FRUSTRAÇÕES PARA LAMENTARES. MELHOR DIZENDO, PARLAMENTARES

Nas entranhas dos jornais norte-americanos é comum ouvir-se o paradoxismo “bad news, good news”, que significa, em português, algo como má notícia é boa notícia.

Má notícia é boa notícia, sim, para aumentar a venda de jornais e a audiência dos demais meios de comunicação, registrando-se que até os sites e blogues dela se beneficiam.

Por exemplo, suponha-se que no fim da tarde um bilionário entra no seu helicóptero e vai para casa. Como acontece todos os dias, trata-se de mera rotina. Não há fato de interesse jornalístico. Se, no entanto, certa tarde o mesmo empresário, ao entrar no helicóptero se deparar com sequestradores que o fizerem refém, estará configurado o fato jornalístico que mesmo depois do desfecho ainda renderá leitura e audiência.

O Brasil, por seu turno, produz tantos fatos chocantes, sob qualquer ponto de vista, que de tão maltrapilha a moralidade reinante, o efeito de catalisar a reação do interesse público pouco repercute. Ou nada. É como o helicóptero que todas as tardes, sem sobressaltos, chega ao seu destino.

Quando se imaginava que as recentes eleições marcariam um novo momento na vida política brasileira, constatou-se que um terço do novo Congresso Nacional, eleito semana passada, responde por corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual e estelionato.

São nada menos que 160 deputados e 38 senadores cujas folhas corridas fazem o cidadão confiar, cada vez menos, na democracia representativa, no parlamentar.

O que é para lamentar.

MUTATIS MUTANDIS

Qualquer pessoa de bem quer, é evidente, viver em um lugar onde reine a paz, onde as balas perdidas se achem nos paióis e ali desusadas não ceifem vidas. Claro que tal desejo é utópico, já que armas não podem ser eliminadas da vida de nenhum país, embora em alguns, como o Brasil, e mais notadamente no Rio de Janeiro, seja cada vez mais quimérica essa almejada Shangri-La.

De um povo hospitaleiro, nos fizemos violentos. Somos a antítese da paz. Fazemos a nossa guerra particular, matando dezenas de pessoas, todos os dias, invariavelmente. De norte a sul, mais em algumas regiões, menos em outras, o crime organizado se faz presente, matando quem ouse cometer algum pecado à luz do regulamento.

A violência transbordou para a sociedade, sim. Hoje, por exemplo, uma banal discussão de trânsito que resultava, no máximo, em alguns sopapos, agora se soluciona por quem sacar primeiro sua pistola 380 ou o seu imponente “três oitão”.

Somente uma ação contundente poderá modificar o rumo da violência.

De uma vez por todas, mentalize-se que aquelas marchas de pessoas compungidas, com lemas enlevantes nas camisetas imaculadamente brancas, só sensibilizam as pessoas pacíficas. Essas, no entanto, não precisam de passeatas para viver em paz. Os traficantes, por seu turno, devem gargalhar.

A sociedade reclama um paradeiro, mas ao mesmo tempo, resiste quando o general Augusto Heleno declara que vai endurecer o confronto com o banditismo, valendo-se, inclusive, de “snipers”, aqueles atiradores de elite autorizados a abater quem esteja portando um fuzil, arma de alta potência, de uso exclusivamente militar.

Considere-se que ninguém porta um fuzil AR15 ou semelhante para atirar em latas velhas. O simples porte de arma privativa das Forças Armadas já fala por si, dispensando palavras sobre o portador. Não é sem motivo que o rei dos bandidos, o famigerado Al Capone, ensinava que com um ramalhete de flores na mão se consegue muita coisa, mas com um ramalhete e um revólver se consegue muito mais.

Mutatis mutandis…

AO CAPITÃO, AS BATATAS

Bruto, ignorante, insensível, fascista, mau pai, mau marido são só alguns dos desairosos atributos conferidos ao próximo presidente do Brasil. Compreende-se. Foi uma disputa em que até a faca peixeira se pronunciou, com tal veemência que, por pouco, não deu a última palavra sobre o renhido pleito.

Tudo indicava que um armistício era chegado, mas acontece que ontem mesmo, em seu discurso, o senhor Fernando Haddad, o candidato derrotado, sinalizou o terceiro turno, simbolizado pela falta de um mínimo de cavalheirismo.

Sabe-se, ora, que mesmo revestido de falsidade, é praxe o perdedor desejar sorte ao seu concorrente, o ungido pela vontade da maioria. Ademais, saber perder é tão importante quanto saber ganhar, e um simples cumprimento, por mais falso que seja, é de bom-tom. Some-se a isso, a consciência de que os vencedores não se entronizaram por um ato de vontade própria. Foram os senhores que, com desídia e cupidez, levaram o povo a trocar seus dirigentes e representantes.

Quanto ao vencedor, Jair Bolsonaro, recordemos Machado de Assis. Contou o grande escritor que havia um campo de batatas cobiçadas por duas tribos famintas. As tais batatas eram suficientes para alimentar só uma das tribos, que passaria a ter forças para transpor uma montanha e ir a um lugar onde havia batatas em abundância, mas acontece que se as duas tribos dividissem as batatas, não iriam adquirir energia suficiente, e morreriam de inanição. Uma das tribos exterminou a outra e recolheu as batatas, e foi festejada com hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

Ao presidente Jair Bolsonaro, pois, as batatas.

THE ECONOMIST VÊ ELEIÇÃO DE BOLSONARO COM NEGROS VATICÍNIOS

O mundo inteiro fala das eleições do próximo domingo, quando será escolhido o novo presidente do Brasil. O centro das atenções converge para o líder das pesquisas, o capitão Jair Bolsonaro, tanto que até a respeitada The Economist, a revista de negócios mais importante do mundo, na edição de 20 de setembro último previu que a vitória bolsonariana colocará em risco a sobrevivência da democracia. Dá, assim, um descomunal peso ao país.

Vai mais adiante, ao dedicar a capa ao presidenciável brasileiro, com a desabonadora legenda “A mais recente ameaça da América Latina”, e em meio à matéria afirma que os brasileiros devem estar se perguntando se Deus, que também seria brasileiro, saíra de férias.

O diagnóstico não poderia ser mais sombrio.

Para a revista, “a economia é um desastre, as finanças públicas estão sob pressão e a política está completamente apodrecida. A criminalidade está crescendo, também, concluindo que ‘ele seria um presidente desastroso’”.

Por fim, colocou Jair Bolsonaro no bloco dos populistas, que tem como destaques, além de Donald Trump, Rodrigo Duterte, das Filipinas; Matteo Salvini, da Itália; e López Obrador, do México, ressalvando que, mesmo em companhia daqueles notáveis, “Bolsonaro seria um acréscimo particularmente desagradável”, arrematou.

De qualquer modo, as previsões da The Economist, pelo menos no que diz respeito ao Brasil, não são infalíveis.

Na edição de fevereiro de 2012, a revista informava que a presidente Dilma Rousseff impunha, cada vez mais, seu estilo pessoal ao governo e que em apenas um ano de mandato, mostrava ser mais firme em seus princípios.

A realidade, como se constatou, previra um final diferente.

TRANSMIGRAÇÃO

Desde que conheceu os rigores do juiz Sergio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, autointitulado “uma metamorfose ambulante”, tem aperfeiçoado seus atributos divinais. Pelo menos foi o que ele afirmou.

Assim, tal qual um novo Cristo, em abril passado ele verbalizou o exemplo do Jesus verdadeiro, anunciando ao povo que valeria a pena morrer por ele. “Por vocês valeu a pena nascer, por vocês valerá a pena morrer”, disse, fazendo do prédio da Polícia Federal curitibana a cena do seu Calvário.

Os fatos, no entanto, não se encerram aí. Em verdade, o senhor Luiz Inácio da Silva, este ser mutante que arrasta multidões hipnotizadas pelos seus dotes excepcionais, agora promete fazer mais.

Para começar desdenhou as decisões do Tribunal Superior Eleitoral, ao continuar veiculando propaganda indevida, em que aparecia na quase totalidade do tempo do comercial como sendo ele o candidato. Ao postulante verdadeiro, cabia fazer apenas um juramento de lealdade ao divino condenado e, em seguida, o ápice se dando com a frase “Não adianta tentar evitar que eu ande por este país, porque tem milhões e milhões de Lulas”. Ato contínuo, pessoas comuns exclamavam “Eu sou Lula”!

Sabe que punição ele recebeu? Ganhou do STF autorização para dar entrevista à Folha de São Paulo, até agora revogada por decisão do presidente Dias Toffoli.

Subsistem, contudo, algumas questões.

Pensava-se, até agora, que o Pai da Humanidade fosse Gengis Khan, o mongol que gerou possivelmente dois mil filhos espalhados por quase todo o planeta.

Trata-se de homem tão prolífico que os geneticistas internacionais estão convencidos de que quase 8% dos homens do antigo império de Khan, descendem deste único homem. Mas os pesquisadores descobriram através de rastreamento do cromossomo Y, que permanece relativamente inalterado ao longo das gerações que os homens em muitas regiões diferentes dividiam o mesmo DNA.

Diante de tantos riscos, contudo, a ciência se equivocou. O autêntico ¬povoador se chama Luiz Inácio da Silva. Registre-se, no entanto, que não se tratou de transmigração de alma, não. Ora de alma… Luiz Inácio da Silva, prático como ninguém, como tal se transmigrou para as pessoas certas, os 147,3 milhões de eleitores brasileiros.

Se ele tiver poderes para migrar tantos ― ele falou em milhões de Lulas ―, ainda neste domingo Fernando Haddad será eleito o nosso novo presidente. O problema é que, de tantas promessas na campanha o Brasil vai transmigrar para a bancarrota.

AMEAÇAS

Ano passado, no interrogatório do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, o inquiridor, juiz federal Sérgio Moro ― para alguns um inquisidor, um Torquemada tropical ― advertiu o interrogado quanto a procedimentos que poderiam ser tidos como tentativa de intimidação das autoridades envolvidas na Operação Lava Jato.

Fez-lhe, então, ver a inconveniência de tal conduta, o que de pouco valeu.

Basta dizer que em um dos seus momentos de maior irritação, como o ocorrido em Congonhas, aonde fora conduzido a contragosto, advertiu que voltaria a ser presidente da República e um dia poderia mandar prender (sic) os procuradores da República que o investigavam, e que não esqueceria os delegados que o haviam conduzido coercitivamente (sic).

E não ficou só nisso.

Afirmou ainda que somente ele poderia brigar (sic) com a Lava Jato, processando testemunhas, investigadores e até o próprio juiz Sérgio Moro. Curiosamente, o fato pouco repercutiu, mas agora, por conta de uma ameaça feita no passado, a notícia explodiu nos noticiários. Serão brigas de casais tema mais fascinante do que a ameaça de um ex-presidente da República?

A verdade é que Jair Bolsonaro ― em grande parte por conta do seu temperamento irritadiço, é alvo fácil para censuras e, para piorar as coisas, até hoje ele convalesce do esfaqueamento de que foi vítima, não podendo dar as explicações que deve.

Somente após 10 de outubro, ele poderá voltar às suas atividades normais, embora a essa altura o primeiro turno já seja passado.

A UM PASSO DA FELICIDADE

O Brasil quer e pode promover a felicidade plena, geral e irrestrita do seu povo. E, por incrível que pareça, tudo se realiza com uma simples palavra: eleição. Até parece mágica, embora a palavra não seja abracadabra. Eis um exemplo.

No Guia Eleitoral de ontem, o candidato Ciro Gomes anunciou que, sob seu governo, os brasileiros terão “creche em tempo integral para 2,6 milhões de crianças de 0 a 3 anos para que as mulheres brasileiras, que têm um papel fundamental nesse momento no Brasil, possam ir à luta sabendo que seus filhos estão bem tratados, vão chegar em casa alimentados, bem cuidados e banhadinhos (sic) para o fim do dia”. Que lindo!

Mas como o Brasil não é feito apenas de crianças “banhadinhas”, o candidato assegurou que também dispensará muita atenção à Saúde, e assim vai “implantar policlínicas em todo o Brasil. Elas terão doze especialidades médicas e mais de dez tipos de exames de imagem. Tudo com hora marcada e sem pagar nada”.

Você atentou para a importância dessa notícia?

Então, comemore. Se Ciro Gomes for eleito, você vai deixar de pagar os extorsivos planos de saúde, ficando livre não só das elevadas mensalidades, mas também da espera de até trinta dias para marcar uma prosaica consulta, além de outros inconvenientes bastante conhecidos.

Só tem um problema: o prussiano Otto von Bismarck insistia em dizer, e o tempo lhe deu razão, que “nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois da caçada”.

Na sua opinião, ele estava certo ou errado?

REJEIÇÃO

O texto a seguir tem autoria atribuída à magistrada Isabele Papafanurakis Ferreira Noronha, juíza substituta da 6ª Vara Criminal de Londrina – PR.

Que sua rejeição por ele não seja maior que sua rejeição pela corrupção.

Que sua rejeição por ele não seja maior que sua rejeição de ver o país governado de dentro da prisão pelos comandos de um candidato condenado em duplo grau de jurisdição, assim como ocorre com os líderes das facções criminosas já tão conhecidas.

Que a sua rejeição por ele não seja maior que os ensinamentos que recebeu de seus pais sobre não subtrair aquilo que é dos outros.

Que sua rejeição por ele não seja maior que os princípios de educação, moral e cívica que aprendeu quando criança nos bancos das escolas, na época em que escola ensinava o que, realmente, era papel da escola.

Que sua rejeição por ele não seja maior do que sua indignação com a inversão de valores existentes em nossa sociedade atual.

Que sua rejeição por ele não seja maior do que seu medo de viver o que já está vivendo a população dos países “amigos deles”, tais como, Venezuela, Bolívia e Cuba.

Que sua rejeição por ele não seja maior que sua indignação com cada escândalo de corrupção e desonestidade revelados na lava a jato.

Que sua rejeição por ele não seja maior do que seu pânico de viver numa sociedade tão insegura, onde pais de família são mortos diariamente e audiências de custódias são criadas para soltar aqueles que deveriam pagar por seus crimes.

Que sua rejeição por ele não leve ao grave erro de demonizar a polícia e santificar bandido.

Que sua rejeição por ele não seja maior que sua defesa pelo fortalecimento da família, como estrutura básica da sociedade.

Que sua rejeição por ele não seja maior do que sua repulsa pelo mal que as drogas têm causado em nossas famílias.

Que sua rejeição por ele não seja maior que sua esperança de ter um país melhor para viver.

Que sua rejeição por ele não tire sua capacidade crítica de apurar tudo que é tendencioso na mídia.

Enfim, que sua rejeição por ele não te deixe cego a ponto de não enxergar que, neste momento, o Brasil está numa UTI e seu voto deve ser útil para salvá–lo.

Não brinque com isso, não se iluda com a maquiagem dos discursos bonitos, a coisa é séria.

Na hora de votar, lembre-se de sua essência e do que, realmente, sempre foi importante para você.

COM LICENÇA, GENERAL MOURÃO

Semana passada, general, o senhor propôs que o país adotasse uma nova Constituição, “mais enxuta e focalizada em ‘princípios e valores imutáveis’, mas não necessariamente por meio de uma Assembleia Constituinte”.

A primeira Carta Magna brasileira foi promulgada em 1824, dois anos após a Independência, e até agora foram feitas sete reedições. A última, a atual Constituição da República Federativa do Brasil, aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no dia 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro do mesmo ano, consigna-se como a Constituição Cidadã e gera, muito mais do que parece, direitos tão amplos que restringem a vida da nação. Basta dizer que é composta de 64 mil palavras, o que a torna uma das mais extensas do mundo, já que em tal quesito faz companhia às da Índia, da Nigéria, da Malásia e do México. Um breve exemplo foram os juros limitados a 12% ao ano, na Constituição, em oposição aos juros escorchantes cobrados na vida real, o que levava a transitar nas varas cíveis muitos milhares de processos.

Como o senhor bem diz, general, os brasileiros precisamos de uma Constituição enxuta, circunstância em que se podemos dispensar os representantes do povo, podemos, igualmente, dispensar os notáveis. Existe uma Constituição extremamente breve, da lavra do historiador cearense Capistrano de Abreu. Ela tem apenas dois curtíssimos artigos, bastantes para fazer do Brasil uma nova nação:

Artigo primeiro – Todo brasileiro está obrigado a ter vergonha na cara;

Artigo segundo – Revoguem-se as disposições em contrário.

PROBLEMA DE SEMPRE

Mais um ano, mais uma vez o inevitável enfrentamento de um problema secular. Exatamente o mesmo problema, a seca. Acredite que estamos em pleno inverno nordestino, embora a realidade mostre que tal estação das chuvas só existe nos registros oficiais. Como será no verão?

Diferentemente do litoral, aqui não existe água cristalina a jorrar farta das torneiras e, quando existe, não passa de um líquido amarelado. Esta é a realidade do dia a dia do sertanejo, vítima de um drama que, como uma maldição, se estende pela vida de gerações. Fazer o quê?

O jeito é orar para Deus mandar chuva e para o mandachuva político da região, dono do curral eleitoral, cumprir as promessas eleitorais.

A propósito, Dom Pedro prometeu vender as joias da Coroa para dar fim à seca nordestina, enquanto outros tantos juraram que o sertão iria virar mar.

O senhor Luiz Inácio da Silva, prometeu que a Transposição do São Francisco entregaria água aos sertanejos ainda no seu primeiro mandato, mas o tema continua sendo um deserto não só de água, mas de verdades.

Por toda a região, a paisagem é desoladora, porque feita de pobreza, e fome, e sede, e sofrimento. No Ceará, nada menos do que 66% dos municípios já estão estorricados e outros 121 passam por seca moderada ou grave.

No Piauí, são 71% na mesma situação, enquanto na Paraíba o problema extrapola os 71%.

Os tenebrosos percentuais invadem o Rio Grande do Norte (62%), Pernambuco (52%), a Bahia (57%), Alagoas (33%) e Sergipe (20%).

Tem nada não. Tudo vai mudar. Todos os problemas terão fim em outubro, com a eleição dos novos deputados, senadores, governadores e presidente da República. Até lá, no entanto, continuará em vigor o sofrimento sertanejo, ressalvadas as disposições em contrário.

Pensando bem, esse povo maltratado vai direto para o Paraíso.

Melhor dizendo, no Paraíso, com inicial maiúscula, porque até o cumprimento da promessa terão morrido, e de tanto sofrimento, que ganharão o Éden.

INGÊNUO ELE NÃO É

Luiz Inácio da Silva pode ter muitos defeitos, mas uma coisa é certa: ele não é tolo. Ele sabe que sua candidatura é inviável, salvo se neste país onde tudo é possível o texto legal for transformado em papel higiênico. Luiz Inácio da Silva sabe que na cadeia spa em que se encontra conquistará muito mais votos para o candidato Fernando Hadad.

Pretenderá ele, preso, ser um Nelson Mandela? O autêntico, após quase 30 anos de confinamento pelo segregacionismo do apartheid, operou a transição daquele regime para uma democracia plena, pelo que se ornou o Pai da Pátria, vindo a promover, de 1994 a 1999, profundas mudanças, como a criação de novos símbolos nacionais e uma nova constituição em que brancos, negros, indianos e mestiços passaram a ter igualdade de direitos.

Não conseguiu, no entanto, corrigir a má distribuição de renda, a corrupção crescente ou a intervenção militar no Lesoto, o que não evitou a conquista da hegemonia política de seu partido – o Congresso Nacional Africano – e eleger seu sucessor.

Acontece que Luiz Inácio da Silva não é Nelson Mandela.

Este, a par de tudo o que fez, combateu denodadamente a corrupção, enquanto aquele fez parte dela, como dizem a sua prisão e os processos que tramitam nas varas criminais.

Aos que contam com os primeiros e animadores números das pesquisas de intenção de voto, talvez seja conveniente lembrar que assim como Luiz Inácio da Silva não é Nelson Mandela, Fernando Hadad não é Luiz Inácio da Silva.

Mesmo assim ele elegerá seu seguidor?

WEINSTEIN GOES BAD

De repente o mundo desabou. Os gozos ontem pilhados, se fizeram angústias incontornáveis de hoje. A Weinstein Company, antes poderosa, entra em processo falimentar, e a Miramax segue a mesma espinhosa trilha. Acuado, como ficavam as vítimas submetidas aos seus ataques, o todo – poderoso Harvey Weinstein vê o fim se aproximar, na forma do risco real de ser condenado a prisão perpétua.

A tragédia começou no ano passado, com três acusações de crimes sexuais. A partir dali relataram-se abusos havidos no transcurso de três décadas, contra mulheres jovens e bonitas que almejavam uma carreira na indústria cinematográfica. Desde então, as denúncias se multiplicaram, reveladas pelas atrizes Ashley Judd, Jessica Barth, Katherine Kendall, Rose McGowan, Florence Darel, Judith Godreche, Emma de Caunes, Alice Evans e Lysette Anthony. Muitas, como Dawn Denning e Tomi-Ann Roberts acabaram desistindo da carreira, e mesmo megaestrelas como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux passaram por experiências similares. Lauren Sivan, âncora de TV, contou haver sido encurralada em um restaurante de Nova York e se masturbou diante dela.

Mas por falar em Hollywood, não é de hoje que ali convivem harmonicamente o glamour, a beleza e a baixeza. Registrou-se, por exemplo, que em junho de 1937 foi denunciado um escândalo de grandes proporções. Relatava uma grandiosa festa realizada por ocasião da reunião de vendedores de produções cinematográficas que resultara na mais desenfreada orgia da história de Hollywood. Referia-se a inúmeras violências carnais (sic) a que teriam sido submetidas várias moças dos estúdios de Hollywood naquela ruinosa bacanal em que cento e vinte e cinco extras induzidas por falsos pretextos compareceram à festa e se tornaram objetos de todas as espécies de brutalidade.

Conta-se, aliás, que até James Dean, o mítico intérprete de Juventude Transviada, Assim Caminha a Humanidade e Vidas Amargas se submeteu ao teste do sofá, mas não sentado. Estava ajoelhado, atento às reações do homem à sua frente, enquanto imaginava estar executando uma ária ao clarinete. Joan Crawford, dizem, do alto dos seus 65 anos, se submetia aos testes docemente. Muito os apreciava, não vacilando em tirar a roupa.

A deusa Marilyn Monroe, por seu turno, fez da beleza sua arma incontrastável na guerra da sedução, enquanto Clara Bow, diziam, entreteve um time inteiro de futebol, ao passo que outra estrela da época, Lilian Gish foi estuprada, mas em lugar de desenvolver trauma, vomitar e ir ao divã do analista, passou a dedicar-se, com grande esmero, à prática dos exercícios sexuais.

Pois é, a verdade nua e crua, especialmente nua, é que desde o passado muitas artistas famosas passaram pelas agruras experimentadas pelas aspirantes de hoje, submetendo-se ao julgamento de diretores e produtores cinematográficos.

O que não faculta, porém, a nenhum homem, o direito de obter sexo à força.

As coisas vão mal para o senhor Harvey Weinstein.

HOMENS, CHEGAMOS

Se havia um clamor por algo inovador na política, aconteceu. Um grupo formado exclusivamente por mulheres, lançou a primeira chapa feminina de Pernambuco, com vistas a acabar com a hegemonia masculina na política.

Apenas isso é muito pouco, convenha-se, para a obtenção do precioso voto do eleitor, embora suas líderes, a advogada, historiadora e professora Dani Portela; a educadora e cientista social, Gerlane Simões; a servidora concursada do MPF Albanise Pires; e Eugênia Lima, mestra em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, sejam pessoas qualificadas. Subsidiariamente, a busca é quebrar a lógica de que vencer a eleição no estado precisa de um DNA político.

“A maioria das mulheres que está na política é filha de, mulher de, missionárias de determinadas igrejas. Não dá mais para não querer falar de política porque ela já entrou na nossa casa, no orçamento familiar, no hospital e na escola. Não podemos deixar que governem sem a gente”, enfatizou Eugênia Lima, facultando entrever dias difíceis para os homens que as mulheres a pleitear que as mulheres não governem sem eles.

Segundo Dani Portela, por ser uma chapa feminina e feminista, elas precisam provar a capacidade duas vezes. “Nossa voz foi silenciada por muito tempo e somos invisíveis. Assim fomos durante séculos, e agora é o momento de fazer ecoar a nossa voz”, destacou, esquecida de que até recentemente a República foi presidida por Dilma Rousseff, uma mulher, e ademais, o Congresso e as casas legislativas estaduais e municipais estão repletas de mulheres.

A propósito, convém lembrar que dona Brites Albuquerque governou a capitania de Pernambuco, que veio a se tornar a mais próspera do Brasil.

CENAS REAIS DE UM CASAMENTO PRINCIPESCO

Não se deixe ser presa da inveja, mas…

Você lembra que recentemente a imprensa se ocupou do conteúdo dos caminhões que deixaram Brasília ao fim da octaetéride luliana? Só para lembrar, eram presentes recebidos pelo casal presidencial brasileiro, e que, de conformidade com as regras vigentes, passam a pertencer ao acervo do país. O entendimento é de clareza meridiana: o presidente da República só o é até o último dia do mandato.

Nunca mais a imprensa voltou ao assunto, mas ainda bem que da Inglaterra nos chega um exemplo. Dois dias após o casamento, o príncipe Harry e Meghan Markle devolveram R$ 34 milhões em presentes de casamento, já que, segundo as regras da família real, não é permitido aceitar presentes que envolvam o mais leve intuito de publicidade grátis. Foram mais de R$ 34 milhões, ressalte-se.

Apesar de o príncipe Harry e sua esposa terem pedido doações para instituições de caridade em vez de presentes de casamento, pessoas e empresas mandaram milhões de libras em recordações gentilmente devolvidas, levando os funcionários da família real britânica passarem as primeiras semanas após o casamento filtrando os presentes para definir os que seriam devolvidos.

De conformidade com as regras estabelecidas da família real em conjunto com o parlamento britânico, a rainha Elizabeth II e seus familiares são impedidos de receber qualquer presente que possa resultar em publicidade grátis para a empresa que o tenha enviado. Para os britânicos, os membros da família real precisam garantir que a empresa que enviou o presente não tenha o feito como forma de publicidade, segundo um assessor da família real.

A propósito, registrou-se que, no começo do primeiro mandato do senhor Luiz Inácio da Silva, uma famosa joalheria estava enfrentando sérias dificuldades para ter de volta as joias emprestadas para uso pela primeira-dama durante a cerimônia de posse.

E era publicidade, sim.

TEMER TREME

Você não tem como contestar. Nem ninguém. O arsenal da oposição é temível, tanto quanto o estadunidense ou o norte-coreano. As ogivas que antes cruzavam os céus como mera demonstração de força, agora começam a atingir seus alvos. A crise dos caminhões, por exemplo, foi o veículo (sem trocadilho) da sucumbência do governo, uma espécie de Exército de Brancaleone a defender interesses durante uma guerra que se avizinha, o pleito eleitoral.

No filme, demonstra-se que a Idade Média não foi feita apenas de belos reis, rainhas e castelos, de riqueza e de ostentação, mas igualmente de miseráveis. Conta-se a história de Brancaleone da Nórcia, um cavaleiro fracassado, que em busca de um feudo lidera um grupo de maltrapilhos e famintos. A diferença da arte para a vida é que, na versão política, o palácio está ocupado por Brancaleone que, mesmo assim, com a arma da caneta todo-poderosa na mão, não consegue fazer prevalecer seus pontos de vista.

Negociação, por exemplo, implica flexibilidade das partes envolvidas, mas não foi o que se viu. O governo, que já fizera enormes concessões na véspera, teve que fazer outras tantas no dia seguinte. E assim iam os grevistas aceitando qualquer negociação, desde que ao final as coisas acontecessem como eles queriam.

Esdrúxula negociação!

A fragilidade do governo é evidente, e ao agir ele não impõe nem propõe, mais parece suplicar. Sem alavanca e sem ponto de apoio, a cada dia fica mais insustentável, especialmente pelo gosto de vingança, a contrapartida do impedimento da senhora Dilma Rousseff. De qualquer forma, pergunta-se: como pode um presidente que tirou o país da recessão, reduziu dramaticamente a inflação, baixou os juros e amenizou a sangria dos empregos ser tão impopular?

ADEUS, DINHEIRO

Matilda está levando o nosso dinheiro, e não há nada a ser feito para impedir. Relaxe: o que está feito, está feito, e a maior parte já foi.

Matilde não é uma mulher com esse nome, mas um país que muito tem a ver com ela, pelo nome e pelo procedimento. É personagem de uma ópera bufa que tem como leitmotiv o calipso Matilda, interpretado pelo músico, cantor, ator, ativista político e pacifista norte-americano Harry Belafonte.

Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela | Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela. | Five hundred dollars, friends, I lost: | Woman even sell me cat and horse! | Heya! Matilda, she take me money and run Venezuela.

Pois é: Matilda leva o nosso dinheiro e nós, como se fôssemos um país sem carências, oferecemos benesses desmedidas. A ponte de 3.156 metros sobre o rio Orinoco possui quatro faixas para veículos e uma para linha férrea. Considerada uma maravilha da engenharia contemporânea, foi construída com tecnologia e financiamento brasileiros.

Lá se foi a bagatela de US$ 1,22 bilhão de dólares, enquanto no Brasil pontes e viadutos de São Paulo e do Recife se encontram em processo de deterioração. Nas linhas 3 e 4 do metrô de Caracas, investiu-se US$ 1,6 bilhão de dólares que, considerando a adição de um pequeno calote de US$ 270 milhões, atinge a casa dos US$ 3 bilhões. Entrementes, não temos dinheiro para Saúde, Educação, Segurança…

Para agravar o quadro ainda mais, além da Venezuela há outros países na mesma situação, coincidentemente aqueles que seriam os pilares da inserção internacional do Brasil potência, do Brasil que do alto da sua pujança iria acabar a fome, a doença e da pobreza não só em nossas fronteiras, mas em outros países mundo afora, muito especialmente os africanos, continente em que inauguramos mancheias de embaixadas.

O expansionismo diplomático deu no que deu. Agora, bilhões de reais inexoravelmente perdidos, resta a continência e, á que quem canta seus males espanta, sair por aí cantarolando Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela…

BIG BEN, BIG BANG

A Big Bang ou a Grande Expansão, é a teoria cosmológica preponderante sobre o surgimento do universo. Com o termo, os cosmólogos se referem à ideia de que em dado momento houve uma grande explosão que, desde aquele dia, leva o universo a expandir-se continuamente.

Já a Big Ben foi uma grande rede de farmácias que recentemente encerrou suas atividades, fato repercutido no mercado com tal intensidade que bem poderia também chamar-se big bang.

Só em Pernambuco, a lúgubre estatística é de 64 lojas fechadas e 1.200 desempregados, 220 deles farmacêuticos. Em todo o Brasil são 3 mil lojas, o que não é pouco.

O ainda mais desalentador saldo é que, além dos desempregos, se faz presente o pesadelo dos prédios abandonados, tomados por usuários de drogas, muito lixo e o compreensível medo dos transeuntes que antes transitavam livremente por aquelas ruas.

De certa forma, é um modelo reduzido do Brasil de hoje, que abriga cerca de 13 milhões de desempregados e abandona não só edifícios, mas os princípios que regem a lisura na administração da res publica.

Voltando aos desempregados, 13 milhões de ociosos compulsórios não podem ser vistos apenas como um dado estatístico, mas um problema muito maior. Uma big bang em que se expandirão os atos de selvageria.

UMA FESTA FUNESTA!

Por favor, atente para esta frase: Se vocês quiserem encontrar um petista hoje, vão ao meu gabinete. São palavras do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, exultante pela autoria do voto que poderá tornar o senhor Luiz Inácio da Silva presidente do Brasil pela terceira vez. Apelo popular e assessoria jurídica qualificada parecem não faltar ao ínclito candidato, possivelmente ávido por comandar a retomada da colossal obra de reformar sítios e apartamentos.

Estivessem o senhor Inácio da Silva e o juiz Sérgio Moro confinados em uma mesma sala, o ex-presidente–e-futuro-presidente, decerto exibindo aquela blasonaria que lhe é tão característica, diria ao magistrado, perdeu preibói. Lamentavelmente, no entanto, não terá sido o preibói, mas o Brasil, com sua obstinada disposição de fazer o errado enquanto houver erros a cometer.

Embora possa falhar, é enorme o poder de persuasão do senhor Luiz da Silva! Há seis anos, exatamente em maio de 2012, o ministro Gilmar Mendes revelou haver saído perplexo de uma conversa com ele, que às vésperas do julgamento do mensalão, veladamente o ameaçara de divulgar fatos desairosos para o ministro, caso o julgamento não fosse adiado para o ano seguinte. Para o senhor Luiz Inácio, naquele ano não haveria objetividade, seja lá o que isso significasse, mas o ministro redarguira ressaltando a importância do julgamento.

Ainda segundo o ministro, durante a conversa, o senhor Luiz Inácio teria mencionado, várias vezes, o tema da CPI e o domínio que o governo tinha sobre a comissão. “Daí eu depreendi que ele estava inferindo que eu tinha algo a dever nessa matéria de CPMI e disse a ele, com toda a franqueza, que ele poderia estar com alguma informação confusa, pois eu não tenho nenhuma relação, a não ser de conhecimento e de trabalho funcional, com o senador Demóstenes Torres”.

Luiz Inácio teria ficado assustado com a sua reação e perguntado: “Mas não tem? E essa viagem a Berlim?”.

“Aí então eu esclareci a viagem, que era uma viagem que eu fizera a partir de uma atividade acadêmica que eu tivera na Universidade de Granada, encontrara com o senador (Demóstenes Torres) em Praga ꟷ e isso tinha sido agendado previamente ꟷ e então nos deslocamos até Berlim, onde mora minha filha. E eu até brinquei. Eu vou um pouco até Berlim como o senhor vai até São Bernardo”, disse o ministro.

Além de revelar sua perplexidade com o encontro, uma vez que a relação com o ex-presidente “sempre foi muito franca e cordial”, o uso da viagem a Berlim por parte do senhor Luiz Inácio lhe “parecera absolutamente reveladora de qualquer outra intenção sub-reptícia”.

Poderia aproveitar para dizer por que discutir o assunto com um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e um popularíssimo ex-presidente da República empenhado em garantir que a Presidência ficaria, mais uma vez, ocupada por um dos seus tarefeiros.


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