CORRESPONDÊNCIA CURIOSA

No último final de semana, recebi uma carta da Maria Eduarda Silveira de Moura que me tocou bastante, deixando-me com aquela sensação de que nem tudo, neste mundão de Deus, está entregue às baratas, tampouco aos bufões da inveja e da mediocridade. Nas considerações generosas sobre o que escrevo neste Jornal da Besta Fubana, sempre esplendidamente coordenado pelo aplaudido escritor Luiz Berto, a Maria Eduarda me fez algumas perguntas, próprias de uma universitária que tem a cabeça muitos furos acima da reinante jumentalidade de terceiro grau. Alguns dos seus questionamentos:

1. Como você recebe os elogios e as críticas?

R. Seria um hipócrita se respondesse “da mesma maneira”. Os elogios e as críticas são acolhidos de modos diferentes, dependendo dos níveis culturais dos formuladores. Li, certa feita, que “a autoestima é a experiência de ser competente para lidar com os desafios básicos da vida e de ser digno da felicidade”. E entendi porque certas pessoas são incapazes de elogiar ou criticar de uma maneira construtiva, nunca complexada. Porque desconhecem as seis práticas da construção de uma autoestima de bom calibre, capaz de arrostar a fúria de poderosos, nanicos e amacacados: a prática de viver conscientemente, enfrentando a realidade, ainda que desagradável; a prática da auto-aceitação, assumindo falhas e atuações incompletas, sem jamais se repudiar; a prática do senso de responsabilidade, conservando a consciência das escolhas e ações, sendo ainda responsável pelo próprio bem-estar; a prática da afirmação, sendo autêntico nas relações interpessoais, respeitando valores e contextos sociais; a prática do viver objetivamente, estruturando o comportamento em função de objetivos existenciais, monitorando os resultados; a prática da integridade pessoal, percebendo que trair seus valores é sabotar a própria consciência, tornando-a covarde ou ensandecida; e a convicção de ser, permanentemente, uma metamorfose incompleta ambulante, parafraseando o Raul Seixas, menestrel genial baiano.

2. As Universidades do amanhã brasileiro poderiam ser diferentes do agora?

R. Deverão ser amplamente diferentes, muito prevalecendo o qualitativo sobre o meramente quantitativo, a Universidade tornando-se ambiente onde se produzirá saber próprio de qualidade ímpar, além de multifacetária por derradeiro. Já diz o notável Cláudio de Moura Castro, de quem fui aluno-admirador, que se a população brasileira se se preocupasse com o nosso sistema educacional com a mesma ênfase com que se preocupa com a seleção brasileira, seguramente as coisas seriam muito diferentes para bem melhor.

3. Quais as características de um profissional que busca o reconhecimento público?

R. Integro, com muito orgulho, o Conselho Universitário da Universidade de Pernambuco, atualmente sob a batuta do atual reitor Pedro Falcão. Num contexto que se transmuta muito velozmente, num Pernambuco que deve sempre recordar as bravuras de um Frei Caneca e das mulheres de Tejucupapo, sem ficar “falando para o mundo”, cabe ao profissional que objetiva conservar seu conceito atentar para o continuado aperfeiçoamento dos seguintes atributos: uma autoconsciência elevada, para melhor compreensão dos seus pontos fortes e fracos; o hábito de solicitar avaliações construtivas, possibilitando a descoberta das potencialidades ocultas por desconhecimento, timidez ou frágil ousadia; uma continuada sede de aprender, favorecendo a ampliação da criatividade e do “enxergar” das novas oportunidades; um sólido respeito pelas diferenças, consolidando compreensões que transcendem bairrismos, ideologias e maniqueísmos ultrapassados; e consolidação continuada de uma visão de bailarino, consistindo num olhar concentrado num ponto adiante da partitura musical, percebendo-se atentamente inconcluso na própria performance, aprimorando sempre sua atuação em seu ambiente.

4. Qual sua inspiração cotidiana?

R. Como cristão kardecista, sempre tive, abaixo de Deus Pai, Jesus e Maria, uma admiração ferrenha pela caminhada de Paulo de Tarso, São Paulo, o “apóstolo dos gentios”, o formulador da teologia cristã, um torturador de cristãos que soube “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, diferentemente de alguns que, derrotados, ficam remoendo passados que não mais voltarão, nem inventando amanhãs bem fundamentados. São Paulo mudou o pensamento das pessoas de tal maneira que alterou a história da humanidade. Para se conhecer Paulo de Tarso, recorre-se hoje a três fontes: o livro de Atos (NT), as cartas que ele escreveu e a tradição primitiva, esta última a menos confiável possível. Ele nasceu em Tarso, uma cidade grega situada no Mediterrâneo, onde atualmente é a Turquia e que possuía à época uma grande população judaica. Fariseu e filho de fariseu (At 23,6), sendo fluente em grego, hebraico e aramaico, tendo sido educado sob orientação de Gamaliel, famoso rabino do seu tempo. De família abastada, também possuía a cidadania romana. Era dotado de extraordinário intelecto, percepção espiritual e autodisciplina.

5. O senhor acredita em reencarnação?

R. Plenamente. A reencarnação fez parte do movimento cristão até o século VI da nossa era. Grandes vultos do cristianismo, como Clemente de Alexandria e Orígenes, a ensinavam. Em João 3, se encontra uma lição comprobatória da reencarnação. Colhemos os frutos de nossas ações para aprendermos melhor o que semear, para isso necessitando de vários retornos. Em Mateus 10, a recomendação do Senhor Jesus: “Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai.”

6. Como kardecista cristão, que leitura inicial recomendaria para um interessado?

R. Um livro-sementeiro recomendaria: Conheça o Espiritismo, Richard Simonetti, Brasília, FEB, 2018, 185 p. Um modo de se perceber Filho Amado de Deus, sem chiliques nem chorumelas, usando a fé e a razão, cada vez mais sendo batalhador por uma fraternidade universal, onde “sem caridade, não haverá salvação”.

Um abraço, Eduarda, pela atenção dispensada. Nordestinamente, continuarei sonhando com amanhãs planetários menos desumanos para milhões, esmagados que são pelos poderosos que, sempre gananciosos, jamais saberão declinar as ações relacionadas com a dignidade humana.

PARA MÉDIUNS INICIANTES

Amiga kardecista de décadas me convida para uma reunião em sua residência, comemorando mais um aniversário seu, muito pouco divulgado. Entre salgadinhos deliciosos e guaranás dietéticos, assuntos da conjuntura foram discutidos, inclusive a recente greve dos caminhoneiros, encerrada para felicidade geral da nação e atolamento mais um cadinho da atual gestão de um mandatário presidencial pouco competente, muito fisiológico, sempre cercado de mediocratas de quinta classe.

Em cima de uma mesinha, num canto da sala de estar, um livro estava todo marcado – Ao Médium Principiante, 2ª. edição, Spartaco Ghilardi (espírito), psicografado por Carlos Baccelli, Uberaba, MG, Livraria Espírita Edições Pedro e Paulo, 2011, 240 p. – me chamou atenção. Curioso, pedi o livrinho emprestado para uma leitura de final de semana, principalmente para refletir mais sobre os destaques marcados nas suas páginas, segundo ela feitas pelo seu genitor, já desencarnado, profundo admirador dos trabalhos do Spartaco, na Federação Espírita do Estado de São Paulo, um nascido em 1914 e desencarnado em 2004, aos 90 anos, após penosas sessões de hemodiálise, suportadas resignadamente três vezes por semana, jamais se queixando das suas provas redentoras

Lido rapidamente para entregar o livro solicitado, abaixo, transcrevo alguma recomendações como amostra do transmitido pelo Spartaco Chilardi, para favorecer todos aqueles médiuns que estão se iniciando na caminhada na Casa dos Humildes, onde sou trabalhador passista não-médium, sempre com muito orgulho e sentimento de gratidão ao Mestre dos Mestres. Logicamente já encomendei meu exemplar, posto que um livro como o psicografado por Carlos Baccelli, não poderá faltar na cabeceira dos principiantes, também servindo para estudos de grupo que se dedicam à práticas educativas continuadas. Ei-las:

– “Não é só na hora do verso que mediunidade deve rimar com humildade.

– “Não abrace a mediunidade, supondo que, espiritualmente, esteja a se adiantar em relação às demais pessoas porque, em verdade, você está apenas assumindo uma responsabilidade que haverá de lhe custar mais caro.”

– “É o médium que dignifica a mediunidade e não os espíritos que, eventualmente, se comunicam por sua faculdade.”

– “No dizer de Emmanuel, a mediunidade sem estudo é uma ‘locomotiva correndo fora dos trilhos’. Ou seja: é desastre certo!

– “Quanto mais você se conhecer, mais médium você há de ser.”

– “O médium precisa estudar, porque quanto mais ele estuda, mais solidifica a sua fé.”

– “Hoje em dia, infelizmente, poucos são os que mantêm contato com os mais pobres, os que frequentam a periferia, os que se dispõem a escutar os simples e humildes.”

– “Os Espíritos Amigos se sentem mais facilmente atraídos pelo conteúdo de seu coração e grau de interesse pelos seus sentimentos”.

– “Estudar e vivenciar são dois verbos que, em mediunidade, naturalmente, devem se complementar.”

– “Não desperdice o seu tempo, decorando supostas técnicas de concentração que, a rigor, não existem.”

– “Em uma única encarnação, ninguém anula o que fez de errado nas outras. Tenha calma, que a dívida que assumimos é para muitas encarnações.”

– “Ilustrar o cérebro não é tão difícil assim, mas lustrar a coração…”.

– “O fato de você ser médium não lhe dá o direito de ser grosso. Não seja vedete! A vaidade que se esconde nos seus calcanhares está lhe subindo à cabeça. Não se esqueça de que você não é nada!”

– “Mais do que aos outros, caberá a você demonstrar coerência entre aquilo que prega e o que faz.”

– “Médium que mais recebe é aquele que mais doa”.

– “Nenhum médium principiante, em termos de conquistar a confiança da Espiritualidade, foge a indispensável estado probatório.”

– “O médium sem um ‘cheirinho de Evangelho’ é difícil de aguentar. Anda de nariz empinado, acha que é diferente de todos, quer manobrar as reuniões.”

– “Em vez de mexer com mediunidade, eu convido você a ser o que no centro espírita gosta de ser: voluntário para todo e qualquer serviço que não apareça aos olhos de alguém. Um serviço invisível, legitimamente espírita.”

No livro mais que ótimo para iniciantes na caminhada, o Carlos Baccelli psicografa uma entrevista feita pelo Spartaco com Yvonne do Amaral Pereira, médium inesquecível, autora do memorável “Memórias de um Suicida” , de leitura obrigatória para todos os iniciantes, ainda que de leitura angustiante nos primeiros capítulos. Uma entrevista ping-pong que transcrevo abaixo, verdadeiro guia-mestre para quem deseja ser médium de mesmo na sua caminhada solidária com os desencarnados sofredores. Pergunta/resposta:

“O que mais importante para um médium? R: Disciplina; A principal virtude? R: Humildade; Fator de vitória? R: Perseverança; O que não dá para ficar sem? R: Autocrítica; A maior necessidade: R: Estudar Kardec; Conquista indispensável? R: Discernimento; Motivação cotidiana? R: Servir; Combater com determinação? R: O interesse pessoal; Atitude de toda hora? R: Vigilância; Ante as críticas? R: Silêncio; Para não cair? R: Pés no chão; Uma meta? R: Renovação íntima; Um hábito salutar? R: A oração; Perigo de obsessão? R: Horas ociosas: Condição de semente? R: A de aprendiz; Melhor sintonia? R: A intenção reta; Lugar de servir? R: Onde estiver; Caminho para os Cimos? R: A Caridade; Um resumo de tudo que ficou dito e o que não disse? R: Amai-vos e instruí-vos!!”

O livro-guia da dupla Spartaco Ghirardi / Carlos Baccelli é concluído com a Oração do Médium Principiante, que deveria ser distribuída a todos aqueles concluintes dos cursos de Mediunidade e que se preparam para uma caminhada abençoada pelos Espíritos Superiores, sempre se balizando por uma advertência do Chico Xavier inesquecível: “Em centro que muito cresce, o amor desaparece!

UM LIVRO ENCANTADOR

Há certas leituras que efetivamos por obrigação, diante de orientações recebidas de mestres estudiosos. Entretanto, outras são efetivadas com uma vontade final de quero-mais da gota serena, dessas que nos incentivam compulsoriamente para aprimoramentos doutrinários, aperfeiçoando nossa enxergância e favorecendo orientações para jovens que buscam principiar-se na Doutrina Espírita, tencionando ser cristão seguidor de Allan Kardec, aquele lionês que revolucionou as relações matéria-espírito com seus livros e orientações profundamente racionalistas. Umas dessas leituras me foi sugerida, tempos atrás, por uma psicanalista, a Valéria Pessoa, militante de escol que muito estimo da Associação Espírita Casa dos Humildes, sediada à rua Henrique Machado, 110, bairro de Santana, no Recife, capital pernambucana.

O livro chama-se Espiritismo para jovens: a história de Jesus e o Livro dos Espíritos para iniciantes da doutrina espírita, Eliseu Rigonatti, São Paulo, Pensamento, 2018, 454 p.

Para quem ainda desconhece o autor, segundo a contra-capa, “Rigonatti (1913-1988) foi um renomado escritor espírita, divulgador da Doutrina de Allan Kardec e um importante líder do movimento espírita brasileiro. Um dos fundadores da Sociedade Paulista de Estudos Espíritas, em 1946 criou o jornal A Infância Espírita, uma das primeiras publicações do gênero voltada para crianças e jovens. Autor best-seller de livros clássicos sobre catecismo espírita e obras de divulgação da Doutrina, o conjunto de sua obra, lançado pela Editora Pensamento, já vendeu mais de 500.00 exemplares”.

O livro do Rigonatti acima citado é composto de duas partes. Na primeira, os Evangelhos são apresentados numa versão integral própria do autor, retiradas as repetições dos fatos, a narrativa sendo feita numa linguagem apropriada para jovens. Na segunda parte são explicitadas em 44 lições a obra máxima de Allan Kardec, também numa linguagem descomplicada, própria para os leitores iniciantes jovens, revelando importantes passagens sobre ética e moral dentro da Doutrina, nunca desprezando a parte evangélica do livro, posto que, segundo o autor, “o ensinamento evangélico está disseminado por todos os capítulos, porque um dos pilares fundamentais do Espiritismo é o Evangelho de Jesus”.

No livro do Rigonatti, vamos encontrar valiosas lições sobre os mais esclarecedores assuntos, tais como: As diferenças entre Espiritismo e Espiritualidade; A alma, o princípio vital e o fluido vital; O conhecimento do princípio das coisas relacionadas à criação do Universo; Espírito e matéria e propriedades da matéria; Formação do mundo; Evolução dos seres vivos; O povoamento da Terra e as origens de Adão; A diversidade das raças humanas; A pluralidade dos mundos habitados no Universo (muitas moradas); Considerações e concordâncias bíblicas relativas à Criação; Origem e natureza dos espíritos; A finalidade da encarnação e da reencarnação; Mundos transitórios; Anjos da guarda, espíritos protetores, familiares e simpáticos; Desgosto pela vida, depressão e suicídio; Provas, arrependimento e expiação; Paraíso, Inferno, Purgatório e Paraíso Perdido.

Dedicando seu texto ao inesquecível escritor Monteiro Lobato, Eliseu Rigonatti revive Lina, uma contadora de histórias dos seus tempos de criança, em Itambé, hoje Ibitu, quando ele frequentava a escola primária do professor Amador. Segundo ele, “Itambé era um povoado tranquilo, rodeado de matas quase virgens, de fazendas de criação e de sítios; distava de Barretos quatro léguas, ao norte do Estado de São Paulo.” E vai mais além: “Dentre os estudantes que nas férias apareciam por lá (Itambém), guardo suave lembrança de uma mocinha morena, de olhos pretos, grandes e rasgados, que lhe iluminavam o rosto, chamava-se Lina, e era minha vizinha. Lina gostava de contar histórias. E quantas ela sabia! À tardinha, depois do jantar que era servido cedo, ela reunia um grupo de crianças em sua casa, e os personagens de um mundo maravilhoso ganhavam vida ante nossos olhos, evocados por sua voz doce e mansa, até que o relógio da parede batesse oito horas, quando ela nos mandava para casa, dormir.”

Na parte II – O Livro dos Espíritos para Jovens e Iniciantes na Doutrina Espírita encontram-se expostas 43 aulas, entre as quais destacamos a 1ª. (Notícias sobre o Livro e Allan Kardec), a 3ª. (A Doutrina Espírita e os seus Contraditórios), a 7ª. (Criação), a 12ª. (Encarnação dos Espíritos), a 19ª. (Dona Corina), a 21ª. (Emancipação da Alma), a 24ª. (Influência dos Espíritos sobre os acontecimentos da vida), e a 41ª. (Esperanças e Consolações). No final do livro, Rigonatti nos apresenta um Pai-Nosso lindamente poético, onde a última estrofe está repleta de muita Esperança: “Até chegarmos à suprema luz, / A cidade eterna do Grande Rei, / Não nos deixeis violar as vossas leis, / Mas livrai-nos do mal, Senhor Jesus.”

E a despedida das aulas, fim das férias, era por demais tocante. Falava o extraordinário instrutor dos jovens: “Não se entristeçam. Aproveitem bem o ano que vem estudando com afinco, com ardor. E nas férias vindouras estaremos juntos de novo, guiados por Allan Kardec, a quem devemos gratidão, respeito, admiração e amor!”

PS. Para o público infanto-juvenil, que hoje desconhece o pensar de Thomas Jefferson – “As doutrinas que fluem dos lábios de Jesus estão ao alcance da compreensão de qualquer criança” – um outro livro do Rigonatti é um precioso presente de Natal: O Evangelho da Meninada, editora Pensamento, 2017 (21ª. reimpressão), 146 p. Leitura evangelizadora para os pequeninos, sem fricotismos nem outras cavilosidades, onde Lina, a contadora de história de Itambé, encantava os pequeninos com a vida do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. Confesso que a criança que ainda vive em meu interior de cristão militante kardecista vez por outra relê partes do livro, tomando-as como temas reflexológicas para limpeza da caminhada em direção à Luz Infinita.

LEITURAS PREVENTIVAS

1. Creio que uma leitura atenta do último trabalho do famoso jornalista Bob Woodward, aquele repórter que desmascarou o Watergate de Richard Nixon, merece uma atenção redobrada dos mais antenados analistas políticos brasileiros diante da recente eleição do futuro presidente Jair Bolsonaro, consagrado nas urnas menos pelo seu ideário e muito mais por uma ojeriza gigantesca do eleitorado às falcatruas que se vinham praticando por lideranças e paus mandados de um partido de vocação outrora libertadora. O livro Medo: Trump na Casa Branca, São Paulo, Todavia, 2018, 400 p., mais de um milhão de exemplares vendidos na primeira semana de lançamento nos Estados Unidos, revela um retrato íntimo dos primeiros tempos do mais controverso presidente norte-americano de todos os tempos, descrevendo como funcionários do alto escalão do governo afanam documentos do Salão Oval da Casa Branca, impossibilitando crises diplomáticas entre os EEUU e diversas outras nações do mundo, dado o temperamento do mandatário estado-unidense, avesso a protocolos, permanentemente desconfiado dos tratamentos dispensados e em continuadas escaramuças com a imprensa de Tio Sam, mormente a independente por derradeiro. O próprio autor esclarece aos possíveis leitores: “este livro é resultado de centenas de horas de entrevistas com participantes e testemunhas diretos dos eventos mencionados. … O presidente Trump se recusou a ser entrevistado para este livro.”

Como Prólogo, Woodward narra o que aconteceu nos primeiros dias de setembro de 2017, no oitavo mês do governo Trump, quando Gary Cohn, principal assessor econômico da Casa Branca, que tinha o privilégio de adentrar ao Salão Oval durante as ausências do presidente, ficou altamente chocado quando constatou uma minuta para Trump assinar, que cancelava um tratado com a Coreia do Sul que datava dos anos 1950 e que garantia a manutenção da tropa norte-americana, quase trinta mil soldados naquele país. Um tratado que possibilitava a detecção de um lançamento de míssil balístico pela Correia do Norte em apenas sete segundos!! Com o tratado cancelado, transferido o mecanismo de detecção para o Alaska, o tempo levaria apenas quinze minutos!! A manutenção do tratado na Coreia do Sul representava a essência da segurança nacional da maior economia do mundo. Retirado da mesa presidencial, o procedimento criou uma metodologia, a de como extrair documentos dos olhos de um mandatário “emocionalmente esgotado, volátil e imprevisível.” E o livro narra a trajetória de inúmeros outros bloqueios que desfavoreceriam “um colapso nervoso do Poder Executivo do país mais poderoso do mundo.”

O livro do Bob Woodward deveria ser debatido nas principais correntes partidárias não dinossáuricas do futuro Congresso Nacional, bem como entre os excelentes comentaristas políticos da mídia brasileira, favorecendo análises e posturas táticas mais consistentes nos diversos segmentos sociais da nossa sociedade. Uma maneira de combater mais efetivamente os fofoquismos e os fuxiquismos que enodoam mentes e corações dos ainda não pervertidos.

2. Outra leitura que muito facilitaria análises conjunturais futuras, evitando-se posturas saudosistas, nostálgicas por derradeiro, a revelar apegos a modelos e estratégias de tempos pretéritos que jamais voltarão a brilhar, é o livro de David Runciman, professor de política na Universidade de Cambridge, também editor convidado da London Review of Books, intitulado Como a democracia chega ao fim, São Paulo,Todavia, 2018, 272 p., onde o autor salienta como estamos presos ao passado, ressaltando que “ao nos concentrarmos nos fascismos e nos golpes de Estado como as principais ameaças, miramos alvos errados. Nossas sociedades são complexas demais para colapsar da mesma maneira”. E vai além: “Precisamos de novos modos de pensar o impensável – uma visão do século XXI sobre o fim da democracia, e se sua derrocada nos permitirá avançar em direção a um modelo melhor.”

No Prefácio, Runciman dá um exemplo que necessita de muitas reflexões pelos analistas contemporâneos. Ei-lo: “Quando um homem infeliz de meia-idade cede ao impulso de comprar uma motocicleta, o perigo pode ser grande. Se ele for um sujeito de pouca sorte, tudo pode acabar numa bola de fogo. Mas é muito menos perigoso do que a compra de uma moto por um garoto de dezessete anos. Geralmente, é só uma coisa constrangedora. A motocicleta da meia idade é usada poucas vezes e acaba estacionada para sempre. Ou passada adiante. A crise precisa ser resolvida de algum outro modo, se é que tem solução. Pois a democracia dos Estados Unidos está vivendo sua crise de meia-idade. Donald Trump é a motocicleta. E tudo ainda poderá acabar numa bola de fogo. O mais provável, porém, é que a crise continue e requeira alguma outra solução, se é que existe solução para ela.”

O livro está organizado sob três temas: o golpe de Estado; a calamidade; e o triunfo da tecnologia da informação. Sobre o último tema, já existem máquinas semi-inteligentes, encarregadas de minerar dados e tomar decisões invisíveis em nosso nome. Uma questão emerge com muita inquietação: “Iremos abdicar da nossa responsabilidade na democracia em favor dessas novas forças, sem nem mesmo pensar duas vezes?”

O autor ainda desafia ler A estrada sem ser profundamente tocado pela luta de pai e filho por uma sobrevivência mínima numa sociedade devastada por um sem número de horrores. E muito bem define: “A Estrada não nos mobiliza para ação política. É uma parábola estranhamente reconfortante para uma sociedade de sonâmbulos e funâmbulos”.

NÚMEROS E LETRAS

1. Os resultados apurados nos testes de Matemática aplicados aos alunos das séries primeiras de ensino comprovam a posição incômoda, para não dizer profundamente humilhante, do conhecimento do cálculo matemático elementar na vida cotidiana de nosso país. Frequentemente, uma simples multiplicação de dois números simples causa um embaraço emocional significativo em quem está responsável pelo cálculo, não sendo raro o momento de se recorrer a uma maquininha peba para observar o resultado. Não é sem razão que as contas dos atuais restaurantes já explicitam a cota individual de cada participante.

Outro dia, li um livro muito bem elaborado pelo inglês Kjartan Poskitt, autor de diversos livros científicos para jovens, também responsável por famosos programas de ciência e matemática na televisão inglesa. O título, bastante sedutor, é Matemática para gente grande – um guia bem-humorado com atalhos, truques e dicas para aprender a lidar com os números de uma vez por todas, São Paulo, Benvirá, 2017, 186 p. Um livro gostosamente oferecido a Marilyn Malin, “que há vinte anos me ajuda a me manter organizado. Nunca usou uma calculadora e nunca está errada.”

Segundo Poskitt, a razão maior da feitura do livro foi a procura de um amigo seu, de cerca de 40 anos, inteligência acima da média, mas que não conseguia efetivar um curso de gestão por não ser aprovado em nenhum teste de conhecimento matemático. Segundo o amigo, “sei somar e subtrair números, mas, quando o negócio é multiplicar, entro em desespero, mesmo usando uma calculadora”.

Logo de início, Poskitt adverte que o seu novo livro não é didático, não havendo testes e provas, ninguém indo gritar no seu ouvido se cair no sono. E explica: “Este livro pretende ajudá-lo nos cálculos do dia a dia, naquelas situações em que você precisa descobrir a quantidade de tinta necessária para pintar um quarto, ou a duração de uma viagem, também servindo de guia para coisas mais complexas, como álgebra e percentagem.”

2. Sou assinante do jornal mensal Correio Espírita, de Niteroi, Rio de Janeiro, o primeiro jornal espírita a circular em todo o estado do Rio Janeiro. Em seu número de novembro 2018, ele noticia o centenário de desencarnação de Eurípedes Barsanulfo, ocorrido no dia 1° de novembro de 1918, em Sacramento, Minas Gerais, ele com apenas 38 anos e seis meses, vitimado pela gripe espanhola. Por feliz coincidência, recebi da amiga querida Yvaneide Pereira, trabalhadora incansável da Casa dos Humildes, onde sou soldado raso, o livro Eurípedes Barnasulfo, cem anos de saudades, Alzira Bessa França Amui (org), Sacramento, Minas Gerais, 2018, 192 p., Editora Esperança e Caridade & Colégio Allan Kardec. Artigos e mensagens escritos com as tintas da gratidão por amigos que sempre admiraram o querido professor Eurípedes, que sempre se pontuou como um verdadeiro homem de bem.
Segundo a reportagem do jornal acima citado, a vida de Barsanulfo foi pautada na disciplina e na determinação de sempre praticar o bem. Terceiro filho de um uma prole de quinze, a infância dele foi repleta de dificuldades múltiplas, onde aos seis anos já ajudava o pai num armazém de secos e molhados.

3. MAMATARIA SEM VERGONHA

A Suiça tem 4 estatais; a Austrália e o Japão têm 8; a Áustria tem 10, a Bélgica 12; os EEUU e o Reino Unido têm 16; a Dinamarca tem 21 e o Chile 25. E o Brasil? 418 !! Quantitativo que humilha e enxovalhava a dignidade nacional. Recomendamos uma leitura bem pensada de Caminhos da Esquerda – Elementos para uma reconstrução, Boris Fausto, São Paulo, Companhia das Letras, 2017, 209 p., onde o autor, doutor em filosofia pela Universisdade de Paris e professor emérito da Universidade de São Paulo, analisa as patologias da esquerda brasileira, causadoras de uma sucessão de derrotas dos seus projetos, com seus sectarismos, sem poupar as atuais manobras neoliberais e os sonhos ahistóricos de uma direita somente vitoriosa diante das patologias posicionais de demagogos, oportunistas, messiânicos e fraudadores do Erário Público, fomentadores de uma alienação radicalmente distanciada dos legítimos interesses republicanos.

4. O comportamento ridículo do ex-presidente Lula, hoje portando outro diploma presi, o de presidiário, em Curitiba, em depoimento prestado à juíza Gabriela Hardt, substituta do Dr. Sérgio Moro, pode ser considerado como uma tentativa circense de enxovalhar o Poder Judiciário. Não sabendo mais honrar as calças que veste, o presidiário deveria ter a hombridade de reconhecer suas patifarias financeiras de ínfima categoria moral. Muitos aplausos para o salutar puxão de orelha dado pela juíza no presidiário, quando o mesmo quis se meter a besta pro lado dela: “Se continuar nesse tom vamos ter problemas!”

5. Entre os adeptos da Doutrina Espírita, a mediunidade e a forma de vivenciá-la com seriedade, fidelidade e moralidade são assuntos que devem ser debatidos com muita densidade, evitando a emersão de ideias que não estão devidamente correlacionadas com a Doutrina. Ressalte-se a lição magistral sobre Mediunidade Mental explicitada na Revista Espírita de março de 1866, favorecendo o aperfeiçoamento dos contatos conscientes com os diferenciados benfeitores espirituais. Na Revista de maio de 1863, o próprio Allan Kardec ressaltava que “de 3.600 comunicações recebidas, não há 300 passíveis de publicação e apenas 100 são de mérito.” O próprio João Evangelista, o apóstolo mais amado de Jesus, já advertia na sua Primeira Epístola (João 4,1).

6. Que o conserto da inclinação da torre do relógio da Faculdade de Direito do Recife seja efetuado sem afobações nem licitações de araque, preservando a dignidade daquele monumento cultural de Pernambuco, a Casa de Tobias Barreto. E protegendo a sobrevivência comportamental acadêmica de professores, alunos e funcionários daquela respeitável instituição.

FUXIQUISMO E PROFISSIONALIDADE

Depois das eleições, onde determinadas lideranças partidárias foram varridas do cenário político brasileiro, sinto muita ojeriza, quando não uma raiva da gota serena, vendo pessoas que se habituaram a chafurdar nos rincões do negativismo, tudo fedendo, ninguém prestando, todos sendo legítimos fdp, somente elas mesmas sendo merecedoras da salvação misericordiosa do Pai.

Vez por outra, isso não raramente, deparo-me com uma delas, o nível de negativismo dependendo da hora do dia, do status social, do ritmo sexual dos últimos tempos, da carência afetiva e do grau de insalubridade do pensar e do agir em comunidade.

Impressiona-me a quantidade de pessoas que possuem pensamentos negativos e os carregam como porta-bandeiras de suas passagens por estas bandas. Há muitos anos, um professor querido, Irmão Carlos Martinez, marista do inesquecível Ginásio São Luís, contava uma historieta clássica, dessas que servem de abrigo para as vacinas preventivas contra os negativismos das mais variadas espécies. Vale a pena tentar reproduzi-la aqui, neste Jornal da Besta Fubana arretado de ótimo em chicotear os rabos daqueles(as) que teimam em azedar ambientes. Ei-la:

“Um homem de meia idade, morador da periferia de uma região metropolitana, vendia cachorro-quente a preços bastante accessíveis. Era meio surdo e detestava rádio, não lendo jornais porque sofria da vista, uma miopia braba que o atormentava desde a juventude. Mas tinha aprendido com seus avós a fazer um tipo de cachorro-quente que era reconhecido, sem segundo lugar, como o melhor de todos os bairros que constituíam a área sul da capital.
Diante do sucesso de suas vendas, tinha afixado uma tabuleta à beira da avenida, onde apregoava a boa qualidade do seu produto. E ainda bradava, nos horários de maior trânsito e com frequência até incomodativa, uma frase de efeito:

– Cachorro-quente dezoito quilates, a melhor joia do Nordeste!

Aumentada a freguesia, consequentemente a compra de carne e pãezinhos, resolveu adquirir um fogão maior, a fim de atender melhor os fregueses, novos e veteranos. Conversando com um vizinho, desses que veem o mundo permanentemente nas trevas, tudo na mais absoluta escuridão, dele recebeu uma advertência:

– Amigo, não tens ouvido rádio? Dizem que o dinheiro está rareando, que todo mundo ficará em má situação, acontecendo uma grande crise, os negócios indo todos por água abaixo.

Aí, o cachorroquenteiro, que detestava rádio e ainda ouvia pouco, também míope da gota serena, resolveu não mais adquirir um fogão maior. Apressou-se em diminuir as compras de carne e pãezinhos e ainda pôs abaixo o cartaz pintado a óleo que era seu chamariz principal. E não mais gritou, apregoando as boas qualidades do seu produto.

Com as vendas em declínio, o nada-fazer foi se instalando no seu pedaço existencial, o vizinho se tornando um grande identificador de crises homéricas. Os dois passaram a prognosticar uma época de muitas incertezas, um amanhã depressivo para os diferenciados ramos de negócio, posto que o fim dos tempos se aproximava.

A motivação voltou quando o cachorroquenteiro ouviu de um neto o que estava escrito num canto de um jornalzinho de uma localidade próxima: “Quando triunfar, vai fazer falsos amigos e verdadeiros inimigos, mas continue em frente. O que leva dias para construir pode ser destruído num instante, mas construa assim mesmo. Dê ao mundo o que tiver de melhor, pois você colherá o que semeou”.

Foi aí que o cachorroquenteiro, pela fala de um neto, soube sacudir a poeira e dar a volta por cima, tornando-se consciente da sua profissionalidade. E voltou aos tempos de outrora ainda mais forte.

Encarecendo perdão pelo neologismo utilizado, apesar da intenção ser positiva: alertar os que estão prestes a ingressar no mercado de trabalho e aqueles que já se encontram no seu campo profissional, sejam veteranos ou principiantes. E o mote me foi oferecido pelo Simon Franco, um dos mais eficazes head-hunters do Brasil, quando de um debate patrocinado por um centro profissionalizante, em Belo Horizonte: quais deveriam ser as características de uma pessoa qualificada, diante das mutabilidades contínuas que estão se verificando no mundo inteiro? Explicitando abaixo as dez mais notáveis, todas elas interdependentes e intercomplementares, acreditava Franco estar favorecendo a caminhada dos empreendedores criativos, encarecendo aos veteranos um “alerta geral” nos seus relacionamentos múltiplos:

1. Nunca esmorecer a capacidade de ser permanentemente um curioso, um perguntador, sempre desenvolvendo novas habilidades e despertando novos interesses.

2. Encarar a Vida como uma missão, jamais a entendendo como uma carreira. Conhecer bem as fontes nutrientes e as energias geradoras, sempre preservando a individualidade, sem resvalar para atitudes individualistas, suicidas sob todos os vieses profissionais.

3. Desenvolver um savoir-faire cultivando o humor, permanecendo otimista sem jamais reagir compulsivamente diante de atitudes negativas ou extemporâneas. Jamais tripudiar sobre as fraquezas dos outros e ter consciência da capacidade de perdoar e/ou esquecer ofensas alheias.

4. Manter-se constantemente atualizado em relação a assuntos e cenários mais recentes, sendo socialmente ativo, possuindo muitos amigos e uns poucos confidentes.

5. Sabe rir de si mesmo, dimensionando, sem exageros positivos ou negativos, o seu próprio valor. Perceber as similaridades e as diferenças em cada uma das situações enfrentadas. E aceitar elogios e culpas de forma equilibrada, sem reações impulsivas. E enxergar o sucesso futuro no atual fracasso, por mais penoso que ele tenha sido.

6. Saber contemplar rostos antigos de maneira nova e velhas cenas como se fosse a primeira vez. Redescobrir as pessoas a cada encontro, interessando-se por elas, jamais rotulando-as com base em sucessos ou fracassos passados.

7. Saber fazer uso da força conjunta, acreditando nas capacidades alheias, nunca se sentindo ameaçado pelo fato dos outros serem melhores. Aprender a separar as pessoas dos problemas, não disputando posições, a liderança lhe sendo conferida por natural manifestação da maioria.

8. Exercitar regularmente as quatro dimensões da personalidade humana: a física, a mental, a emocional e a espiritual, orientando-se para as soluções criativas, sem resvalar para irresponsabilidades doidivanas, nem pieguices cavilosas.

9. Jamais se esconder sob o manto da resignação, consciente de que ele é o hospedeiro maior da mediocridade.

10. Renunciar às alternativas perfeccionistas, reconhecendo todas elas como estratégias de protelação.

Como embasamento geral, afastar-se da rotina, enfrentar o desconhecido e motivar-se para adquirir novos saberes, uma trilogia capaz de resistir à “tentação do ótimo”, sem qualquer dúvida o maior inimigo do bom. E nunca perder a convicção de que o justificatório, o lamentatório, o comparatório, o esperatório e o protelatório são os principais componentes patológicos das depressões decisórias da atualidade.

NOTAS DE UM TRANSCRISTÃO

1. A LEEPP – Livraria Espírita Edições “Pedro e Paulo”, de Uberaba, Minas Gerais, lançou, em agosto do ano passado, um livro que bem poderia servir de amplo embasamento alicerçal para a caminhada terrestre daqueles não possuidores de crenças religiosas, apenas não sendo materialistas: Cristo em nós, Carlos A. Baccelli e Bezerra de Menezes, Uberaba – MG, 2017, 238 p. Um série de recomendações do médico espirita cearense Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900), ex-presidente da Federação Espírita Brasileira, psicografadas por Carlos A, Baccelli.

2. Para quem não teve oportunidade de consultar as páginas da Revista Espírita, de janeiro de 1958 a abril de 1869, editadas sob a coordenação de Allan Kardec, terá oportunidade de ler as principais matérias de cunho doutrinário e as relacionadas com a fenomenologia mediúnica, além de instruções e esclarecimentos dirigidos aos espíritas, através do livro Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita, Evandro Noleto Bezerra (org), Brasília, FEB, 2014, 253 p. A Revista Espírita, 12 volumes, era uma espécie de tribuna livre, um laboratório experimental, onde o Codificador apreendia a opinião dos seres humanos e a impressão dos Espíritos sobre variados assuntos ainda hipotéticos ou mal compreendidos, somente incorporando-os às obras básicas apenas após passarem pelo critério da concordância e universalidade do ensino das entidades superiores. E a intenção da seleção feita é a de disponibilizar aos companheiros de ideal e trabalhadores das diversas Casas Espíritas, de um modo rápido, o que escreveu Allan Kardec. No livro, o autor explicitou alguns artigos de Obras Póstumas, um deles sintetizando o pensamento de Kardec a respeito da caridade, tal qual entendia Jesus, repassando seus ensinamentos aos pósteros.

3. Uma pesquisa bastante elucidativa busca separar o joio do trigo, diferenciando o que é histórico e o que é apenas construção teológica do personagem mais estudado da História da Humanidade. Lançamento recente, agosto passado, o livro intitula-se O Evangelho Q, José Lázaro Boberg, Capivari-SP, Editora EME, 2018, 320 p. Uma análise desafiadora, instigante sob todos os ângulos, de imensa valia para quem deseja saber quem foi, efetivamente, Jesus d Nazaré, o amado Rabi da Galileia, que amo com todas as forças do coração. Os documentos históricos revelam que a Fonte Q, também conhecida como Documento Q ou apenas Q, sendo Q uma abreviatura da palavra quelle, que em língua alemã significa fonte, uma hipotética fonte usada na redação dos Evangelhos de Lucas e Mateus. Um texto antigo que supostamente continha a logia ou várias palavras e sermões de Jesus. Seu conteúdo abrange 225 versículos encontrados em Mateus e Lucas, podendo ser também definido como o conjunto das sentenças ou de sapiências originais de Jesus, primeiras anotações dos discípulos e apóstolos mais antigos. O erudito bíblico britânico Bernett Hillman Streeter formulou uma visão amplamente aceita do documento “Q”. Ele seria um documento escrito, não uma tradição oral, composto em grego, o seu quase integral aparecendo em Lucas, Mateus ou em ambos, que Lucas preservou mais que Mateus, ambos tendo utilizado o documento “Q” como fontes, embora não tenha sido mencionado por nenhum dos Pais da Igreja. O livro do Lázaro Boberg merece ser lido pelos já iniciados no Cristianismo, favorecendo uma visão ampla da trajetória daquele que mudou a face do mundo religioso de então.

4. Gosto que me enrosco de conversar com crianças perguntadeiras, dessas que desejam saber a razão de tudo e de todas as coisas. Criança “ispilicuti”, como classificava a minha avó Zefinha, ou “o raio da silibrina”, apelido dado em Natal, tempos de Segunda Guerra Mundial, à meninada danada de bisbilhoteira diante das tropas militares das Forças Aliadas desembarcadas em Parnamirim. Outro dia, na Livraria Praça da Casa Forte, também confeitaria, deparei-me com um livro, onde na quarta capa havia uma informação que me deixou ansioso pela sua aquisição: o dramaturgo escocês conhecido pelo pseudônimo de James Bridie descreveu bem-humoradamente as ações de Eva com a serpente como o primeiro grande passo em direção à ciência experimental, posto que Eva teria lançado mão da característica mais humana de todos os tempos: a curiosidade, o fator primacial de toda incipiente criatividade desde as primeiras idades. O nome do livro é Por Quê? O que nos torna curiosos, Mario Livio, Rio de Janeiro, Record, 2018, 252 p. Uma leitura que busca responder sem eruditismos boçalizantes, algumas indagações que perambulam pelos quatro cantos do planeta: As crianças são mais curiosas que os adultos?; A curiosidade é um produto direto da seleção natural?; Por que as questões mais triviais nos deixam extremamente curiosos?; Por que frequentemente nos esforçamos para decifrar os sussurros de uma conversa na mesa ao lado de um restaurante?; e Como a nossa mente escolhe os objetos da nossa curiosidade? O autor do livro, astrofísico internacionalmente aplaudido, explora várias questões intrigantes por meio da investigação das vidas de curiosos notáveis como Leonardo da Vinci, confessando sua insaciável curiosidade, escrevendo um texto irresistível e divertido, cativante por derradeiro, aprisionando todos aqueles que despertem para o assunto.

5. Costumo dividir minhas leituras em algumas categorias: as que fazem permanecer levemente atualizado na profissão, as que proporcionam momentos de lazer, as que são culturalmente indispensáveis, as que contemporiza uma espiritualidade adquirida ao longo da caminhada terrestre e as que relatam vivências e ocorrências com personagens que elegemos como inesquecíveis. Dentre as últimas acima classificadas, uma me prendeu até altas madrugadas por quase uma semana: Chico, Diálogos e Recordações, Carlos Alberto Costa, SP, Editora O Clarim, 2017, 368 p. Segundo a contracapa, “fatos e documentos foram inseridos nessa edição tornando, assim, imperdível a leitura dessa valiosa obra, que chega para contribuir, ainda mais, com a rica História do Movimento Espírita na Pátria do Evangelho.” Uma edição que comemora os 10 anos do lançamento da edição primeira, com o acréscimo de algumas novidades entre Arnaldo Rocha e Francisco Cândido Xavier, carinhosamente chamados de Amigos para Sempre. Os momentos muitos de convivência entre Arnaldo Rocha (1922-2012), com Chico Xavier foram devidamente catalogados por Carlos Alberto Braga Costa, um mineiro nascido em 1966, iniciado no Movimento Espírita em 1987, havendo sua mediunidade aflorado após anos de intensivos estudos, de onde partiu para difundir a Doutrina Espírita pelos quatro cantos do Brasil, cada vez mais atento às palavras de Divaldo Franco: “Não de pode pregar a Doutrina Espírita na sua pureza e transparência inigualáveis, sem referências à fidelidade do médium Francisco Cândido Xavier para com a mesma, assim como à sua extraordinária contribuição oriunda do Mundo Espiritual Superior de que ele se faz dócil e lídimo instrumento.”

São notas que consolidam o amor pelo Homão da Galileia, sempre solidário com os companheiros da Casa dos Humildes, uma instituição espírita da qual sou soldado raso, onde semanalmente aprendo um cadinho mais sobre como promover uma reforma íntima em meua interiores, favorecendo um caminhar na direção da Luz Infinita sempre misericordiosa para com nossos tropeços cotidianos.

ORIENTAÇÕES DE UM TALENTO

Passadas as turbulências eleitorais, eleito o novo presidente do Brasil, e desejando a ele uma gestão coroada de bom senso e múltiplas realizações nas áreas sociais e econômicas, erradicando a podridão que campeia nos quatro cantos do país, favorecendo funcionários públicos, empresários, religiosos, políticos e militares numa indiscriminada malha estupidamente sórdida. É chegada a hora de reservar algumas horas para leituras restauradoras de nível, capazes de favorecer o caminhar de todas as lideranças na direção de uma consistente reedificação coletiva. Capaz de erradicar as humilhações que nos estão rodeando nos cenários internacionais, que tornaram o Brasil o local predileto do que existe de moralmente mais abjeto nos quatro cantos do planeta.

Navegando por alguns sites livreiros felizmente existentes e ainda não contaminados nas redes sociais, deparei-me com um trabalho psicográfico do notável Divaldo Franco tendo por base os romances mediúnicos de Victor Hugo, pensador francês, poeta, romancista, dramaturgo, jornalista, político e orador, apontando como o maior talento francês de todos os tempos. Nascido em fevereiro de 1802 e desencarnado em 22 de maio de 1885, seu corpo foi sepultado no Panteão Nacional, acompanhado por milhares de pessoas. Um talento francês bastante preocupado com seu povo, para o qual escreveu a sua melhor produção literária: Nossa Senhora de Paris, Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar, entre tantos outros.

O livro encontrado intitula-se 100 Reflexões Filosóficas e Cor Local nos Romances Mediúnicos de Victor Hugo, Washington L. Nogueira (org.), Salvador, Bahia, Livraria Espírita Alvorada, 2009, 304 p. Ele está dividido em cinco partes: I – Reflexões Filosófico-Sociais; II – Reflexões Filosófico-Psicológicas; III – Reflexões Filosófico-Espíritas; IV – Reflexões Filosófico-Religiosas; e V – Digressões Históricas.

Elegemos algumas das reflexões do Espírito de Victor Hugo, psicografadas pelo Divaldo Franco, uma amostra capaz de dimensionar a grandeza de uma personalidade histórica aplaudida mundialmente, sempre de mente voltada para os desassistidos do planeta. A escolha é radicalmente aleatória, feita a partir de um sorteio efetivado com amigos queridos, três, em mesa de croquetes e guaranás. Um estímulo para que todos os “seduzidos” pelos norteamentos do escritor francês busquem a leitura integral do trabalho muito bem apresentado pelo Centro Espírita Caminho da Redenção, um exemplo que dignifica a Missão Espírita da Gente Brasileira.

1.“Muito maior do que se pensa é a legião dos párias. Enxameiam nas vielas sórdidas das cidades e nos casebres das vilas ao abandono, inundando, também, os palácios e apartamentos onde vivem os homens de alto coturno, em cujas existências a degradação fez morada, e de onde a vergonha, por não suportar o assédio da imundície moral, foi expulsa, enxovalhada, a pedradas de ironias e desdém… Fugindo de si mesmos, são incapazes de fitar-se no espelho da consciência, esses párias do poder temporal, que mergulham nas drogas alucinantes para sonhar o pesadelo da mentira que as asfixia, empedernindo-lhes os sentimentos e vencendo neles as mínimas expressões de humanidade.”

2. “A oração é o mecanismo-ponte que une a criatura ao seu Criador através do infinito abismo da evolução. Constitui recurso sem palavras. Em que o homem se liberta das paixões, esquecendo-se da trivialidade, para agigantar-se, enriquecendo-se de valores de alto porte.”

3. “Este conceito de que a religião é para idosos, tem sido causa de larga faixa de equivocados. A fé religiosa é tônico de fortalecimento da alma e de ação vigorosa para o corpo, pois que lhes preserva a saúde mental e física, ao tempo em que proporciona muitas alegrias ao jovem. … Sem uma forte consciência religiosa, particularmente estruturada na razão, o jovem se aturde com facilidade e assume compromissos que o arrastam a situações penosas, que poderiam ter sido evitadas.”

4. “Infelizmente, as religiões não escapam aos homens que vivem às expensas; que as exploram e aos crentes, mantendo um comportamento venal e afivelando à face a máscara da humildade como da fé, ensinando uma filosofia e agindo diametralmente de forma oposta ao conteúdo do que dizem aceitar.”

5. “Exultai, todos vós, que perdeste temporariamente entes queridos, arrebatados pelo veículo da desencarnação. Eles não morreram! Atravessaram a grande aduana, que também vos espera, e enquanto isso trabalham por vós e por eles, preparando o vosso amanhã. Se sofrem, por equívocos a que se entregaram, retemperam o ânimo para novas jornadas; se são felizes, repartirão convosco as suas dádivas. Confiai e laborai! O amanhã é o nosso dia, que hoje começa, pedindo-nos seriedade na conquista da nossa felicidade!”

6. “Somos todos párias do caminho evolutivo, reencarnando para refazer e amando para redimir-nos. Pertencentes ao Instituto Divino da Evolução, estacionamos para aprender e melhor fixar as lições da vida, reiniciando a jornada quanto se nos faça necessário para a superior coleta de bênçãos.”

7. “Aplaudir o erro somente porque este recebe o transitório aval dos homens significa conspurcar a dignidade individual e enxovalhar a inteligência e a cultura da Humanidade.”

As sábias reflexões do escritor francês Victor Hugo, psicografadas pelo Divaldo Franco, facultam-nos a oportunidade de uma ampliação moral e espiritual do nosso interior de transeunte, na direção de um Ômega Chardiniano derradeiramente luminoso. Saibamos apreender Victor Hugo, um extraordinário mestre do nosso aprendizado doutrinal espírita.

PS. Para quem desejar melhor conhecer o espírita Victor Hugo, recomendo com entusiasmo a leitura de O Livro das Mesas: as sessões espíritas de Jersey, Victor Hugo, São Paulo, Três Estrelas, 2018, 627 p. Um livro surpreendente que traz a transcrição de quatro cadernos em que Victor Hugo, sua família e seus amigos descreveram as sessões espíritas das quais participaram na Ilha de Jersey, entre 1853 e 1855, onde o escritor se exilara após o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte.

SOLTOS E CONEXOS

1. Em tempos eleitorais como os atuais, desconfiar das posturas políticas enganosas e das ruidosas esculhambações sectárias dos sectários é um bom começo de consciência cidadã. E foi o Betinho, um sociólogo que não se esquecia do que escrevia, que disse certa feita para sacramentar toda postura política sadia: “Somos cidadãos de um mesmo mundo e num único tempo e país. É fundamental apoiar tudo o que nos leva à democracia e resistir por todos os meios a tudo o que nos impeça de chegar até lá pelo caminho da inteligência, do diálogo e da luta firme por construí-la com a participação ativa do conjunto da sociedade e formas mais conscientes e inovadoras de mobilização popular”.

2. Num pedaço de papel almaço, amareladamente bem conservado: “Todo xiita é um metido a síndico do mundo e odeia seus inquilinos”. E o pior xiita é aquele que se fantasia de amigo dos índios mas se apresenta com a pele vermelha para encabelar os incautos mentais.

3. Jean Paul Sartre, escritor francês morto em 1980, marido da Simone, bem que merecia voltar a proclamar alto e bom som: “Detesto as vítimas que respeitam seus carrascos”. Os que urraram, certa feita, chamando executivo nordestino de Pinochet e que depois ocuparam quietamente numerosos cargos comissionados daquele mesmo executivo, devem ter uma raiva danada desse tal de Sartre, que nunca deveria ter sido por aqui traduzido.

4. Para o Dr. Pierre Janet, psiquiatra francês falecido logo depois de terminada a Segunda Guerra: “Se o paciente é pobre, é internado num asilo como ‘psicótico’. Se pode pagar uma clínica, o diagnóstico é ‘neurastenia’. Se é rico o suficiente para tratar-se em casa, aos cuidados de médicos e enfermeiras, trata-se de um ‘excêntrico’”.

5. Para os sectários, de todos os matizes, que imaginam ver o circo pegar fogo, desde que construídas suas utopias, o pensar do Mahatma Gandhi é oportuníssimo: “Que diferença faz para os mortos, para os órfãos e para os despossuídos se aquela louca destruição se deu em nome do totalitarismo ou do santo nome da liberdade e da democracia?”

6. A opinião de Eugene Ionesco, notável teatrólogo, emerge com uma força descomunal: “Em nome da religião, constroem-se piras. Em nome das ideologias, pessoas são torturadas e mortas. Em nome da justiça, são injustiçadas. Em nome do amor a um país ou uma raça, outros países e raças são desprezados, discriminados ou massacrados. Em nome da igualdade e da fraternidade, praticam-se a perseguição e o ódio. Não há nada em comum entre os meios e os fins. Os meios vão muito mais longe que os fins. Na verdade, religião e ideologia são apenas álibis para esses meios”.

7. Sabedoria tibetana: “Nunca porfiar com quem não tem o que perder, só vivendo de ostentação, narcisicamente. É combater em desigualdade, posto que o outro já traz a vergonha perdida. Nunca se expor uma inestimável reputação, pois é sempre o mal, e não o bem, que a malevolência nota. Mais vale ter e saber conservar as pessoas que os haveres. Os feitos estão bem quando feitos; as alegrias nunca estão acabadas.”

8. “Tenha sempre fidelidade pelas suas opiniões, mas não as torne fixas diante de conhecimentos mais bem fundamentados. Nossas opiniões não passam de opiniões, jamais serão a verdade, posto que ninguém sabe o que é a verdade. Todas as pessoas que se imaginam donas da verdade se tornam inquisidoras, desconhecendo o que significa tolerância”.

9. “Quando numa comunidade sente-se a ausência de bibliotecas, explica-se rapidamente porque ela não pode alcançar graus civilizatórios compatíveis com o mundo contemporâneo. Com livros se edificam nações desenvolvidas, cérebros criativos e solidariedades sociais. Sem eles, embrutece-se a consciências e alimenta-se as violências mais constrangedoras, inclusive as dos políticos que não possibilitam a libertação do ser humano dos seus estágios mentais primitivos”.

10. Para os que entrarão breve de férias, é recomendável uns instantes de meditação, para retificar comportamentos e contemplar novos horizontes. Sempre atentando para o revelado pelo salmista – Por que temer, nos dias infelizes, a malícia dos espertalhões que me cercam, e os que contam com sua fortuna e se vangloriam da sua riqueza? (Salmo 49). E valendo muito redimensionar seus níveis de cidadania, evitando sutis envenenamentos consumistas, inoportunas desatualizações culturais e desastrosos esmorecimentos espirituais, que comprometem as três pilastras do viver: a dignidade, a integridade e a auto-realização.

11. Oportuno também, num minutinho entre papos e passeios, uma releitura sobre o que disse Albert Schweitzer, ao receber o Prêmio Mundial da Paz, em Oslo, 1952: “O homem tornou-se um super-homem…Mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana…. Impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens”. Palavras complementadas pela constatação feita por Erich Fromm: “Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes — pessoas que ficam alegres quando matamos o tempo que tão duramente tentamos poupar”. Dois pensares que poderão auxiliar muitos na descoberta de um novo Eu, mais humanizado, mais ecológico, mais entrosado nos novos cenários brasileiros socialmente dinâmicos, mais familial comunitariamente, a aldeia global sendo seu domicílio século XXI.

12. Passadas as apurações, que todos os segmentos partidários leiam atentamente Caminhos da Esquerda – Elementos para uma Reconstrução, Boris Fausto, SP, Companhia das Letras, 2017, 210 p. Na orelha primeira do livro, o explicativo por derradeiro: “Desde há mais ou menos um século, a esquerda foi acometida por certas patologias. Fenômenos como totalitarismo, adesismo ou populismo comprometeram e seguem comprometendo seus projetos políticos. Esse é o diagnóstico de fundo a mover a reflexão do filósofo Ruy Fausto em Caminhos da Esquerda.” Uma leitura imprescindível para eliminar jumentalidades estratégicas de todos os naipes..

SOBRE REENCARNAÇÃO

De uns bons anos para cá, resolvi ler com vagar e sempre assimilando aurelianamente (consultando o Aurélio sobre termos não devidamente por mim assimilados) O Livro dos Espíritos, do Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, editado em 1857. O que me proporcionou uma vontade gigante de conhecer os princípios lá contidos foi um trecho lido com muita atenção, numa das publicações da Federação Espírita Brasileira: “Independentemente de crença ou convicção religiosa, a leitura de O Livro dos Espíritos será de imenso valor para todos, porque trata de Deus, da imortalidade da alma, na natureza dos Espíritos, de suas relações com os homens, das leis morais, da vida presente, da vida futura e do porvir da Humanidade, assuntos de interesse geral e de grande atualidade.”

Mas o que mais me sensibilizou racionalmente foram os capítulos II a VIII do LE, fortalecendo a minha descrença sobre castigos eternos impostos pela Providência. E o tema reencarnação consolidou convicções até então intuitivas por mim sentidas, ensejando leituras complementares as mais diferenciadas sobre o assunto, a última leitura sendo o livro Reencarnação questão de lógica, do médico pediatra Américo Domingos Nunes Filho, SP, Editora EME, 2017, 320 p. Segundo o prefaciador Eurípedes Kuhl, “para elaborar este livro, o doutor Américo não se louvou apenas nos seus conhecimentos de medicina pediátrica, mas, e principalmente, no exercício da lógica, do bom-senso e do respeito integral e incondicional ao Criador.”

Segundo pesquisas feitas, eis um esclarecimento: reencarnação é uma ideia central de diversos sistemas filosóficos e religiosos, segundo a qual uma porção do Ser é capaz de subsistir à morte do corpo. Chamada consciência, espírito ou alma, essa porção seria capaz de ligar-se sucessivamente a diversos corpos para a consecução de um fim específico, como o auto-aperfeiçoamento. A reencarnação pode ser definida como a ação de encarnar-se sucessivas vezes, ou seja, derivada do conceito aceito por doutrinas religiosas e filosóficas de que, na morte física, a alma não entra num estágio final, mas volta ao ciclo de renascimentos. Heródoto filósofo menciona esta doutrina como sendo de origem egípcia, sendo que, nessa concepção, a reencarnação se dava instantaneamente após a morte, passando a alma para uma criatura que estava nascendo (que poderia ser da terra, da água ou do ar).

A reencarnação encontra defesa na filosofia desde Pitágoras. Atualmente, este conceito é aceito por filosofias e religiões do mundo todo, em especial na Ásia. É chamada também de transmigração da alma e metempsicose (esta última denominação é mais encontrada em filosofias orientais em que se admite que alma pode regressar em corpos de animais).

A reencarnação é um dos pontos fundamentais de religiões do Egito Antigo, do hinduísmo (já pregava esse conceito 5 mil anos antes de Cristo), do Budismo, do jainismo, do sikhismo, do taoísmo, do Culto de Tradição aos Orixás, de várias nações indígenas, do Vodu, da Cabala judaica, do rosacrucianismo, do espiritismo e suas dissidências, da Teosofia, da Wicca, do Eckankar, da Cientologia, da filosofia pitagórica, da filosofia socrática-platônica, etc. Existem vertentes místicas do cristianismo como, por exemplo, o cristianismo esotérico, que também admite a reencarnação.

Entre as tentativas de dar uma base “científica” a essa crença, destaca-se o trabalho do psiquiatra Dr. Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia, Estados Unidos, que recolheu dados sobre mais de 3000 casos em todo o mundo, evidenciando a reencarnação. Segundo ele, os relatos de vidas passadas surgem geralmente aos dois anos de idade, desaparecendo com o desenvolvimento do cérebro. É constante aparecer na proximidade familiar, embora haja casos sem nenhum relacionamento étnico ou cultural. Mortes na infância, de forma violenta, aparentam ser mais relatadas. A repressão para proteger a criança ou a ignorância do assunto faz com que sinais tidos como suspeito, normalmente sejam esquecidos ou escondidos.

Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei em francês é explicitada no túmulo de Allan Kardec. No século 19, o francês Hippolyte Leon Denizard Rivail – ou Allan Kardec – e outros estudiosos dedicaram-se a um tema então em voga na Europa: os fenômenos das mesas giratórias, em que os sensitivos alegavam que espíritos se manifestavam com o mundo dos vivos. Kardec escreveu uma série de livros sobre as experiências mediúnicas que observou e, tendo como base a ideia da reencarnação, estruturou a Doutrina Espírita.

Para os espíritas, reencarnação é um ponto pacífico. O espiritismo é o grande divulgador da doutrina da reencarnação no Brasil e na maioria dos países ocidentais, defendendo que a reencarnação é um processo obrigatório até o espírito não precisar mais reencarnar e isso se dará quando ele se tornar um espírito puro. A reencarnação é uma oportunidade para o espírito se aperfeiçoar intelectualmente através do trabalho e estudo, e moralmente através do amor ao próximo e da caridade. Assim, ela é vista como uma bênção pelo espírito, pois é uma oportunidade de progresso. Além de trabalhar para o seu desenvolvimento, o espírito quando reencarna, também vem expiar faltas que cometeu em encarnações anteriores.

Para o espiritismo, a reencarnação é uma prova da justiça de Deus, que dá inúmeras oportunidades para o espírito se aperfeiçoar, em vez de mandá-lo para o céu ou o inferno eterno porque simplesmente nasceu em uma família que não lhe deu a educação adequada. Segundo essa mesma doutrina, se o espírito se entrega à corrupção dos valores ético-morais, ele terá “incontáveis” oportunidades de se aperfeiçoar nas próximas reencarnações.

O astrônomo e astrobiólogo Carl Sagan, em seu penúltimo livro, escreveu: “No momento em que escrevo, há três reivindicações no campo (paranormal) que, na minha opinião, merecem um estudo sério”. A terceira sendo crianças que, pequenas, relatam detalhes de uma vida anterior que, após a verificação, se mostram precisas e que elas não poderiam ter esse conhecimento de nenhum outro modo que não pela reencarnação”.

Uma leitura atenta do livro Reencarnação questão lógica, do Dr. Américo Domingos Nunes Filho, nos proporcionará subsídios consistentes para assimilar mais convictamente a lição deixada pelo Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará” (João 8,32)

LIVROS INCOMUNS

Quando o escritor judeu Elie Wiesel recebeu o Prêmio Nobel, em 1986, uma reflexão sua ecoou pelo salão de premiação, repercutindo em todo mundo: “Eu tenho tentado manter minha memória viva… Tenho tentado combater aqueles que prefeririam esquecer. Porque se nós esquecermos, nós somos culpados, somos cúmplices.” E num papo com amigos judeus, semana passada, quando reverenciávamos o nonagenário aniversário de Wiesel, recebi de um quase irmão hebreu um livro incomum por derradeiro: Holocausto: os eventos e seu impacto sobre as pessoas reais, Angela Gluck Wood, Barueri, SP, Editora Manole, 2013, 192 p. Onde, na quarta capa, se explicita a motivação da produção editorial, prefaciada por Steven Spielberg: “O livro que você tem em mãos é único. Ao mesmo tempo em que é um respeitável registro sobre O Holocausto que combina textos e imagens de um modo totalmente incomum, também é um registro humano da Shoah e de seu significado. As páginas que se seguem são repletas de estatísticas e fatos, muitos deles apavorantes. Mas estas páginas contêm também rostos e palavras de homens e mulheres que sobreviveram ao mundo homicida da Europa dominada pelo regime nazista.” E mais: “Você também encontrará outro elemento singular ao volume: um DVD contendo entrevistas em vídeo de muitos sobreviventes cujos nomes estão nestas páginas. Esses homens e mulheres falaram de suas experiências de modo direto e cândido às câmaras e microfones do Instituto de História Visual e Educação da Fundação Shoah da Universty of Southern California (USC). O trabalho do Instituto é o trabalho profissional mais importante de minha vida. Sinto-me profundamente orgulhoso por sua realização e verdadeiramente emocionado por você, leitor, ter a oportunidade de aprender sobre o Holocausto por meio do conjunto de testemunhos recolhidos para este livro e para o DVD que o acompanha.”

O livro contém as seguintes partes: Os Judeus na Europa; Domínio Nazista; Os Guetos; O Assassinato das Vítimas; Agarrando-se à Vida; O Fim da Guerra; As Consequências. Páginas que expressam animalidades e resistências, pusilanimidades e bravuras extremas. Em todas elas, uma seção chamada Vozes traz testemunhos de sobreviventes, a maioria deles extremamente dolorosos. Selecionamos um deles: de Thea Rumstein, austríaca, nascida em 1928: “Nós os vimos começando a marchar pelas ruas e, claro, no dia seguinte todas as lojas tinham cartazes dizendo ‘Juden sind hier. Unerwunscht’ (Judeus não são bem-vindos aqui). E nas lojas, eles escreviam Jude na fachada delas e todo tipo de coisa acontecia. Havia muita coisa acontecendo e você estava lá sentado e não realmente via o que estava para acontecer – mas logo bem descobrimos. Foi terrível. A primeira coisa que me lembro muito bem foi quando cheguei da escola (isso foi bem no começo), fui à rua onde morávamos e havia um enorme grupo de pessoas por ali gritando e gritando ‘Juden’ e continuavam, e então vi mãe na rua, limpando a rua! Eles a fizeram limpar os cartazes que colocaram nas ruas para as eleições. Então eu disse: ‘Mãe! O que você está fazendo aí ?’ E ela respondeu: ‘Thea, vai para casa! Vai para casa! Ela não queria que eu ficasse lá. Eu chorei terrivelmente e não fui, continuei lá gritando: ‘Mamãe, mamãe!’ E as pessoas não tinham compaixão alguma. Elas estavam tomadas por ódio. Todas elas. Todas.”

A história do antissemitismo, ódio aos judeus, remonta a tempos muito antigos, embora tenha sido fortalecida pela Igreja Católica medieval, que disseminavam que tinham sido judeus os responsáveis pela morte de Cristo no madeiro. O próprio Martinho Lutero, em 1543, no livro Dos judeus e suas mentiras, assim se pronunciava: “Eu aconselho que as casas dos judeus também sejam arrasadas e destruídas. Pois nelas, eles perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Como alternativa, eles podem ser alojados sob qualquer teto ou em um celeiro, como os ciganos. Isso lhes dará a certeza de que não são líderes em nosso país, tal como se vangloriam, mas sim que estão vivendo em exílio e cativeiro, como eles lamuriam e lamentam sobre nós diante de Deus.”

Um outro livro incomum foi editado o ano passado (2017): Histórias de Vida: refugiados do nazifascismo e sobreviventes da Shoah – Brasil: 1933 – 2017, SP, Mayanot, 2017, 2v., projeto coordenado por Maria Luiza Tucci Carneiro e Raquel Mizrahi, que ressaltam: “As histórias de vida aqui publicadas têm elementos comuns, que formam uma trama e nos ajuda a reconhecer em cada personagem mais uma vítima da intolerância que abalou a Europa nas décadas de 1930 e 1940. Valorizamos também aqueles que lutaram nas frentes de resistência, os partisans, ampliando para as ações humanitárias dos Justos e Salvadores que escolheram o Brasil como sua segunda pátria. Importante ressaltar que esta é uma coleção aberta às novas vozes, idealizada para quebrar os silêncios da História. Para lembrar sempre, para não esquecer!” E dão testemunho contundente: “Em cada uma das histórias descobrimos que as cicatrizes ainda sangram, são como marcas subjetivas, conectadas ao “eu” de quem narra e que não devem ser desprezadas. Cada qual, em sua singularidade, nos oferece uma perspectiva e dimensão histórica acerca do Holocausto, demonstrando que as ações genocidas extrapolaram as fronteiras da Alemanha, Áustria e Polônia”.

Atualmente, o Holocausto, pelo seu caráter único e pela crueldade, não pode ser comparado a nenhum outro assassínio em massa. Não há justificativa lógica para a carnificina cometida contra mais de seis milhões de judeus. Tampouco qualquer explicação teológica. A Noite dos Cristais, as câmaras de gás de Auschwitz e os crematórios de Maidanek, entre outros, foram produtos da teoria racial germânica. Que devem continuar a ser combatidos, diante das efervescências sectárias surgidas nas duas últimas décadas.

Que as leituras acima sejam tijolos na grande muralha que conterá a intolerância, a xenofobia e o antissemitismo, preparando as nações para futuros luminosos, “repletos de conhecimento Divino, como as águas cobrem o mar”, segundo Isaías 11,9.

POR UMA EDUCAÇÃO ESPÍRITA

Apesar de uma realidade educacional espírita no Brasil de há muito já se fazer presente numa rede escolar que abarca os três graus fundamentais do ensino, do pré-escolar à pós-graduação, mormente no Centro-Sul do país, uma indagação ainda se faz presente nos quatro cantos do país: como fortalecer uma pedagogia espírita nos primeiros tempos de uma caminhada escolar, descaracterizando a formação de místicos e alienados da realidade terrena?

Um livro editado pela décima vez em 2004 bem poderia balizar uma estratégia educacional compatível com os crescentes desafios contemporâneos: Pedagogia Espírita, J. Herculano Pires, São Paulo, Editora Paidéia, 2004, 222 p. Nele, o notável pensador emite algumas reflexões consistentes, que muito deveriam ampliar a missão de educadores militantes que saibam assimilar um prognóstico amplamente recheado de múltiplas aspirações: “O ceticismo dos últimos tempos vai cedendo lugar a um despertar de novas e grandiosas esperanças. A Educação da Era Cósmica começa a nascer e os educadores começam a perceber que precisam renovar os processos educacionais.” Mas apesar dos avanços, Herculano lamenta com intensidade: “Infelizmente, a atitude cultural para com o Espiritismo continua, em sentido geral, a mesma do século passado: preconceituosa e ignorante. Ao lado do preconceito avulta a mais completa ignorância do conteúdo da doutrina e do seu significado, muito embora uma bibliografia espírita seja hoje um vasto acervo cultural, a imprensa espírita constituindo-se numa rede de jornais, revistas, boletins, anuários, programas radiofônicos e de televisão e até mesmo estações de rádio.”

Como o meio básico de transmissão cultural se efetiva através da educação, inevitável se torna o fortalecimento da Educação Espírita no Brasil, apesar de toda a resistência oferecida pelos segmentos considerados verdadeiramente reacionários. Em 1970, acontecia o primeiro curso de Introdução a uma Pedagogia Espírita, cabendo a EDICEL – Editora Cultural Espírita Ltda – lançar a primeira revista de educação espírita do Brasil.

Por outro lado, o nunca esquecido economista Celso Furtado costumava lembrar em seus pronunciamentos: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas”.

Relendo outro dia, o pensador Allan Bloom, um dos mais controvertidos ensaístas norte-americanos, autor do muito polêmico O DECLÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL, um best-seller que vendeu, até hoje, mais de três milhões de exemplares, verifiquei a atualização dos seus ensaios sobre professores, livros e educação, escritos entre 1960 e 1990, concentrados por ele num instigante volume intitulado GIGANTES E ANÕES. Segundo Bloom, “a essência da educação é a experiência da grandeza”. Ele ressalta a perfeição da fórmula de Pascal – sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético – defendendo a vida teórica dos assaltos próprios de um tempo que despreza a filosofia, que asfixia a estratégia em detrimento de táticas imediatistas, eleitoreiras até, nunca políticas, todas oportunistas, algumas até desabridamente nazistas.

Em determinados momentos, o Bloom parece “estar enxergando” o atual quadro universitário brasileiro: “A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder”. E a saída por ele apontada deveria ser merecedora de respeitosa atenção: a descoberta das nossas próprias ideias.

Do livro se depreende lúcidas lições sobre a atual ambiência nacional, às vésperas de acontecimentos eleitorais, onde uma República, jamais Nova República, parece emergir de um raivoso e impaciente clamor comunitário. Algumas das lições de Bloom merecem aqui registro neste Jornal da Besta Fubana sempre lúcido, que não se avacalha diante dos marasmos culturais e políticos de um Nordeste ainda acabrestado por muitos currais eleitorais. Tais lições bem que poderiam transformar-se nos DEZ MANDAMENTOS da construção de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um igualmente dinâmico desenvolvimento social. Saibamos bem assimilá-las:

1. Participamos de um único cosmo, cada alma sendo reflexo desse mesmo cosmo, nele também refletindo esperanças, conquistas e humilhações;

2. Os acidentes da vida obrigam os homens a adotar costumes que os levam a esquecer a parte total e imortal deles próprios;

3. Quem diz “eu prometo”, sem ter base para cumprir a promessa, é um mentiroso;

4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte de nossa experiência e de nossa vida;

5. Política significa o governo do homem e isso só pode ser feito em posições de poder legítimo;

6. Se a democracia não pode tolerar a presença dos mais altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se torna questionável;

7. Cultura não deve ser usada para superar as preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa ausência de sensibilidade para com a política real;

8. Quem só possuir visão “econômica” não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do homem ou no status especial da arte e da ciência;

9. Quando a suave luz dos grandes livros estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fantasiosa, nossa janela para o mundo estará irremediavelmente fechada;

10. Todos os talentos não passam de recursos para a felicidade maior de todos.

Embasados nos textos acima, como seria oportuno, nos Centros Espíritas do Brasil, a implantação de Núcleos de Pedagogia Espírita, voltados para um aprimoramento da enxergância de jovens e adultos, onde o texto básico inicial seria o de J. Herculano Pires, acima mencionado, onde seriam postas em discussão não as experiências passadas, mas as reelaborações que se fizessem necessárias num plano superior, o da consciência iluminada pela visão espiritual, jamais distanciando crianças e adolescentes dos direitos a uma educação essencialmente crítico-libertadora.

PS. Oportuna por derradeira a leitura e debate do Manifesto da Pedagogia Espírita, IN: Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes, Dora Incontri, Bragança Paulista SP, Editora Comenius, 2012, 280 p. Para se ter “a feminilidade da lua e bravura libertária dos que descobrem novos mundos.”

LIÇÕES SOBRE O HOJE E O LOGO MAIS

Outro dia comentei neste site do JBF cada vez mais arretado de ótimo sobre um crescente colapso da Democracia Liberal nos quatro cantos do mundo, uma análise fantástica do sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro Ruptura, da editora Zahar, recentemente lançado no Brasil. E faz mais de uma semana que estou enfronhado com uma leitura que complementa magistralmente o acima citado: 21 lições para o século 21, Yuval Noah Harari, São Paulo, Companhia das Letras, 1918, 442 p. Autor consagrado de Sapiens e de Homo Deus, dois sucessos mundiais, o primeiro analisando o nosso passado e o segundo buscando vislumbrar os nossos amanhãs longíquos, Harari agora busca destrinchar as questões políticas, tecnológicas, sociais e existenciais que atordoam nossa contemporaneidade, onde uma pergunta inquieta um bocado de milhões de famílias: o que devemos ensinar a nossos filhos? Num mundo de 7 bilhões de seres humanos, com preocupações muito mais agudas que o aquecimento global ou a crise da democracia liberal, uma preocupação que atordoa os mais responsáveis.

Neste seu livro último, Noha Harari analisa as grandes forças que formam as atuais sociedades mundiais, as que influenciarão o futuro do planeta como um todo. Sem pretender ser uma narrativa histórica, o livro apenas traz uma coleção de lições que não possuem respostas simples, mas que seguramente ajudarão milhões a participar de alguns assuntos do nosso tempo atual. Através de indagações públicas o autor despertam a imaginação analítica, sendo ele um dos atuais talentos planetários, residente em Jerusalém, PhD em História por Oxford, atualmente professor da Universidade Hebraica: Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump? O que podemos fazer ante a epidemia de fake news? Por que a democracia liberal está em crise? Deus está de volta? Haverá uma nova guerra mundial? Qual civilização dominará o mundo – o Ocidente, a China, o Islã? A Europa deveria manter portas abertas aos imigrantes? O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade e mudança climática? O que se faz quanto ao terrorismo?

Está comprovado que o terrorismo é tanto um problema de política global quanto um mecanismo psicológico interno, posto que o terror manipula a imagina privada de milhões de indivíduos. Principalmente numa conjuntura onde cientistas e governos estão aprendendo a hackear o cérebro humano, afetando condutas individuais e sociedades inteiras. E tal globalização afeta vieses políticos e religiosos, preconceitos raciais e de gênero, tornando-nos cúmplices involuntários da mais ampla opressão institucional.

O livro do Harari tem início com o atual impasse político e tecnológico, onde no final do século XX as grandes batalhas ideológicas entre fascismo, comunismo e liberalismo tinham como consequência a vitoriosa caminhada mundial da democracia política, dos direitos humanos e do capitalismo de livre mercado. Hoje, com o fascismo e o comunismo em total colapso e um emperramento do liberalismo, emerge uma inquietante indagação: para onde caminhamos, quando a fusão sempre crescente da tecnologia da informação e da biotecnologia poderá redundar em bilhões de seres humanos fora do mercado de trabalho, contaminando a efetividade da liberdade e da igualdade de todos?

Através do exame exaustivo dos múltiplos desafios, Harari busca encontrar respostas para as possibilidades emergidas, tateando respostas pós-verdade, tentando encontrar o que sabemos e o que não sabemos sobre Deus, sobre política e sobre religião, num tempo que não pode ser prolongado em demasia sob a ameaça crescente das armas da destruição de massa e o aprimoramento de novas tecnologias disruptivas.

O livro é composto de cinco partes interligadas: 1. O Desafio Tecnológico, 2. O Desafio Político, 3. Desespero e Esperança, 4. Verdade e 5. Resiliência. Em cada uma, um “parágrafo inicial para reflexões”. A título de aperitivo, apresentamos eles: 1. “O gênero humano está perdendo a fé na narrativa liberal que dominou a política global em décadas recentes, justamente quando a fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação nos coloca diante das maiores mudanças com que o gênero humano já se deparou”; 2. “A fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia ameaça os valores modernos centrais de liberdade e igualdade. Toda solução para o desafio tecnológico deve envolver cooperação global. Porém o nacionalismo, a religião e a cultura dividem o gênero humano em campos hostis e fazem com que seja muito difícil cooperar no nível global.”; 3. “Embora os desafios não tenham precedentes, e as discordâncias sejam intensas, o gênero humano pode se mostrar à altura do momento se mantivermos nossos temores sob controle e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões.”; 4. “Se você se sente impotente e confuso diante da situação global, está no caminho certo. Processos globais são complicados demais para que uma única pessoa os compreenda. Como então saber a verdade sobre o mundo, e não ser vítima de propaganda e desinformação?”; 5. “Como viver numa era de perplexidade, quando as narrativas antigas se desmoronam e não surgiu nenhuma nova para substituí-las?”

O livro do Yuval Noah Harari, lido meditativamente, e relido rabiscadamente de fio a pavio, seguramente nos possibilitará um asseio bastante salutar do nosso interior, favorecendo a separação do Deus Mesmo dos deuses que nos foram impostos ao longo da História da Humanidade. Assim sendo, permanentemente em processo continuamente crescente de enxergância, todo ser humano, capacitado para contemplar as belezas da Vida fora das cavernas impostas pelas complexas mesquinharias conjunturais, poderá, com firme convicção, solidarizar-se integralmente com seus contemporâneos, chamando-os indiscriminada e deshipocritamente de irmãos, todos oriundos de uma Energia única, de Luz Infinda.

PRESENTE NO DIA DA CRIANÇA

Almoçando, janeiro passado, com casal muito estimado por nós, já também avós, uma inquietude nos foi revelada quase nas despedidas do encontro: o que deveriam presentear aos netos no Dia da Criança, 12 de outubro, fortalecendo a espiritualidade deles, posto que todos, Ricarda de 15, João Henrique de 13 e Simone de 10 estavam bem avaliados em suas caminhadas escolares, cada um portando boas doses de cidadania convivencial, embora os pais ainda estivessem desatualizados de uma formação cristã que assegurasse uma criticidade solidária, posto que os dois estavam distanciados de uma bibliografia amplamente contemporânea e ecumênica sobre o assunto.

Indiquei aos dois, valendo para os cinco, a leitura em conjunto de um texto, que muito poderia beneficiar o grupo, a ser amplamente discutido em reuniões semanais programadas sem correrias, um resumo de cada capítulo sendo elaborado pelo avô, ex-seminarista frustrado, embora ainda portador de uma densidade humanística apreciável: Quem foi Jesus – uma análise história e ecumênica, de André Marinho, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2018, 312 p.

O autor é brasileiro, nascido em 1982, graduado em Artes Cênicas, que teve a oportunidade de conviver, na Universidade de Tübingen, com Hans Küng, tido e havido como um dos maiores teólogos do século XX, especializado em ecumenismo, defensor consagrado mundialmente dos diálogos inter-religiosos sem fingimentos nem posturas de superioridade. Para escrever o livro entre 2000 e 2018, Marinho gastou nove anos de estudos sistemáticos sobre o Jesus histórico e mais nove de escritos e reescritos sobre áreas católicas, evangélico-protestantes, ortodoxas, judaicas e muçulmanas, muito embora tenha sido a Doutrina Espírita elaborada por Allan Kardec quem tenha realçado definitivamente para ele a missão do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.

De pais umbandistas, uma avó católica e outra espírita, um avô ateu e outro mais ou menos teísta, acredita Marinho que essa diversidade muito o beneficiou, mormente nos primeiros anos de sua formação, quando muito bem se recorda da sua mãe ensinando-lhe a Oração do Pai Nosso, anos antes dele ter lido as primeiras palavras. E também se lembra de sua avó paterna lhe contando uma história sobre a infância de Jesus, história muitos anos depois por ele descoberta na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em livro apócrifo, evangelho árabe da infância do Menino.

Daí a minha alegria de indicar ao casal amigo um texto ecumênico, crítico e histórico, muito distanciado dos de catequese, pois segundo Marinho, “existe um autêntico Jesus histórico, nascido na Palestina, judeu, o mais influente e jovem líder de impacto religioso do mundo, sempre seguido por ele, com total fervor, mesmo quando deparou-se, lamentavelmente, com algumas oportunistas posturas estupidificantes editadas. Que encharcam as mentes infantis de conceitos e preconceitos, onde jamais saberão diferenciar modernidade de modernosidade, perdendo elas oportunidades valiosas de ampliar uma criticidade cidadã infanto-juvenil capaz de erradicar passividades descriativas, essencialmente nulificantes, o conhecimento não se edificando historicamente, desapercebidas se tornando das metáforas, das simbologias, das razões primeiras dos fatos e das alternativas que favoreceriam uma melhor enxergância inter-convivencial religiosa.

Tenho intenso amor pelo movimento capitaneado por Jesus dos primeiros tempos, que não foi nacionalista, nem clerical, nem rigorista, nem legalista, nem monacal, nem sacerdotal, sempre reiterando Ele mais solidariedade para com os próximos mais sofridos. E sinto profunda admiração pelo apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, que proclamava a liberdade para todos, cada um se libertando ao seu modo, o amor sendo o único motor promotor de transformações, nunca sendo esquecido que não se conserta roupa velha com panos novos.

Voltando ao livro do Marinho, ele foi estruturado em três partes. Na primeira, 3 capítulos, descreve Jesus, explicitado através de uma breve introdução ao judaísmo (de Abraão até Jesus) e expondo uma pesquisa crítica sobre uma fonte primária, o Novo Testamento. Na segunda parte, Quem foi Jesus?, compreende 13 capítulos, inclusive a análise do Sermão da Montanha, destinado aos “moralmente fracassados”, contando sua paixão, morte e ressurreição. A parte terceira busca responder a duas perguntas fundamentais: Quem foi Jesus? Quem é Jesus? Uma leitura sedutora por derradeiro, digna para discussão em grupo familiar.

Segundo algumas notícias vindas posteriormente, o estudo grupal do livro está sendo concluído com entusiasmo fora do comum, sendo opinião geral que as discussões estão proporcionando uma análise histórica e ecumênica repleta de reflexões e provocações que seguramente aprofundará a espiritualidade de cada integrante, ampliando a compreensão e o amor por Jesus de Nazaré, esse maior revolucionário que a Humanidade já conheceu, sempre em evolução em nosso interior de trabalhadores espíritas.

Já chegou aos meus ouvidos um pedido de quero-mais indicações para os avós e os netos caminharem mais resolutamente em direção à Luz. Em breve, depois da Dia da Criança, nos reencontraremos para novos papos e recíprocas capacitações. E tudo faz crer que o grupo será acrescido de mais dois jovens, um de 16 e outra de 14, netos também do casal amigo muito amado. Onde todos muito poderão aprender com Jesus de Nazaré através do judaísmo, cristianismo, islamismo e espiritismo. E a serem puros de coração, contemplando a Criação.

COLAPSO DA DEMOCRACIA

Encareço aos amigos leitores que leiam e releiam, sempre meditando, o primeiro parágrafo de um lançamento recente de uma editora brasileira famosa, que logo abaixo identificarei. Ei-lo: “Sobram ventos malignos no planeta azul. Nossas vidas titubeiam no turbilhão de múltiplas crises. Uma crise econômica que se prolonga em precariedade de trabalhar e em salários de pobreza. Um terrorismo fanático que fratura a convivência humana, alimenta o medo cotidiano e dá amparo à restrição de liberdade em nome da segurança. Uma marcha aparentemente inelutável rumo à inabitabilidade de nosso único lar, a Terra. Uma permanente ameaça de guerras atrozes como forma de lidar com os conflitos. Uma violência crescente contra as mulheres que ousaram ser elas mesmas. Uma galáxia de comunicação dominada pela mentira e agora chamada de verdade. Uma sociedade sem privacidade, na qual nos transformamos em dados. E uma cultura, denominada entretenimento, construída sobre o estímulo de nossos baixos instintos e a comercialização de nossos demônios.”

O texto acima se encontra no recentemente lançado Ruptura: a crise da democracia liberal, Manuel Castells, Rio de Janeiro, Zahar, junho de 2018, 250 páginas. E que apresenta um segundo parágrafo ainda mais terrificante: “Existe, porém, uma crise ainda mais profunda, que tem consequências devastadoras sobre a (in)capacidade de lidar com as múltiplas crises que envenenam nossas vidas: a ruptura da relação entre governantes e governados. A desconfiança nas instituições, em quase todo mundo, deslegitima a representação política e, portanto, nos deixa órfãos de um abrigo que nos proteja em nome do interesse comum. Não é uma questão de opções políticas, de direita ou esquerda. A ruptura é mais profunda, tanto em nível emocional quanto cognitivo. Trata-se do colapso gradual de um modelo político de representação e governança: a democracia liberal que se havia consolidado nos dois últimos séculos, à custa de lágrimas, suor e sangue contra os Estados autoritários e o arbítrio institucional. Já faz algum tempo, seja na Espanha, nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, na Correia do Sul e em múltiplos países, assistimos a amplas mobilizações populares contra o atual sistema de partidos políticos e democracia parlamentar sob o lema “Não nos representam!’. Não é uma rejeição à democracia, mas à democracia liberal tal como existe em cada país, em nome da ‘democracia real’, como proclamou na Espanha o movimento 15-M. Um termo evocado que convida a sonhar, deliberar e agir, mas que ultrapassa os limites institucionais estabelecidos.”

O Manuel Castells é um sociólogo espanhol dos mais influentes no mundo contemporâneo, considerado o principal analista da atual era da informação e os efeitos dela sobre a economia, a cultura e a sociedade em geral. No livro acima citado, ele interpreta o surgimento de Trump, Le Pen, Macron, expressões significativas do atual quadro político, ressaltando ainda a “total decomposição do sistema político do Brasil”, segundo ele um “país fundamental da América Latina”. Seu livro analisa com riquezas de detalhes as causas e consequências da ruptura entre cidadãos e governo, entre a classe política e o conjunto dos cidadãos, da falência da democracia liberal, a mãe de todas as crises, mãe parideira dos furacões direitistas que emergem nos quatro canto do planeta.

O sumário do livro aponta assuntos que muito bem poderiam ser debatidos em nosso país, às vésperas de uma eleição onde muitos milhares votarão “nulo” e “branco” enojados pela inoperância efetiva das decisões que resultariam em benefícios para o todo nacional. Incrustados no “nulos” e “brancos” estão contemplados: a crise de legitimidade, as raízes do crescente ódio comunitário, a política do medo implantada pelo terrorismo, o cansaço democrático, a influência da Era da Informação, o além de uma apenas dicotomia direita-esquerda e os processos indispensáveis para a reconstrução da legitimidade democrática através de uma política educacional de Educação Básica não populista, essencialmente libertadora, com um magistério culturalmente bem capacitado e condignamente remunerado.

A crise ética brasileira, umbilicalmente associada a uma gigantesca reestruturação econômica mundial, é profunda. Com um agravante: a grande maioria, por ausência de uma efetiva educação cidadã, se encontra despreparada para um assumir social mais consequente. E a ausência de um comprometimento ético com a transformação do hoje é sequela de uma não-escolaridade sedimentada, eivada de um conformismo que carrega uma desesperança comunitária que consolida individualismos multiplicadores, que faz resvalar para a irresponsabilidade, que deságua numa guerra civil sem comandante nem ideário, a gerar mais famintos, formatando uma onda comportamental predatória de consequências funestas.

Tenho uma profunda admiração pelos que possuem aquilo que Blaise Pascal, notável matemático, definia como esprit de finesse. E que é diretamente proporcional ao asco sentido pelos que se imaginam muito acima das divindades, sócios de Deus, igualzinho aquele ajumentado cheio de reais que entrava nas igrejas de óculos escuros para Deus não pedir autógrafo nem ficar com lero-leros bajulatórios.

Creio que a hora da sociedade civil voltar a travar o bom combate é chegada. A erosão da credibilidade política não beneficiará ninguém, nem mesmo os conservadores não-reacionários. Vale a pena apressar o historicamente viável, para privilegiar sempre a não-violência. O momento nacional está a exigir grandezas. E renúncias. E gestos concretos, não-eleitoreiros e não-messiânicos. Democracia, discernimento e disciplina, eis o trio de qualquer soerguimento pátrio.

Não desejamos uma sociedade de consenso, mas carecemos fazer um omelete quebrando o mínimo de ovos possível, com agilidade política e credibilidade moral, aliadas a uma competência técnica indispensável, sem a qual estaremos nos remetendo para um não-futuro talvez irreversível. Num país de sessenta milhões de carentes, os que não podem acompanhar a maratona do possuir estão transformando frustrações em agressividade eivada de odiosidade sectária. Embora deva ser relembrado vez por outra o famoso pensar de Churchill, em 1947: “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras formas que foram experimentadas de tempos em tempos.”

PS. Em todo 7 de setembro, sinto-me cada vez mais arretadamente brasileiro, apesar de todos os pesares.

FOMES DIVERSAS

O isolamento de 12 crianças com seu professor na Tailândia, recentemente, obteve solidariamente uma ampla repercussão planetária, felizmente com um final feliz, à exceção de um heroico bombeiro que não resistiu às técnicas de resgaste aplicadas pela equipe de salvamento.

A quase tragédia tailandesa proporcionou a muitos, a mim inclusive, a oportunidade de ler uma série de reflexões de pensadores especializados espíritas que estudam os diversos tipos de fome, auxiliando muitos a saciá-los sob as bênçãos do Altíssimo. Tais reflexões foram organizadas por Marcelo Teixeira, que efetivou a iniciativa a partir de um trecho do Sermão do Monte – “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados“(Lc 2,20-29) – em combinação com a letra da música “Comida”, do grupo de rock Titãs – “A gente não quer só comida. A gente não quer só bebida / A gente quer comida
Diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída / Para qualquer parte.”

O livro organizado pelo Teixeira intitula-se Fome de quê?, Capivari-SP, editora EME, 2018, 184 p. E bem que deveria ser divulgado nos Centros Espíritas de todo o país, proporcionando a criação de GRAs – Grupos de Reflexão/Ação, devidamente capacitados para ampliação de uma evangelização efetivamente solidária, que muito bem complementaria as notáveis Campanhas do Quilo, uma idealização do inesquecível Elias Sobreira, que um dia, através da psicofonia de médium-irmão, me incentivou a persistir na minha atual caminhada de final de vida, sempre sob as bênçãos do Homão da Galileia, da sua mãe Maria Santíssima e do Dr. Bezerra de Menezes, orientador da Casa dos Humildes, no Recife-PE, onde sou trabalhador, soldado raso com entusiasmo e orgulho.

A leitura do livro organizado pelo Marcelo me trouxe inúmeros momentos de reflexão. E como gosto de socializar as minha leituras, aponto, abaixo, os balizamentos que mais me sensibilizaram.

Fome de acolhimento – “O psicanalista Rollo May apresenta a existência dos ‘homens-espelhos’, seres que utilizam como roupagem uma capa composta de pedações de espelhos. Casa um desses pedaços contém os rostos de uma das pessoas que queremos agradar.” (Aloísio Silva, psicanalista)

Fome de assertividade – “Características de uma pessoa assertiva: não tem dificuldade em dizer não; não evita conflitos; sabe ouvir; mais elogia que critica; sua fala não cria necessidade de pedir desculpas; estimula a comunicação de mão dupla; é comunicador por necessidade.” (Alkinda de Oliveira, consultora de empresas)

Fome de cidadania – “Somente três caminhos podem evitar a dor social: uma consciência reta do cidadão; um coração que ame; mãos operosas no bem.” (Orson Peter Carrara, editor).

Fome de conhecimento – “Para que o princípio espiritual evolua, é necessário que ele tenha experiências nas quais adquire conhecimentos que lhe são necessários. Com isso, depreende-se que o conhecimento é a mola propulsora do progresso. Quanto mais o espírito adquire conhecimento, mais avança na escala evolutiva.” (José Carlos Leal, professor).

Fome de disciplina – “A benfeitora Joanna de Ângelis define a disciplina como sendo o impositivo de alevantamento moral fomentador do progresso, base da paz, que ninguém pode prescindir.” (Maurício Mancini, Professor universitário).

Fome de educação – “A melhor práxis pedagógica é conversar, realizando um diálogo instigante e provocativo, levando o educando a pensar diante de situações da vida, colocando-o em posição de olhar o futuro para ele e para a sociedade, sempre a partir da investigação de si mesmo e da vida.” (Marcus de Mário, educador)

Fome de fé – “Em geral, não percebemos que estamos carentes de fé. Estamos ocupados (e muitas vezes preocupados) com as questões ditas práticas do dia a dia, como problemas de saúde, conflitos familiares e sociais, dificuldades financeiras e outras que tais.” (Luzia Mathias, médica)

Fome de Jesus – “Tenho fome de Jesus descrucificado, ativo e laborioso, trabalhando pelo progresso de cada um de nós. Que não habita céu algum de beatitudes e contemplação, mas que ao mesmo tempo que viaja pelas estrelas visita casebres, hospitais, acampamentos de refugiados, circula por entre trincheiras dos povos em guerra, inspira gênios nas diversas ciências a debelar doenças e envolve os que detêm o poder político econômico transitório para que fomentem tais descobertas, apoiem iniciativas que visem melhorar as condições do planeta.“ (Cezar Braga Said, psicólogo)

Fome de perdão – “A fome de perdão tem início no lar e se expande por todas as formas de relacionamento humano. A cultura do perdão ainda não está implantada em nossa sociedade. A do revide, a da revanche, essa sim, finca raízes profundas, milênios afora, nos corações humanos. Falta-nos vontade para mudar. A vontade é como um motor que está ao nosso dispor. O combustível está dentro de nós. Abastecer ou não o motor depende só de nosso querer.” (Hélio Ribeiro Loureiro, advogado)

Fome de verdade – “Sem um maior discernimento constroem-se trilhas de dores do amanhã; isto porque, deveriam esses espíritos cuidar dos processos maléficos, admitidos na anterioridade, com o fim de exterminá-los, e não dar a essas energias caráter principal e promovê-las em envolvimentos maiores”. (Roberto Vilmar Quaresma, expositor)

Das 25 fomes pesquisadas, escolhemos as acima explicitadas. Deixando para os leitores amigos a tarefa de meditar sobre as demais, lendo e relendo o livro organizado pelo Marcelo Teixeira, balizamento ótimo para quem deve usar a mente e o coração quando se trata da divulgação das mensagens redentoras do muito amado Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.

PARA EFETIVAS ENXERGÂNCIAS

1. Contendo uma quase completa biobibliografia do autor, o Bê-a-Bá de Pernambuco de Mauro Mota está repleto de notáveis apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos?

O livro de Mauro Mota faz justiça histórica ao nosso passado. Diz ele, sempre comprovando com referências e dados, que Pernambuco ostenta inúmeros pioneirismos em relação ao Brasil: a primeira igreja, a de São Cosme e São Damião, em Igarassu; o primeiro estudo científico de história natural de uma região; o primeiro observatório astronômico; o primeiro zoo-botânico; o primeiro drama representado em teatro público; a primeira cidade do continente a ter um plano de urbanização; os primeiros sobrados de sete andares; a única ponte giratória; a primeira assembleia legislativa, a câmara dos escabinos, criada por Maurício de Nassau. No Bê-a-Bá poderemos constatar como nós utilizamos palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, angu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. O livro trata com muito carinho da mais importante revolução do Brasil colonial: a Revolução Pernambucana de 1817. Sentimento nativista repleto de batinas rebeldes, comandado pelos freis Arruda Câmara e Caneca, dois carmelitas, capazes de meter carreira em diabo metido a besta, ambos com aquilo roxo de dar a maior inveja nos desapetrecados. Mas também não esqueceu Mauro do papel desempenhado pelo Clube do Cupim, reduto de abolicionistas. E não se descurou o poeta de analisar o rosismo, os borbistas e os dantistas, além do fenômeno do cangaço, desde o banditismo mais cruel até o pitoresco, lembrado por ele, quando da ocasião da visita de parente e amigo a um que se encontrava recolhido à Casa de Detenção:

– Pruquê os sordados te pegaro, cumpadre ?

– Injustiça, injustiça. Misera dos homem, cumpadre. Matei cinco pro coroné, não me aconteceu nada. Pru caso do primêro que matei pra mim, tou aqui.

2. Empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação brasileira de bancarrota, sempre se assessorando dos melhores talentos, eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

3. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil e uma maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse, que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os níveis de desemprego se agigantam e os “bicos” tornam-se mais escassos, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e autoritarismos messiânicos, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.

5. Para toda sociedade elitista e autofágica, alguns provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã menos truculento: “Antes prevenir do que remediar”, “Para grandes males, grandes remédios”, “O barato sai caro”, “Do prato à boca, perde-se a sopa”, “Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e existência, recomenda-se ainda as seguintes advertências: “Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá”, “Quem o alheio veste, a praça o despe”, “O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que “Quem come a carne que roa os ossos”, posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

6. Outro dia, me deparei com um testemunho pra lá de inacreditável. Um jovem intelectualmente superdotado, atlético nos seus vinte e tantos anos, declarava que passava inúmeras vezes por medíocre para evitar a rejeição social. A super dotação destruída pela caretice social!! Pelos bundões quase-ricos que arrotam prepotência, confundindo sexualidade com genitalidade assentada em modernos celulares e troços mil capazes de metamorfosear seu indisfarçável jeitão primata. Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. E pouco a pouco vamos percebendo, todos os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam ninguém. Nem caciques nem tupiniquins. Tampouco fiéis e ateus. Necessário apenas não deixar para amanhã o que se pode alertar hoje. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, estou convencido. Um dia, breve embora não muito ainda, a maturidade da convivialidade comunitária chegará. Aí todos perceberão que somente sobreviverão se todos agirem como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando a cartilha dos seus direitos e dos seus deveres. Quem sobreviver, vivenciará.

PARA SER BOM SEMEADOR

Conhecido de longa data, tempos de juventude, chegou em nossa casa quase se borrando todo de medo. Tinha sido convidado para fazer uma palestra numa determinada associação kardecista, com tema escolhido pelos dirigentes, e se encontrava desapetrechado de um mínimo organizacional, posto que se considerava integralmente atordoado com o tempo curto dado para preparação.

Embasado numa sintonia fraterna de muitos anos, convidei-o para ler comigo Mateus 13,1-9, uma parábola contida também nos dois outros evangelhos sinópticos. Finda a leitura e um suco bem gelado de maracujá, principiamos um papo sem ansiedades, a calma surtindo os eflúvios indispensáveis para uma troca de experiências. E confessei ao Nino que sua ansiedade não estava fora dos limites de uma realidade brasileira, onde novos expositores estão rareando em todas as áreas humanas, cada centro espírita devendo se preocupar em inserir em sua programação anual umas boas horas de capacitação para exposições convincentes, que façam jus às mensagens oferecidas pelo Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. E nos demos uma semana de prazo para encontrar um bom manual técnico orientador capaz de nos proporcionar uma segurança expositiva que oferecesse alicerces cognitivos para exposições sedutoras.

Prazo semanal vencido, nova reunião, a Sissa e eu oferecemos ao Nino um texto encontrado na Livraria do 13º SIMESPE, por nós considerado de excelente nível didático: Novas Técnicas de Expositor Espírita, Cristiano Portela, Capivari – SP, Editora EME, 2018, 208 páginas. Num tempo auspicioso como o atual, quando cresce o entusiasmo pela melhor compreensão da Doutrina Espírita através dos mais diversos meios midiáticos, infelizmente não estamos testemunhando o aparecimento de expositores e oradores espíritas que satisfaçam tão abençoado crescimento, efetivando uma comunicação convincente nos diversos Centros Espíritas espalhados pelos quatro cantos de um Brasil considerado “a Pátria do Evangelho”, a necessitar de mais “enxergância” sobre as mensagens do Senhor Jesus, que exige uma capacitação continuada, típica das Oficinas para Formação de Expositores Espíritas, já existentes em alguns estados brasileiros, de resultados altamente positivos, favorecendo os alicerces necessários para os indispensáveis pedagogos espíritas, tal e qual a parábola do semeador – Mateus13,1 – que serve de porta-bandeira ao texto acima citado.

O livro do Cristiano Portela possui o seguinte sumário: 1. A procura de uma razão; 2. O poder e a responsabilidade sobre a palavra; 3. Orador: um encantador de pessoas; 4. Expositor: um pedagogo espírita; 5. Como formar um expositor espírita; 6. O receio de falar em público; 7. Quem são nossos ouvintes; 8. Todas as histórias já foram contadas: a escolha do tema; 9. Apanhe uma ideia; 10. A escolha do título; 11. Um plano de trabalho; 12. A fase da pesquisa; 13. Como fazer a pesquisa; 14. O texto resultado da pesquisa; 15. Referências e citações; 16. Estrutura de uma exposição; 17. A força de um Power Point; 18. Layout, cores, estética e outras questões visuais; 19. Mais um pouco sobre o projeto visual; 20. A prática leva à perfeição; 21. Técnicas de apresentação; 22. Outros cuidados; 23. Rudimentos do processo ensino-aprendizagem; 24. Jesus, Kardec e a pedagogia espírita; 25. Para não dizer que “só” falei de flores; 26. Regras para uso da tribuna espírita.

As razões do livro do Cristiano se encontram na quarta capa e é de uma logicidade incomparável: “Um dos principais trabalhos da casa espírita, a palestra transmite o conhecimento existente na doutrina. Justamente por isso, ela deve ser entregue a pessoas preparadas doutrinariamente. Na falta de pessoas com este perfil, as casas espíritas acabam recorrendo a voluntários. Estes, se esforçam para realizar a tarefa da melhor forma possível, mas por serem frágeis didaticamente, se repetem muito, sempre apresentando os temas com interpretações pouco elucidativas. Como a questão preocupava Cristiano Portella, ele criou um roteiro de trabalho para a formação de expositores espíritas preparados e firmemente lastreados, prontos para o trabalho de divulgação do espiritismo.”

Seria oportuno por derradeiro que as Federações Estaduais incentivassem a instituição de Mocidades Espíritas Doutrinárias, movimentos capazes de multiplicar propagadores capacitados do kardecismo, favorecendo a emersão de expositores aptos para seguir adiante no desenvolvimento do Espiritismo Mundial, favorecendo trabalhadores que alicercem o pensar kardecista em jovens e adultos, ampliando a emersão de novas práticas criativas, como embasadas no livro Pedagogia Espírita, J. Herculano Pires, São Paulo, Edicel, 1985, editado após desencarnação do notável pensador. Evitando a proliferação de autores espiritualistas desinformados, sem domínio de uma pedagogia do convencimento libertário capaz de satisfazer as necessidades de mais Regeneração e de muita Luz.

O Cristiano Portella revela que São Clemente, pelos anos de 96, em Roma, já proclamava, a necessidade de uma educação cristã, preocupação já sentida por Paulo Apóstolo, em sua 1ª. Carta aos Coríntios: “Minha mensagem e minha proclamação não se formaram de palavras persuasivas de conhecimento, mas constituíram-se em demonstração do poder do Espírito.” (2,4-5).

Que toda Mocidade Espírita apreenda cada vez mais o que escreveu, sob inspiração, Allan Kardec, em janeiro de 1862: “O verdadeiro espírita não é o que crê nas manifestações, mas aquele que aproveita do ensino dado pelos Espíritos.” Que os Centros Espíritas brasileiros saibam favorecer o crescimento dos talentos kardecistas dos amanhãs nacionais, favorecendo a emersão de cenários para novos Chico Xavier, Divaldo Franco, Haroldo Dutra, J. Herculano Pires, Bezerra de Menezes, consolidando os alicerces da nossa muito amada “pátria do Evangelho”.

APONTAMENTOS SILVÍNICOS

1. Todo reinício de semestre serve para se redimensionar ações, atitudes e comportamentos, principalmente às vésperas de eleições significativas como as de outubro que vem. Reestruturar é o verbo mais conjugado, ainda que uma minoria prossiga conjugando-o num modo sempre amanhã, como se o agora jamais fosse necessário.

Recordações mil, espocados os últimos foguetes juninos, espelham compromissos devidos e omissões cometidas, os primeiros sempre ineficazmente cumpridos em prol dos mais desassistidos, fiéis de uma balança chamada segurança coletiva. Releituras de um pretérito infaustamente ainda presente revigoram interiores carcomidos pelas decepções e desalentos cívicos: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas” (Celso Furtado ).

Percebe-se , sem qualquer esforço, que a sociedade civil brasileira, hoje cambaleante entre uma expressividade comodista e uma politização impotente, necessita revigorar-se, como alicerce, para uma nova edificação estrutural, a chicotada do australiano Robert Hughes, consagrado crítico de artes da revista Time, sendo mais que oportuna: “A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real”.

2. Uma parábola judaica exemplifica bem como se pode sair do atual bulício nacional. Servirá para os portadores de anéis e dedos que se encontram tonteados, sem saber por onde começar. Mais ou menos é essa a versão: um homem de classe média, profissional liberal, remediado, temente a Deus mais por covardia que por princípio, saiu para uma caminhada na floresta e nela se perdeu. Vagueou horas sem fio, tentando encontrar a saída para o seu sufoco. Para onde ia, nada encontrava. De repente, deparou-se com um outro ser humano. E perguntou de bate-pronto: “Você pode me mostrar o caminho de volta à cidade, pois tenho que receber uns aluguéis ainda hoje, depositando-os de imediato para render alguns porcentos?”. A resposta do outro o intrigou: “Também estou perdido. Mas podemos juntos ajudar um ao outro”. Diante do abismamento provocado, a conclusão recheada de muita esperança: “Vamos agir em conjunto. Cada um pode dizer ao outro os rumos que já tentou e que não deram certo. Certamente isto nos ajudará a encontrar o caminho correto”.

Juntemos as nossas migalhas de esperança. Todos, sem distinção, desarmadamente. Vejamos os caminhos percorridos e que a ninguém já não mais satisfazem. E verifiquemos quais as forças que ainda nos restam, mormente as que fundeiam a dignidade nacional, para que possamos ingressar em novos amanhãs sem humilhação de espécie alguma.

3. Diante de um quadro nacional violentado por acontecimentos que amorteceram os ânimos cívicos de milhões, vale a pena difundir alguns balizamentos que minimizariam os efeitos funestos das iniciativas de alguns atoleimados. Até as eleições de outubro vindouro, ouviremos promessas mirabolantes, declarações bombásticas, denúncias estapafúrdias, histerismos tridentinos e coisas outras que tais. Tudo para angariar adesões dos descidadanizados.

Ouviremos falar em inflação zero, em redentores esticamentos do São Francisco para matar a sede de milhões de sofridos irmãos nordestinos e na defesa radical da intocabilidade de setores produtivos públicos, daqueles que privilegiam “diferentes”, sempre avessos à salutar fiscalização democrática da sociedade civil. Emergirão esfuziantes defensores dos fracos e dos oprimidos, inúmeros deles oriundos de entidades que “fingem” lutar pela erradicação da miséria e da injustiça social, com isso assegurando polpudas remunerações, a maioria delas advindas da generosidade estrangeira não terceiromundista.

Veremos candidatos com criancinhas de colo, outros cercados de eleitores devidamente apetrechados com quentíssimas “palavras de ordem”. E pretendentes com esposas e filhos em fotografias de sofá grande, domingueiramente paramentados. Os mais piedosos, rezando e pedindo a Deus pela paz e felicidade … deles, nas urnas. Outros divulgando listas de entusiásticas adesões e confraternizações com gente humilde, se possível da classe mais desdentada possível.

Por outro lado, complementando o cenário da disputa eleitoral, o festival de denúncias será antológico, tudo devidamente ampliado pelos meios de comunicação menos independentes. Um parrapapá esculhambatório de fazer inveja aos mais especializados escandalizará gregos e troianos.

Para apimentar o caldeirão eleitoral, também pintarão no pedaço dois personagens por demais conhecidos dos mais experientes: o messias e o anselmo. O primeiro, prometendo mundos e fundos. O segundo desejando ver o circo pegar fogo, para nas chamas se esvair a nossa incipiente trilha democrática, edificada por milhares de abnegados. O primeiro, pau-mandado de graúdos, se encarregando de “sujar” tudo que não se encontram sob os tacos dos seu amos, do lado de lá ninguém prestando. O segundo, sempre aparentando ser o mais revolucionário, o mais gota serena, sem jamais transparecer estar a serviço de retrocessos bestiais. Dois manjadíssimos filhotes bastardos de gorila, desservindo à cidadania brasileira.

O jornalista Gilberto Dimenstein, escreveu o livro COMO NÃO SER ENGANADO NAS ELEIÇÕES, oferecendo “dicas”, Eis algumas, escolhidas ao acaso: 1. Eleição é assunto sério; 2. Devemos manter sempre uma atitude crítica; 3. Só aprende quem tem dúvidas: 4. O fundamental é desconfiar; 5. Quanto mais seguro e preparado, mais claras são as ideias do indivíduo: 6. Tentar aprender com outras pessoas é uma demonstração de inteligência; 7. Apenas os desinformados e os tolos caem no conto da varinha mágica; 8. Mais cedo ou mais tarde os truques mandam a conta; 9. Uma das melhores formas de aprender é errar; 10. Desconfie, mas desconfie mesmo, dos donos da verdade, de gente que imagina saber tudo.

Regras de ouro para quem deseja assegurar a futura governabilidade nacional, sair de um atoleiro social de muitos anos, neutralizar as histerias dos cavilosos e contribuir para a aceleração do país na direção de estruturas menos aviltantes. Sempre com as duas mãos e o sentimento do mundo, como proclamava o poeta.

PS. Hoje, 13, meu pai saudoso faria 100 anos!! Mas na Casa do Pai ele está a nos proteger sempre!!

RECORDANDO CHICO XAVIER

Tive a oportunidade de ver e aplaudir Chico Xavier na PUC-RJ, em 1973, quando fazia minha pós-graduação na então Cidade Maravilhosa. E mesmo aderindo à Doutrina Espírita muitos anos depois, jamais deixei de acompanhar as andanças do excepcional médium mineiro, tornando-me aferrado admirador de suas escritas, daqui e d’além.

A última leitura sobre o médium mineiro foi Trinta Anos com Chico Xavier, de Clóvis Tavares (1915-1984), São Paulo, IDE, 7ª. edição, 2008, 288 páginas. E é o próprio autor que revela, na Introdução, a razão maior de não biografar o médium mineiro: “Há muitos anos, numa de minhas habituais estadias em Pedro Leopoldo, onde, então, nosso Chico Xavier residia ainda, manifestei ao distinto amigo Dr. Rômulo Joviano, seu chefe de serviço e diretor da Fazenda Modelo, enquanto percorríamos os arredores da Inspetoria Regional, meu desejo de coletar dados, alguns aliás já reunidos, a fim de organizar um pequeno estudo sobre a vida e obra mediúnica do venerando missionário. Nossa conversa, naturalmente, se estendeu ao conhecimento de Chico. Foi, então, que percebi, numa nova dimensão, a legítima humildade de sua alma verdadeiramente cristã, com que delicadeza, recordo, o Chico me fez prometer que não mais pensaria nessa empresa, assinalando, com palavras de tocante modéstia, a sua desvalia espiritual, ao mesmo tempo, que indicava os nossos Benfeitores da Espiritualidade Superior como os únicos portadores de merecimento pelo trabalho dos seus livros psicografados. Multiplicou considerações sobre a ausência de méritos pessoais seus e ilustrou, comovidamente, a bondade, a sabedoria, o devotamento de Emmanuel e dos seus companheiros de Vida Maior.”

O Clóvis Tavares definia Chico como “uma vela que ardia, alumiando a todos e se consumindo a si mesma, em sublime oferenda de amor e sacrifício. Ele mesmo, todavia, não percebe isso, nem dá tento dessa verdadeira e contínua imolação, a lembrar o verso de Walt Whitman: ‘Quando dou, dou-me a mim mesmo’”. E o próprio Chico ratificava sua dedicação, afirmando, sempre sorridente, que nos serviços atinentes aos campos da Doutrina Espírita, não havia lugar para “emanuelismo”, nem “chiquismo”, nem “clovismo”, mas apenas para o Espiritismo, bem sentido e sinceramente aplicado. E concluía sempre: “Para quê, meu bom amigo, falar acerca de um graveto que se confunde com o pó?” Finalmente, em 5 de dezembro de 1964, em Uberaba, Chico Xavier concordou com um livro sobre suas iniciativas, “desde que se trate de uma seleção de fatos, de um depoimento em favor da nossa Doutrina!”

Após concluir os exames vestibulares no Rio de Janeiro, 1932, Clóvis Tavares passa alguns dias em Campos, quando se depara, numa livraria o livro “Parnaso de Além Túmulo”, o primeiro livro psicografado do Chico Xavier. Livro não adquirido diante dos apertos financeiros de estudante pobre. Somente em 1935, Tavares lia os primeiros versos do “Parnaso”, transcritos numa muito modesta publicação doutrinária do Grupo Espírita João Batista, à época sediado na Avenida Sete de Setembro.

Até então, Tavares ainda não tinha conhecido Chico Xavier e se esmagava diante do mistério da morte, principalmente após perder sua noiva, considerada “o anjo tutelar da sua existência”. E se desesperava frequentemente, pedindo aos céus auxílio para sua incredulidade, relembrando vez por outra, a cura de um menino possesso feita pelo Galileu, conforme narrado no Evangelho de Marcos 9,23-24. Até que um dia lhe presentearam um modesto folheto sobre Espiritismo, onde numa das páginas estampava uma quadra de Guerra Junqueiro publicada no “Parnaso”. A Providência Divina tinha lhe socorrido, posto que Guerra Junqueiro era um dos seus poetas prediletos, dado o sentido libertário dos seus versos, revivido para ele na psicografia de Chico Xavier, um ilustre desconhecido até então.

O primeiro livro psicografado do Chico Xavier, ratificaria para Clovis Tavares o pensar do Homão da Galileia “o vento sopra onde quer e ouves sua voz”, a Misericórdia do Alto chamando-o à Vida, afastando-o das sufocações das dúvidas e as angústias desesperadoras das incertezas. Segundo Clóvis, “foi a certeza da Imortalidade, a visão íntima, intuitiva, mas experimental, pela leitura das poesias do ‘Parnaso’, de que a vida não tem ponto final no silencia dos túmulos. De que a morte, como já sentiam os velhos romanos, era realmente a porta da Vida”.

Recomendando a leitura das recordações de Chico Xavier elaboradas pelo Clóvis Tavares, aproveito a oportunidade para incentivar aos ainda desatentos de uma racionalidade cristã contida na Doutrina Espírita a ler o primeiro livro psicografado por Chico Xavier, Parnaso de Além Túmulo: poesias mediúnicas, 19ª. edição, Brasília, FEB, 2016, 737 páginas, contendo mais de 200 poemas editados por 56 poetas brasileiros e portugueses, um magnífico manual de mensagens psicografadas por um dos maiores e mais respeitados divulgadores da Doutrina Espírita do mundo, à época um jovem de apenas 22 anos. Uma obra que me foi presenteada um dia pela amada Sissa com a seguinte dedicatória: “Para Benhê, uma obra para consolidar seus estudos na doutrina espírita. Com amor.” Um livro que me transformou num leitor assíduo das reflexões kardecistas, sempre na condição de um muito humilde aprendiz de tudo.

PS. A abertura do 13º SIMESPE, sexta-feira, no Centro de Convenções foi grandiosa. E a mensagem do Divaldo Franco , uma vez mais, encantou. Um médium muito arretado de ótimo!!! Programação exclente

ESCRITOS DE UM NOTÁVEL

Confesso, sem qualquer interesse de propagandear, que gostaria muitíssimo de encompridar minhas horas de leitura, passando por cima de algumas obrigações profissionais com instituições que me acompanham há muitos anos. Daí o dever de escolher bem as páginas que serão lidas, subdivididas em “de lazer”, “de aprimoramento técnico”, “de ampliação cognitiva da Doutrina Espírita” e “de atualizações conjunturais”, quase sempre de duração correlata às minhas necessidades momentâneas.

Outro dia, pouco antes das festividades juninas acontecidas na propriedade de uma prima muito querida, a Trudinha, obrigatoriedade de presença anual, dada ser um evento arretadamente ótimo, com muito forró ao vivo, papos descontraídos, muito milho cozido e uns “guaranás” diferenciados, iniciei a leitura de um livro que me foi enviado de Belo Horizonte, MG, de leitura sedutora por derradeiro. Estudos e crônicas, Hermínio C. Miranda (1920-2013), Brasília, editora FEB, 2013, 378 p. Um livro de contracapa sedutora: “A partir de encantadoras crônicas, de leitura fácil e envolvente, Hermínio C. Miranda aborda passagens evangélicas, expõe a confirmação dos princípios básicos nas doces palavras do Mestre Jesus e tece sabiamente temas como reencarnação, regressão da memória, terapia do futuro, relacionamento, mediunidade, sonhos proféticos, dramas e outros.”

O livro do Hermínio é dividido em oito partes: 1. Doutrina Espírita; 2. Evangelho; 3. A maldição dos faraós; 4. Mediunidade; 5. Paulo de Tarso; 6. Reencarnação; 7. Relacionamento; e 8.Regressão de memória.

Também merecedora de muitos aplauso, ainda de Hermínio C. Miranda, a base da parte 4 – Mediunidade, do livro citado acima, o estudo teórico Diversidade dos Carismas: teoria e prática da mediunidade, São Paulo, SP, Lachâtre, 2006, 508 p., constituído de três módulos distintos: um destinado a documentar problemas básicos enfrentados pelos médiuns, o segundo analisa aspectos mais relacionados com o animismo, e o terceiro se prende a mediunidade em si, seus aspectos mais fundamentais. Na Introdução, o próprio Hermínio estabelece as finalidades do seu livro: “Se as observações e experiências contidas nestas páginas forem de utilidade a alguém, sentir-me-ei encorajado a me apresentar, um dia, aos meus queridos mentores como aquele obreiro – de que falou Paulo a Timóteo (II Timóteo 2,15) – que ‘não tem de que se envergonhar’ do trabalho realizado.”

Por fim, insatisfeito com doutrinas filosóficas, científicas e religiosas que propunham resposta alguns dos seus questionamentos, Hermínio C. Miranda resolveu explorar o território ideológico do espiritismo a partir de um roteiro solicitado por amigo de longa data. E publicou o livro Alquimia da Mente, Bragança Paulista – SP, Editora 3 de outubro, 2010, 311 p., temas densamente pensados, onde ele propõe um honesto conchavo com seus leitores. No livro, HCM pesquisa o psiquismo na matéria, estuda cérebro e mente, consciente e inconsciente, alquimia e gnose, apresentando reflexões e propostas conclusivas diante da questão ser e estar, buscando estabelecer significado para “intelectualizar a matéria” (Kardec), “pensar a matéria” (Bergson) e “buscar o psiquismo através da forma” (Chardin). E ressalta, em suas linhas finais: “Não desejo fazer pregação – embora nada tenha contra isso, pelo contrário. Este livro não é um apelo, um libelo e nem uma advertência – é apenas uma dissertação linear sobre a alienação em que vivemos, por estamos divididos não com relação aos outros, mas dentro de nós mesmos. O recado, certamente, tardio é também incômodo e, sem dúvida, quixotesco. Sonho com a expectativa de que possa servir a um ou outro leitor ou leitora mais atentos. Como dizia um verso da cançoneta de South Pacific, se a gente não sonha, como é que os nossos sonhos vão se realizar? Quando é que a gente vai começar a viver numa comunidade consciente de que apenas estamos num corpo físico, mas que somos seres espirituais imortais e com o passaporte cósmico carimbado, desde as nossas origens, para os elevados patamares da perfeição?”

Os estudos de Miranda também incluíram um roteiro pioneiro intitulado A memória e o tempo, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2013, 328 p., já em 8ª. edição àquela época. No livro, ele “utiliza a técnica da regressão de memória pelo magnetismo como instrumento de exploração dos arquivos indeléveis da mente, ali depositados desde remotas experiências.” No suas experiências, Miranda reavalia as pioneiras experiências de Albert de Rochas, reexaminando ainda a doutrina freudiana, diante dos conceitos de reencarnação e sobrevivência. Uma leitura pra lá de indispensável para quem tem interesse em esmiuçar os escaninhos da mente humana, através da natureza da psique. Depois de uma Introdução, o livro é composto de oito partes: 1. As estruturas, 2. A dinâmica; 3.Visão retrospectiva; 4. Albert de Rochas e suas experimentações; 5. Freud; 6. Experiências e observações pessoais; 7. A reencarnação como instrumento terapêutico; 8. Reflexões de um leigo. Além de um posfácio, onde são explicitadas novas considerações e conotações éticas, como doutrinadores e pontos de maturação cármica, além de pontos fundamentais sobre teoria e culpabilidade.

Decididamente, estudos, pesquisas e crônicas de um talento brasileiro estupendamente ótimo!!

ASSUNTOS CONVERGENTES

PRIMEIRO

Acontecerá no próximo mês de agosto, 3 a 5, o 13º SIMESPE – Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco, que acontecerá no Teatro Guararapes do Centro de Convenções de Pernambuco, sob tema Espiritismo – Da Ciência à Religião, da Filosofia aos Desafios Atuais da Humanidade. Com todos os ingressos já vendidos, dada a qualidade dos seus palestrantes, inclusive o atualmente maior médium brasileiro, Divaldo Franco.

Na exposição de vendas de livros do Simespe, estará presente o mais recente do médium Divaldo Franco, intitulado Luz nas Trevas, Salvador, LEAL, 2018, 200 p., psicografado do Espírito Joana de Ângelis, que também efetiva a Apresentação, de onde extraímos os seguintes trechos:

“Desde o início da Era Industrial, as criaturas humanas pensaram que a conquista tecnológica e a substituição da mulher e do homem pelas máquinas dar-lhes-iam dignidade, ao mesmo tempo que lhes ensejaria mais tempo para a cultura, o repouso, a convivência social.”

“Apesar das indiscutíveis e fantásticas aquisições, têm sido inevitáveis as agressões à Natureza, o grave problema do lixo nuclear, a poluição da atmosfera, dos rios e dos mares, o desmatamento perverso, o crescente aniquilamento de espécies de vida e as guerras insanas que atormentam a Humanidade.”

“O homem continua ‘lobo do homem’, no seu desvanecimento incontrolado, e os fantasmas do desespero ameaçam países de miséria irrecuperável, enquanto outros navegam nos mares do desperdício e da extravagância.”

“As religiões, por sua vez, em grande número, para estarem de bem com as massas aturdidas, substituem o Reino dos Céus pelos lucros da Terra, cultivam e estimulam o desplante de negociar com Deus, em espetáculos ridículos de fé orquestrada pela presunção e disparates típicos da sociedade em decadência.”

“Nosso modesto livro é um grito, um apelo à penetração da luz na escuridão das almas e do ambiente, objetivando contribuir com pequenas propostas psicoterapêuticas, oferecidas pelo Espiritismo, na interpretação do Evangelho de Jesus, o Homem-Luz, que ainda confia em nós e nos ama.”

Decididamente, o livro acima é uma texto-convite, onde somos convocados à auto iluminação e ao auto encontro através de procedimentos psicoterápicos embasados nos ensinamentos do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador e da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec.

SEGUNDO

De uns tempos para cá associado sou do GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania, uma organização sem fins lucrativos, sediada em Divinópolis, Minas Gerais, que tem como visão institucional “promover o desenvolvimento do Ser em sua plenitude, considerando todas suas dimensões, direitos e deveres, contribuindo para a harmonia das relações consigo mesmo, com o outro e com a natureza”. E seu selo editorial Ethos Editora lançou, em 2014 e 2017, em dois volumes, A Ética de Jesus, onde se analisa, respeitando-se o nível de apreendência de cada um, os ensinamentos do Mestre Galileu esclarecidos pela Doutrina dos Espíritos, onde algumas polêmicas ainda persistem até os tempos de agora, muito embora todas elas não sejam mais relevantes, interessando apenas aos especialistas em quase coisa alguma.

Os balizamentos do Mestre Jesus, devidamente esclarecidos pelos Doutrinadores apontam para a existência de um equilíbrio notável entre as duas realidades da vida imortal, a encarnada e a desencarnada. Os versículos foram estudados pelos integrantes do GEET, observando uma sequência temática e cronológica dos evangelhos. Cada capítulo dos volumes editados constitui-se de três partes: a narrativa evangélica do texto, resumo dos comentários e reflexões efetivados durante as reuniões semanais do Grupo, e a mensagem de um ou mais Espíritos , psicofonicamente identificados como “amigo espiritual”. Tais partes tornam os volumes acima únicos e peculiares em língua portuguesa, dada sua característica sábia e transcendental que fermenta as reflexões efetivadas.

Os dois volumes me foram citados pela amiga-irmã Ruth Cardoso, uma das responsáveis pela divulgação editorial do Clube do Livro da Ethos Editora (37-3222-3163, av. 21 de abril 122, Centro Divinópolis/MG, CEP 35.500-100, e-mail comercial@geec.org.br) .

Para atender a curiosidade de muitos, sobre os objetivos que levaram o Grupo a concretizar um projeto de envergadura pioneira, ressalte-se uma única alternativa: a inspiração provocada pelos orientadores espirituais, fomentadores das energias necessárias para a concretização de uma iniciativa muito aplaudida por milhares, Brasil afora.

Na Apresentação está ressaltado: “Desejamos que este livro possa mostrar os ensinamentos do Mestre em sua essência, o cerne das lições, contextualizado, o que Ele deseja transmitir aos homens: os valores renovados e atualíssimos do ‘Reino de Deus’ que ‘está dentro de nós’. Em síntese: comover o amigo leitor, da mesma forma que fomos a refletir sobre o processo da nossa evolução espiritual. Nosso desejo é que esta obra alcance os seus objetivos e que Jesus abençoe as nossas intenções.”

Inicialmente, o livro primeiro traz uma Introdução, onde algumas palavras são empregadas, caracterizando o estado dos costumes e da sociedade judia daquela época, as quais foram mal interpretadas no decorrer dos séculos gerando incertezas e atordoamentos. As palavras que merecem uma explicação são as seguintes: samaritanos, nazarenos, publicanos, peageiros, fariseus, escribas, sinagoga, saduceus, essênios e terapeutas. Ressaltemos algumas delas, a título de exemplo:

Samaritanos – Após cisma das dez tribos, Samaria tornou-se a capital do reino dissidente. Era uma das quatro divisões da Palestina, tendo sido embelezada por Herodes, denominado o Grande. Eles sempre estiveram em guerra com os reis de Judá, os dois povos tendo entre si uma aversão profunda. Os samaritanos somente admitiam o Pentateuco. Para os judeus ortodoxos, eram considerados heréticos. Eram os protestantes da época e só se casavam entre si.

Nazarenos – Judeus que faziam votos por toda vida. Adotando a castidade e a abstinência de álcool, não cortando cabelos. Sansão, Samuel e João Batista eram nazarenos. Mais tarde deram esse nome aos primeiros cristãos, por alusão a Jesus de Nazaré.

As demais identificações apontam para uma sociedade pluralista à época do Rabi da Galileia, com a sua Mensagem que revolucionou o planeta.

Numa conjuntura brasileira de incontáveis bandalheiras, mil e uma hipocrisias e uma sociedade que pouco se respeita, vale a pena ler os livros acima, atentando-se para uma conversão interna na direção da Luz do Amor.

SOBRE JOÃO SILVINO DA CONCEIÇÃO

Para satisfazer a curiosidade de muitos, inclusive ex-colegas de universidade, torno pública mais uma vez a identificação do João Silvino da Conceição, este amigão de muitas décadas, companheiro inseparável de danações, reflexões, gozações e coisas que tais, cuja alma é irmã gêmea da minha. O JSC é nascido no interior do Rio Grande do Norte, em Currais Novos. Semialfabetizado, três casamentos, oito filhos, seis vivos e dois anjinhos, o Silvino demonstra ser possuidor de uma energia incomum, uma vontade férrea de ser cada vez mais nordestinamente brasileiro. Suas histórias, não raro, são reproduzidas em ambiente onde prepondera o diálogo consciente, com muita frequência regado a uma imensa rodada de “refrigerantes” pra lá de glaciais. As garrafas sempre acompanhadas de tacos de queijo de coalho na brasa e farofa de jerimum com carne de sol, num protocolo de deixar um gosto de quero-mais da gota serena em qualquer mortal pecador como a gente.

Tricolor quatro costados, João é pernambucaníssimo quando alguém daqui joga com uma equipe de fora. Em dia de domingo, sempre perambula pelos estádios de futebol, acompanhado da Dona Conceição, sua companheira de um bocado de tempo, sete arrobas bem distribuídas e com pouca elasticidade mamária, sessentona experiente, mente livre e língua sempre solta, nenhuma flacidez abdominal, muitos quilômetros bem rodados, serenidade espiritual lindona, sem as louracidades das pessoas artificiais que só raciocinam por onde não deveriam, sempre da cintura para baixo.

As amizades do Silvino são de uma fidelidade canina: Fininha, 120 quilos, tia da sua mãe, mexeriqueira de primeira grandeza, ouvidos e boca maiores que o bom-senso; Zefinha, arrumadeira de bom calibre, criada junto com o Silvino, tendo incentivado ele nas primeiras manobras homem-mulher, na garagem sem-carro que ficava no fundo do terreno residencial; Faguinho Silva, primo em grau bem distante, especialista em corar frade de pedra com historietas apimentadas, dado seu furor anti-puritanismo; Jean Louis, inteligência gerencial gota serena em corpo atlético ainda nos conformes, marido da Leninha, uma prestimosidade cristã pra correntista bancário algum botar defeito; Dodora, toda cheínha, zelosa especialista em educação de jovens e adultos, filha da Zima, uma sessentona que é virada num molho de coentro, dançarina, junina, carnavalesca, riso largo, sempre mandando à merda as fuxicarias do derredor; e Zulmirinha, morenona de cabelo bem espichado, irmã da Dona Conceição, mulher do Silvino, seios ainda em posição de sentido, apesar dos quatro sugadores nascidos, hoje duas parelhas de nordestinos de fazer gosto às mais oferecidas. Nunca esquecendo o Faustino boa-praça, olhos sempre antenados, vocação kardecista sem mesuras nem fricotagens. Nem a Sandrinha, com seus olhinhos fingidamente japoneses.

Com o João Silvino, usufruo um bate-papo semanal fraternal, nos quais as suas irritações travestidas de quase hercúlea resistência aos medíocres foram sendo gradativamente desativadas, substituídas, bem devagarzinho, por uma crescente confiança nos amanhãs de todos nós, hoje solidificada numa consistente convivialidade, enxotados para longe os aperreios do cotidiano e as cavilações puritanosas dos sósias e sócios do divino.

Uma conquista memorável, o consentimento do João Silvino da Conceição para acesso a um monte de cadernos de papel pautado de sua propriedade. As suas primeiras anotações datam de setembro de 1955, às vésperas das eleições presidenciais, quando ele ainda se deliciava na sua primeira lua-de-mel, nas Termas Salgadinho, uma temporada presenteada por um amigo de seu pai, agricultor de médio porte. As últimas notas são deste ano, os erros ortográficos e os de concordância, hoje, bem mais atenuados pelo exercício de um escrever quase diário.

Sistematizei alguns cadernos do João sem perda alguma do conteúdo. A intenção foi apenas, com uma certa disciplina arrumadeira, a de proporcionar aos amigos dele alguns instantes para um pensar recheado de muita nordestinidade, mesclando assuntos os mais diferenciados, numa conjuntura em que o sentimento regionalista não pode ficar relegado a planos secundários, nem a fúrias globalizantes.

De muita franqueza, sem os mas-mas dos fingidos bundas moles de olhinhos virados repletos de “ai-Jesus”, Silvino botou o dedo na ferida, recentemente: “Não adianta correr atrás dos pixotes que vendem papelotes estupefacientes disso ou daquilo. Vamos rasgar a fantasia da hipocrisia: em muitos lugares granfinos, é hoje chiquérrimo servir, em bandejas aquecidas, os pozinhos e os canudinhos indispensáveis para deixar animadão o ambiente, todo mundo ficando numa boa, alegre e serelepe, à merda a moral, os bons costumes, o fino trato e os gestos nobilitantes”. Por causa de dissabores familiares, teve até grandão metido a religioso que ficou com “cara de pum”, como dizia a Trude, prima muito amada, sobrinha querida dos meus eternizados pais.

Para os que se postam como “nunca-errados”, o Silvino tem opinião de bate-pronto: “Não sei respeitar as pessoas que não sabem reconhecer seus erros. São covardes, porta-estandartes de uma frouxidão que não é nordestina nem brasileira. Aliás, nem é digna da raça humana“.

Helderista de carteirinha, o Silvino não tolera ver os “imitadores” do eternizado Dom, aqueles que buscam aparentar ser, jamais efetivamente sendo. E cita sempre o saudoso arcebispo, para consolidar sua opinião sobre os que não são: “É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática“.

Intencionalmente, as anotações coligidas nos cadernos do João não obedecem a qualquer ordem cronológica. Mesclando apontamentos de épocas diferenciadas, procura-se, através de procedimentos integralmente não-científicos, manter a atenção dos seus escritos, evitando enfados desnecessários e abandonos precipitados.

A lição maior do João Silvino da Conceição, contudo, é para todos, pernambucanos e pernambucanizados que nem ele: que nós, imbuídos do mais acentuado instinto de soberania nacional, saibamos fazer a hora pernambucana, transformando propostas formuladas em ações concretas, percebendo que a História se edifica através de amplos procedimentos participativos, que exigem compromissos, desafios estruturadores e conscientizações comunitárias, a ninguém se permitindo o distanciamento das suas indispensáveis funções de sujeito.

POR AMOR A PERNAMBUCO (*)

Com muito orgulho torno-me, neste princípio de noite setembrina, Cidadão de Pernambuco. Agradeço de coração à Casa de Joaquim Nabuco o título concedido, aprovando iniciativa do ex-deputado estadual Djalma Paes, admiração pessoal de muitos anos, hoje atuante Secretário de Planejamento da Prefeitura da Cidade do Recife, proposta representada, nesta legislatura, pelo deputado Betinho Gomes, liderança política no Cabo de Santo Agostinho, onde Vicente Pinzon, num 26 de janeiro de 1500, conheceu terra brasileira, segundo ele “a terra de mais luz da Terra”, batizada de Santa Maria de la Consolacion.

Sou, a partir de hoje, também Leão do Norte, sem jamais menosprezar os rincões potiguares, Natal, onde nasci em tempos de Segunda Guerra Mundial, pai convocado, cidade às escuras, mãe atordoada por mil apreensões.

D’ora por diante, cada vez mais de Pernambuco, continuarei honrando hino, bandeira e história de um povo, admirando Joaquim Nabuco e Mestre Vitalino, Paulo Cavancanti e Frei Caneca, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, José Mariano e Dona Santa, Mauro Mota e Carlos Pena Filho, Nelson Ferreira e Capiba, Barbosa Lima Sobrinho e Gregório Bezerra, Paulo Freire e as mulheres de Tejucupapo, sempre presentes, nunca olvidados por seus ideários políticos, exaltações apaixonadas, bravuras libertárias, estudos sociais, carnavais, resistências e muita poesia. Todos eles dotados de extremado amor à gente pernambucana e à sua rebelde caminhada histórica, onde “corre o sangue de heróis rubro veio, Que há de sempre o valor traduzir”, em terras que são “fonte da vida e da história”, de um “povo coberto de glória, o primeiro, talvez, do porvir”.

Agradecendo a Cidadania Pernambucana, comprometo-me perante esta Casa, ícone maior do cenário político nordestino, a não me descuidar do desenvolvimento cultural de Pernambuco, divulgando, além do Recife, com seus rios e pontes, a feira de Caruaru, as carrancas de Petrolina, as rendas de Passira e de Pesqueira, as igrejas e os mosteiros de Olinda, o Circuito do Frio, o Forte de Itamaracá, o Maracatu de Nazaré da Mata, o artesanato de Bezerros, entre tantos outros exemplos de nossa gigantesca multiculturalidade, além do frevo Vassourinhas, de um clube carnavalesco por quem sou apaixonado.

Com a Cidadania Pernambucana, continuarei a renegar visões cavilosamente parciais e incompletas, por não assimilarem na devida conta os fatos e os feitos dos anos mais recentes, encarecendo a devida vênia para enaltecer, aqui e agora, o talento pernambucano na pessoa da economista Tânia Bacelar de Araújo, competência técnica e visão política a serviço de um Nordeste de gigantescas desigualdades econômicas e sociais.

Reproduzo, aqui, a reflexão de Charles Handy, um irlandês de infância debilitada como a dos pernambucanos menos afortunados, que soube, sem os coitadismos dos abobados, proclamar com propriedade: “Descobrir a sua própria inteligência é uma coisa. Aplicá-la é outra. Precisamos ser capazes de reconhecer e identificar os problemas e as oportunidades. Precisamos ser capazes de nos organizar e de organizar também as outras pessoas para que façam algo e precisamos ser capazes de nos sentar e refletir sobre o que tem acontecido para que possamos fazer tudo melhor da próxima vez“.

Estejam certos, senhores deputados, minha muito querida Melba, familiares e amigos aqui presentes, que continuarei a travar o bom combate, para a concretização dos sonhos que refletem a esperança de triunfo dos que lutam por Justiça e Paz.

Saio desta solenidade com o pensar voltado, e bem comprometido, com todos aqueles que rejeitam o Consenso de Washington, também combatendo o desprestígio da atividade política e a ditadura da política econômica. E nunca olvidando, como adepto de uma não-violência ativa, da proclamação feita pelo ex-presidente Salvador Allende, em sua carta de despedida ao povo chileno, poucas horas antes de ser assassinado pelos partidários da escuridão: “Em nome dos mais sagrados interesses do povo, em nome da pátria, tenham fé. A História não se detém nem com a repressão nem com o crime. Esta é uma etapa que será superada. Este é um momento duro e difícil. É possível que nos abatam, mas o amanhã será do povo, será dos trabalhadores. A humanidade avança para a conquista de uma vida melhor”.

Por fim, com a alma repleta de alegrias e saudades, reverencio um poeta Leão do Norte, João Cabral de Mello Neto, propositadamente não citado na relação anterior. No autor de Vida e Morte Severina, um auto de Natal que tem contribuído para melhor compreensão da realidade pernambucana, me inspiro nas palavras finais deste agradecimento, buscando segui-lo no ritmo dos seus versos:

Um grande poeta, o João Cabral de Mello Neto,
Que ama os Severinos de Maria,
jamais esquecendo o seu Recife,
o Recife dos rios e das pontes,
também Recife dos mangues e dos alagados,
dos caranguejos capturados
pelos meninos de rua, todo santo dia
que mamando leite de lama,
também são Severinos de Maria.

Severino de Maria
morador das periferias
da Mata até o Sertão,
que queria voar mais livre
e entender que liberdade
não é apenas uma calça comum e desbotada.

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