SOBRE REENCARNAÇÃO

De uns bons anos para cá, resolvi ler com vagar e sempre assimilando aurelianamente (consultando o Aurélio sobre termos não devidamente por mim assimilados) O Livro dos Espíritos, do Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, editado em 1857. O que me proporcionou uma vontade gigante de conhecer os princípios lá contidos foi um trecho lido com muita atenção, numa das publicações da Federação Espírita Brasileira: “Independentemente de crença ou convicção religiosa, a leitura de O Livro dos Espíritos será de imenso valor para todos, porque trata de Deus, da imortalidade da alma, na natureza dos Espíritos, de suas relações com os homens, das leis morais, da vida presente, da vida futura e do porvir da Humanidade, assuntos de interesse geral e de grande atualidade.”

Mas o que mais me sensibilizou racionalmente foram os capítulos II a VIII do LE, fortalecendo a minha descrença sobre castigos eternos impostos pela Providência. E o tema reencarnação consolidou convicções até então intuitivas por mim sentidas, ensejando leituras complementares as mais diferenciadas sobre o assunto, a última leitura sendo o livro Reencarnação questão de lógica, do médico pediatra Américo Domingos Nunes Filho, SP, Editora EME, 2017, 320 p. Segundo o prefaciador Eurípedes Kuhl, “para elaborar este livro, o doutor Américo não se louvou apenas nos seus conhecimentos de medicina pediátrica, mas, e principalmente, no exercício da lógica, do bom-senso e do respeito integral e incondicional ao Criador.”

Segundo pesquisas feitas, eis um esclarecimento: reencarnação é uma ideia central de diversos sistemas filosóficos e religiosos, segundo a qual uma porção do Ser é capaz de subsistir à morte do corpo. Chamada consciência, espírito ou alma, essa porção seria capaz de ligar-se sucessivamente a diversos corpos para a consecução de um fim específico, como o auto-aperfeiçoamento. A reencarnação pode ser definida como a ação de encarnar-se sucessivas vezes, ou seja, derivada do conceito aceito por doutrinas religiosas e filosóficas de que, na morte física, a alma não entra num estágio final, mas volta ao ciclo de renascimentos. Heródoto filósofo menciona esta doutrina como sendo de origem egípcia, sendo que, nessa concepção, a reencarnação se dava instantaneamente após a morte, passando a alma para uma criatura que estava nascendo (que poderia ser da terra, da água ou do ar).

A reencarnação encontra defesa na filosofia desde Pitágoras. Atualmente, este conceito é aceito por filosofias e religiões do mundo todo, em especial na Ásia. É chamada também de transmigração da alma e metempsicose (esta última denominação é mais encontrada em filosofias orientais em que se admite que alma pode regressar em corpos de animais).

A reencarnação é um dos pontos fundamentais de religiões do Egito Antigo, do hinduísmo (já pregava esse conceito 5 mil anos antes de Cristo), do Budismo, do jainismo, do sikhismo, do taoísmo, do Culto de Tradição aos Orixás, de várias nações indígenas, do Vodu, da Cabala judaica, do rosacrucianismo, do espiritismo e suas dissidências, da Teosofia, da Wicca, do Eckankar, da Cientologia, da filosofia pitagórica, da filosofia socrática-platônica, etc. Existem vertentes místicas do cristianismo como, por exemplo, o cristianismo esotérico, que também admite a reencarnação.

Entre as tentativas de dar uma base “científica” a essa crença, destaca-se o trabalho do psiquiatra Dr. Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia, Estados Unidos, que recolheu dados sobre mais de 3000 casos em todo o mundo, evidenciando a reencarnação. Segundo ele, os relatos de vidas passadas surgem geralmente aos dois anos de idade, desaparecendo com o desenvolvimento do cérebro. É constante aparecer na proximidade familiar, embora haja casos sem nenhum relacionamento étnico ou cultural. Mortes na infância, de forma violenta, aparentam ser mais relatadas. A repressão para proteger a criança ou a ignorância do assunto faz com que sinais tidos como suspeito, normalmente sejam esquecidos ou escondidos.

Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei em francês é explicitada no túmulo de Allan Kardec. No século 19, o francês Hippolyte Leon Denizard Rivail – ou Allan Kardec – e outros estudiosos dedicaram-se a um tema então em voga na Europa: os fenômenos das mesas giratórias, em que os sensitivos alegavam que espíritos se manifestavam com o mundo dos vivos. Kardec escreveu uma série de livros sobre as experiências mediúnicas que observou e, tendo como base a ideia da reencarnação, estruturou a Doutrina Espírita.

Para os espíritas, reencarnação é um ponto pacífico. O espiritismo é o grande divulgador da doutrina da reencarnação no Brasil e na maioria dos países ocidentais, defendendo que a reencarnação é um processo obrigatório até o espírito não precisar mais reencarnar e isso se dará quando ele se tornar um espírito puro. A reencarnação é uma oportunidade para o espírito se aperfeiçoar intelectualmente através do trabalho e estudo, e moralmente através do amor ao próximo e da caridade. Assim, ela é vista como uma bênção pelo espírito, pois é uma oportunidade de progresso. Além de trabalhar para o seu desenvolvimento, o espírito quando reencarna, também vem expiar faltas que cometeu em encarnações anteriores.

Para o espiritismo, a reencarnação é uma prova da justiça de Deus, que dá inúmeras oportunidades para o espírito se aperfeiçoar, em vez de mandá-lo para o céu ou o inferno eterno porque simplesmente nasceu em uma família que não lhe deu a educação adequada. Segundo essa mesma doutrina, se o espírito se entrega à corrupção dos valores ético-morais, ele terá “incontáveis” oportunidades de se aperfeiçoar nas próximas reencarnações.

O astrônomo e astrobiólogo Carl Sagan, em seu penúltimo livro, escreveu: “No momento em que escrevo, há três reivindicações no campo (paranormal) que, na minha opinião, merecem um estudo sério”. A terceira sendo crianças que, pequenas, relatam detalhes de uma vida anterior que, após a verificação, se mostram precisas e que elas não poderiam ter esse conhecimento de nenhum outro modo que não pela reencarnação”.

Uma leitura atenta do livro Reencarnação questão lógica, do Dr. Américo Domingos Nunes Filho, nos proporcionará subsídios consistentes para assimilar mais convictamente a lição deixada pelo Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará” (João 8,32)

LIVROS INCOMUNS

Quando o escritor judeu Elie Wiesel recebeu o Prêmio Nobel, em 1986, uma reflexão sua ecoou pelo salão de premiação, repercutindo em todo mundo: “Eu tenho tentado manter minha memória viva… Tenho tentado combater aqueles que prefeririam esquecer. Porque se nós esquecermos, nós somos culpados, somos cúmplices.” E num papo com amigos judeus, semana passada, quando reverenciávamos o nonagenário aniversário de Wiesel, recebi de um quase irmão hebreu um livro incomum por derradeiro: Holocausto: os eventos e seu impacto sobre as pessoas reais, Angela Gluck Wood, Barueri, SP, Editora Manole, 2013, 192 p. Onde, na quarta capa, se explicita a motivação da produção editorial, prefaciada por Steven Spielberg: “O livro que você tem em mãos é único. Ao mesmo tempo em que é um respeitável registro sobre O Holocausto que combina textos e imagens de um modo totalmente incomum, também é um registro humano da Shoah e de seu significado. As páginas que se seguem são repletas de estatísticas e fatos, muitos deles apavorantes. Mas estas páginas contêm também rostos e palavras de homens e mulheres que sobreviveram ao mundo homicida da Europa dominada pelo regime nazista.” E mais: “Você também encontrará outro elemento singular ao volume: um DVD contendo entrevistas em vídeo de muitos sobreviventes cujos nomes estão nestas páginas. Esses homens e mulheres falaram de suas experiências de modo direto e cândido às câmaras e microfones do Instituto de História Visual e Educação da Fundação Shoah da Universty of Southern California (USC). O trabalho do Instituto é o trabalho profissional mais importante de minha vida. Sinto-me profundamente orgulhoso por sua realização e verdadeiramente emocionado por você, leitor, ter a oportunidade de aprender sobre o Holocausto por meio do conjunto de testemunhos recolhidos para este livro e para o DVD que o acompanha.”

O livro contém as seguintes partes: Os Judeus na Europa; Domínio Nazista; Os Guetos; O Assassinato das Vítimas; Agarrando-se à Vida; O Fim da Guerra; As Consequências. Páginas que expressam animalidades e resistências, pusilanimidades e bravuras extremas. Em todas elas, uma seção chamada Vozes traz testemunhos de sobreviventes, a maioria deles extremamente dolorosos. Selecionamos um deles: de Thea Rumstein, austríaca, nascida em 1928: “Nós os vimos começando a marchar pelas ruas e, claro, no dia seguinte todas as lojas tinham cartazes dizendo ‘Juden sind hier. Unerwunscht’ (Judeus não são bem-vindos aqui). E nas lojas, eles escreviam Jude na fachada delas e todo tipo de coisa acontecia. Havia muita coisa acontecendo e você estava lá sentado e não realmente via o que estava para acontecer – mas logo bem descobrimos. Foi terrível. A primeira coisa que me lembro muito bem foi quando cheguei da escola (isso foi bem no começo), fui à rua onde morávamos e havia um enorme grupo de pessoas por ali gritando e gritando ‘Juden’ e continuavam, e então vi mãe na rua, limpando a rua! Eles a fizeram limpar os cartazes que colocaram nas ruas para as eleições. Então eu disse: ‘Mãe! O que você está fazendo aí ?’ E ela respondeu: ‘Thea, vai para casa! Vai para casa! Ela não queria que eu ficasse lá. Eu chorei terrivelmente e não fui, continuei lá gritando: ‘Mamãe, mamãe!’ E as pessoas não tinham compaixão alguma. Elas estavam tomadas por ódio. Todas elas. Todas.”

A história do antissemitismo, ódio aos judeus, remonta a tempos muito antigos, embora tenha sido fortalecida pela Igreja Católica medieval, que disseminavam que tinham sido judeus os responsáveis pela morte de Cristo no madeiro. O próprio Martinho Lutero, em 1543, no livro Dos judeus e suas mentiras, assim se pronunciava: “Eu aconselho que as casas dos judeus também sejam arrasadas e destruídas. Pois nelas, eles perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Como alternativa, eles podem ser alojados sob qualquer teto ou em um celeiro, como os ciganos. Isso lhes dará a certeza de que não são líderes em nosso país, tal como se vangloriam, mas sim que estão vivendo em exílio e cativeiro, como eles lamuriam e lamentam sobre nós diante de Deus.”

Um outro livro incomum foi editado o ano passado (2017): Histórias de Vida: refugiados do nazifascismo e sobreviventes da Shoah – Brasil: 1933 – 2017, SP, Mayanot, 2017, 2v., projeto coordenado por Maria Luiza Tucci Carneiro e Raquel Mizrahi, que ressaltam: “As histórias de vida aqui publicadas têm elementos comuns, que formam uma trama e nos ajuda a reconhecer em cada personagem mais uma vítima da intolerância que abalou a Europa nas décadas de 1930 e 1940. Valorizamos também aqueles que lutaram nas frentes de resistência, os partisans, ampliando para as ações humanitárias dos Justos e Salvadores que escolheram o Brasil como sua segunda pátria. Importante ressaltar que esta é uma coleção aberta às novas vozes, idealizada para quebrar os silêncios da História. Para lembrar sempre, para não esquecer!” E dão testemunho contundente: “Em cada uma das histórias descobrimos que as cicatrizes ainda sangram, são como marcas subjetivas, conectadas ao “eu” de quem narra e que não devem ser desprezadas. Cada qual, em sua singularidade, nos oferece uma perspectiva e dimensão histórica acerca do Holocausto, demonstrando que as ações genocidas extrapolaram as fronteiras da Alemanha, Áustria e Polônia”.

Atualmente, o Holocausto, pelo seu caráter único e pela crueldade, não pode ser comparado a nenhum outro assassínio em massa. Não há justificativa lógica para a carnificina cometida contra mais de seis milhões de judeus. Tampouco qualquer explicação teológica. A Noite dos Cristais, as câmaras de gás de Auschwitz e os crematórios de Maidanek, entre outros, foram produtos da teoria racial germânica. Que devem continuar a ser combatidos, diante das efervescências sectárias surgidas nas duas últimas décadas.

Que as leituras acima sejam tijolos na grande muralha que conterá a intolerância, a xenofobia e o antissemitismo, preparando as nações para futuros luminosos, “repletos de conhecimento Divino, como as águas cobrem o mar”, segundo Isaías 11,9.

POR UMA EDUCAÇÃO ESPÍRITA

Apesar de uma realidade educacional espírita no Brasil de há muito já se fazer presente numa rede escolar que abarca os três graus fundamentais do ensino, do pré-escolar à pós-graduação, mormente no Centro-Sul do país, uma indagação ainda se faz presente nos quatro cantos do país: como fortalecer uma pedagogia espírita nos primeiros tempos de uma caminhada escolar, descaracterizando a formação de místicos e alienados da realidade terrena?

Um livro editado pela décima vez em 2004 bem poderia balizar uma estratégia educacional compatível com os crescentes desafios contemporâneos: Pedagogia Espírita, J. Herculano Pires, São Paulo, Editora Paidéia, 2004, 222 p. Nele, o notável pensador emite algumas reflexões consistentes, que muito deveriam ampliar a missão de educadores militantes que saibam assimilar um prognóstico amplamente recheado de múltiplas aspirações: “O ceticismo dos últimos tempos vai cedendo lugar a um despertar de novas e grandiosas esperanças. A Educação da Era Cósmica começa a nascer e os educadores começam a perceber que precisam renovar os processos educacionais.” Mas apesar dos avanços, Herculano lamenta com intensidade: “Infelizmente, a atitude cultural para com o Espiritismo continua, em sentido geral, a mesma do século passado: preconceituosa e ignorante. Ao lado do preconceito avulta a mais completa ignorância do conteúdo da doutrina e do seu significado, muito embora uma bibliografia espírita seja hoje um vasto acervo cultural, a imprensa espírita constituindo-se numa rede de jornais, revistas, boletins, anuários, programas radiofônicos e de televisão e até mesmo estações de rádio.”

Como o meio básico de transmissão cultural se efetiva através da educação, inevitável se torna o fortalecimento da Educação Espírita no Brasil, apesar de toda a resistência oferecida pelos segmentos considerados verdadeiramente reacionários. Em 1970, acontecia o primeiro curso de Introdução a uma Pedagogia Espírita, cabendo a EDICEL – Editora Cultural Espírita Ltda – lançar a primeira revista de educação espírita do Brasil.

Por outro lado, o nunca esquecido economista Celso Furtado costumava lembrar em seus pronunciamentos: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas”.

Relendo outro dia, o pensador Allan Bloom, um dos mais controvertidos ensaístas norte-americanos, autor do muito polêmico O DECLÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL, um best-seller que vendeu, até hoje, mais de três milhões de exemplares, verifiquei a atualização dos seus ensaios sobre professores, livros e educação, escritos entre 1960 e 1990, concentrados por ele num instigante volume intitulado GIGANTES E ANÕES. Segundo Bloom, “a essência da educação é a experiência da grandeza”. Ele ressalta a perfeição da fórmula de Pascal – sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético – defendendo a vida teórica dos assaltos próprios de um tempo que despreza a filosofia, que asfixia a estratégia em detrimento de táticas imediatistas, eleitoreiras até, nunca políticas, todas oportunistas, algumas até desabridamente nazistas.

Em determinados momentos, o Bloom parece “estar enxergando” o atual quadro universitário brasileiro: “A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder”. E a saída por ele apontada deveria ser merecedora de respeitosa atenção: a descoberta das nossas próprias ideias.

Do livro se depreende lúcidas lições sobre a atual ambiência nacional, às vésperas de acontecimentos eleitorais, onde uma República, jamais Nova República, parece emergir de um raivoso e impaciente clamor comunitário. Algumas das lições de Bloom merecem aqui registro neste Jornal da Besta Fubana sempre lúcido, que não se avacalha diante dos marasmos culturais e políticos de um Nordeste ainda acabrestado por muitos currais eleitorais. Tais lições bem que poderiam transformar-se nos DEZ MANDAMENTOS da construção de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um igualmente dinâmico desenvolvimento social. Saibamos bem assimilá-las:

1. Participamos de um único cosmo, cada alma sendo reflexo desse mesmo cosmo, nele também refletindo esperanças, conquistas e humilhações;

2. Os acidentes da vida obrigam os homens a adotar costumes que os levam a esquecer a parte total e imortal deles próprios;

3. Quem diz “eu prometo”, sem ter base para cumprir a promessa, é um mentiroso;

4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte de nossa experiência e de nossa vida;

5. Política significa o governo do homem e isso só pode ser feito em posições de poder legítimo;

6. Se a democracia não pode tolerar a presença dos mais altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se torna questionável;

7. Cultura não deve ser usada para superar as preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa ausência de sensibilidade para com a política real;

8. Quem só possuir visão “econômica” não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do homem ou no status especial da arte e da ciência;

9. Quando a suave luz dos grandes livros estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fantasiosa, nossa janela para o mundo estará irremediavelmente fechada;

10. Todos os talentos não passam de recursos para a felicidade maior de todos.

Embasados nos textos acima, como seria oportuno, nos Centros Espíritas do Brasil, a implantação de Núcleos de Pedagogia Espírita, voltados para um aprimoramento da enxergância de jovens e adultos, onde o texto básico inicial seria o de J. Herculano Pires, acima mencionado, onde seriam postas em discussão não as experiências passadas, mas as reelaborações que se fizessem necessárias num plano superior, o da consciência iluminada pela visão espiritual, jamais distanciando crianças e adolescentes dos direitos a uma educação essencialmente crítico-libertadora.

PS. Oportuna por derradeira a leitura e debate do Manifesto da Pedagogia Espírita, IN: Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes, Dora Incontri, Bragança Paulista SP, Editora Comenius, 2012, 280 p. Para se ter “a feminilidade da lua e bravura libertária dos que descobrem novos mundos.”

LIÇÕES SOBRE O HOJE E O LOGO MAIS

Outro dia comentei neste site do JBF cada vez mais arretado de ótimo sobre um crescente colapso da Democracia Liberal nos quatro cantos do mundo, uma análise fantástica do sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro Ruptura, da editora Zahar, recentemente lançado no Brasil. E faz mais de uma semana que estou enfronhado com uma leitura que complementa magistralmente o acima citado: 21 lições para o século 21, Yuval Noah Harari, São Paulo, Companhia das Letras, 1918, 442 p. Autor consagrado de Sapiens e de Homo Deus, dois sucessos mundiais, o primeiro analisando o nosso passado e o segundo buscando vislumbrar os nossos amanhãs longíquos, Harari agora busca destrinchar as questões políticas, tecnológicas, sociais e existenciais que atordoam nossa contemporaneidade, onde uma pergunta inquieta um bocado de milhões de famílias: o que devemos ensinar a nossos filhos? Num mundo de 7 bilhões de seres humanos, com preocupações muito mais agudas que o aquecimento global ou a crise da democracia liberal, uma preocupação que atordoa os mais responsáveis.

Neste seu livro último, Noha Harari analisa as grandes forças que formam as atuais sociedades mundiais, as que influenciarão o futuro do planeta como um todo. Sem pretender ser uma narrativa histórica, o livro apenas traz uma coleção de lições que não possuem respostas simples, mas que seguramente ajudarão milhões a participar de alguns assuntos do nosso tempo atual. Através de indagações públicas o autor despertam a imaginação analítica, sendo ele um dos atuais talentos planetários, residente em Jerusalém, PhD em História por Oxford, atualmente professor da Universidade Hebraica: Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump? O que podemos fazer ante a epidemia de fake news? Por que a democracia liberal está em crise? Deus está de volta? Haverá uma nova guerra mundial? Qual civilização dominará o mundo – o Ocidente, a China, o Islã? A Europa deveria manter portas abertas aos imigrantes? O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade e mudança climática? O que se faz quanto ao terrorismo?

Está comprovado que o terrorismo é tanto um problema de política global quanto um mecanismo psicológico interno, posto que o terror manipula a imagina privada de milhões de indivíduos. Principalmente numa conjuntura onde cientistas e governos estão aprendendo a hackear o cérebro humano, afetando condutas individuais e sociedades inteiras. E tal globalização afeta vieses políticos e religiosos, preconceitos raciais e de gênero, tornando-nos cúmplices involuntários da mais ampla opressão institucional.

O livro do Harari tem início com o atual impasse político e tecnológico, onde no final do século XX as grandes batalhas ideológicas entre fascismo, comunismo e liberalismo tinham como consequência a vitoriosa caminhada mundial da democracia política, dos direitos humanos e do capitalismo de livre mercado. Hoje, com o fascismo e o comunismo em total colapso e um emperramento do liberalismo, emerge uma inquietante indagação: para onde caminhamos, quando a fusão sempre crescente da tecnologia da informação e da biotecnologia poderá redundar em bilhões de seres humanos fora do mercado de trabalho, contaminando a efetividade da liberdade e da igualdade de todos?

Através do exame exaustivo dos múltiplos desafios, Harari busca encontrar respostas para as possibilidades emergidas, tateando respostas pós-verdade, tentando encontrar o que sabemos e o que não sabemos sobre Deus, sobre política e sobre religião, num tempo que não pode ser prolongado em demasia sob a ameaça crescente das armas da destruição de massa e o aprimoramento de novas tecnologias disruptivas.

O livro é composto de cinco partes interligadas: 1. O Desafio Tecnológico, 2. O Desafio Político, 3. Desespero e Esperança, 4. Verdade e 5. Resiliência. Em cada uma, um “parágrafo inicial para reflexões”. A título de aperitivo, apresentamos eles: 1. “O gênero humano está perdendo a fé na narrativa liberal que dominou a política global em décadas recentes, justamente quando a fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação nos coloca diante das maiores mudanças com que o gênero humano já se deparou”; 2. “A fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia ameaça os valores modernos centrais de liberdade e igualdade. Toda solução para o desafio tecnológico deve envolver cooperação global. Porém o nacionalismo, a religião e a cultura dividem o gênero humano em campos hostis e fazem com que seja muito difícil cooperar no nível global.”; 3. “Embora os desafios não tenham precedentes, e as discordâncias sejam intensas, o gênero humano pode se mostrar à altura do momento se mantivermos nossos temores sob controle e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões.”; 4. “Se você se sente impotente e confuso diante da situação global, está no caminho certo. Processos globais são complicados demais para que uma única pessoa os compreenda. Como então saber a verdade sobre o mundo, e não ser vítima de propaganda e desinformação?”; 5. “Como viver numa era de perplexidade, quando as narrativas antigas se desmoronam e não surgiu nenhuma nova para substituí-las?”

O livro do Yuval Noah Harari, lido meditativamente, e relido rabiscadamente de fio a pavio, seguramente nos possibilitará um asseio bastante salutar do nosso interior, favorecendo a separação do Deus Mesmo dos deuses que nos foram impostos ao longo da História da Humanidade. Assim sendo, permanentemente em processo continuamente crescente de enxergância, todo ser humano, capacitado para contemplar as belezas da Vida fora das cavernas impostas pelas complexas mesquinharias conjunturais, poderá, com firme convicção, solidarizar-se integralmente com seus contemporâneos, chamando-os indiscriminada e deshipocritamente de irmãos, todos oriundos de uma Energia única, de Luz Infinda.

PRESENTE NO DIA DA CRIANÇA

Almoçando, janeiro passado, com casal muito estimado por nós, já também avós, uma inquietude nos foi revelada quase nas despedidas do encontro: o que deveriam presentear aos netos no Dia da Criança, 12 de outubro, fortalecendo a espiritualidade deles, posto que todos, Ricarda de 15, João Henrique de 13 e Simone de 10 estavam bem avaliados em suas caminhadas escolares, cada um portando boas doses de cidadania convivencial, embora os pais ainda estivessem desatualizados de uma formação cristã que assegurasse uma criticidade solidária, posto que os dois estavam distanciados de uma bibliografia amplamente contemporânea e ecumênica sobre o assunto.

Indiquei aos dois, valendo para os cinco, a leitura em conjunto de um texto, que muito poderia beneficiar o grupo, a ser amplamente discutido em reuniões semanais programadas sem correrias, um resumo de cada capítulo sendo elaborado pelo avô, ex-seminarista frustrado, embora ainda portador de uma densidade humanística apreciável: Quem foi Jesus – uma análise história e ecumênica, de André Marinho, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2018, 312 p.

O autor é brasileiro, nascido em 1982, graduado em Artes Cênicas, que teve a oportunidade de conviver, na Universidade de Tübingen, com Hans Küng, tido e havido como um dos maiores teólogos do século XX, especializado em ecumenismo, defensor consagrado mundialmente dos diálogos inter-religiosos sem fingimentos nem posturas de superioridade. Para escrever o livro entre 2000 e 2018, Marinho gastou nove anos de estudos sistemáticos sobre o Jesus histórico e mais nove de escritos e reescritos sobre áreas católicas, evangélico-protestantes, ortodoxas, judaicas e muçulmanas, muito embora tenha sido a Doutrina Espírita elaborada por Allan Kardec quem tenha realçado definitivamente para ele a missão do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.

De pais umbandistas, uma avó católica e outra espírita, um avô ateu e outro mais ou menos teísta, acredita Marinho que essa diversidade muito o beneficiou, mormente nos primeiros anos de sua formação, quando muito bem se recorda da sua mãe ensinando-lhe a Oração do Pai Nosso, anos antes dele ter lido as primeiras palavras. E também se lembra de sua avó paterna lhe contando uma história sobre a infância de Jesus, história muitos anos depois por ele descoberta na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em livro apócrifo, evangelho árabe da infância do Menino.

Daí a minha alegria de indicar ao casal amigo um texto ecumênico, crítico e histórico, muito distanciado dos de catequese, pois segundo Marinho, “existe um autêntico Jesus histórico, nascido na Palestina, judeu, o mais influente e jovem líder de impacto religioso do mundo, sempre seguido por ele, com total fervor, mesmo quando deparou-se, lamentavelmente, com algumas oportunistas posturas estupidificantes editadas. Que encharcam as mentes infantis de conceitos e preconceitos, onde jamais saberão diferenciar modernidade de modernosidade, perdendo elas oportunidades valiosas de ampliar uma criticidade cidadã infanto-juvenil capaz de erradicar passividades descriativas, essencialmente nulificantes, o conhecimento não se edificando historicamente, desapercebidas se tornando das metáforas, das simbologias, das razões primeiras dos fatos e das alternativas que favoreceriam uma melhor enxergância inter-convivencial religiosa.

Tenho intenso amor pelo movimento capitaneado por Jesus dos primeiros tempos, que não foi nacionalista, nem clerical, nem rigorista, nem legalista, nem monacal, nem sacerdotal, sempre reiterando Ele mais solidariedade para com os próximos mais sofridos. E sinto profunda admiração pelo apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, que proclamava a liberdade para todos, cada um se libertando ao seu modo, o amor sendo o único motor promotor de transformações, nunca sendo esquecido que não se conserta roupa velha com panos novos.

Voltando ao livro do Marinho, ele foi estruturado em três partes. Na primeira, 3 capítulos, descreve Jesus, explicitado através de uma breve introdução ao judaísmo (de Abraão até Jesus) e expondo uma pesquisa crítica sobre uma fonte primária, o Novo Testamento. Na segunda parte, Quem foi Jesus?, compreende 13 capítulos, inclusive a análise do Sermão da Montanha, destinado aos “moralmente fracassados”, contando sua paixão, morte e ressurreição. A parte terceira busca responder a duas perguntas fundamentais: Quem foi Jesus? Quem é Jesus? Uma leitura sedutora por derradeiro, digna para discussão em grupo familiar.

Segundo algumas notícias vindas posteriormente, o estudo grupal do livro está sendo concluído com entusiasmo fora do comum, sendo opinião geral que as discussões estão proporcionando uma análise histórica e ecumênica repleta de reflexões e provocações que seguramente aprofundará a espiritualidade de cada integrante, ampliando a compreensão e o amor por Jesus de Nazaré, esse maior revolucionário que a Humanidade já conheceu, sempre em evolução em nosso interior de trabalhadores espíritas.

Já chegou aos meus ouvidos um pedido de quero-mais indicações para os avós e os netos caminharem mais resolutamente em direção à Luz. Em breve, depois da Dia da Criança, nos reencontraremos para novos papos e recíprocas capacitações. E tudo faz crer que o grupo será acrescido de mais dois jovens, um de 16 e outra de 14, netos também do casal amigo muito amado. Onde todos muito poderão aprender com Jesus de Nazaré através do judaísmo, cristianismo, islamismo e espiritismo. E a serem puros de coração, contemplando a Criação.

COLAPSO DA DEMOCRACIA

Encareço aos amigos leitores que leiam e releiam, sempre meditando, o primeiro parágrafo de um lançamento recente de uma editora brasileira famosa, que logo abaixo identificarei. Ei-lo: “Sobram ventos malignos no planeta azul. Nossas vidas titubeiam no turbilhão de múltiplas crises. Uma crise econômica que se prolonga em precariedade de trabalhar e em salários de pobreza. Um terrorismo fanático que fratura a convivência humana, alimenta o medo cotidiano e dá amparo à restrição de liberdade em nome da segurança. Uma marcha aparentemente inelutável rumo à inabitabilidade de nosso único lar, a Terra. Uma permanente ameaça de guerras atrozes como forma de lidar com os conflitos. Uma violência crescente contra as mulheres que ousaram ser elas mesmas. Uma galáxia de comunicação dominada pela mentira e agora chamada de verdade. Uma sociedade sem privacidade, na qual nos transformamos em dados. E uma cultura, denominada entretenimento, construída sobre o estímulo de nossos baixos instintos e a comercialização de nossos demônios.”

O texto acima se encontra no recentemente lançado Ruptura: a crise da democracia liberal, Manuel Castells, Rio de Janeiro, Zahar, junho de 2018, 250 páginas. E que apresenta um segundo parágrafo ainda mais terrificante: “Existe, porém, uma crise ainda mais profunda, que tem consequências devastadoras sobre a (in)capacidade de lidar com as múltiplas crises que envenenam nossas vidas: a ruptura da relação entre governantes e governados. A desconfiança nas instituições, em quase todo mundo, deslegitima a representação política e, portanto, nos deixa órfãos de um abrigo que nos proteja em nome do interesse comum. Não é uma questão de opções políticas, de direita ou esquerda. A ruptura é mais profunda, tanto em nível emocional quanto cognitivo. Trata-se do colapso gradual de um modelo político de representação e governança: a democracia liberal que se havia consolidado nos dois últimos séculos, à custa de lágrimas, suor e sangue contra os Estados autoritários e o arbítrio institucional. Já faz algum tempo, seja na Espanha, nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, na Correia do Sul e em múltiplos países, assistimos a amplas mobilizações populares contra o atual sistema de partidos políticos e democracia parlamentar sob o lema “Não nos representam!’. Não é uma rejeição à democracia, mas à democracia liberal tal como existe em cada país, em nome da ‘democracia real’, como proclamou na Espanha o movimento 15-M. Um termo evocado que convida a sonhar, deliberar e agir, mas que ultrapassa os limites institucionais estabelecidos.”

O Manuel Castells é um sociólogo espanhol dos mais influentes no mundo contemporâneo, considerado o principal analista da atual era da informação e os efeitos dela sobre a economia, a cultura e a sociedade em geral. No livro acima citado, ele interpreta o surgimento de Trump, Le Pen, Macron, expressões significativas do atual quadro político, ressaltando ainda a “total decomposição do sistema político do Brasil”, segundo ele um “país fundamental da América Latina”. Seu livro analisa com riquezas de detalhes as causas e consequências da ruptura entre cidadãos e governo, entre a classe política e o conjunto dos cidadãos, da falência da democracia liberal, a mãe de todas as crises, mãe parideira dos furacões direitistas que emergem nos quatro canto do planeta.

O sumário do livro aponta assuntos que muito bem poderiam ser debatidos em nosso país, às vésperas de uma eleição onde muitos milhares votarão “nulo” e “branco” enojados pela inoperância efetiva das decisões que resultariam em benefícios para o todo nacional. Incrustados no “nulos” e “brancos” estão contemplados: a crise de legitimidade, as raízes do crescente ódio comunitário, a política do medo implantada pelo terrorismo, o cansaço democrático, a influência da Era da Informação, o além de uma apenas dicotomia direita-esquerda e os processos indispensáveis para a reconstrução da legitimidade democrática através de uma política educacional de Educação Básica não populista, essencialmente libertadora, com um magistério culturalmente bem capacitado e condignamente remunerado.

A crise ética brasileira, umbilicalmente associada a uma gigantesca reestruturação econômica mundial, é profunda. Com um agravante: a grande maioria, por ausência de uma efetiva educação cidadã, se encontra despreparada para um assumir social mais consequente. E a ausência de um comprometimento ético com a transformação do hoje é sequela de uma não-escolaridade sedimentada, eivada de um conformismo que carrega uma desesperança comunitária que consolida individualismos multiplicadores, que faz resvalar para a irresponsabilidade, que deságua numa guerra civil sem comandante nem ideário, a gerar mais famintos, formatando uma onda comportamental predatória de consequências funestas.

Tenho uma profunda admiração pelos que possuem aquilo que Blaise Pascal, notável matemático, definia como esprit de finesse. E que é diretamente proporcional ao asco sentido pelos que se imaginam muito acima das divindades, sócios de Deus, igualzinho aquele ajumentado cheio de reais que entrava nas igrejas de óculos escuros para Deus não pedir autógrafo nem ficar com lero-leros bajulatórios.

Creio que a hora da sociedade civil voltar a travar o bom combate é chegada. A erosão da credibilidade política não beneficiará ninguém, nem mesmo os conservadores não-reacionários. Vale a pena apressar o historicamente viável, para privilegiar sempre a não-violência. O momento nacional está a exigir grandezas. E renúncias. E gestos concretos, não-eleitoreiros e não-messiânicos. Democracia, discernimento e disciplina, eis o trio de qualquer soerguimento pátrio.

Não desejamos uma sociedade de consenso, mas carecemos fazer um omelete quebrando o mínimo de ovos possível, com agilidade política e credibilidade moral, aliadas a uma competência técnica indispensável, sem a qual estaremos nos remetendo para um não-futuro talvez irreversível. Num país de sessenta milhões de carentes, os que não podem acompanhar a maratona do possuir estão transformando frustrações em agressividade eivada de odiosidade sectária. Embora deva ser relembrado vez por outra o famoso pensar de Churchill, em 1947: “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras formas que foram experimentadas de tempos em tempos.”

PS. Em todo 7 de setembro, sinto-me cada vez mais arretadamente brasileiro, apesar de todos os pesares.

FOMES DIVERSAS

O isolamento de 12 crianças com seu professor na Tailândia, recentemente, obteve solidariamente uma ampla repercussão planetária, felizmente com um final feliz, à exceção de um heroico bombeiro que não resistiu às técnicas de resgaste aplicadas pela equipe de salvamento.

A quase tragédia tailandesa proporcionou a muitos, a mim inclusive, a oportunidade de ler uma série de reflexões de pensadores especializados espíritas que estudam os diversos tipos de fome, auxiliando muitos a saciá-los sob as bênçãos do Altíssimo. Tais reflexões foram organizadas por Marcelo Teixeira, que efetivou a iniciativa a partir de um trecho do Sermão do Monte – “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados“(Lc 2,20-29) – em combinação com a letra da música “Comida”, do grupo de rock Titãs – “A gente não quer só comida. A gente não quer só bebida / A gente quer comida
Diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída / Para qualquer parte.”

O livro organizado pelo Teixeira intitula-se Fome de quê?, Capivari-SP, editora EME, 2018, 184 p. E bem que deveria ser divulgado nos Centros Espíritas de todo o país, proporcionando a criação de GRAs – Grupos de Reflexão/Ação, devidamente capacitados para ampliação de uma evangelização efetivamente solidária, que muito bem complementaria as notáveis Campanhas do Quilo, uma idealização do inesquecível Elias Sobreira, que um dia, através da psicofonia de médium-irmão, me incentivou a persistir na minha atual caminhada de final de vida, sempre sob as bênçãos do Homão da Galileia, da sua mãe Maria Santíssima e do Dr. Bezerra de Menezes, orientador da Casa dos Humildes, no Recife-PE, onde sou trabalhador, soldado raso com entusiasmo e orgulho.

A leitura do livro organizado pelo Marcelo me trouxe inúmeros momentos de reflexão. E como gosto de socializar as minha leituras, aponto, abaixo, os balizamentos que mais me sensibilizaram.

Fome de acolhimento – “O psicanalista Rollo May apresenta a existência dos ‘homens-espelhos’, seres que utilizam como roupagem uma capa composta de pedações de espelhos. Casa um desses pedaços contém os rostos de uma das pessoas que queremos agradar.” (Aloísio Silva, psicanalista)

Fome de assertividade – “Características de uma pessoa assertiva: não tem dificuldade em dizer não; não evita conflitos; sabe ouvir; mais elogia que critica; sua fala não cria necessidade de pedir desculpas; estimula a comunicação de mão dupla; é comunicador por necessidade.” (Alkinda de Oliveira, consultora de empresas)

Fome de cidadania – “Somente três caminhos podem evitar a dor social: uma consciência reta do cidadão; um coração que ame; mãos operosas no bem.” (Orson Peter Carrara, editor).

Fome de conhecimento – “Para que o princípio espiritual evolua, é necessário que ele tenha experiências nas quais adquire conhecimentos que lhe são necessários. Com isso, depreende-se que o conhecimento é a mola propulsora do progresso. Quanto mais o espírito adquire conhecimento, mais avança na escala evolutiva.” (José Carlos Leal, professor).

Fome de disciplina – “A benfeitora Joanna de Ângelis define a disciplina como sendo o impositivo de alevantamento moral fomentador do progresso, base da paz, que ninguém pode prescindir.” (Maurício Mancini, Professor universitário).

Fome de educação – “A melhor práxis pedagógica é conversar, realizando um diálogo instigante e provocativo, levando o educando a pensar diante de situações da vida, colocando-o em posição de olhar o futuro para ele e para a sociedade, sempre a partir da investigação de si mesmo e da vida.” (Marcus de Mário, educador)

Fome de fé – “Em geral, não percebemos que estamos carentes de fé. Estamos ocupados (e muitas vezes preocupados) com as questões ditas práticas do dia a dia, como problemas de saúde, conflitos familiares e sociais, dificuldades financeiras e outras que tais.” (Luzia Mathias, médica)

Fome de Jesus – “Tenho fome de Jesus descrucificado, ativo e laborioso, trabalhando pelo progresso de cada um de nós. Que não habita céu algum de beatitudes e contemplação, mas que ao mesmo tempo que viaja pelas estrelas visita casebres, hospitais, acampamentos de refugiados, circula por entre trincheiras dos povos em guerra, inspira gênios nas diversas ciências a debelar doenças e envolve os que detêm o poder político econômico transitório para que fomentem tais descobertas, apoiem iniciativas que visem melhorar as condições do planeta.“ (Cezar Braga Said, psicólogo)

Fome de perdão – “A fome de perdão tem início no lar e se expande por todas as formas de relacionamento humano. A cultura do perdão ainda não está implantada em nossa sociedade. A do revide, a da revanche, essa sim, finca raízes profundas, milênios afora, nos corações humanos. Falta-nos vontade para mudar. A vontade é como um motor que está ao nosso dispor. O combustível está dentro de nós. Abastecer ou não o motor depende só de nosso querer.” (Hélio Ribeiro Loureiro, advogado)

Fome de verdade – “Sem um maior discernimento constroem-se trilhas de dores do amanhã; isto porque, deveriam esses espíritos cuidar dos processos maléficos, admitidos na anterioridade, com o fim de exterminá-los, e não dar a essas energias caráter principal e promovê-las em envolvimentos maiores”. (Roberto Vilmar Quaresma, expositor)

Das 25 fomes pesquisadas, escolhemos as acima explicitadas. Deixando para os leitores amigos a tarefa de meditar sobre as demais, lendo e relendo o livro organizado pelo Marcelo Teixeira, balizamento ótimo para quem deve usar a mente e o coração quando se trata da divulgação das mensagens redentoras do muito amado Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.

PARA EFETIVAS ENXERGÂNCIAS

1. Contendo uma quase completa biobibliografia do autor, o Bê-a-Bá de Pernambuco de Mauro Mota está repleto de notáveis apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos?

O livro de Mauro Mota faz justiça histórica ao nosso passado. Diz ele, sempre comprovando com referências e dados, que Pernambuco ostenta inúmeros pioneirismos em relação ao Brasil: a primeira igreja, a de São Cosme e São Damião, em Igarassu; o primeiro estudo científico de história natural de uma região; o primeiro observatório astronômico; o primeiro zoo-botânico; o primeiro drama representado em teatro público; a primeira cidade do continente a ter um plano de urbanização; os primeiros sobrados de sete andares; a única ponte giratória; a primeira assembleia legislativa, a câmara dos escabinos, criada por Maurício de Nassau. No Bê-a-Bá poderemos constatar como nós utilizamos palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, angu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. O livro trata com muito carinho da mais importante revolução do Brasil colonial: a Revolução Pernambucana de 1817. Sentimento nativista repleto de batinas rebeldes, comandado pelos freis Arruda Câmara e Caneca, dois carmelitas, capazes de meter carreira em diabo metido a besta, ambos com aquilo roxo de dar a maior inveja nos desapetrecados. Mas também não esqueceu Mauro do papel desempenhado pelo Clube do Cupim, reduto de abolicionistas. E não se descurou o poeta de analisar o rosismo, os borbistas e os dantistas, além do fenômeno do cangaço, desde o banditismo mais cruel até o pitoresco, lembrado por ele, quando da ocasião da visita de parente e amigo a um que se encontrava recolhido à Casa de Detenção:

– Pruquê os sordados te pegaro, cumpadre ?

– Injustiça, injustiça. Misera dos homem, cumpadre. Matei cinco pro coroné, não me aconteceu nada. Pru caso do primêro que matei pra mim, tou aqui.

2. Empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação brasileira de bancarrota, sempre se assessorando dos melhores talentos, eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

3. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil e uma maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse, que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os níveis de desemprego se agigantam e os “bicos” tornam-se mais escassos, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e autoritarismos messiânicos, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.

5. Para toda sociedade elitista e autofágica, alguns provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã menos truculento: “Antes prevenir do que remediar”, “Para grandes males, grandes remédios”, “O barato sai caro”, “Do prato à boca, perde-se a sopa”, “Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e existência, recomenda-se ainda as seguintes advertências: “Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá”, “Quem o alheio veste, a praça o despe”, “O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que “Quem come a carne que roa os ossos”, posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

6. Outro dia, me deparei com um testemunho pra lá de inacreditável. Um jovem intelectualmente superdotado, atlético nos seus vinte e tantos anos, declarava que passava inúmeras vezes por medíocre para evitar a rejeição social. A super dotação destruída pela caretice social!! Pelos bundões quase-ricos que arrotam prepotência, confundindo sexualidade com genitalidade assentada em modernos celulares e troços mil capazes de metamorfosear seu indisfarçável jeitão primata. Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. E pouco a pouco vamos percebendo, todos os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam ninguém. Nem caciques nem tupiniquins. Tampouco fiéis e ateus. Necessário apenas não deixar para amanhã o que se pode alertar hoje. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, estou convencido. Um dia, breve embora não muito ainda, a maturidade da convivialidade comunitária chegará. Aí todos perceberão que somente sobreviverão se todos agirem como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando a cartilha dos seus direitos e dos seus deveres. Quem sobreviver, vivenciará.

PARA SER BOM SEMEADOR

Conhecido de longa data, tempos de juventude, chegou em nossa casa quase se borrando todo de medo. Tinha sido convidado para fazer uma palestra numa determinada associação kardecista, com tema escolhido pelos dirigentes, e se encontrava desapetrechado de um mínimo organizacional, posto que se considerava integralmente atordoado com o tempo curto dado para preparação.

Embasado numa sintonia fraterna de muitos anos, convidei-o para ler comigo Mateus 13,1-9, uma parábola contida também nos dois outros evangelhos sinópticos. Finda a leitura e um suco bem gelado de maracujá, principiamos um papo sem ansiedades, a calma surtindo os eflúvios indispensáveis para uma troca de experiências. E confessei ao Nino que sua ansiedade não estava fora dos limites de uma realidade brasileira, onde novos expositores estão rareando em todas as áreas humanas, cada centro espírita devendo se preocupar em inserir em sua programação anual umas boas horas de capacitação para exposições convincentes, que façam jus às mensagens oferecidas pelo Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. E nos demos uma semana de prazo para encontrar um bom manual técnico orientador capaz de nos proporcionar uma segurança expositiva que oferecesse alicerces cognitivos para exposições sedutoras.

Prazo semanal vencido, nova reunião, a Sissa e eu oferecemos ao Nino um texto encontrado na Livraria do 13º SIMESPE, por nós considerado de excelente nível didático: Novas Técnicas de Expositor Espírita, Cristiano Portela, Capivari – SP, Editora EME, 2018, 208 páginas. Num tempo auspicioso como o atual, quando cresce o entusiasmo pela melhor compreensão da Doutrina Espírita através dos mais diversos meios midiáticos, infelizmente não estamos testemunhando o aparecimento de expositores e oradores espíritas que satisfaçam tão abençoado crescimento, efetivando uma comunicação convincente nos diversos Centros Espíritas espalhados pelos quatro cantos de um Brasil considerado “a Pátria do Evangelho”, a necessitar de mais “enxergância” sobre as mensagens do Senhor Jesus, que exige uma capacitação continuada, típica das Oficinas para Formação de Expositores Espíritas, já existentes em alguns estados brasileiros, de resultados altamente positivos, favorecendo os alicerces necessários para os indispensáveis pedagogos espíritas, tal e qual a parábola do semeador – Mateus13,1 – que serve de porta-bandeira ao texto acima citado.

O livro do Cristiano Portela possui o seguinte sumário: 1. A procura de uma razão; 2. O poder e a responsabilidade sobre a palavra; 3. Orador: um encantador de pessoas; 4. Expositor: um pedagogo espírita; 5. Como formar um expositor espírita; 6. O receio de falar em público; 7. Quem são nossos ouvintes; 8. Todas as histórias já foram contadas: a escolha do tema; 9. Apanhe uma ideia; 10. A escolha do título; 11. Um plano de trabalho; 12. A fase da pesquisa; 13. Como fazer a pesquisa; 14. O texto resultado da pesquisa; 15. Referências e citações; 16. Estrutura de uma exposição; 17. A força de um Power Point; 18. Layout, cores, estética e outras questões visuais; 19. Mais um pouco sobre o projeto visual; 20. A prática leva à perfeição; 21. Técnicas de apresentação; 22. Outros cuidados; 23. Rudimentos do processo ensino-aprendizagem; 24. Jesus, Kardec e a pedagogia espírita; 25. Para não dizer que “só” falei de flores; 26. Regras para uso da tribuna espírita.

As razões do livro do Cristiano se encontram na quarta capa e é de uma logicidade incomparável: “Um dos principais trabalhos da casa espírita, a palestra transmite o conhecimento existente na doutrina. Justamente por isso, ela deve ser entregue a pessoas preparadas doutrinariamente. Na falta de pessoas com este perfil, as casas espíritas acabam recorrendo a voluntários. Estes, se esforçam para realizar a tarefa da melhor forma possível, mas por serem frágeis didaticamente, se repetem muito, sempre apresentando os temas com interpretações pouco elucidativas. Como a questão preocupava Cristiano Portella, ele criou um roteiro de trabalho para a formação de expositores espíritas preparados e firmemente lastreados, prontos para o trabalho de divulgação do espiritismo.”

Seria oportuno por derradeiro que as Federações Estaduais incentivassem a instituição de Mocidades Espíritas Doutrinárias, movimentos capazes de multiplicar propagadores capacitados do kardecismo, favorecendo a emersão de expositores aptos para seguir adiante no desenvolvimento do Espiritismo Mundial, favorecendo trabalhadores que alicercem o pensar kardecista em jovens e adultos, ampliando a emersão de novas práticas criativas, como embasadas no livro Pedagogia Espírita, J. Herculano Pires, São Paulo, Edicel, 1985, editado após desencarnação do notável pensador. Evitando a proliferação de autores espiritualistas desinformados, sem domínio de uma pedagogia do convencimento libertário capaz de satisfazer as necessidades de mais Regeneração e de muita Luz.

O Cristiano Portella revela que São Clemente, pelos anos de 96, em Roma, já proclamava, a necessidade de uma educação cristã, preocupação já sentida por Paulo Apóstolo, em sua 1ª. Carta aos Coríntios: “Minha mensagem e minha proclamação não se formaram de palavras persuasivas de conhecimento, mas constituíram-se em demonstração do poder do Espírito.” (2,4-5).

Que toda Mocidade Espírita apreenda cada vez mais o que escreveu, sob inspiração, Allan Kardec, em janeiro de 1862: “O verdadeiro espírita não é o que crê nas manifestações, mas aquele que aproveita do ensino dado pelos Espíritos.” Que os Centros Espíritas brasileiros saibam favorecer o crescimento dos talentos kardecistas dos amanhãs nacionais, favorecendo a emersão de cenários para novos Chico Xavier, Divaldo Franco, Haroldo Dutra, J. Herculano Pires, Bezerra de Menezes, consolidando os alicerces da nossa muito amada “pátria do Evangelho”.

APONTAMENTOS SILVÍNICOS

1. Todo reinício de semestre serve para se redimensionar ações, atitudes e comportamentos, principalmente às vésperas de eleições significativas como as de outubro que vem. Reestruturar é o verbo mais conjugado, ainda que uma minoria prossiga conjugando-o num modo sempre amanhã, como se o agora jamais fosse necessário.

Recordações mil, espocados os últimos foguetes juninos, espelham compromissos devidos e omissões cometidas, os primeiros sempre ineficazmente cumpridos em prol dos mais desassistidos, fiéis de uma balança chamada segurança coletiva. Releituras de um pretérito infaustamente ainda presente revigoram interiores carcomidos pelas decepções e desalentos cívicos: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas” (Celso Furtado ).

Percebe-se , sem qualquer esforço, que a sociedade civil brasileira, hoje cambaleante entre uma expressividade comodista e uma politização impotente, necessita revigorar-se, como alicerce, para uma nova edificação estrutural, a chicotada do australiano Robert Hughes, consagrado crítico de artes da revista Time, sendo mais que oportuna: “A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real”.

2. Uma parábola judaica exemplifica bem como se pode sair do atual bulício nacional. Servirá para os portadores de anéis e dedos que se encontram tonteados, sem saber por onde começar. Mais ou menos é essa a versão: um homem de classe média, profissional liberal, remediado, temente a Deus mais por covardia que por princípio, saiu para uma caminhada na floresta e nela se perdeu. Vagueou horas sem fio, tentando encontrar a saída para o seu sufoco. Para onde ia, nada encontrava. De repente, deparou-se com um outro ser humano. E perguntou de bate-pronto: “Você pode me mostrar o caminho de volta à cidade, pois tenho que receber uns aluguéis ainda hoje, depositando-os de imediato para render alguns porcentos?”. A resposta do outro o intrigou: “Também estou perdido. Mas podemos juntos ajudar um ao outro”. Diante do abismamento provocado, a conclusão recheada de muita esperança: “Vamos agir em conjunto. Cada um pode dizer ao outro os rumos que já tentou e que não deram certo. Certamente isto nos ajudará a encontrar o caminho correto”.

Juntemos as nossas migalhas de esperança. Todos, sem distinção, desarmadamente. Vejamos os caminhos percorridos e que a ninguém já não mais satisfazem. E verifiquemos quais as forças que ainda nos restam, mormente as que fundeiam a dignidade nacional, para que possamos ingressar em novos amanhãs sem humilhação de espécie alguma.

3. Diante de um quadro nacional violentado por acontecimentos que amorteceram os ânimos cívicos de milhões, vale a pena difundir alguns balizamentos que minimizariam os efeitos funestos das iniciativas de alguns atoleimados. Até as eleições de outubro vindouro, ouviremos promessas mirabolantes, declarações bombásticas, denúncias estapafúrdias, histerismos tridentinos e coisas outras que tais. Tudo para angariar adesões dos descidadanizados.

Ouviremos falar em inflação zero, em redentores esticamentos do São Francisco para matar a sede de milhões de sofridos irmãos nordestinos e na defesa radical da intocabilidade de setores produtivos públicos, daqueles que privilegiam “diferentes”, sempre avessos à salutar fiscalização democrática da sociedade civil. Emergirão esfuziantes defensores dos fracos e dos oprimidos, inúmeros deles oriundos de entidades que “fingem” lutar pela erradicação da miséria e da injustiça social, com isso assegurando polpudas remunerações, a maioria delas advindas da generosidade estrangeira não terceiromundista.

Veremos candidatos com criancinhas de colo, outros cercados de eleitores devidamente apetrechados com quentíssimas “palavras de ordem”. E pretendentes com esposas e filhos em fotografias de sofá grande, domingueiramente paramentados. Os mais piedosos, rezando e pedindo a Deus pela paz e felicidade … deles, nas urnas. Outros divulgando listas de entusiásticas adesões e confraternizações com gente humilde, se possível da classe mais desdentada possível.

Por outro lado, complementando o cenário da disputa eleitoral, o festival de denúncias será antológico, tudo devidamente ampliado pelos meios de comunicação menos independentes. Um parrapapá esculhambatório de fazer inveja aos mais especializados escandalizará gregos e troianos.

Para apimentar o caldeirão eleitoral, também pintarão no pedaço dois personagens por demais conhecidos dos mais experientes: o messias e o anselmo. O primeiro, prometendo mundos e fundos. O segundo desejando ver o circo pegar fogo, para nas chamas se esvair a nossa incipiente trilha democrática, edificada por milhares de abnegados. O primeiro, pau-mandado de graúdos, se encarregando de “sujar” tudo que não se encontram sob os tacos dos seu amos, do lado de lá ninguém prestando. O segundo, sempre aparentando ser o mais revolucionário, o mais gota serena, sem jamais transparecer estar a serviço de retrocessos bestiais. Dois manjadíssimos filhotes bastardos de gorila, desservindo à cidadania brasileira.

O jornalista Gilberto Dimenstein, escreveu o livro COMO NÃO SER ENGANADO NAS ELEIÇÕES, oferecendo “dicas”, Eis algumas, escolhidas ao acaso: 1. Eleição é assunto sério; 2. Devemos manter sempre uma atitude crítica; 3. Só aprende quem tem dúvidas: 4. O fundamental é desconfiar; 5. Quanto mais seguro e preparado, mais claras são as ideias do indivíduo: 6. Tentar aprender com outras pessoas é uma demonstração de inteligência; 7. Apenas os desinformados e os tolos caem no conto da varinha mágica; 8. Mais cedo ou mais tarde os truques mandam a conta; 9. Uma das melhores formas de aprender é errar; 10. Desconfie, mas desconfie mesmo, dos donos da verdade, de gente que imagina saber tudo.

Regras de ouro para quem deseja assegurar a futura governabilidade nacional, sair de um atoleiro social de muitos anos, neutralizar as histerias dos cavilosos e contribuir para a aceleração do país na direção de estruturas menos aviltantes. Sempre com as duas mãos e o sentimento do mundo, como proclamava o poeta.

PS. Hoje, 13, meu pai saudoso faria 100 anos!! Mas na Casa do Pai ele está a nos proteger sempre!!

RECORDANDO CHICO XAVIER

Tive a oportunidade de ver e aplaudir Chico Xavier na PUC-RJ, em 1973, quando fazia minha pós-graduação na então Cidade Maravilhosa. E mesmo aderindo à Doutrina Espírita muitos anos depois, jamais deixei de acompanhar as andanças do excepcional médium mineiro, tornando-me aferrado admirador de suas escritas, daqui e d’além.

A última leitura sobre o médium mineiro foi Trinta Anos com Chico Xavier, de Clóvis Tavares (1915-1984), São Paulo, IDE, 7ª. edição, 2008, 288 páginas. E é o próprio autor que revela, na Introdução, a razão maior de não biografar o médium mineiro: “Há muitos anos, numa de minhas habituais estadias em Pedro Leopoldo, onde, então, nosso Chico Xavier residia ainda, manifestei ao distinto amigo Dr. Rômulo Joviano, seu chefe de serviço e diretor da Fazenda Modelo, enquanto percorríamos os arredores da Inspetoria Regional, meu desejo de coletar dados, alguns aliás já reunidos, a fim de organizar um pequeno estudo sobre a vida e obra mediúnica do venerando missionário. Nossa conversa, naturalmente, se estendeu ao conhecimento de Chico. Foi, então, que percebi, numa nova dimensão, a legítima humildade de sua alma verdadeiramente cristã, com que delicadeza, recordo, o Chico me fez prometer que não mais pensaria nessa empresa, assinalando, com palavras de tocante modéstia, a sua desvalia espiritual, ao mesmo tempo, que indicava os nossos Benfeitores da Espiritualidade Superior como os únicos portadores de merecimento pelo trabalho dos seus livros psicografados. Multiplicou considerações sobre a ausência de méritos pessoais seus e ilustrou, comovidamente, a bondade, a sabedoria, o devotamento de Emmanuel e dos seus companheiros de Vida Maior.”

O Clóvis Tavares definia Chico como “uma vela que ardia, alumiando a todos e se consumindo a si mesma, em sublime oferenda de amor e sacrifício. Ele mesmo, todavia, não percebe isso, nem dá tento dessa verdadeira e contínua imolação, a lembrar o verso de Walt Whitman: ‘Quando dou, dou-me a mim mesmo’”. E o próprio Chico ratificava sua dedicação, afirmando, sempre sorridente, que nos serviços atinentes aos campos da Doutrina Espírita, não havia lugar para “emanuelismo”, nem “chiquismo”, nem “clovismo”, mas apenas para o Espiritismo, bem sentido e sinceramente aplicado. E concluía sempre: “Para quê, meu bom amigo, falar acerca de um graveto que se confunde com o pó?” Finalmente, em 5 de dezembro de 1964, em Uberaba, Chico Xavier concordou com um livro sobre suas iniciativas, “desde que se trate de uma seleção de fatos, de um depoimento em favor da nossa Doutrina!”

Após concluir os exames vestibulares no Rio de Janeiro, 1932, Clóvis Tavares passa alguns dias em Campos, quando se depara, numa livraria o livro “Parnaso de Além Túmulo”, o primeiro livro psicografado do Chico Xavier. Livro não adquirido diante dos apertos financeiros de estudante pobre. Somente em 1935, Tavares lia os primeiros versos do “Parnaso”, transcritos numa muito modesta publicação doutrinária do Grupo Espírita João Batista, à época sediado na Avenida Sete de Setembro.

Até então, Tavares ainda não tinha conhecido Chico Xavier e se esmagava diante do mistério da morte, principalmente após perder sua noiva, considerada “o anjo tutelar da sua existência”. E se desesperava frequentemente, pedindo aos céus auxílio para sua incredulidade, relembrando vez por outra, a cura de um menino possesso feita pelo Galileu, conforme narrado no Evangelho de Marcos 9,23-24. Até que um dia lhe presentearam um modesto folheto sobre Espiritismo, onde numa das páginas estampava uma quadra de Guerra Junqueiro publicada no “Parnaso”. A Providência Divina tinha lhe socorrido, posto que Guerra Junqueiro era um dos seus poetas prediletos, dado o sentido libertário dos seus versos, revivido para ele na psicografia de Chico Xavier, um ilustre desconhecido até então.

O primeiro livro psicografado do Chico Xavier, ratificaria para Clovis Tavares o pensar do Homão da Galileia “o vento sopra onde quer e ouves sua voz”, a Misericórdia do Alto chamando-o à Vida, afastando-o das sufocações das dúvidas e as angústias desesperadoras das incertezas. Segundo Clóvis, “foi a certeza da Imortalidade, a visão íntima, intuitiva, mas experimental, pela leitura das poesias do ‘Parnaso’, de que a vida não tem ponto final no silencia dos túmulos. De que a morte, como já sentiam os velhos romanos, era realmente a porta da Vida”.

Recomendando a leitura das recordações de Chico Xavier elaboradas pelo Clóvis Tavares, aproveito a oportunidade para incentivar aos ainda desatentos de uma racionalidade cristã contida na Doutrina Espírita a ler o primeiro livro psicografado por Chico Xavier, Parnaso de Além Túmulo: poesias mediúnicas, 19ª. edição, Brasília, FEB, 2016, 737 páginas, contendo mais de 200 poemas editados por 56 poetas brasileiros e portugueses, um magnífico manual de mensagens psicografadas por um dos maiores e mais respeitados divulgadores da Doutrina Espírita do mundo, à época um jovem de apenas 22 anos. Uma obra que me foi presenteada um dia pela amada Sissa com a seguinte dedicatória: “Para Benhê, uma obra para consolidar seus estudos na doutrina espírita. Com amor.” Um livro que me transformou num leitor assíduo das reflexões kardecistas, sempre na condição de um muito humilde aprendiz de tudo.

PS. A abertura do 13º SIMESPE, sexta-feira, no Centro de Convenções foi grandiosa. E a mensagem do Divaldo Franco , uma vez mais, encantou. Um médium muito arretado de ótimo!!! Programação exclente

ESCRITOS DE UM NOTÁVEL

Confesso, sem qualquer interesse de propagandear, que gostaria muitíssimo de encompridar minhas horas de leitura, passando por cima de algumas obrigações profissionais com instituições que me acompanham há muitos anos. Daí o dever de escolher bem as páginas que serão lidas, subdivididas em “de lazer”, “de aprimoramento técnico”, “de ampliação cognitiva da Doutrina Espírita” e “de atualizações conjunturais”, quase sempre de duração correlata às minhas necessidades momentâneas.

Outro dia, pouco antes das festividades juninas acontecidas na propriedade de uma prima muito querida, a Trudinha, obrigatoriedade de presença anual, dada ser um evento arretadamente ótimo, com muito forró ao vivo, papos descontraídos, muito milho cozido e uns “guaranás” diferenciados, iniciei a leitura de um livro que me foi enviado de Belo Horizonte, MG, de leitura sedutora por derradeiro. Estudos e crônicas, Hermínio C. Miranda (1920-2013), Brasília, editora FEB, 2013, 378 p. Um livro de contracapa sedutora: “A partir de encantadoras crônicas, de leitura fácil e envolvente, Hermínio C. Miranda aborda passagens evangélicas, expõe a confirmação dos princípios básicos nas doces palavras do Mestre Jesus e tece sabiamente temas como reencarnação, regressão da memória, terapia do futuro, relacionamento, mediunidade, sonhos proféticos, dramas e outros.”

O livro do Hermínio é dividido em oito partes: 1. Doutrina Espírita; 2. Evangelho; 3. A maldição dos faraós; 4. Mediunidade; 5. Paulo de Tarso; 6. Reencarnação; 7. Relacionamento; e 8.Regressão de memória.

Também merecedora de muitos aplauso, ainda de Hermínio C. Miranda, a base da parte 4 – Mediunidade, do livro citado acima, o estudo teórico Diversidade dos Carismas: teoria e prática da mediunidade, São Paulo, SP, Lachâtre, 2006, 508 p., constituído de três módulos distintos: um destinado a documentar problemas básicos enfrentados pelos médiuns, o segundo analisa aspectos mais relacionados com o animismo, e o terceiro se prende a mediunidade em si, seus aspectos mais fundamentais. Na Introdução, o próprio Hermínio estabelece as finalidades do seu livro: “Se as observações e experiências contidas nestas páginas forem de utilidade a alguém, sentir-me-ei encorajado a me apresentar, um dia, aos meus queridos mentores como aquele obreiro – de que falou Paulo a Timóteo (II Timóteo 2,15) – que ‘não tem de que se envergonhar’ do trabalho realizado.”

Por fim, insatisfeito com doutrinas filosóficas, científicas e religiosas que propunham resposta alguns dos seus questionamentos, Hermínio C. Miranda resolveu explorar o território ideológico do espiritismo a partir de um roteiro solicitado por amigo de longa data. E publicou o livro Alquimia da Mente, Bragança Paulista – SP, Editora 3 de outubro, 2010, 311 p., temas densamente pensados, onde ele propõe um honesto conchavo com seus leitores. No livro, HCM pesquisa o psiquismo na matéria, estuda cérebro e mente, consciente e inconsciente, alquimia e gnose, apresentando reflexões e propostas conclusivas diante da questão ser e estar, buscando estabelecer significado para “intelectualizar a matéria” (Kardec), “pensar a matéria” (Bergson) e “buscar o psiquismo através da forma” (Chardin). E ressalta, em suas linhas finais: “Não desejo fazer pregação – embora nada tenha contra isso, pelo contrário. Este livro não é um apelo, um libelo e nem uma advertência – é apenas uma dissertação linear sobre a alienação em que vivemos, por estamos divididos não com relação aos outros, mas dentro de nós mesmos. O recado, certamente, tardio é também incômodo e, sem dúvida, quixotesco. Sonho com a expectativa de que possa servir a um ou outro leitor ou leitora mais atentos. Como dizia um verso da cançoneta de South Pacific, se a gente não sonha, como é que os nossos sonhos vão se realizar? Quando é que a gente vai começar a viver numa comunidade consciente de que apenas estamos num corpo físico, mas que somos seres espirituais imortais e com o passaporte cósmico carimbado, desde as nossas origens, para os elevados patamares da perfeição?”

Os estudos de Miranda também incluíram um roteiro pioneiro intitulado A memória e o tempo, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2013, 328 p., já em 8ª. edição àquela época. No livro, ele “utiliza a técnica da regressão de memória pelo magnetismo como instrumento de exploração dos arquivos indeléveis da mente, ali depositados desde remotas experiências.” No suas experiências, Miranda reavalia as pioneiras experiências de Albert de Rochas, reexaminando ainda a doutrina freudiana, diante dos conceitos de reencarnação e sobrevivência. Uma leitura pra lá de indispensável para quem tem interesse em esmiuçar os escaninhos da mente humana, através da natureza da psique. Depois de uma Introdução, o livro é composto de oito partes: 1. As estruturas, 2. A dinâmica; 3.Visão retrospectiva; 4. Albert de Rochas e suas experimentações; 5. Freud; 6. Experiências e observações pessoais; 7. A reencarnação como instrumento terapêutico; 8. Reflexões de um leigo. Além de um posfácio, onde são explicitadas novas considerações e conotações éticas, como doutrinadores e pontos de maturação cármica, além de pontos fundamentais sobre teoria e culpabilidade.

Decididamente, estudos, pesquisas e crônicas de um talento brasileiro estupendamente ótimo!!

ASSUNTOS CONVERGENTES

PRIMEIRO

Acontecerá no próximo mês de agosto, 3 a 5, o 13º SIMESPE – Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco, que acontecerá no Teatro Guararapes do Centro de Convenções de Pernambuco, sob tema Espiritismo – Da Ciência à Religião, da Filosofia aos Desafios Atuais da Humanidade. Com todos os ingressos já vendidos, dada a qualidade dos seus palestrantes, inclusive o atualmente maior médium brasileiro, Divaldo Franco.

Na exposição de vendas de livros do Simespe, estará presente o mais recente do médium Divaldo Franco, intitulado Luz nas Trevas, Salvador, LEAL, 2018, 200 p., psicografado do Espírito Joana de Ângelis, que também efetiva a Apresentação, de onde extraímos os seguintes trechos:

“Desde o início da Era Industrial, as criaturas humanas pensaram que a conquista tecnológica e a substituição da mulher e do homem pelas máquinas dar-lhes-iam dignidade, ao mesmo tempo que lhes ensejaria mais tempo para a cultura, o repouso, a convivência social.”

“Apesar das indiscutíveis e fantásticas aquisições, têm sido inevitáveis as agressões à Natureza, o grave problema do lixo nuclear, a poluição da atmosfera, dos rios e dos mares, o desmatamento perverso, o crescente aniquilamento de espécies de vida e as guerras insanas que atormentam a Humanidade.”

“O homem continua ‘lobo do homem’, no seu desvanecimento incontrolado, e os fantasmas do desespero ameaçam países de miséria irrecuperável, enquanto outros navegam nos mares do desperdício e da extravagância.”

“As religiões, por sua vez, em grande número, para estarem de bem com as massas aturdidas, substituem o Reino dos Céus pelos lucros da Terra, cultivam e estimulam o desplante de negociar com Deus, em espetáculos ridículos de fé orquestrada pela presunção e disparates típicos da sociedade em decadência.”

“Nosso modesto livro é um grito, um apelo à penetração da luz na escuridão das almas e do ambiente, objetivando contribuir com pequenas propostas psicoterapêuticas, oferecidas pelo Espiritismo, na interpretação do Evangelho de Jesus, o Homem-Luz, que ainda confia em nós e nos ama.”

Decididamente, o livro acima é uma texto-convite, onde somos convocados à auto iluminação e ao auto encontro através de procedimentos psicoterápicos embasados nos ensinamentos do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador e da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec.

SEGUNDO

De uns tempos para cá associado sou do GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania, uma organização sem fins lucrativos, sediada em Divinópolis, Minas Gerais, que tem como visão institucional “promover o desenvolvimento do Ser em sua plenitude, considerando todas suas dimensões, direitos e deveres, contribuindo para a harmonia das relações consigo mesmo, com o outro e com a natureza”. E seu selo editorial Ethos Editora lançou, em 2014 e 2017, em dois volumes, A Ética de Jesus, onde se analisa, respeitando-se o nível de apreendência de cada um, os ensinamentos do Mestre Galileu esclarecidos pela Doutrina dos Espíritos, onde algumas polêmicas ainda persistem até os tempos de agora, muito embora todas elas não sejam mais relevantes, interessando apenas aos especialistas em quase coisa alguma.

Os balizamentos do Mestre Jesus, devidamente esclarecidos pelos Doutrinadores apontam para a existência de um equilíbrio notável entre as duas realidades da vida imortal, a encarnada e a desencarnada. Os versículos foram estudados pelos integrantes do GEET, observando uma sequência temática e cronológica dos evangelhos. Cada capítulo dos volumes editados constitui-se de três partes: a narrativa evangélica do texto, resumo dos comentários e reflexões efetivados durante as reuniões semanais do Grupo, e a mensagem de um ou mais Espíritos , psicofonicamente identificados como “amigo espiritual”. Tais partes tornam os volumes acima únicos e peculiares em língua portuguesa, dada sua característica sábia e transcendental que fermenta as reflexões efetivadas.

Os dois volumes me foram citados pela amiga-irmã Ruth Cardoso, uma das responsáveis pela divulgação editorial do Clube do Livro da Ethos Editora (37-3222-3163, av. 21 de abril 122, Centro Divinópolis/MG, CEP 35.500-100, e-mail comercial@geec.org.br) .

Para atender a curiosidade de muitos, sobre os objetivos que levaram o Grupo a concretizar um projeto de envergadura pioneira, ressalte-se uma única alternativa: a inspiração provocada pelos orientadores espirituais, fomentadores das energias necessárias para a concretização de uma iniciativa muito aplaudida por milhares, Brasil afora.

Na Apresentação está ressaltado: “Desejamos que este livro possa mostrar os ensinamentos do Mestre em sua essência, o cerne das lições, contextualizado, o que Ele deseja transmitir aos homens: os valores renovados e atualíssimos do ‘Reino de Deus’ que ‘está dentro de nós’. Em síntese: comover o amigo leitor, da mesma forma que fomos a refletir sobre o processo da nossa evolução espiritual. Nosso desejo é que esta obra alcance os seus objetivos e que Jesus abençoe as nossas intenções.”

Inicialmente, o livro primeiro traz uma Introdução, onde algumas palavras são empregadas, caracterizando o estado dos costumes e da sociedade judia daquela época, as quais foram mal interpretadas no decorrer dos séculos gerando incertezas e atordoamentos. As palavras que merecem uma explicação são as seguintes: samaritanos, nazarenos, publicanos, peageiros, fariseus, escribas, sinagoga, saduceus, essênios e terapeutas. Ressaltemos algumas delas, a título de exemplo:

Samaritanos – Após cisma das dez tribos, Samaria tornou-se a capital do reino dissidente. Era uma das quatro divisões da Palestina, tendo sido embelezada por Herodes, denominado o Grande. Eles sempre estiveram em guerra com os reis de Judá, os dois povos tendo entre si uma aversão profunda. Os samaritanos somente admitiam o Pentateuco. Para os judeus ortodoxos, eram considerados heréticos. Eram os protestantes da época e só se casavam entre si.

Nazarenos – Judeus que faziam votos por toda vida. Adotando a castidade e a abstinência de álcool, não cortando cabelos. Sansão, Samuel e João Batista eram nazarenos. Mais tarde deram esse nome aos primeiros cristãos, por alusão a Jesus de Nazaré.

As demais identificações apontam para uma sociedade pluralista à época do Rabi da Galileia, com a sua Mensagem que revolucionou o planeta.

Numa conjuntura brasileira de incontáveis bandalheiras, mil e uma hipocrisias e uma sociedade que pouco se respeita, vale a pena ler os livros acima, atentando-se para uma conversão interna na direção da Luz do Amor.

SOBRE JOÃO SILVINO DA CONCEIÇÃO

Para satisfazer a curiosidade de muitos, inclusive ex-colegas de universidade, torno pública mais uma vez a identificação do João Silvino da Conceição, este amigão de muitas décadas, companheiro inseparável de danações, reflexões, gozações e coisas que tais, cuja alma é irmã gêmea da minha. O JSC é nascido no interior do Rio Grande do Norte, em Currais Novos. Semialfabetizado, três casamentos, oito filhos, seis vivos e dois anjinhos, o Silvino demonstra ser possuidor de uma energia incomum, uma vontade férrea de ser cada vez mais nordestinamente brasileiro. Suas histórias, não raro, são reproduzidas em ambiente onde prepondera o diálogo consciente, com muita frequência regado a uma imensa rodada de “refrigerantes” pra lá de glaciais. As garrafas sempre acompanhadas de tacos de queijo de coalho na brasa e farofa de jerimum com carne de sol, num protocolo de deixar um gosto de quero-mais da gota serena em qualquer mortal pecador como a gente.

Tricolor quatro costados, João é pernambucaníssimo quando alguém daqui joga com uma equipe de fora. Em dia de domingo, sempre perambula pelos estádios de futebol, acompanhado da Dona Conceição, sua companheira de um bocado de tempo, sete arrobas bem distribuídas e com pouca elasticidade mamária, sessentona experiente, mente livre e língua sempre solta, nenhuma flacidez abdominal, muitos quilômetros bem rodados, serenidade espiritual lindona, sem as louracidades das pessoas artificiais que só raciocinam por onde não deveriam, sempre da cintura para baixo.

As amizades do Silvino são de uma fidelidade canina: Fininha, 120 quilos, tia da sua mãe, mexeriqueira de primeira grandeza, ouvidos e boca maiores que o bom-senso; Zefinha, arrumadeira de bom calibre, criada junto com o Silvino, tendo incentivado ele nas primeiras manobras homem-mulher, na garagem sem-carro que ficava no fundo do terreno residencial; Faguinho Silva, primo em grau bem distante, especialista em corar frade de pedra com historietas apimentadas, dado seu furor anti-puritanismo; Jean Louis, inteligência gerencial gota serena em corpo atlético ainda nos conformes, marido da Leninha, uma prestimosidade cristã pra correntista bancário algum botar defeito; Dodora, toda cheínha, zelosa especialista em educação de jovens e adultos, filha da Zima, uma sessentona que é virada num molho de coentro, dançarina, junina, carnavalesca, riso largo, sempre mandando à merda as fuxicarias do derredor; e Zulmirinha, morenona de cabelo bem espichado, irmã da Dona Conceição, mulher do Silvino, seios ainda em posição de sentido, apesar dos quatro sugadores nascidos, hoje duas parelhas de nordestinos de fazer gosto às mais oferecidas. Nunca esquecendo o Faustino boa-praça, olhos sempre antenados, vocação kardecista sem mesuras nem fricotagens. Nem a Sandrinha, com seus olhinhos fingidamente japoneses.

Com o João Silvino, usufruo um bate-papo semanal fraternal, nos quais as suas irritações travestidas de quase hercúlea resistência aos medíocres foram sendo gradativamente desativadas, substituídas, bem devagarzinho, por uma crescente confiança nos amanhãs de todos nós, hoje solidificada numa consistente convivialidade, enxotados para longe os aperreios do cotidiano e as cavilações puritanosas dos sósias e sócios do divino.

Uma conquista memorável, o consentimento do João Silvino da Conceição para acesso a um monte de cadernos de papel pautado de sua propriedade. As suas primeiras anotações datam de setembro de 1955, às vésperas das eleições presidenciais, quando ele ainda se deliciava na sua primeira lua-de-mel, nas Termas Salgadinho, uma temporada presenteada por um amigo de seu pai, agricultor de médio porte. As últimas notas são deste ano, os erros ortográficos e os de concordância, hoje, bem mais atenuados pelo exercício de um escrever quase diário.

Sistematizei alguns cadernos do João sem perda alguma do conteúdo. A intenção foi apenas, com uma certa disciplina arrumadeira, a de proporcionar aos amigos dele alguns instantes para um pensar recheado de muita nordestinidade, mesclando assuntos os mais diferenciados, numa conjuntura em que o sentimento regionalista não pode ficar relegado a planos secundários, nem a fúrias globalizantes.

De muita franqueza, sem os mas-mas dos fingidos bundas moles de olhinhos virados repletos de “ai-Jesus”, Silvino botou o dedo na ferida, recentemente: “Não adianta correr atrás dos pixotes que vendem papelotes estupefacientes disso ou daquilo. Vamos rasgar a fantasia da hipocrisia: em muitos lugares granfinos, é hoje chiquérrimo servir, em bandejas aquecidas, os pozinhos e os canudinhos indispensáveis para deixar animadão o ambiente, todo mundo ficando numa boa, alegre e serelepe, à merda a moral, os bons costumes, o fino trato e os gestos nobilitantes”. Por causa de dissabores familiares, teve até grandão metido a religioso que ficou com “cara de pum”, como dizia a Trude, prima muito amada, sobrinha querida dos meus eternizados pais.

Para os que se postam como “nunca-errados”, o Silvino tem opinião de bate-pronto: “Não sei respeitar as pessoas que não sabem reconhecer seus erros. São covardes, porta-estandartes de uma frouxidão que não é nordestina nem brasileira. Aliás, nem é digna da raça humana“.

Helderista de carteirinha, o Silvino não tolera ver os “imitadores” do eternizado Dom, aqueles que buscam aparentar ser, jamais efetivamente sendo. E cita sempre o saudoso arcebispo, para consolidar sua opinião sobre os que não são: “É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática“.

Intencionalmente, as anotações coligidas nos cadernos do João não obedecem a qualquer ordem cronológica. Mesclando apontamentos de épocas diferenciadas, procura-se, através de procedimentos integralmente não-científicos, manter a atenção dos seus escritos, evitando enfados desnecessários e abandonos precipitados.

A lição maior do João Silvino da Conceição, contudo, é para todos, pernambucanos e pernambucanizados que nem ele: que nós, imbuídos do mais acentuado instinto de soberania nacional, saibamos fazer a hora pernambucana, transformando propostas formuladas em ações concretas, percebendo que a História se edifica através de amplos procedimentos participativos, que exigem compromissos, desafios estruturadores e conscientizações comunitárias, a ninguém se permitindo o distanciamento das suas indispensáveis funções de sujeito.

POR AMOR A PERNAMBUCO (*)

Com muito orgulho torno-me, neste princípio de noite setembrina, Cidadão de Pernambuco. Agradeço de coração à Casa de Joaquim Nabuco o título concedido, aprovando iniciativa do ex-deputado estadual Djalma Paes, admiração pessoal de muitos anos, hoje atuante Secretário de Planejamento da Prefeitura da Cidade do Recife, proposta representada, nesta legislatura, pelo deputado Betinho Gomes, liderança política no Cabo de Santo Agostinho, onde Vicente Pinzon, num 26 de janeiro de 1500, conheceu terra brasileira, segundo ele “a terra de mais luz da Terra”, batizada de Santa Maria de la Consolacion.

Sou, a partir de hoje, também Leão do Norte, sem jamais menosprezar os rincões potiguares, Natal, onde nasci em tempos de Segunda Guerra Mundial, pai convocado, cidade às escuras, mãe atordoada por mil apreensões.

D’ora por diante, cada vez mais de Pernambuco, continuarei honrando hino, bandeira e história de um povo, admirando Joaquim Nabuco e Mestre Vitalino, Paulo Cavancanti e Frei Caneca, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, José Mariano e Dona Santa, Mauro Mota e Carlos Pena Filho, Nelson Ferreira e Capiba, Barbosa Lima Sobrinho e Gregório Bezerra, Paulo Freire e as mulheres de Tejucupapo, sempre presentes, nunca olvidados por seus ideários políticos, exaltações apaixonadas, bravuras libertárias, estudos sociais, carnavais, resistências e muita poesia. Todos eles dotados de extremado amor à gente pernambucana e à sua rebelde caminhada histórica, onde “corre o sangue de heróis rubro veio, Que há de sempre o valor traduzir”, em terras que são “fonte da vida e da história”, de um “povo coberto de glória, o primeiro, talvez, do porvir”.

Agradecendo a Cidadania Pernambucana, comprometo-me perante esta Casa, ícone maior do cenário político nordestino, a não me descuidar do desenvolvimento cultural de Pernambuco, divulgando, além do Recife, com seus rios e pontes, a feira de Caruaru, as carrancas de Petrolina, as rendas de Passira e de Pesqueira, as igrejas e os mosteiros de Olinda, o Circuito do Frio, o Forte de Itamaracá, o Maracatu de Nazaré da Mata, o artesanato de Bezerros, entre tantos outros exemplos de nossa gigantesca multiculturalidade, além do frevo Vassourinhas, de um clube carnavalesco por quem sou apaixonado.

Com a Cidadania Pernambucana, continuarei a renegar visões cavilosamente parciais e incompletas, por não assimilarem na devida conta os fatos e os feitos dos anos mais recentes, encarecendo a devida vênia para enaltecer, aqui e agora, o talento pernambucano na pessoa da economista Tânia Bacelar de Araújo, competência técnica e visão política a serviço de um Nordeste de gigantescas desigualdades econômicas e sociais.

Reproduzo, aqui, a reflexão de Charles Handy, um irlandês de infância debilitada como a dos pernambucanos menos afortunados, que soube, sem os coitadismos dos abobados, proclamar com propriedade: “Descobrir a sua própria inteligência é uma coisa. Aplicá-la é outra. Precisamos ser capazes de reconhecer e identificar os problemas e as oportunidades. Precisamos ser capazes de nos organizar e de organizar também as outras pessoas para que façam algo e precisamos ser capazes de nos sentar e refletir sobre o que tem acontecido para que possamos fazer tudo melhor da próxima vez“.

Estejam certos, senhores deputados, minha muito querida Melba, familiares e amigos aqui presentes, que continuarei a travar o bom combate, para a concretização dos sonhos que refletem a esperança de triunfo dos que lutam por Justiça e Paz.

Saio desta solenidade com o pensar voltado, e bem comprometido, com todos aqueles que rejeitam o Consenso de Washington, também combatendo o desprestígio da atividade política e a ditadura da política econômica. E nunca olvidando, como adepto de uma não-violência ativa, da proclamação feita pelo ex-presidente Salvador Allende, em sua carta de despedida ao povo chileno, poucas horas antes de ser assassinado pelos partidários da escuridão: “Em nome dos mais sagrados interesses do povo, em nome da pátria, tenham fé. A História não se detém nem com a repressão nem com o crime. Esta é uma etapa que será superada. Este é um momento duro e difícil. É possível que nos abatam, mas o amanhã será do povo, será dos trabalhadores. A humanidade avança para a conquista de uma vida melhor”.

Por fim, com a alma repleta de alegrias e saudades, reverencio um poeta Leão do Norte, João Cabral de Mello Neto, propositadamente não citado na relação anterior. No autor de Vida e Morte Severina, um auto de Natal que tem contribuído para melhor compreensão da realidade pernambucana, me inspiro nas palavras finais deste agradecimento, buscando segui-lo no ritmo dos seus versos:

Um grande poeta, o João Cabral de Mello Neto,
Que ama os Severinos de Maria,
jamais esquecendo o seu Recife,
o Recife dos rios e das pontes,
também Recife dos mangues e dos alagados,
dos caranguejos capturados
pelos meninos de rua, todo santo dia
que mamando leite de lama,
também são Severinos de Maria.

Severino de Maria
morador das periferias
da Mata até o Sertão,
que queria voar mais livre
e entender que liberdade
não é apenas uma calça comum e desbotada.

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INDAGAÇÃO INDIGESTA

Numa escola de ensino médio, turma de concluintes, uma professora de história resolveu perguntar aos seus alunos qual, na opinião deles, teria sido, nos últimos mil anos de história da humanidade, o século que mais sofreu mudanças. E deu uma semana para que todos pesquisassem à vontade em suas residências e computadores.

Na data de recebimento das respostas, um adolescente franzino, afrodescendente, riso franco, QI sem limitações jumentais deu uma resposta que despertou a curiosidade geral. Disse ele, que o Google teria informado que um livro recentemente lançado no Brasil poderia ampliar os horizontes analíticos de todos. E declinou, mostrando uma fotocópia do livro lançado: Séculos de transformações: em mil anos de história, qual século passou por mais mudanças e qual a importância disso, Ian Mortimer, Rio de Janeiro, Difel, 2018, 474 p.

Avisado pela querida docente, amiga minha de longa data, desde os tempos de Universidade Católica de Pernambuco, adquiri o livro dias depois. E eis que me deparei com uma leitura deliciosa, sem rebuscados típicos dos gerados em pé numa rede. Uma reportagem de alto nível, provocativa por derradeiro, que possibilita aos estudantes pré-vestibulares um adensamento cultural desburrificador, favorecendo a elucidação dos nossos ontens, alguns deles ainda bastante obscuros por censuras políticas e religiosas, que favoreceram obscurantismos analítico do acontecido com nossos ancestrais.

O EVANGELHO DAS RECORDAÕES

Indicado pela amiga psicanalista Valéria Pessoa, a leitura do livro das memórias do médium espírita Eliseu Rigonatti denominado O Evangelho das Recordações, SP, Pensamento, 2007, 252 p., contendo mais de 50 anos de caminhada embasada na Mensagem do Homão da Galileia, fortifica a fé de gregos e troianos, espiritualistas e espíritas, num aprimoramento moral em busca dos amanhãs cada vez mais luminosos. O Rigonatti esmiúça os versículos do Evangelho Segundo São Mateus, utilizando uma linguagem cristalina, sem eruditismos que a nada conduzem, a favorecer o proclamado pelo Senhor Jesus de que “as Suas palavras jamais envelhecerão”, nunca sendo olvidadas pelos que serão chamados de bem-aventurados”.

CRETINICES BRASILEIRAS

Já dizia uma propaganda famosa de cigarros que “brasileiro tem a mania de levar vantagem em tudo”. Além de o país ser o maioral do planeta em uma porrada de outros setores, que apenas encobrem uma ilusória superioridade que camufla inúmeras cretinices que integram o nosso cotidiano. Vejamos alguns dos nossos pecadilhos vexaminosos:

– Colocar autoria em trabalhos técnico-científicos que não efetivou;
– Inserir nome de colega que faltou em lista de presença, nas Universidades;
– Pagar para alguém fazer seus trabalhos escolares ou profissionais, inclusive dissertações de mestrado e teses de doutoramento;
– Saquear cargas de veículos acidentados nas estradas;
– Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas;
– Subornar ou tenta subornar quando é flagrado cometendo infração;
– Trocar voto por qualquer coisa, areia, cimento, tijolo, e até dentadura, quando não por alguns reais;
– Trafegar pela direita nos acostamentos, diante de qualquer mínimo congestionamento;
– Parar em filas duplas, triplas, em frente às escolas; prejudicando o fluxo normal do trânsito;
– Dirigir após consumir bebidas alcoólicas;
– Apanhar atestado médico sem estar doente, só para cobrir faltas no trabalho;
– Fazer “gato ” de luz, de água e de TV a cabo;
– Comprar recibo para abater na declaração de renda, objetivando para pagar menos imposto;
– Alterar declaração de cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas;
– Solicitar nota fiscal a maior, quando viaja a serviço da empresa;
– Comercializar objetos doados nas campanhas de catástrofes;
– Estaciona em vagas exclusivas para idosos ou deficientes;
– Emplacar o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA;
– Ao encontrar algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolvê-lo ao seu verdadeiro dono;
– Só cumprimentar quem é hierarquicamente superior;

UMA CONVERSÃO EMBASADA

A cada dia mais me convenço de uma coisa: muitos ateus assim se comportam diante das múltiplas embromações proclamadas por instituições que primam mais pela arrecadação do que pela convicção em prol de um Criador do Universo, induzindo milhões de pouco conscientes a crendices estapafúrdias dos mais variados calibres.

Recentemente li umas páginas escritas pelo diretor do Projeto Genoma. No livro A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe, Francis S. Collins, São Paulo, Editora Gente, 2007, 280 p., através de fundamentos técnicos e reflexões pessoais revela como abandonou o ateísmo, tornando-se cristão, por considerar plenamente viável a reconciliação e harmonia entre Deus e a ciência.

Revela Collins que o genoma é formado por todo o DNA de nossa espécie, sendo o código de hereditariedade da vida. Segundo ele, o primeiro rascunho do genoma humano possui um código de 3 bilhões de letras, escrito num código estranho e enigmático. Para se ter uma ideia, as informações contida em cada célula do corpo humano é tamanha e tão impressionante que ler cada letra dessa informação por segundo, dia e noite sem parar, levaríamos 31 anos. E se imprimíssemos tais letras num tamanho de fonte regular, em etiquetas normais, uma em cima da outra, teríamos uma torre de aproximadamente igual a um prédio de 53 andares.

Lamentavelmente, no mundo contemporâneo, encontramos pedras atiradas dos dois lados, por cientistas ateus evolucionistas e por fundamentalistas interpretadores ao pé da letra dos textos sagrados. E a análise é do Collins: “Meu argumento é que tais perspectivas podem coexistir em qualquer indivíduo, e de modo que enriqueça e ilumine a experiência humana. A ciência é a única forma confiável para entender o mundo da natureza, e as ferramentas científicas, quando utilizadas de maneira adequada, podem gerar profundos discernimentos na experiência material. A ciência, entretanto, é incapaz de responder a questões como ‘Por que o universo existe?’; ‘Qual o sentido da existência humana?’; ‘O que acontece após a morte?’. Uma das necessidades mais fortes da humanidade é encontrar respostas para as questões mais profundas, e temos de apanhar todo o poder de ambas as perspectivas, a científica e a religiosa, para buscar a compreensão tanto daquilo que vemos como do que não vemos”. E o livro ainda comporta um apêndice primoroso: a prática moral da ciência e da medicina, inclusive como a Bioética se fundamenta sobre os fundamentos da lei moral.

PITACOS & DESABAFOS

1. Confesso que às vezes tenho ímpetos de chutar o pau da minha barraca de ser humano comprometido com a mensagem do Homão da Galileia, mandando às favas ideário, brasilidade, nordestinidade, denominações religiosas, vontade de servir ao próximo, fidelidade e uma criticidade que não é às vezes bem vista nesta era hipermoderna, onde a sinceridade se encontra tolhida e recolhida até por alguns dignitários que deveriam ser também paulinamente loucos e escandalosos, deixando os cueiros só para os menos atentos ou ainda mentalmente desajustados. Mas logo volto a querer seguir adiante, pouco me lixando para as conversinhas lamuriosas dar dos frágeis de caráter, principalmente quando releio Harold Kusher, Nilton Bonder, Paulo de Tarso e Rubem Alves, inteligências a serviço do homem todo e de todos os homens, o primeiro sendo autor de uma notável reflexão-vacina: “Se o sentimento de nossa identidade depende da popularidade e da opinião que as outras pessoas têm de nós, estaremos sempre sujeitos a essas outras pessoas. A qualquer momento, elas poderão puxar o tapete sob nossos pés”.

2. Sempre busco definir o ser humano como um ser histórico, situado e datado, muito embora nunca acabado, constituindo-se numa metamorfose ambulante, como dizia o menestrel baiano Raul Seixas. Não é apenas um ser no mundo, mas um ser em permanente interação com os mundos, daqui e do além, modificando e sendo modificado, condutor e conduzido, mutante porque capaz de questionar e ser questionado, histórico porque livre. Daí a minha estupefação quando me deparo com pessoas amorfas, desejando ser bonzinho para com todos, olhos fixos nas vantagens, adepto das pompas bizarras e dos fingimentos porcalhões que escamoteiam os inevitáveis conflitos polissêmicos que emergem numa era de mutações ultrarrápidas. De pouca envergadura crítica, eles não se apercebem do que ensina o Eclesiastes: “Não dê atenção a todas as palavras que o povo diz, caso contrário poderá ouvir o seu próprio servo falando mal de você, pois em seu coração você sabe que muitas vezes você também falou mal de outros”. (Ec,7,21).

3. Usando a linguagem como espelho de sua própria historicidade, o ser humano a utiliza segundo diferenciados graus etários, níveis de renda e de escolaridade. Tal espelho também reflete a sua interação com o seu derredor, muito embora jamais possa retratar sua integral caminhada, posto que a linguagem nunca se estabiliza, dado o surgimento de novos condicionamentos linguísticos, aceleradas mutações cenariais e a emersão de experiências antes nunca havidas nem conhecidas. O próprio rabino Kushner, que perdeu um filho de maneira dolorosa, assegura: “não permita que coisa alguma – seu emprego, seu carro, nem mesmo sua saúde ou sua família – seja muito importante e você se imunizará contra o medo de perdê-la”. E o sinal de amadurecimento se explicita quando abandonamos a obsessão de indagar sobre o que a vida nos reserva e principiamos a refletir o que estamos fazendo da nossa própria vida.

4. Os que se deblatem contra os “critiquentos”, não assimilam que a insistente sinfonia da negação pode se transformar numa degenerativa postura negativista, onde nada presta, nada do passado tem valor, todos buscando agir conforme seus próprios interesses e ambições, devendo-se sempre “levar vantagem em tudo”, num autofágico individualismo que menoscaba a individualidade, reduzindo todos a ninguém, inclusive os que se imaginam bem situados hierarquicamente, posto que sem comandados os comandantes não evoluem, naufragando com muita facilidade no próprio charco por eles criados.

5. O assistencialismo dos comandantes, entendido aqui como uma postura inteligente de manter o colonialismo via gratidão, talvez seja o mais letal dos grandes males contemporâneos, posto que amortece a criticidade, reduzindo-a a níveis não-contagiantes. O ser humano só pode ser entendido como criador dos seus próprios futuros, na medida em que for vacinado contra as promessas mirabolantes dos ansiosos pela manutenção dos seus postos, salários e benefícios outros. De há muito já se percebeu que os mandos econômicos e as posturas anestésicas são apenas esmolas, dessas que “matam de vergonha e viciam o cidadão”.

6. Todo homem consciente, eticamente comprometido com os amanhãs dos mundos, se for o caso, percebe que não é criador do futuro de todos. Sua consciência ressalta que ele é aquele que age à luz de um futuro prometido, que seguramente advirá. A teologia pastoral, integrante viva de uma Igreja que deve ser alavancada como parteira da História, tem como missão basilar, na manutenção da efetividade do querigma, buscar uma nova linguagem, ainda que nunca se distanciando dos contextos diferenciados e muitas vezes opostos. Sem desaprender totalmente a linguagem anterior, porque ainda necessária em inúmeras oportunidades, cabe à Igreja habilitar-se sem demora na apreensibilidade de novas linguagens, erradicando as inadequações que apenas enfastiam e desacreditam, ensejando fundamentalismos que não levam na devida conta a irreversibilidade de uma pós-modernidade.

7. Uma pastoral missionária dotada de capacidade cativadora necessariamente deverá estar eivada de um ecumenismo consolidado numa teologia da paz criativa. E com as seguintes características, segundo o teólogo Hans Küng explicitou num dos seus últimos textos: Pesquisa dos fundamentos teológicos; Questionamento das estruturas de pensamento e comportamento sedimentadas; Captação das diferenças centrais nas religiões e entre as religiões; Exigência de atenta autocrítica e auto-correção de todos os lados; Enxergância dos amanhãs através de análises das forças religiosas do passado; e acumulação de informações bem captadas, antecipando-se aos desafios recíprocos que sempre existirão entre as denominações.

8. No nosso dia-a-dia, a Esperança sendo porta-bandeira indispensável, uma oportuna reflexão foi escrita por Nilton Bonder, rabino da Congregação Judaica do Brasil, no Rio de Janeiro, uma inteligência privilegiada, também engenheiro diplomado pela Universidade de Colúmbia, Estados Unidos: “Para podermos honrar a consciência e a experiência existencial, temos de conhecer a arte de pedir ‘concordata’ para nosso empreendimento na dimensão da consciência. Esta concordata tem como parte de seu objetivo salvaguardar a própria consciência de uma possível falência, que representaria a alienação total. Esta concordata é comumente chamada de entrega”.

ALICERCES INDISPENSÁVEIS

Para quem gosta de estudar a Doutrina Espírita, que alicerces auxiliares são necessários para uma efetiva compreensão dos parâmetros kardecistas? Na minha modesta opinião de aprendiz, digo que uns bons livros são válidos, dentre os quais se destacariam alguns, além do Pentateuco Kardecista, obrigatório para quem intensamente busca apreender os parâmetros ditados pelos Espíritos Superior a Allan Kardec, aquele que codificou os ensinamentos recebidos. Enumero os que ainda são significativos para meus estudos cotidianos:

O Espiritismo de A a Z, Geraldo Campetti Sobrinho (coordenação), 4ª. ed., BSB, FEB, 2013, 964 p. Um projeto elaborado com a finalidade de fornecer informações espíritas contidas nas diversas publicações da Federação Espírita Brasileira. A equipe responsável examinou mais de 300 títulos de circulação corrente, desenvolvendo-se através de vocábulos, definições e fontes. A publicação reúne 2.100 vocábulos, 10.000 conceitos e definições, com todas as fontes registradas entre parêntesis, ao final do volume, que também contém as Referências e o Índice dos Vocábulos. Através do dicionário se pode diferenciar, compreendendo sem dificuldades, espírita cristão, espiritista cristão, espírita exaltado, espírita experimentador, espírita imperfeito, espírita por intuição, espírita sem o saber e espírita verdadeiro. Os inúmeros tipos de médiuns também se encontram devidamente classificados, inclusive os chamados médiuns tiptólogos, aqueles através dos quais os ruídos são provocados.

Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, 12 volumes, SP, Edicel, de janeiro de 1858 a março de 1869. A coleção é “a mais prodigiosa fonte de informações sobre o Espiritismo e de instruções doutrinárias.” O próprio Allan Kardec a indica, no capítulo 3º. d’ O Livro dos Médiuns, como obra indispensável, aconselhando a seguinte ordem para os estudos iniciais: 1º. O que é o Espiritismo; 2º. O Livro dos Espíritos; 3º. O Livro dos Médiuns; e 4º. a Revista Espírita. O próprio Kardec assim define a Revista: “Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos destacados que complementam a exposição das duas obras precedentes, e que representa de alguma maneira a sua aplicação.” Allan Kardec nos ofereceu, durante onze anos e quatro meses de trabalho intensivo, explicitando ao vivo toda a História do Espiritismo. Nada é ocultado do leitor. A editora Edicel já reeditou este ano os oito primeiros volumes, estando todos eles em promoção, com bons descontos.

Bíblia Sagrada King James Novo Testamento, 1611, São Paulo, Abba Press, 2007, 640 p. Considerada a mais preciosa pérola da língua inglesa, a versão do Rei James I, da Inglaterra, é a obra mais aclamada da religião e cultura. Sua versão para a Língua Inglesa contou com a dedicação de 54 eruditos estudiosos das línguas orientais. A tradução para a língua portuguesa envolveu mais de 20 profissionais e durou 7 anos de trabalhos exaustivos.

Para sedimentar mais um cadinho nossa enxergância de aprendiz de tudo, permitam-me os iniciantes que nem eu para as indicações abaixo, todas elas complementares:

De Primatas a Astronautas: a jornada do homem em busca do conhecimento, Leonardo Mlodinow, Rio de Janeiro, Zahar, 2015, 390 p. O autor nos leva para uma grande jornada pelo mundo da ciência, revelando personagens fascinantes, curiosidades múltiplas que nos conduziram desde as nossas origens até os dias de hoje, das cavernas até os foguetes interplanetários. Tudo embasado por um sede inesgotável de conhecimentos, cumprindo a recomendação do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, que sempre proclamava que “quem tivesse fé saberia fazer melhor que ele”. Segundo V.S. Ramachandran, professor da Universidade da Califórnia, “Mlodinow faz um traçado vivo das revoluções do pensamento e da cultura que definem nossa civilização e, de brinde, apresenta uma estimulante visão da história e da majestosa abrangência da ciência moderna.” O livro é composto de três partes: 1. Quando nos erguemos; 2. As ciências; 3. Além dos sentidos humanos. E um epílogo, onde o autor define o entendimento humano como uma sucessão de fantasias, sempre ressaltando a importância do pensamento crítico e inovador, que perscruta onde estamos e para onde estamos indo.

A História do Século XX, Martin Gilbert, São Paulo, Planeta, 2016, 830 p. Um dos maiores historiadores, pesquisador britânico reconhecido mundialmente, assumiu um desafio: sintetizar num só volume os principais movimentos do século XX, tornando-o uma leitura obrigatória para aqueles que buscam entender melhor o século mais importante da humanidade, também o mais conturbado. A definição é do jornal The Sunday Times: “Martin Gilbert é um dos autores mais prodigiosos de nosso tempo… Temos aqui um trabalho fascinante do qual todos podemos nos beneficiar mergulhando fundo.” Um dos capítulos mais fascinantes é o 10º.- Os desafios da modernidade -, onde poderemos induzir as perspectivas das próximas décadas, hoje tão carentes de “enxergância humanística” e “ética planetária”.

Apropriação Indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum, Gar Alperovitz & Lew Daly, São Paulo, Editora SENAC, 2010, 244 p. Um livro que debate com ampla originalidade a estupenda distribuição da riqueza e da renda mundiais nos tempos contemporâneos. Para se ter uma ideia do desequilíbrio estrutural que atualmente abala os quatro cantos do planeta, vale a pena reproduzir o reconhecimento feito por Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, de fortuna calculada, em 2008, em 60 bilhões de dólares: “A sociedade é responsável por uma porcentagem bastante significativa do que recebi.” Uma sinceridade comprovada pelos autores: “pelo menos 90% – e talvez até mais – dos lucros particulares são derivados não de ingenuidades, talento ou investimento individuais, mas do que é descrito como uma apropriação injusta de nossa herança coletiva, ou seja, o conhecimento científico e tecnológico que faz a economia girar.” Os autores ressaltam como um número mínimo de indivíduos – pessoas físicas ou jurídicas – se apossa do vasto conhecimento herdado das gerações passadas e dele obtêm lucros espetaculares com base num falso direito de patente.

Para os caminhantes iniciais, nunca esquecer o que escreveu Carlos Castañeda: “Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz… Um caminho é só um caminho …”. Traduzindo em miúdo o pensar de Castañeda: “Se você fizer o que sempre fez, vai ter o resultado que sempre teve“.

CADERNOS DE VICTOR HUGO

Pouca gente sabe que o famoso escritor francês Victor Hugo (1802-1885), autor dos mundialmente conhecidos romances Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, foi um deputado firme e oponente a Luís Bonaparte, tendo se exilado voluntariamente na ilha britânica de Jersey, a partir de 1852, após tentar estabelecer sem sucesso uma resistência armada contra o tirano que pretendia se eternizar no poder, no exílio permanecendo até 1870, com a queda de Napoleão III. Um exílio que se estenderia por dezenove anos.

Após o golpe de Estado de Napoleão III, em 2 de dezembro de 1851, o escritor francês deixa Paris nove dias depois, embarcando no trem das 20 horas com destino a Bruxelas sob a identidade de Jacques Firmin Lanvin, um tipógrafo. Antes de escolher Jersey, residiu na Antuérpia, em Londres e Southampton. Em 5 de agosto de 1852, Victor Hugo e seu filho Charles desembarcam na ilha anglo-normanda, onde os aguardavam, desde 31 de julho, Adèle Hugo, sua mulher, sua filha chamada também de Adèle, além de Auguste Vacquerie, um amigo fiel.

Em Jersey, uma amiga de Victor Hugo, principia a conversar com a família sobre Espiritismo, principalmente narrando as últimas experiências com Mesas Girantes e Falantes que tinham acontecido nos Estados Unidos, posteriormente difundidas por toda a Europa. As primeiras tentativas feitas com as Mesas com Victor Hugo muito o desapontaram, juntamente com seus próximos, amigos e familiares. Entretanto, em setembro de 1853, manifesta-se o espírito de Leópoldine, que havia se afogado dez anos antes, radicalmente modificando o ânimo do escritor e seus parentes. Desta experiência, até 1855, as sessões espíritas realizadas quase diariamente na casa do escrito são registradas em atas, a maioria delas por ele mesmo redigidas.

Com a desencarnação de Victor Hugo, em 1885, aos 83 anos, suas experiências espíritas e suas atas foram cercadas de mistério, algumas delas vindo à tona, de modo amplamente esparso.

Até que as Éditions Gallimard, em 2014, resolve editar todo o material coletado, no que foi seguido, neste ano, no Brasil, pela Editora Três Estrelas, tornando do conhecimento público brasileiro O Livro das Mesas: as sessões espíritas de Jersey, Victor Hugo, 2018, 628 p.

Nos quatro cadernos agora editados, há diálogos sobre uma série de questões: a condição humana, crime e punição, sofrimento e morte, destino da alma, a vida no além, e a importância do amor e do perdão. Também temas sociais são aventados, bastante adiantados para a época: o direito das mulheres e das crianças, o fim da pena de morte, inclusive a criação dos Estados Unidos da Europa, assuntos essenciais para compreender mais adequadamente a obra de Victor Hugo posterior ao exílio, também favorecendo uma compreensão mais ampla sobre os momentos iniciais da história do espiritismo.

No prefácio de Patrice Boivin, uma declaração histórica: “Entre 11 de setembro de 1853 e 8 de outubro de 1855, Victor Hugo dedica-se quase diariamente às sessões espíritas. Nessas ocasiões, dialoga com os espíritos mais ilustres: Aníbal, Dante, Caim, Skakespeare, Lutero, Safo, Chénier, Alexandre, o Grande, Leônidas, Molière, Jesus, Platão, Ésquilo, Galileu … – e com as formas mais abstratas: a Sombra do Sepulcro, a Crítica, a Metempsicose, o Drama ou a Morte”, sempre lhe restando, segundo ele, “passar em revista as constelações de pensamento.”

Com a chegada de Delphine de Girardim à ilha de Jersey, ela tomou a iniciativa de implementar as Mesas Girantes, cujas revelações muito contribuíram para o desenvolvimento da obra de Victor Hugo. Todo teor escrupulosamente anotado em cadernos e atas.

Foi o próprio Hugo quem concebeu O Livro das Mesas, que projetava sua publicação póstuma, pois nele “havia um espírito na mesa, independente do homem”, “um meio de escoar mais rápido e melhor a produção do cérebro”. Inicialmente impedidas pelo Além de divulgação, as Atas foram posteriormente liberadas, sendo registrados os principais fenômenos acontecidos entre 12 de setembro de 1853 até 5 de outubro de 1855. Para cada sessão, uma ata circunstanciada e amplamente detalhada era da responsabilidade de uma determinada pessoa, os demais participantes da sessão tendo plena liberdade de fazer suas anotações. Tais atas foram , posteriormente, transcrita em cadernos especiais, constituindo-se quatro volumes manuscritos encadernados, “cadernos vermelhos” como foram chamados pelo próprio Victor Hugo. Muitos anos depois, tais cadernos foram parar nas mãos de Gustave Simon, que providenciou uma publicação parcial em 1923, setenta anos após as primeiras sessões acontecidas, intitulada Na casa de Victor Hugo: as Mesas Girantes de Jersey.

Desaparecidos misteriosamente, com várias versões aparecidas e novamente disputadas, eis que, em 1972, um dos cadernos reaparece, sendo oferecido à Biblioteca Nacional, sendo por esta adquirido. Através dele, verifica-se o essencial ocorrido entre setembro de 1853 e outubro de 1855, em Jersey, lançando uma luz inédita sobre os fatos acontecidos.

Alerta-se, no prefácio da edição brasileira, que a palavra Mesa com maiúscula remete às vozes dos espíritos, enquanto com minúscula designa o objeto material. A letra X assinala uma palavra ilegível, as intervenções da Mesa estando em negrito.

Uma leitura reflexiva apropriada para mentes esclarecidas, com mínimos domínios da Doutrina Kardecista. Vale a pena dar uma conferida.

PS1. Indico uma passadinha no capítulo 10 do livro O Semeador de Estrelas, da médium Suely Caldas Schubert, biógrafa de Divaldo Franco. O capítulo intitula-se A Presença de Victor Hugo na Obra Mediúnica de Divaldo Franco.

PS2. Recomendo ainda o romance de Victor Hugo Do Calvário ao Infinito, RJ, Federação Espírita Brasileira, 2007, 580 p., romance psicografado por Zilda Gama (1878-1969), a primeira médium brasileira a obter do mundo do além uma substancial literatura espírita, causando sensação em todos os segmentos de leitores.

PARA LER, GOSTAR E SE ENTURMAR

Para quem conhece a coleção “A Vida no Mundo Espiritual”, lavra do Chico Xavier e do Espírito André Luiz, seguramente confirmará a reputação dela ser requisito basilar que enseja ler uma interpretação convincente das obras principais da Doutrina Espírita do Allan Kardec e dos textos mais consagrados dos autores que tratam de temas amplamente difundidos, onde se destacam Dragões e Legiões; Segunda Morte; Casamento no Plano Espiritual; Equipamentos e Armas Utilizadas no Plano Espiritual; Ovoides; Inversão Sexual; Animais no Plano Espiritual; Redução do Perispírito; Consequências dos Vícios para o Espírito; Meios de Transporte dos Espíritos; Dinheiro, Propriedade e Documentação no Plano Espiritual; Criações Mentais; Outros Planetas; e muitos outros.

Para ampliar as assimilações “enxergantes” de iniciantes e já reciclados, um livro recente está provocando releituras sucessivas das obras da dupla Chico Xavier/André Luiz: Nas Trilhas de André Luiz: assuntos relevantes, temas curiosos, casos interessantes, Jorge Reis, Ribeirão Preto, SP, Editora Dionisi, 2017, 300 p. Um nascido em Patamuté, sertão baiano, pós-graduado em Auditoria e Administração Financeira, professor universitário e aposentado do Serviço Público Federal, atualmente Diretor da AME – Associação Maternal Espírita, São José dos Campos (SP). Também produtor e apresentador do programa de rádio Vivência Espírita, Rádio Piratininga 750 AM, naquela cidade.

Numa Introdução chamada “NasTrilhas de André Luiz”, o Jorge Reis explica sem lero-lero: “Os Espíritos Superiores deixam claro, também, que a Codificação Kardequiana não traz o ensinamento completo, ou seja, é apenas o começo de uma nova era para a humanidade, pois a ciência ainda teria muito a descobrir e o homem muito a aprimorar no seu conhecimento moral e espiritual.” E deu testemunho: “Entre os maiores divulgadores da Doutrina Espírita podemos citar os brasileiros Bezerra de Menezes, que se configurou como um missionário cuja tarefa seria a de preparar a sociedade brasileira para acolher a semente do Espiritismo; Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo do bem, um espírito destinado a entrar para a história da educação espírita em todo país; Francisco Cândido Xavier, o homem chamado amor que, definitivamente, com ajuda de seus mentores, trouxe o Plano Espiritual para o mundo real.”

No prefácio do livro, o Fábio Alessio Romano Dionisi faz um alerta sobre aqueles que, na Lide Espírita, se imaginam de pleno conhecimento sobre tudo, não mais precisando reestudar determinadas áreas ainda não devidamente assimiladas, fazendo lembrar o notável Stephen Hawking, uma dos maiores gênios da atual safra planetária: “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão de conhecimento.” Em outras palavras: “À medida que ampliamos nossos conhecimentos, adquirimos meios que nos permitem encontrar, nas entrelinhas, ‘sementes’ deixadas para o tempo em que a ciência e o nosso discernimento pudessem germiná-las.”

Outro dia, três quinzenas atrás, uma pesquisa me deixou profundamente impactado: o brasileiro obteve o penúltimo lugar entre os povos que menos apreendem a realidade. Uma gente disleriada, na classificação clássica do notável Jessier Quirino, um tampa nordestino que sabe onde tem o nariz, na crítica necessária aos nossos comunitários abestalhamentos socioculturais.

O saudoso economista Celso Furtado, primeiro superintendente da Sudene, costumava alertar seus subordinados recém chegados da Cepal e outros rincões estrangeiros: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Mas será que o triângulo é retângulo?”. Um questionamento aos que, sem uma mínima bagagem humanística, imaginavam equacionar os problemas sociais do Nordeste através de equações econométricas cabeludérrimas, sem atentar dois mil réis para as condições psico-comportamentais de uma gente eivada de superstições, carregando um sem-número de “deus quis” e “se deus quiser”, mesclando tudo com “cumade fulosinha”, “perna cabeluda”, “sexta-feira 13” e outros trejeitos de nula validade.

A Filosofia ainda hoje, cada vez mais ofuscada por tecnologias entusiasmantes e temporárias por derradeiro, necessita ser mais apreendida por todos aqueles que buscam exercitar uma cidadania competente e uma profissionalidade efetiva para não se perder nas encruzilhadas nevoentas e embaraçosas para quem não é possuidor de um discernimento compatíveis para os enfrentamentos dos amanhãs cada vez mais complexos de uma conjuntura turbulenta por derradeiro.

Recordando com amigos os papos com o escritor Nilo Pereira, quando ele era presidente do Conselho Estadual de Cultura, admirando sua densidade humanística, seu estupendo bom humor, religião e política assuntos sempre descartáveis das conversas semanais, tomei conhecimento de um livro pra lá de oportuno para os tempos atuais, quando até parlamentar preso é flagrado, depois de uma folga, com queijos e biscoitos no fundo da cueca, descaradamente, sem qualquer pudor legislativo, a merecer indianamente chicotadas no rabo, umas duzentas.

O livro, Crer e saber: pensar o político, o moral e o religioso, Raymond Boudon, SP, Editora Unesp, 2017, 298 p., é considerado obra testamentária do pensador francês (1934-2013), tido nos ambientes acadêmicos sérios como um dos mais importantes cientistas sociais contemporâneos, conhecido mundialmente pelas suas pesquisas sobre mobilidade social e desigualdade de oportunidades, também pela defesa do individualismo metodológico. Segundo explicita a orelha do livro, “Boudon realiza uma síntese notável dos temas centrais de sua trajetória intelectual, complementada por uma apreciação da sociologia clássica, procurando dar mais sistematicidade às suas análises, aprofundando a relação entre considerações teóricas e estudos sociológicos quantitativos.”

Decididamente, o livro do Boudon é um livro para não abestados, “de nariz arrebitado”, como dizia minha avó e madrinha Zefinha, de Barreiros – PE, uma semianalfabeta de QI pra lá de arretado!!

NOTAS INTERCOMPLEMENTARES

PRIMEIRA

De repente, num dia qualquer de um final de dezembro, completou-se o tempo da parição. O casebre era rústico, de taipa e chão de barro batido. No apertado quintal, duas árvores e um pedaço de jornal velho que noticiava estrondoso baile de carnaval, gastos alibabásticos, desbunde total, os vários sexos em desvairamentos faraônicos, tudo em prol das criancinhas de rua da cidade.

A dor apertando mais. Calor brabo, três da tarde, um domingo. Ao lado do magro colchão de palha estendido no chão do único dormitório, a Elisabete, prima também descendente de Aarão, aguardava o instante maior. Possuía tanta bondade que o seu filho João iria anunciar a Boa Nova, de há muito já profetizada por uns santos homens já desencarnados, que pregavam a libertação de todos. Com Maria – a prima parturiente – e os demais familiares, acreditava que um dia os famintos seriam cumulados de bens e os maus ricos despedidos de mãos vazias. Lembrando-se do Papa Paulo VI – “Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos” – orgulhava-se de pertencer a uma associação de moradores, num bairro de classe operária.

Elisabete também sabia que só blá-blá-blá não resolveria problema algum, a solução sempre advindo da organização e da união de todos para a concretização dos sonhos acalentados. Segundo ela, sonhando muitos estavam, embora ficassem restritos aos sonhos, não aceitando críticas, partindo para o desaforamento como se moleques de rua fossem, sem a serenidade das lideranças consolidadas.

A parteira chegara. Os panos e as toalhas, fervidos em caldeirão sobre carvão, a postos. As contrações ampliadas, embora a felicidade muito atenuasse as dores sentidas. Em minutos, Emmanuel exteriorizou-se rapidamente, sendo envolvido em faixas e deitado numas palhas doadas pelos da redondeza, solidariedade presente e sempre atenta aos gritos de fome e de angústia dos desempregados, das prostitutas que terão prioridade de ingresso na Festa de Encerramento e dos chacinados por uma violência desenfreada, efeito maior de uma injustiça cinicamente mantida pelos que controlam um sistema financeiro instalado na contramão da História.

Sadio, Emmanuel chegara. Foi circuncidado no oitavo dia e apresentado ao Chefão de Tudo, conforme recomendava uma cartilha muito lida: “Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor”. E dos muitos testemunhos, o de Simeão, um velho estivador aposentado por invalidez, foi o que calou mais fundo: “Esse Menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos”.

A aparência luminosa do garoto contagiava. Os vizinhos vibraram com a chegada do Filho da Maria. E prometiam ser d’Ele companheiros de Vida, para a difusão de um amor sem preconceitos, sem opressores, sem ódio e sem medo, onde ninguém fosse menos que ninguém, sem consumismos desenfreados, num agir corajoso e viril, fruto indispensável de uma evangelização essencialmente libertadora.

SEGUNDA

Para quem aprecia estudar vertentes inovadoras nos escritos sagrados, principalmente do Novo Testamento, minorando nossa pequenez diante da grandiosidade infinita da Mensagem do Homão da Galileia, por quem sou fiel seguidor, sempre merecedor da sua misericórdia, tornei-me entusiasta seguidor, de uns anos para cá, após sintonia pra lá de afinada entre a Doutrina Espírita e o Evangelho do Senhor Jesus. Quem lê Jo 16,12-15 – “Tenho ainda muito para vos dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito de Verdade, ele nos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido, e nos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu, e vos anunciará. Tudo que o Pai tem é meu; por isso vos disse: ele receberá do que é meu, e vos anunciará.”, logo apreende que as boas novas proclamadas pelo Nazareno e a Doutrina Espírita se integram num todo perfeito, tornando fermento de primeira qualidade para os ainda desatentos às linhas mestras da Mensagem do filho amado de Maria.

Para os que desejam se dedicar aos estudos entrelaçadores entre as Boas Novas e a Codificação elaborada pelo lionês Allan Kardec, recomendaria a leitura-alicerce, sementeira por derradeiro, do livro Um novo olhar sobre o Evangelho, Beatriz Palma de Carvalho Pereira, Capivari, SP, Editora EME, 2013, 372 p. A autora, médica especializada em ginecologia e obstetrícia pela USP, também orientadora do COEM – Curso de Orientação e Educação Mediúnica, tendo trabalhado durante muitos anos como diretora do Serviço Médico e do Serviço de Laboratórios de um hospital para hansenianos.

O objetivo do livro da Beatriz é claro: dar subsídios para que o leitor possa refletir sobre a integração e completude formadas pela leitura dos Evangelhos. Através de uma compreensão cada vez mais acurada dos Evangelhos, através dos esclarecimentos proporcionados pela Dra. Beatriz Carvalho, poderemos nos aprofundar nos ensinamentos transmitidos pelo Nazareno, favorecendo uma militância mais efetiva de todos na construção de um mundo mais pacífico, amplamente voltado para uma fraternidade sem preconceitos nem discriminações. Através do livro, efetivaremos uma jornada repleta de esperança e fé num futuro humano mais dignificante para todos nós.

O livro da Dra. Beatriz Carvalho é dividido em três partes. Na primeira, uma evolução histórica do Cristianismo, dos primórdios do evangelho, onde se destacam quatro parâmetros, também abordando a Missão de Jesus; na segunda parte, aborda-se a divindade de Jesus, a Oração, os principais fenômenos espíritas ocorridos nos tempos de Jesus, a divulgação do Evangelho, a incompreensão dos apóstolos e dos discípulos, a divulgação do evangelho após os primeiros tempos da desencarnação do Nazareno; na terceira parte, explicita-se o sinal do profeta Jonas, efetiva-se uma análise bastante esclarecedora sobre as tentações sofridas pelo Messias, a Santa Ceia, a convocação dos Apóstolos, em anexo uma bibliografia consultada pela autora, onde se destacam um dos trabalhos últimos de Kardec – A Gênese -, o livro Cristianismo e Espiritismo, de Léon Denis, e o excelente Cristianismo: a Mensagem Esquecida, de Hermínio C. Miranda.

No livro da Beatriz Carvalho, quatro capítulos merecem uma atenção bastante acurada dos mais responsáveis: os que analisam/interpretam os quatro parâmetros: a Evolução do Espírito, a Reencarnação, a Comunicabilidade dos Espíritos e a Pluralidade dos Mundos Habitados.

RELATO IMORREDOURO

Os livros não técnicos, eu os costumo dividir entre os deletáveis da memória e os que permanecem ao longo do tempo, sempre a estimular uma nova “espiadinha”, pelo conteúdo e pelo estilo sedutor do autor. Para quem gosta como eu de acontecimentos históricos vinculados à Segunda Guerra Mundial, indico com densa emoção um lançamento recente: Os meninos que enganavam nazistas, Joseph Joffo, São Paulo, Vestígio, 2018, 284 p. Uma narração sobre dois ainda não adolescentes, Joseph e Maurice Joffo, 10 e 12 anos respetivamente, judeus, que perambularam sozinhos por várias estradas fugindo da morte, buscando uma zona livre das atrocidades nazistas impostas pelos seguidores alemães e não alemães do assassino psicopata Adolfo Hitler, que imaginava um império de raça ariana pura por mais de mil anos.

Incentivados pelo pai judeu barbeiro, que tinha um conceituado salão num dos bairros da capital francesa, os garotos resolveram seguir os irmãos mais velhos, que já tinham partido poucos meses antes em busca da liberdade.

Antes que fosse tarde demais, o pai dos garotos, ouvindo o relato dos meninos sobre os insultos e agressões sofridos desde quando foram obrigados a usar uma estrela amarela no casaco, reuniu os dois irmãos à beira da cama e principiou uma sincera conversa de despedida: “- Não é uma conversa muito interessante e não teria fascinado vocês por muitas noites, mas vou contar o essencial. Quando era pequeno, bem menor que vocês, eu vivia da Rússia, e na Rússia havia um chefe todo-poderoso chamado tzar. Esse tzar era como os alemães de hoje, gostava de fazer a guerra e tinha imaginado o seguinte esquema: enviava emissários…” E ele complementou, depois de explicar aos meninos o que seriam emissários: “- Ele enviava emissários às cidadezinhas, e, lá, eles reuniam meninos como eu e os levavam para campos onde se tornavam soldados. Davam-lhes uniformes, ensinavam-nos a marchar, a obedecer ordens sem discutir e a matar inimigos. Então, quando atingi a idade que poderia ser pego por esse emissários, meu pai falou comigo como estou fazendo com vocês hoje… Ganhei minha vida, aos 7 anos, escapando dos russos, e podem crer que nem sempre foi fácil. Fiz de tudo um pouco. Juntei neve por um pedaço de pão com uma pá que era o dobro do meu tamanho. Encontrei pessoas boas que me ajudaram e outras que eram ruins. Aprendi a usar tesouras e me tornei cabeleireiro. Andei mundo afora. A mãe de vocês tem uma história parecida com a minha. Todo dinheiro que ganhei foi com meu suor...”

E com a voz embargada complementou: “- Vocês sabem que não podem voltar para a casa todos os dias nesse estado. Sei que sabem se defender e que não têm medo, mas precisam entender uma coisa: quando não se é mais forte, quando se é apenas dois contra 10, 20 ou 100, a verdadeira coragem é deixar o orgulho de lado e dar o fora. Vocês notaram que os alemães estão ficando cada vez mais duros com a gente. Já teve o recenseamento, o aviso no salão, as revistas, hoje a estrela amarela, amanhã seremos presos.” E concluiu, sem perder a calma aparente: “- Agora, vocês vão guardar bem o que vou lhes dizer. Vão partir esta noite. Vão pegar o trem até a estação de Austerlitz, e lá conseguirão uma passagem para Dax. Em Dax, terão de atravessar a linha. É claro, não terão documentos para passar, terão de se virar… Finalmente, precisam saber de uma coisa. Vocês são judeus, mas nunca admitam isso. Entenderam? NUNCA!

E foi então que aconteceu o último teste. O pai chamou Joseph e indagou dele se ele era judeu. Ouvindo um “não” de resposta, estapeou fortemente o rosto do menino, embora nunca tivesse batido neles antes. E esbravejou: – Não minta! Você é judeu, Joseph? E diante de uma contundente nova resposta “não”, o pai declarou emocionado, alto e bom som: “- É isso. Acho que está tudo claro agora.” E foi então que as duas crianças, Joseph e Maurice, perceberam que suas infâncias estariam terminadas daquela noite em diante.

O que se segue, peripécias mil, bondades recebidas e artimanhas arquitetadas, além de mil e uma firulas para sobrepujar as sacanagens engendradas pelos “sabidos”, torna a leitura do livro inesquecível, favorecendo a nossa convicção de uma existência de uma solidariedade universal surge de onde menos se espera, favorecendo o caminhar da humanidade para uma fraternidade que consolidará definitivamente a Criação.

Seguramente, uma autobiografia repleta de muita espontaneidade, gigantesca ternura desfricotada e um humor judaico que bem comprova a superação dos momentos mais sombrios, quando se está a exigir ponderações dos mais variados calibres, inclusive uma fé inquebrantável nos destinos redentores do Ser Humano.

Vale a pena dar uma espiadinha leitural cidadanizadora. Para melhor entender a supimpa advertência do romancista francês Victor Hugo, autor do famoso romance Os Miseráveis: “Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha”.

NOTAS VÁRIAS

1. Contendo uma quase completa biobibliografia do autor, o Bê-a-Bá de Pernambuco do meu saudoso amigo Mauro Mota está repleto de notáveis apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos? O livro de Mauro Mota faz justiça histórica ao nosso passado. Diz ele, sempre comprovando com referências e dados, que Pernambuco ostenta inúmeros pioneirismos em relação ao Brasil: a primeira igreja, a de São Cosme e São Damião, em Igarassu; o primeiro estudo científico de história natural de uma região; o primeiro observatório astronômico; o primeiro zoo botânico; o primeiro drama representado em teatro público; a primeira cidade do continente a ter um plano de urbanização; os primeiros sobrados de sete andares; a única ponte giratória; a primeira assembleia legislativa, a câmara dos escabinos, criada por Maurício de Nassau. No Bê-a-Bá poderemos constatar como nós utilizamos palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, angu, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. O livro trata com muito carinho da mais importante revolução do Brasil colonial: a Revolução Pernambucana de 1817. Sentimento nativista repleto de batinas rebeldes, comandado pelos freis Arruda Câmara e Caneca, dois carmelitas, capazes de meter carreira em capeta metido a besta. Mas também não esqueceu Mauro do papel desempenhado pelo Clube do Cupim, reduto de abolicionistas. E não se descurou o poeta de analisar o rosismo, os borbistas e os dantistas, além do fenômeno do cangaço, desde o banditismo mais cruel até o pitoresco, lembrado por ele, quando da ocasião da visita de parente e amigo a um que se encontrava recolhido à Casa de Detenção:

– Pruquê os sordados te pegaro,cumpadre ?

– Injustiça, injustiça. Misera dos homem, cumpadre. Matei cinco pro coroné, não me aconteceu nada. Pru caso do primêro que matei pra mim, tou aqui.

2. Empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação de bancarrota, sempre se assessorando nos melhores talentos, eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

3. Receio pelo momento presente do país. Das desesperanças transformadas em explícitas desobediências civis. Dos falsos moralismos dos puritanos, eternos donos das verdades mais absolutas. Dos eu-não-disse? de uma esquerda incompetente, messiânica, sem proposta nem criatividade, aferrada a dogmas ultrapassados. De uma direita sempre a contemplar o próprio umbigo, viciada em retrocessos para se manter na ponta dos cascos, esmagando tudo e todos. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os níveis de desemprego se agigantam e os “bicos” tornam-se mais escassos, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e autoritarismos messiânicos, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.

5. Muito deve amedrontar as massas profissionalmente desqualificadas, bucha de canhão para mistificadores e falsos profetas. “Para quem não sabe ler, um pingo é letra” e “Para o mau oficial nenhuma ferramenta presta“, complementam-se magnificamente, retratando uma tragédia educacional, a brasileira, que é consequência direta das desatenções de toda elite dirigente para com um efetivo processo integrado de cidadania, prioridade das prioridades de qualquer planejamento governamental estratégico digno de confiança. Para toda sociedade elitista e autofágica, outros provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã brasileiro menos truculento: “Antes prevenir do que remediar”, “Para grandes males, grandes remédios”, “O barato sai caro”, “Do prato à boca, perde-se a sopa”, “Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e ambiência, recomenda-se a leitura, e memorização, das seguintes advertências: “Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá”, “Quem o alheio veste, a praça o despe”, “O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que “Quem come a carne que roa os ossos”, posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. E pouco a pouco vamos percebendo, todos os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam ninguém. Nem faraós nem tupiniquins. Tampouco fiéis e ateus. Necessário apenas não deixar para amanhã o que se pode alertar hoje. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, estou convencido. Um dia, breve embora não muito ainda, a maturidade da convivialidade comunitária preponderará. Aí todos perceberão que somente sobreviverão se todos agirem como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando plenamente a cartilha dos seus direitos e dos seus deveres. Quem viver, vivenciará.

CONDUTA ESPÍRITA

Na livraria da Casa dos Humildes, Recife – PE, encontrei um livro que bem poderia ser debatido nas reuniões primeiras dos que estão se iniciando, que nem eu, na caminhada de Trabalhador da Casa, preparando-se para ações evangelizadoras recheadas de muita solidariedade e ação fraternal.

O livro intitula-se Conduta Espírita, Waldo Vieira, 36ª. edição, Brasília, FEB, 2015, 118 p., com um prefácio de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, em 17 de janeiro de 1960, onde Emmanuel diz que “ler este livro equivale a ouvir um companheiro fiel ao bom senso. E se o bom sendo ajuda a discernir, quem aprende a discernir sabe sempre como fazer.”

Para os ainda não antenados, segundo o Google, Waldo Vieira foi grande parceiro de Chico Xavier, tendo escrito ao lado dele obras de grande importância para a doutrina Espírita. Nasceu em Monte Carmelo – MG em 1932. Aos 4 anos já era alfabetizado e desde muito cedo teve experiências consideradas paranormais. Para lidar com isso seus pais recorreram a Doutrina Espírita, que o ajudaram a perceber a superdotação.

Irmã de Waldo Vieira, Ruth Rocha Siqueira, nos relata que ele era muito ativo e que em todas as brincadeiras ou estudos que ele realizava ainda criança era o mais disposto. Gostava de saber sempre mais, estudava e se dedicava além do necessário para a idade dele. Criatividade também era uma de suas características marcantes. E mais: também seu sobrinho, Jarbas Paranhos, nos relata que sua bisavó gostava de tocar violão para eles dois. E a ação daquela senhora, sem que ela notasse, fazia com que espíritos de um cemitério próximo viessem todos para a reunião escutar a música. Waldo Vieira, ainda com 5 anos na época, conseguia enxergar todos esses espíritos desencarnados. Até que um dia ele não deixou a senhora tocar mais e explicou para ela o porque que ela não devia tocar tais músicas.

Waldo viveu em Uberaba dos 13 aos 26 anos, onde dedicou-se a psicografia e aos estudos dos fenômenos extra sensoriais. Esse estudo feito na adolescência serviu de base para a Projeciologia que estuda a experiência da consciência fora do corpo e outros fenômenos parapsíquicos.

Fundou Waldo muitas instituições na sua fase de estudante, ainda na Faculdade de Odontologia, depois na Faculdade de Medicina, posteriormente instituindo uma série de instituições médicas, clínicas e hospitais. Em 1966, Waldo se muda para o Rio de Janeiro onde se dedica integralmente à sua pesquisa. E em 1986, lança o primeiro tratado da Projeciologia, panorama das experiências da consciência fora do corpo humano. Levou em torno de 19 anos para escrever essa obra, e foram mais de 5 mil volumes entregues gratuitamente para estudiosos do Espiritismo.

Com seu tratado primeiro, fundou o Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC), uma instituição de Educação e Pesquisa Científica, pacifista, laica, universalista, sem fins de lucro, não doutrinária, independente, que se destaca pela excelência em cursos e publicações técnico-científicas sobre as ciências Projeciologia e Conscienciologia. De acordo com os relatos, Waldo sempre foi um trabalhador incansável, defendendo sempre o pensamento livre, ético e responsável, destacando-se nele a coerência, a criatividade e a dedicação exaustiva.

Na madrugada do dia 26 de junho de 2015 enquanto se recuperava de uma cirurgia, ele sofreu um acidente vascular cerebral considerado irreversível, vindo a desencarnar, aos 83 anos, em 2 de julho de 2015.

Todas as suas instituições continuam funcionando até o momento presente. Honrando uma vida de muita caridade, talento e dedicação.

Para os jovens, Waldo em seu livro, recomenda “moderar as manifestações de excessivo entusiasmo, exercitando-se na ponderação quanto às lutas de cada dia, sem, contudo, deixar-se intoxicar pelas circunspecção sistemática ou pela sombra do pessimismo. O culto da temperança afasta o desequilíbrio. E recomendava: “A imprudência constrói o desajuste, o desajuste cria o extremismo e o extremismo gera a perturbação”.

Aos médiuns, advertia: “Quem se propõe avançar no bem, deve olvidar toda causa de perturbação”. E sempre ressaltava a palavra do apóstolo Paulo: “A manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”. E alertava: “No rastro do orgulho, segue a ruína”.

No cotidiano público, Waldo ensinava sempre: “Cumprimentar com serenidade e alegria as pessoas que convivem conosco, inspirando-lhes confiança”. E mais: “Abolir o divertimento impiedoso com os mutilados, com os enfermos mentais, com os mendigos e com os animais que nos surjam à frente”.

Para aqueles que ainda discriminam o trabalho, não contemporizava: “Em nenhuma ocasião desprezar as ocupações de qualquer natureza, desde que nobres e úteis, conquanto humildes e anônimas.”

Num ano eleitoral como o atual, a recomendação de Waldo cai como uma luva: “Cumprir deveres de cidadão e eleitor, escolhendo o candidato aos postos eletivos, segundo os ditames da própria consciência, sem, contudo, enlear-se nas malhas do fanatismo de grei”. E mais: “Impedir palestras e discussões de ordem política nas sedes das instituições doutrinárias, não olvidando que o serviço de evangelização é tarefa essencial”.

O livro é oportuno demais, posto que não contemporiza: “Renunciar sempre às comemorações que traduzam excessos de qualquer ordem, preferindo a alegria da ajuda fraterna aos irmãos menos felizes.”

O livro retempera e reanima, favorecendo um caminhar evangelizador mais consistente, de mais fraternidade e menos cavilações, de um Brasil para todos os brasileiros.


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