ME ENGANA QUE EU GOSTO

A informação é dos advogados de Lula, ao registrar sua candidatura à Presidência, no dia 15: seus bens declarados somam R$ 7.987.921,57.

A informação é dos advogados de Lula, em 15 de maio, ao mencionar a quantia congelada cujo desbloqueio imediato solicitavam: R$ 16 milhões.
Claro que esses valores não envolvem o apartamento em Guarujá que não é dele, nem o sítio de Atibaia que não é dele. Mas a dúvida é outra: em que data a defesa de Lula usou o dado certo, do desbloqueio ou do registro?

Mas, para seu eleitor, tudo bem: se Lula entra nas pesquisas, lidera com 31% contra 20% de Bolsonaro. A pesquisa, primeira após o registro dos candidatos, foi feita para a XP Análise Política, ligada à XP Investimentos.

Só que Lula não será candidato – disso o próprio PT sabe, tanto que colocou Haddad de vice sabendo que ele deve sair para presidente no lugar de Lula, e deixou Manuela d’Ávila, do PCdoB, de fora, sabendo que ela deve ser vice. Sem Lula, Bolsonaro lidera com 23%; Marina é a segunda, com 11%. Depois vêm Alckmin (9%), Ciro (8%) e Haddad (7%). Quando contam ao bem informado eleitor que Haddad é o candidato de Lula, ele passa para 15%. Mas a maioria dos eleitores, 56%, acredita que Lula não será candidato (já 40% acham que ele poderá concorrer). Os eleitores de Haddad são os mais ansiosos para trocar de candidato: 75% acreditam que terão a oportunidade de votar no Lula original e escapar do Lula-fake.

Fica fora

Metade dos eleitores acha que Lula, condenado em segunda instância e preso, deveria ser proibido de concorrer. E 44% são favoráveis a que ele concorra, apesar da expressa proibição da Lei da Ficha Limpa. Por incrível que pareça, têm a mesma posição de Eduardo Cunha, deputado federal que perdeu o mandato e os direitos políticos e está também preso em Curitiba: declarou que Lula deveria poder concorrer (o que, claro, seria usado pelos advogados de Cunhapara pedir que fosse liberado, por equidade).

A hora das pesquisas

O Ibope divulga amanhã, segunda-feira, sua primeira pesquisa após o registro. O Datafolha já registrou sua pesquisa no TSE. A campanha começa a esquentar, mas uma definição só virá depois do início da TV.

Errar é humano

Engano parecido com o da equipe de Lula ocorreu na declaração de bens da presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que se candidata a deputada. No caso, o valor de seus bens declarados em 2014 foi diluído pela falta de zeros. Gleisi informa que seu patrimônio total é de R$ 34 mil, incluindo um apartamento de R$ 111,00 e outro de R$ 24.550,00. Um deles, de acordo com a declaração antiga, é avaliado em R$ 1.110.113,16; o outro é de R$ 245.000,00. Errar é humano. E, quando isso contribui para que o patrimônio pareça pequeno, pode até servir para atrair mais votos.

Os mais ricos

De acordo com a declaração de bens de cada um, o candidato mais rico é o engenheiro (e ex-executivo de bancos) João Amoêdo, do Partido Novo. Seus bens somam R$ 425.066.485,46. O segundo é o engenheiro (e ex-executivo de bancos) Henrique Meirelles, do MDB, até recentemente ministro da Fazenda do presidente Michel Temer. Patrimônio declarado de Henrique Meirelles: R$ 377.496.700,70. Curiosidade: os vices dos dois candidatos mais ricos estão longe de ser pobres, mas seu patrimônio é de cerca de 1% do valor dos bens dos cabeças de chapa.

Os do meio

Seguem-se os outros candidatos, pela ordem de bens declarados: o terceiro mais rico é o escritor João Goulart Filho (PPL), filho do ex-presidente João Goulart, com R$ 8.591.035,79; Lula (PT), que aponta como ocupação “torneiro mecânico”, é o quarto candidato mais rico, com R$ R$ 7.987.921,57 – ver na nota Me engana que eu gosto os números de declaração anterior, pela qual seria o terceiro mais rico; quinto, Eymael (DC), empresário, com R$ 6.135.114,71; sexto, Álvaro Dias (Pode), R$ 2.889.933,32; sétimo, Jair Bolsonaro (PSL), que apresenta como ocupação declarada “membro das Forças Armadas”, com R$ 2.286.779,48; oitavo, Geraldo Alckmin (PSDB), que se apresenta como médico, com R$ 1.379.131,70; Ciro Gomes (PDT), advogado, R$ 1.695.203,15, é o nono; décimo, Marina Silva (Rede), historiadora, R$ 118.835,13.

Os mais pobres

A décima-primeira é Vera Lúcia (PSTU), ocupação declarada “outros”, R$ 20.000,00; décimo-segundo, Guilherme Boulos (PSOL), historiador, R$ 15.416,00; décimo-terceiro, deputado Cabo Daciolo (Patriota), nada.

Nada a ver

O patrimônio declarado de cada candidato nada tem a ver com posição nas pesquisas. Se tivesse, Meirelles e Amoêdo estariam ambos no páreo.

ESTÃO VIVOS MAS MORRERAM

Carmen Navarro Rivas recebeu todos os documentos que atestam a morte de seu filho, Hélio Luiz Navarro de Magalhães. Mas, há mais de 40 anos, tem certeza de que ele continua vivo, com nova aparência e outro nome. Hélio Luiz, diz o jornalista e professor Hugo Studart, em livro ontem lançado, é um morto-vivo: foi preso na Guerrilha do Araguaia e delatou os velhos companheiros para continuar vivendo. Borboletas e Lobisomens, o livro, diz que, apesar da ordem do presidente Médici de matar todos, seis outros guerrilheiros foram poupados em troca de colaboração. E, para que não fossem mortos como vingança, anunciou-se que mortos já estariam.

O livro provocou duros protestos de famílias dos guerrilheiros citados: dizem que é falso. O jornalista Fernando Portela, autor de ótimos livros sobre a guerrilha, disse que jamais ouvira falar de guerrilheiros poupados: todas as suas fontes garantiram que nenhum sobrevivera. Mas é difícil, prossegue, dizer que é falso um livro tão detalhado, com tantas fontes.

Há informações que são verificáveis, como: “Com o falecimento de seu pai, em 1999, Hélio Luiz se apresentou à Receita Federal, em 8 de agosto de 2001, com sua verdadeira identidade, a fim de regularizar o CPF e liberar inventário. Ato contínuo, forneceu à Justiça documento no qual abria mão dos direitos sobre o imóvel no qual seu pai residia com a segunda mulher, Elza da Costa Magalhães”. Há documentos? É buscá-los.

A guerrilha

O PCdoB, Partido Comunista do Brasil, defendia a luta armada contra o regime militar; e organizou a Guerrilha do Araguaia, que resistiu a duas ofensivas militares convencionais e foi destruída pela terceira, na qual a ordem era extrair informações dos guerrilheiros aprisionados, fosse como fosse, e depois matá-los, levando os corpos para destino desconhecido Diz Studart, no livro, que num pequeno hiato de poder, quando Médici passou a presidência para Geisel, houve gente poupada em troca da delação.

Todos os detalhes

O capítulo 19 do livro de Studart, em que narra essa história, com nome, codinome e fotos dos guerrilheiros apontados como mortos-vivos, está em Chumbo Grosso

Lula ou Haddad?

O prazo final para o registro dos candidatos à Presidência é hoje, dia 15. Espera-se que o PT tente registrar Lula como seu candidato, sabendo embora que é inelegível, para que haja impugnação, recursos, embargos, e a coisa se arraste até 15 de setembro, fim do prazo de programação da urna eletrônica. O objetivo é colocar nome e foto de Lula na urna, mesmo que o candidato seja Haddad, para que o eleitor vote em Haddad pensando que vota em Lula. Há um risco: se o TSE recusar o registro de Lula, encerra-se a manobra. Há um risco maior: o TSE recusar o registro e rejeitar qualquer substituição. Nesse caso, o PT deixa de ter candidato à Presidência.

Medo de tumulto

O setor de Inteligência de Brasília está preocupado com a possibilidade de tumultos na cidade durante a reunião do Tribunal Superior Eleitoral. O MST programou a “marcha a Brasília”, tentando reunir cinco mil pessoas em frente ao tribunal para manifestar-se por Lula. O temor é de que a marcha vise tumultuar Brasília, com invasões, fogo nas ruas, depredações e invasão de prédios públicos – o que já ocorreu em casos semelhantes. Dois mil homens deverão cuidar da segurança da cidade contra a bagunça.

Corrida frenética

A Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, Abrig, promove na próxima quarta-feira, com a Fundação Getúlio Vargas, um debate entre os coordenadores dos programas de governo de todos os candidatos à Presidência da República. A ideia é ótima – mas deve estar provocando pânico nos diversos comitês de coordenação de campanha. O programa de governo normalmente é a última preocupação do candidato, e só é feito para cumprir tabela, caso um jornalista queira saber se existe. Em geral é um programa genérico, em que se defende o aumento dos salários, o crescimento econômico, a redução de despesas do Governo, a redução das desigualdades sociais e da mortalidade infantil e a vitória do bem sobre o mal. Mas arranjar coordenadores de planos de governo de uma hora para outra, e prepará-los para que enfrentem um debate, é mais complicado.

Pagando tudo

Imagine o coordenador do plano de Ciro mostrando onde vai buscar o dinheiro para limpar o nome de alguns milhões de cidadãos. Ou de Alckmin, explicando como o Centrão vai ajudar a baixar as despesas do Governo. Ou de Bolsonaro, achando verbas para abrir colégios militares às centenas. Ou de Boulos, provando que enfim temos um novo Lula.

ACREDITAR, JAMAIS

O PT, para protestar contra a ausência de Lula no debate – cumprindo pena por corrupção, não podia deixar a cadeia para comparecer – resolveu promover um evento paralelo, na Internet: o Debate com Lula. Uma grande ideia – só que não era com Lula. Nem debate, já que todos tinham a mesma opinião: Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann, Sérgio Gabrielli (presidente da Petrobras na época da compra da Ruivinha, aquela refinaria toda enferrujada em Pasadena) e Manuela d’Ávila. Sanduíche de pão com pão.

O debate dos candidatos na TV tem mesmo de ser em hora avançada. O telespectador pega no sono e embala até de manhã. Mas havia coisas curiosas a observar: por exemplo, seus maiores adversários acham que Bolsonaro é café com leite, tanto que não o atacaram. Alckmin, o quarto nas pesquisas, foi o mais atacado: imagina-se que, dono de quase metade do tempo de TV, o Picolé de Chuchu cresça, transforme-se numa Paleta de Chuchu e seja mais competitivo. De qualquer forma, ele se comportou no debate como um bom chuchu, insípido e difícil de ser engolido. Marina, a cometa que surge de quatro em quatro anos, estava como o Meirelles e o César Cielo: nada. Álvaro Dias devia estar com sono, falando arrastado (e sua aparência mudou: está a cara do Coringa, o inimigo do Batman). Boulos é articulado, mas precisaria dizer quem, daquele grupo, é dono de helicóptero. Faltou informar. E nada falou de cobrar aluguel de sem-teto.

Os rivais

Esperava-se que Bolsonaro e Ciro, os extremos do grupo (a menos que se leve Boulos a sério), fossem os grandes duelistas. Não foram. Bolsonaro reage bem quando atacado, mas é confuso para expor ideias. Colégios militares de alto nível, com disciplina rígida? Pode ser bom – mas é muito pouco em relação às necessidades do país. E os outros alunos? Ciro fala bem, tem boa presença, é convincente. Mas prometeu fazer tudo aquilo que levou o país ao buraco e não explicou por que desta vez será diferente.

Há o Cabo Daciolo. Sua arma é ser evangélico. Mas Marina também é.

De todos os lados

Sobra Henrique Meirelles. Tem excelente carreira na iniciativa privada, foi presidente do Banco Central de Lula, deixou boa imagem, foi ministro de Temer, ia bem – até que Temer gastou todos os cartuchos para ficar no cargo e dinamitou as bases da política econômica. Os petistas o consideram golpista; da política econômica atual, o aspecto mais visível é o marasmo, o desemprego. Não sabe se destaca seu lado de preferido de Lula, ou de Temer, ou de executivo de sucesso na iniciativa privada. Quer ser tudo ao mesmo tempo. Comunica-se mal: não aprendeu ainda a manter o foco.

Meiguices

As equipes de campanha dos candidatos agiram rápido: antes que os cronistas de Internet, em geral ácidos, popularizassem (em internetês, “viralizassem”) imagens e comentários mais maldosos, entraram brincando com características e erros de cada um dos debatedores. Tudo muito meigo, procurando mostrar que aqueles políticos profissionais são gente como nós.

Alckmin brinca com seu momento Montoro – o grande líder do PSDB que errava o nome das pessoas, chegando a chamar o mineiro Pimenta da Veiga, num comício, de “Pimenta do Reino”. Alckmin postou um vídeo em que cumprimenta Luciano Huck e “Eliana” (era Angélica). “Hoje fiz por merecer um belo puxão de orelhas”, diz o redator que escreve por ele.

Marina, parecendo feliz da vida, responde a perguntas do humorista Fábio Porchat; e colocou em sua rede o link chamando para ele.

Ciro é fofíssimo, o top da meiguice: postou bebê dando risada, um cão engraçado, gatinhos tocando piano. E sugere: “Quem você sugere para ver esse gatinho fofo? Quem a gente curte tem de vir junto. Quem é que você conhece que ainda não deu like (curtir) no Ciro?”

O PT entrou no jogo, mas com uma seriedade soviética: pôs mensagens sugerindo que se coloque como toque de celular um jingle de Lula, junto a uma aula de como fazer isso; e sugere que se baixe a máscara do Lula. Além disso, há um pedido de doações para a vaquinha eletrônica de Lula.

Descoberta

Tem gente com boa memória na praça. Veja só o que foram desenterrar, para fazer piada com o o candidato a vice de Bolsonaro, o general Mourão (que falou da indolência dos índios e da malandragem dos negros): um samba de Sátyro de Melo, José Alcides e Tancredo da Silva Pinto que fez sucesso em 1950, na voz de Blecaute (na época, escrevia-se “Blackout”):

“Chegou o general da banda ê ê; chegou o general da banda ê á/ Mourão, Mourão, vara madura que não cai/ Mourão, Mourão, Mourão, catuca por baixo que ele vai”.

O samba tem quase 70 anos; foi regravado por Elis Regina em 1973. E que significam seus versos? Não se sabe; o que se sabe é que a obra se baseia num ponto de macumba.

O VENTO SABE A RESPOSTA

Tudo muito simples: o PT lançou Lula, sabendo que não pode ser candidato, e pôs Haddad de vice, mas para ser candidato a presidente. O PCdoB retirou a candidatura de Manuela d’Ávila à presidência e nada lhe deu em troca, mas ela sabe que será a vice de Haddad que é o vice de Lula.

Ciro namorou o Centrão mas pôs na vice uma esquerdista que, até há pouco, era ruralista e conservadora das que não comem tomate porque é vermelho. Boulos é candidato do PSOL mas apoia Lula que não pode ser candidato mas finge que é. Alckmin afirma que sabe poupar, e é verdade: sobrou-lhe o suficiente para conquistar o apoio do melhor bloco que o dinheiro pode comprar. Alckmin corre um risco: escolheu uma vice melhor do que ele. Ana Amélia é, de verdade, tudo aquilo que Alckmin diz que é.

E temos um caso curiosíssimo: pelo PMDB, maior partido do país, com apoio do presidente da República, há Henrique Meirelles, o candidato que é sem nunca ter sido. Meirelles tem dinheiro, pode pagar sua campanha, e isso é suficiente para explicar como chegou a candidato. Mas Meirelles não tem sorte: o presidente que o apoia é menos popular até do que Dilma, os caciques do maior partido do país foram cada um para seu lado, cuidar de seus superiores interesses, e a economia, que corria nos trilhos, desandou de tanto que foi ordenhada para alimentar um Congresso faminto, que queria devorar um presidente. Meirelles tem hoje só seu carisma – e é zero.

Hoje quem paga…

Há, no total, 16 candidatos à Presidência, já descontado Lula, que finge que é mas não é, e acrescido Haddad, que é candidato a vice mas vai mesmo é sair no comando da chapa. Desses, três têm chances: Bolsonaro, o líder nas pesquisas (mas que tem pouquíssimo tempo de TV), Alckmin, que montou uma grande coligação e fica com quase metade do tempo total de TV, e Haddad, por ser o candidato de Lula. Os outros estão é brincando de candidatos. Eles podem: dinheiro é o que não falta. O nosso dinheiro.

…somos nós

Quanto? Há a ponte aérea Curitiba-Brasília que todos os esquerdistas percorreram antes de decidir independentemente seu caminho, há a grande festa da convenção, com passagem, hotéis e refeições para os participantes, e com boa bebida. Há as viagens para discutir quem é que cada partido vai apoiar – tudo por conta do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. Ou seja, de novo vão mergulhar nos nossos fundos.

Começando!

Amanhã, quinta, o primeiro debate entre os candidatos à Presidência. Como sempre, a pioneira é a Rede Bandeirantes de Televisão. Lula quis participar, mas o TRF-4, Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, ignorou o pedido. A TV não é obrigada a convidar o vice para debater na ausência do titular. Se Haddad participar, fica claro que o vice não é vice.

Mais tarde, mais tarde

Lula sabe que não pode ser candidato, tanto que escolheu Haddad para substituí-lo. Por que tanto luta para adiar a declaração de inelegibilidade? Talvez por cálculo: em 15 de setembro, foto e nome do candidato entram nas urnas (a eleição é em 7 de outubro). Se Lula não tiver sido impugnado, seu nome e foto aparecerão na urna na hora da votação, mesmo com outro candidato em seu lugar. Gente menos informada pensará que vota nele, quando estará votando nesse outro candidato, embora indicado por ele.

Dilmo

É melhor calar, e deixar no ar a possibilidade de que o achem tolo, do que falar e acabar com a dúvida. O general Mourão, vice de Bolsonaro, na primeira declaração como candidato, afirmou que os brasileiros herdaram a indolência dos índios e a malandragem dos negros. Em seguida, garantiu que não é preconceituoso. Talvez não seja; talvez apenas ignore o sentido exato das palavras. Eventualmente, pode pensar que, como Mourão, seja um Moro grande. Não é: mourão é apenas um poste para firmar a cerca.

Proteção

A presença de Mourão na chapa, dizendo o que diz, certamente reduzirá as críticas a declarações estranhas de Bolsonaro, como a de que os militares não tomaram o poder em 1964, Vladimir Herzog pode ter cometido suicídio, ou que a ditadura não hostilizou a imprensa. Ignorar a censura ao Jornal da Tarde, a O Estado de S.Paulo e a O São Paulo, jornal da Arquidiocese de São Paulo, esquecer-se do fechamento do Correio da Manhã e da Rede Excelsior, omitir que o regime militar deu apoio a novos meios de comunicação que lhe fossem incondicionalmente fiéis é demais.

O veto à meningite

Este colunista conviveu com a censura prévia. E assistiu à censura da epidemia de meningite, para que ninguém culpasse o Governo. Só que era proibido divulgar também as precauções para evitar o contágio.

O QUE PARECE, E O QUE É

Aécio desistiu de disputar a reeleição ao Senado, e tenta a Câmara Federal. Alegação: “A gravidade da situação de nosso Estado exigirá uma bancada forte e unida na defesa dos interesses de Minas”. Verdade: Aécio temia ser derrotado. E, sem foro, é com Moro. Aécio prefere o STF.

Alckmin escolheu uma grande vice: a senadora gaúcha Ana Amélia. Alegação: Alckmin disse que ela sempre foi sua favorita. Verdade: Alckmin tentou Josué Alencar, que pagaria sua própria campanha; e Álvaro Dias, para livrar-se do oponente que disputa seus eleitores. Na falta do dinheiro de um e dos votos do outro, optou pela melhor candidata.

Os verdes se aliaram a Marina, indicando Eduardo Jorge para vice. Alegação: “A aliança reforça o trabalho nos Estados”, disse o presidente do PV. Verdade: ou aceitava a vice de Marina ou ficava sem nada.

O PSC, do Pastor Everaldo, retirou a candidatura de Paulo Rabello de Castro à Presidência e o indicou para vice de Álvaro Dias, do Podemos. Alegação: “A aliança”, diz Paulo Rabello, “é o primeiro passo para acabar com a picaretagem na política.”. Verdade: Rabello corria o risco de ter menos votos que Meirelles, pois de Meirelles se sabe ao menos que é candidato e foi ministro de Temer. Álvaro Dias empacou nas pesquisas e não tinha um vice popular. Vai portanto de Rabello, que não é popular mas tem boa reputação e ficha limpa. Antes ao lado do que concorrendo.

Assim é…

A aliança de Álvaro Dias com Rabello foi rica em boas frases. O Pastor Everaldo, presidente do PSC de Rabello, disse que a principal negociação foi programática. “O senador aceitou incorporar à sua proposta de governo nosso Plano de 20 Metas”. Claro! E o fará assim que descobrir que metas são essas. Renata Abreu, presidente do Podemos de Álvaro Dias, festejou a aliança: “Além de PSC e Podemos, o PRP estará na aliança”. Álvaro Dias disse que busca o apoio do PROS. E ainda falou com ar de alegria!

…se lhe parece

E Alckmin? Na Globonews, elogiou a história do PTB, que o apoia. É uma história rica, riquíssima: Roberto Jefferson, seu presidente, cumpriu pena por ser condenado no Mensalão, e é investigado pela Polícia Federal no caso da venda de registros de sindicatos no Ministério do Trabalho.

Falsa força

Os candidatos medem forças pelo número de simpatizantes no Facebook e no Twitter. Mas qual é o número? Com a ferramenta Twitter Audit, o colunista Cláudio Humberto apurou quantos simpatizantes são falsos. No caso de Lula, 20%. De Dilma, 30% – ou seja, de 6,02 milhões de seguidores, 1,8 milhão são fake. Bolsonaro tem, entre seus seguidores, 24% inventados (pior: segundo O Globo, um secretário parlamentar de Bolsonaro, cujo salário é pago pela Câmara, é figura-chave no esquema. Traduzindo, o caro leitor paga para o candidato ter seguidores fake). E o campeão absoluto em seguidores falsos é Alckmin, com 36%.

Pois é: contar seguidores no Facebook e no Twitter como se fossem eleitores é a mesma coisa que ficar rico no Banco Imobiliário.

Falsos puros

Lula jogou pesado e, de seu escritório na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, torpedeou a candidatura de Ciro Gomes (que foi seu ministro), única possibilidade real de união dos partidos de esquerda. A união de esquerda que podia admitir era em torno de seu nome – embora inelegível.

O PT mantém o discurso da pureza ideológica. Mas se aliou àqueles a quem chamava de “golpistas” para as disputas estaduais. Em Alagoas, fechou com Renan Calheiros; em Pernambuco, fez o possível para rifar Marília Arraes e se aliar ao governador Paulo Câmara, do PSB (mas Marília venceu a convenção – e agora?). No Piauí, a senadora Regina Souza, do PT, foi queimada; o partido apoia Ciro Nogueira, do PP, um dos líderes do Centrão (que, nacionalmente, está com Alckmin). E no Ceará o PT apoia Eunício – que não apenas chamavam de “golpista” mas atacavam por ser amigo do presidente Michel Temer. Em resumo, vale tudo, exceto aquilo que possa prejudicar a suprema posição de Lula.

Atenção às mulheres

Vale a pena prestar atenção nas duas gaúchas envolvidas na disputa pela Presidência: Manuela d’Ávila, candidata do PCdoB à Presidência, e Ana Amélia, do PP, vice de Alckmin, são adversárias, pensam diferente, mas pensam. Manuela d’Ávila tinha sido lançada pelo PCdoB para ocupar o espaço até que o partido decidisse o que fazer, mas ocupou-o tão bem que, a menos que haja uma união das esquerdas, é candidata até o fim. Ana Amélia é competente, ficha limpa, corretíssima (este colunista, que trabalhou com ela na Rede Bandeirantes de Televisão, é seu admirador). E há anos é colocada pelos jornalistas entre os melhores senadores. Observe.

LARANJA MADURA

Ser vice é o sonho de boa parte dos políticos deste país: vive em palácio, com ampla mordomia, dezenas de assessores, cozinha boa e gratuita, com os vinhos que escolher, carros, motoristas, bom salário, despesa zero, e não tem nada para fazer. Há políticos que usam dinheiro público até para tomar Chicabon. Por que, então, os principais candidatos não conseguem vice?

Bolsonaro, ainda em alta, tentou o senador Magno Malta, os generais Mourão e Augusto Heleno, a advogada Janaína Pascoal, o astronauta Marcos Pontes e o príncipe (sim, os temos!) d. Luiz Philippe de Orléans e Bragança. Nenhum aceitou. A aposta de hoje é que insista em Janaína.

Alckmin, dono da maior coligação, tentou o industrial Josué Alencar, a senadora gaúcha Ana Amélia, o ex-deputado federal Aldo Rebelo. Falhou.

Marina Silva queria o ator Marcos Palmeira. E não tem outro nome.

O PT não tem nem candidato à Presidência, quanto mais à vice. Quer porque quer lançar Lula, mesmo sabendo que, pela Lei da Ficha Limpa, é inelegível. Pensou-se em Manuela d’Ávila, mas é a candidata do PCdoB à Presidência. Ela até toparia, mas numa improvável união das esquerdas.

Meirelles é candidato do MDB. Mas sem chance. E, portanto, sem vice.

Que explica que políticos experientes rejeitem um cargo que iria projetá-los? Medo, talvez, da crise. Como diz a música de Ataulfo Alves, “laranja madura/ à beira da estrada/ tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”.

Adeus, dr. Bicudo!

Inteligente, culto, corajoso, com caráter impecável; o dr. Hélio Bicudo, um dos poucos procuradores a lutar contra o Esquadrão da Morte e os torturadores do Governo militar, foi-se ontem, 31. Quem o levou não foi a idade, 96 anos: foi o amor, a tristeza pela morte de sua esposa, Déa, há meses. Bicudo, católico, foi fundador do PT e tentou evitar o “nós contra eles”. Chegou a levar a um comício petista o diretor de O Estado de S. Paulo, Júlio de Mesquita Neto. Desiludido com o PT, deixou-o; mais tarde, assinaria o pedido de impeachment de Dilma. Trabalhei com ele, sempre discordando, por 12 anos. Sempre, como hoje, lhe prestando homenagens.

A hora dos candidatos

Hoje, quarta, o PCdoB deve lançar Manuela d’Ávila. Mas pode mudar e decidir que o partido, aliado do PT desde 1989, vai se aliar a outros. Outros quer dizer PT – mas como indicar a vice de Lula se Lula dificilmente sairá?

Amanhã o MDB deve lançar Henrique Meirelles. Mas surpresas podem acontecer: há uma ala que não o quer, liderada por Renan Calheiros. Mas, se não for Meirelles, quem será? Renan, não: por causa da eleição em Alagoas, onde seu filho disputa a reeleição, prefere apoiar o PT. E não pode disputar uma eleição que possa perder, Sabe o foro privilegiado, né?

Sábado o PSDB e seus aliados do Centrão lançam Geraldo Alckmin; a Rede, Marina Silva; o Podemos, Álvaro Dias. E o PT deve insistir em Lula.

Famintos e bagunceiros

Militantes do MST decidiram ontem iniciar greve de fome em frente ao Supremo, pela libertação de Lula. O STF ordenou que saíssem, ficaram; a Polícia os tirou.

Não faça o que eu faço

Qual a opinião de Lula sobre greves de fome? Em 2010, estava em Cuba quando o preso Orlando Zapata morreu após quase três meses sem comer. Lula disse: “Greve de fome não pode ser utilizada com o pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter as pessoas em função da lei de Cuba”. Completou: “Imagina se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”. Ou seja, dissidente político, desde que em Cuba, é para Lula exatamente a mesma coisa que bandido.

O dissidente cubano Orlando Zapata, que morreu após uma greve de fome, Fidel e Luiz Inácio Lula da Silva

Renovação

Esperando ansioso as eleições para renovar os quadros políticos? Pois, de acordo com as últimas pesquisas, a primeirona na luta pelo Senado em Minas é Dilma Rousseff, PT, com 27,8% das intenções de voto. Para a segunda vaga, quem surge é Aécio Neves, PSDB, com 20,8%.

Pode ou não pode?

O colunista Cláudio Humberto (Diário do Poder) levanta uma nova hipótese sobre Dilma: ela pode ser declarada inelegível, apesar de o impeachment ter poupado seus direitos políticos. “Dilma”, diz Cláudio Humberto, “é ficha suja: foi condenada por um órgão colegiado (o plenário do Senado), no processo de cassação, e teve as contas de 2015 rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União”. Estaria, portanto, sujeita aos efeitos da Lei da Ficha Limpa. Mais, sempre segundo Cláudio Humberto: se o caso for levado ao Supremo, há ministros dispostos a anular o “fatiamento” do impeachment, pelo qual Dilma, apesar de condenada, manteve os direitos políticos, que deveriam ter sido suspensos por oito anos.

TODOS SEM VICE. E PARA QUE VICE?

Alckmin anunciou Josué Alencar como vice. Pagou alto para tê-lo. Foi obrigado a curvar-se diante de Valdemar Costa Neto. Mas valia a pena: vice que paga a própria campanha é joia rara. Mas não o teve: Josué desistiu. Alckmin está entre o paranaense Álvaro Dias, que ainda não o quis, Aldo Rebelo e “uma mulher do Nordeste”. Por que não Kátia Abreu? Ela, que era ruralista e virou ministra de Dilma, por que rejeitaria Alckmin?

Bolsonaro tentou Magno Malta, anunciou o general Augusto Heleno, anunciou o general Mourão, anunciou Janaína Pascoal e continua sem vice. Vai tentar Janaína de novo, mas o que ela defende não é o que ele defende. E daí? Alguém precisa preencher a vaga – por que não ela? Pensa ainda em Marcos Pontes – aquele que foi ao espaço com passagem comprada pelo Tesouro e, na volta, aposentou-se, para ganhar a vida falando da viagem.

Ciro, Marina, O Poste de Lula, nenhum tem vice (e não há sequer vices disputando o posto). Por que não aproveitar a oportunidade e extinguir esse cargo que, além de não servir para nada, exige palácios, seguranças, verbas imensas? Se o presidente viaja, não precisa de vice: hoje há ótimos meios de comunicação. Se por qualquer motivo estiver incapacitado para o cargo, pode ser substituído, sem custos, pelo presidente da Câmara, ou do Senado, ou do STF. Elimina-se a necessidade do Palácio do Jaburu, com toda a sua criadagem, mais a estrutura de mordomias. Chega de gastar o que é nosso!

Quem é quem

Imagine se Marcos Pontes, por exemplo, for o vice da chapa vitoriosa. Há alguns anos, o Governo brasileiro, numa iniciativa da NASA, pagou US$ 10 milhões para que um astronauta brasileiro participasse de um voo espacial americano. Pontes foi o escolhido e teve seus dias no espaço. O que se esperava é que Pontes transmitisse à equipe do programa espacial brasileiro sua experiência cósmica. Preferiu reformar-se. Transmissão de sua experiência à equipe do programa espacial brasileiro? Excluiu-se.

Sua Excelência, a TV

De acordo com a pesquisa IDEIA Big Data, para Veja, Bolsonaro só perderia hoje para Lula – e, como Lula não pode ser candidato, pela Lei da Ficha Limpa, Bolsonaro é o favorito. Mas todos olham com muita atenção para Alckmin: ele terá quase metade do horário eleitoral gratuito, enquanto Bolsonaro mal terá tempo de dizer “Meu nome é Jair”. Bolsonaro e outros candidatos tentam compensar essa desvantagem com o uso da Internet. OK, as redes sociais têm alguma força – mas não se comparam à TV. Há uma ótima ferramenta de WhatsApp que impressionou este colunista: permite enviar centenas de milhares de mensagens com índice zero de falhas. Todas as mensagens chegam a seu destino. É uma compensação – mas até agora a TV foi a principal arma. Bem usada, é decisiva. Mal usada, porém, é fatal.

Quem é quem

Antes de votar, conheça bem seu candidato. Zeina Latif, a brilhante economista-chefe da XP Investimentos, analisa dois candidatos que podem chegar ao segundo turno, Haddad e Bolsonaro, cujo pensamento sobre Estado e Economia é pouco conhecido. Zeina faz uma análise serena, sem paixões. Em Corrida maluca por Zeina Latif.

Agora vai

Juros do cartão de crédito caíram: eram de pouco mais de 300% ao ano, estão em pouco menos de 300% ao ano. De boa notícia, é o que temos.

Velha verdade

Do jornalista e escritor Ruy Castro: “Idoso tem direito a andar de graça em ônibus, pagar meia-entrada no teatro e o dobro do preço no plano de saúde”. Citado por Cláudio Humberto em Diário do Poder.

Yes, it’s Portuguese!

Cansado de pedir tuna fish quando quer sanduíche de atum? Ou chamar notícias falsas de fake news? De, para fazer compras, ter de entender o que significam off, ou sale, e descobrir que delivery é o mesmo que “entrega”?

É um problema antigo: Lamartine Babo já tratava disso na década de 30, na divertida Canção para inglês ver.

Jade, the Cat

Nossa analista sênior, a Gata Jade, está de volta, após merecidas férias, com a língua ainda mais afiada Em Com Bolsonaro o buraco é sempre mais embaixo.

Cultura de volta

Depois de muitos anos de índices baixos, a Rede Cultura volta a atrair o público. Mas o carro-chefe de suas atrações é diferente dos habituais shows e Roda Viva: o Programa Papo de Mãe está próximo de 5 pontos no Ibope, muito acima de Roda Viva. O programa é apresentado por suas criadoras, Mariana Kotscho e Roberta Manreza, de segunda a sexta, em dois horários: 11h45 e 17h45. Aos sábados, entra em horário único, às 11h30.

VICES, VÍCIOS, VIXE!

Alckmin fechou com o PR de Valdemar Costa Neto e ganhou um vice: Josué Christiano Gomes da Silva, “o Alencar da Coteminas”. Valdemar ganhou a entrada no comando da campanha com mais tempo de TV e, mais do que isso, ganhou os, digamos, selos de proximidade com o PSDB. E o vice que Alckmin tinha ganho, tão bom que pagaria a própria campanha, se evaporou. Não quer mais ser vice, não. E pagar que campanha, se não sai?

A questão dos vices está estranha. Bolsonaro começou tentando Magno Malta, de olho nos evangélicos. De olho nos militares, tentou os generais Mourão e Villas Boas. De olho nas eleitoras, tentou Janaína Pascoal. Esta, aliás, foi à convenção para ser coroada. Fez um discurso discordando das posições de Bolsonaro e também ficou fora. E agora, quem é o próximo?

É curioso: candidatos com possibilidades de vitória (Bolsonaro é líder nas pesquisas, Alckmin domina o tempo de TV) sempre têm grandes filas de candidatos. O vice se elege com o voto do outro, trabalha pouco e só em certas ocasiões, pode chegar à Presidência sem conquistar um único voto. Que é que está ocorrendo? E não ocorre só na campanha presidencial: em Minas, o petista Fernando Pimentel quer como vice o mesmo Alencar que até anteontem era vice de Alckmin; em São Paulo, Paulo Skaf escolheu de vice uma oficial da PM pouco conhecida. Jô Soares dizia que vice não chega nem a nome de rua. Mas chega a presidente da República.

É samba!

Alckmin fechou com o Centrão e logo começou a briga. Paulinho da Força, que lidera o SD, Solidariedade, e a Força Sindical, foi ao candidato para reclamar de sua posição contrária ao Imposto Sindical. Alckmin, mais Picolé de Chuchu do que nunca, passou a defender uma tal “contribuição sindical societária”. E que é esta “contribuição sindical societária”? Para explicar de uma vez a questão, é a mesma coisa que Imposto Sindical: pegar um dia de salário por ano de cada profissional, seja ou não filiado ao sindicato, e dá-lo de presente a dirigentes sindicais. Paulinho é sindicalista e gosta de Imposto Sindical. Em compensação, Cristiane Brasil acusou Alckmin de recuar da posição inicial para agradar um só partido do bloco. Ela, do PTB, parece acreditar que o Centrão discute ideologias. Imagine: no Centrão, todos têm a mesma ideologia, aquela, e não se discute.

Questão de sorte

Os astros ajudam Alckmin. Era um deputado federal que jamais tinha participado do comando de seu partido, o PSDB, quando foi escolhido por Covas para vice. Estava lá quando o câncer levou Covas e o entronizou no Governo paulista. Serra, que o sucedeu, era do mesmo partido e cultivava sua ideologia: um grupo de amigos formado 100% por inimigos. Afastou os alckmistas e deixou Alckmin fora do jogo, até que precisou dele e o levou para o Secretariado. Ele ressuscitou. E se vingou: hoje, a ala Serra do PSDB está isolada dentro do partido. Alckmin ia mal nas pesquisas, mas fechou o acordo com o Centrão que lhe dá o domínio da TV. Teve sorte de novo ao obter dois grandes reforços: a desistência de Josué Alencar e a diluição do poder de seu coordenador de campanha, Marconi Perillo.

Que se repete

Perillo, que conduziu a campanha enquanto Alckmin desabava nas pesquisas, ainda tem algum poder. Mas a sorte de Alckmin funciona: o apresentador Jorge Kajuru, que disputa o Senado por Goiás, ameaça a posição de Perillo, seu concorrente. E o candidato de Perillo ao Governo, o atual governador José Elinton, tem menos da metade das intenções de voto de seu adversário Ronaldo Caiado. Perillo talvez tenha de ficar em Goiás para lutar pela sobrevivência política.

Fraqueja!

Lembra-se do dia em que Bolsonaro disse que tem cinco filhos? Os quatro primeiro, homens; e da quinta vez, “deu uma fraquejada” e teve uma menina. Pelo jeito, Janaína Pascoal poderia ser vice, já que tem condições para isso, mas dependeria de uma fraquejada do candidato.

Tem festa. Pague!

A OAB/Goiás e o Instituto de Estudos Avançados em Direito lideram a campanha contra o projeto de lei que concede licença-prêmio aos juízes do Estado. O Tribunal de Justiça é a favor. A votação está marcada para hoje.

Comentário da advogada Maria Thereza Alencastro Veiga: “A cada 5 anos trabalhados os juízes e desembargadores terão três meses de descanso. Lembrando que têm dois meses de férias por ano mais 17 dias de recesso no fim de cada ano, terão em média 95 dias de férias por ano (…) Vai custar R$ 200 milhões por ano (…) a ideia é reduzir o horário de atendimento do Poder Judiciário para fazer caber esta história no Orçamento”.

É vendaval

A licença-prêmio é retroativa e pode ser paga em dinheiro.

OS OUROS, NAIPE DA SUCESSÃO

De uma tacada só, usando os argumentos preferidos de boa parte dos políticos, Geraldo Alckmin se transforma no candidato dominante das eleições: terá quase a metade do horário eleitoral gratuito, e ganha o apoio do industrial Josué Christiano Gomes da Silva, ou “Josué Alencar”, filho do vice de Lula de 2002 a 2010. Josué é perfeito: promete não atrapalhar os planos de Alckmin e paga a campanha. Ou melhor, nem ele é perfeito. Ele é filiado ao PR de Valdemar Costa Neto, a quem muitos fazem restrições. Mas Valdemar não é exceção no grupo que apoia Alckmin: com ele estão Roberto Jefferson, Cristiane Brasil, Paulinho da Força, conhecidíssimos.

A tese de Alckmin, até hoje mal nas pesquisas, pode agora ser testada: quem tiver mais TV cresce. E ele tem quase metade do tempo total de TV.

Mas sejamos justos: não há candidatos viáveis mais ou menos impuros. O PT, seja quem for seu candidato, viu a condenação judicial de seu ícone, Lula; a prisão de seus tesoureiros; a pena de seus coordenadores. Ciro, que manteve imagem razoável, acaba de levar duas pancadas: o lançamento de sua candidatura foi murcho, e O Globo revelou que o deputado Leônidas Cristino pagou com dinheiro da Câmara mais de R$ 100 mil a um escritório de advocacia em Fortaleza do qual seu padrinho político Ciro Gomes é sócio. Cristino foi ministro dos Portos de Dilma, por indicação de Ciro.

Brigar por causa de política, hoje, é como ter crise de ciúmes na zona.

É ou não é

Alckmin finalmente tem sua chance de crescer – tanto que, após acertar a TV (quer dizer, com os partidos que cedem seus tempos de TV), recebeu a companhia, em comício, de João Dória Jr., candidato favorito ao Governo paulista e que tinha esperanças de substituí-lo na luta presidencial. Só que TV ajuda mas não é infalível: em 1989 (quando Collor derrotou Lula no segundo turno), o maior tempo era de Ulysses Guimarães, PMDB, que ficou em sétimo. O segundo em tempo foi Aureliano, que ficou em nono.

Hora H

Bolsonaro é um dos destaques da campanha, mas tem sete segundos de TV. Pela posição na pesquisa, deveria ter multidões de pretendentes a vice. Mas ainda não encontrou ninguém: tentou o senador Magno Malta (em busca do voto evangélico), o general Hamilton Mourão; anunciou o general Augusto Heleno, que comandou as tropas da ONU no Haiti, tem excelente imagem entre os militares. Teve suas propostas rejeitadas. Hoje, pensa na advogada Janaína Paschoal, que, com Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr., apresentou a proposta de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Você, empresário

O caro leitor talvez não saiba, mas é empresário, sócio de múltiplas empresas. Os governos que elegeu – Federal, estaduais, municipais – têm, juntos, 118.288 CNPJs – Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas, algo, para empresas, próximo àquilo que o CPF é para as pessoas físicas.

Vejamos um CNPJ, buscado ao acaso (é o nº 74.170 da lista): pertence à Cabana do Jaime, dirigida por Jaílton Ferreira de Jesus. Situação ativa: está funcionando (a última verificação é de 10 de julho de 2017), e é órgão público do Poder Executivo Federal desde, pelo menos, 2006. Tem capital social de R$ 0,00 (zero reais), está localizada na avenida Otávio Mangabeira, praia de Piata, em Salvador, Bahia – uma beleza de lugar. Tem telefone fixo (71), e os primeiros números são 328… Tem e-mail.

Não é difícil localizar a lista de CNPJs de entidades dos diversos níveis de Governo. Basta procurar na internet. Sem problemas – mas será função do Governo Federal ter a propriedade de uma barraca de praia que serve bebidas e lanches a seus frequentadores? Quanto isso custa?

Licença jornalística

Na verdade, o caro leitor não é empresário, talvez nem seja formalmente sócio de uma empresa desse tipo. Mas cabe-lhe a honra de pagar a conta.

E não imagine que a coisa se limita a uma barraca de praia. Há também uma associação dos pescadores, uma associação de produtores rurais, um restaurante – não há dúvida, existe gente que tem sorte na vida. Porque controlar quase 120 mil empresas como essas deve ser muito difícil.

Prisão de novo

A Polícia Federal prendeu na sexta, pela segunda vez, o ex-governador André Puccinelli, a pedido da 3ª Vara Federal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Puccinelli, seu filho e o advogado tiveram prisão preventiva decretada, a pedido do Ministério Público Federal, em decorrência de apurações da Operação Lama Asfáltica. Puccinelli pretende se candidatar novamente ao Governo, pelo MDB. Há acusações referentes a contatos com a JBS, de Joesley Batista, à análise de documentos apreendidos em fases anteriores da Operação e de movimentações bancárias.

ESCOLHA CUIDADOSAMENTE. E DAÍ?

Vamos fazer de conta que todos os que se dizem candidatos vão mesmo ser candidatos (não vão – mas no Brasil acontecem tantas coisas estranhas que, de repente, pode até ser que os candidatos estejam falando a verdade).

O líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, lembra com saudades o regime militar, em que a presença do Estado na economia foi gigantesca. Já se manifestou em favor de mais Estado na economia. Mas seu principal guru econômico é Paulo Guedes, seguidor da Escola de Chicago, que defende menos Estado na economia e mais iniciativa privada.

Alckmin é do mesmo PSDB de Fernando Henrique, que privatizou a Vale, os telefones, muitas rodovias. Mas foi Alckmin que vestiu a jaqueta ridícula cheia de nomes de empresas estatais, num debate com Lula, para provar que era contra privatizá-las. O PSB inclui, em seu nome, a ideia socialista. Mas pode acabar apoiando Alckmin, que nada tem de socialista. Ou Ciro, que se diz de esquerda mas foi quem implantou o Plano Real.

Lula não pode ser candidato, por causa da Lei da Ficha Limpa. Mas quer ser o candidato preferencial da esquerda. Em seu Governo, empreiteiras e banqueiros jamais ganharam tanto, nem foram tão agradecidos.

O caro leitor escolhe com carinho o candidato que exprime suas ideias. Mas pode estar votando contra o que pensa. Como se defender desse risco?

Difícil: tendo sorte, talvez. Chamar os universitários não adianta.

A hora dos salgadinhos

A festa está começando: a convenção do PDT lança a candidatura de Ciro Gomes nesta sexta-feira. Quem será o vice? Depende: pode ser um socialista, do PSB, pode ser um conservador, do DEM. Pode ser Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional, do PP. Alckmin não tem nomes: quer alguém do Nordeste, onde precisa crescer. Mas gostaria de ter o paranaense Álvaro Dias, que bloqueia seu crescimento no Sul. E boa parte de seus aliados gostaria mesmo é de trocá-lo por João Dória Jr.

Lado A, lado B

Nem Lula está sossegado: Tarso Genro, que foi seu ministro, gostaria de ver o PT apoiando Guilherme Boulos, do PSOL (o partido de sua filha, Luciana Genro). E quem seria o vice de Lula, se pudesse ser candidato? Há dois palpites: Jaques Wagner e Fernando Haddad. Um dos dois, mais provavelmente Haddad, será indicado por Lula para candidato do PT.

Jair Bolsonaro deve ser lançado candidato oficialmente neste domingo, na convenção do PSL. Seu vice? Depois de pensar no senador Magno Malta, evangélico, e desistir (o partido de Malta é o PR, de Valdemar Costa Neto, que sabe direitinho quanto vale seu apoio), quer agora o general Augusto Heleno, PRP, que foi o primeiro comandante das tropas da ONU no Haiti, com trabalho elogiado, e comandante militar da Amazônia. Bolsonaro tem sete segundos de TV. Com o PRP, passa a 19 segundos.

Jacaré com cobra d’água

O presidente do diretório estadual do MDB de Minas, Antônio Andrade, que sugeriu um acordo com o DEM para apoiar Rodrigo Pacheco para o Governo, foi derrubado pelos deputados do partido. O MDB, partido de Michel Temer, está prontinho para aderir ao governador Fernando Pimentel, do PT, partido do Fora, Temer.

Renovação

O eleitor está cansado dos políticos? É verdade: está. Está desiludido? É verdade: está. E está disposto a mudar? Não, não está. Um balanço rápido mostra que a taxa de renovação no Congresso será reduzida. Às vezes irá ocorrer uma troca de nomes, mas de políticos conhecidos por políticos até mais conhecidos. Minas: os candidatos favoritos ao Senado são Aécio e Dilma. São Paulo: Suplicy. Bahia: Jaques Wagner. Goiás: Marconi Perillo (embora o candidato ao Governo Ronaldo Caiado, seu adversário político, tenha o triplo das intenções de voto do sucessor que indicou). Paraná: Roberto Requião e Beto Richa. Ceará: Cid Gomes, Eunício Oliveira.

Ótima notícia

A pedido do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, a presidente do Supremo, ministra Carmen Lúcia, suspendeu a medida pela qual os operadores de planos de saúde poderiam cobrar dos segurados até 40% do valor das despesas. A decisão já vale, mas pode ainda mudar: o plenário do STF a analisará depois das férias judiciárias. Em sua decisão, Carmen Lúcia lembra que, mesmo editadas por entidades administrativas, as normas não podem violar ou inovar o que está na lei. Mais: nas palavras da ministra, “saúde não é mercadoria, vida não é negócio e dignidade não é lucro – ademais, direitos conquistados não podem ser retrocedidos sequer instabilizados”. Mas é preciso tomar cuidado: quando o Estatuto do Idoso proibiu discriminação a quem tivesse 60 anos ou mais, os seguros-saúde e convênios passaram a multiplicar os preços quando o segurado faz 59 anos.

LOUCADEMIA DE POLÍTICA

Quem já escolheu seu candidato à Presidência talvez tenha de mudar de ideia: candidatos fortes, de partidos fortes, com verba forte, não chegam lá. Lula, por pertencer ao bloco dos fichas sujas; Alckmin, por pertencer ao bloco dos sem votos. Eleitores ocultos, mas conhecidíssimos, terão papel importante na eleição, em troca de um papel importante no Governo se o seu candidato vencer (fora outro tipo de papel, cujo valor não depende do resultado). Não pense que as alianças têm lógica, exceto aquela que a gente imagina. Um dos eleitores ocultos, Valdemar Costa Neto, do PR, oscila entre Bolsonaro e o candidato de Lula. Valdemar Costa Neto dispõe de valioso trunfo: Josué Gomes da Silva, filho do vice de Lula. José Alencar, e dono da Coteminas. Ele tem condições de pagar o custo de sua campanha.

Alckmin, ex-governador de São Paulo, esperava aliados como o DEM, o PSB, PP, SD, PRB, até mesmo o MDB. Mas a má posição nas pesquisas o enfraquece. O MDB prefere até Meirelles, que também vai mal nos índices mas pode pagar a própria campanha, deixando que a verba eleitoral se destine aos demais candidatos. A situação muda se Alckmin for trocado por Dória. O PMDB não faz questão de ter o presidente, basta estar no Governo. É sábio: quem ajuda a ganhar eleição escolhe o lugar primeiro.

Tirando o MDB, os possíveis aliados de Alckmin podem apoiar Ciro. Enfim, seja qual for o vitorioso, não se sabe que tipo de política irá fazer.

Dupla personalidade

Um caso curioso é o do PSD, de Gilberto Kassab. Kassab é ministro de Temer. Seria normal apoiar o candidato do Governo, Meirelles, ao menos por enquanto. Mas Kassab fez acordo com Alckmin. E seu braço direito, Guilherme Afif, diz que também é candidato. Normal: Afif era vice de Alckmin, um dos líderes da oposição a Dilma, e ministro da própria Dilma.

A lei…

Pela Lei da Ficha Limpa, Lula não pode ser candidato, mesmo que seja libertado: foi condenado em segunda instância. Mas no Brasil nunca se sabe. Até já tiraram um mandato de presidente sem mexer em seus direitos políticos. De repente… é difícil, mas aqui nenhum absurdo é impossível. O PT iniciou há dias um movimento para registrar a candidatura de Lula, com atos espalhados pelo país. A campanha vai até 15 de agosto, quando o PT tentará registrá-lo. Caso a tentativa fracasse, haverá o Plano B.

…ora a lei

Mas o próprio Lula parece convencido de que não irá disputar. Vetou o apoio do PT a Ciro Gomes (que foi seu ministro e se propunha a fazer um Governo de esquerda, seja lá o que isso for), e deixou de sobreaviso dois fiéis entre os fiéis, Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, e Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, para se candidatarem caso seja preciso. Ao mesmo tempo, Wagner conversa com Josué Gomes da Silva em busca do apoio do PR. Josué parece interessado em ser vice: até já mudou o nome para “Josué Alencar”, para relembrar seu pai, que foi vice de Lula. E não se imagine que Wagner converse sem o aval de Lula: isso não ocorreria. Já outra informação ainda não foi confirmada: a de que Lula poderia aceitar Josué como candidato à Presidência, dando-lhe formalmente seu apoio.

Gleisi!!!

A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffman, protestou contra a decisão judicial de proibir Lula de dar entrevistas. Disse que Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP foram autorizados a dar entrevistas, enquanto Lula foi proibido. Este colunista entende o que Gleisi quis dizer, mas acha que, por mau entendimento ou maldade, muita gente talvez interprete a sua frase como se ela estivesse fazendo comparações entre os três personagens.

O primeiro a desistir

Flávio Rocha, proprietário da Guararapes e das Lojas Riachuelo, tentou conseguir espaço para se candidatar. Seu projeto-base é atraente: pessoas físicas deixariam de declarar o imposto de renda, que seria cobrado a cada vez que depositassem ou retirassem dinheiro do banco. A sonegação estaria liquidada, e até os donos de dinheiro ilegal pagariam tributo. Já desistiu.

Paulo Rabello de Castro também não despertou as atenções, mas ainda é candidato pelo PSC. E há um candidato totalmente novo nessa campanha: João Amoedo, do Partido Novo. A grande novidade é que pretende reduzir o tamanho do Governo, limitando suas tarefas ao que for essencial.

A OAB e a ética

A Comissão Especial de Direito Penal Econômico da OAB/SP, que tem, entre outras, a missão de elaborar uma cartilha de recomendações sobre Advocacia e Lavagem de Dinheiro, acaba de reforçar sua equipe: nomeou para integrá-la a advogada Lilia Frankenthal, especialista em Direito Penal Econômico e Direito Empresarial. As recomendações da OAB/SP deverão englobar as diversas áreas do Direito e seu papel no combate à corrupção.

FAÇA-SE A LUZ

O debate jurídico sobre a libertação de Lula pode parecer complexo, data vênia, pois decisões contraditórias abundaram. Mas, como diz a frase de amplo uso no setor jurídico, “quod abundat non nocet” – ou, no velho e bom Português, “o que abunda não prejudica”. Logo, não há prejudicados.

Façamos um paralelo com a Copa. O suíço fez falta em Miranda antes de marcar o gol de empate? Pois, no caso, basta esperar o árbitro olhar para o outro lado, chamar três deputados militantes e consultar o bandeirinha. O bandeirinha contraria o juiz e, sob aplausos dos nobres parlamentares, diz que não foi gol. O VAR, aquele juiz que fica vendo o jogo na TV, entra em campo e confirma o gol. O bandeirinha se revolta: ninguém chamou o juiz do vídeo, como é que ele se atreve a palpitar no jogo? O árbitro da partida, dono do apito e autoridade máxima em campo, quer falar e ninguém deixa.

Criado o conflito de competências, o diretor de arbitragens da Copa manda todo mundo obedecer ao juiz. Mas qual deles? O juiz que usa apito e não tem bandeirinha na mão. E o quarto árbitro que cale a boca e se limite a ser quarto – ou o quarto entre os árbitros ou o quarto entre os deputados.

Tudo fica por isso mesmo, enquanto todos se insultam como se fossem o Neymar depois de alguma queda. No dia seguinte, o presidente da FIFA decide que foi gol e o juiz tem razão. O jogo terminou na véspera – e daí?

Os deputados envolvidos ficaram no banco, sentados sobre seus fundos.

Não é bem assim

No caso de Curitiba, José Dirceu falou antes da hora, achando que tudo estava resolvido. Lula também achava e dizem que já tinha até arrumado as malas. Numa delas, os livros que estava lendo na prisão. Depois querem que a gente acredite no noticiário. Essas coisas têm cara de fake news.

O fim e o começo

O final da Copa para o Brasil significa o início da temporada eleitoral. É hora de lançar os candidatos – o que não significa que todos cheguem à eleição. Três pré-candidatos de partidos do Centrão decidiram manter suas candidaturas, sem tentar nenhuma aliança por enquanto. Não é fácil: o PSD está pronto a apoiar o tucano Geraldo Alckmin, embora Guilherme Afif, um dos caciques do partido, se apresente como candidato. Alckmin ainda não disse a que veio (acredita que, somando amplo apoio partidário, terá o maior tempo de TV, o que lhe dará votos); mas dentro do ninho tucano há quem defenda sua substituição por João Dória Jr. O DEM está pronto a sair de sua tradicional aliança com o PSDB, para apoiar Ciro Gomes – sim, ele, que tenta se transformar no candidato alternativo de esquerda, no lugar de Lula. O PR tende a Ciro, mas o cacique-mor do partido, Valdemar Costa Neto, não gosta de Ciro e prefere Bolsonaro. Haverá ainda longo período de articulações para afastar quem não decola e aliar-se a quem tem chances.

As finanças da campanha

Henrique Meirelles deve ser lançado pelo MDB em 4 de agosto. Meirelles tem intenções de voto muito baixas, mas não faz mal: como tem condições de bancar a sua campanha, toda a verba do partido será destinada aos outros candidatos. Isso contribui muito para consolidar sua candidatura, apesar do carisma zero e de uma política econômica que deixou de ir bem após a parada dos caminhões. Dória oferece a mesma vantagem ao PSDB: pagando a campanha toda, ou a maior parte, sobra verba para os demais candidatos. Fora isso, Dória tem mostrado mais fôlego que Alckmin.

Ampla escolha

O que não falta é candidato (embora achar um bom seja mais difícil): há Marina, Afif, Flávio Rocha, João Amoedo, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila, Álvaro Dias, o poste de Lula – provavelmente Fernando Haddad.

E Bolsonaro?

Embora Jair Bolsonaro esteja em primeiro lugar nas pesquisas, Alckmin não acredita em sua candidatura: disse em Cuiabá, à rádio Jovem Pan, que Bolsonaro não chegará ao segundo turno. “Se você quer saber a minha opinião, eu acho que o Bolsonaro não vai para o segundo turno. Ele não chega lá. Então, essas pesquisas, nesse momento, não representam intenção de voto, porque voto mesmo você só vai definir lá na frente”.

Boa leitura

Regina Helena Paiva Ramos, jornalista pioneira, com passagens pelas mais importantes redações de São Paulo, lança agora no dia 14, na Associação Paulista de Homeopatia (rua Diogo de Faria, 839, SP) a biografia de um pioneiro: o médico que trouxe da Europa o iogurte e o kefir, foi um dos primeiros homeopatas do país, militante ambientalista e pai da autora. “Era um homem totalmente fora dos padrões”, diz Regina Helena. Participou da Campanha de Redenção da Criança, que implantou postos de puericultura em todo o país; e trabalhou até 15 dias antes de morrer, aos 85 anos, em 1982. Vale pelo personagem, vale pela autora.

A HORA DA SEXTA COROA

Perdemos; os belgas jogaram melhor, a Seleção de defesa impecável nunca esteve tão aberta, um excelente chutador como Philippe Coutinho errou feio um chute de frente e de perto, craques mundialmente famosos erraram passes curtos. Mas, correndo mais uma vez o risco de remar contra a maré, este colunista acredita que a Seleção terá seu grande momento em 2022, especialmente se os dirigentes do futebol tiverem a clarividência de manter Tite como técnico. Os mesmos jogadores, mais experientes, darão suporte aos novos (e Tite, sempre se atualizando, saberá como usá-los). Lembrem-se da Seleção de 1966: foi a base da campeã de 1970.

Em 1966, a grande esperança brasileira era Pelé. Uma excelente manchete, no dia em que o Brasil enfrentaria Portugal, saiu no Diário da Noite, de São Paulo: “Pelé, jogai por nós”. Mas nem Pelé, no auge de sua forma (e estava saindo de uma contusão) ganhava um jogo sozinho. Portugal eliminou o Brasil da Copa. Falou-se o diabo dos jogadores. Quatro anos depois, com jogadores como Brito, Gérson (o mais criticado de 1966), Jairzinho, Tostão, Pelé, Edu, das diversas formações tentadas antes da Copa anterior e durante a disputa, o Brasil formou uma das melhores seleções de todos os tempos. Isso pode perfeitamente se repetir em 2022.

Lamentemos a derrota. E nunca deixemos de lembrar que, em futebol, Brasil é Brasil. Pois só há um país que tenha ganho cinco Copas do Mundo.

Quem é quem na sucessão

Que pensa cada candidato? A Confederação Nacional da Indústria ouviu Alckmin, Ciro, Marina, Bolsonaro, Álvaro Dias e Meirelles. Confira clicando aqui.

Geraldo quem?

Alckmin diz que está animado, apesar dos baixos índices nas pesquisas. Acha que vai crescer no horário eleitoral, onde acredita que terá a maior parte do tempo, graças às alianças que, a seu ver, são inevitáveis. Como se vê, tudo é questão de fé: se tudo ocorrer como ele acredita, quem sabe? Só que o Centrão (que mudou de nome: agora é Blocão) resiste a apoiá-lo. O DEM, tradicional aliado dos tucanos de Alckmin, está interessadíssimo em Ciro Gomes, a quem atribui mais possibilidades de vitória. O Blocão pode segui-lo. Outros partidos que poderiam apoiá-lo puxaram o freio – como o PSB, em São Paulo comandado pelo governador Márcio França. Alckmin lhe tinha prometido apoio na eleição estadual, mas João Dória impôs sua candidatura ao PSDB, e Alckmin não se esfalfou para cumprir a promessa.

Multiplicações

O PMDB poderia dar apoio decisivo a Alckmin (pondo Meirelles como vice). Mas teme que um arraste o outro para mais baixo. E Alckmin ainda tem outros problemas: gostaria de um vice nordestino, que lhe desse votos na região; mas precisa conquistar também o Sul, onde o PSDB pela primeira vez vai mal nas pesquisas. Poderia oferecer a vice a Álvaro Dias, mas e o vice nordestino, e Meirelles? E São Paulo, seu reduto eleitoral, a maior trincheira tucana, onde ele mal empata com Bolsonaro? O PMDB gostaria de cortar o mal pela raiz: sai Alckmin, entra João Dória (com isso, garantiria também o PSB, dando apoio a Márcio França para o Governo).

Alckmin pode repetir Aureliano Chaves em 1989: sem voto, sem futuro.

Garantido

Enquanto isso, Bolsonaro dispara na frente. E negocia um apoio que lhe garantirá mais tempo de TV: conversa com Valdemar Costa Neto, do PR, oferecendo-lhe a vice-presidência, com o nome do senador Magno Malta.

A opinião do dinheiro

Há grupos para os quais o resultado da eleição tem efeitos econômicos imediatos: os investidores. É gente prática, que raciocina com o bolso, não com o fígado ou o coração. Uma grande empresa, a XP Investimentos, fez uma pesquisa com 146 investidores sobre eleições e mercado. Resultados, divulgados pela XP News & Política:

49% acreditam que Jair Bolsonaro será o vitorioso. E 32% creem que, no segundo turno, enfrentará Marina Silva. Para 62%, a vitória de Bolsonaro fará com que a Bolsa suba; 39%, que o Real se valorize; e 58% que a taxa básica de juros, Selic, fique acima de 8% no fim de 2019.

Em geral, acham que só a vitória de Alckmin levaria à aprovação das reformas Tributária e da Previdência; 95% acham que a Bolsa subiria; 84% acham que o Real se valorizaria, levando o câmbio para baixo de R$ 3,40.

Em geral, creem que a vitória de Ciro ou Haddad seria negativa para a Bolsa, e gerariam mudanças na Reforma Trabalhista e no Teto de Gastos.

Dilema

O empresário Flávio Rocha rejeita qualquer possibilidade de sair como vice de algum candidato à Presidência. Só que, a julgar pelas pesquisas, os eleitores rejeitam qualquer possibilidade de elegê-lo presidente.

O ELEITOR É APENAS UM DETALHE

Temos, hoje, 28 pré-candidatos à Presidência da República. Quem tem 28 candidatos não tem nenhum – a menos que ache que os três maiores partidos do país vão disputar o jogo de buraco (o que é melhor do que disputar o rouba-monte, mas também não resolve nada). Um partido quer porque quer registrar um presidiário, que não atende às especificações da Lei da Ficha Limpa; outro insiste num candidato que tem dinheiro para a campanha, mas é pobre de votos; o terceiro gira em torno do cacique que venceu várias eleições em São Paulo mas não consegue cruzar fronteiras – tanto que o partido que preside só não o substitui por falta de substituto.

Há nomes que despontam bem: Bolsonaro, Ciro Gomes, Marina. Marina sempre desponta bem e despenca melhor. Bolsonaro não tem tempo de TV nem para dizer “meu nome é Bolsonaro”. E Ciro, que negocia com vários partidos, da esquerda à direita, sempre vai bem até falar o que não deve.

O fato é que os partidos ainda não marcaram a data das convenções. E o site Diário do Poder, que analisou as pesquisas, concluiu que 64,5% dos eleitores não optaram por qualquer dos candidatos. Quase 40% dos eleitores aguardam novos nomes; os restantes parecem decididos a votar nulo. E os eleitores já definidos são apenas 35%.

Qualquer previsão, nesse terreno instável, tende a falhar. Os candidatos tentam articular-se politicamente – mas quem irá cuidar dos eleitores?

Ele é o bom

O ex-governador Alckmin, que tem intenções de voto expressas em um só algarismo, se diz otimista com o quadro eleitoral: garante que já se aliou a quatro outros partidos que, somados ao seu PSDB, lhe dão 20% do tempo da TV. Quais são esses partidos? Ele não diz. Mas conta vantagem: “Nenhum pré-candidato tem o apoio de dois partidos. Nenhum – exceto eu, que tenho cinco”. Diz também que nenhum desses partidos é o DEM – sorte dele, já que o DEM, velho aliado do PSDB, tende a dar apoio a Ciro.

Esquerda geral

O movimento pró-Ciro é tão forte que um intelectual brizolista, o professor Roberto Mangabeira Unger, já deu entrevista dizendo que o DEM é mais esquerdista que o PSDB – isso, o DEM de Antônio Carlos Magalhães. Mangabeira acha que Ciro, que foi integrante do PDS, dirigido à época por Maluf, é também esquerdista. Ciro tem boas possibilidades de conquistar ainda o apoio do PSB, antes prometido a Alckmin. Mas Alckmin tinha prometido apoiar a candidatura de seu vice, Márcio França, ao Governo paulista; agora age como se nada tivesse a ver com a promessa.

E não é que tem razão?

O chefe da Casa Civil do presidente Temer, Eliseu Padilha, cacique dos fortes do PMDB, disse que se a convenção nacional do partido se realizasse agora, a candidatura de Henrique Meirelles seria confirmada sem nenhuma dúvida. “Hoje não tem disputa”, disse Padilha. O problema é que, com os raquíticos índices que Meirelles apresenta, não haverá disputa também nas eleições. A propósito, Padilha deve ser lido com atenção: se a convenção do PMDB se realizasse agora, Meirelles seria o candidato. Só que o PMDB não marcou ainda a convenção. Até marcá-la, quem sabe a fila anda?

A força do candidato

Meirelles tem uma proposta que agrada o PMDB: pagar a sua campanha com seu dinheiro. Com isso, os recursos do financiamento público ficam para candidatos a outros cargos, que não precisarão financiar o presidente.

Os bens da família Lula

O patrimônio da família do ex-presidente Lula, revelado por seus advogados no processo de inventário da falecida esposa Marisa Letícia, e divulgado por esta coluna no domingo, dia 1º, soma perto de R$ 13 milhões. Muito ou pouco? Não dá para dizer: se multiplicarmos o salário do presidente por 104 (oito anos, mais os 13ºs), considerando-se que ele não tenha tido qualquer despesa nesse período, chegaremos a pouco mais de R$ 3 milhões, sem considerar o rendimento das aplicações. Há também possíveis ingressos provenientes de palestras, que Lula informa ter proferido. Em resumo, apenas com os dados disponíveis, não é possível dizer se os rendimentos foram ou não superiores ao habitual. É preciso ainda considerar que o valor venal das propriedades não costuma coincidir com o valor de mercado, normalmente mais elevado.

Salvando vidas

A partir de agora, o telefone 188 está destinado, em todo o território nacional, a apoiar pessoas que pensam em suicidar-se. Nos moldes do CVV, Centro de Valorização da Vida, há voluntários bem treinados para conversar com possíveis suicidas e estimulá-los a continuar vivendo. É uma experiência muito bem sucedida que se estende ao país inteiro.

EU, ROBÔ. ELE, ROBÔ

Aconteça o que acontecer no Supremo Tribunal Federal – o que inclui aquelas surpresas jurídicas com que já nos acostumamos – o ex-presidente Lula não deve ser candidato à Presidência: é barrado pela Lei da Ficha Limpa. Mas faz questão de manter a ficção de pé e sustentar a candidatura até que seja formalmente impugnada pelos tribunais. Neste momento entra em cena o Plano B, aquele que Lula e seus principais seguidores garantem que não existe: ele sai de cena e tenta transferir seus votos para um poste. O robô (já escolhido) fará o papel de clone de Lula: eu sou ele, ele sou eu.

O robô, diz Veja on-line, coluna Radar, é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, derrotado no primeiro turno por João Dória quando tentou a reeleição. No horário de TV, Lula e Haddad se apresentarão, deixando claro que um é candidato-robô, só para cobrir a vaga do inelegível. Lula diz: “Eu, Lula, sou Haddad”. E Haddad, no melhor estilo dos antigos filmes de Tarzan (“Me Tarzan, you Jane”), responde: “Eu, Haddad, sou Lula”.

Haddad não é Lula, Lula não é Haddad (nem ele tem por si próprio tanta veneração quanto a que Haddad lhe dedica). Mas não faz mal: supõe-se que Haddad não faça com Lula o que Dilma fez, ao disputar a reeleição sem ceder a vaga para ele. E Haddad, um político menos afoito, não terá a ousadia de liderar o PT. Mesmo se fosse eleito, seria um robô de Lula.

Os bens da família

Afinal, a quanto monta o patrimônio da família de Lula? Aqui estão os números oficiais, expostos pelos advogados da família no inventário de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente. No inventário não consta o apartamento triplex, que Lula sempre negou lhe pertencer; nem o sítio de Atibaia, que segundo o ex-presidente pertence a amigos que o convidam permanentemente para ali se hospedar e se comportar como se fosse dele. Os bens imóveis, de acordo com a lei, são avaliados pelo valor venal, que raramente coincide com o valor de mercado.

É muito, é pouco? Veja a íntegra do documento com o arrolamento dos bens a dividir, elaborado pelo escritório Teixeira, Martins Advogados, em Rol dos bens da família Lula da Silva. Ao fazer as contas, não esqueça que um presidente pode acumular mais bens do que alguém com o mesmo salário, pois suas despesas correm por conta do exercício do cargo. Sem raiva, sem ódio: faça sua análise.

Sem Tesouro, sem partido

O cientista político Jairo Marconi Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio, calcula que os atuais 35 partidos políticos brasileiros se transformem em uns 20, isso já no ano que vem. Motivo: para ter acesso ao Fundo Partidário (a caverna do Tesouro que explica por que há tantos partidos no país), a legenda terá de alcançar 1,5% dos votos para deputado federal. Esta campanha é curta; apesar de tantos políticos desmoralizados por escândalos de corrupção, muitos vão se reeleger porque são veteranos e seu nome é lembrado. O provável aumento de abstenções, brancos e nulos dificultará a tarefa de quem não é conhecido. E qual o interesse de muitos donos de partidos em mantê-los sem ter o Abre-te Sésamo da riqueza?

O papel da elite

Não, Zeina Latif não faz parte de grupos para quem a culpa de tudo é “da zelite”. É uma das mais respeitadas economistas da nova geração. E, exatamente por ser rigorosa em métodos e pesquisas, deve ser lida com atenção. Em excelente estudo publicado pela Análise XP, da XP Investimentos, Zeina Latif questiona a elite brasileira, mostrando as oportunidades que perdeu de liderar o país para o desenvolvimento. Não vale a pena resumir: o melhor é ler o texto (bem redigido, sem economês, do tamanho exato para informar e analisar. Pode ser lido rapidamente). Em  O papel da elite.

Pegue menos, pague mais

Lembra-se daquela história sem pé nem cabeça, de que a cobrança pelas bagagens iria baratear as passagens aéreas? Pois é: baratear não barateou, não. As passagens até subiram – e, além delas, o passageiro tem de pagar também a passagem de sua mala. Nesta semana, a Gol aumentou em até 67% o preço para enviar a primeira mala (eram R$ 30, foram para R$ 50). Isso caso o passageiro opte pelo sistema mais barato, de reservar o envio pela Internet. Se levar a mala para despacho no embarque, o preço foi de R$ 60 para R$ 100. A propósito, as passagens subiram mais 7,9%.

É bom mas não pode

Um assíduo leitor desta coluna sugere que se economize, modernizando a administração: cada região metropolitana teria administração única, sem disputas internas; o número de prefeitos, secretários, vereadores, assessores cairia drasticamente. Mas, com menos cargos, como os partidos viveriam?

A MISTERIOSA PALAVRA DA LEI

Um grande político baiano, Otávio Mangabeira, dizia que, por mais que um fato fosse estranho, na Bahia havia precedente. No Brasil também: o único país do mundo a ter Justiça do Trabalho e Justiça Eleitoral criou também três Supremos Tribunais Federais. Um está na cabeça do ministro a quem o caso é entregue, e que prende e solta a seu critério. Outro é o do plenário, com os onze ministros que a Constituição determina. O terceiro é o das turmas, cada uma com cinco ministros. Sabe-se que o ministro Édson Facchin, ao ver que Lula seria solto pela Segunda Turma, decidiu levar seu caso ao plenário, que o julgará depois das férias. Lula fica preso até agosto ou setembro. Mas a Segunda Turma decidiu ontem soltar seu braço direito, José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”. O que um fez, o outro sabia. Os recursos de ambos tinham o mesmo fundamento: o STF autorizou a prisão de condenados em segunda instância, mas não a tornou obrigatória. Dirceu foi solto; e Lula, se o recurso fosse julgado pela Segunda Turma, talvez estivesse na rua em campanha, embora inelegível, pois é ficha suja. Com Dirceu, foi libertado também João Cláudio Genu, ex-tesoureiro do PP.

O Brasil tem ainda outro precedente: muitos réus escolhem quem irá julgá-los. Alguns dos condenados por tribunais regionais federais recorrem direto ao Supremo, sem passar pelo STJ. Mas não se pode dizer que sempre ganharão por 3×2. Ontem, por exemplo, Celso de Mello faltou. E foi 3×1.

Lula e Genu

O nosso Cristiano

Geraldo Alckmin é contestado por Fernando Henrique, Aécio, Temer, Rodrigo Maia. Pode se aproximar do DEM, mas não terá, por exemplo, o apoio de Ronaldo Caiado, porque preferiu se aliar a Marconi Perillo, que Caiado conhece e prefere ver longe. É contestado por Dória, que gostaria de ser o candidato; é contestado por causa de Dória, já que tinha prometido apoio à candidatura de seu vice, Márcio França, do PSB, mas se vê forçado a acompanhar o candidato do PSDB. Corre o risco de disputar sozinho, ou com o apoio de Marconi Perillo. E até nisso o Brasil tem precedente: em 1950, o candidato oficial Cristiano Machado foi abandonado pelo PSD, o seu partido, o maior do país, que fez campanha pela volta do ex-ditador Getúlio Vargas. Quando disserem a Alckmin que está sendo cristianizado, talvez pense que o estão transformando em Cristiano Ronaldo. Mas estarão pensando em Cristiano Machado e em sua campanha que não foi.

Surpresa!

O apresentador José Luiz Datena, astro da Rede Bandeirantes, se dispõe a ser candidato ao Senado pelo DEM paulista. Mas há no partido quem o queira mais alto: como Luciano Huck, é bem visto pelo público, tem o dom da comunicação, junta a condição de nome conhecido à de alguém que nunca participou da política – em bom politiquês, a língua preferida dos especialistas no setor, um outsider. Não tem escândalos. Por que limitar-se ao Senado? Considerando-se que a grande estrela dos partidos de centro é Alckmin, que não sensibiliza nem o presidente de honra de seu partido, há em Datena um possível candidato à Presidência, com força em São Paulo, Goiás, Bahia; capaz de atrair apoios que lhe deem tempo de TV e presença na maior parte dos Estados; e de comandar um poderoso horário eleitoral.

O som do silêncio

A eleição está próxima, mas os candidatos podem mudar. Bolsonaro, em marcha ascendente, terá pouquíssimo tempo de TV. Marina até poderia ser forte, mas não montou estrutura para seu partido, a Rede. E também não tem tempo de TV. Álvaro Dias, com base no Paraná, tem quase a mesma intenção de voto de Alckmin; mas também tem pouco tempo de TV e pode preferir se aliar a outro candidato. João Amoedo, do Novo, poderia ser a novidade na eleição – mas como mostrar a cara, sem tempo de TV e com campanha curta? Há o PT: quem sai no lugar de Lula, Jaques Wagner, Haddad? Ciro é difícil: Lula não passaria a liderança a outro partido. E Ciro tem tradição de começar bem, impressionar bem e falar demais. A pergunta é: quem conseguirá transformar-se na voz da maioria silenciosa?

Aqui, tudo igual

No Congresso nada muda: apesar dos escândalos, deve haver muita reeleição. Não há tempo (nem dinheiro) para fazer com que candidatos desconhecidos sejam lembrados. O não-voto (nulos, brancos e ausências) crescerá, mas candidato novo dificilmente conseguirá capturá-lo. Outra coisa que não muda é o sistema de trabalho: nesta semana, o Congresso vai parar hoje, por causa do jogo, e só volta a trabalhar na terça-feira que vem.

Tudo igual, também

Crise? Isso é para os fracos. Deputados estaduais do Rio descobriram um projeto há anos esquecido pelo qual 13 mil servidores da Justiça devem ter aumento extra de 5%. A PM do Rio está pedindo doações para colocar suas viaturas em ordem, mas não importa: que venha mais um aumento!

LULA, TEJE SOLTO OU TEJE PRESO?

O próximo capítulo da novela “Prisão com Lula é górpi” estava marcado para esta terça. A Segunda Turma do Supremo julgaria pedido de suspensão da condenação de Lula e sua libertação imediata. Julgaria: o mesmo ministro Édson Fachin que pedira a votação mandou suspendê-la. Motivo: o TRF-4 de Porto Alegre encaminhara o processo ao STJ, e o STF não deveria interferir no tema. Dever, não deveria, mas já tinha interferido, lançando dúvidas em todo o país.

Ou melhor, mais dúvidas. Seria julgada só a libertação ou também a proibição de se candidatar? Dúvidas havia até na defesa de Lula: o advogado Sepúlveda Pertence, em Brasília, pedira ao Supremo que, se não anulasse a sentença, transferisse Lula para prisão domiciliar; o advogado Cristiano Zanin, em São Paulo, dizia não ser aceitável que Lula continuasse preso, por considerá-lo vítima de injustiça.

Alguma previsão lógica? Se no Brasil nem o passado é previsível, imagine o futuro. Mesmo que houvesse certeza sobre a votação, não haveria sobre o seu alcance. Mesmo derrotada a tese da anulação da sentença que o condenou, alguma concessão – como prisão domiciliar – já representaria uma vitória política para Lula.

Se o pedido fosse integralmente rejeitado, sem concessões, ficaria mais claro ainda que Lula não poderia disputar eleições. Mas as turmas do STF são formadas por cinco ministros, há muitas decisões por 3×2, e na Segunda Turma estão pessoas que já foram muito ligadas a Lula ou ao PT. Isso não significa que seu pedido seria aceito – nem essa certeza existe – mas que seria possível algum tipo de atenuante da punição. Previsível é apenas a posição de Lula: continuará dizendo que é candidato, até que seu registro seja negado.

“Eu continuo sendo presodenciável!”

O adversário 1

Quem será o candidato de Lula à Presidência? Muita gente pensa que, depois da falta de gentileza de Dilma, que fez questão de se candidatar à reeleição em vez de ceder a vez a Lula, ele preferiria escolher algum nome de outro partido, que não pudesse disputar com ele o comando do PT. Pode ser; e, afinal, Jaques Wagner, fiel entre os fiéis, tem conversado muito com Ciro Gomes, o que não faria sem a aprovação de Lula. Mas as coisas são mais complexas: se Ciro ganha, passa a liderar toda a ala bolivariana da política brasileira, e Lula fica em segundo plano. O PT vai conversar com Ciro até o último instante; mas seu candidato deve ser do partido, alguém abertamente fiel a Lula e que não tenha ambições futuras. Haddad, talvez.

O adversário 2

O candidato tucano Geraldo Alckmin continua parado: não teve novos apoios, não subiu nas pesquisas, não se tornou empolgante. Mas, apesar de tudo, pode chegar ao segundo turno. E, se tiver a sorte de disputar contra radicais, pode ganhar a eleição. Meirelles, emparedado (se for apresentado como candidato do Governo, é ruim; se for apresentado como oposição, é pior), não tem onde buscar apoio e é ainda menos empolgante do que Alckmin. A tendência da maior parte do MDB – não unânime, já que haverá emedebistas dando apoio de Ciro Gomes a Bolsonaro – é aliar-se a Alckmin. O mesmo ocorre com o DEM, o PSD, e os partidos do Centrão, PR, PTB, PP, eventualmente o PRB. Isso dá voto? Não, claro; mas dá tempo de TV e ajuda no essencial trabalho de acompanhar de perto a campanha e as apurações. Urnas venezuelanas têm seus mistérios.

Os líderes

Há ainda Bolsonaro. Líder nas pesquisas, em ascensão, falta-lhe a base partidária. Seu tempo de TV é minúsculo. Pode chegar ao segundo turno (como Ciro também pode), mas precisará demonstrar sua força eleitoral. Por enquanto, vai bem; quando a campanha começar, como fica, sem TV?

Marina é empolgante, pessoalmente, mas não tem base. Como um cometa, aparece de quatro em quatro anos, brilha e some. Falta-lhe o trabalho de base, a ser realizado no intervalo das eleições. E Ciro vai bem, mas não resiste à tentação de ofender pessoas e grupos, até que se perca.

Os alicerces

Quem começa a trabalhar as bases, não para essas eleições, mas para o futuro, são dois grupos: o Partido Novo (que tem candidato, João Amoedo, mas cuja força virá da proposta de um governo baseado no mérito, e não só em acordos políticos); e o RenovaBR, que busca formar líderes políticos para o futuro, independentemente de sua ideologia. O RenovaBR dá cursos de seis meses, mais ajuda de custo, a 133 bolsistas que se comprometam com combate à corrupção, sustentabilidade e gestão fiscal responsável.

O RenovaBR foi criado pelo empresário Eduardo Mufarej (Tarpon Investimentos), com apoio de Nizan Guanaes, Armínio Fraga, Luciano Huck e outros. É trabalho bem montado: utiliza uma plataforma Canvas, da Instructure, já testada por sólidas instituições de ensino, num ambiente virtual de aprendizado que abrange todo o país. Os dois projetos podem funcionar – o que seria ótimo para o Brasil, num futuro não muito distante.

Como dizia o poeta

O PT pensa em Dilma para o Governo de Minas, em vez de Pimentel. Como disse Drummond, “quer ir para Minas, Minas não há mais”.

QUANTO MAIS CARO MELHOR

Não é por falta de recursos que o Brasil deixará de eleger os melhores políticos que o dinheiro pode comprar. E, caro leitor, deixe de se queixar dos seus bolsos vazios: cada centavo entregue aos partidos é dinheiro seu.

É dinheiro seu a verba destinada pelo Tesouro à campanha eleitoral, R$ 1,7 bilhão; é dinheiro seu o Fundo Partidário que sai do Orçamento da União, de R$ 888,7 milhões. É dinheiro seu a verba total de R$ 2,5 bilhões. É um dos motivos que nos levam a ter 35 partidos: nós pagamos a conta.

O partido que mais recebe verba de campanha é o MDB, R$ 234 milhões. O segundo é o PT, R$ 212 milhões. Segue-se o PSDB, R$ 186 milhões; depois, o PP, R$ 131 milhões; PSB, R$ 118 milhões; PR, R$ 113 milhões; PSD, R$ 112 milhões; DEM, R$ 89 milhões; PRB, R$ 67 milhões; PTB, R$ 62 milhões; PDT, R$ 61,5 milhões; SD, R$ 40 milhões; Podemos, R$ 36 milhões; PSC, R$ 36 milhões; PCdoB, R$ 30 milhões; PPS, R$ 29 milhões; PV, R$ 24 milhões; PSOL, R$ 21 milhões; Pros, R$ 21 milhões; PHS, R$ 18 milhões; Avante, R$ 12 milhões; Rede, R$ 10 milhões; Patriota, R$ 10 milhões; PSL, R$ 9 milhões; PTC, 6 milhões; PRP, R$ 5,5 milhões; DC (ex-PSDC), R$ 4 milhões; PMN, R$ 4 milhões; PRTB, R$ 3,8 milhões; PSTU, PCB, PCO, PPL, Novo, PMB, R$ 980 mil cada um. Dá tranquilamente para fazer campanhas confortáveis. O povo brasileiro é muito generoso com seus políticos.

Conservar, conservar

Renovação? Sempre há alguma. Mas 70% dos senadores enrolados com a Lava Jato – 17 em 24 – tentam se reeleger. Dos 54 senadores eleitos em 2010, 35 já anunciaram que vão buscar mais oito anos. Alguns tiveram mau desempenho e são pouco conhecidos. E há Aécio e Jucá, conhecidíssimos.

Do show ao Senado

Parte da renovação deve vir de gente famosa: o apresentador José Luiz Datena sai para o Senado pelo DEM de São Paulo (na última pesquisa, está acima de Eduardo Suplicy); Jorge Kajuru sai pelo PRP de Goiás; Frankie Aguiar, “o cãozinho dos teclados”, ex-deputado federal por São Paulo e vice-prefeito de São Bernardo, disputa o Senado pelo PRB do Piauí.

Aconteceu

O sobrinho do respeitado jornalista Oswaldo Mendes foi roubado em São Paulo, na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta, há duas semanas. Nesta segunda, o aparelho foi localizado no Diretório Municipal do PT em Belém do Pará. Levou 12 dias para percorrer 2.898 km.

Fachada da sede do diretório municipal do PT, no bairro da Campina, em Belém

O mercado e seus favoritos

O XP Investimentos, ligado ao grupo Itaú, fez há 15 dias uma sondagem sobre o que 204 investidores institucionais pensam a respeito das eleições e das perspectivas para a Bolsa, os juros e o dólar, conforme o vitorioso.

É uma amostra significativa: as instituições consultadas gerem mais de 50% dos recursos disponíveis no setor.

Os resultados: 48% acreditam que Jair Bolsonaro vencerá as eleições. O segundo turno, acreditam 44%, será Bolsonaro x Ciro Gomes. Efeitos para a economia da eleição de Bolsonaro: 45% acreditam em desvalorização da moeda; 44% acham que a Selic, a taxa básica de juros, hoje em 6,5% ao ano, esteja acima de 8% no final de 2019.

Outros candidatos

Vitórias de Ciro Gomes ou Fernando Haddad seriam ruins para o Índice Bovespa; Álvaro Dias seria positivo para o índice; Marina Silva significaria estabilidade. O candidato que provoca melhores expectativas é Geraldo Alckmin: 97% acreditam que provocará a melhora do Índice Bovespa, e 73% acham que o câmbio ficará abaixo de R$ 3,40.

O custo da saúde

O Senado já reuniu 27 assinaturas, o suficiente para implementar a CPI sobre as relações da ANS, Associação Nacional da Saúde Suplementar, e as operadoras de planos de saúde. A suspeita é de que a ANS aja mais como aliada do que como reguladora das operadoras de planos – o que explicaria como, em 14 anos seguidos, concedeu reajustes de mensalidades superiores à inflação. E é coisa pesada: neste ano, os planos coletivos (na prática, são os únicos que existem, já que planos individuais, mesmo controlados por uma agência generosa, têm algum controle de aumentos) desandaram. Um assíduo leitor desta coluna envia documento comprovando que o aumento sofrido foi de 19,97% – contra uma inflação inferior a 3%. Uma CPI tem poderes para analisar os seguidos aumentos superiores (e muito) à inflação.

A política da bala

A Câmara dos Deputados deve estar sitiada por um inimigo poderoso: só neste ano, entre janeiro e maio, gastou R$ 1,5 milhão para comprar 29 mil balas .40 de treinamento de pistolas e 1.500 cartuchos calibre 12 de alto impacto, especialmente produzidos para derrubar quem for alvejado.

SAÚDE, O DIREITO DE DEVER

A Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, quer que convênios e seguros-saúde aumentem no máximo em 10% seus preços. A Justiça achou muito: fixou 5,72% (contra uma inflação de 2,9%). A ANS, mas podem chamá-la de Governo, vai recorrer! Quer 10%. O cidadão é só um detalhe.

Para que serve a ANS, “a agência reguladora” dos planos de saúde? Dá para responder com números: nos últimos 14 anos, o aumento sempre foi superior à inflação. De 2000 a 2017, o plano de saúde subiu 374,1%. Deu de 7×1 na inflação, que chegou a 220%. Antes de 2000, as operadoras eram quem decidia o valor do aumento. E o cliente apanhava tanto quanto hoje: não teve vantagem nenhuma com a intervenção da agência oficial.

Resultados? Dois milhões de clientes suspenderam seus convênios ou seguros – agora, sobrecarregam o SUS. A operação dos planos de saúde é tão lucrativa que gigantes multinacionais compraram empresas nacionais do ramo. E a benevolência da ANS chegou a despertar de seu profundo sono até o Senado, que planeja uma CPI sobre as relações ANS-operadoras. Um terço dos senadores, 27, já concordou com a CPI. Será interessante descobrir por que, todos os anos, o custo tem de subir mais que a inflação.

Será a hora de descobrir para que servem as agências reguladoras. A do transporte aéreo, Anac, foi a inventora da cobrança da bagagem, “para baratear as passagens”. Alguém já usou as passagens mais baratas?

Jornalista Lula

Lula deve comentar a Copa para a TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Escreverá o comentário na prisão e o enviará ao jornalista José Trajano. “Não estou brincando, não”, diz Trajano. “Lula será comentarista da TVT. Vai escrever suas impressões, e as pomos na tela entre aspas”.

O Basta! De Neguinho

O sambista Neguinho da Beija-Flor, 68 anos, 41 de escola de samba, vai embora do Brasil: cansado da violência no Rio, cansado dos altos impostos (dos quais não vê retorno), vai no fim do ano para Braga, Portugal, cidade de origem da família da esposa. Quer que a filha mais nova, de nove anos, viva em lugar mais seguro. Neguinho é atração da escola cujo patrono é o poderoso Aniz Abrahão, homem-forte de Nilópolis. Se Neguinho sente a insegurança a ponto de ir embora, prometendo só voltar nos carnavais, imaginemos a situação a que a violência levou a Cidade Maravilhosa.

Cadê o centro?

Comecemos pela parte positiva: apesar de tudo, Geraldo Alckmin tem boas chances de chegar ao segundo turno, apesar da penúria de seus índices nas pesquisas. Com a multiplicação do número de candidatos, basta que Alckmin cresça em São Paulo, sua base eleitoral, onde foi governador por quatro vezes, para que chegue lá. No segundo turno, seu adversário deve ser um radical de esquerda ou direita, e ele deve receber o voto da maioria que é contra radicalismos. Agora, a parte ruim: Alckmin está indo mal até em São Paulo, o que o deixa em risco. Álvaro Dias come seus votos do Paraná para o Sul. Candidatos como Flávio Rocha e Josué Alencar atingem sua base. Com as intenções de voto se arrastando pelo chão, como atrair outros partidos de centro para formar a maioria? Alckmin tenta duas saídas.

A primeira: um problema

Alckmin nomeou Marconi Perillo, ex-governador de Goiás, articulador de sua candidatura. Problema: o candidato de Perillo ao Governo goiano, o vice José Elinton, tem no máximo 1/3 das intenções de voto de Ronaldo Caiado, DEM, o favorito. Perillo deixa de ser o chefe político de Goiás e se contenta em eleger-se senador. Tem processo na primeira instância da Justiça Federal, movido pela Procuradoria Geral da República, referente a delações de ex-executivos da Odebrecht, segundo as quais teria solicitado à empresa R$ 50 milhões para a campanha de 2014 (e obtido R$ 8 milhões). Alckmin não tem até agora qualquer vínculo conhecido com a Odebrecht.

A segunda: uma aposta

Alckmin quer também que o apresentador José Luiz Datena (DEM) seja candidato ao Senado, na chapa de João Dória. Datena é conhecido e tem facilidade de comunicação. Mas talvez prefira outra opção, como disse a O Estado de S. Paulo: “Se pintar a possibilidade de ser candidato à Presidência, talvez eu tente ajudar o meu País. Quero ser candidato para ajudar o povo. É mais uma decisão do partido do que minha. Depende das articulações, do resultado das pesquisas.” Alckmin quer, atraindo Datena, conseguir o apoio do DEM para ser presidente. Corre o risco de repetir o episódio de Dória: ganhar mais um adversário em disputa de seu espaço.

Sabe ou não?

Todos os países americanos decidiram votar em bloco em EUA, Canadá e México para a Copa de 2026. A CBF votou no Marrocos. O coronel Nunes, da CBF, votou errado ou esqueceu em quem votar? Você decide.

A COPA QUE ERA NOSSA

Meninos, eu vi: na Copa de 62, quando nem se imaginava a transmissão direta pela TV, a Rádio Bandeirantes montou um imenso painel no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, com botões no lugar de jogadores. Pedro Luís e Edson Leite irradiavam e os botões se moviam simulando a partida. Um mar de gente, centenas de milhares de pessoas, acompanhava o painel. O Brasil foi bicampeão; e bicampeões foram os que acompanharam a Copa.

Hoje, diz o Datafolha, a maioria da população, 53%, não tem interesse pela Copa. Já surgiu a tese de que a camisa da Seleção, sendo amarela como o pato da Fiesp usado nos protestos contra Dilma, perdeu prestígio. Besteira: a camisa é canarinho, amarelo-canário, e foi festejada na Copa de 1970, apesar de tentarem (sem êxito) identificá-la com a ditadura militar.

Ao contrário do que acreditam coxinhas e petralhas, o mundo não gira em torno de suas fixações. Nem tudo é política. No caso da Seleção e da Copa, há outro fator: em 58, em 62, em 70, cada torcedor conhecia cada jogador. Os convocados jogavam em seu time, ou contra ele; torcia-se pelo craque do time (e, portanto, pela Seleção). Hoje, poucos craques estão no Brasil, ou aqui se consagraram: saíram meninos e cresceram muito longe da torcida. Normalmente, têm ligação com o Brasil, mas é mais distante.

Gilmar, Nilton Santos, Didi, Vavá, Pelé, esses o torcedor conhecia e sabia onde jogavam. Responda rápido: aqui, onde jogava Roberto Firmino?

Seleção brasileira Campeã do Mundo em 1958. Em pé, da esquerda pra direita: Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados, da esquerda pra direita: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e o massagista Mário Américo.

Sinal de alerta

Seguidores de Jair Bolsonaro voltaram a atacar João Dória. Adversários de Bolsonaro também colocaram Dória na alça de mira. Mau sinal para o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin: indica que os concorrentes voltam a considerar provável que, diante da imobilidade de Alckmin nas pesquisas, o partido resolva trocá-lo por Dória. Dória nega que queira ser candidato, mas essas coisas são meio complexas: se o partido lhe fizer um apelo, por que não fazer o sacrifício de atender aos pedidos e disputar a Presidência?

A tática de Alckmin

Alckmin tem dito a amigos que sua tática é ficar tranquilo, sem fazer marola. Acredita que Bolsonaro já esteja batendo no teto, incapaz de chegar mais alto; acredita que o candidato do PT tenha mais chances de alcançar o segundo turno; acredita que os partidos tradicionalmente alinhados ao PSDB, que agora tentam criar um candidato de centro, acabem concluindo que este candidato já existe e é ele, Alckmin. No segundo turno, ganharia os votos de todo o eleitorado antipetista e chegaria à Presidência. Pode ser; mas a manutenção de baixos índices nas pesquisas estimula outros partidos a tentar viabilizar novos candidatos (mesmo que sejam do próprio PSDB, como Dória). E se, de repente, Ciro Gomes atrai alguma legenda de centro?

Rir, rir, rir

Henrique Meirelles conta com três fatores para se transformar em nome forte: apoio da máquina do Governo, bons resultados na economia e cacife para pagar a maior parte da campanha (ou até mesmo a campanha toda). Só que o mundo não é bem assim: Michel Temer, com 3% de aprovação, sob ameaça de novo pedido de processo, não controla mais nem seus aliados próximos ainda soltos, quanto mais a máquina do Governo. Os resultados da economia são bons, especialmente considerando-se que foram obtidos em curto prazo e sob permanente crise política, mas uma ampla maioria de eleitores acha que a economia vai mal. Até agora, Meirelles, com apelo popular nulo, não conseguiu passar ao eleitor que sua área vai melhor do que se poderia esperar. E pagar a campanha, OK. Mas fará isso mesmo sem chances de crescer? Agora, o dado humorístico: sugeriram a Meirelles que se posicione mais à esquerda. Será engraçado se ele aceitar.

A vida como ela não é

Sim, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm à disposição um servidor que ajeita as cadeiras sempre que algum deles se senta ou levanta (naturalmente, um funcionário por ministro). Não, este detalhe não é o top da mordomia: bom mesmo é desfrutar de uma área exclusiva de embarque no Aeroporto de Brasília, pela qual o Supremo paga R$ 374,6 mil por ano. Questão de segurança: os ministros não precisam se misturar à plebe rude para embarcar. Seu espaço fica a uns 2 km do embarque dos passageiros comuns. No momento do embarque, o ministro é levado de van até o avião e sobe por uma escada exclusiva para uma porta lateral do finger, onde finalmente (que fazer?) se mistura com os cidadãos sem toga.

Mas ainda estão sujeitos a agressões verbais de gente mal-educada, que expressa em voz alta suas restrições ao trabalho de um ou outro ministro.

Bola de cristal

Frase do ex-presidente americano Ronald Reagan: “A política é supostamente a segunda profissão mais antiga. Vim a perceber que tem uma semelhança muito grande com a primeira.”


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