Coluna: PEDRO FERNANDO MALTA – REPENTES, MOTES E GLOSAS

HOMENAGEM A DOMINGUINHOS

Duas glosas do poeta Andrade Lima em homenagem a Dominguinhos:

Sente o mundo uma perda no forró
Sentimentos o povo todo sente
Foi chamado por Deus onipotente,
Pra morar com certeza em outro pó
Suas músicas: lembra meu xodó
Num salão de reboco da cidade
Desses gênios só nos resta a saudade
Se tocarem no céu vamos dançar.
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

Partindo pro céu o Gonzagão,
Sua saga deixou pra Dominguinhos
Que cantou e espalhou em vários caminhos
Seu forró com xaxado, xote e baião
Fez a gente arrastar pé no salão
“Olha por céu meu amor”, sente vontade!
O balão subiu pra festividade
Deus quer ver esses dois no céu tocar
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

* * *

Um Sonhador Maginando, composição do Poeta Jessier Quirino, colunista do JBF.

Interpretação de Dominguinhos e Jessier Quirino:

QUATRO MESTRES DO REPENTE E LAMPIÃO CANDIDATO A PRESIDENTE

O grande poeta cantador pernambucano Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Nasci no sertão, desfrutando as virtudes
Do tempo de inverno, fartura e bonança.
Depois veio a seca, fugiu-me a esperança
Deixando-me assim, de tristeza tão rude.
Vi secos os rios, fontes e açudes.
E eu que gostava tanto de pescar,
Saí pelo mundo tristonho a vagar,
Fui ter numa praia de areias branquinhas
E vendo a beleza das águas marinhas,
Cantei meu galope na beira do mar.

Ali na cabana de alguns pescadores,
Fitando a beleza do mar, do arrebol,
Bonitas morenas queimadas de sol,
Alegres ouviram cantar meus amores.
O vento soprava com leves rumores,
O pinho a gemer, depois de chorar.
Aquelas morenas à luz do luar
Me davam impressão que fossem sereias,
Alegres, risonhas, sentadas nas areias,
Ouvindo os meus versos na beira do mar.

Eu sempre que via, lá no meu sertão,
Caboclo vaqueiro de grande bravura,
Vestido de couro, na mata mais dura,
Entrar pelo mato e pegar o barbatão,
Ficava pensando, na minha impressão:
Não há quem o possa, em bravura igualar;
Mas depois que vi o praiano pescar
Numa frágil jangada, ou barco veleiro,
Achei-o tão bravo, tal qual o vaqueiro,
Merece uma estátua na beira do mar.

* * *

Manoel Xudu

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

* * *

Sebastião Dias

O cemitério é a casa
Dos nossos restos mortais.
Ambição, ódio e vingança,
Ficam do portão pra trás,
Porque do portão pra frente
Todos nós somos iguais.

* * *

José Gomes do Amaral (Zezé Lulu)

A noite estava dormindo,
Canta o galo dando hora
Me levantei saí fora,
A lua vinha saindo.
Aquele clarão tão lindo
Fiquei prestando atenção
Pensei em forrar o chão,
E me deitar na calçada,
Vendo a lua debruçada,
Na janela do sertão.

* * *

Bandeira Sobrinho

A minha felicidade
perdeu-se como a fumaça,
foi uma sombra que passa
com o surgir da claridade;
fugiu-me contra a vontade,
fugiu sem eu nem dar fé;
minh’alma hoje é a ré
e o destino seu juiz.
A gente só é feliz
quando não sabe que é.

* * *

Um folho de Vicente Campos Filho

A CANDIDATURA DE LAMPIÃO PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Das histórias que surgiram
No Nordeste do Brasil
Sobre um tal de Virgulino
Lampião, homem viril,
Tem uma que ficou fora
Dos registros da história
Pouca gente já ouviu.

Quem me contou com detalhes
Eu não sei se é mentira
Foi um velho ex-cangaceiro
Chamado Zé Macambira
Me disse que Lampião
Foi um herói do sertão
Esse título ninguém tira.

Me disse que era tanta
A fama de Lampião
Que um cangaceiro seu
Deu a sua opinião
Meu Capitão vosmecê
É quem merecia ser
Presidente da nação.

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DOIS MOTES BEM GLOSADOS

Poetas repentistas Jomaci Dantas e Zé Carlos do Pajeú glosando o mote

“A velhice sorriu acompanhando
o enterro da minha mocidade”.

* * *

O genial poeta cantador Zé Vicente da Paraíba (1922-2008)

Zé Vicente da Paraíba, pai do colunista fubânico Wellington Vicente, glosando o mote

“Fiz do choro das cordas viola
O maior ganha-pão da minha vida”

Fiz o que desejava em minha infância:
Correr prado de um ponto a outro ponto;
Lá chegando cansado e meio tonto,
Boca aberta, tremendo e tendo ânsia.
Sem pensar ser por causa da distância,
Sem usar nem metragem, nem medida,
Muitas horas esquecia da comida
E trocava a merenda pela bola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz cachimbo de barro e matricó,
Conhecido também por “pai de fogo”,
Onde havia castanha, havia um jogo,
Que eu era o atleta do bozó,
O porreta no fojo e no quixó,
Só não era viciado na bebida,
Mas já tinha a ideia evoluída
Fabricando o alçapão e a gaiola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz um plano de vida pra viver
Com amor, com o riso e a saudade,
Como Deus é amor e é Trindade
Sabe e pode sustar o meu sofrer,
Muitas vezes cantando sem poder
Nem tocar na viola sustenida,
Agradeço à Maria Concebida,
Solitário na minha casinhola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Valdir Teles, grande poeta cantador pernambucano, glosando o mote

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

Lá em casa não tinha geladeira
Guarda roupa ,sofá nem energia
Tinha um pote revendo água fria
Enfiado em um gancho de madeira
O chapéu de papai andar pra feira
E as roupas da gente passear
Por não ter um cabide pra botar
Pendurava em um gancho de cambito
Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

* * *

Moyses Lopes Sesyom glosando o mote:

Se Celina me matar,
Ninguém tenha dó de mim.

Não posso mais suportar,
É grande a minha paixão,
Perdoo de antemão
Se Celina me matar.
Se dela me aproximar
Terei um prazer sem fim;
Se alguém me vir assim
Chupando o beicinho dela,
Se eu morrer fodendo nela,
Ninguém tenha dó de mim.

* * *

Marcos Rangel glosando o mote:

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Mocidade foi ontem que passou
E hoje vivo sentindo falta dela
Já mandei mil recados para ela
Mais nem mesmo um só me respostou
Muita gente viu e perguntou
Por que ela passava tão ligeiro
Respondi sem pensar e sem exagero
Ela veio, me usou e jogou fora
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Aprendi descrever essa passagem
Que vivi como ontem em minha vida
Sem dizer que a época foi perdida
Descrevendo somente, igual miragem
Que chorar o passado é bobagem
E saudade é flagelo que devora
Esse homem que em tua frente chora
Dos perfumes da vida sabe o cheiro
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

* * *

Ademar Macedo glosanto o mote:

O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote

O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Numa tarde de inverno o céu se agita
Uma nuvem pesada esconde o sol
Aparece relâmpago, caracol
A cascata do rio enche e vomita
Desce raio de fogo o trovão grita
Na cabeça de um grande torreão
Passa o vento entoando uma canção
Que o porão do açude se arrepia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Na esperança o campônio se agarra
Do fantasma da seca sente medo
Quando chega o natal, acorda cedo
Para ver se aurora trás a barra
Inimiga da seca é a cigarra
Que só canta no tempo do verão
O profeta do inverno é o carão
Quando está pra chover ele anuncia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Quando chove na entrada de janeiro
O riacho transborda e solta roncos
Lambe os galhos do mato, arrasta troncos
De raízes que encontra em todo aceiro
Passam sapos montados no balseiro
Parecendo um chofer de caminhão
Não dirige, mas dá a impressão
Onde tem um perigo ele desvia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

No inverno o vaqueiro tange bois
O roceiro na luta mete a cara
Queima a broca o que sobra faz coivara
Deixa arranca de touco pra depois
Corta a terra na baixa de arroz
Faz remonte de cerca aduba o chão
Abre cova semeia e enterra o grão
Tudo quanto plantar a terra cria
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

DOIS POEMAS DE ZÉ DA LUZ

Severino de Andrade Silva (Itabaiana/PB, 1904 – Rio de Janeiro/RJ, 1965), mais conhecido como Zé da Luz, foi um alfaiate de profissão e poeta popular brasileiro

* * *

A TERRA CAIU NO CHÃO

Visitando o meu sertão
que tanta grandeza encerra,
trouxe um punhado de terra
com a maior satisfação.

Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo
levá-lo no meu caixão.

Chegando ao Rio, pensei
guardá-lo só para mim
e num saquinho de brim
essa relíquia encerrei!

Com carinho e com cuidado
numa ripa do telhado,
o saquinho pendurei…

Uma doença apanhei
e vendo bem próxima a morte
lembrando as terras do norte
do saquinho me lembrei.

Que cruel desilusão!
As traças, sem coração
meteram os dentes no saco,
fizeram um grande buraco
e a terra caiu no chão.

* * *

CANTADÔ E VIOLÊRO

Eu nunca aprendí a lê.
Eu nunca tive im iscóla.
Mas, Deus mi deu o sabê,
De sê impruvisadô
E tocadô de viola.

Eu não invejo a sabênça
De nenhum hôme letrado.
Deus mi deu intiligênça,
Qui tem feito diferença
A munto doutô formado.

De que serve os anelão
Qui êsses doutô tem nos dêdo,
Se de uma impruvização
Êles não sabe o segrêdo?

As iscóla, a Acadimía,
Faz doutô de todo jeito:
– Faz doutô de inginharía;
Doutô Juiz de Dereito;
Doutô prá curá duênça;
Faz inté doutô dentista.
Mas, nunca há de fazê,
Um doutô saí de lá,
Formado na puisía,
Num puéta repentista!

Quando eu pego na vióla
Qui óiço o gemê das prima,
Os verso sái da cachóla
Im cachuêras de rima!

Praquê maió aligría,
Prá um cabra impruvisadô,
De que numa canturía
Êle lová u’a moça,
Pra dispôis dela lováda,
Fica tôda derrengáda
Agradicendo o lovô?

E a vióla, contente,
Ficá tocando um baião,
Inquanto o cabôco sente,
Outra vióla tocando
Cá dentro do coração?…

Se os versos q’eu impruviso
Não tem graça nem belêza,
Piçuí um grande valô:
– Êsses verso, eu aprendí
No livro da Naturêza
Tendo Deus pru professô!

O cantadô de repente
Tem tudo qui êle quizé:
– Tem os rio, as cachuêra,
Tem as noite inluaráda,
O rompê das arvoráda
E a graça das muié!

E tem o céu brasilêro
Qui cobre as terra Norte!
E tem o cabôco forte,
Tem o valente vaquêro,
As “Festa de Apartação”,
Tem o calô das fuguêra
Das noites de São João!

Tem os cabôco valente
Flô da alma do sertão!
Êsses cabôco ribusto,
Qui vinga a honra ultrajada,
Sem tê mêdo, sem tê susto,
Cum um “Bacamarte” na mão!

Praquê livro ou iscóla,
Praquê ané de doutô?
Se eu piçúo uma vióla,
Tenho livro e prufessô;
Tenho Deus e a Naturêza
Aonde tá a grandêza
De tudo qui Êle criou!?

Eu sou feliz, meu patrão.

Eu vivo nesse mundão
Bem satisfeito e contente.

E peço à Deus das artura,
(Ao meu grande prufessô)
Qui não mi farte o repente,
Esse dom qui Êle mi deu
Cum Seu pudê verdadêro
De eu sê impruvisadô,
Cantadô e violêro!

A CORRUPÇÃO NA POESIA POPULAR

GRITO DO POVO – Manoel do Côco

Essa tal corrução
Está comendo um pedaço
Transmitindo um fracasso
Da saúde e da nação
Falta de condição,
Falta de medicamento
O tamanho do sofrimento
Dos filhos e também dos pais
Nas portas dos hospitais
Um morre a cada momento.

Corrupção é doença,
Um câncer nacional
O Supremo Tribunal
Quer tomar as providências
Mas a nossa paciência
Há tempos se esgotou
Nosso povo se juntou,
Estamos indo pra rua
E se ninguém der um jeito,
Essa luta continua !

* * *

CORRUPTO SÓ É ELEITO POR QUEM SE CORROMPE TAMBÉM – Cleber Sardinha

Brasil meu Brasil tão bonito
Vai vivendo assim aflito
Do luxo ao lixo maldito
Que fede e nos faz refém
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

Povo, gente e pátria amada
Uma história manchada
Por delitos federais
Deputados , senadores
Sem moral e sem valores
Não se movem nada faz.

Como pode nossa gente
Ir as urnas novamente
Votar errado assim?
Apoiando vagabundo
Ferrando com todo mundo
Decretando o nosso fim.

Pra votar está difícil
Chega a ser um sacrifício
Achar alguém que merece
Um candidato direito
Sem tretas e sem defeito
Que promete e não esquece.

Só achamos picaretas
Com processos nas gavetas
E a ficha encardida
Nós que pagamos o pato
Pois tem certos candidatos
Que são atraso de vida.

Não se faz democracia
Com propina e regalia
Ferrando gente de bem
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

* * *

O VALOR DO SEU VOTO – Izaías Gomes de Assis

Eu quero meu caro amigo
Neste verso te alertar
Sobre a tal corrupção ,
Que pode contaminar
Nos anos das eleições
Querendo te devorar.

É uma coisa do diabo
A tal da corrupção
Ela corrompe a moral
E desgraça o cidadão ,
Fazendo uns bandidos
Controlar nossa nação.

E tudo isso pelo amor
Do maldito e bom dinheiro,
Que infesta a humanidade,
Desgraçando o mundo inteiro,
É um mal do capitalismo,
Que viciou o brasileiro.

Meu caro amigo eleitor
Que é honesto e bom cristão,
Não venda nem troque o voto,
Deus não gosta disso, não
O anjo Dele te ilumine
Te trazendo educação.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM MOTE BEM GLOSADO

Ademar Macedo

Um forró numa latada
numa plena sexta-feira,
um bebum no meio da feira
topando em toda calçada;
uma velha na almofada
com um bilro em cada mão,
prestando muita atenção
naquilo que vai fazendo;
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

Bráulio Bessa

Uma carta escrita à mão
achar dinheiro no bolso
cochilo depois do almoço…
curtir um feriadão
ter bicho de estimação
ser grato e compreender…
Um dia vamos morrer
e sentir na despedida
que as coisas simples da vida
nos dão forças pra viver.

Daniel do Assaré

Plantei um pé de saudade
No sol quente ao meio-dia
Certo que aquela semente
No chão seco não nascia
A semente floresceu
E hoje só não matou eu
Por causa da poesia.

Odilon Nunes de Sá

Todo aquele que vive mal ou bem
Sempre quer que a vida viva mais,
Pra ter vida e viver vivendo em paz
Com outros tantos dos anos que já tem,
Nunca quer esperar se a morte vem
E quando vem, ai sim não quer saber,
Só deseja a vida ainda crescer
Na crescença de uma idade ainda crescida,
Agradeço a vida ainda ser vida
E eu ter vida vivendo pra viver.

Manoel Xudu

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar

* * *

Moacir Laurentino e Sebastião Silva glosando o mote:

A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Eu passeei com meu bem
pelo cantinho da sorte,
já cruzei de Sul a Norte,
de Leste a Oeste também
e o destino ingrato vem
nos deixa dores, sequela,
e hoje da minha bela
tenho lembrança e mais nada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

O antigo casarão
do meu amor verdadeiro,
que eu abracei no terreiro,
lhe dei aperto de mão,
hoje só tem solidão,
a tristeza e a sequela,
está velhinha a cancela,
pendida e escancarada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Naquele belo recanto,
que foi nossa moradia,
onde havia Cantoria,
muita festa em todo canto,
houve novena de santo,
no altar e na capela,
só tem o santo e a vela,
onde a missa era rezada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

A mulher que me amou,
que me queimou como brasa,
eu fui visitar a casa
e tudo se divisou,
a saudade ela deixou,
a sua saia amarela,
o resto de uma chinela
e uma blusa remendada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

UMA GLOSA MAGISTRAL E DOIS MESTRES DO IMPROVISO

Manoel Xudu glosando o mote:

Quanto é grande o poder do criador

Analise o caju e a castanha,
São os dois pendurados num só cacho,
Bem unidos, um em cima, outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela, extrai o azeite, o sumo, a banha,
Dele, o suco pro vinho e o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do Criador.

* * *

Uma peleja entre Manoel Xudu e Diniz Vitorino

Manoel Xudu

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor onipotente
Criador da suprema natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que Ele impera no trono divinal.

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

Manoel Xudu

Astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
Cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos páramos azulados.

Diniz Vitorino

Olho os mares, os vejo revoltados
Quando o vento fugaz transtorna as brumas
E as ondas raivosas lançam espumas
Construindo castelos encantados
As sereias se ausentam dos pecados
Que nodoam as almas dos humanos
Tiram notas das cordas dos pianos
Que o bom Deus ocultou nos verdes mares
E gorjeiam gravando seus cantares
Na paisagem abismal dos oceanos.

Manoel Xudu

E os pássaros maestros soberanos
São os músicos alados das florestas
Num eterno concerto de serestas
Não veem como vão passando os anos
São ingênuos, não sentem desenganos
Pois tem n’alma astúcias de crianças
Galgam beijos das doces brisas mansas
Sugam néctar que a flor solta nas relvas
E se evolam cantando em plenas selvas
A canção virginal das esperanças.

Diniz Vitorino

As abelhas pequenas, sempre mansas
Com as asas peludas e ronceiras
Vão em busca das pétalas das roseiras
Que se deitam no colo das ervanças
Com ferrões aguçados como lanças
Pelo cálix das flores bebem essência
Fazem mel que os mestres da ciência
Com os séculos de estudo não fabricam
Porque livros da terra não publicam
Os segredos reais da providência.

Manoel Xudu

Neste mundo não há maior ciência
Do que ver uma aranha se bulindo
Com perícia maestra construindo
Alicerces da sua residência
É pequena, tem pouca resistência
Mas trabalha vencendo os empecilhos
Superando carrascos e caudilhos
Que assassinam, devoram, fazem guerra
Mas não cavam sequer barro na terra
Pra fazer um casebre pra seus filhos.

Diniz Vitorino

Quase atônito ensino pra meus filhos
Que os trovões retumbantes me emocionam
São fuzis carregados que detonam
Sem cartuchos, culatras, nem gatilhos
E o relâmpago aceso empresta brilhos
Aos céus negros nas noites tenebrosas
Os coriscos, as tochas luminosas
Que caindo das nuvens carregadas
Se sepultam nas fendas apertadas
Nas entranhas das grutas pedregosas.

UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO DE PRESEPADAS

Mote:

Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Como tudo na vida tem seu fim
A paixão que já tive também teve
Lembro um pouco o passado e sei que deve
Todo fim de romance ser assim,
A lembrança de tudo hoje é pra mim
Como um filme que assisto indiferente
Muita coisa retrato em minha mente
Mas não há diferença em minha face
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Nessa vida onde tudo é passageiro
Onde a mão do destino tudo alcança
Não existe saudade nem lembrança
Que esteja presente o tempo inteiro
No teatro da vida há um letreiro
Retratando o passado e o presente
Pra mostrar que uma dor de antigamente
Pode até ser plantada mas não nasce
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

O passado nos serve de lição
Quem quiser aprender o tempo ensina
É melhor a missão quando termina
A angustia que traz uma paixão,
Muitas vezes envolve o coração
Lhe fazendo passar por inocente
Quando acorda vê tudo indiferente
E agradece o final daquele enlace
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Nesse mundo ninguém é tão lembrado
Que não seja esquecido por alguém
Pois até quem jurou te querer bem
Muitas vezes não cumpre o combinado
É comum um casal apaixonado
Lamentar o final do amor que sente
Mas esquece esse amor completamente
Quando um novo romance em fim renasce
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Eu confesso que nunca imaginei
Que podia esquecê-la tão depressa
Uma historia de amor igual a essa
Parecia ser tudo que sonhei
Só depois que passou é que fiquei
Me sentindo, liberto novamente
Eu vivia no mundo diferente
A paixão me impedia que sonhasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Muitas vezes diante um sofrimento
De mais uma paixão mal resolvida
Vem o medo de ter por toda vida
Essa dor culminando o pensamento
Mas o tempo é quem faz do esquecimento
Um remédio de cura permanente
E esse triste sofrer futuramente
Não fará verter pranto em tua face
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Já me sinto bastante preparado
Pra viver liberdade novamente
Abstrato que mais da vida a gente
Nos fazendo viver mais animado
Não procure viver o seu passado
Busque novos amores no presente
Faça tudo com calma e consciente
Para o bom resultado no impasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Uma dor por maior que seja ela
Terá sempre um começo, meio e fim
No início apresenta ser ruim
E é difícil seguir ao lado dela
Já no meio essa dor deixa a sequela
E no final pra provar que é diferente
Vem o tempo expulsando do presente
Essa dor causadora deste impasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

* * *

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU – Guaipuan Vieira

Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.

Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.

São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da santa morada..

E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.

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COCO DA BICHARADA COM ANTONIO NÓBREGA

SEIS MESTRES DO IMPROVISO

Ivanildo Vilanova

Rei Davi foi deputado
Na Assembleia do Acre
Kruschev fez um massacre
Nas traíras de Condado
Jesus Cristo era cunhado
De Romano do Teixeira
Escreveu A Bagaceira
Mas se esqueceu do bagaço
Eu querendo também faço
Igualzinho a Zé Limeira.

Severino Feitosa

Confúcio foi na Bahia
Pai-de-Santo e curandeiro
Anchieta era pedreiro
No farol de Alexandria
Hitler nasceu na Turquia
Vendia manga na feira
A Revolução Praieira
Degolou Torquato Tasso
E eu querendo também faço
Igualzinho a Zé Limeira.

Cego Sinfrônio

(Descrevendo a repentista cearense Zefinha do Chambocão)

Era baixa, grossa e alva,
Bonita até de feição;
Cheia de laço de fita,
Trancelim, colá, cordão:
Nos dedo da mão direita
Não sei quantos anelão.

Sebastião Cândido dos Santos (Azulão)

Com dois eu começo o verso
Com quatro eu aumento a trova
Com seis eu não levo sova
Com oito eu fiquei disperso
Com dez eu não sou perverso
Com doze faço um zunzunzum
Catorze eu faço jejum
Dezesseis não me reprove
Quinze, treze, onze, nove,
Sete, cinco, três e um.

Renato Santos

Se bebo a cachaça dos dias tristonhos
Fico embriagado pedindo alegria
Na pura ressaca da grande poesia
Tomando a glicose do mundo dos sonhos
Perco a consciência e os dias medonhos
No álcool da vida, faz embriagar
Eu pego a saudade e fico a sonhar
E a mente cansada é tudo o que ganho
Curando a ressaca com doses de banho
Do puro improviso na beira do mar.

Manoel Xudu

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar.

SEIS SONETOS DE BIU DE CRISANTO E UM FOLHETO SOBRE RUI BARBOSA

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Severino Cordeiro de Souza – Biu de Crisanto (1929-2000)

Viveu e morreu em São José do Egito, Pernambuco, terra de poetas e cantadores. Contemporâneo e conterrâneo de Rogaciano Leite, Louro do Pajeú, Cancão, Antônio Marinho, Dimas e Otacílio Batista, e Jó Patriota. A rua onde viveu chama-se BECO DO POETA. Chamado também o “poeta do beco”. Cedo perdeu tudo, inclusive as duas pernas. Morava num pequeno quarto que dava frente para o sol, para a seca e o sertão da Borborema.

* * *

NA BORBOREMA

O Sol desponta ruivo cor de gema,
Iluminando o pico majestoso,
Do gigantesco dorso sinuoso
Da tão acidentada Borborema.

No sopé da montanha geme a ema,
E embaixo o terreno pedregoso,
Ouve-se o canto ingênuo e harmonioso
Da inocente pernalta, a seriema.

Chove, troveja, e o vento forte agita,
A flora se sacode, a fauna grita,
Um raio irado desce e a penha abre.

Agora é tarde, o Sol rubro descamba,
E rodopiando como roda bamba
Apaga a luz detrás da Serra-Jabre.

* * *

SAUDADE SERTANEJA

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

NO SERTÃO ANTIGO

Um moleque no corte assobiando,
Um cavalo pastando na ladeira,
Uma briga de bois na bagaceira,
E um bueiro malfeito “cachimbando”.

Um novilho pé-duro ruminando
Na sombra do oitão da bolandeira,
Um telhado coberto de poeira,
E um rebanho de ovelhas descansando.

Dois bois mansos crioulos atrelados,
Parecidos em tudo, emparelhados,
Vão puxando a almanjarra sem preguiça.

Enquanto várias campesinas belas
Aparecem cantando nas janelas
Duma casa de alpendre à tacaniça.

* * *

DÚVIDA

Nasci! De onde vim é que não sei,
Enfim também não sei para que vim,
Se vim para voltar para que fiquei
Neste intervalo de incerteza assim?

Não foi do pó fecundo que brotei,
Não sei quem tal missão me impôs.
O acaso não foi, já estudei…
Desta incumbência desconheço o fim.

Sou a metamorfose das moneras
Desagregadas nas primeiras eras,
Reunidas hoje nesta luta infinda.

Sou a passagem irreal da forma
Submetida aos desígnios da norma,
Do meu princípio não sei nada ainda.

* * *

PRESSÁGIO

No pé daquele outeiro fumarento
Onde uma ave horripilante ulula
Pressagiando um acontecimento,
Uma jovem “perdida” se estrangula.

Langues sanguíneos tingem o firmamento,
E um nevoeiro acinzentado ondula.
Por um lado do morro já cinzento
0 verde-oliva da ramagem azula.

Uma mulher pejada à fonte desce,
Subitamente o corpo reconhece
Cheia de dó a causa entrega ao bom Jesus.

E diz pedindo a Deus: Ah um aborto!
Se for pra ser sem sorte nasça morto
Este menino que vou dar à luz.

* * *

Um folheto da autoria de Crispiniano Neto

RUI BARBOSA

rui

Quero contar a história
Verdadeira e gloriosa
De um diplomata de peso
De carreira luminosa;
Um crânio cheio de graça,
O nosso gênio da raça,
O baiano Rui Barbosa.

Rui foi um líder político,
Deputado e senador,
Ministro por duas vezes,
Foi filólogo e escritor,
Tradutor e jornalista
Um consagrado jurista
E um gênio como orador!

Porém existe um detalhe
Nas muitas aptidões
Deste crânio brasileiro.
Que deixou tantas lições:
É seu lado DIPLOMATA,
Onde ele compôs a nata
Do concerto das nações!

Foi aí que Rui Barbosa
Consagrou-se de verdade,
Tornou-se a “Águia de Haia”
Com tal legitimidade
Que armado de mente e lábios
Tornou-se um dos “Sete Sábios”
Maiores da humanidade.

Seu tipo físico era frágil:
Quase anão na estatura.
Um metro e cinquenta e oito,
Setenta e dois de cintura.
Corpo encurvado e franzino,
Fisicamente um menino
Mas um titã na cultura!

Só quarenta e oito quilos
De peso e de sapiência;
A fragilidade física
Escondendo a inteligência…
Mas provou aos seus carrascos
Que “é nos menores frascos
Que mora a melhor essência”!

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJO

João Paraibano

O que mais me admira
É ver o sapo inocente
Que gosta de lama fria
Mas detesta a terra quente
Vendo da cobra o pescoço
Pinota dentro do poço
Pra se livrar da serpente.

* * *

Rogaciano Leite

Eu nasci lá num recanto
Do sertão que amo tanto
Onde o céu desdobra o manto
Feitos de rendas de anil
Onde o firmamento extenso
É um grande espelho suspenso
Refletindo o rosto imenso
Da minha pátria o Brasil.

* * *
Rena Bezerra

Lembro bem do meus banhos no riacho
De fazer arapuca lá na mata
Tomar banho escondido na cascata
E descer ribanceira mundo abaixo.
De subir no coqueiro e tirar cacho
No curral tomar leite sem ter nata
Ver os pássaros conduzindo uma cantata
E eu ficar lhes ouvindo bem contente,
Se o passado voltasse pro presente
Mataria a saudade que nos mata.

* * *

Henrique Brandão

Um aboio penoso do vaqueiro
Um cavalo relincha no roçado
A cancela, por onde passa o gado
A cafofa do pé de umbuzeiro
Um boi “brabo” cair no formigueiro
A cacimba na foz do ribeirão
O cuscuz, carne assada e o pirão
Um menino dizendo poesia
Uma porca fuçando a lama fria
Tudo isso são coisas do sertão.

Vaquejada, reisado e cantoria
Uma roça com milho pendoando
Um cigarro de palha, vez em quando
No programa de rádio, cantoria
A cigarra tocando a melodia
Um jumento deitado no oitão
Um sela, perneira e um gibão
Às seis horas louvar Nossa Senhora
Logo a lua se “amostra” sem demora
Tudo isso são coisa do sertão.

* * *

Otacílio Batista

Minha mãe me criou dentro do mar
Com o leite do peito de baleia
Me casei no oceano com a sereia
Que me fez repentista popular
Canto as noites famosas de luar
E linguagem das brisas tropicais
Entre abraços e beijos sensuais
Nos embalos das ondas seculares
Conquistei a rainha mãe dos mares
E o que é que me falta fazer mais?

* * *

Zé de Cazuza

O pobre do retirante
Viaja sem rumo certo
Quando está fatigado
Acha um juazeiro perto
Parecendo um guarda-chuva
Que Deus armou no deserto.

* * *

Guaipuan Vieira

É bem feliz quem escreve
E vê sua obra estudada
É imortal quem tem vida
Vida diversificada
Já conquistou sua glória
Prá no céu fazer morada

* * *

Joaquim Venceslau Jaqueira

Eu andei de déo em déo
E desci de gáio em gáio
Jota a-já, queira ou não queira.
Eu não gosto é de trabaio,
Por três coisa eu sou perdido:
Muiê, cavalo e baraio!…

* * *

Inacio da Catingueira

Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá, sem sê agregado,
Comê carne com gordura.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
nem caldo de tubarão,
culhão de touro ou pirão,
nem mesmo, uma caldeirada;
vai levantar a “finada”,
que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
lhe digo, na minha verve;
isso de nada lhe serve,
quando se acaba o tezão.

* * *

Um folheto de Olegário Fernandes da Silva

O HOMEM QUE CASOU COM A JUMENTA

Jesus pai poderoso
Minha poesia aumenta
Enquanto eu escrevo um causo
Que todo mundo comenta
O homem deixou a mulher
Pra casar com a jumenta

Isto foi na Paraíba
Município de Campina
Deixou a sua esposa
Por nome de Jarmelina
E amigou-se com a Jega
Para cumprir sua sina

Esse causo se deu
Na Paraíba do Norte
O homem pra casar com burra
Precisa que seja forte
Uns diz que é safadeza
E outros diz que é sorte

No mundo aparece coisa
Que parece uma novela
Um homem assim não tem
O valor de uma cadela
Olhe na capa do livro
Ele abraçado com ela

Seu nome Senhor Pereira
Com Jarmelina casado
Porém há mais de mês
Que ele vinha amigado
Namorando uma jumenta
Lá num canto reservado

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QUATRO MOTES NORDESTINADOS E UM FOLHETO DE BICHOS

seca

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina

O barreiro tá seco esturricado
não tem água no açude e na barragem
só tem nuvem cinzenta de estiagem
todo eito do campo está pelado
não existe alimento para o gado
o cinzeiro no espaço faz cortina
foram embora meus galos de campina
e os que ficam não estão cantarolando
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

Falta rama no pé de juazeiro
não tem pasto na roça e no baixio
na vazante do açude e nem do rio
não tem sombra de angico e de pereiro
já morreram mofumbo e marmeleiro
é preciso a intercessão divina
para a chuva molhar toda campina
ninguém sabe, só Deus quem sabe quando!
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

* * *

Carlos Aires glosando o mote:

Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

As cidades são belas, e eu não nego
Lindas praças com ruas e avenidas
Clubes festas e coisas divertidas
Mas, aqui vivo triste e não sossego
Essa dor que no peito hoje carrego
Bate forte e machuca o coração
Traficante, bandido e ladrão
Vive solto e eu preso atrás da grade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Sempre lembro das coisas lá da roça
A casinha singela que eu morava
Tinha portas, porém não precisava
De fechá-las porque a gente nossa
Mesmo pobre abrigada numa choça
Enfrentando a pobreza e a sequidão
É incapaz de fazer uma invasão
Pois respeita a nossa privacidade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Eu aqui tenho a casa arrumada
Com estante, sofá, televisor
Quando escrevo é num computador
Confortável é cama arrumada
Não me esqueço do cabo da enxada
Do machado, da foice, do facão
Nem da vida na minha região
Que eu vivia em plena liberdade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

O conforto é bom e necessário
E a cidade isso tudo oferece
Quem viveu lá na roça não esquece
O lugar que nasceu mesmo precário
Empregado eu virei um operário
Vivo sempre às ordens do patrão
Recordando do gado e do alazão
E assim vou vivendo de saudade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

* * *

Thiago Barbosa glosando o mote:

Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

És um grande centro urbano
Pauliceia desvairada
À primeira alvorada
Forasteiro e paulistano
Pega o metropolitano
Cada um com seu destino
Às vezes eu imagino
A pergunta não me erra
Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

Desde os bravos bandeirantes
Os homens desbravadores
Todos eles foram autores
Destes bosques pedrejantes
Mas também foram atuantes
Uns cabras de muito tino
Provando ser paladino
Prontos para qualquer guerra
Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Quando a seca se espalha
Na paisagem sertaneja
Um bode triste bodeja
Pois o berro é sua fala
Quem pudesse transformá-la
Nos dizia: – ele berrou
Dizendo a vida mostrou
Que quando as águas se vão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou

A campesina serena
Volta cedo do roçado
Expondo o corpo suado
Que o sol ressecou sem pena
Nasceu branca, tá morena
E com jeito que gostou
Diz o que alguém ensinou
Aqui no nosso torrão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Uma abelha voa perdida
Em busca de água e flor
Toda folha perde a cor
Gafanhoto perde a vida
Uma vaca recém parida
Do vivente que gerou
Lambe o beiço, diz eu dou
Com saliva a salvação
E o caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

* * *

O CASAMENTO DO BODE COM A RAPOSA – Firmino Teixeira do Amaral

CASAMENTO

Eu ouço os velhos dizerem
Que os bichos da antiguidade
Falavam como falamos
E tinham civilidade
Naquele tempo até bichos
Casavam por amizade

Naquele tempo mestre burro
Lia escrevia e contava
O cavalo era escrivão
O cachorro advogava
O carneiro era copeiro
E o jaboti desenhava

Leão era o rei dos bichos
Onça era professora
Elefante era juiz
A raposa agricultora
Camelo era correio
A aranha tecedora

Gavião criava pinto
Guaxinim plantava cana
O macaco em sua tenda
Vendia queijo e banana
Aos outros a prestação
Pra receber por semana

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OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO CLÁSSICO

Anjo Mendes do Condado

Da galinha eu gosto muito
De certos pedaços dela
Duas asas, duas coxas,
Dois coxões e a titela,
Pescoço com sobrebunda,
Coração, figo e moela.

* * *

Ivanildo Vilanova

Acima da cova, o corpo,
Acima do corpo, a cruz,
Acima da cruz, a vela,
Acima da vela, a luz,
Acima da luz, o céu,
Acima do céu, Jesus.

* * *

Otacílio Batista

São José do Egito mãe cidade
de Marinho, Cancão e dos Batistas
Entre os grandes condores repentistas
Deu poeta de toda qualidade
Quem saudade cantou virou saudade
Exaltando a cidade que fulgura
Sobre as asas da poesia pura
Na paisagem de um pequeno monte
Tem mais versos jorrando numa fonte
Qual estrela brilhando em noite escura.

* * *

Job Patriota

Se o pranto é irmão do riso
Nascido do mesmo amor
Tanto me faz estar rindo
Como sentindo uma dor
Que o sofrimento é da vida
Como o perfume é da flor.

* * *

Pinto do Monteiro

Quem espanta nunca laça
Mas quem alisa encabresta
Eu jogo a corda no lombo
Puxo por cima da testa
Enquanto vida eu tiver
A minha pisada é esta.

* * *

Luciano Pedrosa

Sou um verso de Pinto do Monteiro
Trocadilho que Louro penduou
Sou canção que Gonzaga entoou
Sob a sombra do pé de juazeiro
Sou aboio rimado do vaqueiro
Sou sextilha e galope à beira mar
Sou o mote difícil de glosar
Plenilúnio do livro de Cancão
Sou poeta nascido no sertão
Defendendo a cultura popular.

* * *

Zé Catota

Eu hoje assisti um drama
e me horrorizei da cena
uma senhora de idade
com uma criança pequena
chorava a filha com fome
e a mãe com fome e com pena.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

Ivanildo Vila Nova

Quando eu calar minha lira,
meu trabalho e minha trova,
a deusa desce do céu,
vem visitar minha cova,
dizendo nessa terrinha
não tem outro Vila Nova.

*

José Alves Sobrinho

Eu também fui cantador
Repentista e violeiro,
Todo o norte brasileiro
Inda lembra, sim senhor,
O meu nome, o meu valor,
A minha voz estridente,
Porém, repentinamente,
A mão do destino atroz
Arrebatou minha voz.
Deixei de cantar repente.

*

Manoel Xudu

A natureza é incrível,
Faz a terra no seu nível,
Girar de modo impossível
Causando admiração…
O relâmpago, o trovão,
Arquivam-se pelo espaço
Ligados pelo mormaço,
Lá vai meus oito a quadrão.

*

Zé Xavier

Sou um cabra do cangaço,
Brigo de perna e de braço,
Com a zoada que eu faço
Assombro qualquer cristão.
Eu vou cantar no Japão,
Lá nos Estados Unidos,
Dou quarenta e três gemidos
Nos oito pés a quadrão.

*

Jó Patriota

A dor de mim se aproxima
E pra não perder a calma,
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.

* * *

Um folheto de José Pacheco

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro

Houve um Sabiá falado
Na vila da Cabaceira
que dizia em ponto firme
sou cantador de primeira
no tanger de seu repente
reunia tanta gente
que parecia uma feira.

Antonio Coqueiro era
residente em Quebradinho,
um dia disse: eu preciso
de ver este passarinho
para eu quebrar-lhes os ovos
se tiver pelancos novos
eu toco fogo no ninho.

Na vila de Cabaceira
chegando Antônio Coqueiro
por Vicente Sabiá
foi perguntando primeiro
lhe disseram não estar
porque hoje foi cantar
na casa de um fazendeiro .

Querendo vamos pra lá
disse um rapaz é pertinho
hoje casou-se uma moça
filha do doutor Pedrinho
veja um cavalo selado
para Vicente ir montado
ele já vai no caminho.

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DOIS GIGANTES DO IMPROVISO

Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (Monteiro-PB, Nov/1895 – Out/1990)

* * *

Improvisos de Onézimo Maia

Canto pra Tarcísio Maia
Porque sou Maia também;
Eu sou Maia e vivo mal;
Ele é Maia e vive bem;
Ele tem o que não tenho
Eu tenho o que ele não tem

*

Você canta Portugal,
Canta França, canta Hungria
Mas se eu tirar a tampa
Do baú da putaria
Nunca mais ninguém dá fé
Da sua sabedoria.

*

Fico feliz quando canto
Meus versos de improviso;
Os dedos chutando as cordas,
Os lábio com ar de riso;
Sopra o vento do repente
Raspando o chão do juízo.

*

Já vi uisque importado
Ter perdido pra Pitú
Saiba que um bacharel
Precisa de um papangu
Porque Monteiro Lobato
Cresceu com Jeca Tatu.

*

Doutor Aluizio Alves
Agora compareceu
Botou a mão no meu bolso
Vou ver quanto ele deu,
Do jeito que ele é vivo
Pode ter levado o meu.

*

O sapo tem muitas coisas
Mas nenhuma vale nada:
Tem couro e não dá baínha
Tem tripa e não dá buchada,
Tem sangue e não dá chouriço
Tem leite e não dá coalhada.

*

Quando eu voltar aqui
Seu menino tem crescido
Sua filha tem casado
Já tem deixado o marido
Sua mulher tá com outro,
O senhor já tem morrido.

* * *

Improvisos de Pinto do Monteiro

Eu estimo Cajazeiras
que é o terreno seu.
Eu sou Pinto do Monteiro,
mas Monteiro não é meu!
Dei tanto nome a Monteiro,
Monteiro nada me deu.

*

Eu sou como a cascavel,
que não respeita ninguém:
se enrosca numa vereda,
morde quem vai e quem vem,
e, na hora que perde o bote,
morre da raiva que tem.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Poeta Wellington Vicente, colunista fubânico

Wellington Vicente, em homenagem a Zé Marcolino, glosa o mote

Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Sei que Raimundo Jacó
Ganhou um bom companheiro
Mas uma enchente de dó
Fez no meu peito um barreiro
E a saudade, num estouro,
Arrebenta o sangradouro
Que eu me ponho a chorar
Pois fiquei na soledade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

O meu sertão nordestino
Ficou triste sem seu filho
Porque José Marcolino
Foi cedo emprestar seu brilho
Ao que já tem o Infinito
Mas seu aboio bonito
Irá nos representar
À Suprema Majestade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Ficamos eu e o Bira
E outros nossos parentes
Saudosos, seguindo a mira
Do alvo dos seus repentes
E a santa inspiração
Nas horas de aflição
Vem logo nos consolar
Com a musicalidade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

Do que fiz em minha vida
E do amor que foi meu
Não conto nem a metade
De tudo que aconteceu.

Escrevendo por mil linhas,
Falando por mil minutos,
Passando por mil redutos,
Deixando mensagens minhas…
Ou contando historinhas,
Sendo cada uma ouvida,
Muitas vezes repetida,
Regravada e remontada
Ainda não conto nada
Do que fiz em minha vida.

Nas passagens falaria
Em sonhos, realidade,
Regresso, ida, saudade,
Confrontos e calmaria.
Meninices, velharia,
Vaidades do meu eu,
Traquinagens do liceu,
O bom, o bem e o atraso,
Coisas do fundo, do raso
E do amor que foi meu.

Mas meu tempo é curto
E meu passado é extenso.
Quanto mais nele eu penso
Mais meu próprio tempo furto.
Já me toma como um surto
O registro da idade,
Redobro minha vontade
De rever a trajetória,
Mas do todo da história
Não conto nem a metade.

E do pouco que relato
São grandes as descobertas…
São muitas passadas certas.
A Jesus sou muito grato.
Entre a verdade e o fato,
A diferença sou eu,
Que só conto o que é meu
Sem temer quem me afronta,
Só no céu eu presto conta
De tudo que aconteceu.

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UM MOTE FEMEEIRO E UM FOLHETO MITOLÓGICO

Dédalo e Ícaro: da mitologia grega para o cordel

Silva Filho glosando o mote:

Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar

Quatro grandes maravilhas
Que se resumem em três
Mulher, Cachaça (na vez)
Valem por quatro partilhas;
Sem auxílio de planilhas
Quem quiser vai comprovar
Como quem sabe pescar
E tem domínio de proa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Quando entra no forró
Pra ficar bem abraçado
Quer o homem um rachado
Que desata qualquer nó;
Nos confins dum cafundó
Onde se queira sondar
Ninguém fica sem um par
Ninguém espera à toa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Num jogo de futebol
Mesmo sendo só pelada
Os olhos da mulherada
Brilham como luz do sol;
Como que um arrebol
Ou um campo estelar
Vale a pena contemplar
Qualquer moça ou coroa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Melhor ainda na praia
Com ela quase despida
Quase que toda lambida
Por um sol que se espraia;
Sem obstrução de saia
Tem poupança pra mostrar
Todos querem degustar
Todos querem fazer loa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Se o momento é de samba
Como quer o carnaval
Logo vem um vendaval
Que arranca a mutamba;
Não confunda com muamba
Pra não dar o que falar
É melhor se preparar
Pra entrar nessa canoa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

* * *

Um folheto de Maércio Lopes Siqueira

A MORTE DE ÍCARO

A mitologia grega
é rica de ensinamento
para toda nossa vida
pois nos dá conhecimento
da natureza humana,
mostrando como se engana
nosso pobre pensamento.

Uma lenda dessas diz
que Dédalo trabalhava
para Minos, um rei grego
e a ele agradava
com as suas invenções,
pois suas fabricações
o rei muito apreciava.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE RAPARIGA

Pinto do Monteiro

Aqui é minha oficina,
Onde eu conserto e remendo,
Quando o ferro é grande, eu corto,
Quando é pequeno, eu emendo,
Quando falta ferro, eu compro,
Quando sobra ferro, eu vendo.

* * *

Vitorino Bezerra

Ensinei Patativa a fazer glosa
Inspirei Casemiro de Abreu
Castro Alves foi grande aluno meu
Passei muitas lições pra Rui Barbosa
Ensinei a Dercy ser vaidosa
Com as suas piadas imorais
Gravei disco com os filhos de Goiás
Expulsei Wanderley botei Leão
Pra ser técnico da nossa seleção
E o que é que me falta fazer mais…

* * *

Manoel Filó

Eu acho que não convém
Falar de quem bebe porre
Porque se quem bebe morre
Sem beber morre também
Apenas quem bebe tem
Suas artérias normais
Trata das fossas nasais
Controla o metabolismo
Cachaça no organismo
É necessário demais.

* * *

Geraldo Amâncio

O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez do genoma
Todo o corpo humano já foi mapeado
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se podem contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha, faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

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