AS BRASILEIRAS (XI) – NISE DA SILVEIRA

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento de doenças mentais. Filha do professor de matemática Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira. Realizou os primeiros estudos no tradicional Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 21 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade, já no 1º ano, conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram um acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente a medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil. Após a formatura, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antonio Austregésilo, pioneiro no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público e foi trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha.

Durante essa época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”. A militância no Partidão durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e foi presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro em Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias levaram a sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção dessa instituição, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e Octávio Inácio entre outros. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar como melhorou um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Através deste contato foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou um mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – em cinco salas no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique.

Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão em psicanálise de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung. De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974, quando se aposentou, foi fundada a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, como forma de garantir a permanência da instituição, que ainda não estava devidamente integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou em sua crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”.

Ferreira Gullar foi outro de seus admiradores e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu seu “Museu”. Adorava particularmente seu caráter rebelde e não se conteve em publicar seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Além de Drummond, Ferreira Gullar, Rachel de Queiroz, foi amiga também de Mario Pedrosa. “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”, afirmava. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho e ideias inspiraram a criação de instituições similares as que criou, em diversos estados do Brasil e no exterior, tais como: Museu Bispo do Rosário, da Colônia Juliano Moreira (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris).

O psicólogo e seu amigo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias de vida num mosteiro. “Por ela ser uma defensora dos animais e um amor profundo pelos gatos, ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro, já em idade avançada, foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois, foi acometida por uma pneumonia e veio a falecer em 30/10/1999. Foi homenageada em vida por diversas entidades: “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993) entre outras.

OS BRASILEIROS (XVI): MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

Mário Dias Ferreira dos Santos nasceu em Tietê, São Paulo, em 3/1/1907. Advogado, jornalista, escritor, professor e criador de um sistema filosófico denominado “Filosofia Concreta”. Filho do português Francisco Dias Ferreira dos Santos, dono de uma companhia teatral itinerante, em Pelotas, RS, e um dos pioneiros do cinema: realizou o filme mudo “Os óculos do vovô” (1913), o filme brasileiro mais antigo que se tem notícia, tendo o próprio Mário como ator infantil.

Seus primeiros estudos se deram no Ginásio Gonzaga, instituição jesuíta de Pelotas, não obstante o anticlericalismo de seu pai, mas que considerava os jesuitas grandes educadores. O ateismo do pai não impediu seu desejo de entrar para a Ordem aos 14 anos, mas foi desaconselhado pelo padre confessor: “Deves ir para o mundo, teus caminhos serão outros, porém mais tarde sei que voltarás a nós”. Em 1925 ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre, tendo se formado em 1930. Passou a escrever em jornais de Pelotas e no Diário de Notícias e Correio do Povo de Porto Alegre. Como jornalista participou da Revolução de 1930, ocasião em foi preso devido as críticas feitas ao novo regime. Casou-se em 1929 com Yolanda Duro Lhulier, com quem teve duas filhas.

Em 1940 foi contratado pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, como tradutor de latim, grego, alemão e francês. Nestas línguas traduziu diversos filósofos clássicos, escoláticos, tomistas, modernos e contemporâneos: Aristóteles, Pitágoras, Nietzsche, Kant, Pascal, Tomás de Aquino, Duns Scott, Henri-Frédéric Amiel e o poeta Walt Whitman. Em 1945 mudou-se para São Paulo e continuou o trabalho de tradutor na Editora Flama. Criterioso, procurava manter-se fiel ao ritmo, ao estilo e às modalidades da expressão Nietzscheana, colocando-se na posição de sentir como Nietzsche escreveria “Zaratustra” em português. Pode-se dizer que foi ele quem trouxe Nietzsche para o Brasil, com os livros “Vontade de potência” e “Assim falava Zaratustra”.

Passou a escrever sobre filosofia utilizando-se de pseudônimos e em 1946 publicou dois livros: Teses da existência e da inexistência de Deus e Se a esfinge falasse. No ano seguinte passou a dedicar-se unicamente à filosofia vivendo fora do meio acadêmico, motivo pelo qual foi ignorado propositalmente pelo métier intelectual. Viveu exclusivamente de sua advocacia, do magistério particular e como empresário editorial. Com dificuldades para publicar seus livros, fundou suas próprias editoras, a Logos S.A. e a Matese S.A. e foi pioneiro no sistema de venda de livros a crédito, vendidos de porta em porta. Escreveu vários livros sobre Filosofia, Psicologia, Oratória, Ontologia, Lógica, etc. Sua obra é composta por mais de 50 livros, dentre os quais alguns obtiveram grande sucesso editorial, contribuindo efetivamente para a popularização do estudo da filosofia no Brasil. Seu Dicionário de filosofia e ciências culturais, em quatro volumes, lançado em 1963, chegou a 4ª edição em três anos. Era um pedagogo por excelência e esforçava-se em escrever obras de iniciação e referência, conforme constatado nos títulos que publicou em suas esditoras: Filosofia concreta (3 volumes, 1956), Sociologia fundamental e ética fundamental (1957), Métodos lógicos e dialéticos (3 volumes, 1959), Tratado de economia (2 volumes, 1962), Filosofia e história da cultura (3 volumes, 1962), Análise de temas sociais (3 volumes, 1962) etc.

A “Filosofia Concreta” é baseada na lógica, não havendo possibilidade de discordância de seus pressupostos, a que chamou “Teses”, denominando-se tal característica como apoditicidade lógica. A primeira tese é a fundamentação de toda a sua filosofia: “Alguma coisa há, e o nada absoluto não há”, da qual extrai outras teses, passando pelos principais tópicos da filosofia através dos métodos da Filosofia da matemática. Cario Beraldo, no verbete que dedicou à filosofia de Mário Ferreira na Enciclopédia Filosófica do Centro di Studi Filosofia di Gallarate, definiu a filosofia do brasileiro como uma síntese “ao mesmo tempo tradicional e pessoal” – de pitagorismo e escolástica. A filosofia de Mário Ferreira é constantemente elogiada por sua forma e rigor de análise. Assim como a maior parte dos grandes filósofos, parte de pressupostos aparentemente simples para chegar na resolução de problemas de ordem maior.

Seu biógrafo, Luís Mauro Sá Martino, conta que “Havia um problema: praticamente não existiam livros sobre os assuntos aos quais ele se referia. Filosofia era um produto importado e caro. As obras filosóficas principais não estavam traduzidas e os textos em circulação, em sua maioria, eram precários.” Nessa época, início da década de 1950, Mário Ferreira arquitetou uma obra de larga escala, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, na qual trataria da base filosófica de todas as áreas do conhecimento. Outros filósofos se preocupavam apenas com a formulação dos pensamentos, enquanto ele pretendia ser lido e compreendido por todos. A Enciclopédia tinha uma clara intenção social. O objetivo primordial era levar conhecimento ao povo e estimular a mentalidade filosófica da população. Como não havia sequer livros suficientes com os conceitos principais da filosofia, foi preciso começar do zero, construir as bases de um pensamento filosófico e, em seguida, expor sua filosofia original.

Todo seu esforço foi voltado a escrever filosofia para o grande público, buscando afirmar nossa independência e capacidade para desenvolvimento de uma inteligência filosófica brasileira. Sua crença baseava-se no fato que o brasileiro era um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, que corresponda ao verdadeiro sentido com que foi criada desde o início. Não se conformava com o fato de o brasileiro permanecer na situação de ser um povo que recebia todas as ideias vindas de todas as partes, sem encontrar um caminho para si mesmo. Acreditava que nós deveríamos criar este caminho. Sem esta visão positiva e concreta da Filosofia não seria possível solucionar os inúmeros problemas vitais próprios de nossa cultura. Tinha convição que a heterogeneidade de ideias e posições apresentavam soluções, muitas vezes inadequadas às necessidades do país.

Apesar de sua prolífica obra, seu trabalho não encontrou grande difusão na academia brasileira ou estrangeira, e permanece pouco citado ou debatido. O Ph.D Stanislavs Ladusãns, um dos primeiros divulgadores de sua filosofia, o classificou como “o homem que ainda não foi descoberto no Brasil”. Segundo Olavo de Carvalho, ainda hoje um dos seu principais divulgadores, ele foi “Cultuado e respeitado, temido e odiado em vida, Mário tornou-se, uma vez morto, objeto de uma conspiração de silêncios destinada a abafar o mais paradoxal dos escândalos: este país sem cultura filosófica deu ao mundo um dos maiores filósofos do século, talvez de muitos séculos”. De acordo com o Prof. Carlos Aurélio Mota de Souza, doutor pela USP, ainda há 29 obras inéditas de Mario Ferreira que permanecem desconhecidas do grande público. O Ph.D. pela Universidade de Stanford, João Cézar de Castro Rocha, atribui esse ostracismo à década de 1950, pois, durante esse período, havia o desejo de incutir a pesquisa nas universidades, ambição que se chocava diretamente com o autodidatismo de Mário.

Mas, acredita-se que o ostracismo a que foi relegado deve-se também ao vexame imposto a Caio Prado Júnior, intelectual comunista muito prestigiado na década de 1960, época em que boa parte dos intelectuais tinham a “cartilha” marxista como orientação. Conta-se que ele foi convidado para um debate sobre o comunismo, onde Caio Prado deu uma palestra na presença de pessoas conhecidas, como Luiz Carlos Prestes. Após o término da palestra, Mario levantou-se e disse mais ou menos o seguinte: “Me desculpe, mas creio que o comunismo tem elementos mais fortes que esses que expôs. Vou refazer sua exposição e assim depois farei a minha. Aqui está presente o secretário do partido comunista, e ele poderá averiguar se errarei em algo.” Mario então refez a exposição de Caio Prado de tal modo que alguns de seus amigos presentes, espantados, exclamaram: “Meu Deus! O professor virou comunista!”. Depois que terminou a apresentação, ele começou a sua própria exposição e refutou a si mesmo.

Atualmente a Editora É Realizações vem publicando alguns de seus livros e adquiriu os direitos autorais de toda sua obra. Tem como projeto a reedição do seu Dicionário de filosofia e ciências culturais, condensado em dois volumes. Entre suas várias biografias, destacamos “Mario Ferreira dos Santos: uma esfinge no labirinto”, publicada na revista “Academus”, disponível na Internet. (Clique aqui para acessar).

Faleceu em casa, em 11/4/1968, ao lado dos familiares. Ao sentir que o suspiro final estava próximo, pediu para que fosse colocado de pé, pois considerava indigno que um homem morresse deitado.

Faleceu em pé rezando o “Pai Nosso”.

AS BRASILEIRAS (X): PATRICIA GALVÃO (PAGU)

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 9/6/1910. Escritora, poeta, dramaturga, jornalista, tradutora, cartunista e musa dos “modernistas”, a partir de 1928, quando ingressou no “movimento antropofágico”. Filha de Thiers Galvão de França, jornalista e advogado, e Adelia Rehder Galvão, mudou-se com a família para São Paulo, aos três anos, e foi morar no Brás. Aos 15 anos passou a colaborar no “Brás Jornal”, assinando “Patsy” em seus artigos. Foi diplomada professora pela Escola Normal em 1928 ao mesmo tempo em que estudava literatura e arte dramática no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, comandado por Mario de Andrade.

Aos 19 anos teve um de seus desenhos publicados na “Revista de Antropofagia” e conheceu seus editores, o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Seu comportamento extrovertido encantou os intelectuais modernistas e ganhou o apelido “Pagu”, a partir do poema – Coco de Pagu – dedicado a ela pelo poeta Raul Bopp. Apesar da pouca idade, já era uma mulher avançada para os padrões da época, dada a algumas “extravagâncias”, como fumar na rua, usar blusas transparentes, cabelos curtos e falar palavrões. O poema alavancou sua carreira artística, pois foi publicado em vários jornais, foi interpretado por ela mesma no Teatro Municipal, em 1929, e virou letra de uma toada gravada por Laura Suarez em 1930.

Oswald de Andrade também se encantou com a moça 20 anos mais nova e em pouco tempo estavam namorando, mesmo já estando casado com Tarsila. Em seguida ele causou um escândalo na sociedade conservadora de então. Mas causar escândalo naquela época não era problema para ele, homem rico, boêmio e famoso. Assim, em 1930, separou-se da mulher, casou com a jovem Pagu e em setembro do mesmo ano nasceu o filho Rudá de Andrade. Pouco depois do parto, viajou para Buenos Aires, onde participou de um festival de poesia e conheceu Jorge Luís Borges. Procurou contato com Luiz Carlos Prestes, que lá se encontrava exilado, mas só conseguiu o intento logo depois em Montevidéu.

Voltou ao Brasil ainda mais entusiasmada com o ideal comunista e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro. Junto com Oswald fundou o jornal “O Homem do Povo”. Manteve uma coluna intitulada “A Mulher do Povo” e lançava duras críticas à burguesia paulistana. Nesta época tornou-se também cartunista inspirada especialmente nas obras de Tarsila do Amaral. Chegou, inclusive, a ilustrar a Revista de Antropofagia. Em agosto de 1931, ao participar de uma greve de estivadores em Santos, foi presa pela polícia política de Getúlio Vargas, inaugurando uma série de 23 prisões ao longo da vida. Passou 15 dias presa e quando foi solta passou a dedicar-se a escrita de um romance – Parque industrial -, publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Sim, a partir dali. São Paulo começou a ficar conhecido como um “parque industrial. É considerado o primeiro romance proletário do Brasil, traduzido mais tarde e publicado nos EUA e na França.

Como jornalista escrevia sobre tudo, publicando em diversos jornais; opinava sobre política, o proletário, a sociedade e até sobre a homossexualidade feminina, tema avançado para a época. Foi correspondente de vários jornais, viajou para os Estados Unidos, Japão e União Soviética, entre outros países da Ásia e da Europa. Na França, entrou em contato com o escritor André Breton e outros surrealistas; entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês, com o qual conseguiu sementes de soja, que foram enviadas ao Brasil e introduzidas na economia agrícola brasileira. Foi presa em Paris, em 1935, como comunista estrangeira portando uma identidade falsa e foi repatriada. Novamente em São Paulo e após um período de brigas e ciúmes, separou-se de Oswald e retomou sua atividade jornalística.

Novamente presa e torturada pela polícia do Governo Vargas, passou cinco anos na cadeia, enquanto o filho Rudá era criado pelo pai. Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido Comunista e passou a defender um socialismo de linha trotskista. Integrou a redação de “A Vanguarda Socialista”, junto com outros intelectuais: Mário Pedrosa, Hilcar Leite, Edmundo Moniz e Geraldo Ferraz, crítico de arte de quem se enamorou e casou em seguida. Desse casamento, nasceu o segundo filho – Geraldo Galvão Ferraz – em junho de 1941 e passou a morar com os dois filhos e o novo marido. De caráter irreverente, foi uma feminista antes do tempo e se declarava uma “mulher de ferro, com zonas erógenas e aparelho digestivo”.

Em 1945 lançou novo romance: A famosa revista, escrito em parceria com o marido. Incentivada pelos amigos, tentou ingressar para valer na política. Nas eleições de 1950, tentou sem sucesso uma vaga como deputada estadual. Passou a se dedicar ao teatro e frequentou a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Em 1954, o casal foi convidado para trabalhar no jornal “A Tribuna”, em Santos, onde passam a residir. Aí iniciou um movimento em prol do teatro amador, montando peças e fazendo uma campanha para a construção do Teatro Municipal. Ligou-se ao teatro de vanguarda; fez tradução de “A Cantora Careca”, de Ionesco e “Fando e Liz”, de Fernando Arrabal, numa montagem amadora, marcando a estreia do jovem ator Plínio Marcos. Ficou conhecida como grande animadora cultural nesta cidade. Dedicou-se, também, à critica de arte e pouco depois foi acometida de um câncer. Foi se tratar em Paris, mas sem resultados positivos. Desiludida e desesperada com a doença, tentou o suicídio, que não se concretizou. Sobre o episódio, escreveu: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”. Faleceu em 12/12/1962.

Em 1988, sua vida foi contada no filme Eternamente Pagu , dirigido por Norma Benguell, com Carla Camurati no papel-título e Antônio Fagundes como Oswald de Andrade. Foi tema, também, de dois documentários. O primeiro baseado na obra de Lúcia Maria Teixeira Furlani Patrícia Galvão: livre na imaginação no espaço e no tempo (Unisanta, 1988) e o segundo realizado por Ivo Branco, intitulado Eh, Pagu!, Eh!. Na TV, foi personagem na minissérie “Um Só Coração” (2004), interpretada por Miriam Freeland. Em 2005, houve em São Paulo uma grande comemoração pelos 95 anos de seu nascimento, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e inauguração de uma página na Internet. No dia exato de seu nascimento, os convidados compareceram com trajes de época a uma “festa Pagu”, realizada no Museu da Imagem e do Som. No mesmo ano foi lançada sua autobiografia (texto inédito escrito em 1940): Paixão Pagu (A autobiografia precoce de Patricia Galvão) Em 2006, Pagu foi tema do samba enredo da Escola de Samba X-9, de Santos. Em 2010, ano do centenário de seu nascimento, foi encenado o espetáculo “Dos escombros de Pagu”, baseado no livro homônimo de Tereza Freire. A comemoração do centenário foi encerrada com a publicação do livro “Fotobiografia Viva Pagu”, de autoria de Lúcia Maria Teixeira Furlani e seu filho Geraldo Galvão Ferraz.

OS BRASILEIROS (XV): DELMIRO GOUVEIA

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização do país com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai, e aos cinco anos a família mudou-se para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe veio a se casar com o advogado Meira Matos, que virou seu padastro e patrão. Com a morte de sua mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamado “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren – que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas – e outras empresas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar a empresa e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club, no Recife. Uma enorme área com 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandona-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro.

O passo seguinte é a exploração do potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos de intenso trabalho construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. A I Guerra Mundial (1914) impedindo a chegada dos produtos ingleses, garantiu a conquista desse mercado. Em pouco tempo sua fábrica já estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Não é por outra razão que a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia, em 1943.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com ele por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram as pressões e venderam a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruiram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e escombros no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. P. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.


AS BRASILEIRAS (IX): CHIQUINHA GONZAGA

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 17/10/1847, no Rio de Janeiro. Compositora, pianista e maestrina, foi pioneira em diversas áreas: primeira chorona (pianista de choro); autora da primeira marcha carnavalesca (“Ô abre alas”, 1899); primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil; pode se dizer que foi também uma das primeiras feministas brasileiras, devido a sua luta pela independência da mulher e suas conquistas. Filha de José Basileu Alves Gonzaga, de família ilustre do Império, e Rosa Maria Neves Lima, mestiça e filha de uma escrava. Conviveu bastante com a rígida família do pai e teve como padrinho o Duque de Caxias. Foi educada nos moldes aristocráticos das crianças da elite: estudou português, cálculo, francês e religião com o Cônego Trindade e desde criança se interessou pela música. Foi aluna do Maestro Lobo e aos 11 anos estreou como compositora com uma cantiga de Natal: “Canção dos Pastores”.

Apesar da rígida educação aristocrática, teve relativa liberdade para frequentar outros ambientes, como as rodas de lundu, umbigada e outros ritmos africanos, atraída por uma identificação musical com os negros escravos. Aos 16 anos foi obrigada a se casar com Jacinto Ribeiro do Amaral, oficial da Marinha e 8 anos mais velho. Como presente de casamento, seu pai deu-lhe um piano. A partir daí passou a compor valsas e polcas, para desagrado do marido. Nos dois anos seguintes nasceram o filho João Gualberto (1864) e a filha Maria do Patrocínio (1865). O marido tornou-se sócio do Barão de Mauá na exploração de um navio para transportar escravos, armas e soldados para a Guerra do Paraguai. Ela participou de algumas dessas viagens, nas quais ficava reclusa no camarote com ordens expressas do marido para não se envolver com música. Contrariada, voltou para a casa dos pais, e não foi apoiada pela família. Ao descobrir sua terceira gravidez, voltou a viver com o marido. Em 1867 nasceu o terceiro filho Hilário e o casamento degringolou de vez.

A separação causou um tumulto na sociedade, trazendo-lhe, além do sofrimento, a separação dos filhos mais jovens imposta pelo marido. Ficou apenas com o filho mais velho e passou a refazer a vida na música. Pouco depois, reencontrou um antigo namorado, o engenheiro João Batista de Carvalho e foram morar numa fazenda em Minas Gerais. Em 1876 nasceu a filha Alice, mas em seguida descobriu que o novo marido andava traindo-a e desfez o casamento. Voltou para o Rio de Janeiro e passou por uns perrengues, vivendo de aulas particulares de piano ou tocando em lojas de instrumentos musicais e compondo polcas, valsas, tangos e cançonetas. Nessa época juntou-se a um grupo de músicos de choro e teve que adaptar o piano ao gosto popular. Com isto tornou-se a primeira compositora popular do País.

Seu primeiro sucesso musical se deu em 1877, com o animado choro “Atraente”. A repercussão da música no métier carioca, levou-a a se lançar no teatro de variedades. Passou a se envolver com a política em prol da abolição da escravidão. pelo fim da monarquia e enfrentou o preconceito da época por ser independente e fumar em publico. Eram hábitos totalmente descabidos para uma mulher. A carreira como maestrina se deu em 1885 com a opereta “A Corte na Roça”. O enredo tratava de costumes do interior do país e teve o texto censurado pela polícia, que alterou alguns versos. Nos ensaios, um delegado ameaçou cortar a dança final, ponto forte da peça. No mesmo ano, dirigiu os músicos do teatro e a banda da Polícia Militar, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Por essa época participou ativamente da Confederação Libertadora, angariando fundos para a organização antiescravista. Em 1888 comprou a alforria do escravo e músico José Flauta, antecipando-se poucos meses à Lei Áurea. Como compositora, o ponto alto, em termos de abrangência de sua música, se deu em 1899 com a marcha-rancho “Ô Abre Alas”, composição feita a pedido do cordão “Roda de Ouro”. Foi o maior sucesso do carnaval naquele ano. Sua letra, de certa forma, expressa uma ânsia de libertação, um hino à independência de novas formas de expressão: Ô abre alas que eu quero passar / Eu sou da lira não posso negar”

Neste ano, ela conheceu o jovem português João Batista Fernandes Lage, talentoso aprendiz de música, por quem se apaixonou e foi correspondida. Ela com 52 anos e ele com apenas 16 não podiam manter o romance aberto. Além dos filhos, que não aceitariam o enlace, havia o preconceito enraizado na sociedade. Tal relação afetaria, inclusive, sua brilhante carreira artística. Ela solucionou o problema de um modo simples: adotou o rapaz como filho e registrou em cartório. Por volta de 1900 conheceu a irreverente artista Nair de Tefé, a primeira caricaturista mulher do mundo, também boêmia, da qual se tornou grande amiga. Tal convivência certamente ajudou-a a tomar a decisão viver sua vida amorosa mais livre. Assim, em 1902, o casal foi morar em Lisboa e passaram alguns anos felizes morando longe do falatório da gente do Rio de Janeiro. Aproveitou para conhecer toda a Europa e em 1906 já era conhecida do público português ao musicar várias peças lisboetas. Voltou ao Brasil somente em 1912 sem levantar suspeita alguma de viverem como casal. Ela nunca assumiu, de público, o romance, que só foi descoberto após sua morte através de cartas e fotos. No entanto, seus filhos tinham conhecimento do fato e acabaram aceitando o relacionamento.

Logo no retorno ao Rio, emplacou mais um grande sucesso com a opereta “Forrobodó”, que estreou em 1912, batendo o recorde de permanência em cartaz atingindo 1500 apresentações. A peça – uma proposital caricatura dos bailes da elite brasileira – foi um grande sucesso popular e um dos maiores do Teatro de Revista do Brasil. Pouco depois sua amiga Nair de Tefé torna-se primeira-dama do Brasil, ao casar-se com o presidente da República Hermes da Fonseca. Desse modo, tornou-se frequentadora habitual do Palácio do Catete, onde, a convite da amiga participou de alguns saraus. Na noite de 26/10/1914, último ano do mandato presidencial, foi convidada para uma audição musical no Palácio, cuja programação incluía autores como Gottschalk e Frans List. Na ocasião tocou o maxixe “Corta-Jaca”, uma música considerada indecente pela igreja e proibida nos salões da elite carioca. A própria Nair de Teffé chegou a acompanhá-la no violão, causando um escândalo entre muitos presentes. O senador Rui Barbosa não perdoou a ousadia: “Aqueles que deviam dar ao País o exemplo das maneiras mais distintas e de costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social”, esbravejou no Senado. “Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, senhor presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”.

O “escândalo” causado na época alavancou mais ainda sua carreira e participação no meio artístico. Em 1917, liderou um grupo de escritores e compositores empenhados na fundação da SBAT-Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tendo o famoso cronista João do Rio como primeiro presidente. Como se vê Chiquinha Gonzaga atraia uma constelação de astros irreverentes, que revolucionaram os costumes da época. Em 1934, aos 87 anos, escreveu sua última composição, a partitura da peça “Maria”. Faleceu em 28/2/1935, ao lado do seu amado, a quem devemos agradecer a preservação de todo seu acervo musical, Seu legado é de músicas para 77 peças teatrais tendo sido autora de cerca de duas mil composições em diversos gêneros, que podem ser consultados na Internet: Chiquinha Gonzaga

Recebeu muitas homenagens ainda em vida. Após sua morte foi reconhecida como a fundadora da música popular brasileira. Seus conterrâneos cariocas prestaram-lhe uma bela homenagem com o enredo “Abram alas que eu quero passar”, pela escola de samba Mangueira, em 1985. Mais tarde, foi a vez da escola de samba Imperatriz Leopoldinense com o enredo “Eu sou da lira, não posso negar” , no carnaval de 1997. Mas o reconhecimento maior veio em 2012, quando o governo instituiu o “Dia Nacional da Música Popular Brasileira”, comemorado em 17 de outubro, o dia de seu aniversário. Atualmente sua memória está em baixa, mas já houve tempos em que esteve melhor. De janeiro a março de 1999, a Rede Globo apresentou a minissérie “Chiquinha Gonzaga”, baseada no livro de Dalva Lazzaroni de Moraes, tendo Regina Duarte como protagonista. Sua principal biografia – Chiquinha Gonzaga; uma história de vida -, realizada por Edinha Diniz, foi publicada em 1962 pela editora Rosa dos Tempos e em 2005 encontrava-se na 11ª edição.

OS BRASILEIROS (XIV): BURLE MARX

Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, em 4/8/1909. Artista plástico, pintor, designer, arquiteto, tapeceiro, cantor lírico para os amigos e um dos paisagistas mais renomados do mundo. Filho da recifense Cecília Burle e de Wilhelm Marx, judeu alemão, parente de Karl Marx. Aos 4 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro. Logo que os negócios (exportação e importação de couros) do pai prosperaram, foram morar num casarão do Leme, onde ele, aos 8 anos, começou a cultivar mudas de plantas e iniciar sua própria coleção.

Em 1928, teve um problema nos olhos e a família foi procurar tratamento na Alemanha, onde permaneceram até 1929. Lá entrou em contato com as vanguardas artísticas e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen, onde encontrou a vegetação brasileira numa estufa. Ficou fascinado com a beleza das plantas tropicais. Mas o fascínio mesmo, neste momento, se deu com a pintura, a partir das visitas que fez às exposições de Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Van Gogh. Entusiasmado, passou a estudar pintura no ateliê de Degner Klem. De volta ao Brasil, em 1930, seu amigo e vizinho Lucio Costa incentivou-o a entrar na Escola Nacional de Belas Artes. Aí conheceu e fez amizade com alguns nomes que se destacariam na moderna arquitetura brasileira: Oscar Niemayer, Hélio Uchoa, Milton Ribeiro etc.

Seu primeiro projeto paisagístico se deu em 1932, a pedido do amigo Lúcio Costa, para o jardim da residência da família Schwartz. Mas o primeiro projeto público se deu em 1934, na Praça de Casa Forte, no Recife, onde projetou mais 5 praças, todas tombadas pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No mesmo ano foi designado Diretor de Parques e Jardins do famoso DAU-Departamento de Arquitetura e Urbanismo, onde trabalhava Joaquim Cardoso, que viria a ser o calculista das obras de Niemayer. Neste cargo projetou diversos logradouros, fazendo uso intensivo da vegetação nativa e a se destacar na área. Em 1935, projetou a Praça Euclides da Cunha (Recife), que ficou conhecida como “Cactário Madalena”, devido a sua ornamentação com plantas da caatinga e do sertão nordestino. A partir daí passou a imprimir um caráter de brasilidade ao seu trabalho, livrando-se da influência europeia, onde predominam as azaleias, camélias, magnólias e nogueiras.

Para isso contava com o apoio de Luiz Nunes, Diretor do DAU e Atilio Correa Lima, gestor do Plano Urbanístico da cidade, e de simpatizantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias e Joaquim Cardoso. Dois anos depois, o DAU partiu para um projeto mais ambicioso e deixou a seu cargo o projeto do primeiro Parque Ecológico do Recife. Devido a sua atuação nesta cidade, é celebrada no Recife a “Semana Burle Marx”, no inicio do mês de agosto, conforme a Lei Municipal nº 17.571, de 2009. Passou 3 anos residindo no Recife e retornou ao Rio de Janeiro em 1937. Em seguida foi convidado para projetar os jardins do Edifício Gustavo Capanema (na época Ministério da Educação e da Saúde), no Rio de Janeiro. Idealizou um terraço-jardim que é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Com vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim apresentava uma configuração inédita no país e no mundo.

Por essa época tomou aulas de pintura com Cândido Portinari, de quem se tornaria assistente, e Mario de Andrade, no Instituo de Arte da Universidade do Distrito Federal. No final da década de 1930 sua obra paisagística já está perfeitamente integrada à arquitetura moderna, uma tendência mundial que abrange as artes de um modo geral. Assim, passou a integrar o grupo de arquitetos adeptos da escola alemã Bauhaus, influenciados pela corrente francesa liderada por Le Corbusier. Trata-se de um estilo humanista integrador de todas as artes. Em 1949 adquiriu o Sitio Santo Antônio da Bica, em Campo Grande (RJ), com 365.000 m², e passa a viajar pelo Brasil, junto com botânicos, em busca de plantas tropicais. O objetivo foi coletar e catalogar exemplares para reproduzir, no sitio, a diversidade fitogeográfica brasileira.

Seu papel na definição da Arquitetura Moderna Brasileira foi fundamental, tendo atuado nas equipes responsáveis por diversos projetos célebres. A partir daí, passou a trabalhar com uma linguagem bastante orgânica e evolutiva, identificando-a muito com vanguardas artísticas como a arte abstrata, o concretismo, o construtivismo. Como é, também, pintor, as plantas baixas de seus projetos lembram em muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos através dos elementos de vegetação nativa. Daí em diante sua parceria em trabalhos com Oscar Niemayer e Lúcio Costa toma impulso. Como arquiteto, inclui em seus parques e jardins elementos arquitetônicos como colunas e arcadas, encontrados em demolições; utiliza ainda mosaicos e painéis de azulejos, recuperando a tradição portuguesa.

A partir da década de 1950, passou a utilizar em seus trabalhos uma ordenação mais geometrizante, como ocorreu na Praça da Independência (João Pessoa), no Parque do Flamengo (RJ) ou Parque Ibirapuera (SP). Em 61 anos de carreira, assinou mais de dois mil projetos em todo o mundo e recebeu inúmeras honrarias. Mas a homenagem que mais o sensibilizou foi ver seu nome designando uma espécie de planta tropical: a Calathea Burle Marxii”, conhecida popularmente como “Calatea Burle Marx” ou “Maranta de Burle Marx”. Por essa época é contratado para projetar parques públicos em diversas cidades: Parque Generalíssimo Francisco de Miranda (Caracas, 1950); Jardins da Cidade Universitária da Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1953); Jardim do Aeroporto da Pampulha (Belo Horizonte, 1953); Balneário Municipal de Águas de Lindóia (SP, 1954); Paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1955); Paisagismo da Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina (1960); Paisagismo para o Eixo Monumental de Brasília (1961); Paisagismo do Aterro do Flamengo (1968); Paisagismo da Embaixada do Brasil em Washington, USA, 1970); Paisagismo do Palácio Karnak (Teresina, 1970); Paisagismo do aterro da Bahia Sul em Florianópolis (1971).

Tais atividades não o afastaram da pintura, e desde a década de 1930 participou de 74 exposições individuais, 71 coletivas e 22 póstumas. Seu traço revela influências de Pablo Picasso e dos muralistas mexicanos. Nos retratos, aproxima-se de Candido Portinari e Di Cavalcanti. Segundo os críticos de arte, a partir de década de 1950 “a tendência para a abstração consolida-se e a paleta muda, passando a incluir muitas nuances de azul, verde e amarelo mais vivos. Em suas telas o trabalho com a cor está associado ao desenho, que se sobrepõe e estrutura a composição. Nos anos 1980, passou a realizar composições geométricas em acrílico, os contornos são desenhados com a cor, as telas adquirem um aspecto fluído, flexível e ganham leveza.

A dedicação à pintura é intensificada com sua mudança para o sítio Santo Antônio da Bica (RJ), em 1972, onde passou a cultivar 3.500 espécies de plantas do mundo inteiro, criando um verdadeiro “Éden Tropical”. Em 1985, o sítio é doado ao governo federal, passando a chamar-se Sitio Burle Marx, mantido pelo IPHAN e aberto a visitação pública. Constitui-se num valioso patrimônio paisagístico, arquitetônico e botânico, além de uma escola para jardineiros e botânicos. Em São Paulo, é mantido desde 1994, o Parque Burle Marx, no bairro do Morumbi, com 168.000 m2 e administrado pela Fundação Aron Birmann em parceria com a Prefeitura da cidade. Em 1982, recebeu o título Doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, e do Royal College of Art, em Londres, dentre as tantas homenagens recebidas com nomes de diversos logradouros, escolas e instituições. Sua obra pode ser melhor contemplada nos diversos livros publicados sobre suas contribuições ao paisagismo e nos livros de sua autoria: Arte e paisagem: conferências escolhidas. São Paulo: Nobel, 1987 e Arte e paisagem: a estética de Burle Marx. São Paulo: MAC/USP, 1997. Faleceu em 4/6/1994, no Rio de Janeiro.

AS BRASILEIRAS (VIII): CECÍLIA MEIRELES

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7/11/1901, no Rio de Janeiro. Jornalista, professora, pintora e essencialmente poeta. Foi a primeira mulher a se destacar com prestigio na literatura brasileira. Orfã de pai e mãe, foi criada pela avó materna e após o curso primário na Escola Estácio de Sá, recebeu de Olavo Bilac uma medalha de ouro por ter feito o curso com “distinção e louvor”. Era uma criança bonita de olhos azuis-esverdeados. Passou a infância muito sozinha, pois a avó cuidava para que não fosse brincar na rua. A solidão e o silêncio, segundo ela mesmo, foram positivos para sua carreira de poeta.

Em 1917 formou-se professora na Escola Normal do Distrito Federal, e passou a exercer o magistério nas escolas oficias do Rio Janeiro. Aos 18 anos publicou seu primeiro livro com 17 sonetos: Espectros e foi influenciada pelo Movimento Simbolista. Nesta época participou da “Revista Festa”, de um grupo católico, conservador e anti-modernista. Vem daí sua visão espiritualista presente em suas obras. Casou-se em 1922 com o artista plástico português Fernando Correia Dias, um dos introdutores de uma nova estética no modernismo português, com quem teve três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda, que se tornou uma famosa atriz de telenovela. Mais tarde, numa viagem à Portugal, o marido apresentou-a à alguns intelectuais e artistas e ela se interessou em conhecer pessoalmente o poeta Fernando Pessoa. Marcaram local e hora do encontro, mas o poeta não compareceu alegando num bilhete que, consultando seu horóscopo, viu que aquele dia não era bom para um encontro de dois poetas. Pediu desculpas no bilhete e deixou-lhe um exemplar autografado de seu livro Mensagem.

A vida do casal não foi fácil devido aos preconceitos da época, que prejudicaram o artista plástico e a professora, que mantinha uma coluna no Diário de Notícias sobre educação. No inicio de 1922, quando ocorria a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, com a qual não teve contato, escreveu poemas para um novo livro publicado no ano seguinte: Nunca mais e Poema dos poemas, com ilustrações do marido. Preocupada com a qualidade do ensino e a escassez de livros didáticos, escreveu um livro para escolas primárias, e publicou-o em 1924: Criança, Meu Amor. O livrinho foi adotado pela Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal, dirigido por Anísio Teixeira, e aprovado pelo Conselho Superior de Ensino dos estados de Minas Gerais e Pernambuco.

Em 1925 publicou Baladas para El Rei contendo poemas, que os críticos caracterizaram como representante do “simbolismo-tardio” e outros tais como O espírito vitorioso (1929), Saudação à menina de Portugal (1930), Batuque, samba e macumba (1933), enquanto lecionava. Seu apego a educação e a literatura infantil motivou-a a fundar, em 1934 a primeira biblioteca Infantil do Brasil. Dois anos após, seu marido, sofrendo de forte depressão, cometeu suicídio, fazendo com que ela passasse um período sem escrever e dedicando-se apenas ao magistério. Em 1936 foi nomeada para a recém fundada Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ). Passado o período de luto, publicou, em 1939, o livro Viagem, considerado um marco de maturidade e individualidade em sua obra, com o qual recebeu o Prêmio de Poesia Olavo Bilac”, da Academia Brasileira de Letras.

Em 1940 realizou uma viagem pela Europa e EUA, onde lecionou literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas e Lisboa, e proferiu uma série de conferências sobre estes temas. Essa retomada da vida culminou com o segundo casamento com o engenheiro Heitor Gillo. Em seguida, tornou-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e empreendeu viagens pela Ásia e África sempre proferindo conferências sobre literatura, educação e folclore brasileiro. Em 1942 tornou-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e dedicou-se a várias viagens aos Estados Unidos, Europa, Ásia e África; sempre proferindo conferências sobre Literatura, Educação e Folclore.

Em 1953, lançou sua coletânea de poemas mais conhecida, Romanceiro da Inconfidência, uma obra em que, segundo os críticos, Tiradentes surge “como um avatar de Cristo e sofrendo o sacrifício do bode expiatório, ele se torna num redentor do Brasil, que abriria a nova era da liberdade”. A obra “construiu um mosaico em que se cristalizaram vibrações captadas na terceira margem da memória coletiva” creditando à poeta a “consolidação de uma teia de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade nacional”. Mais tarde, a obra serviu como base para o filme Os inconfidentes (1972), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Sua poesia é caracterizada por imagens sugestivas, sobretudo as de forte apelo sensorial, reflexiva, de fundo filosófico. Isto pode ser visto, digo, ouvido nos poemas “Canteiros” e Motivo, musicados pelo canto Fagner.

Além de poesia, escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas de suas obras em prosa: Giroflê, Giroflá (1956), Escolha seu Sonho (1964), seu último livro. Faleceu em 9/11/1964 e deixou muitos livros na gaveta, os quais foram publicados postumamente, dentre os quais: O menino atrasado (1966), Flor de Poemas (1972), Flores e Canções (1979), sem contar as obras completas: Poesias Completas (1973), Obra em Prosa (1998 em 6 Volumes), Crônicas de educação (2001 em 5 volumes) e Poesia Completa, edição do centenário (2001 em 2 volumes), organizada por Antonio Carlos Secchin. No ano seguinte ao seu falecimento, recebeu uma homenagem póstuma da Academia Brasileira de Letras: o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, num total de 54 livros.

Em 1989 foi homenageada pelo Banco Central do Brasil, tendo seu retrato estampado na cédula de cem cruzados novos. A fragilidade da moeda brasileira aposentou a cédula, mas seu nome continua denominando escolas, bibliotecas e logradouros públicos no Brasil e no exterior, como nas Ilhas dos Açores, numa escola da freguesia de Fajã de Cima ou numa biblioteca de Valparaiso, no Chile. Para aquilatar sua poesia, temos a avaliação do crítico Paulo Rónai: “Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo…A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea”.

OS BRASILEIROS (XIII): GREGÓRIO BEZERRA

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas, PE, em 13/03/1900. Trabalhou na agricultura ainda criança e ficou órfão do pai aos sete anos, e da mãe aos nove. Foi morar no Recife junto a família dos fazendeiros que empregavam seus pais, mas não ficou muito tempo. A promessa de estudar não foi adiante e permaneceu analfabeto até os 25 anos. Passou boa parte da infância dormindo na rua e entre as catacumbas do cemitério de Santo Amaro. Nessa época trabalhou como carregador de malas na estação ferroviária, ajudante de pedreiro e jornaleiro.

Foi como vendedor de jornas que começou a se interessar pela política, através da leitura que os colegas faziam para ele. Em 1917 foi preso pela primeira vez, quando participava de uma manifestação de apoio à Revolução Bolchevique, que se passava na Rússia e à greve geral reivindicando direitos trabalhistas. Passou cinco anos preso na Casa de Detenção do Recife, onde conheceu o cangaceiro Antonio Silvino, do quem se tornou amigo. Ao sair da prisão, em 1922, com dificuldades de arrumar emprego, alistou-se no Exército e dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização. Com a intenção de fazer carreira militar, entrou para a Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro e foi instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas. Em 1929, retorna ao Recife e filia-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Dois anos depois, é designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza. Por sua própria conta, criou uma célula do PCB em Fortaleza, contrariando a orientação do partido. Em 1935 participou da “Intentona Comunista”, movimento promovido pela ANL – Aliança Libertadora Nacional, na condição de líder do levante militar. Na tentativa de roubar armamentos do CPOR, foi preso acusado pela morte de um tenente e ferimento de outro. Nesta segunda prisão, recebeu uma condenação de 28 anos, primeiro em Fernando de Noronha, seguida por outra temporada no Rio de Janeiro, no Presídio Frei Caneca. Nesta ocasião, dividiu a cela com o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Foi aí que aprimorou seus conhecimentos sobre as condições econômicas e políticas do Brasil, bem como sobre o movimento comunista internacional.

Com o fim do Estado Novo e a legalização do PCB em 1945, foi anistiado e elegeu-se deputado federal constituinte por Pernambuco, com a maior votação do estado. Em 1948 foi cassado junto com todos os parlamentares comunistas. Passou a viver na clandestinidade por nove anos, e neste período viajou para Goiás e Paraná, organizando núcleos sindicais como militante do PCB. A terceira prisão veio em 1964, com o Golpe Militar. Foi preso enquanto organizava a resistência armada dos camponeses ao golpe em apoio ao governo de João Goulart (federal) e Miguel Arraes (estadual). Levado para o Recife, sofreu as mais terríveis torturas e humilhações públicas: teve os pés imersos em ácido de bateria e foi obrigado a andar sobre britas. Em seguida foi arrastado pelas ruas de Casa Forte, enquanto o tenente-coronel Darcy Viana Vilock incitava a população a linchá-lo. O povo, consternado pela cena, não atendeu a incitação do coronel. Estas cenas foram transmitidas ao vivo pela televisão.

Em 1967 foi condenado a 19 anos de prisão, e foi libertado em 1969, junto com outros 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. Passou a viver na Rússia após um curto período no México e Cuba, só retornando ao Brasil em 1979, com a promulgação da anistia. Logo em seguida começou a divergir do PCB e desligou-se de seus quadros. No mesmo ano publicou sua autobiografia “Memórias” (relançado em 2011 pela Boitempo Editorial).

Pouco depois, filou-se ao PMDB, candidatou-se a Deputado Federal, em 1982, mas perdeu e ficou como suplente. No ano seguinte, já doente, declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas”. Faleceu em 21/10/1983. Em sua homenagem, o poeta Ferreira Gullar compôs o poema-cordel intitulado “História de um valente”.

Valentes, conheci muitos,
e valentões, muito mais.
Uns só Valente no nome
uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
só com capangas atrás.
Mas existe nessa terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor.

Em 2004 foi realizado o documentário de 28 minutos “Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”, dirigido por Anna Paula Novaes, Raquel barros e Rosevanya Albuquerque. O filme ganhou os prêmios de Destaque e Menção Honrosa no Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

OS BRASILEIROS (XII) – HENRIQUE DIAS

Henrique Dias nasceu no Recife, PE, em princípios do século XVII. Negro liberto, mestre-de-campo, guerrilheiro, cavaleiro da Ordem de Cristo e um dos fundadores do Exército Brasileiro. Há pouca documentação sobre sua origem e as informações confiáveis aparecem somente em 1633, quando se apresentou ao general Matias de Albuquerque, como voluntário, para combater a “invasão holandesa” no Recife. Assim, tornou-se o capitão de uma tropa e recebeu a patente de governador dos negros e mulatos do Brasil. Também não há retrato seu autêntico, conhecido. Os que aparecem nos compêndios de história e livros eruditos são pura fantasia. Segundo Osvaldo de Camargo, em seu livro O Negro escrito (1987), é o primeiro negro que escreveu um texto no Brasil e, por conseguinte, “o primeiro afro-brasileiro letrado”.

Combateu os holandeses em Pernambuco, Bahia, Alagoas e Rio Grande do Norte, não perdendo sequer uma batalha. Tomou parte, entre outras, nas batalhas das Tabocas, de Casa Forte, de Cunhaú e dos Guararapes. Sua primeira ação militar foi a defesa do Engenho São Sebastião, quando contou com a ajuda de vinte negros e de outros capitães, onde recebeu o primeiro dos seus oito ferimentos lutando contra os holandeses. Num desses ferimentos perdeu a mão esquerda na batalha e continuou lutando com a direita. Estabeleceu-se num local do Recife (atual bairro de Santo Antônio) próximo dos inimigos. Ficava tão perto dos holandeses que, às vezes, o duelo não era na bala e sim com palavras de desafio e injúria. De seu local realizou várias investidas importantes contra os batavos.

Em 1635, quando os holandeses tomaram o Forte Bom Jesus, ele foi visto como escravo e não ficou entre os prisioneiros mais bem guardados. Fugiu e se reuniu às tropas pernambucanas que recuavam para o sul. Atuou na Bahia como capitão-do-mato e combateu quilombos. Passou a comandar um regimento de 500 negros; recebeu o título de fidalgo e o hábito da Ordem Militar de Cristo e recebia um soldo compatível com o posto de comandante. Enquanto isso, Maurício de Nassau consolidava a vitória em Pernambuco e governou por oito anos o “Brasil Holandês”. Seu retorno à Holanda em 1644, precipitou a insurreição pernambucana. Os portugueses enviaram as tropas acantonadas na Bahia, incluindo a comandada por Henrique Dias. Seu batalhão, conhecido como “Terço da Gente Preta”, era composto de 500 negros escravos de origem africana que arrasou quilombos baianos e permaneceu em atividade como parte das tropas regulares de Pernambuco até meados do século XVIII. Em fevereiro de 1649, o coronel Van Den Brinck e seus 3500 homens receberam uma artilharia e a ordem para desalojar os pernambucanos dos montes Guararapes. Dias demonstrou excepcional bravura e o batalhão negro perseguiu os holandeses até os portões da cidade. O comandante português, Menezes, mal pode acreditar na vitória.

Em dado momento da trégua de Portugal com a Holanda, D. João IV determinou que os insurreitos pernambucanos se encaminhassem à Bahia. Antes que os holandeses comemorassem a retirada, receberam de Henrique Dias uma carta dizendo o seguinte: “Meus senhores holandeses, saibam Vossas Mercês que Pernambuco é minha Pátria, e que já não podemos sofrer tanta ausência dela. Aqui haveremos de perder as vidas, ou havemos de deitar a Vossas Mercês fora dela. E ainda que o Governador e Sua Majestade nos mandem retirar para a Bahia, primeiro que o façamos havemos de responder-lhes, e dar-lhes as razões que temos para não desistir desta guerra”.

Com a expulsão dos holandeses, em 1654, Henrique Dias, ao contrário de outros militares combatentes, não recebeu as recompensas que lhe eram devidas, tendo que viajar a Portugal para requerer a remuneração atrasada dos seus serviços e foi recebido pelo rei Dom João IV. Na ocasião, pediu que seu regimento de negros fosse perpetuado. O rei concordou e mandou construir a cidade de Estância, perto de Recife, para os soldados. Dias ganhou o título de governador dos crioulos, pretos e mulatos do Brasil, além da comenda dos Moinhos de Soure, da Ordem de Cristo. Passou seus últimos anos em Pernambuco, morrendo em extrema pobreza no dia 7 ou 8 de junho de 1662, no Recife.

Sua memória ficou registrada com o nome adotado pelos batalhões de Pretos que surgiram em várias capitanias após sua morte. Um século depois, ainda, estavam ativos dois corpos militares de homens de cor em Pernambuco. O de Pardos possuía 31 companhias e contava com 1.401 pessoas e o de Henrique Dias, exclusivamente formado por Pretos, que contava com 17 companhias formadas por 1.549 homens. Pela sua bravura, dedicação e liderança, foi escolhido, em 1992, patrono do então 28º Batalhão de Infantaria Blindada (28º BIB), atualmente, 28º Batalhão de Infantaria Leve (28º BIL) localizado em Campinas, São Paulo. A Lei nº 12.701, de 6/8/2012, determinou que seu nome fosse inscrito no Livro de Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria, em Brasília. Seu nome, não obstante o esquecimento a que foi relegado, ainda denomina uma porção de logradouros e instituições no Brasil e, particularmente, em Pernambuco, como o “Grupo Escolar Henrique Dias”, em Garanhuns, onde conclui o curso primário.

AS BRASILEIRAS (VII): ANITA GARIBALDI

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30/8/1821, em Laguna, SC. Heroína por sua participação na Revolução Farroupilha (1835-45) e na Itália, na guerra pela unificação italiana. Ficou conhecida como a “Heroína dos dois Mundos” por sua participação em guerras nos dois continentes junto com o marido Giuseppe Garibaldi. De origem modesta, casou-se aos 14 anos por insistência da mãe. Pouco depois, o marido alistou-se no Exército Imperial e deixou a esposa. Aos 18 anos conheceu Garibaldi, um guerrilheiro italiano de 32 anos, fugido de uma sentença de morte, devido ao seu envolvimento com o movimento de unificação italiana.

O Sul do Brasil estava em guera contra o governo imperial. Em julho de 1839 sob o comando de David Canabarro, Garibaldi preparava-se para tomar a cidade de Laguna a bordo de uma embarcação tomada das forças inimigas, afim de formar a República Juliana. Munido com uma luneta, passou a observar a cidade e deparou com um grupo de moças passeando pela praia. Prestou atenção numa delas e ficou encantado. Pegou um barco foi até o local, mas não a encontrou. Dias depois, foi convidado por um habitante para um café em sua casa. Lá encontrou casualmente moça que o impressionou. O encontro causou-lhe uma emoção, relatada em suas memórias:

“Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse: ‘Tu deves ser minha!’. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.

Em outubro de 1839, Anita decidiu seguir com Garibaldi em seus combates em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Montevideo e Itália. Seu batismo de fogo se deu logo em seguida, em Imbituba, quando seu navio for atacado pela marinha imperial do Brasil. No mês seguinte deu-se a famosa batalha naval de Laguna contra Frederico Mariath, onde Anita desmonstrou sua coragem municiando os combatentes no meio de intenso tiroteio. Em janeiro de 1840, participou da Batalha de Curitibanos, onde sua tropa foi derrotada e ela aprisionada. O comandante do exército imperial, achando que Garibaldi havia sido abatido, deixou-a livre para procurar o cadáver do marido. Num instante de distração dos guardas, ela tomou um cavalo e fugiu. Atravessou a nado com o cavalo o rio Canoas, chegou ao Rio Grande do Sul e reencontrou-se com Garibalde em Vacaria oito dias depois.

Em setembro do mesmo ano nasceu o primeiro filho do casal, na vila e atual cidade de Mostardas, que recebeu o nome de Menotti Garibaldi. 12 dias depois, o exército imperial, comandado por Francisco Pedro de Abreu, foi prender o casal. Garibaldi não se encontrava e Anita fugiu a cavalo com o recém-nascido. Ficou escondida por quatro dias nos arredores da cidade até o reencontro com o marido. No ano seguinte a situação militar da pretensa República Rio-Grandense tornou-se insustentável e Garibaldi obteve do General Bento Gonçalves da Silva permissão para deixar o exército republicano. Como recompensa recebeu um rebanho de 900 cabeças de gado. Inciaram uma marcha de 600 km. até Montevidéu, onde chegaram com apenas 300 cabeças de gado. Este era o patrimônio da familia que foi se estabelecer no Uruguai.

Em 1842 o casal legalizou a união, pois a certidão de casamento era uma exigencia legal para quem aspirava cargos públicos. Assim, Garibaldi foi designado comandante de uma frota uruguaia para enfrentar a esquadra naval argentina no combate ao ditador Juan Manuel Rosas. Chegou ao posto de Coronel da Marinha e ficou famoso no Uruguai, particularmente após o “Decreto de Graça e Honra”, concedido pelo Governo de Montevidéu aos legionários italianos. Em seguida o casal teve mais três filhos: Rosa (1843), Teresa (1845) e Ricciotti (1847). Devido ao seu envolvimento na guerra contra Argentina, tentou enviar Anita e as crianças para ficarem com seus familaires em Nice (França), em 1846, mas não obteve permissão do Rei da Sardenha, Carlos Alberto. No ano seguinte Anita e os três filhos foram para a Itália e encontrou-se com a mãe de Garibaldi. Em seguida viajaram para Nice, onde ficou morando por pouco tempo. Meses depois, Garibaldi reuniu-se a eles e voltaram para a Itália. Os filhos ficaram aos cuidados da avó.

Na Itália, lutaram pela unificação italiana, tentando expulsar os austríacos da região da Lombardia. Em fevereiro de 1849, o casal presenciou proclamação da Republica de Roma, com ele na condição de Deputado. Mas a invasão franco-austríaca obrigou-os a abandonar a cidade. Com 3900 soldados, Garibaldi e Anita deixaram Roma. Em sua perseguição saíram três exércitos (franceses, espanhóis e napolitanos) com 40 mil soldados. Ao norte lhes esperava o exército austríaco, com 15 mil soldados. Tentaram a todo custo salvar o território italiano. Mesmo grávida do quinto filho, ela participou de algumas batalhas. Com a saúde comprometida, alcançaram a Republica de San Marino, onde o embaixador norte-americano ofereceu-lhe um salvo-conduto, que foi recusado. Doente e perseguida, foi levada para a fazenda Guiccioli, próximo a Ravena, onde veio a falecer junto com a criança ,em 4/8/1949.

Garibaldi ordenou que seu corpo fosse sepultado na terra de sua família, em Nice. Em 1932, foi transferido para um monumento construido em sua homenagem, no Janículo em Roma. As homenagens alcançaram o Brasil e veio a denominar duas cidades em Santa Catarina: Anita Garibaldi e Anitópolis e diversos logradouros e escolas em todo o país. Em abril de 2012, a Lei 12.615 determinou que seu nome fosse inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Diversas biografias foram publicadas no Brasil e na Itália, entre as quais cabe destacar a realizada por Paulo Markun, Anita Garibaldi: uma heroína brasileira, publicada em 1999 pela Editora SENAC. A casa onde viveu em Laguna é hoje um museu, aberto ao público em 1978, contando a história da ilustre moradora.

OS BRASILERIOS (XI) – ASSIS CHATEAUBRIAND

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, em 4/10/1892. Jornalista, advogado, empresário, escritor e político. O nome Chateaubriand é prenome e não sobrenome familiar. Seu avô paterno, apreciador do escritor francês François Chateaubriand, registrou os filhos com o prenome Chateaubriand. Teve uma infância difícil, com problemas psicológicos, devido a uma gagueira e uma grande timidez. A família mudou-se para Belém do Pará e deixou-o aos cuidados do avô materno. Na convivência com os avós, melhorou bastante e voltou a viver com seus pais, em 1901, quando se estabeleceram no Recife. Foi alfabetizado em casa, aos 10 anos, pelo tio, utilizando antigos exemplares do “Diário de Pernambuco”. O destino de jornalista e magnata da imprensa estava sendo traçado.

Em fins de 1903, foi estudar em Campina Grande (PB), indo morar com seu tio e padrinho Chateaubriand Bandeira de Melo. Em novembro de 1904, retornou ao Recife e prestou exame de admissão na Escola Naval. O curso secundário foi realizado no tradicional Ginásio Pernambucano. Por esta época passou a estudar alemão com os frades do convento de São Francisco e tornou-se um leitor compulsivo. Com o destino de jornalista traçado, seu primeiro emprego foi na “Gazeta do Norte”, recortando anúncios classificados. Em 1908, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e, durante o curso, foi trabalhar como aprendiz de repórter no jornal “A Pátria”. Trabalhou também no “Jornal do Recife”, no “Diário de Pernambuco” e no “Jornal Pequeno”. Aos 21 anos, ao formar-se em Direito, já era editor e redator-chefe do “Diário de Pernambuco”, cujo proprietário era o conselheiro Rosa e Silva, influente político da época. Em novembro de 1911, teve que pegar em armas para se defender da multidão que se aglomerava na porta do jornal em protesto contra a vitória eleitoral de seu patrão.

Em 1915, na busca de novos horizontes, foi para o Rio de Janeiro e estabeleceu amizades com pessoas influentes. Colaborou nos jornais “A Época”, “Jornal do Commercio”, “Correio da Manhã” e na edição vespertina d’ “O Estado de São Paulo”. Seu sonho era “adquirir um jornal, como primeiro elo de uma cadeia”. Para conseguir o dinheiro, instalou uma banca de advocacia e com seu bom relacionamento com pessoas importantes, conseguiu vários clientes e associados. Chegou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como consultor para leis de guerra, no governo Nilo Peçanha, mas deixou o cargo para ser redator-chefe do Jornal do Brasil.

A carreira de jornalista foi se consolidando até 1919, quando foi convidado pelo “Correio da Manhã” para ser correspondente internacional na Europa.

De volta ao Brasil, adquiriu o “O Jornal” em setembro de 1924, dando início à cadeia nacional de jornal e rádio dos “Diários Associados”, que iria revolucionar o jornalismo brasileiro, inovando a imprensa, modernizando equipes, processos e veículos. Chateaubriand casou-se uma vez apenas, com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral. Teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a uma jovem de nome Corita, com quem teve uma filha. Logo depois, a jovem decidiu deixá-lo e levou a filha com ela. Ele ficou enfurecido e sequestrou a própria filha. O caso foi parar na polícia e ele ficou acuado. Foi quando proferiu uma de suas frases célebres: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Assim, conseguiu de Getulio Vargas a promulgação de um decreto que lhe deu direito à guarda da filha.

Em seguida, incorporou a sua cadeia o “Diario de Pernambuco”, o jornal mais antigo em circulação na América Latina, onde havia iniciado a carreira. Chatô, como alguns o chamavam, tornou-se uma personalidade conhecida aqui e no exterior, respeitado e temido pelos poderosos. A partir de seu poderio, esse self-made man à brasileira, perfeito Cidadão Kane tropical, exerceu enorme influência política brasileira, sobretudo por ter apoiado a Revolução de 30, que levou o Getúlio Vargas à presidência do país. Desenvolveu com Getúlio uma proximidade contraditória, de apoios e reveses, e agiu empresarialmente com uma ética própria, ameaçando ou gratificando inimigos e aliados, inclusive lançando campanhas contra ou a favor deles em seus jornais. Farto de ver seu nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chateaubriand devolveu: “Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Sua ligação com Vargas durou pouco. Na Revolução Constitucionalista de 1932, tomou partido por São Paulo e teve que ser exilado por algum tempo.

Participou de todas as grandes campanhas de opinião de seu tempo. Além dos “Diários Associados” chegou a possuir dez fazendas agropecuárias e laboratórios farmacêuticos. Seus empreendimentos chegaram a abranger 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 emissoras de TV, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis e a editora O Cruzeiro. Comandava o império das comunicações com mão de ferro. Conta-se que seu funcionário, o escritor Joel Silveira, escreveu um editorial que ele não gostou e chamou-o ao seu gabinete. “Como é que o sr. escreve um negócio desse?” indagou de modo ríspido. “Bem, é essa a minha opinião. O sr. não gostou?”. “Não, sr. Joel. Não gostei e vou lhe dizer uma coisa: se quiser ter opinião, o senhor adquira um jornal. Quem tem opinião aqui sou eu”. Ficou conhecido, também, como o cocriador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi. Negociou belos quadros no mundo todo e depois pedia aos grandes empresários para pagarem. Dizia que eles estavam doando ao futuro museu. Se não quizessem pagar, poderiam sofrer uma campanha difamatória através de seus jornais e revistas. A coleção foi colocada, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek, sob a gestão de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Diários Associados.

Seu maior feito na área das comunicações, foi trazer a televisão para o Brasil ao criar a TV Tupi em 1950. Na época o aparelho de TV era quase inexistente no Brasil e a criação da emissora representou uma revolução nas comunicações. No campo pessoal, serviu para seu criador alçar novos patamares, lançando-se na política. Em 1952, foi eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas. Seu posicionamento político era controverso como tudo em sua vida. Embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, tinha uma postura pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o americano. Admirava tanto a Inglaterra que renunciou ao mandato de senador do Maranhão para se tornar embaixador naquele país.

Era temido pelas campanhas jornalísticas que promovia, como a defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás. Na área literária propriamente dita, não escreveu nada. Porém, publicou cerca de 12 mil artigos assinados em seus jornais. Não havia um dia sequer que não saisse um texto seu na imprensa. Na literatura e na pintura abriu seus jornais para nomes ainda desconhecidos que depois se tornaram grandes: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari entre outros. Tal influência neste métier levou-o à Academia Brasileira de Letras, em dezembro de 1954.

Suas duas últimas criações foram o jornal “Correio Braziliense” e a TV Brasília, fundadas em 21 de abril de 1960, no mesmo dia da fundação de Brasília. Meses depois, sofreu um derrame cerebral ficando totalmente paralítico. Mesmo assim, viajou muito dentro e fora do País, mantendo-se informado de tudo e dirigindo suas empresas e jornais. Comunicava-se apenas por balbucios e por uma máquina de escrever adaptada. Suas últimas ações foram dirigidas a criação de um museu de arte em sua terra. Em agosto de 1967 entregou ao reitor da Fundação Universidade Regional do Nordeste (hoje Universidade Estadual da Paraíba- UEPB), o primeiro acervo do Museu Regional de Campina Grande, com 120 peças. Em seguida, o museu passou a ser chamado de “Museu de Arte Assis Chateaubriand”. Faleceu em 6/4/1968 e foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo Pietro Maria Bardi, organizador do acervo do MASP, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Junto com ele morria também seu império que se esfacelava diante do surgimento do reinado de Roberto Marinho. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo, onde foi sepultado no Cemitério do Araçá.

Deixou os Diários Associados para um grupo de vinte e dois funcionários, atualmente liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados é, conjuntamente, o terceiro maior grupo de comunicações do país. Tendo como carro chefe cinco jornais em grandes cidades do Brasil. Sua memória encontra-se registrada na biografia escrita por Fernando Moraes – Chatô, o Rei do Brasil – publicada em 1994, na qual são narrados sem retoques os expedientes pouco ortodoxos por ele utilizados para construir seu império jornalístico. Foi retratado, também, no cinema. Marcos Manhães Marins escreveu, e dirigiu o filme Chateaubriand: Cabeça de Paraíba, em 2000, tendo sido selecionado para quinze festivais e mostras no Brasil e no exterior. Antes disso, o ator Guilherme Fontes, travestido de diretor cinematográfico, decidiu adaptar a biografia escrita por Fernando Morais para o filme homônimo. O filme levou 20 anos para ser realizado, devido a interrupções por falta de verbas para sua conclusão, mas lançado em 2015.

AS BRASILEIRAS (VI): BERTHA LUTZ

Bertha Maria Julia Lutz nasceu em São Paulo, em 2/8/1894. Bióloga, advogada, política, feminista e líder na luta pelos direitos das mulheres brasileiras. Filha de Adolfo Lutz, cientista e pioneiro da Medicina Tropical e da enfermeira inglesa Amy Fowler. Ainda adolescente, foi completar os estudos na Europa, onde entrou em contato com a campanha sufragista inglesa pelo direito das mulheres ao voto. Formada em ciências naturais, pela Faculdade de Ciências de Paris (Sorbonne), em 1918, com especialização em anfíbio anuro.

De volta ao Brasil, prestou concurso para bióloga do Museu Nacional, em 1919, onde passou em primeiro lugar. Foi a segunda mulher brasileira a ingressar, por concurso, no serviço público. No mesmo ano, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e deu inicio ao movimento pelo direito ao voto das mulheres no país. Em 1922 viajou para os EUA para participar da Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, e foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Em seguida, batalhou pela criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada no mesmo ano. Ainda em 1922, como delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, garantiu o ingresso das meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.

Em 1929, participou ativamente da criação da União Universitária Feminina. Três anos após, criou a Liga Eleitoral Independente e a União das Funcionárias Púbicas. Por esta época passou a estudar Direito e formou-se advogada em 1933, pela atual UFRJ, e tentou ser professora com a tese “A Nacionalidade da Mulher Casada” perante o Direito Internacional Privado”, em que abordava a perda da nacionalidade feminina quando a mulher se casava com um estrangeiro. Não conseguindo o intento, publicou o livro “A nacionalidade da mulher casada”. No mesmo ano, representou o Brasil na Conferência Interamericana de Montevidéu, marco do início de seu trabalho diplomático pelo país, continuado posteriormente em representações na Conferência Internacional do Trabalho, realizada nos EUA em 1944, e, posteriormente, como militante nas conferências mundiais realizadas pela ONU.

Após duas tentativas como candidata, foi eleita suplente para deputada federal em 1934, Dois anos depois, assumiu o mandato na vaga deixada por Cândido Pessoa. Suas bandeiras de luta parlamentar eram mudanças na legislação do direito feminino ao trabalho; contra o trabalho infantil; direito a licença maternidade e a equiparação de salários e direitos entre homens e mulheres. Além disso, foi ativa na defesa da pesquisa científica, da proteção à natureza e conservação da fauna e da flora brasileira. Como se vê, foi também uma pioneira do movimento ecológico. Em 1937, com o golpe do Estado Novo, retomou sua carreira como chefe do Setor de Botânica do Museu Nacional, que ocupou até aposentar-se, em 1965.

Em 1945, integrou a delegação do Brasil à Conferência de San Francisco (EUA), convocada para a criação da ONU. Durante a reunião, se empenhou para assegurar que a Carta da ONU fosse revista periodicamente, mas seu grande feito foi o trabalho de apoio político ao delegado da África do Sul, General Smuts, a fim de que o preâmbulo da Carta fosse redigido mediante o compromisso com a igualdade, entre homens e mulheres e entre as nações. Dois anos após, trouxe para Brasil o Movimento Internacional Soroptimista, integrado por mulheres pioneiras e empreendedoras. O nome “soroptimista” significa “o melhor para as mulheres”. Por tal iniciativa foi eleita “Mulher das Américas” pela União das Mulheres Americanas, em 1951.

Devido a sua participação na criação da ONU, foi convidada pelo Itamaraty a integrar a delegação brasileira à 1ª Conferência Internacional da Mulher, realizada no México, em junho de 1975. Nesta Conferência foram criados o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) e o Instituto Internacional de Treinamento e Pesquisa para a Promoção da Mulher (INSTRAW), “constituindo o quadro institucional para a investigação, formação e as atividades operacionais na área de mulheres e desenvolvimento.”

Esta foi sua última participação pública. Nunca se casou, talvez devido a dificuldade de conciliar tantas atividades com os compromissos de um casamento. Faleceu em 16/9/1976 e seu nome passou a denominar um anfíbio que ela descreveu em 1958: “Paratelmatobius lutzii”. Descobriu uma dezena de espécies anfíbias, dentre elas o “sapo-boi”, que recebeu o nome “Eleutherodactylus hoehnei Lutz”. Em 2017 foi mais uma vez homenageada com a nomeação de uma espécie rara de perereca: “Aplastoduscus lutzorum”.

Além das homenagens científicas, em 2001 o Senado Federal criou o “Diploma Mulher Cidadã Bertha Lutz”, outorgado anualmente, no Dia Internacional da Mulher, a cinco destacadas mulheres. O Diploma foi criado a partir de uma Resolução apresentada pela Senadora Emília Fernandes. Atualmente não vejo o movimento feminista brasileiro falar de seus feitos e contribuições à causa, mas a comunidade científica tratou de erigir um museu virtual, dedicado à sua atuação política e científica. Trata-se do “Museu Bertha Lutz”, desenvolvido na Universidade de Brasília, com apoio do CNPq. 

OS BRASILEIROS X – JOAQUIM NABUCO

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/ 1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os 8 anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, fez os 3 primeiros anos do curso de Direito e formou-se no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem para a Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantropa Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Anti-escravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse executado, hoje o Brasil seria outro.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que Joaquim Nabuco, ao lado de Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil que, na época, tinha a religião católica como oficial, constituindo-se em um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi conduzido, com solenidade excepcional, para o cemitério, e depois foi trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até o momento. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946, de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais importantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco e sua estátua frente ao Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910:

Na primeira foto: Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus. Na segunda: O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja.

Na primeira foto: Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe. Na segunda: As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco.

AS BRASILEIRAS IV – EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE

Eufrásia Teixeira Leite nasceu em Vassouras, RJ, em 1850. Investidora financeira, filantropa e feminista quando nem se cogitava o surgimento dessa palavra. Filha caçula de Joaquim José Teixeira e Ana Esméria Correia e Castro, neta paterna do Barão de Itambé, neta materna do Barão de Campo Belo, sobrinha do Barão de Vassouras e sobrinha-neta do Barão de Aiuroca. Estudou na escola de moças de Madame Grivet, em Vassouras e, além do ensino básico, aprendeu boas maneiras, falar o francês e a tocar piano. Digna representante da aristocracia brasileira do Segundo Império.

Com a morte dos pais, em 1872, ela e sua irmã passaram a administrar a herança, uma fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis). Na época equivalia a 5% das exportações brasileiras e dava para comprar 1.850 quilos de ouro. No ano seguinte, com a morte da avó, a baronesa de Campo Belo, foram acrescidos mais 106:848$886 (106 contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) na forma de títulos e escravos, que logo foram vendidos. Era grande amiga da Princesa Isabel e não queria saber de escravos em suas propriedades. A irmã faleceu em 1899 e ela teve que administrar o patrimônio sozinha.

Antes disso, a cultura do café em Vassouras entrou em crise, devido ao esgotamento do solo, mas os bens das irmãs não se restringiam as fazendas de café. As irmãs possuíam apólices de títulos da dívida pública, ações do Banco do Brasil, depósitos bancários, títulos de crédito de pessoas, uma casa no Rio de Janeiro e uma grande propriedade urbana em Vassouras, atualmente conhecida como Chácara da Hera. Jovens e solteiras, venderam as ações, os títulos e a casa do Rio de Janeiro, cobraram créditos, alforriaram os escravos, fecharam a casa da chácara, deixando dois empregados incumbidos de sua conservação, e partiram, em 1873, para residir em Paris.

Na viagem, conheceu no navio o diplomata Joaquim Nabuco e iniciaram um namoro que durou 14 anos. Não progrediu devido, talvez, ao fato dele não aceitar a total independência de uma mulher numa época excessivamente patriarcal. Mas ela deixou marcas indeléveis em seu coração. Uma de suas frases, que deixou à posteridade: “O coração após certo momento da vida é qual palimpsesto; nada se pode escrever nele sem primeiro raspar o texto da época anterior” certamente refere-se àquele namoro. Foi a história de um grande amor, tendo a maior parte passada na Europa e nas cartas trocadas. Conta-se que as cartas que recebeu dele foram enterradas junto com ela em seu túmulo. Já as que ela enviou, estão guardadas no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Dois anos após a última carta, em 1889, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Ela jamais se casou.

Em Paris, instalou-se num “hotel particulier”, próximo ao Arco do Triunfo e passou a conviver com elite social parisiense, integrando o círculo das amizades próximas a Princesa Isabel. Herdou o espírito empresarial da família e era dotada de um apurado talento na área financeira. Em pouco tempo multiplicou seu capital no mercado financeiro. Comprou ações das empresas que produziam as novas tecnologias da segunda Revolução Industrial, como indústrias extrativistas e de transformação, companhias ferroviárias, bancos etc. Dizem que foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris. No Brasil comprou ações do Banco do Brasil, Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, Banco Mercantil do Rio de Janeiro, Companhia América Fabril, Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, Companhia Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Companhia Antártica Paulista, Viação Fluminense, Companhia Docas de Santos e das primeiras companhias ferroviárias que se instalavam aqui. Entre 1874 e 1928 veio somente duas vezes ao Brasil

Retornou definitivamente, aos 78 anos, e passou a viver reclusa na Chácara da Hera. Sua reclusão ficou acentuada quando comprou a chácara do Dr. Calvet, ao lado da sua, apenas para manter-se longe dos vizinhos. Viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, num apartamento em Copacabana, cercada de empregados fiéis, excêntrica e solitária, onde faleceu em 1930. Sem descendentes nem ascendentes, seu primeiro testamento legava toda a fortuna para o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, que mantinha diversos estabelecimentos escolares no Brasil, e Santa Casa de Misericórdia de Vassouras. Um segundo testamento, feito às vésperas de sua morte, legou praticamente toda sua fortuna para obras de caridade, a serem realizadas por instituições da cidade de Vassouras.

Após uma grande disputa judicial movida pela família alegando uma suposta insanidade física e mental, o processo seguiu até 1937, quando um decreto presidencial – determinando que seriam herdeiros apenas os parentes colaterais até segundo grau – impediu parte dos herdeiros deserdados de terem acesso àquela fortuna. Em agosto do mesmo ano, os herdeiros deserdados tentaram reabrir o processo judicial de impugnação do testamento, o que veio a causar um tumulto na cidade. A população de Vassouras revoltou-se, fechou o comércio, cercou o fórum durante as audiências e ameaçou os advogados. O juiz chamou a polícia, mas o delegado disse que os policiais tinham saído da cidade. Os advogados tiveram que fugir pelos fundos do fórum. Assim, os principais beneficiários da herança foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração entre outras instituições. Valores menores foram legados para a Fundação Osvaldo Cruz, alguns primos e empregados domésticos. Dinheiro em espécie foi destinado aos pobres e mendigos da cidade.

O testamento tem várias exigências que vieram prejudicar sua finalidade, devido a fatos posteriores imprevisíveis. Todos os bens foram legados sob cláusulas de inalienabilidade e da insubrogabilidade que deviam protegê-los. Os valores obtidos com as vendas das ações foram aplicados em apólices do Tesouro Nacional, cujos juros deveriam financiar as instituições criadas. Entretanto, a hiperinflação brasileira destruiu o valor original das apólices do Tesouro. Como resultado, a Santa Casa e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite passaram e ainda passam por séria crise financeira. Uma das cláusulas do testamento estabelece “conservar a Chácara da Hera com tudo que nela existisse no mesmo estado de conservação, não podendo ocupar ou permitir que fosse ocupada por outros”.

Devido a esta cláusula, a residência foi preservada, tornando-se hoje o “Museu Casa da Hera”, considerado o melhor exemplo preservado de habitação urbana de famílias ricas do vale do Paraíba do Sul no século XIX. O museu encontra-se aberto ao público e constitui-se num dos principais pontos turísticos da cidade. Em 2010 a história dessa mulher foi contada na forma de um romance escrito por Claudia Lage; Mundos de Eufrásia, publicado pela Record. Ainda não li o romance, mas creio que sua vida se encontra entre aquelas onde a realidade supera a ficção. Mais tarde, Ana Maria Machado publicou seu décimo romance enfocando o relacionamento de Eufrásia com Joaquim Nabuco: Um mapa todo seu (2015). Assim, fica constatado que a vida da “Dama dos diamantes negros” não cabe numa simples biografia.

OS BRASILEIROS IX – OTTO CARPEAUX

Otto Maria Carpeaux

Otto Karpfen nasceu em Viena, Áustria, em 9/3/1900. Ensaísta, crítico literário e de artes, jornalista, doutor em filosofia, estudou matemática (em Liepzig), sociologia (em Paris), literatura (em Nápoles) e política (em Berlim), além de dedicar-se à musica. Foi um dos poucos intelectuais onde o termo “polímata” (a pessoa, que estuda ou conhece muitas ciências) se aplicou com mais precisão. Filho do judeu Max Karpfen e da católica Gisela Schmelz Karpfen, cursou o ginásio em Viena. Por sugestão dos pais, Ingressou na faculdade de direito, mas cursou apenas o 1º ano. Em seguida concluiu diversos cursos superiores nas ciências exatas, porém “nunca me aproveitei praticamente desses estudos. Mas aí aprendi algo de método e precisão de pensar, o que é vantajoso no mundo sempre um pouco vago das letras”.

Dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo político, carreiras que exerceu em Viena como redator da revista “Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte” e articulista do jornal “Neue Freie Presse”. Em 1930 casou-se com Helena Carpeaux e converteu-se ao catolicismo em 1933. Era bem relacionado em Viena e tornou-se homem de confiança de dois primeiros-ministros: Engelbert Dollfuss e Hurt Schuschnigg. Com a tomada da Áustria por Hitler, foi obrigado a seguir para o exílio, em 1938. Primeiro para Antuérpia, onde trabalhou na Gazet van Antwerpen. Com a expansão do nazismo, sente-se inseguro na Europa e embarca para o Brasil em 1939. Mudou seu sobrenome germânico Karpfen para o francês “Carpeaux” o francês Carpeaux e chegou aqui de “mala e cuia”, com a mulher, sem conhecer nada do idioma e sem conhecidos, mas com uma enorme bagagem cultural e falando diversos idiomas.

Após um ano de trabalho como imigrante em fazendas do Paraná, e com o domínio do português, partiu para São Paulo. Com dificuldades, foi sobrevivendo com a venda de alguns pertences, incluindo seus livros de arte. Em 1941 escreveu uma carta ao crítico literário Álvaro Lins oferecendo um artigo sobre Kafka, que conheceu pessoalmente na Europa. Foi quem primeiro falou de Kafka no Brasil. Recebeu como resposta um convite para trabalhar no Correio da Manhã (RJ). Assim, Inicia-se na carreira de crítico e ensaísta dos mais conceituados na literatura brasileira. No ano seguinte naturalizou-se brasileiro e publica seu primeiro livro de ensaios: Cinzas do purgatório, revelando uma inteligência e uma erudição incomum na intelectualidade local. Pouco depois foi trabalhar num lugar privilegiado para um autodidata interessado em conhecer melhor a cultura que abraçou: a Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia (1942-1944). Em seguida foi dirigir a Biblioteca da Fundação Getúlio Vargas (1944-1949), onde encontra tempo para publicar sua monumental História da Literatura Ocidental (1947), uma das mais importantes obras publicadas no Brasil no séc. XX. A obra já foi lançada em diversos volumes pela Editora Cruzeiro (1959), Alhambra (1978) e Editora do Senado Federal (2008). Em seguida a Editora Leya, lançou a obra em 4 volumes e recentemente relançou-a numa caixa com 10 volumes,

Com isso, tornou-se um dos pesos pesados da intelectualidade brasileira, assumindo o cargo de redator-editor do Correio da Manhã, em 1950. No ano seguinte publicou a Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, reunindo em ordem cronológica mais de 170 autores nacionais. A partir daí sua produção literária é intensa e variada, publicando ensaios, artigos políticos, crítica literária, etc. Seu trabalho na imprensa e a obra que deixou publicada constituem-se numa expressiva contribuição às nossas letras, dando um novo rumo à história da literatura brasileira. O fato de ser totalmente gago, o afastou da cátedra e das cátedras e das universidades para confiná-lo aos gabinetes e redações.

Em 1968, anunciou o fim da carreira literária e promete dedicar o resto de seus dias à luta política, fazendo oposição ao regime militar instaurado em 1964. Por essa época trabalhou ao lado de Antônio Houaiss, como coeditor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse. Além da extensa produção de ensaios sobre literatura, publicou livros sobre música, história da arte e política. Faleceu em 3/2/1978 vitimado por um infarto. Seu livro Uma nova história da música, lançado em 1958, passou por diversas reedições até 2001, quando teve o título mudado para O livro de ouro da música: da Idade Médica ao século XX, lançado pela Ediouro. Em 2000 a Editora Topbooks iniciou a publicação dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, organizados pelo filósofo Olavo de Carvalho, em 10 volumes. Teve oito publicações póstumas, sendo a última, O canto do violino e outros ensaios, publicada pela Ed. Danúbio em 2016. No ano seguinte, o Senado Federal lançou em versão digital para download gratuito, alguns volumes da História da Literatura Ocidental.

Como se vê, Carpeaux continua vivo entre nós compartilhando seu arsenal de conhecimentos na literatura, na música, na política, na vida. Segundo o crítico Antônio Cândido, ele era uma espécie de “herói civilizador”, que se instala no país e contribui de forma decisiva para a atualização do meio literário e a formação de novas gerações da crítica literária. Alfredo Bosi, um de seus discípulos, chegou a reconhecer em breve ensaio sua dívida com o mestre. Sua melhor e mais completa biografia foi publicada por Mauro Souza Ventura: De Karpfen a Carpeaux: formação política e interpretação Literária na obra do crítico austríaco-Brasileiro, lançada pela Topbooks em 2002.

AS BRASILEIRAS III – MARIA FIRMINA

Maria Firmina

Maria Firmina dos Reis nasceu em 11/3/1825, em São Luís, Maranhão. Professora e escritora é considerada a primeira romancista brasileira; a primeira mulher a passar num concurso público como professora e, também, a primeira a fundar uma escola mista. Negra e bastarda, filha de mãe branca e pai negro, foi prima do escritor Francisco Sotero dos Reis, que incentivou-a a estudar e escrever. Aos cinco anos foi viver na casa de uma tia, mais bem situada economicamente, na Vila de São José dos Guimarães, onde realizou os primeiros estudos e tomou gosto pela literatura.

Em 1847 foi aprovada num concurso à cadeira de Instrução Primária na atual cidade de Guimarães, onde foi professora de primeiras letras até 1880. Ao vencer o concurso, se recusou a desfilar pela cidade de São Luís, montada nas costas de um escravo. Afirmou que “escravos não eram bichos para levar pessoas montadas neles”. Ao se aposentar, em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, causando escândalo no povoado. Ao final, a escola teve que ser fechada em menos de três anos.

Tinha uma postura antiescravista bem definida e articulada: era conhecida e respeitada como professora e cronista; publicava artigos no jornal local e publicou seu primeiro livro em 1859, o romance Úrsula. Vale lembrar que nesta época a literatura brasileira dava os primeiros passos na prosa de ficção. Seu livro foi o primeiro a se posicionar contra a escravidão, antecipando a literatura abolicionista de Castro Alves, com Navio Negreiro (1869) e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura (1875). Além de primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, é também o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria de uma afrodescendente, que tematiza o negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida com a causa libertária.

No prólogo da obra, demonstra uma aguda consciência de sua condição naquela sociedade patriarcal e escravocrata e sua determinação em publicá-la, afirmando: “Pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados… ainda assim o dou a lume”. Seu estilo e verve literária:

“Senhor Deus! quando calará no peito do homem
a tua sublime máxima – ama a teu próximo como
a ti mesmo – e deixará de oprimir com tão
repreensível injustiça ao seu semelhante!”

lembra muito bem a poesia de Castro Alves 10 anos depois, com O Navio Negreiro:

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”

Poderia se dizer que sua prosa exerceu alguma influência sobre o maior poema condoreiro? Pelo visto, parece que sim. Mas ninguém do métier literário até agora afirmou isto. Um dado que contribui para essa afirmação é ela foi também poeta, com a publicação da coletânea Cantos à beira-mar, em 1871.

Foi também compositora do Hino à libertação dos escravos e autora da letra e música de outros cantos: Auto de bumba-meu-boi, Hino à mocidade, Valsa (com letra de Gonçalves Dias), Rosinha, Pastor estrela do oriente, Canto de recordação etc. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, publicou o conto A Escrava, reforçando sua postura de combate à escravidão. Em outro romance, Gupeva (1870) chegou a abordar a temática indianista: um chefe indígena se apaixona por uma moça vinda da Europa, sem saber que se trata de sua meia-irmã. São histórias bem novelescas, com um pano de fundo que retrata a sociedade de maneira ferrenha imbuída de sentimentos antiescravistas e republicanos.

Foi mãe adotiva de 10 crianças na condição de solteira toda a vida. Morreu pobre e cega em 11/11/1917. Esquecida por décadas, sua obra só foi recuperada em 1962 pelo historiador paraibano Horácio de Almeida em um sebo do Rio de Janeiro. Até hoje seu rosto é desconhecido e o que consta nos registros da Câmara de Vereadores de Guimarães é uma gravura com a face de uma mulher branca, inspirada na imagem de uma escritora gaúcha, com quem ela foi confundida. Seu busto exposto no Museu Histórico do Maranhão também retrata uma mulher “embranquecida” de nariz fino e cabelos lisos. Assim, Pode se dizer que ficamos sem o seu retrato.

Em 1975 foi lançada sua primeira biografia – Maria Firmina: fragmentos de um vida, de José Nascimento Morais Filho, publicada pela Imprensa do Governo do Maranhão. Ano passado, no centenário de seu falecimento, a editora da PUC de Minas Gerais lançou a 7ª edição de Úrsula (2017). Uma edição revista e ampliada com anexos de documentos históricos e reedição do conto “A escrava”, que tem ajudado a difundir sua obra. No entanto, pouco se sabe sobre outros possíveis textos, sobre os detalhes de sua vida ou sobre como uma mulher negra de origem pobre alcançou tanto sucesso em pleno regime escravocrata. É de se estranhar que até mesmo o “movimento negro”, tão atuante hoje em dia, dê pouca importância à esta importante personalidade da história brasileira.

OS BRASILEIROS VIII – ANDRÉ REBOUÇAS

André Rebouças

André Pinto Rebouças nasceu em 13/1/1838, em Cachoeira, Bahia. Engenheiro, abolicionista e inventor. Seu pai, Antonio Pereira Rebouças era advogado, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Ao lado de Machado de Assis, Cruz e Souza, José do Patrocínio, foi um dos representantes da pequena classe média negra em ascensão no 2º Reinado. Em 1842, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou em alguns colégios até ingressar no curso de engenharia da Escola Militar, junto com o irmão Antonio, em 1854. Quatro anos após, concluem o curso e em seguida são promovidos a primeiro-tenente.

Em 1861, os irmãos recebem uma bolsa de estudos e viajam à Europa para aprofundar os estudos de engenharia em ferrovias, portos e transporte marítimo, na França e na Inglaterra. De volta ao Brasil, em novembro de 1862, foram trabalhar no aperfeiçoamento dos portos e fortificações brasileiras. Em 1864 André alistou-se no Exército e foi para a Guerra do Paraguai na condição de engenheiro militar. Na ocasião desenvolveu um torpedo, que foi utilizado com sucesso durante as batalhas. Devido a problemas de saúde, teve que retornar ao Rio de Janeiro antes do fim da guerra. Foi nomeado Diretor das Docas da Alfândega em 1866 e permaneceu até 1871 trabalhando em diversos projetos para novos portos: João Pessoa, São Luís, Maranhão, Recife e Salvador. Junto com o irmão Antônio, apresentou à Corte o projeto de construção da estrada de ferro ligando Curitiba ao litoral, na cidade de Antonina. Na execução do projeto, o trajeto foi alterado para o porto de Paranaguá. Até hoje essa obra impressiona pela ousadia de sua concepção.

Demitido do cargo por motivos políticos, embarcou de novo, em 1872, para a Europa e Estados Unidos, onde sofreu preconceito de cor: foi impedido de se hospedar em alguns hotéis, entrar em restaurantes, assistir operas em teatros etc. Reagiu ao seu modo, discreto, e anotando em seu diário, que manteve durante toda a vida. Na viagem pela Europa, se empenhou na obtenção de recursos para auxiliar Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani. De volta ao Rio de Janeiro, passou a evitar o convívio social na Corte e intensificou a publicação de artigos na imprensa. Contratado pela Escola Politécnica, dividiu suas atividades entre lecionar e batalhar pela abolição da escravatura junto com Joaquim Nabuco e outros intelectuais. Participou da criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, Sociedade Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Seu envolvimento com a abolição não é apenas intelectual. Em 1883 foi eleito tesoureiro da Confederação Abolicionista, destacando-se como financiador e orientador da campanha no Rio de Janeiro. Com visão progressista, contrapunha-se a todos os tipos de escravidão e lutava contra a “reescravização do imigrante pelos donos da terra”. Dentre os abolicionistas, foi o que mais anteviu as profundas implicações da eliminação da mão-de-obra escrava. Em suas palavras: “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome… Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”.

Defendeu a emancipação e regeneração do escravo através da aquisição da terra. A transformação da agricultura brasileira deveria se dar com uma reforma agrária contemplando os negros libertos. Seu pensamento dirigia-se ao dia seguinte, quando os escravos fossem libertos e se mantivessem tão pobres e sem direitos como sertanejos. Tais ideias foram expostas em seu livro Agricultura nacional, estudos econômicos: propaganda abolicionista e democrática. Caso suas propostas fossem adotadas, a distribuição da riqueza e o problema racial no Brasil estariam noutro patamar. Além da reforma agraria, propunha o crédito rural de modo a garantir o desenvolvimento dos pequenos proprietários sejam brancos ou negros.

Tinha grande prestigio junto a Dom Pedro II e a Princesa Isabel, dos quais desfrutava uma amizade pessoal. No último ano do império, recebeu do imperador diversos encargos e participou ativamente dos acontecimentos políticos do País. Ao participar do baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, quase às vésperas da proclamação da república, foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o ocorrido, D. Pedro II solicitou à Princesa Isabel para ser seu par. O fato deixou a nobreza estarrecida ao mesmo tempo em que reafirmava a simpatia da Princesa pela causa abolicionista. Pouco depois, com a instauração da República, manteve-se fiel à monarquia e seguiu junto com a família real no “Paquete Alagoas” no exílio com destino à Europa.

Viveu dois anos em Lisboa, onde atuou como correspondente do jornal “The Times”, de Londres e colaborador da “Gazeta de Portugal”. Em seguida transferiu-se para a França e passou a viver em Cannes até a morte de Dom Pedro II, em 1891. No ano seguinte, aceitou convite para trabalhar em Luanda e passou a colaborar com alguns países africanos. Em meados de 1893 foi viver em Funchal, na Ilha da Madeira, até 9/5/1898, quando foi encontrado morto no mar em frente a sua casa. As homenagens e o reconhecimento público dirigidos à ele e seu irmão Antônio tem se proliferado em diversos estados brasileiros, tais como a grande avenida em São Paulo, o túnel no Rio de Janeiro e a cidade de Rebouças, no Paraná. A mais recente ocorreu em 2015, com seu nome dado ao Navio André Rebouças.

Deixou alguns livros publicados não apenas sobre o abolicionismo: A sêcca do norte, publicado pela Editora do Povo, em 1877, hoje considerado raríssimo, e outros republicados tais como Propaganda abolicionista e democrática; Diário da Guerra do Paraguai; Reforma e utopia no contexto do segundo império, que podem ser encontrados em sebos e antiquários. Sua vida e obra têm sido expostas na bibliografia referente ao 2º Império, além de algumas biografias: O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho (Ed. Revan, 1998); André Rebouças: um engenheiro do Império, de Alexandro Dantas Trindade.(Ed. Hucitec, 2011) e Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de André Rebouças, de Andréa Santos Pessanha (Ed. Quartet, 2005).

AS BRASILEIRAS II – BÁRBARA DE ALENCAR

Bárbara de Alencar (1760-1832)

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/02/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Três de seus cinco filhos – José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves – também foram revolucionários (o primeiro era padre, político e jornalista, foi o pai do romancista José de Alencar). Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento.

No Crato, ela constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados a pé para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 600 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano (se tornaria senador em 1832)

O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas dotadas do sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Assim foi que Bárbara de Alencar se tornou a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, ainda se trava uma batalha pelo seu reconhecimento como heroína da História brasileira. Falecida em 18/08/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. Em Fortaleza, a partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome agracia três mulheres com a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Seu nome passou a denominar alguns logradouros; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos da história.

OS BRASILEIROS VII – PADRE ROMA

José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, mais conhecido como Padre Roma, nasceu no Recife, em 1768. Advogado, religioso e um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817. Demonstrou vocação religiosa aos 16 anos e entrou para o Convento do Carmo, em Goiana. Em seguida foi para Portugal e fez o curso de Teologia na Universidade de Coimbra. Depois partiu para Roma, onde concluiu os estudos religiosos e ordenou-se padre. Pouco depois a vocação religiosa foi colocada foi dúvida, pediu dispensa da Ordem Carmelita, em 1807, retornou ao Recife, casou-se e abriu uma banca de advocacia.

Seus conhecimentos de grego e latim e por ter vivido em Roma lhe renderam o apelido. Possuía o dom da oratória e era dotado de sólidos conhecimentos jurídicos. Assim, ficou famoso no Recife, particularmente por defender causas populares e adesão às ideias liberais em voga na época. Com a vinda de Dom João VI, em 1808, foram criados muitos impostos para manter a família imperial e o Brasil passou por profundas mudanças com uma opressiva administração da colônia. Ao mesmo tempo, ideais nativistas e anticolonialistas eram defendidos pela maçonaria e propagados em centros como o Areópago de Itambé e o Seminário de Olinda. Dessa forma, os interesses de alguns militares, dos padres e maçons uniram-se num mesmo ideal de emancipação política do Brasil.

Fuzilamento do Padre Roma

Estes grupos passaram a conspirar abertamente contra o poder imperial e as ordens vindas do Rio do Rio Janeiro. Os padres tinham um papel relevante na conspiração, incitando os fiéis à causa libertária do jugo português. Os preparativos para a revolta popular foram se acumulando até 6/3/1817, quando o governador da província – Caetano Pinto de Miranda Montenegro – mandou prender os revoltosos implicados na conspiração. O primeiro a receber ordem de prisão foi o capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado”, que atravessou com uma espada o oficial português encarregado de prendê-lo. A revolta alastrou-se rapidamente e tomou as ruas do Recife. Em seguida os revoltosos elegeram o Governo Provisório, composto por 5 membros representantes do exército, clero, comércio, agricultura e magistratura.

A revolta logo teve a adesão do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Padre Roma, devido a sua eloquência e poder de convencimento, foi designado para ir clandestinamente até a Bahia para obter adesão ao movimento. Levou mais de 50 correspondências endereçadas a membros da maçonaria baiana e outros simpatizantes. Depois de velejar numa jangada pela costa de Alagoas até Itapoã, avistou as tropas portuguesas que o aguardava. Jogou todos os papeis no mar, para não incriminar os aliados baianos, e foi preso .Junto com ele, vinha seu filho mais novo, Luis Ignácio. O mais velho, com o mesmo nome do pai e futuro General Abreu e Lima, já estava preso em Salvador.

Foi preso em 26/6/1817 e nos três dias em que foi torturado não entregou os companheiros que contataria em Salvador. A tortura incluía a visita ao cárcere do filho mais jovem nu e estendido sobre a lama, mais parecendo um espectro do que ser vivente. O filho mais velho manifestou o desejo de ver o pai antes do fuzilamento. Seus algozes portugueses foram “bonzinhos” e atenderam o pedido, obrigando-o a assistir o fuzilamento do pai, por ordem do Conde dos Arcos, em 29/6/1817.

Segundo o historiador Pereira da Costa, autor do Dicionário biográfico de Pernambucanos célebres, a morte do Padre Roma foi assim descrita pelo filho Abreu e Lima, presente na execução: “O seu porte em presença do conselho, no oratório e durante o trajeto para o lugar do suplício, foi sempre o de um filósofo cristão, corajoso, senhor de si, mas tranquilo e designado. Suas faces não se desbotaram senão quando o sangue que as tingia correu de suas feridas, regando o solo onde, seis anos depois, se firmou para sempre a independência de sua pátria”. Conta ainda a história que em seus últimos instantes, ele dispensou a venda nos olhos, encarou o pelotão de fuzilamento, pôs a mão sobre o coração e gritou: “Camaradas eu vos perdôo a minha morte. Lembrai-vos que aqui é a fonte da vida!”.

OS BRASILEIROS VI – LINDUARTE NORONHA

Linduarte Noronha nasceu em Ferreiros, Pernambuco, em 1930. Advogado, professor, jornalista, critico de cinema e, principalmente, cineasta. Foi o precursor do “Cinema Novo”, na opinião dos cineastas, incluindo Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. Trabalhou como jornalista e critico de cinema nos jornais da Paraíba, onde tomou gosto pela carreira de cineasta. Ainda jovem foi ao Rio de Janeiro para conhecer o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo (1936-1966). Entrou em contato com seu presidente, Humberto Mauro, contou-lhe sobre suas ideias, pretensões e pediu-lhe emprestado uma câmera e outros apetrechos.

O pioneiro do cinema brasileiro achou interessante, mas exclamou entre os presentes: “Esse rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Saiu de lá com uma câmera Bell & Howell, voltou à João Pessoa e passou a filmar sob a chacota dos colegas da redação. Seu primeiro curta-metragem teve origem numa reportagem que fez, em 1958, sobre o trabalho das mulheres numa olaria do sertão, As oleiras do Olho d’Água na Serra do Talhado. O curta Aruanda, lançado em 1959, é um documentário de 20 minutos e conta a história da fundação de um quilombo e retrata a vida do ex-escravo Zé Bento com a família em busca de uma vida melhor. A palavra “aruanda” tem um significado próprio na Umbanda: um lugar utópico, o paraíso da liberdade perdida. A trilha sonora foi definida em conformidade com as imagens, com a escolha genial da comovente canção folclórica “Ô mana deixa eu ir”, recriada por Villa-Lobos.

Depois disso, o cinema brasileiro mudou completamente; inaugurou uma nova estética cinematográfica. Segundo alguns críticos, o filme está para o moderno cinema brasileiro como o romance A Bagaceira está para nosso modernismo literário. O Nordeste, sua realidade, seus mitos, texturas, asperezas, locações e personagens, abria passagem – em 1960 como em 1928, nos filmes como nos livros. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba, a partir dos colegas da equipe de Noronha: Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira, Jurandy Moura, entre outros.

O então jovem crítico baiano Glauber Rocha comparou-o ao cineasta Roberto Rosselini, o papa do neorrealismo italiano. Quando viu o filme, Glauber ficou extasiado: “Como fui burro! Como fui burro!” repetia numa referência ao fato de ter começado com o curta O pátio (1959), que pouca coisa teria ver com os caminhos trilhados posteriormente. Glauber pressentiu que o mapa da mina estava ali e lastimou o fato de não ter seguido aquela pegada. Jean-Claude Bernardet, confirmou dizendo que o filme era “simultaneamente documento e interpretação da realidade”. E disse mais: “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.”

Outro renomado crítico, Paulo Emilio Sales Gomes, dizia que o filme era um manifesto. Na década seguinte, o Cinema Novo e o documentário nacional aplicariam suas lições. Nessa época realizou mais um filme em parceria com Rucker Vieira: Cajueiro nordestino (1962), inspirado numa monografia de Mauro Mota, retratando o ciclo do caju e sua importância para as comunidades da periferia de João Pessoa. Mais tarde, realizou o primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba: Salário do medo (1971). Pouco antes tentou adaptar o romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, mas não dispôs de recursos para tal façanha.

Como o cinema que realizava não era uma atividade lucrativa, e precisando trabalhar, foi Procurador de Justiça e de 1971 a 1991 foi presidente do IPHAEP-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba. Aí batalhou pela preservação dos bens culturais, numa época em que não se dava valor ao patrimônio fossilífero. Teve um importante papel na defesa do Vale dos Dinossauros, hoje este patrimônio paleontológico é protegido pelo Governo. Em 2008, o “Festival Internacional de Documentários – É tudo Verdade” prestou-lhe uma homenagem com a apresentação de seus filmes e seu retrato filmado por Geraldo Sarno, outro mestre do documentário brasileiro. Em 2010 foi homenageado pelos 50 anos de carreira no “Cine Fest Aruanda”, festival de cinema paraibano, que leva o nome do filme que entrou para a história do cinema brasileiro. O cineasta faleceu dois anos depois, em janeiro de 2012. Pouco depois, a Fundação Cultural de João Pessoa deu nome à sua sala de cinema: “Cine Funjope Linduarte Noronha”.

AS BRASILEIRAS I – MARIA QUITÉRIA

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, Bahia. Militar heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O Pai casou novamente e a madrasta não gostava de seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Quando se deu a independência, em 1822, algumas províncias resistiram às forças do imperador, entre as quais a Bahia contava com grande contingente militar português que não aderiu à independência. O Conselho Interino do Governo da Bahia convocou voluntários para suas tropas. Ela quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, botou roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão para vários combates. Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã.

Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado e comemoração da consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora, pintora e desenhista inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou-se com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham. Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil, bem como em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria 32 (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.

OS BRASILEIROS V – SÍLVIO VASCONCELOS

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em 21/4/1851, em Lagarto, Sergipe. Advogado, escritor, crítico literário, poeta, historiador, filósofo, sociólogo e político. Os primeiros estudos se deram em sua cidade natal, na escola do professor Badu. Em 1863 mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Ateneu Fluminense e permaneceu até 1868, quando entrou na Faculdade de Direito do Recife e concluiu o curso em 1873, aos 22 anos. Foi amigo de Tobias Barreto e destacado participante da “Escola do Recife”. Em 1875 elegeu-se deputado por sua província, quando já atuava como crítico literário de vários jornais do Recife e Rio de Janeiro. Seus dois primeiros livros foram publicados em 1878: A filosofia no Brasil e Cantos do fim do século (poesias). Lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910. Neste período manteve estreito convívio com os intelectuais cariocas, com os quais fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Seu apego a literatura resultou na publicação da Introdução à História da Literatura Brasileira, em cinco volumes, em 1882. No entanto perdeu o interesse pela poesia, encerrado em 1883 com a publicação de Últimos harpejos. No mesmo ano publicou também mais dois livros, fruto de seu interesse pelo folclore: O elemento popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil. A partir de 1891, passou a colaborar com artigos para o jornal carioca “Diário de Notícias”, dirigido por seu amigo Rui Barbosa. No mesmo ano, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. Foi um dos primeiros pensadores a se interessar por Antônio Conselheiro, o qual via como missionário vulgar que agregara em torno de si fanáticos depredadores. Seu amigo Euclides da Cunha, tendo sido enviado para Canudos, foi responsável pelo esclarecimento dos fatos ainda nebulosos para muitos intelectuais da época.

Entre 1900 e 1902 foi deputado federal pelo Partido Republicano, trabalhando na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Entre 1911 e 1912 residiu em Juiz de Fora, participando da vida intelectual da cidade. Seu posicionamento ideológico pregava um “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”. Em termos literários não tinha posições definidas: “Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar”. Não obstante sua competência, era conhecido pelo embate violento e intolerante contra outros escritores, intelectuais e políticos, gerando numerosas polêmicas com pessoas conhecidas como Lafayette Rodrigues Pereira e José Veríssimo, Teófilo Braga etc. .

Segundo Antônio Cândido, é considerado como “uma das fontes básicas do pensamento e da literatura nacional”. Como resultado de sua investigação nesse campo, publicou Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira (1888). O interesse pelo aprendizado sociológico inspira os Estudos de Filosofia do Direito (1895) e os Ensaios de Sociologia e Literatura (1901). De 1890 a 1911, publicou, entre outros títulos, o ensaio Machado de Assis (1897), em que faz violenta crítica e mereceu resposta de José Verissimo, em defesa de Machado de Assis. Crítico polêmico, sarcástico, violento em suas afirmações, é considerado hoje, ao lado de Verissimo e Araripe Júnior, um dos criadores da crítica literária no Brasil.

Foi um pesquisador sério e minucioso com uma grande produção bibliográfica, tendo . publicado mais de 70 livros. Preocupou-se, sobretudo, com o levantamento sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas ideias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo. Sua obra principal é A História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, em que expõe “o essencial do que desejava dizer sobre a cultura e mesmo a sociedade de seu país”. A primeira parte do livro é dedicada aos “elementos de uma história natural de nossas letras, as condições de nosso determinismo literário, com as aplicações da geologia e da biologia às criações do espírito”, A segunda parte, por sua vez, “apresenta, em largos traços, o resumo histórico das quatro grandes fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autônomo (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação crítica (de 1870 em diante)”.

Como crítico, condenou o indianismo de autores como Gonçalves Dias e José de Alencar que, segundo ele, apresenta uma visão precária da formação histórica do Brasil, uma vez que há pouca informação sobre a vida real dos indígenas e, portanto, não é possível reconstituí-la com exatidão em romances históricos ou poemas épicos. O sentido da crítica, para ele, não é apenas fazer uma ampla análise e revisão de valores, letras e artes, conforme observa Antonio Candido, mas também de demolir aquilo que julga anacrônico ou contrário à evolução cultural. O caráter muitas vezes polêmico de suas opiniões é decorrência dessa noção da crítica como um elemento para a reforma social e intelectual do país.

O mapeamento que fez da literatura brasileira, de suas origens até o século XIX, é o mais completo e detalhado que se fizera até então, colocando seu autor na posição de fundador dos estudos literários brasileiros. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias. Faleceu em 18/6/1914.

MEMORIAL DO DESABAMENTO

Como todos viram, o centro de São Paulo, abandonado pelo poder público está desabando. Talvez seja a única cidade do mundo, onde o poder público e os negócios vão criando novos centros comerciais e abandonando os velhos. Até há pouco tempo, o novo centro era a Av. Paulista. Agora, dizem que o novo centro é a Av. Faria Lima, que já está se transferindo para a Av. Juscelino Kubitschek. Assim, o centro velho vai ficando inabitável com seus belos e velhos (alguns novos, como o que desabou) e belos prédios.

O pessoal da periferia, muitos sem ter onde morar e outros sem ter como pagar condução até o centro, vão se alojando nestes prédios, formando favelas verticais. Mais de 20 movimentos sociais cuidam da ocupação, sendo que alguns deles se aproveitam das condições precárias dessa população para fazer propaganda política e/ou para ganhar um trocado para os organizadores.

É o caos urbano instalado na maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Muitos lugares, antes passeio público, se tornaram inviáveis ao convívio social e ao comércio regular. Há pouco tempo, foi pensado numa ocupação do centro por órgãos públicos, mas parece que a ideia não progride. Andar à noite nestes lugares é uma temeridade. Aos domingos e feriados o que se vê são ruas desertas, estabelecimentos fechados e umas poucas pessoas perambulando ou dormindo nas calçadas.

Com o desabamento desse prédio, políticos e formadores de opinião vieram com propostas de restauração do centro e soluções para o problema de moradia dos sem tetos. Uma das propostas viáveis é transformar os edifícios públicos abanados em residências populares para, assim, povoar o centro e amenizar o problema da moradia. Alguns arquitetos/urbanistas estão propondo que no lugar do prédio desabado, crie-se uma praça em memória dos que ali viveram e morreram com a tragédia. Não deixa de ser uma proposta salutar essa de criar um espaço para agrupar pessoas e órgãos interessados na reflexão sobre o destino do centro da cidade.

OS BRASILEIROS IV – JOSÉ LINS DO REGO

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em Pilar, Paraíba, em 3/6/1901. Romancista e jornalista, concluiu os primeiros estudos no Colégio de Itabaiana, no Instituto Nossa Senhora do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X, de João Pessoa e nos colégios Carneiro Leão e Oswaldo Cruz, no Recife, onde foi diplomado pela Faculdade de Direito, em 1923. Durante o curso, fundou o semanário “Dom Casmurro” e manteve contatos com o meio literário recifense, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e Gilberto Freyre, de quem recebeu forte influência. Oriundo e criado numa família de senhores de engenho, teve a oportunidade de relatar, nostálgica e criticamente, a transição da época em que viveu.

Em 1924 casou-se com sua prima Philomena Massa, filha do senador Antônio Massa e no ano seguinte ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas ficou pouco tempo no cargo. Em seguida mudou-se para Maceió, onde exerceu as funções de fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Neste período conviveu com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Seus primeiros livros, nomeados de “Ciclo da cana-de-açúcar” refletem a decadência do mundo rural nordestino: Menino de engenho (1932 e premiado pela Fundação Graça Aranha), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O moleque Ricardo (1935) e Usina (1936). É considerado, ao lado de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, um autor prestigiado entre os regionalistas da literatura nacional.

Sua obra regionalista, contudo, não se encaixa somente na denúncia sócio-política, mas, segundo Manuel Cavalcanti Proença, igualmente em sua “sensibilidade à flor da pele, na sinceridade diante da vida, na autenticidade que o caracterizavam. Conforme alguns críticos, ele imprimiu uma nova forma de oralidade na literatura brasileira, praticada pelos modernistas de 1922. Após consolidar seu nome na literatura regional, transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1935, ampliando o leque de amigos, e passou a escrever para os “Diários Associados” e “O Globo”. Por essa época, revelou-se uma faceta pouco conhecida de sua personalidade: a paixão pelo futebol. Foi um grande torcedor do Flamengo e chegou a exercer o cargo de secretário-geral da CBD-Confederação Brasileira de Futebol no período de 1942 a 1954.

Em 1956 entrou para a Academia Brasileira de Letras e logo depois estreou na literatura infanto-juvenil com Histórias da velha Totônia, seu único livro nesta área. Alguns de seus livros foram adaptados para o cinema e muitos deles foram traduzidos em diversos idiomas. Foi um escritor inteiramente despojado de atitudes ou artifícios literários. Ele mesmo se via como um escritor instintivo e espontâneo: “Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas”.

Deixou 23 livros publicados e a imagem de um escritor sério e comprometido com sua terra e seu tempo. Na avaliação dos críticos, ele deixou uma obra que “Bem examinadas as coisas… Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo”, conforme José Ribeiro. Já Wilson Martins não gostou de Fogo Morto e afirmou que o “o livro passa de simples reelaboração do Ciclo da Cana-de-Açúcar, sem nada lhe acrescentar e até tirando-lhe alguma coisa”. No entanto, Alfredo Bosi considerou Fogo Morto a verdadeira “superação” do ciclo da cana-de-açúcar. Numa análise dos personagens, Antônio Candido declarou que “o que torna esse romance ímpar entre os publicados em 1943 é a qualidade humana dos personagens criados: aqui, os problemas se fundem nas pessoas e só têm sentido enquanto elementos do drama que elas vivem.”

Outro respeitado crítico, Massaud Moisés, fez questão de colocar Fogo morto entre os livros dos anos 30, muito embora tenha sido lançado em 1943, pela razão da obra ser uma expressão “acabada do espírito do projeto estético e ideológico regionalista característico daquela década”. Parece haver um consenso, no qual sua obra caracteriza-se, particularmente, pelo extraordinário poder de descrição. “Reproduz no texto a linguagem do eito, da bagaceira, do nordestino, tornando-o o mais legítimo representante da literatura regional nordestina”. Faleceu em 12/9/1957.


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