A RAPADURA

Wanderley Gomes Sardinha, hoje, coronel reformado do Exército Brasileiro, excelente historiador, nasceu na bela cidade de Lorena no Vale do Paraíba em São Paulo. No longínquo ano de 1956, com 16 anos, submeteu-se ao difícil concurso e ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Fortaleza; onde passou três anos estudando, aprendendo a dureza da vida militar. Ficou encantado com o Nordeste, as bonitas praias, a amabilidade do povo. Como é glutão apaixonou-se pela comida típica da região. No final de semana almoçava na casa de colegas cearenses, carne de sol, macaxeira, frutas, mangaba, siriguela, e principalmente a rapadura na sobremesa, com um prazer divino dava dentadas nas barras douradas deixando os pedaços derreterem-se no céu da boca. Seu café da manhã predileto era inhame com mel de rapadura.

No final dos anos 60 Wanderley, promovido a Capitão, foi servir em sua terra no 5º Regimento de Infantaria de Lorena, cidade vizinha à Piquete onde seu colega de turma, cearense, Capitão José Rocha servia na Fabrica de Material Bélico. Os dois capitães sempre se encontravam. No Brasil era época de repressão e terrorismo. Principalmente em São Paulo onde aconteceram vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso marcante do Capitão Lamarca, amigo e contemporâneo dos dois capitães na Academia Militar das Agulhas Negras.

Rocha depois de uma viagem de férias ao Ceará, como sempre, trouxe barras das deliciosas rapaduras para o amigo. No início da tarde de uma quarta-feira, não havia expediente no 5º RI, o capitão Rocha parou o carro em frente ao quartel, chamou um soldado da guarda e entregou-lhe um pacote de rapaduras embrulhadas em palha de milho, envolta em papel de jornal. Pediu para ser entregue ao Capitão Wanderley.

Nesse momento o tenente, oficial de dia, observava de sua janela, notou quando alguém entregou um embrulho à sentinela, deu partida e acelerou o carro cantando o pneu.

Imediatamente o tenente deixou a sala correndo, gritou ordenando ao soldado para colocar o embrulho no chão do pátio, mandou tocar alarme geral. Nervoso, gritava: Cuidado, é uma bomba! É uma bomba!

Os soldados que se encontravam no quartel, bem treinados, tomaram posições estratégicas, ficaram protegidos atrás das colunas e paredes. Ao longe a ”bomba”, imóvel, soberba e inatingível no chão do pátio.

O quarteirão foi interditado, o trânsito desviado para outras ruas e impedindo qualquer pessoa aproximar-se. O embrulho em papel jornal, incólume, solitário, amedrontava aos soldados e à população que espreitava das varandas nos prédios da vizinhança.

Logo a mídia tomou conhecimento. Os jornais da região enviaram repórteres. As televisões de São Paulo tomaram o caminho de Lorena. .Jornalistas e fotógrafos penduravam-se em prédios, fotografando, ao longe, a bomba. Aguardavam um sargento sapador especialista em desarmar bombas, vindo da cidade de São Paulo.

Nesse clima de tensão, ignorando o fato, o Capitão Wanderley, depois de uma relaxante pescaria, entrou calmamente na cidade em seu fusquinha cinza. Logo notou o movimento estranho nos arredores do quartel.

Os soldados que faziam o controle do trânsito contaram-lhe o ocorrido, deixando o capitão passar. Wanderley parou o carro na entrada do 5º RI, ao olhar a suposta bomba, reconheceu de imediato ser um abençoado pacote de rapadura trazido pelo amigo Capitão Rocha.

Contou ao tenente sua versão sobre a suposta bomba de terrorista. O Tenente nessa altura não admitia outra hipótese, era uma bomba.

Os soldados abrigados atrás das colunas ficaram apavorados ao perceberem o Capitão caminhar indefeso em direção á bomba. Wanderley, com água na boca, pensava na deliciosa rapadura. Parou em frente ao embrulho. A expectativa e o silêncio tomavam conta da multidão, dentro e fora do quartel, acompanhando a insensatez do capitão.

Num gesto contínuo Wanderley abaixou-se, de cócoras, segurou o pacote, abrindo pelos lados, tirando jornal e palhas de bananeiras até aparecer uma bonita barra dourada da rapadura.

Com os dedos indicador e mindinho, Wanderley levou uma barra à boca, deu uma gostosa dentada quebrando um pedaço de rapadura. Ato contínuo colocou o pacote nas axilas, caminhando em direção ao portão. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os lábios diante de uma enorme plateia incrédula e boquiaberta. Estavam esperando uma tremenda explosão.

Naquela época de terrorismo e repressão, a paranoia era contagiante.

A VOLTA AO MUNDO EM 5.237 DIAS

Anunciada tinha apenas 10 anos quando aconteceu o acidente de carro. Seu pai morreu e ela teve sérias fraturas, passou mais de dois meses no hospital, sobreviveu graças a uma promessa, segundo sua mãe, mulher controladora e mandona. Quando Anunciada completou 16 anos foi internada num convento, cumprindo a promessa de Dona Zélia. A jovem tornou-se frágil, temente a Deus e à mãe, aceitou resignada seu destino, ser freira. Estava em paz consigo, dois anos interna preparando-se para o noviciado, quando apareceu no convento o Padre Ramalho, ainda moço, beirando os 30 anos, alto, forte, alegre e bonito. Mexeu no coração e nas vísceras de Anunciada. A imagem do padre deu-lhe inquietude, desconcentração, insônia. A recíproca foi verdadeira, o padre encantou-se com a morenice, os olhos amendoados, os cabelos negros daquela noviça meiga. O Demônio atenta, e fez com que Anunciada ficasse como ajudante do padre durante as missas e preparativos. Com mais dois meses, os dois jovens estavam enfeitiçados. Aconteceu o previsto pelo Cão. Numa noite de lua nova, por trás da sacristia, o sangue escorreu pelas pernas de Anunciada. Continuaram encontrando-se, amando-se, até que um dia a madre superiora teve certeza que havia alguma coisa entre os dois, só pelos olhares e tomou uma decisão. Entregou a freirinha em sua casa afirmando falta de vocação, Deus perdoaria a promessa.

Anunciada ficou um mês e doze dias trancada em seu quarto, só saía para comer. Chorava a noite toda, a mãe pensava ser frustração em não ser freira, nunca imaginou que era saudade do Padre Ramalho. Noites insones se possuindo. Certa tarde Manuela, sua prima, foi visitá-la, conseguiu tirá-la daquele estado letárgico. Mostrou-lhe as noitadas de Maceió. A partir daquela data Anunciada dedicou-se à boemia e aos homens.

Em certo janeiro ensoralado um turista grego, passageiro do Maru Costa, convidou-a para conhecer o navio. Fizeram amor no camarote. Ao acordar-se no dia seguinte, o transatlântico atracava no Recife, havia viajado como clandestina. Daí aceitar o emprego de “massagista” no navio foi um pulo. No dia seguinte o Maru Costa partiu para Tenerife, sete dias de viagem pelo Oceano Atlântico. Não foi difícil arranjar clientes. Comprou roupas a bordo. À noite entrava nos salões encantando homens e mulheres. Na semana de viagem ganhou tanto dinheiro que não acreditou. Com apenas 19 aninhos tornou-se “massagista” de alto luxo. Teve uma conversa com o comandante, ficou no camarote como viajante permanente. Anunciada engrenou sua vida, enviava cartas e dinheiro para mãe orgulhosa com a filha, dizia ser comissária de bordo.

A divina brasileira, como a chamavam, ficou embarcada em camarote privado durante semanas, meses, anos. Percorrendo o mundo.

Anunciada exerceu a profissão de massagista durante 14 anos, 4 meses e 2 dias inquilina do Maru Costa. Apenas uma vez retornou à Maceió, de avião, para o enterro de sua mãe. No Parque das Flores todos queriam falar ou ver a menina Anunciada que um dia partiu sem destino, continuava solteira, charmosa, rica, misteriosa. A bela mulher abafou, vestido negro decotado, não passou mais dias na cidade porque o navio ia partir de Sydney na Austrália para Amsterdã na Holanda. O comandante telefonou pedindo sua presença, ela fazia parte do patrimônio no navio.

Assim Anunciada viajou por todo mundo, conheceu homens de toda espécie, escandinavos, latinos, asiáticos, africanos. O felizardo que passou uma noite com Anunciada na cama, jamais a esqueceu. Durante esses anos ela teve 875 propostas de casamento, todas recusadas, seu destino é a liberdade, dizia. O nome de Anunciada ainda corre nos quatro cantos do mundo como de fosse uma feiticeira do amor. Quando o navio atracava nos portos já havia fila de clientes para receber a brasileira nos hotéis da cidade. Seu nome tornou-se lenda na Europa, no mundo.

Até que o navio Maru Costa teve sérios problemas, antes de se aposentar, antes de o explodirem, fez seu último cruzeiro, por coincidência o mesmo roteiro em que Anunciada embarcou anos atrás. Deu uma tristeza na “massagista”, sentia-se parte do navio. Ela estava disposta a esconder-se e explodir-se junto com o navio. Quando o Maru Costa atracou em Maceió de passagem, o céu estava ensolarado, o mar era verde esmeralda com matizes azuis. O coração de Anunciada disparou, acabou a depressão, arrumou-se, pegou suas malas, desembarcou para sempre em sua terra.

Quem quiser conhecer nossa heroína, Maria Anunciada, é só visitar uma casa de massagem no bairro da Serraria. Ainda bela, aos 34 anos, ela atende com mais três jovens massagistas. Dizem que os clientes da casa preferem a coroa, por sua experiência e sabedoria. Os mais íntimos, ao ouvirem suas histórias, perguntam, “dos homens que teve a seus pés, qual o que mais amou”. Ela não hesita, afirma com segurança, sorrindo: “O primeiro amor ninguém esquece.”

A PELERINE

Adalberon cursava a Academia Militar das Agulhas Negras nos anos 60. Orgulhava-se de ser cadete e adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava à Maceió nas férias.

No seu último ano do curso, ele aproveitou uma semana de férias de junho voou para sua terra. Foi convidado para uma festa de 15 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico deputado, morava numa mansão na praia de Pajuçara.

Decoração suntuosa, mesas espalhadas nas salas, muita bebida e comida. A Orquestra Tabajara de Severino Araújo animava o aniversário de Betinha.

Os jovens dançavam no imenso salão iluminado por quatro vistosos lustres. Adalberon vestiu sua farda de gala, como chovia, ele levou também sua pelerine azul marinho, capa longa usada como integrante do uniforme do cadete, que cobre os ombros e a parte superior do corpo, com fendas para os braços.

Quando a orquestra iniciou uma bonita música Adalberon avistou uma jovem no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça vestida de preto. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Certo momento ele perguntou por seu nome. Ela se chamava Neuza, a melhor amiga de Betinha, a aniversariante. Ele também se apresentou dizendo que no final do ano se formava na Academia Militar. Neuza respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. – “Eu já sabia!”.

O cadete ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Academia Militar. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo ao do cadete, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Neuza lhe falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da mansão apanhou a pelerine. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a da chuva e correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. Quando passava pela Avenida da Paz, Adalberon puxou o rosto de Neuza e deu um beijo ardente em seus frios lábios. De repente percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça da Faculdade de Medicina Neuza tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a pelerine.

Adalberon seguiu com olhar os passos de Neuza até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o cadete apaixonado acordou-se com a figura da namorada gravada na cabeça e no coração. Quando o relógio bateu sete horas da noite Adalberon estava na Praça da Faculdade olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Neuza. Até que uma senhora se assustou quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Neuza ainda morava naquela casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Neuza, contou como havia conhecido, tinham marcado encontro naquela noite na praça.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha feito um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história emudeceu.

Quando acalmaram Adalberon contou detalhes do encontro da festa. Inclusive que havia deixado com Neuza sua pelerine.

Os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até a capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Neuza. Ao se aproximarem deu-se a grande surpresa, a pelerine azul marinho cobria o túmulo de Neuza. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher vagueia pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher de preto circulando pelas ruas.

57 anos se passaram desse acontecimento, o Coronel Adalberon todos os anos viaja à Maceió, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar um terço no túmulo de Neuza.

A MULHER DO TENENTE

Avenida da Paz, Maceió, anos 50

Ele era tenente, alto, forte e atleta, campeão de vôlei e basquete. Mas gostava mesmo era de outro jogo mais maneiro, um carteado. Aos domingos sempre almoçava em minha casa, assim que chegava entrava na rodada domingueira de pôquer baratinho, que meu pai jogava com alguns vizinhos.

Eu, no início da adolescência, admirava aquele tenente desenvolto, risonho e franco. Porém, a maior admiração era o que ele tinha de mais bonito, sua mulher. Quando o tenente sentava para jogar, ela dizia não entender como podiam perder uma praia tão bonita como a da Avenida da Paz. E me chamava para acompanhá-la, dar um mergulho. Aos domingos eu ficava em casa de propósito, à espera do jovem casal e desse convite.

Ela me abraçava pelo ombro e descíamos à praia, sentávamos na areia branca e fina embaixo da sombrinha. A Deusa era olhada e desejada por todos os homens de todas as idades. Ficavam contemplando o ritual, a divina tirava devagar a blusa e o short até aparecer seu biquíni cavado sempre em tecidos floridos. Acredito que tenha sido o primeiro biquíni usado nas praias de Maceió.

Estirava a toalha na areia, pegava um livro e deixava que o Sol e os olhos pecaminosos dos homens, inclusive os meus, tomassem conta daquele corpo perfeito, pernas esguias douradas, penugens lourinhas oxigenadas, como se fossem enfeites, dava um irresistível desejo de alisá-las. Ela pedia que lhe chamasse quando estivesse na hora do almoço para dar o último mergulho e irmos juntos para casa. Na hora do futebol, eu deixava aquela mulher deitada ia bater minha pelada. Ficava me gabando, fazendo inveja em ter uma amiga carioca. Os amigos e os mais velhos queriam saber tudo sobre aquele monumento. Antes do almoço mergulhávamos juntos, ficávamos na brincadeira de dar caldo um no outro, cruzando nossas pernas embaixo d’água ela gostava daquele jogo, de propósito alimentava minhas fantasias.

Havia um grande advogado em Maceió, com fama de competente e mulherengo. Um dia a bela criatura teve que recorrer ao doutor sobre uma herança. O famoso causídico que era um tremendo canalha, passou a maior cantada em nossa Deusa. Ela discreta, com classe se esquivou, terminou a conversa, foi embora, prometendo nunca mais voltar àquele escritório.

Só porque vestia roupas leves, sensuais, andava de biquíni nas praias e nos clubes, era uma moça extrovertida, a típica carioca, o doutor fez um erro de avaliação e continuou no assédio, por telefone ou quando a via. Mas a moça era honesta, aguentou quanto pôde o assédio. Até que um dia, acabou a tolerância, contou toda a hist6ria para seu tenente, alto, forte e bonito.

Ele mandou a esposa marcar um encontro na própria casa dizendo que o marido viajaria. No dia, na hora, sem atrasar um minuto o doutor bateu em sua porta. Logo ao entrar, ela constrangida, mandou-o sentar-se. Mas o doutor estava com a cabeça virada, agarrou-a, sem as preliminares que a hora exige.

No momento em que tentava abraçá-la, apareceu o tenente na sala empunhando uma pistola 45.

O susto deu um branco literalmente no doutor, ficou da cor de papel, gaguejava tentando explicar. O medo foi enorme, o doutor cagou-se na calça, e pedia suplicante: “Não me mate, não me mate.” Ajoelhou-se chorando.

O tenente disse-lhe que o mandaria às profundas do inferno, onde jamais cantaria uma mulher honesta. O famoso advogado chorava e gemia, pedia perdão. O tenente deixou prolongar por um tempo a expectativa, gozando do choro do conquistador. Certo momento ele pediu a mulher trazer-lhe um copo grande na cozinha. Pegou o copo, desabotoou a braguilha e num jato forte mijou dentro do copo. Levantou o copo cheio de xixi com a mão esquerda e a pistola com a direita, disse alto em bom tom: “Não lhe mato, mas você vai beber o meu mijo.”

O doutor não teve dúvida pegou o copo, colocou os lábios na borda e tomou aquele liquido amarelo, ainda quente e espumante. Quando terminou, tremia de medo, de pavor. Nesse momento o tenente foi ríspido: “Vá embora seu filho de uma puta e nunca mais cruze comigo ou com minha mulher, na próxima vez, sem perdão, meto uma bala nos seus cornos.”

Eu ouvi essa história contada pelo próprio tenente a meu pai. Sentado perto dos dois, eu fazia que estava organizando a coleção de selos como quem não quer nada, emocionado prestando atenção à história. No domingo seguinte desci à praia mais cedo. Quando a musa apareceu na praia me deu um alô com as mãos perguntando: “Onde está meu cavalheiro que não me esperou?”

Aproximou-se abrindo os braços, me abraçou forte. Ao deitar-se na areia, fascinado olhei suas apetitosas pernas, lembrei-me da história. Pensei. “Se o tenente descobre meus desejos, vou terminar comendo cocô.”

MÁRIO LIMA

Nesse mês de outubro de 2018 meu pai faria 110 anos. Eu o amava, eu o admirava. O general Mário Lima educou os filhos pelo exemplo, por suas atitudes. Homem de pouco falar, de muito agir, dedicou sua vida à família, aos amigos e principalmente à sua terra. Foi um homem íntegro, capaz, corajoso; uma das grandes figuras do século XX das Alagoas.

Iniciou sua vida adulta muito cedo, fez concurso para a Escola Militar de Realengo. Ao sair aspirante em 1930 foi servir no 5º Regimento de Infantaria em Lorena, interior de São Paulo. No início de 1932 conseguiu transferência para o 20º Batalhão de Caçadores em Maceió. O destino foi cruel, em julho de 1932 rebentou a Revolução Constitucionalista (ou separatista) de São Paulo. O 20º BC foi uma das tropas legalistas designada para lutar contra os revoltosos paulistas. O tenente Mário Lima embarcou como comandante da 1ª Companhia de Fuzileiros do 20º BC no porto de Maceió para combater os paulistas, combater seus amigos do 5º RI, cujo comandante era destacado revoltoso. A revolução de 1932 foi o maior genocídio do Brasil, morreram milhares de brasileiros. Recentemente fiquei com maior orgulho quando li um livro sobre a Revolução de 1932, o tenente Mário Lima aparece como herói daquela guerra. Arriscou sua vida no meio do tiroteio arrastando para trincheira um capitão e um soldado, feridos, no campo de batalha. No livro tem o depoimento de um soldado do 5º Regimento de Infantaria que recusou atirar contra a tropa do 20º BC, pois seu ex chefe, tenente Mário Lima, estava naquela tropa. Os paulistas perderam a guerra. O Vale do Paraíba foi ocupado pelas tropas legalistas, o mais sangrento campo de batalha da História do Brasil, brasileiros contra brasileiros. O tenente Mário Lima foi designado como “prefeito de ocupação” do Vale do Paraíba, teve uma atuação humanitária com os irmãos brasileiros revoltosos que perderam a guerra. Essas e outras histórias constam no livro dos próprios paulistas, do historiador Wanderley Gomes Sardinha.

Mário Lima serviu por muitos anos em Maceió. Seu trabalho extrapolava as atividades militares. Desportista, meteu-se em futebol, equitação, foi até juiz de históricas partidas de futebol. Quando havia um CRB x CSA era juiz de fora ou o tenente Mário Lima para apitar, embora ele fosse notório torcedor do CRB a diretoria do CSA aprovava sua atuação como juiz da partida. Foi presidente da FAD, do CRB, Fênix. Até recentemente, o campeão do primeiro turno do campeonato alagoano ganhava a Taça Mário Lima.

Serviu quase toda vida no 20º BC, ele chamava com muito orgulho de “Meu Batalhão”. Sua vida social dentro da comunidade foi intensa. Quando coronel comandante do 20º BC, no início dos nos 50, Alagoas passava uma fase política conturbada, Mário Lima teve uma atuação destemida, evitou um grande derramamento de sangue, garantiu com a tropa do Exército a eleição. Foi um homem que soube diferençar exageros. Amenizou a cadeia de muitos comunistas. Ao se reformar do Exército dedicou-se ao trabalho na Santa Casa, no Orfanato São Domingos, na TELASA e tornou-se professor de matemática, para ajudar a criar os filhos.

No domingo anterior ao carnaval havia o banho de mar à fantasia na Avenida da Paz. Mário Lima, cedo, preparava dois caldeirões de laco-paco, batida de maracujá e mel de abelha, para servir aos blocos que visitavam sua casa. Após o desfile defronte à Fênix, todos os blocos, Vulcão, Bomba Atômica, Cavaleiro dos Montes, Vou Botar Fora, entre outros, dirigiam-se à nossa casa. Os músicos eram servidos com laco-paco, cerveja, tira-gosto. Em seguida tocavam frevos rasgados e nós caíamos no passo naquele enorme terraço. Quando o bloco saía, acompanhávamos até a Avenida, retornando correndo para pegar outro bloco que já esquentava a garganta. Tornou-se tradição a visita de blocos durante o banho de mar à fantasia na casa da Silvério Jorge. Os amigos caíam no passo com muita alegria, não perdiam o carnaval improvisado.

Hoje, domingo sem festa e sem fantasia, lembro os carnavais passados e meu velho amigo, meu pai, meu herói, Mário Lima. Ele ainda habita nossas recordações, nossas mentes e corações. Estaria preocupado com a situação do país, era um democrata. Semana passada encontrei uma carta que meu pai enviou em 1956 quando eu cursava a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, me aconselhava:

“..Pensa sempre no bem do Brasil. Sirva mesmo de rumo aos teus atos e ações o pensamento constante na grandeza da Pátria querida. Porém jamais te cumplicies aos aventureiros da política malsã que infelizmente ainda infesta o Brasil. Seja sempre digno, mantenha sempre bem alto o alvo de tuas ambições e afetos; porém também sempre te lembres que são injustificáveis as “quarteladas” e a “ditadura”…

Guardo essa carta há 62 anos, minha bíblia.

O PEQUENO PRÍNCIPE

Ninguém sabe de onde veio, nem ele, certeza apenas que sua origem é sertaneja. A mãe o abandonou na Praça do Centenário quando Maurício não havia completado dez anos. Era um menino bonito de chamar atenção. Olhos azuis, vivos, ficavam procurando se fixar em algum lugar, pareciam pedir socorro. Abandonado, sozinho, ficou a vagar pela cidade grande, sua pele alva e cabelos louros mostravam sua descendência de holandeses fugitivos, expulsos de Pernambuco pelas tropas portuguesas que se esconderam, se embrenharam, se fixaram no sertão nordestino. Esses holandeses se miscigenaram com caboclos, aparecendo essa raça de galegos sertanejos que os índios Xucurus de Palmeira dos Índios chamaram de mirigongos.

O menino enjeitado, triste e assustado, andou durante dias pelas ruas de Maceió, dormindo sob marquises, faminto, encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria ter aqueles amigos, logo se tornou um líder entre os menores que perambulavam pelo centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Viviam de pouca esmola, do que achavam no lixo, e de alguns roubos fortuitos. Assim ficou Maurício nas ruas, abandonado por mais de quatro anos pela cidade, sem escola, sem casa, sem documentos. Sua família eram os colegas de rua, de cola e de cruz.

Maurício andava por toda Maceió, certa tarde ficou a futucar um container de lixo numa rua da Jatiúca. Alzira, moradora de um prédio vizinho, olhando da janela, teve pena do menor abandonado, agradou-lhe a silhueta daquele menino esguio, louro, cabelo escorrido até os ombros, com vestes maltrapilhas, parecia o Pequeno Príncipe mendigo. De repente, ao acaso, ele olhou para a coroa, sorriu. Ela respondeu-lhe com outro sorriso e com a mão direita aberta deu um sinal para ele esperar. Alzira desceu com um bolo na mão, ao aproximar, sentiu uma forte empatia, um afeto maternal pela criança. Maurício recebeu o enorme bolo com alegria, dividiu com os amigos, fizeram uma festa. A partir daquela data, todo o dia, o menino cheira-cola aparecia em frente do edifício, a coroa lhe dava o que comer.

Alzira havia completado 41 anos no dia que conheceu Maurício, dizia para si mesma que foi um presente de Deus. Mulher sofrida teve o coração despedaçado, noiva durante 19 anos de um médico, na véspera do casamento, ele fugiu com uma aluna da Faculdade. Um trauma para Alzira, ainda hoje mulher bonita, vistosa, mesmo quarentona, tem muito charme, é o que se pode chamar de coroa gostosa. Desde sua decepção amorosa mora sozinha, não quis mais namoro ou sexo, permaneceu virgem.

Esse menino veio preencher sua carência afetiva, com pouco tempo ele ficou morando no quarto de empregada, almoçava com a única empregada, tornou-se secretário para compras e outros afazeres. Alzira ficou apegada com o adolescente, durante as noites ensinava o alfabeto, a contar, até que o matriculou no Colégio Diocesano onde os Irmãos Maristas têm curso noturno para os necessitados que não podem pagar colégio.

Maurício é caladão, casmurro por natureza. Depois de algum tempo, Alzira descobriu que o sonho dele era uma prancha de surf. Deu-lhe uma prancha de presente. O jovem ficou feliz da vida correu para surfar na praia de Cruz das Almas. De bom coração nunca abandonou os amigos de rua, quando vai ao surf, seus amigos de rua, pegam carona na prancha. Quando ele pode, arranja dinheiro ou comida para seus ex-colegas. Maurício é alma boa.

Com os anos Maurício tornou-se um forte e belo rapaz, típico surfista. Estudioso, vai fazer vestibular de Direito, quer ser um bom advogado, o que torna mais feliz ainda sua mentora, Dona Alzira, como ele a chama.

Maurício deixou a dependência de empregada, agora dorme em seu próprio quarto. Mostra sempre sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, que lhe deu o que um jovem da classe média pode ter. Está aprendendo a dirigir, carro prometido se passar no vestibular. Para Alzira é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho. Nas refeições divide com ele a mesa. Segundo línguas ferinas, invencionice dos que não tem o que fazer, durante a noite, divide também a gostosa cama forrada de colcha de linho e travesseiros de marcela. Alzira anda na maior felicidade, apenas um problema: administrar o ciúme das paqueras que dão em cima de seu belo Pequeno Príncipe.

OS OITO CADETES

Recentemente visitei a bela cidade de Resende. Fui comemorar com colegas o 57º aniversário de formatura de minha turma na Academia Militar das Agulhas Negras. Ao ultrapassar novamente o Portão Monumental da Academia vieram-me lembranças e emoções do jovem cadete que fui. Assim que entrei, caminhei pelos quatro cantos da escola de minha vida, revi as pérgolas, a enorme biblioteca, o refeitório, os apartamentos onde dormíamos. Os campos de futebol, atletismo, ginásio, piscina. Na AMAN se pratica um bom esporte. Revi as salas onde todo dia assistíamos aulas de, Português, Física, Psicologia, Direito, e tantas outras matérias, matemáticas e humanas, como também instrução militar, tática e emprego de tropas. Naquelas salas aconteciam provas mensais, o professor entregava a prova, saía da sala, ninguém filava (colava), fazia parte no Código de Honra, não escrito.

Ficamos em Resende alguns dias, relembrando nossas vidas juntas naquela imensa AMAN, depois cada qual foi servir em um canto do Brasil. Eu deixei o Exército como Capitão, a maioria dos colegas seguiu a carreira militar, fizeram vários cursos de aperfeiçoamento, de Estado Maior, da Escola Superior de Guerra, alguns foram para o estrangeiro, Eu como tenente passei dois anos comandando um Pelotão de Fronteira em Roraima, uma experiência de vivência humana extraordinária. Companheiros de turma são como irmãos, durante seis anos de convívio diário os colegas passam a ser uma nova família. Nas noitadas dessa gostosa semana reuníamos os casais para longas conversas relembrando fatos e lendas que se incorporaram às nossas vidas, como a história dos oito cadetes.

No início de 1944, tempo de II Guerra Mundial, a construção da Academia Militar das Agulha Negras havia parado por falta de verbas; funcionava no Rio a velha Escola Militar de Realengo, instituição que formou muitos militares.

Naquela época uma das diversões do cadete era montar a cavalo nos dias de folga. Oito amigos nos fins de semana costumavam cavalgar. Oito companheiros saíam sempre juntos. Em algumas noites eles costumavam cavalgar até uma boate de mulheres que havia perto de Realengo. Época de frio os oitos cadetes vestiam pelerine (capa militar azul marinho sem mangas), botas e o quepe a Príncipe Danilo, o mulherio se assanhava quando eles apareciam. Faziam visitas constantes à casa das mulheres. Os cadetes cavalgavam, dançavam, sempre cobertos com a elegante pelerine. Era proibido frequentar cabarés, se fossem apanhados pela Patrulha Militar pegariam alguns dias de cadeia, com certeza.

Certa noite, depois de dançar, depois de se deitarem com as “namoradas”, os oito amigos montaram nos cavalos escondidos no mato e dispararam pela estrada de barro retornando à velha Escola Militar do Realengo. Quando passavam por uma rua, por volta das 23 horas, viram numa esquina escura quatro homens assaltando, batendo num senhor que pedia clemência, que não o matassem. Os cadetes, os oitos cavaleiros, não precisaram combinar, puxaram as rédeas e os cavalos dirigiram-se para o local do assalto, com destemor e rapidez desmontaram dos cavalos ainda a galope e agarraram os quatro bandidos. Os cadetes socorreram o cidadão que já devia ter mais de 60 anos, e prenderam os marginais. Entregaram os facínoras numa delegacia próxima, e o velho ferido foi deixado num hospital.

Na segunda-feira durante a formatura matinal, o comandante da Escola pediu à tropa para que os cadetes que tinham salvado a vida de um cidadão no sábado á noite se apresentarem, pois, o filho desse senhor estava na Escola para agradecer. Os oito amigos não se revelaram com receio de pegar cadeia. Ninguém se acusou. No dia seguinte, depois do comandante muito insistir e prometer que não haveria punição, os oito cadetes reuniram-se resolveram se apresentaram ao comandante e ao rapaz. Foram levados à presença do cidadão no hospital. O senhor era nada mais nada menos que Henrique Lage, um dos homens mais ricos do Brasil, donos de empresas, inclusive o Loyd Nacional, companhia de navios que fazia a costa brasileira. O senhor agradeceu aos cadetes e perguntou qual a precisão de cada um, eles dissessem o que precisavam, uma casa, um carro, ou o que fosse, seria o agradecimento por ter salvado a sua vida. Os oito amigos pediram para pensar. Reuniram-se, discutiram muito.

No dia seguinte foram ao ricaço, nada queriam para eles, pediam que ele ajudasse a terminar a construção da Academia Militar das Agulhas Negras que estava paralisada. O velho milionário deu a ordem para fazer um levantamento do que faltava para terminar a Academia. Mandou buscar o mais fino mármore de Carrara na Itália para o revestimento, comprou todo o piso da Academia em granito. Até hoje perdura a suntuosidade naquele belíssimo conjunto arquitetônico. A AMAN é considerada a mais bonita Academia Militar do mundo, graças à digna história dos oito cadetes, hoje anônimos militares reformados de nomes esquecidos ou mortos, mas o belo gesto, a coragem, o destemor e o amor à sua Escola tornaram-se lenda, sempre lembrada nas reuniões militares.

MANGA ROSA

– “Delícia!” Exclamou Albérico chupando a terceira manga rosa na varanda do sítio do amigo Alfredo. Estavam sentados à mesa conversando enquanto as esposas catavam frutas no bem cuidado sítio.

– “É daquela mangueira, a mais cheia, mais viçosa, maior que as outras e plantadas na mesma época.” Apontou Alfredo.

– “Que adubo você colocou nessa mangueira? meu amigo!”

– “Uma história inacreditável, não contei a ninguém, apenas Severino, meu caseiro, sabe. Se você tiver paciência conto a história. É segredo, nem sua esposa, ninguém pode saber, promete?”

-“Prometo e escuto, desde que me traga mais manga”.

Alfredo trouxe um prato de manga rosa colocou-o na mesa. Iniciou o relato.

– “Há dez anos, quando estava me separei de Rita, todos os dias eu almoçava num restaurante na Rua da Praia. A garçonete de nome Rosa chamou-me a atenção, beleza singela, loura, pele branca rosada pelo sol. Simpática, eu lhe dava boas gorjetas, ficamos amigos. Certo dia me assustei quando perguntou se eu queria transar com ela. Claro que sim, partimos para um motel. Três meses de encontros, contou-me sua história, polonesa, seu nome verdadeiro, Rozowe Komorowski, os pais vieram para o Brasil quando ela tinha 5 anos, moraram em Santa Catarina. Rosa tinha um problema no coração, não podia fazer esforço, cansava, um médico afirmou, não chegaria aos 18 anos, já estava com 26; mais nova que eu 31 anos. Seus pais morreram num desastre, sozinha no mundo, Rosa resolveu morar no Nordeste, terra de sol, povo alegre. Estava em Maceió há nove meses, ficou encantada com tanta luz, céu e mar azul esverdeado, terra bonita para viver e morrer. Arranjou um modesto emprego, sua vida tão finita, não dava valor a dinheiro, emprego, apenas para se sustentar, comprar remédios, não tinha envolvimento sério com namorado, agora se apegava a um homem maduro, estava passando uma fase feliz em sua vida, aproveitava todos os momentos.”

Alfredo apertou os olhos marejados, respirou, continuou a contar.

-“Naquela época apareceu esse sítio em Marechal Deodoro margeando a Lagoa Manguaba, Rosa se apaixonou pelo local, deu maior força. Comprei o sítio, tomei gosto, iniciei plantação, adoro frutas. Passava o fim de semana no sítio com Rosa, discretamente, eu não aparecia em público com a namorada, me sentia ridículo, mais velho. Ela não se importava, queria apenas ficar comigo. Seus olhos brilhavam de felicidade ao chegar aqui, amava esse lugar.

Viajamos a São Paulo, levei-a a um cardiologista famoso, diagnosticou o mesmo problema, deixei seu nome na fila de espera de transplante do coração. Rosa não mais trabalhou, a meu pedido, aluguei um pequeno apartamento beira mar na Jatiúca, toda manhã minha namorada ia à praia, à noite eu lhe visitava. Assim passei dois anos vivendo, amando aquela jovem alegre, cheia de vida, mesmo sabendo que poderia morrer a qualquer instante.

Rosa adorava manga. Certo dia fiz-lhe uma surpresa, comprei oito enormes mudas, tipos variados de mangueiras. Num sábado entulhamos o carro, Rosa feliz da vida acompanhou a abertura dos buracos, plantio das mudas. Sorriu-me pedindo, “quando eu morrer me enterre nesse sítio e plante por cima uma mangueira”. Levei na brincadeira. À noite nos amamos, pela madrugada ouvi um ronco, acendi o abajur, olhei de lado, Rosa de boca aberta, olhos semicerrados, balancei-a, havia morrido. Fiquei inerte, pensando na vida, na namorada morta. Ao amanhecer contei a história a Severino, ele concordou, abrimos uma cova, enterramos Rosa, plantamos uma mangueira por cima.

Jamais, nesses dez anos, alguém desconfiou ou procurou por Rosa. Todo sábado venho vê-la. Casei-me novamente, nunca contarei à minha esposa e a mais ninguém a história dessa mangueira florida, viçosa e bela, plantada por cima de Rosa.”

Enternecido Albérico colocou o braço por cima de Alfredo, disse apenas. “Por favor, é segredo sagrado.”

AMOR NO TEMPO DO VELHO CHICO

Penedo cidade da pedra; penedo, rocha, rochedo. Penedo das ruas estreitas, dos casarões repletos de história. Penedo do Velho Chico, bela cidade para se viver um grande amor. Muitos amores aconteceram tendo o Rio São Francisco por testemunha, muitas histórias de amor se escondem nos seus belos casarões. Penedo, paixão, belas histórias de amor. Penedo de Mauro e Heloísa.

Mais de meio século nos separam daquele Penedo dos casarões, das famílias tradicionais. Heloísa nasceu no berço da aristocracia alagoana família secular, ainda menina chamava atenção pela beleza, pelo bom humor e inteligência. Além da Escola ela tinha aulas particulares de piano, tornou-se uma das maiores pianistas das Alagoas. Certa vez, Paschoal Carlos Magno ao ouvir Heloísa executando as Bachianas de Villa Lobo, implorou a seus para que a moça estudasse no conservatório de música na capital do país, o Rio de Janeiro. Ela não ligou a negativa do pai, Heloísa adorava sua cidade, Penedo.

Aos 16 anos encontrou um jovem falante que a sensibilizou numa festa de rua de natal, foi paixão simultânea. Acontece que o jovem Mauro, também de família tradicional, apenas com 18 anos já era um dos grandes boêmios da cidade, frequentador assíduo da zona do Camartelo, gostava do chamego com as mulheres dos cabarés. Certa noite foi recolhido à cadeia por arruaças numa boate. Vivia nos botequins e na boemia. Tinha a seu favor a simpatia e uma eloquência encantadora. Inteligente, bom aluno planejava fazer vestibular na Faculdade de Direito em Maceió. Assim como os polos antagônicos se atraem, Heloísa ficou atraída, encantada com o bonito rapaz. Os pais consentiram o namoro com muitas restrições. Formavam um belo casal. Viviam uma paixão de jovens românticos em passeios às margens do velho Chico.

Mauro fazia força para ficar sossegado, mas não resistia, à noite caía na gandaia. Na zona do Camartelo era conhecido por todas as raparigas. Certa vez virou a noite, o dia amanhecia quando ele e os amigos bêbados fizeram uma serenata no casarão da família de Heloísa. O pai pediu que ela acabasse aquele namoro, houve pressão. Ela deu mais uma chance para o namorado.

No início de fevereiro o pai de Mauro faleceu. Foi um enterro comovente, era muito querido na cidade. Quinze dias depois iniciava o animado carnaval de Penedo. Heloísa como não podia brincar devido ao falecimento do sogro, foi passar o carnaval na fazenda em Piranhas. Quando retornou na quarta-feira de cinzas, as amigas contaram tudo. Mauro não aguentou os acordes metálicos do frevo, caiu no passo durante os três dias de carnaval na rua e no clube. Heloísa no mesmo instante escreveu uma carta acabando o namoro e mandou entregar a carta a Mauro. Foi definitivo. A família de Heloísa não admitiu a falta de respeito de Mauro com o pai morto há pouco tempo e ele brincar o carnaval.

Cada qual para seu lado. Muitos anos se passaram, Heloísa casou-se com um primo em Penedo, continuou uma virtuosa pianista, quando enviuvou teve o consolo de seus 5 filhos e 8 netos. Mauro cursou a Faculdade de Direito, tornou-se um famoso advogado. Ainda hoje trabalha duro em seu escritório, também ficou viúvo com 5 filhos e 8 netos.

No início desse ano Mauro levou um amigo paulista, historiador, a Penedo. Visitou a Fundação Casa do Penedo, um museu vivo onde se respira história, sonho e invenção do Dr. Francisco Salles, um penedense amante da terra. Certa hora Mauro ouviu um piano belíssimo, ele comovido com a música ao longe perguntou de onde vinha. Alguém informou que era festa de aniversário de uma senhora muita querida, Dona Heloísa. Seu coração voltou à juventude. Pediu licença aos amigos, caminhou em direção à música suave do piano que envolvia a bela noite. Entrou no casarão como se fosse um convidado. Seu coração encheu-se de ternura ao ver Heloísa embevecida tocando seu velho piano. O tempo não foi cruel com ela, tornou-se uma linda senhora. De repente Heloísa olhou ao lado, seus olhos cruzaram com os de Mauro, reconheceu seu amor de sua juventude. Um sentimento forte tomou conta, uma alegria invadiu sua alma, inspirou-se, tocou como nunca havia tocado. Ao terminar a audição, feliz da vida foi cumprimentar seu amigo, seu amor de juventude.

Mauro e Heloísa conversaram bastante, almoçaram juntos no dia seguinte. Encontraram-se várias vezes em Maceió e Penedo. Precisou muita discussão, muita vontade e força para que vencessem a resistência dos filhos. Atualmente Mauro e Heloísa estão viajando pelo mundo. Desfrutando do grande amor, amor maduro. Venceram a resistência dos filhos e netos de ambos os lados, estão em plena lua-de-mel, às vezes recordando os velhos tempos e como era o amor no tempo do Velho Chico.

O CACHIMBO DA VOVÓ

Geraldo nasceu e criou-se no povoado da praia do Francês, um paraíso encrustado na cidade histórica de Marechal Deodoro. Ainda menino aprendeu a surfar nas ondas do mar azul. Embora houvesse uma escola, Geraldinho gostava mesmo das ondas. Seus pais insistiam nos estudos, mas, ele achava que a vida era aquele pedaço de paraíso (pensando bem ele estava certo).

Para ajudar a manter a família, ainda adolescente foi trabalhar no bar de seu pai que era o sustento da família, mulher e mais seis filhos homens. Quando amanhecia o dia, Geraldinho pegava sua velha prancha e se deixava levar pelas ondas perfeitas para o surf. À noite o bar de seu pai fechava, Geraldinho ficava conversando com amigos ou turistas, contando as tomadas nas ondas ou percorria o povoado catando alguma garota disponível a deitar com ele na praia. Não queria compromisso, só ficar.

Certa noite um artista famoso fez um show em Marechal Deodoro e depois, altas horas entrou num bar para tomar uma cervejinha e fumar liamba. O artista estava empolgado com a pequena plateia do bar, tocou violão, cantou, e contou sua vida. De como saiu de Monteiro, uma pequena cidade da Paraíba e tornou-se astro do Brasil. Precisou muito sacrifício, muita dedicação, aprendeu a compor e todos os dias ensaiava no mínimo quatro horas de violão. Quando completou 20 anos arribou de Monteiro e foi para São Paulo. Passou mais de quatro anos tocando no metrô de São Paulo até que um cara ouviu o artista tocando e convidou-o para um Grupo Musical. O Grupo mudou sua vida, vivia de pequenos shows. Sempre compondo músicas novas. Certa noite um olheiro, empresário, depois de um show, o chamou para uma conversa, havia gostado de sua maneira de tocar, ele propôs parceria em suas músicas e assinaram um contrato fazendo show solo, deu-lhe um nome artístico. Ficou famoso, tem um bom apartamento em São Paulo, um bom carro e ótimas mulheres. Mas lutou bastante para conseguir a fama.

Depois da conversa com o cantor, Geraldinho pediu arranjou um violão usado, velho. Ele iniciou a aprendizagem, danou-se a dedilhar. Colocou na cabeça ser músico, compositor, cantor da Rede Globo. Os cinco irmãos, o pai, e a mãe reclamavam do som alto que Géo tirava de seu pinho dentro de casa. Até que teve a ideia de aprender os acordes no sítio de sua velha avó nos arredores do povoado. Quando fechava o bar ao entardecer, Geraldo pedalava sua velha bicicleta até o sítio, ficava sentado embaixo das mangueiras dedilhando as cordas, jantava coma avó. Ele sentia que tinha talento, sonhava tocar para o povo, um belo show. Por muito tempo Geraldinho estabeleceu um roteiro, ao acordar pegava umas ondas, o surf fazia parte de sua vida, depois trabalhava no bar do pai e ao anoitecer aprendia a tocar seu violão e cantar.

Naquela idade os amigos ofereceram um cigarrinho de maconha, ele fumou e adorou. A liamba tornou-se companhia nas aulas musicais autodidatas, embaixo das mangueiras.

Toda noite ao chegar, sua avó pedia para ele fazer seu cachimbo, ou seja, cortar o fumo de rolo e socar, bem socado no cachimbo. A macróbia colocava em sua boca, já torta, e dava baforada até tarde da noite quando chegava o sono.

Certa vez, a avó estava triste, confessou para o neto estar chateada com Malvina, sua filha, depois que o marido largou-a, ela caiu na gandaia, não podia ver homem, e o pior, ela soube que Malvina estava se prostituindo para os turistas, uma vergonha. Precisava fechar as pernas daquela jovem. O neto nada comentou, ele também comia sua gostosa tia.

Certa noite, Geraldinho enquanto socava o cachimbo da avó, com pena de sua tristeza, teve a ideia de colocar um pouco de maconha misturado com o fumo do cachimbo. Com todo cuidado socou bem socado, metade fumo de corda e a outra metade maconha da boa, conseguida com amigos. Levou o cachimbo cheio e bem socado para a avó, e foi dedilhar sua viola embaixo da mangueira. Em pouco tempo, ele ouviu os sorrisos da velhinha, eufórica. De repente ela apareceu às gargalhadas, chegou perto do neto e pediu para tocar músicas de Nelson Gonçalves e danou-se a cantar, “Boemia aqui me tens de regresso… e suplicante te peço… a minha nova inscrição…” Passou a noite sorrindo, cantando e fumando.

Daquela noite em diante, a velhinha só queria que Geraldinho preparasse seu cachimbo. Quando ele não aparecia, a velhinha reclamava. Só ele sabia socar com maestria seu cachimbo.

Em poucos anos Geraldinho aprendeu a tocar violão, e sua avó, sem nunca imaginar, tornou-se uma velhinha maconheira até morrer, nas vésperas do neto se arribar para São Paulo.

ENTRE O PURGATÓRIO E O INFERNO

Outro dia encontrei Horácio, amigo de juventude, ele abriu-me os braços com um vasto sorriso.

– Você é minha alegria do domingo, amo suas histórias, é nosso Nelson Rodrigues. Abro sempre o Jornal na página de sua crônica, minha primeira leitura.

Eu fiquei lisonjeado com a observação de um homem tão digno, esteio de nossa sociedade, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. Conheço Horácio desde os tempos do Colégio Diocesano (Marista), foi um aluno exemplar, religioso, ligado aos princípios morais da civilização cristã. Um apologista aos bons costumes. Jovem que hoje poderíamos classificá-lo de politicamente correto. Fiz ver que sou apenas um despretensioso contador de história do cotidiano, aproveitador de acontecimentos da vida real sem muitos méritos.

Semana passada numa bela manhã de sol eu andava pelo calçadão da praia de Jatiúca, fui abraço por trás, era Horácio, estava alegre. Continuamos caminhando e conversando.

– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.

Surpreso com a aquela confidência tempestiva, eu perguntei o que havia acontecido. Horácio baixou o ritmo da caminhada e da voz eloquente.

-O Satanás está solto, provocando. Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma moça da cor de mel, sorriso cativante, lábios grossos, de uma simpatia avassaladora, diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em nossa casa. A empregada veste um short desfiado, rasgado, como é moda, para suas atividades domésticas. Normal para ela, para mim, uma tentação. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para o trabalho, eu fico sozinho trabalhando num quarto que transformei em escritório. Severina, esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Tenho até engordado, contrariando meu zeloso médico, Dr. Diógenes Bernardes.

A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das 10 da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Marinete varria distraída, vestia short de jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou, perguntou se eu era advogado, se tirava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade (achei uma provocação, detalhe desnecessário da história), estava na prisão, assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela, omiti os detalhes demoníacos que me acenderam a lascívia. Minha mulher pediu para que eu fizesse essa caridade, tentar soltar o rapaz. No sábado fui com a jovem Marinete à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. No retorno da prisão, conversávamos sobre os procedimentos quando de repente ela falou no maior descaramento que notava meus olhares e queria agradecer na cama pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Meu amigo foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo, aprendi coisas que não imaginava acontecer numa cama. Ainda não tive coragem de me confessar a um padre na Igreja, se eu morresse hoje, estaria entre o purgatório e o inferno.

Depois disso tudo, não baixei o fogo, fico torcendo para chegar a quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa num motel às cinco da tarde. Em casa me controlo para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Diabo sabe quando e como provocar nossas fraquezas.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a rua pensando, avaliando como Lúcifer se aproveita da imperfeição humana.

A RAINHA GUINEVERE E A DIANA DO PASTORIL.

Depois que se aposentou, o vício de Odorico é o computador, toda noite depois do Jornal Nacional ele senta-se na bancada abre a tela, a partir daquele momento o homem entra no mundo irreal, navegando nos “sites” de conversas com o apelido de Lancelot. Acontece que apareceu uma Guinevere. Ele se deu bem com a distinta rainha. Conversaram horas seguidas, teclando o computador.

Odorico, homem de pouca conversa ao vivo, soltou-se nas conversas virtuais com sua nova amiga Guinevere. Passaram-se meses, as conversas entraram em detalhes e intimidades. Ele confessou ser casado ter filhos e netos. Guinevere revelou ter um caso esporádico com um alemão, mas se considerava solteira.
Marta, sua esposa, brincava com a nova mania do marido, Odorico preferia ficar no computador a ir ao cinema. Às vezes, ela frustrava-se ao dormir de banho tomado, cheirosinha, esperando os afagos do marido, e ele entretido, teclando, esquecido do mundo real.

Certa tarde, Odorico estava em casa sossegado, descansando depois do almoço quando tocou o telefone. Ao atender, se identificou, ficou surpreso, abalado quando uma voz de mulher falou do outro lado.

– Adivinhe querido sou eu? Guinevere. Não resisti ao levar uma amiga no aeroporto hoje pela manhã, ela veio para Maceió, tomei o mesmo avião, vim conhecer meu Lancelot. Estou a sua espera a qualquer hora nesse maravilhoso hotel. Sei que é loucura, mas que fazer? Sou mulher de impulsos juvenis.

Marta estava perto perguntou quem era no telefone.

– É o Benevides, um amigo de São Paulo fez um curso comigo no Banco, está em Maceió e me quer ver.

Depois do Jornal Nacional, durante a novela, arriscou convidar a esposa ir até o Hotel onde estava o amigo. Ele tinha certeza da recusa de Marta. Danou-se para o hotel.

Quando Guinevere apareceu, surpreendeu Odorico ao ver a elegante senhora, passava dos setenta (ninguém diria), de uma beleza encantadora, conservada e atraente. Abraçaram-se, dirigiram-se à beira da piscina. Em certo momento ela segurou na mão de Odorico, olhou em seus olhos, disse apenas, “Vamos?”

Arrastou-o para o apartamento, onde passaram momentos de amor agradável, maduro.

No dia seguinte Odorico inventou uma viagem a seu sítio em Penedo. Apanhou Guinevere no hotel, partiram para o litoral sul das Alagoas. Visitaram a cidade barroca de Marechal Deodoro, a praia do Francês, Barra de São Miguel, Coruripe, aonde Odorico entrou dirigindo na praia extensa de areia até a Foz do São Francisco. Almoçaram na Praia do Peba. Guinevere encantada ficou mais quatro dias em Maceió. Odorico deu a assistência que pode até ela viajar, antes ela confessou ser uma despedida da vida de solteira, na outra semana viajava para Frankfurt onde ia morar com o alemão. Jamais esqueceria Lancelot e esses dias maravilhosos em Maceió.

Odorico sentiu saudade, havia gostado daquela aventura com a Rainha Guinevere, bela setentona, com muito caldo a dar.
Mês passado ele entrou em uma roda de conversa na internet com o apelido de Guerreiro. Alguém se identificou como Diana do Pastoril. Gostou da interessante conterrânea. Depois de algumas semanas, ele ousou marcar um encontro.

Às quatro da tarde no Shopping em frente ao cinema ele sentou-se à mesa, como havia combinado, vestindo camisa azul. A Diana iria de saia azul e blusa encarnada, Odorico ficou espreitando a chegada.

Passaram-se 15 minutos, ele disfarçava comendo um pastel, com a impressão que todos olhavam para ele; aquele complexo de culpa que se tem quando se faz algo errado. Cumprimentou alguns amigos que passaram. Ficou nervoso ao ver, ao longe, Aninha, sua cunhada, gostosa solteirona. Ele ficou agoniado, com vontade de ir embora. Mas, seu espírito aventureiro fazia-o ficar naquele lugar, mesmo se sentindo alvo de todos os olhares. Mais de 30 minutos de espera levantou-se para dar uma volta, quando Aninha se aproximou perguntando.

– Será que você é o Guerreiro?.

Compreendeu que Diana era a própria cunhada. Ela para não se decepcionar, veio conhecer o parceiro, o Guerreiro, sem o vestir o combinado.

Os dois sorriram em cumplicidade. Odorico pediu discrição e segredo. A bela cunhada, foi de uma discrição exemplar, até porque durante o inesperado encontro aflorou uma empatia contida há muitos anos. O velho Guerreiro hoje tem novo hábito, em algum dia da semana, ensaia folguedos nordestinos com a Diana, cunhada predileta, deixando marcas de amor nos limpos lençóis dos motéis da orla de Jacarecica.

QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu dois pequenos coqueiros morrendo na praia, comprou dois pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância?

Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores?

Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 70 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares ou um porto final além do horizonte.

DE PARATY AO JACINTINHO

Paraty é uma linda cidade antiga, barroca, colonial, localizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo, perto de Minas Gerais, ou seja, fica no centro cultural e econômico do país. Paraty tem uma população em torno de 40.000 habitantes. E tem um ótimo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. Foi nessa cidade que uma grande editora inglesa iniciou um dos melhores eventos culturais do Brasil em 2003, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Contando com a presença de escritores nacionais e estrangeiros que participam de palestras e debates nos prédios históricos ou em tendas armadas nas ruas. A cada ano, a festa é dedicada à memória de um grande escritor. Já foram homenageados vários escritores como, Vinícius de Moraes; Guimarães Rosa; Clarice Lispector; Jorge Amado; Nelson Rodrigues; Machado de Assis; Manuel Bandeira; Gilberto Freyre; Millôr Fernandes; Graciliano Ramos, entre outros. Nesse ano de 2018 a homenageada foi a poeta Hilda Hilst. O custo da FLIP é de aproximadamente R$ 6.300.000,00 (seis milhões e trezentos mil reais), captados pela Lei Rouanet. Tem como objetivo maior a comercialização de livros. Depois da FLIP apareceram nesses 16 anos mais de 500 festas literárias no Brasil.

Em 2009 fui convidado ao cargo de Secretário de Cultura da cidade histórica, colonial e barroca, Marechal Deodoro, Alagoas. Com apoio total do prefeito organizamos a 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro, foi sucesso. A FLIMAR teve uma característica a mais, trabalhar no incentivo à leitura com alunos da rede de ensino. O índice de leitura de um país desenvolvido é de 12 livros lidos por cada habitante. Na América Latina o melhor índice de leitura é da Argentina, cada habitante lê a média de 4 livros por ano. No Brasil essa média é ridícula o brasileiro lê uma média de 1,5 livros por ano. Trabalhamos oito anos junto à Secretaria Municipal de Educação durante o ano letivo, a FLIMAR era o coroamento desse trabalho. Foi uma vitória quando em 2016 fizemos uma pesquisa com alunos da 8ª e 9ª série, eles leram uma média de cinco livros durante o ano. A UNESCO considerou um dos eventos mais efetivos de incentivo à leitura no Brasil. Eu estive na PUC no Rio de Janeiro, mostrando em vídeo os detalhes de nossos trabalhos na FLIMAR. Em 2017 entrou nova administração, não sei se continuaram o mesmo trabalho de leitura. Alguns municípios pediram-me orientação para realizar Festa Literária. Realizamos, como curador, a Festa Literária do Pontal da Barra, de Palmeira dos índios, do Conjunto Graciliano Ramos e agora numa grande ousadia estamos implantando a Festa Literária no Jacintinho, um dos bairros mais populosos, carentes e violentos de nossa cidade. E um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil.

O bairro, que atualmente possui aproximadamente duzentos mil habitantes, possui um comércio, formal e informal, bastante diversificado, funcionando inclusive nos finais de semana.

Até a década de 1940, o que é hoje o bairro mais populoso de Maceió, o Jacintinho, não passava de um imenso sítio com predominância da Mata Atlântica, e, em alguns trechos, pequenas casas de moradores. O nome é uma alusão ao rico proprietário Jacinto Athayde, descendente de portugueses, que construiu seu casarão no Poço (ainda hoje preservado) e a ladeira de pedra que dava acesso ao sítio. Na década de 50, o então governador Arnon de Mello inaugurou a energia elétrica. Mas a água consumida pela população era da cacimba do Reginaldo. Na administração do prefeito Sandoval Caju, construiu-se o grupo escolar João XXIII e uma maternidade. Só em 1968, o bairro ganhou a primeira linha de ônibus coletivo.

O Jacintinho é o verdadeiro “quebra-galho”. Aos domingos e feriados, quando o comercio central fecha suas portas, o do bairro está aberto, com lojas de todos os ramos de negócios, para atender a todo tipo de clientela.

É nesse bairro que a Prefeitura Municipal de Maceió, através da Secretaria Municipal de Ensino (SEMED) e da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) e outros órgãos da Prefeitura realizarão a 1ª Festa Literária do Jacintinho, a FLIJAÇA, entre 15 e 18 de agosto. A abertura será na quarta-feira dia 15 com um Concerto Musical da Banda do Exército Brasileiro. Nos dias 16, 17 e 18, a partir das 9:00 horas da manhã até às 22:00 horas, haverá uma série de atividades em vários toldos instalados na Praça do Mirante com apresentação de trabalhos dos alunos da rede escolar, palestra no auditório da Casa de Direito, livraria, biblioteca volante, exposição do artesanato dos moradores do Jacintinho, e no palco várias apresentações de conjunto do bairro, Concerto da Banda da Guarda Municipal, Dupla de Violeiro e no encerramento sábado um grande show com Naná Martins. Vale à pena conhecer o Jacintinho um belo bairro de nossa cidade.

LEGADO AMERICANO DA 2ª GUERRA

Logo após a II Guerra aconteceu um grave problema com a população solteira e boêmia no Nordeste, houve uma inesperada proliferação de doenças venéreas. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreias e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas de moléstias sexualmente transmissíveis e repassaram para a população nativa. Ainda bem que naquela época não havia AIDS.

Em Maceió foi realizado um trabalho comandado por dois competentes médicos para a erradicação do mal.

O Ministério da Saúde enviou remédios e materiais de propaganda e prevenção. Surgiram as camisinhas. O Governo Federal enviou verba para uma campanha maciça de prevenção e esclarecimento entre as prostitutas e seus clientes.

O ponto mais visado foi o bairro de Jaraguá onde as raparigas exerciam sua profissão. As chiques e bonitas ficavam estabelecidas nos casarões da Rua Sá e Albuquerque, as menos favorecidas ficavam no baixo meretrício, O Duque de Caxias e o Verde, e as decadentes, velhas em fim de carreira, no Sovaco do Urubu, onde hoje é o Centro de Convenções.

Todas as prostitutas foram obrigadas a passar por rigoroso exame de saúde. O Posto da Praça das Graças encheu-se de cafetinas e raparigas na fila dos exames. Ali ganhavam a carteirinha profissional com data de exame carimbado.

Registravam também as meninas na Delegacia de Jaraguá, onde o Delegado da época se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o sargento-delegado fazia uma ronda diária, uma “blitz”, para verificar se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas e em dia com os exames.

As flagradas com alguma doença eram obrigatoriamente internadas no Hospital Dona Constança para tratamento. Só assim poderiam voltar à atividade.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir, e pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram também atualizadas no Posto Avançado de Erradicação de Jaraguá, com médicos fazendo novos exames diários e indicando o tratamento adequado, se fosse o caso.

A atuação do delegado é que foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com dúvida de doença, ele mandava buscar o suspeito ou suspeita para uma rigorosa investigação.

O Delegado formou uma rede de informações em várias casas de mulheres. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam deles estarem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava os acusados ao Posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o Delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o doente, além de receber uma bronca, tinha que delatar a pessoa que transmitiu. O Delegado fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos”. Convocava os elementos transmissores da doença citados pelos doentes, até chegar aos sadios.

Todos os envolvidos eram tratados adequadamente pelos médicos, às vezes baixando ao Hospital.

Houve muitos casos de problemas conjugais. Algumas vezes o Delegado chegou a enviar para exames, esposas dos envergonhados infectados. Muitos contaminados para se livrarem da investigação confessavam terem pegado a doença com alguém de fora. Se acaso delatasse que tinha sido a fulaninha, o delegado ia pessoalmente buscá-la para os devidos exames. Como geralmente estava também infectada, obrigava a confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao elo final.

Em uma dessas investigações, Tatá Boquinha, uma das jovens mais queridas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu com um bruto cancro duro. O zeloso Delegado obrigou-a a relacionar todos os homens que haviam passado por ela na última quinzena. Na enorme relação estava muita gente conhecida, inclusive um deputado. O delegado convocou todos os clientes de Tatá, via carta entregue em mãos, para serem devidamente examinados e tratados, se fosse o caso.

O Delegado teve deferência especial com o deputado. Foi pessoalmente à Assembleia Legislativa, juntamente com o médico, para que a autoridade fosse examinada no seu local de trabalho.

Assim, o valoroso Delegado conseguiu erradicar a velha gonorreia e todas as doenças venéreas da cidade legadas pelos soldados americanos no tempo da Guerra Mundial.

ORDENER CERQUEIRA

Segundo Aldemar Paiva, o genial compositor Capiba costumava dizer que o alagoano Ordener Cerqueira era o cara mais engraçado que ele conhecia. Ordener foi meu ídolo na infância e juventude. Eu me divertia ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista, consultório na Rua Boa Vista, ele contava que, quando eu era menino, meu pai, Coronel Mário Lima, trazia seis soldados para segurar e abrir minha boca. Só assim ele tratou meus dentes.

Durante sua juventude Ordener estudou no Liceu Alagoano. Havia um professor que dava aula sentado, tinha mania de colocar a mão esquerda na primeira gaveta do birô enquanto falava aos alunos. O preguiçoso professor tinha uma voz monocórdia que provocava sono. Certo dia, no quintal da casa de Ordener, apareceu um enorme caranguejo goiamum, azulado e brabo, uma pata maior que o casco. Ele conseguiu amarrar o caranguejo pelas patas e guardou-o. Na manhã seguinte, acondicionou em fibras de bananeira e levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula chata do professor preguiçoso, Ordener soltou o arisco caranguejo na primeira gaveta, fechando-a. O professor entrou na sala, sentou-se na sua confortável cadeira. A certa altura, devagar, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. De repente deu um grito enquanto puxava o braço com o enorme caranguejo com a pata travada no dedo mindinho. Ele berrava apavorado, pedia socorro, enquanto a alunada vibrava, deliciava-se às gargalhadas. Acudiram, conseguiram abrir a pata presa no dedo. O professor aproveitou não deu mais aula, exigiu a expulsão do meliante que colocou o caranguejo na gaveta.

Ordener foi o inventor do pastoril dos estudantes. Nas vésperas de Natal, vários estudantes dançavam o pastoril fantasiados de pastoras. Ele era a vedete, a contra mestra, a primeira pastora do cordão azul. CSA doente.

Outra vez ele fazia teatro estudantil, Paixão de Cristo, peça encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Cristo, e o amigo, Luís Alves, o papel de Lázaro. Ensaiaram bastante até o dia da estreia, sábado à noite no Teatro Deodoro. Os dois boêmios não eram de perder um sábado, ele e Luís encheram a cara de cachaça durante o dia. Chegaram às sete horas da noite no Teatro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado, ainda bem que durante a peça não havia fala para o Lázaro, seu papel era ficar morto até quando Cristo (Ordener) mandasse levantar, quando Lázaro (Luís) levantava-se, ressuscitando.

A peça prosseguiu normalmente, até que veio a hora da cena: Luís (Lázaro) deitado no chão, morto, e Ordener (Jesus) falaram alto, comandando seu milagre:

“-Levanta-te Lázaro!”!

E Lázaro (Luís) continuou deitado, sem se mexer. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto ainda:

“–Levanta-te Lázaro!” ·.

E Lázaro continuou inabalável. Ordener não aguentou e chutando nas costas de Luís gritou contundente:

“- Levanta-te Lázaro!” “-Levanta-te Lázaro!”

Como Lázaro não respondia, Ordener perdeu a paciência e saiu naturalmente o impropério. “ -Levanta seu filho de uma puta!”

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público como pedisse desculpas, com voz de pileque:

“-O Lázaro está bêbado!”

Gargalhada geral. Assim Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores, foram expulsos do Grupo de Teatro Estudantil.

Meu tio Napoleão Peixoto, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao consultório de Ordener. Chegamos por volta de 11 horas da manhã na Rua Boa Vista. Deixei Napoleão na sala, bati na porta. Ordener quando me viu, perguntou a razão da visita enquanto tratava os dentes de um moreno deitado na cadeira de boca aberta. “Surpresa”, falei sorrindo. No mesmo instante, Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, veio me perguntando qual a surpresa. Eu apontei para Napoleão sentado em uma cadeira, a alegria foi tamanha ao reconhecer seu amigo de juventude, que se abraçaram chorando como se fossem irmãos. O encontro emocionou os clientes que aguardavam.

Ordener tirou seu avental e convidou para tomar uma cerveja para comemorar o encontro. Descemos até o Bar do Chope. Brindamos, entornamos algumas cervejas. De repente chegou a atendente, lembrando que o cliente ainda estava de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos pacientes clientes, remarcasse.

Terminamos o encontro por volta das três da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando, no violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…”

A HUNGRIA DE PUSKAS

Estátua de Puskas em Budapeste

O futebol é o esporte mais surpreendente e mais empolgante do mundo. Foi inventado pelos ingleses e incorporado à cultura brasileira. Afinal o Brasil conquistou cinco campeonatos mundiais em 20 Copas realizadas. O brasileiro inventivo acrescentou gírias e filosofias ao mundo do futebol. Um exemplo significativo é a “Zebra”, sinônimo de um resultado inesperado, um time mais fraco ganhar do mais forte. Conta a lenda que durante um treino da Portuguesa do Rio, um jornalista perguntou ao técnico, o pernambucano Gentil Cardoso, o que ele esperava de seu time considerado pequeno enfrentar o poderoso Vasco da Gama. Gentil, um filósofo do futebol, respondeu ao repórter, “pode dar Zebra”. Uma metáfora ao Jogo do Bicho, onde diariamente é sorteado um número correspondente a um dos 25 bichos relacionados. A zebra não está na relação do jogo do bicho. A Portuguesa ganhou do Vasco por 2 x 1; na segunda-feira o Jornal dos Sports abriu a manchete: ‘DEU ZEBRA, VASCO PERDEU”. A partir desse dia entrou no linguajar do futebol a significativa metáfora da Zebra, e a loteria esportiva através da TV popularizou o termo.

Na história da Copa do Mundo a zebra já galopou nos quatros cantos do mundo, em todos os estádios, em todas as épocas. As duas maiores zebras consideradas pelos especialistas são inesquecíveis, na Copa de 1950 o incipiente futebol dos Estados Unidos derrotou e eliminou a poderosa Inglaterra por 1 x 0. A zebra galopou na Copa de 1966 no jogo Coreia do Norte 1 x 0 Itália. Em decisões da Copa uma zebra fez chorar mais de 80 milhões de brasileiros em 1950 quando o Uruguai ganhou a final do Brasil de 2 x1. Em 1974 a Alemanha ganhou a final contra a favorita Holanda. E em 1982 a Itália bateu no Brasil, uma das melhores seleções da história do futebol.

Grandes seleções foram formadas no mundo, o Brasil teve em sua história brilhantes seleções. Outros países formaram inesquecíveis equipes, como o Carrossel da Holanda em 1974, porém a mais brilhante seleção de todos os tempos foi a da Hungria entre 1950 e 1956. A seleção húngara formada basicamente pelo Honved, time do Exército da Hungria, tinha em suas fileiras craques extraordinários como, Puskas, Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Bozsic.

A Seleção da Hungria passou quatro anos sem perder um jogo entre 1950 e 1954. Conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952, e foi vice-campeã da Copa do Mundo de 1954 na Suíça, ao perder, uma autêntica zebra, para a Alemanha, depois de saírem vencendo por 2 a 0, os “Magiares Mágicos” levaram a virada por 3 a 2, na partida que ficaria conhecida pela eternidade como “O Milagre de Berna”.

Em 1956 aconteceu a Revolução Húngara, uma revolta popular contra as políticas impostas pela União Soviética. O movimento durou de 23 de outubro até 10 de novembro de 1956. A revolta espalhou-se pela Hungria, e o governo soviético caiu. O novo governo húngaro declarou a sua intenção de retirar-se do jugo soviético e anunciou eleições livres restabelecidas. Depois de negociar a retirada das forças soviéticas da Hungria, a URSS mudou de ideia e um grande exército soviético invadiu Budapeste e outras regiões do país. A resistência húngara durou até 10 de novembro. O novo governo soviético foi restabelecido na Hungria e suprimiu toda a oposição pública.

Alguns jogadores do time do Honved, formado por militares húngaros, como Puskas e outros craques, aproveitaram uma partida na Bélgica pela Copa dos Campeões, e não regressaram à Hungria. Puskas voltou a jogar em 1958, conseguiu naturalizar-se espanhol e defender o Real Madrid, ao lado de Di Stefano, Kopa, Didi. Foram novos anos de glórias para Puskas. Em oito temporadas, foi campeão mundial de clube, tricampeão da Copa dos Campeões, pentacampeão espanhol e vencedor de uma Copa do Rei. Foi artilheiro do Campeonato Espanhol quatro vezes. Puskas aposentou-se do futebol aos 40 anos, em 1967. Voltou à Hungria depois da queda do Muro de Berlim em 1989 quando terminaram as ditaduras comunistas nos países da Europa Oriental. Virou técnico, tendo inclusive dirigido a Seleção da Hungria em 1993. Em 2006, Puskas morreu em consequência de Alzheimer.

A FIFA em 2009 instituiu o Prêmio Puskas ao melhor gol do ano no mundo. Puskas, Pelé e Maradona são considerados os melhores jogadores da história do futebol. Ano passado fui à Budapeste tirei uma foto da estátua de Puskas em uma praça daquela belíssima e sofrida cidade.

ADAMASTOR, O BOM DE COPA

Como bom brasileiro, Adamastor tem duas paixões na vida, futebol e mulher. Talvez por ter nascido em 29 de junho de 1958, dia em que o Brasil foi campeão mundial pela primeira vez, ele conhece toda história da Copa do Mundo, nessa época, não fala em outro assunto. Torce pelo Brasil exageradamente, mas, sente um forte complexo da Teoria da Conspiração, tem certeza que a FIFA está contra o Brasil ser Hexacampeão e confirmar a hegemonia mundial no futebol. Diz ele que os organizadores da Copa do Mundo não querem acabar o entusiasmo e o lucro dos anunciantes a nível mundial. Será muito difícil para o Brasil, a tabela foi organizada para a seleção só pegar time forte. Segundo Adamastor, a FIFA vai escalar um juiz para apitar pênalti duvidoso ou anular gol do Brasil e confirmar na televisão, o VAR. Essas são as especulações na cabeça de Adamastor, a Teoria da Conspiração contra a Seleção Brasileira. Mesmo com esse pessimismo burocrático quando acontece a época da Copa, ele coloca bandeirinha no carro, compra camisa para todos da casa, até os funcionários do prédio e as funcionárias de sua casa ganham camisa.

Outra paixão de Adamastor são as mulheres. Diz que ama sua esposa, que é bem casado, mas gosta de pular a cerca com alguma garota de programa. Não quer amante; amante dá complicação, enquanto rapariga ele paga os bons serviços prestados, paga o silêncio, a discrição, o descompromisso. Certa vez teve um caso com uma secretária. A menina ficou no seu pé, ele gastou muita grana para afastá-la do caminho. Jurou nunca mais ter uma amante, sai muito mais caro. Tem uma agenda de amigas no celular. Para evitar problemas, grava o nome masculino correspondente de suas preferidas. Exemplo Flavinha está gravado como Flavinho.

Como a mulher não gosta de futebol ele tem suas estratégias para assistir o jogo sozinho, aliás, acompanhado por uma das amigas. No primeiro jogo da Copa, Brasil x Suíça, Adamastor armou um esquema, deixou a mulher em casa, disse que ia assistir na casa do Bernardino, um amigo também vidrado em futebol, os dois sozinhos, sem ninguém para atrapalhar. Na verdade ele juntou o útil ao agradável e partiu para um belo motel na praia de Jacarecica com sua amiga Paulinha que ama e conhece futebol, discutem na hora do jogo e depois é só carinho. Adamastor chegou em casa à noite reclamando que o empate foi mais uma armação da FIFA contra o Brasil. No segundo jogo, Adamastor vestiu a camisa amarela, cueca branca, bermuda azul, sandália preta, deu um tchau para a esposa dizendo que logo depois da vitória vinha comemorar, deixasse a cerveja na geladeira. Pegou Paulinha às oito e meia da manhã, assistiu os 2 x 0, depois comemoraram na cama. Mais tarde telefonou para casa, estava comemorando a vitória do Brasil na Barraca Pedra Virada.

Quarta-feira o difícil jogo contra a Sérvia, telefonou para Paulinha, ela estava com a mãe doente, não pode acompanhá-lo, uma pena. Adamastor tentou mais algumas de sua agenda, todas com compromisso. Apelou para os classificados no jornal. Ao ver na relação o nome Angelina, nem leu o resto, sem conhecê-la, telefonou, acertou para ela pegar um táxi, ele a esperava no motel.

Assim que Adamastor entrou no apartamento do motel, ligou a televisão, papéis verde e amarelo faziam a decoração. Colocou uma dose de uísque, ficou assistindo os comentários antes do jogo, esperando a companheira chegar.

Adamastor ficou encantado quando abriu a porta, deslumbrou-se com aquela mulher bonita, alta, de olhos amendoados e boca parecida com a da Angelina Jolie. O mulherão sentou-se no sofá pedindo permissão para fumar. Apesar de ser linda, ele achou alguma coisa estranha naquela mulher. Foi quando iniciou o jogo Brasil x Sérvia, ele ficou grudado prestando maior atenção, nem percebeu que a parceira foi ao banheiro, ela não era ligada em futebol como a Paulinha. Adamastor torcia desesperadamente, com a dose de uísque na mão. Angelina saiu de banho tomado, cabelos molhados, corpo enrolado numa toalha e os maravilhosos seios descobertos. Alegrou-se quando ela achegou-se a ele torcendo pelo Brasil. No gol do Thiago, durante a vibração, deu um beijo nos grossos lábios de Angelina. Quando acabou o jogo, ela estava deitada debruço. Adamastor não resistiu, deu um pinote por cima. O serviço durou poucos minutos. Mais relaxado vibrando com a vitória de 2 x 0, deu um abraço em Angelina, que estava apenas de toalha amarrada na cintura, foi quando Adamastor notou alguma coisa esquisita durante o abraço, não conseguiu segurar o grito quando percebeu.

“- Você é homem!!!!”

Depois de momentos de discussão, Angelina mostrou nos classificados, estava escrito: “travesti, atendo passivo ou ativo.” Adamastor pagou o acertado. Chegou em casa, foi para o banheiro, tomou uma hora de banho.

Depois do fato consumado, não consegue esquecer aquela mulher, aliás, aquele homem, ainda sente o hálito de cigarro de sua boca, há duas noites sonha com Angelina Jolie e o Brad Pitt, os dois olhando para ele e sorrindo. No fundo Adamastor gostou dos serviços prestados. Agora está na dúvida para o próximo jogo Brasil x México, se ele convida Paulinha ou Angelina.

UM É POUCO, DOIS É BOM, TRÊS É ÓTIMO

Numa ensolarada manhã de sábado, dessa que a brisa acaricia o rosto e a alma, eu estava na praia de Jatiúca na fila do acarajé quando alguém tocou meu ombro. Quase não reconheci o amigo Ubiratã, não o via há anos. O homem ao envelhecer tende a engordar e cair cabelos, Bira não foi exceção, gordo e careca. Sentamos à mesa de praia protegida por sombrinha. Ubiratã puxou recordações.

Perguntei pela namorada da época, Jeane, uma bela menina, eram apaixonados. Bira pegou o embalo e contou-me sua vida. Engravidou Jeane, casou-se, foi morar com os sogros no Prado. Tiveram dois filhos, hoje rapazes. O casamento durou 13 anos, largou a mulher. Foi viver sozinho em Anadia onde moram os pais.

De repente apareceram duas mulheres bonitas com sorriso nos lábios, Ubiratã me apresentou: Ruth, morena, pele de um marrom café-com-leite, cabelos crespos, rosto redondo, olhos negros salientes, nariz achatado e lábios carnudos. A outra de nome Quitéria, pele alva, rosada, cabelos pretos como uma graúna, rosto oval, nariz afilado, um belo sorriso dava um toque de sensualidade em sua boca carmim molhada. As duas eram simpáticas e muito gostosas, vestiam minúscula tanga. Imaginei-as entre 40 e 45 anos.

Conversamos por mais de uma hora, todos bem humorados pela exuberante manhã de julho. Ruth é de Palmeira dos Índios, terra de bonitas mulheres, ainda menina, veio para capital com os pais. Quitéria é de Salvador, mora em Maceió desde que fez um curso de enfermagem, só vai à Bahia de visita. As duas têm muitas coisas em comum: são bonitas, sensuais, enfermeiras. Enquanto elas foram caminhar na praia, Bira contou-me o resto de sua vida.

Atualmente ele é chefe de vendas de cerveja, conheceu Ruth num Hospital onde realizou alguns exames. A amizade continuou, ele paquerou, assediou, insistiu, porém, decepcionou-se quando Ruth confessou morar com uma colega de hospital, Quitéria, e eram namoradas. Bira ficou chocado com a sinceridade da amiga. Conheceu Quitéria numa festa, tornaram-se amigos. Bira tinha suas paqueras, suas namoradas, mas gostava de sair com as duas amigas comprometidas, achava-as divertidas.

Certo dia a mãe de Ruth morreu, o apartamento de três quartos que herdara, ficou enorme para o casal. Ruth gostaria de alugar um quarto do apartamento, por que não Bira? Vivia sozinho, perambulando nas casas de tios e irmãos.

Ubiratã aceitou, foi morar junto com o casal. Acertaram pagamentos e algumas normas para viverem em harmonia. Bira sentiu-se mais confortável, não teve problemas de convivência entre os três, passaram-se alguns meses de convivência.

Até que numa noite de sexta-feira, Ruth foi dar plantão no Hospital, Quitéria estava a fim de divertir-se, Bira acompanhou a amiga. Escolheram uma barraca de praia, ficaram até mais tarde bebendo e conversando, de repente ela confessou que notava os olhares de Bira pra cima dela, ela gostava de homem também, e não negava, sentia atração por ele. Depois da meia-noite, foram para casa a pé cantando pela rua. Ao chegar ao apartamento, Bira tomou banho, deitou-se. Ainda não havia pegado no sono quando Quitéria entrou no quarto, de lingerie, uma provocação. Bira sentou-se na cama, ela se aproximou, em pé encostou-se, abraçando a cabeça do amigo. Deitaram-se, amaram-se. Depois do amor, cabeças no lugar, resolveram falar a verdade para Ruth, não podia haver traição entre eles, passaram a tarde de sábado se amando, bebendo e confabulando.

Ruth chegou à noite, sentiu que havia alguma coisa no ar. Os três reuniram-se à mesa, garrafa de uísque, beberam, confessaram o ocorrido. Ruth calada ouviu atentamente a história. Quando terminou o relato houve um clima de expectativa e constrangimento entre eles, ficaram calados se olhando, minutos de silêncio. Até que Ruth levantou-se, aproximou-se de Bira, baixou a cabeça e deu-lhe um beijo ardente em seus lábios, queria também.

A partir dessa noite o amor entre os três fizeram tremar a terra. Aconteceram inimagináveis “ménage a trois”, como dizem o francês. Continuaram juntos. Mês passado, os três comemoraram dois anos de casados. Agora querem um filho, adotado.

Quando Bira acabava de contar sua situação marital, as jovens retornaram da caminhada, buscamos mais acarajé e cerveja, conversamos até mais tarde. Quando a gente passa dos setenta, pensa que já viu tudo na vida, aí se surpreende com o ser humano. Tenho um amigo bígamo, outro trígamo, eu não havia imaginado existir um trio amoroso oficial. Os três, na maior felicidade, convidaram-me para padrinho do menino. Aceitei.

A MASSAGISTA

Dona Mercedes morreu no dia que completou 51 anos de casada. O Coronel Eustáquio enterrou a esposa na Fazenda Olho D’água das Flores, onde passaram suas vidas com muito amor, carinho e respeito. Dona Mercedes foi uma mulher ativa, de opiniões, deixava o marido pensar que ele mandava, entretanto, ele só fazia o que ela queria. No último desejo, pediu ao marido para ser enterrada junto ao túmulo do filho embaixo de uma enorme aroeira num morrete perto dos currais.

Assim foi feito. Os cinco filhos vieram de Maceió e enterraram a matriarca junto ao seu amado filho Bruno, que morreu aos 19 anos.

A morte da mulher foi outro baque na vida do coronel. Com 72 anos ele monta todo o dia num cavalo e sai fiscalizando, dando ordens pelo extenso pasto do gado nos arredores. Formou seus filhos, 3 advogados, uma assistente social e uma médica. Sua mágoa e preocupação é que nenhum deles, incluindo genros e netos, tem vocação para o campo. O filho mais novo, Bruno, foi seu braço direito, seu orgulho, amava a fazenda, não queria estudar, tinha um gênio de briguento, gostava de cachaça e mulheres. Morreu de queda de cavalo, correndo bêbado uma vaquejada. Quando ele lembra Bruno, dá uma dor no coração de saudade, era o filho querido, o companheiro nas andanças pela fazenda.

Depois que Dona Mercedes morreu, o coronel Eustáquio se enclausurou na fazenda. Só ia a Maceió às quartas-feiras. Nunca foi mulherengo, mas gostava de se aliviar, como dizia, com uma menininha num programa. Até para isso ele se enrustiu, depois da viuvez.

Havia dois anos da morte da esposa quando no final de ano a família se reuniu para o natal e aniversário do patriarca, 25 de dezembro. Festa tradicional da família, animada com filhos, netos, agregados e convidados. Na festa, Natália, a filha médica, notou que o coronel andava cansado. Exigiu que ele fizesse um checape.

Edgar, o genro, figura simpática, boa conversa, do ramo de comércio de imóveis e carros, as más línguas falam que seu casamento com a médica teve também um olho na grana do velho, fazia tudo para agradar ao sogro. Ofereceu-se para acompanhar o velho coronel aos médicos, indicados pela doutora. Foram 20 dias entre consultas e exames. O doutor urologista examinou os resultados. Depois de apalpar o ventre, pediu ao coronel para ficar na posição que Napoleão perdeu a guerra, e fez o famoso toque retal. Constatou que a próstata estava volumosa e inflamada. Passou-lhe antibiótico e determinou ao Coronel para vir toda semana tomar aquela massagem na próstata, até diminuir o tamanho e acabar a inflamação.

À noite a filharada e os netos foram visitá-lo em seu confortável apartamento na orla da Jatiúca. Ele confidenciou para os filhos, que estava constrangido com o tratamento, que não ia mais levar dedada de médico nenhum. Seu fio-fó era órgão de saída, nada de entrada. Com grande má vontade avisou que não voltava ao consultório, tomava apenas o remédio.

A doutora Natália, ao dormir, conversou com o marido sua preocupação com o pai, a massagem na próstata era necessária. Edgar homem de desembaraços e de soluções, nunca põe dificuldades, prometeu resolver o problema.

No outro dia pela manhã foi conversar com o do doutor urologista, acertando os detalhes de um plano bolado no travesseiro. Sua enfermeira bonita, com curso de enfermagem, sabia fazer massagem na próstata, veio a calhar. Com a conivência do doutor prosseguiu a estratégia. Na quarta-feira foi visitar o sogro levando recado do doutor que ele podia ser atendido também por uma massagista especial. Depois de muito relutar, o coronel foi espiar a massagista que estava no carro esperando. Ficou encantado com a beleza daquela morena simpática que lhe sorriu pecaminosamente. Com a jura do genro de não contar nem para os filhos, o velho se deixou levar para um motel na praia de Jacarecica. O que houve entre as quatro paredes, ninguém sabe. A próstata do coronel já deve ter curado há muito tempo, mas ele prossegue o tratamento. Fica feliz quando amanhece a quarta-feira, vem para Maceió radiante, dia da massagem com a bonita Michelle que engorda seu salário em R$ 200, 00 toda semana.

A FESTA DE PAFINHA

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. Moça bonita de pele clara, cabelos escuros escorridos, olhos vivos, meio estrábicos, harmonizavam com a boca rosada permanentemente num debochado sorriso. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz.

Corpo miúdo, curvas nítidas, cintura fina e seios abundantes faziam dessa menina uma mulher atraente. A bunda bem torneada era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos amavam aquela jovem com ar de moleca sapeca. Vivia a vida como se fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do mais famoso proxeneta da noite de Maceió, o popular Mossoró.

Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 14 anos havia conhecido apenas miséria e pobreza. Um cabo de polícia a estuprou, prometeu aos pais amigação, uma casa na capital. Deixou-a na zona das putas em Jaraguá.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Era a mais querida do cabaré, conhecia e tratava os frequentadores da boate pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá.

Ela tinha um namorado, apaixonou-se por um jovem deputado, menino novo que fez uma bela carreira política. Quando o deputado aparecia, se ela estivesse acompanhada, depois de atender o cliente, corria para os braços de seu amor.

Naquela época havia um bingo aos domingos, fonte de recurso para construção do estádio Trapichão, os prêmios eram carros e caminhões. Mossoró levava suas meninas para marcar o bingo. Pafinha teve sorte, ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Naquela noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Deu festa no Verde, no Duque e no Sovaco do Urubu, a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos de copo e de cruz.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa de Pafinha. Só acabou quando ela percebeu que não tinha mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre de novo.

Quando assisti ao filme dinamarquês, A Festa de Babete, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro lembrei-me da Festa da Pafinha, histórias semelhantes. A vida imitando a arte.

Nós, jovens moradores da praia da Avenida da Paz, depois do futebol e de um bom mergulho, caminhávamos sobre a areia molhada até uma birosca em frente ao Primeiro Trapiche em Jaraguá para entornar uma boa cachacinha com caju.

Nossas companhias eram os embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados. As raparigas de Jaraguá, mergulhavam se refrescando, lavando-se da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana contando casos da noite no cabaré. Seu Rodolfo, velho pescador, contava historias sobre peixes enormes, sobre a mãe d’água, sereias, afogamentos, botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando na água do mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu, depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia estar no Oceano seu destino.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas de Jaraguá. Tornou-se lenda, contam que ela desapareceu num banho de mar, deixou-se levar pela correnteza, Yemanjá veio buscá-la, transformou-a em um boto que vagueia vigilante no mar, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar da Avenida da Paz. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurrando para praia os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois volta junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres à Santa Pafinha, protetora das putas, dos boêmios, dos cachaceiros, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

ESSA HISTÓRIA E MAIS OUTRAS SOBRE A CIDADE DE MACEIÓ, SERÃO CONTADAS POR CARLITO LIMA E CANTADAS POR ANDRÉA LAÍS DIA 9 DE JUNHO NO TEATRO DO CINE PAJUÇARA ÀS 20 HORAS. IMPERDÍVEL. INFORMAÇÕES: (82) 9.9318.0843.

DIA DOS NAMORADOS NO ZINGA BAR

Zinga Bar – praia de Riacho Doce

Gustavão dirigia feliz da vida seu Gordini vermelho, era noite de sexta-feira, véspera de Santo Antônio, dia dos namorados. Solteiro, boêmio, 27 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar na praia de Riacho Doce, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de mecânica, resolveu trancá-lo, travá-lo, no dia seguinte traria com um mecânico. Com o dedo polegar ficou a pedir carona aos carros em direção ao Zinga. Parou uma Kombi, deu sorte, era o deputado com amigos e amigas, tinham o mesmo destino.

O Zinga Bar foi um empreendimento arrojado de Cláudio Barbosa, a construção se estendia do asfalto à praia, em Riacho Doce, foi o grande sucesso da cidade no final dos anos 60, aliás, revolucionário, mudou os costumes. Naquela época as moças casadouras só saiam à noite acompanhadas dos pais ou irmãos para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar o mulherio de Maceió deu um grito de liberdade, em grupos começaram a frequentar aquele Bar-Restaurante-Boate. Dava-se início a uma tímida revolução sexual, a virgindade estava deixando de ser tabu. O Zinga foi marco histórico na vida da cidade.

O deputado, os amigos e amigas tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo no mar de Riacho Doce. Mesa cheia com três belas jovens e uma senhora, aliás, uma coroa risonha, solteirona, à beira dos cinquenta. Conversa divertida, maior alegria quando a orquestra iniciou os acordes “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Gustavo para dançar. No dancing romântico, bela vista ao mar, colaram-se do corpo à cabeça, arrastando-se com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou-o sentindo prazerosamente o corpo de seu par. Eles mudos, o carinho na nuca, a rigidez nas pernas falavam mais que qualquer palavra.

A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava as pernas de Gustavão. Certa hora a Banda animou no São João, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, que lá no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando feito quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Gustavo e Yolanda, a coroa, se atraiam, deu-se o desejo imenso, ânsia louca de beijo na boca. Gustavão pediu discretamente a chave da Kombi do deputado. O casal se escafedeu, um quilometro a mais Gustavo encostou a Kombi embaixo de uma árvore. À luz de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem, era dia dos namorados.

Retornaram ao Zinga com aquele sorriso de felicidade dos bem amados, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, afinal amar é necessidade natural. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios foram cumprimentar o dia nascendo andando na praia, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão. Gustavão e a coroa celebravam a vida.

Dia seguinte Gustavo acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. Surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente do dia dos namorados, de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Na segunda-feira nosso boêmio recebeu um telefonema anônimo informando, os quatro pneus estavam guardados com o vigia do Zinga Bar. Assim foi o dia dos namorados de Gustavão naquele ano de transformação do mundo. 1968.

OS TARADOS DA AVENIDA

No final da 1ª Guerra Mundial (1914- 1918), o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos, comemorou o fim da guerra na então “Praia do Aterro”. Depois de bons goles de cachaça da boa, prometeu que ali construiria uma bela Avenida, a Avenida da Paz.

Terminada a obra, a Avenida começou a desbancar Bebedouro, a burguesia se transferiu para a Avenida da Paz, construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, a mulherada moderna vestia maiô até o joelho e caía na água do mar. Maior sucesso, alguns achavam um escândalo. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas de maiô aparecendo a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”. Quando nos anos 30 foi inaugurada a sede do Clube Fênix, o maiô já havia diminuído o tamanho, subindo até a metade das coxas, quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na esplêndida praia da Avenida.

Nos anos 50 eu era um jovem maloqueiro de praia. Nadava singrando a calmaria do mar. Pulava da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogava futebol na areia dura, molhada. Pescava nas jangadas, puxava rede. Entretanto, o que nós meninos mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar na areia olhando, que nem jacaré, para as belas mulheres que se estendiam na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de “tarados”. Naquela época, meninos com cara de santinho, trafegavam pelas rodas de conversas com as moças descontraídas. Mas, quando entravam na água, não havia quem segurasse.

O Gaguinho era mestre, ele aproximava-se das meninas, deitava de bruços, cavava uma cova, adaptada a sua mão, e ali dava estímulo para suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua belíssima irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Certo verão apareceu a Musa! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã, como se fosse uma liturgia descia à praia, estendia uma toalha, armava a sombrinha na areia. Tirava a blusa bem devagar, como se tivesse preguiça, aparecendo a parte superior do biquíni cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, despia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassar o short por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Dobrava a roupa, arrumava junto à sombrinha. Deitava lentamente, de bruços, deixando o sol dourar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual erótico da musa dos cabelos de fogo.

“Chaina”, sua cachorrinha pequenez, ficava amarrada no pau da sombrinha. Às vezes, ela soltava-se para alegria da moçada que tentava capturá-la, para receber o agradecimento, olhando de perto as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de tarados aumentou na praia da Avenida.

Muita gente graúda entre eles. Certa vez fizemos uma votação para eleger o maior tarado da praia. Em terceiro lugar, o punho de bronze, foi para um atleta famoso. O segundo lugar, o punho de prata, ganhou Kirk Douglas, um coroa, vestia um velho calção de banho, e passava o dia vadiando na praia. E o primeiro lugar, o punho de ouro, fez-se justiça, foi para o dono de um restaurante conhecido na cidade. O ganhador era prático e profissional. Conta a lenda que todas as suas calças tinham os bolsos do lado direito furados.

Hoje, quando dou minha caminhada pela praia da Jatiúca, lembro dos velhos tarados da Avenida ao olhar os corpos deitados, de bruços, belamente bronzeados, dentro de uma minúscula tanga.

Essa e outras Histórias de Maceió este colunista fubânico contará na peça, SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA, dia 9 de Junho no Teatro Cine Pajuçara às 20 hs. A afinadíssima Andréa Laís cantará belas músicas relacionadas com as histórias.

CUNHADO ARRUACEIRO

Ana e Amélia eram duas irmãs bonitas, seus pais colocaram esses nomes em homenagem às avós. As meninas não perdiam em beleza para nenhuma miss ou artista. Moravam em Jaraguá perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Quando desciam à praia da Avenida da Paz, os jovens paravam o futebol, até a bola parava, para apreciar as jovens, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam em fantasia as moças encantadoras.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho, alto, forte, de enorme musculatura mantida na prática de exercícios que contrastava com o juízo, tinha o cérebro do tamanho de um feijão. Chicão era conhecido em todo bairro por sua valentia e por suas brigas, era o maior arruaceiro do bairro e da zona das putas em Jaraguá. Certa vez brigou com três policiais, foi preso e espancado, ele passou a detestar qualquer tipo de policial. Chicão tinha um sentimento nobre, o afeto pelas irmãs, o que lhe causava um ciúme doentio, partia para briga com quem o chamasse de cunhado ou insinuasse que suas irmãs eram gostosas.

Julinho, jovem estudante, morador da Avenida da Paz, encantou-se com a mais nova das irmãs, iniciou um namoro com Amélia, escondido, depois ela falou com o pai, ele permitiu o namoro desde que fosse na porta da casa, sempre com a fiscalização voluntária e ostensiva de Chicão. Namoro bem comportado, mão na mão, em vez em quando um beijo, quando o irmão se distraía. Certa noite, depois do namoro, Julinho dirigindo o jipe em direção à sua casa, ao passar na Rua do Uruguai, uma jovem soltou-lhe um adeusinho com a mão, ele freou o jipe, entrosou-se com a jovem, colocou-a no banco e partiu para uma seção amorosa dentro do jipe estacionado no Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Assim continuou Julinho, toda noite namorava a amada Amélia, depois partia para fazer amor com Maria das Dores ao frescor da brisa marinha dentro do jipe.

Até que um dia Ana, a cunhada, discretamente pegou Julinho em flagrante quando Das Dores embarcava em seu jipe para mais um amasso amoroso. Na noite seguinte quando Julinho chegou à casa da namorada, Amélia estava uma fera, namoro acabado, nunca admitiria ser corneada por uma vagabunda como Das Dores. Nesse momento Chicão apareceu arregaçando as mangas da camisa, com cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Julinho tomou um susto, encheu-se de medo, brigar com Chicão, era levar uma surra histórica. Julinho, com presença de espírito, pediu calma, precisava conversar, pagava uma bebida no bar da esquina, mas deixasse-o explicar. Bebida de graça era irresistível a Chicão. Foram para um bar por perto, desceram cerveja, pinga e tira-gosto. Julinho explicou que a Das Dores era apenas para transa, ele respeitava e gostava mesmo de Amélia, namoro para casamento e coisa e tal, no campo da astúcia Julinho ganhou tranquilo.

Foi uma noitada de bebedeira, passaram por quatro bares diferentes. O receio constante de Julinho era Chicão, bêbado, provocando aonde chegava. A sorte é que os provocados conheciam a fama de Chicão e não revidavam os insultos.

Tarde da noite, os dois bêbados estavam em maiores intimidades, um chamando o outro de cunhado. Chicão em certo momento inventou de ir às Boates das Mulheres em Jaraguá. Julinho se fazia com sono querendo terminar a noitada, acabou concordando, partiram para Zona. Ao passar na Praça Dois Leões, de repente Chicão pediu para parar o jipe, o arruaceiro saltou, dirigiu-se a uma dupla de policiais que tranquilamente fazia a ronda. Julinho não acreditou no que estava vendo, Chicão deu um murro em cada soldado, desarmou-os, deixando-os no chão, jogou as armas longe, recolheu os capacetes e correu para o jipe gritando, “Vamos embora depressa”.

Julinho deu partida, logo adiante parou o jipe e assustadíssimo. Subiram à Boate São Jorge, ocuparam uma mesa, Chicão colocou um capacete dos soldados em sua cabeça e o outro na cabeça de Julinho, que a essa altura, passou a bebedeira e tremia-se de medo. Todos na boate olhavam aqueles dois jovens com capacete da Polícia. Chicão pediu cachaça e duas raparigas. Depois da primeira dose Julinho tirou o capacete colocou-o embaixo na mesa, foi ao banheiro. Ao sair percebeu que seis policiais subiam as escadas da boate, na mesma hora ele desceu devagar, para não suspeitar, a escada da boate. Teve sorte, o jipe estava no mesmo local, ligou a partida e conseguiu checar em casa.

No dia seguinte soube do acontecido, Chicão brigou com os seis policiais, levou muita pancada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para 2ª Delegacia de Polícia, onde levou uma surra inesquecível.

Julinho esqueceu a bela Amélia, passou muito tempo sem passar perto da Igreja. Ao ver ao longe Chicão, fingia não vê-lo, nunca mais quis conversa com o cunhado arruaceiro. (conto essa histórica verídica em homenagem a Julinho que morreu essa semana)


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