Categoria: MARCELO ALCOFORADO – A PROPÓSITO

ADEUS, DINHEIRO

Matilda está levando o nosso dinheiro, e não há nada a ser feito para impedir. Relaxe: o que está feito, está feito, e a maior parte já foi.

Matilde não é uma mulher com esse nome, mas um país que muito tem a ver com ela, pelo nome e pelo procedimento. É personagem de uma ópera bufa que tem como leitmotiv o calipso Matilda, interpretado pelo músico, cantor, ator, ativista político e pacifista norte-americano Harry Belafonte.

Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela | Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela. | Five hundred dollars, friends, I lost: | Woman even sell me cat and horse! | Heya! Matilda, she take me money and run Venezuela.

Pois é: Matilda leva o nosso dinheiro e nós, como se fôssemos um país sem carências, oferecemos benesses desmedidas. A ponte de 3.156 metros sobre o rio Orinoco possui quatro faixas para veículos e uma para linha férrea. Considerada uma maravilha da engenharia contemporânea, foi construída com tecnologia e financiamento brasileiros.

Lá se foi a bagatela de US$ 1,22 bilhão de dólares, enquanto no Brasil pontes e viadutos de São Paulo e do Recife se encontram em processo de deterioração. Nas linhas 3 e 4 do metrô de Caracas, investiu-se US$ 1,6 bilhão de dólares que, considerando a adição de um pequeno calote de US$ 270 milhões, atinge a casa dos US$ 3 bilhões. Entrementes, não temos dinheiro para Saúde, Educação, Segurança…

Para agravar o quadro ainda mais, além da Venezuela há outros países na mesma situação, coincidentemente aqueles que seriam os pilares da inserção internacional do Brasil potência, do Brasil que do alto da sua pujança iria acabar a fome, a doença e da pobreza não só em nossas fronteiras, mas em outros países mundo afora, muito especialmente os africanos, continente em que inauguramos mancheias de embaixadas.

O expansionismo diplomático deu no que deu. Agora, bilhões de reais inexoravelmente perdidos, resta a continência e, á que quem canta seus males espanta, sair por aí cantarolando Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela…

BIG BEN, BIG BANG

A Big Bang ou a Grande Expansão, é a teoria cosmológica preponderante sobre o surgimento do universo. Com o termo, os cosmólogos se referem à ideia de que em dado momento houve uma grande explosão que, desde aquele dia, leva o universo a expandir-se continuamente.

Já a Big Ben foi uma grande rede de farmácias que recentemente encerrou suas atividades, fato repercutido no mercado com tal intensidade que bem poderia também chamar-se big bang.

Só em Pernambuco, a lúgubre estatística é de 64 lojas fechadas e 1.200 desempregados, 220 deles farmacêuticos. Em todo o Brasil são 3 mil lojas, o que não é pouco.

O ainda mais desalentador saldo é que, além dos desempregos, se faz presente o pesadelo dos prédios abandonados, tomados por usuários de drogas, muito lixo e o compreensível medo dos transeuntes que antes transitavam livremente por aquelas ruas.

De certa forma, é um modelo reduzido do Brasil de hoje, que abriga cerca de 13 milhões de desempregados e abandona não só edifícios, mas os princípios que regem a lisura na administração da res publica.

Voltando aos desempregados, 13 milhões de ociosos compulsórios não podem ser vistos apenas como um dado estatístico, mas um problema muito maior. Uma big bang em que se expandirão os atos de selvageria.

UMA FESTA FUNESTA!

Por favor, atente para esta frase: Se vocês quiserem encontrar um petista hoje, vão ao meu gabinete. São palavras do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, exultante pela autoria do voto que poderá tornar o senhor Luiz Inácio da Silva presidente do Brasil pela terceira vez. Apelo popular e assessoria jurídica qualificada parecem não faltar ao ínclito candidato, possivelmente ávido por comandar a retomada da colossal obra de reformar sítios e apartamentos.

Estivessem o senhor Inácio da Silva e o juiz Sérgio Moro confinados em uma mesma sala, o ex-presidente–e-futuro-presidente, decerto exibindo aquela blasonaria que lhe é tão característica, diria ao magistrado, perdeu preibói. Lamentavelmente, no entanto, não terá sido o preibói, mas o Brasil, com sua obstinada disposição de fazer o errado enquanto houver erros a cometer.

Embora possa falhar, é enorme o poder de persuasão do senhor Luiz da Silva! Há seis anos, exatamente em maio de 2012, o ministro Gilmar Mendes revelou haver saído perplexo de uma conversa com ele, que às vésperas do julgamento do mensalão, veladamente o ameaçara de divulgar fatos desairosos para o ministro, caso o julgamento não fosse adiado para o ano seguinte. Para o senhor Luiz Inácio, naquele ano não haveria objetividade, seja lá o que isso significasse, mas o ministro redarguira ressaltando a importância do julgamento.

Ainda segundo o ministro, durante a conversa, o senhor Luiz Inácio teria mencionado, várias vezes, o tema da CPI e o domínio que o governo tinha sobre a comissão. “Daí eu depreendi que ele estava inferindo que eu tinha algo a dever nessa matéria de CPMI e disse a ele, com toda a franqueza, que ele poderia estar com alguma informação confusa, pois eu não tenho nenhuma relação, a não ser de conhecimento e de trabalho funcional, com o senador Demóstenes Torres”.

Luiz Inácio teria ficado assustado com a sua reação e perguntado: “Mas não tem? E essa viagem a Berlim?”.

“Aí então eu esclareci a viagem, que era uma viagem que eu fizera a partir de uma atividade acadêmica que eu tivera na Universidade de Granada, encontrara com o senador (Demóstenes Torres) em Praga ꟷ e isso tinha sido agendado previamente ꟷ e então nos deslocamos até Berlim, onde mora minha filha. E eu até brinquei. Eu vou um pouco até Berlim como o senhor vai até São Bernardo”, disse o ministro.

Além de revelar sua perplexidade com o encontro, uma vez que a relação com o ex-presidente “sempre foi muito franca e cordial”, o uso da viagem a Berlim por parte do senhor Luiz Inácio lhe “parecera absolutamente reveladora de qualquer outra intenção sub-reptícia”.

Poderia aproveitar para dizer por que discutir o assunto com um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e um popularíssimo ex-presidente da República empenhado em garantir que a Presidência ficaria, mais uma vez, ocupada por um dos seus tarefeiros.