Coluna: JESSIER QUIRINO – DE CUMPADE PRA CUMPADE

COMO RAPAR UM CALDEIRÃO DE CANJICA NO DESMANCHADO DA TARDE DE UM 23 DE SÃO JOÃO

Primeiro, Dona Maria,
Largar de tanto vexame
E, no arrepio do vento,
Deixar o rico alimento
No caldeirão esfriar.

Cuidar em limpar a casa
Que se deu pra canjicada.
Depois da casa bem limpa,
Varrida e passada um pano,
Encobrir-se em bãe de cuia:

– Água quebrada a frieza…

…E sair de macieza
Só brilhando a sabonete,
Pra não ofuscar o lume
De tanta canjicação.

Reservar para audição
Somente um ruidozinho
De bomba estalo-bebé
De um traque, um busca-pé
E o pipoco festejado
De um foguetão distante.

Sentar num banco afundado
Com toda casa em silêncio
E abraçar, de caçoada,
O caldeirão da canjica
Assim feito um zabumbeiro
Acalentando um baião.

Com a colher de pau na mão,
No oco do caldeirão,
Remar de força junina
E mesmo sem etiqueta
Lamber dedão de chupeta
E começar a função:

Rapar somente a beirada
E um pouquinho do cascão
E convidar a plateia:
Cinco filho em rafameia
Pra seção de pré-estreia
De uma festa de São João.

COMO RETRATAR A BONDADE DE UM JUMENTO

Na casca de Jacques Prévert, poeta francês (1900 – 1977)

Primeiro, pintar na tela, agrinaldando a moldura,
Um cerca de arame com saia de xiquexique
Um trecho de pau a pique e uma cancela escancarada.

Pintar um chão nacional ou mesmo desnacional
Mas que seja um chão de paz
E nunca um chão ofendido, pisoteado de guerra.

Depois, tirando defunto,
Retratar fatos e coisas vividas e inanimadas
Desde sempre transportadas nas cacundas dos jumentos:

Cangalha, lastro, carroça, arado de plantação
Tijolo, barro, arame, lenha, água, pedra e cal
Toda nação de safra de produção sertaneja
Traste minguado, vaqueiro
Matuto passarinheiro, noivos, menino, mulher
Vigário, bispo, Jesus…

Depois, recostar o quadro no tronco dum juazeiro
Daqueles bem prazenteiros
Vizinho a qualquer basculho.

Daí a pouco, a um nada
Ou pouco mais que um pouquinho
Chega, a passo de cágado, nosso esperado burrinho.

Quando ele entrar no cercado,
Deixar soprar na cancela um ventinho “arriba a saia”,
E a cancela vai de vela no rumo do batedor: Pááá!
Depois do jumento preso, se o cabra for bom pintor
Tem que mostrar seu valor desconstruindo o cercado:
Despintar, uma por uma, a rigidez das estacas
Todas as pautas de arames
Apagar todos os fardos que lhe pesaram no lombo
E acrescentar ao desenho algo de simples e belo:

Uns rebentos de capim
Mutirões de cacarejos
Voejos de passarim
E uma terra fértil e preta
Feito chão de rezadeira.

Pra cena ficar mais rica
Transparente e verdadeira,
Bem lá no fundo do quadro,
Pintar um pouco de acaso:

Uma manhã de sol morno
Uma aconchegança brejeira
E um balde de leite fresco
Cheirando à vaca por dentro
Mugindo um sopro entoado.

Com o panorama pintado
Dar, em forma de assobio,
Um siu! De chamar “Roxim”
E esperar o resultado.

Se o jumento erguer orelhas
E fitar você de lado
É sinal que o quadro é bom
E pode ser assinado.

Basta arrancar levemente
De ligeiro amaciado
Três cabelinhos de rabo
E rabiscar de renome
Seu nome e seu sobrenome
Bem no cantinho do quadro.

O MATUTO E O CORONÉ

MARIA BONITA

Maria Bonita
Bonita Maria
De laço de fita.

Escrita de embelezar.

Moça de cor azeitonada
Gestos cáqui
Chapéu valente…
Bem dizer fez Virgulino
Levitar em munição.

Sem a mínima ligança
Pras balas ferinas
De boas avenças
Entrou na questão.

De água em moringa
Deu seiva ao cangaço
Que nem sorveteiro
De grito em morango:

– Sorvete!!!!!!!!!!!

E ganhou alvará
Para se arvorar
No bravo Sertão.

E de Royal Briar
Banhou-se de cheiro
De alma em paixão.

E de rifle e punhal
É flor principal
Do amor fortidão.

E de léguas beiçais
Embrenhou-se na história
De toda a nação.

OBRA INACABADA DE UMA COLHER DE PEDREIRO

Na vida sou mão de ferro
Mas também sei alisar
Taliquá um joão-de-barro
Que faz do bico a destreza
De tirar da natureza
O mais puro edificar.
Eu enxergo em minha mão
Os cinco andares de um prédio:
O mínimo, anular e médio
Fura-bolo e polegar.

Empurro a mão na areia
Faço pirão de cimento
Dou caratê em tijolo
Faço base, assentamento,
Ando no alinhamento,
Na busca de endireitar,
Reboco de lá pra cá
Chapisco em meia colher
E acredite se quiser
Me divirto em chapiscar.

Me atrepo nos andaime
Arriscoso desabar
E no fim de cada dia
Rezo três alvenarias
Pra sorte me acompanhar.
E nessa luta de fé,
Assumo em voz de colher:
No ramo da construção
Minha única frustração
É não conseguir pintar…

Mas, calma, meus pessuá!
Eu vou dizer pra vocês:
Se tiver tinta xadrez
E um piso pra terminar
Eu meto a mão na cumbuca
Remexo o tal tingimento
E cubro o chão de cimento
Com o mais vermelho encarnado,
E deixo semiacabado
Só carecendo encerar.

AGRURAS DA LATA D’ÁGUA

Este colunista e o Quinteto da Paraíba:

VELHO OESTE NOS ARES

Fui pros Estado Zunidos
E ali consultei o Texas.
Procurava um Rock Lane
Ou até mesmo um xerife
Que quisesse duelar.
E no bóig, em pleno ar
Abri a cortina da primeira classe
Procurando o fugitivo de segunda.
Fitei um velho oeste
Bambando em pernas de tamborete
No fundo da aeronave.

Um aeromoço xerife
Com semblante de xerife,
Boca torta de xerife,
Roupa preta de xerife,
Prevendo grande duelo,
Encarou-me em cartucheira
E disse: – Renda-se, cabra da peste!!

Eu, com o olhar de roliúde
Mirei a decoração:
O peito era brilho só.
E eu disse:
– É nada, estrela!!!
Com tragédia no andar
Abri asas de caubói
E o oeste em fim de nave
Palitando os incisivos.

De repente, a fala da difusora:

– Avisamos ao mocinho, ao bandido e ao xerife
Que não é permitido atirar a bordo.

Voltei pra primeira classe e tornei a cochilar.

MOVIMENTO DOS SEM-PÉ-NEM-CABEÇA

Eu sou do time dos sem mala e sem malemolência
Sem aparência aprisionada filha do botox
Sem prato inox, sem finesse e sem BMW
Sem um alfarrábio num caderno pra tirar xerox.

Sou Movimento dos Sem-Pé do pé 47
Sou canivete sem a lâmina que perdeu o cabo
Quase me acabo pra matar o mosquetão dum cano
E entrei no cano justamente pra fugir de um cabo.

De cabo a rabo estou no muro dessa honoris causa
Com a menopausa menstruada da rapaziada
Cravei zoada na memória de um pensamento
E o Movimento Sem Cabeça deu com o Pé na estrada.

Puxei a trança avermelhada de um sansão careca
Com a terereca da firmeza dessa nossa luta
Filhos da puta! Supliquei de voz aveludada
Pois sem veludo na cabeça um pé não se disputa.

E a caravana dos Sem-Pés seguiu de espora avante
Causa gigante dos anões dos fundos everestes
Marrom-celeste é o dolorido de nossa bandeira
A verdadeira bananeira que esse Adão me veste.

Se eu for eleito inelegível, serei coroado
Com os pés rachados pelas plumas dessa nossa sina
E a purpurina gente fina feito um baobá
Tibungará na vermelhura desse azul-piscina.

MAPA DA LIBERDADE

Pouco antes da virada do ano 2000, escrevi o poema Parafuso de cabo de serrote, que é uma descrição pormenorizada de uma bodega, mas dessas bodegas de sortimento abastado, que tem até o raro parafuso pra vender.

Ainda nesse período, depois de vinte e tantas estrofes, escritas em marcha à ré, botei um ponto final no Vou-me embora pro passado, poema esticado feito vela de promessa, que trata de lembranças de um passado não muito distante. Os dois foram publicados no livro Prosa Morena (Edições Bagaço) em 2001.

Pois bem. Sortido um, saudosista outro, vejo que esses temas encantam plateias de todos os quilates, idades e alturas, talvez pelo colorido das palavras, como se fosse o povo pensando alto. Poesia na voz do dia-a-dia.

Nos nossos recitais percebo o beber lágrimas de um, o queixo caído de outro, um ai Jesus! aqui, um risadeiro acolá… Daí o meu interesse em ser freguês-de-caderno da memória coletiva, continuar traquejando os tempos recuados e até mesmo misturá-los com voejos contemporâneos, poemas livres e tudo mais.

Agora, de mão beijada, entrego as histórias: Carrossel na chuva; Obra inacabada de uma colher de pedreiro; Sonhos de uma cidadezinha mais ou menos; entre outras, só pra ficar na berlinda do assunto.

Para empacotar tudo isto, eis aqui o presente Papel de Bodega, que, do ponto de vista fibroso e vegetal, é um papel simples, sem refinamento, que tanto embrulhou nossos sonhos de infância e juventude. O versejar, sem ânsia de apuro literário (também descrito mais adiante pelo personagem Severino Abufelado), segue os modos das obras anteriores, num insistente esforço de igualar a língua à literatura, num formato livre e desmantelado feito uma escapada de bode que não se assujeita a curral.

Resumo:

Papel de Bodega tem a sigla PB de Paraíba
Bodega começa com Bode
Ode quer dizer poema.

Eu tenho pra mim
Que o primeiro mapa da liberdade
Foi traçado em papel de bodega.

JUSTIÇA COM O PRÓPRIO DEDO

Essa Justiça tá uma vergonha.

Réu, em denúncia amundiçada de vizinho brigador, foi obrigado, por lei, a cumprir distância mínima de 2000 metros da vítima, tendo que arrodiar, de casa para o trabalho, o mais esticado arrodeio que um réu já rodeou. Muro da China era pinto e o réu lançou mão dos pula-muros jurídicos etc. e coisa e tá. Conseguiu na Justiça, por meio de liminar, reduzir a distância pra 1000 metros; 500 metros; 100 metros; 10; 3… Finalmente, quando conseguiu 80 centímetros, feriu moralmente a vítima, atingindo-a na região glútea, com o dedo médio em estaca, ladeado, em meia altura, do indicador e anular. Matou a vítima de vergonha.

A PRIORI É ISSO AÍ:

É melhor ser meio doido do que ser meio tantã
Qualquer dor de madrugada dói bem mais que de manhã
Don Juan era o gostoso, mas bem menos que Tarzan.

Irmã Dulce é bem mais alta do que Claudia Cardinale
Um bafejo nas urêia esquenta mais que um xale
Charles Chaplin é mais artista que 200 Woody Allen.

PAISAGEM DE INTERIOR