sovaco do Urubu, onde hoje é o Centro de Convenções.

Todas as prostitutas foram obrigadas a passar por rigoroso exame de saúde. O Posto da Praça das Graças encheu-se de cafetinas e raparigas na fila dos exames. Ali ganhavam a carteirinha profissional com data de exame carimbado.

Registravam também as meninas na Delegacia de Jaraguá, onde o Delegado da época se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o sargento-delegado fazia uma ronda diária, uma “blitz”, para verificar se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas e em dia com os exames.

As flagradas com alguma doença eram obrigatoriamente internadas no Hospital Dona Constança para tratamento. Só assim poderiam voltar à atividade.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir, e pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram também atualizadas no Posto Avançado de Erradicação de Jaraguá, com médicos fazendo novos exames diários e indicando o tratamento adequado, se fosse o caso.

A atuação do delegado é que foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com dúvida de doença, ele mandava buscar o suspeito ou suspeita para uma rigorosa investigação.

O Delegado formou uma rede de informações em várias casas de mulheres. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam deles estarem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava os acusados ao Posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o Delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o doente, além de receber uma bronca, tinha que delatar a pessoa que transmitiu. O Delegado fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos”. Convocava os elementos transmissores da doença citados pelos doentes, até chegar aos sadios.

Todos os envolvidos eram tratados adequadamente pelos médicos, às vezes baixando ao Hospital.

Houve muitos casos de problemas conjugais. Algumas vezes o Delegado chegou a enviar para exames, esposas dos envergonhados infectados. Muitos contaminados para se livrarem da investigação confessavam terem pegado a doença com alguém de fora. Se acaso delatasse que tinha sido a fulaninha, o delegado ia pessoalmente buscá-la para os devidos exames. Como geralmente estava também infectada, obrigava a confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao elo final.

Em uma dessas investigações, Tatá Boquinha, uma das jovens mais queridas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu com um bruto cancro duro. O zeloso Delegado obrigou-a a relacionar todos os homens que haviam passado por ela na última quinzena. Na enorme relação estava muita gente conhecida, inclusive um deputado. O delegado convocou todos os clientes de Tatá, via carta entregue em mãos, para serem devidamente examinados e tratados, se fosse o caso.

O Delegado teve deferência especial com o deputado. Foi pessoalmente à Assembleia Legislativa, juntamente com o médico, para que a autoridade fosse examinada no seu local de trabalho.

Assim, o valoroso Delegado conseguiu erradicar a velha gonorreia e todas as doenças venéreas da cidade legadas pelos soldados americanos no tempo da Guerra Mundial.

ORDENER CERQUEIRA

Segundo Aldemar Paiva, o genial compositor Capiba costumava dizer que o alagoano Ordener Cerqueira era o cara mais engraçado que ele conhecia. Ordener foi meu ídolo na infância e juventude. Eu me divertia ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista, consultório na Rua Boa Vista, ele contava que, quando eu era menino, meu pai, Coronel Mário Lima, trazia seis soldados para segurar e abrir minha boca. Só assim ele tratou meus dentes.

Durante sua juventude Ordener estudou no Liceu Alagoano. Havia um professor que dava aula sentado, tinha mania de colocar a mão esquerda na primeira gaveta do birô enquanto falava aos alunos. O preguiçoso professor tinha uma voz monocórdia que provocava sono. Certo dia, no quintal da casa de Ordener, apareceu um enorme caranguejo goiamum, azulado e brabo, uma pata maior que o casco. Ele conseguiu amarrar o caranguejo pelas patas e guardou-o. Na manhã seguinte, acondicionou em fibras de bananeira e levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula chata do professor preguiçoso, Ordener soltou o arisco caranguejo na primeira gaveta, fechando-a. O professor entrou na sala, sentou-se na sua confortável cadeira. A certa altura, devagar, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. De repente deu um grito enquanto puxava o braço com o enorme caranguejo com a pata travada no dedo mindinho. Ele berrava apavorado, pedia socorro, enquanto a alunada vibrava, deliciava-se às gargalhadas. Acudiram, conseguiram abrir a pata presa no dedo. O professor aproveitou não deu mais aula, exigiu a expulsão do meliante que colocou o caranguejo na gaveta.

Ordener foi o inventor do pastoril dos estudantes. Nas vésperas de Natal, vários estudantes dançavam o pastoril fantasiados de pastoras. Ele era a vedete, a contra mestra, a primeira pastora do cordão azul. CSA doente.

Outra vez ele fazia teatro estudantil, Paixão de Cristo, peça encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Cristo, e o amigo, Luís Alves, o papel de Lázaro. Ensaiaram bastante até o dia da estreia, sábado à noite no Teatro Deodoro. Os dois boêmios não eram de perder um sábado, ele e Luís encheram a cara de cachaça durante o dia. Chegaram às sete horas da noite no Teatro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado, ainda bem que durante a peça não havia fala para o Lázaro, seu papel era ficar morto até quando Cristo (Ordener) mandasse levantar, quando Lázaro (Luís) levantava-se, ressuscitando.

A peça prosseguiu normalmente, até que veio a hora da cena: Luís (Lázaro) deitado no chão, morto, e Ordener (Jesus) falaram alto, comandando seu milagre:

“-Levanta-te Lázaro!”!

E Lázaro (Luís) continuou deitado, sem se mexer. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto ainda:

“–Levanta-te Lázaro!” ·.

E Lázaro continuou inabalável. Ordener não aguentou e chutando nas costas de Luís gritou contundente:

“- Levanta-te Lázaro!” “-Levanta-te Lázaro!”

Como Lázaro não respondia, Ordener perdeu a paciência e saiu naturalmente o impropério. “ -Levanta seu filho de uma puta!”

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público como pedisse desculpas, com voz de pileque:

“-O Lázaro está bêbado!”

Gargalhada geral. Assim Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores, foram expulsos do Grupo de Teatro Estudantil.

Meu tio Napoleão Peixoto, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao consultório de Ordener. Chegamos por volta de 11 horas da manhã na Rua Boa Vista. Deixei Napoleão na sala, bati na porta. Ordener quando me viu, perguntou a razão da visita enquanto tratava os dentes de um moreno deitado na cadeira de boca aberta. “Surpresa”, falei sorrindo. No mesmo instante, Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, veio me perguntando qual a surpresa. Eu apontei para Napoleão sentado em uma cadeira, a alegria foi tamanha ao reconhecer seu amigo de juventude, que se abraçaram chorando como se fossem irmãos. O encontro emocionou os clientes que aguardavam.

Ordener tirou seu avental e convidou para tomar uma cerveja para comemorar o encontro. Descemos até o Bar do Chope. Brindamos, entornamos algumas cervejas. De repente chegou a atendente, lembrando que o cliente ainda estava de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos pacientes clientes, remarcasse.

Terminamos o encontro por volta das três da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando, no violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…”

A HUNGRIA DE PUSKAS

Estátua de Puskas em Budapeste

O futebol é o esporte mais surpreendente e mais empolgante do mundo. Foi inventado pelos ingleses e incorporado à cultura brasileira. Afinal o Brasil conquistou cinco campeonatos mundiais em 20 Copas realizadas. O brasileiro inventivo acrescentou gírias e filosofias ao mundo do futebol. Um exemplo significativo é a “Zebra”, sinônimo de um resultado inesperado, um time mais fraco ganhar do mais forte. Conta a lenda que durante um treino da Portuguesa do Rio, um jornalista perguntou ao técnico, o pernambucano Gentil Cardoso, o que ele esperava de seu time considerado pequeno enfrentar o poderoso Vasco da Gama. Gentil, um filósofo do futebol, respondeu ao repórter, “pode dar Zebra”. Uma metáfora ao Jogo do Bicho, onde diariamente é sorteado um número correspondente a um dos 25 bichos relacionados. A zebra não está na relação do jogo do bicho. A Portuguesa ganhou do Vasco por 2 x 1; na segunda-feira o Jornal dos Sports abriu a manchete: ‘DEU ZEBRA, VASCO PERDEU”. A partir desse dia entrou no linguajar do futebol a significativa metáfora da Zebra, e a loteria esportiva através da TV popularizou o termo.

Na história da Copa do Mundo a zebra já galopou nos quatros cantos do mundo, em todos os estádios, em todas as épocas. As duas maiores zebras consideradas pelos especialistas são inesquecíveis, na Copa de 1950 o incipiente futebol dos Estados Unidos derrotou e eliminou a poderosa Inglaterra por 1 x 0. A zebra galopou na Copa de 1966 no jogo Coreia do Norte 1 x 0 Itália. Em decisões da Copa uma zebra fez chorar mais de 80 milhões de brasileiros em 1950 quando o Uruguai ganhou a final do Brasil de 2 x1. Em 1974 a Alemanha ganhou a final contra a favorita Holanda. E em 1982 a Itália bateu no Brasil, uma das melhores seleções da história do futebol.

Grandes seleções foram formadas no mundo, o Brasil teve em sua história brilhantes seleções. Outros países formaram inesquecíveis equipes, como o Carrossel da Holanda em 1974, porém a mais brilhante seleção de todos os tempos foi a da Hungria entre 1950 e 1956. A seleção húngara formada basicamente pelo Honved, time do Exército da Hungria, tinha em suas fileiras craques extraordinários como, Puskas, Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Bozsic.

A Seleção da Hungria passou quatro anos sem perder um jogo entre 1950 e 1954. Conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952, e foi vice-campeã da Copa do Mundo de 1954 na Suíça, ao perder, uma autêntica zebra, para a Alemanha, depois de saírem vencendo por 2 a 0, os “Magiares Mágicos” levaram a virada por 3 a 2, na partida que ficaria conhecida pela eternidade como “O Milagre de Berna”.

Em 1956 aconteceu a Revolução Húngara, uma revolta popular contra as políticas impostas pela União Soviética. O movimento durou de 23 de outubro até 10 de novembro de 1956. A revolta espalhou-se pela Hungria, e o governo soviético caiu. O novo governo húngaro declarou a sua intenção de retirar-se do jugo soviético e anunciou eleições livres restabelecidas. Depois de negociar a retirada das forças soviéticas da Hungria, a URSS mudou de ideia e um grande exército soviético invadiu Budapeste e outras regiões do país. A resistência húngara durou até 10 de novembro. O novo governo soviético foi restabelecido na Hungria e suprimiu toda a oposição pública.

Alguns jogadores do time do Honved, formado por militares húngaros, como Puskas e outros craques, aproveitaram uma partida na Bélgica pela Copa dos Campeões, e não regressaram à Hungria. Puskas voltou a jogar em 1958, conseguiu naturalizar-se espanhol e defender o Real Madrid, ao lado de Di Stefano, Kopa, Didi. Foram novos anos de glórias para Puskas. Em oito temporadas, foi campeão mundial de clube, tricampeão da Copa dos Campeões, pentacampeão espanhol e vencedor de uma Copa do Rei. Foi artilheiro do Campeonato Espanhol quatro vezes. Puskas aposentou-se do futebol aos 40 anos, em 1967. Voltou à Hungria depois da queda do Muro de Berlim em 1989 quando terminaram as ditaduras comunistas nos países da Europa Oriental. Virou técnico, tendo inclusive dirigido a Seleção da Hungria em 1993. Em 2006, Puskas morreu em consequência de Alzheimer.

A FIFA em 2009 instituiu o Prêmio Puskas ao melhor gol do ano no mundo. Puskas, Pelé e Maradona são considerados os melhores jogadores da história do futebol. Ano passado fui à Budapeste tirei uma foto da estátua de Puskas em uma praça daquela belíssima e sofrida cidade.

ADAMASTOR, O BOM DE COPA

Como bom brasileiro, Adamastor tem duas paixões na vida, futebol e mulher. Talvez por ter nascido em 29 de junho de 1958, dia em que o Brasil foi campeão mundial pela primeira vez, ele conhece toda história da Copa do Mundo, nessa época, não fala em outro assunto. Torce pelo Brasil exageradamente, mas, sente um forte complexo da Teoria da Conspiração, tem certeza que a FIFA está contra o Brasil ser Hexacampeão e confirmar a hegemonia mundial no futebol. Diz ele que os organizadores da Copa do Mundo não querem acabar o entusiasmo e o lucro dos anunciantes a nível mundial. Será muito difícil para o Brasil, a tabela foi organizada para a seleção só pegar time forte. Segundo Adamastor, a FIFA vai escalar um juiz para apitar pênalti duvidoso ou anular gol do Brasil e confirmar na televisão, o VAR. Essas são as especulações na cabeça de Adamastor, a Teoria da Conspiração contra a Seleção Brasileira. Mesmo com esse pessimismo burocrático quando acontece a época da Copa, ele coloca bandeirinha no carro, compra camisa para todos da casa, até os funcionários do prédio e as funcionárias de sua casa ganham camisa.

Outra paixão de Adamastor são as mulheres. Diz que ama sua esposa, que é bem casado, mas gosta de pular a cerca com alguma garota de programa. Não quer amante; amante dá complicação, enquanto rapariga ele paga os bons serviços prestados, paga o silêncio, a discrição, o descompromisso. Certa vez teve um caso com uma secretária. A menina ficou no seu pé, ele gastou muita grana para afastá-la do caminho. Jurou nunca mais ter uma amante, sai muito mais caro. Tem uma agenda de amigas no celular. Para evitar problemas, grava o nome masculino correspondente de suas preferidas. Exemplo Flavinha está gravado como Flavinho.

Como a mulher não gosta de futebol ele tem suas estratégias para assistir o jogo sozinho, aliás, acompanhado por uma das amigas. No primeiro jogo da Copa, Brasil x Suíça, Adamastor armou um esquema, deixou a mulher em casa, disse que ia assistir na casa do Bernardino, um amigo também vidrado em futebol, os dois sozinhos, sem ninguém para atrapalhar. Na verdade ele juntou o útil ao agradável e partiu para um belo motel na praia de Jacarecica com sua amiga Paulinha que ama e conhece futebol, discutem na hora do jogo e depois é só carinho. Adamastor chegou em casa à noite reclamando que o empate foi mais uma armação da FIFA contra o Brasil. No segundo jogo, Adamastor vestiu a camisa amarela, cueca branca, bermuda azul, sandália preta, deu um tchau para a esposa dizendo que logo depois da vitória vinha comemorar, deixasse a cerveja na geladeira. Pegou Paulinha às oito e meia da manhã, assistiu os 2 x 0, depois comemoraram na cama. Mais tarde telefonou para casa, estava comemorando a vitória do Brasil na Barraca Pedra Virada.

Quarta-feira o difícil jogo contra a Sérvia, telefonou para Paulinha, ela estava com a mãe doente, não pode acompanhá-lo, uma pena. Adamastor tentou mais algumas de sua agenda, todas com compromisso. Apelou para os classificados no jornal. Ao ver na relação o nome Angelina, nem leu o resto, sem conhecê-la, telefonou, acertou para ela pegar um táxi, ele a esperava no motel.

Assim que Adamastor entrou no apartamento do motel, ligou a televisão, papéis verde e amarelo faziam a decoração. Colocou uma dose de uísque, ficou assistindo os comentários antes do jogo, esperando a companheira chegar.

Adamastor ficou encantado quando abriu a porta, deslumbrou-se com aquela mulher bonita, alta, de olhos amendoados e boca parecida com a da Angelina Jolie. O mulherão sentou-se no sofá pedindo permissão para fumar. Apesar de ser linda, ele achou alguma coisa estranha naquela mulher. Foi quando iniciou o jogo Brasil x Sérvia, ele ficou grudado prestando maior atenção, nem percebeu que a parceira foi ao banheiro, ela não era ligada em futebol como a Paulinha. Adamastor torcia desesperadamente, com a dose de uísque na mão. Angelina saiu de banho tomado, cabelos molhados, corpo enrolado numa toalha e os maravilhosos seios descobertos. Alegrou-se quando ela achegou-se a ele torcendo pelo Brasil. No gol do Thiago, durante a vibração, deu um beijo nos grossos lábios de Angelina. Quando acabou o jogo, ela estava deitada debruço. Adamastor não resistiu, deu um pinote por cima. O serviço durou poucos minutos. Mais relaxado vibrando com a vitória de 2 x 0, deu um abraço em Angelina, que estava apenas de toalha amarrada na cintura, foi quando Adamastor notou alguma coisa esquisita durante o abraço, não conseguiu segurar o grito quando percebeu.

“- Você é homem!!!!”

Depois de momentos de discussão, Angelina mostrou nos classificados, estava escrito: “travesti, atendo passivo ou ativo.” Adamastor pagou o acertado. Chegou em casa, foi para o banheiro, tomou uma hora de banho.

Depois do fato consumado, não consegue esquecer aquela mulher, aliás, aquele homem, ainda sente o hálito de cigarro de sua boca, há duas noites sonha com Angelina Jolie e o Brad Pitt, os dois olhando para ele e sorrindo. No fundo Adamastor gostou dos serviços prestados. Agora está na dúvida para o próximo jogo Brasil x México, se ele convida Paulinha ou Angelina.

UM É POUCO, DOIS É BOM, TRÊS É ÓTIMO

Numa ensolarada manhã de sábado, dessa que a brisa acaricia o rosto e a alma, eu estava na praia de Jatiúca na fila do acarajé quando alguém tocou meu ombro. Quase não reconheci o amigo Ubiratã, não o via há anos. O homem ao envelhecer tende a engordar e cair cabelos, Bira não foi exceção, gordo e careca. Sentamos à mesa de praia protegida por sombrinha. Ubiratã puxou recordações.

Perguntei pela namorada da época, Jeane, uma bela menina, eram apaixonados. Bira pegou o embalo e contou-me sua vida. Engravidou Jeane, casou-se, foi morar com os sogros no Prado. Tiveram dois filhos, hoje rapazes. O casamento durou 13 anos, largou a mulher. Foi viver sozinho em Anadia onde moram os pais.

De repente apareceram duas mulheres bonitas com sorriso nos lábios, Ubiratã me apresentou: Ruth, morena, pele de um marrom café-com-leite, cabelos crespos, rosto redondo, olhos negros salientes, nariz achatado e lábios carnudos. A outra de nome Quitéria, pele alva, rosada, cabelos pretos como uma graúna, rosto oval, nariz afilado, um belo sorriso dava um toque de sensualidade em sua boca carmim molhada. As duas eram simpáticas e muito gostosas, vestiam minúscula tanga. Imaginei-as entre 40 e 45 anos.

Conversamos por mais de uma hora, todos bem humorados pela exuberante manhã de julho. Ruth é de Palmeira dos Índios, terra de bonitas mulheres, ainda menina, veio para capital com os pais. Quitéria é de Salvador, mora em Maceió desde que fez um curso de enfermagem, só vai à Bahia de visita. As duas têm muitas coisas em comum: são bonitas, sensuais, enfermeiras. Enquanto elas foram caminhar na praia, Bira contou-me o resto de sua vida.

Atualmente ele é chefe de vendas de cerveja, conheceu Ruth num Hospital onde realizou alguns exames. A amizade continuou, ele paquerou, assediou, insistiu, porém, decepcionou-se quando Ruth confessou morar com uma colega de hospital, Quitéria, e eram namoradas. Bira ficou chocado com a sinceridade da amiga. Conheceu Quitéria numa festa, tornaram-se amigos. Bira tinha suas paqueras, suas namoradas, mas gostava de sair com as duas amigas comprometidas, achava-as divertidas.

Certo dia a mãe de Ruth morreu, o apartamento de três quartos que herdara, ficou enorme para o casal. Ruth gostaria de alugar um quarto do apartamento, por que não Bira? Vivia sozinho, perambulando nas casas de tios e irmãos.

Ubiratã aceitou, foi morar junto com o casal. Acertaram pagamentos e algumas normas para viverem em harmonia. Bira sentiu-se mais confortável, não teve problemas de convivência entre os três, passaram-se alguns meses de convivência.

Até que numa noite de sexta-feira, Ruth foi dar plantão no Hospital, Quitéria estava a fim de divertir-se, Bira acompanhou a amiga. Escolheram uma barraca de praia, ficaram até mais tarde bebendo e conversando, de repente ela confessou que notava os olhares de Bira pra cima dela, ela gostava de homem também, e não negava, sentia atração por ele. Depois da meia-noite, foram para casa a pé cantando pela rua. Ao chegar ao apartamento, Bira tomou banho, deitou-se. Ainda não havia pegado no sono quando Quitéria entrou no quarto, de lingerie, uma provocação. Bira sentou-se na cama, ela se aproximou, em pé encostou-se, abraçando a cabeça do amigo. Deitaram-se, amaram-se. Depois do amor, cabeças no lugar, resolveram falar a verdade para Ruth, não podia haver traição entre eles, passaram a tarde de sábado se amando, bebendo e confabulando.

Ruth chegou à noite, sentiu que havia alguma coisa no ar. Os três reuniram-se à mesa, garrafa de uísque, beberam, confessaram o ocorrido. Ruth calada ouviu atentamente a história. Quando terminou o relato houve um clima de expectativa e constrangimento entre eles, ficaram calados se olhando, minutos de silêncio. Até que Ruth levantou-se, aproximou-se de Bira, baixou a cabeça e deu-lhe um beijo ardente em seus lábios, queria também.

A partir dessa noite o amor entre os três fizeram tremar a terra. Aconteceram inimagináveis “ménage a trois”, como dizem o francês. Continuaram juntos. Mês passado, os três comemoraram dois anos de casados. Agora querem um filho, adotado.

Quando Bira acabava de contar sua situação marital, as jovens retornaram da caminhada, buscamos mais acarajé e cerveja, conversamos até mais tarde. Quando a gente passa dos setenta, pensa que já viu tudo na vida, aí se surpreende com o ser humano. Tenho um amigo bígamo, outro trígamo, eu não havia imaginado existir um trio amoroso oficial. Os três, na maior felicidade, convidaram-me para padrinho do menino. Aceitei.

A MASSAGISTA

Dona Mercedes morreu no dia que completou 51 anos de casada. O Coronel Eustáquio enterrou a esposa na Fazenda Olho D’água das Flores, onde passaram suas vidas com muito amor, carinho e respeito. Dona Mercedes foi uma mulher ativa, de opiniões, deixava o marido pensar que ele mandava, entretanto, ele só fazia o que ela queria. No último desejo, pediu ao marido para ser enterrada junto ao túmulo do filho embaixo de uma enorme aroeira num morrete perto dos currais.

Assim foi feito. Os cinco filhos vieram de Maceió e enterraram a matriarca junto ao seu amado filho Bruno, que morreu aos 19 anos.

A morte da mulher foi outro baque na vida do coronel. Com 72 anos ele monta todo o dia num cavalo e sai fiscalizando, dando ordens pelo extenso pasto do gado nos arredores. Formou seus filhos, 3 advogados, uma assistente social e uma médica. Sua mágoa e preocupação é que nenhum deles, incluindo genros e netos, tem vocação para o campo. O filho mais novo, Bruno, foi seu braço direito, seu orgulho, amava a fazenda, não queria estudar, tinha um gênio de briguento, gostava de cachaça e mulheres. Morreu de queda de cavalo, correndo bêbado uma vaquejada. Quando ele lembra Bruno, dá uma dor no coração de saudade, era o filho querido, o companheiro nas andanças pela fazenda.

Depois que Dona Mercedes morreu, o coronel Eustáquio se enclausurou na fazenda. Só ia a Maceió às quartas-feiras. Nunca foi mulherengo, mas gostava de se aliviar, como dizia, com uma menininha num programa. Até para isso ele se enrustiu, depois da viuvez.

Havia dois anos da morte da esposa quando no final de ano a família se reuniu para o natal e aniversário do patriarca, 25 de dezembro. Festa tradicional da família, animada com filhos, netos, agregados e convidados. Na festa, Natália, a filha médica, notou que o coronel andava cansado. Exigiu que ele fizesse um checape.

Edgar, o genro, figura simpática, boa conversa, do ramo de comércio de imóveis e carros, as más línguas falam que seu casamento com a médica teve também um olho na grana do velho, fazia tudo para agradar ao sogro. Ofereceu-se para acompanhar o velho coronel aos médicos, indicados pela doutora. Foram 20 dias entre consultas e exames. O doutor urologista examinou os resultados. Depois de apalpar o ventre, pediu ao coronel para ficar na posição que Napoleão perdeu a guerra, e fez o famoso toque retal. Constatou que a próstata estava volumosa e inflamada. Passou-lhe antibiótico e determinou ao Coronel para vir toda semana tomar aquela massagem na próstata, até diminuir o tamanho e acabar a inflamação.

À noite a filharada e os netos foram visitá-lo em seu confortável apartamento na orla da Jatiúca. Ele confidenciou para os filhos, que estava constrangido com o tratamento, que não ia mais levar dedada de médico nenhum. Seu fio-fó era órgão de saída, nada de entrada. Com grande má vontade avisou que não voltava ao consultório, tomava apenas o remédio.

A doutora Natália, ao dormir, conversou com o marido sua preocupação com o pai, a massagem na próstata era necessária. Edgar homem de desembaraços e de soluções, nunca põe dificuldades, prometeu resolver o problema.

No outro dia pela manhã foi conversar com o do doutor urologista, acertando os detalhes de um plano bolado no travesseiro. Sua enfermeira bonita, com curso de enfermagem, sabia fazer massagem na próstata, veio a calhar. Com a conivência do doutor prosseguiu a estratégia. Na quarta-feira foi visitar o sogro levando recado do doutor que ele podia ser atendido também por uma massagista especial. Depois de muito relutar, o coronel foi espiar a massagista que estava no carro esperando. Ficou encantado com a beleza daquela morena simpática que lhe sorriu pecaminosamente. Com a jura do genro de não contar nem para os filhos, o velho se deixou levar para um motel na praia de Jacarecica. O que houve entre as quatro paredes, ninguém sabe. A próstata do coronel já deve ter curado há muito tempo, mas ele prossegue o tratamento. Fica feliz quando amanhece a quarta-feira, vem para Maceió radiante, dia da massagem com a bonita Michelle que engorda seu salário em R$ 200, 00 toda semana.

A FESTA DE PAFINHA

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. Moça bonita de pele clara, cabelos escuros escorridos, olhos vivos, meio estrábicos, harmonizavam com a boca rosada permanentemente num debochado sorriso. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz.

Corpo miúdo, curvas nítidas, cintura fina e seios abundantes faziam dessa menina uma mulher atraente. A bunda bem torneada era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos amavam aquela jovem com ar de moleca sapeca. Vivia a vida como se fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do mais famoso proxeneta da noite de Maceió, o popular Mossoró.

Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 14 anos havia conhecido apenas miséria e pobreza. Um cabo de polícia a estuprou, prometeu aos pais amigação, uma casa na capital. Deixou-a na zona das putas em Jaraguá.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Era a mais querida do cabaré, conhecia e tratava os frequentadores da boate pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá.

Ela tinha um namorado, apaixonou-se por um jovem deputado, menino novo que fez uma bela carreira política. Quando o deputado aparecia, se ela estivesse acompanhada, depois de atender o cliente, corria para os braços de seu amor.

Naquela época havia um bingo aos domingos, fonte de recurso para construção do estádio Trapichão, os prêmios eram carros e caminhões. Mossoró levava suas meninas para marcar o bingo. Pafinha teve sorte, ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Naquela noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Deu festa no Verde, no Duque e no Sovaco do Urubu, a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos de copo e de cruz.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa de Pafinha. Só acabou quando ela percebeu que não tinha mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre de novo.

Quando assisti ao filme dinamarquês, A Festa de Babete, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro lembrei-me da Festa da Pafinha, histórias semelhantes. A vida imitando a arte.

Nós, jovens moradores da praia da Avenida da Paz, depois do futebol e de um bom mergulho, caminhávamos sobre a areia molhada até uma birosca em frente ao Primeiro Trapiche em Jaraguá para entornar uma boa cachacinha com caju.

Nossas companhias eram os embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados. As raparigas de Jaraguá, mergulhavam se refrescando, lavando-se da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana contando casos da noite no cabaré. Seu Rodolfo, velho pescador, contava historias sobre peixes enormes, sobre a mãe d’água, sereias, afogamentos, botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando na água do mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu, depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia estar no Oceano seu destino.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas de Jaraguá. Tornou-se lenda, contam que ela desapareceu num banho de mar, deixou-se levar pela correnteza, Yemanjá veio buscá-la, transformou-a em um boto que vagueia vigilante no mar, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar da Avenida da Paz. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurrando para praia os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois volta junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres à Santa Pafinha, protetora das putas, dos boêmios, dos cachaceiros, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

ESSA HISTÓRIA E MAIS OUTRAS SOBRE A CIDADE DE MACEIÓ, SERÃO CONTADAS POR CARLITO LIMA E CANTADAS POR ANDRÉA LAÍS DIA 9 DE JUNHO NO TEATRO DO CINE PAJUÇARA ÀS 20 HORAS. IMPERDÍVEL. INFORMAÇÕES: (82) 9.9318.0843.

DIA DOS NAMORADOS NO ZINGA BAR

Zinga Bar – praia de Riacho Doce

Gustavão dirigia feliz da vida seu Gordini vermelho, era noite de sexta-feira, véspera de Santo Antônio, dia dos namorados. Solteiro, boêmio, 27 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar na praia de Riacho Doce, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de mecânica, resolveu trancá-lo, travá-lo, no dia seguinte traria com um mecânico. Com o dedo polegar ficou a pedir carona aos carros em direção ao Zinga. Parou uma Kombi, deu sorte, era o deputado com amigos e amigas, tinham o mesmo destino.

O Zinga Bar foi um empreendimento arrojado de Cláudio Barbosa, a construção se estendia do asfalto à praia, em Riacho Doce, foi o grande sucesso da cidade no final dos anos 60, aliás, revolucionário, mudou os costumes. Naquela época as moças casadouras só saiam à noite acompanhadas dos pais ou irmãos para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar o mulherio de Maceió deu um grito de liberdade, em grupos começaram a frequentar aquele Bar-Restaurante-Boate. Dava-se início a uma tímida revolução sexual, a virgindade estava deixando de ser tabu. O Zinga foi marco histórico na vida da cidade.

O deputado, os amigos e amigas tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo no mar de Riacho Doce. Mesa cheia com três belas jovens e uma senhora, aliás, uma coroa risonha, solteirona, à beira dos cinquenta. Conversa divertida, maior alegria quando a orquestra iniciou os acordes “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Gustavo para dançar. No dancing romântico, bela vista ao mar, colaram-se do corpo à cabeça, arrastando-se com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou-o sentindo prazerosamente o corpo de seu par. Eles mudos, o carinho na nuca, a rigidez nas pernas falavam mais que qualquer palavra.

A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava as pernas de Gustavão. Certa hora a Banda animou no São João, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, que lá no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando feito quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Gustavo e Yolanda, a coroa, se atraiam, deu-se o desejo imenso, ânsia louca de beijo na boca. Gustavão pediu discretamente a chave da Kombi do deputado. O casal se escafedeu, um quilometro a mais Gustavo encostou a Kombi embaixo de uma árvore. À luz de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem, era dia dos namorados.

Retornaram ao Zinga com aquele sorriso de felicidade dos bem amados, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, afinal amar é necessidade natural. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios foram cumprimentar o dia nascendo andando na praia, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão. Gustavão e a coroa celebravam a vida.

Dia seguinte Gustavo acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. Surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente do dia dos namorados, de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Na segunda-feira nosso boêmio recebeu um telefonema anônimo informando, os quatro pneus estavam guardados com o vigia do Zinga Bar. Assim foi o dia dos namorados de Gustavão naquele ano de transformação do mundo. 1968.

OS TARADOS DA AVENIDA

No final da 1ª Guerra Mundial (1914- 1918), o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos, comemorou o fim da guerra na então “Praia do Aterro”. Depois de bons goles de cachaça da boa, prometeu que ali construiria uma bela Avenida, a Avenida da Paz.

Terminada a obra, a Avenida começou a desbancar Bebedouro, a burguesia se transferiu para a Avenida da Paz, construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, a mulherada moderna vestia maiô até o joelho e caía na água do mar. Maior sucesso, alguns achavam um escândalo. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas de maiô aparecendo a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”. Quando nos anos 30 foi inaugurada a sede do Clube Fênix, o maiô já havia diminuído o tamanho, subindo até a metade das coxas, quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na esplêndida praia da Avenida.

Nos anos 50 eu era um jovem maloqueiro de praia. Nadava singrando a calmaria do mar. Pulava da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogava futebol na areia dura, molhada. Pescava nas jangadas, puxava rede. Entretanto, o que nós meninos mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar na areia olhando, que nem jacaré, para as belas mulheres que se estendiam na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de “tarados”. Naquela época, meninos com cara de santinho, trafegavam pelas rodas de conversas com as moças descontraídas. Mas, quando entravam na água, não havia quem segurasse.

O Gaguinho era mestre, ele aproximava-se das meninas, deitava de bruços, cavava uma cova, adaptada a sua mão, e ali dava estímulo para suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua belíssima irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Certo verão apareceu a Musa! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã, como se fosse uma liturgia descia à praia, estendia uma toalha, armava a sombrinha na areia. Tirava a blusa bem devagar, como se tivesse preguiça, aparecendo a parte superior do biquíni cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, despia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassar o short por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Dobrava a roupa, arrumava junto à sombrinha. Deitava lentamente, de bruços, deixando o sol dourar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual erótico da musa dos cabelos de fogo.

“Chaina”, sua cachorrinha pequenez, ficava amarrada no pau da sombrinha. Às vezes, ela soltava-se para alegria da moçada que tentava capturá-la, para receber o agradecimento, olhando de perto as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de tarados aumentou na praia da Avenida.

Muita gente graúda entre eles. Certa vez fizemos uma votação para eleger o maior tarado da praia. Em terceiro lugar, o punho de bronze, foi para um atleta famoso. O segundo lugar, o punho de prata, ganhou Kirk Douglas, um coroa, vestia um velho calção de banho, e passava o dia vadiando na praia. E o primeiro lugar, o punho de ouro, fez-se justiça, foi para o dono de um restaurante conhecido na cidade. O ganhador era prático e profissional. Conta a lenda que todas as suas calças tinham os bolsos do lado direito furados.

Hoje, quando dou minha caminhada pela praia da Jatiúca, lembro dos velhos tarados da Avenida ao olhar os corpos deitados, de bruços, belamente bronzeados, dentro de uma minúscula tanga.

Essa e outras Histórias de Maceió este colunista fubânico contará na peça, SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA, dia 9 de Junho no Teatro Cine Pajuçara às 20 hs. A afinadíssima Andréa Laís cantará belas músicas relacionadas com as histórias.

CUNHADO ARRUACEIRO

Ana e Amélia eram duas irmãs bonitas, seus pais colocaram esses nomes em homenagem às avós. As meninas não perdiam em beleza para nenhuma miss ou artista. Moravam em Jaraguá perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Quando desciam à praia da Avenida da Paz, os jovens paravam o futebol, até a bola parava, para apreciar as jovens, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam em fantasia as moças encantadoras.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho, alto, forte, de enorme musculatura mantida na prática de exercícios que contrastava com o juízo, tinha o cérebro do tamanho de um feijão. Chicão era conhecido em todo bairro por sua valentia e por suas brigas, era o maior arruaceiro do bairro e da zona das putas em Jaraguá. Certa vez brigou com três policiais, foi preso e espancado, ele passou a detestar qualquer tipo de policial. Chicão tinha um sentimento nobre, o afeto pelas irmãs, o que lhe causava um ciúme doentio, partia para briga com quem o chamasse de cunhado ou insinuasse que suas irmãs eram gostosas.

Julinho, jovem estudante, morador da Avenida da Paz, encantou-se com a mais nova das irmãs, iniciou um namoro com Amélia, escondido, depois ela falou com o pai, ele permitiu o namoro desde que fosse na porta da casa, sempre com a fiscalização voluntária e ostensiva de Chicão. Namoro bem comportado, mão na mão, em vez em quando um beijo, quando o irmão se distraía. Certa noite, depois do namoro, Julinho dirigindo o jipe em direção à sua casa, ao passar na Rua do Uruguai, uma jovem soltou-lhe um adeusinho com a mão, ele freou o jipe, entrosou-se com a jovem, colocou-a no banco e partiu para uma seção amorosa dentro do jipe estacionado no Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Assim continuou Julinho, toda noite namorava a amada Amélia, depois partia para fazer amor com Maria das Dores ao frescor da brisa marinha dentro do jipe.

Até que um dia Ana, a cunhada, discretamente pegou Julinho em flagrante quando Das Dores embarcava em seu jipe para mais um amasso amoroso. Na noite seguinte quando Julinho chegou à casa da namorada, Amélia estava uma fera, namoro acabado, nunca admitiria ser corneada por uma vagabunda como Das Dores. Nesse momento Chicão apareceu arregaçando as mangas da camisa, com cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Julinho tomou um susto, encheu-se de medo, brigar com Chicão, era levar uma surra histórica. Julinho, com presença de espírito, pediu calma, precisava conversar, pagava uma bebida no bar da esquina, mas deixasse-o explicar. Bebida de graça era irresistível a Chicão. Foram para um bar por perto, desceram cerveja, pinga e tira-gosto. Julinho explicou que a Das Dores era apenas para transa, ele respeitava e gostava mesmo de Amélia, namoro para casamento e coisa e tal, no campo da astúcia Julinho ganhou tranquilo.

Foi uma noitada de bebedeira, passaram por quatro bares diferentes. O receio constante de Julinho era Chicão, bêbado, provocando aonde chegava. A sorte é que os provocados conheciam a fama de Chicão e não revidavam os insultos.

Tarde da noite, os dois bêbados estavam em maiores intimidades, um chamando o outro de cunhado. Chicão em certo momento inventou de ir às Boates das Mulheres em Jaraguá. Julinho se fazia com sono querendo terminar a noitada, acabou concordando, partiram para Zona. Ao passar na Praça Dois Leões, de repente Chicão pediu para parar o jipe, o arruaceiro saltou, dirigiu-se a uma dupla de policiais que tranquilamente fazia a ronda. Julinho não acreditou no que estava vendo, Chicão deu um murro em cada soldado, desarmou-os, deixando-os no chão, jogou as armas longe, recolheu os capacetes e correu para o jipe gritando, “Vamos embora depressa”.

Julinho deu partida, logo adiante parou o jipe e assustadíssimo. Subiram à Boate São Jorge, ocuparam uma mesa, Chicão colocou um capacete dos soldados em sua cabeça e o outro na cabeça de Julinho, que a essa altura, passou a bebedeira e tremia-se de medo. Todos na boate olhavam aqueles dois jovens com capacete da Polícia. Chicão pediu cachaça e duas raparigas. Depois da primeira dose Julinho tirou o capacete colocou-o embaixo na mesa, foi ao banheiro. Ao sair percebeu que seis policiais subiam as escadas da boate, na mesma hora ele desceu devagar, para não suspeitar, a escada da boate. Teve sorte, o jipe estava no mesmo local, ligou a partida e conseguiu checar em casa.

No dia seguinte soube do acontecido, Chicão brigou com os seis policiais, levou muita pancada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para 2ª Delegacia de Polícia, onde levou uma surra inesquecível.

Julinho esqueceu a bela Amélia, passou muito tempo sem passar perto da Igreja. Ao ver ao longe Chicão, fingia não vê-lo, nunca mais quis conversa com o cunhado arruaceiro. (conto essa histórica verídica em homenagem a Julinho que morreu essa semana)

DANILO DE FREITAS CAVALCANTI

Meu querido sogro e amigo, Dr. Danilo de Freitas Cavalcanti foi embora, aos 98 anos nos deixou com muita saudade e boas lembranças. Foi uma das criaturas mais extraordinárias, mais fora do comum que conheci. Juiz de Direito, Promotor de Justiça, advogado criminal, foi um dos maiores tribunos dos Fóruns das Alagoas. Sua sabedoria e eloquência faziam de um júri um espetáculo. Quando aparecia um júri mais acalorado, os professores da Faculdade de Direito dispensavam seus alunos para assistirem no Fórum a atuação do Dr. Danilo, seja acusando, seja defendendo, era uma aula para os futuros advogados.

Eu tive a imensa honra em entrar para sua família ao me casar com Vânia, sua filha, com muita alegria me recebeu: “Bem vindo meu genro, nossa família é simples, porém muito feliz”. Continuei um ramo da família contribuindo com três filhos e três netos. Nesses quase 50 anos de convivência aprendi a admirar meu sogro, pela sua integridade, sua honestidade e valentia. Um homem sem medo. Nem tudo foram flores, algumas fatalidades e problemas como é a vida real, entretanto, a família enfrentou as adversidades com força e sabedoria.

Certa vez Dr. Danilo, como Promotor de Justiça, iria acusar um jovem rico por assassinato de uma mulher. Na véspera do júri, à noite, ele recebeu uma visita da família do assassino explicando que ele era um bom menino, foi um acaso da vida que aconteceu a tragédia. Até aí tudo bem, todos têm esse direito em pedir. Acontece que, na saída de casa o comerciante milionário entregou um envelope pardo cheio nas mãos de uma das filhas do Dr. Danilo. Ao perceber, meu sogro arrancou o envelope da filha, abriu, estava cheio de dinheiro, um valor enorme. Na mesma hora, com raiva, sentindo-se ofendido, Dr. Danilo gritou para o ricaço: “Canalha, canalha apanhe esse envelope e saía daqui imediatamente, o que está pensando? Vá embora antes que eu chame a polícia e lhe prenda por suborno. Canalha!” Rapidamente o homem pegou o envelope e escafedeu-se na noite. No dia seguinte houve o júri. Dr. Danilo teve uma atuação empolgante. O assassino pegou 22 anos de cadeia.

Conto esta história como exemplo, contra essa onda espalhada no Brasil, afirmando que nós brasileiros somos ladrões por natureza e roubos vêm desde o descobrimento. Na verdade essa onda é para justificar a corrupção de políticos que tomaram conta do poder, acabando com nossa riqueza. Nós, a maioria dos brasileiros comuns, somos trabalhadores e honestos. Banalizar a roubalheira é um crime, não aceito, como meu sogro não aceitava.

Finalizando quero dividir meu espaço com uma mensagem enviada por meu filho, Henrique, direto da Indonésia que não pode assistir o sepultamento de seu avô.

* * *

Carlos Henrique Cavalcanti Lima -“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”

Hoje depois de um longo tempo internado meu avô Danilo de Freitas Cavalcanti faleceu, eu como neto mais velho tive o privilégio de conhecê-lo durante 47 anos, vi e vivi suas alegrias e suas tristezas, o duro golpe de ter um filho assassinado, a alegria de uma família numerosa e amorosa, com as qualidades e defeitos que todas as famílias têm. Hoje ele partiu, ele descansou, abandonou o corpo sofrido, marcado pelo tempo e pelo destino, nos deixou. Meu avô falava muito sobre isso, afinal chegou aos 98 anos de idade, falava que iria encontrar o amor da vida dele minha doce avó Vanda e o meu tio Marcos.

Sinto não estar presente fisicamente neste momento de dor junto a minha mãe, meu pai, minhas irmãs, meus tios e tias, junto a minha família, a dor solitária é mais dolorida, ainda bem que antes de viajar fui vê-lo no hospital, fazer uma oração, visita rápida, nesta nossa vida tão corrida, mas pelo menos dei meu beijo de despedida. Vá em paz meu avô, sua missão está cumprida, seu descanso é merecido, nos vamos ficar aqui nos espelhando no homem de bem que você foi, veja só que família linda você e a vovó criaram!

A vida continua, em breve o sol vai nascer aqui na Indonésia, já temos novos Danilos, Vanda e Marcos na família e assim é a vida com chegadas e partidas. Não temos que entender os desígnios do Senhor apenas aceitá-los humildemente. A tristeza faz parte da vida, um outro dia virá e com ele outras alegrias, junto com a linda lembrança daqueles que já foram…

Henrique Cavalcanti Lima (Neto)

O CENTENÁRIO DO BENÉ

No ano da graça de 2002, a Associação de Moradores do bairro Benedito Bentes convidou-me para coordenar um trabalho de planejamento do bairro com a participação da comunidade e todos os segmentos de moradores. O resultado foi impressionante, com diagnóstico, levantamento de problemas, soluções sugeridas pelos próprios moradores. Deram um belo e sugestivo título ao trabalho: “O Benedito Bentes que nós Queremos”.

Surpreendeu-me trabalhar com a dedicação da comunidade e perceber que a maioria dos moradores não sabia quem foi Benedito Bentes. Aproveitei e contei um pedaço da história de um dos maiores homens públicos de Alagoas do Século XX.

“-Nos anos 30, vindo do Amazonas, aportou por essas bandas um cidadão de nome Manoel Bentes com sua família. Ficou encantado com as águas verdes da praia da Avenida e disse que aqui ficaria para sempre com sua mulher e seus quatros filhos: José, Benedito, Ana e Terezinha. Criou seus meninos, deu-lhes educação, viveu como alagoano fosse, trabalhou, prosperou e morou para sempre em Alagoas”.

Todos os filhos de Manoel casaram-se com alagoanos, misturando o sangue manauara com os caetés das Alagoas. Dona Ana casou-se com o médico Manoel Menezes; José de Anchieta, oficial do Exército casou-se com Dona Izolina; Dona Terezinha, esportista, mulher de fibra, deu a vida trabalhando dedicando-se à Cruz Vermelha casou-se com Júlio Normande, intelectual e esportista. Finalmente Benedito Geraldo do Vale Bentes casou-se com Vega Lima, filha de Heráclito Lima, grande proprietário de coqueiros de Alagoas. A família Bentes povoou o Estado, tem Bentes por todos os cantos das Alagoas. São cinco os filhos de Benedito Bentes: Luciano, Marden, Humberto, Eduardo e Geraldo.

Formado em Direito, entretanto, Benedito Bentes desenvolveu a atividade do comércio por muitos anos. Em 1961 com a eleição do major Luiz Cavalcante ao governo do estado foi por ele convidado para a presidência da CEAL aonde exerceu o cargo até agosto de 1974 quando faleceu repentinamente. Na presidência da CEAL teve a companhia dos diretores Napoleão Barbosa, Osvaldo Braga, Lenine de Melo Mota. Eletrificou todas as sedes dos municípios alagoanos com energia da CHESF tornando-se, na época, o primeiro Estado da federação a ter todas as suas sedes dos municípios eletrificadas.

Benedito Bentes foi também presidente do SESC/SENAC em Alagoas, Diretor da Confederação Nacional do Comercio e outros cargos de destaque no cenário político e econômico de Alagoas e do Brasil.

Tenho a maior honra em ter sido amigo de Bené, assim era chamado pelos mais íntimos. Éramos vizinhos na Avenida da Paz onde a classe média alta foi morar nos anos 50/60. Trabalhador, Benedito Bentes, tinha uma visão estratégia do futuro de Alagoas como poucos. Em sua época sempre foi homem imprescindível aos governos. A meu ver, devia ter sido governador do Estado.

Seu bom humor, sua alegria e a inteligência, são as melhores lembranças que guardo com carinho daquela extraordinária criatura. Com sorriso e risada inconfundíveis fazia questão de receber os amigos em sua casa, era um festeiro. Ligado ao convívio social da cidade tornou-se presença marcante nas grandes festas do Clube Fênix Alagoana, Iate Pajuçara ou Jaraguá Tênis Clube. Naquela época os grandes cantores do Brasil eram contratados para as festas de clubes. Bené tinha um conhecimento de vida social que extrapolava Alagoas. Muitos desses cantores depois de cantar iam tomar um drink em sua casa, onde tive a alegria de conversar com Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, Wilson Simonal, entre outros.

Há 50 anos quando Benedito Bentes completou 50 anos houve uma festa em sua confortável casa na Avenida Fernandes Lima. Compareceu a elite econômica e intelectual das Alagoas. Em certo momento fui ao quarto dos meninos, um verdadeiro alojamento, enorme quarto com um grande ventilador rodando tentando amenizar o calor das cinco camas. Logo na entrada estava Teotônio Vilela numa banqueta, uma garrafa de bom uísque ao lado, rabiscando algumas anotações. Teotônio alegre me informou, “Capitão prepare o coração para ouvir minhas palavras saudando nosso querido Bené, hoje estou inspirado”.

Mais tarde embaixo das mangueiras frondosas, a eloquência e a inteligência de Teotônio deixaram todos emocionados. Aquele discurso devia estar guardado, uma peça retórica para constar nos anais da História das Alagoas. Foi um dos mais brilhantes discursos que ouvi em minha vida. A festa do Bené prolongou-se até mais tarde com muita alegria, parecida com o dono. Terminou tarde da noite, éramos jovens, ainda tivemos fôlego para outras festas, outros Beneditos.

Nesse ano, Nessa semana, tem festa no céu. Teotônio deve estar preparando-se para celebrar os cem anos de Bené, o centenário de nosso querido e inesquecível Benedito Bentes. Ele representa um tempo, uma bela época de nossa cidade. São lembranças que dão uma pontada de saudade.

AMANTE ACIDENTAL

Péricles dirigia devagar rumo à Caruaru quando avistou, ao longe, um pequeno carro estacionando no acostamento. Desceu uma mulher olhando para o pneu traseiro murcho. A jovem senhora iniciou uma série de inúteis pontapés. Péricles parou seu carro, e foi acudir à dama solitária.

Ela chutava o pneu, e chorava. Péricles pediu calma, estava ali para ajudar. A distinta respirou fundo, voltando a si como se estivesse em transe.

Ele levantou o carro rodando o macaco, retirou o pneu furado, colocou o estepe. Enquanto realizava a troca, a madame não deu uma palavra. Ela apercebeu que não tinha retribuído a gentileza de Péricles. Pediu desculpas, disse que estava com a cabeça cheia de problemas e com ódio no coração. Que ele perdoasse. Apresentou-se como Soraya.

– Prazer, Péricles. Olhe aqui minha amiga, nenhum ódio vale a pena.

– Minha raiva é grande. Vontade de matar. De qualquer maneira, desculpe e muito obrigado. Respondeu a morena com a alma infeliz.

Péricles logo chegou à Caruaru. Ele queria curtir as peças de artesanato, a cultura popular do Nordeste.

Almoçou no hotel, descansou. Ao entardecer fez uma visita à feira, aos pontos de folclore, recordando a finada Rosa, foram 23 anos de casamento. Jantando no Restaurante Chapéu de Couro, percebeu que a senhora do carro, a irada Soraya, estava em uma mesa tomando uísque, desacompanhada.

Quando terminava o jantar, sentiu uma pessoa encostar à frente da mesa. Péricles levantou a cabeça, era a moça zangada, sorrindo. Perguntou se podia sentar. Péricles puxou uma cadeira, ato contínuo ela sentou-se elegante e iniciou a conversa:

– Pensei no que você falou. É verdade, raiva mata, deixa o coração ferido. E a vida é uma só. Vou tentar superar a bordoada que recebi, e não se fala mais nisso. Agora conte sua vida. Quem é você, cavalheiro gentil?

Péricles resumiu sua vida. Era de Maceió, estava em viagem solitária pelo Nordeste, sem roteiro predeterminado. Queria refletir sobre sua nova vida, viúvo há seis meses. Não tinha data marcada para voltar.

Soraya achou a história muito interessante. Conhecia bem Alagoas, contou reminiscências, parte da infância morando em Maceió. Enquanto ela falava, Péricles analisou a companheira acidental num restaurante de Caruaru.

Devia ter entre 35 a 40 anos, pele bem cuidada, morena. O braço parecia porcelana. Rosto redondo, cabelos pretos escorridos, bem tratados. Olhos negros vivos como se estivessem acesos, penetrantes, por cima de um nariz levemente achatado. Exalava sensualidade e mistério. Sentiu que havia um grande problema em sua alma, daí esse rancor. Notou uma marca de aliança na mão esquerda. Seria casada?

Ficaram naquela mesa por mais de duas horas em conversa descontraída, alegre, com o acompanhamento do velho uísque. De repente, Soraya olhou nos olhos de Péricles, pegou-o pela cabeça, puxou-o, deu-lhe um beijo na boca. Correspondida, ficaram a chupar línguas. De repente ela pediu sorrindo.

– Quero ir pra cama com você, agora! Tem que ser agora, antes que desista, não quero desistir.

Rápido ele pagou a conta. Sem esperar pelo troco saíram. Entraram no carro de Péricles, partiram em busca de um motel à beira da estrada. Soraya durante o percurso beijava seu pescoço, alisava-o, não se falaram.

Ao entrar no quarto do hotel, ela pediu, “Beije aqui meu amor!”

Péricles obedeceu, fizeram amor até mais tarde.

Depois do êxtase, corpos separados, enquanto ele olhava para o teto, sentiu que Soraya chorava, e aumentava o choro. Estava desesperadamente chorando alto, histérica, lamentando-se, pedindo desculpas como se outra pessoa estivesse presente.

– Seu bosta! Você foi o culpado, você me traiu!

Péricles conseguiu acalmá-la. Soraya contou sua vida.

Era casada, dois filhos já rapazes, morava no Recife. No dia anterior, ao entrar no escritório, flagrou o marido transando com a secretária no tapete Uma prima, que implorou um emprego. Em casa o marido tentou justificar. Soraya não conseguiu dormir. Pela manhã pegou alguma roupa e partiu no seu carro rumo à fazenda de uma amiga no sertão. Ninguém sabia onde ela estava. Desligou celular e partiu, com toda raiva, ódio no coração. Estava planejando matá-lo, entretanto, percebeu que não era a solução. No restaurante, bebendo, armou outro tipo de vingança. Foi o ódio que impeliu transar com Péricles. Estava arrependida, com sentimento de culpa, mas a raiva não havia passado.

Ele ouviu com atenção enquanto trocava de roupa, e admirava aquele belo espécime de mulher.

Já vestidos, ele abraçou-a, deu um cheiro nos cabelos.

– Agora vá dormir no hotel. Amanhã visite sua amiga, depois volte para sua família, você é uma pessoa especial. Não se sinta culpada pelo que aconteceu. A raiva é uma emoção cruel, muito forte, você agiu impulsionada pelo sentimento de vingança. O que aconteceu foi melhor que mandar matá-lo, tenho certeza. O segredo é nosso, ninguém precisa saber o que houve entre nós. Eu amei essa noite, jamais esquecerei.

Saíram do motel até o carro de Soraya. Ela alisou a cabeça de Péricles, deu-lhe um beijo na boca. Olhou em seus olhos e cochichou: “Amei lhe conhecer, essa noite marcou minha vida.” Abriu a porta, sem olhar para trás caminhou lentamente em direção a seu carro.

FERA FERIDA

Praia da Jatiúca

Sábado desci do meu confortável apartamento no Principado da Jatiúca para uma volta na orla. Depois do banho de mar sentei-me a uma mesa no Acarajé da Irmã, tomava uma cerveja geladinha quando percebi a meu lado o Caldas, solitário, triste, quatro garrafas de cerveja consumidas embaixo da mesa. Cumprimentei-o, puxei conversa perguntando por Josina, sua digníssima esposa. Percebi a mancada quando ele me respondeu com mágoa.

– Foi-se embora, me largou!

Caldas sorveu um copo olhando distante para o horizonte do mar azul esverdeado. Pedi-lhe desculpa, não sabia do fato, fiquei cheio de dedos, continuamos um papo ameno, repetitivo, sem graça, quando de repente meu amigo desabafou:

– A sacana está em Paris!

Olhando para o chão, ele abriu o jogo; contou a história nos pormenores.

Na quinta-feira antes do carnaval, Caldas foi à casa de praia da Barra de São Miguel a fim de prepará-la para receber amigos e parentes durante a folia. O casal vivia em certa harmonia mesmo com algumas desconfianças da integridade conjugal do marido. Quando solteiro, Caldas foi um mulherengo incorrigível, um raparigueiro de primeira ordem, por conta disso havia resquícios de sua fama. Na verdade nunca perdeu a mania, o vício de mulher. Durante os 10 anos de casados ele pulou a cerca várias vezes, discretamente.

Da varanda da casa Caldas contemplava a bela vista da praia quando apareceu Lucinha, filha da faxineira para ajudá-lo na arrumação. Ele alegrou-se ao vê-la, “secava” a jovem desde que ela havia retornado de São Paulo, onde foi morar três anos atrás, com menino no bucho em busca do pai. Ficou em Sampa até que o marido desapareceu. Ela tentou sobreviver, foi difícil, teve de retornar à casa da mãe. Lucinha com seus 24 aninhos sabe que tem um corpo bem torneado e por isso usa minissaia deixando à vista o belo espécime feminino. Em São Paulo fez alguns programas, aprendeu coisas inacreditáveis.

Começaram a arrumação da casa, o patrão ficava perturbado ao olhar aquela moça varrendo o chão, limpando vidraça. Os dois sozinhos naquela casa, certo momento não se conteve, se achegou à jovem, alisou seu cabelo, seus braços, ela sorria em cumplicidade, “Que é isso Seu Caldas?” Terminaram deitando-se no tapete da sala, abraçaram-se, beijaram-se, amaram-se até a apoteose gritante. Ainda estavam estirados no chão abraçados quando de repente a porta se abriu. Josina chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio: “Você me paga!” Bateu a porta, retornou à Maceió, dirigindo nervosa, aos prantos.

Caldas não teve coragem de voltar para casa em Maceió. Procurou amigos, parentes, contou a história, pediu para fazer a ponte, ele estava arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Josina irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

Sábado de carnaval, tristonho Caldas acordou na casa na Barra, pensava muito, avaliando a bobeira que havia feito ainda bem que não tinham filhos. À noite foi dar uma volta no carnaval do centro da pequena cidade balneário. Teve um susto quando viu Josina com um short curto, barriguinha de fora, toda charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Ele deixou passar um tempo, os olhos dos dois se cruzaram. Até que certa hora o álcool deu coragem, Caldas foi até Josina. Ela o empurrou, disse que chamava a polícia. Levaram Caldas bêbado para casa. No domingo deu-lhe depressão. À noite foi pior. Ao ver Josina abraçando e beijando a boca de um jovem surfista, Caldas partiu para cima da mulher, puxou-a pelo braço, arrastando-a para casa, nesse momento levou um soco do acompanhante. Mais tarde levaram novamente bêbado para dormir. Durante o resto do carnaval ele procurou, mas não conseguiu encontrar Josina. Ela desapareceu de casa com roupas e pertences.

Caldas soube notícia da mulher dias depois, quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, Josina transferiu R$ 320.000,00 da conta conjunta para sua conta particular, viajou para o Recife, de lá tomou um avião para Europa. Não sabe quando volta, o detalhe, o jovem surfista está fazendo companhia em seus passeios parisiense e em sua cama no hotel à beira do Sena.

Ao terminar de contar a trágica história, estávamos na 10ª garrafa, passaram duas mulheres belíssimas de tanga, Caldas não teve apetência sequer em olhá-las. Vingança de mulher é igualzinho à fera ferida, nem o cão dá conta!

JEREMIAS, O BOM

Todos amam o Jeremias, ele vive praticando o bem sem esperar recompensa ou elogio. Aposentado da Assembleia Legislativa, trabalha por conta própria vendendo carros usados em sua loja. Dois filhos independentes, casados, ele adora os netos quando chegam perturbando seu domingo. Vida tranquila junto a sua amada esposa, Antônia, que o venera.

Acontece que, Jeremias tem um fraco na vida, gosta de garotas de programa. Na cabeça dele não é traição sair com alguma dessas meninas. Ele diz que paga pelo silêncio, pela tranquilidade. Amante é que é cara.

Jeremias nas sextas-feiras vai trabalhar de taxi. Às 12:00 horas sai para almoçar com os amigos, Antônia não se incomoda, sabe que é uma diversão de seu marido e amigos. Acontece que o almoço terminava por volta das três da tarde; nessa hora, Janice uma dileta amiga, cafetina de alto luxo, encosta o taxi perto do restaurante. Jeremias paga parte da conta, despede-se dos amigos com a frase: “Sinto retirar-me do recinto, mas o dever me chama, outro valor mais alto se alevanta”. Dirige-se ao taxi, abre a porta traseira, cumprimenta a bela garota que o espera com um sorriso, algumas vezes repete a mesma mulher. Deixa Janice no centro da cidade, bem remunerada, e dana-se com a moça para um motel. Marca o taxi para pegá-lo de volta em torno das 18 horas. Essa tarde de amor é seu único pecado.

Cerca das 19:00 horas ele chega em casa, às vezes um pouquinho de pileque. Toma um banho, janta conversando besteira, peculiar aos bêbados, às 22 horas Jeré está no terceiro sonho. Por volta das 23 horas Antônia toma um banho relaxante, demorado, veste uma lingerie e deita-se junto ao esposo roncando. Ela sabe que às 6:00 horas da manhã ele a acorda excitando com beijos e carinhos até chegar a hora do amor. Antônia adora essas manhãs eróticas dos sábados.

Durante a época do Natal Jeremias presenteia todas as garotas que saíram com ele durante o ano. Convoca Janice para organizar uma reunião de Natal sempre em um restaurante discreto.

Certo ano Janice apareceu no escritório de Jeremias com a relação das meninas, eles fizeram um cálculo, eram 28. Jeremias deu R$ 3.000,00 para comprar 28 presentes na faixa de R$ 100,00, sobravam R$ 200,00, era o trabalho da cafetina. Na quinta-feira Janice telefonou avisando que o almoço de natal estava organizado no “Restaurante Onde Canta o Sabiá”, local amplo dentro de um sítio, além da casa e terraços, havia um enorme quintal com frondosas mangueiras.

Durante a noite da quinta-feira, Antônia comunicou ao marido que no outro dia haveria o almoço de Natal com o pessoal de sua repartição, ela trabalhava no IMA, só os funcionários, os maridos e esposas não eram convidados. Jeremias num sorriso largo comentou: “Vão fazer uma farrinha, né?” – “Também somos gente”, ela respondeu sorrindo.

Na sexta-feira ao meio dia Jeremias entrou num taxi pelo portão do Restaurante Onde Canta o Sabiá, passou direto e foi para uma enorme mesa no fundo do quintal onde já se encontravam as 28 raparigas e a cafetina. A mesa ornamentada com os presentes que seriam distribuídos durante o almoço. Jeremias nem precisou pedir, o garçom veio com um prato de caranguejo goiamum gordo e uma cerveja bem gelada. A alegria das meninas chamou a atenção das mesas da varanda.

Por volta das 13:00 horas, por sorte, Jeremias percebeu entrando pelo portão um carro parecido com o de Antônia. Ele ficou na espreita e o coração disparou, teve uma taquicardia quando viu sua mulher descer do carro com amigas e dirigir-se a uma mesa na varanda. Imediatamente Jeremias correu para o banheiro do quintal, mandou chamar o dono do Restaurante. Ficou esperando meia hora quando bateram à porta do banheiro. Jeré saiu num pulo, entrou atrás do carro, deitou-se, e pediu para o taxista sair discretamente. Só ficou sossegado quando estava na Avenida Fernandes Lima. Aliviado, procurou uma barraca de praia, encontrou amigos, tomou algumas cervejas, ainda preocupado. Ao chegar em casa às 19:00 horas Antônia estava na sala. Ele perguntou. “Como foi o almoço?” Ela: “Foi lá no Tabuleiro, Restaurante Onde Canta o Sabiá. Você acredita que havia uma comemoração de natal de raparigas, nunca vi tantas putas juntas. Elas também têm direito! Vá dormir Jeré, você parece preocupado. Amanhã, não esqueça, me acorde.” Sorriu debochada.

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

– Doutora, na verdade estou cansada do Renato, me abusei da vida casada. Casei-me cedo aos 21 anos, hoje com 28 ainda me sinto jovem, meu marido passa a noite em casa assistindo novela e jogo de futebol. Sem filhos, minha vida é um tédio, acabou a alegria do casamento. Quando fazemos amor é burocrático, obrigatório. Confesso, já tive vontade e oportunidade de traí-lo, entretanto, não faz minha cabeça, tenho forte sentimento de respeito, quero apenas meu marido como era antes. Oriente-me, por favor!

A doutora Fernanda da Silveira olhou para Maria Alice, pigarreou discretamente, com fala bem compassada deu sua opinião.

– Minha querida, você está passando pela crise dos sete anos, todo casal tem esse problema. Está na hora de temperar esse casamento, a cama é ótima para reorganizar uma vida a dois. Faça uma surpresa, no fim de semana você convida o marido para assistir a um bom filme, alugue um com cenas quentes de sexo. Compre três garrafas de bom vinho, vista um lingerie sensual, e vamos ver no que dá.

Um mês depois Alicinha retornou radiante, satisfeita da vida.

– Doutora foi um santo remédio, não havia acabado a segunda garrafa de vinho, nem terminado o filme, nós já estávamos abraçados no tapete, tudo como antigamente. Renato adorou, no sábado ele saiu para escolher o filme, a senhora salvou meu casamento. Ele está interessadíssimo, comprou até o Kama Sutra para praticarmos posições durante as sessões de cinema.

Passaram-se alguns meses, Maria Alice retornou à psiquiatra. Entrou nervosa.

– Doutora, desde aquela época nós estamos praticando experiências novas na cama, coisas que jamais pensei fazer, eu adorando. Acontece que Renato me perguntou se eu já tinha ouvido falar em swing, eu pensava ser um ritmo de música. Ele sorriu e explicou: “Existe aqui no Rio de Janeiro o Clube de Swing, entretanto, não é para dançar, esse swing é a troca de casais. Os casais se encontram conversam, bebem, quebram o gelo, depois cada qual arrasta a mulher do outro para o motel. Quando termina é como nada tivesse acontecido.” Continuou: “Nós dois já fizemos todas as experiências que imaginávamos. Será que você toparia fazer essa novidade?” Eu fiquei chocada, sem saber responder. Não é um procedimento correto, ético, mesmo que o casal esteja em crise conjugal. Comecei a achá-lo um grande salafrário, me trocar, saber que eu vou com outro homem que mal conheço. Isso é degradante. Que decepção. Estava tão bom o Kama-Sutra, me ajude doutora.

– Querida Alicinha, para algumas pessoas a traição é relativa, é o caso de seu marido aceitar a troca de casais, já para você é inconcebível pela sua formação moral, intelectual e ética. Embora eu seja sulista, conheço bem os padrões rígidos da educação nordestina, porém, a decisão é sua. Nada posso aconselhar. Faça o que seu coração mandar.

Na sexta-feira à noite Renato voltou a insistir no swing. Era a evolução dos costumes, dos casais modernos. Alice constrangida, com o coração apertado aceitou a proposta, só para satisfazê-lo. Foram ao Clube do Swing, tomaram uma mesa, pediram uísque, Alicinha nervosa e chateada. Logo apareceu um casal pedindo para sentar. Muita conversa, Renato estava radiante quando viu a bela mulher da troca. O marido também era um cara bonito. Beberam muito, conversaram, sorriram, até que chegou a hora da troca. Alice com o coração aos pulos. Ao entrar no quarto do motel ela caiu no choro, pediu desculpas ao parceiro, não quis de jeito nenhum. O parceiro educadamente mandou-a continuar chorando, compreendia, era a primeira vez. Ele foi elegante não se sentiu ludibriado. Levou Alice para seu apartamento em Copacabana.

Ela agradeceu ao cavalheiro. Em casa ficou contemplando o mar, pensando. Três horas depois chegou Renato satisfeito da vida, perguntando. Que tal? Gostou? Alice teve nojo do marido, vontade de jogar-lhe um vaso na cara. Cansado ele vestiu o pijama e deitou-se. Enquanto o marido dormia, ela arrumou três malas, tomou um taxi para o aeroporto. Pegou um avião, retornou para sua querida cidade.

Ficou um tempo no apartamento dos pais que lhe deram todo apoio. Alicinha está solteira e feliz, é vista nos bares bem frequentados pelas mulheres mais descoladas da cidade. Vez em quando, em seu pequeno apartamento, ela oferece um bom vinho a algum parceiro, assistindo a um bom filme. Outro dia Renato telefonou, ela foi taxativa, jamais voltará. Ele quis saber em que momento ela decidiu a separação e viajar de repente. Alice respondeu simplesmente. “Enquanto você dormia.”


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