Categoria: MARCOS MAIRTON – CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

AS PROVAS

Um amigo perguntou: – Cadê as provas?
E eu, então, lhe respondi: – Meu caro amigo,
Fique certo que elas não estão comigo.
Tenho aqui só uns sonetos e umas trovas.

E, acredito, não estão também contigo,
Nesse assunto, eu e tu somos incautos.
Se há provas, elas devem estar nos autos,
Com quem deve decidir crime e castigo.

Para isso há os juízes, afinal,
Dedicados a aplicar a lei penal.
Em qualquer democracia é desse jeito.

Se negarmos tal mister aos tribunais,
Por temermos que eles sejam parciais,
Quem irá dizer o Justo e o Direito?

O SORVETE

Edmilson saiu de casa com um único e específico propósito: tomar um sorvete no shopping próximo de sua residência.

Era domingo. Havia almoçado o resto da pizza do sábado à noite, com a sobra do refrigerante de dois litros que viera no combo. Programação gastronômica comum, desde que se separara da mulher, três meses antes. No fim das contas, até que a calabresa dormida estava saborosa. O refrigerante é que havia perdido o gás e se transformado, basicamente, em água com açúcar.

Terminada a refeição, veio a vontade irresistível de tomar o sorvete. Não qualquer sorvete, mas o daquela sorveteria do shopping. De pistache.

O próprio Edmilson estranhou aquele desejo por sorvete de pistache. Lembrou que, quando era casado, por muitas vezes, a mulher reclamara pelo fato de ele continuar bebendo depois do almoço de domingo. Às vezes, o hábito adentrava pela noite, até que ia dormir bêbado, quando ela queria que fossem ao cinema ou… a uma sorveteria.

Naquele domingo, Edmilson poderia ter bebido à vontade, mas não havia consumido nenhuma bebida alcoólica. E tudo o que desejava era um sorvete de pistache.

Chato era ter que vestir uma roupa, descer ao subsolo, tirar o carro da garagem apertada e dirigir por uns dez minutos. Afinal, o shopping era perto do seu prédio, mas não o suficiente para fazer o percurso a pé. E tinha a intragável parte de entrar no estacionamento do shopping, procurar uma vaga, pagar, sair e fazer todo o percurso de volta. Um estorvo para alguém que, naquela preguiçosa tarde de domingo, só tinha como compromissos ver um jogo de futebol qualquer, na TV, e esperar a segunda-feira, para voltar ao trabalho.

Mas a vontade de tomar sorvete de pistache venceu todos esses obstáculos. Logo, Edmilson dirigia seu carro em direção ao shopping. No percurso, pensamentos estranhos – mais estranhos que o desejo por sorvete de pistache – tomaram-lhe a mente de assalto.

Enquanto guiava, observava o vazio das ruas na tarde de domingo, contornado pelos muros e portões fechados das residências. Dentro daquelas casas e prédios de apartamentos, homens, mulheres e crianças refugiavam-se da violência exterior; parentes desentendiam-se por razões políticas; gente que não se conhecia trocava ofensas em seus computadores, conectados a redes sociais.

Ao parar em um semáforo, percebeu que um homem dormia sob uma marquise, envolto em trapos e tendo como cama apenas pedaços de papelão. Alguns pombos caminhavam por ali, bicando o chão, como é costume entre as tais aves da família Columbidae.

Misturando cenas reais com pensamentos, Edmilson prosseguia executando movimentos automáticos. Acelerando, freando, mudando as marchas do carro, como se o corpo seguisse sozinho o seu caminho, enquanto a mente vagava livre, em outra dimensão.

Tomado por essa espécie de transe, Edmilson percebeu-se já na fila do caixa da sorveteria. Ali, espantou-se com uma sensação de medo, que o envolveu.

Tinha medo de olhar nos olhos das pessoas e ser mal interpretado. Medo de falar com as pessoas e ser mal compreendido. Medo, apenas. Medo até de que o shopping viesse abaixo e todos ali morressem soterrados.

Com a voz trêmula, fez o seu pedido à moça do caixa. Um sorvete de três bolas, embalado para viagem.

Queria sair dali. Tomar seu sorvete em casa. Sozinho.

– Quais os sabores? – quis saber outra moça, a do balcão.

– Pistache.

– Só? O senhor pode escolher três sabores…

– Não! Só pistache.

Recebeu a embalagem de isopor e saiu dali o mais rápido que pôde. O pensamento de que tudo poderia desabar era, agora, quase uma certeza. Caminhava depressa, com medo de encontrar alguém conhecido e ter que parar para conversar.

No percurso de volta para casa, imaginava o shopping já desabando, transformando-se em escombros e poeira. Talvez tudo devesse desabar mesmo. Não apenas o shopping, mas o mundo inteiro. Com suas dores, seus sofrimentos, sua violência. Quem sabe, um novo mundo pudesse renascer das sobras. Sem a humanidade, talvez…

De volta ao apartamento, Edmilson sentou-se em frente à TV, sintonizou no canal do futebol e abriu a embalagem do sorvete. Pôs uma colherada bem generosa na boca e sentiu o gosto gelado de pistache espalhando-se pela língua, pela gengiva, pela parte interna das bochechas…

Lentamente, pôs a embalagem de sorvete e a colher sobre a mesinha de centro à sua frente e pensou: “Bendita seja a pessoa que fez esse sorvete. Nem que seja só por causa dela, a humanidade merece uma segunda chance! É o melhor sorvete que já tomei na vida”.

– É… e talvez eu também mereça uma segunda chance… – disse, em voz alta, como se, mais que fazer uma reflexão, precisasse ouvir aquelas palavras.

Ao se preparar para dormir, Edmilson estava extremamente calmo. Pela primeira vez, desde a separação, admitiu para si mesmo que a solidão não lhe estava fazendo bem.

UM ABORRECIMENTO

O velho legionário estava cansado de tantas batalhas. Tinha o corpo marcado por cicatrizes, algumas ainda doloridas. A memória cheia de rostos aterrorizados e corpos arquejantes. Vítimas da sua própria espada.

Finalmente dispensado da legião, vestia roupas civis pela primeira vez, depois de anos de luta. Sentado em uma pedra, à beira da estrada que levava a roma, tentava pensar no futuro:

– Queria um pouco de paz… – chegou a dizer a si mesmo em voz alta.

Nesse exato momento, saiu da mata um homem com um machado. Era um dos muitos salteadores que havia por ali. Um ladrão. Ameaçou o velho, intentando tomar-lhe o escasso dinheiro que trazia na algibeira. Uma pequena indenização que recebera ao deixar a legião.

Sem gládio, escudo ou armadura, o legionário sacou seu velho púgio. Esquivou-se da lâmina do machado e, com agilidade surpreendente, estraçalhou a garganta do seu oponente com um único golpe de punhal.

O corpo do homem ficou caído ao chão. O sangue que jorrava da jugular era rapidamente absorvido pela terra seca.

Para o bandido, foi o fim da história. Para o velho legionário, um aborrecimento.

Um púgio. Foto obtida em arcobesta.com