Categoria: CARLITO LIMA – CONFISSÕES DE UM CAPITÃO

OS TARADOS DA AVENIDA

No final da 1ª Guerra Mundial (1914- 1918), o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos, comemorou o fim da guerra na então “Praia do Aterro”. Depois de bons goles de cachaça da boa, prometeu que ali construiria uma bela Avenida, a Avenida da Paz.

Terminada a obra, a Avenida começou a desbancar Bebedouro, a burguesia se transferiu para a Avenida da Paz, construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, a mulherada moderna vestia maiô até o joelho e caía na água do mar. Maior sucesso, alguns achavam um escândalo. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas de maiô aparecendo a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”. Quando nos anos 30 foi inaugurada a sede do Clube Fênix, o maiô já havia diminuído o tamanho, subindo até a metade das coxas, quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na esplêndida praia da Avenida.

Nos anos 50 eu era um jovem maloqueiro de praia. Nadava singrando a calmaria do mar. Pulava da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogava futebol na areia dura, molhada. Pescava nas jangadas, puxava rede. Entretanto, o que nós meninos mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar na areia olhando, que nem jacaré, para as belas mulheres que se estendiam na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de “tarados”. Naquela época, meninos com cara de santinho, trafegavam pelas rodas de conversas com as moças descontraídas. Mas, quando entravam na água, não havia quem segurasse.

O Gaguinho era mestre, ele aproximava-se das meninas, deitava de bruços, cavava uma cova, adaptada a sua mão, e ali dava estímulo para suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua belíssima irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Certo verão apareceu a Musa! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã, como se fosse uma liturgia descia à praia, estendia uma toalha, armava a sombrinha na areia. Tirava a blusa bem devagar, como se tivesse preguiça, aparecendo a parte superior do biquíni cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, despia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassar o short por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Dobrava a roupa, arrumava junto à sombrinha. Deitava lentamente, de bruços, deixando o sol dourar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual erótico da musa dos cabelos de fogo.

“Chaina”, sua cachorrinha pequenez, ficava amarrada no pau da sombrinha. Às vezes, ela soltava-se para alegria da moçada que tentava capturá-la, para receber o agradecimento, olhando de perto as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de tarados aumentou na praia da Avenida.

Muita gente graúda entre eles. Certa vez fizemos uma votação para eleger o maior tarado da praia. Em terceiro lugar, o punho de bronze, foi para um atleta famoso. O segundo lugar, o punho de prata, ganhou Kirk Douglas, um coroa, vestia um velho calção de banho, e passava o dia vadiando na praia. E o primeiro lugar, o punho de ouro, fez-se justiça, foi para o dono de um restaurante conhecido na cidade. O ganhador era prático e profissional. Conta a lenda que todas as suas calças tinham os bolsos do lado direito furados.

Hoje, quando dou minha caminhada pela praia da Jatiúca, lembro dos velhos tarados da Avenida ao olhar os corpos deitados, de bruços, belamente bronzeados, dentro de uma minúscula tanga.

Essa e outras Histórias de Maceió este colunista fubânico contará na peça, SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA, dia 9 de Junho no Teatro Cine Pajuçara às 20 hs. A afinadíssima Andréa Laís cantará belas músicas relacionadas com as histórias.

CUNHADO ARRUACEIRO

Ana e Amélia eram duas irmãs bonitas, seus pais colocaram esses nomes em homenagem às avós. As meninas não perdiam em beleza para nenhuma miss ou artista. Moravam em Jaraguá perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Quando desciam à praia da Avenida da Paz, os jovens paravam o futebol, até a bola parava, para apreciar as jovens, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam em fantasia as moças encantadoras.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho, alto, forte, de enorme musculatura mantida na prática de exercícios que contrastava com o juízo, tinha o cérebro do tamanho de um feijão. Chicão era conhecido em todo bairro por sua valentia e por suas brigas, era o maior arruaceiro do bairro e da zona das putas em Jaraguá. Certa vez brigou com três policiais, foi preso e espancado, ele passou a detestar qualquer tipo de policial. Chicão tinha um sentimento nobre, o afeto pelas irmãs, o que lhe causava um ciúme doentio, partia para briga com quem o chamasse de cunhado ou insinuasse que suas irmãs eram gostosas.

Julinho, jovem estudante, morador da Avenida da Paz, encantou-se com a mais nova das irmãs, iniciou um namoro com Amélia, escondido, depois ela falou com o pai, ele permitiu o namoro desde que fosse na porta da casa, sempre com a fiscalização voluntária e ostensiva de Chicão. Namoro bem comportado, mão na mão, em vez em quando um beijo, quando o irmão se distraía. Certa noite, depois do namoro, Julinho dirigindo o jipe em direção à sua casa, ao passar na Rua do Uruguai, uma jovem soltou-lhe um adeusinho com a mão, ele freou o jipe, entrosou-se com a jovem, colocou-a no banco e partiu para uma seção amorosa dentro do jipe estacionado no Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Assim continuou Julinho, toda noite namorava a amada Amélia, depois partia para fazer amor com Maria das Dores ao frescor da brisa marinha dentro do jipe.

Até que um dia Ana, a cunhada, discretamente pegou Julinho em flagrante quando Das Dores embarcava em seu jipe para mais um amasso amoroso. Na noite seguinte quando Julinho chegou à casa da namorada, Amélia estava uma fera, namoro acabado, nunca admitiria ser corneada por uma vagabunda como Das Dores. Nesse momento Chicão apareceu arregaçando as mangas da camisa, com cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Julinho tomou um susto, encheu-se de medo, brigar com Chicão, era levar uma surra histórica. Julinho, com presença de espírito, pediu calma, precisava conversar, pagava uma bebida no bar da esquina, mas deixasse-o explicar. Bebida de graça era irresistível a Chicão. Foram para um bar por perto, desceram cerveja, pinga e tira-gosto. Julinho explicou que a Das Dores era apenas para transa, ele respeitava e gostava mesmo de Amélia, namoro para casamento e coisa e tal, no campo da astúcia Julinho ganhou tranquilo.

Foi uma noitada de bebedeira, passaram por quatro bares diferentes. O receio constante de Julinho era Chicão, bêbado, provocando aonde chegava. A sorte é que os provocados conheciam a fama de Chicão e não revidavam os insultos.

Tarde da noite, os dois bêbados estavam em maiores intimidades, um chamando o outro de cunhado. Chicão em certo momento inventou de ir às Boates das Mulheres em Jaraguá. Julinho se fazia com sono querendo terminar a noitada, acabou concordando, partiram para Zona. Ao passar na Praça Dois Leões, de repente Chicão pediu para parar o jipe, o arruaceiro saltou, dirigiu-se a uma dupla de policiais que tranquilamente fazia a ronda. Julinho não acreditou no que estava vendo, Chicão deu um murro em cada soldado, desarmou-os, deixando-os no chão, jogou as armas longe, recolheu os capacetes e correu para o jipe gritando, “Vamos embora depressa”.

Julinho deu partida, logo adiante parou o jipe e assustadíssimo. Subiram à Boate São Jorge, ocuparam uma mesa, Chicão colocou um capacete dos soldados em sua cabeça e o outro na cabeça de Julinho, que a essa altura, passou a bebedeira e tremia-se de medo. Todos na boate olhavam aqueles dois jovens com capacete da Polícia. Chicão pediu cachaça e duas raparigas. Depois da primeira dose Julinho tirou o capacete colocou-o embaixo na mesa, foi ao banheiro. Ao sair percebeu que seis policiais subiam as escadas da boate, na mesma hora ele desceu devagar, para não suspeitar, a escada da boate. Teve sorte, o jipe estava no mesmo local, ligou a partida e conseguiu checar em casa.

No dia seguinte soube do acontecido, Chicão brigou com os seis policiais, levou muita pancada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para 2ª Delegacia de Polícia, onde levou uma surra inesquecível.

Julinho esqueceu a bela Amélia, passou muito tempo sem passar perto da Igreja. Ao ver ao longe Chicão, fingia não vê-lo, nunca mais quis conversa com o cunhado arruaceiro. (conto essa histórica verídica em homenagem a Julinho que morreu essa semana)

DANILO DE FREITAS CAVALCANTI

Meu querido sogro e amigo, Dr. Danilo de Freitas Cavalcanti foi embora, aos 98 anos nos deixou com muita saudade e boas lembranças. Foi uma das criaturas mais extraordinárias, mais fora do comum que conheci. Juiz de Direito, Promotor de Justiça, advogado criminal, foi um dos maiores tribunos dos Fóruns das Alagoas. Sua sabedoria e eloquência faziam de um júri um espetáculo. Quando aparecia um júri mais acalorado, os professores da Faculdade de Direito dispensavam seus alunos para assistirem no Fórum a atuação do Dr. Danilo, seja acusando, seja defendendo, era uma aula para os futuros advogados.

Eu tive a imensa honra em entrar para sua família ao me casar com Vânia, sua filha, com muita alegria me recebeu: “Bem vindo meu genro, nossa família é simples, porém muito feliz”. Continuei um ramo da família contribuindo com três filhos e três netos. Nesses quase 50 anos de convivência aprendi a admirar meu sogro, pela sua integridade, sua honestidade e valentia. Um homem sem medo. Nem tudo foram flores, algumas fatalidades e problemas como é a vida real, entretanto, a família enfrentou as adversidades com força e sabedoria.

Certa vez Dr. Danilo, como Promotor de Justiça, iria acusar um jovem rico por assassinato de uma mulher. Na véspera do júri, à noite, ele recebeu uma visita da família do assassino explicando que ele era um bom menino, foi um acaso da vida que aconteceu a tragédia. Até aí tudo bem, todos têm esse direito em pedir. Acontece que, na saída de casa o comerciante milionário entregou um envelope pardo cheio nas mãos de uma das filhas do Dr. Danilo. Ao perceber, meu sogro arrancou o envelope da filha, abriu, estava cheio de dinheiro, um valor enorme. Na mesma hora, com raiva, sentindo-se ofendido, Dr. Danilo gritou para o ricaço: “Canalha, canalha apanhe esse envelope e saía daqui imediatamente, o que está pensando? Vá embora antes que eu chame a polícia e lhe prenda por suborno. Canalha!” Rapidamente o homem pegou o envelope e escafedeu-se na noite. No dia seguinte houve o júri. Dr. Danilo teve uma atuação empolgante. O assassino pegou 22 anos de cadeia.

Conto esta história como exemplo, contra essa onda espalhada no Brasil, afirmando que nós brasileiros somos ladrões por natureza e roubos vêm desde o descobrimento. Na verdade essa onda é para justificar a corrupção de políticos que tomaram conta do poder, acabando com nossa riqueza. Nós, a maioria dos brasileiros comuns, somos trabalhadores e honestos. Banalizar a roubalheira é um crime, não aceito, como meu sogro não aceitava.

Finalizando quero dividir meu espaço com uma mensagem enviada por meu filho, Henrique, direto da Indonésia que não pode assistir o sepultamento de seu avô.

* * *

Carlos Henrique Cavalcanti Lima -“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”

Hoje depois de um longo tempo internado meu avô Danilo de Freitas Cavalcanti faleceu, eu como neto mais velho tive o privilégio de conhecê-lo durante 47 anos, vi e vivi suas alegrias e suas tristezas, o duro golpe de ter um filho assassinado, a alegria de uma família numerosa e amorosa, com as qualidades e defeitos que todas as famílias têm. Hoje ele partiu, ele descansou, abandonou o corpo sofrido, marcado pelo tempo e pelo destino, nos deixou. Meu avô falava muito sobre isso, afinal chegou aos 98 anos de idade, falava que iria encontrar o amor da vida dele minha doce avó Vanda e o meu tio Marcos.

Sinto não estar presente fisicamente neste momento de dor junto a minha mãe, meu pai, minhas irmãs, meus tios e tias, junto a minha família, a dor solitária é mais dolorida, ainda bem que antes de viajar fui vê-lo no hospital, fazer uma oração, visita rápida, nesta nossa vida tão corrida, mas pelo menos dei meu beijo de despedida. Vá em paz meu avô, sua missão está cumprida, seu descanso é merecido, nos vamos ficar aqui nos espelhando no homem de bem que você foi, veja só que família linda você e a vovó criaram!

A vida continua, em breve o sol vai nascer aqui na Indonésia, já temos novos Danilos, Vanda e Marcos na família e assim é a vida com chegadas e partidas. Não temos que entender os desígnios do Senhor apenas aceitá-los humildemente. A tristeza faz parte da vida, um outro dia virá e com ele outras alegrias, junto com a linda lembrança daqueles que já foram…

Henrique Cavalcanti Lima (Neto)

O CENTENÁRIO DO BENÉ

No ano da graça de 2002, a Associação de Moradores do bairro Benedito Bentes convidou-me para coordenar um trabalho de planejamento do bairro com a participação da comunidade e todos os segmentos de moradores. O resultado foi impressionante, com diagnóstico, levantamento de problemas, soluções sugeridas pelos próprios moradores. Deram um belo e sugestivo título ao trabalho: “O Benedito Bentes que nós Queremos”.

Surpreendeu-me trabalhar com a dedicação da comunidade e perceber que a maioria dos moradores não sabia quem foi Benedito Bentes. Aproveitei e contei um pedaço da história de um dos maiores homens públicos de Alagoas do Século XX.

“-Nos anos 30, vindo do Amazonas, aportou por essas bandas um cidadão de nome Manoel Bentes com sua família. Ficou encantado com as águas verdes da praia da Avenida e disse que aqui ficaria para sempre com sua mulher e seus quatros filhos: José, Benedito, Ana e Terezinha. Criou seus meninos, deu-lhes educação, viveu como alagoano fosse, trabalhou, prosperou e morou para sempre em Alagoas”.

Todos os filhos de Manoel casaram-se com alagoanos, misturando o sangue manauara com os caetés das Alagoas. Dona Ana casou-se com o médico Manoel Menezes; José de Anchieta, oficial do Exército casou-se com Dona Izolina; Dona Terezinha, esportista, mulher de fibra, deu a vida trabalhando dedicando-se à Cruz Vermelha casou-se com Júlio Normande, intelectual e esportista. Finalmente Benedito Geraldo do Vale Bentes casou-se com Vega Lima, filha de Heráclito Lima, grande proprietário de coqueiros de Alagoas. A família Bentes povoou o Estado, tem Bentes por todos os cantos das Alagoas. São cinco os filhos de Benedito Bentes: Luciano, Marden, Humberto, Eduardo e Geraldo.

Formado em Direito, entretanto, Benedito Bentes desenvolveu a atividade do comércio por muitos anos. Em 1961 com a eleição do major Luiz Cavalcante ao governo do estado foi por ele convidado para a presidência da CEAL aonde exerceu o cargo até agosto de 1974 quando faleceu repentinamente. Na presidência da CEAL teve a companhia dos diretores Napoleão Barbosa, Osvaldo Braga, Lenine de Melo Mota. Eletrificou todas as sedes dos municípios alagoanos com energia da CHESF tornando-se, na época, o primeiro Estado da federação a ter todas as suas sedes dos municípios eletrificadas.

Benedito Bentes foi também presidente do SESC/SENAC em Alagoas, Diretor da Confederação Nacional do Comercio e outros cargos de destaque no cenário político e econômico de Alagoas e do Brasil.

Tenho a maior honra em ter sido amigo de Bené, assim era chamado pelos mais íntimos. Éramos vizinhos na Avenida da Paz onde a classe média alta foi morar nos anos 50/60. Trabalhador, Benedito Bentes, tinha uma visão estratégia do futuro de Alagoas como poucos. Em sua época sempre foi homem imprescindível aos governos. A meu ver, devia ter sido governador do Estado.

Seu bom humor, sua alegria e a inteligência, são as melhores lembranças que guardo com carinho daquela extraordinária criatura. Com sorriso e risada inconfundíveis fazia questão de receber os amigos em sua casa, era um festeiro. Ligado ao convívio social da cidade tornou-se presença marcante nas grandes festas do Clube Fênix Alagoana, Iate Pajuçara ou Jaraguá Tênis Clube. Naquela época os grandes cantores do Brasil eram contratados para as festas de clubes. Bené tinha um conhecimento de vida social que extrapolava Alagoas. Muitos desses cantores depois de cantar iam tomar um drink em sua casa, onde tive a alegria de conversar com Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, Wilson Simonal, entre outros.

Há 50 anos quando Benedito Bentes completou 50 anos houve uma festa em sua confortável casa na Avenida Fernandes Lima. Compareceu a elite econômica e intelectual das Alagoas. Em certo momento fui ao quarto dos meninos, um verdadeiro alojamento, enorme quarto com um grande ventilador rodando tentando amenizar o calor das cinco camas. Logo na entrada estava Teotônio Vilela numa banqueta, uma garrafa de bom uísque ao lado, rabiscando algumas anotações. Teotônio alegre me informou, “Capitão prepare o coração para ouvir minhas palavras saudando nosso querido Bené, hoje estou inspirado”.

Mais tarde embaixo das mangueiras frondosas, a eloquência e a inteligência de Teotônio deixaram todos emocionados. Aquele discurso devia estar guardado, uma peça retórica para constar nos anais da História das Alagoas. Foi um dos mais brilhantes discursos que ouvi em minha vida. A festa do Bené prolongou-se até mais tarde com muita alegria, parecida com o dono. Terminou tarde da noite, éramos jovens, ainda tivemos fôlego para outras festas, outros Beneditos.

Nesse ano, Nessa semana, tem festa no céu. Teotônio deve estar preparando-se para celebrar os cem anos de Bené, o centenário de nosso querido e inesquecível Benedito Bentes. Ele representa um tempo, uma bela época de nossa cidade. São lembranças que dão uma pontada de saudade.

AMANTE ACIDENTAL

Péricles dirigia devagar rumo à Caruaru quando avistou, ao longe, um pequeno carro estacionando no acostamento. Desceu uma mulher olhando para o pneu traseiro murcho. A jovem senhora iniciou uma série de inúteis pontapés. Péricles parou seu carro, e foi acudir à dama solitária.

Ela chutava o pneu, e chorava. Péricles pediu calma, estava ali para ajudar. A distinta respirou fundo, voltando a si como se estivesse em transe.

Ele levantou o carro rodando o macaco, retirou o pneu furado, colocou o estepe. Enquanto realizava a troca, a madame não deu uma palavra. Ela apercebeu que não tinha retribuído a gentileza de Péricles. Pediu desculpas, disse que estava com a cabeça cheia de problemas e com ódio no coração. Que ele perdoasse. Apresentou-se como Soraya.

– Prazer, Péricles. Olhe aqui minha amiga, nenhum ódio vale a pena.

– Minha raiva é grande. Vontade de matar. De qualquer maneira, desculpe e muito obrigado. Respondeu a morena com a alma infeliz.

Péricles logo chegou à Caruaru. Ele queria curtir as peças de artesanato, a cultura popular do Nordeste.

Almoçou no hotel, descansou. Ao entardecer fez uma visita à feira, aos pontos de folclore, recordando a finada Rosa, foram 23 anos de casamento. Jantando no Restaurante Chapéu de Couro, percebeu que a senhora do carro, a irada Soraya, estava em uma mesa tomando uísque, desacompanhada.

Quando terminava o jantar, sentiu uma pessoa encostar à frente da mesa. Péricles levantou a cabeça, era a moça zangada, sorrindo. Perguntou se podia sentar. Péricles puxou uma cadeira, ato contínuo ela sentou-se elegante e iniciou a conversa:

– Pensei no que você falou. É verdade, raiva mata, deixa o coração ferido. E a vida é uma só. Vou tentar superar a bordoada que recebi, e não se fala mais nisso. Agora conte sua vida. Quem é você, cavalheiro gentil?

Péricles resumiu sua vida. Era de Maceió, estava em viagem solitária pelo Nordeste, sem roteiro predeterminado. Queria refletir sobre sua nova vida, viúvo há seis meses. Não tinha data marcada para voltar.

Soraya achou a história muito interessante. Conhecia bem Alagoas, contou reminiscências, parte da infância morando em Maceió. Enquanto ela falava, Péricles analisou a companheira acidental num restaurante de Caruaru.

Devia ter entre 35 a 40 anos, pele bem cuidada, morena. O braço parecia porcelana. Rosto redondo, cabelos pretos escorridos, bem tratados. Olhos negros vivos como se estivessem acesos, penetrantes, por cima de um nariz levemente achatado. Exalava sensualidade e mistério. Sentiu que havia um grande problema em sua alma, daí esse rancor. Notou uma marca de aliança na mão esquerda. Seria casada?

Ficaram naquela mesa por mais de duas horas em conversa descontraída, alegre, com o acompanhamento do velho uísque. De repente, Soraya olhou nos olhos de Péricles, pegou-o pela cabeça, puxou-o, deu-lhe um beijo na boca. Correspondida, ficaram a chupar línguas. De repente ela pediu sorrindo.

– Quero ir pra cama com você, agora! Tem que ser agora, antes que desista, não quero desistir.

Rápido ele pagou a conta. Sem esperar pelo troco saíram. Entraram no carro de Péricles, partiram em busca de um motel à beira da estrada. Soraya durante o percurso beijava seu pescoço, alisava-o, não se falaram.

Ao entrar no quarto do hotel, ela pediu, “Beije aqui meu amor!”

Péricles obedeceu, fizeram amor até mais tarde.

Depois do êxtase, corpos separados, enquanto ele olhava para o teto, sentiu que Soraya chorava, e aumentava o choro. Estava desesperadamente chorando alto, histérica, lamentando-se, pedindo desculpas como se outra pessoa estivesse presente.

– Seu bosta! Você foi o culpado, você me traiu!

Péricles conseguiu acalmá-la. Soraya contou sua vida.

Era casada, dois filhos já rapazes, morava no Recife. No dia anterior, ao entrar no escritório, flagrou o marido transando com a secretária no tapete Uma prima, que implorou um emprego. Em casa o marido tentou justificar. Soraya não conseguiu dormir. Pela manhã pegou alguma roupa e partiu no seu carro rumo à fazenda de uma amiga no sertão. Ninguém sabia onde ela estava. Desligou celular e partiu, com toda raiva, ódio no coração. Estava planejando matá-lo, entretanto, percebeu que não era a solução. No restaurante, bebendo, armou outro tipo de vingança. Foi o ódio que impeliu transar com Péricles. Estava arrependida, com sentimento de culpa, mas a raiva não havia passado.

Ele ouviu com atenção enquanto trocava de roupa, e admirava aquele belo espécime de mulher.

Já vestidos, ele abraçou-a, deu um cheiro nos cabelos.

– Agora vá dormir no hotel. Amanhã visite sua amiga, depois volte para sua família, você é uma pessoa especial. Não se sinta culpada pelo que aconteceu. A raiva é uma emoção cruel, muito forte, você agiu impulsionada pelo sentimento de vingança. O que aconteceu foi melhor que mandar matá-lo, tenho certeza. O segredo é nosso, ninguém precisa saber o que houve entre nós. Eu amei essa noite, jamais esquecerei.

Saíram do motel até o carro de Soraya. Ela alisou a cabeça de Péricles, deu-lhe um beijo na boca. Olhou em seus olhos e cochichou: “Amei lhe conhecer, essa noite marcou minha vida.” Abriu a porta, sem olhar para trás caminhou lentamente em direção a seu carro.

FERA FERIDA

Praia da Jatiúca

Sábado desci do meu confortável apartamento no Principado da Jatiúca para uma volta na orla. Depois do banho de mar sentei-me a uma mesa no Acarajé da Irmã, tomava uma cerveja geladinha quando percebi a meu lado o Caldas, solitário, triste, quatro garrafas de cerveja consumidas embaixo da mesa. Cumprimentei-o, puxei conversa perguntando por Josina, sua digníssima esposa. Percebi a mancada quando ele me respondeu com mágoa.

– Foi-se embora, me largou!

Caldas sorveu um copo olhando distante para o horizonte do mar azul esverdeado. Pedi-lhe desculpa, não sabia do fato, fiquei cheio de dedos, continuamos um papo ameno, repetitivo, sem graça, quando de repente meu amigo desabafou:

– A sacana está em Paris!

Olhando para o chão, ele abriu o jogo; contou a história nos pormenores.

Na quinta-feira antes do carnaval, Caldas foi à casa de praia da Barra de São Miguel a fim de prepará-la para receber amigos e parentes durante a folia. O casal vivia em certa harmonia mesmo com algumas desconfianças da integridade conjugal do marido. Quando solteiro, Caldas foi um mulherengo incorrigível, um raparigueiro de primeira ordem, por conta disso havia resquícios de sua fama. Na verdade nunca perdeu a mania, o vício de mulher. Durante os 10 anos de casados ele pulou a cerca várias vezes, discretamente.

Da varanda da casa Caldas contemplava a bela vista da praia quando apareceu Lucinha, filha da faxineira para ajudá-lo na arrumação. Ele alegrou-se ao vê-la, “secava” a jovem desde que ela havia retornado de São Paulo, onde foi morar três anos atrás, com menino no bucho em busca do pai. Ficou em Sampa até que o marido desapareceu. Ela tentou sobreviver, foi difícil, teve de retornar à casa da mãe. Lucinha com seus 24 aninhos sabe que tem um corpo bem torneado e por isso usa minissaia deixando à vista o belo espécime feminino. Em São Paulo fez alguns programas, aprendeu coisas inacreditáveis.

Começaram a arrumação da casa, o patrão ficava perturbado ao olhar aquela moça varrendo o chão, limpando vidraça. Os dois sozinhos naquela casa, certo momento não se conteve, se achegou à jovem, alisou seu cabelo, seus braços, ela sorria em cumplicidade, “Que é isso Seu Caldas?” Terminaram deitando-se no tapete da sala, abraçaram-se, beijaram-se, amaram-se até a apoteose gritante. Ainda estavam estirados no chão abraçados quando de repente a porta se abriu. Josina chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio: “Você me paga!” Bateu a porta, retornou à Maceió, dirigindo nervosa, aos prantos.

Caldas não teve coragem de voltar para casa em Maceió. Procurou amigos, parentes, contou a história, pediu para fazer a ponte, ele estava arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Josina irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

Sábado de carnaval, tristonho Caldas acordou na casa na Barra, pensava muito, avaliando a bobeira que havia feito ainda bem que não tinham filhos. À noite foi dar uma volta no carnaval do centro da pequena cidade balneário. Teve um susto quando viu Josina com um short curto, barriguinha de fora, toda charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Ele deixou passar um tempo, os olhos dos dois se cruzaram. Até que certa hora o álcool deu coragem, Caldas foi até Josina. Ela o empurrou, disse que chamava a polícia. Levaram Caldas bêbado para casa. No domingo deu-lhe depressão. À noite foi pior. Ao ver Josina abraçando e beijando a boca de um jovem surfista, Caldas partiu para cima da mulher, puxou-a pelo braço, arrastando-a para casa, nesse momento levou um soco do acompanhante. Mais tarde levaram novamente bêbado para dormir. Durante o resto do carnaval ele procurou, mas não conseguiu encontrar Josina. Ela desapareceu de casa com roupas e pertences.

Caldas soube notícia da mulher dias depois, quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, Josina transferiu R$ 320.000,00 da conta conjunta para sua conta particular, viajou para o Recife, de lá tomou um avião para Europa. Não sabe quando volta, o detalhe, o jovem surfista está fazendo companhia em seus passeios parisiense e em sua cama no hotel à beira do Sena.

Ao terminar de contar a trágica história, estávamos na 10ª garrafa, passaram duas mulheres belíssimas de tanga, Caldas não teve apetência sequer em olhá-las. Vingança de mulher é igualzinho à fera ferida, nem o cão dá conta!

JEREMIAS, O BOM

Todos amam o Jeremias, ele vive praticando o bem sem esperar recompensa ou elogio. Aposentado da Assembleia Legislativa, trabalha por conta própria vendendo carros usados em sua loja. Dois filhos independentes, casados, ele adora os netos quando chegam perturbando seu domingo. Vida tranquila junto a sua amada esposa, Antônia, que o venera.

Acontece que, Jeremias tem um fraco na vida, gosta de garotas de programa. Na cabeça dele não é traição sair com alguma dessas meninas. Ele diz que paga pelo silêncio, pela tranquilidade. Amante é que é cara.

Jeremias nas sextas-feiras vai trabalhar de taxi. Às 12:00 horas sai para almoçar com os amigos, Antônia não se incomoda, sabe que é uma diversão de seu marido e amigos. Acontece que o almoço terminava por volta das três da tarde; nessa hora, Janice uma dileta amiga, cafetina de alto luxo, encosta o taxi perto do restaurante. Jeremias paga parte da conta, despede-se dos amigos com a frase: “Sinto retirar-me do recinto, mas o dever me chama, outro valor mais alto se alevanta”. Dirige-se ao taxi, abre a porta traseira, cumprimenta a bela garota que o espera com um sorriso, algumas vezes repete a mesma mulher. Deixa Janice no centro da cidade, bem remunerada, e dana-se com a moça para um motel. Marca o taxi para pegá-lo de volta em torno das 18 horas. Essa tarde de amor é seu único pecado.

Cerca das 19:00 horas ele chega em casa, às vezes um pouquinho de pileque. Toma um banho, janta conversando besteira, peculiar aos bêbados, às 22 horas Jeré está no terceiro sonho. Por volta das 23 horas Antônia toma um banho relaxante, demorado, veste uma lingerie e deita-se junto ao esposo roncando. Ela sabe que às 6:00 horas da manhã ele a acorda excitando com beijos e carinhos até chegar a hora do amor. Antônia adora essas manhãs eróticas dos sábados.

Durante a época do Natal Jeremias presenteia todas as garotas que saíram com ele durante o ano. Convoca Janice para organizar uma reunião de Natal sempre em um restaurante discreto.

Certo ano Janice apareceu no escritório de Jeremias com a relação das meninas, eles fizeram um cálculo, eram 28. Jeremias deu R$ 3.000,00 para comprar 28 presentes na faixa de R$ 100,00, sobravam R$ 200,00, era o trabalho da cafetina. Na quinta-feira Janice telefonou avisando que o almoço de natal estava organizado no “Restaurante Onde Canta o Sabiá”, local amplo dentro de um sítio, além da casa e terraços, havia um enorme quintal com frondosas mangueiras.

Durante a noite da quinta-feira, Antônia comunicou ao marido que no outro dia haveria o almoço de Natal com o pessoal de sua repartição, ela trabalhava no IMA, só os funcionários, os maridos e esposas não eram convidados. Jeremias num sorriso largo comentou: “Vão fazer uma farrinha, né?” – “Também somos gente”, ela respondeu sorrindo.

Na sexta-feira ao meio dia Jeremias entrou num taxi pelo portão do Restaurante Onde Canta o Sabiá, passou direto e foi para uma enorme mesa no fundo do quintal onde já se encontravam as 28 raparigas e a cafetina. A mesa ornamentada com os presentes que seriam distribuídos durante o almoço. Jeremias nem precisou pedir, o garçom veio com um prato de caranguejo goiamum gordo e uma cerveja bem gelada. A alegria das meninas chamou a atenção das mesas da varanda.

Por volta das 13:00 horas, por sorte, Jeremias percebeu entrando pelo portão um carro parecido com o de Antônia. Ele ficou na espreita e o coração disparou, teve uma taquicardia quando viu sua mulher descer do carro com amigas e dirigir-se a uma mesa na varanda. Imediatamente Jeremias correu para o banheiro do quintal, mandou chamar o dono do Restaurante. Ficou esperando meia hora quando bateram à porta do banheiro. Jeré saiu num pulo, entrou atrás do carro, deitou-se, e pediu para o taxista sair discretamente. Só ficou sossegado quando estava na Avenida Fernandes Lima. Aliviado, procurou uma barraca de praia, encontrou amigos, tomou algumas cervejas, ainda preocupado. Ao chegar em casa às 19:00 horas Antônia estava na sala. Ele perguntou. “Como foi o almoço?” Ela: “Foi lá no Tabuleiro, Restaurante Onde Canta o Sabiá. Você acredita que havia uma comemoração de natal de raparigas, nunca vi tantas putas juntas. Elas também têm direito! Vá dormir Jeré, você parece preocupado. Amanhã, não esqueça, me acorde.” Sorriu debochada.

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

– Doutora, na verdade estou cansada do Renato, me abusei da vida casada. Casei-me cedo aos 21 anos, hoje com 28 ainda me sinto jovem, meu marido passa a noite em casa assistindo novela e jogo de futebol. Sem filhos, minha vida é um tédio, acabou a alegria do casamento. Quando fazemos amor é burocrático, obrigatório. Confesso, já tive vontade e oportunidade de traí-lo, entretanto, não faz minha cabeça, tenho forte sentimento de respeito, quero apenas meu marido como era antes. Oriente-me, por favor!

A doutora Fernanda da Silveira olhou para Maria Alice, pigarreou discretamente, com fala bem compassada deu sua opinião.

– Minha querida, você está passando pela crise dos sete anos, todo casal tem esse problema. Está na hora de temperar esse casamento, a cama é ótima para reorganizar uma vida a dois. Faça uma surpresa, no fim de semana você convida o marido para assistir a um bom filme, alugue um com cenas quentes de sexo. Compre três garrafas de bom vinho, vista um lingerie sensual, e vamos ver no que dá.

Um mês depois Alicinha retornou radiante, satisfeita da vida.

– Doutora foi um santo remédio, não havia acabado a segunda garrafa de vinho, nem terminado o filme, nós já estávamos abraçados no tapete, tudo como antigamente. Renato adorou, no sábado ele saiu para escolher o filme, a senhora salvou meu casamento. Ele está interessadíssimo, comprou até o Kama Sutra para praticarmos posições durante as sessões de cinema.

Passaram-se alguns meses, Maria Alice retornou à psiquiatra. Entrou nervosa.

– Doutora, desde aquela época nós estamos praticando experiências novas na cama, coisas que jamais pensei fazer, eu adorando. Acontece que Renato me perguntou se eu já tinha ouvido falar em swing, eu pensava ser um ritmo de música. Ele sorriu e explicou: “Existe aqui no Rio de Janeiro o Clube de Swing, entretanto, não é para dançar, esse swing é a troca de casais. Os casais se encontram conversam, bebem, quebram o gelo, depois cada qual arrasta a mulher do outro para o motel. Quando termina é como nada tivesse acontecido.” Continuou: “Nós dois já fizemos todas as experiências que imaginávamos. Será que você toparia fazer essa novidade?” Eu fiquei chocada, sem saber responder. Não é um procedimento correto, ético, mesmo que o casal esteja em crise conjugal. Comecei a achá-lo um grande salafrário, me trocar, saber que eu vou com outro homem que mal conheço. Isso é degradante. Que decepção. Estava tão bom o Kama-Sutra, me ajude doutora.

– Querida Alicinha, para algumas pessoas a traição é relativa, é o caso de seu marido aceitar a troca de casais, já para você é inconcebível pela sua formação moral, intelectual e ética. Embora eu seja sulista, conheço bem os padrões rígidos da educação nordestina, porém, a decisão é sua. Nada posso aconselhar. Faça o que seu coração mandar.

Na sexta-feira à noite Renato voltou a insistir no swing. Era a evolução dos costumes, dos casais modernos. Alice constrangida, com o coração apertado aceitou a proposta, só para satisfazê-lo. Foram ao Clube do Swing, tomaram uma mesa, pediram uísque, Alicinha nervosa e chateada. Logo apareceu um casal pedindo para sentar. Muita conversa, Renato estava radiante quando viu a bela mulher da troca. O marido também era um cara bonito. Beberam muito, conversaram, sorriram, até que chegou a hora da troca. Alice com o coração aos pulos. Ao entrar no quarto do motel ela caiu no choro, pediu desculpas ao parceiro, não quis de jeito nenhum. O parceiro educadamente mandou-a continuar chorando, compreendia, era a primeira vez. Ele foi elegante não se sentiu ludibriado. Levou Alice para seu apartamento em Copacabana.

Ela agradeceu ao cavalheiro. Em casa ficou contemplando o mar, pensando. Três horas depois chegou Renato satisfeito da vida, perguntando. Que tal? Gostou? Alice teve nojo do marido, vontade de jogar-lhe um vaso na cara. Cansado ele vestiu o pijama e deitou-se. Enquanto o marido dormia, ela arrumou três malas, tomou um taxi para o aeroporto. Pegou um avião, retornou para sua querida cidade.

Ficou um tempo no apartamento dos pais que lhe deram todo apoio. Alicinha está solteira e feliz, é vista nos bares bem frequentados pelas mulheres mais descoladas da cidade. Vez em quando, em seu pequeno apartamento, ela oferece um bom vinho a algum parceiro, assistindo a um bom filme. Outro dia Renato telefonou, ela foi taxativa, jamais voltará. Ele quis saber em que momento ela decidiu a separação e viajar de repente. Alice respondeu simplesmente. “Enquanto você dormia.”