O SINHÔ IA, SEU JUIZ?

Dr. Bóris Trindade, um dos maiores criminalistas do País

Com o advogado Bóris Trindade mantenho amizade desde os tempos de nossa juventude, no comecinho da década de 50, quando éramos atores do teatro de Amadores de Pernambuco.

Nosso reencontro, entretanto, ocorreu muito tempo depois, após aposentar-me do Banco do Brasil, quando passei alguns anos auditando empresas do Grupo Preserve, da qual ele era jurisconsulto.

Participando de algumas audiências com ele observei que levara para a advocacia certas coisas do teatro, sobretudo a gesticulação, coisa que prende a atenção do espectador.

O bicho pega quando ele pede ao magistrado para contar certo fato. Geralmente consegue. Não raro, puxa uma daquelas histórias incríveis que ele andou publicando no “Diário da Noite”.

Certo dia, em plena audiência, começou gesticulando como um italiano, foi contando e motivando o riso de todos os presentes, apenas pelas expressões faciais.

Ali estava o ator.

Mariquita, conhecida donzelona de Glória do Goitá, já em pleno caritó. Estava com 45 nos costados, arranjou casório com um portuga. Houve festa e lua de mel no Hotel do Monte. Nunca vira um homem nu.

Mas a questão jurídica, no caso, era seu pedido de anulação de casamento, que um advogado deu entrada logo que ela, no auge da Lua de Mel, pulou da janela e se esbandalhou na rua, vestindo a Camisola do Dia, no caso, da noite.

O Juiz estupefato pediu que ela relatasse as razões do feito – no caso, do “não feito”, porque Mariquita saíra virgem do embate. E ela se explicou.

Vocês imaginem Bóris gesticulando os detalhes da cena!

– Olhe, Seu Juiz, eu ainda sou moça virgem. Nunca havia visto a tal coisa, o instrumento, aquele negócio… o sinhô sabe…

E o Juiz:

– Sei sim, senhora!

E Mariquita continuou:

– Chegamos ao hotel, ele foi tomar banho e voltou enrolado numa toalha. Tudo bem. Fui tomar o meu. Toda perfumada já voltei com a Camisola do Dia. Mas meu desencanto veio logo em seguida. Ao abrir a porta do banheiro já me deparei com Seu Joaquim, totalmente nu, peludo como um Tony Ramos, deitado na cama, comas pernas abertas, se babando de desejo por mim e na entrepernas aquele rolaço escuro, com a cabeça arregalada, e uma touceira de cabelo de fazer medo. E quando me viu ainda vestida, urrou: – Venha, minha filha, seu amor tá lhe esperando! – O Sinhô ia, seu Juiz!

NÉCO MIRANDA

Neco Miranda, herdeiro de pai vivo, homem de grana cheia, morador de Limoeiro, se dizia amigo de infância do Coroné Chico Heráclio. Mandava e desmandava na cidade e no campo por essa cavilosa “invenção”. Mas se elegeu Deputado Federal.

Viveu os tempos do comecinho de Brasília, porém, faltava mais as sessões do que comida em mesa de pobre. Era tido como “comedor de carne mijada” e se dizia que já havia contribuído com a “hospedagem” de muita moça “descabaçada”, que ia ficando lá no Instituto Bom Pastor, uma espécie de reformatório feminino situado no Recife.

Dentre as estripulias, exercitava o prazer de se deliciar em noites memoráveis com boas artistas do Rádio e da Tv, incluindo as misses mais famosas, que vinham fazer apresentações no Recife.

Capiba era seu “concorrente”. Homem fino, bom vivant, solteirão, também usava o mesmo artifício. Ficava na PRA-8, que recém construíra o Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, até o final dos programas e aproveitava para mostrar Olinda à noite.

Com seu “Studbaker” sem capota, recepcionou Emilinha Borba, Helen de Lima, Maysa e outras celebridades, sempre acompanhado por Expedito Baracho e seu violão, para a cantoria lá no Alto, no bom estilo clássico das músicas daquele famoso compositor, tudo na base da “tapioca molhada”.

Mas, Néco Miranda tinha certas diferenças de estilo. Não tinha classe, mas o dinheiro jorrava fácil das burras do pai.

Procurava se enfronhar com os empresários-contratantes de artistas e se oferecia para mostrar Olinda à noite; patrocinava hospedagem, comidas e bebidas da melhor qualidade.

Conhecia a turma da Portaria do Grande Hotel – o chic da década de 50 – que lhe indicava, com certa antecedência, as reservas feitas, de modo a lhe facilitar a tarefa.

Certa feita, todo meloso, se ajeitou com Pinga Mendonça para ter preferência num giro com u’a Miss visitante. Tudo certo. Arriou a capota do “Maverick”, envergou um terno branco de linho York Street, camisa colorida no estilo havaiano e sem gravata. Traje típico de malandro carioca.

Certa noite lá estava aquele “espantalho”, com o empresário da moça, na porta do Hotel a fim de levar a cidadã e sua mãe para comer uma tapioca molhada no Alto da Sé. Pretexto da porra!

Zefa da tapioca faturou o suficiente e foi empurrando algumas bebidas. Quando a velha já estava toda esbugalhada, com cabelos em desalinho face aos ventos tropicais olidenses e os calos “reclamando”, pediu penico. Queria voltar.O esqueleto só pedia cama.

Néco batera a primeira meta: cansar e embebedar a veia e ficar com a Miss. Desembarcou a cidadã no hotel, junto com o empresário, enquanto a filha iria com Néco Miranda conhecer o Alto dos Guararapes.

Nisso, entra em cena Chico Alicate, caminhoneiro lá de Timbaúba, que dirigindo seu velho “Fenemê”, chegara de viagem naquela madrugada. Cheio do “arrebite”, em manobra infeliz, ao fazer uma curva no Cais de Santa Rita, deu uma roçadinha no paralama do carro de Néco Miranda.

Começou o bafafá. A Miss se mijando de medo. Pra mostrar que era macho que só preá, desceu, sacou um “38 cano longo” e deu um tiro de advertência.

Mas se atrapalhou porque Chico Alicate desceu, com ares de “mais macho ainda”, e puxou seu “ferro” pra valer.

Como bala fria não queima, Néco Miranda deu um segundo tiro na caixa dos peitos do caminhoneiro. Voltou pro “Naverick” com cara de “Lampião depois da gripe” e se mandou com a miss Izaurinha Pimentel, representante do Acre. deixando o “presunto” estirado lá na Av. Martins de Barros.

Um terceiro entra na jogada. O Delegado João Acioly, logo de manhã acionou seus rapazes para elucidar. Ninguém viu a cena. A coisa se complicou. Mas o repórter do jornal estava lá acompanhando os policiais civis.

Diante da insuficiência de provas, o “Diário da Noite”, irmão travesso do Jornal do Commercio, depois de nada apurar, detonou na edição das 14horas, a manchete mais astuciosa já vista.

Sendo o caminhão produzido pela Fábrica Nacional de Motores, tinha as exageradas letras: “FNM” na grade do motor. E o jornal pipocou safadescamente:

“Crime de Santa Rita” elucidado. Foi Neco Miranda. Até a marca do caminhão confirma, pois lá está gravado: FNM.

HOLLYWOOD – UMA SURPRESA

Ao chegar à Cidade do Cinema, um dos meus grandes momentos na América do Norte, em termos de ansiedade de conhecimento, não nego que tive uma decepção. Eu desejava encontrar-me com as histórias dos meus astros preferidos, assim como uma cidade-museu. Mas nada. Uma cidade como outra qualquer. Caracterizada por muitas lojas com produtos alusivos ao cinema.

De início, porque não se trata propriamente de uma cidade e sim um distrito de Los Angeles. Esperei ali encontrar preferencialmente museus, com as histórias e objetos dos artistas que conheci e apreciei em meus dias de menino e rapaz.

Porém, se o visitante for com essa ideia na cabeça certamente se decepcionará, porque de artistas apenas se tem notícia de que se trata de um dos mais fortes símbolos culturais estadunidenses.

Um grande painel no alto de um morro vê-se o chamado Sinal de Hollywood. Percorrendo superficialmente a região nota-se que ali reside a enorme concentração de pessoas ricas e famosas que moram nos distritos próximos. dentre os quais Beverly Hills.

Agora que muitos dias se passaram desse passeio posso entender que minha frustação foi infantil. Nos meus desejos de criança estavam incluídos uma visita àquela Meca do Cinema para me encontrar, nas ruas e casas, meus preferidos heróis: John Weine, Fred Astaire, Ava Gardner, Carlitos e mil outros personagens, como se eles ainda vivessem.

Mas, permanecem na mente os lindos filmes produzidos por empresas que ainda hoje estão nas telas: Columbia Pictures, Paramount, Universal e Fox Filmes. Mas, valeu porque como jornalista tive privilégios ao percorrer, em veículo sobre rodas, os estúdios da universal.

Fiquei maravilhado com os estúdios que ofereciam espetáculos vivos de filmes exibidos no cinema, dentre os quais um enorme avião despedaçado e cuidadosamente reconstruído e um tubarão mecânico que fazia misérias.

Retornei trazendo lembranças de minha juventude, quando se lia na revista brasileira “O Cruzeiro” as reportagens de Luela O. Pearson, conhecida jornalista de mexericos que fazia furor na Hollywood dos anos 50.

PERGUNTA À TUA MÃE!…

Capiba marcou passagens inolvidáveis em suas muitas participações nos vários movimentos sócio-culturais, principalmente a partir da década de 1980. Sua presença era motivo de prestígio para qualquer evento.

Para maior difusão da reunião para a escolha do “Miss Pernambuco”, os organizadores, em boa hora, resolveram realizar uma prévia, reunindo as belas moças representantes do interior, no auditório da Tv Jornal do Commercio, durante o Programa Fernando Castelão.

O local não apenas representava prestígio para qualquer iniciativa, mas contaria com o televisionamento para muitas cidades do interland.

Inteligentemente, os promotores resolveram formar um júri de pessoas que estavam em grande evidência na época, formando u’a Mesa repleta de personalidades queridas do Recife.

Dentre outros, lembro-me do saudoso radialista Aldemar Paiva, o cantor Claudionor Germano, o compositor Capiba, o maestro José Menezes, a Miss Pernambuco, Zaíra Pimentel, o Presidente do Clube Internacional, Dr. José Sales Filho e os cronistas sociais: Alex e João Alberto. Mesa farta de nomes ilustres.

Tudo, na época, era televisionado ao vivo.

Abrem-se as cortinas, Castelão solta a voz. As lindas jovens começam a desfilar, todas vestindo maiôs “Catalina”.

Em passos cadenciados e discretos rebolados, perante os ávidos olhares masculinos, passavam uma a uma. Verdadeiro alumbramento para os presentes.

Para fins de identificação, cada uma trazia colado na parte da frente do corpo e na área dos glúteos, um número. Num certo momento, ao ver Capiba se espichando para confirmar o indicativo da Miss Caruaru, Aldemar Paiva não se conteve e soltou uma confidência, diálogo que foi captado pelos potentes microfones “Marconi” da TV Jornal:

Capiba, tais te lembrando do tempo em que eras bom nisso?!…

Logo veio a resposta fuzilante:

Pergunta à tua mãe!

Respostas bem engatilhadas e mordazes sempre foram a arma inteligente do grande compositor.

“BICO DOCE” E A TAPIOQUEIRA

Severino Castello Branco de Morais era um colega de muito querido, sobretudo por seus modos de tratar as pessoas e oferecer seu sorriso ao nos dar um “Bom Dia”.

Logo no dia da posse se fizeram notar seus olhos avermelhados e sempre mascando um dente de alho, recurso que usava a fim de disfarçar o bafo da “Pitucilina”.

Transmitiu, assim, a característica principal de personalidade: seu vício incontrolável de beber. Não escapou de ser identificado pela “Comissão dos Apelidos”, como “Bico Doce”. Perdeu o nome legal. Até o Subgerente o chamava de “Seu Bico Doce.

Imagem de uma tapioqueira de rua, uma dessas anônimas trabalhadoras

Colega de “baixa-renda” colocou-se no Banco do Brasil por favores de um certo Senador alagoano, chegado ao mulheril da “Zona” do Bairro do Recife.

Dizia-se que sua nomeação fora para atender pedido de “Zulmira Cu de Pato”, em paga de bons “serviços sexuais” pois se tratava de cabrocha possuidora de largas ancas, conhecida e festejada moradora na Rua do Vigário Tenório.

Diante da promessa de continuar recebendo tais favores, o Senador concordou em agir nas cúpulas, a fim de nomeá-lo para o Quadro de Portaria e Artífices, ali permanecendo até aposentar-se, com cachaça e tudo.

“Bico Doce” era bom camarada. Mas, vivendo sempre encachaçado e, portanto, “liso”, não raro nos pedia “Empréstimos-rápidos”. Pagava-os com religiosidade ao sair a Folha.

Certa feita, de tanto pedir dinheiro e pagar no final do mês, sendo Capiba um dos “mártires”, acabou sendo perdoado pelo débito contanto que não mais lhe pedisse nem um tostão furado.

E perdendo o “cartaz”, pois foi considerado “repetente”, e assim, qualificado Contumaz Devedor, espantando os demais “fbeneméritos”.

Desesperado, andou sondando, certa feita, D. Quitéria, uma velhota muito querida que vendia tapioca na frente do Banco, quando a sede ainda era no antigo prédio da Avenida Alfredo Lisboa, 427, atual Marco Zero.

Registro aqui um fato verídico.

Numa tarde em que falharam todos os seus pedidos a colegas, para lhe emprestar uns míseros 20 Cruzeiros, apelou para a tapioqueira, ouvindo dela uma negativa que ficou para a história dos casos pitorescos que presenciei na minha vida profissional.

– Seu “Bico Doce”, o senhor me desculpe, mas para montar meu tabuleiro aqui fiz um acordo com o Gerente do Banco: eu não emprestaria dinheiro nem ele venderia tapioca.

MARIA PEREBA

Papai viajou muito pelas cidades Paraíba, pois era Representante de Vendas de produtos farmacêuticos. Ouviu histórias que ao recontar obtinha boas gargalhadas dos seus ouvintes e assim aumentava o cartel de amizades. Dentre elas uma que sempre gostei de que ele repetisse.

De certo cabaré que estava no auge na década de 40 – “Fados & Fodas” – de propriedade do portuga conhecido por Célio Novelino, localizado em Bayeux, havia uma cidadã, já meio derrubada, que só era requisitada para “Serviços de Emergência”, dias em que as boazudas queimavam o expediente.

A infeliz, embora ainda jovem, tinha afecções de pele, muitas perebas pelas canelas, o rosto já estava maltratado pelo tempo, as pernas eram cangalhas e falava gaguejando. Mas as cochas chamavam a atenção. A “turma do fiado” era seu alvo “de caderneta”. Diziam que era “barata e boa”.

Chiquita del Fuego era Maria Pereba

Mas a sorte lhe favoreceu conhecendo um Produtor de Talentos que levando-a pro Rio de Janeiro lhe deu um trato geral, capacitando-a a compor a equipe de segunda linha de Carlos Machado, no Cassino da Urca, amiga íntima de Chico Anysio e José Santa Cruz, que estavam começando suas carreiras.

Fez tratamento dermatológico de forma que limpou a pele das “medalhas de bom comportamento”. Com a equipe de estudantes do Dr. Pitangui, na época recém-diplomado, reformou a “fachada geral”, transformando-se em tipo semelhante a uma estrela de Hollywood.

Aprendeu alguma coisa de castelhano vulgar. Mas não teve ortopedista que resolvesse o problema de suas pernas “agarrinchadas”, embora atraentes. Só deixava tirar fotos das coxas quando estava sentada, como está foto que ora publicamos.

Amarildo Neves, o empresário de Emilinha Borba, deu um jeito de botar a moça no estrelato.

Criou um artifício artístico inovador: ela só cantava sentada num banquinho e sabia provocar o público, pois era da mesma laia da saudosa Dercy Gonçalves.

Fazia perguntas indecorosas aos homens da platéia e soltava palavrões cabeludos, o que era permitido na época. Para esquentar os frequentadores sacudia uma das grossas pernas para o ar, disfarçando, com classe, a má formação das canelas.

Entrosada com Carlos Manga, Colé, Silvino Neto e outros artistas, começou a fazer sucesso, dando alguma “canja” para eles, naturalmente. E dizia-se que dava adoidado.

Amancebou-se com seu empresário e amigo e foram residir no Uruguai, fazendo de Punta del Leste seu “centro de operações”. Apresentava-se como “Chiquita del Fuego”.

Era tempo em que ali se concentravam os astros e estrelas da América do Sul e ganhavam bons trocados nos cassinos da cidade:, entre outros, Gregório Barros. Los Panchos, e Gardel, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino.

Mas “Chiquita” sempre era a artista que fechava o show, porque era anunciada como uma estrela do teatro, sabendo dar um trato em qualquer sket. Era o sucesso total de um dos melhores teatros, depois das atrações internacionais do canto.

Certa noite, encerrado o espetáculo, “Mané da Feira”, um turista paraibano rico, ex-morador de Bayeux quando jovem, foi ao camarim para cumprimentá-la, por observar que a estrela era bem parecida com certa criatura de sua terra, com quem já teria furunfado várias vezes no tempo em que era jovem, estudante e pobre.

Em lá chegando, indagou:

Tu não me conheces, Maria? Sou”Mané da Feira”!

Ao que ela respondeu num espanhol totalmente macarrônico:

Jô tiengo una vaga recordacion de os tê!…

Mané Jorge soltou o verbo na frente de todos que estava ali:

Deixa de ser sacana, mulé! Só consegues enganar os otários daqui. Tu continuas sendo, pra mim, a escrachada “Maria Pereba”, do cabaré “Fados & Fodas” lá da Paraíba do Norte.

ENTENDENDO A DIVINDADE

Nesta fase em que a Nação se ressente da dificuldades imensas, sacrificando todos os seus filhos, é preciso entender os modos de comunicação extra-sensorial da Divindade, a fim de perceber o quanto somos beneficiados por nossos pedidos de melhoria de vida, coisa que nem sempre entendemos.

Na Praça Marcílio Dias, diante da singela igreja de Nossa Senhora de Santana, na praia do Rio Doce, costumo sentar-me e fazer minhas preces, apreciando o das ondas atlânticas e a paz do lugar.

Praça Marcílio Dias e a Igreja de Santana, Olinda

Após as caminhadas quase diárias, para controlar as coronárias e receber, do sol, a vitamina “D”, busco contato universal e meu espírito transcende.

Abrigado pela sombra das árvores costumo sentar-me para meditar e agradecer a Deus pelo que tenho recebido quanto às necessidades imediatas atendidas e os pedidos de orientação espiritual sobre o futuro.

Eis que num desses dias, depois de concentrar meus pedidos durante mais de uma semana, pois atravesso crítica situação econômica, chega ao nosso lar o sobrinho Eduardo José, assim “do nada”, disposto a dar um trato em nossa casa, mesmo sabendo que meus saldos bancários estão mais baixos do que poleiro de pato.

Veio sem asas, mas não há dúvidas que era um anjo disfarçado.

Eduardo José, o anjo disfarçado, e sua mãe, Jurema

Providencia por sua conta a compra do material e passa a consertar nosso telhado, que há mais de um inverno faz sofrer minha esposa com a pingueira que corre pela área de serviço e na cozinha. E deixa tudo dentro dos conformes. Adeus pingos!

Ele é o anjo que aparece para nos mostrar que Deus está ali presente com soluções que muito melhoram nossas vidas. Quase nem percebemos que nossas orações estão sendo atendidas de forma que nem se poderia imaginar.

Segundo minha nora Luciane certas pessoas são anjos disfarçados de amigos, mensageiros diretos do Supremo Arquiteto dos Universos.

Por isso é preciso entender como a Divindade processa suas ações para nos beneficiar, pois usa a forma que lhe parece mais justa, nem sempre como imaginamos.

Por isso se diz que Deus escreve certo por linhas tortuosas. Todavia, eu completo dizendo que Deus mostra que ter amigos é viver cercado de anjos.

O INVESTIGADOR DE MENORES

Para nós que gostamos de escrever e temos oportunidade de publicar, cabe comentar modos de vida de tantos anos passados, neste caso, o comportamento dos meninos entre 10 e 15 anos, que viveram em 1950.

Já se disse que em certo momento se chega a uma fronteira de vida. A fase em que a gente nota que de repente, tudo fica restrito; como se notássemos que a vida se transforma num nada.

É o tempo da maturidade. Dos acertos de consciência. De dar um balanço e verificar o que vai perdurar; o que poderemos deixar para os nossos pósteros; o saldo do que ficará para servir de amostra do que fomos.

Assim, para quem ultrapassou a fronteira das oito décadas de existência, vale transmitir ao leitor de hoje, partes de tempos vividos, quando tudo era diferente; o Recife sombreado e bucólico. Até parece que estamos vivendo em outro mundo.

Vale conhecer para avaliar e comparar. A exemplo, na década de 50, quando eu tinha 12 anos, o grande divertimento semanal eram as matinés de domingo principalmente no Cinema Eldorado, de Afogados, tão ansiosamente esperadas.

Cinema Eldorado

Projetado especialmente para ser sala de cinema, teve a construção a cargo do engenheiro Jorge Martins Jr. e foi inaugurado em 1937, com capacidade para 790 pessoas.

Ali entravamos no mundo-maravilha que a cinematografia americana oferecia aos nossos olhos ávidos por emoções e conhecimentos do que se passava nos “outros mundos”. Os filmes surgiam acompanhados de lindas músicas que ficariam para sempre em nossas memórias.

Mas havia impedimentos. Quando os filmes eram impróprios para menores de 14 anos, notava-se a presença de um policial; um homem enorme, mal encarado, de chapéu atolado na cabeça; o cão em pessoa, conhecido como “Investigador de Menores”, que se postava na fila da bilheteria para impedir as transgressões.

O policial conhecia nossas idades pelas faces e nos “barrava”. Éramos porém solidários. Se um dos quatro do grupo fosse barrado todos sairiam da fila.

Acabava-se nossa “festa” se o filme não fosse “Sensura Livre.” Aí, a única saída era ir a pé para o bairro do Prado, a fim de assistir gratuitamente as insípidas corridas de cavalos, coisa para nós sem emoção nenhuma.

Hoje, temos o cinema e os jogos eletrônicos na ponta dos dedos; sem restrições nem “Investigadores de Menores”. As crianças vão absorvendo tudo quanto é ruim sem quaisquer censura dos pais. Como serão nossos bisnetos amanhã diante de tanta facilidade de escolhas?

Dos tempos vividos observo que o majestoso prédio do Eldorado se transformou numa igreja evangélica e os meninos de hoje não têm pavor a Seu Abelardo, o “Investigador de Menores”.

Todavia, s tempos e modos não se misturam. São bem diferentes entre si.

O OUTONO DA VIDA

Vivo a chegada do Outono de Vida. Não posso deixar de admitir que ele já está presente em vários dos meus momentos. É um tempo novo; bem diferente da Primavera e do Verão.

Daqui há três meses findam-se os meus 82 anos. Aí, meu camarada, prevejo que seguirei, talvez cambaleante, o resto de estrada que me falta. Sinto. na carcaça, leves sinais dos últimos tempos. A estrada do futuro vai afinando. Fica em mão única. Não é possível voltar.

Curioso: O Supremo tem me desmontando, aos poucos. De início, pelas minhas vaidades. É generoso, deixou um pequeno saldo, para evitar o desmonte total do que fui. Daí, foi-me desarmando aos poucos, continuando pela cuca.

Levou-me a entender que é preciso reorganizar meus modos de vida sem que seja preciso me liquidar de uma lapada só: ou seja, ter que viver de minha atividade principal – bancário aposentado.

Por isso foi me aposentando devagarinho da atividade-arte que muito me ajudou a formar pequeno patrimônio até aqui, e que desde os 12 anos me alimenta o espírito e a vaidade: o jornalismo.

Depois, foi apertando o dinheiro, evitando alguns “supérfluos indispensáveis”. Por coincidência emboquei, como muitos amigos, vizinhos e parentes, na “crise brasileira dos anos Temer”.

Mas, como amigos muitos estão mal dos bolsos, menos mal me senti. Faço parte da classe dos TASD – Trabalhadores Aposentdos Sem Dinheiro.

Sob tal aspecto, muitas coisas se restringiram em meu redor. Mas, o pior do Outono da Vida é o desaparecimento dos amigos. A gente vai ficando viúvo sem nunca haver tido “marido”.

Mas, Deus traça nossas vidas por trilhas e trilhos. Quem for bom mesmo aproveitará o melhor, conformando-se com o que for ruim e aproveitando intensamente os bons momentos. Mas o tempo de vida não é eterno; é curto e a gente só observa a diferença quando chega o Outono da Vida.

Reparando bem, a partir dos 80 anos, passamos a ser merecedores de certas graças divinas, que mal percebemos, de tão sutis que vão aparecendo.

Dentre elas as benesses de uma agenda bem folgada – agenda de aposentado – sem os rigores de ter que estar em locais e horários rígidos, pequenas liberdades para ir e voltar, conversar besteiras com desconhecidos nas ruas, sem se importar com críticas.

Fiz tudo, até aqui, para não carregar remorsos nem provocar “quebras de estima”. Se alguns se afastaram, tiveram suas razões e as respeito.

Os oitentões mal percebem que chegaram ao Outono de Vida. Mas são privilegiados, se, como eu, chegarem a essa meta inteiriços e de mente sã. Graças a Deus.


© 2007 - 2018 Jornal da Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa