EU HABITO ESTE MUNDO

Tocou-me bastante algo que li sobre o avanço tecnológico influenciando o modo de vida das pessoas. São constantes transformações tecnológicas modificando costumes, acabando empregos e levando, a muitos, a incerteza de uma vida sem perspectivas sob o domínio da internet neste mundo. Saibamos as razões.

Netflix, provedora de séries e filmes de televisão com mais de 100 milhões de assinantes. Extinguiu os vídeos-clubes e provocou a diminuição de pessoas nos cinemas.

Booking, com mais de 17 mil funcionários em 198 escritórios em 70 países do mundo, tem a missão de empoderar pessoas a vivenciar o mundo. Tal procedimento pôs em xeque as agências de turismo.

Google, a missão declarada da empresa é organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil. Acabou com as páginas amarelas.

Airbnb é um portal on line de aluguel imobiliário temporário. Tornou-se o terror dos donos de hotéis. Tinder e similares, são aplicativos de localização de pessoas para encontros românticos on line. Provocará a eliminação do mercado de boates e discotecas.

Whatsapp, trata-se de um aplicativo de mensagens instantâneas e chamadas de voz. Além de enviar imagens e vídeos, faz ligações gratuitas por meio de conexões com a internet. Ameaça operadoras de telefonia fixa e celular, as redes socias e os meios de comunicação.

Youtube, plataforma de compartilhamento de vídeos que hospeda uma grande variedade de vídeos e filmes. Põe em risco empresas de televisão abertas e a cabo. Uber, prestadora de serviços eletrônicos na área de transporte privado urbano, vem incomodando, e muito, os taxistas.

Smartphone, significa telefone inteligente. É um celular que combina recursos de computadores pessoais, dispondo de funcionalidade avançada. Tende a extinguir os estúdios fotográficos.

OLX é uma empresa global de comércio eletrônico, cujo funcionamento está acabando com os avisos classificados. Zipcar, trata do compartilhamento de veículos, oferecendo reservas de carros a seus associados a preços módicos. Desestruturou empresas de aluguel de veículos.

E-mail complicou a vida dos Correios. Waze, acabou com o GPS. Wikipedia, eliminou enciclopédias e dicionários. Tesla, questiona o futuro do setor automotivo tradicional com a venda de automóveis elétricos.

Nubank, empresa emergente brasileira pioneira no segmento de serviços financeiros. Ameaça o sistema bancário tradicional. Facebook, trata-se da maior rede social virtual do mundo, com mais de 1 bilhão de usuários ativos. Está matando os portais de conteúdo.

Muita coisa ainda vai mudar. A preocupação do momento e sabermos por quanto tempo manteremos o nosso emprego na forma atual. Continuaremos a viver como vivíamos dez anos atrás? Não! É impossível sobrevivermos sem nos reinventarmos, diariamente, para continuarmos participando deste jogo chamado vida. O certo é seguirmos adiante. Não porque atrás vem gente, mas, em razão de existir muita gente à nossa frente que se aproveita do que somos e fazemos.

Afinal, querendo ou não, continuamos habitantes deste mundo.

LUZ, CÂMERA, AÇÃO

“Cinema é a melhor diversão”, este era o slogan que antecipava as projeções de películas nas salas de cinema do Grupo Severiano Ribeiro, empresa pioneira na cinematografia brasileira. Ainda continua sendo o melhor divertimento assistir a um bom filme na telona, no conforto de uma excelente sala de projeção.
Em 1911, o crítico de cinema Ricciotto Canudo, publicou em Paris um artigo denominado “O nascimento da sétima arte. Ensaio sobre a cinematografia”, considerado como o primeiro texto onde se define o cinema como uma arte. Nele, o teórico italiano estabelecia o cinema como o resumo de todas as artes – música, dança, pintura, escultura, literatura e teatro -, em movimento. Realmente, o cinema, além de ser a súmula de todas as manifestações artísticas, é também diversão, entretenimento, encantamento, deleite, magia e arte em movimento.

De um bom filme ninguém esquece. Eu sou daqueles apaixonados por cinema que conseguem assistir a um mesmo filme inúmeras vezes, vibrando com cada momento empolgante, como se não soubesse o final do enredo.

Detesto desvendar detalhes técnicos de filmagens. Prefiro desfrutar da imagem já elaborada, burilada, daquela montada para causar o deleite esperado no espectador. Não importa que seja obtida por efeito especial ou qualquer outro artifício para iludir a visão, desde que consiga nos deixar embalar na fantasia gerada pela genialidade do diretor.

Diferentemente das novelas intermináveis e cansativas da televisão, os filmes são mais objetividade e expressão, e oferecem um variado leque de escolhas. Assim, quem se propuser a assistir a um filme, sabe de antemão que o enredo é baseado em história real, em algum romance ou o resumo de um texto qualquer.

Antes de entrar na sala de projeção, a plateia já tem conhecimento do gênero de filme a que vai assistir: se um policial, suspense, comédia, drama, terror ou se um relato romântico.

No contexto da peça de arte, além do desempenho dos atores e da direção, causa-me admiração o trabalho de compilação do texto pelo roteirista, de modo a ser exibido num espaço de tempo não superior a duas horas.

“The Hollywood Reporter”, publicação americana especializada em cinema, depois de ouvir 2.120 opiniões de especialistas no tema, relacionou os 100 melhores filmes da história da cinematografia.

É lógico que jamais alcançarão a unanimidade, entretanto, independendo das escolhas e colocações atribuídas, ou das injustiças perpetradas por ausências, lá estão grandes momentos da sétima arte. Encabeçam a lista O Poderoso Chefão (1972), O Mágico de Oz (1939) e Cidadão Kane (1941).

Cito aqui mais uma dúzia de obras de arte, de minha preferência, extraídas da dita relação, sem considerar as colocações das mesmas: E o Vento Levou… (1939), Casablanca (1942), Cantando na Chuva (1952), Os Sete Samurais (1954), A Ponte do Rio Kwai (1957), Psicose (1960), Lawrence da Arábia (1962), A Noviça Rebelde e Dr. Jivago (1965), Apocalipse Now (1979), Amadeus (1984) e Titanic (1997).

Com relação ao Oscar 2018, não gostei de A Forma da Água ganhador da estatueta como melhor filme. Dunkirk, O Destino de uma Nação e The Post: A Guerra Secreta são bem melhores como bom entretenimento.

PAÍS SEM MEMÓRIA

Cansamos de ouvir dizerem, figurativamente, ser o Brasil um país sem memória. Pois bem, agora, com a destruição do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, podemos afiançar estarmos habitando, literalmente, uma nação sem passado histórico.

Ficou sem memória o Brasil porque transformou-se em cinzas a mais antiga instituição científica e um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas.

O edifício, antes de ser tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938, havia abrigado a família real portuguesa de 1808 a 1821, a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e sediado a Assembléia Constituinte Republicana de 1889 a 1991. Em 1992 tornou-se museu.

Ficou sem memória o país porque um acervo com mais de 20 milhões de itens, formado ao longo de mais de dois séculos de coletas, permutas, doações e aquisições foi consumido pelas chamas. Uma biblioteca contendo mais de 470 mil volumes especializada em ciências naturais do país também foi alvo do incêndio.

Foi-se da nossa memória porque nos privaremos de admirar e consultar as coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica e etnologia; além de diversificados conjuntos de itens provenientes de muitas regiões do planeta ou produzidos por povos e civilizações antigas.

Perdemos a memória porque resultou em vão todo o trabalho da princesa Maria Leopoldina de Áustria, esposa de D. Pedro I, ao trazer da Europa importantes naturalistas e pesquisadores para trabalharem no aprimoramento e melhoria do acervo do museu.

Escafedeu-se de nossa memória no instante em que virou fumaça os esqueletos do pterossauro, do titanossauro, do espinossauro, do tigre-de-dente-de-sabre e das preguiças gigantes que lá expúnhamos orgulhosamente. E o que dizer do fóssil humano mais antigo já encontrado nas Américas, datado de cerca de 13 mil anos atrás, apelidado de Luzia?

Pela falta de memória nossos filhos, netos e seus descendentes deixarão de comprovar a existência, em eras passadas, de exemplares como o esquife da dama Sha-Amun-em-su, cantora do Egito (750 a. C), da múmia Kherima (séculos I-III a.C) e de outras peças do Egito Antigo, além de registros únicos da Roma dos césares.

A memória da nação ficou acéfala sem as amostras de meteoritos descobertos em várias regiões do Brasil, e de coleções de pedras semipreciosas extraídas do território nacional; dos exemplares de fósseis de plantas e animais, daqui e de regiões do mundo; e, da coleção de arqueologia clássica, abrangendo peças das civilizações grega, romana, etrusca e italiana.

Nunca mais apreciaremos os 30 mil objetos integrantes das coleções da cultura brasileira, reflexo da diversidade e riqueza dos povos que aqui habitaram antes do descobrimento, bem como da cultura africana e afro-brasileira.

A comoção foi sentida em todos os quadrantes do Brasil. Idêntica ao do incêndio da boate Kiss, na cidade de Santa Maria (RS), que matou 242 pessoas e feriu outras 680, em 2013. Passados cinco anos, todo o planejamento sobre a prevenção de futuros incêndios no país foi esquecido, ou melhor, sequer chegou a ser aplicado.

Por falar nisso, em qual data um incêndio consumiu o nosso Museu Nacional, no Rio de Janeiro? É de doer na alma a minha, a nossa falta de memória.

OS INDIFERENTES

Antes do regime militar, iniciado em 1964, embora outros partidos gravitassem no cenário nacional, a política brasileira estava polarizada entre três legendas: a União Democrática Nacional, o Partido Trabalhista Brasileiro e o Partido Social Democrático, criados em 1945.

A UDN possuía base eleitoral em classes médias urbanas e setores da elite. O sustentáculo do PTB era o operariado urbano ligado a sindicatos. Já o PSD abrigava proprietários rurais, altos funcionários de estatais e as correntes mais conservadoras do getulismo.

O eleitor considerava-se petebista, udenista ou pessedista. Vinculava o voto ao seu partido. Sufragava sua opção em função dos bons resultados obtidos pelo partido em gestões passadas e nas promessas plausíveis de realização apresentadas nos programas partidários de governo. Tudo isso registrado em cartório.

Via de regra, se determinado candidato merecesse crédito e respeito, mas não pertencesse ao partido da preferência ou filiação do eleitor, a opção estaria descartada. Votava-se em propostas, conceitos e ideais do partido.

Estavam eleitos apenas os que obtivessem as maiores votações. Isso mesmo, somente os escolhidos como legítimos representantes da vontade popular, sem artifícios matemáticos para privilegiar candidatos sem votos.

Meu avô era udenista doente e meu pai um pessedista moderado que votou em Juscelino Kubitscheck para presidente. O eleitor era inabalável na sua crença partidária. É difícil acreditar, mas o lema de cada instituição partidária continha força, crédito e poder de definição.

De tanto ouvir meu velho avô repetir o lema da UDN, ele me ficou gravada na memória: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A expressão “nem sim nem não, muito pelo contrário” servia de galhofa para oposicionistas provocarem eleitores fanáticos pelo PSD, criticando o fisiologismo e indefinições do partido.

Aí apareceu o segundo Ato Institucional da Revolução criando a novidade do bipartidarismo. Direcionou para a Aliança Renovadora Nacional e para o Movimento Democrático Brasileiro as opções de filiação partidária. Votava-se apenas em candidatos da Arena (situação) e MDB (oposição). Uma polarização obrigatória, porquanto institucionalizada.

Os partidos continuam existindo, é verdade, mas com a diferença de poder transmutar-se em outras siglas com a mesma rapidez que mudamos os canais na televisão. Desaparece quando um escândalo abala sua credibilidade política, mas retorna em seguida abrigando os mesmos fiéis e infiéis filiados, fazendo as mesmas promessas camufladas em roupagens diferentes.

Hoje, as propostas do candidato nem sempre coincidem com as do partido. E se assemelhadas, tampouco importa, pois é improvável que o eleitor as conheça ou delas se lembre. Um candidato proficiente na atividade política obscurece o partido. Torna-se a bengala e a esperança vital para a entidade partidária não sucumbir por falta de representatividade pública.

Daí porque tantos eleitores indiferentes na proximidade da data das eleições. Daí porque tanto voto nulo. Daí a tentativa de desmerecer a Democracia votando em “palhaços” e “símbolos folclóricos”. Daí porque o eleitor não dá mais crédito à política. Está aí o resultado de tanto desrespeito ao brasileiro.

O MANUAL DE REDAÇÃO DA FOLHA

Quando eu comecei a rabiscar textos para jornais, adquiri o Novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo para tentar parecer um pouco menos ruim redator daquele que realmente sou. Posso até não haver melhorado o meu estilo de escrever, mas encantei-me com todos os bons ensinamentos ali contidos.

“Qualquer que seja a coisa que queiramos dizer, há apenas uma palavra para exprimi-la, um verbo para animá-la e um adjetivo para qualificá-la” – Maupassant.

O Manual surgiu em decorrência de movimento encabeçado pelo herdeiro do conglomerado jornalístico Folha de S. Paulo, denominado Projeto Folha. Tratam-se de normas e recomendações básicas que orientam o trabalho jornalístico, dividido em quatro capítulos.

Em linhas gerais o Manual discorre sobre os princípios editorias do jornal e propõe reflexões sobre temas jornalísticos, cria recomendações pertinentes à coleta de fatos para escrever uma reportagem, procura dar conta dos principais pontos da gramática e traz recomendações relativas a apresentação do material jornalístico.

“Um bom texto jornalístico depende, antes de mais nada, de clareza de raciocínio e domínio do idioma. Não há criatividade que possa substituir esses dois requisitos. Deve ser um texto claro e direto. Deve desenvolver-se por meio de encadeamentos lógicos. Deve ser exato e conciso. Deve estar redigido em nível intermediário, ou seja, utilizar-se das formas mais simples admitidas pela norma culta da língua”. Ainda sobre o capítulo atinente à redação, o Manual recomenda:

“Convém que os parágrafos e frases sejam curtos e que cada frase contenha uma só ideia. Verbos e substantivos fortalecem o texto jornalístico, mas adjetivos e advérbios, sobretudo se usados com frequência, tendem a piorá-lo.

O tom dos textos noticiosos deve ser sóbrio e descritivo. Mesmo em situações dramáticas ou cômicas, é essa a melhor maneira de transmitir o fato da emoção. Deve evitar fórmulas desgastadas pelo uso e cultivar a riqueza dos vocábulos acessíveis à média dos leitores”.

Vi motivo para escrever estas linhas, quando soube da morte prematura de Otavio Frias Filho, no último dia 21 de agosto, aos 61 anos de idade, de câncer no pâncreas. Jornalista brilhante, excelente dramaturgo e escritor festejado, Otavio, segundo seus amigos, cativava a todos pela inteligência, humildade e discrição.

“O autor pode e deve interpretar os fatos, estabelecer analogias e apontar contradições, desde que sustente sua interpretação no próprio texto. Deve-se abster-se de opinar, exceto em artigo ou crítica”.

Ao receber o Prêmio Maria Moors Cabot de Jornalismo, em 1991, da Universidade de Columbia (EUA), pela contribuição de seu jornal à liberdade de imprensa, ele assim se pronunciou em seu discurso de agradecimento:

“Nos limites estreitos do jornalismo, a contribuição que está ao nosso alcance é fácil e difícil de se obter. Trata-se de cativar a exatidão impessoal e o respeito a pluralidade de pontos de vista em meio a uma cultura onde é fraca a separação entre o público e o particular. De informar com competência técnica num país subdesenvolvido. De fomentar o espírito crítico numa sociedade de tradição autoritária”.

O Manual é um curso simplificado de jornalismo. Conciso e de fácil entendimento. No início da leitura destaca-se um pensamento de François La Rochefoucauld: “A verdadeira eloquência consiste em dizer tudo o que é preciso e em dizer apenas o que é preciso”.

EQUADOR

O território do Equador corresponde a 3% da área do Brasil, algo como o estado do Piauí. Está situado no noroeste da América do Sul imprensado entre a Colômbia e o Peru. O litoral de 2.237 quilômetros de extensão é banhado pelo Oceano Pacífico.

Quando falamos na República do Equador lembramos a Linha do Equador e os chapéus do Panamá, que na verdade não são originários do país do canal do mesmo nome, pois são fabricados na nação encravada no paralelo que delimita a metade do mundo. A verdade é que estará por fora de tudo quem somente lembrar isso daquela nação.

Visitei a pátria de Túpac Amaru e de Eloy Alfaro atendendo a convite de um empresário equatoriano com quem mantenho amizade há mais de 40 anos. Trata-se de uma terra diferenciada e surpreendente. Montanhas, florestas, mar e vulcões – alguns deles em atividade – emolduram a paisagem do país, cuja capital Quito, situa-se a 2.820 metros acima do nível do mar.

Lá existem somente duas estações no ano: verão e inverno. O clima é agradável e mais ou menos constante situando-se na faixa dos 21°C. Duas horas a menos é a diferença de fuso horário do Equador para o Brasil.

O centro histórico de Quito, o primeiro a ser declarado Património Cultural da Humanidade, pela Unesco, evidencia muito bem a força da colonização espanhola e deixa o visitante perplexo com a beleza, em estilo colonial, do conjunto arquitetônico do século XVII, o mais bem conservado da América Latina.

A moeda é o dólar americano, daí nos dar a impressão de que tudo por lá é mais caro. É bom não esperar encontrar vida noturna agitada, pois a cidade adormece cedo. Em compensação desfruta-se de uma excelente gastronomia focada em culturas tropicais típicas das variadas regiões da nação, além de enorme diversidade de frutos do mar. O ceviche, prato originário do Peru, recebe no Equador um tratamento próprio que resulta numa iguaria fenomenal.

O Equador está investindo maciçamente em segurança e, como consequência, tem obtido resultados positivos no tocante a diminuição do número de homicídios no país. O sistema prisional é referencia para a América Latina. Boas estradas nos levam a pontos turísticos como Papallacta, onde piscinas termais são abastecidas com águas de um vulcão ativo ou, até à cidade de Otavalo, cuja maior atração é um mercado de artesanato a céu aberto.

Em próxima viagem ao Equador eu visitarei Guayaquil, Cuenca e as Ilhas Galápagos – principal laboratório vivo de biologia do mundo. Foi lá onde o naturalista britânico Charles Darwin, em 1831, efetuou pesquisas que fundamentaram a formulação de sua teoria sobre a origem e a evolução das espécies.

Falta-nos melhor divulgação do Equador no Brasil. Enquanto o Peru alardeia a sua boa gastronomia e a originalidade de Cuzco e de Machu Picchu, por todos os quadrantes do nosso país, nada se vê, lê ou ouve que promovam a cultura nem a diversidade das riquezas naturais do Equador. Tampouco aparecem imagens que exaltem as peculiaridades daquele povo andino.

Este depoimento representa um reconhecimento ao equatoriano pela maneira simpática como recebe o brasileiro, em visita à sua terra. Talvez porque guardemos algumas semelhanças com o nativo do Equador, quanto se fala de boa hospitalidade com las hermanas y hermanos latinoamericanos.

EM NOME DA PAIXÃO

A personagem deste texto é uma velha conhecida nossa, pois tem abrigo no âmago de cada ser humano e atende pela alcunha de paixão. Controlada, ela admite conviver com urbanidade na sociedade, mas, sem peia nem cabresto torna-se uma besta ensandecida e cruel. Em nome da paixão excessos são cometidos e o radicalismo ganha contornos obscuros. A paixão, tal qual determinadas drogas, embota os sentidos e induz a caminhos perigosos onde não existem limites.

A metáfora “Eu amo de paixão!”, deixa margem à interpretação de que, por amor excessivo a alguém ou a qualquer coisa, o indivíduo é levado a cometer loucuras. Existem segmentos que ordenam a vida em comunidade, onde é apavorante constatar o descontrole da paixão. O esporte, a religião e a política são alguns deles.

A paixão pelo esporte, particularmente naqueles coletivos, atinge com facilidade o histerismo. Sem domínio, leva o público a elevados níveis de catarse, que derivam para ações exacerbadas de entusiasmo e de agressão. E aí nos vem à lembrança o êxtase das plateias dos circos romanos ao assistirem cristãos sendo dilacerados por leões famintos.

Comparação não tão distante das cenas da antiguidade, estão hoje nos estádios de futebol. Torcedores insatisfeitos com resultados adversos de simples pelejas esportivas, agridem adversários e, ensandecidos, pisoteiam e matam assistentes indefesos em situações de entusiasmo descontrolado.

A paixão sem limites na religião também deixa marcas quando gera extremismo, fanatismo e intolerância. Sob a égide da Inquisição, defensores da Igreja resolveram combater o sectarismo religioso erradicando a heresia. Tudo começou no século XII, na França, mas tomou forma no início do Renascimento, na Espanha e Portugal, quando tribunais inquisidores tentaram converter judeus e muçulmanos ao catolicismo.

Com a justificativa de ameaça ao cristianismo católico exageros foram cometidos por protetores da fé, torturando e queimando hereges. O símbolo da crueldade dessa época ficou nas ações do inquisidor-geral de Castela e Aragão, o frade dominicano Tomás de Torquemada. A vítima mais emblemática da Inquisição foi Joana d’Arc, que morreu queimada na fogueira condenada por heresia. Por ironia, a heroína francesa se tornou santa da Igreja Católica e padroeira da França.

Um exemplo do extremismo da paixão pela política, ainda se mantém vivo na lembrança de nações, mundo afora. Seis milhões de pessoas foram exterminadas em nome da purificação de uma raça. A ideologia formulada por Adolf Hitler praticada pelo Partido Nazista foi adotada pela Alemanha de 1933 a 1945.

O resultado? Homens, mulheres e crianças de origem judia sendo perseguidos e aprisionados por carrascos do Terceiro Reich, em quase toda Europa. Em campos de extermínio foram assassinados por fuzilamento ou pelo gás Ziklon B, ou sucumbiram de inanição ou por doenças oportunistas no cativeiro. A “solução final da questão judia” ficou conhecida como “holocausto”, e representa uma nódoa na história da humanidade, emoldurada pelo horror da II Guerra Mundial.

Em outubro próximo exerceremos, outra vez, o livre direito de votar. Eis a oportunidade para depositarmos nas urnas a esperança de melhores perspectivas para o futuro do Brasil. Isso, se fizermos as escolhas certas para os lugares certos, desprovidos de paixões sem medidas.

OS ZEROS DO ENEM

“A principal função da raiz é se enterrar”, “As aves tem na boca um dente chamado bico”, “Não preserve apenas o meio ambiente, mas sim todo ele”, “A Aids é transmitida pelo mosquito Aides Egpsio”, “Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco mais em nós”. Essas, não são frases ouvidas em programas humorísticos de televisão, mas extraídas de textos de provas de redação do Exame Nacional do Ensino Médio-ENEM.

Não dá para conter o riso diante de tamanha estupidez, decorrência da completa falta de conhecimento gerado pela escassez de leitura. Trata-se do fruto da criatividade de alunos, recém-saídos do ensino médio, que tentam ingressar na universidade mediante o ENEM. É doloroso constatar tais absurdos, porque são agressões cometidas contra a integridade daquilo que uma nação tem de mais expressivo: o idioma.

O mesmo cenário de ignorância se repete em outras áreas: “Fazem dez anos”, “Para mim escolher”, “Esse assunto fica entre eu e você”, “Aonde você estava?”, “Há muito tempo atrás”, “Nós, enquanto sociedade…”. Ataques como esses são escutados no cotidiano do nosso linguajar. O pior é quando partem de comunicadores do rádio e da televisão, em apresentações jornalísticas. Arrebentam os tímpanos de quem possui um mínimo de conhecimento do português.

Existe uma linha de “educadores” defendendo que deveríamos escrever como falamos. “Taí” uma ideia “porreta”! Esqueçamos tudo o que aprendemos (aprendemos?) na escola e elejamos como idioma oficial a linguagem hieroglífica praticada nas redes sociais, que está rompendo com regras tradicionais da norma padrão: “Ei pow, ramo dá um role hj? Pegá umas mina” (Ei rapaz, vamos sair para passear hoje? Ficar com umas garotas) ou “Qnd vc vai p/ d flr isu?” (Quando você vai parar de falar isso?).

Trata-se do modelo de conversação, via internet, utilizando gírias e palavras novas, numa amostragem do alto nível de alienação entre crianças e adolescentes. No início de minha vida escolar cansei de ouvir professores repetir a mesma ladainha: “A leitura é a base da educação, pois além de aumentar seu conhecimento, fortalece a habilidade em gramática e alarga o vocabulário”.

Portanto, o estardalhaço causado pela divulgação do resultado do exame do ENEM-2017, onde mais de 300 mil estudantes conseguiram um significativo zero na prova de redação, não deveria apavorar ninguém. Foi uma constatação previamente anunciada, por conta do descaso com o ensino médio no país.

Possuímos 6.062 bibliotecas públicas para 210 milhões de habitantes. Uma para cada 34,6 mil brasileiros. Todas ao léu, pois não exercitamos o costume de visitá-las. A França, proporcionalmente, possui 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Na Argentina existe uma biblioteca para cada 17 mil pessoas.

Esqueçamos tudo e tentemos dormir embalados por afirmativas inéditas como estas: “Os portugueses, depois que descobriram Fernandes de Noronha, assinaram o Tratado de Tortas Ilhas”; “Lenine e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia”; “A alimentação é o meio de digerirmos o corpo” e “O povo quer coisa simples, sem muita luxúria”. E eu inocente quanto a tudo isso!

NO TEMPO DA BRILHANTINA

No tempo da brilhantina não existia cerca elétrica em residências nem grades em janelas que não as dos presídios. Tampouco alarme eletrônico ou câmeras curiosas vasculhando moradias e ruas. Ninguém anteveria o futuro com radares controladores de velocidade, lombadas eletrônicas e veículos inteligentes.

Nem pensar em computador pessoal ou instalados em painéis de carros movidos a eletricidade. Nada de telefonia celular ou aplicativos eletrônicos de nomes estranhos como bluetooth, hangouts e whatsapp. Muito menos uma fonte de informações chamada Google, interligada a um sistema global de redes de computadores, que utilizam o conjunto de protocolos padrão denominado internet.

Naquele tempo, quem aventaria a possibilidade de entrar num tubo para ser examinado, da ponta do pé até a raiz do cabelo, mediante exames de ressonância magnética? Ou instalar stents cardíacos nas coronárias ou, ainda, sobreviver a infartos com pontes de safenas no peito?

Indo mais adiante, ser um receptor de órgãos tais como córneas, fígado, coração, pulmão, rins ou constatar, implantados em si e obedientes ao seu comando, membros doados por seus semelhantes? Qual mulher imaginaria chegar à velhice com o corpo sarado, bumbum empinado, peitos siliconados e cara de boneca?

No tempo da brilhantina não existiam cinema, televisão nem DVDs de alta definição. Ninguém ouvia falar em genoma humano ou DNA. A clonagem de qualquer ente vivo era exclusividade de roteiristas de Hollywood ou de histórias em quadrinhos. Da mesma forma que habitava somente em mentes visionárias, a remota hipótese de viagens ao espaço sideral e o pouso na Lua.

Os amantes da música jamais consideraram se deparar com estilos do tipo axé músic, mangue beat, zouk, punk rock ou funk melody. Somente malucos ou suicidas praticavam esportes radicais tais quais mountain bike, snowboarding e bungee jumping. Short curto de jeans desfiado usado com blazer de grife e sapato de salto alto era considerado fantasia, e não roupa da moda.

No tempo das cabeleiras ensebadas com brilhantina não se cogitava em implantar pelos em couros desprovidos deles, sendo a peruca a única solução para os carecas. Não existiam Viagra e AIDS, tampouco bombas de anabolizantes, nem se ingeria maconha como medicamento.

Se falassem em nanotecnologia, pensava-se em algo relacionado a um anão tecnólogo. Não se abordava a homossexualidade abertamente na mídia nem era permitido beijo de gays na televisão. A cerimônia do casamento consistia, tão somente, na união de um homem com uma mulher.

É incompreensível que tenhamos escapado àquela época sem sequelas físicas ou comportamentais em razão de tantas carências de avanços na medicina, na comunicação, na tecnologia, na ciência e na amplitude de informações. Como sobrevivemos por tanto tempo sem o conforto e as facilidades de agora?

O mundo mudou e continua mudando muito depressa, e é voz geral que muda para melhor. Mas, por que essa impressão de ele estar mais perigoso do que antes? Por que a sensação de pânico e de insegurança, quando deveria ser o contrário? Quais os motivos para tanta ansiedade e insatisfação? Se no balaio do progresso for condição fundamental vir junto com ele tanta mazela, eu sou mais continuar usufruindo das limitações contidas no tempo da brilhantina.

A ERA VIRTUAL DO JORNALISMO

Pouca gente sabe que o Brasil é um dos países onde mais se vende computador no mundo. Fica atrás apenas de potências do naipe dos Estados Unidos, China e Japão.

Possuindo tamanho índice de comercialização desse equipamento eletrônico não era de estranhar a implantação e crescimento do chamado web jornalismo online ou, ainda, o cyber jornalismo, que é o jornalismo praticado por meio digital via internet.

Web jornalismo começou como uma versão virtual dos jornais de papel, mas, aos poucos, foi crescendo até se transformar na opção informativa preferencial da população mundial, isso graças a influência daqueles que nasceram na era da internet.

A maciça adesão da juventude foi fundamental para alavancar o processo de estimular o costume da busca de informação via virtual. Aí prevalecendo o comodismo, a facilidade e a rapidez de acesso à notícia que o meio eletrônico oferece.

É verdade que ainda existe parcela significativa da população fiel à leitura no papel, e que abomina a tela brilhosa e inodora do computador. São aqueles que preferem continuar sentindo o cheiro de tinta, aliado ao prazer decorrente de folhear e dobrar a aspereza de cada página do jornal enquanto avança na leitura.
Esse costume se assemelha ao do escritor acostumado com a máquina de escrever, que a abandona para enveredar pela complexidade do computador, por exigências decorrentes do avanço tecnológico.

Lamentável afirmar, mas a tendência da comunicação escrita é o mundo virtual. Tanto os jornais como os livros enveredarão pela virtualidade em razão do menor custo do produto manufaturado e em respeito ao meio ambiente massacrado pela derrubada de árvores. É tudo uma questão de tempo, e essa escolha já foi deflagrada e se consolidará mediante a ação da geração-internet.

Por que jornais continuam com a publicação impressa mesmo explorando com melhores resultados comerciais o segmento virtual? Em primeiro lugar porque ainda dispõem de carteiras de anunciantes e classificados, além de interesses outros que lhes dão o apoio necessário para continuar com a tiragem impressa.

Esperam, também, a inevitável tendência da leitura virtual se estabelecer para saírem de circulação, a esse fato se aliará a dificuldade de oferta e ao custo proibitivo do papel-jornal, decorrente da escassez de celulose que se prenuncia.

Em Natal, o último jornal diário em circulação é a Tribuna do Norte, por anos seguidos considerado o mais importante do Rio Grande do Norte. Fundado em 1950, mantém um portal de notícias na internet desde 1997. Fecharam as portas o Diário de Natal, o Jornal de Hoje e, por último, o Novo Jornal.

O mundo encolheu com a internet e ninguém estancará a evolução da comunicação virtual. A teoria da notícia gratuita ganha espaço e adeptos. É tolice esperar qualquer reviravolta nesse processo. Da mesma forma é difícil aceitar que aqueles da geração anterior à internet se acostumem, de imediato, com essa mudança.

Nada mais agradável do que uma boa leitura num livro impresso ou as informações extraídas de um jornal matutino durante o desjejum. Paciência, mas esses são prazeres que teremos de descartar para não nos alienarmos na era virtual.

O ARO DO DEDO ANULAR

Durante décadas usei aliança para identificar-me como um homem casado e atender a convenções da sociedade a qual pertenço. Acontece de o meu corpo rejeitar contato prolongado com qualquer tipo de metal. Dá-me uma espécie de comichão que me leva, ao chegar em casa, retirar todo adereço que estiver portando.

Esse tira e bota da aliança tinha um desfecho anunciado. A dita e benzida argola escafedeu-se durante uma desarrumação no meu escritório. Para evitar desavenças, firmei um pacto com a madame acordando em repor nova aliança no dedo anular (ou anelar), quando das bodas de ouro do nosso enlace.

O fato despertou em mim a curiosidade de saber o significado desse símbolo no matrimônio, e as razões das exigências das senhoras quanto ao uso da argola por seus parceiros, enquanto nenhuma importância é dada à sua presença em dedos masculinos, por determinadas senhoritas.

Realmente, o casamento é um ritual carregado de significados nas diversas culturas do planeta. Aliança, véu, grinalda, vestido branco e buquê não podem faltar em matrimônios na nossa cultura ou em outras do mundo ocidental.

Aliança – A forma circular desse adereço, sem começo nem fim, representa a continuidade do amor e a devoção do casal, além de eternizar o amor de ambos. Crença antiga afirmava que no anular existia uma veia que levava ao coração.

Véu – Simboliza o estar saindo da vida de solteira para encarar a condição de esposa. Em árabe, véu, é “aquilo que separa duas coisas”. Também faz referência à Vesta, deusa da honestidade, tida como a protetora do lar.

Vestido branco – Vestir a noiva de branco foi popularizado no século XIX, quando do casamento da rainha Vitória, da Inglaterra. Antes não existia especificidade de cor para a cerimônia. O branco simboliza a castidade e a pureza.

Grinalda – A grinalda dá a noiva o aspecto de rainha, diferenciando-a dos convidados. Quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e riqueza.

Buquê – Na antiguidade, o buquê era formado por uma mistura de alho, ervas ou grãos. O alho afastaria os espíritos maus e, os grãos ou ervas, garantiriam uma união frutífera. Atirar o buquê é uma forma de dividir a felicidade da noiva com os convidados.

Bolo e bem-casados – Os antigos romanos partiam o bolo na cabeça da noiva para desejar fertilidade ou abundância. Já os doces bem-casados, além de ser um agradecimento aos convidados, simbolizam a eterna união dos noivos.

Lua-de-mel – Tem origem em costume dos germânicos de casar na lua nova. Durante a cerimônia os noivos bebiam uma mistura de água com mel para lhes trazer boa sorte. Entre os romanos era comum pingar gotas de mel na porta de entrada das casas dos noivos para desejar-lhes uma vida doce.

Porém, na jocosidade popular, a aliança na mão direita da mulher é uma provocação para mulheres que ainda estão encalhadas; quando migra para a mão esquerda, é um aviso a desafetas que ela já se deu bem e está estabilizada da vida.

Quando o parceiro parte desta para melhor, e a viúva junta as duas alianças no mesmo anular – a dela e a do falecido -, segundo línguas ferinas, tanto representa uma exaltação ao sentimento de perda e um preito a ausência do companheiro, quanto um alerta de que está disponível para um novo relacionamento.
E haja interpretação para o uso da argola no dedo anular!

A VELHA PONTE DE IGAPÓ

Quem atravessa o Rio Potengi, em Natal, pela ponte rodoferroviária presidente Costa e Silva, em direção ao oeste do Estado, nota, à sua direita, o esqueleto incompleto de uma estrutura metálica enferrujada pertencente a velha ponte de Igapó.

A ponte velha foi inaugurada no dia 20 de abril de 1916. A construção coube a um consórcio anglo-brasileiro durante o governo de Joaquim Ferreira Chaves, pela qual se pagou a quantia de 2 contos, 474 mil e 940 réis. Tratava-se da maior obra ferroviária do Norte e Nordeste do país.

Imagem da Ponte de Igapó em 1916, depois de inaugurada…

Constava de vãos em treliças metálicas com 520 metros de extensão, que uniria as duas margens do rio Potengi. Todas as peças da estrutura foram moldadas em Darlington, na Inglaterra. Do mesmo local se originou o material para as construções das pontes Hercílio Luz (1926), em Florianópolis, e Florentino Avidos (1927), em Vitória.

A velha ponte atendeu a antigo anseio da população de regularizar o escoamento da produção das zonas salineira e açucareira do Estado para o porto de Natal, porque os trens da Estrada de Ferro Central, que ligavam o interior à capital, esbarravam na margem oposta do Potengi sem concluir a etapa final da viagem. Inaugurada, a ponte cumpriu o seu papel funcional durante 74 anos.

Em 1990, uma decisão precipitada de governo, apoiada em orientação tacanha e despropositada, resultou em leilão da obra de arte ferroviária para o reaproveitamento do aço, numa época em que o Brasil atravessava escassez do produto.

Não demorou muito tempo para suspenderam a operação de desmanche da ponte por se mostrar antieconômica, mas o mal já estava feito. Haviam desvirtuado um monumento histórico, quase secular, ao subtraírem 200 metros da melhor Engenharia ferroviária produzida no início do século XX.

O desastre acarretado com o desmonte de parte da velha ponte de Igapó revoltou o natalense, já acostumado com a imponência daquele símbolo de uma época. Porém, não ocorreu qualquer manifestação pública de protesto.

Houve, sim, uma voz coerente e isolada, nesse marasmo de falta de providências contra a agressão cultural a ser perpetrada pelo Estado. Partiu do colunista social Paulo Macedo, no seu espaço no Diário de Natal. O jornalista lançou a ideia de se estacionar um vagão-restaurante no vão central da ponte para explorar a cozinha regional nordestina.

Imaginava ele, que alguém posicionado sobre e no meio do rio Potengi, diante de paisagem diferenciada, desfrutaria de uma experiência única. Tal restaurante seria uma atração turística pela criatividade e ineditismo do empreendimento, e a ponte resultaria salva. Ao apelo fizeram ouvidos moucos.

Escaparam de destinos idênticos ao da velha ponte de Igapó, as pontes metálicas congêneres Hercílio Luz e Florentino Avidos. Tiveram a sorte de serem protegidas por dirigentes que souberam respeitar e preservar o patrimônio público histórico que possuiam.

Recuperadas, elas envaidecem catarinenses e capixabas, e são cartões-postais para turistas que visitam os seus estados. Enquanto isso o que restou da antiga ponte de Igapó, com 102 anos de existência, tornou-se um monumento à insensibilidade e ao desatino de determinados gestores públicos.

…e após ser desvirtuada, na década de 1990

A VARIG EXISTIU

Dentre os nomes de marcas mais conhecidas do público, o da Varig constaria entre os primeiros lugares em qualquer pesquisa que apontasse qual a mais lembrada companhia aérea brasileira. Faria jus a colocação porque se diferenciava das demais concorrentes, por larga margem de distância.

A Viação Aérea Rio-Grandense foi fundada, em 1927, por Otto Ernst Meyer, ex-piloto alemão aqui naturalizado. A primeira empresa de aviação brasileira começou a operar com um hidroavião, em rota regional entre Porto Alegre e Rio Grande.

Estrela brasileira no céu azul
Iluminando de Norte a Sul

A Varig viveu o apogeu da aviação entre os anos 1950 e 1990, e credita parte dessa expansão à administração Ruben Berta, o primeiro funcionário contratado da empresa. A partir de 1996, a situação econômica do país em baixa e falhas na administração abalaram a empresa resultando numa moratória.

Em toda sua história a Varig operou 102 destinos – 32 nacionais e 70 internacionais -, sendo a única companhia aérea brasileira a voar para todos os continentes. As aeronaves adquiridas pela Varig eram as mais avançadas em tecnologia da época. Sendo a “eterna pioneira”, foi a primeira a enveredar na era dos jatos.

Mensagem de amor e paz
Nasceu Jesus, chegou Natal

Para compensar a precariedade dos serviços em terra, a empresa apostou no alto nível de conforto das aeronaves e no excepcional serviço de bordo para todas as classes. Isso lhe rendeu o reconhecimento internacional ao ponto de ser comparada às melhores companhias do mundo.

Os passageiros da primeira classe se deleitavam com mimos do tipo perfume francês e creme para as mãos, além de bebidas importadas e caviar. Nas demais classes o nível de atendimento primava, também, pela excepcional qualidade.

Papai Noel voando a jato pelo céu
Trazendo um Natal de felicidade

Eu operei em rotas internacionais e realizei um sonho meu. Aliás, o sonho de toda comissária de bordo. As refeições eram servidas em louça de porcelana japonesa e talheres de prata. Puro bom gosto!” – comentou uma norte-rio-grandense, ex-comissária de bordo, funcionária da Varig até a sua extinção.

Durante muitos anos a Varig foi patrocinadora da seleção brasileira de futebol. Nas visitas que enveredou ao Brasil, foi num avião da Varig que o Papa João Paulo II retornou para casa.

E um ano novo cheio de prosperidade

Entretanto, foi através de propagandas bem elaboradas que a Varig se fixou na lembrança do povo brasileiro. A Rosa dos Ventos estampada na cauda das aeronaves e a logomarca Varig na fuselagem, identificavam de imediato os aviões da companhia aérea.

Os jingles publicitários veiculados pelo rádio e televisão, ajudaram bastante a consolidar a marca. Tal foi o poder de uma dessas vinhetas – cuja letra está intercalada neste texto -, que ainda hoje a imagem da empresa nos volta a lembrança.

Varig, Varig, Varig…

Sim, a Varig existiu e orgulhou o Brasil!

O PAÍS DO RETROCESSO

Pronto! Agora descobrimos como desestabilizar o Brasil sem violência nem derramamento de sangue. Basta uma greve bem orquestrada e pacífica como a dos caminhoneiros, a qual assistimos passivos no mês passado. Em apenas dez dias de mobilização eles fizeram conosco o que Nicolás Maduro fez com a Venezuela em cinco anos de governo: paralisar toda a estrutura social, produtiva e econômica da nação.

Com um pouco de exagero, só não experimentamos o gosto amargo do êxodo em massa da população, para a circunvizinhança do Brasil, graças ao cansaço e a saudade de casa de parcela dos grevistas.

Todo esse desconforto que atravessamos serviu para ressaltar a fragilidade do sistema de transportes posto em prática no Brasil, a partir 1959, quando resolvemos privilegiar as estradas de rodagem em detrimento das vias férreas.

Explicando melhor: países com extensões territoriais semelhantes ao nosso possuem grandes malhas ferroviárias. O transporte ferroviário além de ser capaz de transportar quantidades elevadas de cargas de uma só vez, oferece um custo por tonelada/quilômetro conduzida bem inferior ao praticado no mundo rodoviário.

Não é à toa que países como Estados Unidos e Rússia elegeram o transporte ferroviário para dar a fluidez ideal na maioria das cargas. Na parte ocidental da Europa a ferrovia também é essencial para o deslocamento de bens e de passageiros.

E o Brasil, como fica nesse contexto? No período de 1870 a 1930, fim da República Velha, as ferrovias brasileiras escoaram a maior parte da produção agrícola do país, sobretudo o café, do interior para portos articulados com a navegação de longo curso. Na época, existiam 29.000 quilômetros de ferrovias ativadas.
No primeiro governo de Getúlio Vargas, os investimentos no setor rodoviário ascenderam os do modal ferroviário que, ainda assim, representou importante papel no desenvolvimento da nação até meados do século XX. Em 1947 possuíamos 35.623 quilômetros de ferrovias.

Em países-continentes, o transporte rodoviário atua com perfeição na cadeia logística intermodal do transporte porta a porta. Apanha as cargas em terminais ferroviários ou portuários e as entrega em destinos de curta distância.

Para melhor avaliação, na atualidade, enquanto os Estados Unidos possuem uma malha ferroviária de 293.564 km, o Brasil dispõe de 30.600 km construídos, ou 11% da malha norte-americana. E pior: 5.023 quilômetros a menos do total existente no auge da era ferroviária.

Condoía-me assistir, no meu Estado, arrancarem trilhos de ramais ferroviários desativados, os mesmos pelos quais eu trafegara de trem na infância. Quando engenheiro, a revolta se ampliou por construir estradas onde antes existiam ferrovias, ajudando no desmonte do modal que alavancaria o desenvolvimento do país.

No mês de maio passado, constatamos o mal que fizemos ao Brasil ao sufocarmos o crescimento das ferrovias, única opção efetiva para enfrentar o monopólio instituído pelo transporte rodoviário de cargas e de passageiros.

Se tivéssemos ferrovias suficientes, ninguém exigiria tabela mínima de preços para o transporte de longa distância, nem falaria em crise do diesel ou em melhores condições de tráfego nas estradas. Tampouco, ficaríamos reféns do poder de uma categoria que pode desestabilizar o país no tempo e na hora que bem lhe aprouver.

Haja retrocesso nisso!

Quando assistiremos a desfiles de comboios com a extensão e a variedade de cargas do acima mostrado, percorrendo o nosso território?

EU E A COPA DE 58

Vídeo de empresa patrocinadora oficial da seleção dos brasileiros na Copa do Mundo da Rússia mostra Pelé e Gabriel Jesus postados num túnel, à beira do gramado de um estádio de futebol, enquanto uma criança filma o encontro.

Pelé, 78 anos, aconselha Gabriel Jesus, 21 anos, tomando a si como exemplo quando estreou na primeira Copa de sua vida, em 1958, na Suécia. A lenda viva do futebol mundial dá o seguinte recado ao jogador iniciante em Copas:

“Eu fiz a mesma coisa sessenta anos atrás. Olha, só se preocupe em dar o seu melhor. Eu estou olhando para você e estou me vendo. Mas, não no passado, eu vejo o futuro…”

… E continua: “… Aproveita porque passa muito rápido. Conte sempre com os seus companheiros. Ninguém faz nada sozinho. Essa camisa Gabriel, não é minha nem é sua, ela é de um país inteiro. Aqui fora, está todo mundo com você. Lá dentro também vai estar.”

O recado acaba sendo extensivo a todos os brasileiros, enquanto esconde um vaticínio. Pelé, ao estrear na Copa de 58, com 18 anos incompletos, era o atleta mais jovem da equipe brasileira, tal qual será Gabriel Jesus na Copa da Rússia.

Pelé só entrou em campo na terceira partida da competição contra a União Soviética, jogo que o credenciou como dono absoluto da camisa 10 da seleção, enquanto jogou futebol. Acabou campeão mundial e consagrado mundialmente. Acontecerá o mesmo com Gabriel Jesus? Esse é o enfoque em debate no monólogo do vídeo.

Na Copa de 1958, eu era um moleque que abdicara das calças curtas havia pouco tempo. Curtia as férias de meio do ano, com meus irmãos e irmãs, na casa dos nossos avós, situada numa cidade interiorana do Rio Grande do Norte com não mais de um milhar de habitantes. Em São Rafael não existia água encanada nem luz elétrica regular. A cidade era iluminada por um grupo gerador de energia da prefeitura municipal, que funcionava das 18:00 às 22:00 horas. Nenhuma residência possuía gerador próprio.

O destino foi cruel com a cidade de São Rafael. Na década de 80, escolhida como a melhor localização para a construção da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Oeste do Estado, terminou inundada por 2,4 bilhões de metros cúbicos de água e apelidada de Atlântida Potiguar.

O grupo de peladeiros, do qual eu fazia parte, ouviu os jogos do Brasil numa calçada, recostado na janela de uma casa de família onde funcionava um rádio à bateria. Eu me integrei à turma de ouvintes no último jogo da competição, quando o Brasil enfrentou a Suécia. Era minha primeira Copa.

Lembro-me da angústia dos garotos quando a Suécia fez o primeiro gol do jogo; bem como, das explosões de alegria com os gols do Brasil. Aos 23 minutos do segundo tempo, a estridência da estática na transmissão da partida impediu de ouvirmos direito o nome do autor de mais um gol, o quarto do Brasil.

Quem fez o gol? – perguntei ansioso.

Foi um tal de Zé Galo! – respondeu um membro da turma, sem qualquer maldade, inocente quanto a existência de Mário Jorge Lobo Zagallo, o ponta-esquerda da seleção canarinho.

Aquela foi a Copa do Mundo que guardei na lembrança. Eu, um jovem repleto de sonhos e de esperança na vida que tinha pela frente, sessenta anos atrás.

Seleção brasileira Campeã do Mundo em 1958. Em pé, da esquerda pra direita: Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados, da esquerda pra direita: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e o massagista Mário Américo.

O PENSADOR DE IPANEMA

Entre os anos 1978 e 79, em viagem ao Rio de Janeiro, resolvi fazer uma caminhada pela orla indo do Leme ao Leblon. Em Ipanema notei alguém, cuja fisionomia me pareceu familiar, vindo na minha direção num passo acelerado. Tratava-se do desenhista, tradutor, dramaturgo, humorista e pensador brasileiro Millôr Fernandes.

“Celebridade é um idiota qualquer que aparece na televisão”

Naquela época eu nem sonhava em escrever textos para qualquer jornal. Achava-me incompetente sem nada para oferecer de interessante ao leitor. O único predicado que possuía era uma gana desmedida por leitura. Lia até classificados.

“Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”

Vendo-o se aproximar de mim, tomei uma decisão rápida: vou me apresentar e lhe fazer algumas perguntas. O que perguntar, eu não tinha a mínima ideia.

“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”

Emparelhado com o dito, parei, na esperança de que ele também parasse. Deixei escapar um sonoro “Bom dia, Millôr!”, tentando entabular um papo.

“Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida”

Ou não me fiz entender ou ele não quis interromper o seu exercício. Continuou na caminhada deixando-me ali, com cara de paisagem, vendo-o se afastar.

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos”

Pus-me então, na posição do pensador, pois eu também não quebraria o ritmo de uma caminhada para atender a um desconhecido desejando insinuar a intimidade que não possuía com um interlocutor famoso.

“Se durar muito tempo a popularidade acaba tornando a pessoa impopular”

Não por isso deixei de admirar o vasto trabalho de Millôr nos livros, revistas e jornais onde ele publicava sua produção autodidata, um misto de inteligência, ironia e sátiras, emolduradas por refinado espírito cômico.

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”

Quanto deleite nos deu a coluna Pif-Paf, subscrita por Vão Gogo, personagem criado por Millôr Fernandes para servir-lhe de pseudônimo. E o que dizer dos desenhos divertidos de Retrato 3×4? Ambos publicados na revista O Cruzeiro?

“Quem fala muito mente sempre porque se esgota seu estoque de verdades”

Na revista Veja, de 1968 a 1982, Millôr ocupou duas páginas com o seu humor gráfico. Deixou o semanário por sentir sua liberdade criativa cerceado por apoiar Leonel Brizola, então candidato ao governo do Rio, em oposição a Moreira Franco.

“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”

Millôr Fernandes morreu em março de 2012. O governo do Rio de Janeiro dedicou-lhe um recanto, entre as praias do Diabo e do Arpoador, chamado Largo do Millôr. Nele existe um banquinho onde se incorporou um monumento com a silhueta do homenageado na postura do Livre Pensador, de Rodin, criação de Chico Caruso.

“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é”

Numa próxima viagem ao Rio, sentar-me-ei no tal banquinho e, com o mesmo “Bom dia, Millôr!”, terminarei a conversa que sequer iniciei décadas atrás.

SÊNECA E A BREVIDADE DA VIDA

Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) foi filósofo, dramaturgo e escritor, considerado um dos expoentes intelectuais no início da Era Cristã. Nascido em Córdoba, Espanha, ainda jovem radicou-se em Roma onde recebeu educação refinada.

Foi conselheiro nas cortes dos imperadores Calígula, Cláudio e Nero. Esse último, um de seus pupilos, tornou-se, no futuro, seu carrasco ao forçá-lo ao suicídio.

A morte de Sêneca, de Rubens

O pensamento de Sêneca enfatiza medidas práticas que ensinam como enfrentar os problemas da vida e como encarar sem temor a certeza da morte. Na sua obra Sobre a brevidade da vida, Sêneca tenta nos orientar para a possibilidade de atingir a tranquilidade da alma e os meios de fazê-lo.

Neste texto destaquei alguns dos ensinamentos do filósofo ainda atuais e inspiradores, mesmo transcorridos mais de dois milênios de concebidos.

• Pequena é a parte da vida que vivemos, pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.

• Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

• Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começar a viver?

• Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo.

• Ninguém valoriza o tempo, faz-se uso dele muito largamente como se fosse gratuito. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente.

• …assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim.

• A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazemos é breve, o que faremos dúbio, o que fizemos, certo. Na verdade, o destino perdeu o controle sobre o passado, ninguém pode querer recuperá-lo.

• Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada.

• A vida abandonou a alguns logo na sua primeira fase, antes de conseguirem atingir o máximo de sua ambição; a outros, após terem cometido diversas desonestidades e galgado a mais elevada posição, vem-lhes à mente a amarga convicção de ter trabalhado tanto por uma vã inscrição num túmulo.
Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.

Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.

GENTE COMO A GENTE

Por que a realeza ainda exerce tanto fascínio mundo afora? Talvez porque exista muita gente querendo viver um conto de fadas como reis e rainhas, príncipes e princesas. Enquanto essa ilusão não se materializa, essa gente contenta-se em admirar o gozo de outros, especialmente, se quem galgar àquele mundo encantado seja uma plebeia como Meghan Markle, tão gente quanto a gente.

Há 127 anos o Brasil viu desmoronar a monarquia, mas permaneceu encruado na memória do nosso povo o vírus do regime político. Entre os brasileiros, aos que se distinguem por seus valores ou por suas ações extraordinárias não se atribuem tratamentos do tipo herói, ídolo ou expoente nacional. A pessoas lendárias, em diferentes atividades, lhes tascam, de imediato, o epíteto de Rei ou Rainha.

No futebol temos o Rei Pelé, na música o Rei Roberto Carlos e nas novelas a Rainha da Sucata. Se o empresário desejar alavancar as vendas de qualquer produto basta alia-lo à realeza: Rei dos Colchões, Rainha dos Brinquedos, et cetera e tal. Tudo para fazer pensar que gente como a gente pode desfrutar do mundo da realeza.

Das 28 monarquias existentes no mundo, a maioria delas não exerce qualquer poder de mando em países sob sistemas parlamentaristas ou presidencialistas. Os membros dessas cortes atuam como figuras decorativas dando apenas continuidade a tradições seculares, onde súditos adoram venerar seus reis.

Sim, a tradição é a força motriz desses regimes, dentre os quais se sobressai o Reino Unido da Grã-bretanha. A família real inglesa já ensaiava se aproximar de gente como a gente, desde quando o Rei Edward VIII, também imperador da Índia, abdicou do trono para casar com a americana divorciada Wallis Simpson, em 1936.

Na modernidade a princesa Diana, mais conhecida como Lady Di, antes da coroação gente como a gente, tornou-se a queridinha dos súditos. Ao ser traída pelo esposo Charles, o príncipe de Gales, com o qual teve os filhos William e Harry, rompeu com a realeza e foi viver a própria vida retornando à condição de gente como a gente.

Agora, se viva fosse, a princesa Diana veria o seu filho imitando o tio-avô Edward ao se casar com uma divorciada, ainda por cima mulata. Aplaudiria o filho quebrando tabus ao usar barba com uniforme militar e convidando um bispo americano negro para abrir a cerimônia do seu casamento, e esfregar na cara da monarquia a responsabilidade pela desgraça do comércio escravocrata nos séculos XVII a XIX.

Acontece de todos eles também serem gente como a gente, quando se trata de manias, vícios, desejos, fraquezas, maldades, egoísmos, mesquinharias e traições. A diferença está na capacidade de controlar ou bem esconder tais sentimentos degradantes de seus vassalos, gente como a gente.

No que pese a aura de quase divindade atribuída a membros da família real inglesa, nunca se ouviu falar que, no meio de gente como a gente, mesmo motivado por uma paixão arrebatadora, alguém desejasse servir de absorvente íntimo para a amada, como confidenciou Charles para Camilla num telefonema grampeado:

Charles – Quero passear ao longo do teu corpo inteiro, passar sobre você, para cima e para baixo, para dentro e para fora. Eu poderia, simplesmente, viver dentro de tuas calças ou alguma coisa assim… Seria muito mais fácil!

Camilla – Você vai virar o quê, uma calcinha? Você vai voltar na forma de uma calcinha?

Charles – Ou então de um Tampax. Queria ter essa sorte!

Vossa Alteza, poupe-nos, isso não é desejo nem sorte de gente como a gente, não!

ODE AO AMOR

É difícil falar de amor sem parecer piegas. Ainda assim, resolvi entoar este cântico, mesmo correndo o risco de enveredar por um caminho ridicularmente sentimental. Que seja!

Afinal, o que é o amor e como defini-lo? Viajemos no tempo. O termo tem origem no latim amor, e guarda o mesmo significado de agora: afeição, carinho, afeto. Entretanto, definir amor é tão difícil quanto complexo, pois ele se apresenta sob diferentes formas e significados variados.

O amor pode estar num abraço, num olhar, num beijo prolongado. Ele se propaga, naturalmente, entre um homem e uma mulher, porém pode acontecer entre dois homens ou entre duas mulheres. Quando ele é verdadeiro ultrapassa barreiras sociais, raciais e econômicas.

O amor pode ser fraternal, incondicional, próprio, entre amigos e amor ao trabalho. Dizem que o amor é cego, e que é uma bela jornada. Afirmam, também, que ninguém consegue viver sem tal sentimento, que pode até durar para sempre – não se trata aqui do amor espiritual ao Deus de cada um.

Alguns filósofos, da antiguidade, assim definiram o amor:

Sófocles – Uma palavra nos liberta de todo peso e da dor da vida: essa palavra é amor.

Platão – Ao toque do amor todas as pessoas se tornam poetas.

Aristóteles – O amor é formado por uma única alma habitando em dois corpos.

E o que dizer do amor platônico? Aquele que você sabe que nunca vai ter, mas que é bom assim mesmo. O beijo é a mais significativa expressão de amor que o ser humano conhece. No beijo também se esconde a manifestação do que chamamos paixão. Esperem! Amor e paixão não representam o mesmo sentimento?

A psicologia define a paixão como a atração pela idealização que fazemos do próximo, e não, necessariamente, pela pessoa como verdadeiramente é. Nas pessoas apaixonadas, as características de atração são as físicas. Ao contrário do amor, onde enxergamos muito além das aparências alcançando o interior das pessoas.

Estudos sobre o comportamento humano afiançam que a paixão pode durar semanas ou de um a dois anos. Após esse período ou finda o relacionamento, ou se inicia uma verdadeira história de amor.

O amor é o combustível para o romantismo e inspiração para a poesia. Daí textos e músicas que falam de amor, tocar tão fundo em almas sensíveis.

Poucos poetas cantaram tão bem o amor, e com tanta intensidade e profundidade, como o cronista e poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Uma das amostras é o pequeno retalho a seguir, extraído de uma de suas obras, O Amor:

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer o seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção, pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro ou, às vezes encontram, e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar sem deixa-lo acontecer verdadeiramente…

Evite que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

NA SAÚDE E NA DOENÇA

O noivo pode até ignorar detalhes da festa ou do vestido da noiva na cerimônia do casamento; a noiva, por sua vez, pode não lembrar o modelo do traje do amado ou do buquê que lançou para as amigas; porém, certamente ambos jamais esquecerão o instante do juramento proferido no altar durante a união do casal:

Eu (fulano ou fulana) recebo a ti, (fulana ou fulano), como minha legítima esposa (ou legítimo marido), e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de nossa vida, até que a morte nos separe.

A empolgação daquele momento realça no imaginário de ambos somente os pontos positivos da promessa declarada: alegria, saúde, riqueza, amor e fidelidade. Ninguém atenta para o reverso da medalha, onde e quando poderão enfrentar tristezas, doenças ou a pobreza em algum momento da união.

Não importa e nem existe espaço para tais pensamentos. Ali eles vivenciam instantes felizes de propriedade exclusiva do casal. Na promessa, os nubentes dão ênfase ao amor. Cá entre nós, mas se forem somente frases lançadas ao vento? Impossível! O sentimento chamado amor não se resume a palavras.

O amor se faz presente nas ações espontâneos, em achados inesperados, na beleza da doação mútua, ao se entregar sem cobranças, no prazer de dividir e na felicidade de compartilhar. São manifestações que nunca deixarão a união entre casais que se amam verdadeiramente, perder-se no limbo.

Aqui abro um parêntese. Laura e Manoel, meus pais, partilharam um casamento de 65 anos. Ambos tinham a mesma idade. Nesse período, certamente houve turbulências, porém, nada que desestruturasse o enlace. Meu pai morreu primeiro, minha mãe, sete meses depois, de saudade e solidão.

Nada nem ninguém conseguia afastá-la da lembrança do esposo. Em suas orações rogava ao companheiro que viesse buscá-la. No aniversário de um dos netos, ela, eufórica, revelou aos presentes uma cena contumaz no seu sono noturno:

Nos meus sonhos, Manoel aparece postado sob a sombra de uma árvore. Uma cerca nos separa. Ele acena em despedida e parte. Ontem foi diferente. Manoel, antes de se afastar, me chama para acompanhá-lo. A cerca estava arriada.

No mesmo dia, dona Laura faleceu por força de um infarto anunciado. Não suportou a ausência daquele a quem havia prometido ser fiel, respeitar e amar durante toda a sua existência. Na ótica de minha mãe, somente a morte iria juntá-los novamente. Este exemplo define ou não um amor verdadeiro? Fecho parêntese.

No meu entender, das promessas contidas no juramento matrimonial, a mais significativa é a conservação do respeito, da fidelidade e do amor durante a doença de um dos cônjuges. Porque, uma coisa é amar na saúde e na beleza; a outra, é querer bem na decrepitude e na feiura com a mesma intensidade.

Ninguém casa com a expectativa de separação na cabeça, embora supondo que o cotidiano embote o brilho da convivência a dois. Imperceptível, também, é o mecanismo sublime que interfere a favor da união do casal que se ama.

Expondo a um amigo minha teoria para casamentos duradouros, perguntei-lhe qual a receita para o seu relacionamento de meio século. Ele respondeu:

Tolerância, meu caro! Justificamos muitos dos atos que praticamos creditando-os a carências masculinas, sem atentarmos que as mulheres possuem necessidades assemelhadas às nossas. O segredo é esbanjar tolerância!

Acolhamos a voz da experiência. Tenho dito!

SER AVÔ NA MODERNIDADE

Acabou-se o tempo em que as famílias se reuniam em torno da mesa para entabular conversas descontraídas durante o almoço ou jantar. A mania salutar dos papos nas salas de estar deixou de existir. Na atualidade, não se encontra espaço nem tempo no agitado cotidiano das pessoas, para a troca de ideias no seio familiar.

Pudera, o progresso inseriu novos procedimentos nos costumes de nossos antepassados com o advento da internet e de aplicativos inteligentes. Em anos não tão distantes, sabíamos o que ocorria no país e no mundo mediante o jornalismo impresso ou através de noticiários na televisão. Agora, toda e qualquer informação é obtida mediante consulta a aparelhos eletrônicos manuais, em tempo real.

A evolução tecnológica da pequena maquininha, antes denominada telefone celular porque funcionava somente como um telefone portátil, ocasionou mudanças bruscas em costumes e padrões comportamentais da sociedade brasileira e de diferentes civilizações deste mundão de meu Deus.

Dados da Anatel indicam que o Brasil terminou março de 2018 com 235,8 milhões de celulares, ou seja, com uma densidade de 112,98 celulares por 100 habitantes. Essa proporção aponta que o número de celulares em uso ultrapassou o de habitantes no país. Isso mesmo, cada brasileiro detém, hoje, 1 celular e fração de outro.

Ainda que sob o efeito deletério em costumes tradicionais, por conta do uso abusivo de telefones inteligentes (smartphone) e de computadores portáteis (tablet), muitas famílias insistem em preservar resquícios dos antigos hábitos. Talvez, para não deixar a modernidade se apossar das boas lembranças do passado.

Ser avô ou avó é uma delícia! Curtir os netos sem as responsabilidades do papel dos pais, deixa a relação mais leve e interessante. Eu insisto em manter um contato físico semanal com meus filhos, netos, genros e nora – nem sempre é possível reunir a todos. Entendo que tais bate-papos consolidam a noção de unidade familiar.

Os netos, porém, fogem à regra. Ao invés de participarem das conversas entabuladas preferem a companhia de aparelhos iMac, iPod, iPhone, iPad e iTunes, que os divertem e acalentam a curiosidade latente em cada um deles.

Acontece de o vício decorrente do manuseio dessas geringonças haver extrapolado todos os limites admissíveis da racionalidade, fugindo do controle dos pais ou de responsáveis pela educação das crianças, por negligência ou descaso – é comum utilizarem os aparelhos para aquietar moleques renitentes ou malcriados.

No meu caso, quando em nossas reuniões, estipulei regras rígidas, claras e simples para a utilização de tais aparelhos: não é permitido o uso de nenhum deles na casa dos avós. Para compensar a proibição lancei mão de jogos manuais, quebra-cabeças, brincadeiras grupais e outros tantos artifícios para desviar a atenção deles das maquininhas, durante o rápido convívio conosco.

Como complemento, aprendi alguns truques de mágica que fazem tanto sucesso entre os netos, que eles já entram no apartamento gritando: Mágica!…Mágica!… Enquanto isso, o avô se diverte vendo-se alvo da atenção dos pirralhos numa interação saudável, mesmo assumindo o papel de um bobo-da-corte animador de plateias.

Certamente, tais momentos permanecerão vivos nas memórias de cada um deles, não deixando que se perca nas dobras do tempo o exemplo de como as coisas aconteciam num Lar Doce Lar… de antigamente.

RECORDANDO ROGER VADIM

Messier Roger Vadim foi um escritor, ator e diretor franco-argelino, nascido em 1927. Porém, não foi como cineasta que alcançou notoriedade, mas, por haver casado com belas mulheres: as francesas Brigitte Bardot e Catherine Denueve, a dinamarquesa Annette Stroyberg e a estadunidense Jane Fonda. Com exceção de Annette, as demais se transformaram em monstros sagrados do cinema.

Vadim, além de conquistar três das mais cortejadas atrizes do mundo, e as despir nas telas, ele também desnudou o íntimo de cada uma delas, com a mesma classe e elegância, enfatizando o que pensavam, como viviam e como amavam, no seu livro As Memórias de Roger Vadim – Bardot, Deneuve & Fonda.

Num relato fluente e picante, ele prende a atenção do leitor, do primeiro ao último parágrafo, como quando da iniciação sexual de Bardot: …enquanto se vestia, depois de fazer amor pela primeira vez, Brigitte perguntou: – Sou uma mulher de verdade, agora? – Não muito – respondi. – Talvez uns vinte e cinco por cento.

No segundo encontro, depois de termos feito amor, ela perguntou novamente: – Sou uma mulher de verdade, agora? – Uns cinquenta por cento – respondi.

Em sua terceira visita, anunciei: – Cem por cento. Brigitte bateu palmas, correu até a janela e abriu-a tanto quanto pôde. – Sou uma mulher de verdade! – exclamava ela, acenando para os transeuntes na rua, que olhavam para cima em estado de choque. Em seu entusiasmo, ela se esquecera de que estava completamente nua.

Ele resume o capítulo sobre Bardot, afirmando: Possuía um dom para a infidelidade, mas sempre sofria quando estava de caso com mais de um homem ao mesmo tempo.

Por essa e outras inconfidências, Brigitte e Deneuve processaram Vadim por violação de privacidade, o que retardou a publicação do livro na França. Ganho o embate judicial, o autor alcançou enorme sucesso com as suas memórias.

Quando Bardot o abandonou para viver com Jean-Louis Trintignant, Vadim conheceu Annette Stroyberg com quem casou após engravidá-la de Nathalie, sua primogênita. Ela não demorou muito, e já o estava traindo com Sacha Distel.

A paixão entre Roger Vadim e Catherine Deneuve foi arrasadora: menos de vinte e quatro horas depois de se conhecerem já foram para a cama. Assim ele descreveu o encontro: …entramos no quarto em que o abajur de Jean Genet, um pouco estiolado e inclinado para o chão, me fez lembrar que fizera amor com Brigitte, pela primeira vez, naquela mesma cama, dez anos antes.

Catherine deu-lhe um filho, Cristian, mas, ao se apaixonar por Johnny Halliday, não hesitou em largar Vadim. Conviveram durante cinco anos sem casar. Ele sintetiza o caso, assim: Tinha 17 anos, e eu, 32. Mas a idade não faz diferença. Nem a experiência, para mulheres que sabem das coisas sem precisar aprendê-las.

O caso de amor com Jane Fonda durou oito anos. Vadim a amava e à filha de ambos, Vanessa. Quando a paixão esmaeceu em Jane, ela o deixou para casar com Tom Haiden. Sobre a atriz, ele assim resumiu o relacionamento: …Nossa relação erótica era intelectualmente equilibrada entre a ternura e voos de grande fantasia.

Mesmo separado de suas ex-esposas, Vadim continuou íntimo de todas, e sempre foi um pai presente e um ombro amigo para o apoio delas. Faleceu em 2000, com 72 anos de idade. Todas compareceram ao funeral.
A leitura das memórias de Vadim é um regalo para indivíduos que, como eu, vivenciaram seus anos dourados nas décadas de 60 e 70 e acompanharam as trajetórias das personagens do livro, desmistificadas cruamente por quem amou a todas.

DESCOMPLICANDO O TOMAR VINHO

É comum assistirmos, em restaurantes, a cena em que o cliente prova o vinho antes que o garçom o sirva, ensejando a um observador desavisado a seguinte pergunta: o que acontece se o cidadão não gostar do vinho que lhe foi servido? Ele rejeita a garrafa deixando o estabelecimento com o prejuízo?

Essa prova consiste em descobrir se o vinho é bom, não se ele está bom. Verificar se a bebida se encontra na temperatura adequada ou não está oxidada, condições que habilitam a devolução da garrafa. Na maioria dos casos, cliente e garçom agem sem saber a que se prestam, encenando papéis ridículos beirando o grotesco.

O primeiro, segurando a taça pela haste, balança-a em movimentos circulares; em seguida, a encosta num guardanapo ou a coloca contra a luz para verificar a cor da bebida; por fim, bochecha o vinho e o engole, numa munganga adequada para sessões de degustações, não para uma simples refeição.

O garçom, por sua vez, oferece a rolha de material sintético, para o cliente cheirar e comprovar se o vinho está ou não contaminado pela doença da rolha (bouchonné), um fungo encontrado, tão somente, em rolhas de cortiça. Essa e mais outras anomalias comportamentais do tipo, são responsáveis pela fuga de potenciais adeptos da bebida. Eles merecem o nosso perdão, porque não sabem o que fazem!

Na verdade, não existe complicação alguma em tomar vinho, basta observarmos determinados tópicos que se responsabilizam pelo equilíbrio da bebida e nos fazem seus apreciadores. Alguns deles são o tanino, a acidez e o álcool.

Tanino – Está presente na casca e nas sementes das uvas tintas, e dá ao vinho estrutura para envelhecer. Em excesso, o tanino é áspero e deixa na boca a sensação parecida com a de banana verde. Um vinho com tanino equilibrado é uma bebida bem elaborada ou que já envelheceu por tempo suficiente.

Acidez – Um bom vinho precisa de acidez. Juntamente com o álcool e o tanino – no caso dos tintos -, a acidez responde pelo equilíbrio do vinho e por sua capacidade de envelhecimento. Ela ativa a salivação, tornando a bebida mais agradável.

Álcool – O álcool etílico no vinho resulta da fermentação do açúcar da uva e determina o corpo da bebida. Vinho muito alcoólico dá a sensação de doce, mas, se provocar calor e ardência na boca, indica que o álcool não está em equilíbrio com a acidez. É defeito.

Todavia, tudo tem a ver com o paladar do cidadão. Se o vinho lhe for agradável e lhe der prazer, certamente, se trata de uma bebida bem elaborada. Quando o vinho tinto parecer macio, levemente adocicado, não será surpresa se estiver diante de um vinho com alto teor alcoólico, acima dos 13%. Por outro lado, se o vinho estiver pegando, deixando a boca seca, não haverá dúvida: são taninos mal resolvidos.

O restante são penduricalhos que mais atrapalham do que ajudam o iniciante na arte de apreciar vinho. Porém, muita cautela para não parecer pedante ou cair no ridículo, ao atribuir a um vinho, sem a devida segurança, qualidades tais como: chato, amplo, austero, curto, magro, mofado, vinoso ou rançoso.

Para não ser tachado de alienado é de bom alvitre saber que o enófilo é aquele que gosta de vinho, o enólogo é a pessoa que trabalha o vinho e, o sommelier, é o responsável pelas cartas de vinhos e orientador da bebida ideal para combinar com o prato. Por fim, seja mais um descomplicado apreciador da bebida dos deuses.

Saúde!

ENTENDENDO A CRUCIFICAÇÃO

Este texto é obra de alguém com conhecimento de anatomia, possivelmente, um médico. Alguém, com conhecimento do corpo humano e de muita fé na crença que abraçou. Se o sacrifício de Jesus, para nos salvar, deu-se com o requinte de sofrimento aqui descrito, já seria razão suficiente para adorá-Lo incondicionalmente.

“Jesus entrou em agonia em Getsêmani ao suar sangue, ou seja, ao desenvolver hematidrose, que é um fenômeno raríssimo que acontece em alguém em condições excepcionais, quando possuída de terror, susto, angústia ou tensão extrema. Isto ocasiona o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, fazendo o sangue se misturar com o suor e escorrer por todo o corpo.

Ao ser preso Jesus foi levado a Pilatos que ordenou sua flagelação. As chibatadas que Lhe foram aplicadas, com tiras de couro contendo nas extremidades minúsculas bolas de chumbo e pequenos ossos, começaram a dilacerar e romper a pele de Jesus, que a cada golpe desferido reagia com sobressaltos de dor. Um suor frio impregnou-Lhe a fronte fazendo Sua cabeça girar em vertigem causada pela náusea.

Calafrios surgiram ao longo das costas em carne viva. Caso não estivesse preso pelas mãos, cairia e se banharia no próprio sangue. Em seguida, seus carrascos enfiaram-Lhe uma coroa de espinhos longos, que penetraram no couro cabeludo fazendo-o sangrar e causando-Lhe dores muito fortes.

A caminhada ao Calvário transportando uma cruz de aproximados 50 kg, deixaram Seus ombros cobertos de chagas. O percurso feito a pés descalços, por ruas cobertas de pedregulhos, arrastando um pé após o outro, além de puxões e chibatadas, ocasionaram frequentes quedas de Jesus, sobre os joelhos doloridos e sem forças.

Ao chegar ao local do sacrifício os soldados despojaram o condenado de Suas roupas, mas a túnica estava colada às chagas, que arrancaram sem qualquer cuidado causando imensa dor – basta lembrar o desconforto de retirar uma gaze de um ferimento. Então, o sangue de Jesus Lhe banhou o corpo.

Jesus foi preso na cruz a golpes de martelo em cravos fincados nos pulsos e nos pés. O penoso martírio do crucificado faz-Lhe contrair o rosto assustadoramente, em razão do nervo mediano ter sido lesado. A dor insuportável se difundiu pelos dedos e se espalhou pelos ombros, atingindo o cérebro – trata-se da sensação mais dolorosa que alguém possa provar, levando a vítima a inconsciência.

Mas, Jesus resistiu a mais essa provação já com os nervos parcialmente destruídos e uma lesão no tronco nervoso. O corpo, ao ser suspenso na cruz, faz o nervo se esticar como uma corda de violão, e a cada movimento da cruz acarretará dores lancinantes, no Seu caso, num suplicio que duraria horas.

Com sede, boca semiaberta, garganta seca, Jesus foi submetido a tortura atroz. A respiração curta, o rosto pálido, Ele respirava com o ápice dos pulmões, como um asmático em crise aguda. Os pulmões cheios de ar, mas sem poder esvazia-los, Jesus foi tomado pela asfixia. Com esforço sobre-humano, Ele tomou um ponto de apoio sobre o prego dos pés, elevou-Se, e aliviou a respiração, porque os pulmões se esvaziaram do oxigênio que acumulava.

O rosto recuperou a palidez, e Jesus pediu para absorver Seus algozes, dizendo: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!”. O processo de asfixia recomeçou e Ele se utilizou desse mecanismo para proferir as sete frases ditas na cruz.

Com rosto e corpo cobertos pelo próprio sangue, Jesus ainda teve o peito perfurado, por onde jorrou sangue e água, até o Seu último suspiro.”


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