FERNANDO PESSOA – DIZEM

Textos escolhidos e recitados por Maria Lectícia e José Paulo Cavalcanti

50 ANOS DO AI 5

Dia 13 de Dezembro foi um aniversário ao contrário. Um desaniversário, se essa palavra existir. Porque comemoramos só coisas boas. Desgraças, não. E, agora, temos 50 anos do AI 5. Mais um ato, dentro de vasto conjunto normativo destinado a institucionalizar o Golpe de 1964. Vamos aos números. Atos Institucionais foram 17 (último deles em 14/10/69 – autorizando transferir, para a reserva, militares “que hajam tentado contra a coesão das Formas Armadas”). Alguns mais relevantes. Como o AI 1 (9/04/64) – que, entre outras restrições, suspendeu as garantias do judiciário. E criou o “Comando Supremo da Revolução” (Revolução, assim auto-definiu-se o golpe), que seria a “única instituição autorizada a representar o povo brasileiro”. Foram 9, os Atos desse Comando Supremo. Primeiro deles, em 10/04/64, cassando Celso Furtado, Darci Ribeiro, Francisco Julião, Leonel Brizola, Luiz Carlos Prestes, Jânio Quadros, João Goulart, Josué de Castro, Miguel Arraes, Samuel Wainer e, mais, 90 brasileiros.

Depois, com o AI 2 (27/10/65), foram indicados os “valores revolucionários”. Com o novo Presidente passando, solitariamente, a ter poder para “editar Atos Institucionais, Atos Complementares (à Constituição) e Leis”. Com destaque, sobretudo e infelizmente, para o AI 5, com alentado conjunto de atos em flagrante violação à Constituição. Como a supressão do Habeas Corpus. Foi o mais agudo instrumento de arbítrio, durante o período de exceção. Um golpe dentro do golpe. Ficando excluídos de qualquer apreciação judicial, em todas as normas se repetiria, os atos praticados pelo novo governo.

Não parou por aí, essa normativa de exceção. Houve, mais, 27 Emendas à Constituição. 105 Atos Suplementares. E longa fila de Decretos Secretos (autorizados pelo Decreto 69.334/71). Entre 67 e 78, com base neles, tivemos 10.034 inquéritos penais contra agentes subversivos. Desses, com apenas 4% presos regularmente; 12%, com comunicação ao juízo fora do prazo legal; e 84% sem qualquer comunicação ao juízo. Três ministros do Supremo foram exonerados: Hermes Lima (Presidente), Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Elevando-se, o número de ministros, para 15 (só mais tarde voltando a ser 11). O golpe precisava de garantias contra surpresas do Judiciário.

Mas o AI5 não veio sozinho. No início de 1969 criou-se, oficiosamente, a Operação Bandeirantes – OBAN. Sob comando do II Exército. O ato informal de sua criação deu-se em 01/07/69. Com presenças do governador de São Paulo, Abreu Sodré; do prefeito da capital, Paulo Maluf; além de figuras proeminentes como Delfim Neto; o banqueiro Gustavo Vidigal; ou os empresários Henning Albert Boilesen, Luiz Macedo Quental e Paulo Sawaya. A OBAN foi responsável por boa parte dos 191 mortos, 210 desaparecidos e mais 33 desaparecidos cujos corpos conseguimos localizar, no curso dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.

Vênia para dizer que a reiteração da corrupção, que então corria solta, preocupava o poder. Uma primeira Comissão Geral de Inquéritos – CGI foi instaurada em 27/04/64. Para apurar corrupção dos governos anteriores, eleitos pelo povo. Mas logo veio a Segunda CGI, em 31/12/68, especificamente para estabelecer limites à corrupção dentro da Revolução. Entre civis e militares. Os resultados modestos, nas apurações desta segunda CGI, levaram o major Waldyr Coelho, responsável pela OBAN, a propor, em 1970, uma OBAN Contra a Corrupção. O que desmoraliza a tese de que governos autoritários estão imunes à corrupção. Dela não se sabendo, basicamente, por conta da censura. Não é que não existisse corrupção. Havia, sim. Problema é só não se poder saber dela.

Importante lembrar desse passado. Não se trata de apenas criticar um passado que passou. Nem é voltar ao passado, para punir. Eu mesmo votei na Comissão, solitariamente, contra a revisão das Leis de Anistia (de 1979 e de 1985) – “pelas mesmas razões que, em 29/04/2010, levaram o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, e com fundamento em cláusulas pétreas da Constituição brasileira, a recusar, por larga margem (7 atos a 2), essa tese”. Razão pela qual me considero com autoridade para falar desse passado sem uma visão persecutória. Mas é preciso reter, na memória, tudo que aconteceu naqueles anos de chumbo. Para que não volte a acontecer. Nunca mais. Em nome, e em louvor, da democracia.

FERNANDO PESSOA – SEI BEM QUE NUNCA SEREI ALGUÉM

Textos escolhidos e recitados por Maria Lectícia e José Paulo Cavalcanti

INDULTOS…

Nossa Constituição sagra (art. 2º) o princípio do equilíbrio entre os poderes. Não obstante permitindo que o Poder Executivo invada, pontualmente, competências que lhe são estranhas. Como no caso desse indulto natalino de Temer. O que não quer dizer que os poderes de origem estejam impedidos de exercer juízos de valores, posteriores, sobre essas interferências. Nem que indultos presidenciais possam se dar sem nenhum limite ou controle.

O Presidente pode, por exemplo, editar Medidas Provisórias (art. 62). Legislando, pois, em lugar que melhor caberia ao Poder Legislativo. Mas o Congresso, caso queira, pode alterar, ou mesmo recusar, esses textos. Como pode, o Presidente, conceder indultos (art. 82). Reduzindo, em situações específicas, penas fixadas pelo Poder Judiciário. Só que o mesmo Judiciário também pode estabelecer limites aos tais indultos. Similarmente ao que ocorre com o Legislativo, em relação às Medidas Provisórias. Ao contrário do que decidiu a maioria do Supremo, agora. Sem que se entenda bem a razão. Suponha-se, um exemplo, que o Presidente decidisse indultar todos os presos do Brasil. Inclusive chefes do tráfico de drogas, estupradores, assassinos, corruptos. O Poder Judiciário assistiria, passivo, algo assim? Para comparar, nos Estados Unidos, a questão já foi decidida desde 1803. A favor do Judiciário. No case Marbury vs Madison. Confirmado em McCulloh vs Maryland (1819). E reafirmado, no rumoroso Dred Scott vs Sandford (1857). Todos, casos bem conhecidos entre estudiosos do Direito.

Sobre a essência dos indultos, devemos pensar no futuro do Brasil sobretudo a partir de outras experiências civilizatórias. Começando pelo último congresso da ONU sobre criminalidade, realizado em San José (Costa Rica), que chegou a só duas conclusões: 1. “Prisão não ressocializa ninguém”. 2. “Prisão aprimora o preso para a criminalidade”. Por isso, vale mesmo pensar em reduzir penas de presos com menor potencial ofensivo. Para desafogar nossas prisões entupidas. Tentando impedir que, sobretudo os mais jovens, se tornem criminosos irrecuperáveis. Sem inclusão nesses benefícios, claro, dos crimes hediondos. Nem de corrupção, também claro. Claríssimo. Por mais que nossas elites políticas desejem algo assim. Bolsonaro disse que não editaria mais indultos. Falou, ainda, como candidato. Enquanto Sérgio Moro, já como Ministro da Justiça, e em posição de moderação, criticou apenas sua extensão. Perdão, caros eleitores; mas, nesse caso, o Juiz tem mais razão do que o Capitão.

O LEÃO E O MAJOR

Morreu, semana passada, o Major Ferreira. Conto uma história com ele que se deu no começo de 1986. Roberto Magalhães ainda era governador de Pernambuco. Mas já preparava sua candidatura de Senador. Roberto era impetuoso como seu tio Agamenon. Deu bananas para adversários, numa carreata. Entrou no JC, procurando um jornalista, com revolver na cintura. Fazer o quê? E tudo corria bem, no Campo das Princesas. Até quando, num belo dia, fugiu da prisão o Major Ferreira – responsável pela morte do Procurador da República Pedro Jorge. Indignação coletiva. Todos consideravam o Governo culpado pela fuga. E Roberto preocupado com a eleição. Pensando que nada pior poderia lhe acontecer. Estava enganado.

Fim da manhã, chega Bandeirinha – grande escritor e grande figura humana –, com a notícia terrível: fugiu, do zoológico, um leão perigosíssimo. As informações eram de que o animal iria destroçar o primeiro ser humano com que cruzasse. Roberto convocou seu Secretário de Transportes, José Múcio Monteiro (hoje, Presidente do TCU) – que, no Palácio, era quase Primeiro-Ministro. E pediu fosse prender o dito leão. Urgente. Foi quando José Múcio, com toda tranquilidade, lhe disse: “Governador, estão na minha sala Augusto Coelho (então Prefeito), Osvaldo Coelho (Dep. Federal), Geraldo Coelho (Dep. Estadual), Fernando Bezerra Coelho (Dep. Estadual), Adalberto Coelho, José Coelho e Paulo Coelho”. Todos, bem conhecidos pela intransigência na defesa dos interesses de Petrolina. Pensando bem, intransigência é até pouco. E José Múcio completou: “É brabo por brabo, Governador. Eu cuido do leão e o senhor fica com os Coelhos”. Roberto então pensou, pensou, coçou a cabeça, pensou mais um pouco e encerrou a conversa: “Prefiro o leão”.

P.S. Tudo acabou bem. O leão não comeu ninguém e hoje vive dormindo, com preguiça e tédio, no zoológico. Os Coelhos brigaram feio entre si, logo depois. Roberto acabou perdendo aquela eleição de Senador para um padre (logo ex, por muito gostar das saias) que era de… Petrolina. Voltou depois, ao Congresso. E acaba de lançar um grande livro, “Brasil: Lições do passado e desafios do século XXI”. Enquanto o major Ferreira foi novamente preso. Cumpriu pena, em Itamaracá. E viveu seu resto de vida junto à família. Que descanse em paz.

CENSURA ???

A TV Globo foi proibida, pelo Juiz Gustavo Kalil (4ª Vara Criminal do Rio), de divulgar inquérito que apura a morte de Marielle Franco. Por “expor dados de testemunhas e prejudicar o andamento das investigações”. A ABRAJI, e outras entidades jornalísticas, protestaram, dizendo ser a volta da censura. Mas será mesmo?, eis a questão.

A ideia da informação, como valor absoluto, não é senão um mito. A Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos (1787), parte de um Bill of Rights (1791), veda qualquer forma de censura. E não obstante, desde a doutrina do Clear and Present Danger (1914), a Suprema Corte vem crescentemente fixando limites democráticos à informação. A própria Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em 1948 pela ONU, condiciona o exercício dessa liberdade (art. 10) a deveres e responsabilidades concernentes a outros direitos (arts. 8, 9 e 11).

Certo que a democracia tem fundamento político, e ético, no direito de livre acesso à informação: à notícia – como fato terminal – e a suas fontes primárias. Mas esse livre acesso vê seus limites sendo progressivamente definidos, de forma restritiva, em todas as legislações modernas. Sobretudo em duas áreas específicas. A privacidade. E a reserva (ou sigilo) legal. No Brasil, desde o CPC de 1936, se estabelece regras assim no Direito de Família. E em várias profissões. Como Advogados, Médicos e Padres – que não podem, nas missas de domingo, fazer relatório das confissões semanais. Sem contar, desde 1990, o ECA (arts. 143, 144, 241C, 247, 254, 255), protegendo menores. E ninguém nunca disse que se tratava de censura. No campo da polícia, ocorre o mesmo. Suponha-se que uma emissora (jornal, rádio, TV) tenha acesso a investigações. Qual delas diria que, às 20 horas, policiais vão dar batida na Rua tal, número tal, para desmantelar um laboratório de cocaína?

Faltando só indicar qual o critério para liberar, ou não, uma informação. Que é, sempre, o interesse coletivo. E, em nenhum lugar do planeta, quem controla isso é o próprio veículo de informação. Perdão, jornais brasileiros. Divulgar informações de um processo pode satisfazer ao desejo de ter audiência. Mas isso jamais se poderá fazer, em situações concretas, contra o interesse coletivo. Que democracia é informar e é, também, não informar. Simples assim.

AS FLORES DO BEM

Baudelaire, como se falasse do Brasil, lembra que “A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez/ Habitam nosso espírito e o corpo viciam/ E adoráveis remorsos sempre nos saciam”. Em seu As Flores do Mal, de 1857. Marco da poesia simbolista, o livro logo foi apreendido pela censura. O autor, e seu editor, acabaram multados. E seis poemas tiveram que ser suprimidos, antes que voltasse às livrarias. Mas essa é outra história. Lembrando Baudelaire, hoje escrevo sobre flores. Do Bem. E não, como as dele, do Mal.

Uma é a Dama da Noite (Epiphyllum Oxipetalum). Gentilmente doada pelo amigo Euler Lucena. O cactácio floresce, no Nordeste, só duas vezes por ano. Às 22 horas. Para morrer três horas depois. Com forte perfume, próprio de uma dama da noite, sempre que vai abrir fazemos vigília. Em Gravatá. Sentados, à sua volta, para contemplar esse momento raro e belo da natureza. E vale a pena tanta espera. Podem acreditar.

A outra é a flor do Baobá (Adansonia Digitata). A árvore veio da África, onde é considerada sagrada. Segundo consta, vivem 6 mil anos. Embora a mais antiga, conhecida como Árvore de Grootboom, tenha chegado apenas a 1.300 (África do Sul). Cabendo hoje, essa primazia, ao Baobá de Sunland (também na África do Sul), pouco mais novo. Há muitas lendas, sobre ela. Como a de que dá só uma flor, a cada 50 anos. Minhas preferidas são a de que mortos, enterrados próximos, mantêm vivos seus espíritos enquanto ela viver. Ou a de que seus galhos são habitados por espíritos.

Em Gravatá, plantamos 13. Quase todas doadas pelo queridíssimo casal Ieda e Ernani (que Deus o tenha, comunista velho) Lemos. Como demoram 200 anos para ficar adultas, já combinei com os filhos que, daqui a dois séculos, todos vamos dar as mãos – com seus filhos, netos e sucessores – para grande abraço familiar, em volta de uma delas. Têm, hoje, cerca de 2 metros de diâmetro. Mas não param de engordar.

As flores do Baobá têm cheiro de carniça, mas quem se preocupa com isso? “Seu perfume exala o medo”, como nas flores de Baudelaire. Uma delas abriu esta semana. E, como duram só 24 horas, fomos testemunhar. Dia seguinte, já estava morta. A vida é mesmo “perto e breve”, como uma vez me disse Millor. Veio, em seu lugar, o fruto. O Mucua. Uma cápsula seca usada como alimento. Da França, trouxe uma espécie diferente – nomeada, pelos vendedores, como Baobá de Apartamento; que cresce em jarros e vai até, no máximo, dois metros. Quem passar na rua onde moro poderá vê-la, do meu lado, no escritório em que todas as noites escrevo. Como se fôssemos cúmplices. E, de alguma forma, somos. Na crença, ou ilusão, da permanência.

Valendo ainda lembrar O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Em que está, parecendo certos personagens da vida pública brasileira, que “Para reis, o mundo é muito simples. Todos os homens são súditos”. No livro, o narrador descreve acidente que fez seu avião cair no Deserto do Saara. E, lá, encontrou menino com cabelos de ouro e um cachecol amarelo, habitante de planeta (ou asteroide) onde criava baobás. A árvore do Pequeno Príncipe é um Baobá!!!

O que poucos sabem é que, provavelmente, tudo começou quando seu autor, Saint-Exupéry, entre 1929 e 1930, trabalhava na Companie Generale Aéropostale. Fazendo, como piloto de avião, rota que incluía Natal e Recife. Era conhecido aqui, pela dificuldade na pronúncia do nome, como Zé Perrí. E viu centenário Baobá na Rua São José (Natal), em terreno depois adquirido por Diógenes da Cunha Lima. Só para garantir que não fosse um dia derrubado. E também viu, encantado, o enorme exemplar que fica em frente ao nosso Palácio do Campo das Princesas. O Baobá do Pequeno Príncipe, quem sabe?, talvez seja o do Recife.

DE VOLTA

Já era tempo. Ninguém se perde no caminho da volta, diz um dito popular. Inspirado na Bagaceira: “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”. Belo romance escrito por José Américo… Aqui, um problema. Que dá um azar danado dizer (ou escrever) o nome completo do autor. Por isso, todos preferem chama-lo de Zé 3 Pancadas. Lembrando o toc, toc, toc do bater na madeira, para espantar o azar. Tudo começou em 1932, num acidente aéreo ocorrido na Bahia de Todos os Santos (Salvador). Em que morreu Antunes Navarro, interventor da Paraíba. E o dito Zé 3 Pancadas escapou, tranquilo, boiando sobre uma das asas do avião. O destrambelhado cantador Zé Limeira, no meio de cantoria em que louvava Alexandre, O Grande, acabou menosprezando feitos do general macedônio ao dizer “Maior foi Zé Américo/ Que escapou do avião”. Faltando só lembrar outro paraibano, José Neumanne Pinto, que encerra belo poema (A volta de novo) inspirado naquela frase: “Na volta/ Ninguém se perde./ Na volta só se abre mão da solidão”. Melhor, por tudo, apenas seja começar lembrando Osvaldo Nunes, em velho samba que diz “Voltei, aqui é o meu lugar”. Porque sinto ser mesmo.

Durante algum tempo, parei de escrever semanalmente. E, desde então, o país mudou. Para pior. O velho modelo que herdamos esgotou-se. Por conta de escolhas erradas que fizemos. E dos baixos graus de modernidade em nossa economia. O discurso político tradicional parece hoje obsoleto. Cada vez mais parece falso o discurso de que nossas elites políticas apenas reproduzem a base ética da sociedade. Ou, talvez, apenas prefira acreditar nisso. Mas a maior mudança deu-se nas relações. Um curto circuito ético, jurídico e político. Intransigentes com os diferentes, nos últimos tempos somos generosos só com quem pensa como nós. Nesses, perdoamos tudo. Até apropriação do patrimônio público. Pior é que essa crise se espraia em outra, ideológica, com radicalização que produz o esgarçamento do tecido social. A realidade aposentou, precocemente, nosso futuro. O tornou mais duro. Quase todas as nossas ilusões de antes se revelaram perdidas. Obsoletas. Ou vãs. É tempo de voltar a ter utopias.

O renomado astrólogo Eduardo Maia previu que 2018 seria um ano complicado, especialmente para o Brasil. Porque Netuno completou agora, em setembro, a sua oposição ao Sol do Mapa do Brasil. Em ciclo de 164 anos. Trazendo, com ele, todos os vícios. Especialmente a partir do Trânsito de Saturno, em outubro, em conjunção com o Urano ST (estacionário) do Brasil, que ativa o radicalismo. Se assim for, o desenho caótico das eleições deste ano estava já escrito nas estrelas. Mais grave é que, segundo ele, o ambiente continuará carregado também em 2019. Só melhorando a partir de 2020. Evoé!, leitor amigo. Não há mal que sempre dure.

Só que, nesse tempo de ausência, também mudamos nós. Ao contrário, para melhor. A gente sempre muda para melhor. Porque o tempo, esse Deus sem nome, anda só para frente. Volto a escrever nestas páginas, pois, com essa compreensão de que tudo muda permanentemente. Como dizia o amigo Pessoa (Álvaro de Campos, Là-bas, je ne sais où), “Nunca voltarei/ Nunca voltarei porque nunca se volta./ O lugar a que se volta é sempre outro”. Dando-se por findas essas palavras de regresso, com alegria. Esperanças renovadas. E a consciência de que toda volta é, também, um recomeço.

ADEUS, AGNALDO

O telefone tocou, nesta segunda. Era o amigo Agnaldo Lyra, que ligava da Holanda.

– “Como vai?, Zé Paulo”.

– “Tudo bem, rapaz, o que há de novo?”.

– “Estou ligando para me despedir.

– “Como???”

– “É que vou fazer eutanásia na próxima sexta” (hoje, dia de finados).

Foi como um murro na barriga. Desses de a gente ficar sem ar. Agnaldo é gente boa. Educadíssimo. E preto, bem preto, filho do negror da noite – em palavras com que Mário de Andrade definiu seu personagem Macunaíma. Fomos colegas de classe no Colégio Nóbrega. Um dia, sumiu da face da terra. Depois que traficantes mataram seu irmão branco (Agnaldo era adotado) e anunciaram que o próximo da lista seria ele. Soubemos de passagens suas por África e Portugal. Tudo vago. Até que apareceu já como cidadão holandês. E funcionário do governo. Casado com loura bem alta (mais do que ele) e dois filhos. Nos falávamos, sempre. E, desde algum tempo, convivia bem com um câncer.

Sugeri confiar na ciência. Lembrei mulher de conhecido jornalista da Globo (disse-lhe o nome), sem mais esperanças, que está se curando com tratamento à base de imunoterapia. Quem sabe poderia tentar algo assim. – “Meu caso é diferente. O câncer migrou do pulmão para o cérebro. Fomos a Paris para tentar esse tratamento e não era possível. Tem mais jeito, não”. Está reduzido, agora, a 51 quilos. E, a cada cinco dias, perde mais um. Começa a se esquecer das coisas. Por vezes, não controla partes do corpo. Cai no chão com frequência. Por tudo, a morte lhe parecia um fim lógico e digno.

Perguntei se a Holanda permitia isso. A resposta foi bem detalhada. O Juiz, antes de autorizar, ouve suas razões. Conversa com mulher, filhos, pessoas próximas. Pede opinião de médicos especialistas, para ter certeza de que a decisão não é movida por eventual depressão. Ou se haveria alguma solução na medicina. Depois descreveu, em minucias, como seria. Até quarta, iria se despedir de amigos e parentes. Quinta, mulher e filhos. Sexta de manhã, só a mulher. No começo da tarde, chegariam juiz, tabelião, o médico da família, enfermeiro. E às 16 horas, em sua cama, tomaria uma injeção. Não sentiria dor, assim lhe prometeram.

Passou, então, a falar nos tempos do Nóbrega. De colegas e professores – José Walter, João Carlos, Eladinho, Manga Rosa, uma procissão de mortos. As brincadeiras na classe. Os apelidos. Parecia feliz, ao lembrar daquele tempo bom. Foi quando pediu para dar notícia do fato aos amigos daqui. O que estou fazendo, com esse texto. E nos despedimos. Ele, só com um “Adeus”. E eu, “Adeus, Agnaldo”. Após o que completei, mesmo sem acreditar no que disse, “em breve nos encontraremos em algum lugar”. Fim do telefonema.

Fiquei mudo. Estático. A morte é tão mais importante que todo o resto se relativiza. Eleições, viagens, projetos pessoais, nada parece ter importância. Tudo vai acontecer hoje, ao meio dia daqui (levando em conta o fuso horário). Maria Lectícia mandou rezar missa para ele. Lembrei versos de Pessoa (Álvaro de Campos, “Dois Excertos de Odes”): Vem, dolorosa/ Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes/ Sabor de água sobre os lábios dos cansados. Que essa mão fresca lhe adoce a partida, querido amigo. Fique em paz.

ÁGUA DE BACIA & MAR QUE ESTRONDA

Entre tantos dias, 25 foi o do Escritor. Reverências à data, então. Para Sartre, “O mundo pode passar muito bem sem a literatura. Mas, sem o homem, pode passar ainda melhor”. Segundo Joaquim Nabuco, “A profissão de escritor deve merecer toda a piedade”. Balzac: “Os doidos e os escritores são os homens que vêm um abismo e se lançam nele”. Mais razão tinha o livreiro Antônio Carlos Vilaça, “Literatura é um testemunho para que a vida e a morte não sejam em vão. Encaro a literatura como uma vitória sobre o tempo e sobre a morte”.

Só que, ao lado da literatura das academias, há uma outra relevante. A do indeterminado cidadão comum do povo. Manuel Bandeira até falava nisso, ao lembrar “A língua errada do povo/ Língua certa do povo”. Silvio Romero, fundador da Academia Brasileira de Letras, comparou a poesia clássica de seu tempo à dos cantadores. Para ele, “esses versinhos que por aí andam podem ser água, mas de chafariz, banho morno em bacia com sabonete inglês e esponja”. Enquanto, a dos cantadores, é “água farta, rio que corre, mar que estronda”. E tinha razões, para isso. Todas as razões.

Tome-se, como exemplo, o tema da SAUDADE. Basta comparar o estilo dos versos para ver beleza nos dois. São diferentes, mas são belos. Adelmar Tavares, presidente da ABL em 1948, escreveu: “Para matar as saudades,/ Fui verte em ânsias, correndo…/ E eu que fui matar saudades/ Vim de saudades morrendo”. Enquanto o cantador Antônio Pereira (O poeta da Saudade, de Itapetim): “Saudade é um parafuso/ Que na rosca quando cai/ Só entra se for torcendo,/ Porque batendo não vai/ E enferrujando dentro/ Nem distorcendo não sai”.

Mais exemplos. Abgar Renault, presidente da ABL em 1993: “Já não sinto saudade de mais nada,/ A não ser do começo da escalada,/ Quando o azul era azul de azul sem fim/ E Deus criava o mundo em mim”. E Antônio Pereira: “Quem quiser plantar saudade/ Primeiro escalde a semente/ Plante num lugar bem seco/ Onde o sol bata mais quente/ Que se plantar no molhado/ Quando nascer mata a gente”.

Casimiro de Abreu, morto em 1860 (por isso não entrou na ABL, fundada só em 1897), nos mais conhecidos versos brasileiros sobre o tema, escreveu: “Oh! que saudades eu tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras,/ Debaixo dos laranjais!” E, de outro lado, o cantador Severino Pinto (de Monteiro): “Essa palavra saudade/ Conheço desde criança/ Saudade de amor ausente/ Não é saudade, é lembrança/ Saudade só é saudade/ Quando morre a esperança”.

Nenhum personagem representa melhor o Nordeste. O cantador é seu rosto e sua voz. A resistência, a cultura (levemente inculta), a astúcia – que, segundo mestre Ariano, é a “coragem dos pobres”. Câmara Cascudo até dizia: “O cantador é a voz da multidão silenciosa, a presença do passado, o vestígio das emoções anteriores, a história sonora e humilde dos que não têm história”. Por tudo pois, neste dia, devemos prestar homenagem também à sabedoria, à erudição, à simplicidade, à língua certa do povo, futuro prometido, miséria e opulência, realidade e ilusão, o pecado e o paraíso da voz iluminada dos cantadores nordestinos.

P.S. Paro agora de escrever, por algum tempo. Abraço a todos os leitores. E até breve.

CEBOLA CRUA COM SAL E BROA

Trata-se da merenda servida, todos os dias, na Quinta do Carvalhal. Cenário bucólico onde o maior romancista português de hoje, Miguel Souza Tavares (de Equador), passava os verões de sua infância. Não costumo recomendar livros. “Cada qual para o que nasce/ Cada qual com sua classe/ Seus estilos de agradar” – ensinava o embolador Rouxinol, de Gravatá. Mas essa autobiografia precoce é diferente. Para melhor. Muito melhor. Por conta da qualidade do texto. Porque permite compreender as transformações de Portugal, depois do 25 de Abril. E, sobretudo, pelas comparações com nosso fraturado Brasil. Como amostra, seguem umas poucas lições:

Vida: “O ser humano foi feito para resistir e se adaptar”. “A vida é breve e eu era novo demais”. “Era novo e não se é novo duas vezes”.

Liberdade: “Se me perguntarem qual o valor mais importante, o bem mais precioso, que eu aprendi a respeitar ao longo da minha vida, no meu trabalho, com as pessoas que conheci, não tenho a mais pequena hesitação em responder: a liberdade”. “A liberdade foi, de facto, a minha grande escola de vida. Aprendi seu valor e o valor da desobediência cívica contra o arbítrio e o abuso”.

Política: “Para mim, foi sempre uma coisa complicada de gerir as fronteiras entre as relações pessoais e profissionais com os políticos”. “Não sei se o país tem emenda. A minha aposta é que, assim, não tem: nem emenda nem futuro”. Com sua opinião sobre nossas elites, lembrando Felipe Gonzales que disse: “Vítor (Constâncio), és demasiado inteligente para político!”.

Reforma Agrária: “A miséria no campo era absoluta, visível, feia como uma noite de tempestade, dia a dia sofrida e impossível de ser escondida”. Com críticas. “A chamada Reforma Agrária, em nome da produção e da terra a quem a trabalha, tratou de ocupar (em Portugal), primeiro que tudo, não as terras abandonadas ou maltratadas, mas, as que estavam bem aproveitadas, que tinham máquinas e investimentos, que tinham gado ou cortiça a colher. E, uma vez aproveitadas as riquezas e não havendo quem nelas quisesse investir ou semear, passava-se a outras. E assim, sucessivamente, até não haver mais herdades a produzir e a produção cair a pique”. “Não é por acaso que o Estado ficou falido e que todos ficamos falidos por arrasto”.

Brasil: “Um ciclo da desilusão com os vários escândalos a que o mesmo sistema político, por assim dizer, convidou o PT de Lula da Silva a também ele sujar as mãos na lama. Compreendi que mais uma esperança tinha morrido para o Brasil”. “D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda, foi talvez o homem que conheci mais próximo de um possível Deus”.

Os pais: Miguel era filho do advogado Francisco Sousa Tavares e de uma deusa da poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen. O livro é todo perpassado por lembranças que o autor tem dos dois. “Nunca minha mãe deixou de ser uma memória constante e uma saudade diária – como hoje ainda é”. “Tinha um dom que sempre me esforcei por conseguir aprender com ela, o de saber estar sozinha”. E traz uma informação preciosa. A de que o poema Porque foi escrito, por sua mãe, em homenagem ao pai – na sua permanente luta contra a ditadura de Salazar. Até conta como eram os encontros entre os dois, com o pai preso na PIDE: “Eles espalmavam as mãos contra o vidro grosso, cada um do seu lado, tentando absurdamente sentir os dedos um do outro”.

Porque: E já que falamos nos versos antológicos de Sophia, aqui seguem:

“Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não”.

O BARULHO DE TEJO E CANINDÉ

Orlando Tejo era um gênio. Todo mundo sabe disso. A cabeça foi antes, o corpo velho só agora. Uma tristeza. Perda enorme. Entre suas grandes histórias, lembro uma que se deu com o premiado escritor Luiz Berto, editor do Jornal Besta Fubana. Quando Tejo, liso como um mocó, pediu ao amigo Berto que lhe arranjasse um agiota. E ao tal cidadão, (João) Canindé, pediu 30 mil cruzeiros. Só que o dinheiro não chegava. E ele na lona. E angústia muita. E notícia nenhuma. Foi quando o juízo ferveu e Tejo, na hora, escreveu esses versos:

LOUVAÇÃO A CANINDÉ

Estando sem um tostão
E me encontrando bem perto,
Fui procurar Luiz Berto
Para alguma solução.
Berto disse: “Meu irmão,
Eu também queria até
Fazer um querrequequé
Daquele que o diabo pinta
Para ver se arranco trinta
Do bolso de Canindé”.

E toca a telefonar
E Canindé a correr,
Mas não pôde se esconder
E teve que tapear:
“Pela manhã não vai dar,
Porque de tarde é que é
Bom para a coisa dar pé.
Aguarde, portanto, amigo”.
Berto ficou de castigo
Esperando Canindé.

E eu que necessitava
Também da mesma quantia
Me fiei nessa franquia
Que Canindé propalava
Quando eu menos esperava
O safado, de má fé,
Filho de puta, ralé,
Disse que hoje não tem nada…
Ah! uma foice amolada
No chifre de Canindé.

Eu já podia notar
E mudar de interesse
Que cabra com um nome desse
Não poderia prestar.
No entanto vou esperar
Até amanhã com fé.
Se ele me deixar a pé,
Juro por Nossa Senhora:
Corto de pau uma tora
E vou matar Canindé.

O cabra fuma e não traga
Faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
Que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
Pra um sujeito de fé,
Já que esse indivíduo é
Tratante e delinquente
Haja chumbo grosso e quente
No rabo de Canindé.

Por capricho do destino
De Satanás ou Deus Brama,
O bicho também se chama
Coisa e tal e Tolentino,
Doido, avarento e mofino,
Não conhece a Santa Sé,
Faz da cola o seu rapé,
Vive da desgraça alheia,
Devia estar na cadeia
Esse tal de Canindé.

Não sei como Luiz Berto
Este escritor inspirado,
Toma dinheiro emprestado
A um ladrão tão esperto,
Que representa um deserto
De trabalho, amor e fé,
Que anda de marcha ré
Pela estrada da virtude
E além de covarde e rude
Se assina por Canindé.

Antes quero outro “pacote”
Desemprego, moratória,
Ver Delfim contar história,
Comer carne de caçote,
Levar chumbo no cangote,
Me abraçar com jacaré,
Beber caldo de chulé,
Dar o rabo a marinheiro,
Do que tomar um cruzeiro
Emprestado a Canindé.

Mas o destino é cobra traiçoeira. Prega suas peças. E isso aconteceu, então, mais uma vez. Dando-se que o amigo Luiz Berto avisou, logo em seguida, ter chegado seu dinheiro. Foi quando nosso Tejo, com remorsos por ter falado tão mal do pobre Canindé, resolveu a questão escrevendo outros versos. A favor dele, agora.

NOSSO AMIGO CANINDÉ

Um sujeito despeitado,
Desses de baixa maré,
Inventou que Canindé
É um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
Com a informação ralé,
Porém não perdi a fé
Em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
Na fronte de Canindé.

Tenho dito e sustentado
(Todo mundo sabe disso)
Que na Câmara, esse cortiço,
Há um cidadão honrado,
Pai de família extremado,
Homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
Que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
E em Brasília, Canindé.

Sei que o Papa tem razão,
Mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
Que se dirá de um cristão
Porém a fofoca não
Atinge um homem de fé.
E se eu descobrir quem é,
Meto a mão no pé do ouvido
Do sem-vergonha enxerido
Que falar de Canindé.

Canindé – nome decente!
Tolentino – ô nome macho!
Ribeiro – lindo riacho
Que mata a sede da gente!
Honrado, amigo e valente,
Subiu da glória o sopé…
A Virgem de Nazaré
Já lhe envolveu com seu manto,
Por isso um caminho santo
Vai trilhando Canindé.

Canindé pra ser beato
Só falta mesmo a batina,
Pois tem vocação divina
Pureza, fé e recato!
Por isso ele é o retrato
Mais fiel de São José
E já se comenta até
Que Frei Damião Bozano
Sugeriu ao Vaticano
Canonizar Canindé.

Mas sabem por que razão
Já querem canonizá-lo?
É por causa de um estalo
Que recebeu nosso irmão
Lá nas margens do Jordão,
Ao lado de São Tomé,
Quando dava cafuné
Numa velhinha doente
E morreu a penitente
Nos braços de Canindé.

Nesse chão onde ele pisa,
Por ser grande patriota,
Se faz até de agiota
Pra ajudar quem precisa.
Mas não comercializa
A sua alma de fé!
Jamais ganhou um café
Pelo dinheiro que empresta…
Caridade é uma festa
Pra alma de Canindé.

Santo Agostinho, dos santos
Foi o mais puro entre os ermos
Que consolava os enfermos
E lhes enxugava os prantos.
Obrava milagres tantos,
Pela pureza e a fé
Pois acreditava até
Em fala de passarinho.
Mas sabem? Santo Agostinho
É pinto pra Canindé.

No fim, o infeliz agiota sofreu para receber sua grana. Mas ganhou versos, em troca. Ficou no lucro. Perdemos um gênio. Abraços para Luiz Berto. E homenagens ao grande Orlando Tejo.

A ARTE DE ESCUTAR

Semana passada, o presidente Michel Temer dispensou tradutor no seu encontro com o vice dos Estados Unidos – Mike Pence. Fez muito mal. Que o vice falou grosso. Contra os imigrantes em geral, “Não venham”. E mal de nossa Latino-América. O Brasil no meio, claro. Em troca Temer, com cara de paisagem, deixou de dar a resposta firme que o gringo merecia.

Volto no tempo. Em 1985, tínhamos um problema no combate às drogas. Os Estados Unidos eram (ainda são) grandes fornecedores de Éter e Acetona, insumos indispensáveis ao refino da pasta base da cocaína. Traficantes importavam contêineres pelo porto de Santos – com indicação, nas notas fiscais, de serem outros produtos. E pagando imposto. Esses contêineres eram retirados por eles ou mandados ao Paraguai, perdendo-se no percurso a carga que ficava no Brasil mesmo.

Fui a Washington pedir que a Polícia Federal fosse avisada sobre esses embarques. Qual o navio e qual a quantidade de Éter ou Acetona em cada contêiner. Que, a partir daí, poderíamos fiscalizar as cargas. E as apreender, fosse o caso. O encontro se deu, na Casa Branca, com o assessor de Ronald Reagan para as drogas. Já nem recordo seu nome. Mas lembro, perfeitamente, das portas brancas: a do escritório dele; a de Nancy, bem perto; e, em seguida, a do seu marido presidente.

Na véspera, fui convidado pelo embaixador do Brasil, Sérgio Corrêa da Costa, para um jantar em sua casa. Conhecíamos o casal, ele e dona Zazi (filha de Oswaldo Aranha), de quando era embaixador em Londres. Num encontro que tivemos, nós e Marcos Vilaça, com Emerson Fittipaldi, então campeão do mundo na sua Lotus preta. Sendo estrela da noite não o piloto, mas a sobremesa – goiabada cascão com queijo de coalha, iguarias inestimáveis para quem andava longe de seu país.

Na verdade, Sérgio queria dar um conselho. O de que eu não deveria conversar em inglês com o cidadão. “Fale em português mesmo. O americano, com quem vai negociar, fala fluentemente o espanhol. Vai entender o que disser. E, no tempo da tradução, ele estará pensando na resposta. Faça o mesmo. Quando o intérprete estiver traduzindo o que ele disse, escolha as palavras antes de falar”. Essa regra, de saber escutar, hoje nos faz falta. Muita. Quando sentimos, por aqui, ódio de quem diz algo que não gostamos. Pobre Brasil, fraturado e em crise.

No fim, o encontro deu em nada. Os Estados Unidos não estavam dispostos a interferir nas práticas de suas empresas. Pondo a grana do seu comércio acima de qualquer outra questão. O que era contraditório. Porque, em todos os encontros que tivemos antes sobre as drogas, o país prometia auxiliar o Brasil no que pudesse. Enfim… Palavras ao vento. Nós que nos virássemos.

Voltemos ao Brasil de hoje. Pena Temer não ter seguido esse conselho do embaixador. Que, tivesse um tradutor, poderia (talvez) pensar melhor e responder mais adequadamente. O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, por conta de uma conversa superior em seu inglês britânico (que deixou Donald Trump embasbacado), e de um fortíssimo aperto de mão que lhe deu, foi diagnosticado (revista Visão, de lá) como tendo BDE (Big Dick Energy). Segundo o Dicionário Urbano, “confiança sem arrogância”.

Essa doença Temer não tem. Que mexe as mãos, ao falar, como quem está passando sabonete nos dedos. Melhor seria responder à altura. Ou, em tempos de eleições, fazer um gesto bem brasileiro – que o Recife conhece bem de carnavais passados. Dando-lhe, com essas mãos, uma banana. Mas isso, talvez, fosse pedir demais. Que o vice americano age como se fosse presidente. Enquanto, o nosso, como se fosse ninguém.

NOTÍCIAS DE JORNAL

Leio jornais, hoje, tentando ver além das notícias. A tragédia humana que sempre se renova. O ridículo de certas situações. O inusitado. O choro triste. O riso claro. O espanto. Às vezes, se trata mesmo de algo relevante. Mas, quase sempre, não. Em The Times, Fernando Pessoa disse algo parecido: “Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo/ Do Times, claro, inclassificável, lido,/ Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo…/ Santos Deus!… E talvez a tenha tido!”. Para provar essa tese, tirei férias da Copa e fui anotando alguns fatos que acabaram notícia, nos últimos dias. Quase todos, só agora percebo, sobre “a morte (que) é para os que morrem”, palavras de Rosa (Grandes Sertões…). A ver:

• Luiz Carlos Muniz Cantanhede, médico urologista, lutou anos contra um câncer. Ficou bom. E atribuiu isso a promessa que fez – de ir, a pé, até o Santuário de São José de Ribamar. Decidido a pagar tal promessa, logo começou a caminhada. Só que, na rodovia MA-204, morreu atropelado por um motorista bêbado (JC on line). Seu santo protetor pode ser forte no capítulo das doenças. Mas é fraco na proteção aos devotos caminhadores.

• Um cidadão do Recife, que vivia reclamando da Seca, decidiu ir ao interior. Para ver, com seus olhos, as chuvas que caiam no Agreste e no Sertão. Só que, para azar dele, no Km 65 da BR-101 o carro mergulhou em um rio que estava cheio por conta das últimas chuvas. Resumindo, ele morreu. Afogado. Sem registro de seu nome (D.P.). Ou do que pensou, quando as águas tomavam conta de seu corpo.

• O garçom Damião Amaral de Carvalho morreu atropelado por uma égua que fugiu, em disparada, de dentro do Jockey Club. O animal, em vez de correr pela pista de grama, decidiu fazer isso no meio da rua. Mas passa bem. E vai correr no próximo domingo (O Globo). Dentro do Jockey, espera-se.

• O cientista escocês Ian Wilmut dedicou sua vida a estudar novas terapias contra o mal de Parkinson. Tanto que criou a ovelha Dolly, clonada, no Instituto Roslin (em Edimburgo). Especialmente para esse fim. Pena que suas pesquisas não tiveram sucesso. E, agora, é ele quem está morrendo. Por conta de um raro tipo de Parkinson (Visão, de Portugal). Fazer o quê?

• Um bêbado atropelou 17 pedestres em Copacabana. Entre estes, o australiano Christopher John Gott. Que usava, no Brasil, o nome falso de Marcos Phillips. Por ser foragido da polícia de seu país. Condenado por crime de pedofilia e 17 outras acusações de agressão sexual (Folha SP). Escapou da justiça e morreu pelas mãos de um motorista encachaçado. O médico que o atendeu, no hospital, declarou que foi a justiça divina.

• A israelense Olga Babaeva reside, no aeroporto do Galeão, há mais de um ano. Os três filhos pedem que volte para Israel. A velha não quer. E a explicação que dá, para isso, é inacreditavelmente simples: “Aqui é um lugar tranquilo para ficar” (O Globo). Oscar Wilde (em Quatro Ensaios sobre Estética) escreveu: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Com toda razão. Que, ao ver aquele filme de Tom Hanks (Aeroporto), ninguém suspeitaria pudesse ocorrer algo parecido no mundo real. E logo no Brasil.

Pesando tudo, parece ter razão o amigo Millôr. Ao indicar a pouca importância do noticiário. Quando sentenciou, n’O Pasquim: “A imprensa é a única indústria que não dá a menor garantia pelos produtos que vende – posto ficar obsoletos em menos de 24 horas”. E logo viram papel de embrulhar peixes. É isso.

AI, ESTA TERRA…

(Lisboa, Recife). Em Nevoeiro (Mensagem), Fernando Pessoa reflete sobre seu país: “Nem Rei nem lei, nem paz nem guerra/ Define com perfil e ser/ Esse fulgor baço da terra/ Que é Portugal a entristecer”. A tentação é apropriar esses versos, trocando apenas o país. Em vez de Portugal, Brasil. Esperanças vãs. Tardias e estreladas. Em mim, essa tristeza com o país vem das comparações, em pequenas observações do quotidiano. Por conta do espaço limitado, seguem apenas duas.

1. ESCOLAS. Em Portugal, os salários iniciais das carreiras públicas são baixos. Aumentando, a cada cinco anos, por conta de progressões funcionais. Servidores públicos estão há anos sem aumentos porque o governo ainda sofre com o déficit. Só o terão quando o país voltar a ser superavitário. Ali pertinho, na Espanha, vale uma regra parecida. Enquanto a Previdência Social for deficitária, aposentadorias terão aumento máximo anual de só 0,25%. Ponto final. Difícil comparar com o Brasil – em que se pleiteia, todos os anos, correção e recuperação de perdas passadas. Voltando à terrinha, professores agora requerem progressão funcional nas suas carreiras. Por conta do tempo de serviço. Única forma, no contexto, de ganharem algo mais. Só que o governo resiste em dar aquela progressão. E há risco de greve.

Ocorre que nem passa pela cabeça de um professor português fazer greve com prejuízo para o aluno. Deixar de dar aulas, pois, nem pensar. Em nenhum lugar civilizado é assim, bom se diga. No Brasil, bem diferente, passam semanas e meses longe das salas. É possível que as provas de fim de ano, a serem realizadas agora em junho, acabem realizadas sem que sejam fornecidas suas respectivas notas à direção das escolas. O mundo, lá, é outro. Por falar em escolas, celulares de muito são proibidos nas salas de aula. Havendo o risco de incorporar, agora, o que já acontece na França; não podendo ser usados, em qualquer situação, dentro das escolas. Tentativa de obter maior concentração, dos alunos, em seus estudos. Difícil imaginar que algo assim possa ocorrer por aqui. Talvez houvesse até greve dos estudantes, contra.

2. MOTOS. Acidentes de motos, e bicicletas, quase não há em Portugal. Por duas razões simples. Uma é que se usa lá, sempre, todas as proteções. Outra é que são considerados veículos, regra geral na Europa. A partir do Código das Estradas português (de 01/01/2014) – quando passaram a ter todos os direitos, e obrigações, de qualquer veículo. No sinal, quando para um carro na frente, motos e bicicletas ficam atrás. No meio da rua. Como se fossem um carro. No Brasil, 40 motos ou bicicletas cortariam pela direita, mais 30 pela esquerda, e todas ficariam estacionadas sobre a passarela de pedestres. Esperando o sinal abrir. Resultado, no Brasil temos acidentes a granel. E lá, não.

Meu filho Sérgio, ciclista inveterado, e sem saber dessas regras, ultrapassou o carro da frente com sua bicicleta. Foi logo parado por uma guarda. A multa é 1/3 do valor da bicicleta. Não foi multado só porque o guarda o reconheceu como estrangeiro. Acreditou que não conhecia da lei. E foi generoso. O curioso é que Serginho nunca mais ultrapassou carro nenhum, fora das situações em que isso é possível. Tenho dúvidas se, por aqui, continuará sem ultrapassar os carros, vendo todos fazer isso no seu entorno. Não faz lá, enquanto aqui talvez faça. Por conta da cultura. Da civilização. É a única conclusão possível.

Sonho com o dia em que, como no Fado Tropical do português Ruy Guerra, musicado por Chico Buarque, “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Mesmo sabendo não ser possível, nem tão cedo. Pena. Reduzindo-se essa pressa que embala hoje meu coração, como na peça de Shakespeare, a só Sonho de uma noite de verão. Mas continuo otimista. Um dia isso muda.

MILHÕES EM AÇÃO

Quarta-feira, 3/6/1970. O Brasil se preparava para enfrentar a Tchecoslováquia, do presidente socialista Lodvík Svoboda. Em Santiago do Chile, brasileiros exilados fizeram Assembleia Geral e decidiram torcer contra o Brasil. Que Médici usaria o futebol em busca de se legitimar. 90 milhões em ação, se dizia então. Algo muito ruim para quem sonhava com o retorno da democracia. Pensavam assim, tão longe da pátria mãe.

Parênteses para lembrar do último encontro que tive com Josué de Castro, exilado em Paris. No final do jantar, em seu apartamento à beira do Sena, contei 12 comprimidos escondidos entre os talheres de sobremesa. E perguntei: “Dr. Josué, o senhor está tão bem, por que isso?” Ele respondeu: “Estou bem não, amigo, estou morrendo”. “De que, dr. Josué?”. “De saudade”. Assim foi, pouco depois. Saudades dele. Em Santiago, corria em todos aqueles olhos uma saudade parecida com a de Josué de Castro.

Começa o jogo no estádio de Jalisco, em Guadalajara (México). O grupo se reunia na calçada do Hipermercado Líder, da Avenida Irarrazával. Vendo, por trás das grades, a televisão que ficava dentro da loja. Ainda no começo da partida, gol de Petrás. Euforia geral. Pouco depois, Rivelino empata. E ouviram-se uns poucos gritos de gol. Mais tarde Pelé e Jairzinho (2) completaram a festa. Abraços gerais. Ganhamos! Nossos exilados se perguntavam, o que teria acontecido? E por que ninguém torceu contra?, como ficou acertado. Nova Assembleia Geral decidiu que a Copa do Mundo ficaria fora das questões políticas. E, a partir daí, todos passaram a torcer pelo Brasil.

Lembro desse fato por conta de pesquisa Datafolha mostrando que 53% dos brasileiros não estão interessados na Copa. A vida é dura, por aqui. E o desencanto anda por toda parte. Começando com nossa indigente elite política. A seleção, para quem foi pesquisado, é só mais um símbolo torto de nosso país despedaçado.

Senti a maldição dos símbolos em 1985. É que, anos antes, fui proibido de estudar no Brasil. E, mais tarde, também de dar aulas na Faculdade de Direito. Hino e Bandeira eram, para mim, símbolos da opressão. Ocorre que, por uma conspiração do destino, em 7 de setembro daquele ano eu era Ministro da Justiça. E assisti à parada militar no palanque oficial. À direita do Presidente Sarney. Seguindo o protocolo do Planalto ministros, nas solenidades, se colocavam em função da criação dos seus respectivos ministérios. Primeiro a ser criado, o da Justiça, à direita do presidente. Segundo, o da Marinha, à esquerda. E assim por diante.

Certo é que, vendo a tropa desfiliar, o coração passou a bater descompensado. O hino voltou a ser belo. A bandeira, cheia de significados bons. O limite foi ver ex-combatentes batendo continência, alguns se arrastando. Acredito que chorei mais, nesse dia, que em todo o resto de minha vida. À noite, tentei compreender o que se passou. E conclui que foi como uma catarse. Estava deixando para trás os tempos idos e compreendendo que um país se faz olhando para a frente. Sem esquecer a história, mas sabendo que nos compromete sobretudo o futuro. Como na sentença de Orwell (1984), “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.

Desconfio que domingo, quando começar o jogo contra a Suíça, esses 53% vão esquecer do que disseram na pesquisa. O sentimento de Nação é mais forte. E a Seleção vai voltar a ser, como no título do livro de Nelson Rodrigues, A Pátria de Chuteiras. Reproduzindo o que ocorreu com nossos exilados do Chile. É tempo para suspender o desalento, meus senhores. Ao menos por algum tempo. Depois tudo volta a ser como antes, claro. Nada contra. Mas só depois. Agora não.

MILÍCIAS

(Lisboa). A presença das milícias, no Rio, vem de muito tempo. Lembro cliente que teve furtado um Santana Quantum, no início dos anos 1980. A 24ª DP de Belfort Roxo localizou o carro. E o próprio delegado ligou, pedindo para providenciar logo sua remoção. Que, ficasse na delegacia uma noite, e o lugar amanheceria limpo. Ocorre que o motorista do cliente só poderia ir lá na manhã seguinte. Liguei para o Secretário de Justiça, Vivaldo Barbosa. Pouco depois, retornou. “Mandei pôr na vaga do próprio delegado. Fique tranquilo que, amanhã, o carro lá estará”. Estava. Mas sem os quatro pneus! Sem o motor!! Na vaga do Delegado!!! E o carro dentro da delegacia!!!!, como é que pode? O poder das milícias era mesmo devastador. Ainda é. Cada vez maior.

A memória segue. Quando estávamos no Ministério da Justiça (1985/6), decidimos fazer uma experiência. A de juntar, em um mesmo espaço, todos os serviços de cidadania – carteira de identidade, de trabalho e de motorista, título de eleitor, por aí (deu tão certo que, depois, até os estados copiaram). Escolhemos, como local de teste, um morro do Rio. Pedi para comprar terreno e fazer projeto de arquitetura. Problema é que as milícias decretaram, no tal morro, que tudo era deles. Teriam que autorizar a construção. Não a Prefeitura. Eles. Sugeri negociar. Perguntaram só se havia polícia no meio. Dissemos que não. E o terreno nos foi doado.

Outro exemplo. Com o Conselho de Comunicação Social, do Congresso Nacional – que é tentativa de criar, por aqui, uma Federal Communication Commission. Estávamos estudando as televisões por assinaturas, no início dos anos 1990. O preço era então alto, para o consumidor médio. Sugerimos fosse reduzido. As empresas disseram que dependia do fim da evasão. Que usuários demais não pagavam. Só nos morros do Rio, a estimativa é que houvesse um milhão de gatonets (gato na internet, mais um neologismo que ficou). Controlado pelas milícias. Junto com distribuição de água mineral e gás. E com polícia dentro, claro. Não dá para fazer isso sem a polícia, que tem o dever de fiscalizar e prender os responsáveis. Hoje, até shopping de etiquetas falsas exploram na Presidente Vargas. E escritórios para venda de drogas, em cada imóvel ocupado por sem tetos (O Globo).

A notícia de milícias envolvidas no assassinato de Marielle e Anderson, por tudo, não causa nenhuma surpresa. Elas já fazem parte da geografia do Rio. São tentaculares. Não se sabia é que tivessem exportado seu modo de operação por outros estados. Como Pernambuco. E São Paulo. Agora, nos vem a notícia de que o Movimento Moradia para Todos (MMPT) atuava como uma milícia. Cobrando aluguéis dos sem tetos. A coordenadora do Movimento, “Ednalva Franco, era filiada ao PT-SP desde 1990 e atuava como ativista sem-teto” (Folha SP). Trata-se da mesma que pouco antes, num episódio do Profissão Repórter, foi vista dirigindo um SUV novinho em folha. Moradores do Edifício Nilton Paes de Almeida, que desabou pelo fogo, relataram que pagavam entre 200 e 600 reais para ter direito a lá ficar. E se queixaram da truculência da milícia com os devedores, expulsos dos seus espaços em plena madrugada.

É como se houvesse dois países, em convivência instável. Um por dentro do outro. O Brasil Oficial, que é o nosso. E o Informal, onde não existem casamentos, nem separações, inventários, em alguns casos nem mesmo direito de propriedade. E onde o Código Civil não vigora. É neste último espaço que as milícias reinam, soberanas. Recordo mestre Câmara Cascudo (Presença): “O Brasil não tem problemas, tem apenas soluções adiadas”. Até quando? Quanto mais longe irão?, até que se decida fazer algo.

IL EST TROP TARD

Lisboa. Maio de 1968. A França em fogo. Parecido com essa greve das empresas de transporte. Estudantes, pelas ruas, faziam lembrar as barricadas vistas na Revolução de 1848 (Primavera dos Povos), contra a Monarquia. Tudo sob o comando de um jovem (de 23 anos) franco-alemão, Daniel Marc Cohn-Bendit (ele e mais Alain Geismar e Jacques Sauvageot). Não há consenso em relação ao preciso significado dessa insurreição de 1968. No início com estudantes, apenas. Depois, também agregando trabalhadores e gente do povo. Contra, difusamente, tudo que pudesse representar autoridade – exclusão social, horário de trabalho, baixa qualidade na educação, repressão sexual. Cito resumo do que aconteceu, por lá, em palavras do ator francês André Glucksmann: “Maio de 1968 é um momento tanto sublime, como detestado, que nós queremos comemorar ou enterrar”. Seja como for era, sobretudo, um ato em favor da liberdade. Mais tarde Cohn-Bendit, Danny le Rouge (O Vermelho), acabou no partido ecologista Die Grünen. E Deputado Europeu. Mas essa é outra história.

No fim de 1968, indo ao Sacré Coeur, passei pela Place de Tertre. E encontrei escrito, num muro, Il est trop tard; mais, au mois de mai, tout est possible (É demasiado tarde; mas, no mês de maio, tudo é possível). Pichada meses antes, claro, e ainda não apagada. Converti a citação em lema de vida. Por aqui, ainda naquele ano de 1968, e sob as mãos da junta militar, começava a mais negra fase da Ditadura de 1964.

Mestre Zuenir Ventura escreveu livro que retrata bem aqueles tempos, 1968, o Ano que não Terminou. Ele está certo. Como sempre. Não terminou porque sobrevive dentro de nós. Complicado é que agora, 50 anos depois, a desesperança bate novamente à nossa porta. Com um Brasil fragmentado, em conflito e sem horizontes. Sendo cada vez mais necessário que vivamos uma nova utopia. Lembro lição do amigo Eduardo Galeano (em Las Palavras Andantes, citando Fernando Birri): “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Mas qual o sentido dessa utopia?, nos anos que correm. Essa é a pergunta certa. Andar só por andar é quase nada. Especialmente num país fraturado pela exclusão social. Sem rumos. Perdido. Onde o debate foi substituído por ofensas. Sinto isso ao constatar que poucos são otimistas com o futuro. Outubro vem aí. Será um novo mês de maio?, onde as esperanças florescem. Ou será uma antevisão do caos?, prenunciando anos ainda mais difíceis. Difícil saber. Melhor, então, apenas acreditar naquela frase que foi sempre uma lição de não perder as esperanças. Nunca. Mesmo quando tudo pareça trop tard. Sendo bom lembrar que, aconteça o que acontecer, tout est possible. Deus nos proteja.

CONTRA A REVISÃO DA ANISTIA

A descoberta de novos documentos americanos, confirmando a responsabilidade dos ex-presidentes Geisel e Figueiredo por torturas e mortes, reacendeu o debate sobre a revisão da anistia. Começo lembrando terem sido 40, as Comissões de Verdade e Conciliação pelo mundo. Todas funcionando entre seis e 18 meses após o fim de ditaduras. Preparando a redemocratização. A nossa (41ª), criada 30 anos depois da transição, foi diferente. Seu objetivo era, sobretudo, repor a Verdade histórica.

Infelizmente, o tempo não foi suficiente para realizar todo trabalho. Dois dias antes da entrega de nosso Relatório Final (3.385 mil páginas), por exemplo, recebemos da Inglaterra a prova da eliminação de Stuart Angel. E, no dia anterior, 94% do total dos documentos que nos foram enviados pelos Estados Unidos. Em razão do cumprimento de prazos do Archives Act, só aos poucos liberados. Esse trabalho de repor a Verdade, espera-se, terá sequência no Ministério da Justiça. E deve ser uma missão coletiva, de todos e cada um de nós.

Com relação à anistia, bom lembrar que veio em dois momentos. Um primeiro, com a Lei 6.683, de 28/08/1979. Negociada entre Petrônio Portela (ministro da Justiça de Geisel) e Raimundo Faoro (Presidente da OAB Nacional). De um lado, preparando a volta de exilados como Arraes e Brizola. E protegendo condenados ou processados pela Ditadura. De outro, protegendo os militares por tudo que fizeram. Duro preço a pagar para permitir a transição. Uma lei imposta pelos militares, claramente, para se proteger. Vão-se os anéis. Mas houve outra, depois, da qual pouco se diz. A Emenda Constitucional 26, de 27/11/1985. Votada por um Congresso livre. O mesmo que elegeu Tancredo.

A reprodução do texto, tecnicamente o mesmo, se deveu a que o episódio grotesco do Riocentro ocorreu em 1981. Posteriormente à primeira Lei. Os militares exigiam que também aquele episódio fosse coberto por uma anistia. E tudo se deu no contexto de negociações feitas por Tancredo Neves, antes da posse, para garantir uma transição sem maiores traumas. Dos militares para a oposição civil – e não, como na generalidade dos países, primeiro dos militares para o estamento civil do sistema.

Agora, surgem novas evidências do comprometimento das Forças Armadas. Com a publicação de mais alguns documentos norte-americanos. Confirmando os indícios e as provas que nos levaram, na Comissão Nacional da Verdade, a indicar 380 autoridades como responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos forçados no Brasil. Entre eles, os presidentes Geisel e Figueiredo. Autoridades que, comprovam também os documentos de agora, ordenaram a matança do Araguaia. No curso da operação que teve o sugestivo nome de Limpeza. Limpeza de gente.

O episódio traz de volta o debate sobre a Revisão da Lei de Anistia. Assim se diz. No singular. Das leis, se deveria dizer. Por serem duas. Enfim… Essa ideia, sobre conceder ou não anistia, nos outros países se deu logo depois da transição. Com o sentido de garantir que pudessem ir, aos poucos, se reconciliando. No Brasil, foi diferente. Bem ou mal, a transição estava já feita. Em 1964, 92% dos brasileiros de hoje nem haviam nascido. Convertendo esse problema em algo do passado. Não se conhece, presentemente, algum responsável por torturas e mortes. É possível até que haja, mas ninguém importante. Só pessoal de graduação inferior. E todos, hoje, perto dos 100 anos. Já sofrendo com artrites, escleroses ou cânceres.

Sem contar que a revisão da anistia traz problemas jurídicos severos. Muito difíceis de superar. Até porque a questão já transitou no Supremo. Por isso votei, na Comissão Nacional da Verdade, em posição divergente dos outros cinco membros. Contra a Revisão da Anistia – “pelas mesmas razões que, em 29 de abril de 2010, levaram o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, e com fundamento em cláusulas pétreas da Constituição brasileira, a recusar, por larga maioria (sete votos a dois), essa tese” (pág. 965 do Relatório Final). Com absoluta tranquilidade de espírito, ainda penso assim. Devendo ter sequência os trabalhos na busca da Verdade. Em respeito a tantos – indicamos 435 vítimas, com suas biografias e fotos, no Relatório Final – que foram torturados, mortos ou estão desaparecidos. Em respeito a seus martírios. A suas vidas. A suas memórias. E à Democracia.

TRAIÇOEIRAS VÍRGULAS

O governo cancelou mesmo aquele slogan com que pretendia se auto elogiar – O Brasil voltou, 20 anos em 2. Inspirado no 50 anos em 5, de JK. E ainda bem. Que pegaria mal, caso a vírgula fosse cortada. Seria, então, O Brasil voltou 20 anos em 2. Um desastre. Lembro algo parecido. Quando, no início dos anos 1970, um capitão do Exército se vangloriou. Ao dizer ter visto, no parachoque de um caminhão, Médici, o povo pelo Presidente. Olhando bem para ele, perguntei: “Tinha mesmo essa vírgula?” Pareceu não entender. E até agradeci, por isso. Que, sem ela, a frase seria pronunciada de outro jeito, Mede-se o povo pelo Presidente. E eu, com o histórico que tinha, iria em cana.

Com relação às vírgulas, tudo começou na Grécia antiga. O templo de Apolo ficava nas encostas do monte Parnaso. E lá funcionava o Oráculo de Delfos, em que vivia sacerdote conhecida como pitonisa (pítia, serpente, seria o nome original do deus Apolo). Investigações recentes sugerem que, de fenda no rochedo, àquele tempo sairia um gás – etileno, metano, sulfato de hidrogênio (não dá mais para saber, depois de um terremoto) – que provocava o frenesi da pitonisa. Fazendo com que fizesse previsões ininteligíveis. No episódio mais famoso, Alexandre Magno queria saber o destino que teria em guerra próxima. Ela teria respondido “irás voltarás não morrerás lá”. Interpretado, pelo interessado, como “Irás. Voltarás. Não morrerás lá”. Só que Alexandre deixou seu jovem corpo enterrado na Babilônia (atual Iraque). E os generais foram pedir explicações. A pitonisa só completou a pontuação do texto, que ficou assim: “Irás. Voltarás? Não. Morrerás lá”.

Fernando Henrique Cardoso foi outra vítima do mal uso das tais vírgulas. Numa entrevista escrita, perguntaram se ele iria privatizar a Petrobrás. Sua resposta, curta, foi publicada assim: “Eu não sou contrário à privatização da Petrobrás”. Barulho grande. E apenas depois do estrago feito, esclareceu que era o contrário. Faltava uma vírgula, na sua frase, que mudava tudo: “Eu não, sou contrário à privatização da Petrobrás”. Por falar em vírgulas, elas só não faltam mesmo em José Saramago. Que usa, em média, 20 por frase (21 no Evangelho, 19 em Caim).

Slogans são sempre complicados. Em 1959, passou a funcionar o Metropolitano de Lisboa. Pronuncia-se METRO (como a medida de distância); e não, como na França, METRÔ. Escolhido para fazer o slogan, apesar de vez por outra ser preso pela PIDE (de Salazar), foi o poeta português Alexandre (Manuel Vahia de Castro) O’Neill. Contratado e pago, seu slogan foi Vá de Metro, Satanás. Obviamente inspirado na fórmula do exorcismo da Igreja Católica. O mesmo dístico que, desde 1789, vem gravado no verso das medalhas de São Bento, VRSNSMV (do latim Vadre Retro Satana Nunquam Suade Mihi Vana – Retira-te, Satanás, nunca me aconselhes coisas vãs). Apesar de tão instigante, a administração do METRO vetou a publicidade. É pena.

E não é caso único de slogan vetado. Em 1985, no início da campanha de Jarbas à Prefeitura do Recife, houve reunião em sua casa. O marqueteiro paulista da PROPEG apresentou o material preparado, começando por outdoor inspirado em Blaise Pascal (Pensées): O coração tem razões que a própria razão desconhece. Depois, a frase foi muitas vezes adaptada por Gilberto Freyre. Mas essa é outra história. Certo é que acabou popularizada por uma velha marchinha (Aos pés do céu) de Marino Pinto. Aplausos gerais. Foi quando Lailson, gênio da raça, pegou seu lápis, sem dizer uma palavra, e, continuando os versos (não de Pascal mas) da música, grafitou o outdoor: Faz promessas, e juras, depois esquece. Risos gerais. E campanha no lixo. Pensando bem, taí um slogan bom para o pessoal de Brasilia: Governo Temer: O que faz promessas, e juras, depois esquece.

MAIS VASTO É MEU CORAÇÃO

Carlos Drummond de Andrade escreveu um belo Poema de Sete Faces. Problema é que toda gente recita, dele, só poucos versos: “Mundo mundo vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ Seria uma rima, não seria uma solução”. Esquecendo até os dois que seguem, e dão sentido aos anteriores, “Mundo mundo vasto mundo/ Mais vasto é meu coração”.

Já no fim da vida, ficamos amigos. Nos falávamos toda semana. Mais ainda quando, em vias de perder para o câncer a filha única Julieta, decidiu parar de escrever. Em sua homenagem, pus um daqueles versos como nome de pequeno barco que tínhamos – Mais vasto é meu coração. A Capitania dos Portos não quis registrar. Argumentei haver lanchas com nomes lamentáveis – Amante, Viciado, Cachaceiro, como poderiam recusar Drummond? No fim, registro feito. Graças ao bom Deus.

Tirei foto e lhe mandei. Era junho de 1987. Junto com versinhos improvisados: “O barco vai navegar/ Mais vasto é meu coração/ Será livre como o mar/ Generoso como o pão/ Quem quiser me encontrar/ Enquanto a estrela brilhar/ Até o dia raiar/ Nele serei capitão”. Respondeu: “Meu verso num barco – haverá maior prêmio para um poeta? É comovidamente que digo obrigado!!!”. Dois meses depois, foi navegar em outras águas, as de Caronte – imprecisas, distantes, insondáveis, definitivas.

Tudo isso me vem à memória porque, depois, transferi esse barquinho para Demócrito Laurindo. Sempre com seu pistom desafinado, era o mais alegre e festeiro do grupo. O amigo José Maria Gomes se lembra dele como “o dançarino mais disputado do Clube Internacional”. Era, também, o pior pistonista do mundo. Mas o melhor amigo do mundo. E, por muitos anos mais, o vimos singrando os mares, feliz, no Mais vasto é meu coração.

Um dia, estávamos na praia, telefonou. Precisava falar. Coisa séria, disse. Cheguei na sua casa e, assim que me viu, passou a tocar um frevinho no pistom. Música tinha. Título também, seria Me engana que eu gosto. Faltava só a letra. Por isso me chamou. Pedi caneta, papel e escrevi: “Diz que eu sou decente/ E trabalhador/ Sou doido, sou crente/ Menor infrator/ Diz que sou parente/ Do governador/ Me engana que eu gosto, meu bem/ Diz que eu sou roqueiro/ E contraventor/ Banqueiro, usineiro,/ Doleiro e pastor/ Que fui teu primeiro/ E único amor/ Me engana que eu gosto, meu bem./ Que eu sem você/ Não sou ninguém/ Me engana que eu gosto, meu bem”. Acabou sendo a música daquele Carnaval, em Toquinho.

Passa o tempo e, agora, foi a morte quem enganou o amigo Demócrito. Tão cedo. Silenciosamente. Diógenes da Cunha Lima (em Tempo Meditação) disse: “A vida não serve/ Que a alma é longa/ E o corpo é breve”. Mas seguimos, agora sem ele. Fernando Pessoa (Bernardo Soares, no Desassossego) escreveu: “Somos todos mortais, com uma duração justa. Nunca maior ou menor. Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os viram e amaram; outros, ficam na memória da nação que os teve… Mas a todos cerca o abismo do tempo, que por fim os some”. Saudades daquele tempo em que éramos mais jovens, mais magros e, provavelmente, mais felizes. Saudades de um Brasil mais promissor que o de hoje. De Demócrito e seu pistom. De mim. De todos nós.

O CASO DO MORTO VIVO

Em Grande Sertáo: Veredas, Guimarães Rosa ensina: “O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o frio longe do quente, o rico longe do pobre, o vivo longe do morto”. Peço que Rosa me ajude nessa crônica. E vou logo explicando a razão de começar assim. É que tudo, no caso agora relatado, lembra esse “vivo longe do morto”.

O advogado português Álvaro Dias, 56 anos, foi condenado por falsificar sentenças. Em 18/11/2016. Tendo ainda, nas costas, numerosos processos. Tantos que temia passar todos os seus anos restantes na prisão. Para piorar, depois daquela condenação e antes de ser preso, aconteceu-lhe algo muito desagradável. Ele morreu. Na luxuosa quinta que tinha em Benavente (Santarém), a Herdade da Mata do Duque. No dia de Natal! Esmagado por seu Rolls-Royce Silver Shadow III. O jornal regional O Mirante, reconstituindo o acidente, descreve que o carro “começou a descer em marcha-atrás”. Porque o “travão de mão não fora acionado”. Ao perceber que iria se chocar com as árvores, o condutor “tentou voltar a entrar no veículo para o travar, mas embateu numa árvore, depois de ter conseguido abrir a porta e acabou por ser atropelado”.

O velório reuniu poucos amigos na Capela Mortuária da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes E tudo parecia nos conformes. Os laudos médicos indicaram que as impressões digitais eram do advogado. As lesões seriam compatíveis com o tipo de acidente. O rosto, no caixão, foi “tapado por haver sangramento”; mas as fotos, antes, revelavam semelhança física. O cadáver logo foi cremado. E, para sorte dele (e da família), todos os processos em que era réu acabaram encerrados.

Ocorre que “um enterro é a procissão algébrica das dúvidas” (Rosa, Os Chapéus Transentes). Dando-se que, pouco depois, uma denúncia anônima chegou ao juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (Lisboa). A de que Álvaro Dias havia contratado um cadáver substituto.

Nas investigações sobre a denúncia dessa morte que não houve foram encontrados, nas gavetas de seu escritório, “documentos falsos, em número de dezenas”. E muitos indícios suspeitosos: a “agência funerária sita em localidade muito distante dos locais de residência da vítima”; “ligação entre o médico-legista, outrora aluno do advogado e a vítima”; e a “invulgar celeridade na autópsia e na cremação”. As aspas são da Visão portuguesa. Novos exames apontaram 23 outras falhas na comprovação dessa morte. E nosso Álvaro Dias corre o risco de ter tido tanto trabalho pra nada. “Quem fala muito, dá bom dia a cavalo” (Rosa, Minha Gente). Que a polícia está indo à sua procura.

Mas afinal, dirão apressados leitores, que isso tem a ver com nosso Brasil? Duas coisas, meus senhores. Uma, o juiz do feito é o senhor doutor Carlos Alexandre. O Sérgio Moro de Portugal. Responsável por julgar, na Operação Marquês, o ex-primeiro ministro José Sócrates. Num processo do PT de Portugal que envolve Lula, José Dirceu e a Odebrecht. Todos muito conhecidos nossos. Em despacho, ele declarou que “a comprovar-se a veracidade das suspeitas, isso transporta as instituições portuguesas para o nível do absurdo”. Os olhos são, mesmo, “a porta do engano” (Rosa, O Espelho).

A outra razão é o lugar para onde teria fugido, e hoje viveria bem, o tal Álvaro Dias. Quem apostou no Brasil, ganhou fácil. Tanto lugar no mundo e tinha que vir logo para cá. Pobres de nós. Pensando bem, pobre dele. Na ilusão de que, por aqui, ainda se pode ter grandes fazendas, sítios, apartamentos e dinheiro em malas, com a esperança de não ir parar nunca na cadeia. Quando, considerando os últimos acontecimentos, não dá para ter tanta certeza assim.

CADEIRAS DE RODAS

O brasileiro, nos dias que correm, pensa quase que só em si mesmo. Estaciona o carro onde lhe der na veneta. Fura fila de elevadores. Joga, sem constrangimento, lixo nas ruas. Emporcalhando a cidade. E essa praga se alastra para as corporações. As greves se banalizam. Ruas e estradas são fechadas, a troco de nada. Por qualquer razão. Quem tiver o que fazer, ou se precisar ir até um hospital, que se dane. Não estão preocupadas (talvez nunca tenham estado) com o que é bom para o país. Para os indeterminados cidadãos comuns do povo. Querem só o melhor para elas. Para seus membros. Mesmo nas questões mais simples, se vê por toda a parte o brilho deletério do individualismo se sobrepondo ao interesse coletivo. Sem contar uma lassidão que, cada vez mais, se alastra e nos contamina. Nos paralisa. E nos faz reclamar de tudo. Sobretudo do Governo. Até por não ter feito o que nós mesmos poderíamos fazer.

Nesse ponto entra, em nossa história, Geraldo Freire. Quem quiser saber melhor quem é, e de sua vida improvável, pode ler a biografia que escreveu (O que eu disse e o que me disseram). Então saberá como sobreviveu, nascido no meio do nada. E escapou da fome, em Mimoso. E se criou sozinho. Para ser, com seu suor, o maior radialista de Pernambuco. Geraldo se sensibilizou com o drama de pessoas humildes que precisavam de cadeiras de rodas. Gente para quem essas cadeiras eram um luxo incompatível com os limitados recursos que tinham, em casa, e que mal davam para comer. Segundo ele, o Estado deveria pelo menos garantir isso aos desvalidos. E reclamava, e reclamava, e nada. Até que cansou. Ainda bem. Foi o começo de tudo.

Então, ele próprio decidiu fazer campanha para doar essas cadeiras de rodas. Isso já faz quase 40 anos. Sem interesses, especialmente eleitorais, que não o de atender a uma enorme legião de carentes. Juntou amigos. No início, poucos. Teve o importante apoio de sua Rádio. O que não se podia prever era que os ouvintes abraçassem essa ideia com tanta paixão. Virou uma febre. Hoje são doadas, em média, mil cadeiras por ano! Quem pode, contribui com mais. O amigo João Carlos Paes Mendonça, e isso era segredo até agora, doa dez por mês (penso que ele não vai gostar da inconfidência). Pessoas simples, para quem esses recursos fazem falta, com menos. Há quem espere o 13º salário, no fim do ano, para doar uma.

Momento mais tocante, para mim, é o da entrega das cadeiras. Como se trata de rádio, não dá para ver imagens. Mas podemos imaginar, pela emoção que esborra das palavras, o rosto feliz das pessoas que as recebem. Prova de que uma coisa tão simples, como uma cadeira, pode mudar vidas. A chance de ver o sol. De ir até a calçada. De conversar com os vizinhos. Se esses réus da LavaJato presenciassem a cena, iriam morrer de vergonha. Que a grana que surrupiaram, em favor dos partidos ou de seus alentados bolsos, seria mais que suficiente para resolver de vez esse problema. E tantos outros.

O mito de Bon Sauvage, de Voltaire, se evaporou. Do brasileiro como um “homem cordial”, na definição de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), vai ficando só um retrato na parede. E “como dói”, diria Drummond (em Confidência do Itabirano). Mas nem tudo está perdido. Essas doações de cadeiras de rodas funcionam como um renovar de esperanças. Porque já deixou, há muito, de ser só uma doação de cadeiras de rodas. É mais. É o rosto concreto da solidariedade. É a prova de que há boas razões para não desistir do país. É a esperança de que o brasileiro, no fundo, ainda pode ser um homem bom. É um gesto. Num símbolo. Num sonho.

SCUPAÍ, DOTÔ

A vida, para Victor Hugo (em Monte de Pedras), “é uma frase interrompida”. Já na definição de Pessoa (Soares, no Desassossego), parecido, é somente “a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final”. É pensando nessa vida, “insolvente e provisória” (Carlos Pena, A solidão e sua Porta), que lembro do amigo Zeca Calazans. Fomos para Salvador num carrinho azul que tinha – ele, meu irmão José Roberto, Alceu Valença e este pobre que vos fala. Num intervalo dos afazeres, fomos ao Pelourinho. Para ver, na Academia de Mestre Pastinha, como era mesmo a tal capoeira. Ficamos encantados com aquela mistura de dança e luta. E contratamos Negão (atenção, pessoal do politicamente correto, não se trata de preconceito, é só como o chamavam) para nos ensinar.

Chegamos na praia de Amaralina, onde estávamos abrigados (em casa de uma tia). Pagamos o capoeirista e começamos a nos preparar. Problema foi quando Negão ficou de calção. A barriga, como diz hoje a meninada, era tanquinho. As pernas pareciam dois tonéis. Cada braço… Resumindo, tratava-se de um trojão. Os três correram, na hora. Com medo. Argumentei que o homem já tinha sido pago. Estava lá para nos ensinar. Responderam que, se levassem um golpe dele, iriam morrer. Pois então vou eu, que não sou de jogar dinheiro fora. Pra quê? Só para me arrepender.

Começamos a aula e, em 10 segundos, levei uma pernada entre o cotovelo e o ombro esquerdo. Olhei, perplexo, para Negão. E ele disse, apenas, “Scupaí, dotô”. Continuamos. E, de novo, outra pernada. No mesmo lugar. Recomeçamos. E mais outra. Um minuto e o braço estava já todo roxo. Perguntei o que estava acontecendo. Negão respondeu, mansamente: “Elas por elas, dotô. O sinhô diz por aí que eu sou viado (novamente atenção, apenas reproduzo as palavras dele), e eu li dou umas porradinha de leve. Tamo quites”. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pensando bem, eu deveria era estar agradecido. Que ele não chutou minha cabeça porque não quis.

Quem foi que lhe disse isso?, Negão. E ele, apontando para o grupo comandado por Zeca Calazans, respondeu: “Foi seus amigo”. Que, a esta altura, estavam rebolando na areia. De rir. Só então Negão se virou para mim e disse, com cara de arrependido: “Scupaí, dotô. Parece que o sinhô apanhou de graça”. Fim das aulas de capoeira. Nunca mais soube de Negão. Passei a chamar Calazans de Canalhães, por conta desse epsódio lamentável (para mim). Domingo, na capela do cemitério de Santo Amaro, fomos dizer adeus a Canalhães. Querido amigo. Saudades dele.

A moral dessa história, para aqueles que pensam toda história deva ter sua moral, é que algumas vezes a gente apanha sem culpa nenhuma. Só que, em outras, o cidadão está quase pedindo. Especialmente, nos tempos atuais, em nosso amado Brasil. Nas ruas, nos restaurantes, nos aviões, em toda parte. Sugestão que dou, quem sou eu para dar sugestão a ninguém!, é que essa gente indignada não deixe de fazer isso. Continue protestando. Para que os poderosos escutem, com a pele, o som que vem da indignação dos indeterminados cidadãos comuns. “Ouça as ruas, Ministro”, palavras de Joaquim Barbosa. Só que, por educação, depois não se esqueçam de dizer, como o filosófo Negão: Scupaí dotô, deputado, senadô, ministru, presidenti.


© 2007 - 2018 Jornal da Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa