ARRUANDO PELO RECIFE: NO TEMPO DA MAXAMBOMBA

Estação de Ponte D’Uchoa

Sentado em um dos bancos da Estação de Ponte D’Uchoa, construída em 1865 e situada em frente ao Colégio Damas, estamos a recordar o tempo distante das maxambombas.

Tudo aqui nos leva a recordação do primeiro trem urbano da América da América do Sul, ou como diríamos nos dias atuais, o nosso primeiro metrô de superfície, surgido naquela tarde de cinco de janeiro de 1867, que veio unir o centro do Recife aos subúrbios mais distantes.

Explorados pela Brazilian Street Railway Company, empresa dirigida por ingleses, os trens urbanos receberam o apelido de maxambomba, estabelecendo assim a “Linha Principal”; que ao chegar à Estação do Entroncamento (hoje praça do mesmo nome), se bifurcava em três ramais: Linha Principal (Dois Irmãos), Caxangá, Arraial (Casa Amarela e Monteiro).

Maxambomba no Cais Martins de Barros

Com o passar dos anos os ramais foram estendidos até a povoação de Beberibe, que tinha seu itinerário através da atual Avenida João de Barro, se bifurcando na Encruzilhada de Belém, com as composições seguindo pela Estrada de Belém (Olinda) e Estrada de Beberibe (hoje avenida).

A ligação com Olinda, porém, só veio a ser inaugurada em 24 de junho de 1870, através da Estrada de João de Barros passando pela Encruzilhada, seguindo pela Estrada de Belém até atingir, o vizinho município, nas localidades de Salgadinho, Duarte Coelho e Carmo.

A primeira linha da maxambomba possuía a bitola de 1.219 mm (quatro pés), atingindo a povoação de Dois Irmãos em 24 de junho de 1870.

Posteriormente, com a construção da Ponte Lasserre (Ponte da Capunga), a maxambomba passou a servir a toda Estrada Nova de Caxangá, chegando até a Várzea (1885).

Fundão – Beberibe

A Linha do Arraial, porém, com destino à Casa Amarela e Monteiro, vem ser inaugurada em 24 de dezembro do ano de 1870.

O vocábulo maxambomba, segundo Pereira da Costa, “tem origem fluminense, em cujo estado há uma localidade [hoje Nova Iguaçu] assim chamada”; na antiga cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), capital da República de Moçambique, na África Austral, o vocábulo servia para designar certo tido de transporte coletivo (espécie de micro-ônibus); opinando Antenor Nascentes ter ele origem na corruptela de machine pump (bomba mecânica).

No ano de 1870, segundo o relatório da concessionária, o sistema de transportes era composto por cinco locomotivas, onze carros de passageiros e mais cinco outros destinados aos serviços de carga.

Estacão do Chapéu de Sol de Aguá Fria

Vale recordar do escritor Mário Sette, “cada um de que viveu seu tempo (da maxambomba) guardará uma recordação amável, esquecendo a poeira dos vagões, o sacolejo das rodas, as janelas sem vidraças, os atrasos nos desvios, os argueiros de carvão e os pregos dos bancos que furavam as calças novas… Olhamos, de longe, somente o lado bom das maxambombas. Sem cometer o gesto ingrato daqueles que recitavam os versinhos em voga antigamente:

Trepei na bomba
Comi pitomba;
Atirei caroço
Na maxambomba…

RECIFE: ATRAVÉS DOS POPULOSOS CAMINHOS…

Até meados do século XIX, o transporte da população do Recife era feito através do curso dos rios Capibaribe e Beberibe ou em carros de bois, lombos de animais, e até mesmo em cadeirinhas de arruar, palanquins e liteiras, cujos anúncios ocupavam as páginas da imprensa daqueles dias.

Certa vez, causou espanto a uma memorialista recifense, quando afirmei que Dona Anna Paes, do Engenho da Casa Forte, na primeira metade do século XVII, não possuíra carruagens (!) e suas idas e vindas ao Recife eram feitas através de canoas do rio Capibaribe (!), como acontecia com todas as senhoras do seu tempo.

Somente após a segunda metade do século XIX, com a implantação das primeiras estradas suburbanas, passou-se a fazer uso dos carros puxados a cavalo, que logo foram objeto de reclamação por parte dos “incomodados” a exemplo do registro de O Carapuceiro, jornal de críticas do padre Miguel do Sacramento Lopes da Gama.

Traquitanas, carros, seges,
Cabriolés e carrinhos,
Obstruem dia e noite
Os populosos caminhos

Carros de tração animal importados da Europa, produzidos na França e em outros centros, eram oferecidos nos anúncios dos jornais até como veículos de aluguel, antecedendo assim o nosso serviço de táxis. Seus condutores, segundo as posturas municipais, deveriam estar matriculados na repartição de polícia, trazer os animais a trote curto através das ruas centrais, não podendo abandonar o veículo nem admitir carga ou passageiro além do anteriormente estabelecido. Eram punidos por maus-tratos aos animais e por trafegar na quinta-feira e sexta-feira da Paixão.

Rio Capibaribe (F.H. CARLS 1878)

O transporte coletivo, porém, só veio a aparecer em 1847, com a ligação por diligência entre o Recife e Olinda. O uso da diligência, como se depreende dos desenhos de Luís Schlappriz litografados por Francisco Henrique Carls (1863), foi uma rotina para a população do Recife até 1876. A diligência era chamada de ônibus, a propósito da expressão latina: para todos. Os seus serviços atingiram a povoação de Apipucos em 1852, sendo explorada por Cláudio Dubeux; comerciante de pólvora residente naquela povoação onde faleceu em 13 de janeiro de 1881. A passagem avulsa do “ônibus do Cláudio”, como veio a ser conhecido, foi fixada em 1 mil réis.

Ao contrário de outros centros urbanos, o Recife tem a sua formação rurbana. O primitivo núcleo populacional, antigo porto de Olinda, cresceu em razão do seu ancoradouro, “o mais nomeado” do Brasil, na citação de frei Vicente do Salvador, naqueles primeiros anos de nossa colonização. Foram os produtos da terra, notadamente o açúcar produzido pelos engenhos da Várzea do Capibaribe, que fizeram o desenvolvimento do Recife transformando antigos engenhos em povoações, depois subúrbios e hoje bairros da cidade: Madalena, Torre, Cordeiro, Casa Forte, Monteiro, Barbalho, Apipucos, Dois Irmãos, Caxangá, Várzea, Engenho do Meio, Curado, São Paulo, Peres, Jiquiá, Afogados, entre outros.

As comunicações do porto com esses centros produtores eram feitas, até bem recentemente, através dos rios, usando-se para isso a canoa, a alvarenga e outros tipos de embarcação. As vias de acesso, por terra, só vieram a aparecer no final do século XVIII, o que obrigava a população a recorrer à navegação nas suas ligações com Olinda, capital de Pernambuco até 1827, como se depreende da descrição de viajantes e documentos oficiais.

Estradas Suburbanas

O primeiro administrador a preocupar-se com a ligação do centro com as povoações do entorno, através de estradas, foi Dom Tomás José de Melo, que governou Pernambuco de 1787 a 1798, quando da construção da primitiva Estrada da Casa Forte (1774), unindo esta povoação a Cruz das Almas (Parnamirim), pela via hoje conhecida como avenida Parnamirim e avenida Dezessete de Agosto.

Mas o núcleo urbano da Boa Vista terminava no fim da atual rua Visconde de Goiana, precisamente no local hoje ocupado pelo Colégio Salesiano, então denominado de Sítio do Mondego, situação em que permaneceu até o início do século XIX.

Em 1802, deu-se início ao projeto das Estradas Suburbanas, partindo do Mondego, as obras da Estrada Real de São José do Manguinho que obedeceram ao traçado da atual rua Dom Bosco. Deste caminho surgiu, partindo da atual praça do Entroncamento, uma bifurcação para os Aflitos, atingindo-se por ela a Tamarineira, Espinheiro, Encruzilhada e Cruz das Almas (Parnamirim), terminando no Largo do Monteiro; traçado hoje obedecido pela avenida Rosa e Silva e seguido pela atual Estrada do Arraial. De Cruz das Almas, nome originário de uma cruz devocional colocada no final da atual rua Padre Roma com a praça Fleming, iniciava-se a Estrada Velha de Beberibe que, cruzando a Estrada do Arraial (1836) passava pela povoação da Água Fria e Encruzilhada de Belém, fazendo ligações posteriores com o Cumbe (1879), Porto da Madeira (1882), Maricota, Linha do Tiro, Dois Unidos, Águas Compridas, Brejo de Macacos e Olinda, passando por Peixinhos. A Estrada Nova do Beberibe, atualmente denominada de avenida Beberibe, só veio a ter começo, partindo da Encruzilhada de Belém, em 1866, ficando concluída no ano seguinte.

O prolongamento da Estrada Real de São José do Manguinho – “como eram lindos os nomes das ruas da minha infância” – interligando São José do Manguinho com a Estrada da Casa Forte, foi iniciado em 1842 com ramificações para o Poço da Panela, atual Estrada Real do Poço, e Casa Amarela, através do Monteiro, seguindo-se de ligações com Apipucos e Dois Irmãos, obedecendo ao mesmo traçado hoje conhecido. A Estrada do Encanamento, nome que intriga tantos recifenses, veio a ser construída em 1846 pela Companhia de Águas do Beberibe, com a finalidade que a própria denominação está a indicar.

A ligação do Recife com a vizinha cidade de Olinda, então capital de Pernambuco, era feita precariamente pelo istmo que separava do mar as águas do rio Beberibe ou pela via fluvial até o Varadouro. A ligação por terra, através da então povoação de Santo Amaro das Salinas, só veio a acontecer em 1821, quando da administração do capitão-general Luiz do Rego Barreto.

Antes, a ligação, por terra, com Olinda, era feita também através da antiga Carreira dos Mazombos, antigo caminho do século XVII, que unia Olinda à povoação da Encruzilhada depois conhecido como Estrada de Belém. Em 1820, a Encruzilhada veio a ser ligada a Boa Vista através da Estrada de João de Barros, que tinha início na atual rua da Soledade. A Estrada de Belém, por sua vez, foi alargada em 1866, recebendo uma bifurcação para as povoações de Sítio Novo e Peixinhos, passando a ser utilizada a partir de 1870 pelos trilhos da maxambomba – apelido colocado em nosso primeiro trem urbano – que fazia a ligação do Recife com Olinda. Itinerário da extinta linha do ônibus Olinda-Carmo.

Para o Sul o núcleo primitivo da cidade se comunicava com Afogados, Jiquiá, Estância, Tejipió e cidades do interior, como Vitória de Santo Antão, a partir da rua Imperial; obedecendo ao traçado do primitivo Aterro dos Afogados, construído à época do Domínio Holandês (1630-1654).

A ligação com a Madalena, partindo do Chora Menino, foi iniciada em 1834, passando pelo Paissandu, cruzando o rio Capibaribe, na altura da ilha do Retiro, até atingir o Sobrado Grande, na atual praça João Alfredo. A união de Afogados com a Estrada da Madalena foi possível através da Estrada dos Remédios (1850), com 2.423 m. e três pontes. A partir do Sobrado Grande da Madalena iniciou-se a ligação com a povoação da Torre, obedecendo ao traçado da atual rua Real da Torre.

O acesso à povoação da Várzea, veio a ser efetivado pela Estrada do Ambolê, em 1872, depois denominada de Estrada Velha do Bongi, que, além desta última, também atingia outras povoações dos Torrões e Engenho do Meio.

A ligação com a povoação de Caxangá, porém, veio a fazer-se de forma direta através da Estrada Nova de Caxangá (hoje, Avenida Caxangá), aberta para o assentamento dos trilhos da Brazilian Street Railway; empresa responsável pela implantação do primeiro trem urbano da América Latina, popularmente conhecido pela designação de maxambomba. A primeira composição da maxambomba veio correr em 5 de janeiro de 1867, ligando a estação da rua da Aurora, com a povoação de Apipucos.

Da povoação da Encruzilhada de Belém construiu-se, entre 1866-67, a Estrada de Beberibe, que custou aos cofres do erário a importância de 18.326$000. De Beberibe seguiam estradas para Maricota; Cumbe, construída em 1879, com 880 m.; da Estação do Porto da Madeira e da ladeira do Lava-tripas (1882). A povoação da Encruzilhada foi ligada, a partir de 1866, com as de Salgadinho e Peixinhos, em Olinda, que, por sua vez, se interligavam com a povoação de Beberibe através da antiga Carreira dos Mazombos, já assim conhecida no século XVII.

Ao iniciar-se o século XX, as estradas suburbanas do Recife somavam-se 32 quilômetros, que uniam as diversas povoações do entorno da cidade, conservando algumas, nos dias de hoje, as suas primitivas denominações.

Numa série de artigos publicados no Diario de Pernambuco, em janeiro de 1903, F. A. Pereira da Costa informa ser de 425,125 km. a malha rodoviária do Estado de Pernambuco.

O FREVO QUE METE MEDO…

Era apenas o frevo.

O frevo! Um imperativo de loucura, um contágio de desatinos, uma coceira de alegria. Ninguém mais se continha, ninguém mais se governava. Todas as imediações do bairro atravessado pelo buliçoso cordão Carnavalesco vibravam ao zumbido fortíssimo do contentamento. Nas ruas mais afastadas o povo parava, ouvia os acordes ásperos da orquestra, orientava-se, e disparava de novo, entreavisando-se:

– Vem pelo pátio do Terço, minha gente!

– Vamos esperar ele na esquina da igreja.

– Eu vou atalhar no Livramento. (Mário Sette)

Para o escritor Mário Sette, in Seu Candinho da Farmácia (1933) “era apenas o frevo” que tomava conta das ruas estreitas do bairro de São José, mas para a garota Maria Lia Faria, aquele multidão de homens, com os seus corpos suados, pulando ao som de uma música estridente, se tornara uma onda que ameaçava quem estivesse no seu trajeto.

Recém–chegada do Rio de Janeiro, fora residir no Parque Treze de Maio e, no seu primeiro carnaval, em 1939, se viu diante de um clube carnavalesco pedestre, trazendo sua fanfarra de metais a executar agudas notas, acompanhada de uma percussão que levava a multidão a loucura…

Aquela onda de homens a pular contritos, no ruge-ruge de corpos, sisudos e circunspectos, acompanhando os agudos acordes da fanfarra, causou espanto, seguido de medo e pavor, naquela adolescente que tentava se aclimatar aos costumes de sua nova cidade.

Tal não foi a surpresa quando, naquele mesmo Carnaval, ao adentrar-se nos salões do Clube Internacional constatou que no Recife a festa tinha outras características.

Poucos pares enlaçados, como era comum em outras cidades, mas muita gente pulando ao som do frevo da Orquestra de Nelson Ferreira, não com a violência que acontecia nas ruas, “coisa de doido de cabra assanhado”, mas moderadamente, comportadamente, a cantar a plenos pulmões as marchas românticas compostas por Capiba, Irmãos Valença e outros mais.

Neste mesmo Carnaval, a Maria Lia vem conhecer, também, o Maracatu Elefante a desfilar pelas ruas, ao som dos seus bombos e atabaques, que lhes trouxe de volta às melodias que aprendera a cantar na cozinha de sua casa do Rio de Janeiro, quando as empregadas entoavam loas cantadas nos terreiros de candomblé.

Naquele balanço, naquele gingado, a menina se sentiu em casa; “na sua praia”, como se diz em nossos dias…

1654: JUDEUS TROCAM O RECIFE POR NOVAS TERRAS

Amsterdam (1655)

Após a rendição das tropas da Companhia das Índias Ocidentais, em 27 de janeiro de 1654, cerca de 400 judeus residentes no Recife e em Maurícia tiveram “o prazo de três meses para liquidar seus negócios e abandonar o país”. Os súditos holandeses, porém, que quisessem permanecer com os seus negócios e propriedades, no Brasil, teriam o mesmo tratamento dos estrangeiros residentes em Portugal.

Como o prazo dado era por demais diminuto, na população judia, particularmente entre os cristãos-novos convertidos ao judaísmo, cresceu o temor dos castigos do Tribunal da Inquisição. O governador português Francisco Barreto de Menezes, em sua proclamação de 7 de abril, somente admitia a prorrogação da permanência daqueles judeus que nunca haviam sido batizados, “os judeus que anteriormente haviam sido cristãos, estavam sujeitos a Santa Inquisição, um assunto que não podia interferir”. No dia seguinte à proclamação, “um grupo de judeus solicitou, com êxito, às autoridades holandesas uma provisão de alimentos suficiente para viajar a França no navio português São Francisco, tendo em conta que se tratava aproximadamente de 150 pessoas”.

Tomados de medo e de pavor cerca de 400 judeus ganharam novamente o oceano em busca dos Países Baixos. Por não encontraram meios de subsistência, outra vez retornaram ao Novo Mundo, estabelecendo novas comunidades no Caribe – Martinica, Barbados, Curaçau e Jamaica. No seu novo destino se dedicam à indústria do açúcar, fundando novos engenhos e cultivando as mudas de cana que haviam levado de Pernambuco, bem como a cultura do fumo, estabelecendo-se outros na América do Norte, que, na época, iniciava a colonização da Nova Amsterdã (Nova Iorque).

Judeus em Nova York

O forte da Nova Amsterdam na ilha de Manhathan (1651)

A saga de um desses grupos saídos do Recife é descrita pelo haham de Amsterdã Saul Levi Mortera, pouco antes do seu falecimento em 1660, no manuscrito a Providencia de Dios con Israel , que, passageiros do navio Valk tiveram o seu barco tomado por espanhóis que os ameaçavam de entregar à Inquisição. Na Jamaica, porém, foram os judeus libertados pelos franceses e, com eles, rumaram em direção à Nova Amsterdã a bordo do barco Sainte Catherine. Desse grupo, 23 judeus [quatro casais, duas viúvas e treze crianças], já se encontravam na Nova Amsterdã em setembro de 1654, fundando assim a primeira comunidade judaica daquela que veio a ser a cidade de Nova Iorque.

Em 1954, por ocasião do terceiro centenário da chegada dos primeiros judeus à Nova Iorque, o local do desembarque foi assinalado com marco afixado pelas autoridades estaduais.

• Erected by The State of New York to honor the memory of the twenty three men, women & children who landed in september 1654 FOUNDED THE FIRST JEWISH COMMUNITY IN NORTH AMERICA.

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DO CAVALO AO AUTOMÓVEL, POR SECULARES CAMINHOS

Em 221 quilômetros quadrados e 471 mil metros quadrados de uma planície aluviônica, cortada por rios e outros cursos d’água menores, vive uma população estimada, em 1997, em mais de 1.357.967 pessoas que, no ir e vir do dia-a-dia, transpõem 108 pontes e utilizam-se de uma frota superior a 339.104 veículos automotores, que representam 44,95% de todo estado, transformando este quadro em um dos multifacetados problemas da vida diária da cidade do Recife.

É o Recife, como já vimos, um dos mais antigos núcleos urbanos das três Américas. Originário do Arrecife dos Navios, povoação já existente em 1537, ainda conserva, nos seus bairros centrais, o mesmo traçado do século XVII quando do seu primeiro plano urbanístico, realizado pelo arquiteto Pieter Post (1608-1668) a pedido do Conde João Maurício de Nassau.

Localizada numa grande planície formada pelos deltas dos rios Capibaribe, Beberibe, Jiquiá, Tejipió, Morno, Jordão, Pina, além de outros cursos d’água por vezes fora dos seus limites, a cidade do Recife, quando vista do alto, mais parece a parte superior de uma estrela que, tendo por centro o bairro portuário, expande os seus raios através dos antigos caminhos suburbanos e itinerários, das estradas de ferro do século XIX.

Em 1968, quando sua população era de 1.084.479 habitantes, o Recife possuía matriculados 30.237 veículos automotores; vinte anos depois, para uma população estimada em mais de 1.289.627 habitantes, foram licenciados 201.108 viaturas, o que representava uma média de 908 veículos por quilômetro quadrado ou um carro para cada 6,4 habitantes.

Em 1997 foram matriculados, em todo o estado de Pernambuco, 754.447 veículos, dos quais 464.667 estão a circular na área metropolitana do Grande Recife. Para 1998, a estimativa do total de veículos automotores, matriculados até dezembro, é da ordem de 830.000 em todo o estado.

Há mais de um século que o trânsito de veículos vem sendo um dos problemas dos administradores da cidade do Recife. Em nome desse trânsito foram alargadas ruas, destruídos becos e quarteirões de prédios coloniais, demolidos templos e até as seculares portas do primitivo núcleo. O melhor do passado histórico do Recife cedeu ao determinismo do “progresso” dos nossos dias, sem que o burburinho do trânsito tenha, em sua problemática, qualquer solução definitiva a médio prazo.

1. Cidade Rurbana

Ao contrário de outros centros urbanos, o Recife tem a sua formação rurbana. O primitivo núcleo populacional, antigo porto de Olinda, cresceu em razão do seu ancoradouro, “o mais nomeado” do Brasil, na citação de frei Vicente do Salvador, naqueles primeiros anos de nossa colonização. Foram os produtos da terra, notadamente o açúcar produzido pelos engenhos da Várzea do Capibaribe, que fizeram o desenvolvimento do Recife transformando antigos engenhos em povoações, depois subúrbios e hoje bairros da cidade: Madalena, Torre, Cordeiro, Casa Forte, Monteiro, Barbalho, Apipucos, Dois Irmãos, Caxangá, Várzea, Engenho do Meio, Curado, São Paulo, Peres, Jiquiá, Afogados, entre outros.

As comunicações do porto com esses centros produtores eram feitas, até bem recentemente, através dos rios, usando-se para isso a canoa, a alvarenga e outros tipos de embarcação. As vias de acesso, por terra, só vieram a aparecer no final do século XVIII, o que obrigava a população a recorrer à navegação nas suas ligações com Olinda, capital de Pernambuco até 1827, como se depreende da descrição de viajantes e documentos oficiais.

Quando governou o Brasil Holandês, entre 1637 e 1644, o conde João Maurício de Nassau já se preocupava com o sistema viário do Recife. Para isso contratou os serviços do arquiteto Pieter Post a fim de elaborar o traçado de parte das ruas da Cidade Maurícia – espaço hoje ocupado pelos bairros de Santo Antônio e São José –, segundo se depreende das plantas assinadas por Vingboons (1639) e Cornelius Goliath (1648). Foi também Maurício de Nassau que, preocupado com a integração do sistema urbano de Maurícia, determinou a construção das duas primitivas pontes, ligando o bairro do Recife à ilha de Santo Antônio e está às terras da Boa Vista. Também na sua administração foi construído o aterro dos Afogados, unindo o forte das Cinco Pontas com o forte Príncipe Guilherme, dando assim origem à atual rua Imperial.

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LEVINO, O MESTRE VIVO

Levino Ferreira da Silva

Numa manhã de verão, levado por João Santiago, eu conheci Levino Ferreira da Silva, o Mestre Vivo. Morava na Rua Nossa Senhora da Saúde, no Cordeiro, e me pareceu uma figura simples, conversando com algo de ironia em suas observações.

Era um tipo de mulato baixo, mais para gordo, tinha a camisa por fora das calças, trazia no rosto as marcas da varíola e usava um chapéu de massa, mesmo dentro de casa, complementando, assim, o tipo comum do nosso homem da zona da Mata.

Estava eu diante do Rei do Frevo!

O lendário Mestre Vivo!

Ninguém foi maior do que ele, no gênero frevo-de- rua, ou, como preferia ele, a marcha-frevo.

Nisso estão concordes outros nomes de nossa música, como Capiba, Luiz Bandeira, José Menezes, Edson Rodrigues, Mário Mateus, Mário Guedes Peixoto, Clóvis Pereira, Ademir Araújo, Dimas Sedícias, Duda (José Ursicino da Silva) e uma infinidade de outros monstros sagrados do nosso frevo instrumental.

Nascido na cidade pernambucana de Bom Jardim, em dois de dezembro de 1890, Levino Ferreira da Silva teve o seu aprendizado na banda de música de sua terra natal.

Foi iniciado na música pelo mestre Pompeu Ferreira, então responsável pela banda musical Vinte e Dois de Setembro, conhecendo a trompa como seu instrumento de iniciação, a partir dos oito anos de idade.

Em 1910, Levino Ferreira já se tornara conhecido como exímio instrumentista do Agreste pernambucano, sendo o seu concurso solicitado pela cidade de Queimadas, hoje Orobó, onde fora reger a banda musical local.

Dois anos depois, retorna a sua cidade natal, Bom Jardim, a fim de reger a banda musical Vinte e Dois de Setembro, a mesma que serviria de conservatório quando dos seus primeiros estudos.

São desta época as suas primeiras composições: Dobrados, músicas sacras para as festas dos santos padroeiros, marchas de procissões, choros, valsas, fazem parte do repertório desses anos. O frevo, ou Marcha-Carnavalesca Pernambucana, como era conhecido, até então não fazia parte de sua bagagem; gênero que só veio compor a partir de 1919 quando da sua primeira viagem ao Recife.

Entre 1920 e 1935, dirigiu a Banda Musical Independência da cidade de Limoeiro, para onde foi levado por José Gonçalves da Silva Júnior (Zumba), compositor de frevos-de-rua e de outros gêneros musicais. Em 1930, as músicas por ele compostas já eram festejadas no Recife, sendo editadas pela Casa Azevedo Júnior e executadas por todos os pioneiros daquela época.

É então que Levino Ferreira vem a ser conhecido pelo apelido que o consagrou ao longo da vida: Mestre Vivo.

A versão é do próprio Levino Ferreira.

Era ele mestre da banda de música de Limoeiro, quando sofreu um ataque de catalepsia [estado no qual o paciente conserva seus membros em uma posição que lhe foi dada por terceiros]. Tomado por morto, com uma respiração imperceptível, foi o seu corpo colocado num ataúde, ao mesmo tempo em que a comoção tomava conta da cidade e das redondezas. Tarde da noite, quando familiares e amigos pranteavam o seu desaparecimento, eis que o morto voltou a si e, sentando-se no caixão exclamou: Minha gente, querem me enterrar vivo!

Ao susto do início, seguiu-se a alegria, o velório transformou-se em Carnaval e um apelido marcou o episódio: Mestre Vivo.

Exímio instrumentista, conhecendo todos os instrumentos de uma banda de música, logo ganhou fama em toda região. Já em Limoeiro, ensinava piano, bandolim, saxofone, trombone, clarineta, violão, dentre outros.

Graças a sua fama, logo transferiu-se para o Recife, levado por Zumba (José Gonçalves da Silva Júnior) no início dos anos de 1930, a fim de integrar a grande orquestra da PRA 8 – Rádio Club de Pernambuco, então dirigida por Nelson Ferreira, onde iniciou-se como primeiro trombone. Conhecido por suas habilidades como instrumentista, passou a integrar, anos depois, o quarteto de saxofones Ladário Teixeira; formado por Felinho (Félix Lins de Albuquerque), Antônio Medeiros, Zumba e o próprio Levino.

O FREVO “ÚLTIMO DIA”

O frevo instrumental “Ultimo Dia”, escrito em 1951 e gravado pela primeira vez pela Orquestra Tabajaras do maestro Severino Araújo em 1956 (Rio de Janeiro), tornou-se a composição de Levino Ferreira mais executada, estando inscrito entre os melhores frevos do século.

Curiosamente, tal composição é inspirada no trecho da ópera O Fausto, composta em cinco atos por Charles Gounod (1859), que anunciava a entrada do personagem Mefistófeles, executado pela Orquestra de Nelson Ferreira ao encerrar o fim do Carnaval na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas.

Partindo dos acordes daquele trecho da ópera, o frevo Último Dia vai num crescendo até atingir o seu clímax, com o concurso de todos os metais e palhetas da orquestra, seguindo o andamento de um pandeiro, de modo a levar a multidão em delírio.

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ALGUNS PIONEIROS NAS ARTES E NAS LETRAS EM PERNAMBUCO

Por sua formação política, herdando a altivez dos primeiros donatários, Duarte Coelho e seus sucessores; pela constituição de suas elites, originárias dos sucessores de Jerônimo de muitos gentis homens, fidalgos e bons colonos Albuquerque e dos muitos que aqui aportaram a partir de 1535; pela sua proximidade com portos da Europa e ligações com a África; pela sua contribuição na colonização e na conquista de todo o Norte do Brasil, ainda nos difíceis anos do século XVI; pelo espírito aguerrido do seu povo, responsável pela suserania da coroa portuguesa nas capitanias do Norte, antes integrantes do Brasil Holandês (1630-1654), a contribuição da gente de Pernambuco às letras e às artes nos dois primeiros séculos da colonização ainda está por ser estudada.

Formados para a guerra, desde os primeiros anos da colonização, habituados a serem chamados de “filhos de Mavorte”, na imagem do soneto do padre João Batista da Fonseca (Escavações p. 117) ou, como na imagem poética do seu hino, “nova Roma de bravos guerreiros”, os nascidos e/ou estabelecidos em Pernambuco sempre souberam se notabilizar nas letras, nas artes plásticas, na música, nas ciências e em outros ramos do saber.

Ao escrever Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, cujos originais foram concluídos em 26 de março de 1757, Dom Domingos do Loreto Couto, nas pp. 357-412 (Rio, 1904 e Recife, 1981), traz uma significativa relação de vultos que se notabilizaram numa produção artística e literária que bem revela a importância de uma elite intelectual nesses dois primeiros séculos da história pernambucana.

Com a fundação do Colégio dos Jesuítas em Olinda (1551), surge em Pernambuco um centro educacional que viria formar as gerações, não somente na iniciação a alfabetização e ao catecismo da doutrina cristã, bem como nos rudimentos da matemática, mas também no latim, na filosofia e na moral, matérias estas cujas aulas tiveram início em julho de 1568 pelo padre João Pereira. Em 1800 o prédio do antigo Colégio dos Jesuítas vem a ser ocupado pelo Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, cujos estatutos foram elaborados pelo bispo D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (Lisboa: Tipografia da Acad. R. das Ciências, 1798), com a finalidade de instruir “a mocidade em todos os seus principais ramos da literatura, própria não só de um eclesiástico, mas também de um cidadão que se propõe a servir ao Estado”. O seminário, chamado pelo cônego Barata de “escola de heróis”, veio a ser o principal propagador do ideário ilusionista dos filósofos franceses nas capitanias do Norte do Brasil.

Também na segunda metade do século XVI atuaram em Pernambuco dois mestres-escolas leigos, ambos cristãos-novos: Branca Dias, que mantinha uma escola para moças, e Bento Teixeira, um erudito que atuou como mestre-escola em Olinda, Igaraçu e Cabo.

Em Pernambuco residiu por muitos anos o também cristão-novo Ambrósio Fernandes Brandão, proprietário de terras em São Lourenço da Mata (Denunciações e Confissões de Pernambuco p. 231 e 260), que em 1618 veio escrever o livro Diálogos das Grandezas do Brasil (Recife: Imprensa Universitária, 1962), um dos mais importantes relatos sobre a flora, fauna, paisagem e vida econômica do país naquele primeiro século de sua colonização, obra hoje de consulta obrigatória pelos estudiosos dos mais diversos misteres.

O AUTOR DA PROSOPOPÉIA

Bento Teixeira é o autor da primeira obra poética produzida no Brasil que veio alcançar as honras do prelo, Prosopopéia, escrita em Pernambuco, entre 1585-94, e publicada em Lisboa (1601) com a dedicatória a “Jorge de Albuquerque Coelho, Capitão e Governador de Pernambuco”, numa produção da oficina de Antônio Álvares.

Que eu canto um Albuquerque soberano
Da fé, da cara pátria firme muro,
Cujo valor é ser que o céu lhe inspira,
Pode estancar a lácia e grega lira.

Diogo Barbosa Machado (1682-1772), em sua Biblioteca Lusitana (Lisboa 1741), declara ser Bento Teixeira, a quem ele acresceu o sobrenome “Pinto” natural de Pernambuco dando causa a repetição de um erro que se arrasta ao longo de dois séculos. Somente em 1960, quando da publicação do seu livro Estudos Pernambucanos (Recife: Imprensa Universitária; 2ª ed. Recife: Fundarpe, 1986) é que o Prof. José Antônio Gonsalves de Mello vem esclarecer a real naturalidade do poeta Bento Teixeira. Ao compulsar o processo n.5206 da Inquisição de Lisboa (ANTT), em que aparece como réu um Bento Teixeira originário de Pernambuco.

Nos seus diversos depoimentos, ele afirma ser natural da cidade do Porto (Portugal), de onde saiu com a idade de cinco para seis anos para o Brasil em companhia dos seus pais. Fixando-se inicialmente no Espírito Santo (c 1567), matriculou-se na escola dos padres jesuítas com os quais veio a continuar os seus estudos na Bahia. Em 1579, já tendo concluído os seus estudos com os jesuítas, transferiu-se para a capitania dos Ilhéus onde casou-se com Filipa Raposa. Anos mais tarde (1584) fixou-se na vila de Olinda, onde abriu uma escola para meninos na rua Nova (a principal da vila). Por dificuldades financeiras transfere-se para a vila de Igaraçu (1588), onde além de mestre-escola exerceu as funções de advogado, cobrador de dízimos e contratador de pau-brasil. Pelos frequentes adultérios de sua mulher, Filipa, viu-se obrigado a transferir-se para o Cabo de Santo Agostinho onde, em dezembro de 1594, vem a cometer o uxoricídio. Fugindo da justiça, vem refugiar-se no Mosteiro de São Bento (Olinda). Por essa época chega a Pernambuco o visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendoça, sendo o cristão-novo Bento Teixeira denunciado por práticas judaizantes. Preso em 19 de agosto de 1595 é embarcado, juntamente com outros réus, para os cárceres do Santo Ofício em Lisboa, onde por mais de quatro anos passa por sofrimentos e privações. Solto em 30 de outubro de 1599, aos 40 anos de idade, padecendo de uma tuberculose, por motivos ignorados volta à cadeia de Lisboa, conforme atesta o médico João Álvares Pinheiro, a 9 de abril do ano seguinte. Do seu processo nada mais consta, a não ser esta anotação na capa: “É falecido Bento Teixeira e faleceu andando com a penitência em o fim de julho de 600”:

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FELINTO, DO APÔIS FUM

O violonista Felinto de Moraes, com os trajes que se apresentava com os “Turunas da Mauricéia”, quando de sua temporada no Teatro Lírico do Rio de Janeiro (1927)

Naquele hoje distante Carnaval de 1957, uma marcha-de-bloco tomou conta das ruas e salões, cantada aos quatro ventos por crianças e velhos, mulheres e homens, a relembrar sem querer velhos carnavais dos anos vinte, onde reinavam as figuras de Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon, quando das saídas dos blocos carnavalescos mistos das Flores…, Andaluzas …., Pirilampos …, Apôis Fum….

Tratava-se de Evocação, um frevo-de-bloco composto por Nelson Ferreira, que se tornara o grande sucesso da Fábrica de Discos Rozenblit, fundada no Recife em 1952 e distribuidora do selo Mocambo para todo Brasil.

Gravado em 1956 para o carnaval de 1957, em disco em 78 RPM nº 15142 B, matriz R 791, foi o primeiro grande sucesso da gravadora, produzido no Recife e cantado em todo o país.

A marcha tornou-se execução obrigatória em qualquer festa carnavalesca e, mesmo nos dias atuais, é comum encontrar-se grupos de foliões entoando animadamente em uma só voz: Felinto…, Pedro Salgado, / Guilherme, Fenelon, / Cadê teus blocos famosos ?! / Blocos das Flores…, Andaluzas…, / Pirilampos…, Apôis Fum… / dos carnavais saudosos ?!..”

Declara o próprio Nelson Ferreira, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco e em texto inserido no álbum duplo Rozenblit – LPP 015/16 (1968), que Evocação nº 1 fora inspirado em figuras de blocos carnavalescos do Recife dos anos 20, então desaparecidas: Felinto de Moraes e Fenelon Moreira (de Albuquerque) eram do Apôis Fum; Pedro Salgado era presidente do Bloco das Flores; Guilherme de Araújo era a figura de proa do Andaluzas em Folia e do Pirilampos de Tejipió; o velho Raul Moraes era compositor, pianista e ensaiador do Bloco das Flores, para o qual escreveu várias marchas, inclusive a Marcha Regresso. Dela usei os versos ‘Adeus, adeus minha gente / Que já cantamos bastante’. Fiz Evocação nº 1 numa noite, de uma vez só.

Dentre as figuras de destaque do Carnaval de então, notabilizava-se Felinto de Moraes (Recife, 1884 – Rio de Janeiro, 1927), fundador e principal dirigente do bloco Carnavalesco Apôis Fum, fundado na povoação da Torre em 1925.

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EM GOIANA, IGREJAS DE BRANCOS, PRETOS E PARDOS

Na cidade de Goiana, município com 78 940 habitantes, situado a 62 km. do Recife, Zona da Mata Sul de Pernambuco, o visitante observador vai encontrar novidades em sua caminhada, dentre as quais igrejas destinadas ao culto de brancos, pretos e pardos, numa sucessão de oragos no mínimo curiosa para os nossos dias.

No nosso roteiro irá conhecer os templos dedicados à Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos (séc. XVII), Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (séc. XVII), Convento de Hospital de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos (séc. XIX), e o conjunto da Ordem Terceira e Convento Carmelita de Santo Alberto (séc. XVII).

Ao descrever a Vila de Goiana, em observação datada de 20 de outubro de 1810, o viajante inglês Henry Koster observa ser esta “uma das mais florescentes de Pernambuco, estando situada sobre uma margem do rio do mesmo nome, em uma grande curva nesse local, quase a rodeando”.

As casas, com uma ou duas exceções, têm apenas um andar. As ruas são largas, mas não são calçadas. Uma das principais é tão ampla que admitiu a construção de uma grande igreja, numa das extremidades, e a extensão da rua é considerável em ambos os lados do edifício. A vila possui o convento dos carmelitas e várias outras casas destinadas ao culto. Os habitantes são de quatro a cinco mil e esse número cresce diariamente. Há também lojas e o comércio com o interior é intenso.

A igreja, assinalada pelo autor, é a Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos de Goiana, cuja denominação bem demonstra o sentimento de separação racial existente no Brasil colônia de então.
A paróquia de Nossa Senhora do Rosário fora fundada pelo Bispo do Brasil, dom Frei Antônio Barreiros, provavelmente quando de sua visita pastoral à capitania de Itamaracá no ano de 1584, a quem pertencia, então, a povoação de Goiana.

Com a transferência da sede da capitania de Itamaracá, da Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itamaracá, para a Vila de Goiana, em 7 de janeiro de 1711, surgiu a necessidade de se criar a Irmandade da Misericórdia, em substituição à extinta Santa Casa de Misericórdia de Vila Velha. A instalação daquela irmandade, porém, só veio a se concretizar em 1º de julho de 1722, funcionando inicialmente na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos.

Anos mais tarde, terminadas as obras da igreja, os irmãos da Misericórdia resolvem construir, no mesmo local, um hospital destinado ao atendimento das pessoas pobres e sem recursos, tendo a bênção inaugural acontecido em 1759. O Hospital da Santa Casa de Misericórdia foi o primeiro erguido naquela Vila de Goiana e contava, na sua inauguração, com vinte leitos destinados a enfermos de ambos os sexos, tendo para isso solicitado ao rei de Portugal, “a extensão dos mesmos privilégios e favores de que gozavam as casas de Olinda e da Paraíba”, no que não tiveram a acolhida.

Um século depois, quando da sua visita a Goiana, o imperador D. Pedro II encontrou os mesmos 20 leitos, divididos entre o pavimento superior e o térreo. Na ocasião, observou o monarca que a Igreja da Misericórdia se encontrava reedificada, após o incêndio que destruíra a sua capela-mor no ano de 1820. Naquela época, hospital e igreja contavam com rendas de 50$000 e 600$000 respectivamente destinadas à manutenção do templo e tratamento dos enfermos. O Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Goiana funcionou de 1759 a 1931.

No século XVII, nos anos que se seguiram à Restauração de Pernambuco do domínio holandês (1654), os moradores de Goiana, sentindo a distância que os separava de Olinda, solicitaram ao Bispado da Bahia a criação de um convento carmelita.

A pretensão dos moradores foi atendida em 11 de janeiro de 1666, quando o Cabido metropolitano de Salvador deferiu o requerimento do frei Alberto do Espírito Santo, vigário provincial da ordem carmelita no Brasil, que retornou a Pernambuco com a boa nova.

As obras de construção tiveram início naquele mesmo ano, 1º de novembro de 1666, em terras doadas pelo capitão-mor Filipe Cavalcanti de Albuquerque. Inicialmente consistia o primitivo convento de uma capelinha, construída em taipa, unida a um conjunto com seis celas para abrigo dos frades, que veio receber a denominação de Santo Alberto da Sicília, em homenagem ao seu fundador, frei Alberto do Espírito Santo.

A construção inicial permaneceu até o ano de 1679, quando o frei Marcos de Santa Maria promoveu uma campanha para a construção de um novo convento e igreja de pedra e cal no local do primitivo convento.
A obra, iniciada em 28 de outubro daquele ano, contou com as generosas contribuições dos moradores de Goiana, dentre os quais o mestre-de-campo André Vidal de Negreiros, cujo filho Francisco Vidal de Negreiros vestia o hábito da Ordem do Carmo.

Comprometeu-se o ilustre cabo-de-guerra a destinar aos frades carmelitas 120 arrobas de açúcar branco produzidas por seus engenhos, a exemplo do que havia feito, em data anterior, quando da construção do primitivo convento. A generosidade do mestre-de-campo perpetua-se após a sua morte, quando por meio de testamento manteve a destinação das 120 arrobas de açúcar branco, retiradas da produção de seus engenhos, nos dez anos seguintes, destinadas às reformas e alterações de que viessem a necessitar.

A Igreja e o Convento do Carmo de Goiana foram objeto de visita de D. Pedro II, em 6 de dezembro de 1859, que assinala em seu Diário: “na igreja encontrei epitáfios cujas datas é que me interessaram; sepultura de 1688 de João Paes de Bulhões e sua mulher e filhos; sepultura de Francisco Afonso Veras e de sua mulher Tereza de Jesus… ores … agosto de 1719. Sepultura [que não se lê bem] de 1687. O religioso, um dos quatro que costumam residir neste convento, pertence à Província Carmelita de Pernambuco e supõe que a fundação do convento teve lugar há 200 anos. Os papéis foram todos estragados na Revolução de 1848” (Revolução Praieira).

As fachadas das duas igrejas têm características do século XVII, muito embora o monumental cruzeiro, erguido no centro da praça, esteja datado de 1719. O perfil barroco deste último, com os motivos orientais que o adornam, parece revelar a influência que sobre o artista exerceu o também monumental conjunto do Convento Franciscano da Paraíba.

Das igrejas de Goiana, algumas têm suas histórias pouco conhecidas, como é o caso do templo dedicado à Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos. Sabe-se, tão-somente, que teria sua origem no início do século XIX e que, por volta de 1861, pertencia a uma Irmandade de Homens Pardos, conforme compromisso firmado naquele ano.

Tal irmandade existiu até o ano de 1933, quando foi extinta e a guarda de sua igreja passou para a Companhia de Fiação e Tecelagem de Goiana e, com a falência desta, veio a ser mantida por “uma comissão benemérita de cidadãos da sociedade local”. Os festejos da padroeira ocorrem no dia 8 de dezembro, quando acontece a grande festa e a procissão triunfal pelas ruas da cidade.

A CASA DE NOSSA SENHORA DO CARMO

Basílica do Carmo

O topônimo Boa Vista surge entre nós em 1643, quando da construção pelo conde João Maurício de Nassau de sua casa de recreio, chamada inicialmente de Casa da Bela Vista, erguida em terreno por ele adquirido à Companhia das Índias Ocidentais, localizado na cabeceira da ponte sobre o Rio Capibaribe que ligava a cidade Maurícia ao continente.

O alcácer da Boa Vista, como o denominava Gaspar Barlaeus, era um “local aprazível, alegrado também por jardins e piscinas”.

Naquele remanso, descansava Nassau, rodeado pela vista das suas construções e longe da pátria e das terras de tantos condes e príncipes seus parentes, gozando da felicidade que achara no ultramar. Contemplava astros nunca vistos pela sua Alemanha; admirava a constância de um clima dulcíssimo e mostrava aversão à intempérie da zona temperada onde vivera. […] Enfim meditando, encerrava dentro do âmbito da Boa Vista o múltiplo benefício do céu, da terra e do ar, a República, o inimigo, os índios, os holandeses, as conveniências e proveitos das Províncias Unidas.

Como bem demonstra a gravura de Frans Post no livro daquele latinista (Amsterdã, 1647), o novo edifício, com seus quatro torreões e um elevado pavilhão central, com três janelas em cada uma das frentes, possuía magnífica visão do continente, funcionando como forte militar, em face da sua posição estratégica na cabeceira da ponte sobre o Capibaribe.

Com a expulsão dos holandeses, em 1654, foi a Casa da Boa Vista doada à ordem carmelita para que nela instalasse o hospício do Recife. Em carta dirigida ao príncipe regente, em 1674, comunicam os “religiosos moradores no convento do Arrecife de Pernambuco” que “passa de sete anos que estão moradores naquele lugar” e terem dado início à construção do seu convento e instalação de uma pequena comunidade “em terras do Arrecife”, tendo entre seus primeiros habitantes o frei Francisco Vidal de Negreiros, filho do mestre-de-campo André Vidal de Negreiros, então no governo da capitania de Pernambuco.

Para se fixarem em definitivo na povoação do Arrecife, tiveram esses carmelitas de enfrentar uma conturbada história de lutas com a Câmara de Olinda e com os seus próprios irmãos de ordem do Convento de Santo Antônio do Carmo; estes últimos, seguidores da Reforma Turônica, enquanto os do Recife permaneciam na vida religiosa contemplativa, sendo por isso chamados de “observantes”. Tais desavenças em muito contribuíram para o retardamento das obras de construção do Convento do Recife, continuamente suspensas tanto pelo governo da capitania quanto pela própria coroa portuguesa. O cerne das desavenças, porém, era bem outro e prendia-se aos conflitos entre a nobreza rural, que dominava a Câmara de Olinda, com a burguesia do Recife, os quais em 1710 vieram dar causa ao que depois se convencionou chamar de Guerra dos Mascates (1710).

Em 1679, como se queixavam da situação de insalubridade da Casa da Boa Vista, vieram receber os carmelitas do Recife, em 5 de maio daquele ano, uma área com 100 braças de terra de salgado, isto é, de terras alagadas pela maré alta, em torno do primitivo hospício, para nelas construir algumas oficinas e o seu quintal. Nas terras anteriormente doadas, já tinham os frades construído o seu primeiro convento, aproveitando grande parte da Casa da Boa Vista, com uma capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro e uma senzala.

Padeciam os frades de grande desconforto na primitiva Casa da Boa Vista, quando o capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos, senhor do Engenho São Francisco da Várzea, casado com D. Catarina Vidal de Negreiros, filha do governador André Vidal de Negreiros, veio em auxílio das obras do seu cunhado, frei Francisco Vidal de Negreiros. Inicialmente propunha-se o benfeitor a assumir todo o ônus de construção da capela-mor de uma nova igreja, a ser erguida nas proximidades da primitiva. Para isso comprometeu-se em escritura pública, de 18 de agosto de 1685, a construir às suas custas a capela-mor da nova igreja tendo por orago Nossa Senhora do Monte Carmelo, em troca do direito de ter sua sepultura naquele local, juntamente com sua mulher e seus herdeiros, bem como alguns sufrágios por sua alma. Para os serviços, foi contratado o capitão Antônio Fernandes de Mattos, construtor das mais importantes edificações do Recife no final do século XVII.

O túmulo do doador e de sua mulher, localizado na capela-mor ao lado do Evangelho, era assinalado por uma lápide, datada de 28 de agosto de 1703, que em 1898 veio a ser removida para o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.

Com o desaparecimento do primitivo convento, surgiram no seu local as ruas do Cano ou da Paz, Palma e Concórdia, passando esta área a ser denominada de Carmo Velho.

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AS AMANTES DE MAURÍCIO DE NASSAU

Anos antes de seu regresso do Brasil, diante do Conselho dos XIX da Companhia das Índias Ocidentais, o Conde João Maurício de Nassau vinha sofrendo contínuo desgaste originário de acusações das mais diversas de seus invejosos inimigos, dentre os quais o capitão Charles Tourlon Jr. que o acusava de haver se apropriado de sua mulher.

O Conde de Nassau por J de Baen (1633-1702)

Apesar de nunca haver casado, João Maurício sempre nutriu um saudável interesse pelo sexo oposto. Inicialmente por Margarida Soler, a filha do pregador calvinista Vicent Joachim Soler, apontada como sua amante pelo frei Manuel Calado, tendo desprezado esta pelos amores da filha do sargento-mor Cornélio Bayer.

O seu caso mais propagado foi com Dona Anna Paes d’ Altro (c.1617-1674), rica senhora de nobre linhagem, proprietária do Engenho Casa Forte, que era casada com o capitão Charles Tourlon, de sua guarda pessoal

Dela se conhece uma carta de seu próprio punho oferecendo ao Conde de Nassau “seis caixas de açúcar branco”. No documento, a signatária se nomeia: “De vossa excelência a muito obediente cativa Dona Anna Paes”. Para frei Manuel Calado, cuja pena não poupava ninguém do seu tempo, era Anna Paes “a mais desenvolta mulher de quantas houve no tempo deste cativeiro na capitania de Pernambuco”.

Divulgada pela primeira vez por José Higino Duarte Pereira, no nº. 30 da Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano (Recife, 1886), transcrita com correções por José Antônio Gonsalves de Mello, em 1947, a carta em questão, numa leitura livre do português em uso nos nossos dias, teria o seguinte teor:

Ilmo. Snr. – Como nós devemos toda a obediência a nossos superiores tanto mais a vossa excelência de quem temos recebido tantas honras e mercês, assim que este ânimo me faz tomar atrevimento de pedir a vossa excelência queira aceitar seis caixas de açúcar branco, perdoando-me vossa excelência o atrevimento (que meu ânimo é de servir a vossa excelência) e fico pedindo que Deus aumente a vida e estado de vossa excelência para amparo de suas cativas. De vossa excelência a muito obediente cativa Dona Anna Paes.

Porém, no que diz respeito aos pormenores do affaire de Tourlon com o Conde de Nassau, estes só aparecem com mais detalhes no livro do historiador holandês Harald S. van der Straaten:

Mais tarde teria um tempestuoso caso com a mui atraente viúva de um rico açucareiro, Pedro Correia da Silva, Dona Anna Paes. Quando o relacionamento com essa rica e poderosa mulher, a ex-noiva do líder rebelde português André Vidal de Negreiros parecia tornar-se um compromisso sério para João Maurício, ele deixou-a casar com o beberrão Karel (sic) Tourlon, que assim adquiriu distinção social bem como um atrativo e conveniente posto. Foi indicado comandante da guarda pessoal do governador geral e secretário de governo. Sob a cobertura dessa união legal o caso de João Maurício com Anna Paes podia prosseguir sem perturbação, um fato que agravou amargamente o novo marido. Quando Tourlon depois de certo tempo descobriu o que estava acontecendo entre sua esposa e seu empregador ele elaborou um selvagem relatório sobre a vida amorosa de João Maurício para o conde Frederick Henry [príncipe Frederico Henrique, chefe da Casa de Orange, parente e protetor do Conde de Nassau], o qual acrescentou que João Maurício tinha o hábito de cercar-se de portugueses de duvidosa estirpe que seriamente ameaçavam aos interesses da população holandesa e que se enriqueciam escandalosamente à custa dos membros mais pobres da sociedade. João Maurício foi chamado à razão pelos diretores. Ao ser interrogado Tourlon confessou. Foi prontamente dispensado de seus postos e colocado no primeiro navio de volta à Holanda.¹

Sem abordar os acontecimentos ligados à vida privada e sentimental do Conde de Nassau, José Antônio Gonsalves de Mello nos revela preciosos informes acerca de Charles de Tourlon, o moço. Tinha ele o mesmo nome de seu pai, que se passara para o lado dos espanhóis em Flandres. Tourlon, que servira “no Brasil desde os primeiros anos da conquista; em 3 de abril de 1643 foi preso por Nassau, como suspeito de cumplicidade com brasileiros em uma revolta contra os holandeses”. Remetido para Holanda, ao fim do inquérito a que veio responder, nada se comprovou de tais acusações, sendo-lhe permitido voltar ao Brasil, não mais como militar, segundo o Dag. Notule de 21 de novembro do mesmo ano. Do seu casamento com Dona Anna Paes nasceram dois filhos: Isabella e Kornelius Tourlon. Morto Tourlon em fevereiro de 1644, sua viúva, Anna Paes, torna a casar desta vez com Gijsbert de With, Conselheiro de Justiça, conforme comunicado deste ao Alto Conselho datado de 29 de abril de 1645. Naquela ocasião o então pretendente informara que “a sua futura esposa já no tempo do seu anterior casamento tinha demonstrado ser mais favorável à nossa nação que a dos portugueses”.²

A cerimônia do casamento aconteceu na igreja calvinista de Maurícia, em 14 de maio do mesmo ano, comunidade da qual Dona Anna Paes fazia parte. Na mesma igreja foram batizados os filhos das suas duas últimas uniões: Isabella Tourlon, em 27 de novembro de 1643; Kornelius Tourlon, em 3 de julho de 1647, e Elizabeth de With, em 28 de setembro de 1650.

Em 1653, quando do retorno do conselheiro Gijsbert de With à Holanda, Dona Anna Paes, juntamente com os filhos havidos nos seus dois casamentos, acompanhou o marido fixando residência em Dordrecht, aonde veio a falecer em 21 de dezembro de 1674.

Em se falando das aventuras amorosas de João Maurício, estas o acompanharam por toda existência. Após o seu retorno à Europa, lembram os escritores José Van den Besselaar e Evaldo Cabral de Mello às suas ligações com Agnes Geertruyde van Bylandt, esposa do mordomo-mor do Grande Eleitor de Brandemburgo em Kleve, Johan von Coenen von Zegenwerp und Lohe, cuja imagem chega aos nossos dias graças ao seu retrato (Retrato de uma patrícia diante do anfiteatro), pintada por Jan de Baen, atualmente conservado no museu daquela cidade da Alemanha.

Para ela João Maurício deixara a Prinzenhoff uma magnífica casa por ele construída em estilo clássico, concluída em 1671, na Goldstrasse, cujo interior era decorado com telas produzidas por Albert Eckhout. “Com dois pavilhões flanqueando um corpo principal”, encravada em uma singular propriedade, com vistas de Kleve e do vale do Reno, “graças ao jardim em meia-lua escalonado em terraços”, tendo ao lado ‘uma das mais bonitas cercas de pinheiros do mundo’, segundo um viajante inglês e sendo prolongado, do outro, pelo parque de carvalhos, faias e amieiros que se estendiam até Freudenberg. Após o falecimento de Agnes Geertruyde, em 1678, a propriedade passou para um dos seus herdeiros que se encarregou do loteamento e consequente venda do seu terreno.³

Segundo o seu biógrafo, José van den Besselar:

A vida amorosa de Maurício está por escrever ainda, e talvez seja impossível reconstruí-la, porque neste terreno é muito difícil separar os boatos mexeriqueiros de informações seguras e objetivas. Só podemos dizer que Maurício, ao contrário de muitos outros príncipes da sua época, não deixou bastardos conhecidos como tais.4

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¹ STRAATEN, Harald S. van der. Brasil : Um destino. Tradução de Lace Medeiros Breyer. Brasília: Instituto Cultural Maurício de Nassau; Linha Gráfica Editora, 1998. p. 108.

² MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. Op. Cit. p. 142, nota 51.

³ MELLO, Evaldo Cabral de. Nassau: governador do Brasil Holandês. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p.256.

4 BESSELAR, José Van den. Mauricio de Nassau, esse desconhecido. Op. cit., p. 79-80.

O RECEITUÁRIO DE CAPIBA: ELE JÁ TOMOU???

No seu Livro das Ocorrências (1985), Capiba conta “causos” engraçados acontecidos durante a sua movimentada vida de jogador de futebol, musicista, bancário e compositor dos mais festejados.

Chegando ao Recife em 15 de setembro de 1930, Lourenço da Fonseca Barbosa originário da Paraíba, então capital do vizinho Estado, veio assumir as funções de funcionário no Banco do Brasil, Agência do Recife.

Trazia em sua bagagem poucos conhecimentos para a vida bancária, mas já era conhecido e consagrado como compositor de frevos e canções, bem como pianista de cinema mudo, o que lhe garantia um grande número de relações de amizade.

Com o seu temperamento jovial, o nosso Capiba tinha sempre um chiste, uma graça, uma piada, no seu modo peculiar de viver a vida.

Logo nos primeiros dias de trabalho, como “quarto escriturário a título precário do Banco do Brasil”, Capiba pressentiu ao chegar para o expediente da manhã um grande rebuliço no salão da recepção. Formava-se uma grande roda de antigos funcionários, que atentos e com os semblantes revelando certo pesar, ouviam um fato narrado por uma voz para ele desconhecida.

Forçando a passagem, afasta daqui aperta dacolá, sobe numa cadeira, pede licença a um e empurra o outro, finalmente o nosso herói chega ao centro dos acontecimentos, bem no momento exato em que o narrador terminava a sua história.

Imediatamente surgiram as perguntas dos circunstantes preocupados:

“E ela já tomou aplicações de radium?” – Indagava o chefe da seção.

“E já experimentou um exame de raios-X?” –.

Perguntava preocupado o contador.

“Bom seria um chá de Bom-Nome?”.

Sugeria um modesto funcionário crente na cura pelas erva.

A todos o narrador acenava afirmativamente. Todos os meios conhecidos foram utilizados; todos os medicamentos existentes naquele início dos anos trinta haviam sido experimentados.

Fazendo-se engraçado, o nosso Capiba, entrando no meio da conversa, saiu-se com esta prescrição:

“Pelo que eu estou vendo ela já tomou tudo?!… Só falta mesmo é tomar no c…!!!!!”

Fez-se um silêncio geral e, logo em seguida, uma debandada de circunstantes marcou o cenário. Cada um procurava a sua carteira, ou algo para fazer, ficando sozinho no centro do salão o nosso Capiba, sem nada entender perante tamanha correria.

Sem saber o porquê do não estar agradando, nem muito menos a razão daquela retirada apressada, foi para a sua carteira, pensativo com os seus próprios botões.

Ao colega mais perto ele indagou: “E o que foi que houve por eu ter dito aquela besteira?”.

A resposta veio em tom de conselho:

Olha, o gerente regional do banco estava contando que a sua senhora está doente e que havia tomado tudo quanto é remédio e não tinha obtido nenhum resultado, aí entra você, no meio da conversa, e vem com aquela recomendação!

– Nós ficamos com a cara no chão, não adianta consertar agora que vai sair muito pior…

De repente, recorda Capiba, eu vi junto a mim um homem que, pelos meus cálculos, tinha mais de dois metros… Com a voz forte e soturna ele profetizou:

Seu Lourenço!… Aquela que o senhor recomendou tal tratamento é minha mulher… Ela encontra-se no Hospital Osvaldo Cruz, portadora de uma doença desconhecida, entre a vida e a morte… Enquanto vida eu tiver, jamais vou esquecer o seu receituário…

No mês seguinte ele me ameaçava com uma transferência para o Amapá…

O CANCIONEIRO DO CICLO JUNINO

O ciclo junino é um dos mais festejados do calendário folclórico pernambucano sendo, também, o de origem mais remota. Os festejos dedicados aos santos de junho são antecedidos pelos chamados noiteiros do mês maio, em honra da Virgem Maria, de origem historicamente recente, vez que as primeiras indulgências datam de 21 de março de 1815, conferidas que foram pelo Papa Pio VII.

Em Pernambuco o mês mariano veio a ser introduzido em 1850, no convento do Carmo do Recife, sob a inspiração do frei João da Assunção Moura e popularizou-se através dos frades capuchinhos do convento da Penha: “no exercício do mês mariano tudo é música, poesia e flores” (Pereira da Costa).

Das igrejas os cânticos e ladainhas em honra da Virgem passaram a ser entoados nos noiteiros das residências, costume ainda hoje mantido na zona rural e em alguns bairros do Recife e Olinda.

TUDO COMEÇA COM SANTO ANTÔNIO

Terminado o mês de maio, tem início as Trezenas de Santo Antônio, logo no dia 1º de junho, mantendo assim esta secular devoção ao santo lisboeta introduzida em Pernambuco em 1550, quando foi erguida uma capela ao santo que deu origem, em Olinda, ao primeiro convento carmelita do Brasil: Convento de Santo Antônio do Carmo.

É Santo Antônio (Lisboa, 15.VIII.1195 – Pádua, 13.VI.1231) o orago mais popular do Brasil, onde possui 228 freguesias sob a sua invocação, vindo em segundo lugar São José com 71. Nas famílias, Antônio é o nome escolhido e rara é a cidade, vila ou povoado que não tenha uma, ou mais, ruas ou avenidas com o seu nome, igrejas sob sua devoção. Afirma Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que “apesar de tanta bajulação e mudanças corográficas o Brasil possui 70 localidades como nome de Santo Antônio”.

Em Pernambuco os franciscanos fundaram o seu primeiro convento em terras brasileiras, em 13 de março de 1584, na então Vila de Olinda fincando a custódia sob a proteção de Santo Antônio. No Recife, a tradição do culto do santo data de 1606, quando foi iniciada a construção do convento franciscano da então ilha de Antônio Vaz, hoje denominada de Santo Antônio, estando o templo localizado na atual Rua do Imperador Pedro II.

Em 19 de novembro de 1709, a antiga povoação do Arrecife dos Navios veio a ser denominada de Vila de Santo Antônio do Recife, apesar do empenho do então governador Sebastião de Castro Caldas em denominá-la de São Sebas-tião, o que lhe custou uma advertência do Rei de Portugal. Em 1918 foi o santo lisboeta confirmado como padroeiro principal da cidade do Recife pelo Papa Benedito XV, ao conceder o co-padroado a Nossa Senhora do Carmo que ficou sendo “a padroeira menos principal”. Como se não bastasse é Santo Antônio o padroeiro dos pernambucanos, tendo sua imagem figurado nos estandartes dos exércitos luso-brasileiros quando da Insurreição Pernambucana eclodida em 13 de junho de 1645, dia de sua festa.
Durante treze noites, em residências das mais diver-sas, os seus devotos estão a cantar em coro:

Milagroso Antônio,
Nosso padroeiro.
Enche de alegria,
Pernambuco inteiro

SÃO JOÃO E SÃO PEDRO

Dentre as festas do ciclo junino, porém, é a de São João a mais festejada em Pernambuco. É também a festa popular mais antiga do Brasil, já sendo registrada por frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil 1500-1627, assim referindo-se aos naturais da terra… “acudiam com muita boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Trata-se de uma festa de grande misticismo, a partir do próprio nome Batista – o que batiza cheio de graça -, em cuja noite se praticava feitiçarias, como demonstra a denúncia de Madalena de Calvos contra Lianor Martins, a Salteadeira, acusada dentre outras coisas, de trazer consigo uma semente enfeitiçada colhida na noite de São João, segundo depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, em 22 de novembro de 1593, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco.

As festas juninas foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses, eles próprios ainda hoje cultores desta milenar tradição marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa as festas juninas coincidem com o início do verão, daí a presença da tradição de costumes pagãos dentro dos festejos, como adivinhações e o culto ao fogo.

No que diz respeito às fogueiras, ensina a tradição cristã divulgada pelos jesuítas ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer um enorme fogaréu no sentido de anunciar o nasci-mento de seu filho João Batista:

“Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz”. (João 1,6-8).

No Brasil a festa acontece com o início do inverno, tempo de colheita do milho e do feijão no Nordeste, que sempre está a espera das boas invernadas de modo a afastar o espectro das estiagens de modo a garantir a sua subsistência; como na polca de Zé Dantas e Luís Gonzaga, Lascando o cano (RCA 80/307B-1954):

Vamo, vamo Joana
Findou-se o inferno
Houve um bom inverno
Há fartura no sertão…,
Ai! …Joana, traz pamonha, milho assado
Vou matá de bucho inchado
Quem num crê no meu Sertão.
Traz a riuna que eu vou lascar o cano
Pela safra desse ano
Em louvor a São João.

CANCIONEIRO JUNINO

Em se tratando de um povo de bailadores, acostumado a dançar no meio da rua, no Brasil os festejos juninos é marcado, não somente pelas fogueiras, balões, comidas da época (nas quais predominam o milho, a mandioca, a castanha de caju e dos doces), mas também pela música em seus mais diferentes gêneros a movimentar os arraiás, residências, comércio, clubes sociais, pro-gramação de rádio e televisão e, sobretudo, a alma festiva dessa gente; como naquela polca de Zé Dantas e Joaquim Lima, Chegou São João, gravada por Marinês (RCA- BBL1075-B-l/ 1960):

Eita pessoá!
Chegou São João!
Vou me espraiá,
Vou dá no pé prô meu Sertão.
Eu vou pra lá,
Brincá com Tonha,
Com Zefa e Chico,
Comer pamonha e canjica
Vou soltar ronqueira,
Bebê e dançar coco
Em volta da fogueira.
Vou soltá,
Foguete, balão, buscapé
Bebendo aluá, cachaça e capilé

A festa de São João tem início com o Acorda Povo, logo na madrugada do dia 23, acordando os moradores ao som de zabumba, caracaxá, ganzá, triângulo, sanfona, tudo mo-vido a muita cachaça: “Acorda povo que o galo cantou / Foi São João que anunciou…”.

No por do sol do dia 23, véspera da festa do santo, são acendidas às fogueiras e a festa tem continuidade com a Bandeira de São João.

Uma procissão antecipada por uma estrela, coberta de papel celofane com 150 cm. de diâmetro, iluminada por vê-las no seu interior, é carregada por dois meninos. Seguem-se duas filas, formadas por homens e mulheres, que cantam e dançam em honra do santo, fazendo marcação com os pés e, por vezes, trocando umbigadas. Segue-se de uma bandeira, pintada com a imagem do Batista menino com o carneirinho, segurada em suas pontas por quadro adolescentes, antecedendo ao andor com a imagem do santo, esculpida em gesso ou madeira, carregado por quatro moças vestindo branco, encarnado e verde, cores mantidas também nas lanternas dos acompanhantes. Finalmente uma banda de pífanos, ou um terno de sanfona (acordeom, zabumba e triângulo), acompanha os seguidores no seu canto:

“Que bandeira é esta / Que vai levantar/ É de São João para festejar/ Que bandeira é esta / Que já levantou/ É de São João, primo do Senhor”.

A música é uma constante nos festejos juninos desde os primeiros dias da colonização. Foi assim com as capelas, referidas pelo frei Vicente do Salvador e descritas pelo Padre Carapuceiro, continuando em nossos dias com a adaptação de ritmos oriundos de outras plagas, como o xote (schot-tisch), proveniente da Hungria; a polca e a mazurca, originárias da Polônia, e a quadrilha, que teve por berço os salões aristocráticos de França e, no Brasil, veio a ser dança-da da Corte às casebres da zona rural, como bem assinala o jornal de críticas O Carapuceiro, em sua edição de 6 de abril de 1842:

“Nas baiúcas mais nojentas/ Onde a gente mal se vê/ Já se escuta a rabequinha,/ Já se sabe o balancê./ Nisto mesmo está o mérito/ Deste dançar tão jacundo,/ Que sem odiosa exclusão,/ Acomoda todo o Mundo”.

Não faltam nessas animadas festas os ritmos originários da terra, como o coco-de-roda, originário dos batuques africanos, que marcado por um ganzá, nas mãos do solista (tirador), acompanhado por um tambor em compasso biná-rio, e respondido pelas vozes dos dançarinos a marcarem o ritmo com sapateado dos seus tamancos de madeira, trocas de umbigadas e assim mantém a alegria a noite inteira. Para Pereira da Costa, in Folk-Lore Pernambucano (1908), o coco é a “dança querida do populacho, com certa cadência acompanhada a palmas, e na qual os foliões acomodam trovas populares repetidamente”[…] “o coco, porém, está tão vulgarizado que chegou mesmo à zona sertaneja, com a sua particular toada, mas, com letra variada, convenientemente acomodada ao canto, e obedecendo sempre a um estribilho contínuo, cantado em coro pelos circunstantes”.

Já era descrito no conto de Luís Guimarães Júnior (1845-98), que, estudante da Faculdade de Direito do Recife, publicou no Diario de Pernambuco, 8 de fevereiro de 1871, um conto sob o título “A alma do outro mundo”, onde comenta o que chamou de “samba do Norte” , na verdade o nosso coco-de-roda. Rodrigues da Carvalho, in Cancioneiro do Norte (1928), diz ser o coco a “dança predileta do pessoal dos engenhos de açúcar, negros e caboclos, cambiteiros, o mestre de fornalha, o metedor de cana, o banqueiro [mestre que dá ponto ao açúcar], os tangedores da almanjarra, etc.”. Mas na hora da alegria, onde a cachaça passa a dirigir os gestos e as ações, nem mesmo a autoridade está livre de uma roda de coco; como bem descreve Zé Dantas em gravação de Luís Gonzaga (RCA-Leme 801656A/1957):

O seu delegado, fez mais um esforço
E madrugada mandou um reforço
Mas desconfiado por não ter notícia
Veio ver o que houve, com a sua polícia
E de manhã cedo, a graça do povo
Era o delegado contando bem rouco
Nesse coco poliça num tem vez
Se acaba no pau, se falá em xadrez } bis

Também ligados ao Ciclo Junino, particularmente aos seus intérpretes, estão hoje o baião, o xaxado, a toada, a embolada, a ciranda e a marcha sertaneja, ou marcha junina, esta última originária das marchas populares com as quais Lisboa festeja o seu Santo Antônio e que vieram a ser conhecidas, através das companhias de revista, como marcha portuguesa, a exemplo da marcha de Zé Dantas e Luís Gonzaga, São João na roça (RCA 800895A/1952):

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou… ô
Vamos gente!…
Rapa pé nesse salão.

Ou esta outra marchinha, marca do romantismo das noites juninas, composta por Luiz Gonzaga e José Fernandes, Olha pro céu (Vitale 603326832), recentemente relançada na coletânea 50 anos de chão, em homenagem ao Rei do Baião:

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo…
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo…

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O coração
O céu estava
Assim em festa
Porque era noite
De São João
Havia balões no ar
Xote, baião, no salão
E no terreiro, o teu olhar
Que incendiou meu coração

Tudo acontece numa mistura de ritmos e de cores, num cadinho conhecido no passado por forrobodó, já neste século por forrobodança e a partir dos anos quarenta por forró, como lembra Zé Dantas in Forró do Mané Vito, grava-do por Luís Gonzaga em 1949 (RCA 800668B/49) ser o local onde todos esses sons se misturam num grande baile popular.

Nas composições musicais do ciclo junino está toda moral do sertanejo, “Sertão das muié séria / Dos homi trabaiadô”… (A volta da asa-branca, toada de Zé Dantas, gravada por Luís Gonzaga, em 1950, RCA 800739 A) e a vida simples do seu povo:

Ai São João chegou,
Iaiá!
Ai São João chegou,
Sinhá!
Teu vestido de chita,
Já mandei preparar.
Minha roupa de lista,
Já mandei engomar,
Eu tenho uma festinha
Para te levar
Eu tenho uma fogueira,
Para o nosso lar

E hoje, o jovem romântico de ontem, pode lembrar com saudades aquelas noites juninas que não voltam mais, cantando aquele sucesso sempre atual, composto por Zé Dantas e Luiz Gonzaga em 1954, que leva o singular título de Noites brasileiras (RCA 801307 A):

Ai que saudade que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão, ai, ai…

OLINDA, O CRIME MAIOR

Foi o incêndio da Vila de Olinda pelos holandeses, na noite de 25 de novembro de 1631, o maior atentado já cometido à uma cidade brasileira em cinco séculos de nossa História. Ao incêndio seguiu-se a demolição dos preciosos templos, conventos e prédios públicos, seguindo-se da retirada do material para uso na construção de uma nova cidade no bairro portuário do Recife.

Pelas imagens preservadas nos quadros de Frans Post e outros artistas do Brasil Holandês, se constata que do fausto da antiga vila só restaram ruínas. A destruição dos templos, conventos, prédios públicos e residências transformaram a primitiva capital de Pernambuco em uma cidade-fantasma, com paredes demolidas e ruas abandonadas.

Após a expulsão dos holandeses em 1654, Olinda iniciou a difícil missão de ressurgir das próprias cinzas. Enquanto os de Olinda trabalhava em sua reconstrução, soerguendo todo o seu casario, bem como o Colégio dos Jesuítas, o Convento dos Franciscanos, a Matriz do Salvador do Mundo, o Hospital da Misericórdia, o Convento do Carmo, a Matriz de São Pedro, o Mosteiro dos Beneditinos e outras igrejas também importantes, no Recife tudo era novidades e progresso.

Enquanto no Recife tudo apontava para o novo e o moderno, Olinda permaneceria por séculos com as marcas da destruição causada pelo incêndio criminoso de que foi vítima em novembro de 1631, como bem demonstra o professor José Luiz Mota Menezes :

O Recife, ampliado e desenvolvido pelos holandeses, encontrava-se em melhores condições que Olinda. Assim a reabilitação urbana desta cidade, muito arruinada, demorou muitos anos. Apesar de elevação à condição de cidade em 1676, ainda nela se viam grande número de casas abandonadas no século XVIII.

Os edifícios religiosos, ao espalhar o poder do açúcar presente nos proprietários rurais, que viam em Olinda as suas origens aristocráticas, foram reconstruídos em maior grandeza. Eles refletiam antes o maneirismo e passaram a falar a linguagem do Barroco lusitano onde certas inovações estéticas se incluíram, resultantes do inexistir resistências estilísticas anteriores, o que propiciava maior criatividade dos artistas luso-brasileiros.

Os vazios na área urbana de Olinda e o abandono que se seguiu, são testemunhados pelos depoimentos de viajantes que estiveram em Pernambuco no início do século XIX, a exemplo de Maria Graham que, apesar de surpresa com a paisagem olindense, não deixa de lamentar o seu estado melancólico de ruínas.

Fiquei surpreendida com a extrema beleza de Olinda, ou antes, dos seus restos, porque agora está num melancólico estado de ruína. Todos os habitantes mais ricos há muito se estabeleceram na cidade baixa (no Recife). Como as rendas do bispado são agora reclamadas pela coroa, e os mosteiros foram suprimidos pela maior parte, cessou até mesmo o esplendor fictício das pompas eclesiásticas. O próprio colégio (Seminário) onde os jovens recebiam de algum modo educação, ainda que imperfeita, está quase arruinado e é raro encontrar de pé uma casa de qualquer tamanho. Olinda jaz em pequenos morros, cujos flancos em algumas direções caem a prumo, de modo a apresentarem as perspectivas rochosas mais abruptas e pitorescas. Estas são circundadas de bosques escuros que parecem coevos da própria terra: tufos de esbeltas palmeiras, aqui e ali a larga copa de uma antiga mangueira, ou os ramos gigantescos de copada barriguda, que se espalha amplamente, erguem se acima do restante terreno em torno, e quebram a linha da floresta; entre esses, os conventos, a catedral, o palácio episcopal, e as igrejas de arquitetura nobre, ainda que não elegante, colocam se em pontos que pode riam ser escolhidos por um Claude ou um Poussin; alguns ficam nos lados íngremes das rochas, alguns em campos que se inclinam suavemente para a praia; a cor deles é cinzenta ou amarelo pálido, com telhas avermelhadas exceto aqui e ali quando um campanário é adornado com telhas de porcelana azul e branco.

No final do século XVII e por todo século XVIII, viveu-se em Pernambuco, quer em Olinda ou no Recife, mesmo em outras vilas como Goiana e Igarassu, uma verdadeira febre de construções de caráter religioso, financiadas pela produção do açúcar ou pelo rico comércio. Tamanho número de obras, propiciou-se um mercado promissor aos artistas locais que, inspirados nos modelos portugueses do estilo D. João V (1707-1750), ou mesmo em desenhos obtidos na Itália, vieram a criar, por todo o século XVIII e parte do século XIX, elementos característicos de um barroco aclimatado aos trópicos.

Engenheiros militares, arquitetos, mestres-pedreiros, carpinteiros, entalhadores, marceneiros, douradores, pintores, escultores, músicos e uma infinidade de profissionais artistas estavam em constantes atividades produzindo e construindo obras novas, para a mitra diocesana, irmandades, ordens religiosas e particulares.

Ordens religiosas como os Jesuítas, Carmelitas, Franciscanos, Beneditinos e Capuchinhos que, nos séculos XVIII e XIX, transformaram seus templos em grandiosos monumentos da fé cristã.

Foram essas ordens religiosas, particularmente os jesuítas e franciscanos, que desenvolveram, desde o início da segunda metade do século XVI, as escolas de formação de artistas. Recorda-se a presença em Olinda do jesuíta Francisco Dias, responsável em Lisboa pela construção da igreja de São Roque (1566-1591), no Bairro Alto, que trabalhou nas obras da igreja de Nossa Senhora da Graça (1577), “dentro do espírito do modo nostro – economia, austeridade, funcionalidade e adaptação à realidade circundante – das construções jesuíticas desse período [que] adotavam indistintamente soluções do passado medieval lusitano”.

Os franciscanos, chegados a Pernambuco em 1585, possuíam em 1655 vinte conventos e inúmeras missões. No século XVIII, no território da Província de Santo Antônio, compreendido entre a Bahia e o Maranhão, encontram-se assinalados 13 conventos e um hospício. Para a construção e manutenção dos seus templos e conventos, criaram os franciscanos as oficinas de formação de artistas que vieram se multiplicar em toda região.

COMO ANTIGAMENTE, NA MINHA TERRA TUDO É FORRÓ

Severino Januário, Santana (zabumba), Luiz Gonzaga, Helena, Chiquinha, Severino, Zé Gonzaga…

Nesses dias que antecedem às festas juninas, e porque não dizer no ano inteiro, só se fala em forró, como sendo um ritmo de estrutura própria e independente dos demais, lembrei-me do verbete por mim escrito para o Dicionário da Música Brasileira (São Paulo: Art-Editora, 1998) que passo para vocês.

FORRÓ – Abreviatura de forrobodó e forrobodança, de uso comum na imprensa pernambucana da segunda metade do século XIX, para designar o local onde acontecia determinado baile popular. O vernáculo é bem brasileiro, nada tendo a ver com for all, como querem alguns descobridores de anglicismos. O seu uso tornou-se comum na imprensa do Recife (América Ilustrada, nº 25/ 1882, e Mephistopheles, nº 15/1883), sendo classificado por Rodrigues de Carvalho, in Cancioneiro do Norte, Fortaleza 1903, como “bailes da canalha” e por Pereira da Costa, in Vocabulário Pernambucano (1908), como “divertimento, pagodeira, festança”. Com o uso continuado, o vocábulo forrobodó passou a ser utilizado na sua forma forrobodança, assim definido na A Lanceta, nº 121 / 1913: “… é um baile mais aristocrático do que o Chorão do Rio de Janeiro, obrigado a violão, sanfona, reco-reco e aguardente. Nele toma parte indivíduos de baixa esfera social, a ralé […] A sociedade que toma parte no nosso forrobodança é mesclada; há de tudo. Várias vezes verificam-se turras e banzés sem que haja morte ou ferimentos. Fica sempre tudo muito camarada; muito bem, muito obrigado”.

A imagem diferente nos é pintada, já nos anos cinqüenta, por Zé Dantas (José de Souza Dantas Filho), in Forró do Mané Vito, gravado por Luiz Gonzaga em 1949 (RCA 80.0668B); ainda Zé Dantas, Forró em Caruaru, gravado por Jackson do Pandeiro em 1955; Edgar Ferreira, in Forró em Limoeiro, gravado por Jackson do Pandeiro (Copacabana nº 5155) e, novamente, Zé Dantas, in Forró de Zé Antão, também gravado por Luiz Gonzaga em 1962 (RCA BBL 1175B).

No final dos anos 50, com a construção de Brasília, foram transferidos dezenas de milhares de nordestinos para o Planalto Central que, a exemplo do que já vinha acontecendo no Rio de Janeiro e São Paulo, vieram estabelecer os seus bailes populares com o título de forró, geralmente antecedendo ao nome do promotor da festança: “o forró de Zé do Baile toca o ano todo/ toca o ano todo…”.

As chamadas Casas de Forró surgiram, nos anos 70, do século vinte, com uma grande presença de artistas nordestinos, como local de divertimento dos migrantes nordestinos, sendo frequentadas por trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, segmentos outros da comunidade subalterna, bem como por gente da classe média saudosa dos ritmos regionais, ameaçados pela programação radiofônica, onde só havia espaço para músicas estrangeiras. Nos anos setenta, as Casas de Forró, não só do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Natal e outras cidades, passaram a receber a freqüência dos chamados defensores da música popular brasileira, despertando assim o interesse da juventude universitária que viram no ambiente uma forma diversão autêntica e barata.

Em dias mais recentes, artistas como os saudosos Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês e Jackson do Pandeiro, juntamente com nomes como Trio Nordestino, Abdias, Zé Gonzaga, Genival Lacerda, passaram a serem frequentadores assíduos das apresentações abrindo assim um mercado que se encontrava em baixa na segunda metade do século passado.

Na atualidade, sob o título de forró, a exemplo do baião nos anos cinqüenta, passou a existir lugar para todos os ritmos rurais do Nordeste e até de outras regiões. Sob o seu rótulo, vamos encontrar o xote, o rojão, a marcha de roda e a marcha junina (ambas originárias da marcha popular portuguesa), o xenhennhém, a toada, o samba rural, o xaxado, o coco, a mazurca, a rancheira e o próprio baião, como também ritmos alienígenas como o merengue, que aparece travestido de lambada e quadrilha.

Aproveitando a onda de modismo da juventude, o forró tornou-se a palavra de ordem, integrando o repertório de dezenas de conjuntos do gênero existentes em Pernambuco e no Ceará: Mel com terra, Mastruço com leite, Pimenta nativa, Mestre Ambrósio, Raimundos, Cascabulho, Limão com mel, dentre outros.

O forró em nossos dias é um grande guarda-chuva que ampara todos os ritmos regionais; uma espécie do baião, nos tempos áureos de 1952, quando Zé Dantas e Luiz Gonzaga compuseram Tudo é Baião (Vitale 9432/52), gravado pelo conjunto Quatro Ases e um Coringa (RCA 800897-A); composição que hoje poderia ser intitulada de tudo é forró….

Andam dizendo
Que o baião é invenção
Quem disse isso
Nunca foi no meu sertão
Pra ver os cegos
Nesse ritmo cantando
E os violeiros
No baião improvisando

E os sanfoneiros
Do Moxotó
Desde o Navio
Ao Piancó
Do Pajeú
A Cabrobó
Canta baião
Lá nos forró
Pois o baião
Lá no sertão
E o xém-iên-iên
Qu’é seu irmão
Até a cantigas
De Lampeão
Na minha terra
Tudo é baião.

ORAÇÃO DE AVE MARIA DA PRA 8, RÁDIO CLUBE DE PERNAMBUCO

Irradiada pela primeira vez, na voz do locutor Sebastião Stanislau, em 8 de setembro de 1939, sendo o seu texto atribuído ao jornalista Carlos Rios, por alguns, e ao radialista Mário Libânio, por outros.

Ave Maria!

Rainha pura e ditosa dos homens pecadores.

Santa radiosa do céu!

Hora doce e emocionante, entre o dia que morre e a noite que surge.

As criaturas perdidas, na inquietação que enche a terra, olham o firmamento, ansiosas pela luz das estrelas que começam a inundar a imensidade.

Ave Maria!

Paz e recolhimento para os espíritos, conforto e esperança para as almas!

O homem dobra os joelhos e abranda a sua ira, esquece os seus sofrimentos e abre o seu coração, nesta hora terna de piedade e de recolhimento.

O seu pensamento voa para o céu, qual gigantesco pássaro audacioso que soltasse, na amplidão, as suas asas doiradas.

Ave Maria!

As catedrais e as capelas humildes entoam, ao mesmo tempo, a sua oração que o bronze secular cobre de sons divinos, enchendo o espaço de harmonias inefáveis.

Ave Maria!

Hora da prece e do perdão.

Hora dos fidalgos e dos plebeus.

Hora dos cristãos de todas as idades e dos filhos de Deus de ambos os hemisférios.

Ave Maria!

Hora grandiosa de Deus!

Traço de união divina entre a criatura e o Criador.

Hora mágica da humanidade que abre um doirado caminho de luz, entre a terra angustiada e o céu bendito.

Ave Maria!

PRA8 – RÁDIO CLUB DE PERNAMBUCO (1919)

Rádio Clube de Pernambuco

Com a suspensão da censura telegráfica, em janeiro de 1918, os telegrafistas amadores do Recife tiveram suas atenções despertadas no sentido da criação de um Instituto de Telegrafia sem Fio. Um esboço dos estatutos dessa sociedade é conservado pela Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco, no qual estão relacionados os primeiros associados com seus respectivos prefixos: Abelardo Rego Barros, ARB; George E. Gatis, GEG; João P. Lyra, QCT; Augusto Pereira, MJV; Lino M. Cerqueira, LCB; Luiz de Carvalho, LCB; Alfredo Watts, AWG.

Em seis de abril de 1919, segundo noticia a edição vespertina do Jornal do Recife, é fundado uma associação, com o objetivo de congregar amadores em radiotelegrafia, sob a denominação de Radio Club:

Consoante convocação anterior, realizou-se ontem na Escola Superior de Eletricidade, a fundação do Rádio Club, sob auspícios de uma plêiade de moços que se dedicam ao estudo da eletricidade e da Telegrafia sem fio.

Ninguém desconhece a utilidade e proveito dessa agremiação, a primeira no gênero fundada no país.
Foram tomadas diversas medidas, como sejam, designações de comissões para se entenderem com as autoridades do Estado etc.

Ao Exmo. Sr. Ministro da Viação foi endereçado um telegrama comunicando a instalação do club e solicitando a sua Excia. o seu patriótico apoio a novel associação.

Procedida a eleição para a diretoria, esta deu o seguinte resultado:

Presidente, Augusto Pereira; secretário Alexandre Braga; orador, Carlos Rios; tesoureiro, Artur Coutinho; suplentes, 1º secretário Severino Mendonça; 2º Alfredo Watt e 3º Ismar Just.

Almejamos ao Rádio Club um êxito feliz no seu desiderato.

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A IMPRENSA EM PERNAMBUCO

Ao contrário das demais colônias estabelecidas a partir dos fins do século XV nas Américas, o Brasil foi a última a conhecer a tipografia. O invento de Johann Gensfleish Gutenberg (1400-1468), já com a introdução dos tipos metálicos móveis (caracteres móveis já existiam em argila), conquistou praticamente toda a Europa a partir de 1454, quando da impressão de uma indulgência em Mainz, chegando a Portugal em 1489, com o Tratado de Confissom, em Chaves, produzido por um impressor ambulante.

Por razões políticas impostas por Portugal, no sentido de manter a dependência através da ignorância cultural, o Brasil só veio conhecer oficialmente a tipografia a partir de 13 de maio de 1808, quando da criação pelo então príncipe regente D. João, da Impressão Régia no Rio de Janeiro.

Ao contrário do Brasil, o mesmo não aconteceu nas demais colônias das Américas, a exemplo do México, Peru e Estados Unidos, que conheceram a tipografia em 1539, 1585 e 1638 respectivamente. Mesmo dentro do mundo colonial português, a tipografia fora difundida no Oriente, através dos padres da Companhia de Jesus, no uso de preciosas traduções de vocabulários e gramáticas nativas, bem como na propagação da fé, nos seus colégios de Salsette (1542), Goa (6.9.1556), Anakura (1591), além de Rachol, Cochim, Vaipicota, Punicale e Ambalacate.

Na China, os jesuítas portugueses começaram a imprimir em Macau (1588), seguindo-se de Cantão e Hong-Kong. “No Japão, entre 1590 e o banimento do cristianismo, em 1614, os padres produziram mais de cem obras. Suas impressoras, primeiro em Kazusa com o padre Alexandre Valignano, em seguida a partir de 1591, em Anakura, e depois em 1599 na fortaleza cristã de Nagasaki, produziram catecismos, literatura e trabalhos devotos conhecidos, tanto em português como em japonês, pelo nome de Kirishitan-ban. Seus estudos linguísticos constituem a fonte principal do nosso conhecimento do primitivo japonês moderno. Pelo menos dois tipógrafos foram japoneses convertidos, enviados a Coimbra para aprender o ofício”.

No Brasil Holandês

A primeira tentativa da introdução da tipografia no Brasil partiu não dos portugueses, mas do governo holandês do conde João Maurício de Nassau-Siegen (1637-1644) quando, em 28 de fevereiro de 1642, o Supremo Conselho do Governo do Brasil, sediado no Recife, escreveu à Assembleia dos Diretores da Companhia das Índias Ocidentais, em Amsterdam, solicitando o envio de uma tipografia, “a fim de que as ordenações e os editais emanados por Vossas Senhorias e deste governo, e os bilhetes de vendas, sendo impressos, obtenham maior consideração, e de ficarmos dispensados do trabalho fatigante de tantas cópias”. 

A resposta não tardou e, em 14 de julho do mesmo ano o Conselho dos XIX informa ter seguido da Câmara de Horn “um certo Pieter Janszoon que aqui exerceu a profissão de tipógrafo e, por ocasião de sua partida, não se mostrou avesso a ideias de aí introduzir a sua arte, mediante certas condições”. 

Em face da demora nas comunicações, o Supremo Conselho reiterou o seu pedido, em carta datada de 24 de setembro de 1642, que veio a ser respondida pelo Conselho dos XIX em 21 de maio de 1643: “De há muito que consideramos a necessidade do estabelecimento de uma tipografia no Brasil, e agora recomendamos a pessoa idônea que se informasse de algum mestre habilitado para este fim, e igualmente comunicamos essa resolução à corporação dos impressores, de sorte que esperamos ver o vosso pedido satisfeito dentro em breve”. 

O Conselho do Brasil, porém, em carta datada do Recife, 2 de abril de 1643, informa laconicamente o falecimento, após sua chegada, do impressor Pieter Jenson reiterando o pedido do envio de uma oficina de tipos e de um novo mestre impressor: “esperamos que Vossas Excelências realizem a prometida remessa de uma tipografia, a fim de nos exonerar das consideráveis despesas com as numerosas cópias das ordenações e editais em português, o que importa em muito dinheiro, porquanto os escreventes da repartição consideram este serviço como extraordinário e fora de suas atribuições regulares”. 

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A IMPRENSA E A ESCRAVIDÃO

No Brasil do século XIX, para a grande massa escrava, que integrava a sua população do Brasil e que acalentara na Independência o seu sonho de liberdade, a imprensa periódica que surgia no início da segunda década nada mais era que uma nova forma de negócio.

O Diario de Pernambuco, surgido em 7 de novembro de 1825, a exemplo de todos os demais jornais de sua época, não fugia à regra, como se depreende do enunciado do seu primeiro número:

Faltando nesta cidade assaz populosa um Diario de Anúncios, por meio do qual se facilitassem as transações, e se comunicassem ao público notícias, que a cada um em particular podem interessar, o administrador da Tipografia Miranda & Comp. se propôs a publicar todos os dias da semana, exceto aos domingos somente, o presente Diario, no qual debaixo dos títulos de Compra e Vendas – Leilões – Aluguéis – Arrendamentos – Aforamentos – Roubos – Perdas – Achados – Fugidas e Apreensões de escravos – Viagens – Afretamentos – Amas de Leite etc., tudo quanto disser respeito a tais artigos; para o que tem convidado todas as pessoas, que houverem de fazer estes ou outros quaisquer anúncios…

Sobre o assunto, observa Joaquim Nabuco em 1883, quando da publicação de O Abolicionismo, cuja reedição, fac-similar da primeira, fizemos incluir na abertura desta Série Abolição:

Em qualquer número de um grande jornal brasileiro – exceto tanto quanto sei, na Bahia, onde a imprensa da capital deixou de inserir anúncios sobre escravos – encontram-se com efeito as seguintes classes de informações que definem completamente a condição presente dos escravos: anúncios de compra, venda e aluguel de escravos em que sempre figuram as palavras mucama, moleque, bonita peça, rapaz, pardinho, rapariga de casa de família, (as mulheres livres anunciam-se como senhoras, a fim de melhor se diferenciarem das escravas): editais para praças de escravos, espécie curiosa e da qual o último espécime de Valença é um dos muito completos [Valença, 23 de abril de 1883]; anúncios de negros fugidos acompanhados em muitos jornais da conhecida vinheta do negro descalço com a trouxa no ombro, nos quais os escravos são descritos muitas vezes pelos sinais de castigos que sofreram, e se oferece uma gratificação, não raro de 1.000, a quem o apreender e o levar ao seu dono – o que é um estímulo à profissão de capitães-do-mato… (p. 120-122)

Esses anúncios de jornais, de que trata Joaquim Nabuco, despertaram o interesse de Gilberto Freyre que contou com as pesquisas de José Antônio Gonsalves de Mello para escrever a conferência pioneira, “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, depois transformada em livro de grande sucesso(14). Os anúncios de jornais, particularmente os do Diario de Pernambuco, já vinham sendo utilizados por Gilberto Freyre desde 1933, quando da publicação da primeira edição de Casa-Grande & Senzala (p.330, notas), como identificação das “nações” africanas aqui existentes.

O material reunido – cerca de dez mil anúncios típicos – chega para uma tentativa de interpretação social e psicológica, quase exclusivamente através desses retalhos, de um dos períodos mais significativos de nossa história. É todo um largo espaço social, cheio de sombras, por onde os historiadores oficiais ainda tropeçam agarrados às crônicas ilustres, que se deixa às vezes iluminar ou esclarecer, de modo decisivo, por um simples anúncio de negro fugido. E em pesquisas sociológicas e de antropologia cultural ou de História Social, devemos seguir o conselho das Escrituras: aprender até com as formigas. Aprender até com os anúncios de jornal(15).

Dos anúncios transcritos por Gilberto Freyre, aparecem escravos claros, a denunciar a mestiçagem que tomava conta do Brasil, formadora da morenidade de que tanto nos orgulhamos nos dias atuais:

– Alvo também era Francisco, que tinha tatuagens representando uma cruz e o signo-de-salomão (DP, 28.3.1834).

– vende-se para fora da província uma mulata bem alva, de idade de 20 a 22 anos, muito prendada, fiel e sem vício algum (DP, 30.11.1836).

– O mulatinho que desapareceu da ponte da Boa Vista era “alvo e de cabelo estirado e louro (DP, 16.9.1837).

– De peitos grandes, pés e mãos pequenas, dentes grandes separados, era a mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838).

– Vende-se uma escrava de dezoito anos, de bonita figura e bons costumes, e que serve bem a uma casa, por ter sido educada por uma senhora inglesa, a qual também fala inglês, cose, cozinha, engoma e lava; na Rua do Livramento n.º 36 (DP 31.7.1848).

– … estatura alta, bem alvo e bonito, seco de corpo, braços compridos, dedos finos e grandes, sendo os dois mínimos dos pés bastante curtos e finos, tem dezoito anos de idade, cabelos corridos e pretos, levando eles rentes… mãos e pés bem feitos e cavados, olhos pardos e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, não buça, leva calça de brim branco já usada e camisa de chita com flores roxas (DP, 21.1.1865).

– … bem alvo e bonito, seco de corpo, braços e pernas compridas, dedos finos e grandes, cabelos corridos e pretos, olhos grandes e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, era Ubaldo cuja fuga é anunciada (DP. 5.4.1870).

Os anúncios de jornais eram retratos falados de uma época, servindo não somente para demonstrar as marcas de castigos corporais, impostos aos escravos fujões pelos capitães-do-mato e senhores, mas também outros aspectos da população de cor. Através desses retalhos podemos estudar as origens tribais (Moçambiques, Angolas, Caçanges, Benguelas, Nagôs, Bantos, etc.), as habilidades profissionais – como aquele que sabia tocar piano e marimba, que chamou a atenção do inglês Alexander Caldcleugh, in Travels in South America, during the years 1819-20-21, Londres, 1825, ao ler anúncio em jornal do Rio de Janeiro.

Por tais anúncios podemos saber sobre divertimentos dos escravos – Catarina frequentava aos domingos o maracatu dos coqueiros, no Aterro dos Afogados (DP.1.7.1845) –; erudição – Delfina falava muito bem espanhol (DRJ, 4.5.1830) –; trajes – Isabel vestia preto, “por o Sr. trazer de luto”(DP, 31.1.1842) –; temperamento (tristes, alegres, falantes, ladinos, brigões), vícios (fumo, álcool, comer terra); doenças (marcas de bexiga, boubas, bichos-de-pé etc.); ajuntamentos – a preta Ricarda era canhota, “mais ou menos alta, seca, cabeça chata, cara redonda”, que, “muito pachola”, gostava de “súcias e batuques” (DP, 16.7.1845) –; adornos; penteados; deformações profissionais; constituição física – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (DP, 4.5.1839) –; comportamento – … “mulata de linda figura, sabe labirinto, é engomadeira e costureira, de boa conduta”, como não poderia deixar de ser, “própria para uma noiva” (DP, 7.8.1857) –; marcas de ferro e/ou de nação; dado a feitiços – alguns com culto instalado na Estrada de João de Barros (DP, 7.2.1859) –; não faltando escravos fugitivos pertencentes a ordens religiosas, como bem retrata o anúncio publicado no Diario de Pernambuco de 11 de setembro de 1838:

Do engenho Maraú, ribeira do rio Parnaíba, propriedade do Mosteiro de São Bento da cidade da Paraíba, fugiu Bonifácio, crioulo, idade de 50 anos, seco, pernas finas, pouca barba, e já toda branca; João Batista, crioulo, carpina, de 30 anos de idade, estatura ordinária, cheio de corpo, e muito barbado, tem os calcanhares brancos, e pernas fouveiras por queimadura de fogo de pólvora, e o andar um tanto embaraçado; quem os prender e levá-los ao dito engenho ao abaixo assinado, ou ao Mosteiro de Olinda, será satisfeito de todas as despesas e bem recompensado; consta ao abaixo assinado que eles têm andado por Paudalho, Nazaré e Limoeiro, portanto ele roga a seus amigos residentes nesses lugares, toda a pesquisa a respeito, e deles espera tal favor Fr. Galdino de S. Inês Araújo.

O mais curioso do anúncio acima é que os padres do Mosteiro de São Bento, em capítulo realizado a 15 de janeiro de 1831, em Olinda, haviam libertado todos os escravos dos mosteiros de Pernambuco e Paraíba, “por ser a escravidão oposta a razão, a consciência e a religião”, segundo informa F. A. Pereira da Costa em artigo publicado na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, v. 42, Recife 1891, p. 261.

Por muitos anos a imprensa viu no negro escravo um objeto de negócio, classificando entre os semoventes – tratado por “cabra” a se confundir com o próprio animal –, e só muito depois é que veio despertar para a chaga da escravidão.

Em 1847, em sua edição de 1º de julho, o Diario de Pernambuco anuncia a criação da Sociedade Protetora dos Homens Pardos:

Acha-se pública e licenciada pelo Sr. Doutor Chefe de Polícia a Sociedade Protetora dos Homens Pardos e Pretos Livres da Província de Pernambuco, na Rua das Águas Verdes nº 22, segundo andar, com o fim de proteger não só seus irmãos sócios, como todos os mais homens de cores em geral: o que se faz ciente ao respeitável público para sua inteligência. – Luís Cyríaco da Silva, primeiro secretário.

Em 16 de janeiro de 1839 o padre Miguel do Sacramento Lopes da Gama, no jornal O Carapuceiro, ao analisar a sociedade de então e indagar sobre o futuro do Brasil, aponta crimes que, de serem cometidos com tanta habitualidade, já passaram a ser legais:

Uma filosofia toda sensualista inoculou-se na população do Brasil: o egoísmo é o ídolo das classes elevadas da sociedade, gozos materiais são os únicos incentivos da maior parte dos corações …

E denunciando as claras transgressões ao que preceituava a Lei de 7 de novembro de 1831, regulamentada pelo Decreto de 12 de abril de 1832, ao arrepio do Código Penal de então, denuncia o polêmico jornalista:

Temos um exemplo disto no infame tráfico de escravaria. A princípio havia susto, havia receios; mas pouco a pouco foram-se aventurando os especuladores de carne humana, e hoje é espantosa a importação de escravos da costa da África …

E, mais adiante, denuncia a formação de quadrilhas de ladrões de escravos:

A ambição cresceu a olho em todos os corações, e tem chegado a ponto de haverem aparecido homens de mão armada a roubarem escravos uns dos outros, e já tem havido reencontros, e mortes por causa disto! Querem argumento mais cabal da nossa corrupção, e imoralidade?

PRIMEIRO JORNAL ABOLICIONISTA

Em 13 de janeiro de 1876, surgiu o semanário O Homem, jornal impresso na Tipografia do Correio do Recife, sob a direção de Felipe Nery Colaço, com o “fim de promover a união, instrução e a moralização dos homens de cor pernambucanos. Advogará a causa dos interesses legítimos deles e defenderá seus direitos políticos, propugnando para que a Constituição seja uma realidade para todos os brasileiros, sem distinção de classes. As injustiças que lhes forem feitas serão levadas ao conhecimento do público, para que a maldição geral caia sobre aqueles que as tiverem praticado e o mesmo terá lugar relativamente à opressão e perseguição que sofrerem”… “Todos os outros cidadãos que, sentindo-se oprimidos ou perseguidos recorrem ao O Homem, encontrarão também benigno acolhimento, qualquer que seja a posição social do opressor ou perseguidor”.

No formato 38 x 27 cm, com sua matéria disposta em quatro páginas, este semanário das quintas-feiras, em seu segundo número denunciou o dúbio comportamento do jornal A Província e acusou o governador de Pernambuco, Henrique Pereira de Lucena, “que não admitia pardos ocupando lugar de destaque em seu governo”.

O Homem circulou com regularidade, defendendo sempre o elemento de cor e os princípios do abolicionismo, até 30 de março do mesmo ano (nº 12), quando veio a sair de circulação.

Estava assim lançada a semente da imprensa abolicionista em Pernambuco, continuada depois por outros órgãos. Os anúncios de escravos fugidos diminuíam no seu tamanho e o Jornal da Tarde, aparecido em 22 de maio de 1885, sob a direção do historiador José Higino Duarte Pereira, em polêmica com O Tempo, jornal conservador, afirmava ser este “a página negra da imprensa pernambucana”, acusando-a de viver da “desgraça alheia… com anúncios de escravos fugidos”.

No livro A IMPRENSA E A ABOLIÇÃO (Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massangana, 1988), de nossa autoria, integrante da Série Abolição, comemorativa do Centenário da Abolição da Escravidão Negra no Brasil, reunimos vinte e quatro títulos de jornais pernambucanos com matérias pertinentes à causa abolicionista. A análise de cada periódico antecede a sua publicação fac-similar, de modo a facilitar o entendimento do leitor, chamando a atenção para a época da publicação. No mesmo sentido fizemos publicar na mesma série (v. XII) a coleção do jornal O Abolicionista, editado pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão, no Rio de Janeiro (1880-1881), então sob a direção de Joaquim Nabuco.

Este trabalho só veio a ser possível graças à colaboração da Prof. Esther Caldas Bertoletti, do Plano Nacional de Preservação dos Periódicos Brasileiros (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), e dos colegas da Fundação Joaquim Nabuco, Maria Laura Menezes, Luiz Gomes de Freitas, Edilice de Santana Pessoa e Rosa Martins que, empenhando o melhor dos seus esforços na microfilmagem dos originais e conclusão deste volume, muito contribuíram para sua realização.

O BAIRRO QUE DEU NOME AO RECIFE

No ponto onde o mar
se extingue
e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram
seus flancos:
trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Carlos Pena Filho

Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro”, na descrição da Prosopopea (1601) do poeta cristão-novo Bento Teixeira, escrita em Pernambuco na segunda metade do século XVI, seria a origem humilde da povoação do Recife.

Situada no cruzamento do paralelo, a oito graus e três minutos e 45,8 segundos de latitude sul, e do meridiano a 34 graus e 52 minutos e 14,8 segundos, de longitude oeste, a Barra do Arrecife, assim chamada no Diário de Pero Lopes de Souza (1532), veio a ser a Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios, a que se refere o donatário Duarte Coelho Pereira em sua impropriamente chamada carta foral de 12 de março de 1537, uma minúscula povoação de mareantes e pescadores que viviam em torno da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles denominada de Corpo Santo.

Era o Recife um porto por excelência, o de maior movimento da América Portuguesa, escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco. Tal riqueza logo despertou a cobiça da Holanda que, em guerra com a Espanha, voltou suas atenções para o açúcar, produzido por 121 engenhos e exportado através desse porto.

Em 14 de fevereiro de 1630, utilizando a maior esquadra que até então cruzara a linha do Equador, formada por 65 embarcações e 7.280 homens, os holandeses vieram se instalar na antiga Capitania Duartina, iniciando uma dominação que se estendeu até janeiro de 1654.

Durante 24 anos, passou o Recife de povoação acanhada do século XVI e início do século XVII a capital do Brasil Holandês. Foi tanto o crescimento do primitivo Arrecife dos Navios, foram tantos os melhoramentos obtidos, particularmente durante o governo do conde João Maurício de Nassau (1637-1644), que, mesmo após a expulsão dos holandeses (1654), o Recife jamais voltou a depender de Olinda. O Povo dos Arrecifes era coisa do passado. O primitivo porto veio a ser disputado até pelos governadores que teimavam em ocupar o Palácio de Friburgo, construído pelo conde Nassau na primitiva ilha de Antônio Vaz, deixando de prestar assistência à sede da capitania, Olinda, motivando assim os reclamos junto ao rei de Portugal.

Para o recifense, no Bairro do Recife encontra-se a origem de toda a cidade. No subúrbio ou mesmo nos bairros centrais de Santo Antônio e de São José, é comum a expressão como referência certa ao nascedouro do antigo Arrecife dos Navios: Lá dentro do Recife …

Quem chega a Pernambuco, ao começar seu roteiro, vai logo ao encontro do velho bairro do Recife: Ali é que é o Recife/mais propriamente chamado.

Em torno dele, ao longo de seu porto, com os seus 3.000 metros de cais acostável, estão as origens do povoamento do Recife quatrocentão. Dele se avistam as ondas quebrando sobre a muralha dos arrecifes, ponto onde o visitante sentirá na alma os versos do cristão-novo Bento Teixeira, escritos ainda nos primeiros anos de nossa colonização:

Hé este porto tal, por estar posta,
Huma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva;
Antre a praya, e pedra decomposta,
O estranhado elemento se diriva,
Com tanta mansidão, q. hua fateyxa
Basta ter à fatal Argos anneyxa.

Prosopopea (1601)

Ao contemplar esta muralha, o sábio inglês Charles Darwin (1809-1882), autor da Teoria da evolução das espécies, que esteve no Recife a bordo do navio H. M. S. Beagle, aportando em 12 de agosto de 1836, assim registrou no seu Diário¹:

O objeto mais curioso que observei nesta vizinhança foi o recife que forma o ancoradouro. Duvido de que em todo mundo haja outra estrutura natural que apresente aspecto tão artificial. Percorre uma extensão de vários quilômetros em absoluta linha reta, paralela à praia e pouco distante desta. A largura varia entre 30 e 60 metros e tem superfície nivelada e macia; compõe-se de arenito duro de estratificação obscura. Durante a preamar as ondas se quebram sobre ele, mas na vazante a parte superior fica seca, de sorte que se apresenta como um quebra-mar construído pela mão de ciclopes.

Depois de afirmar que a formação dos arrecifes da costa pernambucana se deve a um aglutinado de restos de animais marinhos, “pelo sucessivo crescimento e morte das pequenas conchas Serpulae, juntamente com algumas bernaclas e nulliporae”, conclui:

Esses insignificantes seres orgânicos, especialmente as Serpulae, prestam excelente serviço ao povo do Recife; pois, sem o auxílio da sua proteção, a barreira de arenito, de há muito, teria sido inevitavelmente destruída, e sem essa barreira nunca haveria de existir um ancoradouro.

Para a construção do atual Porto do Recife, observa Tadeu Rocha², “alteou-se a muralha dos arrecifes, construíram-se quebra-mares, fizeram-se extensos cais, ergueram-se armazéns e montaram-se guindastes. No dia 12 de setembro de 1918, o vapor São Paulo, do Lóide Brasileiro, acostou ao novo cais de cabotagem. E em 2 de outubro de 1924, o paquete Gelria, do Lóide Real Holandês, atracou no cais de dez metros, sob os aplausos do povo que acorrera ao porto para receber o belo transatlântico”.

As suas obras, porém, já eram consideradas conclusas em 15 de abril de 1922, quando o Arlanza, transatlântico inglês de 14 mil toneladas, atracou no seu ancoradouro interno.

O Recife, a exemplo de outras cidades portuárias, nasceu e se desenvolveu em torno do seu porto, segundo ensina com muita propriedade o também recifense Josué de Castro:

A cidade nasceu como porto e a serviço imediato do porto. É este um dos seus aspectos mais singulares: em regra, constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso, levantaram os holandeses uma cidade para servir a seu porto. O seu primeiro fator de progressão foi o crescimento desse porto a serviço de uma região fértil, onde a indústria açucareira prosperava a largos passos. Foi o açúcar produzido nos solos aluvionais e de decomposição do Nordeste, nas famosas terras de massapê, da chamada região da Mata, que constituiu, desde o começo e durante quase todos os períodos da história nordestina, o fator fundamental de propulsão e de evolução da cidade do Recife. Foi no Vale do Capibaribe, nas suas margens alongadas em várzeas fecundas, que se iniciou o plantio da cana no país – plantio que se mostrou de logo extremamente vantajoso. Quando os holandeses se preocuparam em invadir Pernambuco, fizeram-no antes de tudo atraídos pelo cheiro do açúcar, produto tão disputado na época pelos mercados mundiais, e aqui chegando assentaram na entrada do vale cultivado para receberem, o mais diretamente possível, o produto da região, transportado em barcaças através do próprio rio. […] A localização desses engenhos e de outros, plantados no Vale do Beberibe, tiveram uma extraordinária influência na direção que tomou a cidade em sua evolução. Como já tivemos ocasião de aludir, anteriormente, o Recife viveu, desde suas origens, sempre atraído por duas seduções opostas: pela atração do vasto mar salpicado de caravelas e pela atração do ondulado mar dos canaviais espalhados nas grandes várzeas³.

As obras do Porto, desenvolvidas entre 1908 e 1924, fizeram passar o Recife por uma grande reforma urbana. Seculares prédios do seu bairro portuário, testemunhas do crescimento do velho burgo desde os primeiros anos da colonização, alguns deles da primeira metade do século XVI, vieram ceder lugar às novas avenidas Alfredo Lisboa, Rio Branco, Marquês de Olinda e Barbosa Lima, e Rua Álvares Cabral, parte das ruas Vigário Tenório e Bom Jesus, com novo traçado.

Com tais demolições também sumiram da paisagem, em outubro de 1913, a Igreja do Corpo Santo, também conhecida por São Telmo (Santelmo), por conta do seu padroeiro São Frei Pedro Gonçalves, cujos primórdios datavam do início da Capitania Duartina. Quatro anos mais tarde, foram demolidos os arcos de Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio, que se encontravam desde o século XVIII nas cabeceiras da Ponte do Recife, Maurício de Nassau.

A paisagem vista do porto, com as ondas arrebentando-se contra os arrecifes e os grandes navios cruzando a entrada da barra, inspirou certa vez o pintor Cícero Dias ao dar nome a uma das suas obras: Eu vi o mundo! Ele começava no Recife…

Sob a inspiração daquele pintor, a antiga Praça do Comércio recebeu, em dezembro de 1999, uma nova roupagem, obedecendo ao traço do arquiteto Reginaldo Esteves, que a transformou numa grande esplanada, de cerca de 7.000 metros quadrados, cercada de bancos em granito e 32 bandeiras azuis, a relembrar o poema de Carlos Pena Filho, tendo no meio uma rosa-dos-ventos concebida pelo mesmo Cícero Dias. No seu centro, foi fixado o atual Marco Zero, um disco de bronze, de 105 cm de diâmetro com uma singular inscrição:

DESTE MARCO PARTEM AS DISTÂNCIAS PARA TODAS AS TERRAS DE PERNAMBUCO – ANO 2000.

No mesmo disco estão fixadas as coordenadas de localização do Recife, no cruzamento do paralelo de 803’45,8”, de latitude sul, e do meridiano de 34052’14,8”, de longitude oeste, e a altitude de 4.700 metros acima do nível do mar.

Para esta praça, oficialmente denominada de Praça Rio Branco, convergem as Avenidas Marquês do Recife, Rio Branco e Barbosa Lima, que têm por esquinas os prédios do Espaço Cultural Bandepe, Associação Comercial e a antiga Bolsa de Valores, exemplos da arquitetura eclética que tomou conta do Bairro do Recife no início do século XX. Estes exemplos de ecletismos se destacam pela homogeneidade de suas edificações, em sua maioria dotada de três e quatro pavimentos, representando um estilo que marcou o Brasil no início do século XX, no qual predominam exemplares desta escola inspirada na arquitetura europeia de então.

Do lado leste da praça, sobre a muralha dos arrecifes, o arquiteto Reginaldo Esteves projetou um parque de esculturas, entregando sua realização ao artista pernambucano Francisco Brennand, que o concluiu no ano de 2001.

No extremo sul da praça, ergue-se a estátua pedestre do barão do Rio Branco, inaugurada em 19 de agosto de 1917. A peça em bronze, confeccionada em Paris com 280 cm de altura, é obra do escultor francês Félix Charpentier, tendo sido, na época, colocada sob um pedestal, com 420 cm de altura, esculpida em pedra por Corbiniano Vilaça.

O conjunto de construções do Bairro do Recife vem a ter sua importância reconhecida em 1998. Nesse ano, por decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em reunião realizada em 14 de março, no Rio de Janeiro, que teve como relator o professor Joaquim de Arruda Falcão, o Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico do Antigo Bairro do Recife veio a ser considerado Monumento Nacional, nos termos do Decreto-lei n.º 256, de 30 de novembro de 1937. Em 28 de julho do mesmo ano, a decisão daquele colegiado foi homologada pela Portaria n.º 263, assinada pelo ministro da Cultura, Francisco Weffort.

O velho bairro, porém, tem outros encantos, que o olhar do cidadão comum por vezes não registra, havendo até quem o veja como uma República, uma espécie de Vaticano dentro da cidade do Recife. Com esse espírito o vislumbrou Gustavo Krause, que antes de ser prefeito, governador e ministro, é também boêmio e poeta do Recife e assim, legislando em causa própria, escreveu a Constituição da República Independente do Bairro do Recife.

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¹ DARWIN, Charles. “A muralha de Pedra”. In: O Recife: quatro séculos de sua paisagem. Leonardo Dantas SILVA e Mário SOUTO-MAIOR. (Organizadores). Recife: Editora Massangana, 1992. p. 166.

² ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes). 4. ed. Recife: ed. do autor, 1972. Ilustrações de Hélio Feijó.

³ CASTRO, Josué. Fatores de localização da cidade do Recife. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947. p. 65-66.

O’LINDA! O TEU NOME BEM DIZ…

Aos olhos de quem a contempla pela primeira vez, Olinda se apresenta povoada de sonhos e tomada pela claridade a ofuscar as retinas de quem chega:

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte. (Carlos Pena Filho)

Aquele conjunto de colinas, que pouco interessou aos indígenas habitantes de suas redondezas antes da chegada do colonizador, fascinou o português que nele viu o local ideal para a construção de uma vila.

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do Brasil (1627), a denominação Olinda vem de um galego criado de Duarte Coelho, porque, andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse (a vila), e achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria: O’ linda!.

A versão já fora antes relatada pelo cristão-novo Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI, sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c.1696-c.1762), chegando o historiador inglês Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: Oh! linda situação para se fundar uma vila!.

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de Olinda e começou a recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a denominação teria origem em Portugal:

Nada mais natural que aquele nome fosse de alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e que ele no Brasil quisesse perpetuar (…) Sabe-se também que Olinda era o nome de uma das belas damas na novela do “Amadis de Gaula”, cuja leitura estava então muito em voga, não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história.

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho, de 12 de março de 1537.

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1848 – BATALHA DOS GUARARAPES

 Primeira Batalha dos Guararapes. Pintado em Portugal por artista anônimo (1758)
Acervo Museu Histórico Nacional

Na primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 19 de abril de 1648, o exércitos luso-brasileiro era formado por 2.200 homens, divididos em quatro terços, comandados pelos mestres de campo João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, o governador dos Índios, capitão-mor Filipe Camarão, e o governador dos pretos, Henrique Dias, não dispondo de qualquer peça de artilharia.

A técnica portuguesa de combate, posta em prova quando das guerras contra Espanha, no Alentejo, seguia o figurino das guerras de Flandres. Eram os exércitos formados por Terços de Infantaria, constituídos de 2.000 homens, subdivididos em companhias de 200 homens cada uma, formadas por igual número de piqueiros e arcabuzeiros. Os piqueiros eram armados com um longo pique (lanças com 18 pés de comprimento), espada, peitoral e celada; os arcabuzeiros, sem armadura defensiva, dispunham apenas do arcabuz ou espingarda de mecha com sua forquilha e uma adaga.

Nas guerras europeias, marchavam em formação de grandes quadrados de 50 piqueiros em cada face, rodeados e flanqueados nos vértices por outros quadrados de arcabuzeiros, alternando assim as descargas de armas de fogo com as cargas de armas brancas.

Nas Guerras Brasílicas, porém, tais conhecimentos cediam lugar à malícia e ao elemento surpresa, desenvolvido pelos índios, e pela improvisação, obedecendo a topografia e a vegetação do terreno; tudo aliado ao denodo dos combatentes e sua inigualável técnica em manobrar com a espada.

Documento holandês datado de 9 de julho de 1648, dirigido pelo Conselho do Recife aos Estados Gerais, diz bem dessas técnicas estranhas aos comandantes seguidores dos estrategistas europeus:

Todos os dias a experiência nos mostra que se habituaram a esta guerra de tal modo que podem medir-se com os mais exercitados soldados, como se tem visto nas refregas que com eles temos tido e como ainda se vê diariamente nos encontros que temos com eles a cada momento. Resistem muito bem agora de pé firme e logo que descarregam suas espingardas atiram-se sobre os nossos, para se baterem corpo a corpo. Sabem também armar emboscadas em lugares e passos apropriados e vantajosos, fazer sortidas dentro do mato e, em geral, produzir muito mal aos nossos. Quanto às armas estão bem munidos, sabem muito bem se servir delas, e no tocante às suas qualidades corporais excedem muito aos nossos soldados mais exercitados, quando à agilidade e disposição. Além disso, sabem melhor que os nossos se submeter às provações, tais como a falta de víveres, enquanto os nossos soldados têm de carregar sempre alforges ou então transportar os víveres logo atrás deles.

Em 17 de abril de 1648, governador das Armas Holandesas, general Sigmund von Schkoppe, temível pela crueldade com que tratava os seus adversários e pelo espírito de disciplina para com seus subordinados, sai do Recife à frente de um formidável exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de cerca de 1.000 índios tapuias e negros carregadores.

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OLINDA, DE ONDE SE VÊ…

Com a sua paisagem tecida de sonho e claridade, impregnando pelas diversas tonalidades de verde, nas águas do seu mar, e de azul e outras cores no crepúsculo do seu céu, Olinda vem fascinando a todos que a conhecem desde os primórdios de sua colonização.

A sua paisagem litorânea, povoada de jangadas e outros tipos de embarcações, foi uma sedução para esses viajantes ao longo dos séculos sendo hoje fonte de deleite e de paz para o visitante e mesmo os próprios olindenses.

Para Joaquim Nabuco, esta paisagem tem seus fascínios quando vista do alto, de onde “o olhar não precisa mover-se para apanhar a totalidade do cenário que se prolonga à beira do mar, salpicado das velas brancas das jangadas, penas destacadas das grandes asas da coragem, do sacrifício e também da necessidade humanas!”

Em passeio por Olinda e seus arredores, como cicerone do escritor português Ramalho Ortigão, em l887, Joaquim Nabuco assim descreve a paisagem, quando vista do terraço da Sé de Olinda:

O que faz a grande beleza deste nosso torrão pernambucano é em primeiro lugar o seu céu, que muda a cada instante, leve, puro, suave, onde as nuvens parecem ter asas, e que não é o mesmo em um minuto; é depois o nosso mar, verde, vibrátil e luminoso, as nossas areias tépidas e cobertas de relva, os nossos coqueiros, que vergam desde o soco até ao espanador de um brilho metálico e dourado, com que parecem ao longe sacudir as nuvens brancas, as jaqueiras e mangueiras cuja sombra rendada é um oásis de frescura e abundância…

Em sua descrição, publicada no jornal O Paiz (Rio de Janeiro), em sua edição de 30 de novembro de 1887, Joaquim Nabuco, pinta, com a mão de um mestre, as belezas do seu torrão natal, utilizando-se das mais contagiantes cores de sua palheta.

… não é uma dessas vistas de altura, das quais o mar fica tão abaixo aos pés do espectador, que perde o movimento e a vida, parecendo uma tela diáfana estendida sobre o fundo vazio do ar, vistas em profundidade, que dão vertigem e nas quais a perspectiva é tão longínqua como se víssemos por um óculo virado. A vista de Olinda é outra; é uma vista em comprimento, em que os planos sucedem-se uns aos outros como o desenvolvimento da mesma sensação visual, em que desde Olinda até ao Recife, e mais longe até o Cabo de Santo Agostinho, o olhar não precisa mover-se para apanhar a totalidade do cenário que se prolonga à beira do mar, salpicado das velas brancas das jangadas, penas destacadas das grandes asas da coragem, do sacrifício e também da necessidade humanas!

O que mais impressionava o visitante e seu cicerone era a limpeza da cidade: “O que primeiro fere a vista (…) é a limpeza da cidade, a brancura de toda ela. Vê-se bem a cidade de um povo de rio, que vive n’água, como o pernambucano. É um reflexo da Holanda, que brilha aqui!”.

Possuído do orgulho de ser pernambucano, enfatiza Joaquim Nabuco, com o seu poder de observador:

Para conhecer uma paisagem não basta vê-la, é preciso muito mais, é preciso que as duas almas, a do contemplador e a do lugar, cheguem a entender-se, quantas vezes elas nem mesmo se falam! Não é a todos que a natureza conta os seus segredos e inspira o seu amor, mas mesmo com os poucos de quem ela tem prazer em fazer pulsar o coração é preciso que eles se aproximem dela sem pressa de a deixar, com tempo para ouvi-la. Os viajantes nunca estão nessa disposição de espírito em que é possível estabelecer-se o magnetismo da paisagem sobre os sentidos, de fato sobre o coração. Felizmente Ramalho Ortigão é uma máquina fotográfica instantânea, que apanha num segundo o seu objetivo todo, e acontece que hoje as boas máquinas percebem e notam sombras na pele, que não se veem a olho nu, e que servem para conhecer a enfermidade latente. Ele não terá sentido os eflúvios desta nossa terra, os quais talvez seja preciso ser pernambucano para sentir e que podem não ter realidade e magia senão para nós mesmos, mas a impressão que lhe causou a nossa Veneza há-de render-nos uma pintura que durará como as gravuras holandesas do Século XVII.

OS FRUTOS DO IDEÁRIO LIBERAL DE SEIS DE MARÇO DE 1817

Derrotada a iniciativa de implantar, pela primeira vez, um regime republicano em terras brasileiras, o ideário de liberdade dos patriotas de 1817, ficaram adormecidos. Os heróis de então foram enforcados e/ou arcabuzados, com seus corpos mutilados depois de mortos, enquanto pais de famílias eram seviciados nos interiores das masmorras do Recife e de Salvador e os lares eram desonrados.

Segundo o padre Dias Martins, autor do livro Os Mártires Pernambucanos – vítimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas em 1710, 1817 e 1824 (Recife, 1853), a lista dos denunciados nesses movimentos somam o número de 628.

Todavia a chama da liberdade, permaneceu bem viva no espírito da gente de Pernambuco, que voltou a se manifestar em 1821.

Neste ano, a 29 de agosto, teve início um movimento armado contra o governo do capitão general Luiz do Rego Barreto, culminando com a formação da a Junta de Goiana, tornando-se vitorioso com a rendição das tropas portuguesas em capitulação assinada a 5 de outubro do mesmo ano, quando da Convenção do Beberibe, responsável pela expulsão dos exércitos portugueses do território de Pernambuco.

Tal episódio veio separar, definitivamente, a capitania de Pernambuco do Reino de Portugal; onze meses antes da proclamação da Independência do Brasil pelo Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança, em 7 de setembro de 1822.

Nota-se porém, pelo acompanhamento do “seu simpático caminhar” que, em todos os movimentos emancipacionistas originários de Pernambuco, o que se vislumbra é o orgulho nativista dos Restauradores de 1654.

Uma mesma ideologia, a de que os antepassados pernambucanos conquistaram esta terra aos holandeses e que doaram a El-Rei de Portugal debaixo de certas condições, se repete ao longo de todas as revoluções e vem explicar o ideal republicano da gente de Pernambuco. Esse comportamento é uma constante em quase todos os movimentos revolucionários como bem observou Evaldo Cabral de Mello, uma espécie de doutrina das relações entre a Capitania e a Coroa.

Segundo tal interpretação, passou a ser doutrina entre os pernambucanos, ao longo dos séculos que se sucederam, o entendimento de que:

A gente da terra deveria à Coroa não a vassalagem ‘natural’ a que estariam obrigados os habitantes do Reino e os demais povoadores da América Portuguesa, mas uma vassalagem de cunho contratual, de vez que restaurada a capitania, haviam-na espontaneamente restituído à suserania portuguesa¹.

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