DE VENTO EM PROA

No tempo da ditadura que agora há gente que diz que não houve, corria uma piada sobre delação: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca, quem denunciasse dois comunistas ganharia um Opala, quem denunciasse três comunistas seria preso, por conhecer comunistas demais.

Pois é: a Polícia Federal, com base na delação de Joesley e Wesley Batista, promoveu busca e apreensão na casa de figurões políticos, como Aécio e sua irmã, o senador Agripino Maia, o deputado Paulinho da Força e outros. As delações dos Batista atingiram de empresários, que emitiam notas frias para eles, ao presidente Temer. Beleza: não era costume, no Brasil, a Polícia investigar gente importante. Mas com que resultado?

Como quem conhecia comunistas demais na ditadura, Joesley e Wesley conheciam corruptos em excesso. Isso não os impediu de, na primeiro hora, usar o dedo endurecido para se livrar da cadeia (o que só falhou quando se descobriu que tinham omitido parte da história). E, mesmo atingidos pela lei, estão hoje R$ 2,5 bilhões mais ricos que na época da delação.

Este colunista não sabe qual a parte dos Batista no total de devoluções de dinheiro sujo. Mas as devoluções estão, no conjunto, bem atrasadas: o STF homologou acordos pelos quais 170 delatores teriam de pagar R$ 1,3 bilhão de multas. Teriam; mas R$ 422,9 milhões já vencidos simplesmente não foram pagos. O barco está no rumo certo, mas com vento contra.

Um número, um exemplo

De acordo com Joesley Batista e um de seus diretores, Ricardo Saud, só o JBS deu a Aécio uns R$ 110 milhões em propina. Um governador recebe, em geral, outras ofertas, de empreiteiros, fornecedores, empresários. A quanto podem montar as propinas? Quantos dirigentes as terão recebido?

É golpe

Uma novidade no mercado da invasão de cartões de crédito de outras pessoas: alguém telefona para um telefone fixo e pergunta pelos donos da casa. Quando um dos donos atende, chamam-no pelo nome e perguntam se fez uma compra em loja fina de outro Estado. Quem liga se identifica como funcionário da loja e diz que, se não houve a compra, não fará a entrega da mercadoria. E aconselha quem atendeu a procurar a empresa emissora, cujo telefone está gravado no cartão, e fazer a queixa. Não faz perguntas sobre o cartão, nada. A pessoa liga, é atendida – mas em algum lugar da linha houve um desvio e a chamada é dirigida para o telefone dos golpistas. Ali lhe dizem que, como o cartão foi clonado, deve ser bloqueado. E ao mesmo tempo já providenciam o novo cartão. Na conversa, apuram os dados que lhes faltam (números, etc.) e vão às compras com o dinheiro dos outros.

O cerco a João de Deus

Em quatro dias, desde que foi feita a primeira denúncia contra João de Deus, que se apresenta como médium, o Ministério Público de Goiás já recebeu 78 denúncias de mulheres que dizem ser vítimas de abusos sexuais por ele cometidos. João de Deus é conhecido por promover sessões de cura espiritual em Abadiânia, Goiás, cidade que praticamente vive em torno de suas atividades. diz incorporar o espírito de Santo Ignácio de Loyola, que criou a Ordem dos Jesuítas. Sua fama é tamanha que a cidade vive lotada de pessoas em busca de cura espiritual e é difícil conseguir um horário em sua agenda. Desde que a denúncia foi feita, no programa Conversa com Bial, Rede Globo, no dia 7, João de Deus não apareceu em público.

Por trás do Nobel

É um livro grosso, com quase 600 páginas de texto; mas é fácil de pegar e de não querer largar. Maldito Prêmio Nobel conta as histórias que ninguém contava a respeito do Nobel – inclusive os problemas políticos, inclusive as inclinações ideológicas, inclusive quem é que, na hora da concessão do prêmio, procura influenciar os votantes contra ou a favor de algum dos candidatos. Um exemplo: as tentativas de impedir Albert Einstein de recebê-lo. Um belíssimo trabalho de um grande jornalista: João Lins de Albuquerque, correspondente internacional da Folha de S.Paulo, da revista Visão, do jornal português Expresso. João trabalhou na BBC em Londres, na Swedish Broadcasting Corp. em Estocolmo, foi diretor da Rádio da ONU em Nova York, e por vinte anos cobriu cada edição do Nobel. Ele conhece; pesquisou; e beneficiou-se com a mudança nas normas do Nobel, que passou a divulgar as atas 50 anos após cada prêmio. Boa leitura, ótimo livro, que se transforma em referência para ter em casa.

Homenagem

Neste domingo, no Cemitério Israelita do Embu, SP, a partir das 12 horas, haverá a cerimônia religiosa de descoberta do túmulo de um dos maiores jornalistas do Brasil, Alberto Dines. Dines (um dos padrinhos intelectuais deste colunista) criou no Brasil a crítica da imprensa – que falta isso faz hoje! E em suas mãos o Jornal do Brasil foi o melhor do país.

EM NOME DO PAI

Para boa parte do PSL, partido do presidente eleito Jair Bolsonaro, os candidatos à sua liderança na Câmara e no Senado já têm nome – e sobrenome. Para o Senado, Flávio Bolsonaro; para a Câmara, Eduardo Bolsonaro. E, se mais cargos houvera, mais Bolsonaros indicara. Mas há outra ala no partido, talvez menos numerosa, mas mais aguerrida e cheia de ambição: a de Joice Hasselmann, que teve mais de um milhão de votos para a Câmara sem ter o sobrenome Bolsonaro. O que não quer, para ela, dizer muita coisa: segundo afirma, ela é a cara política de Jair Bolsonaro, sua gêmea ideológica, sua família de alma, mesmo sem ser da família.

Joice foi direto ao alvo: disse que Eduardo Bolsonaro falha como líder do partido e que sua articulação política está abaixo da linha da miséria. E Eduardo Bolsonaro se comportou como alvo: disse que não pode nem deve ficar falando o que faz por ordem do presidente. Mas já falou que age por ordem do presidente. Tirou de Bolsonaro a melhor arma: a de poder dizer que o filho agiu por conta própria, não em nome dele. Agora já se sabe: de acordo com Eduardo, para o bem ou para o mal, ele age em nome do pai. E Joice Hasselmann, excelente polemista, saberá usar essa informação.

Em política, quem fala não sabe, quem sabe não fala. E não pega bem o pai escolher os filhos para tudo quanto é cargo de comando. Parece Sarney.

Enfim, a guerra foi declarada. O PT pode respirar: o PSL briga sozinho.

Joice Hasselmann / Eduardo Bolsonaro

Fogo contra fogo

A propósito, “guerra” é a palavra correta. Num grupo de Whatsapp do PSL, Eduardo Bolsonaro e Joice se acusaram de rachar o partido, e Major Olímpio, senador eleito por São Paulo, entrou na briga dizendo que Joice não tem apoio de ninguém. Mas tem, sim, de algumas pessoas que jogam abertamente contra Eduardo Bolsonaro. E a briga, que começou por divergências políticas, hoje é também pessoal. Segundo Andréa Sadi, boa repórter de O Globo, políticos e militares mais próximos de Bolsonaro já pediram a ele que bote ordem no partido. Se a bancada não consegue se unir, como juntará 308 deputados para aprovar a reforma da Previdência?

É a hora

Para o ministro da Economia, Paulo Guedes, reformar a Previdência é essencial. E a reforma tem de ser feita logo, enquanto a eleição está quente.

Quem é quem

E, já que falamos em parlamentares, um fato interessante: 15, de vários partidos, entre deputados e senadores, devem ao Tesouro, entre impostos e multas, o total de R$ 660,8 milhões. Devem, não negam, um dia vão pagar, mas não sem antes montar planos de refinanciamento que lhes garantam bons descontos. O maior devedor é o senador Jader Barbalho, do MDB do Pará. Jader deve R$ 135,4 milhões. Em segundo lugar, sua ex-mulher, Elcione, também do MDB paraense, com R$ 117,8 milhões. Em terceiro, um caso à parte: Newton Cardoso Jr., do MDB mineiro. Ele foi o relator do Refis de 2017 e, usando os mecanismos do programa que relatou, teve 92% de anistia em seus débitos. Pagou R$ 972 mil – mas, terminando 2018, Sua Excelência já tem impostos e multas atrasados de R$ 88,3 milhões. Ele vai pagar. Mas irá ficar feliz se houver um novo plano generoso de descontos.

Chegando lá

Amanhã, segunda-feira, é o dia da diplomação do presidente eleito Jair Bolsonaro e do vice, general Hamilton Mourão, em sessão solene no TSE, Tribunal Superior Eleitoral. Diplomados, ambos estarão aptos a tomar posse no dia 1º de janeiro e a exercer o mandato para o qual se elegeram.

De quem para quem

O governador reeleito da Bahia, Rui Costa, disse que é muito ruim a situação financeira do Estado; e, há poucos dias, encaminhou à Assembléia um projeto de lei que eleva a contribuição dos servidores públicos de 12% para 14%, para enfrentar o déficit da Previdência estadual. Mas há setores em que o dinheiro existe: o Governo baiano decidir dar R$ 126.816,00 ao MST, para promover um encontro em Salvador. A empresa Forte Frios já foi escolhida para oferecer aos “sem terra” o serviço de alimentação e bufê.

Dinheiro girando

Por que o ex-assessor parlamentar do então deputado Flávio Bolsonaro, o PM Fabrício José Carlos de Queiroz, movimentou R$ 1,2 milhão em sua conta em um ano? O caso foi levantado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, COAF, que considera a movimentação estranha para o padrão de vida de Queiroz. Nesse movimento, há um cheque de R$ 24 mil para Michele, a esposa de Jair Bolsonaro (de acordo com as explicações, ela o teria recebido como pagamento de uma dívida).

A filha de Queiros, Nathalia, faz pouco tempo era assessora, na Câmara, do deputado federal Jair Bolsonaro. Ela e o pai foram exonerados no mesmo dia, 15 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno da eleição.

CAMINHANDO CONTRA O VENTO

O presidente eleito Jair Bolsonaro está quase pronto para o trabalho do ano que vem. Já preencheu vinte dos quinze Ministérios que tinha prometido, e os dois últimos, que acertam a conta, estão no forno (pode ser até que, quando esta coluna for lida, já saibamos todos os 22 que eram 15).

A oposição está quase pronta para seu trabalho do ano que vem. Qual delas? Há duas: uma, PT mais PCdoB mais penduricalhos, liderada por Lula, ou Haddad, ou Gleisi, que se opõe à outra, PSB mais PDT mais não se sabe quem. Essa outra talvez até prefira Bolsonaro a Lula – afinal, Bolsonaro derrotou Ciro Gomes, mas não tentou manobras por baixo do pano para atrapalhar suas alianças nem sua candidatura. Mas, seja qual for, há oposicionistas se mexendo: já condenaram Bolsonaro por ser submisso aos EUA, ao prestar continência a John Bolton, assessor de Segurança Nacional de Trump; e por ter desrespeitado os EUA, ao servir ao mesmo John Bolton o café da manhã na cozinha de sua casa, com o bolo já cortado em fatias, numa mesa – horrorizem-se! – sem toalha.

O Congresso se apronta para, apesar de renovado, provar que continua o mesmo: Renan na Presidência do Senado é uma probabilidade real. Renan, apesar de tudo, não é o símbolo maior do Congresso. Símbolo mesmo é um ex-deputado, Valdemar Costa Neto, que cumpriu pena pelo Mensalão e é o cacique do PR. E é justo com Valdemar que Bolsonaro troca ideias hoje.

A chave do cofre

Mesmo com grande número de parlamentares não reeleitos, o Congresso foi o primeiro a colocar as cartas na mesa pensando no próximo Governo. Já aprovou um belo aumento para o Supremo, que aumenta o gasto público, a partir de 2019, em algo como R$ 4 bilhões por ano. Por que aumentar os gastos com o Judiciário e deixar a Educação, por exemplo, com a mesma verba? Nossos congressistas são previdentes: sabem perfeitamente que, ao deixar a cadeira, pouquíssimos irão à escola. E são profissionais, gente do ramo: sabem que Bolsonaro tende a ignorar os partidos e a privilegiar áreas de influência, sejam governos estaduais, sejam segmentos econômicos ou religiosos. E se preparam para mostrar que, sem eles, o Governo não anda.

O extremo centro

Quem ainda vai brigar muito para decidir onde fica é o PSDB. Fernando Henrique disse que cabe ao partido a posição de “centro radical”, afastado tanto de Lula quanto de Bolsonaro e mantendo posição critica diante do governo, embora podendo apoiar medidas específicas com que concorde. O governador paulista João Dória, estrela ascendente no tucanato, não apenas deu apoio a Bolsonaro no segundo turno (e assistiu tranquilo à campanha do “Bolsodoria” no primeiro) como, logo após as eleições, viajou para um encontro com o presidente eleito – a propósito, não foi atendido. Alckmin, que lançou João Dória na política mas hoje não o vê com bons olhos, deve ficar com Fernando Henrique – mas é um candidato derrotado, sem o peso político que já teve. Aécio, hoje, não conta. Mas Tasso Jereissati conta: se conquistar a Presidência do Senado, dirá para onde vai o partido. Mas sua chance de manter a união tucana é mínima: o PSDB deve se dividir.

Dúvida 1

O articulador político do futuro Governo, deputado Ônyx Lorenzoni, disse que a Funai passará do Ministério da Justiça para o da Agricultura. A dúvida: e que é que a Agricultura tem a ver com a população indígena?

Dúvida 2

Bolsonaro assistiu ao jogo Palmeiras x Vitória, no estádio palmeirense, entregou as medalhas aos campeões, abraçou os jogadores de seu time. Que terão dito seus médicos? Ele ainda está com os intestinos ligados a uma bolsa externa e a cirurgia que deveria realizar no dia 12 foi adiada por falta de condições. O presidente eleito não terá abusado de sua saúde? E comer cachorro-quente, por melhor que seja a salsicha, é adequado para ele?

Dúvida 3

Bolsonaro aproveitou bem a conquista do Brasileirão pelo Palmeiras. Apareceu bem, sorridente, foi homenageado por torcedores aos gritos de Mito, vestiu a camisa do seu time. Mas fica bem um presidente eleito usar camiseta com propaganda comercial? Poderia ter usado camiseta apenas com os símbolos do clube. Para sua imagem, seria bom do mesmo jeito.

O poder do ministro

No avião, antes da decolagem, um cidadão que reconheceu o ministro Ricardo Lewandowski disse que o Supremo era uma vergonha e que ele tinha vergonha de ser brasileiro. O ministro o ameaçou de prisão, o cidadão insistiu. Lewandowski chamou a Polícia Federal para prendê-lo. Os federais entraram no avião mas não prenderam ninguém: o cidadão prometeu não dizer mais nada ao ministro nem tumultuar o voo de forma alguma, e foi liberado para viajar. A ordem de prisão – bem, deixa pra lá.

CADEIA VERDE-AMARELA

A Rádio Bandeirantes, potência maior do rádio paulista, montou uma rede nacional de emissoras afiliadas, que retransmitiam sua excelente programação de esportes. Era a Cadeia Verde-Amarela Norte-Sul do Brasil. Com a TV nos estádios, permitindo que rádios menores transmitissem o jogo a partir das imagens, dissolveu-se a Cadeia Verde-Amarela.

Mas o mundo gira. Hoje, a Cadeia Verde-Amarela Norte-Sul do Brasil está de volta, com autoridades sendo presas em todo o país. O esporte é o mesmo de antes: atuar em estádios, receber boladas, montar boas jogadas e sempre seguir a máxima de um grande técnico, Gentil Cardoso: “Quem pede recebe”. Alguns deram o azar de fazer o que não deviam na hora em que o juiz estava olhando, e a torcida, irritada, exigiu o cartão.

Resultado: todos os governadores eleitos do Rio nos últimos 20 anos foram presos. Um, Sérgio Cabral, está condenado a mais de cem anos. Os dois Garotinhos, Anthony e Rosinha, passaram pela cadeia, mas foram logo soltos. E Pezão foi o primeiro dos quatro a ser preso ainda no exercício do mandato. Perto de Cabral, Pezão é argent de pôche, dinheiro de pinga: falam em mesada de R$ 150 mil, mais 13º, eventualmente algo a mais, mas nada que se compare, ao menos por enquanto, ao anel de R$ 800 mil que Cabral recebeu como propina de um empreiteiro para dar à esposa.

Dois ex-governadores de São Paulo foram delatados. Ninguém se salva?

A hora das vaias

Atenção: o que se discute no Supremo é uma questão constitucional, não partidária, se o presidente da República tem ou não o direito de conceder indulto a presos que se enquadrem em certas normas. Este colunista, do alto de sua ignorância em Direito, acha que, seguidas as normas legais (sem mexer no que está escrito), indultar é direito do presidente. Siga-se a lei. Se o STF mexer nas normas, interferirá em outro poder. Indulto não é jabuticaba, existe mundo afora. Quando o presidente Nixon renunciou, seu vice Gerald Ford o perdoou, livrando-o de processos. Sem promessa de perdão, renunciaria? Ou lutaria na Justiça, tumultuando a vida do país?

É sério, mas não é

O Governo paulista destinou no Orçamento à Linha 18 do Metrô um total de R$ 40,00 (sim, quarenta reais). A Linha 18 terá 15 km de trilhos, com 13 estações, e deve ligar as sete cidades do Grande ABC, uma das regiões mais importantes do Estado, à capital. Aliás, já deveria estar em funcionamento, porque a inauguração era prevista para 2018, A obra está parada há quatro anos – mas, com R$ 40 para gastar no ano, como andar? Esta verba só tem uma vantagem: não sobra espaço para nada errado.

Erramos 1

Esta coluna se equivocou ao noticiar a empresa na qual Marconi Perillo, ex-governador de Goiás, está trabalhando em São Paulo: a firma é a CSN, do empresário Benjamin Steinbruch. Perillo se mudou para São Paulo depois de ser derrotado na eleição para senador.

Erramos 2

Nos anos mais duros da ditadura militar, o Painel da Folha de S Paulo chamou o ministro Júlio de Sá Bierrenbach, do Superior Tribunal Militar, de “almirante de esquerda”. Erro, claro: Bierrenbach era almirante de esquadra, a mais alta patente da Marinha. Houve a reclamação, a habitual chuva de protestos, e no dia seguinte o Painel publicou algo como “houve um erro na referência à patente” do almirante Bierrenbach. “O correto é almirante de esquerda”. Não é que esta coluna cometeu o mesmo tipo de erro? Ao publicar esclarecimentos sobre vida e obra do ex-ministro Roberto Campos, errou o nome de quem gentilmente nos corrigiu. O nome correto do professor e diplomata é Paulo Roberto de Almeida

Nosso herói

Mickey Mouse completa 90 anos: em 1928, estreou no desenho animado Steamboat Willie, em que trabalha num navio e tem como inimigo João Bafodeonça. Mickey fez sucesso no cinema, nos quadrinhos, na área de entretenimento – os parques da Disney o têm, ao lado de Pateta, como o grande chamariz de turistas. Mickey e seus companheiros de Disney são também grandes exemplos internacionais. No Brasil, por exemplo, velhos ratos estão sempre próximos do poder. Nem dão bola para os Patetas e, graças ao jeitinho brasileiro, ficaram muito amigos de João Bafodeonça e dos Irmãos Metralha, hoje seus companheiros em tantas aventuras. Essas mudanças no perfil dos personagens lhes fizeram bem: nossos ratos, mesmo não sendo atrações turísticas, ganham muito mais que o Mickey.

Aberje

O arresto e penhora de bens da Aberje, Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, foram suspensos: a Aberje está pagando a dívida trabalhista que havia motivado o processo. Tudo em ordem.

ECONOMIA, ECONOMIA. E SÓ

Se o governo de Bolsonaro der certo, a presença maciça de militares, a redução do número de ministérios e a redução das restrições ao porte de armas serão aprovadas com entusiasmo pelos eleitores. Se o governo de Bolsonaro não der certo, os eleitores dirão que os ministérios cortados fizeram falta, que arma deve ser proibida e que lugar de milico é no quartel.

Na verdade, esses itens são secundários: o importante é a economia. Se o cidadão tiver emprego, puder comprar alimentos, pagar o aluguel e as contas, o Governo terá dado certo. Simples assim: se a economia estiver em bom funcionamento, tudo estará bem. Lembre o grande Nelson Rodrigues, para quem o Maracanã vaiava até minuto de silêncio. O ditador Médici, em cujo governo a economia cresceu, foi aplaudido. Motivo? Pleno emprego.

No caso de Bolsonaro, se a economia crescer e se aproximar do pleno emprego, anote: Ônix vira gênio político, Alexandre Frota passa a ser um parlamentar brilhante cuja vocação demorou a ser descoberta, a bancada da Bíblia recebeu uma ordem divina e a cumpriu juntando-se ao predestinado que iria salvar o país. Se a economia não crescer, o restante do Governo pode funcionar com perfeição que será sempre considerado muito ruim.

Oto Glória, técnico brasileiro que levou a Seleção portuguesa ao terceiro lugar na Copa de 1966 (eliminando o Brasil de Pelé), dizia que “em futebol é fácil passar de bestial a besta”. Em Portugal, “bestial” significa “ótimo”.

A voz de Lula

Antes que comecem a insultar este colunista, quem disse que Médici era popular entre os trabalhadores e venceria uma eleição direta foi Lula. Lula corretamente atribuía a popularidade de Médici ao pleno emprego.

Bons sinais

Há bons sinais no caminho de Bolsonaro: a inflação está baixa, há sinais de confiança do mercado na recuperação da economia, o desemprego é um horror de alto, mas baixou, neste fim de ano, ao nível da época de Dilma.

Maus sinais

E há maus sinais: parlamentares dispostos a aumentar as despesas se forem contrariados, magistrados que nesta época não se preocupam com o déficit público, coordenação política do bloco governista ainda inexistente. O buraco nas contas é grande e já se fala em retomar investimentos (aliás, necessários) em obras de infraestrutura e até mesmo em Angra 3, parada há dezenas de anos. De onde sairá o dinheiro? Pergunte ao Posto Ipiranga: só o superministro da Economia, Paulo Guedes, para responder onde buscá-lo.

Educação em (bom) debate

Só feras: um debate promovido pelo MIT, Massachusetts Institute of Technology, uma das principais universidades do mundo, sobre Visões sobre o futuro da Educação no Brasil, com apoio da Fundação Lemann. “O Brasil precisa avançar na Educação para poder escapar da armadilha de renda média”, diz o professor Ben Ross Schneider, do MIT, coordenador do debate e autor de pesquisa com análise comparativa das políticas públicas educacionais e reformas na América Latina, com foco no setor privado e nos sindicatos de professores. O debate, com Schneider, Lucas Rocha, da Fundação Lemann, Ari de Sá Neto (MIT Sloan Alumni do Brasil, CEO da Arco Educação) e Samir Iásbeck, da Qranio, ocorre nesta segunda, 3 de dezembro, das 18h30 às 21h. Inscrições até dia 30 (e detalhes) clicando aqui. Gratuito. Vale a pena: todos têm o que dizer e não entram em discussão de bobagem.

Olha o indulto!

O Supremo deve decidir hoje se o indulto de Natal assinado no ano passado por Temer vale ou não integralmente. Em liminar, o ministro Luís Roberto Barroso suspendera trechos do indulto, para excluir do benefício os presos por crimes de colarinho branco. Hoje, se a decisão de Barroso for derrotada, condenados por corrupção ficarão livres após o cumprimento de 20% das penas, e sem pagar as multas que lhes foram impostas. Barroso tinha liberado para o perdão de Temer só os condenados por crimes sem violência, com sentença de até oito anos, que já tivessem cumprido um terço da pena, sem liberação das multas e sem colarinho branco. Conforme a decisão do Supremo, Temer poderá conceder um indulto gigante.

Só?

Mais uma denúncia contra o ex-presidente Lula, esta oferecida pela Operação Lava Jato de São Paulo, sob acusação de lavagem de dinheiro em negócio na Guiné Equatorial, África. Segundo a denúncia (que, entre os papeis apresentados, traz e-mail do ex-presidente ao ditador Teodoro Obiang), Lula ajudou a empresa brasileira ARG a ganhar contrato na Guiné Equatorial, e em troca obteve propina de US$ 1 milhão (ou doação legal para o Instituto Lula). Bem, se houve propina de US$ 1 milhão, quase nada diante dos números que têm circulado, Lula será processado por dumping.

LÉ COM CRÉ, CRÉ COM LÉ

Se alguém duvidar do que vou contar, informo prudente: “Meninos, eu vi”. Vi Delfim Netto ser apontado como comunista – e o imagino, um dos homens fortes do regime militar, disfarçando para não ser desmascarado por gente para quem Gengis Khan já era esquerdista perigoso. Vi Fernando Henrique ser apontado como comunista por ter sido professor de marxismo. Vi o ministro da Educação de Bolsonaro, professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, contar que foi trotsquista e militou em organizações que, para o regime militar, eram terroristas. Mas, se ter sido professor de marxismo basta para apontar FHC como comunista, atuar em grupos terroristas não afetou o ministro Ricardo Vélez Rodríguez.

Vi, pode crer, banqueiros e operadores financeiros da mais alta reputação internacional apontados como comunistas. Pelo jeito, enriquecem só para dar inveja aos mais pobres, estimulando-os à revolução comunista.

Nada de novo: vi esquerdistas boicotando Simonal, tentando boicotar Elis, vaiando Chico Buarque (sim, Chico Buarque! – e não foi uma vez só), fazendo passeatas contra guitarras “estrangeiras” na música brasileira e atacando agentes da americanização como Caetano e Gil. Novo é saber que Fernando Henrique, Delfim e banqueiros são ao mesmo tempo comunistas e fascistas, e que Sérgio Moro foi treinado pela CIA para evitar que os pobres brasileiros se misturem aos ricos nos aeroportos. Meninos, eu vi.

Longes lembranças

Claro, parte do texto acima remete a I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias. E me lembra os anos de chumbo: se não me falha a memória, foi a primeira poesia publicada pelo Estadão no lugar de uma notícia censurada. A ideia (brilhante) dos poemas foi de Antônio Carvalho Mendes, Antoninho Boa Morte, responsável pela coluna de Necrologia do jornal.

Todos juntos

A denúncia do quadrilhão do PT, apresentada há mais de um ano pelo então procurador-geral Rodrigo Janot, foi aceita e transformada em ação penal por formação de organização criminosa pelo juiz Vallisney Oliveira. Os réus são Lula, Dilma, Palocci, Guido Mantega e João Vaccari Neto. Na denúncia, Janot diz que só na Petrobras o prejuízo desse esquema de corrupção foi de uns R$ 29 bilhões, de acordo com o Tribunal de Contas.

O Ministério que falta

O presidente da União Democrática Ruralista, UDR, Nabhan Garcia, vai para a Secretaria Especial de Assuntos Fundiários – em princípio, cuida da reforma agrária, mas mantendo fora o MST. Só há um problema: Nabhan não gosta da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e é correspondido. Se os dois trabalharem juntos sem problemas será uma surpresa, já que Tereza comanda uma ala mais moderna do agronegócio. Certa vez, Chico Buarque sugeriu aos governos petistas que criassem o Ministério do Vai dar Caca, que apontaria os problemas de cada solução – na verdade, “vai dar caca” é uma expressão mais gentil que a de Chico. Seria hoje uma ótima ideia.

A hora da verdade

E, por falar em problemas, o PSL, partido de Bolsonaro, segunda maior bancada da Câmara, sente-se prejudicado na distribuição de cargos. O presidente Bolsonaro diz que os cargos estão sendo preenchidos por gente de confiança, independentemente do partido a que pertençam. Mas o DEM tem três dessas pessoas de confiança – e até Joice Hasselman já protesta. É o primeiro grande teste da base parlamentar de Bolsonaro. Tem de ser uma base forte, para aprovar as reformas que o presidente diz que precisa fazer.

Boa notícia

O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, conversando com empresários, disse que gostaria de reduzir a carga tributária de 36% a 25% em dez anos. A ideia e ótima – mas exige medidas que o Congresso aprove.

Retrato do Brasil

Francisco Gladyson Pontes, motorista do Tribunal de Justiça do Ceará, salário mensal de R$ 2.794,00, acaba de se aposentar. Sua aposentadoria é de R$ 26.900,00 reais mensais, incorporando salário, gratificações (entre elas, “por risco de vida” e “gratificação judiciária”) e benefícios diversos. Tudo direitinho dentro da lei, tudo já publicado no Diário Oficial.

Os bens da Aberje

A Justiça determinou, no dia 14, o arresto e penhora de bens da Aberje, Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, por descumprimento de decisão judicial. A Aberje está condenada a pagar dividas trabalhistas de quase 15 anos atrás, o que levou agora à decisão da 73ª Vara do Trabalho do Fórum da Barra Funda, em São Paulo. A Aberje, organização com mais de meio século, reúne as principais organizações empresariais do país, com o objetivo de aprimorar ações de comunicação, responsabilidade social, construção de marca e imagem, lobby e compliance.

AMANHÃ TALVEZ SEJA OUTRO DIA

País parado, desemprego, a turma atual do poder pensando só no deles, a turma do poder futuro dizendo, desdizendo e contradizendo – ruim, né?

Surpreenda-se: talvez não. O emprego não aumentou, mas o desemprego parou de crescer e voltou ao nível menos péssimo de alguns meses atrás. O pessoal escolhido para a área econômica tem sido bem visto no Exterior. Uma publicação importante, o Wall Street Journal, cita a “equipe de falcões fiscais” do futuro Governo (acredite, é elogio). Há sugestões que parecem viáveis para superar a crise dos aumentos em cascata que ameaça a Regra de Ouro, o teto dos gastos públicos. E a língua comprida dos novos poderosos parece não ter causado danos incuráveis à imagem do país.

O Partido Comunista Chinês, por exemplo, acaba de convidar o partido de Bolsonaro, o PSL, a visitar a China, ainda em 2018, para “intercâmbio de experiências de governança e cooperação pragmática entre os partidos”. O PC chinês pagará todos os gastos da delegação de dez pessoas do PSL.

E há a interessante observação de Ricardo Kotscho, amigo de Lula há quase 40 anos, seu secretário de Imprensa nos dois primeiros anos de governo, ótimo jornalista: nota que várias empresas, “em vez de ficarem reclamando da situação, decidiram botar a mão no bolso e ampliar seus parques produtivos”. Isso pode indicar, diz, os primeiros sinais de retomada da economia. “Apesar de tudo”, conclui, “o mundo não acabou”.

Conferindo

No Balaio do Kotscho, estão o link das notícias e o valor dos investimentos – uns US$ 4 bilhões. Vale ler. Não vale dizer que o Kotscho é petista, ou melhor, lulista. Eu sei. E confio nele.

A corrida Bolsonaro

O presidente eleito chegou ontem a Brasília e fica até amanhã, em reuniões com a equipe de transição. Na sexta deve estar em São Paulo, para os exames pré-operatórios da terceira cirurgia a que será submetido, em 12 de dezembro, para tirar a bolsa e recolocar o intestino na posição normal.

A festa

Ônix Lorenzoni, que será chefe da Casa Civil de Bolsonaro, casa-se hoje em Brasília, aproveitando a presença do amigo. Amor em alta: o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, casou-se em junho último.

Dilma, sempre Dilma

Muita gente ficou triste quando Dilma tomou aquela surra de criar bicho e não conseguiu se eleger senadora. Iríamos ficar sem suas notáveis frases? Não, Dilma não nos abandona. A ex-presidente falou no 1º Foro Mundial do Pensamento Crítico, em Buenos Aires, para outros ex, como Pepe Mujica, Uruguai, e Cristina Kirchner, Argentina, todos gritando “Lula Livre”. Disse Dilma que, com Bolsonaro, o Brasil corre o risco de sair da democracia para um Estado neoliberal e fascista. Curioso: o italiano Mussolini definia o regime que criou em uma frase, “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. O neoliberalismo é o contrário, Estado mínimo, com o mínimo possível de poder. Só Dilma pode explicar.

Lula cá

José Dirceu, acusado dos mesmos crimes que Lula, defendendo-se da mesma maneira (nada era propina), e punido com quase o triplo da pena, está em prisão domiciliar, com tornozeleira. Por que Lula não recebe o mesmo benefício? Em parte, porque disse que não o aceitaria: só queria ser absolvido. Em parte, porque, tentando o tudo ou nada, confrontou a Justiça.

Mas há, nos tribunais superiores, quem queira trocar sua cela por uma tornozeleira. O tempo é curto: o recesso do Judiciário começa no dia 20 de dezembro. A maneira mais viável de tirar Lula da cela é o pedido da defesa para que o STF considere que o juiz Sérgio Moro se comportou de forma a prejudicar o réu, por ter interesse na vitória eleitoral de seu adversário. O ministro Edson Fachin relata o caso e já pediu parecer à Procuradoria Geral da República. A rapidez é essencial por outro motivo: Lula responde agora a processo pelo sítio de Atibaia, e se for condenado tudo fica mais difícil.

Corrigindo

O professor Paulo Roberto de Oliveira, diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, profundo conhecedor da vida e obra de Roberto Campos, corrige dois erros cometidos pela coluna na edição anterior. Um: Roberto Campos não foi historiador. Dois: fez mestrado em Economia pela George Washington University, de Washington. Joseph Schumpeter, então em Harvard, disse que a dissertação de Campos valia por um doutorado.

O professor Paulo Roberto de Oliveira é organizador do livro O Homem que pensou o Brasil – trajetória intelectual de Roberto Campos; e autor de Constituição Contra o Brasil: ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988. Grato pelos esclarecimentos. Mas o professor vai-se arrepender de uma palavra que usou: “Disponha”. Claro!

AS REGRAS DO JOGO

Em boa parte dos meios jurídicos, o depoimento de Lula à Justiça não foi bem visto. Com a oportunidade de ver sua defesa divulgada na íntegra para todo o país, teria tido atitude prepotente, ao tentar interrogar a juíza Gabriela Hardt – o que lhe valeu uma resposta dura – e ao por em dúvida o tema do julgamento, algo que seus defensores devem ter-lhe informado.

Pode ser – mas o que aconteceu em Curitiba é que Lula não estava nem um pouco interessado em melhorar sua posição como réu. Seu objetivo, e não é de hoje, é político, não jurídico: é reforçar sua imagem de Salvador da Pátria e Defensor Perpétuo dos Pobres, impedido pelos poderosos, que não gostam de misturar-se à plebe nos aeroportos, de voltar à Presidência da República. Para ele, toda a questão jurídica se resume nisso: a Justiça é o instrumento de seus adversários para evitar seu grande retorno, vitorioso no primeiro turno. Lula jamais ganhou eleição presidencial no primeiro turno. Mas, já que não disputou mesmo, que mal faz proclamar a vitória?

O problema é que essa tática beneficia apenas Lula e fere seu partido. Fingir que Lula seria candidato, sabendo que não seria, custou ao PT uma pesada derrota nacional. Se Lula tinha mesmo a força que acha que tem, não precisaria fingir: bastaria dizer que, como a Justiça o perseguia e o impedia de disputar, Haddad seria seu candidato. Mas não buscava a vitória do partido: buscava, e para ele isso era o importante, crescer como lenda.

Rei morto, mas vivo

Nossa História está cheia de salvadores que só não nos levaram ao Paraíso porque algum inimigo do povo os bloqueou. Em Pernambuco, havia o “chá de Arraes”: o cidadão pegava uma foto de Miguel Arraes, fervia e guardava a água. O chá era milagroso, curava qualquer doença. Getúlio Vargas, falecido há muitos anos, foi usado por grileiros que procuravam posseiros e lhes davam algum dinheiro, “por ordem do dr. Getúlio”. O posseiro assinava o recibo com a impressão digital – e o recibo era o documento de compra e venda da terra. Muito antes, houve Dom Sebastião, rei de Portugal: morto em batalha na África, criou-se a lenda de que um dia voltaria. Lula tem tudo, até a imagem de amigo dos pobres, para virar lenda. É nisso que aposta. E espera que o PT trabalhe para isso.

Por outro lado

O antigo presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo, está preso por envolvimento no Mensalão tucano. Paulo Preto, engenheiro de destaque em governos tucanos, é investigado na Suíça. Surge agora outra investigação, na Suíça, de uma movimentação equivalente a R$ 43 milhões. O nome dos envolvidos não foi divulgado. A origem dos recursos, informam os suíços, é uma campanha presidencial tucana.

Se gritar…

Muda o partido, mudam as alianças, há gente que passa o tempo falando da corrupção (dos adversários), mas é impressionante: sai uma minhoca a cada enxadada. Como diria o sábio Sílvio Santos, quem procura acha.

Nome de peso

Foi um sucesso o nome do presidente do Banco Central escolhido pelo presidente Bolsonaro: Roberto Campos Neto, descendente de um dos criadores do Banco Central e ministro do Planejamento de Castello Branco, Roberto Campos. O ministro foi tão lembrado que, em algumas páginas de noticias, havia mais fotos dele do que do neto. Algumas lembranças foram equivocadas. Afinal, Campos deixou o Planejamento há 51 anos.

É mas não foi

O primeiro engano é dizer que Campos foi um guru do liberalismo brasileiro. É verdade: perto do que havia na época, Campos era ultraliberal. Mas não é verdade: ele trabalhava com controle de preços. Lembram também de Campos como economista. Não: era diplomata e historiador.

Nada que tenha a menor importância. Campos entendia de economia e, homem culto, conhecedor de História, sabia qual o destino dos países cheios de controles. Tinha humor refinado. E como escrevia bem!

Caso médico

Com a saída dos médicos cubanos, haverá problemas de atendimento ou a substituição será simples? Os cubanos, como funcionários públicos, ganhavam aqui o mesmo salário dos que ficaram em Cuba, ou eram explorados, porque dos R$ 11 mil mensais pagos aqui só podiam ficar com R$ 3 mil? Este colunista já encontrou as duas versões. Uma reportagem do Huffington Post traz boas entrevistas com médicos cubanos. Clique aqui para ler.

O HOMEM DO BRAÇO DE OURO

Imaginemos que Paulo Guedes, o superministro, esteja certo em todas as reformas que propuser – ou que o superministro Sérgio Moro tenha sempre razão. E daí? Se não conseguirem convencer a maioria a segui-los, nada vai passar pelo Congresso. Não é só convencê-los de que estão certos. É mostrar a cada um que vantagem terá ao segui-los. Coisa para profissionais da política. Bolsonaro já teve duas derrotas antes de entrar em campo (aumento do STF, isenções para a indústria automobilística). Há outros itens caríssimos sendo votados, mesmo nesses dias parados. É hora de agir.

Bolsonaro parece ter percebido que seu articulador, Ônix Lorenzoni, não começou a atuar. E entrou pessoalmente no jogo. Já marcou para hoje um café da manhã com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; e encarregou a deputada Teresa Cristina, que será sua ministra da Agricultura, de garantir o apoio da bancada ruralista, que ela preside, às reformas do Governo. Ela irá também trabalhar na articulação política, onde sempre se saiu bem.

Já houve a ordem para que Paulo Guedes fale menos. Mas há ainda os filhos do presidente (e no Congresso, mesmo quando se fala a verdade, é preciso tomar cuidado). O senador eleito Flávio Bolsonaro disse, à sempre atenta Rádio Bandeirantes, que a volta de Renan ao comando do Senado será ruim, “porque o Congresso precisa de um presidente ficha limpa”. É verdade – mas quem quer ouvir essa verdade? E Renan, sim, pode voltar.

O Senado sou eu

O Senado terá ampla renovação, mas não o suficiente para que pessoas como Renan (e, antes dele, Sarney) deixem de ter a cara da Casa. Renan já foi quatro vezes presidente do Senado, e isso não acontece por acaso. Ele é situação ou oposição, depende do que for mais conveniente. Pode apoiar Bolsonaro, claro, desde que para ele isso valha a pena. Flávio Bolsonaro, na entrevista à Bandeirantes, criticou “a prática de alguns parlamentares de criar dificuldades para extorquir o presidente em busca de cargos”. Pois é. E é com eles que é preciso negociar. Ou derrotá-los na batalha parlamentar.

Quem tem voto

Bolsonaro se elegeu bem, deu um tiro no alvo ao nomear Sérgio Moro para o Ministério, está fazendo uma esplêndida campanha de “gente como a gente” na Internet – veja, ele come hambúrguer no balcão em vez de ir a um restaurante de luxo, veja, ele corta o cabelo no mesmo barbeiro de sempre, veja, ele estava sentado no chão do aeroporto esperando a partida do avião, em vez de ir a uma sala VIP, veja, ele foi ao açougueiro do bairro comprar carne para fazer churrasco para os seguranças – mas isso tudo, se ao menos hoje lhe dá popularidade, não é levado em conta quando negocia com os parlamentares. Aí é preciso colocar em vigor a lei da reciprocidade: ou o parlamentar ganha prestígio, associando-se a alguma iniciativa que lhe dê votos, ou é preciso encontrar outra maneira de envolvê-lo nos projetos do Governo. Não é essencial, sempre, que haja distribuição de cargos ou de vantagens contabilizáveis; mas é preciso achar a fórmula que leve a maioria dos 513 deputados e 81 senadores a se agregar àquilo que o Governo achar necessário. Espera-se que as velhas fórmulas, transportáveis em malas e envelopes, tenham perdido a antiga popularidade após a Lava Jato.

O grande nome

Bastou Moro aceitar o convite de Bolsonaro que caiu o mundo – não apenas os petistas furiosos com a condenação de Lula (embora ele tenha tido a condenação confirmada, e ampliada, pelo Tribunal Regional Federal), mas os que acham que deveria ter pedido demissão em vez de tirar férias, os que se queixam de fatos como a liberação do telefonema em que Dilma e Lula combinam como ele fará para ganhar foro especial e escapar do julgamento em primeira instância.

São minoria: de acordo com levantamento nacional da Paraná Pesquisas, 85,3% dos ouvidos aprovam a nomeação de Moro para o Ministério da Justiça. A pesquisa foi divulgada pela coluna Cláudio Humberto e abrange a faixa etária de 24 a 59 anos.

É adversário – e sabe

José Dirceu, ex-comandante do PT, ministro de Lula e Dilma – “capitão do time”, como Lula o chamava – diz que Bolsonaro terá base social, força e tempo para governar. Dirceu falou anteontem, ao lançar seu livro de memórias. “Há um Brasil profundo que se manifestou democraticamente e que o PT precisa entender. O PT não foi derrotado apenas eleitoralmente nas eleições, mas ideologicamente”. Citou a questão da segurança pública: “Onde estava o PT quando o filho de uma mulher pobre chegava em casa sob efeito de drogas, ou em outros momentos igualmente trágicos na vida do brasileiro?” Aos poucos, disse, o PT se afastou “do dia a dia do povo”. E Bolsonaro, completou, “avançou sobre a base da qual o PT se afastou durante seus quatro mandatos”.

“O PT não foi derrotado apenas eleitoralmente nas eleições, mas ideologicamente”

TUDO CERTO, SE ESTIVER CERTO

Paulo Guedes tem boa reputação, o general Augusto Heleno é muito bem visto nos setores em que atuou, Tereza Cristina é agrônoma e teve sucesso na agroindústria, Sérgio Moro é a estrela atual. E Ônix Lorenzoni é Ônix Lorenzoni – bem na hora em que precisaria se destacar.

As ideias e planos podem ser ótimos, mas têm de passar pelo Congresso. Talvez haja virgens na zona, mas não muitas. Quem atua no Congresso é profissional, goste-se ou não do que faça. O futuro Governo Bolsonaro já tomou duas bolas nas costas – o aumento dos ministros do Supremo, que deve custar de 4 a 6 bilhões de reais por ano, e novas isenções de impostos para a indústria automobilística – uns R$ 2 bilhões por ano. O coordenador de Bolsonaro na área parlamentar é Ônix – que, porém, não entrou no jogo.

Moro provavelmente não terá problema com o Congresso – parlamentar pode ser tudo, menos bobo, e sabe escolher e evitar adversários. Augusto Heleno é discreto, não deve forçar situações. Tereza Cristina conhece bem o Congresso, sabe mover-se. Mas Paulo Guedes fala bastante. E sua frase sobre “dar uma prensa” no Congresso ajudou Bolsonaro a levar a bola nas costas. É preciso compor com os parlamentares para montar a estrutura da política econômica. Ou Ônix cuida disso ou entra Bolsonaro em pessoa. E, ao negociar diretamente com o chefe, há gente cujas ambições crescem.

Sempre é melhor mandar outro negociar. Se não der certo, é só recuar.

Velhos mestres

Antes de 1964, dizia-se que a UDN, partido dos professores e bacharéis, era o partido burro das pessoas inteligentes. Seu maior adversário, o PSD, formado por manda-chuvas dos Estados e políticos profissionais, era o partido inteligente das pessoas burras. O PSD ganhava quase todas. Nele se reuniam mestres da política. Uma de suas normas era primeiro combinar tudo e depois fazer a reunião e anunciar o resultado. Língua solta? Jamais.

Sonho impossível

O reajuste do Supremo se estende, legalmente, ao Superior Tribunal de Justiça e a todos os magistrados do país. Como é o teto salarial dos salários do funcionalismo (isso para os que não conseguiram penduricalhos para furá-lo), mexe em todos os Estados. Os ministros do STF, desapegados, se ofereceram para desistir do tal auxílio-moradia, pouco mais de R$ 4 mil mensais. Para o colunista ninguém faz essa proposta: ganhe um monte de dinheiro aqui, sem problema, desde que deixe de ganhar um tiquinho ali.

Bola no mato

O presidente Temer tem poder para vetar o aumento. Com isso, faria um favorzão a Bolsonaro. Este colunista já viu até Haddad e Manuela d’Ávila comungando, mas jamais viu político tomar medidas, mesmo corretas, que beneficiem só outro político. E não consegue imaginar o presidente Temer, que encerra o mandato com dois processos criminais, enfrentando o STF para ficar de bem com a opinião pública. Quem é que decide se Michel Temer, ao deixar o Governo, fica preso ou solto? A opinião pública?

Cadê o meu?

Bolsonaro deu aos militares demonstrações de admiração que há muito tempo não viam. Foi ao Ministério da Defesa, foi ao comando de cada uma das três Forças Armadas, escalou militares de prestígio para seu governo. E já lhe disseram que só apoiarão mudanças nas normas de previdência e de pensões se houver um reajuste caprichado em seus vencimentos.

Acelerando

A indústria automobilística, com todos os incentivos e renúncias fiscais, não gerou inovações nem na área em que o Brasil é uma potência e onde há grandes empresas que poderiam cooperar com as pesquisas: as alternativas renováveis ao combustível fóssil. Digamos, um motor híbrido em que a eletricidade seja gerada por álcool. O Prius, desse tipo, que gera energia com gasolina, faz sucesso mundial. E os preços nacionais são altos: um carro médio feito aqui, com custo Brasil e tudo, exportado para o México (pagando transporte), sai lá por pouco mais da metade do preço brasileiro.

Parece absurdo. E é

Comentário de uma cientista política na TV, a respeito da proposta de Wilson Witzel, governador eleito do Rio, de ordenar à Polícia que atire para matar em qualquer pessoa que apareça portando ostensivamente fuzis em lugares públicos: “Os bandidos compram o fuzil porque são obrigados, para combater a segurança pública”. Se não houvesse polícia, se ninguém estivesse presente para atrapalhar os crimes dos distintos cavalheiros, eles não precisariam de fuzis. O caro leitor viu como é simples desarmar os bandidos? Ah, sim: os fuzis também funcionam, nas áreas dominadas pelo crime, como moeda de troca. Deve ser coisa do capitalismo neoliberal.

Enfim, só

O PT desmontou o acampamento próximo à prisão de Lula.

ONDE ESTÁ, FICA

A defesa de Lula pediu ao Supremo que ele seja libertado, alegando que ao aceitar o convite de Bolsonaro para ocupar um ministério, o juz Moro confirmou sua parcialidade. O ministro Edson Fachin distribuiu o pedido para a Segunda Turma, composta por ele mesmo, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Carmen Lúcia. Quais as chances?

Aparentemente, não muitas. Quando Moro condenou Lula a nove anos e meio, em 2017, ninguém via em Bolsonaro um candidato viável. O Tribunal aumentou a sentença para doze anos e um mês. E os desembargadores João Pedro Gebran, Leandro Paulsen e Victor Luíz dos Santos Lau ordenaram a Moro que prendesse Lula. Em resumo, ele não é o responsável pela prisão. Só cumpriu as determinações de seus superiores.

Não é a primeira vez que a defesa de Lula tenta libertá-lo. Uma das iniciativas anteriores foi barrada porque o assunto tinha sido debatido pelo plenário do Supremo. O STJ negou habeas corpus para Lula. E o STF indeferiu os recursos que impediriam a prisão de Lula.

Claro que tudo pode acontecer. A Segunda Turma do Supremo incluía o ministro Dias Toffoli, que hoje é o presidente do Supremo. Carmen Lúcia passou para a Segunda Turma. Estará disposta a lutar pela liberdade de Lula? Toffoli, que tinha ótimas relações com o PT, votou contra Lula. É esperar – mas este colunista não acredita que o Supremo mude de posição.

Um sonho impossível

A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffman, diz que “o mundo está chocado” com a nomeação de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça. Mas não é bem assim: de acordo com o levantamento da Paraná Pesquisas, 82.6% dos eleitores apoiaram a nomeação de Moro. Houve 24,6% que acharam errada a escolha do juiz. E 2,8% não souberam responder.

Explicando-se

Em sua primeira palestra após ser escolhido por Bolsonaro, Sérgio Moro explicou como decidiu trocar a vida de juiz pela de ministro. Palestrou anteontem na Federação das Indústrias do Estado do Paraná, Disse que, quando a corrupção é sistêmica, abala a confiança dos cidadãos na democracia; entretanto, completou, o hábito da corrupção só se resolve com mais democracia “Democracia é o único regime em que esses escândalos podem vir à tona”.

Moro explicou o motivo que o fez aceitar o convite de Bolsonaro. Disse que passou diversos momentos tensos durante a Lava Jato e, em muitos deles, achou que gente poderosa iria conseguir dar um fim na operação.

“Resolvi não ficar esperando o dia em que a boa sorte da Operação Lava Jato e do juiz Moro iria acabar. Quis, numa posição de poder, junto com o Governo, Congresso e sociedade civil, avançar, em vez de temer os retrocessos. É por isso que aceitei o convite”.

Dinheiro a rodo!

O presidente eleito Jair Bolsonaro mostrou que sua campanha custou bem pouco. E o que sobrou ele mandou doar ao hospital de Juiz de Fora. Uma bela iniciativa – mas há dinheiro sobrando no partido de Bolsonaro, o PSL.

Por ter eleito uma belíssima bancada, o PSL recebe algo como R$ 110 milhões em recursos do Fundo Partidário, Verbas públicas, claro: dinheiro meu, seu – coisa feia!

Coisa grande

Quanto ganham os magistrados do Superior Tribunal Militar? Não há motivo para queixas: de 29 ministros aposentados,21 receberam entre R$ 113.351,00 e R$ 306.644,00. Naturalmente, informa o excelente site jurídico gaúcho Espaço Vital, com os penduricalhos de praxe.,

Só quatro ministros recebem algo como R$ 22 mil mensais.Exatamente o salário dos ministros da ativa que não recebem penduricalhos.

Trocando em miúdos

Bolsonaro e Temer se encontram hoje em Brasília, no primeiro encontro após a eleição. Temer, gentil, ofereceu a Bolsonaro um dos palácios presidenciais. Bolsonaro preferiu optar por seu apartamento – o que é complicado. Será preciso cuidar da segurança – o que, se optasse por um dos palácios, seria mais fácil, mais barato e mais seguro. A reunião com Temer está agendada para hoje, às 16h. Seria interessante que Bolsonaro optasse por um dos palácios – segurança nunca é demais, especialmente numa fase política tão agressiva.

Homem certo

O governador eleito de São Paulo, João Dória Jr., escolheu o ministro Gilberto Kassab para coordenar seu governo, como chefe da Casa Civil. Uma bela escolha: Kassab é extraordinariamente hábil, conhece política, tem excelente relacionamento com os políticos em geral.

DESTA ÁGUA BEBEREI

Para Bolsonaro, foi ótimo: Sérgio Moro é um homem respeitado, de alto nível, e agrega prestígio a ele – que, embora eleito com esplêndida votação, ainda enfrenta problemas de credibilidade, e bem nos setores em que Moro é totalmente aceito. Para o futuro Governo Bolsonaro, Moro é muito bom: estudioso, eficiente, habituado a trabalhar com a Polícia Federal. E, chefiando um superministério, tem tudo para estender a Lava Jato a setores que nunca pôde investigar. Outra vantagem: com Moro ministro, morrem os pesadelos de caça às bruxas (que já incluíram em listas de comunistas a ser boicotados o jornalista Reinaldo Azevedo e até, creia!, Delfim Netto).

Mas, para Sérgio Moro, a coisa não é tão boa. Gente ligada aos alvos da Lava Jato já proclama que ele “perseguia Lula” para evitar que derrotasse Bolsonaro; quer acusá-lo naquele tal conselho da ONU de usar a toga com fins partidários; e o responsabiliza por, em duas ocasiões – a liberação da delação premiada de Palocci, dias antes da eleição, e a famosa gravação de Lula com Dilma, aquela do Bessias, em que ficava claro que seria nomeado ministro para ter foro privilegiado – antes do impeachment, para favorecer Bolsonaro. Quem prendeu Lula foi o TRF-4, mas não faz mal: o pau é nele.

Acusa-se também Moro de ter dito que jamais entraria na política. Isso ele disse – mas acha que, como Adib Jatene, é um ministro técnico que não vai disputar votos, ou mudou de ideia. Quem jamais nunca mudou de ideia?

Estranho vingador

Há também quem acuse Moro de mover uma cruzada contra Lula. Mas é esquisito: dentro de dez dias, Lula deve ser ouvido no processo sobre o sítio de Atibaia. Um vingador perderia a chance de condenar seu alvo mais uma vez? Ao aceitar o convite do presidente eleito, deixa de ser juiz. E o caso fica com uma juíza substituta, até que o novo titular seja escolhido.

Sem choradeira

Ao deixar a Magistratura para ser ministro, Moro não viola lei nenhuma.

Retrato futuro

O perfil do Governo Bolsonaro já começa a ser traçado: três ministros fortes, Sérgio Moro (Justiça), Paulo Guedes (Economia) e general Augusto Heleno, que comandou as tropas brasileiras no Haiti (Defesa). Os três controlam totalmente a área e escolhem os auxiliares que quiserem, sem que ninguém, nem Bolsonaro, se intrometa. Os três são competentes – mas nenhum jamais negociou com políticos profissionais tipo Renan Calheiros.

Prioridades

Outros setores que estão na agenda presidencial: a defesa da propriedade privada, de crítica ao avanço dos costumes, apoio aos inovadores e empreendedores, força ao agronegócio e à exploração (responsável, dizem) das riquezas naturais. Para a Agricultura, estão em pauta duas mulheres notáveis: a senadora Ana Amélia (PP), vice de Alckmin, e a deputada Tereza Cristina (DEM), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária.

Adeus

O Ministério do Trabalho, há anos sem função, deve ser extinto ou reduzido a secretaria, subordinada a Guedes. Para, como hoje, exercer só o trabalho de informar uma vez por mês o número de empregos com carteira assinada, ao custo de R$ 2 bilhões por ano, virar secretaria é bom demais.

Sem fantasia

É normal que o mercado tenha recebido bem a derrota do PT. É previsível que a escolha de Paulo Guedes, com bom trânsito na área da Economia, estimule estudos sobre investimentos. Mas as notícias que surgem nas redes sociais, sobre bilhões de dólares que virão para o país graças à eleição de Bolsonaro, não são bem assim. Os investimentos foram mesmo anunciados, mas já estavam na pauta ou virão (se vierem) bem mais tarde. Ninguém decide em poucos dias investir milhões de dólares, por mais que goste de Bolsonaro ou tenha apreciado sua vitória. Dilma também escolheu um ministro com prestígio no mercado e os dólares não vieram.

A literata

Dilma, depois de se mudar para Minas acreditando que seria facilmente eleita para o Senado, resolveu ficar no Rio Grande do Sul. Seu plano atual, diz O Globo, é escrever um livro de memórias. Este prestativo colunista sugere um título para o livro de memórias de Dilma: Vaga Lembrança.

Los Hermanos

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse que é preciso dar novo impulso à ALBA – Aliança Bolivariana dos Povos da Nossa América, organização regional fundada por Fidel Castro e Hugo Chávez. Quais são as nações que funcionarão como contraponto à derrota do PT no Brasil?

Por ordem alfabética: Antígua y Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Granada, Nicarágua, San Cristóbal y Nevis, Santa Lucia, San Vicente y Granadinas, Suriname, Venezuela. Ah, agora vai. Es nosotros en la fita!

RASTROS DE ÓDIO

Ao assinar o Ato Institucional nº 5, a mais sinistra norma da ditadura que hoje dizem que não houve, o vice-presidente Pedro Aleixo alertou para o risco da concentração de poder. Perguntaram-lhe se não confiava no presidente Costa e Silva. Aleixo: “Tenho medo é do guarda da esquina”.

Bolsonaro venceu as eleições num clima tenso, em que sofreu até um atentado que por pouco não o mata. Ainda está com retórica eleitoral, diz que vai cortar as verbas oficiais de órgãos de imprensa que mentirem – em vez de processá-los na forma da lei. Mas tem seus guardas de esquina, que adoram radicalismo: agora, querem boicotar 700 pessoas, entre as quais numerosos artistas, pelo crime de terem se manifestado pelo PT.

Cada cidadão é livre para assistir ou não aos espetáculos artísticos. Se resolver desistir de algumas obras-primas de Chico Buarque por seu apoio a Cuba, que desista – nada contra. Mas mover uma campanha para boicotar quem optou por outro candidato não é liberdade: é crime, dá processo, mesmo que a veiculação seja apenas pelo WhatsApp. E é coisa velha que já provou seu desvalor: nos Estados Unidos, ocorreu no início da década de 1950, e se chamou macarthismo – lembrando o nome do senador Joseph McCarthy, que comandou a campanha. Hoje, sabe-se: foi coisa de idiota.

O macarthismo não partiu de Bolsonaro. Mas ele é que precisa dizer a seus adeptos sinceros, porém radicais, que assim não dá para liderar o país.

Velhas histórias

Na década de 1930, Alemanha e Itália fizeram campanha de boicote aos judeus na Europa (que depois virou massacre). Cientistas como Enrico Fermi, Albert Einstein, Leo Szilard, Hans Bethe, Edward Teller migraram para os Estados Unidos. E foram parte essencial do Projeto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atômicas. Os artistas perseguidos na Europa ajudaram a transformar Hollywood na capital mundial do cinema.

Assim é difícil

A crise é brava, o desemprego é alto, e é hora de pensar, como Juscelino Kubitschek pensou, em pacificar o país. Haddad se veste bem, mas não teve gentileza suficiente para reconhecer a derrota e desejar boa sorte ao vitorioso (só se manifestou no dia seguinte, e não de viva voz: só twitter). O Movimento dos Sem-Teto já invadiu a casa onde morava o empresário Georges Gazale, em São Paulo. Guilherme Boulos, do MTST, promete resistir – e a resistência começa nesta semana, embora Bolsonaro só tome posse em janeiro. É uma política de confronto. A população fica no meio.

E uma deputada do PSL de Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo, sugere a universitários que espionem os professores, até gravando a aula, para denunciá-los. Mas desta o Ministério Público já está cuidando.

Quanto pior, melhor

Depois de assistir à vitória de seu adversário Donald Trump, Obama foi enfático: “acima de tudo, estamos todos no mesmo time”. No mesmo time, no mesmo avião. Se o país continuar indo mal, vamos todos ficar mal.

Guerra à imprensa

Bolsonaro acusa a Folha de S.Paulo de mentir e ameaça cortar as verbas públicas de publicidade para os veículos de comunicação que mentirem. E quem verifica a mentira? Dias antes de sua morte, ainda havia prognósticos favoráveis a respeito da saúde de Tancredo Neves, desmentindo as noticias dos jornais – e eram os jornais que estavam certos, falando a verdade.

É bobagem declarar guerra à imprensa: quem aniquila um veículo não é o Governo, são seus leitores, ouvintes, espectadores. Estar em guerra com ela não faz com que deixe de publicar as notícias que apurar. É importante lembrar que toda imprensa é de oposição. Se a imprensa só divulga notícias a favor do Governo, não se chama imprensa: seu nome é propaganda.

Definição

Notícia é o que alguém não quer ver publicado. Imprensa é chata. Mas só é chata, e portanto útil, se for livre. Se não for livre, para que existe?

Cortando fundo

Este colunista, a propósito, é totalmente favorável ao corte de verbas oficiais para a imprensa. Atingir veículos que nossos aliados consideram mentirosos é para os fracos. O correto é suspender de vez a publicidade oficial, excetuando-se os anúncios legalmente obrigatórios, e as mensagens de utilidade pública – vacinações, interrupção de serviços essenciais, não mais do que isso. Cada publicação que viva de seus próprios recursos. Mas quem tem coragem de cortar essa verba tão parecida com gentileza oficial?

Novo líder

Preste atenção em Ciro Gomes, PDT. Perdeu as eleições, mas tanto ele quanto sua vice, Kátia Abreu, cresceram na campanha. Ciro está disposto a liderar a oposição a Bolsonaro, sem ligação com Lula. Parece disposto a fazer oposição de verdade, não oposição para impedir o país de funcionar.

GANHAMOS TODOS OU PERDEMOS TUDO

Escrevo num horário pensado: entre o fim da votação e o início das apurações. Não sei quem é vencedor; nem a boca de urna das pesquisas saiu – mas como acreditar em algo quando as pesquisas do primeiro turno sequer mencionavam Zema, um Witzel e outros que mostraram força eleitoral?

Seja quem for o vencedor (e, ao ler esta pensata, o caro leitor já saberá quem é), herda um país dividido. Na guerra suja da campanha, adubada por infelizes atitudes anteriores, dividiu-se o país ao meio. Os adeptos de um candidato passaram a ver comunistas por todos os cantos: Fernando Henrique, por exemplo, ou Márcio França, um fiel aliado do ex-governador Alckmin. A Folha de S.Paulo virou comunista, junto com a Rede Globo; e o Brasil de repente passou a ter mais comunistas do que a China. Já os seguidores do outro candidato concluíram que metade do país era formada por fascistas, ou nazifascistas, como se de repente o hoje deputado eleito Alexandre Frota fosse um agente de Mussolini infiltrado no Brasil.

Tudo besteira, claro: aquela senhora que teme a abolição da Bolsa Família e para defender-se vota sempre nos candidatos petistas não tem a mais remota ideia do que seja comunismo, e aquele jovem de classe média desempregado pela Nova Matriz Econômica de Dilma Rousseff, cansado de ouvir Marilena Chauí dizer que odeia a classe média, quer ver o PT de longe, mas não tem a menor compulsão de vestir a camisa negra do fascismo. Sejamos claros: o que impulsionou Bolsonaro foi o antipetismo de boa parte da população; foi a ideia de que é preciso cuidar um pouco da ordem pública, do combate ao banditismo, da questão da segurança.

E o que levou boa parte do eleitorado a Fernando Haddad não foi a vontade de participar da Turma do Mensalão, nem a ideia de que apoiar ditaduras na África e na América Latina é um bom caminho para o país. É uma combinação de temor diante da possibilidade da perda de benefícios e garantias trabalhistas, da extinção da Bolsa Família e da restrição da liberdade de pensamento, tudo convergindo no antibolsonarismo.

Nos dois casos, os temores podem ser exagerados; nos dois casos, as soluções propostas pelos candidatos podem ser inúteis. Armar a população dificilmente, na opinião deste colunista, é uma solução para o problema da segurança pública. Atirar ao lixo o teto das despesas governamentais com certeza não vai reduzir o desemprego nem, a médio prazo, garantir o emprego de quem ainda o tem. Não faz mal: Bolsonaro passa a impressão de que vai melhorar a situação da segurança, Haddad passa a impressão de que vai defender os trabalhadores contra os patrões. E é isso, não a transformação do Brasil num campo de batalha entre fascistas e comunistas, que levou tanta gente a apoiá-los: acreditar que estas soluções simples sejam capazes de funcionar.

OK: dito isso, o vencedor terá de governar um país dividido. Imaginemos que, em ambos os casos, as soluções sejam surpreendentemente eficientes. Mas nenhum dos dois lados terá condições de implementá-las tendo metade do país contra ele – e, seja qual for a metade, profundamente radicalizada, convencida de que o Governo é ou fascista ou comunista, e convencida de que o objetivo oficial é esmagá-la.

A primeira tarefa, portanto, é desarmar essa bomba relógio. O vencedor terá de mostrar que não tem o objetivo de destruir os vencidos, mas apenas de governar para todos. Em resumo, pacificar o país. Há pouco mais de 60 anos, Juscelino Kubitschek subiu à Presidência, depois de superar dois golpes que tentaram impedi-lo de assumir o cargo para o qual tinha sido eleito. Na liderança da oposição, tinha o tremendo Carlos Lacerda, apoiado por militares de prestígio.

Juscelino enfrentou duas rebeliões militares contra seu Governo, derrotou-as, e em seguida anistiou os revoltosos. Soube movimentar-se no Governo e nos partidos de oposição, atraindo-os para iniciativas conjuntas esporádicas. Foi complicado, mas levou seu Governo até o fim. E, não fosse a tomada do poder pelo movimento militar de 1964, tinha tudo para voltar à Presidência da República.

Juscelino fez um bom Governo? Isso é questão para os historiadores. Mas conseguiu governar. Conseguiu trazer para o Brasil a indústria automobilística, conseguiu construir Brasília em quatro anos, e tudo porque conseguiu pacificar o país – ao menos em seu período de Governo.

Em resumo, espera-se que o novo presidente – de acordo com as notícias que agora chegam, Jair Bolsonaro – seja capaz de conseguir a paz, como Juscelino. Transformar-se em Juscelino – este é seu grande desafio.

O FIM E O PRINCÍPIO

Alívio geral: aquela avalanche de mensagens em favor do Coiso e do Poste cessa hoje. Mas não fiquem felizes: em dois dias, no máximo, vem a choradeira do perdedor. E, em 1º de janeiro, encerrada a fase da choradeira, começa a tarefa de botar nosso país em ordem. Como está não pode ficar.

Qualquer que seja o vencedor, enfrentará tarefa dupla: fazer com que as coisas funcionem, o que já é trabalho suficiente; e enfrentar a oposição. Quase metade dos eleitores estará na oposição. Por mais que pareça surpreendente, tanto os seguidores do Coiso como do Poste os adotaram como ídolos. Não é preferência eleitoral, é paixão pelos candidatos. A dor de cotovelo pela derrota vira oposição sistemática. Soy contra, e pronto.

Formar o Governo não é problema: há o Centrão para oferecer seus gentis préstimos à governabilidade. Mas qualquer proposta irá sofrer com a torrente de paixão que tomou conta do Brasil. Imagine um eleitor do Poste aceitar uma decisão do Coiso, ou vice-versa! E nenhum dos candidatos tem o perfil conciliador que ajudaria a normalizar as relações do Governo com a oposição. Ambos até podem dizer que seu objetivo é a paz, mas não dá: o Coiso, quando se distrai, o que menos mostra é vontade de conciliar. E o Poste, além de buscar instruções em Curitiba com seu chefe ressentido, já foi capaz de defender em livro o trabalho escravo, desde que promovido por países socialistas. Ideologia pura. E guerra ao adversário o tempo todo.

Coisa estranha

Quem pode explicar as incursões policiais em universidades para tirar faixas com as quais todos concordamos? Evitar que universidades públicas façam propaganda de um candidato, OK; mas repúdio ao fascismo tem algo a ver com as eleições? A campanha petista acusa Bolsonaro de ser fascista, mas as faixas nas universidades não atacavam o candidato. Outra coisa estranha: andaram tomando depoimento de professores nas próprias universidades, sem intimação, sem advogados. Por que? Com que objetivo?

Votos dos postistas

As redes de Haddad passam informações sobre candidatos que recebem seu apoio informal nas disputas estaduais. Alguns dele, segundo o colunista Cláudio Humberto, do Diário do Poder: Márcio França (SP), Antonio Anastasia (Minas), Rodrigo Rollemberg (DF), Belivaldo Chagas (SE) e Eduardo Paes (Rio).

Candidato mais lido

A Taboola, maior plataforma mundial de descoberta de conteúdo, apurou que Bolsonaro tem mais leituras on-line do que Fernando Haddad. A diferença em favor de Bolsonaro é de 20 milhões de leituras on-line da data do primeiro turno até hoje. Bolsonaro também ganha no tempo que seus adeptos dedicam à leitura. Foram 66,2 milhões de eleitores, que leram sobre ele durante 2,09 milhões de horas. Haddad teve 41,7 milhões de leitores on-line, que dedicaram 1,5 milhão de horas de leitura a ele.

Traficantes em casa

A decisão é do ministro Ricardo Lewandowski: concedeu prisão domiciliar a 14.750 mulheres traficantes, grávidas ou mães de crianças até 12 anos. A decisão atinge também as mulheres condenadas em segunda instância. Ao julgar o caso de uma mulher condenada em segunda instância por tráfico, Lewandowski resolveu estender a decisão a todas as traficantes na mesma situação. O sinal está dado: traficantes, engravidem!

Seguro-saúde enquadrado

O Superior Tribunal de Justiça ordenou que uma operadora de planos de saúde ofereça imediatamente o home-care (cuidados em casa) a uma segurada de 81 anos que sofre do Mal de Parkinson. A decisão foi tomada no dia 23, e se estende a todos os pacientes cujos médicos determinem o home-care. De acordo com o STJ, não cabe ao Judiciário dizer qual o tratamento adequado para o paciente quando há indicação expressa de home-care. “Afastar a obrigação do plano de saúde em fornecer a internação domiciliar para beneficiária idosa e enferma implica tornar inútil o plano de saúde, contratado na expectativa de ser devidamente atendido no tratamento de sua saúde”, disse a ministra Nancy Andrighi. No caso, a senhora a quem o plano de saúde negava o home-care era segurada há 34 anos, e a necessidade do serviço era comprovada por laudo médico.

Mulheres à frente

O setor mais dinâmico da economia brasileira, o agronegócio, é cada vez mais feminino. Mais de 1.500 pessoas estiveram no 3º Congresso Nacional de Mulheres do Agronegócio, realizado nesta semana em São Paulo. Cargos-chave no setor são ocupados por mulheres: deputada Tereza Cristina, presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio, Beth Cirne Lima, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Devon. E 60% das mulheres do agronegócio têm curso superior. Vale prestar atenção.

OUTRA COR, O MESMO SABOR

Ah, velhos sabores da infância! As grandes fábricas de doces em lata produziam marmelada comum e marmelada branca. E, para os indecisos, a lata 2×1, metade comum, metade branca. Ambas iguais, sem gosto de nada, com a única diferença da cor. E havia gente que brigava por uma ou outra.

Pois é, briga-se por qualquer coisa. O filho de um candidato disse que, para fechar o Supremo, bastavam um cabo e um soldado. O Capitão do Time do outro candidato disse que todos os poderes do Supremo deveriam ser retirados. E um advogado, colega do candidato na defesa do Adorado Chefe, propôs o fechamento do Supremo. Curiosamente, a frase mais agressiva, dita por um dos candidatos, não repercutiu: ele propôs aumentar o número de ministros de 11 para 21, “para termos a maioria lá dentro”.

Respeito à Justiça? Quando o Capitão do Time de um candidato ganhou prisão domiciliar, o adversário disse que aquilo era um vexame. Seria preciso escalar “gente do nível de Sérgio Moro” para que o Supremo não envergonhasse a população. Já o outro candidato, para poder pedir instruções na cadeia ao Adorado Chefe, escalou-se como seu advogado, e garantiu que, se eleito, o governante não seria ele, mas o preso. E a decisão do Judiciário, que o prendeu e que seria o único caminho para libertá-lo?

Como diria um antigo ditador, “a lei, ora a lei!” E não é preciso dar nomes: como na lata de marmelada, a receita é a mesma. Só muda a cor.

Detalhe saboroso

Nos velhos tempos, dizia-se que, para aumentar os lucros, os produtores usavam muito chuchu em vez de marmelo. Hoje, chuchu faz (ou fez) parte da política. Mas tanto faz: os fregueses brigam mesmo é por causa da cor.

E como brigam!

A Toluna, empresa que funde pesquisa, análise das informações e tecnologia para oferecer percepções de tendências a seus clientes, estudou o ambiente eleitoral brasileiro. Concluiu que 40% dos eleitores enfrentaram conflitos familiares por causa da eleição. Pior: 33% dos pesquisados acham de verdade que vale a pena brigar com amigos e parentes por política.

O maior índice de desentendimentos ocorreu entre primos: 35%. Logo em seguida, com tios: 31%. E com os pais, 29%. Ainda bem que quase não houve brigas corporais: em geral, a discussão foi “de leve a moderada”.

Clique aqui para ler o estudo na íntegra.

Apoio, mas restrito

Só agora, poucos dias antes do segundo turno, Marina Silva definiu sua posição: dá “apoio crítico” a Fernando Haddad.

Voto, mas restrito

Comentário do jornalista Mário Marinho, do site Chumbo Gordo, sobre a decisão da candidata da Rede: “Com o apoio de Marina, Haddad vai de 21% nas intenções de voto a 21% nas intenções de voto”

Baixo nível

Quem pensa que a campanha presidencial é de baixo nível ainda não viu até onde mergulhou a luta pelo Governo paulista. Um vídeo largamente espalhado pela Internet mostra alguém parecido com João Dória, candidato do PSDB e líder nas intenções de voto, envolvido numa orgia com cinco mulheres nuas – tudo explícito, tipo pornô. Besteira: Dória nunca foi citado como participante desse tipo de evento. E tem hoje 60 anos, idade em que não é comum tanta disposição para enfrentar cinco mulheres juntas.

O adversário de Dória, Márcio França, garante não ser o responsável pelo vídeo. Dória disse que era montagem – nem precisaria, já que algo de tão baixo nível nem merece desmentido. E, com a tecnologia disponível, é fácil transformar um ator de filme pornô numa figura parecida com a de qualquer um de nós, inclusive a do candidato ao Governo de São Paulo.

Falha total

E há outro problema num vídeo desse tipo: quem o divulgou não sabe em que país vive. Provar que um político é capaz de façanhas sexuais pode perfeitamente multiplicar sua popularidade. Não é possível esquecer Bernardo Cabral: depois do livro de Zélia Cardoso de Mello, em que ele é acusado de tê-la abandonado sem aviso em Paris, ele se elegeu senador.

A falta que ele nos faz

Um dos mais produtivos intelectuais brasileiros, Jacó Guinzburg, morreu aos 97 anos, no último sábado. Guinsburg, ensaísta, tradutor de primeira linha, editor, dedicou sua vida à difusão da cultura. Sua editora, a Perspectiva, editou Umberto Ecco, Roman Jakobson, Augusto e Haroldo de Campos, Franz Rosenzweig. Ele escreveu na imprensa sobre literatura, brasileira e internacional, fez crítica teatral em revistas da comunidade judaica. E deu-nos a honra de colaborar com o site Chumbo Gordo, editado por este colunista fubânico e por Marli Gonçalves, escrevendo sobre temas da atualidade. Uma grande perda.

A VOLTA DE QUEM SE FOI

Esta é a segunda morte política de Alckmin. A primeira ocorreu quando, fazendo exatamente o que Dória fez com ele, ignorou o acordo de Serra com Gilberto Kassab, ganhou a convenção tucana e disputou a Prefeitura de São Paulo. Foi surrado por Kassab. Estava liquidado, diziam. Mas Serra o levou para seu Secretariado e Alckmin ressuscitou politicamente.

E agora? Depende: se Dória se eleger governador, cuidará com carinho de Alckmin, com maçã na boca e pele pururuca. Se França for o eleito, ele terá nova chance. Velhos políticos não morrem, fingem que não é com eles.

O goiano Perillo talvez não tenha como escapar. Perdeu de cabo a rabo e, no Governo, tem hoje um adversário duro e respeitado, Ronaldo Caiado. Marina volta em quatro anos, como de costume, Eunício tem couro duro, nem lembra mais da grande surra. Cristovam Buarque tem chance. Dilma, esta não volta, porque para voltar é preciso ter ido e ela nem foi, só foi-se.

Alguns se evaporaram nas eleições, mas podem voltar: Tarso Genro e Aloízio Mercadante, por exemplo, ficaram intactos. Outros perderam, mas saíram maiores do que entraram: Ciro, Kátia Abreu, Ana Amélia, Eduardo Jorge– e quem lembra que ele, pelo Partido Verde, foi vice de Marina?

Política é jogo esquisito. Nixon perdeu a Presidência para Kennedy, tentou o Governo da Califórnia, perdeu. Voltou para ser presidente. Na frase do repórter James Reston, “foi a maior ressurreição desde Lázaro”.

Coisas estranhas

Política é jogo esquisito. Quem diria, há um ano, que Bolsonaro seria candidato forte? Ou que Manuela d’Ávila se ajoelharia na igreja? Que tal o PT esquecendo o vermelho e virando verde-amarelo? E Haddad, que chegou a dizer que ele era Lula e Lula era ele, dando apoio a Sérgio Moro?

E há, claro, aquilo que só político fala, porque ninguém mais entende. A candidata do PT ao Governo do Rio falava em “laicizar o cu”, e Alexandre Frota explicava que existe o “sexo anal técnico”. Pois é. Laicizado, talvez.

Questão idiomática

A palavra “cu”, usada por este colunista, citando a candidata, não é palavrão. É parte do idioma de Portugal. Dela derivam “cueca” e “recuar”.

A lei, só a lei

Uma reportagem de Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo, diz que empresas privadas compraram milhões de remessas de WhatsApp para fazer propaganda de Bolsonaro. A Justiça Eleitoral decidiu apurar se houve crime eleitoral, o que pode levar à cassação da candidatura Bolsonaro (é o que o PT pede). Houve abuso do poder econômico? Essa é a questão: o envio de WhatsApp pode ser legítimo, mas o pagamento por empresas privadas não é. Só são admitidas, nestas eleições, doações de pessoas físicas. Mas é questão de lei: se houve crime, qual a punição aplicável?

Agressão, não

A questão dos envios de WhatsApp está na Justiça, onde deve ser avaliada. Até lá, pode haver quantas discussões os dois lados quiserem. Mas é inadmissível o que está ocorrendo nas redes, com ataques pessoais e insultos à repórter Patrícia Campos Mello. É boa repórter, respeitável, correta, experiente. Pode eventualmente errar, claro; mas jamais de má fé.

Por falar no assunto

A questão das contribuições de campanha merece uma boa análise. Houve empresários que, dentro da lei, doaram grandes quantias (vinte deram mais R$ 1 milhão, sendo que um deles doou quase R$ 7 milhões). Mas haverá só doações legais nesta campanha? Seria o caso de investigar o total das despesas e verificar se as enormes verbas públicas destinadas à campanha, somadas às doações legais, foram suficientes para os gastos. Se não foram, de onde veio o restante do dinheiro das despesas?

Temer e o porto

A Polícia Federal, após pouco mais de um ano de investigações, decidiu indiciar o presidente da República, Michel Temer, pelas acusações de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Temer, diz a Federal, teria recebido propina de duas empresas do setor portuário de Santos, a Rodrimar e a Libra, em troca de benefícios indevidos. É processo de longa duração e só será julgado após o fim do mandato de Temer.

O sítio que é dele

Mais um problema para Lula (embora pequeno diante de outros que enfrenta): foi multado pela Justiça de São Bernardo em R$ 1.000,00 por agir de má-fé. O caso, narrado pelos jornalistas Junior Carvalho e Raphael Rocha, do Diário do Grande ABC: a Prefeitura de São Bernardo embargou a obra de uma casa que Lula construía ao lado do sítio Los Fubangos – que tem desde antes de entrar na política. Lula pediu mandado de segurança, e o juiz José Carlos de França Carvalho Neto, da 1ª Vara da Fazenda Pública, não só o negou como impôs a multa. A defesa de Lula vai recorrer.

MORRER OU MORRER

Numa pequena cidade americana, o xerife, o herói que prendeu os principais bandidos da região, está se casando e, em seguida, viajará em lua de mel. Soube-se então que o pior dos bandidos foi solto e chegará em pouco mais de uma hora, com mais três de seu bando, para matar o xerife. Imediatamente, o herói da cidade é abandonado: ninguém está disposto a ajudá-lo no duelo mortal. No máximo, seus melhores amigos e aliados lhe sugerem que fuja. Ele não foge – e até sua noiva o abandona naquela hora.

É um dos maiores filmes da história do cinema: Matar ou Morrer, com Gary Cooper e Grace Kelly, direção de Fred Zinneman. À medida que o tempo passa, Cooper vai ficando mais só, diante dos quatro bandidos. Ele os enfrenta; e, claro (é o mocinho), vence. Quando o último bandido é morto, a cidade volta a festejar seu herói. Então é ele que decide ir embora.

O que o filme mostra com mais clareza é que, na hora da festa, todos se juntam. Na hora da tristeza, é cada um por si. Tivesse o bandido sido vitorioso, a vida na cidade continuaria igual, sob nova direção.

Cid Gomes disse aos petistas que Haddad, seu aliado, vai perder feio. Ciro Gomes foi passear na Europa. A senadora Ana Amélia, vice de Alckmin, optou por Bolsonaro. Euclides Scalco, respeitado fundador do PSDB, disse que o importante é derrotar o PT. Não dá para dizer quem vai ganhar a eleição. O que se sabe é que quem está ficando sozinho é Haddad.

Vale a pena ver de novo

O filme ganhou quatro Oscars, lançou Grace Kelly como atriz, sua trilha sonora é excelente. Pode ser visto no Google, na íntegra, e vale a pena. É cultura popular na veia: se os ratos vão embora, o navio está afundando.

Chuchuzão

Haddad, quem diria, tem suas semelhanças com Alckmin. Ambos levam jeitão de tucano. Alckmin nunca soube como deveria ser chamado, Geraldo ou Alckmin; Haddad não sabe se ainda é Lula ou se Lula não é mais, se é vermelho ou verde-amarelo, se é católico de ir à missa ou se isso é o ópio do povo. Em comum, ambos têm aquele charme eleitoral de dar inveja ao Chama o Meirelles. Haddad, aliás, extrapola: para quem acha picante demais o Picolé de Chuchu original, ele é o Picolé de Chuchu light.

Muy amigo

Quando pediu o apoio de Ciro Gomes (e de seu irmão, Cid), o PT não se lembrou de um pequeno detalhe: na ausência de Lula, preso e inelegível, Ciro propôs uma chapa única dos partidos que apoiaram Dilma, tendo-o como candidato à Presidência e Fernando Haddad (ou Jaques Wagner) na vice. Lula vetou a ideia, por dois motivos: primeiro, porque queria fazer o papel de perseguido político, tentando sem êxito, diante da pressão da burguesia e duzianqui, sair como presidente; segundo, porque dar a Ciro a cabeça de chapa equivaleria a colocá-lo no comando geral da esquerda. Lula sabotou Ciro ao máximo. Desistiu até de seu candidato ao Governo de Pernambuco para apoiar o socialista Paulo Câmara, para evitar o apoio do PSB a Ciro. No fim de tudo, pediu o apoio dos Gomes a Haddad. Conseguiu. Mas Ciro viajou e Cid é que vai aos comícios do PT. Horror!

O aliado

Algumas frases de Cid aos petistas: “Fizeram muita besteira, porque aparelharam as repartições públicas, porque acharam que eram donos do país. E o Brasil não aceita ter dono…” Diante dos petistas que cantavam “olê, olá, Lula, Lula”: “Lula o que? O Lula está preso, babacas! O Lula está preso e vai fazer o que? Deixa de ser babaca, rapaz, tu já perdeu a eleição”.

Bolsonaro tem um vice que adora falar, seja o que for, seja sobre o que for, mas que repercussão isso tem diante dos aliados de seu adversário?

Paga e não bufa

Neste momento, faltando menos de 15 dias para o segundo turno, as campanhas custaram R$ 3,3 bilhões (dinheiro público, ou melhor, nosso). Os candidatos puseram algum dinheiro deles, mas nada excessivo: no total, uns R$ 700 milhões. MDB, PT e PSDB foram os maiores beneficiários de dinheiro público: R$ 616,5 milhões, no total. E tomaram uma surra de criar bicho. Quem gastou mais dinheiro privado foi o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles: R$ 54 milhões. E tomou uma surra de criar bicho.

E, por falar em bicho

O macaco Kaio, filho de pais recolhidos por sofrer acidente, vivia há seis anos numa família humana. O Governo decidiu que, sendo silvestre, deveria ser tirado da família e enjaulado em Florianópolis. Está lá há um ano: não pode receber visitas de pessoas (porque seria violar a lei) nem de macacos (que o matariam por não ser do bando). Kaio nunca será de outro bando, só o de sua família humana. Portanto, a menos que a Justiça se manifeste, ficará enjaulado até a morte. Maltratar os animais não é o espírito da lei – então, por que não devolvê-lo à sua família humana?

TCHAU, QUERIDOS

Cansado de tanto debate político? De tanta briga entre amigos, ou em família? Mas, vencedores ou vencidos, há um lado bom em todas as coisas.

Não é ainda amanhã, mas dentro de menos de três meses vai ser outro dia. Ninguém mais se lembrará (talvez sua própria família, que tem motivo para amá-lo) de quem é Eunício Oliveira. Deixam de existir piadas sobre Dilma, a menos que você, paciente, explique antes de quem se trata. E ela, bem menos ocupada, poderá talvez receber o Suplicy – acertou! o irmão do dono do bar. Poderemos passear pela bela São Luís sem lembrar que ali morava a família irreal do Maranhão, com um rei sem coroa (para exibir a rica tintura de seus cabelos), a primeira-filha e os filhos outros, todos mandando e muito. E o Juca? Juca não, Jucá! Não lembre. É melhor não.

Velhas histórias, dirão os jovens quando alguém falar de Marconi Perillo. Explique, nada é velho: é do tempo do Lindbergh Lindinho, do Édison Lobão, do Requião, do Chico Alencar, do Zeca do PT – isso! antes da grande destruição de dinossauros no Museu Nacional. É tão recente que até filhos de tradicionais políticos ficaram fora: a Cristiane Brasil, filha do Roberto Jefferson, o Picciani, filho do Picciani, a Danielle, filha do Eduardo Cunha, o filho do Sérgio Cabral. E o Wadih Damous, advogado de Lula? Todos tiveram seus eleitores, certamente tiveram sua importância no Brasil. Mas saber que o país não está pagando para eles é bem agradável.

À sombra das seringueiras

Foi o pior resultado de Marina desde que ela, qual cometa, decidiu, de quatro em quatro anos, aparecer e disputar a Presidência. Perdeu para o Cabo Daciolo, perdeu para João Amoêdo … vá lá, é do jogo. Mas é demais perder até para Henrique Meirelles!

Depois do vendaval 1

O problema de muitos dos que não se elegeram passa longe, claro, do salário pago pelos cofres públicos. Muitos dependiam da vitória eleitoral para manter o foro privilegiado, escapando aos processos em primeira instância – como, por exemplo, os movidos em Curitiba, base da Operação Lava Jato, julgados pelo juiz Sergio Moro. Quem não conseguiu se reeleger corre riscos a partir de 1º de janeiro, quando deixa o cargo que hoje ocupa.

Depois do vendaval 2

Há casos piores: quem ocupava cargo executivo e renunciou para se candidatar, sem êxito, já não tem foro privilegiado. Não há tempo para que um processo em segunda instância seja devolvido à primeira para decisão imediata. Mas uma operação policial com ordem de prisão temporária é a ameaça que se faz presente, com todo o aborrecimento e a repercussão que isso pode causar. Imagine um ex-governador sendo preso pela Federal!

Era do amigo, agora é dele

O coordenador da campanha petista no segundo turno é o ex-governador baiano Jaques Wagner. Foi confirmado em São Paulo, depois que Haddad viajou a Curitiba, para visitar Lula na prisão e obter a orientação sobre sua (sua?) campanha. Wagner tem uma nova estratégia de campanha. Ei-la:

“O Haddad chegou ao segundo turno como a substituição do Lula. Agora o Haddad do segundo turno é o Haddad”.

Agora só falta convocar Dilma Rousseff para explicar essa frase.

Já foi mas não é mais

Valeu a pena assistir às primeiras entrevistas de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro ao Jornal Nacional, depois de confirmados no segundo turno. A ambos foram submetidas afirmações de seus aliados:

Bolsonaro: as frases de seu vice, general Mourão, sobre Constituinte de notáveis, sem participação popular, e sobre o “autogolpe”.

Haddad: as recentíssimas declarações de José Dirceu, a quem Lula chamava de Capitão do Time, a respeito de o PT tomar o poder se não ganhasse as eleições.

Os dois responderam a mesma coisa: seus aliados se equivocaram.

Bolsonaro: “Faltou tato ao general. Se estamos disputando a eleição é porque acreditamos no voto popular e seremos escravos da Constituição”.

Haddad: “O ex-ministro não participa de minha campanha, não participará de meu Governo e eu discordo da formulação dessa frase. Para mim a democracia está sempre em primeiro lugar”.

Para Bolsonaro, desmentir o vice é coisa tranquila. Já para Haddad, não é nada tranquilo, sendo ele dirigente petista, opor-se a José Dirceu.

Reserve seu horário

Os debates do segundo turno começam amanhã, na Rede Bandeirantes, às 22h. Dia 14, o debate da Gazeta, às 19h30; dia 15, o da RedeTV, às 18h20. Os dois últimos são os da Record, dia 21, às 22h, e o da Globo, às 21h30 do dia 26. A partir da meia-noite do dia 26, encerra-se o prazo legal para debater na TV. Em todos os debates, há 50% do tempo para cada um.

CRÔNICA DE UM PAÍS SEM DIVISÃO

Depois de uma campanha feroz, o candidato republicano John McCain reconheceu a derrota diante de Barack Obama. Perguntaram-lhe como seria sua relação com o vitorioso, depois de tantas trocas de acusações. McCain explicou: “Até agora ele era meu adversário. Agora é meu presidente”.

Há quem tema que, depois de uma campanha especialmente agressiva, o Brasil do novo presidente seja uma casa dividida. Podem se tranquilizar: há Centrão em ambos os lados, os governadores, por mais oposicionistas, não vão romper com o Governo Federal, que é o dono das verbas. Há no Brasil certas coisas que são nossas – nossas coisas, cosas nostras. Nos tempos da ditadura, havia quem perguntasse quem dirigiria o país, no caso da vitória das guerrilhas. A melhor resposta que este jornalista ouviu: “Quem dirige, não sei. Mas o secretário-geral será o Marco Maciel”. Maciel, honesto, conservador, hábil, incansável, era especialista em acertar situações. Sem as outras virtudes de Maciel, nunca falta o pessoal do acochambramento.

O Brasil é uma Federação, mas não é: os dirigentes regionais não têm como sobreviver sem bom relacionamento com o Governo Federal. OK, nos últimos anos, houve exagero – digamos que até o cidadão comum tinha a impressão de que ocorria uma tremenda roubalheira,

Por isso o PT venera Lula na cadeia e os bolsonaristas chamam de “mito” seu ídolo. Lembrando Brecht, pobre do povo que precisa de heróis.

A frase como ela é

A citação é da peça Galileu Galilei, de Bertolt Brecht. Galileu, o astrônomo, é intimado pela Santa Inquisição a desmentir que a Terra girasse em torno do Sol. Galileu aceitou a ordem, para não ser torturado e morto, e se retratou. Um discípulo reclamou: “Pobre do povo que não tem heróis!” E Galileu o corrigiu: “Pobre do povo que precisa de heróis”. Aqui não os temos, mas há quem pense que temos e quebre o galho com eles.

Exemplo vivo

O governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência da República, fez uma caminhada na sexta, em São Paulo. João Dória Jr., seu afilhado político, seu companheiro de partido, ex-prefeito da cidade, candidato tucano ao Governo, não se deu ao trabalho de comparecer. Não que Dória não tenha compromisso: tem, sim, e com ele mesmo. Quando Alckmin o lançou para prefeito, estilhaçou o PSDB paulistano, deixando de fora tucanos tradicionais como Andréa Matarazzo e Alberto Goldman. Tão logo se elegeu, Dória tentou se lançar à Presidência, ocupando justo a vaga de Alckmin, E, rompendo o acordo de Alckmin com seu vice, Márcio França, que daria à sua candidatura presidencial o apoio do PSB, saiu ele mesmo candidato ao Governo. Mas alguém acha mesmo que a radicalização da política passa mesmo pelos políticos?

O vencedor

Este colunista imagina saber quem será o vencedor das eleições de hoje. Mas resultado de eleição é parecido com chute a gol: um centímetro para baixo a bola bate na trave e entra, um centímetro para cima a bola bate na trave e sai. A frase de Parreira rendeu muita piada, mas ele tem razão: o gol é apenas um detalhe. Mas este colunista promete revelar os números assim que o TSE os confirmar. E promete dizer também se sua opinião era correta – claro que era. Quem dirá que não tinha a menor ideia do que acontecia?

A roubalheira

Informação oficial: as condenações da Lava Jato já atingem 2.036 anos de prisão. Claro, não é bem assim – tem gente condenadíssima que cumpre pena à beira-mar, em suas belas mansões, só faltando mesmo a tornozeleiras de grife; há quem tenha transformado a cela em sala de estar. E ninguém vai ficar a pena inteira na prisão: com bom comportamento, 1/6 da pena é suficiente (podendo ainda ser reduzida por leitura de livros, etc.)

No total, foram dadas 46 sentenças nos processos da Lava Jato, em que 140 pessoas foram condenadas por 215 crimes.

Outra ação

O Ministério Público Federal pediu agora a condenação de Lula e mais sete pessoas, acusados de corrupção e lavagem de dinheiro na compra de um terreno em São Paulo e de um apartamento em São Bernardo do Campo. De acordo com os procuradores federais, ambos foram-lhe dados pela Odebrecht, pessoalmente, a título de propina, em troca de oito contratos com a Petrobras que renderam ao PT R$ 75 milhões, para formação de uma reserva monetária que financiaria campanhas eleitorais. A parte do então presidente equivaleria, na época, a R$ 14 milhões.

Entre os demais atingidos pelo processo, figuram o empreiteiro Marcelo Odebrecht e o ex-ministro Antônio Palocci – que agora, em sua delação premiada, faz pesadas acusações ao ex-presidente e colegas de partido. Não há prazo para que o juiz Sergio Moro decida sua sentença.

O SAMBA DOS CRIOULOS DOIDOS

Pouco mais de 55 anos de jornalismo me mostraram o mundo como ele é: já vi cachorro matando elefante, delegado dando ordem de prisão a boi no pasto, passarinho ciscando na boca do jacaré, carro novo mais barato que o velho da mesma marca e categoria, bilionário com nome e capacete de viking passando uma temporada na cadeia. E, se não vi o título mundial do Palmeiras, não foi por desleixo: é dificílimo enxergar o que não existe.

Mas nunca imaginei ver a Folha de S.Paulo e o Grupo Globo acusados de comunistas – Octávio Frias e Roberto Marinho jamais pensariam em integrar o grupo de comunistas formado também por O Estado de S.Paulo – alguém terá imaginado o dr. Júlio de Mesquita Filho, sempre impecavelmente vestido, conspirando com desleixados bolcheviques petistas? – e notáveis como Fernando Henrique, José Serra, Mário Covas, ao lado de banqueiros da mais seleta estirpe, Cândido Bracher, George Soros – que, ao que imaginam seus detratores, move-se silenciosamente pelo mundo tentando implantar o regime comunista, aquele no qual toda sua fortuna será confiscada. Soros deve gostar de correr riscos: se o trabalho não der certo, na certa ele será punido por seus camaradas; se der certo, sua fortuna irá para o Governo, que comprará sítios e apartamentos para os governantes, mas que estarão em nome de outros.

Mas quem é que entende o que se passa na cabeça desses comunistas?

Quem manda e quem faz

Um jornal de qualidade não discrimina por ideologia as pessoas que contrata. Essa história de que o jornal tem um jornalista antipetista ou petista deve ser verdadeira (todos têm), mas não tem sentido. O jornal segue a linha da direção. Se alguém fugir a ela, cai fora. O principal editorialista de O Estado de S.Paulo era dirigente comunista, da total confiança de Júlio de Mesquita Filho. Roberto Marinho disse a líderes militares que não se metessem com O Globo: “Dos meus comunistas cuido eu”. A Folha tinha Oswaldo Peralva, ex-dirigente do PCB; Ricardo Kotscho, do PT; gente da Libelu trostquista. E eu, que não era de esquerda. Peguei uma época boa, em que esquerdista estudava. E aprendia com eles.

Cuidado com pesquisas

Pesquisa é ótimo: serve para orientar a campanha do candidato. E só. Quem acha que seu favorito vai vencer ou perder por causa da pesquisa se engana. Há uma foto clássica: o presidente americano Harry Truman, reeleito, mostrando o Chicago Daily Tribune com a manchete “Dewey derrota Truman”. Brigar com pesquisas, acusar institutos de falsear números, é perder tempo: melhor é usá-lo em busca de novos eleitores.

Cuidado

E é preciso, no caso de pesquisas, verificar se foram mesmo feitas. Uma instituição americana, a University of Southern California, de Los Angeles, apareceu como autora de uma pesquisa que dava Bolsonaro como vitorioso no primeiro turno, com mais de 60% dos votos. Só que a pesquisa era falsa: a USC não fez pesquisa alguma sobre as eleições no Brasil..

Grande frase

Do jornalista Chico Bruno: “Esta é a eleição presidencial em que os líderes querem reeditar o passado – ou o remoto ou o mais recente”.

Racha de esquerda

A senadora Kátia Abreu, que foi ministra de Dilma e é candidata a vice de Ciro Gomes, abriu fogo contra o candidato petista Fernando Haddad. Katia, líder ruralista, virou amiga de infância de Dilma e não a abandonou nem quando ficou claro que seria afastada do poder. E foi o comportamento de Haddad no impeachment de Dilma o alvo de Kátia: “Fernando Haddad é o fujão covarde do impeachment”. OK, ele não se mexeu para salvar a presidente eleita por seu PT. Mas não fez isso por mal: tem dificuldades para tomar posições (tanto que até hoje precisa ir a Curitiba, visitar Lula na cadeia, para saber se deve tomar café com açúcar ou adoçante); e, mesmo quando recebe as ordens do Chefe, não é exatamente uma pessoa prática. Kátia não pode exigir que todos, como ela, queiram defender seus aliados.

Os ricos comandam

O professor Luiz Carlos Bresser Pereira, diz o site gaúcho Espaço Vital, quer Abílio Diniz, ex-Pão de Açúcar, hoje Carrefour, no apoio a Haddad no segundo turno. Bresser foi ministro da Fazenda de Sarney e trabalhou com Diniz no supermercado.

A número 1

A surfista carioca Maya Gabeira acaba de entrar no Livro Guiness de Recordes: foi reconhecida pela Liga Mundial de Surfe como a mulher que surfou a maior onda já registrada na História. Maya pegou uma onda de 20m72 cm, na Praia do Norte, Nazaré, Portugal, no dia 18 de janeiro. A demora no registro se explica: o Guiness Book confirma todos os detalhes.

TÁ DIFÍCIL PRA TODO MUNDO

Bolsonaro é auto-suficiente. Quem tem a seu lado o general Mourão não precisa de inimigos. Fernando Haddad é não-suficiente: em boa parte do país há apreensão de material de campanha petista que, sem dar nomes, manda votar no 13 – e põe, ao lado, o retrato de Lula. A vida é dura: Bolsonaro, tão fã de militares, tem de mandar um general ficar quietinho. E Haddad? Estudar tanto, por tantos anos, para virar genérico de presidiário?

Os problemas de ambos, porém, não se limitam aos aliados. Chegam agora a seus eleitores, em reportagens de capa nas grandes revistas semanais. Haddad, mostra a IstoÉ, tem a campanha comandada de dentro da cela de Lula, preso em Curitiba. E Bolsonaro: é capa da Veja, com base no processo em que se separou de Ana Cristina Siqueira Valle. Ela o acusou de ocultar da Justiça Eleitoral, em 2006, três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes. E de ter rendimentos superiores ao triplo do salário de deputado somado aos proventos de militar da reserva. Quem pagava o extra? Ela não esclarece. Ainda o acusa de ter furtado, do cofre dela no Banco do Brasil, R$ 600 mil, mais US$ 30 mil, mais joias. E de tê-la ameaçado de tal maneira que ela foi morar na Noruega.

Verdades ou mentiras? O fato é que o processo estava arquivado e Veja teve que desarquivá-lo. Ana Cristina hoje apoia Bolsonaro, mora no Brasil, diz que exagerou na ação e adotou o nome eleitoral de Cristina Bolsonaro.

Com quem andas

Haddad, ele mesmo denunciado na Operação Lava Jato, não quis ficar só: o tesoureiro de campanha que escolheu, Francisco Macena, também é réu. Acusação: receber R$ 2, 6 milhões de pixuleco da empreiteira UTC para pagar dívidas de campanha. Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, reforça as denúncias de uso intensivo do caixa 2. Três tesoureiros do PT foram condenados e há outros dois citados por delatores.

Do zero ao infinito

Mas o grande problema atual da chapa do PT não é a corrupção. É a capa da revista IstoÉ desta semana: mostra como o ex-presidente Lula, cumprindo pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, de dentro da prisão comanda a campanha de Haddad; “De lá”, diz a revista, “o petista articula a cooptação de caciques regionais e até entregas de dinheiro por meio de jatinhos”. Um caso, com nomes citados: “Ao descobrir que um dos motores da candidatura de Ciro no Maranhão era o deputado Weverton Rocha (PDT-MA), candidato ao Senado, Lula, por meio de Gilberto Carvalho, enviou uma importante mensagem a Valdemar Costa Neto (ex-presidente nacional do PTB, preso em regime semi-aberto): ‘Faça chegar dinheiro à campanha de Weverton Rocha’. O deputado, conforme informações colhidas por Lula da prisão, precisava de R$ 6 milhões para deslanchar sua campanha. (…) Valdemar deflagrou a operação para o envio do dinheiro ao Maranhão”. A verba foi enviada num avião Cirrus, a serviço da empreiteira CLC, diz IstoÉ. O avião caiu em Boa Viagem, Pernambuco, mas sem vítimas nem danos à carga. O dinheiro, completa a revista, foi entregue ao candidato, que então cortou o apoio a Ciro e o deu a Haddad.

A revista publica textos de bilhetes, diz quem são os portadores que vão à prisão ver o Chefe e lá recebem as mensagens de comando aos políticos da aliança. Na campanha, pelo que está publicado em IstoÉ, só resta um papel a Haddad: fingir que ele não é ele, mas Lula. Não lhe deve ser difícil.

Ruim até para Alckmin

Este é um final de semana de más notícias para os candidatos – até para os que estão com as intenções de voto lá em baixo. Alckmin, por exemplo, que imaginava estar deslanchando a essa altura da campanha, pelo domínio do tempo de TV, ainda encontrou espaço para levar mais uma pancada – e em Goiás, onde os tucanos estão no poder há longo anos, onde o candidato do partido ao Senado, Marconi Perillo, é também um dos coordenadores da campanha tucana à Presidência. Na manhã de sexta-feira, a Polícia Federal desfechou a Operação Cash Delivery, que investiga pagamentos irregulares a agentes públicos. Um dos alvos da Cash Delivery é Marconi Perillo, citado em delações de executivos da Odebrecht. A defesa do governador (e candidato ao Senado) afirmou que a operação foi desfechada agora para prejudicar a campanha. De acordo com as delações, Perillo teria obtido duas doações da Odebrecht, uma de R$ 2 milhões, em 2010, outra de R$ 10 milhões, em 2014. Se não se eleger, Perillo perde o foro privilegiado.

A facada e a leitura

Depois do atentado a Bolsonaro, a leitura de artigos sobre ele triplicou: é o que indica a pesquisa da Taboola, plataforma internacional de descoberta de conteúdo, líder mundial no setor. A leitura on-line passou de 7,6 milhões para 20,71 milhões em um mês. As datas de maior crescimento foram a do atentado, dia 7, e a da segunda cirurgia de emergência, dia 13.

O SÍTIO E O ESTADO DE SÍTIO

O caminho (que pena!) parece traçado. Vamos ter de escolher entre um candidato de porta de cadeia e um de porta de quartel. Um candidato que se opõe aos esquerdistas mas apoiou as candidaturas presidenciais de Lula e de Dilma, ou o que diz que o candidato a presidir de fato o país é outro, mas a chapa está em nome dele. Um que cita com saudades um campeão da tortura, outro que cita com saudades os campeões da roubalheira.

Que é que acham das mulheres, no campo político, esses candidatos? Um acha normal mulher ganhar menos que homem, outro usa com orgulho, mesclado a seu próprio, o nome do dono da chapa, aquele que convocou as mulheres de grelo duro a brigar por ele. Um disse que teve quatro filhos e, na quinta vez, fraquejou e teve uma filha. O outro, o que é mas não põe o nome, disse que uma antiga companheira de partido, surpreendida por uma operação de busca e apreensão, ficou feliz, achando que os cinco federais que entraram em sua casa, de manhã cedinho, “tinham caído do céu”.

Um candidato não tem programa de governo. Seria difícil. Em toda a sua vida, foi estatizante, nacionalista, antiliberal, mas entregou seu projeto econômico a um pregador do liberalismo. O outro candidato tem programa de governo – o que é pior. Como prefeito de São Paulo, ficou longe de cumprir seu plano de metas. Em suma, um candidato de estado de sítio e um candidato de sítio de Atibaia, que é do outro mas está em seu nome.

Ói ela aí tra veiz

Dilma é candidata ao Senado por Minas. Conhece tudo de lá, uai:

“Dois Haddads. Não, dois Pimentéis. Não, um Fernando”.

Ela queria dizer Dois Fernandos: Pimentel e Haddad, ambos do PT.

As pesquisas da semana

Depois das pesquisas BTG, Ibope, Datafolha e DataWorld/Sensus, vêm agora as da Paraná Pesquisas/Empíricus, nesta quarta. Virtua/Genial Investimento, na quinta, e XP/Ipespe, na sexta,

Meu nome é Geraldo…

Há quem diga que o Centrão só espera, para abandonar Alckmin, a confirmação por novas pesquisas de sua inviabilidade. Bobagem: o Centrão já jogou Alckmin ao mar. Os candidatos do Centrão no Nordeste estão com Ciro ou Lula, e o que restou da aliança foi o tempo de TV – que, até agora, para nada serviu. O sinal que o Centrão recebeu foi simples: Alckmin perde em seu Estado, São Paulo, do qual foi quatro vezes governador, e que é o maior reduto do PSDB, para Bolsonaro e Haddad. Só um milagre o salva.

…mas pode me chamar de Cristiano

Alckmin está sendo cristianizado – alusão a Cristiano Machado, mineiro que disputou a Presidência em 1950 pelo maior partido do país, o PSD. Seu partido o largou para apoiar o adversário Getúlio Vargas, do PTB. Alckmin já tem a desvantagem de ser tucano, partido tradicionalmente desunido nas eleições nacionais. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não tem feito muito esforço em seu favor; e João Dória, candidato a governador, afilhado político de Alckmin, foi mais longe, com a Bolsodoria – voto em Doria para governador e Bolsonaro para presidente. Segundo a Paraná Pesquisas, já no primeiro turno 38,6% dos eleitores de Dória devem votar Bolsonaro.

Mi mi mi

O ótimo blog jurídico gaúcho Espaço Vital pesquisou os principais tribunais do país, depois de cansar de ouvir que “os juízes têm sido parciais” contra o PT, seus líderes e afiliados. A pesquisa mostrou que, nos cinco tribunais superiores e no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região – que condenou Lula em segunda instância), em treze anos de Lula e Dilma foram nomeados 99 ministros e magistrados – a maioria dos 141 ministros em atuação. No STF, foram 7 dos 11 ministros; no STJ, 28 dos 33 ministros; no TRF-4, 22 dos 27 desembargadores.

Chega de reclamar: Lula e Dilma não teriam, deliberadamente, escolhido magistrados que tivessem posições definidas contra eles.

Então, tá

A Câmara Federal divulgou a pauta da próxima semana, e garantiu que haverá debates todos os dias. Os deputados estão ocupados com a eleição e não têm qualquer outra preocupação. Considerando-se que não há desconto no salário de quem faltar, dá para imaginar como as Excelências debaterão.

É caro. E daí?

Coisas do Brasil. O substituto legal do presidente Michel Temer é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Na falta de Rodrigo Maia, o vice é o presidente do Senado, Eunicio Oliveira. Como ambos são candidatos, não podem assumir o cargo, sob pena de inelegibilidade. Quando Temer viaja, como agora, para a abertura da Assembléia Geral da ONU, Eunício e Maia também viajam, com passagens, hospedagem, diárias, tudo paga por nós. Se eles não podem assumir, por que são escolhidos para ocupar os cargos?

A ESCOLHA DE SOFIA

Meryl Streep, obrigada pelos nazistas a decidir qual de seus dois filhos iria morrer (e, caso ela não o escolhesse, ambos seriam mortos), ganhou o Oscar pelo filme A Escolha de Sofia. Os eleitores brasileiros, obrigados a escolher entre dois candidatos que se destacam pelo radicalismo, também serão premiados: receberão o prêmio que Luzia ganhou atrás da horta.

É difícil para o eleitor anticomunista votar num candidato que, quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela, elogiou-o (“uma esperança para a América Latina”) e comparou-se a ele. Disse que Chávez não era anticomunista e ele, Bolsonaro, também não era. “Não há nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”.

É difícil para o eleitor petista que vai ao delírio só de ver o retrato de Lula ser obrigado a votar num laranja confesso, que troca seu nome de família, aquele que seus pais utilizam, para, como o Chefe, usar o sobrenome de Lula (e não é só o sobrenome: faz-se chamar de Luís Fernando Lula Haddad). Usa máscaras de Lula para induzir eleitores a votar em seu nome. E confessa não ter a menor ideia do que fará sem viajar a Curitiba para visitar o Chefe na cadeia. Cafezinho com açúcar ou adoçante? É Lula que sabe.

Jaques Wagner, lulista entre os lulistas, rejeitou o papel subalterno que lhe queriam atribuir, de boneco de ventríloquo. Haddad se rebaixou, feliz.

Tudo atrasado

Fernando Henrique, a 16 dias da eleição, propôs aos candidatos de centro que se unam para evitar que o segundo turno seja disputado pelo homem da bala e o laranja de Lula. Boa ideia – mas agora, quando não dá mais tempo? E imaginemos que houvesse tempo: somar Alckmin, Marina, Álvaro Dias, Meirelles, Amoedo é como juntar moedinhas para enfrentar o volume de dinheiro e joias do vice-presidente da Guiné Equatorial. Uma candidatura se articula ao longo do tempo. O tempo passou e não há um nome sequer do Centro que não seja nanico. Até Alckmin: quatro vezes governador de São Paulo, uma vez, em 2006, candidato à Presidência (tomou uma surra de Lula, após garantir que os tucanos eram contra as privatizações – justo eles, que privatizaram com sucesso a Vale e a telefonia), até agora não conseguiu tornar-se conhecido do Nordeste. Perde em São Paulo, sua base eleitoral, reduto dos tucanos, para Jair Bolsonaro.

Ciro, talvez

Ciro Gomes, que se mantém vivo na disputa, poderia ser a solução para o centro. Já foi da Arena Jovem, já foi ministro de Itamar Franco (concluiu a implantação do Plano Real). Mas qual dos outros candidatos o aceitaria?

Meio tarde

Fernando Henrique, conversando com Bernardo Mello Franco, de O Globo, concordou que seu apelo tem poucas chances de ser ouvido. “Mas temos de fazer algum esforço. Não sei se algo vai acontecer”. Não, não vai.

Fale o que eu quero

Paulo Guedes, que deve ser ministro da Economia se Bolsonaro for eleito, conhecido como Posto Ipiranga, já sabe de seus limites: foi só falar na volta da CPMF, o Imposto do Cheque, para tomar uma chamada do candidato. Bolsonaro deixou claro que quer eliminar impostos, não criar novos. Guedes explicou que o novo imposto iria substituir cinco ou seis impostos federais, mas Bolsonaro não gostou. “Não é a CPMF, seria um imposto único”, disse Guedes. Não adiantou: o Brasil já experimentou o Imposto Único, e descobriu que o Imposto Único era apenas mais um.

É demais

Bolsonaro acompanhou também as declarações de seu vice, general Hamílton Mourão, sobre uma Constituição redigida por pessoas não eleitas e o papel de mães e avós, que sem ter o pai e o avô em casa, não impediriam o recrutamento das crianças pelo tráfico. Mourão foi contido por Bolsonaro: nada de propor temas ainda não discutidos com ele.

Doce prêmio

A Chocolat du Jour, excelente chocolateria paulistana, acaba de ganhar dois prêmios internacionais (e pelo quarto ano consecutivo): o International Chocolate Awards, medalha de ouro, pelo bombom de paçoca recoberto de chocolate ao leite, e o ICA, medalha de prata, pela Choco Pops, pipoca com chocolate ao leite. Além de fabricar ótimos chocolates, que seriam ótimos na Bélgica ou na Suíça, a Chocolat du Jour foi criada por uma amiga deste colunista, Cláudia Landmann, que estudou chocolateria em Bruxelas.

Adoniran na cabeça

Adoniran Barbosa recebe amanhã, em memória, o título de Cidadão Paulistano. A festa será no Farol Santander, às 19 h, na rua João Brícola, 24. Lá estará a adorável Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, filha de Adoniran e colunista do Chumbo Gordo 


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