HOMENAGEM A ORLANDO TEJO

Disse Zé Limeira:

Um dia o Rei Salamão
Dormiu de noite e de dia.
Convidou Napoleão
Pra cantá pilogamia.
Viva a Princesa Isabé,
Que já morô em Supé
No tempo da monarquia.

(Do livro “Zé Limeira, poeta do absurdo”, de Orlando Tejo)

Digo eu:

Dom João VI pretendia
Conhecer a Amazônia,
Mas Dom Tiradentes teve
Um problema de insônia.
Enquanto Pedro II
Gritava pra todo mundo:
Viva o Rei da Macedônia!

Um dia fui à Polônia,
Só pra ver a Torre Eiffel.
E encontrei Napoleão
Brincando num carrossel.
Fernando Pessoa ria,
Na mesma hora que lia
Um folheto de Cordel.

Certa vez, Dom Manoel
Que pensava que era rei,
Amarrou quatro jumentos
Em frente à casa de um frei.
O povo se revoltou,
E, como a briga acabou,
Eu até hoje não sei.

Esse versos que criei,
São somente uma maneira
De aplaudir Orlando Tejo,
Que nos legou Zé Limeira.
Tendo talento de sobra,
Foi-se o homem, fica a obra,
Pela eternidade inteira.

Orlando Tejo (1935-2018)



SALTOS IMPOSSÍVEIS

Deixando o Rio de Janeiro, em um ensolarado final de tarde, com destino a Brasília, desci do táxi e entrei no Aeroporto Santos Dumont. Não havia pressa alguma. O voo estava previsto para largas três horas depois. Teria tempo de sobra para fazer um lanche e observar o movimento, nessa fonte inesgotável de histórias que são os aeroportos.

Todos os dias é um vaivém…”, diz a canção. E foi como se as vozes de Simone e Maria Rita disputassem um lugar em minha memória musical. É fato que a música fala de uma estação de trem; mas, de certa forma, dá no mesmo: os aeroportos são as novas plataformas para tantas chegadas e partidas, e outros tantos encontros e despedidas…

Decidido a não ter qualquer preocupação com o tempo, segui direto para o salão de embarque. Na fila do raio X, à minha frente, uma jovem tirou a jaqueta e a pôs na esteira, junto com a bolsa e o telefone celular. Usava uma calça um tanto quanto engraçada, para meus padrões estéticos, talvez desatualizados: colada ao corpo, do joelho para cima, e abrindo-se em formato de cone, do joelho para baixo.

Foto: G1 – Globo

Chamou-me a atenção, ainda, o fato de ela ser mais alta que eu – característica pouco comum entre as mulheres que costumo encontrar cotidianamente –, apesar da minha estatura de apenas um metro e setenta e dois centímetros. Se essa observação decorre de alguma admiração especial por mulheres mais altas, ou de eventual resquício de influências machistas em minha formação, é avaliação que deixo a cargo de quem se ocupar desta leitura.

Chegada a minha vez de passar os pertences pela máquina de raio X, pus a mala na esteira e o paletó em uma bandeja de plástico. Costumo tirar o paletó e pôr no raio X porque, assim, vão em seus bolsos meus dois telefones celulares, as chaves e outros objetos metálicos, como moedas. O notebook vai em outra bandeja, devidamente retirado da mochila e apoiado sobre ela.

Estava nessa fase do procedimento – tirando o notebook da mochila – quando ouvi uma voz feminina, logo à minha frente, demonstrando irritação.

Era a jovem de quem falei antes. Reclamava com o funcionário do aeroporto por ter que voltar e passar, novamente, pelo detector de metais. Uma luz vermelha piscava na parte inferior do portal a cada vez que ela transitava por ali.

O rapaz que controlava o equipamento tentava ser gentil, mas a moça queixava-se de já haver tirado todas as pulseiras e, até mesmo, o cinto.

– O problema é nos pés – explicava o rapaz. – Deve haver metal nos seus sapatos. Acontece muito isso…

O desentendimento entre os dois atrasava minha passagem, mas isso não chegava a ser um incômodo. Afinal, ainda restavam duas horas e quarenta e cinco minutos para o meu embarque.

Apesar dos protestos e da impaciência cada vez maior, a viajante acabou aceitando tirar os seus sapatos. Acomodou-se em um banco – aparentemente, posto ali para aquela exata finalidade – e acabou se descalçando, ali mesmo.

Foi, então, que contemplei os maiores saltos de sapatos que já pude ver em toda a minha vida!

A parte da frente, onde se apoiam os dedos e os metatarsos, devia ter uns vinte centímetros de altura; o salto propriamente dito – que, em condições normais de temperatura e pressão, serve para apoiar o calcanhar – chegava, facilmente, a uns trinta centímetros.

Não sei se a irritação da moça tinha alguma relação com o fato de ela ter que circular por ali, exibindo sua altura real. Aos meus olhos, a redução da estatura era algo que não a diminuía em nada – perdoem-me o trocadilho. Mas as pessoas têm suas preferências estéticas e, no caso, a diferença era bem grande.

Com os pés descalços, ela cruzou o portal do detector de metais, agora, sem acionar qualquer alarme. Pegou de volta seus sapatos com saltos gigantes, que haviam sido postos na esteira do raio X, e os calçou novamente. Ocultos sob sua calça engraçada – de pernas com bocas de sino –, ninguém suspeitava que eram eles que faziam a jovem ficar mais alta.

Se alguém me houvesse mostrado aqueles calçados na vitrine de uma loja, acharia que era apenas uma peça decorativa, como aqueles calçados conceituais criados por grandes estilistas para lançarem suas coleções, mas que são de uso improvável. Teria certeza de que ninguém seria capaz de andar equilibrando-se naquelas coisas. Mas, ela andava. E rápido.

O tempo que gastei repondo o notebook na mochila e vestindo novamente o paletó foi suficiente para que a moça dos saltos impossíveis sumisse na multidão.



ESCREVENDO EM ESPANHOL

Tive a ousadia de participar de um concurso de contos promovido pelo site espanhol Microcuento. Nessa pretensiosa empreitada, fui estimulado por dois motivos.

O primeiro deles foi o desafio de escrever em outro idioma, concorrendo com nativos. Assim, fiz questão de escrever direto no espanhol, ao invés de fazê-lo em português e traduzir depois.

O segundo, o fato de o tema proposto ser muito presente na minha maneira de ver e viver a vida: O AGORA. Ou, como proposto no concurso “vivir con el ahora”.

Como era de se esperar, sequer fiquei entre os finalistas. Mas também não fui desclassificado, o que, para mim, é um tipo de vitória.

E ainda posso compartilhar com meus leitores a ideia do AGORA, de maneira lúdica. Uma parábola, talvez.

Chega de conversa. Segue o texto com o qual participei do concurso, seguido de sua tradução para o português.

Só mais um detalhe: a extensão do texto era limitada a 250 palavras.

EL GATO DE PORCELANA

En un reino imaginario, el rey era un hombre muy sabio y tranquilo, pero se estaba cansando de tantas tareas administrativas. Entonces decidió elegir a un Primer Ministro entre las personas más inteligentes del país.

Después de muchas pruebas de conocimiento, quedaron diez candidatos a quienes el rey propuso un desafío:

– El vencedor será el que me traiga un gato de porcelana.

– ¿Cuándo? – preguntaron en coro algunos competidores.

– ¡Ahora!

Los candidatos se quedaron sorprendidos. Nadie sale de casa con un gato de porcelana en el bolsillo.
El rey mandó que se fueran. Deberían volver al día siguiente para el desempate.

A la hora señalada, los candidatos se reunieron en el salón real. Pero antes de que el rey hiciera un nuevo desafío, uno de ellos, que traía consigo un paquete, pidió la palabra.

– Majestad, traigo al gato de porcelana que usted requirió.

– Admiro tu esfuerzo. Pero ya pasaron veinticuatro horas desde el desafío del gato.

– Sin duda, mi señor. ¿Y vuestra majestad se dio cuenta de que traigo el gato hoy y no ayer?

– ¡Claro!

– Y tampoco lo estoy trayendo antes o después de este momento.

– Es verdad.

– Entonces creo que traigo al gato en el momento exacto que vuestra majestad determinó: ¡ahora!

– ¡Muy ingenioso! Pero ¿es posible que el ahora se haya prolongado desde ayer hasta hoy?

– El ahora es infinito, majestad. En él todas las cosas suceden. Nunca antes, nunca después. Siempre ahora.
Y el rey sonrió satisfecho. Había elegido a su Primer Ministro.

O GATO DE PORCELANA

Em um reino imaginário, o rei era um homem muito sábio e tranquilo, mas estava cansado de tantas tarefas administrativas. Ele então decidiu escolher um primeiro-ministro entre as pessoas mais inteligentes do país.

Depois de muitos testes de conhecimento, sobraram dez candidatos a quem o rei propôs um desafio:

– O vencedor será aquele que me trouxer um gato de porcelana.

– Quando? – perguntaram em coro alguns dos concorrentes.

– Agora!

Os candidatos ficaram surpresos. Ninguém sai de casa com um gato de porcelana no bolso. O rei então ordenou que eles saíssem. Deveriam voltar no dia seguinte para o desempate.

Na hora marcada, os candidatos reuniram-se no salão real. Mas antes que o rei fizesse um novo desafio, um deles, que trazia consigo um pacote, pediu para falar.

– Majestade, eu trouxe o gato de porcelana que o senhor pediu.

– Admiro seu esforço – respondeu educadamente o rei. – Mas já se passaram vinte e quatro horas desde o desafio do gato.

– Sem dúvida, meu senhor. E vossa majestade percebeu que estou trazendo o gato hoje e não ontem?

– Claro!

– E eu também não trouxe o gato antes ou depois do momento em que estamos.

– É verdade.

– Então me parece que eu trouxe o gato no exato momento que vossa majestade determinou: agora!

– É um ótimo raciocínio! Mas seria possível o agora durar desde ontem até hoje?

– O agora é infinito, majestade. Nele todas as coisas acontecem. Nunca antes, nunca depois. Sempre agora.

E o rei sorriu satisfeito. Acabara de escolher seu primeiro-ministro.



O PROFESSOR E O FLANELINHA

Foto: Lago Ribeiro. Blog do Labjor

Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.

O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.

Um rapazinho, de uns quatorze anos que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:

– Posso ficar “pastorando” aí, Louro? – perguntou.

“Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.

“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.

– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.

E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.

A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.

Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.

Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”, “Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava ou quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.

A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.

Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.

Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.

Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.

Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.

As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.

Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:

– Diz aí, Louro!

– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?

– Todo dia!

– Vai “pastorar” o meu?

– Claro!

– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.

– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.

“Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.

Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.

Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.

Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União e juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Depois passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.

Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.

Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.

O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.

No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:

– Diz aí, professor!

Era o Louro.



DIZ A LENDA

Tudo começou com um conto postado aqui no JBF.

Nesta coluna.



A CARTOMANTE COLOMBIANA (*)

Em outubro de 2005, estive nos Estados Unidos por razões profissionais. Terminados os trabalhos, adiei a viagem de retorno ao Brasil e passei uma semana em Miami. Depois quinze dias de trabalho, em ritmo intenso, queria passar uns dias descansando.

Aproveitei a ocasião para visitar um amigo – a quem chamarei aqui de Ricardo – que há anos morava naquela cidade da Flórida.

Conhecendo Miami como se houvesse vivido ali desde a infância, Ricardo levou-me para visitar muitos lugares e encontrar gente nova. Um dos lugares visitados foi um restaurante cubano, onde almoçamos certa vez. Como de costume, havia ali vários amigos dele, que nos receberam calorosamente.

Todos no lugar falavam espanhol. Despertou-me especial atenção uma colombiana, chamada Vera, que aparentava uns sessenta anos de idade e vestia roupas de cores aberrantes. Na cabeça, usava uma espécie de lenço vermelho, que prendia apenas parcialmente seus cabelos, dando-lhe a aparência de algumas ciganas de filmes e novelas.

À medida que a conversa avançava, percebi que ela frequentemente se referia a um certo Pablo, como sendo alguém conhecido das outras pessoas que estavam ali. Narrava fatos pitorescos envolvendo o tal Pablo, e todos riam.

Tentando compreender melhor o que se passava, perguntei:

– Con su permiso, señora, ¿quién es Pablo?

Ao ouvir minha pergunta, Vera deu uma sonora gargalhada. Mas não respondeu. Simplesmente lançou um olhar para meu amigo Ricardo e fez um movimento com a cabeça, como se o autorizasse a me responder. Ele entendeu o sinal e me disse, sorrindo, mas baixando a voz:

– A Vera é cartomante do Pablo Escobar. Cartomante só, não. É uma espécie de conselheira, guia espiritual, essas coisas …

– Cartomante de quem? – perguntei. Não por não haver entendido o que Ricardo me dissera em claro português, mas por achar que havia ali alguma espécie de brincadeira.

– Do Pablo Escobar. O colombiano.

– Então, ela foi cartomante dele, não? Porque, se o cliente dela for o Pablo Escobar que estou pensando, já morreu há uns dez anos.

Foi a vez de Ricardo olhar para Vera, como a lhe pedir autorização para seguir na explicação até o final.

Antecipei-me, porém, ao diálogo mímico dos dois e perguntei diretamente a ela, em espanhol:

– ¿Entonces usted fue cartomante de Pablo Escobar?

– En español, se habla “usted fue” o “yo fui” para hechos pasados – respondeu ela falando lentamente. – En el presente decimos: “usted es” o… “yo soy”!

– Sí, claro! Pero Pablo Escobar ha muerto desde hace más de 10 años…

Nova gargalhada de Vera. E continuou falando, agora, em um espanhol rápido e misturado a sorrisos, que, pelo que entendi, significava o seguinte:

– Não morreu nada! Armou toda aquela história de ter sido morto. Depois, se escondeu aqui, em Miami. Tudo combinado com o governo dos Estados Unidos. Fez parte do acordo para ele se entregar.

A essa altura, tive certeza de que ela realmente estava brincando comigo. O Pablo de quem falava era certamente algum amigo íntimo, a quem ela acrescentava o sobrenome Escobar, apenas como uma “broma”. Sorri e fiz um ar de quem havia acreditado no que acabara de ouvir, dando o caso por resolvido.

A partir daí, a conversa prosseguiu até nos despedirmos, sem mais nada digno de relato.

Ocorreu, porém, que, na noite daquele mesmo dia, Ricardo me levou a conhecer uma movimentada boate de Miami. O lugar estava lotado, com muita gente ocupando toda a calçada e parte da rua. A bilheteria já estava fechada e os seguranças, atentos para não permitirem a entrada de mais ninguém.

Falei para Ricardo que não havia problema. Que poderíamos ir embora e voltar no dia seguinte, mais cedo. Mas ele respondeu apenas:

– Espera, aí. Deixa eu ligar pra Vera, que ela dá um jeito.

Ligou, disse algumas palavras em espanhol que não entendi e deu uma gargalhada. Depois, desligou e falou para mim:

– Pronto. Resolvido!

Minutos depois, dois homens enormes, vestindo paletó, gravata e camisa pretos, saíram da boate e vieram em nossa direção. Dirigiram-se ao Ricardo e falaram com ele, em inglês, parecendo-me que pediam uma confirmação de que ele era mesmo quem procuravam. Em seguida, pediram-nos que os acompanhassem e conduziram-nos para a entrada da boate.

Lá dentro, Vera nos aguardava com um sorriso e um abraço. Estava em uma área restrita do lugar. Uma espécie de camarote, guardado por vários seguranças, semelhantes aos que nos foram buscar lá fora.

Acomodei-me por ali e fiquei observando o movimento. A todo o momento passavam garçons com bandejas repletas de latas de cerveja e drinks coloridos. Sem saber que tipo de bebida os tais drinks continham, preferi a segurança da cerveja.

Algum tempo depois, o fornecimento de cerveja foi suspenso, chegando a mim a informação de que, em toda a Flórida, a venda de bebidas alcoólicas era proibida de zero hora ao meio dia do domingo (nunca tentei confirmar isso).

A partir daí, o lugar começou a esvaziar-se lentamente. Vera já tinha ido embora bem antes. Ricardo sinalizou para irmos também. Pedi a um dos garçons que me orientasse sobre como fazer o pagamento das cervejas que havia consumido, mas ele me respondeu que eu não precisaria pagar nada. Falando em inglês, disse algo que me pareceu significar:

– Não precisa pagar nada. Todos aqui são convidados do Chefe!

Apontou para um homem ao fundo daquele espaço VIP e disse:

– Look there! He’s The Boss!

Em seguida, talvez por ter percebido meu sotaque e minha aparência latina, completou:

– Un gran hombre. El Patrón! – e afastou-se.

Como o tal “Patrón” estava cercado por muita gente, não consegui ver seu rosto. Reparei bem que era o único usando roupas de cor clara, provavelmente branca, nada mais que isso. Em meio àquele aglomerado de pessoas, a aproximação, para colher mais detalhes, era difícil. A iluminação também não ajudava.

Fomos embora e nunca perguntei nada a Ricardo sobre aquela noite, mas até hoje me pergunto se aquele homem da boate, chamado “The Boss” ou “El Patrón”, tinha alguma relação com a nossa conversa do almoço.

Alguns dias depois, retornei ao Brasil.

(*) Esta é uma obra de ficção. Tanto as datas como os nomes verdadeiros de pessoas e lugares foram incluídos para dar mais apelo dramático ao conto.



AS PROVAS

Um amigo perguntou: – Cadê as provas?
E eu, então, lhe respondi: – Meu caro amigo,
Fique certo que elas não estão comigo.
Tenho aqui só uns sonetos e umas trovas.

E, acredito, não estão também contigo,
Nesse assunto, eu e tu somos incautos.
Se há provas, elas devem estar nos autos,
Com quem deve decidir crime e castigo.

Para isso há os juízes, afinal,
Dedicados a aplicar a lei penal.
Em qualquer democracia é desse jeito.

Se negarmos tal mister aos tribunais,
Por temermos que eles sejam parciais,
Quem irá dizer o Justo e o Direito?



O SORVETE

Edmilson saiu de casa com um único e específico propósito: tomar um sorvete no shopping próximo de sua residência.

Era domingo. Havia almoçado o resto da pizza do sábado à noite, com a sobra do refrigerante de dois litros que viera no combo. Programação gastronômica comum, desde que se separara da mulher, três meses antes. No fim das contas, até que a calabresa dormida estava saborosa. O refrigerante é que havia perdido o gás e se transformado, basicamente, em água com açúcar.

Terminada a refeição, veio a vontade irresistível de tomar o sorvete. Não qualquer sorvete, mas o daquela sorveteria do shopping. De pistache.

O próprio Edmilson estranhou aquele desejo por sorvete de pistache. Lembrou que, quando era casado, por muitas vezes, a mulher reclamara pelo fato de ele continuar bebendo depois do almoço de domingo. Às vezes, o hábito adentrava pela noite, até que ia dormir bêbado, quando ela queria que fossem ao cinema ou… a uma sorveteria.

Naquele domingo, Edmilson poderia ter bebido à vontade, mas não havia consumido nenhuma bebida alcoólica. E tudo o que desejava era um sorvete de pistache.

Chato era ter que vestir uma roupa, descer ao subsolo, tirar o carro da garagem apertada e dirigir por uns dez minutos. Afinal, o shopping era perto do seu prédio, mas não o suficiente para fazer o percurso a pé. E tinha a intragável parte de entrar no estacionamento do shopping, procurar uma vaga, pagar, sair e fazer todo o percurso de volta. Um estorvo para alguém que, naquela preguiçosa tarde de domingo, só tinha como compromissos ver um jogo de futebol qualquer, na TV, e esperar a segunda-feira, para voltar ao trabalho.

Mas a vontade de tomar sorvete de pistache venceu todos esses obstáculos. Logo, Edmilson dirigia seu carro em direção ao shopping. No percurso, pensamentos estranhos – mais estranhos que o desejo por sorvete de pistache – tomaram-lhe a mente de assalto.

Enquanto guiava, observava o vazio das ruas na tarde de domingo, contornado pelos muros e portões fechados das residências. Dentro daquelas casas e prédios de apartamentos, homens, mulheres e crianças refugiavam-se da violência exterior; parentes desentendiam-se por razões políticas; gente que não se conhecia trocava ofensas em seus computadores, conectados a redes sociais.

Ao parar em um semáforo, percebeu que um homem dormia sob uma marquise, envolto em trapos e tendo como cama apenas pedaços de papelão. Alguns pombos caminhavam por ali, bicando o chão, como é costume entre as tais aves da família Columbidae.

Misturando cenas reais com pensamentos, Edmilson prosseguia executando movimentos automáticos. Acelerando, freando, mudando as marchas do carro, como se o corpo seguisse sozinho o seu caminho, enquanto a mente vagava livre, em outra dimensão.

Tomado por essa espécie de transe, Edmilson percebeu-se já na fila do caixa da sorveteria. Ali, espantou-se com uma sensação de medo, que o envolveu.

Tinha medo de olhar nos olhos das pessoas e ser mal interpretado. Medo de falar com as pessoas e ser mal compreendido. Medo, apenas. Medo até de que o shopping viesse abaixo e todos ali morressem soterrados.

Com a voz trêmula, fez o seu pedido à moça do caixa. Um sorvete de três bolas, embalado para viagem.

Queria sair dali. Tomar seu sorvete em casa. Sozinho.

– Quais os sabores? – quis saber outra moça, a do balcão.

– Pistache.

– Só? O senhor pode escolher três sabores…

– Não! Só pistache.

Recebeu a embalagem de isopor e saiu dali o mais rápido que pôde. O pensamento de que tudo poderia desabar era, agora, quase uma certeza. Caminhava depressa, com medo de encontrar alguém conhecido e ter que parar para conversar.

No percurso de volta para casa, imaginava o shopping já desabando, transformando-se em escombros e poeira. Talvez tudo devesse desabar mesmo. Não apenas o shopping, mas o mundo inteiro. Com suas dores, seus sofrimentos, sua violência. Quem sabe, um novo mundo pudesse renascer das sobras. Sem a humanidade, talvez…

De volta ao apartamento, Edmilson sentou-se em frente à TV, sintonizou no canal do futebol e abriu a embalagem do sorvete. Pôs uma colherada bem generosa na boca e sentiu o gosto gelado de pistache espalhando-se pela língua, pela gengiva, pela parte interna das bochechas…

Lentamente, pôs a embalagem de sorvete e a colher sobre a mesinha de centro à sua frente e pensou: “Bendita seja a pessoa que fez esse sorvete. Nem que seja só por causa dela, a humanidade merece uma segunda chance! É o melhor sorvete que já tomei na vida”.

– É… e talvez eu também mereça uma segunda chance… – disse, em voz alta, como se, mais que fazer uma reflexão, precisasse ouvir aquelas palavras.

Ao se preparar para dormir, Edmilson estava extremamente calmo. Pela primeira vez, desde a separação, admitiu para si mesmo que a solidão não lhe estava fazendo bem.



UM ABORRECIMENTO

O velho legionário estava cansado de tantas batalhas. Tinha o corpo marcado por cicatrizes, algumas ainda doloridas. A memória cheia de rostos aterrorizados e corpos arquejantes. Vítimas da sua própria espada.

Finalmente dispensado da legião, vestia roupas civis pela primeira vez, depois de anos de luta. Sentado em uma pedra, à beira da estrada que levava a roma, tentava pensar no futuro:

– Queria um pouco de paz… – chegou a dizer a si mesmo em voz alta.

Nesse exato momento, saiu da mata um homem com um machado. Era um dos muitos salteadores que havia por ali. Um ladrão. Ameaçou o velho, intentando tomar-lhe o escasso dinheiro que trazia na algibeira. Uma pequena indenização que recebera ao deixar a legião.

Sem gládio, escudo ou armadura, o legionário sacou seu velho púgio. Esquivou-se da lâmina do machado e, com agilidade surpreendente, estraçalhou a garganta do seu oponente com um único golpe de punhal.

O corpo do homem ficou caído ao chão. O sangue que jorrava da jugular era rapidamente absorvido pela terra seca.

Para o bandido, foi o fim da história. Para o velho legionário, um aborrecimento.

Um púgio. Foto obtida em arcobesta.com