Categoria: JESUS DE RITA DE MIÚDO – CONVERSA EM GLOSA, RIMA EM PROSA

DIA JUNTANDO NUVENS

– A vida? É como o tempo se preparando para chover, meu jovem – falou o velho enquanto arrumava as brasas do fogo no chão, com uma vareta queimando na ponta.

– Como assim? – quis saber o menino.

Uma lufada de vento assanhou-lhe os cabelos.

O velho continuava mexendo nas brasas, o olhar fixo nas labaredas do fogo baixo e crepitante.

O seu silêncio já inquietava o menino, quando um clarão iluminou ainda mais a caverna onde estavam. Em poucos segundos o céu pareceu se partir ao meio, ao som rouco da natureza das nuvens em trabalhos de parto.

– Veja, meu querido – falou o velho apontando para fora, recolhendo a vareta e apagando o fogo da ponta, esfregando-a no chão de areia grossa. – A infância é como a aurora de um dia claro, de céu limpo e naturalmente alegre; mas, aos poucos se tornando nublado. Quem percebe tal fenômeno se enche de esperança pelo futuro do dia – falou escorando-se na parede da rocha. Calou-se um pouco em seguida, como se ouvisse alguma voz vindo de si. O fogo faulhando à sua frente, jogando ínfimas faíscas no ar.

– E? – perguntou o menino.

– Daí, sopram os ventos e ocorre o relâmpago da juventude. Tudo clareando, rápido, trazendo calor com o fogo do vigor da luz. É o que realmente pode fazer estragos. Porém, também é o algo mais belo em qualquer dia nublado.

Outro silêncio.

O menino sabia ansioso da continuidade das palavras do amigo mais velho. Mexeu-se em seu lugar duas vezes antes da continuação.

– Logo vem o trovão, sempre mais demorado em seu som, que o relâmpago em sua claridade, meu jovem – falou procurando os olhos do menino. Sorriu com os cantos da boca, sem abri-la, e continuou: – A juventude passa como um raio! E depois dela…

– Sim?

– … virá a maturidade do trovão. É quando se sente medo e saudades do dia ficando nublado.

– Compreendi – respondeu o menino abaixando a cabeça. – Estou na fase do relâmpago?

O velho alisou a barba, caminhando por ela com a palma da mão esquerda. A outra ainda segurava a vareta.

– Não. Ainda és um dia juntando nuvens no céu. Já eu, creio, estou no final do trovão.

O menino ficou balançando a cabeça afirmativamente. Por fim perguntou:

– E a vida, quanto dura?

– O mesmo tempo gasto por um dia juntando nuvens, ou o espaço preenchido pela claridade de um relâmpago. Com sorte, meu querido, terá a duração de um estrondo de trovão – respondeu batendo o chão com a vareta. E completou: – Oxalá o tempo de uma boa chuva. Mas, é breve. Sempre breve e frágil.

O menino olhou por sobre o ombro esquerdo para fora da caverna. Outro clarão iluminou a caverna.

Seguiu-se um som ainda maior e mais demorado que o do primeiro trovão.

– O som do trovão… – falou indeciso o jovem. – O que será que ele deseja dizer com tanta força?

– “Calma! Já virão as águas. Aquieta-te e verás a renovação de tudo quanto elas alcançarem”. E por melhor que sejam as águas, meu querido, continuarás a sentir saudades de quando o dia só iniciava seu exercício de juntar nuvens no céu.

A chuva começou lá fora.

ERA MAMÃE ME ACORDANDO

Acordava com o carinho do seu cheiro
Suas mãos me afagando com calor
Sua voz me chamando com amor
Sentimento tão puro e verdadeiro.
Pela manhã isso era fato corriqueiro
Minha mãe me acordando, e eu acordado
Mas fingindo que dormia, embalado
Pra que tudo fosse assim continuando
No metrô do presente eu vou puxando
Um vagão de saudade do passado.

Em sua voz o meu nome é o mais lindo
Entre todos os bons sons que eu já ouvi
E entre todos os carinhos que eu senti
O seu foi e será o mais bem-vindo.
E assim, eu seguia me fingindo
E ajeitava meu rosto com cuidado
E sentia o seu hálito perfumado
Era mamãe, com um beijo, me acordando
No metrô do presente eu vou puxando
Um vagão de saudade do passado.

ORGULHO E PERDÃO

O orgulho, bom amigo,
É uma corda desgraçada
Que ao redor do pescoço
Do sujeito é passada
Enforcando lentamente
E a pessoa nem sente
Que está morrendo amarrada.

Coisa muito abençoada
É o perdão, uma corrente
Feita pelas mãos de Deus
Amarrando diferente:
Liberta qualquer sujeito
E a pessoa, em seu peito,
Sente a paz que ninguém sente.

DEBATE

Ouvi hoje no centro de minha pequena Acary do Seridó, discussão entre dois fanáticos partidários:

– Votarei no Lula.

– E eu em Henrique Alves.

– Ah, não! O Henrique tá preso.

– E Lula está livre por acaso?

Depois reinou o silêncio.

Um seguiu no bode torrado à mesa, o outro na água mineral.

Realmente…

A CASA GRANDE DO TALHADO

A Casa Grande da Fazenda Talhado, aqui em Acary, foi escolhida para cenas do longa metragem Bacurau.

As cenas já foram rodadas e o longa será estrelado pelo premiadíssimo ator alemão Udo Kier, contracenando com a brasileira e cirandeira, atriz, cantora e compositora Lia de Itamaracá; sob a direção do já consagrado diretor Kléber Mendonça.

Do que se trata a trama não sabemos. A proprietária da fazenda, a Sra. Natércia Galvão, assinou dezenas de páginas do contrato onde a palavra sigilo encaminha os termos do mesmo.

Antes de ser restaurada para a alocação de Bacurau, eu havia visitado a fazenda e dado atenção especial à casa; aliás, diferente de toda e qualquer padrão de construção enfeitando esses sertões áridos.

Uma viagem feita na companhia de Simone, neta de Zé Braz Velho do Talhado – antigo e já falecido dono da fazenda, mais a companhia de Goretti Aprígio, essa filha de antigos moradores da fazenda.

Eu a descrevi assim em meus escritos:

O terreiro nivelado, em terra batida bem varrido, separa essa casa do armazém onde funcionavam a prensa de algodão e o vapor inglês, que no Rio Grande do Norte só faz par com mais um. No alpendre do armazém, uma calça de couro e um gibão, pendurados numa corda presa por dois pregos grossos à parede da construção, demonstram ainda haver vida vaqueira naquelas ribeiras de pé-de-serra.

Simone abriu o armazém e lá de dentro um silêncio sepulcral, quase fez doer os meus ouvidos, numa escuridão humilhante para o quê um dia já teve vida intensa. Alguns morcegos quebraram o silêncio com o barulho de suas asas batendo, e a luz invadiu o lugar através de mais duas janelas abertas, sem, porém, alegrar o ambiente. Vários silos de zinco, cada um com um numeral impresso, resistindo ao tempo e nos contando um pouco dos anos em seus numerais. A prensa de madeira, abandonada pela falta de algodão, parada no centro do armazém, pareceu chorar de desgosto pelos anos de inatividade e esquecimento. Ou seria choro de alegria por nossa visita?

Do outro lado do armazém, num compartimento distinto, o vapor inglês também parecia triste por sua atual inutilidade. “Cotton Gim C.O” está escrito nele, são letras em alto relevo. Simone e Goretti me informavam do funcionamento de tudo, de cada recanto utilizado daquela usina e transformado em esconderijo numa ou noutra brincadeira.

Por um momento fechei os olhos e criei em minha mente os sons de tudo aquilo em movimento. Devia ser sensacional.

Entre esse armazém e a casa ainda passamos pela grande cisterna, sobre a tampa da qual, à noite, a reunião dos mais jovens se fazia para as fofocas e brincadeiras. A escolinha da professora Dona Cândida…

Entramos na casa grande pela porta lateral e já no primeiro compartimento senti adentrar um lugar onde, outrora, o luxo e a riqueza certamente se fizeram presentes. Três mesas devidamente cobertas com seus encerados, alinhadas ao centro da grande sala, mais uma rica cristaleira, uma geladeira e alguns quadros pintados por alguém da família, formavam a mobília do lugar.

Uma dessas mesas, a menor delas, era a do carteado. Um armário de parede, largo e fundo, guarda os talheres pesados e as louças da casa, algumas ricas e belas porcelanas.

Abriram a primeira porta: o quarto de seu Zé Braz. Lá ainda está a cama de casal, um armário de parede com alguns objetos pessoais, um criado mudo, uma cadeira e a vara que, segundo Goretti, era utilizada para a retirada de frutas. Impressiona-me o piso todo em taco e em perfeito estado de conservação, observado pelos olhos de um ou outro quadro pendurado e evidenciando a fé religiosa dos antigos residentes.

Outra porta, outro quarto: “das moças”, diz Simone. Uma penteadeira bem baixa, um banquinho, uma cama e um camiseiro. Dali uma porta dando para outro quarto, o dos grandes baús. Mais quadros de santos, mais armários de paredes.

Na grande sala da frente quadros de familiares antigos, um lustre pendurado “já em tempos modernos”, segundo Simone. Duas poesias falando de casas também enfeitavam as paredes. Uma mesa com um couro de preguiça, espichado sobre ela, era outro atrativo.

Outra porta, mais um quarto. “Dos rapazes!”, alguém gritou. Nesse não pudemos entrar, a linha central está escorada com madeira.

Outra porta se abre: A Biblioteca! Ali percebi a riqueza do dono da casa. Não apenas no aspecto financeiro, mas principalmente pelo lado intelectual de seu Zé Braz. Livros e mais livros. Muitos! Da obra completa de Monteiro Lobato, passando por Alexandre Dumas até Dale Carnegie, fui me impressionando com aquele acervo.

Depois foi subir pela escada de madeira, em caracol, e lá de cima ter uma noção na organização da fazenda em seus currais e vários outros sentidos.

Uma outra escada, também essa de madeira nos levou ao terceiro piso.

O espaço aqui será curto para falar das cozinhas, dos banheiros e das outras dependências também visitadas e minuciosamente exploradas.

Dos buracos nas paredes, distribuídos para todas as direções e por onde um cano de arma de fogo poderia ser introduzido para a defesa num eventual ataque. Armas que repousavam tranquilas no passado, sob os fundos falsos dos armários de parede.

Também ali fechei os olhos e me dei ao luxo de, num outro devaneio, ouvir os sons daquela residência. Mas o que me perturbou na volta para casa, olhos fechados, vento entrando pelo vidro aberto do carro para bater forte em meu rosto, foi a poesia que li ali, escrita por Augusto Severo Neto, cujo título é

BALADA DAQUELA CASA:

Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo em louças,
sem passos pelas escadas.

Havia um cheiro abafado,
um cheiro assim borolento,
talvez por falta de vento,
talvez por falta de luz.
As janelas quando abertas
gritavam tintas quebradas
e as portas estavam coladas
mais ainda que as janelas,
que para abrir uma delas
fiquei com as mãos machucadas,
cheias de manchas azuis.

Mas a porta foi aberta
e uma janela também.
O vento entrou por elas,
eu entrei atrás do vento,
olhei por todos os lados,
procurei quartos e salas.
A casa estava deserta,
lá não havia ninguém.

O vento que entrou comigo,
decerto um vento menino,
brincou com um jornal antigo,
folheou velhas revistas
atiradas nas cadeiras,
soprou poeira dos móveis,
fez redemoinhos no chão.

Talvez que por milagre
o relógio trabalhava
e o seu batido se ouvia
por toda parte da casa.
A moldura de silêncio
que circundava as pancadas
uniformes, compassadas,
despertou-me um pergunta:
Como nós aquela casa
não teria um coração?

Não sei, porém eu sentia
que qualquer coisa pulsava
qualquer coisa acompanhava
o sangue nas minhas veias.
Perguntei-me o que seria?
junto de mim não há nada,
a casa estava fechada,
os lustres cheios de teias,
os móveis empoeirados,
há muito não vem ninguém.
E esse algo pulsando?
Talvez eu estivesse certo,
quando, há pouco, pensava
que os batidos que escutava
nasciam do coração
que essa velha casa tem.

Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo em louças,
sem passos pelas escadas.