Categoria: QUINCAS MACEDO – MEGAPHONE

GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – RIACHO DO NAVIO”

Riacho do Navio, caminho para o Pajeú; de lá ao São Francisco

O riacho do Navio é um curso d’água intermitente e afluente do rio Pajeú, atravessando o sertão pernambucano.

Sua fama se deve à música “Riacho do Navio”, composta por Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

O riacho recebe esse nome por causa de uma pedra – na Fazenda dos Algodões, na zona rural de Floresta-PE, que lembra um navio.

A música propõe a filosofia de voltar para o simples, quando sugere que “se fosse um peixe” trocaria o imenso mar pela simplicidade do riacho do Navio. Para isso, porém, o tal peixe, mencionando na música, teria que nadar contra as águas.

Riacho do Navio – Luiz Gonzaga/Zé Dantas, com Gonzaga

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GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – “PINDURADO NO VAPOR”

“Pindurado no Vapor”: o rock rural magistral de Sá, Rodrigues e Guarabyra

“Pindurado no Vapor” é uma das mais lindas melodias produzidas por Sá, Rodrix e Guarabyra, o ponto alto do movimento de rock-rural brasileiro. Tomo a liberdade de chamá-los de fundadores da road-music nacional, mesmo que a viagem seja de trem ou de vapor.

O trio aparece num momento pouco antes ou pouco depois, do ocaso precipitado do samba-canção, da nova onda, a bossa-nova, da música de protesto, dos festivais, da psicodelia e por aí vai.

Ecológicos de primeira hora, poetas do vento, do pó da estrada, e da madeira dos vapores, sabiam da importância das matas ciliares e da necessidade da conservação de um Brasil rural, por preservação e contemplação.

É possível que tenham deixado escola – Renato Teixeira, Almir Sater e indicado professores – Helena Meirelles – mas como eles e com tanta qualidade não vi tantos.

Sá e Guarabyra – já sem a presença fundamental de Rodrix – continuam na estrada e nos palcos, pois os rock-rural ainda não acabou.

“Pindurado no Vapor”, Sá Rodrix e Guarabyra (1973)

Em Pindurado no Vapor, os três cantores-compositores-músicos-arranjadores, descrevem uma longa e aventureira viagem no vapor Benjamim Guimarães (o úlimo a funcionar), de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a Pirapora, em Minas.

Foram cinco dias pendurados no vapor, subindo a correnteza do rio São Francisco. Ninguém registrou isso melhor do que eles..

Velho Chico: Trecho entre Bahia e Minas Gerais

O ‘Benjamim’, foi um dos três últimos dos tradicionais vapores que há mais de um século, desde 1871, singravam as águas do rio São Francisco. Na época, os vapores tinham extrema importância para o transporte de passageiros e mercadorias, atuando como forte fator de integração social e econômica no país.

Vapor que fez o trajeto Bom Jesus da Lapa-BA a Pirapora-MG

Esse tipo de embarcação se tornou parte integrante da paisagem, compondo a cultura e o imaginário popular de todo o trecho médio e alto da da Bacia do São Francisco.

Chegaram a coexistir mais de 30 vapores de linha, fazendo o trajeto de Pirapora, em Minas, até os sertões nordestinos.

Em meados do século passado, foram considerados obsoletos e antieconômicos.

Substituídos por rebocadores a diesel, foram enconstados, sucateados e desmantelados. A hegemonia do transporte rodoviário foi o golpe de misericórdia.

Para quem não conhece, vale a pena escutar com atenção o som dos meninos. Um bônus com outros trabalhos do trio:

Casa no Campo/Caçador de Mim/Espanhola

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GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – PEGUEI UM ITA NO NORTE

Dorival Caymmi (1914-2008)

Em 1945, Dorival Caymmi narra a viagem costeira a bordo do vapor “Itapé”, quando o genial baiano migrou em 1938 para o Rio de Janeiro, então capital federal, numa bela melodia “Peguei um Ita no Norte”.

A composição tornou-se tremendo sucesso, sendo gravada por cantores e cantoras da nata da música nacional.

Desta feita, porém, não vou refenrenciar ‘apenas’ a música e as históricas e maravilhosas cidades de Belém-PA, e de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ.

Foco mesmo é na viagem feita por mar, que, algum dia, em nosso país, tornou-se sinônimo de modo de viajar: “vou pegar um “Ita” para Salvador; vou de “Ita” para Porto Alegre”. Explorava a navegação mercante, entre os portos nacionais.

ITA – era o nome que designava a classe de navios, ou qualquer um dos navios a vapor brasileiros, pertencentes à Companhia Nacional de Navegação Costeira*. Faziam a chamada “cabotagem”, transportando cargas e passageiros de Norte a Sul do Brasil, na primeira metade do século XX.

Concepção artística do navio a vapor Itapagé, torpedeado pelo submarino alemão U-161, em 1943

Tinham nomes em tupi-guarani iniciados pela síbala ita: ita, itaberá, itagiba, itaguassu, itahité, itaimbé, itaipu, itajubá, itanajé, itapajé, itapé (o de Caymmi), itapema, itapuca, itapuhy, itapura, itaquara, itaquatiá, itaquera, itaquicé, itassucê, itatinga, itaúba etc.

*Companhia Nacional de Navegação Costeira (também conhecida como ‘Costeira’) foi uma firma de navegação, brasileira, fundada em 1882 por imigrantes portugueses.

O primeiro nome da empresa foi Lage & Irmãos. A frota inicial era composta por quatro vapores adquiridos na época da companhia Norton & Megaw.

A Costeira, com sede na cidade do Rio de Janeiro, operou entre os anos de 1891 até 1965.

“Peguei um ITA no Norte”, de Dorival Caymmi, 1945

De acordo com Laire José Giraud e a “Tribuna de Santos”, a empresa operava em comum acordo os navios identificados como Itas com o Lloyd Brasileiro em data não precisa e finalmente incorporada ao Lloyd Brasileiro em 1965.

Os paquetes (nome que precedia os de batismo do navio) servia aos seguintes portos: Manaus, Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Cabedelo, Recife, Maceió, Penedo-AL, Aracaju, Salvador, Ilhéus-BA, Vitória, Rio de Janeiro, São Sebastião-SP, Florianópolis, Rio Grande-RS e Porto Alegre.

Peguei um ITA no Norte, de Caymmi, com Gal Costa, 1993

Em 1993, a tradicional Acadêmicos do Salgueiro apresentou como tema para o seu carnaval a canção homônima, num enredo desenvolvido pelo carnavalesco Mário Borrielo.

Retratava a viagem de um migrante nortista até o Rio de Janeiro. A escola fez uma apresentação memorável, considerada uma das melhores da história do concurso, conquistando seu oitavo título no carnaval carioca, encerrando um jejum de 18 anos.

O refrão ficou famoso no país inteiro, sendo até hoje cantado nos estádios de futebol:” Explode coração/ Na maior felicidade/ É lindo o meu Salgueiro/ Contagiando e sacudindo esta cidade.”

GRES Salgueiro ‘Peguei um ITA no Norte’, de Demá Chagas/ Arizão/ Bala/ Guaracy/ Celso Trindade, campeão de 1993// Samba-enredo inspirado na música original de Caymmi

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GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – O MENINO DE BRAÇANÃ

Braçanã, Rio Bonito-RJ

Braçanã é um distrito de Rio Bonito, no Rio de Janeiro. Ali está a Cachoeira de Braçanã, nome conhecido nacionalmente pela belíssima canção do caruarense Luiz Vieira, em parceria com Arnaldo Passos.

Localizada em Braçanã de Baixo, a cerca de 3 quilômetros da entrada da BR-101, a bela cachoeira recebe milhares de visitantes no verão. As águas, do rio Caceribu, formam o Salto e suas piscinas naturais.

Agora ouçam a mesma melodia com Rita Lee:

O manancial abriga remanescentes da Mata Atlântica e também uma captação de água, que é tratada e abastece parte do 3º distrito de Rio Bonito, Basílio, e o vizinho município de Tanguá.

Luiz Vieira nasceu em Caruaru-PE, em outubro de 1929, contando, portanto hoje com 89 anos. Pode-se dizer que Vieira era a música nordestina e sertaneja na Baixada Fluminense. Autor de “Menino Passarinho” (Prelúdio Pra Ninar Gente Grande), em 1962. No ano seguinte gravou outro grande sucesso “Paz do Meu Amor” (prelúdio nº 2). Chegou a fazer 5 programas de televisão, ao vivo, por semana. Viajava do Ceará ao Rio Grande do Sul, semanalmente. Atualmente, é locutor da Rádio Manchete. Não gosta de ser chamado de cantor e sim de cantador.

De Arnaldo Passos, o que se sabe é que era um divulgador de músicas, entrando eventualmente em parceiras, a partir de 1930, a era do rádio.

Mais uma versão de Braçanã:

E com Betânia, como fica o clássico?

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GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – BODOCONGÓ

Bodocongó, Campina Grande-PB

O açude de Bodocongó é um reservatório criado na cidade de Campina Grande-PB, para dar conta da escassez de água na região, vez que os açudes Novo e Velho já não supriam as necessidade da população.

Além disso, Bodoncongó fica muito distante dos antidos açudes, podendo abastecer gente que morava longe do centro da cidade.

O início de suas instalações se deu no antigo sítio Ramada. Em 1915 foi iniciada sua construção, que terminou em janeiro de 1917, sendo entregue à população.

Em seu entorno foram surgindo industrias de transformação e, por fim o bairro que recebeu esse nome, por causa do riacho.

Na década de 1950, existia um clube aquático no Açude de Bodocongó, porém ele faliu nos anos 1960.

Popularmente, o bairro foi ocupando toda a área do bairro Universitário.

Assim, Bodocongó é conhecido por ter as duas universidades públicas da cidade, bem como a Escola Técnica Redentorista.

Além do mais, há ali pelo menos 4 escolas estaduais e 2 municipais, 2 unidades básicas de saúde da família e um tradicional mercado público, a feirinha do Conjunto Severino Cabral.

O bairro possui níveis de qualidade de vida extremamente variados, sendo a parte centro-leste do bairro mais rica e próspera que o sul, norte e oeste do bairro.

Bodocongó, de Humberto Teixeira e Cícero Nunes (1966) – com Jackson do Pandeiro

Agora, na voz de Elba Ramalho, com participação de Dominguinhos.

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GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – MARACANGALHA

Maracangalha-BA

O primeiro esclarecimento é que Maracangalha existe mesmo. É um distrito do município de São Sebastião do Passe, na Bahia.

A localidade hoje é ponto turístico, tendo como umas das atrações a Praça Dorival Caymmi – em forma de violão, inaugurada em 1972. Há ainda a Capela de Nossa Senhora da Guia, de 1963, e a Usina Cinco Rios, de 1912, que já chegou a produzir 300 mil sacas de açúcar por ano.

A praça

A História – Caymmi tinha um amigo de infância, Zezinho, que costumava dizer a Dorival “Eu vou para Maracangalha…”.

O assunto surgiu porque Zezinho contou ao compositor baiano que tinha uma amante, Áurea, em Itapagipe, e, com ela, 4 filhos.

Zezinho era casado com Damiana e ‘tinha’ de arrumar um jeito para ver sua outra família.

Para isso, bolou um esquema para ter o motivo de saída de casa e a prova, na volta, de que havia sido sincero…

Usina Cinco Rios

Zezinho se abriu com o amigo compositor: explicou que ele enviava um telegrama a si mesmo, onde dizia que sua presença era necessária em Maracangalha, pois sua presença era necessária no vilarejo.

A partir daí, ele avisava em casa que precisava viajar e estava coberto pela própria lorota. Na volta, trazia um saco de açúcar, para provar que tinha ido a Maracangalha. A Usina Cinco Rios era uma das maiores fontes de movimentação econômica da regiao. O ‘álibi perfeito’…

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