UMA GLOSA

Mote:

É falta de educação
Não olhar para o idoso

Deixar de pé o ancião
Não lhe ceder o lugar
Não deixá-lo se sentar
É FALTA DE EDUCAÇÃO.
É ter perdido a noção
Num gesto até afrontoso
De humano impiedoso
Que não pratica a bondade
É falta de caridade
NÃO OLHAR PARA O IDOSO.

O VALENTÃO DOS CORREIOS DE SÃO JOSÉ DOS CARNEIROS

Ficção inspirada

Quando a nossa pequenina comunidade recebeu a graça de se tornar cidade, ali no começo da década de oitenta do século passado, ganhou também duas empresas de serviços presentes apenas nas cidades vizinhas: uma agência bancária e outra dos CORREIOS.

Ganhou também uma delegacia com dois soldados sonolentos e um delegado dorminhoco.

O banco pouco demorou. Em menos de um ano a agência fechou e os funcionários foram transferidos para outras praças. Não havia captação para a sua permanência.

Já a delegacia e os CORREIOS ficaram.

A casa de Chico Pé-de-Cabra, bem em frente da igreja – pelo outro lado da praça – foi adquirida e toda remodelada. A sala da frente e os dois primeiros quartos foram transformados em um único salão para o atendimento ao público, a fachada de duas águas deu lugar a uma arquitetura retangular onde o nome da empresa em logomarca própria foi fixado nas cores padrões, pintado por Zé Anjo.

Com a empresa chegou à nossa cidadezinha para ser o chefe da agência o grande Inácio Paulo de Albuquerque e Albuquerque. Grande no sentido dos feitos cantados quando se excedia na cachaça. O fato é que Inácio não passava dos cento e cinquenta e quatro centímetros, se medido fosse da sola dos pés aos cabelos estilo “espeta caju” no meio do quengo quadrado.

Grande também porque em São José dos Carneiros era o maior salário. Maior até que o do prefeito.

Todo final de semana Inácio Paulo tomava todas no barzinho de Quinca da Tripa. E quando se embriagava virava valente. Muito valente. E era aí, completamente ébrio, que contava seus feitos na capital, sempre levando vantagem, encerrando seus causos com a afirmação “sou Inácio Paulo de Albuquerque e Albuquerque. Duas vezes Albuquerque”.

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ACELERA BENEDITO!

O que sei sobre Benedito, de ouvir falar.

Bendito chegou por Acari nos idos de novecentos e vinte, vindo ninguém sabe de onde. Por aqui foi ficando.

Homem forte no físico, fraco das ideias. Enlouquecia ainda mais se alguém aglutinava ao seu nome a expressão “acelera”. Sua conduta calma e amistosa perdia todos os pudores, a rua ganhava todos os palavrões.

Quando não recebia o insulto ele era sujeito tranquilo, paciente e de bom relacionamento social.

Sempre vestido de paletó preto ou azul marinho, presente de alguém, usava tal vestimenta de uma forma singular: mangas arregaçadas, as pernas da calça dobradas no meio das canelas, sem sapatos. Calçava chinelas de couro e pronto!

E por que do apelido?

Benedito tinha um costume de, quando ia andando, repentinamente, dar tipo uma reduzida e acelerar os passos em seguida. Dizem que levantava poeira.

Sem profissão definida, vivia de fazer mandados e, quase sempre, seus préstimos eram requisitados pela força bruta que possuía.

Em um tempo de poucos carros e muita gente esperta, era comum que se aproveitassem dele e da sua índole infantil contrastando com o corpanzil. Era pura inocência também.

Um dia, por sua enorme força, foi contratado para levar um bilhar até Jardim do Seridó. Embora não soubesse muito bem reconhecer dinheiro, saiu de Acari pela madrugada com o bilhar na cabeça para vencer a distância separando as duas cidades. Fazia aquilo muito mais para cumprir sua palavra.

Em Jardim chegou por volta do meio dia, suado e com muita sede. Desde a entrada da cidade passara a ser seguido por algumas pessoas impressionadas com a sua força. Na praça central abaixou a mesa de jogo. Colheu informações sobre o novo dono, marchou para entregar o produto do frete e, por fim, receber por seu esforçado trabalho.

– Nã! – exclamou o proprietário do móvel. – Eu não acertei para pagar o frete de jeito nenhum. Paguei o bilhar em dinheiro e o frete era por conta dele – reclamou.

Benedito não argumentou, nem repetiu o seu preço, tampouco encompridou conversa. Jogou o bilhar de volta na cabeça e retornou para Acari, onde chegou por volta da hora de Maria.

Detalhe: o peso médio de um bilhar com pano sobre pedra, daqueles antigos feitos em madeira de lei, era na faixa de cento e cinquenta quilos.

Coisas do Acari do meu amor, dos seus mitos, minha gente mais que querida.

Já velho e cuidado por pessoas bondosas, após perder a massa muscular que lhe dera fama nas adjacências, Benedito faleceu ali pelas eras de sessenta do século passado; sem parentes conhecidos, mas cercado do respeito de toda comunidade. Se deixou saudades? Não sei bem. Mas deixou suas histórias se confundindo com a da nossa terra amada.

Era Patrimônio Humano do nosso povo.

A RÚSSIA DA MINHA INFÂNCIA

No trânsito caótico de Natal eu sigo ouvindo rádio e, assim, vou conseguindo me atualizar; já que decidi há algum tempo ver televisão o mínimo possível.

Tal decisão foi arrimada nas notícias repetitivas de violência, corrupção e na sistemática valorização das principais redes por celeumas envolvendo os princípios do repugnável conceito de politicamente correto; para mim, nem sempre correto.

Não estou livre, é certo, de ouvi-los também pelas rádios, extensões sem imagens das grandes redes de TV. Entretanto, em casa passo a me ocupar mais de leituras e outros prazeres, preenchendo a impaciência do movimento lento nas vias de Natal com o apurado dos meus ouvidos.

No meu entender, ganho tempo para a família quando em casa estou. Ou seja, minha vida ganhou mais qualidade ao lado dos meus.

Pois bem, ontem tive a satisfação de ouvir uma entrevista com a Doutora Elena Vassina, professora de literatura e cultura russas na USP, formada na Faculdade de Letras da Universidade Estatal de Moscou Lomonóssov (MGU); possuindo mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Estatal de Moscou, doutorado em História e Teoria de Arte e Pós-doutorado em Teoria e Semiótica de Cultura e Literatura pelo Instituto Estatal de Pesquisa da Arte.

A voz harmoniosa, calma e segura da doutora, respondendo de forma concisa sobre as questões da terra onde nasceu e cresceu, fez-me ser tomado por lembranças da minha infância. E, aí, o leitor pode se perguntar qual o paralelo existente entre o mundo russo e a minha pequena Acary, no interior mais semiárido desses solos potiguares, onde passei toda a minha inocência de criança?

Em meados de 1979 fomos visitados por um amigo de papai, companheiro dos tempos da velha Sapataria de Tio Zeca. Aquele homem, na época já um simpático senhor de cabelos rareados e pintados pelo tempo, partira jovem para o Rio de Janeiro. Voltara para visitar seu torrão duas décadas depois, fã do comunismo e verdadeiro pregador dos conceitos do sistema, em palavras ditas quase em sussurros, nos contando da grandeza do povo soviético, das maravilhas do regime e dessas coisas admiradas, defendidas e santificadas por todo esquerdista militante.

Em minha lembrança aquela visita durou uma tarde inteira de boa conversa que eu, desde muito cedo cercando adultos, acompanhava de olhos esbugalhados em tamanha atenção. Saindo lá de casa o antigo amigo de papai, fiquei menino sonhador com as suas falas, em imagens nascidas em minha mente a partir delas – digo, das suas conversas – com um povo onde reinava a igualdade, gente rica em tudo, nação próspera e feliz.

Não me lembro quanto tempo se passou daquela tarde, até o dia em que acompanhei a minha mãe, então manicure, à casa da primeira-dama de nossa pequena cidade.

Eu não tinha dez anos ainda – mas já me tornara um curioso e leitor atento em tudo passando em minhas mãos – deu de estar sobre o centro com tampo de vidro à minha frente, bem no meio da grande sala da cliente, uma revista Manchete pregando ter sido “a primeira equipe ocidental de reportagem a entrar na chamada Cortina de Ferro para mostrar como vivia, de fato, o povo russo”. O que vi e li, embora eu ainda fosse muito criança, fez manchar a imagem criada a partir das falas pausadas e baixas daquele velho amigo da família. Ali eu não precisava criar imagem nenhuma usando o poder de minha interpretação; porém, eu via com meus olhos, lia com os meus olhos e entendia, não obstante a pouca idade.

Em uma das muitas fotografias ilustrando a matéria, eu vi uma fila enorme de soviéticos sorrindo, rostos marcados por rugas intensas. Quase todos com gengivas carecas, dentes amarelados, quando não pretos. A fila da sopa doada pelo governo. A sopa para sarar a fome e “aquecê-los do intenso frio do inverno”. Duas conchas para cada um. “Com sorte vem um pedaço de carne na porção”, jamais esqueci essa frase. Tampouco aquele rosto mais próximo da lente do fotógrafo.

“Todos são ricos na União Soviética”, eu acreditara no senhorzinho. “Ninguém aqui nessa fila tem cara de rico”, eu pensava enquanto a revista me fazia questionar.

Mais crescido e, ainda, um leitor voraz na adolescência, eu fui me acompanhando dos grandes autores russos, presentes na sempre bem equipada Biblioteca Pública de Acary (aliás, a maior do interior potiguar). Fiódor Dostoiévski, Ivan Turguêniev, Tolstói, Anton Tchecov, Nikolai Gógol, Boris Pasternak e, mais tarde, o poeta Maiakovski, fomentaram a minha admiração pela “cultura russa”.

Por muitos dias eu me perguntei ainda: a quem devo dar mais crédito, ao velho amigo de papai, ou àquela reportagem da Manchete? Tal questão me fazia estar sempre com um pé atrás tanto sobre “a grandeza do Comunismo”, quanto às “notícias fantasiosas da mídia patrocinada pelo Imperialismo”. Acabei optando por alimentar mais as imagens vistas naquela reportagem.

Ontem a Doutora Elena Vassina me tirou por completo essa dúvida, quando contou que no dia 31 de dezembro de 1991 comemoraram a passagem de ano em sua casa, praticamente sem comida à mesa. Não havia onde comprar as coisas. Tudo faltava.

Contou também na mesma entrevista que no dia 15 de janeiro de 1992 os supermercados de Moscou tinham de tudo em suas prateleiras. No entanto a mesa continuava praticamente sem nada. Os russos não dispunham de dinheiro para adquirir comida.

Aquele senhor se mudou de vez para nossa terrinha, retornando ao convício com seus parentes, com seu povo. Eram os dias da aurora do Plano Real quando eu já adulto e pai de dois filhos puxava conversa a fim de comparar as coisas. Eu queria entender o mundo por seus olhos e percepções.

Um dia lhe relembrei a visita e a influência que suas falas despertara em mim, questionando-lhe sobre a revista. Ele sorriu de leve, o sorriso dos velhos sábios, e apenas me respondeu “os dias mudaram tudo, meu filho”. Em outra oportunidade acabaria me confessando “a Esquerda se endireitou. Seus líderes são tão capitalistas quanto o patrão do seu pai”. E acrescentou haver se decepcionado com aquilo no qual acreditara por anos.

E eu… bem… eu tive a sorte de acompanhar mamãe à casa de uma cliente.

PS.: Há pouco, pelo messenger do Facebook, a própria Doutora Elena Vassina me atestou que não faltavam organização social, tampouco existia miséria. Nem antes e nem depois da Perestróika. E escreveu mais para mim: “aquela matéria sobre a sopa era mentirosa, isso não existiu na URSS. O Estado garantia comida e habitação para todos.”

Faltava-lhes liberdade, no entanto.

ENTREVISTA

Eu descia apressado do carro estacionado na Avenida Prudente de Morais, movimentada via cortando Natal de Sul a Norte, quando se aproximou de mim um repórter com seu microfone na mão.

– Senhor – chamou a minha atenção exatamente quando o alarme acionado dava dois gritos secos no ar.

– Pois não?

– Estamos fazendo uma matéria para a TV sobre o patriotismo aflorando nos dias da Copa do Mundo – explicou mostrando com o queixo o cinegrafista de câmera na mão. – O senhor se importaria em participar? Serão apenas duas perguntas.

– Claro que não. Desde que não demore muito.

Ele fez sinal de positivo com o polegar e se ajeitou na postura.

Todos a postos, ao sinal do profissional da câmera o jovem repórter me perguntou:

– Qual o melhor país do mundo?

Respondi sem pestanejar:

– O meu quando fecho por dentro a porta da minha casa.

Ele ficou com cara de não-sei-o-quê. Mudo.

Ainda esperei alguns segundos, enquanto ele trocava olhares com o cinegrafista.

Como a segunda pergunta não veio, eu segui para tentar trabalhar sem sequer receber um obrigado.

Também não me despedi dos dois.

Irá ao ar?

RAIO X DA SOLUÇÃO OU DO PROBLEMA?

Para solucionar algumas crises passadas, PSDB e PT quando não subsidiavam o objeto daquela peleja, acabavam criando cargos comissionados. Era a prática do “cala a boca. Volta para casa”.

O que não fica muito longe da intenção atual do governo do MDB através de Temer; aliás repetindo um modo de solução adotado por Sarney, do velho PMDB (velho pelo passar dos anos. Afinal, as caras ainda são as mesmas no novo MDB. As mesmas!), e copiado por seus sucessores de PSDB e PT.

No Brasil temos seiscentos mil (!) cargos comissionados. Nos EUA, com uma população cinquenta por cento maior, pois bem, lá existe algo em torno de sete mil.

Há pouco li algo desesperador escrito em julho de dois mil e dezesseis: Um “relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou a administração pública federal – incluindo Executivo, Legislativo e Judiciário federais – gastando hoje R$ 3,47 bilhões por mês com funcionários em cargos de confiança e comissionados. O valor representa 35% de toda a folha de pagamento do funcionalismo público na esfera federal, que é de R$ 9,6 bilhões mensais”.

O quadro continua o mesmo.

Para sustentar essa turminha, cria-se ou aumenta-se impostos.

A luta por um Estado mínimo é colocada à margem pela maioria da mídia, sensacionalizando e minimizando tudo, como se as ações de protestos fossem exclusividade de uma classe se defendendo absurdamente. Ainda demoniza os insatisfeitos.

Por outro lado, a boa maioria rebatendo essa mídia, acusando-a por exemplo de vendida, se perde em seu discurso por pertencer justamente aos quadros comissionados de alguma estatal, município, unidade federativa ou federal de fato. A maioria, eu disse. Não todos.

Essa “boa maioria” luta por menos impostos, preços mais justos, mais empregos, bem-estar social, e esquece do aparelhamento do Estado sendo o maior empecilho para esses fins.

Menos políticos, menos assessores, menores salários marajás no setor público, menos aspones, menos cargos comissionados, menos auxílios…

Afinal, como em todas as crises anteriores, desde 1986, para a solução desse momento ora visto e parando o Brasil, nenhum cargo será extinto, nenhuma estatal deficitária será negociada ou se cortará os soldos da sua diretoria apadrinhada, nenhum salário acima do teto (os marajás do poder público) será diminuído, nenhum auxílio deixará de ser pago, nenhuma super-aposentadoria será reavaliada… Enfim, nenhum privilégio de qualquer natureza cairá. Seja de cartão corporativo, carro, de moradia, de paletó, passagens, estadias, etc.

O governo novamente tenta resolver a crise com mais subsídios, e outra vez a conta cairá em nosso colo.

Os três poderes continuarão no ápice das despesas do Estado. Neles não pode haver mudança alguma, porque o loteamento do Estado em troca de apoio não pode ser revisto por quem faz a lei para dela se beneficiar. São os mesmos que, por suas ações e colocações tantas vezes jogadas para a arquibancada, no fundo acham melhor o Estado deixando de investir em Educação, em Saúde e em Segurança. Porém, mexer em seus privilégios nem pensar!

Se o governo não corta na carne do Estado, continuará cortando na carne da nação.

E nós continuaremos chorando e sangrando, nos dividindo de acordo com o que mais lemos ou ouvimos.

Ou seja, com o sentimento forte naquilo mais alimentado por nossa atenção.

STATUS QUO

Os velhos problemas do Brasil nos são apresentados como se novos fossem. Diariamente.

O estado das coisas não mudam o Estado. Digo, o brasileiro.

Todos se dizem inocentes antes e depois; como também proclamam culpados ontem e hoje. Sempre os mesmos nomes.

Mas nós só ouvimos os gemidos dos inocentes, de fato, esses preocupados com o porvir.

Há gente defendendo por correto exatamente o contrário do que dizia ser errado há alguns anos.

Vejo outros, irritados no passado, comemorando hoje as ações de protestos tantas vezes condenadas.

E assim seguimos nós, a cada dia um novo passo.

Com o Brasil passando vergonhosamente na TV.

Indo em busca do caos fantástico pela divisão de ideais.

De ideais. Não de ideias. Afinal, as ideias são tão poucas, sequer podem ser divididas.

Entre os grupos divididos – cada um ao seu modo – impera a necessidade de manutenção do seu próprio status quo, sob um lençol manchado pelo fanatismo exacerbado; fantasiado de luta de princípios, em suas sujeiras de noites mal explicadas, quando cobriam – ou cobrem – a pior das prostituições: a da moral.

Conveniente divisão do estado das coisas.

Porque o fanatismo é conveniente a quem está pendurado, de alguma forma se beneficiando, em qualquer braço do Estado, dos sindicatos, dos movimentos tidos por sociais, ou dos patronatos. E seja lá qual for o corpo desse braço, a corda esticada foi trançada na mais pura exploração de outrem. O nó de segurança é a mais pura falta de ética. Sobra apenas a covardia de quem luta armado e em um exército de muitos, contra poucos sem armas.

A esperança resiste entre pedras, em solo seco e infértil, cultivada por muitos com quase meio século de “boa vontade”; hoje apresentados como “Salvadores da Pátria”; quando na verdade suas pátrias estão por trás dos seus próprios umbigos, por baixo da pele da falsidade, da gordura da hipocrisia e músculos da dissimulação. Um pouco mais abaixo do coração cujo único sentimento é o desejo do poder pelo poder do status.

Os mesmos beneficiados pelo estado das coisas do Estado, há tantos anos que se perde a conta de quantos são.

DIA JUNTANDO NUVENS

– A vida? É como o tempo se preparando para chover, meu jovem – falou o velho enquanto arrumava as brasas do fogo no chão, com uma vareta queimando na ponta.

– Como assim? – quis saber o menino.

Uma lufada de vento assanhou-lhe os cabelos.

O velho continuava mexendo nas brasas, o olhar fixo nas labaredas do fogo baixo e crepitante.

O seu silêncio já inquietava o menino, quando um clarão iluminou ainda mais a caverna onde estavam. Em poucos segundos o céu pareceu se partir ao meio, ao som rouco da natureza das nuvens em trabalhos de parto.

– Veja, meu querido – falou o velho apontando para fora, recolhendo a vareta e apagando o fogo da ponta, esfregando-a no chão de areia grossa. – A infância é como a aurora de um dia claro, de céu limpo e naturalmente alegre; mas, aos poucos se tornando nublado. Quem percebe tal fenômeno se enche de esperança pelo futuro do dia – falou escorando-se na parede da rocha. Calou-se um pouco em seguida, como se ouvisse alguma voz vindo de si. O fogo faulhando à sua frente, jogando ínfimas faíscas no ar.

– E? – perguntou o menino.

– Daí, sopram os ventos e ocorre o relâmpago da juventude. Tudo clareando, rápido, trazendo calor com o fogo do vigor da luz. É o que realmente pode fazer estragos. Porém, também é o algo mais belo em qualquer dia nublado.

Outro silêncio.

O menino sabia ansioso da continuidade das palavras do amigo mais velho. Mexeu-se em seu lugar duas vezes antes da continuação.

– Logo vem o trovão, sempre mais demorado em seu som, que o relâmpago em sua claridade, meu jovem – falou procurando os olhos do menino. Sorriu com os cantos da boca, sem abri-la, e continuou: – A juventude passa como um raio! E depois dela…

– Sim?

– … virá a maturidade do trovão. É quando se sente medo e saudades do dia ficando nublado.

– Compreendi – respondeu o menino abaixando a cabeça. – Estou na fase do relâmpago?

O velho alisou a barba, caminhando por ela com a palma da mão esquerda. A outra ainda segurava a vareta.

– Não. Ainda és um dia juntando nuvens no céu. Já eu, creio, estou no final do trovão.

O menino ficou balançando a cabeça afirmativamente. Por fim perguntou:

– E a vida, quanto dura?

– O mesmo tempo gasto por um dia juntando nuvens, ou o espaço preenchido pela claridade de um relâmpago. Com sorte, meu querido, terá a duração de um estrondo de trovão – respondeu batendo o chão com a vareta. E completou: – Oxalá o tempo de uma boa chuva. Mas, é breve. Sempre breve e frágil.

O menino olhou por sobre o ombro esquerdo para fora da caverna. Outro clarão iluminou a caverna.

Seguiu-se um som ainda maior e mais demorado que o do primeiro trovão.

– O som do trovão… – falou indeciso o jovem. – O que será que ele deseja dizer com tanta força?

– “Calma! Já virão as águas. Aquieta-te e verás a renovação de tudo quanto elas alcançarem”. E por melhor que sejam as águas, meu querido, continuarás a sentir saudades de quando o dia só iniciava seu exercício de juntar nuvens no céu.

A chuva começou lá fora.

ERA MAMÃE ME ACORDANDO

Acordava com o carinho do seu cheiro
Suas mãos me afagando com calor
Sua voz me chamando com amor
Sentimento tão puro e verdadeiro.
Pela manhã isso era fato corriqueiro
Minha mãe me acordando, e eu acordado
Mas fingindo que dormia, embalado
Pra que tudo fosse assim continuando
No metrô do presente eu vou puxando
Um vagão de saudade do passado.

Em sua voz o meu nome é o mais lindo
Entre todos os bons sons que eu já ouvi
E entre todos os carinhos que eu senti
O seu foi e será o mais bem-vindo.
E assim, eu seguia me fingindo
E ajeitava meu rosto com cuidado
E sentia o seu hálito perfumado
Era mamãe, com um beijo, me acordando
No metrô do presente eu vou puxando
Um vagão de saudade do passado.

ORGULHO E PERDÃO

O orgulho, bom amigo,
É uma corda desgraçada
Que ao redor do pescoço
Do sujeito é passada
Enforcando lentamente
E a pessoa nem sente
Que está morrendo amarrada.

Coisa muito abençoada
É o perdão, uma corrente
Feita pelas mãos de Deus
Amarrando diferente:
Liberta qualquer sujeito
E a pessoa, em seu peito,
Sente a paz que ninguém sente.

DEBATE

Ouvi hoje no centro de minha pequena Acary do Seridó, discussão entre dois fanáticos partidários:

– Votarei no Lula.

– E eu em Henrique Alves.

– Ah, não! O Henrique tá preso.

– E Lula está livre por acaso?

Depois reinou o silêncio.

Um seguiu no bode torrado à mesa, o outro na água mineral.

Realmente…

A CASA GRANDE DO TALHADO

A Casa Grande da Fazenda Talhado, aqui em Acary, foi escolhida para cenas do longa metragem Bacurau.

As cenas já foram rodadas e o longa será estrelado pelo premiadíssimo ator alemão Udo Kier, contracenando com a brasileira e cirandeira, atriz, cantora e compositora Lia de Itamaracá; sob a direção do já consagrado diretor Kléber Mendonça.

Do que se trata a trama não sabemos. A proprietária da fazenda, a Sra. Natércia Galvão, assinou dezenas de páginas do contrato onde a palavra sigilo encaminha os termos do mesmo.

Antes de ser restaurada para a alocação de Bacurau, eu havia visitado a fazenda e dado atenção especial à casa; aliás, diferente de toda e qualquer padrão de construção enfeitando esses sertões áridos.

Uma viagem feita na companhia de Simone, neta de Zé Braz Velho do Talhado – antigo e já falecido dono da fazenda, mais a companhia de Goretti Aprígio, essa filha de antigos moradores da fazenda.

Eu a descrevi assim em meus escritos:

O terreiro nivelado, em terra batida bem varrido, separa essa casa do armazém onde funcionavam a prensa de algodão e o vapor inglês, que no Rio Grande do Norte só faz par com mais um. No alpendre do armazém, uma calça de couro e um gibão, pendurados numa corda presa por dois pregos grossos à parede da construção, demonstram ainda haver vida vaqueira naquelas ribeiras de pé-de-serra.

Simone abriu o armazém e lá de dentro um silêncio sepulcral, quase fez doer os meus ouvidos, numa escuridão humilhante para o quê um dia já teve vida intensa. Alguns morcegos quebraram o silêncio com o barulho de suas asas batendo, e a luz invadiu o lugar através de mais duas janelas abertas, sem, porém, alegrar o ambiente. Vários silos de zinco, cada um com um numeral impresso, resistindo ao tempo e nos contando um pouco dos anos em seus numerais. A prensa de madeira, abandonada pela falta de algodão, parada no centro do armazém, pareceu chorar de desgosto pelos anos de inatividade e esquecimento. Ou seria choro de alegria por nossa visita?

Do outro lado do armazém, num compartimento distinto, o vapor inglês também parecia triste por sua atual inutilidade. “Cotton Gim C.O” está escrito nele, são letras em alto relevo. Simone e Goretti me informavam do funcionamento de tudo, de cada recanto utilizado daquela usina e transformado em esconderijo numa ou noutra brincadeira.

Por um momento fechei os olhos e criei em minha mente os sons de tudo aquilo em movimento. Devia ser sensacional.

Entre esse armazém e a casa ainda passamos pela grande cisterna, sobre a tampa da qual, à noite, a reunião dos mais jovens se fazia para as fofocas e brincadeiras. A escolinha da professora Dona Cândida…

Entramos na casa grande pela porta lateral e já no primeiro compartimento senti adentrar um lugar onde, outrora, o luxo e a riqueza certamente se fizeram presentes. Três mesas devidamente cobertas com seus encerados, alinhadas ao centro da grande sala, mais uma rica cristaleira, uma geladeira e alguns quadros pintados por alguém da família, formavam a mobília do lugar.

Uma dessas mesas, a menor delas, era a do carteado. Um armário de parede, largo e fundo, guarda os talheres pesados e as louças da casa, algumas ricas e belas porcelanas.

Abriram a primeira porta: o quarto de seu Zé Braz. Lá ainda está a cama de casal, um armário de parede com alguns objetos pessoais, um criado mudo, uma cadeira e a vara que, segundo Goretti, era utilizada para a retirada de frutas. Impressiona-me o piso todo em taco e em perfeito estado de conservação, observado pelos olhos de um ou outro quadro pendurado e evidenciando a fé religiosa dos antigos residentes.

Outra porta, outro quarto: “das moças”, diz Simone. Uma penteadeira bem baixa, um banquinho, uma cama e um camiseiro. Dali uma porta dando para outro quarto, o dos grandes baús. Mais quadros de santos, mais armários de paredes.

Na grande sala da frente quadros de familiares antigos, um lustre pendurado “já em tempos modernos”, segundo Simone. Duas poesias falando de casas também enfeitavam as paredes. Uma mesa com um couro de preguiça, espichado sobre ela, era outro atrativo.

Outra porta, mais um quarto. “Dos rapazes!”, alguém gritou. Nesse não pudemos entrar, a linha central está escorada com madeira.

Outra porta se abre: A Biblioteca! Ali percebi a riqueza do dono da casa. Não apenas no aspecto financeiro, mas principalmente pelo lado intelectual de seu Zé Braz. Livros e mais livros. Muitos! Da obra completa de Monteiro Lobato, passando por Alexandre Dumas até Dale Carnegie, fui me impressionando com aquele acervo.

Depois foi subir pela escada de madeira, em caracol, e lá de cima ter uma noção na organização da fazenda em seus currais e vários outros sentidos.

Uma outra escada, também essa de madeira nos levou ao terceiro piso.

O espaço aqui será curto para falar das cozinhas, dos banheiros e das outras dependências também visitadas e minuciosamente exploradas.

Dos buracos nas paredes, distribuídos para todas as direções e por onde um cano de arma de fogo poderia ser introduzido para a defesa num eventual ataque. Armas que repousavam tranquilas no passado, sob os fundos falsos dos armários de parede.

Também ali fechei os olhos e me dei ao luxo de, num outro devaneio, ouvir os sons daquela residência. Mas o que me perturbou na volta para casa, olhos fechados, vento entrando pelo vidro aberto do carro para bater forte em meu rosto, foi a poesia que li ali, escrita por Augusto Severo Neto, cujo título é

BALADA DAQUELA CASA:

Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo em louças,
sem passos pelas escadas.

Havia um cheiro abafado,
um cheiro assim borolento,
talvez por falta de vento,
talvez por falta de luz.
As janelas quando abertas
gritavam tintas quebradas
e as portas estavam coladas
mais ainda que as janelas,
que para abrir uma delas
fiquei com as mãos machucadas,
cheias de manchas azuis.

Mas a porta foi aberta
e uma janela também.
O vento entrou por elas,
eu entrei atrás do vento,
olhei por todos os lados,
procurei quartos e salas.
A casa estava deserta,
lá não havia ninguém.

O vento que entrou comigo,
decerto um vento menino,
brincou com um jornal antigo,
folheou velhas revistas
atiradas nas cadeiras,
soprou poeira dos móveis,
fez redemoinhos no chão.

Talvez que por milagre
o relógio trabalhava
e o seu batido se ouvia
por toda parte da casa.
A moldura de silêncio
que circundava as pancadas
uniformes, compassadas,
despertou-me um pergunta:
Como nós aquela casa
não teria um coração?

Não sei, porém eu sentia
que qualquer coisa pulsava
qualquer coisa acompanhava
o sangue nas minhas veias.
Perguntei-me o que seria?
junto de mim não há nada,
a casa estava fechada,
os lustres cheios de teias,
os móveis empoeirados,
há muito não vem ninguém.
E esse algo pulsando?
Talvez eu estivesse certo,
quando, há pouco, pensava
que os batidos que escutava
nasciam do coração
que essa velha casa tem.

Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo em louças,
sem passos pelas escadas.


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