Categoria: LEONARDO DANTAS SILVA – ESQUINA

A IMPRENSA E A ESCRAVIDÃO

No Brasil do século XIX, para a grande massa escrava, que integrava a sua população do Brasil e que acalentara na Independência o seu sonho de liberdade, a imprensa periódica que surgia no início da segunda década nada mais era que uma nova forma de negócio.

O Diario de Pernambuco, surgido em 7 de novembro de 1825, a exemplo de todos os demais jornais de sua época, não fugia à regra, como se depreende do enunciado do seu primeiro número:

Faltando nesta cidade assaz populosa um Diario de Anúncios, por meio do qual se facilitassem as transações, e se comunicassem ao público notícias, que a cada um em particular podem interessar, o administrador da Tipografia Miranda & Comp. se propôs a publicar todos os dias da semana, exceto aos domingos somente, o presente Diario, no qual debaixo dos títulos de Compra e Vendas – Leilões – Aluguéis – Arrendamentos – Aforamentos – Roubos – Perdas – Achados – Fugidas e Apreensões de escravos – Viagens – Afretamentos – Amas de Leite etc., tudo quanto disser respeito a tais artigos; para o que tem convidado todas as pessoas, que houverem de fazer estes ou outros quaisquer anúncios…

Sobre o assunto, observa Joaquim Nabuco em 1883, quando da publicação de O Abolicionismo, cuja reedição, fac-similar da primeira, fizemos incluir na abertura desta Série Abolição:

Em qualquer número de um grande jornal brasileiro – exceto tanto quanto sei, na Bahia, onde a imprensa da capital deixou de inserir anúncios sobre escravos – encontram-se com efeito as seguintes classes de informações que definem completamente a condição presente dos escravos: anúncios de compra, venda e aluguel de escravos em que sempre figuram as palavras mucama, moleque, bonita peça, rapaz, pardinho, rapariga de casa de família, (as mulheres livres anunciam-se como senhoras, a fim de melhor se diferenciarem das escravas): editais para praças de escravos, espécie curiosa e da qual o último espécime de Valença é um dos muito completos [Valença, 23 de abril de 1883]; anúncios de negros fugidos acompanhados em muitos jornais da conhecida vinheta do negro descalço com a trouxa no ombro, nos quais os escravos são descritos muitas vezes pelos sinais de castigos que sofreram, e se oferece uma gratificação, não raro de 1.000, a quem o apreender e o levar ao seu dono – o que é um estímulo à profissão de capitães-do-mato… (p. 120-122)

Esses anúncios de jornais, de que trata Joaquim Nabuco, despertaram o interesse de Gilberto Freyre que contou com as pesquisas de José Antônio Gonsalves de Mello para escrever a conferência pioneira, “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, depois transformada em livro de grande sucesso(14). Os anúncios de jornais, particularmente os do Diario de Pernambuco, já vinham sendo utilizados por Gilberto Freyre desde 1933, quando da publicação da primeira edição de Casa-Grande & Senzala (p.330, notas), como identificação das “nações” africanas aqui existentes.

O material reunido – cerca de dez mil anúncios típicos – chega para uma tentativa de interpretação social e psicológica, quase exclusivamente através desses retalhos, de um dos períodos mais significativos de nossa história. É todo um largo espaço social, cheio de sombras, por onde os historiadores oficiais ainda tropeçam agarrados às crônicas ilustres, que se deixa às vezes iluminar ou esclarecer, de modo decisivo, por um simples anúncio de negro fugido. E em pesquisas sociológicas e de antropologia cultural ou de História Social, devemos seguir o conselho das Escrituras: aprender até com as formigas. Aprender até com os anúncios de jornal(15).

Dos anúncios transcritos por Gilberto Freyre, aparecem escravos claros, a denunciar a mestiçagem que tomava conta do Brasil, formadora da morenidade de que tanto nos orgulhamos nos dias atuais:

– Alvo também era Francisco, que tinha tatuagens representando uma cruz e o signo-de-salomão (DP, 28.3.1834).

– vende-se para fora da província uma mulata bem alva, de idade de 20 a 22 anos, muito prendada, fiel e sem vício algum (DP, 30.11.1836).

– O mulatinho que desapareceu da ponte da Boa Vista era “alvo e de cabelo estirado e louro (DP, 16.9.1837).

– De peitos grandes, pés e mãos pequenas, dentes grandes separados, era a mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838).

– Vende-se uma escrava de dezoito anos, de bonita figura e bons costumes, e que serve bem a uma casa, por ter sido educada por uma senhora inglesa, a qual também fala inglês, cose, cozinha, engoma e lava; na Rua do Livramento n.º 36 (DP 31.7.1848).

– … estatura alta, bem alvo e bonito, seco de corpo, braços compridos, dedos finos e grandes, sendo os dois mínimos dos pés bastante curtos e finos, tem dezoito anos de idade, cabelos corridos e pretos, levando eles rentes… mãos e pés bem feitos e cavados, olhos pardos e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, não buça, leva calça de brim branco já usada e camisa de chita com flores roxas (DP, 21.1.1865).

– … bem alvo e bonito, seco de corpo, braços e pernas compridas, dedos finos e grandes, cabelos corridos e pretos, olhos grandes e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, era Ubaldo cuja fuga é anunciada (DP. 5.4.1870).

Os anúncios de jornais eram retratos falados de uma época, servindo não somente para demonstrar as marcas de castigos corporais, impostos aos escravos fujões pelos capitães-do-mato e senhores, mas também outros aspectos da população de cor. Através desses retalhos podemos estudar as origens tribais (Moçambiques, Angolas, Caçanges, Benguelas, Nagôs, Bantos, etc.), as habilidades profissionais – como aquele que sabia tocar piano e marimba, que chamou a atenção do inglês Alexander Caldcleugh, in Travels in South America, during the years 1819-20-21, Londres, 1825, ao ler anúncio em jornal do Rio de Janeiro.

Por tais anúncios podemos saber sobre divertimentos dos escravos – Catarina frequentava aos domingos o maracatu dos coqueiros, no Aterro dos Afogados (DP.1.7.1845) –; erudição – Delfina falava muito bem espanhol (DRJ, 4.5.1830) –; trajes – Isabel vestia preto, “por o Sr. trazer de luto”(DP, 31.1.1842) –; temperamento (tristes, alegres, falantes, ladinos, brigões), vícios (fumo, álcool, comer terra); doenças (marcas de bexiga, boubas, bichos-de-pé etc.); ajuntamentos – a preta Ricarda era canhota, “mais ou menos alta, seca, cabeça chata, cara redonda”, que, “muito pachola”, gostava de “súcias e batuques” (DP, 16.7.1845) –; adornos; penteados; deformações profissionais; constituição física – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (DP, 4.5.1839) –; comportamento – … “mulata de linda figura, sabe labirinto, é engomadeira e costureira, de boa conduta”, como não poderia deixar de ser, “própria para uma noiva” (DP, 7.8.1857) –; marcas de ferro e/ou de nação; dado a feitiços – alguns com culto instalado na Estrada de João de Barros (DP, 7.2.1859) –; não faltando escravos fugitivos pertencentes a ordens religiosas, como bem retrata o anúncio publicado no Diario de Pernambuco de 11 de setembro de 1838:

Do engenho Maraú, ribeira do rio Parnaíba, propriedade do Mosteiro de São Bento da cidade da Paraíba, fugiu Bonifácio, crioulo, idade de 50 anos, seco, pernas finas, pouca barba, e já toda branca; João Batista, crioulo, carpina, de 30 anos de idade, estatura ordinária, cheio de corpo, e muito barbado, tem os calcanhares brancos, e pernas fouveiras por queimadura de fogo de pólvora, e o andar um tanto embaraçado; quem os prender e levá-los ao dito engenho ao abaixo assinado, ou ao Mosteiro de Olinda, será satisfeito de todas as despesas e bem recompensado; consta ao abaixo assinado que eles têm andado por Paudalho, Nazaré e Limoeiro, portanto ele roga a seus amigos residentes nesses lugares, toda a pesquisa a respeito, e deles espera tal favor Fr. Galdino de S. Inês Araújo.

O mais curioso do anúncio acima é que os padres do Mosteiro de São Bento, em capítulo realizado a 15 de janeiro de 1831, em Olinda, haviam libertado todos os escravos dos mosteiros de Pernambuco e Paraíba, “por ser a escravidão oposta a razão, a consciência e a religião”, segundo informa F. A. Pereira da Costa em artigo publicado na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, v. 42, Recife 1891, p. 261.

Por muitos anos a imprensa viu no negro escravo um objeto de negócio, classificando entre os semoventes – tratado por “cabra” a se confundir com o próprio animal –, e só muito depois é que veio despertar para a chaga da escravidão.

Em 1847, em sua edição de 1º de julho, o Diario de Pernambuco anuncia a criação da Sociedade Protetora dos Homens Pardos:

Acha-se pública e licenciada pelo Sr. Doutor Chefe de Polícia a Sociedade Protetora dos Homens Pardos e Pretos Livres da Província de Pernambuco, na Rua das Águas Verdes nº 22, segundo andar, com o fim de proteger não só seus irmãos sócios, como todos os mais homens de cores em geral: o que se faz ciente ao respeitável público para sua inteligência. – Luís Cyríaco da Silva, primeiro secretário.

Em 16 de janeiro de 1839 o padre Miguel do Sacramento Lopes da Gama, no jornal O Carapuceiro, ao analisar a sociedade de então e indagar sobre o futuro do Brasil, aponta crimes que, de serem cometidos com tanta habitualidade, já passaram a ser legais:

Uma filosofia toda sensualista inoculou-se na população do Brasil: o egoísmo é o ídolo das classes elevadas da sociedade, gozos materiais são os únicos incentivos da maior parte dos corações …

E denunciando as claras transgressões ao que preceituava a Lei de 7 de novembro de 1831, regulamentada pelo Decreto de 12 de abril de 1832, ao arrepio do Código Penal de então, denuncia o polêmico jornalista:

Temos um exemplo disto no infame tráfico de escravaria. A princípio havia susto, havia receios; mas pouco a pouco foram-se aventurando os especuladores de carne humana, e hoje é espantosa a importação de escravos da costa da África …

E, mais adiante, denuncia a formação de quadrilhas de ladrões de escravos:

A ambição cresceu a olho em todos os corações, e tem chegado a ponto de haverem aparecido homens de mão armada a roubarem escravos uns dos outros, e já tem havido reencontros, e mortes por causa disto! Querem argumento mais cabal da nossa corrupção, e imoralidade?

PRIMEIRO JORNAL ABOLICIONISTA

Em 13 de janeiro de 1876, surgiu o semanário O Homem, jornal impresso na Tipografia do Correio do Recife, sob a direção de Felipe Nery Colaço, com o “fim de promover a união, instrução e a moralização dos homens de cor pernambucanos. Advogará a causa dos interesses legítimos deles e defenderá seus direitos políticos, propugnando para que a Constituição seja uma realidade para todos os brasileiros, sem distinção de classes. As injustiças que lhes forem feitas serão levadas ao conhecimento do público, para que a maldição geral caia sobre aqueles que as tiverem praticado e o mesmo terá lugar relativamente à opressão e perseguição que sofrerem”… “Todos os outros cidadãos que, sentindo-se oprimidos ou perseguidos recorrem ao O Homem, encontrarão também benigno acolhimento, qualquer que seja a posição social do opressor ou perseguidor”.

No formato 38 x 27 cm, com sua matéria disposta em quatro páginas, este semanário das quintas-feiras, em seu segundo número denunciou o dúbio comportamento do jornal A Província e acusou o governador de Pernambuco, Henrique Pereira de Lucena, “que não admitia pardos ocupando lugar de destaque em seu governo”.

O Homem circulou com regularidade, defendendo sempre o elemento de cor e os princípios do abolicionismo, até 30 de março do mesmo ano (nº 12), quando veio a sair de circulação.

Estava assim lançada a semente da imprensa abolicionista em Pernambuco, continuada depois por outros órgãos. Os anúncios de escravos fugidos diminuíam no seu tamanho e o Jornal da Tarde, aparecido em 22 de maio de 1885, sob a direção do historiador José Higino Duarte Pereira, em polêmica com O Tempo, jornal conservador, afirmava ser este “a página negra da imprensa pernambucana”, acusando-a de viver da “desgraça alheia… com anúncios de escravos fugidos”.

No livro A IMPRENSA E A ABOLIÇÃO (Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massangana, 1988), de nossa autoria, integrante da Série Abolição, comemorativa do Centenário da Abolição da Escravidão Negra no Brasil, reunimos vinte e quatro títulos de jornais pernambucanos com matérias pertinentes à causa abolicionista. A análise de cada periódico antecede a sua publicação fac-similar, de modo a facilitar o entendimento do leitor, chamando a atenção para a época da publicação. No mesmo sentido fizemos publicar na mesma série (v. XII) a coleção do jornal O Abolicionista, editado pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão, no Rio de Janeiro (1880-1881), então sob a direção de Joaquim Nabuco.

Este trabalho só veio a ser possível graças à colaboração da Prof. Esther Caldas Bertoletti, do Plano Nacional de Preservação dos Periódicos Brasileiros (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), e dos colegas da Fundação Joaquim Nabuco, Maria Laura Menezes, Luiz Gomes de Freitas, Edilice de Santana Pessoa e Rosa Martins que, empenhando o melhor dos seus esforços na microfilmagem dos originais e conclusão deste volume, muito contribuíram para sua realização.

O BAIRRO QUE DEU NOME AO RECIFE

No ponto onde o mar
se extingue
e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram
seus flancos:
trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Carlos Pena Filho

Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro”, na descrição da Prosopopea (1601) do poeta cristão-novo Bento Teixeira, escrita em Pernambuco na segunda metade do século XVI, seria a origem humilde da povoação do Recife.

Situada no cruzamento do paralelo, a oito graus e três minutos e 45,8 segundos de latitude sul, e do meridiano a 34 graus e 52 minutos e 14,8 segundos, de longitude oeste, a Barra do Arrecife, assim chamada no Diário de Pero Lopes de Souza (1532), veio a ser a Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios, a que se refere o donatário Duarte Coelho Pereira em sua impropriamente chamada carta foral de 12 de março de 1537, uma minúscula povoação de mareantes e pescadores que viviam em torno da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles denominada de Corpo Santo.

Era o Recife um porto por excelência, o de maior movimento da América Portuguesa, escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco. Tal riqueza logo despertou a cobiça da Holanda que, em guerra com a Espanha, voltou suas atenções para o açúcar, produzido por 121 engenhos e exportado através desse porto.

Em 14 de fevereiro de 1630, utilizando a maior esquadra que até então cruzara a linha do Equador, formada por 65 embarcações e 7.280 homens, os holandeses vieram se instalar na antiga Capitania Duartina, iniciando uma dominação que se estendeu até janeiro de 1654.

Durante 24 anos, passou o Recife de povoação acanhada do século XVI e início do século XVII a capital do Brasil Holandês. Foi tanto o crescimento do primitivo Arrecife dos Navios, foram tantos os melhoramentos obtidos, particularmente durante o governo do conde João Maurício de Nassau (1637-1644), que, mesmo após a expulsão dos holandeses (1654), o Recife jamais voltou a depender de Olinda. O Povo dos Arrecifes era coisa do passado. O primitivo porto veio a ser disputado até pelos governadores que teimavam em ocupar o Palácio de Friburgo, construído pelo conde Nassau na primitiva ilha de Antônio Vaz, deixando de prestar assistência à sede da capitania, Olinda, motivando assim os reclamos junto ao rei de Portugal.

Para o recifense, no Bairro do Recife encontra-se a origem de toda a cidade. No subúrbio ou mesmo nos bairros centrais de Santo Antônio e de São José, é comum a expressão como referência certa ao nascedouro do antigo Arrecife dos Navios: Lá dentro do Recife …

Quem chega a Pernambuco, ao começar seu roteiro, vai logo ao encontro do velho bairro do Recife: Ali é que é o Recife/mais propriamente chamado.

Em torno dele, ao longo de seu porto, com os seus 3.000 metros de cais acostável, estão as origens do povoamento do Recife quatrocentão. Dele se avistam as ondas quebrando sobre a muralha dos arrecifes, ponto onde o visitante sentirá na alma os versos do cristão-novo Bento Teixeira, escritos ainda nos primeiros anos de nossa colonização:

Hé este porto tal, por estar posta,
Huma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva;
Antre a praya, e pedra decomposta,
O estranhado elemento se diriva,
Com tanta mansidão, q. hua fateyxa
Basta ter à fatal Argos anneyxa.

Prosopopea (1601)

Ao contemplar esta muralha, o sábio inglês Charles Darwin (1809-1882), autor da Teoria da evolução das espécies, que esteve no Recife a bordo do navio H. M. S. Beagle, aportando em 12 de agosto de 1836, assim registrou no seu Diário¹:

O objeto mais curioso que observei nesta vizinhança foi o recife que forma o ancoradouro. Duvido de que em todo mundo haja outra estrutura natural que apresente aspecto tão artificial. Percorre uma extensão de vários quilômetros em absoluta linha reta, paralela à praia e pouco distante desta. A largura varia entre 30 e 60 metros e tem superfície nivelada e macia; compõe-se de arenito duro de estratificação obscura. Durante a preamar as ondas se quebram sobre ele, mas na vazante a parte superior fica seca, de sorte que se apresenta como um quebra-mar construído pela mão de ciclopes.

Depois de afirmar que a formação dos arrecifes da costa pernambucana se deve a um aglutinado de restos de animais marinhos, “pelo sucessivo crescimento e morte das pequenas conchas Serpulae, juntamente com algumas bernaclas e nulliporae”, conclui:

Esses insignificantes seres orgânicos, especialmente as Serpulae, prestam excelente serviço ao povo do Recife; pois, sem o auxílio da sua proteção, a barreira de arenito, de há muito, teria sido inevitavelmente destruída, e sem essa barreira nunca haveria de existir um ancoradouro.

Para a construção do atual Porto do Recife, observa Tadeu Rocha², “alteou-se a muralha dos arrecifes, construíram-se quebra-mares, fizeram-se extensos cais, ergueram-se armazéns e montaram-se guindastes. No dia 12 de setembro de 1918, o vapor São Paulo, do Lóide Brasileiro, acostou ao novo cais de cabotagem. E em 2 de outubro de 1924, o paquete Gelria, do Lóide Real Holandês, atracou no cais de dez metros, sob os aplausos do povo que acorrera ao porto para receber o belo transatlântico”.

As suas obras, porém, já eram consideradas conclusas em 15 de abril de 1922, quando o Arlanza, transatlântico inglês de 14 mil toneladas, atracou no seu ancoradouro interno.

O Recife, a exemplo de outras cidades portuárias, nasceu e se desenvolveu em torno do seu porto, segundo ensina com muita propriedade o também recifense Josué de Castro:

A cidade nasceu como porto e a serviço imediato do porto. É este um dos seus aspectos mais singulares: em regra, constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso, levantaram os holandeses uma cidade para servir a seu porto. O seu primeiro fator de progressão foi o crescimento desse porto a serviço de uma região fértil, onde a indústria açucareira prosperava a largos passos. Foi o açúcar produzido nos solos aluvionais e de decomposição do Nordeste, nas famosas terras de massapê, da chamada região da Mata, que constituiu, desde o começo e durante quase todos os períodos da história nordestina, o fator fundamental de propulsão e de evolução da cidade do Recife. Foi no Vale do Capibaribe, nas suas margens alongadas em várzeas fecundas, que se iniciou o plantio da cana no país – plantio que se mostrou de logo extremamente vantajoso. Quando os holandeses se preocuparam em invadir Pernambuco, fizeram-no antes de tudo atraídos pelo cheiro do açúcar, produto tão disputado na época pelos mercados mundiais, e aqui chegando assentaram na entrada do vale cultivado para receberem, o mais diretamente possível, o produto da região, transportado em barcaças através do próprio rio. […] A localização desses engenhos e de outros, plantados no Vale do Beberibe, tiveram uma extraordinária influência na direção que tomou a cidade em sua evolução. Como já tivemos ocasião de aludir, anteriormente, o Recife viveu, desde suas origens, sempre atraído por duas seduções opostas: pela atração do vasto mar salpicado de caravelas e pela atração do ondulado mar dos canaviais espalhados nas grandes várzeas³.

As obras do Porto, desenvolvidas entre 1908 e 1924, fizeram passar o Recife por uma grande reforma urbana. Seculares prédios do seu bairro portuário, testemunhas do crescimento do velho burgo desde os primeiros anos da colonização, alguns deles da primeira metade do século XVI, vieram ceder lugar às novas avenidas Alfredo Lisboa, Rio Branco, Marquês de Olinda e Barbosa Lima, e Rua Álvares Cabral, parte das ruas Vigário Tenório e Bom Jesus, com novo traçado.

Com tais demolições também sumiram da paisagem, em outubro de 1913, a Igreja do Corpo Santo, também conhecida por São Telmo (Santelmo), por conta do seu padroeiro São Frei Pedro Gonçalves, cujos primórdios datavam do início da Capitania Duartina. Quatro anos mais tarde, foram demolidos os arcos de Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio, que se encontravam desde o século XVIII nas cabeceiras da Ponte do Recife, Maurício de Nassau.

A paisagem vista do porto, com as ondas arrebentando-se contra os arrecifes e os grandes navios cruzando a entrada da barra, inspirou certa vez o pintor Cícero Dias ao dar nome a uma das suas obras: Eu vi o mundo! Ele começava no Recife…

Sob a inspiração daquele pintor, a antiga Praça do Comércio recebeu, em dezembro de 1999, uma nova roupagem, obedecendo ao traço do arquiteto Reginaldo Esteves, que a transformou numa grande esplanada, de cerca de 7.000 metros quadrados, cercada de bancos em granito e 32 bandeiras azuis, a relembrar o poema de Carlos Pena Filho, tendo no meio uma rosa-dos-ventos concebida pelo mesmo Cícero Dias. No seu centro, foi fixado o atual Marco Zero, um disco de bronze, de 105 cm de diâmetro com uma singular inscrição:

DESTE MARCO PARTEM AS DISTÂNCIAS PARA TODAS AS TERRAS DE PERNAMBUCO – ANO 2000.

No mesmo disco estão fixadas as coordenadas de localização do Recife, no cruzamento do paralelo de 803’45,8”, de latitude sul, e do meridiano de 34052’14,8”, de longitude oeste, e a altitude de 4.700 metros acima do nível do mar.

Para esta praça, oficialmente denominada de Praça Rio Branco, convergem as Avenidas Marquês do Recife, Rio Branco e Barbosa Lima, que têm por esquinas os prédios do Espaço Cultural Bandepe, Associação Comercial e a antiga Bolsa de Valores, exemplos da arquitetura eclética que tomou conta do Bairro do Recife no início do século XX. Estes exemplos de ecletismos se destacam pela homogeneidade de suas edificações, em sua maioria dotada de três e quatro pavimentos, representando um estilo que marcou o Brasil no início do século XX, no qual predominam exemplares desta escola inspirada na arquitetura europeia de então.

Do lado leste da praça, sobre a muralha dos arrecifes, o arquiteto Reginaldo Esteves projetou um parque de esculturas, entregando sua realização ao artista pernambucano Francisco Brennand, que o concluiu no ano de 2001.

No extremo sul da praça, ergue-se a estátua pedestre do barão do Rio Branco, inaugurada em 19 de agosto de 1917. A peça em bronze, confeccionada em Paris com 280 cm de altura, é obra do escultor francês Félix Charpentier, tendo sido, na época, colocada sob um pedestal, com 420 cm de altura, esculpida em pedra por Corbiniano Vilaça.

O conjunto de construções do Bairro do Recife vem a ter sua importância reconhecida em 1998. Nesse ano, por decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em reunião realizada em 14 de março, no Rio de Janeiro, que teve como relator o professor Joaquim de Arruda Falcão, o Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico do Antigo Bairro do Recife veio a ser considerado Monumento Nacional, nos termos do Decreto-lei n.º 256, de 30 de novembro de 1937. Em 28 de julho do mesmo ano, a decisão daquele colegiado foi homologada pela Portaria n.º 263, assinada pelo ministro da Cultura, Francisco Weffort.

O velho bairro, porém, tem outros encantos, que o olhar do cidadão comum por vezes não registra, havendo até quem o veja como uma República, uma espécie de Vaticano dentro da cidade do Recife. Com esse espírito o vislumbrou Gustavo Krause, que antes de ser prefeito, governador e ministro, é também boêmio e poeta do Recife e assim, legislando em causa própria, escreveu a Constituição da República Independente do Bairro do Recife.

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¹ DARWIN, Charles. “A muralha de Pedra”. In: O Recife: quatro séculos de sua paisagem. Leonardo Dantas SILVA e Mário SOUTO-MAIOR. (Organizadores). Recife: Editora Massangana, 1992. p. 166.

² ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes). 4. ed. Recife: ed. do autor, 1972. Ilustrações de Hélio Feijó.

³ CASTRO, Josué. Fatores de localização da cidade do Recife. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947. p. 65-66.

O’LINDA! O TEU NOME BEM DIZ…

Aos olhos de quem a contempla pela primeira vez, Olinda se apresenta povoada de sonhos e tomada pela claridade a ofuscar as retinas de quem chega:

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte. (Carlos Pena Filho)

Aquele conjunto de colinas, que pouco interessou aos indígenas habitantes de suas redondezas antes da chegada do colonizador, fascinou o português que nele viu o local ideal para a construção de uma vila.

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do Brasil (1627), a denominação Olinda vem de um galego criado de Duarte Coelho, porque, andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse (a vila), e achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria: O’ linda!.

A versão já fora antes relatada pelo cristão-novo Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI, sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c.1696-c.1762), chegando o historiador inglês Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: Oh! linda situação para se fundar uma vila!.

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de Olinda e começou a recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a denominação teria origem em Portugal:

Nada mais natural que aquele nome fosse de alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e que ele no Brasil quisesse perpetuar (…) Sabe-se também que Olinda era o nome de uma das belas damas na novela do “Amadis de Gaula”, cuja leitura estava então muito em voga, não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história.

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho, de 12 de março de 1537.

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1848 – BATALHA DOS GUARARAPES

 Primeira Batalha dos Guararapes. Pintado em Portugal por artista anônimo (1758)
Acervo Museu Histórico Nacional

Na primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 19 de abril de 1648, o exércitos luso-brasileiro era formado por 2.200 homens, divididos em quatro terços, comandados pelos mestres de campo João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, o governador dos Índios, capitão-mor Filipe Camarão, e o governador dos pretos, Henrique Dias, não dispondo de qualquer peça de artilharia.

A técnica portuguesa de combate, posta em prova quando das guerras contra Espanha, no Alentejo, seguia o figurino das guerras de Flandres. Eram os exércitos formados por Terços de Infantaria, constituídos de 2.000 homens, subdivididos em companhias de 200 homens cada uma, formadas por igual número de piqueiros e arcabuzeiros. Os piqueiros eram armados com um longo pique (lanças com 18 pés de comprimento), espada, peitoral e celada; os arcabuzeiros, sem armadura defensiva, dispunham apenas do arcabuz ou espingarda de mecha com sua forquilha e uma adaga.

Nas guerras europeias, marchavam em formação de grandes quadrados de 50 piqueiros em cada face, rodeados e flanqueados nos vértices por outros quadrados de arcabuzeiros, alternando assim as descargas de armas de fogo com as cargas de armas brancas.

Nas Guerras Brasílicas, porém, tais conhecimentos cediam lugar à malícia e ao elemento surpresa, desenvolvido pelos índios, e pela improvisação, obedecendo a topografia e a vegetação do terreno; tudo aliado ao denodo dos combatentes e sua inigualável técnica em manobrar com a espada.

Documento holandês datado de 9 de julho de 1648, dirigido pelo Conselho do Recife aos Estados Gerais, diz bem dessas técnicas estranhas aos comandantes seguidores dos estrategistas europeus:

Todos os dias a experiência nos mostra que se habituaram a esta guerra de tal modo que podem medir-se com os mais exercitados soldados, como se tem visto nas refregas que com eles temos tido e como ainda se vê diariamente nos encontros que temos com eles a cada momento. Resistem muito bem agora de pé firme e logo que descarregam suas espingardas atiram-se sobre os nossos, para se baterem corpo a corpo. Sabem também armar emboscadas em lugares e passos apropriados e vantajosos, fazer sortidas dentro do mato e, em geral, produzir muito mal aos nossos. Quanto às armas estão bem munidos, sabem muito bem se servir delas, e no tocante às suas qualidades corporais excedem muito aos nossos soldados mais exercitados, quando à agilidade e disposição. Além disso, sabem melhor que os nossos se submeter às provações, tais como a falta de víveres, enquanto os nossos soldados têm de carregar sempre alforges ou então transportar os víveres logo atrás deles.

Em 17 de abril de 1648, governador das Armas Holandesas, general Sigmund von Schkoppe, temível pela crueldade com que tratava os seus adversários e pelo espírito de disciplina para com seus subordinados, sai do Recife à frente de um formidável exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de cerca de 1.000 índios tapuias e negros carregadores.

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OLINDA, DE ONDE SE VÊ…

Com a sua paisagem tecida de sonho e claridade, impregnando pelas diversas tonalidades de verde, nas águas do seu mar, e de azul e outras cores no crepúsculo do seu céu, Olinda vem fascinando a todos que a conhecem desde os primórdios de sua colonização.

A sua paisagem litorânea, povoada de jangadas e outros tipos de embarcações, foi uma sedução para esses viajantes ao longo dos séculos sendo hoje fonte de deleite e de paz para o visitante e mesmo os próprios olindenses.

Para Joaquim Nabuco, esta paisagem tem seus fascínios quando vista do alto, de onde “o olhar não precisa mover-se para apanhar a totalidade do cenário que se prolonga à beira do mar, salpicado das velas brancas das jangadas, penas destacadas das grandes asas da coragem, do sacrifício e também da necessidade humanas!”

Em passeio por Olinda e seus arredores, como cicerone do escritor português Ramalho Ortigão, em l887, Joaquim Nabuco assim descreve a paisagem, quando vista do terraço da Sé de Olinda:

O que faz a grande beleza deste nosso torrão pernambucano é em primeiro lugar o seu céu, que muda a cada instante, leve, puro, suave, onde as nuvens parecem ter asas, e que não é o mesmo em um minuto; é depois o nosso mar, verde, vibrátil e luminoso, as nossas areias tépidas e cobertas de relva, os nossos coqueiros, que vergam desde o soco até ao espanador de um brilho metálico e dourado, com que parecem ao longe sacudir as nuvens brancas, as jaqueiras e mangueiras cuja sombra rendada é um oásis de frescura e abundância…

Em sua descrição, publicada no jornal O Paiz (Rio de Janeiro), em sua edição de 30 de novembro de 1887, Joaquim Nabuco, pinta, com a mão de um mestre, as belezas do seu torrão natal, utilizando-se das mais contagiantes cores de sua palheta.

… não é uma dessas vistas de altura, das quais o mar fica tão abaixo aos pés do espectador, que perde o movimento e a vida, parecendo uma tela diáfana estendida sobre o fundo vazio do ar, vistas em profundidade, que dão vertigem e nas quais a perspectiva é tão longínqua como se víssemos por um óculo virado. A vista de Olinda é outra; é uma vista em comprimento, em que os planos sucedem-se uns aos outros como o desenvolvimento da mesma sensação visual, em que desde Olinda até ao Recife, e mais longe até o Cabo de Santo Agostinho, o olhar não precisa mover-se para apanhar a totalidade do cenário que se prolonga à beira do mar, salpicado das velas brancas das jangadas, penas destacadas das grandes asas da coragem, do sacrifício e também da necessidade humanas!

O que mais impressionava o visitante e seu cicerone era a limpeza da cidade: “O que primeiro fere a vista (…) é a limpeza da cidade, a brancura de toda ela. Vê-se bem a cidade de um povo de rio, que vive n’água, como o pernambucano. É um reflexo da Holanda, que brilha aqui!”.

Possuído do orgulho de ser pernambucano, enfatiza Joaquim Nabuco, com o seu poder de observador:

Para conhecer uma paisagem não basta vê-la, é preciso muito mais, é preciso que as duas almas, a do contemplador e a do lugar, cheguem a entender-se, quantas vezes elas nem mesmo se falam! Não é a todos que a natureza conta os seus segredos e inspira o seu amor, mas mesmo com os poucos de quem ela tem prazer em fazer pulsar o coração é preciso que eles se aproximem dela sem pressa de a deixar, com tempo para ouvi-la. Os viajantes nunca estão nessa disposição de espírito em que é possível estabelecer-se o magnetismo da paisagem sobre os sentidos, de fato sobre o coração. Felizmente Ramalho Ortigão é uma máquina fotográfica instantânea, que apanha num segundo o seu objetivo todo, e acontece que hoje as boas máquinas percebem e notam sombras na pele, que não se veem a olho nu, e que servem para conhecer a enfermidade latente. Ele não terá sentido os eflúvios desta nossa terra, os quais talvez seja preciso ser pernambucano para sentir e que podem não ter realidade e magia senão para nós mesmos, mas a impressão que lhe causou a nossa Veneza há-de render-nos uma pintura que durará como as gravuras holandesas do Século XVII.