O ARO DO DEDO ANULAR

Durante décadas usei aliança para identificar-me como um homem casado e atender a convenções da sociedade a qual pertenço. Acontece de o meu corpo rejeitar contato prolongado com qualquer tipo de metal. Dá-me uma espécie de comichão que me leva, ao chegar em casa, retirar todo adereço que estiver portando.

Esse tira e bota da aliança tinha um desfecho anunciado. A dita e benzida argola escafedeu-se durante uma desarrumação no meu escritório. Para evitar desavenças, firmei um pacto com a madame acordando em repor nova aliança no dedo anular (ou anelar), quando das bodas de ouro do nosso enlace.

O fato despertou em mim a curiosidade de saber o significado desse símbolo no matrimônio, e as razões das exigências das senhoras quanto ao uso da argola por seus parceiros, enquanto nenhuma importância é dada à sua presença em dedos masculinos, por determinadas senhoritas.

Realmente, o casamento é um ritual carregado de significados nas diversas culturas do planeta. Aliança, véu, grinalda, vestido branco e buquê não podem faltar em matrimônios na nossa cultura ou em outras do mundo ocidental.

Aliança – A forma circular desse adereço, sem começo nem fim, representa a continuidade do amor e a devoção do casal, além de eternizar o amor de ambos. Crença antiga afirmava que no anular existia uma veia que levava ao coração.

Véu – Simboliza o estar saindo da vida de solteira para encarar a condição de esposa. Em árabe, véu, é “aquilo que separa duas coisas”. Também faz referência à Vesta, deusa da honestidade, tida como a protetora do lar.

Vestido branco – Vestir a noiva de branco foi popularizado no século XIX, quando do casamento da rainha Vitória, da Inglaterra. Antes não existia especificidade de cor para a cerimônia. O branco simboliza a castidade e a pureza.

Grinalda – A grinalda dá a noiva o aspecto de rainha, diferenciando-a dos convidados. Quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e riqueza.

Buquê – Na antiguidade, o buquê era formado por uma mistura de alho, ervas ou grãos. O alho afastaria os espíritos maus e, os grãos ou ervas, garantiriam uma união frutífera. Atirar o buquê é uma forma de dividir a felicidade da noiva com os convidados.

Bolo e bem-casados – Os antigos romanos partiam o bolo na cabeça da noiva para desejar fertilidade ou abundância. Já os doces bem-casados, além de ser um agradecimento aos convidados, simbolizam a eterna união dos noivos.

Lua-de-mel – Tem origem em costume dos germânicos de casar na lua nova. Durante a cerimônia os noivos bebiam uma mistura de água com mel para lhes trazer boa sorte. Entre os romanos era comum pingar gotas de mel na porta de entrada das casas dos noivos para desejar-lhes uma vida doce.

Porém, na jocosidade popular, a aliança na mão direita da mulher é uma provocação para mulheres que ainda estão encalhadas; quando migra para a mão esquerda, é um aviso a desafetas que ela já se deu bem e está estabilizada da vida.

Quando o parceiro parte desta para melhor, e a viúva junta as duas alianças no mesmo anular – a dela e a do falecido -, segundo línguas ferinas, tanto representa uma exaltação ao sentimento de perda e um preito a ausência do companheiro, quanto um alerta de que está disponível para um novo relacionamento.
E haja interpretação para o uso da argola no dedo anular!



A VELHA PONTE DE IGAPÓ

Quem atravessa o Rio Potengi, em Natal, pela ponte rodoferroviária presidente Costa e Silva, em direção ao oeste do Estado, nota, à sua direita, o esqueleto incompleto de uma estrutura metálica enferrujada pertencente a velha ponte de Igapó.

A ponte velha foi inaugurada no dia 20 de abril de 1916. A construção coube a um consórcio anglo-brasileiro durante o governo de Joaquim Ferreira Chaves, pela qual se pagou a quantia de 2 contos, 474 mil e 940 réis. Tratava-se da maior obra ferroviária do Norte e Nordeste do país.

Imagem da Ponte de Igapó em 1916, depois de inaugurada…

Constava de vãos em treliças metálicas com 520 metros de extensão, que uniria as duas margens do rio Potengi. Todas as peças da estrutura foram moldadas em Darlington, na Inglaterra. Do mesmo local se originou o material para as construções das pontes Hercílio Luz (1926), em Florianópolis, e Florentino Avidos (1927), em Vitória.

A velha ponte atendeu a antigo anseio da população de regularizar o escoamento da produção das zonas salineira e açucareira do Estado para o porto de Natal, porque os trens da Estrada de Ferro Central, que ligavam o interior à capital, esbarravam na margem oposta do Potengi sem concluir a etapa final da viagem. Inaugurada, a ponte cumpriu o seu papel funcional durante 74 anos.

Em 1990, uma decisão precipitada de governo, apoiada em orientação tacanha e despropositada, resultou em leilão da obra de arte ferroviária para o reaproveitamento do aço, numa época em que o Brasil atravessava escassez do produto.

Não demorou muito tempo para suspenderam a operação de desmanche da ponte por se mostrar antieconômica, mas o mal já estava feito. Haviam desvirtuado um monumento histórico, quase secular, ao subtraírem 200 metros da melhor Engenharia ferroviária produzida no início do século XX.

O desastre acarretado com o desmonte de parte da velha ponte de Igapó revoltou o natalense, já acostumado com a imponência daquele símbolo de uma época. Porém, não ocorreu qualquer manifestação pública de protesto.

Houve, sim, uma voz coerente e isolada, nesse marasmo de falta de providências contra a agressão cultural a ser perpetrada pelo Estado. Partiu do colunista social Paulo Macedo, no seu espaço no Diário de Natal. O jornalista lançou a ideia de se estacionar um vagão-restaurante no vão central da ponte para explorar a cozinha regional nordestina.

Imaginava ele, que alguém posicionado sobre e no meio do rio Potengi, diante de paisagem diferenciada, desfrutaria de uma experiência única. Tal restaurante seria uma atração turística pela criatividade e ineditismo do empreendimento, e a ponte resultaria salva. Ao apelo fizeram ouvidos moucos.

Escaparam de destinos idênticos ao da velha ponte de Igapó, as pontes metálicas congêneres Hercílio Luz e Florentino Avidos. Tiveram a sorte de serem protegidas por dirigentes que souberam respeitar e preservar o patrimônio público histórico que possuiam.

Recuperadas, elas envaidecem catarinenses e capixabas, e são cartões-postais para turistas que visitam os seus estados. Enquanto isso o que restou da antiga ponte de Igapó, com 102 anos de existência, tornou-se um monumento à insensibilidade e ao desatino de determinados gestores públicos.

…e após ser desvirtuada, na década de 1990



A VARIG EXISTIU

Dentre os nomes de marcas mais conhecidas do público, o da Varig constaria entre os primeiros lugares em qualquer pesquisa que apontasse qual a mais lembrada companhia aérea brasileira. Faria jus a colocação porque se diferenciava das demais concorrentes, por larga margem de distância.

A Viação Aérea Rio-Grandense foi fundada, em 1927, por Otto Ernst Meyer, ex-piloto alemão aqui naturalizado. A primeira empresa de aviação brasileira começou a operar com um hidroavião, em rota regional entre Porto Alegre e Rio Grande.

Estrela brasileira no céu azul
Iluminando de Norte a Sul

A Varig viveu o apogeu da aviação entre os anos 1950 e 1990, e credita parte dessa expansão à administração Ruben Berta, o primeiro funcionário contratado da empresa. A partir de 1996, a situação econômica do país em baixa e falhas na administração abalaram a empresa resultando numa moratória.

Em toda sua história a Varig operou 102 destinos – 32 nacionais e 70 internacionais -, sendo a única companhia aérea brasileira a voar para todos os continentes. As aeronaves adquiridas pela Varig eram as mais avançadas em tecnologia da época. Sendo a “eterna pioneira”, foi a primeira a enveredar na era dos jatos.

Mensagem de amor e paz
Nasceu Jesus, chegou Natal

Para compensar a precariedade dos serviços em terra, a empresa apostou no alto nível de conforto das aeronaves e no excepcional serviço de bordo para todas as classes. Isso lhe rendeu o reconhecimento internacional ao ponto de ser comparada às melhores companhias do mundo.

Os passageiros da primeira classe se deleitavam com mimos do tipo perfume francês e creme para as mãos, além de bebidas importadas e caviar. Nas demais classes o nível de atendimento primava, também, pela excepcional qualidade.

Papai Noel voando a jato pelo céu
Trazendo um Natal de felicidade

Eu operei em rotas internacionais e realizei um sonho meu. Aliás, o sonho de toda comissária de bordo. As refeições eram servidas em louça de porcelana japonesa e talheres de prata. Puro bom gosto!” – comentou uma norte-rio-grandense, ex-comissária de bordo, funcionária da Varig até a sua extinção.

Durante muitos anos a Varig foi patrocinadora da seleção brasileira de futebol. Nas visitas que enveredou ao Brasil, foi num avião da Varig que o Papa João Paulo II retornou para casa.

E um ano novo cheio de prosperidade

Entretanto, foi através de propagandas bem elaboradas que a Varig se fixou na lembrança do povo brasileiro. A Rosa dos Ventos estampada na cauda das aeronaves e a logomarca Varig na fuselagem, identificavam de imediato os aviões da companhia aérea.

Os jingles publicitários veiculados pelo rádio e televisão, ajudaram bastante a consolidar a marca. Tal foi o poder de uma dessas vinhetas – cuja letra está intercalada neste texto -, que ainda hoje a imagem da empresa nos volta a lembrança.

Varig, Varig, Varig…

Sim, a Varig existiu e orgulhou o Brasil!



O PAÍS DO RETROCESSO

Pronto! Agora descobrimos como desestabilizar o Brasil sem violência nem derramamento de sangue. Basta uma greve bem orquestrada e pacífica como a dos caminhoneiros, a qual assistimos passivos no mês passado. Em apenas dez dias de mobilização eles fizeram conosco o que Nicolás Maduro fez com a Venezuela em cinco anos de governo: paralisar toda a estrutura social, produtiva e econômica da nação.

Com um pouco de exagero, só não experimentamos o gosto amargo do êxodo em massa da população, para a circunvizinhança do Brasil, graças ao cansaço e a saudade de casa de parcela dos grevistas.

Todo esse desconforto que atravessamos serviu para ressaltar a fragilidade do sistema de transportes posto em prática no Brasil, a partir 1959, quando resolvemos privilegiar as estradas de rodagem em detrimento das vias férreas.

Explicando melhor: países com extensões territoriais semelhantes ao nosso possuem grandes malhas ferroviárias. O transporte ferroviário além de ser capaz de transportar quantidades elevadas de cargas de uma só vez, oferece um custo por tonelada/quilômetro conduzida bem inferior ao praticado no mundo rodoviário.

Não é à toa que países como Estados Unidos e Rússia elegeram o transporte ferroviário para dar a fluidez ideal na maioria das cargas. Na parte ocidental da Europa a ferrovia também é essencial para o deslocamento de bens e de passageiros.

E o Brasil, como fica nesse contexto? No período de 1870 a 1930, fim da República Velha, as ferrovias brasileiras escoaram a maior parte da produção agrícola do país, sobretudo o café, do interior para portos articulados com a navegação de longo curso. Na época, existiam 29.000 quilômetros de ferrovias ativadas.
No primeiro governo de Getúlio Vargas, os investimentos no setor rodoviário ascenderam os do modal ferroviário que, ainda assim, representou importante papel no desenvolvimento da nação até meados do século XX. Em 1947 possuíamos 35.623 quilômetros de ferrovias.

Em países-continentes, o transporte rodoviário atua com perfeição na cadeia logística intermodal do transporte porta a porta. Apanha as cargas em terminais ferroviários ou portuários e as entrega em destinos de curta distância.

Para melhor avaliação, na atualidade, enquanto os Estados Unidos possuem uma malha ferroviária de 293.564 km, o Brasil dispõe de 30.600 km construídos, ou 11% da malha norte-americana. E pior: 5.023 quilômetros a menos do total existente no auge da era ferroviária.

Condoía-me assistir, no meu Estado, arrancarem trilhos de ramais ferroviários desativados, os mesmos pelos quais eu trafegara de trem na infância. Quando engenheiro, a revolta se ampliou por construir estradas onde antes existiam ferrovias, ajudando no desmonte do modal que alavancaria o desenvolvimento do país.

No mês de maio passado, constatamos o mal que fizemos ao Brasil ao sufocarmos o crescimento das ferrovias, única opção efetiva para enfrentar o monopólio instituído pelo transporte rodoviário de cargas e de passageiros.

Se tivéssemos ferrovias suficientes, ninguém exigiria tabela mínima de preços para o transporte de longa distância, nem falaria em crise do diesel ou em melhores condições de tráfego nas estradas. Tampouco, ficaríamos reféns do poder de uma categoria que pode desestabilizar o país no tempo e na hora que bem lhe aprouver.

Haja retrocesso nisso!

Quando assistiremos a desfiles de comboios com a extensão e a variedade de cargas do acima mostrado, percorrendo o nosso território?



EU E A COPA DE 58

Vídeo de empresa patrocinadora oficial da seleção dos brasileiros na Copa do Mundo da Rússia mostra Pelé e Gabriel Jesus postados num túnel, à beira do gramado de um estádio de futebol, enquanto uma criança filma o encontro.

Pelé, 78 anos, aconselha Gabriel Jesus, 21 anos, tomando a si como exemplo quando estreou na primeira Copa de sua vida, em 1958, na Suécia. A lenda viva do futebol mundial dá o seguinte recado ao jogador iniciante em Copas:

“Eu fiz a mesma coisa sessenta anos atrás. Olha, só se preocupe em dar o seu melhor. Eu estou olhando para você e estou me vendo. Mas, não no passado, eu vejo o futuro…”

… E continua: “… Aproveita porque passa muito rápido. Conte sempre com os seus companheiros. Ninguém faz nada sozinho. Essa camisa Gabriel, não é minha nem é sua, ela é de um país inteiro. Aqui fora, está todo mundo com você. Lá dentro também vai estar.”

O recado acaba sendo extensivo a todos os brasileiros, enquanto esconde um vaticínio. Pelé, ao estrear na Copa de 58, com 18 anos incompletos, era o atleta mais jovem da equipe brasileira, tal qual será Gabriel Jesus na Copa da Rússia.

Pelé só entrou em campo na terceira partida da competição contra a União Soviética, jogo que o credenciou como dono absoluto da camisa 10 da seleção, enquanto jogou futebol. Acabou campeão mundial e consagrado mundialmente. Acontecerá o mesmo com Gabriel Jesus? Esse é o enfoque em debate no monólogo do vídeo.

Na Copa de 1958, eu era um moleque que abdicara das calças curtas havia pouco tempo. Curtia as férias de meio do ano, com meus irmãos e irmãs, na casa dos nossos avós, situada numa cidade interiorana do Rio Grande do Norte com não mais de um milhar de habitantes. Em São Rafael não existia água encanada nem luz elétrica regular. A cidade era iluminada por um grupo gerador de energia da prefeitura municipal, que funcionava das 18:00 às 22:00 horas. Nenhuma residência possuía gerador próprio.

O destino foi cruel com a cidade de São Rafael. Na década de 80, escolhida como a melhor localização para a construção da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Oeste do Estado, terminou inundada por 2,4 bilhões de metros cúbicos de água e apelidada de Atlântida Potiguar.

O grupo de peladeiros, do qual eu fazia parte, ouviu os jogos do Brasil numa calçada, recostado na janela de uma casa de família onde funcionava um rádio à bateria. Eu me integrei à turma de ouvintes no último jogo da competição, quando o Brasil enfrentou a Suécia. Era minha primeira Copa.

Lembro-me da angústia dos garotos quando a Suécia fez o primeiro gol do jogo; bem como, das explosões de alegria com os gols do Brasil. Aos 23 minutos do segundo tempo, a estridência da estática na transmissão da partida impediu de ouvirmos direito o nome do autor de mais um gol, o quarto do Brasil.

Quem fez o gol? – perguntei ansioso.

Foi um tal de Zé Galo! – respondeu um membro da turma, sem qualquer maldade, inocente quanto a existência de Mário Jorge Lobo Zagallo, o ponta-esquerda da seleção canarinho.

Aquela foi a Copa do Mundo que guardei na lembrança. Eu, um jovem repleto de sonhos e de esperança na vida que tinha pela frente, sessenta anos atrás.

Seleção brasileira Campeã do Mundo em 1958. Em pé, da esquerda pra direita: Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados, da esquerda pra direita: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e o massagista Mário Américo.



O PENSADOR DE IPANEMA

Entre os anos 1978 e 79, em viagem ao Rio de Janeiro, resolvi fazer uma caminhada pela orla indo do Leme ao Leblon. Em Ipanema notei alguém, cuja fisionomia me pareceu familiar, vindo na minha direção num passo acelerado. Tratava-se do desenhista, tradutor, dramaturgo, humorista e pensador brasileiro Millôr Fernandes.

“Celebridade é um idiota qualquer que aparece na televisão”

Naquela época eu nem sonhava em escrever textos para qualquer jornal. Achava-me incompetente sem nada para oferecer de interessante ao leitor. O único predicado que possuía era uma gana desmedida por leitura. Lia até classificados.

“Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”

Vendo-o se aproximar de mim, tomei uma decisão rápida: vou me apresentar e lhe fazer algumas perguntas. O que perguntar, eu não tinha a mínima ideia.

“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”

Emparelhado com o dito, parei, na esperança de que ele também parasse. Deixei escapar um sonoro “Bom dia, Millôr!”, tentando entabular um papo.

“Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida”

Ou não me fiz entender ou ele não quis interromper o seu exercício. Continuou na caminhada deixando-me ali, com cara de paisagem, vendo-o se afastar.

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos”

Pus-me então, na posição do pensador, pois eu também não quebraria o ritmo de uma caminhada para atender a um desconhecido desejando insinuar a intimidade que não possuía com um interlocutor famoso.

“Se durar muito tempo a popularidade acaba tornando a pessoa impopular”

Não por isso deixei de admirar o vasto trabalho de Millôr nos livros, revistas e jornais onde ele publicava sua produção autodidata, um misto de inteligência, ironia e sátiras, emolduradas por refinado espírito cômico.

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”

Quanto deleite nos deu a coluna Pif-Paf, subscrita por Vão Gogo, personagem criado por Millôr Fernandes para servir-lhe de pseudônimo. E o que dizer dos desenhos divertidos de Retrato 3×4? Ambos publicados na revista O Cruzeiro?

“Quem fala muito mente sempre porque se esgota seu estoque de verdades”

Na revista Veja, de 1968 a 1982, Millôr ocupou duas páginas com o seu humor gráfico. Deixou o semanário por sentir sua liberdade criativa cerceado por apoiar Leonel Brizola, então candidato ao governo do Rio, em oposição a Moreira Franco.

“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”

Millôr Fernandes morreu em março de 2012. O governo do Rio de Janeiro dedicou-lhe um recanto, entre as praias do Diabo e do Arpoador, chamado Largo do Millôr. Nele existe um banquinho onde se incorporou um monumento com a silhueta do homenageado na postura do Livre Pensador, de Rodin, criação de Chico Caruso.

“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é”

Numa próxima viagem ao Rio, sentar-me-ei no tal banquinho e, com o mesmo “Bom dia, Millôr!”, terminarei a conversa que sequer iniciei décadas atrás.



SÊNECA E A BREVIDADE DA VIDA

Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) foi filósofo, dramaturgo e escritor, considerado um dos expoentes intelectuais no início da Era Cristã. Nascido em Córdoba, Espanha, ainda jovem radicou-se em Roma onde recebeu educação refinada.

Foi conselheiro nas cortes dos imperadores Calígula, Cláudio e Nero. Esse último, um de seus pupilos, tornou-se, no futuro, seu carrasco ao forçá-lo ao suicídio.

A morte de Sêneca, de Rubens

O pensamento de Sêneca enfatiza medidas práticas que ensinam como enfrentar os problemas da vida e como encarar sem temor a certeza da morte. Na sua obra Sobre a brevidade da vida, Sêneca tenta nos orientar para a possibilidade de atingir a tranquilidade da alma e os meios de fazê-lo.

Neste texto destaquei alguns dos ensinamentos do filósofo ainda atuais e inspiradores, mesmo transcorridos mais de dois milênios de concebidos.

• Pequena é a parte da vida que vivemos, pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.

• Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

• Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começar a viver?

• Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo.

• Ninguém valoriza o tempo, faz-se uso dele muito largamente como se fosse gratuito. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente.

• …assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim.

• A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazemos é breve, o que faremos dúbio, o que fizemos, certo. Na verdade, o destino perdeu o controle sobre o passado, ninguém pode querer recuperá-lo.

• Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada.

• A vida abandonou a alguns logo na sua primeira fase, antes de conseguirem atingir o máximo de sua ambição; a outros, após terem cometido diversas desonestidades e galgado a mais elevada posição, vem-lhes à mente a amarga convicção de ter trabalhado tanto por uma vã inscrição num túmulo.
Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.

Sêneca, certamente, não deixou apenas o seu nome numa lápide.



GENTE COMO A GENTE

Por que a realeza ainda exerce tanto fascínio mundo afora? Talvez porque exista muita gente querendo viver um conto de fadas como reis e rainhas, príncipes e princesas. Enquanto essa ilusão não se materializa, essa gente contenta-se em admirar o gozo de outros, especialmente, se quem galgar àquele mundo encantado seja uma plebeia como Meghan Markle, tão gente quanto a gente.

Há 127 anos o Brasil viu desmoronar a monarquia, mas permaneceu encruado na memória do nosso povo o vírus do regime político. Entre os brasileiros, aos que se distinguem por seus valores ou por suas ações extraordinárias não se atribuem tratamentos do tipo herói, ídolo ou expoente nacional. A pessoas lendárias, em diferentes atividades, lhes tascam, de imediato, o epíteto de Rei ou Rainha.

No futebol temos o Rei Pelé, na música o Rei Roberto Carlos e nas novelas a Rainha da Sucata. Se o empresário desejar alavancar as vendas de qualquer produto basta alia-lo à realeza: Rei dos Colchões, Rainha dos Brinquedos, et cetera e tal. Tudo para fazer pensar que gente como a gente pode desfrutar do mundo da realeza.

Das 28 monarquias existentes no mundo, a maioria delas não exerce qualquer poder de mando em países sob sistemas parlamentaristas ou presidencialistas. Os membros dessas cortes atuam como figuras decorativas dando apenas continuidade a tradições seculares, onde súditos adoram venerar seus reis.

Sim, a tradição é a força motriz desses regimes, dentre os quais se sobressai o Reino Unido da Grã-bretanha. A família real inglesa já ensaiava se aproximar de gente como a gente, desde quando o Rei Edward VIII, também imperador da Índia, abdicou do trono para casar com a americana divorciada Wallis Simpson, em 1936.

Na modernidade a princesa Diana, mais conhecida como Lady Di, antes da coroação gente como a gente, tornou-se a queridinha dos súditos. Ao ser traída pelo esposo Charles, o príncipe de Gales, com o qual teve os filhos William e Harry, rompeu com a realeza e foi viver a própria vida retornando à condição de gente como a gente.

Agora, se viva fosse, a princesa Diana veria o seu filho imitando o tio-avô Edward ao se casar com uma divorciada, ainda por cima mulata. Aplaudiria o filho quebrando tabus ao usar barba com uniforme militar e convidando um bispo americano negro para abrir a cerimônia do seu casamento, e esfregar na cara da monarquia a responsabilidade pela desgraça do comércio escravocrata nos séculos XVII a XIX.

Acontece de todos eles também serem gente como a gente, quando se trata de manias, vícios, desejos, fraquezas, maldades, egoísmos, mesquinharias e traições. A diferença está na capacidade de controlar ou bem esconder tais sentimentos degradantes de seus vassalos, gente como a gente.

No que pese a aura de quase divindade atribuída a membros da família real inglesa, nunca se ouviu falar que, no meio de gente como a gente, mesmo motivado por uma paixão arrebatadora, alguém desejasse servir de absorvente íntimo para a amada, como confidenciou Charles para Camilla num telefonema grampeado:

Charles – Quero passear ao longo do teu corpo inteiro, passar sobre você, para cima e para baixo, para dentro e para fora. Eu poderia, simplesmente, viver dentro de tuas calças ou alguma coisa assim… Seria muito mais fácil!

Camilla – Você vai virar o quê, uma calcinha? Você vai voltar na forma de uma calcinha?

Charles – Ou então de um Tampax. Queria ter essa sorte!

Vossa Alteza, poupe-nos, isso não é desejo nem sorte de gente como a gente, não!



ODE AO AMOR

É difícil falar de amor sem parecer piegas. Ainda assim, resolvi entoar este cântico, mesmo correndo o risco de enveredar por um caminho ridicularmente sentimental. Que seja!

Afinal, o que é o amor e como defini-lo? Viajemos no tempo. O termo tem origem no latim amor, e guarda o mesmo significado de agora: afeição, carinho, afeto. Entretanto, definir amor é tão difícil quanto complexo, pois ele se apresenta sob diferentes formas e significados variados.

O amor pode estar num abraço, num olhar, num beijo prolongado. Ele se propaga, naturalmente, entre um homem e uma mulher, porém pode acontecer entre dois homens ou entre duas mulheres. Quando ele é verdadeiro ultrapassa barreiras sociais, raciais e econômicas.

O amor pode ser fraternal, incondicional, próprio, entre amigos e amor ao trabalho. Dizem que o amor é cego, e que é uma bela jornada. Afirmam, também, que ninguém consegue viver sem tal sentimento, que pode até durar para sempre – não se trata aqui do amor espiritual ao Deus de cada um.

Alguns filósofos, da antiguidade, assim definiram o amor:

Sófocles – Uma palavra nos liberta de todo peso e da dor da vida: essa palavra é amor.

Platão – Ao toque do amor todas as pessoas se tornam poetas.

Aristóteles – O amor é formado por uma única alma habitando em dois corpos.

E o que dizer do amor platônico? Aquele que você sabe que nunca vai ter, mas que é bom assim mesmo. O beijo é a mais significativa expressão de amor que o ser humano conhece. No beijo também se esconde a manifestação do que chamamos paixão. Esperem! Amor e paixão não representam o mesmo sentimento?

A psicologia define a paixão como a atração pela idealização que fazemos do próximo, e não, necessariamente, pela pessoa como verdadeiramente é. Nas pessoas apaixonadas, as características de atração são as físicas. Ao contrário do amor, onde enxergamos muito além das aparências alcançando o interior das pessoas.

Estudos sobre o comportamento humano afiançam que a paixão pode durar semanas ou de um a dois anos. Após esse período ou finda o relacionamento, ou se inicia uma verdadeira história de amor.

O amor é o combustível para o romantismo e inspiração para a poesia. Daí textos e músicas que falam de amor, tocar tão fundo em almas sensíveis.

Poucos poetas cantaram tão bem o amor, e com tanta intensidade e profundidade, como o cronista e poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Uma das amostras é o pequeno retalho a seguir, extraído de uma de suas obras, O Amor:

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer o seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção, pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro ou, às vezes encontram, e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar sem deixa-lo acontecer verdadeiramente…

Evite que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.



NA SAÚDE E NA DOENÇA

O noivo pode até ignorar detalhes da festa ou do vestido da noiva na cerimônia do casamento; a noiva, por sua vez, pode não lembrar o modelo do traje do amado ou do buquê que lançou para as amigas; porém, certamente ambos jamais esquecerão o instante do juramento proferido no altar durante a união do casal:

Eu (fulano ou fulana) recebo a ti, (fulana ou fulano), como minha legítima esposa (ou legítimo marido), e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de nossa vida, até que a morte nos separe.

A empolgação daquele momento realça no imaginário de ambos somente os pontos positivos da promessa declarada: alegria, saúde, riqueza, amor e fidelidade. Ninguém atenta para o reverso da medalha, onde e quando poderão enfrentar tristezas, doenças ou a pobreza em algum momento da união.

Não importa e nem existe espaço para tais pensamentos. Ali eles vivenciam instantes felizes de propriedade exclusiva do casal. Na promessa, os nubentes dão ênfase ao amor. Cá entre nós, mas se forem somente frases lançadas ao vento? Impossível! O sentimento chamado amor não se resume a palavras.

O amor se faz presente nas ações espontâneos, em achados inesperados, na beleza da doação mútua, ao se entregar sem cobranças, no prazer de dividir e na felicidade de compartilhar. São manifestações que nunca deixarão a união entre casais que se amam verdadeiramente, perder-se no limbo.

Aqui abro um parêntese. Laura e Manoel, meus pais, partilharam um casamento de 65 anos. Ambos tinham a mesma idade. Nesse período, certamente houve turbulências, porém, nada que desestruturasse o enlace. Meu pai morreu primeiro, minha mãe, sete meses depois, de saudade e solidão.

Nada nem ninguém conseguia afastá-la da lembrança do esposo. Em suas orações rogava ao companheiro que viesse buscá-la. No aniversário de um dos netos, ela, eufórica, revelou aos presentes uma cena contumaz no seu sono noturno:

Nos meus sonhos, Manoel aparece postado sob a sombra de uma árvore. Uma cerca nos separa. Ele acena em despedida e parte. Ontem foi diferente. Manoel, antes de se afastar, me chama para acompanhá-lo. A cerca estava arriada.

No mesmo dia, dona Laura faleceu por força de um infarto anunciado. Não suportou a ausência daquele a quem havia prometido ser fiel, respeitar e amar durante toda a sua existência. Na ótica de minha mãe, somente a morte iria juntá-los novamente. Este exemplo define ou não um amor verdadeiro? Fecho parêntese.

No meu entender, das promessas contidas no juramento matrimonial, a mais significativa é a conservação do respeito, da fidelidade e do amor durante a doença de um dos cônjuges. Porque, uma coisa é amar na saúde e na beleza; a outra, é querer bem na decrepitude e na feiura com a mesma intensidade.

Ninguém casa com a expectativa de separação na cabeça, embora supondo que o cotidiano embote o brilho da convivência a dois. Imperceptível, também, é o mecanismo sublime que interfere a favor da união do casal que se ama.

Expondo a um amigo minha teoria para casamentos duradouros, perguntei-lhe qual a receita para o seu relacionamento de meio século. Ele respondeu:

Tolerância, meu caro! Justificamos muitos dos atos que praticamos creditando-os a carências masculinas, sem atentarmos que as mulheres possuem necessidades assemelhadas às nossas. O segredo é esbanjar tolerância!

Acolhamos a voz da experiência. Tenho dito!



SER AVÔ NA MODERNIDADE

Acabou-se o tempo em que as famílias se reuniam em torno da mesa para entabular conversas descontraídas durante o almoço ou jantar. A mania salutar dos papos nas salas de estar deixou de existir. Na atualidade, não se encontra espaço nem tempo no agitado cotidiano das pessoas, para a troca de ideias no seio familiar.

Pudera, o progresso inseriu novos procedimentos nos costumes de nossos antepassados com o advento da internet e de aplicativos inteligentes. Em anos não tão distantes, sabíamos o que ocorria no país e no mundo mediante o jornalismo impresso ou através de noticiários na televisão. Agora, toda e qualquer informação é obtida mediante consulta a aparelhos eletrônicos manuais, em tempo real.

A evolução tecnológica da pequena maquininha, antes denominada telefone celular porque funcionava somente como um telefone portátil, ocasionou mudanças bruscas em costumes e padrões comportamentais da sociedade brasileira e de diferentes civilizações deste mundão de meu Deus.

Dados da Anatel indicam que o Brasil terminou março de 2018 com 235,8 milhões de celulares, ou seja, com uma densidade de 112,98 celulares por 100 habitantes. Essa proporção aponta que o número de celulares em uso ultrapassou o de habitantes no país. Isso mesmo, cada brasileiro detém, hoje, 1 celular e fração de outro.

Ainda que sob o efeito deletério em costumes tradicionais, por conta do uso abusivo de telefones inteligentes (smartphone) e de computadores portáteis (tablet), muitas famílias insistem em preservar resquícios dos antigos hábitos. Talvez, para não deixar a modernidade se apossar das boas lembranças do passado.

Ser avô ou avó é uma delícia! Curtir os netos sem as responsabilidades do papel dos pais, deixa a relação mais leve e interessante. Eu insisto em manter um contato físico semanal com meus filhos, netos, genros e nora – nem sempre é possível reunir a todos. Entendo que tais bate-papos consolidam a noção de unidade familiar.

Os netos, porém, fogem à regra. Ao invés de participarem das conversas entabuladas preferem a companhia de aparelhos iMac, iPod, iPhone, iPad e iTunes, que os divertem e acalentam a curiosidade latente em cada um deles.

Acontece de o vício decorrente do manuseio dessas geringonças haver extrapolado todos os limites admissíveis da racionalidade, fugindo do controle dos pais ou de responsáveis pela educação das crianças, por negligência ou descaso – é comum utilizarem os aparelhos para aquietar moleques renitentes ou malcriados.

No meu caso, quando em nossas reuniões, estipulei regras rígidas, claras e simples para a utilização de tais aparelhos: não é permitido o uso de nenhum deles na casa dos avós. Para compensar a proibição lancei mão de jogos manuais, quebra-cabeças, brincadeiras grupais e outros tantos artifícios para desviar a atenção deles das maquininhas, durante o rápido convívio conosco.

Como complemento, aprendi alguns truques de mágica que fazem tanto sucesso entre os netos, que eles já entram no apartamento gritando: Mágica!…Mágica!… Enquanto isso, o avô se diverte vendo-se alvo da atenção dos pirralhos numa interação saudável, mesmo assumindo o papel de um bobo-da-corte animador de plateias.

Certamente, tais momentos permanecerão vivos nas memórias de cada um deles, não deixando que se perca nas dobras do tempo o exemplo de como as coisas aconteciam num Lar Doce Lar… de antigamente.



RECORDANDO ROGER VADIM

Messier Roger Vadim foi um escritor, ator e diretor franco-argelino, nascido em 1927. Porém, não foi como cineasta que alcançou notoriedade, mas, por haver casado com belas mulheres: as francesas Brigitte Bardot e Catherine Denueve, a dinamarquesa Annette Stroyberg e a estadunidense Jane Fonda. Com exceção de Annette, as demais se transformaram em monstros sagrados do cinema.

Vadim, além de conquistar três das mais cortejadas atrizes do mundo, e as despir nas telas, ele também desnudou o íntimo de cada uma delas, com a mesma classe e elegância, enfatizando o que pensavam, como viviam e como amavam, no seu livro As Memórias de Roger Vadim – Bardot, Deneuve & Fonda.

Num relato fluente e picante, ele prende a atenção do leitor, do primeiro ao último parágrafo, como quando da iniciação sexual de Bardot: …enquanto se vestia, depois de fazer amor pela primeira vez, Brigitte perguntou: – Sou uma mulher de verdade, agora? – Não muito – respondi. – Talvez uns vinte e cinco por cento.

No segundo encontro, depois de termos feito amor, ela perguntou novamente: – Sou uma mulher de verdade, agora? – Uns cinquenta por cento – respondi.

Em sua terceira visita, anunciei: – Cem por cento. Brigitte bateu palmas, correu até a janela e abriu-a tanto quanto pôde. – Sou uma mulher de verdade! – exclamava ela, acenando para os transeuntes na rua, que olhavam para cima em estado de choque. Em seu entusiasmo, ela se esquecera de que estava completamente nua.

Ele resume o capítulo sobre Bardot, afirmando: Possuía um dom para a infidelidade, mas sempre sofria quando estava de caso com mais de um homem ao mesmo tempo.

Por essa e outras inconfidências, Brigitte e Deneuve processaram Vadim por violação de privacidade, o que retardou a publicação do livro na França. Ganho o embate judicial, o autor alcançou enorme sucesso com as suas memórias.

Quando Bardot o abandonou para viver com Jean-Louis Trintignant, Vadim conheceu Annette Stroyberg com quem casou após engravidá-la de Nathalie, sua primogênita. Ela não demorou muito, e já o estava traindo com Sacha Distel.

A paixão entre Roger Vadim e Catherine Deneuve foi arrasadora: menos de vinte e quatro horas depois de se conhecerem já foram para a cama. Assim ele descreveu o encontro: …entramos no quarto em que o abajur de Jean Genet, um pouco estiolado e inclinado para o chão, me fez lembrar que fizera amor com Brigitte, pela primeira vez, naquela mesma cama, dez anos antes.

Catherine deu-lhe um filho, Cristian, mas, ao se apaixonar por Johnny Halliday, não hesitou em largar Vadim. Conviveram durante cinco anos sem casar. Ele sintetiza o caso, assim: Tinha 17 anos, e eu, 32. Mas a idade não faz diferença. Nem a experiência, para mulheres que sabem das coisas sem precisar aprendê-las.

O caso de amor com Jane Fonda durou oito anos. Vadim a amava e à filha de ambos, Vanessa. Quando a paixão esmaeceu em Jane, ela o deixou para casar com Tom Haiden. Sobre a atriz, ele assim resumiu o relacionamento: …Nossa relação erótica era intelectualmente equilibrada entre a ternura e voos de grande fantasia.

Mesmo separado de suas ex-esposas, Vadim continuou íntimo de todas, e sempre foi um pai presente e um ombro amigo para o apoio delas. Faleceu em 2000, com 72 anos de idade. Todas compareceram ao funeral.
A leitura das memórias de Vadim é um regalo para indivíduos que, como eu, vivenciaram seus anos dourados nas décadas de 60 e 70 e acompanharam as trajetórias das personagens do livro, desmistificadas cruamente por quem amou a todas.



DESCOMPLICANDO O TOMAR VINHO

É comum assistirmos, em restaurantes, a cena em que o cliente prova o vinho antes que o garçom o sirva, ensejando a um observador desavisado a seguinte pergunta: o que acontece se o cidadão não gostar do vinho que lhe foi servido? Ele rejeita a garrafa deixando o estabelecimento com o prejuízo?

Essa prova consiste em descobrir se o vinho é bom, não se ele está bom. Verificar se a bebida se encontra na temperatura adequada ou não está oxidada, condições que habilitam a devolução da garrafa. Na maioria dos casos, cliente e garçom agem sem saber a que se prestam, encenando papéis ridículos beirando o grotesco.

O primeiro, segurando a taça pela haste, balança-a em movimentos circulares; em seguida, a encosta num guardanapo ou a coloca contra a luz para verificar a cor da bebida; por fim, bochecha o vinho e o engole, numa munganga adequada para sessões de degustações, não para uma simples refeição.

O garçom, por sua vez, oferece a rolha de material sintético, para o cliente cheirar e comprovar se o vinho está ou não contaminado pela doença da rolha (bouchonné), um fungo encontrado, tão somente, em rolhas de cortiça. Essa e mais outras anomalias comportamentais do tipo, são responsáveis pela fuga de potenciais adeptos da bebida. Eles merecem o nosso perdão, porque não sabem o que fazem!

Na verdade, não existe complicação alguma em tomar vinho, basta observarmos determinados tópicos que se responsabilizam pelo equilíbrio da bebida e nos fazem seus apreciadores. Alguns deles são o tanino, a acidez e o álcool.

Tanino – Está presente na casca e nas sementes das uvas tintas, e dá ao vinho estrutura para envelhecer. Em excesso, o tanino é áspero e deixa na boca a sensação parecida com a de banana verde. Um vinho com tanino equilibrado é uma bebida bem elaborada ou que já envelheceu por tempo suficiente.

Acidez – Um bom vinho precisa de acidez. Juntamente com o álcool e o tanino – no caso dos tintos -, a acidez responde pelo equilíbrio do vinho e por sua capacidade de envelhecimento. Ela ativa a salivação, tornando a bebida mais agradável.

Álcool – O álcool etílico no vinho resulta da fermentação do açúcar da uva e determina o corpo da bebida. Vinho muito alcoólico dá a sensação de doce, mas, se provocar calor e ardência na boca, indica que o álcool não está em equilíbrio com a acidez. É defeito.

Todavia, tudo tem a ver com o paladar do cidadão. Se o vinho lhe for agradável e lhe der prazer, certamente, se trata de uma bebida bem elaborada. Quando o vinho tinto parecer macio, levemente adocicado, não será surpresa se estiver diante de um vinho com alto teor alcoólico, acima dos 13%. Por outro lado, se o vinho estiver pegando, deixando a boca seca, não haverá dúvida: são taninos mal resolvidos.

O restante são penduricalhos que mais atrapalham do que ajudam o iniciante na arte de apreciar vinho. Porém, muita cautela para não parecer pedante ou cair no ridículo, ao atribuir a um vinho, sem a devida segurança, qualidades tais como: chato, amplo, austero, curto, magro, mofado, vinoso ou rançoso.

Para não ser tachado de alienado é de bom alvitre saber que o enófilo é aquele que gosta de vinho, o enólogo é a pessoa que trabalha o vinho e, o sommelier, é o responsável pelas cartas de vinhos e orientador da bebida ideal para combinar com o prato. Por fim, seja mais um descomplicado apreciador da bebida dos deuses.

Saúde!



ENTENDENDO A CRUCIFICAÇÃO

Este texto é obra de alguém com conhecimento de anatomia, possivelmente, um médico. Alguém, com conhecimento do corpo humano e de muita fé na crença que abraçou. Se o sacrifício de Jesus, para nos salvar, deu-se com o requinte de sofrimento aqui descrito, já seria razão suficiente para adorá-Lo incondicionalmente.

“Jesus entrou em agonia em Getsêmani ao suar sangue, ou seja, ao desenvolver hematidrose, que é um fenômeno raríssimo que acontece em alguém em condições excepcionais, quando possuída de terror, susto, angústia ou tensão extrema. Isto ocasiona o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, fazendo o sangue se misturar com o suor e escorrer por todo o corpo.

Ao ser preso Jesus foi levado a Pilatos que ordenou sua flagelação. As chibatadas que Lhe foram aplicadas, com tiras de couro contendo nas extremidades minúsculas bolas de chumbo e pequenos ossos, começaram a dilacerar e romper a pele de Jesus, que a cada golpe desferido reagia com sobressaltos de dor. Um suor frio impregnou-Lhe a fronte fazendo Sua cabeça girar em vertigem causada pela náusea.

Calafrios surgiram ao longo das costas em carne viva. Caso não estivesse preso pelas mãos, cairia e se banharia no próprio sangue. Em seguida, seus carrascos enfiaram-Lhe uma coroa de espinhos longos, que penetraram no couro cabeludo fazendo-o sangrar e causando-Lhe dores muito fortes.

A caminhada ao Calvário transportando uma cruz de aproximados 50 kg, deixaram Seus ombros cobertos de chagas. O percurso feito a pés descalços, por ruas cobertas de pedregulhos, arrastando um pé após o outro, além de puxões e chibatadas, ocasionaram frequentes quedas de Jesus, sobre os joelhos doloridos e sem forças.

Ao chegar ao local do sacrifício os soldados despojaram o condenado de Suas roupas, mas a túnica estava colada às chagas, que arrancaram sem qualquer cuidado causando imensa dor – basta lembrar o desconforto de retirar uma gaze de um ferimento. Então, o sangue de Jesus Lhe banhou o corpo.

Jesus foi preso na cruz a golpes de martelo em cravos fincados nos pulsos e nos pés. O penoso martírio do crucificado faz-Lhe contrair o rosto assustadoramente, em razão do nervo mediano ter sido lesado. A dor insuportável se difundiu pelos dedos e se espalhou pelos ombros, atingindo o cérebro – trata-se da sensação mais dolorosa que alguém possa provar, levando a vítima a inconsciência.

Mas, Jesus resistiu a mais essa provação já com os nervos parcialmente destruídos e uma lesão no tronco nervoso. O corpo, ao ser suspenso na cruz, faz o nervo se esticar como uma corda de violão, e a cada movimento da cruz acarretará dores lancinantes, no Seu caso, num suplicio que duraria horas.

Com sede, boca semiaberta, garganta seca, Jesus foi submetido a tortura atroz. A respiração curta, o rosto pálido, Ele respirava com o ápice dos pulmões, como um asmático em crise aguda. Os pulmões cheios de ar, mas sem poder esvazia-los, Jesus foi tomado pela asfixia. Com esforço sobre-humano, Ele tomou um ponto de apoio sobre o prego dos pés, elevou-Se, e aliviou a respiração, porque os pulmões se esvaziaram do oxigênio que acumulava.

O rosto recuperou a palidez, e Jesus pediu para absorver Seus algozes, dizendo: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!”. O processo de asfixia recomeçou e Ele se utilizou desse mecanismo para proferir as sete frases ditas na cruz.

Com rosto e corpo cobertos pelo próprio sangue, Jesus ainda teve o peito perfurado, por onde jorrou sangue e água, até o Seu último suspiro.”