E O AMOR SAIU PELA JANELA (11): ADERBAL, QUEM LHE MANDOU?

Dito e Dita num ponto sempre concordaram. Aqui se faz. E aqui se paga. Caro.

Aderbal pagou.

Não por falta de aviso, porque Benedita, a Dita, filha do velho Dito, nunca foi mulher de mandar recados. Nem de ameaçar. Censurava Aderbal com o olhar certeiro, certo? Quem tivesse tino que entendesse. Do contrário, amargaria a solidão.

Aderbal não entendeu picas. Morreu só.

Pobre Aderbal.

Aderbal não acreditou nos avisos que não vieram por escrito. Só por olhares.

Aderbal, homem antigo, só acreditava no que estava escrito. Prova disso é que jogava no bicho.

Aderbal se embriagou, achou que o fígado e a paciência de Dita seriam para sempre.

Aderbal – um homem de tino miúdo. Não mau, necessariamente. Criou filhos. Deu-lhes o conforto possível. Trabalhou pra cacete. Aderbal, tolo.

Depois que tomou o pé na bunda, Aderbal percebeu que não eram para sempre a paciência de Dita e o fígado. A solidão é fogo bravo. Aderbal foi ao limite. Que graça viver, se o amor acabou?

Aderbal morreu atropelado. De tanto beber.

Dita encomendou uma missa pela paz que Aderbal nunca teve em vida.

Deus é pai, Aderbal.

O CEGUETA DO BAIRRO

Míope que só, Fernandinho devia ter nascido com óculos. Mas, até o momento de se apresentar ao Exército para o alistamento obrigatório, ele não tinha noção do quanto enxergava mal. Até então, para Fernandinho, as coisas da vida e as pessoas eram assim: todas nebulosas, meio embaçadas, quase sem graça.

O caldo entornou de vez, quando teve que fazer exame para obter a carteira de habilitação – sonho de consumo da moçada da época, passaporte (quase) obrigatório para conquistar uma namorada bacaninha. Naquela época, as meninas mais interesseiras – e interessantes – eram chamadas de “gasolina”. Só saiam com quem tinha ao menos um carrinho. No dia do exame de vista, Fernandinho não conseguiu avistar a placa com as letras; as letras, então, nem pensar. Tomou um baita esporro do oculista, como se fosse o culpado por sua deficiência visual.

Fernandinho topava tudo para ganhar o direito de dirigir o Fusca que a avó paterna lhe dera – menos uma coisa: usar óculos com lentes de fundo de garrafa, como os que mãe e pai usavam. Temia ser chamado de cegueta. Que diabos! Tinha feito regime, adquirira cintura de toureiro espanhol; seus cabelos eram lisos, longos e sedosos. Não era lindo, mas também não assustava ninguém. Óculos com lentes grossas e esverdeadas? Não, não e não. Nem pensar.

Não se tem notícia de que alguém tenha sofrido tanto para se adaptar às lentes de contato como ele. Vivia com os olhos vermelhos e lacrimosos. Não foram poucos os que o tomaram por maconheiro. Paciência. Depois de alguns anos, ele se adaptou às malditas lentes. Décadas depois, porém uma grave doença ocular lhe roubou o sonho – e lhe presenteou com os malditos óculos.

A miopia, como se sabe, deixa sequelas, afeta a personalidade das pessoas. Nosso herói não passou incólume pelo infortúnio de enxergar mal.

Há dois tipos básicos de míopes. Uns são sorumbáticos, andam sempre de cabeça baixa, falam pouco e num tom inaudível, não cumprimentam ninguém. Alguns os tomam por intelectuais e/ou arrogantes.

Outros míopes são o exato oposto. Expansivos, na dúvida, eles cumprimentam com entusiasmo tudo e todos que atravessam seu caminho nebuloso – de desconhecidos a postes, passando, claro, por manequins de lojas. Como abanam as mãos, os danados.

Fernandinho engrossou o time dos alargados. Hoje, já homem velho, ainda convive com os fantasmas das lentes de fundo de garrafa. Não há quem não o conheça no bairro onde nasceu, criou-se e, salvo engano, vai dormir de sapatos. Basta sair às ruas, para que todos comentem: “Lá vem o velho cegueta e idiota, o que abana para todo mundo”. Fernandinho morde-se por dentro. Mas fazer o quê?

PEDIU, LEVOU

Naquele final de tarde de segunda-feira, o Bar do Carneiro estava literalmente às moscas – aliás, como sempre acontece nas ocasiões em que a data de pagamento coincide com o início do “feriadão”. Em vez de quitar o que deve, a turma se manda para a Praia Grande, litoral Sul de São Paulo. Ainda mais se a meteorologia garante que os quatro dias pela frente serão de calor e sol, sem risco de chuvas. E o pobre do Carneiro que se dane com os fiados.

O raciocínio dominante entre os muitos devedores – se é que se pode chamar de raciocínio o que é mera lambança – parece ser o seguinte: “Ele é comerciante, empresário, pode esperar. E a gente também tem o direito de se divertir com a família, ou não?”. Carneiro já se acostumou com isso. Seus fornecedores, infelizmente, não. Querem o seu. Carneiro que se vire. E ele, coitado, se vira. Tudo o que não pode é perder o crédito na praça.

Na mesma mesa de sempre, o Velho Marinheiro e Ananias. No balcão, a prosear com o proprietário da espelunca, um desconhecido por todos. O sujeito, provavelmente, estava de passagem. Ou acabara de se mudar para uma das ruas estreitas e íngremes da Vila Invernada. Ninguém o conhecia. A paz de cemitério foi interrompida com a chegada de Edivaldo Serrote – um dos pidões mais manjados da redondeza, mestre na arte de aporrinhar os outros, insistente que é.

Serrote pediu a Carneiro uma lata de cerveja, uma cachaça e um cigarro solto made in Paraguai. Queria – para não variar, claro – pendurar a conta, àquela altura já salgada. De pronto, o dono do estabelecimento, movido por uma coragem por todos desconhecida, descartou a ideia: “Não vendo mais cigarro fiado nem que seja um só e por apenas um dia. Favor não insistir”. Preservou o mata-rato, mas não impediu que a conta do cara-de-pau aumentasse, por conta da cachaça e da cerveja concedidas. Ou seja: o “não” de Carneiro nada mais que um “não” pela metade.

Serrote, então, dirigiu-se ao ilustre desconhecido. Seu pedido deu em nada. O homem demarcou o terreno. Antitabagista radical, disse que jamais pusera uma “porcaria dessas na boca”. E ainda desandou a falar: “Sabe qual é a melhor definição de cigarro?” Ante o silêncio dos poucos presentes, deu ele mesmo a resposta: “Cigarro é um pequeno cilindro com uma brasa numa ponta e um idiota na outra”.

O pidão profissional olhou para a única mesa ocupada, sabia que suas chances de sucesso eram mínimas, para não dizer nulas. Mesmo assim, resolveu arriscar:

– Velho Marinheiro, mestre dos mares, o senhor tem um cigarrinho para me arrumar? Só por hoje. Os meus acabaram de acabar.

– Tenho, Serrote, mas não vou lhe arrumar coisa nenhuma. E sabe por quê?

– Não.

– Porque você não se emenda. Crie vergonha na cara, vagabundo. Pare de fumar. Se não for pela saúde que a cachaça já lhe roubou, que seja para não encher mais o saco dos outros. Com licença. Vá vender seu cinismo em outra freguesia. Antes disso, acenda o maldito cigarro que está atrás de sua orelha direita. Ou então saque um do maço que você carrega no bolso esquerdo da calça. E, agora, nos dê licença.

Edivaldo Serrote foi serrar em outras freguesias.

QUASE HISTÓRIAS

PAGUE, LEVANTE E ANDE!

– Não quero menosprezar seu trabalho, pastor. Longe de mim uma barbaridade dessas. Mas, se eu tivesse todo esse dinheiro que o senhor me pede para que Jesus me cure, tinha ido ao médico. Quero minhas muletas de volta.

***

IDADE DE CRISTO

Meus olhos marejam por qualquer coisa. Sinto saudades de uns e outros, de todos. Acabo de me lembrar de tio Antônio, das festas em sua casa, festas de final de ano. Menino, eu comia até passar mal. Fartura: frutas, doces, coisas que nem sempre a gente tinha em casa, apesar do esforço do pai e da mãe. No dia 1º de janeiro, depois da comilança, tinha jogo de tômbola. 22 = dois patinhos na lagoa; 33 = idade de Cristo. E por aí íamos, felizes. Sinto saudades do jipe, quase pau de arara: levava oito: tio Antônio ao volante, pai, mãe, minha irmã, tia Laura, meus primos, todos de carona. Coisa boa ir ao piquenique de jipe.

***

TPM

As mulheres poderiam ser perfeitas. O que as “apequena” é a dita cuja. Sempre mais fortes que os homens, se livram do “problema” em poucos dias. E nós carregamos o trauma daqueles poucos dias para o resto da vida. Sabe o que é uma existência constatando o óbvio: mês que vem tem de novo. Passou da hora de nós criarmos uma ONG em prol das vítimas dos nervos arruinados: nós, os homens.

RAPIDÍSSIMAS

CAFÉ NO BULE

Bem quentinho é como lampião de gás. Quantas lembranças ele nos traz.

PAI E MÃE

Eles sempre deixam saudade medonha. Um dia chega a hora de partir. E eles partem. Sem nos deixar endereço ou telefone. Não há tempo nem idade que aplaquem a dor no peito – dor que vai e volta, feito ioiô de porre.

NA DÚVIDA

Fique calado, esboce um sorriso enigmático, faça cara de conteúdo. O único risco é que o tomem por gênio.

INADIMPLÊNCIA

Aqui se faz. Aqui se paga. Quando sobra dinheiro para pagar, claro.

APARÊNCIAS

Não bastava ser honesta. A mulher de César tinha que parecer honesta. Por aqui, infelizmente, a maioria dos nossos “representantes” não parece honesta. Nem é.

SÁBIOS

Defuntos dispensam choros, velas, flores e caixão de qualidade superior. Não estão nem aí com essas coisas mundanas.

SE FOR VERDADE

Tudo bem, tudo bem. Só os incautos levam a sério falação de político. De qualquer forma, nunca é demais lembrar que muitos deles batem no peito e dizem em alto e bom som: “O Congresso é a cara do povo”. Se isso for verdade, a conclusão é inescapável: Somos uma m…

PRÉ-CONDIÇÕES

Para viver no Brasil, não basta ter nervos de aço e paciência de Jó. É preciso ter um saco imenso.

NUVENS

Minha fé é miúda. Já lhes disse isso. Não me orgulho disso. Mas hoje estou meio feliz. Só meio. Logo cedo, as nuvens desenharam um coração. Acreditei. Precisava acreditar.

LETALIDADE

Ora, dificuldades não matam ninguém. Mas a falta de perspectiva é cicuta na veia.

A ÉTICA DO CRUZ-CREDO: O VENDEDOR DE ATESTADOS

Em pouco tempo, Paulinho, perdão, doutor Paulo Gonzalez, enricou. Aprovado num concurso público promovido pela Prefeitura, ele se mudou para uma cidade de porte médio. Meses depois, montou o próprio consultório. Logo em seguida, também passou num concurso público do governo do Estado, para trabalhar no mesmo município. Só os profissionais que atuam na área da Saúde e Educação, como se sabe, podem ter simultaneamente dois empregos públicos. No começo, Paulinho, como o chamam familiares e amigos de adolescência, ralou uma barbaridade. Não tinha tempo para nada. Sua vida era só trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Com o passar dos meses, Paulinho resolveu dar ouvidos aos colegas mais experientes. Cansado de dar murros em ponta de faca, passou a marcar o ponto de entrada e o de saída nos dois empregos públicos. Nesse meio tempo, ia cuidar da vida. Pedia às secretárias para que concentrassem as consultas em um ou dois dias da semana, no máximo. Passava boa parte do tempo em seu consultório particular. Em caso de emergência, lhe avisavam pelo WhatsApp – e ele ia de moto, zunindo, para seu posto de trabalho. Que o paciente esperasse um pouco. Ora, ninguém morre de véspera.

Mas o consultório, por mais que Paulinho ali permanecesse, por mais que distribuísse cartões e fizesse propaganda nos jornais locais, cambaleava. Clientela miúda. As consultas, raras, mal davam para pagar as despesas. Novamente, o doutor deu ouvidos aos colegas mais experientes. Deixou de lado a veleidade de ser um grande médico, sonho da família e dele próprio, e passou a vender atestados. Hoje, dá gosto de ver aquela movimentação. Um entra e sai de gente que não cessa, de segunda a sexta. A demanda é tanta que Paulinho resolveu dar um passo além. Deixa uma série de atestados já carimbados e assinados. Um funcionário de sua confiança, vestido de branco, encarrega-se de receber o dinheiro em troca do papelucho carimbado e assinado por Paulinho, perdão, por doutor Paulo Gonzalez.

QUASE HISTÓRIAS

O DAN ERA MENINO

E o velho sábio descascava laranjas sem quebrar a casca. Contava histórias, tirava a pele sem ferir o gomo, retirava as sementes, aguçava o apetite. Fazia aquilo por puro prazer. Com a calma de monge. O pequeno Dan se deliciava. E nós também. Aquilo tinha gosto de pomar.

***

DIÁLOGOS PERTINENTES

– Você sabe por que não temos manteiga nem margarina no pão? Você sabe por que não nos servem frutas nem sobremesas? Por que em vez de café tomamos chá?

– Não, não sei.

– Devia saber. Você é metido a sabichão.

– Ora, não seja besta. A clínica não nos serve nada disso para economizar. É evidente.

– Engano seu. Não é nada disso.

– Então, o que é?

– Aqui, eles seguem uma pedagogia da hora. É para que a gente valorize o que tinha em casa e não dava bola. Entendeu?

– Claro que sim. Vai ver que é por isso que ainda não tenho – depois de vinte dias de internação – travesseiro, fronha e coberta. Vai ver que é por isso que a comida que nos servem tem um jeitão de lavagem.

***

OS MELHORES AMIGOS

São os de quem gosto, apesar de seus defeitos e vícios. São muitos? São poucos? São velhos? São novos? São reais? São virtuais? Que importa? São os de quem gosto, apesar de seus vícios e defeitos. A maior parte deles só existe na minha imaginação. E isso já me basta.

O FÍGADO É PÉSSIMO CONSELHEIRO

Foi uma bonita história de amor. Claro, houve momentos ruins – momentos de tensão, tédio, agressões verbais e de tudo mais que, cedo ou tarde, passam a fazer parte de qualquer relacionamento longevo. Lua de mel não dura para sempre. Quem diz o contrário mente. Ou nunca conviveu com um (a) companheiro (a) por muito tempo. O desgaste é inevitável.

Após duas décadas de relacionamento, Joana estava para lá de farta dos defeitos e vícios de Alceu, que, a bem da verdade, não eram poucos. Alceu, por sua vez, já não tolerava mais as manias de Joana (vícios ela nunca teve) nem aquela sua presunção de estar sempre com razão, independentemente do tema em discussão. As rusgas viraram bola de neve. Tudo era motivo para alterações.

Um dia, após meia dúzia de discussões pesadas, Joana recolheu suas coisas, fez as malas e se mandou para a casa de um dos filhos. Deixou Alceu a ver restos de navios – navios que ela queimara para não cair na tentação de voltar atrás. Sim, porque antes de picar a mula, movida sabe-se lá por quais sentimentos, Joana fez questão de espalhar para a família, amigos e vizinhos os vícios e defeitos de Alceu. Ora, quem conta um conto sabe-se… Os vícios e defeitos de Alceu, que já não eram parcos, tornaram-se enormes.

Alceu não deixou por menos. Queimou todas as pontes que estavam ao seu alcance. Falou mal de Joana para fulano, beltrano, sicrano e para todos os que se dispusessem a ouvi-lo. Segundo ele, era a única forma de se defender das calúnias, difamações e da ira da ex-mulher.

Ambos, no fundo, sabiam que haviam exagerado nas críticas, que tinham raciocinado com o fígado. Afinal, se os dois fossem tão ruins assim, o casamento não teria durado tanto. Lesos eles não eram. Como negar que, ao longo do tempo, desfrutaram de muitos e bons momentos? Familiares, amigos e vizinhos poderiam atestar isso –, muito embora os vizinhos, amigos e familiares prefiram, ainda que inconscientemente, reter na memória e na língua os piores momentos da vida alheia.

Com o passar do tempo, Joana e Alceu, cada qual no seu canto, passaram a se corresponder diariamente, via WhatsApp. Falavam de amenidades, dos filhos, dos netos, do cachorrinho traquinas que uma das noras tratava como se fosse criança de colo. Às vezes, Joana e Alceu ensaiavam falar do que, de fato, importava. Não iam além de insinuações. O fato é que Joana ainda gosta de Alceu. A recíproca é verdadeira. Mas como voltar, se cada um a seu modo – ela queimando navios, ele destruindo pontes – fez estrago medonho na imagem do outro? O que dirão os familiares, amigos e vizinhos? No mínimo, que os dois não têm vergonha na cara. Joana e Alceu seguem infelizes. Cada qual no seu quadrado. Mas com vergonha na cara.

A ÉTICA DO CRUZ-CREDO: A MERENDEIRA

A vida de Ivani mudou da noite para o dia. Hoje, não há espaço vazio na pequena despensa de sua casa. Dá gosto de ver. A geladeira também está sempre cheia. Os três pequenos estão bem gordinhos, quase obesos. Ela e Nonô também engordaram um bocado. Ivani agradece a Deus todos os dias por ter lhe arrumado um emprego de merendeira na escola do bairro. O salário é coisa miúda, mas vale a pena. Vejam lá. Ela não perde muito tempo entre a casa e a escola nem paga condução. Motoristas de ônibus podem fazer greve que ela não está nem aí. Vai a pé para o trabalho. E nunca volta de mão abanando.

No início, ela ficava constrangida de levar para casa parte dos alimentos destinados às crianças da escola, todas pobrezinhas. Mas, depois de muito refletir, chegou às seguintes conclusões:

1. Ora, se as crianças da escola são miseráveis, seus filhos também o são, também carecem de boa alimentação.

2. Não foi ela quem tomou a iniciativa de surrupiar os alimentos da escola. Muita gente já fazia isso – e há muitos e muitos anos.

3. Sozinha, não tem condições de impedir a lambança. Ao contrário. Ante sua recusa inicial de carregar os mantimentos, os colegas de trabalho e furto começaram a vê-la como uma espécie de dedo-duro em potencial.

4. Se todo mundo faz, porque ela não faria? Ninguém é completamente abestalhado.

5. E mais: safado mesmo é o responsável pelo setor. Ele põe a assinatura num papelucho que diz ter sido entregue um tanto de mercadorias, quando, na verdade, chegou pouco mais da metade, se tanto.

6. Por fim, sempre que o prazo de validade está prestes a vencer, Ivani faz questão de vender para os vizinhos os produtos por 20% do preço cobrado pelo mercadinho da esquina. É uma forma de ajudar os necessitados. Quando, por descuido, deixa vencer o prazo de validade, dá os produtos de graça à vizinhança.

Devota de São Francisco acredita que é dando que se recebe. Sente orgulho de ajudar os que mais precisam.

QUASE HISTÓRIAS: O NÁUFRAGO

Uma ilhota cercada de idiotas e prepotentes por todos os lados. Era assim que se sentia. O que mais desejava era sair dali, rapidinho, feito pé de vento.

Mas, como? Não dispunha de papel, caneta e garrafas para lançar mensagens ao mar. Ainda que tivesse garrafas, caneta e papel, não daria certo. Como lançar às ondas, do alto de penhasco, seus rabiscos, se não podia ir até o penhasco, proibido que estava de sair da cela, exceto para tomar banho de sol três vezes por semana? Pedir ajuda a quem?

Nesses anos de reclusão, não conseguiu identificar pessoa em que pudesse confiar a guarda e o destino das garrafas que não tinha. Só lhe restava rezar por um milagre com a fé miúda de sempre. Era o que tinha.

RAPIDÍSSIMAS

GALO

Seu canto é certo. Já não se pode dizer o mesmo dia que se avizinha.

A VIAGEM

Embora inesquecível, precisa ser esquecida. Para sempre.

SEM RETORNO

Reatar como, se você queimou todos os navios?

O BEM-AMADO

Muitos choraram copiosamente no dia em que ele partiu. Quando ele voltou, derramaram lágrimas. As primeiras foram de alegria; as últimas, de raiva.

CULTOS

Menos circo, mais espiritualidade.

PEQUENOS PODERES

A maioria dos homens jamais terá noção do quanto é ridícula.

CELA 45

Pior que as grades é a convivência forçada.

PIOR DOS MUNDOS

Duro mesmo é se dar conta de que seu destino depende da boa vontade de seu algoz.

TAL E QUAL

Deus e os números têm algo em comum: não mentem jamais. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de quem os interpreta.

PARTILHA

Ora, como bem disse Paulo, o santo, nem tudo o que posso me convém. Por analogia, nem tudo o que me falam tem serventia.

QUASE HISTÓRIAS: A BIQUEIRA

Os vizinhos de longa data estavam inconformados. Vladimir, filho de dona Maria e de seu João, rapaz criado no bairro, voltara a ser internado na véspera, menos de dois meses após ter saído da clínica de tratamento para alcoólatras e dependentes químicos. Com 25 anos de idade, Vladimir tem um caminhão de internações (seis, com a atual) nas costas. Seu currículo não lhe serve para nada, mas sua folha corrida lhe fecha todas as portas.

Desde cedo, o filho de dona Maria e de seu João consome em doses industriais cachaça ordinária, crack, cocaína e tudo mais que lhe aparecer à frente. Para tanto, não mede esforços: furta, rouba, trafica, falsifica cheques etc. Vendeu diversos objetos dos pais, passou nos cobres a motocicleta do irmão caçula, dublê de entregador de pizza e office boy. Afinal, o vício em primeiro lugar. Ainda não caiu nas garras da Justiça, mas está jurado de morte por mais de um traficante.

A vida de Vladimir fora das clínicas tem rota conhecida: casa – bar – biqueira; biqueira – bar – casa. Frequentemente, some por duas, três semanas. Faz da cracolândia seu amargo lar. Dona Maria e seu João nunca sabem se ele está vivo ou morto. Os velhos já não acreditam em recuperação. A razão que os leva a internar o filho de novo é evitar que ele morra de overdose, de bala de bandido ou de tiro de polícia.

As recaídas de Vladimir são cada vez mais intensas. Quando sente o peso da barra, ele pisa no acelerador: bebe, cheira e fuma sem descontinuar. Não há quantidade que satisfaça sua fissura. Então, ele furta, rouba e trafica no mesmo ritmo alucinante. Inconscientemente, ele força a barra para ser internado. Nas clínicas, em pouco tempo, passa a comer feito leão (a falta de drogas precisa ser compensada de alguma maneira), ganha peso, exibe seus conhecimentos sobre os doze passos e as reuniões dos Narcóticos Anônimos. Vive a repetir, em alto e bom som, orações e expressões como “Glória a Deus” e “Aleluia”.

Brincalhão, não reclama de nada, faz da clausura involuntária um spa para gente de posses poucas, como ele e família. Nos cultos evangélicos, canta, toca violão, lê a Bíblia, simula entrar em transe ante “a palavra do Senhor”. Participa ativamente dos shows da fé. Nos momentos de orações, que precedem as cinco refeições diárias, agradece a Deus por ter lhe enviado a uma “casa como esta”. Amém.

Não há dia em que o filho de dona Maria e seu João não repita “n” vezes que está recuperado – muito embora não se esqueça da cachaça, da cocaína, do crack e da maconha. Adora funk e tatuagem. Diz para quem se dispõe a ouvi-lo que não sossegará enquanto não cobrir todo corpo com imagens de muitas cores e formatos.

Terminada a internação, Vladimir volta para casa com muitos quilos a mais. Por economia e estratégia de marketing, as clínicas de recuperação – que na verdade recuperam poucos (segundo a Organização Mundial da Saúde, só 3%, em média, não voltam a reincidir) – abusam dos carboidratos. Quem era pele, osso e pó vira gorducho. Ainda que não queira. Muitos ainda acreditam que bochechas vermelhas e quilos a mais são sinônimos de saúde.

Vladimir não foge à regra. Diz que a atual será sua última internação, que não volta mais para um lugar daqueles, que já planejou uma nova vida, que nunca mais decepcionará mãe e pai, que quer cuidar do filho pequeno etc. Mas, antes de colocar em prática seus muitos planos, vai dar um instante no bar e uma passadinha na biqueira. Para dar adeus à velha vida.

QUASE HISTÓRIAS: EREÇÕES

Ananias estava a mil por hora, agitadíssimo, quase irreconhecível, tímido que sempre foi. Nunca falara tanto e sobre tantas coisas como naquela tarde fria de outono.

– Velho Marinheiro: tenho que lhe dizer algo. Não sei se viverei tanto tempo como o senhor…

– Nem queira.

– Mas, se viver, com certeza, eu não terei sua saúde, seu vigor, sua sabedoria e experiência.

– Meu caro, tenho mais dores do que você imagina. Meu vigor, perto do que tive no passado, é pinto. Quanto à minha experiência e sabedoria, palavras suas, quero lhe dizer uma coisa: trocaria ambas, sem pestanejar, pelas ereções que tinha aos trinta anos.

QUASE HISTÓRIAS: HORAS MORTAS

Há quem as amaldiçoe. Eu não. Para mim, cuja opinião pouco ou nada vale, elas são as melhores horas. O telefone não toca, o WhatsApp cochila, a campainha não dá sinal de vida, as vozes da casa dormem o sono possível. Até o galo, sempre atento e arisco, finge-se de morto. As ruas sem gente me dão uma sensação rara e indescritível de liberdade. Claro está que liberdade plena não há. Mas nada é perfeito. Ainda bem. Que graça teriam nossas raras virtudes, sem nossos inúmeros defeitos? Vida insossa, penso eu, a dos candidatos a santo.

Como companhia, nas melhores horas, eu tenho apenas os velhos fantasmas de sempre. Deve ser assim com todo mundo. Ou, ao menos, com quem se dispõe a curtir as horas mortas. No passado, os fantasmas me assombravam. O tempo – sempre ele -, no entanto, mudou minha percepção. Hoje, somos quase íntimos, quase amigos – cúmplices com certeza. Às vezes, eles debocham de minhas poucas ideias. Sabem que, logo, logo, eu as abandonarei no meio do caminho para que ressurjam amanhã como se fossem novidades.

Do futuro espero pouco – o que também não me chateia. Planos são para os jovens, para quem ainda tem uma longa estrada pela frente. Ou, então, para os que fazem de conta que a tem. Iludir-se é uma maneira de sobreviver, uma forma de tocar o barco sem remar. Não os recrimino. Cada um que faça da vida o que bem quer.

Já remoí muito o passado. Hoje, não. O bandido mais machuca que ensina. Procuro me concentrar nas boas lembranças, nem sempre consigo. Mas, em geral, aproveito as horas mortas para sorrir ou chorar. Raramente gargalho. Rabisco palavras e setas. Com as últimas, hábito antigo, eu talvez busque uma saída improvável, embora não saiba para quê nem por quê. Com as primeiras, escrevo besteirinhas que, cedo ou tarde, pouca gente lerá. E ainda dizem que a maior parte dos homens não tem bom senso.

QUASE HISTÓRIAS: O RESGATE QUE NÃO HOUVE

Vem, não vem? Não vem. Vem, sim.

A dúvida lhe martelou os miolos por muito tempo, sobretudo nos primeiros dias – tempo de profunda angústia, ansiedade, medo. Tempo de nenhuma certeza. Não conseguia vislumbrar nada além de pontos e mais pontos de interrogação.

Claro que ela vem buscá-lo. Afinal, foram décadas de relacionamento, ora paradisíaco, ora conflituoso. Uma história tão longa, cheia de boas (e más) recordações, não se joga no lixo como se fosse uma bola de papel.

Mas, e se as brigas verbais e violentas dos últimos anos falassem mais alto – uma possibilidade nada desprezível? O fígado, como sabemos, é péssimo conselheiro. A família – filhos à frente – buzinava sem cessar na cabeça dela, sempre aberta ao rancor e blindada contra qualquer possibilidade de lembrança dos bons momentos. Além do que, não é nada desprezível o fato de desfrutar do conforto de ter marido vivo, confinado involuntariamente – e por tempo indeterminado – numa clínica de recuperação. Sai mais barato bancar o pagamento da clínica que custear os vícios das ruas. A pressão dos diretores da instituição, todos mais preocupados com os ganhos econômicos que empenhados no bem-estar dos clientes, não deve nunca ser desconsiderada.

Ela não veio resgatá-lo. Depender da boa vontade alheia, sobretudo de quem não prima por escrúpulos, equivale a entregar o destino nas mãos de seus algozes.

RAPIDÍSSIMAS

FEITO GALINHA

De chavão em chavão, o orador enche o saco.

ORGANIZAÇÃO TABAJARA

Ali, uns ascendem, outros decaem. E a incompetência coletiva continua a mesma.

BOM CONSELHO

Ouço com a máxima atenção tudo o que você me diz. E faço contrário. Tem dado certo.

CARA DE CONTEÚDO

Por trás daquela fachada circunspecta jazia um imbecil juramentado.

IDIOTIA

O Ministério da Saúde adverte: essa praga é incurável e altamente contagiosa.

QUER SABER?

Sua opinião, felizmente, já não me importa mais. Há tempos.

RESILIÊNCIA

– Querida: você me roubou a liberdade. Mas não pode me impedir de tentar reconquistá-la.

NÃO SE FIE

Poucos suportam ouvir verdades. Por isso, cedo ou tarde, lhe darão o troco. Covardemente.

PERDAS

De todas elas, a de que mais me ressinto é a falta de privacidade.

ELE
A quem só fala em Deus falta tempo para colocar em prática seus ensinamentos.

QUASE HISTÓRIAS: O TOMADOR DE DINHEIRO

Sempre foi um sujeito da pior espécie. Fazia jus à fama que, desde sempre, sua categoria profissional desfruta. Advogado medíocre, foi vereador e mais tarde conselheiro do Tribunal de Contas de uma grande capita brasileira. Um larápio bem-sucedido.

Certa feita, apresentou projeto de lei que obrigava os supermercados de médio e grande portes a dispor de um determinado número de vagas para automóveis e a contratar seguro para cobrir eventuais danos causados aos veículos da clientela. A iniciativa lhe rendeu espaços generosos em jornais, rádios e sites informativos. Colheu muitos elogios aqui e acolá.

O projeto passou por todas as comissões temáticas da Câmara. Quando estava pronto para ser votado em plenário, o autor tomou a decisão de pedir seu arquivamento. Ninguém entendeu nada.

Um funcionário do parlamentar – dublê de assessor de imprensa e bobo da corte –, no entanto, tinha uma justificativa para tal recuo na ponta de língua:

– Meu vereador é muito esperto. Ele apresentou o projeto a pedido das empresas de seguro. Depois, pediu seu arquivamento por pressão dos donos de supermercados. Levou dinheiro dos dois lados. Hehehe. O cara é fera.

RAPIDÍSSIMAS

VELHOS FANTASMAS

Às vezes, eles simulam um cochilo, mas, na verdade, estão sempre alertas.

MODISMO

Eis a consagração da burrice.

ORAÇÕES

Nada mais besta que rezar coletiva e mecanicamente.

EXEGETAS

Não sabem o significado das palavras que leem, mas se metem a interpretá-las.

ABSTINÊNCIA

Ela não melhora o caráter de ninguém. Mas evita uma série de transtornos. O que não é pouco.

COMIDA (1)

Do mineirinho esperto: “O come quieto almoça e janta”.

COMIDA (2)

Do Velho Marinheiro: “Quem assobia não come”.

SOLIDÃO

A mais doída é a que acomete quem vive em bando.

CHATOS

Há de todos os tipos e para todos os desgostos. Mas, cá entre nós, os “chapados de Bíblia” são invencíveis.

TUDO PASSA

Mas precisava demorar tanto?


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