Categoria: CARLOS EDUARDO CARVALHO – CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O INVESTIGADOR DE MENORES

Para nós que gostamos de escrever e temos oportunidade de publicar, cabe comentar modos de vida de tantos anos passados, neste caso, o comportamento dos meninos entre 10 e 15 anos, que viveram em 1950.

Já se disse que em certo momento se chega a uma fronteira de vida. A fase em que a gente nota que de repente, tudo fica restrito; como se notássemos que a vida se transforma num nada.

É o tempo da maturidade. Dos acertos de consciência. De dar um balanço e verificar o que vai perdurar; o que poderemos deixar para os nossos pósteros; o saldo do que ficará para servir de amostra do que fomos.

Assim, para quem ultrapassou a fronteira das oito décadas de existência, vale transmitir ao leitor de hoje, partes de tempos vividos, quando tudo era diferente; o Recife sombreado e bucólico. Até parece que estamos vivendo em outro mundo.

Vale conhecer para avaliar e comparar. A exemplo, na década de 50, quando eu tinha 12 anos, o grande divertimento semanal eram as matinés de domingo principalmente no Cinema Eldorado, de Afogados, tão ansiosamente esperadas.

Cinema Eldorado

Projetado especialmente para ser sala de cinema, teve a construção a cargo do engenheiro Jorge Martins Jr. e foi inaugurado em 1937, com capacidade para 790 pessoas.

Ali entravamos no mundo-maravilha que a cinematografia americana oferecia aos nossos olhos ávidos por emoções e conhecimentos do que se passava nos “outros mundos”. Os filmes surgiam acompanhados de lindas músicas que ficariam para sempre em nossas memórias.

Mas havia impedimentos. Quando os filmes eram impróprios para menores de 14 anos, notava-se a presença de um policial; um homem enorme, mal encarado, de chapéu atolado na cabeça; o cão em pessoa, conhecido como “Investigador de Menores”, que se postava na fila da bilheteria para impedir as transgressões.

O policial conhecia nossas idades pelas faces e nos “barrava”. Éramos porém solidários. Se um dos quatro do grupo fosse barrado todos sairiam da fila.

Acabava-se nossa “festa” se o filme não fosse “Sensura Livre.” Aí, a única saída era ir a pé para o bairro do Prado, a fim de assistir gratuitamente as insípidas corridas de cavalos, coisa para nós sem emoção nenhuma.

Hoje, temos o cinema e os jogos eletrônicos na ponta dos dedos; sem restrições nem “Investigadores de Menores”. As crianças vão absorvendo tudo quanto é ruim sem quaisquer censura dos pais. Como serão nossos bisnetos amanhã diante de tanta facilidade de escolhas?

Dos tempos vividos observo que o majestoso prédio do Eldorado se transformou numa igreja evangélica e os meninos de hoje não têm pavor a Seu Abelardo, o “Investigador de Menores”.

Todavia, s tempos e modos não se misturam. São bem diferentes entre si.

O OUTONO DA VIDA

Vivo a chegada do Outono de Vida. Não posso deixar de admitir que ele já está presente em vários dos meus momentos. É um tempo novo; bem diferente da Primavera e do Verão.

Daqui há três meses findam-se os meus 82 anos. Aí, meu camarada, prevejo que seguirei, talvez cambaleante, o resto de estrada que me falta. Sinto. na carcaça, leves sinais dos últimos tempos. A estrada do futuro vai afinando. Fica em mão única. Não é possível voltar.

Curioso: O Supremo tem me desmontando, aos poucos. De início, pelas minhas vaidades. É generoso, deixou um pequeno saldo, para evitar o desmonte total do que fui. Daí, foi-me desarmando aos poucos, continuando pela cuca.

Levou-me a entender que é preciso reorganizar meus modos de vida sem que seja preciso me liquidar de uma lapada só: ou seja, ter que viver de minha atividade principal – bancário aposentado.

Por isso foi me aposentando devagarinho da atividade-arte que muito me ajudou a formar pequeno patrimônio até aqui, e que desde os 12 anos me alimenta o espírito e a vaidade: o jornalismo.

Depois, foi apertando o dinheiro, evitando alguns “supérfluos indispensáveis”. Por coincidência emboquei, como muitos amigos, vizinhos e parentes, na “crise brasileira dos anos Temer”.

Mas, como amigos muitos estão mal dos bolsos, menos mal me senti. Faço parte da classe dos TASD – Trabalhadores Aposentdos Sem Dinheiro.

Sob tal aspecto, muitas coisas se restringiram em meu redor. Mas, o pior do Outono da Vida é o desaparecimento dos amigos. A gente vai ficando viúvo sem nunca haver tido “marido”.

Mas, Deus traça nossas vidas por trilhas e trilhos. Quem for bom mesmo aproveitará o melhor, conformando-se com o que for ruim e aproveitando intensamente os bons momentos. Mas o tempo de vida não é eterno; é curto e a gente só observa a diferença quando chega o Outono da Vida.

Reparando bem, a partir dos 80 anos, passamos a ser merecedores de certas graças divinas, que mal percebemos, de tão sutis que vão aparecendo.

Dentre elas as benesses de uma agenda bem folgada – agenda de aposentado – sem os rigores de ter que estar em locais e horários rígidos, pequenas liberdades para ir e voltar, conversar besteiras com desconhecidos nas ruas, sem se importar com críticas.

Fiz tudo, até aqui, para não carregar remorsos nem provocar “quebras de estima”. Se alguns se afastaram, tiveram suas razões e as respeito.

Os oitentões mal percebem que chegaram ao Outono de Vida. Mas são privilegiados, se, como eu, chegarem a essa meta inteiriços e de mente sã. Graças a Deus.