SEXTA NO SHOPPING

Certa sexta-feira, após sair de uma sessão de cinema, fui encontrar Edilza na Praça de Alimentação do shopping onde estávamos. Era o feriado de N. S. Aparecida. Repartições fechadas, trânsito livre, tarde amena, poucas pessoas nas ruas, mas o shopping fervilhando de gente – a invenção dos gringos é sucesso em nosso país.

Justificam-se, sim, tantos shoppings inaugurados ou em construção Brasil afora. As vantagens de frequentar aqueles ambientes fechados e refrigerados são variadas: limpeza impecável, temperatura amena, iluminação agradável, cardápios diversificados, boas opções de compras e de lazer, além de segurança – espera-se, né?

Num shopping o cidadão encontra de quase tudo para o seu regalo. Monotonia não tem espaço por lá, pois o burburinho é a marca registrada daquele complexo de vendas. Daí porque não acharmos ali vivalma meditando ou em complacente oração. Pode-se até encontrar alguém em ação de graças, mas, somente pelo fato de lá estar desfrutando do ócio.

É o tipo de aparelho comunitário concebido para relaxar, perder a noção de tempo, esquecer as preocupações e as dificuldades da vida, tentar satisfazer desejos reprimidos, imaginar-se rico, alimentar a ambição, tornar-se perdulário e fazer a festa de comerciantes.

E tem mais. Um dos maiores atrativos do shopping é possuir estacionamento próprio. A comodidade decorrente dessa particularidade é imensa. Além do conforto de parar o automóvel no pavimento que desejar visitar, existe a certeza de encontrá-lo no mesmo local quando retornar das compras. Melhor ainda se não pagar pela permanência na garagem.

Existem pessoas com mania de shopping, que encetam peregrinações diárias ao mesmo. Jamais chegarei a esse estágio, pois já estabeleci mil e tantas outras coisas para fazer, degustar, conhecer e desfrutar antes que a “moça Caetana” venha me buscar – definição do escritor Oswaldo Lamartine para o “anjo da morte”.

Mas, deixemos a apologia ao shopping de lado e vamos ao que interessa naquela minha sexta-feira no templo do consumo. Poucos minutos após chegar à praça, apareceu-me a esposa. A mesa onde nos sentados permitia uma visão privilegiada da faixa de maior circulação do ambiente.

E haja o transitar de gente. Permaneci por mais de uma hora diante de uma caneca de chope sem identificar sequer um rosto familiar. Aquilo começou a me preocupar. Procurei consolo falando com os meus botões: “Os conhecidos logo chegarão!”. Lá se foram mais 60 minutos e nadica de nada.

Finalmente perguntei a Edilza: “Estamos mesmo em Natal?”. Sua resposta foi desoladora: “Vá logo se acostumando, pois daqui em diante essa sua espera só vai piorar!”. Ela havia percebido minha ansiedade, mas estava consciente e resignada da cruel realidade que vivenciávamos.

Eu não quis me estender na conversa. Nem precisava. Tudo estava resumido naquela sua curta manifestação. Convenci-me de que sem agendamento, shopping não é ambiente apropriado para encontrar amigos ou conhecidos que construíram conosco histórias de vida. Por algumas horas esquecera-me de que novas gerações haviam ocupado o nosso espaço.

Relaxei, pedi outro chope, e me propus ficar admirando a beleza da juventude feminina sarada de hoje, que desfila seu charme nas passarelas populares dos shoppings perante plateias de marmanjos embriagados de tanto colírio para os olhos.

FICUS BENJAMINA

Ao entrar no estacionamento de uma agência da Caixa Econômica Federal, em Natal, deparei-me com três espécimes, ainda pequenos, de uma das árvores mais populares no cotidiano do natalense nas décadas de 50, 60 e 70: o ficus benjamina.

Encontravam-se ficus plantados nos canteiros centrais das avenidas Rio Branco e Deodoro da Fonseca, na Cidade Alta, e em outras artérias e praças da cidade. Sendo um vegetal possuidor de estrutura física vigorosa gerador de pequenas folhas verdes brilhantes, o ficus oferecia a transeuntes e motoristas da pequena frota de veículos em circulação na capital, ampla e convidativa sombra.

Como amante do sol, a árvore, nas condições ideais de solo e temperatura, pode atingir 30 metros de altura, formando uma copa frondosa. Sua existência é perene se houver alimento para as raízes robustas e insaciáveis.

Pois bem! Arranquei algumas folhas daquela árvore, minha velha conhecida, e fiquei matutando a razão delas terem sido banidas dos bairros de Natal. Comentando o achado com amigos e feitas algumas consultas, imaginei haver descoberto a razão da eliminação do ficus benjamina da cidade.

A casta vegetal aparentemente inofensiva é, na verdade, um tormento para as comunidades. Suas raízes crescem e se alastram sem temer qualquer obstáculo, penetrando cada vez mais fundo no solo em permanente procura de água e nutrientes.

À medida que oferece uma sombra generosa e agradável, tronco, galhos e copa aumentam rapidamente. A grama dos jardins à sua volta morre por falta de luz, enquanto outras plantas definham. A competição da maioria das árvores com as raízes do ficus é desigual, haja vista sua gana implacável de crescer mais e mais.

Após algum tempo de vida a árvore começa a mostrar suas garras rachando calçadas e levantando pavimentações de ruas. Ao encontrar muros ou paredes pela frente não hesita em destruí-los na frenética busca por alimento e água.

Ao atingir o estágio adulto, a árvore já cobrou a contrapartida em troca da oferta de sombra e brisa fresca ao cidadão, sem que tenha apresentado ainda uma outra faceta desagradável do seu ciclo natural de vida: ser hospedeira do lacerdinha.

Abramos um parêntese para apresentar o minúsculo inseto. Trata-se do tripe (thysanoptera) galhador de ficus, causador de deformidade nas folhas da árvore e indutor da queda prematura das mesmas, podendo levá-la à morte.

No Brasil essa infestação, nas vezes que apareceu, foi provocada por tripes da família dos ginaykothrips uzeli que, na condição de praga, acarretou grandes devastações nas plantações de ficus. Os insetos adultos são pretos e povoam a árvore por inteiro. Mas o pior é que, sem qualquer aviso ou consulta, os diminutos piolhos penetram nos olhos dos pedestres propiciando-lhes enorme irritação.

Nos anos 60 e 70, no Rio de Janeiro, surgiu uma infestação dessa praga nos ficus da cidade. Logo o carioca apelidou o inseto de lacerdinha, numa alusão jocosa a Carlos Lacerda, político que ganhou notoriedade como adversário implacável de Getúlio Vargas.

Quando adolescente eu tive o desprazer de “hospedar” um lacerdinha num olho e sentir o desconforto de não saber como desalojá-lo. O auxílio de minha bendita mãe foi providencial para pinçar o inseto livrando-me do incômodo.

Moral da história: foi melhor nos privarmos da agradável sombra do ficus a ter de conviver com o embaraço de sua presença entre nós.

Antiga sede do Palácio do Governo, na Praça Sete de Setembro, em Natal, com os ficus benjamina adornando sua fachada

NICANOR, O NOSSO PROFESSOR PARDAL

Eu conheci Nicanor de Azevedo Maia morando num bonito sobrado na rua Mossoró, em Natal, defronte à casa dos meus pais. Mudamos de rua e voltei a encontrá-lo na Escola de Engenharia, em 1965. Eu ingressando no curso, e ele concluinte da 2ª turma de Engenharia Civil.

Tão curioso e inquieto como o professor Pardal, personagem das histórias em quadrinhos de Walt Disney, Nicanor, professor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, direcionou a sua pesquisa para a montagem de um “carro movido a água” – como jocosamente explorava a imprensa.

Lógico, que o invento caiu no descrédito de todos, tanto pelo ineditismo da pesquisa quanto pelo arrojo de tentar peitar de frente a poderosa indústria automobilística e o não menos vigoroso cartel do petróleo.

Sem se intimidar com as dificuldades que enfrentaria, vendeu um dos carros que possuía e adquiriu um velho Chevrolet Biscayne 1965, para dar forma à sua linha de raciocínio científico. “Há 90% de possibilidades de que a coisa dê certo”, afirmou ele confiante, em entrevista concedida à revista Veja, em março de 1976.

Nicanor se atinha a três sistemas de decomposição da água para utilizar o hidrogênio como combustível. No primeiro, em que a decomposição da água ocorria através da hidrogenita – substância composta de silício, hidróxido de sódio (soda cáustica) e cal extinta – ele obteve sucesso. No segundo, ele utilizaria apenas o calor do motor e a energia da bateria para dissociar a água. No terceiro método ele pensava em usar o urânio como dissociador.

Para o professor, um motor a hidrogênio ganharia em potência, por conta desse elemento ser oito vezes mais poderoso, como detonante, que a gasolina. Utilizando-se a hidrogenita o volume correspondente a um litro de hidrogênio custaria, no máximo, 30% do valor cobrado, na época, por um litro de gasolina. Além de vantagem de produzir uma energia limpa sem agressão ao meio ambiente.

Professor de Mecânica Aplicada do Centro de Tecnologia da UFRN, Nicanor realizava suas experiências num galpão – arremedo de laboratório – onde dava forma ao motor para o seu veículo “movido a água”. Na verdade, o combustível era o hidrogênio, o mesmo utilizado nas naves especiais.

Após meses de pesquisa ele montou um gerador de hidrogênio à base de hidrogenita e água no velho Chevrolet – no tanque de combustível continha água, sim. Com o veículo assim adaptado, Nicanor transitou pela cidade e até empreendeu viagens a alguns municípios do Estado.

O descrédito quanto ao trabalho do professor somente cessou, quando o Instituto Tecnológico da Aeronáutica o convidou para fazer uma explanação sobre a “Utilização do Hidrogênio Obtido da Dissociação da Água em Motores Térmicos”, em São José dos Campos.

Resultou que o experimento desenvolvido por Nicanor, era idêntico ao levado à efeito pelos engenheiros do ITA, utilizando aparelhagem moderna e sofisticada, enquanto, em Natal, o professor desenvolvia o seu invento artesanalmente.

Calaram-se os inconsequentes que julgavam o seu trabalho inconsistente e despropositado, mas a falta de incentivos arrefeceu o sonho criativo do pesquisador, quanto a opção de um combustível alternativo para motores automotivos.

Nicanor faleceu em 27 de dezembro de 2001, com 77 anos de idade.

FIGUEIREDO, O PRESIDENTE

O 30º Presidente do Brasil, João Batista de Oliveira Figueiredo, foi o último chefe militar da nação durante o regime de exceção. Governou o país por seis anos, de 1979 a 1985. Tornara-se, até então, o presidente a permanecer por mais tempo no cargo desde Getúlio Vargas.

Carioca e, talvez, influenciado pela condição de filho de militar graduado do Exército seguiu a carreira do pai e chegou, ele também, ao generalato. O convívio na caserna, os inúmeros cargos de comando e o temperamento áspero deram-lhe fama de durão, turrão e grosseiro – este último adereço comportamental, devido a sua exagerada franqueza.

O seu mandato ficou marcado na lembrança do brasileiro pelas declarações bombásticas, destemidas e, muitas vezes, inconsequentes. Eleito pela Arena disputando contra chapa do MDB composta pelo general Euler Bentes Monteiro e Paulo Brossard, em pleito indireto, já no discurso de posse enfatizou: “Eu farei deste país uma democracia!”.

A imprensa nacional se fartou de explorar suas declarações polêmicas enquanto cumpria o mandato. Todas elas reproduzidas sem censura, diga-se de passagem. Sobre a realidade econômica do país, falou: “Sei que o Brasil é um país essencialmente agrícola. Viram? Não sou tão ignorante quanto dizem!”. Em resposta a estudantes que o insultavam em visita a Florianópolis, tascou: “Minha mãe não está em pauta!”.

Acerca das peculiaridades do Rio Grande do Sul, comentou: “Durante muito tempo o gaúcho foi gigolô de vaca”. Em conversa com um garoto que lhe perguntou o que faria se ganhasse um salário mínimo, saiu-se com esta: “A única solução é dar um tiro no coco!”. Devido à impopularidade em razão da disparada da inflação no país, afirmou: “Eu não odeio o povo brasileiro. Ele é que me odeia”.

Durante o governo Figueiredo a crise econômica que assolou o mundo respingou no Brasil. Para piorar as coisas, ocorreram atentados terroristas atribuídos a setores da direita e a militares tidos de linha dura. A inflação ultrapassou os 200% e a dívida externa subiu de 50 para 100 bilhões de dólares.

Por outro lado é indiscutível que graças à teimosia e a firme disposição do presidente, foram forjadas ações corajosas fundamentais para o cumprimento de seu objetivo maior na presidência. E ele as bancou estabelecendo a anistia ampla, geral e irrestrita para políticos cassados com base em atos institucionais; abolindo o bipartidarismo; e, acatando o crescimento da campanha pelas “Diretas Já”.

Mesmo constrangido ante o falecimento prematuro de Tancredo Neves, já presidente eleito, concordou com a posse de seu vice, José Sarney, embora sem dispor-se a colocar-lhe a faixa presidencial.

Sua declaração, no término do mandato, dada em entrevista ao jornalista Alexandre Garcia para a extinta TV Manchete, ficou célebre: “Bom, o povo, o povão que poderá me escutar, será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam”.

Por não saber controlar a língua fomentou a antipatia popular. Entretanto, além da falta de compostura verbal nunca se ouviu falar de algo que desabonasse sua conduta à frente do cargo. Saiu do Palácio do Planalto levando consigo ressentimentos e deixando exemplos de seriedade administrativa.

Faleceu aos 81 anos, em 1999. Foi detestado e incompreendido, mas, não mudou o rumo do que se propôs deixar de herança para o Brasil: a redemocratização.

RAQUEL, VULGO BRUNA

Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha, 29 anos, paulista de Sorocaba, suou bastante trabalhando na profissão mais antiga da humanidade, mas deu-se bem entre as mulheres de vida fácil – ou será vida difícil? Como fruto do trabalho e do reconhecimento público pôde diversificar as atividades laborativas ao seu bel prazer ou ao sabor de opções ocasionais.

Agindo assim protagonizou filmes pornográficos e produziu roteiros, participou de reality show, foi entrevistada no programa Jô Soares, atuou como disc jockey e como escritora, até conseguir ser notícia no New York Times.

Não tenho conhecimento se já lhe atribuíram rótulos depreciativos, escrachados ou maldosos, mas o que ninguém pode dissociar dela é o aguçado senso de oportunidade e a coragem de se expor ao ridículo ou ao preconceito contra seu trabalho.

O sucesso começou, em 2005, ao postar em um blog suas peripécias amorosas como garota de programa no cotidiano da prostituição. Nele, tal qual o diário de uma adolescente, a jovem discorria sobre costumes e preferencias de seus parceiros de cama, o que aumentou o número de visitas ao site.

A página ganhou popularidade na internet e a tornou uma celebridade. Aproveitando o embalo da fama decorrente de seu blog, Raquel lançou o livro “O Doce Veneno do Escorpião – O diário de uma garota de programa”. Os picos de vendagens abriram-lhe espaço para publicar, em 2006, “O que aprendi com Bruna Surfistinha”, o segundo livro.

Na cama com Bruna Surfistinha” foi o terceiro, em 2007, destinado exclusivamente ao público adulto – dá para imaginar o conteúdo, né! Não li nenhum dos três, mas assisti ao filme “Bruna Surfistinha”, subvencionado pelo Ministério da Cultura e sucesso estrondoso de bilheteria.

Já mulher feita e com experiência na vida, Raquel não perde oportunidade de ser notícia para não cair no esquecimento público, embora afiance querer voltar para o anonimato. Pudera. Seus vídeos pornôs invadiram a internet e não deixam dúvidas de que dominava bem a profissão, tamanho sua desenvoltura em ação.

Quando participou do programa “A máquina”, da TV Cultura, foi ao ar mais uma de suas polêmicas declarações, quando confessou o seguinte: “Eu comecei a me masturbar entre os cinco e seis anos. No programa Rá-Tim-Bum passava uns meninos pelados tomando banho e eu ficava sentada na madeira da cama, assistindo e me masturbando”.

Raquel posiciona-se a favor da legalização da prostituição. Diz que a maioria das prostitutas leva vida dupla. Numa colocação digna de psicólogo-sexólogo ou de conselheiro matrimonial faz um alerta às esposas, insinuando: “O que a mulher não faz em casa, o homem procura fora!”.

Tratar de sexo abertamente e com seriedade é saudável e necessário. O conhecimento de suas peculiaridades controlará excessos e eliminará preconceitos. Repetindo o pensador: “O sexo é chama indispensável quando somente aquece a paixão. Complica tudo quando incendeia a razão e se torna o ópio da vida, a fera que o ser humano não pode domar”.

Lembrei de Bruna ao ver o seu filme na programação fixa da Netflix.

NÃO OBSTANTE

A primeira vez que eu ouvi a expressão não obstante foi numa sala de aula do curso científico. Sim, aquele mesmo de priscas eras. Pois bem! Embora sem entender o significado achei o termo pedante, ainda que tenha ficado atraído pela sonoridade e elegância de como ele fora inserido no contexto da lição.

Em meus textos, sempre que aparecia um espaço adequado para utilizar a dita locução conjuntiva, eu me valia de adversativas do tipo apesar, contudo ou conquanto. Acontece de o não obstante haver se encruado em definitivo no meu subconsciente, sem que dele eu conseguisse me livrar.

Se por um lado eu temia parecer esnobe, por outro, vivia consumido pela vontade de usar, pelo menos uma vez e de forma adequada, a expressão pela qual me encantara na adolescência. A ânsia estava em hibernação, até o não obstante aparecer outra vez e por acaso no meu dia a dia.

Surgiu de forma inusitada e onde eu menos esperava pudesse se apresentar. Repito, em qualquer outra oração eu admitiria utilizarem o não obstante, menos durante uma declaração de amor.

Assistia eu a um filme de época, quando o galã da película abordou a amada e tascou-lhe o dito termo, não uma, mas duas vezes. Decepção total. Não obstante não se coadunava num filme romântico e, jamais, naquela encenação.

O mocinho empedernido e enfatiotado num traje do final do século XIX, portando cartola e bengala; a moçoila, vestindo um modelo menos nobre, mesmo assim cheio de saias e espartilhos escondendo botinhas da moda na época. Com a expressão marcada pela dor e pela decepção ele desabafa:

Não obstante o profundo sentimento que cultivo por vosmecê, as barreiras impostas por nossas condições sociais impedem-me de levar adiante essa ardente paixão que nos une. Não obstante o sofrimento que me proponho suportar, certamente, esta é a decisão mais adequada para nós ambos.

O enredo histórico, que servia de pano de fundo para os dois apaixonados, era de meu interesse. Mesmo assim, preferi deletar o filme dos meus arquivos por conta do não obstante em dose dupla.

Agora, cá entre nós. Por qual cargas d’água eu resolvi escrever tamanha baboseira neste espaço? Deve existir uma razão plausível. Atribuo essa minha alienação ao período que antecede o próximo dia 7 de outubro.

Talvez seja uma forma de aliviar a pressão que me angustia por conta de tantas informações manipuladas, promessas vazias, mentiras deslavadas, esquemas e conchavos que podem beneficiar qualquer pessoa, menos a nação brasileira.

Talvez seja em decorrência da mesmice de sempre utilizada pelos mesmos pretendentes a cargos públicos na política partidária. Talvez por não antever nenhuma mudança no cenário nacional, porquanto não haver sinceridade nem viabilidade nas propostas apresentadas pelos disputantes.

Não obstante ser uma obrigação do cidadão ciente de suas responsabilidades perante à sociedade, nada me induz ao deslocamento às urnas no próximo pleito para sufragar meu voto.

Mesmo sem motivação, irei sim, votar. Não obstante os nãos obstantes em jogo.

QUANDO O POUCO É MUITO

A maioria, senão a totalidade dos governadores eleitos em 2014 na nossa república federativa destacou a saúde, a educação e a segurança pública como prioridades administrativas de seus mandatos. E puseram tamanha ênfase nas suas promessas, que fomos levados a imaginar estarmos prestes a desfrutar de um período de benesses de dimensões nunca dantes imaginadas nos estados brasileiros.

Seriam providências benvindas e necessárias naquele momento, haja vista o fato de amenizar a insatisfação de uma população carente de serviços básicos integrantes do rol de atribuições constitucionais obrigatórias dos governos.

Pois bem, se na época aplaudimos a promessa do restabelecimento de tais providências, hoje, lamentamos o descaso ou a irresponsabilidade de não as vermos consolidadas ao final das administrações empossadas, quatro anos atrás.

Se houvéssemos anexado a essa relação de serviços prometidos em campanhas pretéritas, o transporte público de qualidade e a moradia digna para o carente de abrigo, teríamos completado o quinteto basilar de obrigações que o cidadão espera de cada governante que elege.

Nunca sonhamos em possuir, no Brasil, Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) comparados com o de países como Nova Zelândia, Suíça ou Islândia. No entanto, é duro estarmos posicionados abaixo de nações como Costa Rica, Uruguai, Chile, Panamá e Argentina, quando o assunto é nutrição e atendimento à saúde, abastecimento e saneamento básico, moradia e segurança.

Por que tanta distorção, quando somos um país muito mais rico em recursos naturais que esses últimos, e tornado república quase na mesma época deles? Isso mesmo! Com exceção do Panamá – o mais jovem -, os demais países latino-americanos citados obtiveram suas independências praticamente no mesmo período que o nosso: entre 1816 e 1828.

Suponho que nas campanhas políticas daqueles bem posicionados vizinhos não sejam aventados, com tanta ênfase ou preocupação, os índices negativos de desenvolvimento humano, como o são aqui. Nos países de além-mar, líderes do ranking de melhor IDH, certamente que não.

Os objetivos eleitorais deles devem contemplar outras providências, tais como preservação ambiental, controle de gases para evitar o efeito estufa, novos métodos para prolongar o tempo de vida dos compatriotas ou estudos para melhorar a posição do país na próxima Olimpíada. Coisas desse tipo.

Enquanto isso, nós continuamos implorando por uma educação de qualidade para nossos descendentes, transporte público com um mínimo de eficiência e conforto, uma rede de saúde mais humana e presente, uma segurança pública que garanta ao cidadão a certeza de que ele voltará com vida para casa após cada jornada de trabalho.

É uma tristeza admitirmos essa realidade, mas em terra onde tudo funciona ruim, qualquer melhoria é lucro. Por isso é que diante da oferta de campanha de nossos excelentíssimos futuros governantes fica difícil renegar o parco quinhão oferecido por cada um deles, pois diante da desqualificada situação do serviço público, temos que engolir o pouco prometido como sendo uma baita parcela de benefícios.

EU HABITO ESTE MUNDO

Tocou-me bastante algo que li sobre o avanço tecnológico influenciando o modo de vida das pessoas. São constantes transformações tecnológicas modificando costumes, acabando empregos e levando, a muitos, a incerteza de uma vida sem perspectivas sob o domínio da internet neste mundo. Saibamos as razões.

Netflix, provedora de séries e filmes de televisão com mais de 100 milhões de assinantes. Extinguiu os vídeos-clubes e provocou a diminuição de pessoas nos cinemas.

Booking, com mais de 17 mil funcionários em 198 escritórios em 70 países do mundo, tem a missão de empoderar pessoas a vivenciar o mundo. Tal procedimento pôs em xeque as agências de turismo.

Google, a missão declarada da empresa é organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil. Acabou com as páginas amarelas.

Airbnb é um portal on line de aluguel imobiliário temporário. Tornou-se o terror dos donos de hotéis. Tinder e similares, são aplicativos de localização de pessoas para encontros românticos on line. Provocará a eliminação do mercado de boates e discotecas.

Whatsapp, trata-se de um aplicativo de mensagens instantâneas e chamadas de voz. Além de enviar imagens e vídeos, faz ligações gratuitas por meio de conexões com a internet. Ameaça operadoras de telefonia fixa e celular, as redes socias e os meios de comunicação.

Youtube, plataforma de compartilhamento de vídeos que hospeda uma grande variedade de vídeos e filmes. Põe em risco empresas de televisão abertas e a cabo. Uber, prestadora de serviços eletrônicos na área de transporte privado urbano, vem incomodando, e muito, os taxistas.

Smartphone, significa telefone inteligente. É um celular que combina recursos de computadores pessoais, dispondo de funcionalidade avançada. Tende a extinguir os estúdios fotográficos.

OLX é uma empresa global de comércio eletrônico, cujo funcionamento está acabando com os avisos classificados. Zipcar, trata do compartilhamento de veículos, oferecendo reservas de carros a seus associados a preços módicos. Desestruturou empresas de aluguel de veículos.

E-mail complicou a vida dos Correios. Waze, acabou com o GPS. Wikipedia, eliminou enciclopédias e dicionários. Tesla, questiona o futuro do setor automotivo tradicional com a venda de automóveis elétricos.

Nubank, empresa emergente brasileira pioneira no segmento de serviços financeiros. Ameaça o sistema bancário tradicional. Facebook, trata-se da maior rede social virtual do mundo, com mais de 1 bilhão de usuários ativos. Está matando os portais de conteúdo.

Muita coisa ainda vai mudar. A preocupação do momento e sabermos por quanto tempo manteremos o nosso emprego na forma atual. Continuaremos a viver como vivíamos dez anos atrás? Não! É impossível sobrevivermos sem nos reinventarmos, diariamente, para continuarmos participando deste jogo chamado vida. O certo é seguirmos adiante. Não porque atrás vem gente, mas, em razão de existir muita gente à nossa frente que se aproveita do que somos e fazemos.

Afinal, querendo ou não, continuamos habitantes deste mundo.

LUZ, CÂMERA, AÇÃO

“Cinema é a melhor diversão”, este era o slogan que antecipava as projeções de películas nas salas de cinema do Grupo Severiano Ribeiro, empresa pioneira na cinematografia brasileira. Ainda continua sendo o melhor divertimento assistir a um bom filme na telona, no conforto de uma excelente sala de projeção.
Em 1911, o crítico de cinema Ricciotto Canudo, publicou em Paris um artigo denominado “O nascimento da sétima arte. Ensaio sobre a cinematografia”, considerado como o primeiro texto onde se define o cinema como uma arte. Nele, o teórico italiano estabelecia o cinema como o resumo de todas as artes – música, dança, pintura, escultura, literatura e teatro -, em movimento. Realmente, o cinema, além de ser a súmula de todas as manifestações artísticas, é também diversão, entretenimento, encantamento, deleite, magia e arte em movimento.

De um bom filme ninguém esquece. Eu sou daqueles apaixonados por cinema que conseguem assistir a um mesmo filme inúmeras vezes, vibrando com cada momento empolgante, como se não soubesse o final do enredo.

Detesto desvendar detalhes técnicos de filmagens. Prefiro desfrutar da imagem já elaborada, burilada, daquela montada para causar o deleite esperado no espectador. Não importa que seja obtida por efeito especial ou qualquer outro artifício para iludir a visão, desde que consiga nos deixar embalar na fantasia gerada pela genialidade do diretor.

Diferentemente das novelas intermináveis e cansativas da televisão, os filmes são mais objetividade e expressão, e oferecem um variado leque de escolhas. Assim, quem se propuser a assistir a um filme, sabe de antemão que o enredo é baseado em história real, em algum romance ou o resumo de um texto qualquer.

Antes de entrar na sala de projeção, a plateia já tem conhecimento do gênero de filme a que vai assistir: se um policial, suspense, comédia, drama, terror ou se um relato romântico.

No contexto da peça de arte, além do desempenho dos atores e da direção, causa-me admiração o trabalho de compilação do texto pelo roteirista, de modo a ser exibido num espaço de tempo não superior a duas horas.

“The Hollywood Reporter”, publicação americana especializada em cinema, depois de ouvir 2.120 opiniões de especialistas no tema, relacionou os 100 melhores filmes da história da cinematografia.

É lógico que jamais alcançarão a unanimidade, entretanto, independendo das escolhas e colocações atribuídas, ou das injustiças perpetradas por ausências, lá estão grandes momentos da sétima arte. Encabeçam a lista O Poderoso Chefão (1972), O Mágico de Oz (1939) e Cidadão Kane (1941).

Cito aqui mais uma dúzia de obras de arte, de minha preferência, extraídas da dita relação, sem considerar as colocações das mesmas: E o Vento Levou… (1939), Casablanca (1942), Cantando na Chuva (1952), Os Sete Samurais (1954), A Ponte do Rio Kwai (1957), Psicose (1960), Lawrence da Arábia (1962), A Noviça Rebelde e Dr. Jivago (1965), Apocalipse Now (1979), Amadeus (1984) e Titanic (1997).

Com relação ao Oscar 2018, não gostei de A Forma da Água ganhador da estatueta como melhor filme. Dunkirk, O Destino de uma Nação e The Post: A Guerra Secreta são bem melhores como bom entretenimento.

PAÍS SEM MEMÓRIA

Cansamos de ouvir dizerem, figurativamente, ser o Brasil um país sem memória. Pois bem, agora, com a destruição do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, podemos afiançar estarmos habitando, literalmente, uma nação sem passado histórico.

Ficou sem memória o Brasil porque transformou-se em cinzas a mais antiga instituição científica e um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas.

O edifício, antes de ser tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938, havia abrigado a família real portuguesa de 1808 a 1821, a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e sediado a Assembléia Constituinte Republicana de 1889 a 1991. Em 1992 tornou-se museu.

Ficou sem memória o país porque um acervo com mais de 20 milhões de itens, formado ao longo de mais de dois séculos de coletas, permutas, doações e aquisições foi consumido pelas chamas. Uma biblioteca contendo mais de 470 mil volumes especializada em ciências naturais do país também foi alvo do incêndio.

Foi-se da nossa memória porque nos privaremos de admirar e consultar as coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica e etnologia; além de diversificados conjuntos de itens provenientes de muitas regiões do planeta ou produzidos por povos e civilizações antigas.

Perdemos a memória porque resultou em vão todo o trabalho da princesa Maria Leopoldina de Áustria, esposa de D. Pedro I, ao trazer da Europa importantes naturalistas e pesquisadores para trabalharem no aprimoramento e melhoria do acervo do museu.

Escafedeu-se de nossa memória no instante em que virou fumaça os esqueletos do pterossauro, do titanossauro, do espinossauro, do tigre-de-dente-de-sabre e das preguiças gigantes que lá expúnhamos orgulhosamente. E o que dizer do fóssil humano mais antigo já encontrado nas Américas, datado de cerca de 13 mil anos atrás, apelidado de Luzia?

Pela falta de memória nossos filhos, netos e seus descendentes deixarão de comprovar a existência, em eras passadas, de exemplares como o esquife da dama Sha-Amun-em-su, cantora do Egito (750 a. C), da múmia Kherima (séculos I-III a.C) e de outras peças do Egito Antigo, além de registros únicos da Roma dos césares.

A memória da nação ficou acéfala sem as amostras de meteoritos descobertos em várias regiões do Brasil, e de coleções de pedras semipreciosas extraídas do território nacional; dos exemplares de fósseis de plantas e animais, daqui e de regiões do mundo; e, da coleção de arqueologia clássica, abrangendo peças das civilizações grega, romana, etrusca e italiana.

Nunca mais apreciaremos os 30 mil objetos integrantes das coleções da cultura brasileira, reflexo da diversidade e riqueza dos povos que aqui habitaram antes do descobrimento, bem como da cultura africana e afro-brasileira.

A comoção foi sentida em todos os quadrantes do Brasil. Idêntica ao do incêndio da boate Kiss, na cidade de Santa Maria (RS), que matou 242 pessoas e feriu outras 680, em 2013. Passados cinco anos, todo o planejamento sobre a prevenção de futuros incêndios no país foi esquecido, ou melhor, sequer chegou a ser aplicado.

Por falar nisso, em qual data um incêndio consumiu o nosso Museu Nacional, no Rio de Janeiro? É de doer na alma a minha, a nossa falta de memória.

OS INDIFERENTES

Antes do regime militar, iniciado em 1964, embora outros partidos gravitassem no cenário nacional, a política brasileira estava polarizada entre três legendas: a União Democrática Nacional, o Partido Trabalhista Brasileiro e o Partido Social Democrático, criados em 1945.

A UDN possuía base eleitoral em classes médias urbanas e setores da elite. O sustentáculo do PTB era o operariado urbano ligado a sindicatos. Já o PSD abrigava proprietários rurais, altos funcionários de estatais e as correntes mais conservadoras do getulismo.

O eleitor considerava-se petebista, udenista ou pessedista. Vinculava o voto ao seu partido. Sufragava sua opção em função dos bons resultados obtidos pelo partido em gestões passadas e nas promessas plausíveis de realização apresentadas nos programas partidários de governo. Tudo isso registrado em cartório.

Via de regra, se determinado candidato merecesse crédito e respeito, mas não pertencesse ao partido da preferência ou filiação do eleitor, a opção estaria descartada. Votava-se em propostas, conceitos e ideais do partido.

Estavam eleitos apenas os que obtivessem as maiores votações. Isso mesmo, somente os escolhidos como legítimos representantes da vontade popular, sem artifícios matemáticos para privilegiar candidatos sem votos.

Meu avô era udenista doente e meu pai um pessedista moderado que votou em Juscelino Kubitscheck para presidente. O eleitor era inabalável na sua crença partidária. É difícil acreditar, mas o lema de cada instituição partidária continha força, crédito e poder de definição.

De tanto ouvir meu velho avô repetir o lema da UDN, ele me ficou gravada na memória: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A expressão “nem sim nem não, muito pelo contrário” servia de galhofa para oposicionistas provocarem eleitores fanáticos pelo PSD, criticando o fisiologismo e indefinições do partido.

Aí apareceu o segundo Ato Institucional da Revolução criando a novidade do bipartidarismo. Direcionou para a Aliança Renovadora Nacional e para o Movimento Democrático Brasileiro as opções de filiação partidária. Votava-se apenas em candidatos da Arena (situação) e MDB (oposição). Uma polarização obrigatória, porquanto institucionalizada.

Os partidos continuam existindo, é verdade, mas com a diferença de poder transmutar-se em outras siglas com a mesma rapidez que mudamos os canais na televisão. Desaparece quando um escândalo abala sua credibilidade política, mas retorna em seguida abrigando os mesmos fiéis e infiéis filiados, fazendo as mesmas promessas camufladas em roupagens diferentes.

Hoje, as propostas do candidato nem sempre coincidem com as do partido. E se assemelhadas, tampouco importa, pois é improvável que o eleitor as conheça ou delas se lembre. Um candidato proficiente na atividade política obscurece o partido. Torna-se a bengala e a esperança vital para a entidade partidária não sucumbir por falta de representatividade pública.

Daí porque tantos eleitores indiferentes na proximidade da data das eleições. Daí porque tanto voto nulo. Daí a tentativa de desmerecer a Democracia votando em “palhaços” e “símbolos folclóricos”. Daí porque o eleitor não dá mais crédito à política. Está aí o resultado de tanto desrespeito ao brasileiro.

O MANUAL DE REDAÇÃO DA FOLHA

Quando eu comecei a rabiscar textos para jornais, adquiri o Novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo para tentar parecer um pouco menos ruim redator daquele que realmente sou. Posso até não haver melhorado o meu estilo de escrever, mas encantei-me com todos os bons ensinamentos ali contidos.

“Qualquer que seja a coisa que queiramos dizer, há apenas uma palavra para exprimi-la, um verbo para animá-la e um adjetivo para qualificá-la” – Maupassant.

O Manual surgiu em decorrência de movimento encabeçado pelo herdeiro do conglomerado jornalístico Folha de S. Paulo, denominado Projeto Folha. Tratam-se de normas e recomendações básicas que orientam o trabalho jornalístico, dividido em quatro capítulos.

Em linhas gerais o Manual discorre sobre os princípios editorias do jornal e propõe reflexões sobre temas jornalísticos, cria recomendações pertinentes à coleta de fatos para escrever uma reportagem, procura dar conta dos principais pontos da gramática e traz recomendações relativas a apresentação do material jornalístico.

“Um bom texto jornalístico depende, antes de mais nada, de clareza de raciocínio e domínio do idioma. Não há criatividade que possa substituir esses dois requisitos. Deve ser um texto claro e direto. Deve desenvolver-se por meio de encadeamentos lógicos. Deve ser exato e conciso. Deve estar redigido em nível intermediário, ou seja, utilizar-se das formas mais simples admitidas pela norma culta da língua”. Ainda sobre o capítulo atinente à redação, o Manual recomenda:

“Convém que os parágrafos e frases sejam curtos e que cada frase contenha uma só ideia. Verbos e substantivos fortalecem o texto jornalístico, mas adjetivos e advérbios, sobretudo se usados com frequência, tendem a piorá-lo.

O tom dos textos noticiosos deve ser sóbrio e descritivo. Mesmo em situações dramáticas ou cômicas, é essa a melhor maneira de transmitir o fato da emoção. Deve evitar fórmulas desgastadas pelo uso e cultivar a riqueza dos vocábulos acessíveis à média dos leitores”.

Vi motivo para escrever estas linhas, quando soube da morte prematura de Otavio Frias Filho, no último dia 21 de agosto, aos 61 anos de idade, de câncer no pâncreas. Jornalista brilhante, excelente dramaturgo e escritor festejado, Otavio, segundo seus amigos, cativava a todos pela inteligência, humildade e discrição.

“O autor pode e deve interpretar os fatos, estabelecer analogias e apontar contradições, desde que sustente sua interpretação no próprio texto. Deve-se abster-se de opinar, exceto em artigo ou crítica”.

Ao receber o Prêmio Maria Moors Cabot de Jornalismo, em 1991, da Universidade de Columbia (EUA), pela contribuição de seu jornal à liberdade de imprensa, ele assim se pronunciou em seu discurso de agradecimento:

“Nos limites estreitos do jornalismo, a contribuição que está ao nosso alcance é fácil e difícil de se obter. Trata-se de cativar a exatidão impessoal e o respeito a pluralidade de pontos de vista em meio a uma cultura onde é fraca a separação entre o público e o particular. De informar com competência técnica num país subdesenvolvido. De fomentar o espírito crítico numa sociedade de tradição autoritária”.

O Manual é um curso simplificado de jornalismo. Conciso e de fácil entendimento. No início da leitura destaca-se um pensamento de François La Rochefoucauld: “A verdadeira eloquência consiste em dizer tudo o que é preciso e em dizer apenas o que é preciso”.

EQUADOR

O território do Equador corresponde a 3% da área do Brasil, algo como o estado do Piauí. Está situado no noroeste da América do Sul imprensado entre a Colômbia e o Peru. O litoral de 2.237 quilômetros de extensão é banhado pelo Oceano Pacífico.

Quando falamos na República do Equador lembramos a Linha do Equador e os chapéus do Panamá, que na verdade não são originários do país do canal do mesmo nome, pois são fabricados na nação encravada no paralelo que delimita a metade do mundo. A verdade é que estará por fora de tudo quem somente lembrar isso daquela nação.

Visitei a pátria de Túpac Amaru e de Eloy Alfaro atendendo a convite de um empresário equatoriano com quem mantenho amizade há mais de 40 anos. Trata-se de uma terra diferenciada e surpreendente. Montanhas, florestas, mar e vulcões – alguns deles em atividade – emolduram a paisagem do país, cuja capital Quito, situa-se a 2.820 metros acima do nível do mar.

Lá existem somente duas estações no ano: verão e inverno. O clima é agradável e mais ou menos constante situando-se na faixa dos 21°C. Duas horas a menos é a diferença de fuso horário do Equador para o Brasil.

O centro histórico de Quito, o primeiro a ser declarado Património Cultural da Humanidade, pela Unesco, evidencia muito bem a força da colonização espanhola e deixa o visitante perplexo com a beleza, em estilo colonial, do conjunto arquitetônico do século XVII, o mais bem conservado da América Latina.

A moeda é o dólar americano, daí nos dar a impressão de que tudo por lá é mais caro. É bom não esperar encontrar vida noturna agitada, pois a cidade adormece cedo. Em compensação desfruta-se de uma excelente gastronomia focada em culturas tropicais típicas das variadas regiões da nação, além de enorme diversidade de frutos do mar. O ceviche, prato originário do Peru, recebe no Equador um tratamento próprio que resulta numa iguaria fenomenal.

O Equador está investindo maciçamente em segurança e, como consequência, tem obtido resultados positivos no tocante a diminuição do número de homicídios no país. O sistema prisional é referencia para a América Latina. Boas estradas nos levam a pontos turísticos como Papallacta, onde piscinas termais são abastecidas com águas de um vulcão ativo ou, até à cidade de Otavalo, cuja maior atração é um mercado de artesanato a céu aberto.

Em próxima viagem ao Equador eu visitarei Guayaquil, Cuenca e as Ilhas Galápagos – principal laboratório vivo de biologia do mundo. Foi lá onde o naturalista britânico Charles Darwin, em 1831, efetuou pesquisas que fundamentaram a formulação de sua teoria sobre a origem e a evolução das espécies.

Falta-nos melhor divulgação do Equador no Brasil. Enquanto o Peru alardeia a sua boa gastronomia e a originalidade de Cuzco e de Machu Picchu, por todos os quadrantes do nosso país, nada se vê, lê ou ouve que promovam a cultura nem a diversidade das riquezas naturais do Equador. Tampouco aparecem imagens que exaltem as peculiaridades daquele povo andino.

Este depoimento representa um reconhecimento ao equatoriano pela maneira simpática como recebe o brasileiro, em visita à sua terra. Talvez porque guardemos algumas semelhanças com o nativo do Equador, quanto se fala de boa hospitalidade com las hermanas y hermanos latinoamericanos.

EM NOME DA PAIXÃO

A personagem deste texto é uma velha conhecida nossa, pois tem abrigo no âmago de cada ser humano e atende pela alcunha de paixão. Controlada, ela admite conviver com urbanidade na sociedade, mas, sem peia nem cabresto torna-se uma besta ensandecida e cruel. Em nome da paixão excessos são cometidos e o radicalismo ganha contornos obscuros. A paixão, tal qual determinadas drogas, embota os sentidos e induz a caminhos perigosos onde não existem limites.

A metáfora “Eu amo de paixão!”, deixa margem à interpretação de que, por amor excessivo a alguém ou a qualquer coisa, o indivíduo é levado a cometer loucuras. Existem segmentos que ordenam a vida em comunidade, onde é apavorante constatar o descontrole da paixão. O esporte, a religião e a política são alguns deles.

A paixão pelo esporte, particularmente naqueles coletivos, atinge com facilidade o histerismo. Sem domínio, leva o público a elevados níveis de catarse, que derivam para ações exacerbadas de entusiasmo e de agressão. E aí nos vem à lembrança o êxtase das plateias dos circos romanos ao assistirem cristãos sendo dilacerados por leões famintos.

Comparação não tão distante das cenas da antiguidade, estão hoje nos estádios de futebol. Torcedores insatisfeitos com resultados adversos de simples pelejas esportivas, agridem adversários e, ensandecidos, pisoteiam e matam assistentes indefesos em situações de entusiasmo descontrolado.

A paixão sem limites na religião também deixa marcas quando gera extremismo, fanatismo e intolerância. Sob a égide da Inquisição, defensores da Igreja resolveram combater o sectarismo religioso erradicando a heresia. Tudo começou no século XII, na França, mas tomou forma no início do Renascimento, na Espanha e Portugal, quando tribunais inquisidores tentaram converter judeus e muçulmanos ao catolicismo.

Com a justificativa de ameaça ao cristianismo católico exageros foram cometidos por protetores da fé, torturando e queimando hereges. O símbolo da crueldade dessa época ficou nas ações do inquisidor-geral de Castela e Aragão, o frade dominicano Tomás de Torquemada. A vítima mais emblemática da Inquisição foi Joana d’Arc, que morreu queimada na fogueira condenada por heresia. Por ironia, a heroína francesa se tornou santa da Igreja Católica e padroeira da França.

Um exemplo do extremismo da paixão pela política, ainda se mantém vivo na lembrança de nações, mundo afora. Seis milhões de pessoas foram exterminadas em nome da purificação de uma raça. A ideologia formulada por Adolf Hitler praticada pelo Partido Nazista foi adotada pela Alemanha de 1933 a 1945.

O resultado? Homens, mulheres e crianças de origem judia sendo perseguidos e aprisionados por carrascos do Terceiro Reich, em quase toda Europa. Em campos de extermínio foram assassinados por fuzilamento ou pelo gás Ziklon B, ou sucumbiram de inanição ou por doenças oportunistas no cativeiro. A “solução final da questão judia” ficou conhecida como “holocausto”, e representa uma nódoa na história da humanidade, emoldurada pelo horror da II Guerra Mundial.

Em outubro próximo exerceremos, outra vez, o livre direito de votar. Eis a oportunidade para depositarmos nas urnas a esperança de melhores perspectivas para o futuro do Brasil. Isso, se fizermos as escolhas certas para os lugares certos, desprovidos de paixões sem medidas.

OS ZEROS DO ENEM

“A principal função da raiz é se enterrar”, “As aves tem na boca um dente chamado bico”, “Não preserve apenas o meio ambiente, mas sim todo ele”, “A Aids é transmitida pelo mosquito Aides Egpsio”, “Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco mais em nós”. Essas, não são frases ouvidas em programas humorísticos de televisão, mas extraídas de textos de provas de redação do Exame Nacional do Ensino Médio-ENEM.

Não dá para conter o riso diante de tamanha estupidez, decorrência da completa falta de conhecimento gerado pela escassez de leitura. Trata-se do fruto da criatividade de alunos, recém-saídos do ensino médio, que tentam ingressar na universidade mediante o ENEM. É doloroso constatar tais absurdos, porque são agressões cometidas contra a integridade daquilo que uma nação tem de mais expressivo: o idioma.

O mesmo cenário de ignorância se repete em outras áreas: “Fazem dez anos”, “Para mim escolher”, “Esse assunto fica entre eu e você”, “Aonde você estava?”, “Há muito tempo atrás”, “Nós, enquanto sociedade…”. Ataques como esses são escutados no cotidiano do nosso linguajar. O pior é quando partem de comunicadores do rádio e da televisão, em apresentações jornalísticas. Arrebentam os tímpanos de quem possui um mínimo de conhecimento do português.

Existe uma linha de “educadores” defendendo que deveríamos escrever como falamos. “Taí” uma ideia “porreta”! Esqueçamos tudo o que aprendemos (aprendemos?) na escola e elejamos como idioma oficial a linguagem hieroglífica praticada nas redes sociais, que está rompendo com regras tradicionais da norma padrão: “Ei pow, ramo dá um role hj? Pegá umas mina” (Ei rapaz, vamos sair para passear hoje? Ficar com umas garotas) ou “Qnd vc vai p/ d flr isu?” (Quando você vai parar de falar isso?).

Trata-se do modelo de conversação, via internet, utilizando gírias e palavras novas, numa amostragem do alto nível de alienação entre crianças e adolescentes. No início de minha vida escolar cansei de ouvir professores repetir a mesma ladainha: “A leitura é a base da educação, pois além de aumentar seu conhecimento, fortalece a habilidade em gramática e alarga o vocabulário”.

Portanto, o estardalhaço causado pela divulgação do resultado do exame do ENEM-2017, onde mais de 300 mil estudantes conseguiram um significativo zero na prova de redação, não deveria apavorar ninguém. Foi uma constatação previamente anunciada, por conta do descaso com o ensino médio no país.

Possuímos 6.062 bibliotecas públicas para 210 milhões de habitantes. Uma para cada 34,6 mil brasileiros. Todas ao léu, pois não exercitamos o costume de visitá-las. A França, proporcionalmente, possui 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Na Argentina existe uma biblioteca para cada 17 mil pessoas.

Esqueçamos tudo e tentemos dormir embalados por afirmativas inéditas como estas: “Os portugueses, depois que descobriram Fernandes de Noronha, assinaram o Tratado de Tortas Ilhas”; “Lenine e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia”; “A alimentação é o meio de digerirmos o corpo” e “O povo quer coisa simples, sem muita luxúria”. E eu inocente quanto a tudo isso!

NO TEMPO DA BRILHANTINA

No tempo da brilhantina não existia cerca elétrica em residências nem grades em janelas que não as dos presídios. Tampouco alarme eletrônico ou câmeras curiosas vasculhando moradias e ruas. Ninguém anteveria o futuro com radares controladores de velocidade, lombadas eletrônicas e veículos inteligentes.

Nem pensar em computador pessoal ou instalados em painéis de carros movidos a eletricidade. Nada de telefonia celular ou aplicativos eletrônicos de nomes estranhos como bluetooth, hangouts e whatsapp. Muito menos uma fonte de informações chamada Google, interligada a um sistema global de redes de computadores, que utilizam o conjunto de protocolos padrão denominado internet.

Naquele tempo, quem aventaria a possibilidade de entrar num tubo para ser examinado, da ponta do pé até a raiz do cabelo, mediante exames de ressonância magnética? Ou instalar stents cardíacos nas coronárias ou, ainda, sobreviver a infartos com pontes de safenas no peito?

Indo mais adiante, ser um receptor de órgãos tais como córneas, fígado, coração, pulmão, rins ou constatar, implantados em si e obedientes ao seu comando, membros doados por seus semelhantes? Qual mulher imaginaria chegar à velhice com o corpo sarado, bumbum empinado, peitos siliconados e cara de boneca?

No tempo da brilhantina não existiam cinema, televisão nem DVDs de alta definição. Ninguém ouvia falar em genoma humano ou DNA. A clonagem de qualquer ente vivo era exclusividade de roteiristas de Hollywood ou de histórias em quadrinhos. Da mesma forma que habitava somente em mentes visionárias, a remota hipótese de viagens ao espaço sideral e o pouso na Lua.

Os amantes da música jamais consideraram se deparar com estilos do tipo axé músic, mangue beat, zouk, punk rock ou funk melody. Somente malucos ou suicidas praticavam esportes radicais tais quais mountain bike, snowboarding e bungee jumping. Short curto de jeans desfiado usado com blazer de grife e sapato de salto alto era considerado fantasia, e não roupa da moda.

No tempo das cabeleiras ensebadas com brilhantina não se cogitava em implantar pelos em couros desprovidos deles, sendo a peruca a única solução para os carecas. Não existiam Viagra e AIDS, tampouco bombas de anabolizantes, nem se ingeria maconha como medicamento.

Se falassem em nanotecnologia, pensava-se em algo relacionado a um anão tecnólogo. Não se abordava a homossexualidade abertamente na mídia nem era permitido beijo de gays na televisão. A cerimônia do casamento consistia, tão somente, na união de um homem com uma mulher.

É incompreensível que tenhamos escapado àquela época sem sequelas físicas ou comportamentais em razão de tantas carências de avanços na medicina, na comunicação, na tecnologia, na ciência e na amplitude de informações. Como sobrevivemos por tanto tempo sem o conforto e as facilidades de agora?

O mundo mudou e continua mudando muito depressa, e é voz geral que muda para melhor. Mas, por que essa impressão de ele estar mais perigoso do que antes? Por que a sensação de pânico e de insegurança, quando deveria ser o contrário? Quais os motivos para tanta ansiedade e insatisfação? Se no balaio do progresso for condição fundamental vir junto com ele tanta mazela, eu sou mais continuar usufruindo das limitações contidas no tempo da brilhantina.

A ERA VIRTUAL DO JORNALISMO

Pouca gente sabe que o Brasil é um dos países onde mais se vende computador no mundo. Fica atrás apenas de potências do naipe dos Estados Unidos, China e Japão.

Possuindo tamanho índice de comercialização desse equipamento eletrônico não era de estranhar a implantação e crescimento do chamado web jornalismo online ou, ainda, o cyber jornalismo, que é o jornalismo praticado por meio digital via internet.

Web jornalismo começou como uma versão virtual dos jornais de papel, mas, aos poucos, foi crescendo até se transformar na opção informativa preferencial da população mundial, isso graças a influência daqueles que nasceram na era da internet.

A maciça adesão da juventude foi fundamental para alavancar o processo de estimular o costume da busca de informação via virtual. Aí prevalecendo o comodismo, a facilidade e a rapidez de acesso à notícia que o meio eletrônico oferece.

É verdade que ainda existe parcela significativa da população fiel à leitura no papel, e que abomina a tela brilhosa e inodora do computador. São aqueles que preferem continuar sentindo o cheiro de tinta, aliado ao prazer decorrente de folhear e dobrar a aspereza de cada página do jornal enquanto avança na leitura.
Esse costume se assemelha ao do escritor acostumado com a máquina de escrever, que a abandona para enveredar pela complexidade do computador, por exigências decorrentes do avanço tecnológico.

Lamentável afirmar, mas a tendência da comunicação escrita é o mundo virtual. Tanto os jornais como os livros enveredarão pela virtualidade em razão do menor custo do produto manufaturado e em respeito ao meio ambiente massacrado pela derrubada de árvores. É tudo uma questão de tempo, e essa escolha já foi deflagrada e se consolidará mediante a ação da geração-internet.

Por que jornais continuam com a publicação impressa mesmo explorando com melhores resultados comerciais o segmento virtual? Em primeiro lugar porque ainda dispõem de carteiras de anunciantes e classificados, além de interesses outros que lhes dão o apoio necessário para continuar com a tiragem impressa.

Esperam, também, a inevitável tendência da leitura virtual se estabelecer para saírem de circulação, a esse fato se aliará a dificuldade de oferta e ao custo proibitivo do papel-jornal, decorrente da escassez de celulose que se prenuncia.

Em Natal, o último jornal diário em circulação é a Tribuna do Norte, por anos seguidos considerado o mais importante do Rio Grande do Norte. Fundado em 1950, mantém um portal de notícias na internet desde 1997. Fecharam as portas o Diário de Natal, o Jornal de Hoje e, por último, o Novo Jornal.

O mundo encolheu com a internet e ninguém estancará a evolução da comunicação virtual. A teoria da notícia gratuita ganha espaço e adeptos. É tolice esperar qualquer reviravolta nesse processo. Da mesma forma é difícil aceitar que aqueles da geração anterior à internet se acostumem, de imediato, com essa mudança.

Nada mais agradável do que uma boa leitura num livro impresso ou as informações extraídas de um jornal matutino durante o desjejum. Paciência, mas esses são prazeres que teremos de descartar para não nos alienarmos na era virtual.

O ARO DO DEDO ANULAR

Durante décadas usei aliança para identificar-me como um homem casado e atender a convenções da sociedade a qual pertenço. Acontece de o meu corpo rejeitar contato prolongado com qualquer tipo de metal. Dá-me uma espécie de comichão que me leva, ao chegar em casa, retirar todo adereço que estiver portando.

Esse tira e bota da aliança tinha um desfecho anunciado. A dita e benzida argola escafedeu-se durante uma desarrumação no meu escritório. Para evitar desavenças, firmei um pacto com a madame acordando em repor nova aliança no dedo anular (ou anelar), quando das bodas de ouro do nosso enlace.

O fato despertou em mim a curiosidade de saber o significado desse símbolo no matrimônio, e as razões das exigências das senhoras quanto ao uso da argola por seus parceiros, enquanto nenhuma importância é dada à sua presença em dedos masculinos, por determinadas senhoritas.

Realmente, o casamento é um ritual carregado de significados nas diversas culturas do planeta. Aliança, véu, grinalda, vestido branco e buquê não podem faltar em matrimônios na nossa cultura ou em outras do mundo ocidental.

Aliança – A forma circular desse adereço, sem começo nem fim, representa a continuidade do amor e a devoção do casal, além de eternizar o amor de ambos. Crença antiga afirmava que no anular existia uma veia que levava ao coração.

Véu – Simboliza o estar saindo da vida de solteira para encarar a condição de esposa. Em árabe, véu, é “aquilo que separa duas coisas”. Também faz referência à Vesta, deusa da honestidade, tida como a protetora do lar.

Vestido branco – Vestir a noiva de branco foi popularizado no século XIX, quando do casamento da rainha Vitória, da Inglaterra. Antes não existia especificidade de cor para a cerimônia. O branco simboliza a castidade e a pureza.

Grinalda – A grinalda dá a noiva o aspecto de rainha, diferenciando-a dos convidados. Quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e riqueza.

Buquê – Na antiguidade, o buquê era formado por uma mistura de alho, ervas ou grãos. O alho afastaria os espíritos maus e, os grãos ou ervas, garantiriam uma união frutífera. Atirar o buquê é uma forma de dividir a felicidade da noiva com os convidados.

Bolo e bem-casados – Os antigos romanos partiam o bolo na cabeça da noiva para desejar fertilidade ou abundância. Já os doces bem-casados, além de ser um agradecimento aos convidados, simbolizam a eterna união dos noivos.

Lua-de-mel – Tem origem em costume dos germânicos de casar na lua nova. Durante a cerimônia os noivos bebiam uma mistura de água com mel para lhes trazer boa sorte. Entre os romanos era comum pingar gotas de mel na porta de entrada das casas dos noivos para desejar-lhes uma vida doce.

Porém, na jocosidade popular, a aliança na mão direita da mulher é uma provocação para mulheres que ainda estão encalhadas; quando migra para a mão esquerda, é um aviso a desafetas que ela já se deu bem e está estabilizada da vida.

Quando o parceiro parte desta para melhor, e a viúva junta as duas alianças no mesmo anular – a dela e a do falecido -, segundo línguas ferinas, tanto representa uma exaltação ao sentimento de perda e um preito a ausência do companheiro, quanto um alerta de que está disponível para um novo relacionamento.
E haja interpretação para o uso da argola no dedo anular!

A VELHA PONTE DE IGAPÓ

Quem atravessa o Rio Potengi, em Natal, pela ponte rodoferroviária presidente Costa e Silva, em direção ao oeste do Estado, nota, à sua direita, o esqueleto incompleto de uma estrutura metálica enferrujada pertencente a velha ponte de Igapó.

A ponte velha foi inaugurada no dia 20 de abril de 1916. A construção coube a um consórcio anglo-brasileiro durante o governo de Joaquim Ferreira Chaves, pela qual se pagou a quantia de 2 contos, 474 mil e 940 réis. Tratava-se da maior obra ferroviária do Norte e Nordeste do país.

Imagem da Ponte de Igapó em 1916, depois de inaugurada…

Constava de vãos em treliças metálicas com 520 metros de extensão, que uniria as duas margens do rio Potengi. Todas as peças da estrutura foram moldadas em Darlington, na Inglaterra. Do mesmo local se originou o material para as construções das pontes Hercílio Luz (1926), em Florianópolis, e Florentino Avidos (1927), em Vitória.

A velha ponte atendeu a antigo anseio da população de regularizar o escoamento da produção das zonas salineira e açucareira do Estado para o porto de Natal, porque os trens da Estrada de Ferro Central, que ligavam o interior à capital, esbarravam na margem oposta do Potengi sem concluir a etapa final da viagem. Inaugurada, a ponte cumpriu o seu papel funcional durante 74 anos.

Em 1990, uma decisão precipitada de governo, apoiada em orientação tacanha e despropositada, resultou em leilão da obra de arte ferroviária para o reaproveitamento do aço, numa época em que o Brasil atravessava escassez do produto.

Não demorou muito tempo para suspenderam a operação de desmanche da ponte por se mostrar antieconômica, mas o mal já estava feito. Haviam desvirtuado um monumento histórico, quase secular, ao subtraírem 200 metros da melhor Engenharia ferroviária produzida no início do século XX.

O desastre acarretado com o desmonte de parte da velha ponte de Igapó revoltou o natalense, já acostumado com a imponência daquele símbolo de uma época. Porém, não ocorreu qualquer manifestação pública de protesto.

Houve, sim, uma voz coerente e isolada, nesse marasmo de falta de providências contra a agressão cultural a ser perpetrada pelo Estado. Partiu do colunista social Paulo Macedo, no seu espaço no Diário de Natal. O jornalista lançou a ideia de se estacionar um vagão-restaurante no vão central da ponte para explorar a cozinha regional nordestina.

Imaginava ele, que alguém posicionado sobre e no meio do rio Potengi, diante de paisagem diferenciada, desfrutaria de uma experiência única. Tal restaurante seria uma atração turística pela criatividade e ineditismo do empreendimento, e a ponte resultaria salva. Ao apelo fizeram ouvidos moucos.

Escaparam de destinos idênticos ao da velha ponte de Igapó, as pontes metálicas congêneres Hercílio Luz e Florentino Avidos. Tiveram a sorte de serem protegidas por dirigentes que souberam respeitar e preservar o patrimônio público histórico que possuiam.

Recuperadas, elas envaidecem catarinenses e capixabas, e são cartões-postais para turistas que visitam os seus estados. Enquanto isso o que restou da antiga ponte de Igapó, com 102 anos de existência, tornou-se um monumento à insensibilidade e ao desatino de determinados gestores públicos.

…e após ser desvirtuada, na década de 1990

A VARIG EXISTIU

Dentre os nomes de marcas mais conhecidas do público, o da Varig constaria entre os primeiros lugares em qualquer pesquisa que apontasse qual a mais lembrada companhia aérea brasileira. Faria jus a colocação porque se diferenciava das demais concorrentes, por larga margem de distância.

A Viação Aérea Rio-Grandense foi fundada, em 1927, por Otto Ernst Meyer, ex-piloto alemão aqui naturalizado. A primeira empresa de aviação brasileira começou a operar com um hidroavião, em rota regional entre Porto Alegre e Rio Grande.

Estrela brasileira no céu azul
Iluminando de Norte a Sul

A Varig viveu o apogeu da aviação entre os anos 1950 e 1990, e credita parte dessa expansão à administração Ruben Berta, o primeiro funcionário contratado da empresa. A partir de 1996, a situação econômica do país em baixa e falhas na administração abalaram a empresa resultando numa moratória.

Em toda sua história a Varig operou 102 destinos – 32 nacionais e 70 internacionais -, sendo a única companhia aérea brasileira a voar para todos os continentes. As aeronaves adquiridas pela Varig eram as mais avançadas em tecnologia da época. Sendo a “eterna pioneira”, foi a primeira a enveredar na era dos jatos.

Mensagem de amor e paz
Nasceu Jesus, chegou Natal

Para compensar a precariedade dos serviços em terra, a empresa apostou no alto nível de conforto das aeronaves e no excepcional serviço de bordo para todas as classes. Isso lhe rendeu o reconhecimento internacional ao ponto de ser comparada às melhores companhias do mundo.

Os passageiros da primeira classe se deleitavam com mimos do tipo perfume francês e creme para as mãos, além de bebidas importadas e caviar. Nas demais classes o nível de atendimento primava, também, pela excepcional qualidade.

Papai Noel voando a jato pelo céu
Trazendo um Natal de felicidade

Eu operei em rotas internacionais e realizei um sonho meu. Aliás, o sonho de toda comissária de bordo. As refeições eram servidas em louça de porcelana japonesa e talheres de prata. Puro bom gosto!” – comentou uma norte-rio-grandense, ex-comissária de bordo, funcionária da Varig até a sua extinção.

Durante muitos anos a Varig foi patrocinadora da seleção brasileira de futebol. Nas visitas que enveredou ao Brasil, foi num avião da Varig que o Papa João Paulo II retornou para casa.

E um ano novo cheio de prosperidade

Entretanto, foi através de propagandas bem elaboradas que a Varig se fixou na lembrança do povo brasileiro. A Rosa dos Ventos estampada na cauda das aeronaves e a logomarca Varig na fuselagem, identificavam de imediato os aviões da companhia aérea.

Os jingles publicitários veiculados pelo rádio e televisão, ajudaram bastante a consolidar a marca. Tal foi o poder de uma dessas vinhetas – cuja letra está intercalada neste texto -, que ainda hoje a imagem da empresa nos volta a lembrança.

Varig, Varig, Varig…

Sim, a Varig existiu e orgulhou o Brasil!

O PAÍS DO RETROCESSO

Pronto! Agora descobrimos como desestabilizar o Brasil sem violência nem derramamento de sangue. Basta uma greve bem orquestrada e pacífica como a dos caminhoneiros, a qual assistimos passivos no mês passado. Em apenas dez dias de mobilização eles fizeram conosco o que Nicolás Maduro fez com a Venezuela em cinco anos de governo: paralisar toda a estrutura social, produtiva e econômica da nação.

Com um pouco de exagero, só não experimentamos o gosto amargo do êxodo em massa da população, para a circunvizinhança do Brasil, graças ao cansaço e a saudade de casa de parcela dos grevistas.

Todo esse desconforto que atravessamos serviu para ressaltar a fragilidade do sistema de transportes posto em prática no Brasil, a partir 1959, quando resolvemos privilegiar as estradas de rodagem em detrimento das vias férreas.

Explicando melhor: países com extensões territoriais semelhantes ao nosso possuem grandes malhas ferroviárias. O transporte ferroviário além de ser capaz de transportar quantidades elevadas de cargas de uma só vez, oferece um custo por tonelada/quilômetro conduzida bem inferior ao praticado no mundo rodoviário.

Não é à toa que países como Estados Unidos e Rússia elegeram o transporte ferroviário para dar a fluidez ideal na maioria das cargas. Na parte ocidental da Europa a ferrovia também é essencial para o deslocamento de bens e de passageiros.

E o Brasil, como fica nesse contexto? No período de 1870 a 1930, fim da República Velha, as ferrovias brasileiras escoaram a maior parte da produção agrícola do país, sobretudo o café, do interior para portos articulados com a navegação de longo curso. Na época, existiam 29.000 quilômetros de ferrovias ativadas.
No primeiro governo de Getúlio Vargas, os investimentos no setor rodoviário ascenderam os do modal ferroviário que, ainda assim, representou importante papel no desenvolvimento da nação até meados do século XX. Em 1947 possuíamos 35.623 quilômetros de ferrovias.

Em países-continentes, o transporte rodoviário atua com perfeição na cadeia logística intermodal do transporte porta a porta. Apanha as cargas em terminais ferroviários ou portuários e as entrega em destinos de curta distância.

Para melhor avaliação, na atualidade, enquanto os Estados Unidos possuem uma malha ferroviária de 293.564 km, o Brasil dispõe de 30.600 km construídos, ou 11% da malha norte-americana. E pior: 5.023 quilômetros a menos do total existente no auge da era ferroviária.

Condoía-me assistir, no meu Estado, arrancarem trilhos de ramais ferroviários desativados, os mesmos pelos quais eu trafegara de trem na infância. Quando engenheiro, a revolta se ampliou por construir estradas onde antes existiam ferrovias, ajudando no desmonte do modal que alavancaria o desenvolvimento do país.

No mês de maio passado, constatamos o mal que fizemos ao Brasil ao sufocarmos o crescimento das ferrovias, única opção efetiva para enfrentar o monopólio instituído pelo transporte rodoviário de cargas e de passageiros.

Se tivéssemos ferrovias suficientes, ninguém exigiria tabela mínima de preços para o transporte de longa distância, nem falaria em crise do diesel ou em melhores condições de tráfego nas estradas. Tampouco, ficaríamos reféns do poder de uma categoria que pode desestabilizar o país no tempo e na hora que bem lhe aprouver.

Haja retrocesso nisso!

Quando assistiremos a desfiles de comboios com a extensão e a variedade de cargas do acima mostrado, percorrendo o nosso território?

EU E A COPA DE 58

Vídeo de empresa patrocinadora oficial da seleção dos brasileiros na Copa do Mundo da Rússia mostra Pelé e Gabriel Jesus postados num túnel, à beira do gramado de um estádio de futebol, enquanto uma criança filma o encontro.

Pelé, 78 anos, aconselha Gabriel Jesus, 21 anos, tomando a si como exemplo quando estreou na primeira Copa de sua vida, em 1958, na Suécia. A lenda viva do futebol mundial dá o seguinte recado ao jogador iniciante em Copas:

“Eu fiz a mesma coisa sessenta anos atrás. Olha, só se preocupe em dar o seu melhor. Eu estou olhando para você e estou me vendo. Mas, não no passado, eu vejo o futuro…”

… E continua: “… Aproveita porque passa muito rápido. Conte sempre com os seus companheiros. Ninguém faz nada sozinho. Essa camisa Gabriel, não é minha nem é sua, ela é de um país inteiro. Aqui fora, está todo mundo com você. Lá dentro também vai estar.”

O recado acaba sendo extensivo a todos os brasileiros, enquanto esconde um vaticínio. Pelé, ao estrear na Copa de 58, com 18 anos incompletos, era o atleta mais jovem da equipe brasileira, tal qual será Gabriel Jesus na Copa da Rússia.

Pelé só entrou em campo na terceira partida da competição contra a União Soviética, jogo que o credenciou como dono absoluto da camisa 10 da seleção, enquanto jogou futebol. Acabou campeão mundial e consagrado mundialmente. Acontecerá o mesmo com Gabriel Jesus? Esse é o enfoque em debate no monólogo do vídeo.

Na Copa de 1958, eu era um moleque que abdicara das calças curtas havia pouco tempo. Curtia as férias de meio do ano, com meus irmãos e irmãs, na casa dos nossos avós, situada numa cidade interiorana do Rio Grande do Norte com não mais de um milhar de habitantes. Em São Rafael não existia água encanada nem luz elétrica regular. A cidade era iluminada por um grupo gerador de energia da prefeitura municipal, que funcionava das 18:00 às 22:00 horas. Nenhuma residência possuía gerador próprio.

O destino foi cruel com a cidade de São Rafael. Na década de 80, escolhida como a melhor localização para a construção da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Oeste do Estado, terminou inundada por 2,4 bilhões de metros cúbicos de água e apelidada de Atlântida Potiguar.

O grupo de peladeiros, do qual eu fazia parte, ouviu os jogos do Brasil numa calçada, recostado na janela de uma casa de família onde funcionava um rádio à bateria. Eu me integrei à turma de ouvintes no último jogo da competição, quando o Brasil enfrentou a Suécia. Era minha primeira Copa.

Lembro-me da angústia dos garotos quando a Suécia fez o primeiro gol do jogo; bem como, das explosões de alegria com os gols do Brasil. Aos 23 minutos do segundo tempo, a estridência da estática na transmissão da partida impediu de ouvirmos direito o nome do autor de mais um gol, o quarto do Brasil.

Quem fez o gol? – perguntei ansioso.

Foi um tal de Zé Galo! – respondeu um membro da turma, sem qualquer maldade, inocente quanto a existência de Mário Jorge Lobo Zagallo, o ponta-esquerda da seleção canarinho.

Aquela foi a Copa do Mundo que guardei na lembrança. Eu, um jovem repleto de sonhos e de esperança na vida que tinha pela frente, sessenta anos atrás.

Seleção brasileira Campeã do Mundo em 1958. Em pé, da esquerda pra direita: Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados, da esquerda pra direita: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e o massagista Mário Américo.

O PENSADOR DE IPANEMA

Entre os anos 1978 e 79, em viagem ao Rio de Janeiro, resolvi fazer uma caminhada pela orla indo do Leme ao Leblon. Em Ipanema notei alguém, cuja fisionomia me pareceu familiar, vindo na minha direção num passo acelerado. Tratava-se do desenhista, tradutor, dramaturgo, humorista e pensador brasileiro Millôr Fernandes.

“Celebridade é um idiota qualquer que aparece na televisão”

Naquela época eu nem sonhava em escrever textos para qualquer jornal. Achava-me incompetente sem nada para oferecer de interessante ao leitor. O único predicado que possuía era uma gana desmedida por leitura. Lia até classificados.

“Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”

Vendo-o se aproximar de mim, tomei uma decisão rápida: vou me apresentar e lhe fazer algumas perguntas. O que perguntar, eu não tinha a mínima ideia.

“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”

Emparelhado com o dito, parei, na esperança de que ele também parasse. Deixei escapar um sonoro “Bom dia, Millôr!”, tentando entabular um papo.

“Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida”

Ou não me fiz entender ou ele não quis interromper o seu exercício. Continuou na caminhada deixando-me ali, com cara de paisagem, vendo-o se afastar.

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos”

Pus-me então, na posição do pensador, pois eu também não quebraria o ritmo de uma caminhada para atender a um desconhecido desejando insinuar a intimidade que não possuía com um interlocutor famoso.

“Se durar muito tempo a popularidade acaba tornando a pessoa impopular”

Não por isso deixei de admirar o vasto trabalho de Millôr nos livros, revistas e jornais onde ele publicava sua produção autodidata, um misto de inteligência, ironia e sátiras, emolduradas por refinado espírito cômico.

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”

Quanto deleite nos deu a coluna Pif-Paf, subscrita por Vão Gogo, personagem criado por Millôr Fernandes para servir-lhe de pseudônimo. E o que dizer dos desenhos divertidos de Retrato 3×4? Ambos publicados na revista O Cruzeiro?

“Quem fala muito mente sempre porque se esgota seu estoque de verdades”

Na revista Veja, de 1968 a 1982, Millôr ocupou duas páginas com o seu humor gráfico. Deixou o semanário por sentir sua liberdade criativa cerceado por apoiar Leonel Brizola, então candidato ao governo do Rio, em oposição a Moreira Franco.

“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”

Millôr Fernandes morreu em março de 2012. O governo do Rio de Janeiro dedicou-lhe um recanto, entre as praias do Diabo e do Arpoador, chamado Largo do Millôr. Nele existe um banquinho onde se incorporou um monumento com a silhueta do homenageado na postura do Livre Pensador, de Rodin, criação de Chico Caruso.

“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é”

Numa próxima viagem ao Rio, sentar-me-ei no tal banquinho e, com o mesmo “Bom dia, Millôr!”, terminarei a conversa que sequer iniciei décadas atrás.

SÊNECA E A BREVIDADE DA VIDA

Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) foi filósofo, dramaturgo e escritor, considerado um dos expoentes intelectuais no início da Era Cristã. Nascido em Córdoba, Espanha, ainda jovem radicou-se em Roma onde recebeu educação refinada.

Foi conselheiro nas cortes dos imperadores Calígula, Cláudio e Nero. Esse último, um de seus pupilos, tornou-se, no futuro, seu carrasco ao forçá-lo ao suicídio.

A morte de Sêneca, de Rubens

O pensamento de Sêneca enfatiza medidas práticas que ensinam como enfrentar os problemas da vida e como encarar sem temor a certeza da morte. Na sua obra Sobre a brevidade da vida, Sêneca tenta nos orientar para a possibilidade de atingir a tranquilidade da alma e os meios de fazê-lo.

Neste texto destaquei alguns dos ensinamentos do filósofo ainda atuais e inspiradores, mesmo transcorridos mais de dois milênios de concebidos.

• Pequena é a parte da vida que vivemos, pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.

• Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

• Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começar a viver?

• Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo.

• Ninguém valoriza o tempo, faz-se uso dele muito largamente como se fosse gratuito. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente.

• …assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim.

• A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazemos é breve, o que faremos dúbio, o que fizemos, certo. Na verdade, o destino perdeu o controle sobre o passado, ninguém pode querer recuperá-lo.

• Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada.

• A vida abandonou a alguns logo na sua primeira fase, antes de conseguirem atingir o máximo de sua ambição; a outros, após terem cometido diversas desonestidades e galgado a mais elevada posição, vem-lhes à mente a amarga convicção de ter trabalhado tanto por uma vã inscrição num túmulo.
Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.

Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.


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