Categoria: JOSÉ DOMINGOS BRITO – MEMORIAL

OS BRASILEIROS – CXVIII

José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, mais conhecido como Padre Roma, nasceu no Recife, em 1768. Advogado, religioso e um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817. Demonstrou vocação religiosa aos 16 anos e entrou para o Convento do Carmo, em Goiana. Em seguida foi para Portugal e fez o curso de Teologia na Universidade de Coimbra. Depois partiu para Roma, onde concluiu os estudos religiosos e ordenou-se padre. Pouco depois a vocação religiosa foi colocada foi dúvida, pediu dispensa da Ordem Carmelita, em 1807, retornou ao Recife, casou-se e abriu uma banca de advocacia.

Seus conhecimentos de grego e latim e por ter vivido em Roma lhe renderam o apelido. Possuía o dom da oratória e era dotado de sólidos conhecimentos jurídicos. Assim, ficou famoso no Recife, particularmente por defender causas populares e adesão às ideias liberais em voga na época. Com a vinda de Dom João VI, em 1808, foram criados muitos impostos para manter a família imperial e o Brasil passou por profundas mudanças com uma opressiva administração da colônia. Ao mesmo tempo, ideais nativistas e anticolonialistas eram defendidos pela maçonaria e propagados em centros como o Areópago de Itambé e o Seminário de Olinda. Dessa forma, os interesses de alguns militares, dos padres e maçons uniram-se num mesmo ideal de emancipação política do Brasil.

Fuzilamento do Padre Roma

Estes grupos passaram a conspirar abertamente contra o poder imperial e as ordens vindas do Rio do Rio Janeiro. Os padres tinham um papel relevante na conspiração, incitando os fiéis à causa libertária do jugo português. Os preparativos para a revolta popular foram se acumulando até 6/3/1817, quando o governador da província – Caetano Pinto de Miranda Montenegro – mandou prender os revoltosos implicados na conspiração. O primeiro a receber ordem de prisão foi o capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado”, que atravessou com uma espada o oficial português encarregado de prendê-lo. A revolta alastrou-se rapidamente e tomou as ruas do Recife. Em seguida os revoltosos elegeram o Governo Provisório, composto por 5 membros representantes do exército, clero, comércio, agricultura e magistratura.

A revolta logo teve a adesão do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Padre Roma, devido a sua eloquência e poder de convencimento, foi designado para ir clandestinamente até a Bahia para obter adesão ao movimento. Levou mais de 50 correspondências endereçadas a membros da maçonaria baiana e outros simpatizantes. Depois de velejar numa jangada pela costa de Alagoas até Itapoã, avistou as tropas portuguesas que o aguardava. Jogou todos os papeis no mar, para não incriminar os aliados baianos, e foi preso .Junto com ele, vinha seu filho mais novo, Luis Ignácio. O mais velho, com o mesmo nome do pai e futuro General Abreu e Lima, já estava preso em Salvador.

Foi preso em 26/6/1817 e nos três dias em que foi torturado não entregou os companheiros que contataria em Salvador. A tortura incluía a visita ao cárcere do filho mais jovem nu e estendido sobre a lama, mais parecendo um espectro do que ser vivente. O filho mais velho manifestou o desejo de ver o pai antes do fuzilamento. Seus algozes portugueses foram “bonzinhos” e atenderam o pedido, obrigando-o a assistir o fuzilamento do pai, por ordem do Conde dos Arcos, em 29/6/1817.

Segundo o historiador Pereira da Costa, autor do Dicionário biográfico de Pernambucanos célebres, a morte do Padre Roma foi assim descrita pelo filho Abreu e Lima, presente na execução: “O seu porte em presença do conselho, no oratório e durante o trajeto para o lugar do suplício, foi sempre o de um filósofo cristão, corajoso, senhor de si, mas tranquilo e designado. Suas faces não se desbotaram senão quando o sangue que as tingia correu de suas feridas, regando o solo onde, seis anos depois, se firmou para sempre a independência de sua pátria”. Conta ainda a história que em seus últimos instantes, ele dispensou a venda nos olhos, encarou o pelotão de fuzilamento, pôs a mão sobre o coração e gritou: “Camaradas eu vos perdôo a minha morte. Lembrai-vos que aqui é a fonte da vida!”.

OS BRASILEIROS – LXVI

Linduarte Noronha nasceu em Ferreiros, Pernambuco, em 1930. Advogado, professor, jornalista, critico de cinema e, principalmente, cineasta. Foi o precursor do “Cinema Novo”, na opinião dos cineastas, incluindo Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. Trabalhou como jornalista e critico de cinema nos jornais da Paraíba, onde tomou gosto pela carreira de cineasta. Ainda jovem foi ao Rio de Janeiro para conhecer o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo (1936-1966). Entrou em contato com seu presidente, Humberto Mauro, contou-lhe sobre suas ideias, pretensões e pediu-lhe emprestado uma câmera e outros apetrechos.

O pioneiro do cinema brasileiro achou interessante, mas exclamou entre os presentes: “Esse rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Saiu de lá com uma câmera Bell & Howell, voltou à João Pessoa e passou a filmar sob a chacota dos colegas da redação. Seu primeiro curta-metragem teve origem numa reportagem que fez, em 1958, sobre o trabalho das mulheres numa olaria do sertão, As oleiras do Olho d’Água na Serra do Talhado. O curta Aruanda, lançado em 1959, é um documentário de 20 minutos e conta a história da fundação de um quilombo e retrata a vida do ex-escravo Zé Bento com a família em busca de uma vida melhor. A palavra “aruanda” tem um significado próprio na Umbanda: um lugar utópico, o paraíso da liberdade perdida. A trilha sonora foi definida em conformidade com as imagens, com a escolha genial da comovente canção folclórica “Ô mana deixa eu ir”, recriada por Villa-Lobos.

Depois disso, o cinema brasileiro mudou completamente; inaugurou uma nova estética cinematográfica. Segundo alguns críticos, o filme está para o moderno cinema brasileiro como o romance A Bagaceira está para nosso modernismo literário. O Nordeste, sua realidade, seus mitos, texturas, asperezas, locações e personagens, abria passagem – em 1960 como em 1928, nos filmes como nos livros. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba, a partir dos colegas da equipe de Noronha: Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira, Jurandy Moura, entre outros.

O então jovem crítico baiano Glauber Rocha comparou-o ao cineasta Roberto Rosselini, o papa do neorrealismo italiano. Quando viu o filme, Glauber ficou extasiado: “Como fui burro! Como fui burro!” repetia numa referência ao fato de ter começado com o curta O pátio (1959), que pouca coisa teria ver com os caminhos trilhados posteriormente. Glauber pressentiu que o mapa da mina estava ali e lastimou o fato de não ter seguido aquela pegada. Jean-Claude Bernardet, confirmou dizendo que o filme era “simultaneamente documento e interpretação da realidade”. E disse mais: “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.”

Outro renomado crítico, Paulo Emilio Sales Gomes, dizia que o filme era um manifesto. Na década seguinte, o Cinema Novo e o documentário nacional aplicariam suas lições. Nessa época realizou mais um filme em parceria com Rucker Vieira: Cajueiro nordestino (1962), inspirado numa monografia de Mauro Mota, retratando o ciclo do caju e sua importância para as comunidades da periferia de João Pessoa. Mais tarde, realizou o primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba: Salário do medo (1971). Pouco antes tentou adaptar o romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, mas não dispôs de recursos para tal façanha.

Como o cinema que realizava não era uma atividade lucrativa, e precisando trabalhar, foi Procurador de Justiça e de 1971 a 1991 foi presidente do IPHAEP-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba. Aí batalhou pela preservação dos bens culturais, numa época em que não se dava valor ao patrimônio fossilífero. Teve um importante papel na defesa do Vale dos Dinossauros, hoje este patrimônio paleontológico é protegido pelo Governo. Em 2008, o “Festival Internacional de Documentários – É tudo Verdade” prestou-lhe uma homenagem com a apresentação de seus filmes e seu retrato filmado por Geraldo Sarno, outro mestre do documentário brasileiro. Em 2010 foi homenageado pelos 50 anos de carreira no “Cine Fest Aruanda”, festival de cinema paraibano, que leva o nome do filme que entrou para a história do cinema brasileiro. O cineasta faleceu dois anos depois, em janeiro de 2012. Pouco depois, a Fundação Cultural de João Pessoa deu nome à sua sala de cinema: “Cine Funjope Linduarte Noronha”.

AS BRASILEIRAS

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, Bahia. Militar heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O Pai casou novamente e a madrasta não gostava de seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Quando se deu a independência, em 1822, algumas províncias resistiram às forças do imperador, entre as quais a Bahia contava com grande contingente militar português que não aderiu à independência. O Conselho Interino do Governo da Bahia convocou voluntários para suas tropas. Ela quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, botou roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão para vários combates. Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã.

Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado e comemoração da consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora, pintora e desenhista inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou-se com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham. Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil, bem como em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria 32 (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.

GRANDES BRASILEIROS – LXV

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em 21/4/1851, em Lagarto, Sergipe. Advogado, escritor, crítico literário, poeta, historiador, filósofo, sociólogo e político. Os primeiros estudos se deram em sua cidade natal, na escola do professor Badu. Em 1863 mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Ateneu Fluminense e permaneceu até 1868, quando entrou na Faculdade de Direito do Recife e concluiu o curso em 1873, aos 22 anos. Foi amigo de Tobias Barreto e destacado participante da “Escola do Recife”. Em 1875 elegeu-se deputado por sua província, quando já atuava como crítico literário de vários jornais do Recife e Rio de Janeiro. Seus dois primeiros livros foram publicados em 1878: A filosofia no Brasil e Cantos do fim do século (poesias). Lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910. Neste período manteve estreito convívio com os intelectuais cariocas, com os quais fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Seu apego a literatura resultou na publicação da Introdução à História da Literatura Brasileira, em cinco volumes, em 1882. No entanto perdeu o interesse pela poesia, encerrado em 1883 com a publicação de Últimos harpejos. No mesmo ano publicou também mais dois livros, fruto de seu interesse pelo folclore: O elemento popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil. A partir de 1891, passou a colaborar com artigos para o jornal carioca “Diário de Notícias”, dirigido por seu amigo Rui Barbosa. No mesmo ano, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. Foi um dos primeiros pensadores a se interessar por Antônio Conselheiro, o qual via como missionário vulgar que agregara em torno de si fanáticos depredadores. Seu amigo Euclides da Cunha, tendo sido enviado para Canudos, foi responsável pelo esclarecimento dos fatos ainda nebulosos para muitos intelectuais da época.

Entre 1900 e 1902 foi deputado federal pelo Partido Republicano, trabalhando na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Entre 1911 e 1912 residiu em Juiz de Fora, participando da vida intelectual da cidade. Seu posicionamento ideológico pregava um “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”. Em termos literários não tinha posições definidas: “Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar”. Não obstante sua competência, era conhecido pelo embate violento e intolerante contra outros escritores, intelectuais e políticos, gerando numerosas polêmicas com pessoas conhecidas como Lafayette Rodrigues Pereira e José Veríssimo, Teófilo Braga etc. .

Segundo Antônio Cândido, é considerado como “uma das fontes básicas do pensamento e da literatura nacional”. Como resultado de sua investigação nesse campo, publicou Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira (1888). O interesse pelo aprendizado sociológico inspira os Estudos de Filosofia do Direito (1895) e os Ensaios de Sociologia e Literatura (1901). De 1890 a 1911, publicou, entre outros títulos, o ensaio Machado de Assis (1897), em que faz violenta crítica e mereceu resposta de José Verissimo, em defesa de Machado de Assis. Crítico polêmico, sarcástico, violento em suas afirmações, é considerado hoje, ao lado de Verissimo e Araripe Júnior, um dos criadores da crítica literária no Brasil.

Foi um pesquisador sério e minucioso com uma grande produção bibliográfica, tendo . publicado mais de 70 livros. Preocupou-se, sobretudo, com o levantamento sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas ideias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo. Sua obra principal é A História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, em que expõe “o essencial do que desejava dizer sobre a cultura e mesmo a sociedade de seu país”. A primeira parte do livro é dedicada aos “elementos de uma história natural de nossas letras, as condições de nosso determinismo literário, com as aplicações da geologia e da biologia às criações do espírito”, A segunda parte, por sua vez, “apresenta, em largos traços, o resumo histórico das quatro grandes fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autônomo (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação crítica (de 1870 em diante)”.

Como crítico, condenou o indianismo de autores como Gonçalves Dias e José de Alencar que, segundo ele, apresenta uma visão precária da formação histórica do Brasil, uma vez que há pouca informação sobre a vida real dos indígenas e, portanto, não é possível reconstituí-la com exatidão em romances históricos ou poemas épicos. O sentido da crítica, para ele, não é apenas fazer uma ampla análise e revisão de valores, letras e artes, conforme observa Antonio Candido, mas também de demolir aquilo que julga anacrônico ou contrário à evolução cultural. O caráter muitas vezes polêmico de suas opiniões é decorrência dessa noção da crítica como um elemento para a reforma social e intelectual do país.

O mapeamento que fez da literatura brasileira, de suas origens até o século XIX, é o mais completo e detalhado que se fizera até então, colocando seu autor na posição de fundador dos estudos literários brasileiros. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias. Faleceu em 18/6/1914.

MEMORIAL DO DESABAMENTO

Como todos viram, o centro de São Paulo, abandonado pelo poder público está desabando. Talvez seja a única cidade do mundo, onde o poder público e os negócios vão criando novos centros comerciais e abandonando os velhos. Até há pouco tempo, o novo centro era a Av. Paulista. Agora, dizem que o novo centro é a Av. Faria Lima, que já está se transferindo para a Av. Juscelino Kubitschek. Assim, o centro velho vai ficando inabitável com seus belos e velhos (alguns novos, como o que desabou) e belos prédios.

O pessoal da periferia, muitos sem ter onde morar e outros sem ter como pagar condução até o centro, vão se alojando nestes prédios, formando favelas verticais. Mais de 20 movimentos sociais cuidam da ocupação, sendo que alguns deles se aproveitam das condições precárias dessa população para fazer propaganda política e/ou para ganhar um trocado para os organizadores.

É o caos urbano instalado na maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Muitos lugares, antes passeio público, se tornaram inviáveis ao convívio social e ao comércio regular. Há pouco tempo, foi pensado numa ocupação do centro por órgãos públicos, mas parece que a ideia não progride. Andar à noite nestes lugares é uma temeridade. Aos domingos e feriados o que se vê são ruas desertas, estabelecimentos fechados e umas poucas pessoas perambulando ou dormindo nas calçadas.

Com o desabamento desse prédio, políticos e formadores de opinião vieram com propostas de restauração do centro e soluções para o problema de moradia dos sem tetos. Uma das propostas viáveis é transformar os edifícios públicos abanados em residências populares para, assim, povoar o centro e amenizar o problema da moradia. Alguns arquitetos/urbanistas estão propondo que no lugar do prédio desabado, crie-se uma praça em memória dos que ali viveram e morreram com a tragédia. Não deixa de ser uma proposta salutar essa de criar um espaço para agrupar pessoas e órgãos interessados na reflexão sobre o destino do centro da cidade.

GRANDES BRASILEIROS – LXIV

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em Pilar, Paraíba, em 3/6/1901. Romancista e jornalista, concluiu os primeiros estudos no Colégio de Itabaiana, no Instituto Nossa Senhora do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X, de João Pessoa e nos colégios Carneiro Leão e Oswaldo Cruz, no Recife, onde foi diplomado pela Faculdade de Direito, em 1923. Durante o curso, fundou o semanário “Dom Casmurro” e manteve contatos com o meio literário recifense, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e Gilberto Freyre, de quem recebeu forte influência. Oriundo e criado numa família de senhores de engenho, teve a oportunidade de relatar, nostálgica e criticamente, a transição da época em que viveu.

Em 1924 casou-se com sua prima Philomena Massa, filha do senador Antônio Massa e no ano seguinte ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas ficou pouco tempo no cargo. Em seguida mudou-se para Maceió, onde exerceu as funções de fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Neste período conviveu com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Seus primeiros livros, nomeados de “Ciclo da cana-de-açúcar” refletem a decadência do mundo rural nordestino: Menino de engenho (1932 e premiado pela Fundação Graça Aranha), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O moleque Ricardo (1935) e Usina (1936). É considerado, ao lado de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, um autor prestigiado entre os regionalistas da literatura nacional.

Sua obra regionalista, contudo, não se encaixa somente na denúncia sócio-política, mas, segundo Manuel Cavalcanti Proença, igualmente em sua “sensibilidade à flor da pele, na sinceridade diante da vida, na autenticidade que o caracterizavam. Conforme alguns críticos, ele imprimiu uma nova forma de oralidade na literatura brasileira, praticada pelos modernistas de 1922. Após consolidar seu nome na literatura regional, transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1935, ampliando o leque de amigos, e passou a escrever para os “Diários Associados” e “O Globo”. Por essa época, revelou-se uma faceta pouco conhecida de sua personalidade: a paixão pelo futebol. Foi um grande torcedor do Flamengo e chegou a exercer o cargo de secretário-geral da CBD-Confederação Brasileira de Futebol no período de 1942 a 1954.

Em 1956 entrou para a Academia Brasileira de Letras e logo depois estreou na literatura infanto-juvenil com Histórias da velha Totônia, seu único livro nesta área. Alguns de seus livros foram adaptados para o cinema e muitos deles foram traduzidos em diversos idiomas. Foi um escritor inteiramente despojado de atitudes ou artifícios literários. Ele mesmo se via como um escritor instintivo e espontâneo: “Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas”.

Deixou 23 livros publicados e a imagem de um escritor sério e comprometido com sua terra e seu tempo. Na avaliação dos críticos, ele deixou uma obra que “Bem examinadas as coisas… Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo”, conforme José Ribeiro. Já Wilson Martins não gostou de Fogo Morto e afirmou que o “o livro passa de simples reelaboração do Ciclo da Cana-de-Açúcar, sem nada lhe acrescentar e até tirando-lhe alguma coisa”. No entanto, Alfredo Bosi considerou Fogo Morto a verdadeira “superação” do ciclo da cana-de-açúcar. Numa análise dos personagens, Antônio Candido declarou que “o que torna esse romance ímpar entre os publicados em 1943 é a qualidade humana dos personagens criados: aqui, os problemas se fundem nas pessoas e só têm sentido enquanto elementos do drama que elas vivem.”

Outro respeitado crítico, Massaud Moisés, fez questão de colocar Fogo morto entre os livros dos anos 30, muito embora tenha sido lançado em 1943, pela razão da obra ser uma expressão “acabada do espírito do projeto estético e ideológico regionalista característico daquela década”. Parece haver um consenso, no qual sua obra caracteriza-se, particularmente, pelo extraordinário poder de descrição. “Reproduz no texto a linguagem do eito, da bagaceira, do nordestino, tornando-o o mais legítimo representante da literatura regional nordestina”. Faleceu em 12/9/1957.

GRANDES BRASILEIROS

Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda nasceu em 23/4/1892, em Maceió, AL. Jurista, filósofo, matemático, sociólogo e diplomata, mas foi no campo do Direito onde mais se destacou. Criança precoce, aos sete anos lia em francês e português. Aos 16 anos ganhou do seu pai uma passagem para ir estudar matemática e física na Universidade de Oxford, mas preferiu seguir o conselho da tia: estudar na Faculdade de Direito do Recife. A escolha não o impediu de destacar a importância da matemática em suas obras. Inclusive esta era sua primeira tendência, por causa de seu avô Joaquim Pontes de Miranda, formado em direito, mas grande matemático.

No segundo ano da faculdade iniciou seu primeiro livro, escrito a mão, intitulado “À Margem do Direito”, elogiado por Ruy Barbosa. Diplomado em 1911, no mesmo ano em escreveu o “Ensaio de Psicologia Jurídica”, o qual foi novamente elogiado pelo jurista baiano. Começou a escrever o “Tratado de Direito Privado” em 1914, buscando livros da Rússia, Índia e de outros países e coletando mais de três mil monografias, tratados de direito civil, de direito criminal e de direito antigo. Lançou o 1º volume somente em 1954. Uma obra monumental de 60 volumes, que foi concluída em 1970. Numa entrevista de 13/3/1978, disse que apesar de considerarem esta a sua melhor obra, preferia dar ênfase ao seu “Tratado das Ações”, de 10 volumes. Como se vê é um escritor prolífico não apenas no número de volumes. De sua lavra saíram 88 títulos de livros dedicados não apenas ao Direito. Não se trata apenas de quantidade, seus primeiros textos foram elogiados por juristas literatos, como Clóvis Beviláqua e Ruy Barbosa, e pelo crítico literário José Veríssimo. O livro “A sabedoria dos instintos”, recebeu, em 1921, o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Em 1925 a ABL voltou a premiá-lo pelo livro “Introdução à sociologia geral”.

Sua predileção pela Matemática, herdada do avô, levou-o mais tarde a lançar mão de célebres equações – desde então identificadas como “equações pontianas” – para expressar seu pensamento. Na área da Física, fez algumas restrições à teoria de Einstein, por exemplo, sobre sua afirmação do encurvamento do espaço. Entrou em contato com o ilustre físico, do qual recebeu a sugestão que ele escrevesse uma tese sobre a representação do espaço e a enviasse para o Congresso Internacional de Filosofia, que se reuniria em Viena, em 1924. Não chegou a acatar o conselho de Einstein, e tudo leva a crer que esta não era sua praia. Sua curiosidade científica não chegou a tanto. A ciência levou-o naturalmente ao agnosticismo, mas isso não impediu de ser amigo do Papa João XXIII. Antes de encontrá-lo, mandou dizer-lhe que não era católico, mas o Papa respondeu que existem muitos católicos no inferno e que o considerava um verdadeiro franciscano. Mais tarde, em 1975, converteu-se ao catolicismo

Escritor compulsivo e Influenciado pela filosofia alemã, através dos colegas oriundos da “Escola do Recife”, introduziu novos métodos e concepções em diversas áreas do Direito brasileiro. Ingressou na magistratura em 1924, como juiz de órfãos e em seguida como desembargador do antigo Tribunal de Apelação do Distrito Federal (RJ). Na mesma época, representou o Brasil em duas conferências internacionais: Santiago do Chile e Haia. Tais experiências, levaram-no para a carreira diplomática em 1939, quando foi embaixador na Colômbia. No entanto, convidado para ser embaixador da Alemanha, declinou do cargo, por ser a era de Hitler e contra governos ditatoriais.

Permaneceu representando o País em conferências internacionais até 1943, quando passou a se dedicar às atividades de parecerista e escritor. É considerado o parecerista mais citado na jurisprudência brasileira. Não obstante sua atuação expressiva na área do Direito, foi um pensador social, poeta e romancista reconhecido. A produção bibliográfica na área estritamente literária levou-o à Academia Brasileira de Letras em 1979, sucedendo Hermes Lima na cadeira nº 7, onde foi recebido por Miguel Reale. Faleceu em 22/11/1979. Pouco mais de um ano depois, foi agraciado a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública de Portugal, em 10/2/1981. São diversos os títulos e homenagens que lhe foram prestadas em vida e após seu falecimento. Foi professor honoris causa da Universidade de São Paulo, Universidade do Brasil, Universidade do Recife, Universidade Federal de Alagoas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Em 1994 foi criado o “Memorial Pontes de Miranda” da Justiça do Trabalho em Alagoas (MPM), instituído pelo Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região, com o objetivo de preservar e divulgar sua obra, bem como a história da Justiça do Trabalho em Alagoas. O museu ocupa o 3º andar do edifício do Tribunal Regional do Trabalho, Conserva um conjunto de objetos pessoais, incluindo sua máscara mortuária, documentos, fotografias, insígnias, móveis e outros itens. Em 1999, a revista Istoé realizou uma enquete em âmbito nacional para eleger o “Jurista do Século”. Pontes de Miranda foi o mais votado.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – XVI

Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, RN, em 30/12/1898. Historiador, antropólogo, advogado, tradutor, jornalista e um dos mais importantes pesquisadores da cultura brasileira, de suas raízes étnicas. Ficou famoso com sua dedicação ao o folclore nacional e diversos livros na área. Aprendeu a ler antes de ir para a escola e fez os primeiros estudos no Atheneu Norte Riograndense. Cursou Medicina até o 4º ano em Salvador e Rio de Janeiro, mas formou-se em Etnografia, na Faculdade de Filosofia do Rio Grande do Norte e em Direito, na Faculdade do Recife, em 1928.

No ano seguinte, casou-se com Dhália Freire, com quem teve dois filhos. Começou como jornalista e teve seu primeiro trabalho publicado, em 1918, no jornal “A Imprensa”, de seu pai, o coronel Francisco Cascudo. Foi uma crônica intitulada “O tempo e eu”. Colaborou com diversos jornais de Natal e manteve seções diárias nos jornais “República” e “Diário de Natal”, numa coluna chamada “Bric-a-Brac” (bagunça, geringonça, desmantelo) até 1960. Aos 23 anos teve seu primeiro livro – Alma patrícia – publicado, um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores. Foi professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito do Recife e de Etnografia Geral, na Faculdade de Filosofia, em Natal. Quase chegou a ser demitido do cargo por estudar figuras folclóricas como o lobisomem.

Na política, foi monarquista no inicio e combateu a crescente influência marxista no Brasil, quando Natal foi palco da Intentona Comunista de 1935. Aderiu ao integralismo e foi chefe regional do movimento da “Ação Integralista Brasileira”, movimento nacionalista liderado por Plínio Salgado. Pouco depois, desencantou-se com essa doutrina política e já durante a II Guerra Mundial ficou com os “Aliados”, demonstrando sua repulsa aos fascistas italianos e nazistas alemães. Manteve-se, porém, aliado ao anticomunismo e não se opôs ao Golpe Militar de 1964. No entanto, ajudou diversos conterrâneos perseguidos pelos militares. Sua produção bibliográfica é extensa, com mais de 70 livros, muitos dos quais reeditados até hoje, incluindo obras básicas, como Antologia do folclore brasileiro (1943), Dicionário do folclore brasileiro (1943), Geografia dos mitos brasileiros (1947), História da alimentação no Brasil (1967), Antologia da alimentação no Brasil (1967), Ensaios de etnografia brasileira (1971), e livros clássicos, como Rede de dormir (1959), Vaqueiros e cantadores (1959), Preludio da cachaça (1967), Ensaios de etnografia brasileira (1971) entre outros. A Editora Global mantém em seu catálogo 45 títulos de sua autoria.

Passou toda a vida em Natal, onde é mantido o “Ludovicus: Instituto Câmara Cascudo”, na casa onde viveu, instalada na avenida que leva seu nome. Ludovicus é Luis em latim, idioma que ele dominava com perfeição. Não é o local da brincadeira, como pode parecer, mas não deixa de ser apropriado devido ao caráter de suas pesquisas. Foi agraciado com dezenas de prêmios e horarias, tendo seu nome em diversos logradouros de todo o País. Em 1991, a Casa da Moeda emitiu a cédula de 50 mil cruzeiros com sua efígie, que ficou em circulação por apenas três anos, devido reforma monetária. Sua vida foi esmiuçada em diversas biografias, com destaque para Viagem ao universo de Câmara Cascudo (1969), de Américo de Oliveira Costa e Luis da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, (1970) de Zila Mamede. Faleceu em 30/7/1986

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – XVII

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 27/10/1892. Escritor, cronista, jornalista e tradutor. Aos dois anos, a família mudou-se para Buique (PE), onde realiza os primeiros estudos. Em 1904, muda-se para Viçosa (AL), continua os estudos e cria um jornalzinho “O Díluculo”, dedicado às crianças. Em seguida passa a redigir outro jornal “Echo Viçosense”. No ano seguinte, a família mudou-se para Maceió, onde foi estudar no Colégio 15 de Março. Em 1909, passou a colaborar no “Jornal de Alagoas” usando alguns pseudônimos para a poesia e outros para a prosa. Em 1910, muda-se para Palmeira dos Índios (AL) e continua suas colaborações com o “Correio de Maceió” e a revista “O Malho”, do Rio de Janeiro.

Concluído o 2º grau, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa a trabalhar como revisor nos jornais “Correio da Manhã”, “A Tarde” e “O Século”. Ao mesmo tempo mantém uma colaboração com o “Jornal de Alagoas” sob as iniciais R.A (Ramos de Oliveira). Como se vê, era uma pessoa que não gostava de aparecer. Em setembro de 1915, ocorreu uma epidemia de peste bubônica em Palmeira dos Índios e vitimou 3 de seus irmãos e um sobrinho. O fato fez com que voltasse àquela cidade, onde passou a viver como jornalista e comerciante junto com o pai. No mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que veio a falecer 5 anos depois, deixando-lhe 4 filhos.

Na condição de jornalista e filho de um comerciante conhecido na cidade, entrou para a política e foi eleito prefeito em 1927. Empossado no ano seguinte, exerceu o cargo por 2 anos, até abril de 1930. Em sua administração, realizou uma profunda reforma no sistema de ensino público e soltava os presos para construírem estradas. Tendo que prestar contas de suas atividades, enviou ao governador Álvaro Paes um “Resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, que foi publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas. O texto do relatório revela a verve do escritor ao abordar assuntos rotineiros de sua administração. No ano seguinte, envia outro relatório com a verve literária ainda mais aguçada. Tais relatórios chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar seu primeiro romance, Caetés (1933), um livro que vinha escrevendo desde 1925. Em seguida, renunciou ao cargo e passa a viver em Maceió, onde é nomeado diretor da Imprensa Oficial. Aí encontrou mais tempo para se dedicar a literatura e também para namorar e casar com Heloisa Medeiros.

O “Mestre Graça”, como era conhecido entre os amigos, não era de “esquentar cadeira”. Logo depois do segundo casamento; pediu demissão da diretoria da Imprensa Oficial; voltou a morar em Palmeira dos índios; criou uma escola no interior da sacristia da Igreja Matriz e iniciou os primeiros capítulos do segundo romance – São Bernardo -, publicado em 1934. Mas, quando estava para sair o terceiro, foi preso em março de 1936, acusado de participar do movimento “Intentona Comunista de 1935”. A prisão, que durou 10 meses, foi bastante profícua em termos literários. Nesse período foram gestados o romance Angústia, que, segundo alguns críticos é seu romance mais profundo; o conto Baleia, que daria origem ao romance Vidas Secas, em 1938, seu livro mais conhecido do grande público e sua conhecida obra autobiográfica Memórias do cárcere, publicado postumamente em outubro de 1953. Trata-se do mais contundente relato das violências ocorridas nas prisões da ditadura Vargas.

Nelson Pereira dos Santos, que já havia filmado Vidas secas em 1963, fez um levantamento de nada menos que 237 personagens, com os quais ele dividiu celas no navio-prisão “Manaus”, com destino ao Rio de Janeiro; na Colônia Correcional de Ilha Grande e na Casa de Detenção. O levantamento foi utilizado para a filmagem de Memórias do cárcere, em 1984, uma das obras primas do cineasta. São 237 nomes de presos políticos e comuns retirados do anonimato. O livro, em 4 volumes, chegou a causar problemas com a cúpula do Partido Comunista, cujo relato expunha alguns procedimentos não recomendados praticados pelo “partidão” e teve a interferência da família para manter a obra tal como foi escrita pelo autor.

Solto em 1937, passou a viver no Rio de Janeiro, publicou Vidas secas (1938) e voltou ao magistério como inspetor federal de ensino. Trabalhou também como copidesque em alguns jornais do Rio de Janeiro. Em maio a “Revista Acadêmica” dedicou-lhe uma em edição especial (ano 3, nº 27) com 13 artigos. No mesmo ano recebeu o prêmio “Literatura Infantil”, do Ministério da Educação, pelo livro A terra dos meninos pelados. Em 1940, começou a entrar em contato com o Partido Comunista, através da revista “Diretrizes”, junto com Álvaro Moreira, Joel Silveira, José Lins do Rego. A ficha de afiliação seria assinada em 1945. Na comemoração de seus anos, em 1942, o romance Brandão entre o mar e o amor, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, foi publicado pela Livraria Martins. No mesmo ano, reaparece o memorialista com o lançamento do livro Infância. Por essa época, recebeu um aporte crítico de peso. Antonio Cândido publicou uma série de 5 artigos sobre sua obra no jornal “Diário de São Paulo”, obtendo uma resposta do autor. O material transformou-se no livro Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos.

Em 1951 foi eleito presidente da UBE-União Brasileira de Escritores e, no ano seguinte, junto com a esposa, empreende uma viagem pela Europa, que se estende até a Rússia. Tais viagens foram relatadas no livro de crônicas: Viagem, publicação póstuma da Ed. José Olympio em 1954. Em seguida viajou até Buenos Aires, onde foi submetido a um tratamento de pulmão. Foi operado, mas os médicos não ficaram otimistas com o resultado. O aniversário de 60 anos foi lembrado em sessão solene da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde foi representado por sua filha Clara Ramos. Em janeiro de 1953, foi internado na Casa de Saúde São Vitor, onde vem a falecer vitimado por um câncer, em 20 de março. Mestre Graça teve alguns livros publicados e muitas homenagens e prêmios postumamente. Vale destacar: Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA), tendo o Vidas secas, como livro representativo da literatura brasileira contemporânea (1962); Prêmios “Catholique International du Cinema” (Paris) e “Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação para o cinema de Vidas Secas (1964); Personalidade Alagoana do Século XX (2000); Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras (2003) e em 2013 foi escolhido pelo Governo Federal para O PNBE-Programa Nacional Biblioteca da Escola, com o livro Memórias do cárcere.

Ainda em 2013, em comemoração os 120 anos de seu nascimento, a Editora Record publicou toda sua obra e um livro inédito: Garranchos, com mais de 80 textos produzidos entre 1910-1950. Ao mesmo tempo, a editora realizou, em São Paulo, Belo Horizonte e Recife, seminários sobre o autor. No ano seguinte, a mesma editora publicou o livro Conversas, com 45 entrevistas, enquetes, ”causos” e depoimentos do autor, permitindo a visão de outro Graciliano Ramos, para além da imagem de um homem calado e avesso ao convívio social. No mesmo ano, foi o autor homenageado na FLIP-Festa Literária Internacional de Parati.