OS BRASILERIOS (XI) – ASSIS CHATEAUBRIAND

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, em 4/10/1892. Jornalista, advogado, empresário, escritor e político. O nome Chateaubriand é prenome e não sobrenome familiar. Seu avô paterno, apreciador do escritor francês François Chateaubriand, registrou os filhos com o prenome Chateaubriand. Teve uma infância difícil, com problemas psicológicos, devido a uma gagueira e uma grande timidez. A família mudou-se para Belém do Pará e deixou-o aos cuidados do avô materno. Na convivência com os avós, melhorou bastante e voltou a viver com seus pais, em 1901, quando se estabeleceram no Recife. Foi alfabetizado em casa, aos 10 anos, pelo tio, utilizando antigos exemplares do “Diário de Pernambuco”. O destino de jornalista e magnata da imprensa estava sendo traçado.

Em fins de 1903, foi estudar em Campina Grande (PB), indo morar com seu tio e padrinho Chateaubriand Bandeira de Melo. Em novembro de 1904, retornou ao Recife e prestou exame de admissão na Escola Naval. O curso secundário foi realizado no tradicional Ginásio Pernambucano. Por esta época passou a estudar alemão com os frades do convento de São Francisco e tornou-se um leitor compulsivo. Com o destino de jornalista traçado, seu primeiro emprego foi na “Gazeta do Norte”, recortando anúncios classificados. Em 1908, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e, durante o curso, foi trabalhar como aprendiz de repórter no jornal “A Pátria”. Trabalhou também no “Jornal do Recife”, no “Diário de Pernambuco” e no “Jornal Pequeno”. Aos 21 anos, ao formar-se em Direito, já era editor e redator-chefe do “Diário de Pernambuco”, cujo proprietário era o conselheiro Rosa e Silva, influente político da época. Em novembro de 1911, teve que pegar em armas para se defender da multidão que se aglomerava na porta do jornal em protesto contra a vitória eleitoral de seu patrão.

Em 1915, na busca de novos horizontes, foi para o Rio de Janeiro e estabeleceu amizades com pessoas influentes. Colaborou nos jornais “A Época”, “Jornal do Commercio”, “Correio da Manhã” e na edição vespertina d’ “O Estado de São Paulo”. Seu sonho era “adquirir um jornal, como primeiro elo de uma cadeia”. Para conseguir o dinheiro, instalou uma banca de advocacia e com seu bom relacionamento com pessoas importantes, conseguiu vários clientes e associados. Chegou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como consultor para leis de guerra, no governo Nilo Peçanha, mas deixou o cargo para ser redator-chefe do Jornal do Brasil.

A carreira de jornalista foi se consolidando até 1919, quando foi convidado pelo “Correio da Manhã” para ser correspondente internacional na Europa.

De volta ao Brasil, adquiriu o “O Jornal” em setembro de 1924, dando início à cadeia nacional de jornal e rádio dos “Diários Associados”, que iria revolucionar o jornalismo brasileiro, inovando a imprensa, modernizando equipes, processos e veículos. Chateaubriand casou-se uma vez apenas, com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral. Teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a uma jovem de nome Corita, com quem teve uma filha. Logo depois, a jovem decidiu deixá-lo e levou a filha com ela. Ele ficou enfurecido e sequestrou a própria filha. O caso foi parar na polícia e ele ficou acuado. Foi quando proferiu uma de suas frases célebres: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Assim, conseguiu de Getulio Vargas a promulgação de um decreto que lhe deu direito à guarda da filha.

Em seguida, incorporou a sua cadeia o “Diario de Pernambuco”, o jornal mais antigo em circulação na América Latina, onde havia iniciado a carreira. Chatô, como alguns o chamavam, tornou-se uma personalidade conhecida aqui e no exterior, respeitado e temido pelos poderosos. A partir de seu poderio, esse self-made man à brasileira, perfeito Cidadão Kane tropical, exerceu enorme influência política brasileira, sobretudo por ter apoiado a Revolução de 30, que levou o Getúlio Vargas à presidência do país. Desenvolveu com Getúlio uma proximidade contraditória, de apoios e reveses, e agiu empresarialmente com uma ética própria, ameaçando ou gratificando inimigos e aliados, inclusive lançando campanhas contra ou a favor deles em seus jornais. Farto de ver seu nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chateaubriand devolveu: “Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Sua ligação com Vargas durou pouco. Na Revolução Constitucionalista de 1932, tomou partido por São Paulo e teve que ser exilado por algum tempo.

Participou de todas as grandes campanhas de opinião de seu tempo. Além dos “Diários Associados” chegou a possuir dez fazendas agropecuárias e laboratórios farmacêuticos. Seus empreendimentos chegaram a abranger 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 emissoras de TV, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis e a editora O Cruzeiro. Comandava o império das comunicações com mão de ferro. Conta-se que seu funcionário, o escritor Joel Silveira, escreveu um editorial que ele não gostou e chamou-o ao seu gabinete. “Como é que o sr. escreve um negócio desse?” indagou de modo ríspido. “Bem, é essa a minha opinião. O sr. não gostou?”. “Não, sr. Joel. Não gostei e vou lhe dizer uma coisa: se quiser ter opinião, o senhor adquira um jornal. Quem tem opinião aqui sou eu”. Ficou conhecido, também, como o cocriador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi. Negociou belos quadros no mundo todo e depois pedia aos grandes empresários para pagarem. Dizia que eles estavam doando ao futuro museu. Se não quizessem pagar, poderiam sofrer uma campanha difamatória através de seus jornais e revistas. A coleção foi colocada, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek, sob a gestão de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Diários Associados.

Seu maior feito na área das comunicações, foi trazer a televisão para o Brasil ao criar a TV Tupi em 1950. Na época o aparelho de TV era quase inexistente no Brasil e a criação da emissora representou uma revolução nas comunicações. No campo pessoal, serviu para seu criador alçar novos patamares, lançando-se na política. Em 1952, foi eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas. Seu posicionamento político era controverso como tudo em sua vida. Embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, tinha uma postura pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o americano. Admirava tanto a Inglaterra que renunciou ao mandato de senador do Maranhão para se tornar embaixador naquele país.

Era temido pelas campanhas jornalísticas que promovia, como a defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás. Na área literária propriamente dita, não escreveu nada. Porém, publicou cerca de 12 mil artigos assinados em seus jornais. Não havia um dia sequer que não saisse um texto seu na imprensa. Na literatura e na pintura abriu seus jornais para nomes ainda desconhecidos que depois se tornaram grandes: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari entre outros. Tal influência neste métier levou-o à Academia Brasileira de Letras, em dezembro de 1954.

Suas duas últimas criações foram o jornal “Correio Braziliense” e a TV Brasília, fundadas em 21 de abril de 1960, no mesmo dia da fundação de Brasília. Meses depois, sofreu um derrame cerebral ficando totalmente paralítico. Mesmo assim, viajou muito dentro e fora do País, mantendo-se informado de tudo e dirigindo suas empresas e jornais. Comunicava-se apenas por balbucios e por uma máquina de escrever adaptada. Suas últimas ações foram dirigidas a criação de um museu de arte em sua terra. Em agosto de 1967 entregou ao reitor da Fundação Universidade Regional do Nordeste (hoje Universidade Estadual da Paraíba- UEPB), o primeiro acervo do Museu Regional de Campina Grande, com 120 peças. Em seguida, o museu passou a ser chamado de “Museu de Arte Assis Chateaubriand”. Faleceu em 6/4/1968 e foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo Pietro Maria Bardi, organizador do acervo do MASP, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Junto com ele morria também seu império que se esfacelava diante do surgimento do reinado de Roberto Marinho. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo, onde foi sepultado no Cemitério do Araçá.

Deixou os Diários Associados para um grupo de vinte e dois funcionários, atualmente liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados é, conjuntamente, o terceiro maior grupo de comunicações do país. Tendo como carro chefe cinco jornais em grandes cidades do Brasil. Sua memória encontra-se registrada na biografia escrita por Fernando Moraes – Chatô, o Rei do Brasil – publicada em 1994, na qual são narrados sem retoques os expedientes pouco ortodoxos por ele utilizados para construir seu império jornalístico. Foi retratado, também, no cinema. Marcos Manhães Marins escreveu, e dirigiu o filme Chateaubriand: Cabeça de Paraíba, em 2000, tendo sido selecionado para quinze festivais e mostras no Brasil e no exterior. Antes disso, o ator Guilherme Fontes, travestido de diretor cinematográfico, decidiu adaptar a biografia escrita por Fernando Morais para o filme homônimo. O filme levou 20 anos para ser realizado, devido a interrupções por falta de verbas para sua conclusão, mas lançado em 2015.



AS BRASILEIRAS (VI): BERTHA LUTZ

Bertha Maria Julia Lutz nasceu em São Paulo, em 2/8/1894. Bióloga, advogada, política, feminista e líder na luta pelos direitos das mulheres brasileiras. Filha de Adolfo Lutz, cientista e pioneiro da Medicina Tropical e da enfermeira inglesa Amy Fowler. Ainda adolescente, foi completar os estudos na Europa, onde entrou em contato com a campanha sufragista inglesa pelo direito das mulheres ao voto. Formada em ciências naturais, pela Faculdade de Ciências de Paris (Sorbonne), em 1918, com especialização em anfíbio anuro.

De volta ao Brasil, prestou concurso para bióloga do Museu Nacional, em 1919, onde passou em primeiro lugar. Foi a segunda mulher brasileira a ingressar, por concurso, no serviço público. No mesmo ano, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e deu inicio ao movimento pelo direito ao voto das mulheres no país. Em 1922 viajou para os EUA para participar da Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, e foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Em seguida, batalhou pela criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada no mesmo ano. Ainda em 1922, como delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, garantiu o ingresso das meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.

Em 1929, participou ativamente da criação da União Universitária Feminina. Três anos após, criou a Liga Eleitoral Independente e a União das Funcionárias Púbicas. Por esta época passou a estudar Direito e formou-se advogada em 1933, pela atual UFRJ, e tentou ser professora com a tese “A Nacionalidade da Mulher Casada” perante o Direito Internacional Privado”, em que abordava a perda da nacionalidade feminina quando a mulher se casava com um estrangeiro. Não conseguindo o intento, publicou o livro “A nacionalidade da mulher casada”. No mesmo ano, representou o Brasil na Conferência Interamericana de Montevidéu, marco do início de seu trabalho diplomático pelo país, continuado posteriormente em representações na Conferência Internacional do Trabalho, realizada nos EUA em 1944, e, posteriormente, como militante nas conferências mundiais realizadas pela ONU.

Após duas tentativas como candidata, foi eleita suplente para deputada federal em 1934, Dois anos depois, assumiu o mandato na vaga deixada por Cândido Pessoa. Suas bandeiras de luta parlamentar eram mudanças na legislação do direito feminino ao trabalho; contra o trabalho infantil; direito a licença maternidade e a equiparação de salários e direitos entre homens e mulheres. Além disso, foi ativa na defesa da pesquisa científica, da proteção à natureza e conservação da fauna e da flora brasileira. Como se vê, foi também uma pioneira do movimento ecológico. Em 1937, com o golpe do Estado Novo, retomou sua carreira como chefe do Setor de Botânica do Museu Nacional, que ocupou até aposentar-se, em 1965.

Em 1945, integrou a delegação do Brasil à Conferência de San Francisco (EUA), convocada para a criação da ONU. Durante a reunião, se empenhou para assegurar que a Carta da ONU fosse revista periodicamente, mas seu grande feito foi o trabalho de apoio político ao delegado da África do Sul, General Smuts, a fim de que o preâmbulo da Carta fosse redigido mediante o compromisso com a igualdade, entre homens e mulheres e entre as nações. Dois anos após, trouxe para Brasil o Movimento Internacional Soroptimista, integrado por mulheres pioneiras e empreendedoras. O nome “soroptimista” significa “o melhor para as mulheres”. Por tal iniciativa foi eleita “Mulher das Américas” pela União das Mulheres Americanas, em 1951.

Devido a sua participação na criação da ONU, foi convidada pelo Itamaraty a integrar a delegação brasileira à 1ª Conferência Internacional da Mulher, realizada no México, em junho de 1975. Nesta Conferência foram criados o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) e o Instituto Internacional de Treinamento e Pesquisa para a Promoção da Mulher (INSTRAW), “constituindo o quadro institucional para a investigação, formação e as atividades operacionais na área de mulheres e desenvolvimento.”

Esta foi sua última participação pública. Nunca se casou, talvez devido a dificuldade de conciliar tantas atividades com os compromissos de um casamento. Faleceu em 16/9/1976 e seu nome passou a denominar um anfíbio que ela descreveu em 1958: “Paratelmatobius lutzii”. Descobriu uma dezena de espécies anfíbias, dentre elas o “sapo-boi”, que recebeu o nome “Eleutherodactylus hoehnei Lutz”. Em 2017 foi mais uma vez homenageada com a nomeação de uma espécie rara de perereca: “Aplastoduscus lutzorum”.

Além das homenagens científicas, em 2001 o Senado Federal criou o “Diploma Mulher Cidadã Bertha Lutz”, outorgado anualmente, no Dia Internacional da Mulher, a cinco destacadas mulheres. O Diploma foi criado a partir de uma Resolução apresentada pela Senadora Emília Fernandes. Atualmente não vejo o movimento feminista brasileiro falar de seus feitos e contribuições à causa, mas a comunidade científica tratou de erigir um museu virtual, dedicado à sua atuação política e científica. Trata-se do “Museu Bertha Lutz”, desenvolvido na Universidade de Brasília, com apoio do CNPq. 



OS BRASILEIROS X – JOAQUIM NABUCO

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/ 1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os 8 anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, fez os 3 primeiros anos do curso de Direito e formou-se no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem para a Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantropa Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Anti-escravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse executado, hoje o Brasil seria outro.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que Joaquim Nabuco, ao lado de Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil que, na época, tinha a religião católica como oficial, constituindo-se em um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi conduzido, com solenidade excepcional, para o cemitério, e depois foi trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até o momento. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946, de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais importantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco e sua estátua frente ao Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910:

Na primeira foto: Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus. Na segunda: O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja.

Na primeira foto: Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe. Na segunda: As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco.



AS BRASILEIRAS IV – EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE

Eufrásia Teixeira Leite nasceu em Vassouras, RJ, em 1850. Investidora financeira, filantropa e feminista quando nem se cogitava o surgimento dessa palavra. Filha caçula de Joaquim José Teixeira e Ana Esméria Correia e Castro, neta paterna do Barão de Itambé, neta materna do Barão de Campo Belo, sobrinha do Barão de Vassouras e sobrinha-neta do Barão de Aiuroca. Estudou na escola de moças de Madame Grivet, em Vassouras e, além do ensino básico, aprendeu boas maneiras, falar o francês e a tocar piano. Digna representante da aristocracia brasileira do Segundo Império.

Com a morte dos pais, em 1872, ela e sua irmã passaram a administrar a herança, uma fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis). Na época equivalia a 5% das exportações brasileiras e dava para comprar 1.850 quilos de ouro. No ano seguinte, com a morte da avó, a baronesa de Campo Belo, foram acrescidos mais 106:848$886 (106 contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) na forma de títulos e escravos, que logo foram vendidos. Era grande amiga da Princesa Isabel e não queria saber de escravos em suas propriedades. A irmã faleceu em 1899 e ela teve que administrar o patrimônio sozinha.

Antes disso, a cultura do café em Vassouras entrou em crise, devido ao esgotamento do solo, mas os bens das irmãs não se restringiam as fazendas de café. As irmãs possuíam apólices de títulos da dívida pública, ações do Banco do Brasil, depósitos bancários, títulos de crédito de pessoas, uma casa no Rio de Janeiro e uma grande propriedade urbana em Vassouras, atualmente conhecida como Chácara da Hera. Jovens e solteiras, venderam as ações, os títulos e a casa do Rio de Janeiro, cobraram créditos, alforriaram os escravos, fecharam a casa da chácara, deixando dois empregados incumbidos de sua conservação, e partiram, em 1873, para residir em Paris.

Na viagem, conheceu no navio o diplomata Joaquim Nabuco e iniciaram um namoro que durou 14 anos. Não progrediu devido, talvez, ao fato dele não aceitar a total independência de uma mulher numa época excessivamente patriarcal. Mas ela deixou marcas indeléveis em seu coração. Uma de suas frases, que deixou à posteridade: “O coração após certo momento da vida é qual palimpsesto; nada se pode escrever nele sem primeiro raspar o texto da época anterior” certamente refere-se àquele namoro. Foi a história de um grande amor, tendo a maior parte passada na Europa e nas cartas trocadas. Conta-se que as cartas que recebeu dele foram enterradas junto com ela em seu túmulo. Já as que ela enviou, estão guardadas no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Dois anos após a última carta, em 1889, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Ela jamais se casou.

Em Paris, instalou-se num “hotel particulier”, próximo ao Arco do Triunfo e passou a conviver com elite social parisiense, integrando o círculo das amizades próximas a Princesa Isabel. Herdou o espírito empresarial da família e era dotada de um apurado talento na área financeira. Em pouco tempo multiplicou seu capital no mercado financeiro. Comprou ações das empresas que produziam as novas tecnologias da segunda Revolução Industrial, como indústrias extrativistas e de transformação, companhias ferroviárias, bancos etc. Dizem que foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris. No Brasil comprou ações do Banco do Brasil, Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, Banco Mercantil do Rio de Janeiro, Companhia América Fabril, Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, Companhia Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Companhia Antártica Paulista, Viação Fluminense, Companhia Docas de Santos e das primeiras companhias ferroviárias que se instalavam aqui. Entre 1874 e 1928 veio somente duas vezes ao Brasil

Retornou definitivamente, aos 78 anos, e passou a viver reclusa na Chácara da Hera. Sua reclusão ficou acentuada quando comprou a chácara do Dr. Calvet, ao lado da sua, apenas para manter-se longe dos vizinhos. Viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, num apartamento em Copacabana, cercada de empregados fiéis, excêntrica e solitária, onde faleceu em 1930. Sem descendentes nem ascendentes, seu primeiro testamento legava toda a fortuna para o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, que mantinha diversos estabelecimentos escolares no Brasil, e Santa Casa de Misericórdia de Vassouras. Um segundo testamento, feito às vésperas de sua morte, legou praticamente toda sua fortuna para obras de caridade, a serem realizadas por instituições da cidade de Vassouras.

Após uma grande disputa judicial movida pela família alegando uma suposta insanidade física e mental, o processo seguiu até 1937, quando um decreto presidencial – determinando que seriam herdeiros apenas os parentes colaterais até segundo grau – impediu parte dos herdeiros deserdados de terem acesso àquela fortuna. Em agosto do mesmo ano, os herdeiros deserdados tentaram reabrir o processo judicial de impugnação do testamento, o que veio a causar um tumulto na cidade. A população de Vassouras revoltou-se, fechou o comércio, cercou o fórum durante as audiências e ameaçou os advogados. O juiz chamou a polícia, mas o delegado disse que os policiais tinham saído da cidade. Os advogados tiveram que fugir pelos fundos do fórum. Assim, os principais beneficiários da herança foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração entre outras instituições. Valores menores foram legados para a Fundação Osvaldo Cruz, alguns primos e empregados domésticos. Dinheiro em espécie foi destinado aos pobres e mendigos da cidade.

O testamento tem várias exigências que vieram prejudicar sua finalidade, devido a fatos posteriores imprevisíveis. Todos os bens foram legados sob cláusulas de inalienabilidade e da insubrogabilidade que deviam protegê-los. Os valores obtidos com as vendas das ações foram aplicados em apólices do Tesouro Nacional, cujos juros deveriam financiar as instituições criadas. Entretanto, a hiperinflação brasileira destruiu o valor original das apólices do Tesouro. Como resultado, a Santa Casa e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite passaram e ainda passam por séria crise financeira. Uma das cláusulas do testamento estabelece “conservar a Chácara da Hera com tudo que nela existisse no mesmo estado de conservação, não podendo ocupar ou permitir que fosse ocupada por outros”.

Devido a esta cláusula, a residência foi preservada, tornando-se hoje o “Museu Casa da Hera”, considerado o melhor exemplo preservado de habitação urbana de famílias ricas do vale do Paraíba do Sul no século XIX. O museu encontra-se aberto ao público e constitui-se num dos principais pontos turísticos da cidade. Em 2010 a história dessa mulher foi contada na forma de um romance escrito por Claudia Lage; Mundos de Eufrásia, publicado pela Record. Ainda não li o romance, mas creio que sua vida se encontra entre aquelas onde a realidade supera a ficção. Mais tarde, Ana Maria Machado publicou seu décimo romance enfocando o relacionamento de Eufrásia com Joaquim Nabuco: Um mapa todo seu (2015). Assim, fica constatado que a vida da “Dama dos diamantes negros” não cabe numa simples biografia.



OS BRASILEIROS IX – OTTO CARPEAUX

Otto Maria Carpeaux

Otto Karpfen nasceu em Viena, Áustria, em 9/3/1900. Ensaísta, crítico literário e de artes, jornalista, doutor em filosofia, estudou matemática (em Liepzig), sociologia (em Paris), literatura (em Nápoles) e política (em Berlim), além de dedicar-se à musica. Foi um dos poucos intelectuais onde o termo “polímata” (a pessoa, que estuda ou conhece muitas ciências) se aplicou com mais precisão. Filho do judeu Max Karpfen e da católica Gisela Schmelz Karpfen, cursou o ginásio em Viena. Por sugestão dos pais, Ingressou na faculdade de direito, mas cursou apenas o 1º ano. Em seguida concluiu diversos cursos superiores nas ciências exatas, porém “nunca me aproveitei praticamente desses estudos. Mas aí aprendi algo de método e precisão de pensar, o que é vantajoso no mundo sempre um pouco vago das letras”.

Dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo político, carreiras que exerceu em Viena como redator da revista “Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte” e articulista do jornal “Neue Freie Presse”. Em 1930 casou-se com Helena Carpeaux e converteu-se ao catolicismo em 1933. Era bem relacionado em Viena e tornou-se homem de confiança de dois primeiros-ministros: Engelbert Dollfuss e Hurt Schuschnigg. Com a tomada da Áustria por Hitler, foi obrigado a seguir para o exílio, em 1938. Primeiro para Antuérpia, onde trabalhou na Gazet van Antwerpen. Com a expansão do nazismo, sente-se inseguro na Europa e embarca para o Brasil em 1939. Mudou seu sobrenome germânico Karpfen para o francês “Carpeaux” o francês Carpeaux e chegou aqui de “mala e cuia”, com a mulher, sem conhecer nada do idioma e sem conhecidos, mas com uma enorme bagagem cultural e falando diversos idiomas.

Após um ano de trabalho como imigrante em fazendas do Paraná, e com o domínio do português, partiu para São Paulo. Com dificuldades, foi sobrevivendo com a venda de alguns pertences, incluindo seus livros de arte. Em 1941 escreveu uma carta ao crítico literário Álvaro Lins oferecendo um artigo sobre Kafka, que conheceu pessoalmente na Europa. Foi quem primeiro falou de Kafka no Brasil. Recebeu como resposta um convite para trabalhar no Correio da Manhã (RJ). Assim, Inicia-se na carreira de crítico e ensaísta dos mais conceituados na literatura brasileira. No ano seguinte naturalizou-se brasileiro e publica seu primeiro livro de ensaios: Cinzas do purgatório, revelando uma inteligência e uma erudição incomum na intelectualidade local. Pouco depois foi trabalhar num lugar privilegiado para um autodidata interessado em conhecer melhor a cultura que abraçou: a Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia (1942-1944). Em seguida foi dirigir a Biblioteca da Fundação Getúlio Vargas (1944-1949), onde encontra tempo para publicar sua monumental História da Literatura Ocidental (1947), uma das mais importantes obras publicadas no Brasil no séc. XX. A obra já foi lançada em diversos volumes pela Editora Cruzeiro (1959), Alhambra (1978) e Editora do Senado Federal (2008). Em seguida a Editora Leya, lançou a obra em 4 volumes e recentemente relançou-a numa caixa com 10 volumes,

Com isso, tornou-se um dos pesos pesados da intelectualidade brasileira, assumindo o cargo de redator-editor do Correio da Manhã, em 1950. No ano seguinte publicou a Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, reunindo em ordem cronológica mais de 170 autores nacionais. A partir daí sua produção literária é intensa e variada, publicando ensaios, artigos políticos, crítica literária, etc. Seu trabalho na imprensa e a obra que deixou publicada constituem-se numa expressiva contribuição às nossas letras, dando um novo rumo à história da literatura brasileira. O fato de ser totalmente gago, o afastou da cátedra e das cátedras e das universidades para confiná-lo aos gabinetes e redações.

Em 1968, anunciou o fim da carreira literária e promete dedicar o resto de seus dias à luta política, fazendo oposição ao regime militar instaurado em 1964. Por essa época trabalhou ao lado de Antônio Houaiss, como coeditor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse. Além da extensa produção de ensaios sobre literatura, publicou livros sobre música, história da arte e política. Faleceu em 3/2/1978 vitimado por um infarto. Seu livro Uma nova história da música, lançado em 1958, passou por diversas reedições até 2001, quando teve o título mudado para O livro de ouro da música: da Idade Médica ao século XX, lançado pela Ediouro. Em 2000 a Editora Topbooks iniciou a publicação dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, organizados pelo filósofo Olavo de Carvalho, em 10 volumes. Teve oito publicações póstumas, sendo a última, O canto do violino e outros ensaios, publicada pela Ed. Danúbio em 2016. No ano seguinte, o Senado Federal lançou em versão digital para download gratuito, alguns volumes da História da Literatura Ocidental.

Como se vê, Carpeaux continua vivo entre nós compartilhando seu arsenal de conhecimentos na literatura, na música, na política, na vida. Segundo o crítico Antônio Cândido, ele era uma espécie de “herói civilizador”, que se instala no país e contribui de forma decisiva para a atualização do meio literário e a formação de novas gerações da crítica literária. Alfredo Bosi, um de seus discípulos, chegou a reconhecer em breve ensaio sua dívida com o mestre. Sua melhor e mais completa biografia foi publicada por Mauro Souza Ventura: De Karpfen a Carpeaux: formação política e interpretação Literária na obra do crítico austríaco-Brasileiro, lançada pela Topbooks em 2002.



AS BRASILEIRAS III – MARIA FIRMINA

Maria Firmina

Maria Firmina dos Reis nasceu em 11/3/1825, em São Luís, Maranhão. Professora e escritora é considerada a primeira romancista brasileira; a primeira mulher a passar num concurso público como professora e, também, a primeira a fundar uma escola mista. Negra e bastarda, filha de mãe branca e pai negro, foi prima do escritor Francisco Sotero dos Reis, que incentivou-a a estudar e escrever. Aos cinco anos foi viver na casa de uma tia, mais bem situada economicamente, na Vila de São José dos Guimarães, onde realizou os primeiros estudos e tomou gosto pela literatura.

Em 1847 foi aprovada num concurso à cadeira de Instrução Primária na atual cidade de Guimarães, onde foi professora de primeiras letras até 1880. Ao vencer o concurso, se recusou a desfilar pela cidade de São Luís, montada nas costas de um escravo. Afirmou que “escravos não eram bichos para levar pessoas montadas neles”. Ao se aposentar, em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, causando escândalo no povoado. Ao final, a escola teve que ser fechada em menos de três anos.

Tinha uma postura antiescravista bem definida e articulada: era conhecida e respeitada como professora e cronista; publicava artigos no jornal local e publicou seu primeiro livro em 1859, o romance Úrsula. Vale lembrar que nesta época a literatura brasileira dava os primeiros passos na prosa de ficção. Seu livro foi o primeiro a se posicionar contra a escravidão, antecipando a literatura abolicionista de Castro Alves, com Navio Negreiro (1869) e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura (1875). Além de primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, é também o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria de uma afrodescendente, que tematiza o negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida com a causa libertária.

No prólogo da obra, demonstra uma aguda consciência de sua condição naquela sociedade patriarcal e escravocrata e sua determinação em publicá-la, afirmando: “Pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados… ainda assim o dou a lume”. Seu estilo e verve literária:

“Senhor Deus! quando calará no peito do homem
a tua sublime máxima – ama a teu próximo como
a ti mesmo – e deixará de oprimir com tão
repreensível injustiça ao seu semelhante!”

lembra muito bem a poesia de Castro Alves 10 anos depois, com O Navio Negreiro:

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”

Poderia se dizer que sua prosa exerceu alguma influência sobre o maior poema condoreiro? Pelo visto, parece que sim. Mas ninguém do métier literário até agora afirmou isto. Um dado que contribui para essa afirmação é ela foi também poeta, com a publicação da coletânea Cantos à beira-mar, em 1871.

Foi também compositora do Hino à libertação dos escravos e autora da letra e música de outros cantos: Auto de bumba-meu-boi, Hino à mocidade, Valsa (com letra de Gonçalves Dias), Rosinha, Pastor estrela do oriente, Canto de recordação etc. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, publicou o conto A Escrava, reforçando sua postura de combate à escravidão. Em outro romance, Gupeva (1870) chegou a abordar a temática indianista: um chefe indígena se apaixona por uma moça vinda da Europa, sem saber que se trata de sua meia-irmã. São histórias bem novelescas, com um pano de fundo que retrata a sociedade de maneira ferrenha imbuída de sentimentos antiescravistas e republicanos.

Foi mãe adotiva de 10 crianças na condição de solteira toda a vida. Morreu pobre e cega em 11/11/1917. Esquecida por décadas, sua obra só foi recuperada em 1962 pelo historiador paraibano Horácio de Almeida em um sebo do Rio de Janeiro. Até hoje seu rosto é desconhecido e o que consta nos registros da Câmara de Vereadores de Guimarães é uma gravura com a face de uma mulher branca, inspirada na imagem de uma escritora gaúcha, com quem ela foi confundida. Seu busto exposto no Museu Histórico do Maranhão também retrata uma mulher “embranquecida” de nariz fino e cabelos lisos. Assim, Pode se dizer que ficamos sem o seu retrato.

Em 1975 foi lançada sua primeira biografia – Maria Firmina: fragmentos de um vida, de José Nascimento Morais Filho, publicada pela Imprensa do Governo do Maranhão. Ano passado, no centenário de seu falecimento, a editora da PUC de Minas Gerais lançou a 7ª edição de Úrsula (2017). Uma edição revista e ampliada com anexos de documentos históricos e reedição do conto “A escrava”, que tem ajudado a difundir sua obra. No entanto, pouco se sabe sobre outros possíveis textos, sobre os detalhes de sua vida ou sobre como uma mulher negra de origem pobre alcançou tanto sucesso em pleno regime escravocrata. É de se estranhar que até mesmo o “movimento negro”, tão atuante hoje em dia, dê pouca importância à esta importante personalidade da história brasileira.



OS BRASILEIROS VIII – ANDRÉ REBOUÇAS

André Rebouças

André Pinto Rebouças nasceu em 13/1/1838, em Cachoeira, Bahia. Engenheiro, abolicionista e inventor. Seu pai, Antonio Pereira Rebouças era advogado, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Ao lado de Machado de Assis, Cruz e Souza, José do Patrocínio, foi um dos representantes da pequena classe média negra em ascensão no 2º Reinado. Em 1842, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou em alguns colégios até ingressar no curso de engenharia da Escola Militar, junto com o irmão Antonio, em 1854. Quatro anos após, concluem o curso e em seguida são promovidos a primeiro-tenente.

Em 1861, os irmãos recebem uma bolsa de estudos e viajam à Europa para aprofundar os estudos de engenharia em ferrovias, portos e transporte marítimo, na França e na Inglaterra. De volta ao Brasil, em novembro de 1862, foram trabalhar no aperfeiçoamento dos portos e fortificações brasileiras. Em 1864 André alistou-se no Exército e foi para a Guerra do Paraguai na condição de engenheiro militar. Na ocasião desenvolveu um torpedo, que foi utilizado com sucesso durante as batalhas. Devido a problemas de saúde, teve que retornar ao Rio de Janeiro antes do fim da guerra. Foi nomeado Diretor das Docas da Alfândega em 1866 e permaneceu até 1871 trabalhando em diversos projetos para novos portos: João Pessoa, São Luís, Maranhão, Recife e Salvador. Junto com o irmão Antônio, apresentou à Corte o projeto de construção da estrada de ferro ligando Curitiba ao litoral, na cidade de Antonina. Na execução do projeto, o trajeto foi alterado para o porto de Paranaguá. Até hoje essa obra impressiona pela ousadia de sua concepção.

Demitido do cargo por motivos políticos, embarcou de novo, em 1872, para a Europa e Estados Unidos, onde sofreu preconceito de cor: foi impedido de se hospedar em alguns hotéis, entrar em restaurantes, assistir operas em teatros etc. Reagiu ao seu modo, discreto, e anotando em seu diário, que manteve durante toda a vida. Na viagem pela Europa, se empenhou na obtenção de recursos para auxiliar Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani. De volta ao Rio de Janeiro, passou a evitar o convívio social na Corte e intensificou a publicação de artigos na imprensa. Contratado pela Escola Politécnica, dividiu suas atividades entre lecionar e batalhar pela abolição da escravatura junto com Joaquim Nabuco e outros intelectuais. Participou da criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, Sociedade Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Seu envolvimento com a abolição não é apenas intelectual. Em 1883 foi eleito tesoureiro da Confederação Abolicionista, destacando-se como financiador e orientador da campanha no Rio de Janeiro. Com visão progressista, contrapunha-se a todos os tipos de escravidão e lutava contra a “reescravização do imigrante pelos donos da terra”. Dentre os abolicionistas, foi o que mais anteviu as profundas implicações da eliminação da mão-de-obra escrava. Em suas palavras: “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome… Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”.

Defendeu a emancipação e regeneração do escravo através da aquisição da terra. A transformação da agricultura brasileira deveria se dar com uma reforma agrária contemplando os negros libertos. Seu pensamento dirigia-se ao dia seguinte, quando os escravos fossem libertos e se mantivessem tão pobres e sem direitos como sertanejos. Tais ideias foram expostas em seu livro Agricultura nacional, estudos econômicos: propaganda abolicionista e democrática. Caso suas propostas fossem adotadas, a distribuição da riqueza e o problema racial no Brasil estariam noutro patamar. Além da reforma agraria, propunha o crédito rural de modo a garantir o desenvolvimento dos pequenos proprietários sejam brancos ou negros.

Tinha grande prestigio junto a Dom Pedro II e a Princesa Isabel, dos quais desfrutava uma amizade pessoal. No último ano do império, recebeu do imperador diversos encargos e participou ativamente dos acontecimentos políticos do País. Ao participar do baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, quase às vésperas da proclamação da república, foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o ocorrido, D. Pedro II solicitou à Princesa Isabel para ser seu par. O fato deixou a nobreza estarrecida ao mesmo tempo em que reafirmava a simpatia da Princesa pela causa abolicionista. Pouco depois, com a instauração da República, manteve-se fiel à monarquia e seguiu junto com a família real no “Paquete Alagoas” no exílio com destino à Europa.

Viveu dois anos em Lisboa, onde atuou como correspondente do jornal “The Times”, de Londres e colaborador da “Gazeta de Portugal”. Em seguida transferiu-se para a França e passou a viver em Cannes até a morte de Dom Pedro II, em 1891. No ano seguinte, aceitou convite para trabalhar em Luanda e passou a colaborar com alguns países africanos. Em meados de 1893 foi viver em Funchal, na Ilha da Madeira, até 9/5/1898, quando foi encontrado morto no mar em frente a sua casa. As homenagens e o reconhecimento público dirigidos à ele e seu irmão Antônio tem se proliferado em diversos estados brasileiros, tais como a grande avenida em São Paulo, o túnel no Rio de Janeiro e a cidade de Rebouças, no Paraná. A mais recente ocorreu em 2015, com seu nome dado ao Navio André Rebouças.

Deixou alguns livros publicados não apenas sobre o abolicionismo: A sêcca do norte, publicado pela Editora do Povo, em 1877, hoje considerado raríssimo, e outros republicados tais como Propaganda abolicionista e democrática; Diário da Guerra do Paraguai; Reforma e utopia no contexto do segundo império, que podem ser encontrados em sebos e antiquários. Sua vida e obra têm sido expostas na bibliografia referente ao 2º Império, além de algumas biografias: O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho (Ed. Revan, 1998); André Rebouças: um engenheiro do Império, de Alexandro Dantas Trindade.(Ed. Hucitec, 2011) e Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de André Rebouças, de Andréa Santos Pessanha (Ed. Quartet, 2005).



AS BRASILEIRAS II – BÁRBARA DE ALENCAR

Bárbara de Alencar (1760-1832)

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/02/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Três de seus cinco filhos – José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves – também foram revolucionários (o primeiro era padre, político e jornalista, foi o pai do romancista José de Alencar). Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento.

No Crato, ela constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados a pé para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 600 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano (se tornaria senador em 1832)

O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas dotadas do sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Assim foi que Bárbara de Alencar se tornou a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, ainda se trava uma batalha pelo seu reconhecimento como heroína da História brasileira. Falecida em 18/08/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. Em Fortaleza, a partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome agracia três mulheres com a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Seu nome passou a denominar alguns logradouros; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos da história.



OS BRASILEIROS VII – PADRE ROMA

José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, mais conhecido como Padre Roma, nasceu no Recife, em 1768. Advogado, religioso e um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817. Demonstrou vocação religiosa aos 16 anos e entrou para o Convento do Carmo, em Goiana. Em seguida foi para Portugal e fez o curso de Teologia na Universidade de Coimbra. Depois partiu para Roma, onde concluiu os estudos religiosos e ordenou-se padre. Pouco depois a vocação religiosa foi colocada foi dúvida, pediu dispensa da Ordem Carmelita, em 1807, retornou ao Recife, casou-se e abriu uma banca de advocacia.

Seus conhecimentos de grego e latim e por ter vivido em Roma lhe renderam o apelido. Possuía o dom da oratória e era dotado de sólidos conhecimentos jurídicos. Assim, ficou famoso no Recife, particularmente por defender causas populares e adesão às ideias liberais em voga na época. Com a vinda de Dom João VI, em 1808, foram criados muitos impostos para manter a família imperial e o Brasil passou por profundas mudanças com uma opressiva administração da colônia. Ao mesmo tempo, ideais nativistas e anticolonialistas eram defendidos pela maçonaria e propagados em centros como o Areópago de Itambé e o Seminário de Olinda. Dessa forma, os interesses de alguns militares, dos padres e maçons uniram-se num mesmo ideal de emancipação política do Brasil.

Fuzilamento do Padre Roma

Estes grupos passaram a conspirar abertamente contra o poder imperial e as ordens vindas do Rio do Rio Janeiro. Os padres tinham um papel relevante na conspiração, incitando os fiéis à causa libertária do jugo português. Os preparativos para a revolta popular foram se acumulando até 6/3/1817, quando o governador da província – Caetano Pinto de Miranda Montenegro – mandou prender os revoltosos implicados na conspiração. O primeiro a receber ordem de prisão foi o capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado”, que atravessou com uma espada o oficial português encarregado de prendê-lo. A revolta alastrou-se rapidamente e tomou as ruas do Recife. Em seguida os revoltosos elegeram o Governo Provisório, composto por 5 membros representantes do exército, clero, comércio, agricultura e magistratura.

A revolta logo teve a adesão do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Padre Roma, devido a sua eloquência e poder de convencimento, foi designado para ir clandestinamente até a Bahia para obter adesão ao movimento. Levou mais de 50 correspondências endereçadas a membros da maçonaria baiana e outros simpatizantes. Depois de velejar numa jangada pela costa de Alagoas até Itapoã, avistou as tropas portuguesas que o aguardava. Jogou todos os papeis no mar, para não incriminar os aliados baianos, e foi preso .Junto com ele, vinha seu filho mais novo, Luis Ignácio. O mais velho, com o mesmo nome do pai e futuro General Abreu e Lima, já estava preso em Salvador.

Foi preso em 26/6/1817 e nos três dias em que foi torturado não entregou os companheiros que contataria em Salvador. A tortura incluía a visita ao cárcere do filho mais jovem nu e estendido sobre a lama, mais parecendo um espectro do que ser vivente. O filho mais velho manifestou o desejo de ver o pai antes do fuzilamento. Seus algozes portugueses foram “bonzinhos” e atenderam o pedido, obrigando-o a assistir o fuzilamento do pai, por ordem do Conde dos Arcos, em 29/6/1817.

Segundo o historiador Pereira da Costa, autor do Dicionário biográfico de Pernambucanos célebres, a morte do Padre Roma foi assim descrita pelo filho Abreu e Lima, presente na execução: “O seu porte em presença do conselho, no oratório e durante o trajeto para o lugar do suplício, foi sempre o de um filósofo cristão, corajoso, senhor de si, mas tranquilo e designado. Suas faces não se desbotaram senão quando o sangue que as tingia correu de suas feridas, regando o solo onde, seis anos depois, se firmou para sempre a independência de sua pátria”. Conta ainda a história que em seus últimos instantes, ele dispensou a venda nos olhos, encarou o pelotão de fuzilamento, pôs a mão sobre o coração e gritou: “Camaradas eu vos perdôo a minha morte. Lembrai-vos que aqui é a fonte da vida!”.



OS BRASILEIROS VI – LINDUARTE NORONHA

Linduarte Noronha nasceu em Ferreiros, Pernambuco, em 1930. Advogado, professor, jornalista, critico de cinema e, principalmente, cineasta. Foi o precursor do “Cinema Novo”, na opinião dos cineastas, incluindo Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. Trabalhou como jornalista e critico de cinema nos jornais da Paraíba, onde tomou gosto pela carreira de cineasta. Ainda jovem foi ao Rio de Janeiro para conhecer o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo (1936-1966). Entrou em contato com seu presidente, Humberto Mauro, contou-lhe sobre suas ideias, pretensões e pediu-lhe emprestado uma câmera e outros apetrechos.

O pioneiro do cinema brasileiro achou interessante, mas exclamou entre os presentes: “Esse rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Saiu de lá com uma câmera Bell & Howell, voltou à João Pessoa e passou a filmar sob a chacota dos colegas da redação. Seu primeiro curta-metragem teve origem numa reportagem que fez, em 1958, sobre o trabalho das mulheres numa olaria do sertão, As oleiras do Olho d’Água na Serra do Talhado. O curta Aruanda, lançado em 1959, é um documentário de 20 minutos e conta a história da fundação de um quilombo e retrata a vida do ex-escravo Zé Bento com a família em busca de uma vida melhor. A palavra “aruanda” tem um significado próprio na Umbanda: um lugar utópico, o paraíso da liberdade perdida. A trilha sonora foi definida em conformidade com as imagens, com a escolha genial da comovente canção folclórica “Ô mana deixa eu ir”, recriada por Villa-Lobos.

Depois disso, o cinema brasileiro mudou completamente; inaugurou uma nova estética cinematográfica. Segundo alguns críticos, o filme está para o moderno cinema brasileiro como o romance A Bagaceira está para nosso modernismo literário. O Nordeste, sua realidade, seus mitos, texturas, asperezas, locações e personagens, abria passagem – em 1960 como em 1928, nos filmes como nos livros. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba, a partir dos colegas da equipe de Noronha: Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira, Jurandy Moura, entre outros.

O então jovem crítico baiano Glauber Rocha comparou-o ao cineasta Roberto Rosselini, o papa do neorrealismo italiano. Quando viu o filme, Glauber ficou extasiado: “Como fui burro! Como fui burro!” repetia numa referência ao fato de ter começado com o curta O pátio (1959), que pouca coisa teria ver com os caminhos trilhados posteriormente. Glauber pressentiu que o mapa da mina estava ali e lastimou o fato de não ter seguido aquela pegada. Jean-Claude Bernardet, confirmou dizendo que o filme era “simultaneamente documento e interpretação da realidade”. E disse mais: “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.”

Outro renomado crítico, Paulo Emilio Sales Gomes, dizia que o filme era um manifesto. Na década seguinte, o Cinema Novo e o documentário nacional aplicariam suas lições. Nessa época realizou mais um filme em parceria com Rucker Vieira: Cajueiro nordestino (1962), inspirado numa monografia de Mauro Mota, retratando o ciclo do caju e sua importância para as comunidades da periferia de João Pessoa. Mais tarde, realizou o primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba: Salário do medo (1971). Pouco antes tentou adaptar o romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, mas não dispôs de recursos para tal façanha.

Como o cinema que realizava não era uma atividade lucrativa, e precisando trabalhar, foi Procurador de Justiça e de 1971 a 1991 foi presidente do IPHAEP-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba. Aí batalhou pela preservação dos bens culturais, numa época em que não se dava valor ao patrimônio fossilífero. Teve um importante papel na defesa do Vale dos Dinossauros, hoje este patrimônio paleontológico é protegido pelo Governo. Em 2008, o “Festival Internacional de Documentários – É tudo Verdade” prestou-lhe uma homenagem com a apresentação de seus filmes e seu retrato filmado por Geraldo Sarno, outro mestre do documentário brasileiro. Em 2010 foi homenageado pelos 50 anos de carreira no “Cine Fest Aruanda”, festival de cinema paraibano, que leva o nome do filme que entrou para a história do cinema brasileiro. O cineasta faleceu dois anos depois, em janeiro de 2012. Pouco depois, a Fundação Cultural de João Pessoa deu nome à sua sala de cinema: “Cine Funjope Linduarte Noronha”.



AS BRASILEIRAS I – MARIA QUITÉRIA

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, Bahia. Militar heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O Pai casou novamente e a madrasta não gostava de seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Quando se deu a independência, em 1822, algumas províncias resistiram às forças do imperador, entre as quais a Bahia contava com grande contingente militar português que não aderiu à independência. O Conselho Interino do Governo da Bahia convocou voluntários para suas tropas. Ela quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, botou roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão para vários combates. Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã.

Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado e comemoração da consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora, pintora e desenhista inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou-se com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham. Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil, bem como em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria 32 (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.



OS BRASILEIROS V – SÍLVIO VASCONCELOS

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em 21/4/1851, em Lagarto, Sergipe. Advogado, escritor, crítico literário, poeta, historiador, filósofo, sociólogo e político. Os primeiros estudos se deram em sua cidade natal, na escola do professor Badu. Em 1863 mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Ateneu Fluminense e permaneceu até 1868, quando entrou na Faculdade de Direito do Recife e concluiu o curso em 1873, aos 22 anos. Foi amigo de Tobias Barreto e destacado participante da “Escola do Recife”. Em 1875 elegeu-se deputado por sua província, quando já atuava como crítico literário de vários jornais do Recife e Rio de Janeiro. Seus dois primeiros livros foram publicados em 1878: A filosofia no Brasil e Cantos do fim do século (poesias). Lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910. Neste período manteve estreito convívio com os intelectuais cariocas, com os quais fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Seu apego a literatura resultou na publicação da Introdução à História da Literatura Brasileira, em cinco volumes, em 1882. No entanto perdeu o interesse pela poesia, encerrado em 1883 com a publicação de Últimos harpejos. No mesmo ano publicou também mais dois livros, fruto de seu interesse pelo folclore: O elemento popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil. A partir de 1891, passou a colaborar com artigos para o jornal carioca “Diário de Notícias”, dirigido por seu amigo Rui Barbosa. No mesmo ano, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. Foi um dos primeiros pensadores a se interessar por Antônio Conselheiro, o qual via como missionário vulgar que agregara em torno de si fanáticos depredadores. Seu amigo Euclides da Cunha, tendo sido enviado para Canudos, foi responsável pelo esclarecimento dos fatos ainda nebulosos para muitos intelectuais da época.

Entre 1900 e 1902 foi deputado federal pelo Partido Republicano, trabalhando na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Entre 1911 e 1912 residiu em Juiz de Fora, participando da vida intelectual da cidade. Seu posicionamento ideológico pregava um “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”. Em termos literários não tinha posições definidas: “Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar”. Não obstante sua competência, era conhecido pelo embate violento e intolerante contra outros escritores, intelectuais e políticos, gerando numerosas polêmicas com pessoas conhecidas como Lafayette Rodrigues Pereira e José Veríssimo, Teófilo Braga etc. .

Segundo Antônio Cândido, é considerado como “uma das fontes básicas do pensamento e da literatura nacional”. Como resultado de sua investigação nesse campo, publicou Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira (1888). O interesse pelo aprendizado sociológico inspira os Estudos de Filosofia do Direito (1895) e os Ensaios de Sociologia e Literatura (1901). De 1890 a 1911, publicou, entre outros títulos, o ensaio Machado de Assis (1897), em que faz violenta crítica e mereceu resposta de José Verissimo, em defesa de Machado de Assis. Crítico polêmico, sarcástico, violento em suas afirmações, é considerado hoje, ao lado de Verissimo e Araripe Júnior, um dos criadores da crítica literária no Brasil.

Foi um pesquisador sério e minucioso com uma grande produção bibliográfica, tendo . publicado mais de 70 livros. Preocupou-se, sobretudo, com o levantamento sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas ideias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo. Sua obra principal é A História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, em que expõe “o essencial do que desejava dizer sobre a cultura e mesmo a sociedade de seu país”. A primeira parte do livro é dedicada aos “elementos de uma história natural de nossas letras, as condições de nosso determinismo literário, com as aplicações da geologia e da biologia às criações do espírito”, A segunda parte, por sua vez, “apresenta, em largos traços, o resumo histórico das quatro grandes fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autônomo (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação crítica (de 1870 em diante)”.

Como crítico, condenou o indianismo de autores como Gonçalves Dias e José de Alencar que, segundo ele, apresenta uma visão precária da formação histórica do Brasil, uma vez que há pouca informação sobre a vida real dos indígenas e, portanto, não é possível reconstituí-la com exatidão em romances históricos ou poemas épicos. O sentido da crítica, para ele, não é apenas fazer uma ampla análise e revisão de valores, letras e artes, conforme observa Antonio Candido, mas também de demolir aquilo que julga anacrônico ou contrário à evolução cultural. O caráter muitas vezes polêmico de suas opiniões é decorrência dessa noção da crítica como um elemento para a reforma social e intelectual do país.

O mapeamento que fez da literatura brasileira, de suas origens até o século XIX, é o mais completo e detalhado que se fizera até então, colocando seu autor na posição de fundador dos estudos literários brasileiros. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias. Faleceu em 18/6/1914.



MEMORIAL DO DESABAMENTO

Como todos viram, o centro de São Paulo, abandonado pelo poder público está desabando. Talvez seja a única cidade do mundo, onde o poder público e os negócios vão criando novos centros comerciais e abandonando os velhos. Até há pouco tempo, o novo centro era a Av. Paulista. Agora, dizem que o novo centro é a Av. Faria Lima, que já está se transferindo para a Av. Juscelino Kubitschek. Assim, o centro velho vai ficando inabitável com seus belos e velhos (alguns novos, como o que desabou) e belos prédios.

O pessoal da periferia, muitos sem ter onde morar e outros sem ter como pagar condução até o centro, vão se alojando nestes prédios, formando favelas verticais. Mais de 20 movimentos sociais cuidam da ocupação, sendo que alguns deles se aproveitam das condições precárias dessa população para fazer propaganda política e/ou para ganhar um trocado para os organizadores.

É o caos urbano instalado na maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Muitos lugares, antes passeio público, se tornaram inviáveis ao convívio social e ao comércio regular. Há pouco tempo, foi pensado numa ocupação do centro por órgãos públicos, mas parece que a ideia não progride. Andar à noite nestes lugares é uma temeridade. Aos domingos e feriados o que se vê são ruas desertas, estabelecimentos fechados e umas poucas pessoas perambulando ou dormindo nas calçadas.

Com o desabamento desse prédio, políticos e formadores de opinião vieram com propostas de restauração do centro e soluções para o problema de moradia dos sem tetos. Uma das propostas viáveis é transformar os edifícios públicos abanados em residências populares para, assim, povoar o centro e amenizar o problema da moradia. Alguns arquitetos/urbanistas estão propondo que no lugar do prédio desabado, crie-se uma praça em memória dos que ali viveram e morreram com a tragédia. Não deixa de ser uma proposta salutar essa de criar um espaço para agrupar pessoas e órgãos interessados na reflexão sobre o destino do centro da cidade.



OS BRASILEIROS IV – JOSÉ LINS DO REGO

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em Pilar, Paraíba, em 3/6/1901. Romancista e jornalista, concluiu os primeiros estudos no Colégio de Itabaiana, no Instituto Nossa Senhora do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X, de João Pessoa e nos colégios Carneiro Leão e Oswaldo Cruz, no Recife, onde foi diplomado pela Faculdade de Direito, em 1923. Durante o curso, fundou o semanário “Dom Casmurro” e manteve contatos com o meio literário recifense, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e Gilberto Freyre, de quem recebeu forte influência. Oriundo e criado numa família de senhores de engenho, teve a oportunidade de relatar, nostálgica e criticamente, a transição da época em que viveu.

Em 1924 casou-se com sua prima Philomena Massa, filha do senador Antônio Massa e no ano seguinte ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas ficou pouco tempo no cargo. Em seguida mudou-se para Maceió, onde exerceu as funções de fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Neste período conviveu com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Seus primeiros livros, nomeados de “Ciclo da cana-de-açúcar” refletem a decadência do mundo rural nordestino: Menino de engenho (1932 e premiado pela Fundação Graça Aranha), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O moleque Ricardo (1935) e Usina (1936). É considerado, ao lado de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, um autor prestigiado entre os regionalistas da literatura nacional.

Sua obra regionalista, contudo, não se encaixa somente na denúncia sócio-política, mas, segundo Manuel Cavalcanti Proença, igualmente em sua “sensibilidade à flor da pele, na sinceridade diante da vida, na autenticidade que o caracterizavam. Conforme alguns críticos, ele imprimiu uma nova forma de oralidade na literatura brasileira, praticada pelos modernistas de 1922. Após consolidar seu nome na literatura regional, transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1935, ampliando o leque de amigos, e passou a escrever para os “Diários Associados” e “O Globo”. Por essa época, revelou-se uma faceta pouco conhecida de sua personalidade: a paixão pelo futebol. Foi um grande torcedor do Flamengo e chegou a exercer o cargo de secretário-geral da CBD-Confederação Brasileira de Futebol no período de 1942 a 1954.

Em 1956 entrou para a Academia Brasileira de Letras e logo depois estreou na literatura infanto-juvenil com Histórias da velha Totônia, seu único livro nesta área. Alguns de seus livros foram adaptados para o cinema e muitos deles foram traduzidos em diversos idiomas. Foi um escritor inteiramente despojado de atitudes ou artifícios literários. Ele mesmo se via como um escritor instintivo e espontâneo: “Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas”.

Deixou 23 livros publicados e a imagem de um escritor sério e comprometido com sua terra e seu tempo. Na avaliação dos críticos, ele deixou uma obra que “Bem examinadas as coisas… Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo”, conforme José Ribeiro. Já Wilson Martins não gostou de Fogo Morto e afirmou que o “o livro passa de simples reelaboração do Ciclo da Cana-de-Açúcar, sem nada lhe acrescentar e até tirando-lhe alguma coisa”. No entanto, Alfredo Bosi considerou Fogo Morto a verdadeira “superação” do ciclo da cana-de-açúcar. Numa análise dos personagens, Antônio Candido declarou que “o que torna esse romance ímpar entre os publicados em 1943 é a qualidade humana dos personagens criados: aqui, os problemas se fundem nas pessoas e só têm sentido enquanto elementos do drama que elas vivem.”

Outro respeitado crítico, Massaud Moisés, fez questão de colocar Fogo morto entre os livros dos anos 30, muito embora tenha sido lançado em 1943, pela razão da obra ser uma expressão “acabada do espírito do projeto estético e ideológico regionalista característico daquela década”. Parece haver um consenso, no qual sua obra caracteriza-se, particularmente, pelo extraordinário poder de descrição. “Reproduz no texto a linguagem do eito, da bagaceira, do nordestino, tornando-o o mais legítimo representante da literatura regional nordestina”. Faleceu em 12/9/1957.



OS BRASILEIROS III – FRANCISCO CAVALCANTI

Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda nasceu em 23/4/1892, em Maceió, AL. Jurista, filósofo, matemático, sociólogo e diplomata, mas foi no campo do Direito onde mais se destacou. Criança precoce, aos sete anos lia em francês e português. Aos 16 anos ganhou do seu pai uma passagem para ir estudar matemática e física na Universidade de Oxford, mas preferiu seguir o conselho da tia: estudar na Faculdade de Direito do Recife. A escolha não o impediu de destacar a importância da matemática em suas obras. Inclusive esta era sua primeira tendência, por causa de seu avô Joaquim Pontes de Miranda, formado em direito, mas grande matemático.

No segundo ano da faculdade iniciou seu primeiro livro, escrito a mão, intitulado “À Margem do Direito”, elogiado por Ruy Barbosa. Diplomado em 1911, no mesmo ano em escreveu o “Ensaio de Psicologia Jurídica”, o qual foi novamente elogiado pelo jurista baiano. Começou a escrever o “Tratado de Direito Privado” em 1914, buscando livros da Rússia, Índia e de outros países e coletando mais de três mil monografias, tratados de direito civil, de direito criminal e de direito antigo. Lançou o 1º volume somente em 1954. Uma obra monumental de 60 volumes, que foi concluída em 1970. Numa entrevista de 13/3/1978, disse que apesar de considerarem esta a sua melhor obra, preferia dar ênfase ao seu “Tratado das Ações”, de 10 volumes. Como se vê é um escritor prolífico não apenas no número de volumes. De sua lavra saíram 88 títulos de livros dedicados não apenas ao Direito. Não se trata apenas de quantidade, seus primeiros textos foram elogiados por juristas literatos, como Clóvis Beviláqua e Ruy Barbosa, e pelo crítico literário José Veríssimo. O livro “A sabedoria dos instintos”, recebeu, em 1921, o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Em 1925 a ABL voltou a premiá-lo pelo livro “Introdução à sociologia geral”.

Sua predileção pela Matemática, herdada do avô, levou-o mais tarde a lançar mão de célebres equações – desde então identificadas como “equações pontianas” – para expressar seu pensamento. Na área da Física, fez algumas restrições à teoria de Einstein, por exemplo, sobre sua afirmação do encurvamento do espaço. Entrou em contato com o ilustre físico, do qual recebeu a sugestão que ele escrevesse uma tese sobre a representação do espaço e a enviasse para o Congresso Internacional de Filosofia, que se reuniria em Viena, em 1924. Não chegou a acatar o conselho de Einstein, e tudo leva a crer que esta não era sua praia. Sua curiosidade científica não chegou a tanto. A ciência levou-o naturalmente ao agnosticismo, mas isso não impediu de ser amigo do Papa João XXIII. Antes de encontrá-lo, mandou dizer-lhe que não era católico, mas o Papa respondeu que existem muitos católicos no inferno e que o considerava um verdadeiro franciscano. Mais tarde, em 1975, converteu-se ao catolicismo

Escritor compulsivo e Influenciado pela filosofia alemã, através dos colegas oriundos da “Escola do Recife”, introduziu novos métodos e concepções em diversas áreas do Direito brasileiro. Ingressou na magistratura em 1924, como juiz de órfãos e em seguida como desembargador do antigo Tribunal de Apelação do Distrito Federal (RJ). Na mesma época, representou o Brasil em duas conferências internacionais: Santiago do Chile e Haia. Tais experiências, levaram-no para a carreira diplomática em 1939, quando foi embaixador na Colômbia. No entanto, convidado para ser embaixador da Alemanha, declinou do cargo, por ser a era de Hitler e contra governos ditatoriais.

Permaneceu representando o País em conferências internacionais até 1943, quando passou a se dedicar às atividades de parecerista e escritor. É considerado o parecerista mais citado na jurisprudência brasileira. Não obstante sua atuação expressiva na área do Direito, foi um pensador social, poeta e romancista reconhecido. A produção bibliográfica na área estritamente literária levou-o à Academia Brasileira de Letras em 1979, sucedendo Hermes Lima na cadeira nº 7, onde foi recebido por Miguel Reale. Faleceu em 22/11/1979. Pouco mais de um ano depois, foi agraciado a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública de Portugal, em 10/2/1981. São diversos os títulos e homenagens que lhe foram prestadas em vida e após seu falecimento. Foi professor honoris causa da Universidade de São Paulo, Universidade do Brasil, Universidade do Recife, Universidade Federal de Alagoas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Em 1994 foi criado o “Memorial Pontes de Miranda” da Justiça do Trabalho em Alagoas (MPM), instituído pelo Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região, com o objetivo de preservar e divulgar sua obra, bem como a história da Justiça do Trabalho em Alagoas. O museu ocupa o 3º andar do edifício do Tribunal Regional do Trabalho, Conserva um conjunto de objetos pessoais, incluindo sua máscara mortuária, documentos, fotografias, insígnias, móveis e outros itens. Em 1999, a revista Istoé realizou uma enquete em âmbito nacional para eleger o “Jurista do Século”. Pontes de Miranda foi o mais votado.



OS BRASILEIROS II – CÂMARA CASCUDO

Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, RN, em 30/12/1898. Historiador, antropólogo, advogado, tradutor, jornalista e um dos mais importantes pesquisadores da cultura brasileira, de suas raízes étnicas. Ficou famoso com sua dedicação ao o folclore nacional e diversos livros na área. Aprendeu a ler antes de ir para a escola e fez os primeiros estudos no Atheneu Norte Riograndense. Cursou Medicina até o 4º ano em Salvador e Rio de Janeiro, mas formou-se em Etnografia, na Faculdade de Filosofia do Rio Grande do Norte e em Direito, na Faculdade do Recife, em 1928.

No ano seguinte, casou-se com Dhália Freire, com quem teve dois filhos. Começou como jornalista e teve seu primeiro trabalho publicado, em 1918, no jornal “A Imprensa”, de seu pai, o coronel Francisco Cascudo. Foi uma crônica intitulada “O tempo e eu”. Colaborou com diversos jornais de Natal e manteve seções diárias nos jornais “República” e “Diário de Natal”, numa coluna chamada “Bric-a-Brac” (bagunça, geringonça, desmantelo) até 1960. Aos 23 anos teve seu primeiro livro – Alma patrícia – publicado, um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores. Foi professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito do Recife e de Etnografia Geral, na Faculdade de Filosofia, em Natal. Quase chegou a ser demitido do cargo por estudar figuras folclóricas como o lobisomem.

Na política, foi monarquista no inicio e combateu a crescente influência marxista no Brasil, quando Natal foi palco da Intentona Comunista de 1935. Aderiu ao integralismo e foi chefe regional do movimento da “Ação Integralista Brasileira”, movimento nacionalista liderado por Plínio Salgado. Pouco depois, desencantou-se com essa doutrina política e já durante a II Guerra Mundial ficou com os “Aliados”, demonstrando sua repulsa aos fascistas italianos e nazistas alemães. Manteve-se, porém, aliado ao anticomunismo e não se opôs ao Golpe Militar de 1964. No entanto, ajudou diversos conterrâneos perseguidos pelos militares. Sua produção bibliográfica é extensa, com mais de 70 livros, muitos dos quais reeditados até hoje, incluindo obras básicas, como Antologia do folclore brasileiro (1943), Dicionário do folclore brasileiro (1943), Geografia dos mitos brasileiros (1947), História da alimentação no Brasil (1967), Antologia da alimentação no Brasil (1967), Ensaios de etnografia brasileira (1971), e livros clássicos, como Rede de dormir (1959), Vaqueiros e cantadores (1959), Preludio da cachaça (1967), Ensaios de etnografia brasileira (1971) entre outros. A Editora Global mantém em seu catálogo 45 títulos de sua autoria.

Passou toda a vida em Natal, onde é mantido o “Ludovicus: Instituto Câmara Cascudo”, na casa onde viveu, instalada na avenida que leva seu nome. Ludovicus é Luis em latim, idioma que ele dominava com perfeição. Não é o local da brincadeira, como pode parecer, mas não deixa de ser apropriado devido ao caráter de suas pesquisas. Foi agraciado com dezenas de prêmios e horarias, tendo seu nome em diversos logradouros de todo o País. Em 1991, a Casa da Moeda emitiu a cédula de 50 mil cruzeiros com sua efígie, que ficou em circulação por apenas três anos, devido reforma monetária. Sua vida foi esmiuçada em diversas biografias, com destaque para Viagem ao universo de Câmara Cascudo (1969), de Américo de Oliveira Costa e Luis da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, (1970) de Zila Mamede. Faleceu em 30/7/1986



OS BRASILEIROS I – GRACILIANO RAMOS

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 27/10/1892. Escritor, cronista, jornalista e tradutor. Aos dois anos, a família mudou-se para Buique (PE), onde realiza os primeiros estudos. Em 1904, muda-se para Viçosa (AL), continua os estudos e cria um jornalzinho “O Díluculo”, dedicado às crianças. Em seguida passa a redigir outro jornal “Echo Viçosense”. No ano seguinte, a família mudou-se para Maceió, onde foi estudar no Colégio 15 de Março. Em 1909, passou a colaborar no “Jornal de Alagoas” usando alguns pseudônimos para a poesia e outros para a prosa. Em 1910, muda-se para Palmeira dos Índios (AL) e continua suas colaborações com o “Correio de Maceió” e a revista “O Malho”, do Rio de Janeiro.

Concluído o 2º grau, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa a trabalhar como revisor nos jornais “Correio da Manhã”, “A Tarde” e “O Século”. Ao mesmo tempo mantém uma colaboração com o “Jornal de Alagoas” sob as iniciais R.A (Ramos de Oliveira). Como se vê, era uma pessoa que não gostava de aparecer. Em setembro de 1915, ocorreu uma epidemia de peste bubônica em Palmeira dos Índios e vitimou 3 de seus irmãos e um sobrinho. O fato fez com que voltasse àquela cidade, onde passou a viver como jornalista e comerciante junto com o pai. No mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que veio a falecer 5 anos depois, deixando-lhe 4 filhos.

Na condição de jornalista e filho de um comerciante conhecido na cidade, entrou para a política e foi eleito prefeito em 1927. Empossado no ano seguinte, exerceu o cargo por 2 anos, até abril de 1930. Em sua administração, realizou uma profunda reforma no sistema de ensino público e soltava os presos para construírem estradas. Tendo que prestar contas de suas atividades, enviou ao governador Álvaro Paes um “Resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, que foi publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas. O texto do relatório revela a verve do escritor ao abordar assuntos rotineiros de sua administração. No ano seguinte, envia outro relatório com a verve literária ainda mais aguçada. Tais relatórios chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar seu primeiro romance, Caetés (1933), um livro que vinha escrevendo desde 1925. Em seguida, renunciou ao cargo e passa a viver em Maceió, onde é nomeado diretor da Imprensa Oficial. Aí encontrou mais tempo para se dedicar a literatura e também para namorar e casar com Heloisa Medeiros.

O “Mestre Graça”, como era conhecido entre os amigos, não era de “esquentar cadeira”. Logo depois do segundo casamento; pediu demissão da diretoria da Imprensa Oficial; voltou a morar em Palmeira dos índios; criou uma escola no interior da sacristia da Igreja Matriz e iniciou os primeiros capítulos do segundo romance – São Bernardo -, publicado em 1934. Mas, quando estava para sair o terceiro, foi preso em março de 1936, acusado de participar do movimento “Intentona Comunista de 1935”. A prisão, que durou 10 meses, foi bastante profícua em termos literários. Nesse período foram gestados o romance Angústia, que, segundo alguns críticos é seu romance mais profundo; o conto Baleia, que daria origem ao romance Vidas Secas, em 1938, seu livro mais conhecido do grande público e sua conhecida obra autobiográfica Memórias do cárcere, publicado postumamente em outubro de 1953. Trata-se do mais contundente relato das violências ocorridas nas prisões da ditadura Vargas.

Nelson Pereira dos Santos, que já havia filmado Vidas secas em 1963, fez um levantamento de nada menos que 237 personagens, com os quais ele dividiu celas no navio-prisão “Manaus”, com destino ao Rio de Janeiro; na Colônia Correcional de Ilha Grande e na Casa de Detenção. O levantamento foi utilizado para a filmagem de Memórias do cárcere, em 1984, uma das obras primas do cineasta. São 237 nomes de presos políticos e comuns retirados do anonimato. O livro, em 4 volumes, chegou a causar problemas com a cúpula do Partido Comunista, cujo relato expunha alguns procedimentos não recomendados praticados pelo “partidão” e teve a interferência da família para manter a obra tal como foi escrita pelo autor.

Solto em 1937, passou a viver no Rio de Janeiro, publicou Vidas secas (1938) e voltou ao magistério como inspetor federal de ensino. Trabalhou também como copidesque em alguns jornais do Rio de Janeiro. Em maio a “Revista Acadêmica” dedicou-lhe uma em edição especial (ano 3, nº 27) com 13 artigos. No mesmo ano recebeu o prêmio “Literatura Infantil”, do Ministério da Educação, pelo livro A terra dos meninos pelados. Em 1940, começou a entrar em contato com o Partido Comunista, através da revista “Diretrizes”, junto com Álvaro Moreira, Joel Silveira, José Lins do Rego. A ficha de afiliação seria assinada em 1945. Na comemoração de seus anos, em 1942, o romance Brandão entre o mar e o amor, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, foi publicado pela Livraria Martins. No mesmo ano, reaparece o memorialista com o lançamento do livro Infância. Por essa época, recebeu um aporte crítico de peso. Antonio Cândido publicou uma série de 5 artigos sobre sua obra no jornal “Diário de São Paulo”, obtendo uma resposta do autor. O material transformou-se no livro Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos.

Em 1951 foi eleito presidente da UBE-União Brasileira de Escritores e, no ano seguinte, junto com a esposa, empreende uma viagem pela Europa, que se estende até a Rússia. Tais viagens foram relatadas no livro de crônicas: Viagem, publicação póstuma da Ed. José Olympio em 1954. Em seguida viajou até Buenos Aires, onde foi submetido a um tratamento de pulmão. Foi operado, mas os médicos não ficaram otimistas com o resultado. O aniversário de 60 anos foi lembrado em sessão solene da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde foi representado por sua filha Clara Ramos. Em janeiro de 1953, foi internado na Casa de Saúde São Vitor, onde vem a falecer vitimado por um câncer, em 20 de março. Mestre Graça teve alguns livros publicados e muitas homenagens e prêmios postumamente. Vale destacar: Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA), tendo o Vidas secas, como livro representativo da literatura brasileira contemporânea (1962); Prêmios “Catholique International du Cinema” (Paris) e “Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação para o cinema de Vidas Secas (1964); Personalidade Alagoana do Século XX (2000); Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras (2003) e em 2013 foi escolhido pelo Governo Federal para O PNBE-Programa Nacional Biblioteca da Escola, com o livro Memórias do cárcere.

Ainda em 2013, em comemoração os 120 anos de seu nascimento, a Editora Record publicou toda sua obra e um livro inédito: Garranchos, com mais de 80 textos produzidos entre 1910-1950. Ao mesmo tempo, a editora realizou, em São Paulo, Belo Horizonte e Recife, seminários sobre o autor. No ano seguinte, a mesma editora publicou o livro Conversas, com 45 entrevistas, enquetes, ”causos” e depoimentos do autor, permitindo a visão de outro Graciliano Ramos, para além da imagem de um homem calado e avesso ao convívio social. No mesmo ano, foi o autor homenageado na FLIP-Festa Literária Internacional de Parati.