O GAÚCHO E O MATUTO

COMÍCIO DE BECO ESTREITO

COISAS PRA SE DIZER BENZÓ DEUS

PAISAGEM DE INTERIOR

CALÇA BRANCA

O MATUTO E O BARBEIRO

*LUTO*

SENTIMENTO COR DE ANUM

PELA MORTE DO MUSEU NACIONAL DO RIO DE JANEIRO

Querendo apenas tentar
Rezar sem dizer amém:

Foi-se embora a memória
De um Brasil inda rapaz.
Daqui a pouco é futuro
E o tempo não volta mais.

Foto do colunista

COMÍCIO DE BECO ESTREITO

PANO DE LEITE

PAIXÃO DE ATLÂNTICO NA BEIRA DO MAR

ESCUTAÇÃO DE ‘MEI’ DE FEIRA

MANÉ CABELIM E A INTERNET

AGRURAS DA LATA D’ÁGUA

CAMINHÃO DE MUDANÇA

A PROCISSÃO DA BOIADA

Entre Rui Barbosa e Os Sertões de Euclides

Tô matutando o porquê
Da força que tem o nada
Mode falar do estalo
Do espanto e do estouro
De dentro do passadouro
Da procissão da boiada.

Ao invés de rezas rezes
Gadaria arrebanhada
Tropel de cascos, mugidos
De mansidão ritmada.

Ditongos ois! De um vaqueiro
Conduzidor e freteiro
Chiqueirador da manada.

Chifre de cabeça acima
Pelanca pescoço abaixo
Rabos de abana mosca
Tilintar de chocalhada…

Revelação de cadência
Retrato da paciência
É a procissão da boiada.

Eis que, ao revés do sossego,
Um trisco de não sei quê
Talvez um voo diminuto
De um inocente tizio…

…Assusta o passo da rês
Que chispa desbandeirada
Abala o manso dos bois
E arrasta toda boiada.

Daí pra frente é arrasto
Tropeço de déu em déu
É uma torre de babel
Disparando ababelada:

Atropelo, desadoro
Carreira desenfreada
Desvario, agitação
Boi fugido de roldão
Boi perdido em bololô
Boi avoado em tumulto
Vaqueiro bradando ôôôô!!!!!

Mas nada desalvoroça
O abalo instigador.

…Eis que o fôlego das ventas,
De exaustão redobrada,
Acalma o povão dos bois
Alenta toda a boiada
E a procissão segue lorde
Como se fosse uma ordem
Da força hercúlea do nada.

BOLERO DE IZABEL

GATO & CACHORRO

Nem sequer era pantera
Era a verdadeira gata
Bichanidade gatesca.

Se vinha vindo, gatinha
Se ia indo, gatona
Se dormia, era bichana
Se falava, era Mimi
Se caçava, não miava
Se contente, ronronava
Pra lá pra cá desfilava
No muro de passarela
Com habilidade miau.

Pra ela, telhado de louça
De gelo puro ou cristal
E um tobogã de aventuras
Pra escorregar das alturas
E cair no meu quintal.

Ass. Pluto
puto da existência

COMO RAPAR UM CALDEIRÃO DE CANJICA NO DESMANCHADO DA TARDE DE UM 23 DE SÃO JOÃO

Primeiro, Dona Maria,
Largar de tanto vexame
E, no arrepio do vento,
Deixar o rico alimento
No caldeirão esfriar.

Cuidar em limpar a casa
Que se deu pra canjicada.
Depois da casa bem limpa,
Varrida e passada um pano,
Encobrir-se em bãe de cuia:

– Água quebrada a frieza…

…E sair de macieza
Só brilhando a sabonete,
Pra não ofuscar o lume
De tanta canjicação.

Reservar para audição
Somente um ruidozinho
De bomba estalo-bebé
De um traque, um busca-pé
E o pipoco festejado
De um foguetão distante.

Sentar num banco afundado
Com toda casa em silêncio
E abraçar, de caçoada,
O caldeirão da canjica
Assim feito um zabumbeiro
Acalentando um baião.

Com a colher de pau na mão,
No oco do caldeirão,
Remar de força junina
E mesmo sem etiqueta
Lamber dedão de chupeta
E começar a função:

Rapar somente a beirada
E um pouquinho do cascão
E convidar a plateia:
Cinco filho em rafameia
Pra seção de pré-estreia
De uma festa de São João.

COMO RETRATAR A BONDADE DE UM JUMENTO

Na casca de Jacques Prévert, poeta francês (1900 – 1977)

Primeiro, pintar na tela, agrinaldando a moldura,
Um cerca de arame com saia de xiquexique
Um trecho de pau a pique e uma cancela escancarada.

Pintar um chão nacional ou mesmo desnacional
Mas que seja um chão de paz
E nunca um chão ofendido, pisoteado de guerra.

Depois, tirando defunto,
Retratar fatos e coisas vividas e inanimadas
Desde sempre transportadas nas cacundas dos jumentos:

Cangalha, lastro, carroça, arado de plantação
Tijolo, barro, arame, lenha, água, pedra e cal
Toda nação de safra de produção sertaneja
Traste minguado, vaqueiro
Matuto passarinheiro, noivos, menino, mulher
Vigário, bispo, Jesus…

Depois, recostar o quadro no tronco dum juazeiro
Daqueles bem prazenteiros
Vizinho a qualquer basculho.

Daí a pouco, a um nada
Ou pouco mais que um pouquinho
Chega, a passo de cágado, nosso esperado burrinho.

Quando ele entrar no cercado,
Deixar soprar na cancela um ventinho “arriba a saia”,
E a cancela vai de vela no rumo do batedor: Pááá!
Depois do jumento preso, se o cabra for bom pintor
Tem que mostrar seu valor desconstruindo o cercado:
Despintar, uma por uma, a rigidez das estacas
Todas as pautas de arames
Apagar todos os fardos que lhe pesaram no lombo
E acrescentar ao desenho algo de simples e belo:

Uns rebentos de capim
Mutirões de cacarejos
Voejos de passarim
E uma terra fértil e preta
Feito chão de rezadeira.

Pra cena ficar mais rica
Transparente e verdadeira,
Bem lá no fundo do quadro,
Pintar um pouco de acaso:

Uma manhã de sol morno
Uma aconchegança brejeira
E um balde de leite fresco
Cheirando à vaca por dentro
Mugindo um sopro entoado.

Com o panorama pintado
Dar, em forma de assobio,
Um siu! De chamar “Roxim”
E esperar o resultado.

Se o jumento erguer orelhas
E fitar você de lado
É sinal que o quadro é bom
E pode ser assinado.

Basta arrancar levemente
De ligeiro amaciado
Três cabelinhos de rabo
E rabiscar de renome
Seu nome e seu sobrenome
Bem no cantinho do quadro.

O MATUTO E O CORONÉ

MARIA BONITA

Maria Bonita
Bonita Maria
De laço de fita.

Escrita de embelezar.

Moça de cor azeitonada
Gestos cáqui
Chapéu valente…
Bem dizer fez Virgulino
Levitar em munição.

Sem a mínima ligança
Pras balas ferinas
De boas avenças
Entrou na questão.

De água em moringa
Deu seiva ao cangaço
Que nem sorveteiro
De grito em morango:

– Sorvete!!!!!!!!!!!

E ganhou alvará
Para se arvorar
No bravo Sertão.

E de Royal Briar
Banhou-se de cheiro
De alma em paixão.

E de rifle e punhal
É flor principal
Do amor fortidão.

E de léguas beiçais
Embrenhou-se na história
De toda a nação.

OBRA INACABADA DE UMA COLHER DE PEDREIRO

Na vida sou mão de ferro
Mas também sei alisar
Taliquá um joão-de-barro
Que faz do bico a destreza
De tirar da natureza
O mais puro edificar.
Eu enxergo em minha mão
Os cinco andares de um prédio:
O mínimo, anular e médio
Fura-bolo e polegar.

Empurro a mão na areia
Faço pirão de cimento
Dou caratê em tijolo
Faço base, assentamento,
Ando no alinhamento,
Na busca de endireitar,
Reboco de lá pra cá
Chapisco em meia colher
E acredite se quiser
Me divirto em chapiscar.

Me atrepo nos andaime
Arriscoso desabar
E no fim de cada dia
Rezo três alvenarias
Pra sorte me acompanhar.
E nessa luta de fé,
Assumo em voz de colher:
No ramo da construção
Minha única frustração
É não conseguir pintar…

Mas, calma, meus pessuá!
Eu vou dizer pra vocês:
Se tiver tinta xadrez
E um piso pra terminar
Eu meto a mão na cumbuca
Remexo o tal tingimento
E cubro o chão de cimento
Com o mais vermelho encarnado,
E deixo semiacabado
Só carecendo encerar.

AGRURAS DA LATA D’ÁGUA

Este colunista e o Quinteto da Paraíba:

VELHO OESTE NOS ARES

Fui pros Estado Zunidos
E ali consultei o Texas.
Procurava um Rock Lane
Ou até mesmo um xerife
Que quisesse duelar.
E no bóig, em pleno ar
Abri a cortina da primeira classe
Procurando o fugitivo de segunda.
Fitei um velho oeste
Bambando em pernas de tamborete
No fundo da aeronave.

Um aeromoço xerife
Com semblante de xerife,
Boca torta de xerife,
Roupa preta de xerife,
Prevendo grande duelo,
Encarou-me em cartucheira
E disse: – Renda-se, cabra da peste!!

Eu, com o olhar de roliúde
Mirei a decoração:
O peito era brilho só.
E eu disse:
– É nada, estrela!!!
Com tragédia no andar
Abri asas de caubói
E o oeste em fim de nave
Palitando os incisivos.

De repente, a fala da difusora:

– Avisamos ao mocinho, ao bandido e ao xerife
Que não é permitido atirar a bordo.

Voltei pra primeira classe e tornei a cochilar.


© 2007 - 2018 Jornal da Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa