Coluna: FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES – SEMPRE A MATUTAR

ALICERCES INDISPENSÁVEIS

Para quem gosta de estudar a Doutrina Espírita, que alicerces auxiliares são necessários para uma efetiva compreensão dos parâmetros kardecistas? Na minha modesta opinião de aprendiz, digo que uns bons livros são válidos, dentre os quais se destacariam alguns, além do Pentateuco Kardecista, obrigatório para quem intensamente busca apreender os parâmetros ditados pelos Espíritos Superior a Allan Kardec, aquele que codificou os ensinamentos recebidos. Enumero os que ainda são significativos para meus estudos cotidianos:

O Espiritismo de A a Z, Geraldo Campetti Sobrinho (coordenação), 4ª. ed., BSB, FEB, 2013, 964 p. Um projeto elaborado com a finalidade de fornecer informações espíritas contidas nas diversas publicações da Federação Espírita Brasileira. A equipe responsável examinou mais de 300 títulos de circulação corrente, desenvolvendo-se através de vocábulos, definições e fontes. A publicação reúne 2.100 vocábulos, 10.000 conceitos e definições, com todas as fontes registradas entre parêntesis, ao final do volume, que também contém as Referências e o Índice dos Vocábulos. Através do dicionário se pode diferenciar, compreendendo sem dificuldades, espírita cristão, espiritista cristão, espírita exaltado, espírita experimentador, espírita imperfeito, espírita por intuição, espírita sem o saber e espírita verdadeiro. Os inúmeros tipos de médiuns também se encontram devidamente classificados, inclusive os chamados médiuns tiptólogos, aqueles através dos quais os ruídos são provocados.

Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, 12 volumes, SP, Edicel, de janeiro de 1858 a março de 1869. A coleção é “a mais prodigiosa fonte de informações sobre o Espiritismo e de instruções doutrinárias.” O próprio Allan Kardec a indica, no capítulo 3º. d’ O Livro dos Médiuns, como obra indispensável, aconselhando a seguinte ordem para os estudos iniciais: 1º. O que é o Espiritismo; 2º. O Livro dos Espíritos; 3º. O Livro dos Médiuns; e 4º. a Revista Espírita. O próprio Kardec assim define a Revista: “Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos destacados que complementam a exposição das duas obras precedentes, e que representa de alguma maneira a sua aplicação.” Allan Kardec nos ofereceu, durante onze anos e quatro meses de trabalho intensivo, explicitando ao vivo toda a História do Espiritismo. Nada é ocultado do leitor. A editora Edicel já reeditou este ano os oito primeiros volumes, estando todos eles em promoção, com bons descontos.

Bíblia Sagrada King James Novo Testamento, 1611, São Paulo, Abba Press, 2007, 640 p. Considerada a mais preciosa pérola da língua inglesa, a versão do Rei James I, da Inglaterra, é a obra mais aclamada da religião e cultura. Sua versão para a Língua Inglesa contou com a dedicação de 54 eruditos estudiosos das línguas orientais. A tradução para a língua portuguesa envolveu mais de 20 profissionais e durou 7 anos de trabalhos exaustivos.

Para sedimentar mais um cadinho nossa enxergância de aprendiz de tudo, permitam-me os iniciantes que nem eu para as indicações abaixo, todas elas complementares:

De Primatas a Astronautas: a jornada do homem em busca do conhecimento, Leonardo Mlodinow, Rio de Janeiro, Zahar, 2015, 390 p. O autor nos leva para uma grande jornada pelo mundo da ciência, revelando personagens fascinantes, curiosidades múltiplas que nos conduziram desde as nossas origens até os dias de hoje, das cavernas até os foguetes interplanetários. Tudo embasado por um sede inesgotável de conhecimentos, cumprindo a recomendação do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, que sempre proclamava que “quem tivesse fé saberia fazer melhor que ele”. Segundo V.S. Ramachandran, professor da Universidade da Califórnia, “Mlodinow faz um traçado vivo das revoluções do pensamento e da cultura que definem nossa civilização e, de brinde, apresenta uma estimulante visão da história e da majestosa abrangência da ciência moderna.” O livro é composto de três partes: 1. Quando nos erguemos; 2. As ciências; 3. Além dos sentidos humanos. E um epílogo, onde o autor define o entendimento humano como uma sucessão de fantasias, sempre ressaltando a importância do pensamento crítico e inovador, que perscruta onde estamos e para onde estamos indo.

A História do Século XX, Martin Gilbert, São Paulo, Planeta, 2016, 830 p. Um dos maiores historiadores, pesquisador britânico reconhecido mundialmente, assumiu um desafio: sintetizar num só volume os principais movimentos do século XX, tornando-o uma leitura obrigatória para aqueles que buscam entender melhor o século mais importante da humanidade, também o mais conturbado. A definição é do jornal The Sunday Times: “Martin Gilbert é um dos autores mais prodigiosos de nosso tempo… Temos aqui um trabalho fascinante do qual todos podemos nos beneficiar mergulhando fundo.” Um dos capítulos mais fascinantes é o 10º.- Os desafios da modernidade -, onde poderemos induzir as perspectivas das próximas décadas, hoje tão carentes de “enxergância humanística” e “ética planetária”.

Apropriação Indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum, Gar Alperovitz & Lew Daly, São Paulo, Editora SENAC, 2010, 244 p. Um livro que debate com ampla originalidade a estupenda distribuição da riqueza e da renda mundiais nos tempos contemporâneos. Para se ter uma ideia do desequilíbrio estrutural que atualmente abala os quatro cantos do planeta, vale a pena reproduzir o reconhecimento feito por Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, de fortuna calculada, em 2008, em 60 bilhões de dólares: “A sociedade é responsável por uma porcentagem bastante significativa do que recebi.” Uma sinceridade comprovada pelos autores: “pelo menos 90% – e talvez até mais – dos lucros particulares são derivados não de ingenuidades, talento ou investimento individuais, mas do que é descrito como uma apropriação injusta de nossa herança coletiva, ou seja, o conhecimento científico e tecnológico que faz a economia girar.” Os autores ressaltam como um número mínimo de indivíduos – pessoas físicas ou jurídicas – se apossa do vasto conhecimento herdado das gerações passadas e dele obtêm lucros espetaculares com base num falso direito de patente.

Para os caminhantes iniciais, nunca esquecer o que escreveu Carlos Castañeda: “Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz… Um caminho é só um caminho …”. Traduzindo em miúdo o pensar de Castañeda: “Se você fizer o que sempre fez, vai ter o resultado que sempre teve“.

CADERNOS DE VICTOR HUGO

Pouca gente sabe que o famoso escritor francês Victor Hugo (1802-1885), autor dos mundialmente conhecidos romances Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, foi um deputado firme e oponente a Luís Bonaparte, tendo se exilado voluntariamente na ilha britânica de Jersey, a partir de 1852, após tentar estabelecer sem sucesso uma resistência armada contra o tirano que pretendia se eternizar no poder, no exílio permanecendo até 1870, com a queda de Napoleão III. Um exílio que se estenderia por dezenove anos.

Após o golpe de Estado de Napoleão III, em 2 de dezembro de 1851, o escritor francês deixa Paris nove dias depois, embarcando no trem das 20 horas com destino a Bruxelas sob a identidade de Jacques Firmin Lanvin, um tipógrafo. Antes de escolher Jersey, residiu na Antuérpia, em Londres e Southampton. Em 5 de agosto de 1852, Victor Hugo e seu filho Charles desembarcam na ilha anglo-normanda, onde os aguardavam, desde 31 de julho, Adèle Hugo, sua mulher, sua filha chamada também de Adèle, além de Auguste Vacquerie, um amigo fiel.

Em Jersey, uma amiga de Victor Hugo, principia a conversar com a família sobre Espiritismo, principalmente narrando as últimas experiências com Mesas Girantes e Falantes que tinham acontecido nos Estados Unidos, posteriormente difundidas por toda a Europa. As primeiras tentativas feitas com as Mesas com Victor Hugo muito o desapontaram, juntamente com seus próximos, amigos e familiares. Entretanto, em setembro de 1853, manifesta-se o espírito de Leópoldine, que havia se afogado dez anos antes, radicalmente modificando o ânimo do escritor e seus parentes. Desta experiência, até 1855, as sessões espíritas realizadas quase diariamente na casa do escrito são registradas em atas, a maioria delas por ele mesmo redigidas.

Com a desencarnação de Victor Hugo, em 1885, aos 83 anos, suas experiências espíritas e suas atas foram cercadas de mistério, algumas delas vindo à tona, de modo amplamente esparso.

Até que as Éditions Gallimard, em 2014, resolve editar todo o material coletado, no que foi seguido, neste ano, no Brasil, pela Editora Três Estrelas, tornando do conhecimento público brasileiro O Livro das Mesas: as sessões espíritas de Jersey, Victor Hugo, 2018, 628 p.

Nos quatro cadernos agora editados, há diálogos sobre uma série de questões: a condição humana, crime e punição, sofrimento e morte, destino da alma, a vida no além, e a importância do amor e do perdão. Também temas sociais são aventados, bastante adiantados para a época: o direito das mulheres e das crianças, o fim da pena de morte, inclusive a criação dos Estados Unidos da Europa, assuntos essenciais para compreender mais adequadamente a obra de Victor Hugo posterior ao exílio, também favorecendo uma compreensão mais ampla sobre os momentos iniciais da história do espiritismo.

No prefácio de Patrice Boivin, uma declaração histórica: “Entre 11 de setembro de 1853 e 8 de outubro de 1855, Victor Hugo dedica-se quase diariamente às sessões espíritas. Nessas ocasiões, dialoga com os espíritos mais ilustres: Aníbal, Dante, Caim, Skakespeare, Lutero, Safo, Chénier, Alexandre, o Grande, Leônidas, Molière, Jesus, Platão, Ésquilo, Galileu … – e com as formas mais abstratas: a Sombra do Sepulcro, a Crítica, a Metempsicose, o Drama ou a Morte”, sempre lhe restando, segundo ele, “passar em revista as constelações de pensamento.”

Com a chegada de Delphine de Girardim à ilha de Jersey, ela tomou a iniciativa de implementar as Mesas Girantes, cujas revelações muito contribuíram para o desenvolvimento da obra de Victor Hugo. Todo teor escrupulosamente anotado em cadernos e atas.

Foi o próprio Hugo quem concebeu O Livro das Mesas, que projetava sua publicação póstuma, pois nele “havia um espírito na mesa, independente do homem”, “um meio de escoar mais rápido e melhor a produção do cérebro”. Inicialmente impedidas pelo Além de divulgação, as Atas foram posteriormente liberadas, sendo registrados os principais fenômenos acontecidos entre 12 de setembro de 1853 até 5 de outubro de 1855. Para cada sessão, uma ata circunstanciada e amplamente detalhada era da responsabilidade de uma determinada pessoa, os demais participantes da sessão tendo plena liberdade de fazer suas anotações. Tais atas foram , posteriormente, transcrita em cadernos especiais, constituindo-se quatro volumes manuscritos encadernados, “cadernos vermelhos” como foram chamados pelo próprio Victor Hugo. Muitos anos depois, tais cadernos foram parar nas mãos de Gustave Simon, que providenciou uma publicação parcial em 1923, setenta anos após as primeiras sessões acontecidas, intitulada Na casa de Victor Hugo: as Mesas Girantes de Jersey.

Desaparecidos misteriosamente, com várias versões aparecidas e novamente disputadas, eis que, em 1972, um dos cadernos reaparece, sendo oferecido à Biblioteca Nacional, sendo por esta adquirido. Através dele, verifica-se o essencial ocorrido entre setembro de 1853 e outubro de 1855, em Jersey, lançando uma luz inédita sobre os fatos acontecidos.

Alerta-se, no prefácio da edição brasileira, que a palavra Mesa com maiúscula remete às vozes dos espíritos, enquanto com minúscula designa o objeto material. A letra X assinala uma palavra ilegível, as intervenções da Mesa estando em negrito.

Uma leitura reflexiva apropriada para mentes esclarecidas, com mínimos domínios da Doutrina Kardecista. Vale a pena dar uma conferida.

PS1. Indico uma passadinha no capítulo 10 do livro O Semeador de Estrelas, da médium Suely Caldas Schubert, biógrafa de Divaldo Franco. O capítulo intitula-se A Presença de Victor Hugo na Obra Mediúnica de Divaldo Franco.

PS2. Recomendo ainda o romance de Victor Hugo Do Calvário ao Infinito, RJ, Federação Espírita Brasileira, 2007, 580 p., romance psicografado por Zilda Gama (1878-1969), a primeira médium brasileira a obter do mundo do além uma substancial literatura espírita, causando sensação em todos os segmentos de leitores.

PARA LER, GOSTAR E SE ENTURMAR

Para quem conhece a coleção “A Vida no Mundo Espiritual”, lavra do Chico Xavier e do Espírito André Luiz, seguramente confirmará a reputação dela ser requisito basilar que enseja ler uma interpretação convincente das obras principais da Doutrina Espírita do Allan Kardec e dos textos mais consagrados dos autores que tratam de temas amplamente difundidos, onde se destacam Dragões e Legiões; Segunda Morte; Casamento no Plano Espiritual; Equipamentos e Armas Utilizadas no Plano Espiritual; Ovoides; Inversão Sexual; Animais no Plano Espiritual; Redução do Perispírito; Consequências dos Vícios para o Espírito; Meios de Transporte dos Espíritos; Dinheiro, Propriedade e Documentação no Plano Espiritual; Criações Mentais; Outros Planetas; e muitos outros.

Para ampliar as assimilações “enxergantes” de iniciantes e já reciclados, um livro recente está provocando releituras sucessivas das obras da dupla Chico Xavier/André Luiz: Nas Trilhas de André Luiz: assuntos relevantes, temas curiosos, casos interessantes, Jorge Reis, Ribeirão Preto, SP, Editora Dionisi, 2017, 300 p. Um nascido em Patamuté, sertão baiano, pós-graduado em Auditoria e Administração Financeira, professor universitário e aposentado do Serviço Público Federal, atualmente Diretor da AME – Associação Maternal Espírita, São José dos Campos (SP). Também produtor e apresentador do programa de rádio Vivência Espírita, Rádio Piratininga 750 AM, naquela cidade.

Numa Introdução chamada “NasTrilhas de André Luiz”, o Jorge Reis explica sem lero-lero: “Os Espíritos Superiores deixam claro, também, que a Codificação Kardequiana não traz o ensinamento completo, ou seja, é apenas o começo de uma nova era para a humanidade, pois a ciência ainda teria muito a descobrir e o homem muito a aprimorar no seu conhecimento moral e espiritual.” E deu testemunho: “Entre os maiores divulgadores da Doutrina Espírita podemos citar os brasileiros Bezerra de Menezes, que se configurou como um missionário cuja tarefa seria a de preparar a sociedade brasileira para acolher a semente do Espiritismo; Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo do bem, um espírito destinado a entrar para a história da educação espírita em todo país; Francisco Cândido Xavier, o homem chamado amor que, definitivamente, com ajuda de seus mentores, trouxe o Plano Espiritual para o mundo real.”

No prefácio do livro, o Fábio Alessio Romano Dionisi faz um alerta sobre aqueles que, na Lide Espírita, se imaginam de pleno conhecimento sobre tudo, não mais precisando reestudar determinadas áreas ainda não devidamente assimiladas, fazendo lembrar o notável Stephen Hawking, uma dos maiores gênios da atual safra planetária: “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão de conhecimento.” Em outras palavras: “À medida que ampliamos nossos conhecimentos, adquirimos meios que nos permitem encontrar, nas entrelinhas, ‘sementes’ deixadas para o tempo em que a ciência e o nosso discernimento pudessem germiná-las.”

Outro dia, três quinzenas atrás, uma pesquisa me deixou profundamente impactado: o brasileiro obteve o penúltimo lugar entre os povos que menos apreendem a realidade. Uma gente disleriada, na classificação clássica do notável Jessier Quirino, um tampa nordestino que sabe onde tem o nariz, na crítica necessária aos nossos comunitários abestalhamentos socioculturais.

O saudoso economista Celso Furtado, primeiro superintendente da Sudene, costumava alertar seus subordinados recém chegados da Cepal e outros rincões estrangeiros: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Mas será que o triângulo é retângulo?”. Um questionamento aos que, sem uma mínima bagagem humanística, imaginavam equacionar os problemas sociais do Nordeste através de equações econométricas cabeludérrimas, sem atentar dois mil réis para as condições psico-comportamentais de uma gente eivada de superstições, carregando um sem-número de “deus quis” e “se deus quiser”, mesclando tudo com “cumade fulosinha”, “perna cabeluda”, “sexta-feira 13” e outros trejeitos de nula validade.

A Filosofia ainda hoje, cada vez mais ofuscada por tecnologias entusiasmantes e temporárias por derradeiro, necessita ser mais apreendida por todos aqueles que buscam exercitar uma cidadania competente e uma profissionalidade efetiva para não se perder nas encruzilhadas nevoentas e embaraçosas para quem não é possuidor de um discernimento compatíveis para os enfrentamentos dos amanhãs cada vez mais complexos de uma conjuntura turbulenta por derradeiro.

Recordando com amigos os papos com o escritor Nilo Pereira, quando ele era presidente do Conselho Estadual de Cultura, admirando sua densidade humanística, seu estupendo bom humor, religião e política assuntos sempre descartáveis das conversas semanais, tomei conhecimento de um livro pra lá de oportuno para os tempos atuais, quando até parlamentar preso é flagrado, depois de uma folga, com queijos e biscoitos no fundo da cueca, descaradamente, sem qualquer pudor legislativo, a merecer indianamente chicotadas no rabo, umas duzentas.

O livro, Crer e saber: pensar o político, o moral e o religioso, Raymond Boudon, SP, Editora Unesp, 2017, 298 p., é considerado obra testamentária do pensador francês (1934-2013), tido nos ambientes acadêmicos sérios como um dos mais importantes cientistas sociais contemporâneos, conhecido mundialmente pelas suas pesquisas sobre mobilidade social e desigualdade de oportunidades, também pela defesa do individualismo metodológico. Segundo explicita a orelha do livro, “Boudon realiza uma síntese notável dos temas centrais de sua trajetória intelectual, complementada por uma apreciação da sociologia clássica, procurando dar mais sistematicidade às suas análises, aprofundando a relação entre considerações teóricas e estudos sociológicos quantitativos.”

Decididamente, o livro do Boudon é um livro para não abestados, “de nariz arrebitado”, como dizia minha avó e madrinha Zefinha, de Barreiros – PE, uma semianalfabeta de QI pra lá de arretado!!

NOTAS INTERCOMPLEMENTARES

PRIMEIRA

De repente, num dia qualquer de um final de dezembro, completou-se o tempo da parição. O casebre era rústico, de taipa e chão de barro batido. No apertado quintal, duas árvores e um pedaço de jornal velho que noticiava estrondoso baile de carnaval, gastos alibabásticos, desbunde total, os vários sexos em desvairamentos faraônicos, tudo em prol das criancinhas de rua da cidade.

A dor apertando mais. Calor brabo, três da tarde, um domingo. Ao lado do magro colchão de palha estendido no chão do único dormitório, a Elisabete, prima também descendente de Aarão, aguardava o instante maior. Possuía tanta bondade que o seu filho João iria anunciar a Boa Nova, de há muito já profetizada por uns santos homens já desencarnados, que pregavam a libertação de todos. Com Maria – a prima parturiente – e os demais familiares, acreditava que um dia os famintos seriam cumulados de bens e os maus ricos despedidos de mãos vazias. Lembrando-se do Papa Paulo VI – “Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos” – orgulhava-se de pertencer a uma associação de moradores, num bairro de classe operária.

Elisabete também sabia que só blá-blá-blá não resolveria problema algum, a solução sempre advindo da organização e da união de todos para a concretização dos sonhos acalentados. Segundo ela, sonhando muitos estavam, embora ficassem restritos aos sonhos, não aceitando críticas, partindo para o desaforamento como se moleques de rua fossem, sem a serenidade das lideranças consolidadas.

A parteira chegara. Os panos e as toalhas, fervidos em caldeirão sobre carvão, a postos. As contrações ampliadas, embora a felicidade muito atenuasse as dores sentidas. Em minutos, Emmanuel exteriorizou-se rapidamente, sendo envolvido em faixas e deitado numas palhas doadas pelos da redondeza, solidariedade presente e sempre atenta aos gritos de fome e de angústia dos desempregados, das prostitutas que terão prioridade de ingresso na Festa de Encerramento e dos chacinados por uma violência desenfreada, efeito maior de uma injustiça cinicamente mantida pelos que controlam um sistema financeiro instalado na contramão da História.

Sadio, Emmanuel chegara. Foi circuncidado no oitavo dia e apresentado ao Chefão de Tudo, conforme recomendava uma cartilha muito lida: “Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor”. E dos muitos testemunhos, o de Simeão, um velho estivador aposentado por invalidez, foi o que calou mais fundo: “Esse Menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos”.

A aparência luminosa do garoto contagiava. Os vizinhos vibraram com a chegada do Filho da Maria. E prometiam ser d’Ele companheiros de Vida, para a difusão de um amor sem preconceitos, sem opressores, sem ódio e sem medo, onde ninguém fosse menos que ninguém, sem consumismos desenfreados, num agir corajoso e viril, fruto indispensável de uma evangelização essencialmente libertadora.

SEGUNDA

Para quem aprecia estudar vertentes inovadoras nos escritos sagrados, principalmente do Novo Testamento, minorando nossa pequenez diante da grandiosidade infinita da Mensagem do Homão da Galileia, por quem sou fiel seguidor, sempre merecedor da sua misericórdia, tornei-me entusiasta seguidor, de uns anos para cá, após sintonia pra lá de afinada entre a Doutrina Espírita e o Evangelho do Senhor Jesus. Quem lê Jo 16,12-15 – “Tenho ainda muito para vos dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito de Verdade, ele nos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido, e nos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu, e vos anunciará. Tudo que o Pai tem é meu; por isso vos disse: ele receberá do que é meu, e vos anunciará.”, logo apreende que as boas novas proclamadas pelo Nazareno e a Doutrina Espírita se integram num todo perfeito, tornando fermento de primeira qualidade para os ainda desatentos às linhas mestras da Mensagem do filho amado de Maria.

Para os que desejam se dedicar aos estudos entrelaçadores entre as Boas Novas e a Codificação elaborada pelo lionês Allan Kardec, recomendaria a leitura-alicerce, sementeira por derradeiro, do livro Um novo olhar sobre o Evangelho, Beatriz Palma de Carvalho Pereira, Capivari, SP, Editora EME, 2013, 372 p. A autora, médica especializada em ginecologia e obstetrícia pela USP, também orientadora do COEM – Curso de Orientação e Educação Mediúnica, tendo trabalhado durante muitos anos como diretora do Serviço Médico e do Serviço de Laboratórios de um hospital para hansenianos.

O objetivo do livro da Beatriz é claro: dar subsídios para que o leitor possa refletir sobre a integração e completude formadas pela leitura dos Evangelhos. Através de uma compreensão cada vez mais acurada dos Evangelhos, através dos esclarecimentos proporcionados pela Dra. Beatriz Carvalho, poderemos nos aprofundar nos ensinamentos transmitidos pelo Nazareno, favorecendo uma militância mais efetiva de todos na construção de um mundo mais pacífico, amplamente voltado para uma fraternidade sem preconceitos nem discriminações. Através do livro, efetivaremos uma jornada repleta de esperança e fé num futuro humano mais dignificante para todos nós.

O livro da Dra. Beatriz Carvalho é dividido em três partes. Na primeira, uma evolução histórica do Cristianismo, dos primórdios do evangelho, onde se destacam quatro parâmetros, também abordando a Missão de Jesus; na segunda parte, aborda-se a divindade de Jesus, a Oração, os principais fenômenos espíritas ocorridos nos tempos de Jesus, a divulgação do Evangelho, a incompreensão dos apóstolos e dos discípulos, a divulgação do evangelho após os primeiros tempos da desencarnação do Nazareno; na terceira parte, explicita-se o sinal do profeta Jonas, efetiva-se uma análise bastante esclarecedora sobre as tentações sofridas pelo Messias, a Santa Ceia, a convocação dos Apóstolos, em anexo uma bibliografia consultada pela autora, onde se destacam um dos trabalhos últimos de Kardec – A Gênese -, o livro Cristianismo e Espiritismo, de Léon Denis, e o excelente Cristianismo: a Mensagem Esquecida, de Hermínio C. Miranda.

No livro da Beatriz Carvalho, quatro capítulos merecem uma atenção bastante acurada dos mais responsáveis: os que analisam/interpretam os quatro parâmetros: a Evolução do Espírito, a Reencarnação, a Comunicabilidade dos Espíritos e a Pluralidade dos Mundos Habitados.

RELATO IMORREDOURO

Os livros não técnicos, eu os costumo dividir entre os deletáveis da memória e os que permanecem ao longo do tempo, sempre a estimular uma nova “espiadinha”, pelo conteúdo e pelo estilo sedutor do autor. Para quem gosta como eu de acontecimentos históricos vinculados à Segunda Guerra Mundial, indico com densa emoção um lançamento recente: Os meninos que enganavam nazistas, Joseph Joffo, São Paulo, Vestígio, 2018, 284 p. Uma narração sobre dois ainda não adolescentes, Joseph e Maurice Joffo, 10 e 12 anos respetivamente, judeus, que perambularam sozinhos por várias estradas fugindo da morte, buscando uma zona livre das atrocidades nazistas impostas pelos seguidores alemães e não alemães do assassino psicopata Adolfo Hitler, que imaginava um império de raça ariana pura por mais de mil anos.

Incentivados pelo pai judeu barbeiro, que tinha um conceituado salão num dos bairros da capital francesa, os garotos resolveram seguir os irmãos mais velhos, que já tinham partido poucos meses antes em busca da liberdade.

Antes que fosse tarde demais, o pai dos garotos, ouvindo o relato dos meninos sobre os insultos e agressões sofridos desde quando foram obrigados a usar uma estrela amarela no casaco, reuniu os dois irmãos à beira da cama e principiou uma sincera conversa de despedida: “- Não é uma conversa muito interessante e não teria fascinado vocês por muitas noites, mas vou contar o essencial. Quando era pequeno, bem menor que vocês, eu vivia da Rússia, e na Rússia havia um chefe todo-poderoso chamado tzar. Esse tzar era como os alemães de hoje, gostava de fazer a guerra e tinha imaginado o seguinte esquema: enviava emissários…” E ele complementou, depois de explicar aos meninos o que seriam emissários: “- Ele enviava emissários às cidadezinhas, e, lá, eles reuniam meninos como eu e os levavam para campos onde se tornavam soldados. Davam-lhes uniformes, ensinavam-nos a marchar, a obedecer ordens sem discutir e a matar inimigos. Então, quando atingi a idade que poderia ser pego por esse emissários, meu pai falou comigo como estou fazendo com vocês hoje… Ganhei minha vida, aos 7 anos, escapando dos russos, e podem crer que nem sempre foi fácil. Fiz de tudo um pouco. Juntei neve por um pedaço de pão com uma pá que era o dobro do meu tamanho. Encontrei pessoas boas que me ajudaram e outras que eram ruins. Aprendi a usar tesouras e me tornei cabeleireiro. Andei mundo afora. A mãe de vocês tem uma história parecida com a minha. Todo dinheiro que ganhei foi com meu suor...”

E com a voz embargada complementou: “- Vocês sabem que não podem voltar para a casa todos os dias nesse estado. Sei que sabem se defender e que não têm medo, mas precisam entender uma coisa: quando não se é mais forte, quando se é apenas dois contra 10, 20 ou 100, a verdadeira coragem é deixar o orgulho de lado e dar o fora. Vocês notaram que os alemães estão ficando cada vez mais duros com a gente. Já teve o recenseamento, o aviso no salão, as revistas, hoje a estrela amarela, amanhã seremos presos.” E concluiu, sem perder a calma aparente: “- Agora, vocês vão guardar bem o que vou lhes dizer. Vão partir esta noite. Vão pegar o trem até a estação de Austerlitz, e lá conseguirão uma passagem para Dax. Em Dax, terão de atravessar a linha. É claro, não terão documentos para passar, terão de se virar… Finalmente, precisam saber de uma coisa. Vocês são judeus, mas nunca admitam isso. Entenderam? NUNCA!

E foi então que aconteceu o último teste. O pai chamou Joseph e indagou dele se ele era judeu. Ouvindo um “não” de resposta, estapeou fortemente o rosto do menino, embora nunca tivesse batido neles antes. E esbravejou: – Não minta! Você é judeu, Joseph? E diante de uma contundente nova resposta “não”, o pai declarou emocionado, alto e bom som: “- É isso. Acho que está tudo claro agora.” E foi então que as duas crianças, Joseph e Maurice, perceberam que suas infâncias estariam terminadas daquela noite em diante.

O que se segue, peripécias mil, bondades recebidas e artimanhas arquitetadas, além de mil e uma firulas para sobrepujar as sacanagens engendradas pelos “sabidos”, torna a leitura do livro inesquecível, favorecendo a nossa convicção de uma existência de uma solidariedade universal surge de onde menos se espera, favorecendo o caminhar da humanidade para uma fraternidade que consolidará definitivamente a Criação.

Seguramente, uma autobiografia repleta de muita espontaneidade, gigantesca ternura desfricotada e um humor judaico que bem comprova a superação dos momentos mais sombrios, quando se está a exigir ponderações dos mais variados calibres, inclusive uma fé inquebrantável nos destinos redentores do Ser Humano.

Vale a pena dar uma espiadinha leitural cidadanizadora. Para melhor entender a supimpa advertência do romancista francês Victor Hugo, autor do famoso romance Os Miseráveis: “Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha”.

NOTAS VÁRIAS

1. Contendo uma quase completa biobibliografia do autor, o Bê-a-Bá de Pernambuco do meu saudoso amigo Mauro Mota está repleto de notáveis apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos? O livro de Mauro Mota faz justiça histórica ao nosso passado. Diz ele, sempre comprovando com referências e dados, que Pernambuco ostenta inúmeros pioneirismos em relação ao Brasil: a primeira igreja, a de São Cosme e São Damião, em Igarassu; o primeiro estudo científico de história natural de uma região; o primeiro observatório astronômico; o primeiro zoo botânico; o primeiro drama representado em teatro público; a primeira cidade do continente a ter um plano de urbanização; os primeiros sobrados de sete andares; a única ponte giratória; a primeira assembleia legislativa, a câmara dos escabinos, criada por Maurício de Nassau. No Bê-a-Bá poderemos constatar como nós utilizamos palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, angu, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. O livro trata com muito carinho da mais importante revolução do Brasil colonial: a Revolução Pernambucana de 1817. Sentimento nativista repleto de batinas rebeldes, comandado pelos freis Arruda Câmara e Caneca, dois carmelitas, capazes de meter carreira em capeta metido a besta. Mas também não esqueceu Mauro do papel desempenhado pelo Clube do Cupim, reduto de abolicionistas. E não se descurou o poeta de analisar o rosismo, os borbistas e os dantistas, além do fenômeno do cangaço, desde o banditismo mais cruel até o pitoresco, lembrado por ele, quando da ocasião da visita de parente e amigo a um que se encontrava recolhido à Casa de Detenção:

– Pruquê os sordados te pegaro,cumpadre ?

– Injustiça, injustiça. Misera dos homem, cumpadre. Matei cinco pro coroné, não me aconteceu nada. Pru caso do primêro que matei pra mim, tou aqui.

2. Empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação de bancarrota, sempre se assessorando nos melhores talentos, eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

3. Receio pelo momento presente do país. Das desesperanças transformadas em explícitas desobediências civis. Dos falsos moralismos dos puritanos, eternos donos das verdades mais absolutas. Dos eu-não-disse? de uma esquerda incompetente, messiânica, sem proposta nem criatividade, aferrada a dogmas ultrapassados. De uma direita sempre a contemplar o próprio umbigo, viciada em retrocessos para se manter na ponta dos cascos, esmagando tudo e todos. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os níveis de desemprego se agigantam e os “bicos” tornam-se mais escassos, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e autoritarismos messiânicos, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.

5. Muito deve amedrontar as massas profissionalmente desqualificadas, bucha de canhão para mistificadores e falsos profetas. “Para quem não sabe ler, um pingo é letra” e “Para o mau oficial nenhuma ferramenta presta“, complementam-se magnificamente, retratando uma tragédia educacional, a brasileira, que é consequência direta das desatenções de toda elite dirigente para com um efetivo processo integrado de cidadania, prioridade das prioridades de qualquer planejamento governamental estratégico digno de confiança. Para toda sociedade elitista e autofágica, outros provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã brasileiro menos truculento: “Antes prevenir do que remediar”, “Para grandes males, grandes remédios”, “O barato sai caro”, “Do prato à boca, perde-se a sopa”, “Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e ambiência, recomenda-se a leitura, e memorização, das seguintes advertências: “Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá”, “Quem o alheio veste, a praça o despe”, “O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que “Quem come a carne que roa os ossos”, posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. E pouco a pouco vamos percebendo, todos os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam ninguém. Nem faraós nem tupiniquins. Tampouco fiéis e ateus. Necessário apenas não deixar para amanhã o que se pode alertar hoje. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, estou convencido. Um dia, breve embora não muito ainda, a maturidade da convivialidade comunitária preponderará. Aí todos perceberão que somente sobreviverão se todos agirem como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando plenamente a cartilha dos seus direitos e dos seus deveres. Quem viver, vivenciará.

CONDUTA ESPÍRITA

Na livraria da Casa dos Humildes, Recife – PE, encontrei um livro que bem poderia ser debatido nas reuniões primeiras dos que estão se iniciando, que nem eu, na caminhada de Trabalhador da Casa, preparando-se para ações evangelizadoras recheadas de muita solidariedade e ação fraternal.

O livro intitula-se Conduta Espírita, Waldo Vieira, 36ª. edição, Brasília, FEB, 2015, 118 p., com um prefácio de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, em 17 de janeiro de 1960, onde Emmanuel diz que “ler este livro equivale a ouvir um companheiro fiel ao bom senso. E se o bom sendo ajuda a discernir, quem aprende a discernir sabe sempre como fazer.”

Para os ainda não antenados, segundo o Google, Waldo Vieira foi grande parceiro de Chico Xavier, tendo escrito ao lado dele obras de grande importância para a doutrina Espírita. Nasceu em Monte Carmelo – MG em 1932. Aos 4 anos já era alfabetizado e desde muito cedo teve experiências consideradas paranormais. Para lidar com isso seus pais recorreram a Doutrina Espírita, que o ajudaram a perceber a superdotação.

Irmã de Waldo Vieira, Ruth Rocha Siqueira, nos relata que ele era muito ativo e que em todas as brincadeiras ou estudos que ele realizava ainda criança era o mais disposto. Gostava de saber sempre mais, estudava e se dedicava além do necessário para a idade dele. Criatividade também era uma de suas características marcantes. E mais: também seu sobrinho, Jarbas Paranhos, nos relata que sua bisavó gostava de tocar violão para eles dois. E a ação daquela senhora, sem que ela notasse, fazia com que espíritos de um cemitério próximo viessem todos para a reunião escutar a música. Waldo Vieira, ainda com 5 anos na época, conseguia enxergar todos esses espíritos desencarnados. Até que um dia ele não deixou a senhora tocar mais e explicou para ela o porque que ela não devia tocar tais músicas.

Waldo viveu em Uberaba dos 13 aos 26 anos, onde dedicou-se a psicografia e aos estudos dos fenômenos extra sensoriais. Esse estudo feito na adolescência serviu de base para a Projeciologia que estuda a experiência da consciência fora do corpo e outros fenômenos parapsíquicos.

Fundou Waldo muitas instituições na sua fase de estudante, ainda na Faculdade de Odontologia, depois na Faculdade de Medicina, posteriormente instituindo uma série de instituições médicas, clínicas e hospitais. Em 1966, Waldo se muda para o Rio de Janeiro onde se dedica integralmente à sua pesquisa. E em 1986, lança o primeiro tratado da Projeciologia, panorama das experiências da consciência fora do corpo humano. Levou em torno de 19 anos para escrever essa obra, e foram mais de 5 mil volumes entregues gratuitamente para estudiosos do Espiritismo.

Com seu tratado primeiro, fundou o Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC), uma instituição de Educação e Pesquisa Científica, pacifista, laica, universalista, sem fins de lucro, não doutrinária, independente, que se destaca pela excelência em cursos e publicações técnico-científicas sobre as ciências Projeciologia e Conscienciologia. De acordo com os relatos, Waldo sempre foi um trabalhador incansável, defendendo sempre o pensamento livre, ético e responsável, destacando-se nele a coerência, a criatividade e a dedicação exaustiva.

Na madrugada do dia 26 de junho de 2015 enquanto se recuperava de uma cirurgia, ele sofreu um acidente vascular cerebral considerado irreversível, vindo a desencarnar, aos 83 anos, em 2 de julho de 2015.

Todas as suas instituições continuam funcionando até o momento presente. Honrando uma vida de muita caridade, talento e dedicação.

Para os jovens, Waldo em seu livro, recomenda “moderar as manifestações de excessivo entusiasmo, exercitando-se na ponderação quanto às lutas de cada dia, sem, contudo, deixar-se intoxicar pelas circunspecção sistemática ou pela sombra do pessimismo. O culto da temperança afasta o desequilíbrio. E recomendava: “A imprudência constrói o desajuste, o desajuste cria o extremismo e o extremismo gera a perturbação”.

Aos médiuns, advertia: “Quem se propõe avançar no bem, deve olvidar toda causa de perturbação”. E sempre ressaltava a palavra do apóstolo Paulo: “A manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”. E alertava: “No rastro do orgulho, segue a ruína”.

No cotidiano público, Waldo ensinava sempre: “Cumprimentar com serenidade e alegria as pessoas que convivem conosco, inspirando-lhes confiança”. E mais: “Abolir o divertimento impiedoso com os mutilados, com os enfermos mentais, com os mendigos e com os animais que nos surjam à frente”.

Para aqueles que ainda discriminam o trabalho, não contemporizava: “Em nenhuma ocasião desprezar as ocupações de qualquer natureza, desde que nobres e úteis, conquanto humildes e anônimas.”

Num ano eleitoral como o atual, a recomendação de Waldo cai como uma luva: “Cumprir deveres de cidadão e eleitor, escolhendo o candidato aos postos eletivos, segundo os ditames da própria consciência, sem, contudo, enlear-se nas malhas do fanatismo de grei”. E mais: “Impedir palestras e discussões de ordem política nas sedes das instituições doutrinárias, não olvidando que o serviço de evangelização é tarefa essencial”.

O livro é oportuno demais, posto que não contemporiza: “Renunciar sempre às comemorações que traduzam excessos de qualquer ordem, preferindo a alegria da ajuda fraterna aos irmãos menos felizes.”

O livro retempera e reanima, favorecendo um caminhar evangelizador mais consistente, de mais fraternidade e menos cavilações, de um Brasil para todos os brasileiros.

PENSAR PARA SABER VIVER

Um fato, ocorrido anos atrás, me deixou com uma vontade imensa de ver disseminado pelas nossas escolas brasileiras, nas suas últimas séries do Ensino Fundamental. O acontecido foi o seguinte: numa viagem de férias com seus rebentos, pais propuseram a um professor de Filosofia que ministrasse um Curso de Filosofia, descomplicadamente ou eruditês, tampouco palavras complicadas. A excursão foi um sucesso, o prazer tornando-se imbricado com uma melhoria do saber do grupo, favorecendo uma convivialidade pra lá de ótima.

Concluído o passeio inesquecível, propuseram ao professor que transformasse em livro os rascunhos expostos, posto que nas livraria nada existia de equivalente. O resultado foi o livro Aprenda a viver – filosofia para novos tempos, de Luc Ferry, RJ, Objetiva, 2ª. ed. em 2010, 240 p. Um sucesso editorial que precisaria ser difundido nas escolas brasileiras, públicas e particulares, ministrado por pessoal animador bem capacitado, objetivando favorecer o entendimento sobre as grandes questões que marcaram a história do pensamento mundial, sem obscuridades nem academicismos, servindo de ponto de partida para leituras reflexivas mais densas, a favorecer um pensar construído através de um universo de ideias que alicerçassem um caminhar pessoal/profissional compatível com os desafios contemporâneos.

Seu autor, Luc Ferry, foi Ministro da Educação da França, que escreveu o livro voltado para um público não especialista, sempre em busca de um alicerce que favoreça um desabrochar intelectual compatível com as atuais “pedras do caminho” que impossibilitam um caminhar racional, profundamente iluminador, sem ilusionismos nem constrangimentos impostos por dogmas de todas as vertentes.

O livro está dividido em seis capítulos: 1. O que é a filosofia?; 2. Um exemplo de filosofia antiga. O amor à sabedoria segundo os estoicos; 3.A vitória do cristianismo sobre a filosofia grega; 4. O humanismo ou o nascimento da filosofia moderna; 5. A pós-modernidade. O caso Nietzsche; 6. Depois da desconstrução. A filosofia contemporânea.

O Luc Ferry, um não-materialista, escrevendo um livro com seu dileto amigo André Comte-Sponville, materialista, revela: hoje, “graça a André, compreendi a grandeza do estoicismo, do budismo, do spinozismo, de todas as filosofia que nos convidam a ‘esperar um pouco menos e amar um pouco mais’. E compreendi também o quanto o peso do passado e do futuro estraga o gosto do presente e até gostei mais de Nietzsche e de sua doutrina da inocência do devir. Nem por isso me tornei materialista, mas não posso mais dispensar o materialismo para descrever e pensar algumas experiências humanas. Em sumo, acredito ter alargado o horizonte que era o meu até algum tempo atrás”.

Para os que estão no Ensino Médio, concluído o livro do Ferry, recomendo também um outro livro bastante esclarecedor, repleto de contemporaneidade: Filosofia – Construindo o Pensar, volume único, Doris Incontro/Alessandro Cesar Bigheto, 3ª. ed., SP, Escala Educacional, 2010, 424 p. O objetivo principal dos autores é “incentivar a construção do pensamento do leitor, a partir de um diálogo não só com grandes filósofos, mas também com artistas, cientistas, religiosos, teóricos sociais e outros. O livro é composto de três partes: Filosofando, composta de 12 capítulos temáticos; Pequena história da Filosofia Ocidental; Dicionário de filósofos, com uma breve referência biográfica de 133 filósofos. Os capítulos temáticos são os seguintes: 1. Filosofia, o que é? Como, porque e para quê?; 2. Ser ou não ser? Eis a questão!; 3. Deus, uma dúvida, uma certeza ou uma negação?; 4. Temos certeza do que sabemos?; 5. Santos e vilões: o bem e o mal existem?; 6. O ser humano: projeto e condição; 7. Se eu vivo, logo existo?; 8. Se morro, logo não sou?; 9. O poder: um mal necessário?; 10. Quem quer um mundo diferente? 11. Por uma Filosofia do diálogo; 12. Amor, coisa do corpo ou da alma?

Os autores alertam os mais desavisados: A Filosofia não é um conhecimento como a Matemática, exato, preciso, indiscutível; trata-se de um conhecimento interpretativo. E concluem que é muito mais honesto declinar nossa visão que nos vestir de ares de uma neutralidade impossível.

Os dois livros acima, para os que se sentem ainda semi-analfabéticos que nem eu, seguramente proporcionarão “uma conclusão benéfica: toda filosofia resume em pensamentos uma experiência fundamental da humanidade, como toda grande obra artística ou literária traduz os possíveis das atitudes humanas nas formas mais sensíveis”.

Ler Filosofia é cidadanizar-se mais solidariamente com um mundo que está a carecer de muito mais humanismo e muito menos fome.

PS. Para quem deseja ampliar sua enxergância e suas convicções ideacionais, recomendo um texto profundamente desabestalhador: Como Pensar sobre Grandes Ideias, Mortimer J. Adler, São Paulo, É Realizações, 2013, 574 p. Uma leitura muito sedutora que nos orienta sobre um monte de coisas que estão obscurecendo a mente de comunidades inteiras, que ignoram como pensar civilizadamente, inclusive sobre o Amor, a Liberdade, a Justiça, o Trabalho, sobre Democracia e o Progredir, sabendo bem diferenciar entre Lazer e Diversão.

ESCLARECIMENTOS VALIOSOS

Para quem dá os passos primeiros na Doutrina Espírita e deseja ampliar seus conhecimentos sobre os seus fundamentos, recomendo a leitura de um livro bastante aplaudido nos quatro cantos do país: Mediunidade – tire suas dúvidas, Luiz Gonzaga de Souza Pinheiro, Capivari (SP), Editora EME, 2016, 192 p., já na sua 16ª. reimpressão. O autor é um professor de Ciências e de Matemática da rede pública cearense, engenheiro graduado da UFCE, atuando há mais de três décadas no movimento espírita daquele estado, também sendo escritor, palestrante e dirigente de estudos doutrinários, sendo um dos fundadores do Projeto VEK, curso de Espiritismo por correspondência em quatro idiomas, com alunos matriculados no Brasil e no exterior.

Por indicação de ex-colega do Colégio Marista, a leitura do livro do Luiz Gonzaga me deixou plenamente satisfeito e apto para seguir adiante nas minhas reflexões sobre o assunto, favorecido pelas orientações recebidas dos orientadores da Casa dos Humildes, da qual sou trabalhador e que me tem proporcionado momentos de alegrias e muitas solidariedades, além de amizades sementeiras para todo o sempre.

Recentemente, tomei conhecimento do Projeto Manoel Philomeno de Miranda, criado no mês de maio de 1990, em Salvador, Bahia, tendo por finalidade dar apoio e treinamento aos trabalhadores da Área Mediúnica dos Centros Espíritas brasileiros, efetivando seminários, encontros e outros eventos correlatos. Sediado no Caminho da Redenção, na Bahia, seu nome homenageia Manoel Philomeno Batista de Miranda, cujas atividades doutrinárias sempre foram direcionadas para as áreas da obsessão e da desobsessão.

No campo editorial do Projeto, deparei-me com o livro Qualidade na Prática Mediúnica, 2012, 176 p., contendo 103 indagações diversas sobre o assunto, onde respondem Espíritos, Divaldo Franco e os responsáveis pelo Projeto. Extraí do livro seis questões, expostas abaixo, que bem complementam as dúvidas esclarecidas pelo Luiz Gonzaga de Souza Pinheiro, acima citado. Tudo embasado no objetivo ditado por Allan Kardec no texto que tem como subtítulo Guia dos médiuns e dos evocadores: “Dirigimo-nos ao que veem no Espiritismo um objetivo sério, que lhe compreendem toda a gravidade e não fazem das comunicações com o mundo invisível um passatempo”.

1. O afloramento da mediunidade tem época para acontecer? Resposta: – Espontaneamente, surge em qualquer idade, posição social, denominação religiosa ou ceticismo no qual se encontre o indivíduo.

2. Em síntese, qual o conceito chave para dignificação do compromisso mediúnico? Resposta: – A mediunidade, para ser dignificada, necessita das luzes da consciência enobrecida. Quanto maior o discernimento da consciência tanto mais amplas serão as possibilidades do intercâmbio mediúnico.

3. Qual o tempo de duração de uma prática mediúnica? Resposta: – Um tempo ideal para a prática mediúnica é de noventa minutos, incluindo-se a preparação com as leituras doutrinárias que, por princípio de disciplina, não devem ser alongadas.

4. Focalizando agora o doutrinador, quais os padrões de qualidade que deverão guiá-lo no exercício de suas funções? Resposta: – A primeira consideração é que o médium doutrinador tem um perfil próprio que o deve caracterizar. E a tônica principal dentro desse perfil deverá ser a racionalidade, o que não significa frieza, mas base na qual vai apoiar-se no caminho das ideias, para expressar o seu trabalho num clima de segurança e estabilidade emocional capaz de infundir confiança naqueles que atende. No doutrinador, o comportamento moral é essencial, a única via capaz de estabelecer a sintonia com os Mentores Espirituais e a única força capaz de infundir respeito aos espíritos rebeldes, ignorantes, primitivos, desarvorados, que são trazidos para receberem as terapias específicas. Além disso, exige-se-lhe um largo conhecimento doutrinário e do Evangelho pois que estes serão a fonte supridora de onde emanarão suas orientações.

5. Durante a doutrinação, devem-se fornecer muitas informações doutrinárias à entidade sofredora que se manifesta? Resposta: – Não. Essa é uma particularidade que devemos ter em mente. Quanto menos informações forem dadas, melhor. Os espíritas, com exceções, é claro, têm um hábito que não se coaduna com essa atividade: o de usarem vocabulário específico da Doutrina, esquecendo-se de que nem todo espírito que se comunica é um adepto do Espiritismo, capaz de conhecer os seus postulados. Por exemplo, comunica-se um espírito e se diz a ele: – Você está desencarnado. Ele não tem a menor ideia do que a pessoa está falando. Outro exemplo: – Você precisa afastar-se dos médiuns, desligar-se. Devemos nos lembrar sempre de que esse é um vocabulário específico da Doutrina Espírita que somente pode ser entendido por espíritas praticantes.

Por fim, recomendações outras são oferecidas aos doutrinadores iniciantes. Algumas delas, por demais indispensáveis:

– Usar sempre um tom fraternal, jamais piegas.

– Não pedir calma, aos primeiros estertores do espírito necessitado. A expressão “tenha calma, tenha calma…” pode inibir a explicitação de um problema.

– Não usar expressões como “venha com Deus” ou “venha na paz de Deus”, chaves que não levam a lugar nenhum.

Os dois livros acima são amplamente recomendáveis para todos aqueles que, caminhantes novos, buscam seguir a Doutrina Espírita, aprendendo mais para servir ao Senhor Jesus cada vez mais solidariamente com os menos afortunados.

SOBREVIVENDO AOS AMANHÃS

Confesso que fiquei bastante interessado com um livro visto recentemente numa exposição. Manuseando-o, o texto despertou-me curiosidades múltiplas, tanto pelo tema como pela autora, uma paranormal que foi jornalista política, responsável pela cobertura das administrações presidenciais de Roosevelt até Lyndon Johnson, atualmente residindo na cidade de Naples, no Estado da Flórida.

Qual o tema de Ruth Montgomery e por que ele é deveras impressionante? Simplesmente pelas fantásticas previsões dos guias espirituais que com ela convivem sobre os futuros planetários próximos. O livro intitula-se O Mundo Futuro, foi editado pela Editora Pensamento-Cultrix, São Paulo, contendo 144 páginas.

Numa Introdução, a autora revela que trabalhava em Washington, em 1960, quando teve os primeiros contatos com o mundo psíquico, pois até então não sabia absolutamente nada de fenômenos do além daqui. Um dia recebeu um convite de uma cunhada para acompanhá-la numa sessão espírita em St. Petersburg, Flórida, convite aceito com relutância. A sessão transcorreu com o recebimento de mensagens por demais interessantes, que justificariam reportagens sobre o assunto. Autorizada pelo presidente da International News Service (INS), a autora produziu matérias jornalísticas publicadas em centenas de jornais, proporcionando reações favoráveis dos leitores, tudo mais tarde transformado num livro intitulado Em Busca da Verdade.

Por ocasião do lançamento do livro-reportagem, Montgomery tinha conhecido Artur Ford, um famoso médium que havia decodificado o código do aclamado mágico Houdini. Acertando com ele uma entrevista, Ford conseguiu incorporar o espírito do pai da autora, revelando para ela fatos sobre os quais o Ford jamais poderia ter conhecimento. Na ocasião, Ford lhe disse que os espíritos lhe comunicaram que ela se encontrava capacitada para exercer a psicografia.

Resolvida a manter contatos com o além, Ruth Montgomery sentava-se diariamente na sua escrivaninha, meditando com um lápis na mão. Após várias dias de nenhuma ocorrência, certa feita seu lápis desenhou um lírio, escrevendo a palavra Lily com um floreio, o papel informando ainda que dali por diante receberia comunicações daquela entidade. Daquele dia em diante, Montgomery principiou a receber belas mensagens filosóficas, inclusive de acompanhante da própria Lily, que lhe ditaram cerca de quinze livros, o próprio Arthur Ford juntando-se ao grupo depois de desencarnado.

Certa manhã, antes de principiar a escrever as mensagens recebidas, Ruth recebeu uma mensagem que lhe ordenava: “Nós que mandamos ir para a máquina de escrever”. Com uma explicação: os informes estavam ficando de leitura difícil, dada a rapidez com que se desenvolviam. Foi então que Ruth Montgomery desenvolveu uma psicodatilografia, os Guias sempre informando que a morte não nos conduz a uma outra nova existência. O que acontecia era tão somente mudança de vibrações.

Nos seus textos, Montgomery ressalta a existência de Walk-ins (aqueles que entram). Espíritos desenvolvidos que podem voltar à Terra no corpo de pessoas adultas, não mais de bebês, trocando com almas que desejam partir, não mais desejando conservar a centelha da vida.

Certa feita, durante uma consulta de rotina com seu médico, Dr. Spano, este perguntou se ela já havia tido conhecimento de uma pessoa por ela chamada, no livro, de Marshall Brown. Num papel de receita, o próprio médico escrevera: “Há algo que eu deva saber acerca de Marshall Brown, médico”.

Imaginando-se posta à prova, Montgomery resolver consultar seus Guias, recebendo a seguinte resposta: “Diga a Joe Spano que o outro médico tem uma doença rara cujo tratamento específico é difícil de determinar. Como você sabe, nós não somos médicos, mas esse homem, que é muito bom, precisa da ajuda de especialistas para fazer seu diagnóstico. Joe Spano é uma alma muito antiga que é capaz de entrar dentro de si e sair com boas intuições; e por isso, ele será de grande ajuda a quaisquer especialistas que venham a ser chamar a cuidar do caso.”

Tempos depois, numa nova consulta de rotina, o Dr. Joe Spano me disse: “Aquela informação que a senhora me trouxe estava corretíssima, absolutamente correta.”

Recomendaria, neste primeiro quadrimestre de 2018, aos que farão brevemente vestibulares sérios para serem eticamente competentes, uma leitura de um texto elaborado com muito esmero pelo Dr. Juvenal Savian Filho, PhD pela USP e pós-Doctor pela Universidade de Paris, atualmente docente na Universidade Federal de São Paulo, desde 2006. Seu livro Filosofia e filosofias: existência e sentidos, BH, Autêntica, 2016, 400 p., elaborado para estudantes pré-universitários do Segundo Grau de Ensino, é uma bem estruturada desconstrução para todos aqueles que buscam compreender o sentido da existência, desde o comportamento humano até as manifestações políticas, a postura ética, o conhecimento e as diferenciadas interpretações da realidade atual, inclusive a experiência religiosa, a irreligiosidade e o ateísmo, estabelecendo traçados concretos para a edificação de um conhecimento humano compatível com os desafios atuais, sem as nostalgias que anestesiam e desenobrecem o ser humano. E que traz, logo em suas primeiras páginas, uma notável advertência de Charlotte du Jour: “É preciso, acima de tudo, basear-se na observação daquilo que está escondido dentro do seu ‘eu’ interior.”

PARA ANTENAÇÕES DE JOVENS E ADULTOS

Em Gravatá, onde descansei no Portal durante a última Semana Santa, um papo para lá de nada comum aconteceu com um casal catarinense de recém casados que curtiam lua-de-mel, extasiados com a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, a cada ano mais memorável.

Ambos arquitetos, ela 30, ele 29, simpaticíssimos e de nível cultural nada desprezível, efetivaram algumas perguntas, identificados como espíritas que nem nós, de família dirigente de um Centro de Desenvolvimento de Estudos e Análises Kardecistas, sediado a uma dezena de quilômetros da capital do estado.

Um dos autores mais estimados por todos nós foi J. Herculano Pires, um nascido em setembro de 1915, na antiga Província do Rio Novo, hoje Província de Avaré, Zona Sorocabana, São Paulo, desencarnado em março de 1979, tendo exercido por mais de trinta anos funções diversas nos Diários Associados, também sido colaborador muito próximo de Chico Xavier. Seu objetivo único existencial era o de comunicar ao seu derredor o que achava necessário, da melhor maneira possível, embora não tivesse vocação literária nem integrasse qualquer escola de letras, auto classificando-se como um grafomaníaco, um que escreve dia e noite. Graduado em Filosofia pela USP, publicou uma tese denominada O Ser e a Serenidade, editada pela Paidéia, onde reconduz o Existencialismo às suas perspectivas espirituais, abrindo nova frente, a do Existencialismo Interexistencial. No livro, por acaso nas mãos do casal, uma das “bofetadas” do Herculano: “Há mais serenidade no homem que defende com entusiasmo e calor os seus princípios do que no indivíduo falacioso, que procura serenamente as suas evasivas. É mais sereno o murro de uma verdade na mesa, do que o palavreado untuoso da mentira na boca de um santo de artifício”.

A partir do livro do J. Herculano Pires, concordou-se com o exagerado nível de despreparo da Doutrina Espírita entre os que se dizem integrantes de uma comunidade kardecista. Talvez os escritos “volumosos” do Allan Kardec sejam de leitura cansativa para jovens e adultos desacostumados, muitos custosos e de assimilação intelectual impeditiva para quem ainda incapacitado aos desafios do pensar mais complexo da nossa época.

Com a concordância geral, uma segunda etapa foi iniciada: a de indicações que favorecessem a ampliação da cognitividade de jovens e adultos. A partir do livro notável do Herculano, O Centro Espírita, Paidéia, 1980, algumas indicações foram surgindo, no final resultando numa mini-bibliografia pontapé inicial, que proporcionaria uma bagagem alicerce que favorecesse um crescimento intelectual capaz de ampliar habilidades diversas num Centro Espírita, evitando-se, segundo Herculano, “o carimbo da Igreja que marcou fundo a nossa mentalidade. Mais que a subnutrição do povo, com seu cortejo trágico de endemias devastadoras, o igrejismo salvacionista depauperou a inteligência popular, com seu cortejo de carreirismo político-religioso, idolatria mediúnica, misticismo larvar, o que é pior, aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres fariseus, estufados de vaidade e arrogância.” E ele ainda denuncia sem papas na língua: “Toda essa carga morta esmaga o nosso movimento doutrinário e abre suas portas para a infestação do sincretismo religioso afro-brasileiro, em que deuses ingênuos da selva africana e das nossas selvas superam e absorvem os antigos e cansados deuses cristãos.”

Eis as indicações eleitas pelos dois casais presentes:

1. Espiritismo para Jovens: a história de Jesus e o Livro dos Espíritos, para iniciantes da doutrina espírita, Eliseu Rigonatti, São Paulo, Pensamento, 2018, 454 p. O livro está dividido em duas partes. Na Parte I, a História de Jesus e a Doutrina Espírita através das Parábolas, contada por Lina, uma morena que deixava a criançada entusiasmada, ela sempre disposta, depois do jantar, a entreter os pixotes com sua voz doce e mansa, até o relógio da matriz bater oito horas, chegada a hora de cada um se recolher aos seus cantinhos. Narrativas entremeadas de contos, poesias e mil e uma curiosidades que esclareciam os pontos principais de O Livro dos Espíritos, a obra basilar da filosofia espírita. Na parte segunda, 43 aulas sobre o Livro dos Espíritos, a primeira história denominada “O Balaio”, mostrando a iniciativa de dois irmãos, na busca de um casaco de presente para o pai amado.

2. Educação e Espiritualidade – Interfaces e Perspectivas, Dora Incontri (organizadora), Bragança Paulista, SP, Comenius, 2010, 422 p. Composto de 25 palestras desenvolvidas no 1º. Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, efetivado em setembro de 2010 no Centro de Convenções Rebouças, São Paulo, estruturado pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, com o apoio da Universidade Santa Cecília. A 25ª. palestra, A Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro, é de autoria da organizadora, que detalha o nascimento da pesquisa espírita no Brasil no Colégio Allan Kardec, de autoria de Eurípedes Barnasulfo (1880-1918), a partir da qual surgiram mais de cem escolas fundadas pela educadora espírita Anália Franco (1853-1919), no Estado de São Paulo, onde se praticava um pluralismo étnico e religioso. A bem da verdade, revele-se que a formulação teórica da Pedagogia Espírita só foi devidamente identificada por José Herculano Pires, quando ele publicou os primeiros trabalhos em 1955. A leitura dos ensaios do livro organizado pela educadora Incontri faz desmoronar preconceitos e cavilações, favorecendo uma convivencialidade fraternal entre as mais diversas concepções religiosas, provocando uma ambiência inter-religiosa entre saberes, onde todos podem manifestar suas opiniões e princípios.

3. Filosofia: construindo o pensar, volume único, Dora Incontri / Alessandro Cesar Bigheto, 3ª. ed., São Paulo, Escala Educacional, 2010, 448 p. Direcionado para o Ensino Médio, destina-se a fazer compreender a urgente necessidade de aprender a saber apreender, favorecendo a construção de exposições consistentes, que possuam capacidade de serem bem assimiladas. Divide-se o livro em duas partes. Na primeira – Filosofando – busca-se entender alguns significados existenciais e questionamentos que incomodam e desfavorecem, se não devidamente esclarecidos. Na segunda – Contando a História – retrata com pinceladas consistentes, os ontens filosóficos e os amanhãs que se descortinam, inclusive em nosso país. Em anexo, um Dicionário de Filósofos, com informações sucintas dos principais pensadores da História da Humanidade. Inclusive alguns ainda vivos, militantes pacifistas.

4. O Ser e a Serenidade – Ensaio de ontologia interxistencial, 4ª. ed., J. Herculano Pires, SP, editora Paidéia, 2008, 152 p. O autor, focando o problema do existencialismo espírita, oferece uma reflexão sobre o problema do Ser. E analisa com acuidade a trilogia da Serenidade: 1. Procurar sempre a perfeição; 2. Nunca se deixar abater; 3. Elevar-se acima das circunstancias. Uma leitura que deve ser efetivada com muita vagareza, a mente sempre voltada para um além-vida, onde nas ondas das conjunturas históricas salvar-se-ão os bons nadadores, que poderão também salvar todos os demais, onde serenidade é bastante diferente de simples inquietação, esta significando um vazio eivado de impulsos aparentemente inexplicáveis.

As indicações acima somente favorecem uma pensação (pensamento com ação) que consolide a passos largos os laços fraternais de toda comunidade kardecista evangelizadora.

O HOMÃO DA GALILEIA

Filho muito amado de pais extremosos, era de profissão carpinteiro, idêntica a do genitor. Uma atividade que requeria saber escrever bem e fazer cálculos com precisão, requisitos básicos para o exercício de uma especialidade tida e havida, à época, como “de referência”.

Mesmo sem ter deixado nada rascunhado, possuía esmerado trato, consolidado na escola rabínica de Nazaré. Uma educação sinagogal, que lhe proporcionou uma formação apropriada de homem e de judeu, da parte não aristocrática de um povo convicto de ter sido eleito por um Deus tido como único.

Percebia-se escolhido para renovar a Aliança, tendo sido ungido como um não integrante dos meios sacerdotais. Mas que estaria possuidor de um selo de aprovação já anunciado com antecedência de muitas centenas de anos.

Atuando num movimento liderado por um primo próximo, de nome João Batista, depois do assassinato deste constituiu grupo próprio, nele tornando-se Mestre, batizando até mais que o próprio parente e sempre apregoando rupturas dos modos de ser e de viver dos que persistiam em continuar sobrevivendo apenas sob a Lei.

Em suas andanças e falas, favorecia reencontros substantivos com os fundamentos judaicos, que deveriam renascer para o Pai, mesmo que da Lei não se retirasse sequer uma vírgula. Com falas, gestos concretos e proposições, jamais deixou de expressar o mais puro ideal judaico, sempre a reconhecer urgência de uma restauração imediata nos princípios basilares.

Apregoando que o Vento soprava onde bem desejasse se manifestar, assegurava que somente os que praticassem a Verdade poderiam ver a Luz, confirmando sem restrições o transmitido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.

Sem intenção alguma de julgar quem quer que fosse, encontrava-se ciente sobre a identidade de quem o tinha enviado e de para onde deveria ir, jamais renegando suas tarefas de ser Luz do mundo para os que pelejavam por vida, e vida em abundância.

Convivendo com as mais diferenciadas categorias sociais, somente irava-se ao extremo com os hipócritas, aqueles fingidos que se travestiam do que não poderiam ser. E reiterou, em incontáveis ocasiões, que jamais rejeitaria os que dele se aproximassem, buscando novos comportamentos e saudáveis agires.

Ungido certa feita, e por uma vez segunda, com nardo puro, perfume importado de grande valia, recomendou que se guardasse uma certa quantidade para o dia do seu sepultamento, quando regressaria para o seio de quem o havia enviado como um mais que notável profeta.

Portando um ideário intrinsecamente evolucionário para a sua época, o Homão da Galileia desabridamente anunciava que nenhum escravo é maior que o seu senhor, como nenhum mensageiro seria maior do que o remetente, nunca desmerecendo sua condição de filho de Deus obediente.

Sem complexos de superioridade, inúmeras vezes repetiu, para os ensurdecidos de então, que todos aqueles que tivessem fé fariam coisas mais surpreendentes que as dele. E que ainda fariam bem maiores que as por ele produzidas.

Em múltiplas oportunidades, condoeu-se dos cegos, coxos e prostitutas, exteriorizando entusiasmo pela fé demonstrada por todos eles, seres humanos que não recebiam qualquer simpatia dos social e eclesiasticamente bem aquinhoados de então.

Não admitia a serventia simultânea a dois senhores, Deus e Dinheiro, anunciando que o amanhã já comportava suas próprias preocupações. E no seu dia-a-dia de militante, garantia recompensa a quem oferecesse ajuda, nem que fosse um simples copo d’água fria, aos rejeitados da sociedade.

Aos que o classificavam de beberrão e comilão, louvava aos céus por somente proporcionar esclarecimentos mais significativos aos menorzinhos e aos que em nada se assemelhavam aos fundamentalistas de plantão.

Enalteceu os verdadeiros, dando como exemplo aquela viúva empobrecida que contribuiu com duas moedinhas numa coleta de dízimos. E para os que jejuavam, recomendava uma boa lavagem de rosto, tornando-o o mais alegre possível, para que ninguém pudesse constatar neles os sacrifícios praticados.

Durante um bom tempo, quase três anos, o Homão da Galileia esperanças concretas semeou, como bom médico que buscava curar os não sarados, nada exigindo além de muita solidariedade de uns para com os outros. Como um não exclusivista credal, através de parábolas e relatos que favoreciam uma rápida memorização, transmitia boas novas, anunciando a chegada próxima do Reino no íntimo de cada um. Demonstrando ainda aos incrédulos como saciar a fome de muitos mediante uma organização social compatível com a dignidade de todas as coisas, quando todos poderiam se alimentar dignamente.

Em momento algum, o Homão da Galileia exigiu carteirinha institucional de qualquer dos seus admiradores, até prometendo estar sempre presente nos pequenos grupos que o reverenciassem. Sem brabezas, soube diluir no vazio o pleito de uma mãe obsessiva que cabalava lugares privilegiados para dois dos seus filhos, na mesa diretora do escritório do além-daqui.

Ajuntador especial de mentes e corações, bom semeador de palavras, o Galileu alertava que o egoísmo corrói toda grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam, solidárias, iluminar as veredas e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetia Isaías, um dos seus profetas preferidos, aquele mesmo que denunciava sem contemporizações os que oravam apenas da boca para fora, muito distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.

Percebendo-se na reta final de sua estadia terrestre, anunciou que iria adiante de todos para a Galiléia, depois da sua imolação, sofrida no madeiro, condenado que foi como subversivo político e blasfemo religioso.

Antecipou-se aos poetas de agora há quase dois mil anos, ao asseverar que viver não era preciso, ainda que navegar fosse, sempre sob as coordenadas do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

O Homão da Galileia nunca mais voltou. Mas continua mais vivo que nunca, muitos furos acima das instituições que o têm como porta-estandarte, ainda que algumas delas, metidas a única do pedaço, persistam em escondê-lo como propriedade debaixo dos documentos dos seus purpurados, desconhecendo os ensinamentos do mesmo Galileu: o de que não havia mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos são um sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, mas QUE É eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.

FELIZ PÁSCOA 2018, GENTE AMADA!!