CANTADORES E POETAS POPULARES (3)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

 

Respeitada a ortografia da época

AS OBRAS DA NATUREZA – Ugolino Nunes da Costa

As Obras da Natureza
São de tanta perfeição
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza !
Para imitar a belleza
Das nuvens com suas cores
Se desmanchando em lavores
De um manto adamascado,
Os artistas com cuidado
Da arte applicam os primores.

Brilham nos prados verdumes
De um tapete avelludado,
Brilha o rochedo escarpado
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam taes gumes
Que a gente os observando
Vê como que alongando
Perder-se na immensidade,
A nossa visibilidade
Os perde se está olhando.

Correndo as aguas se arrastam
Tornando-se brancalhetes
E mui lindos ramalhetes
De espumas que as aguas gastam.
Fugindo logo se affastam
Esses mantos de brilhantes:
São pérolas lindas galantes
Que a cachoeira as atrai,
E esta, murmurando vae
Nos chamando ignorantes.

Grandes cousas se dizia
Só de um bosque se fallando,
Mas apenas vou tocando
No que tem mais poesia ;
Como a sombra que allivia
A natureza agitada
Como a relva avelludada
Que posta em duas fileiras
Se estende nas ribanceiras
Da fonte cristallisada.

Um prado em seu verdume
Semeado de mil flores,
Com suas variadas cores,
Exalando seu perfume.
Qual o homem que presume
Pintar a tanta belleza.
Porem toda essa grandeza
E’ de Deus um privativo.
Que como sabio e activo
Confiou-a á natureza.

Impera sobre um penedo
A aguia que alli habita
De natureza esquesita,
Dominando o alto rochedo
E’ ave que não tem medo ;
Por sua coragem impera !
Desdenha de qualquer féra
Com arroubo desmedido.
Atordoa e faz temido
Tudo quanto ali prospera.

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CANTADORES E POETAS POPULARES (2)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

A ULTIMA PELEJA DE NICANDRO NUNES DA COSTA COM BERNARDO NOGUEIRA

Respeitada a ortografia da época

Nicandro

— Eu sahi da minha casa
Fui visitar o Nogueira
Me disseram qu’elle s’tava,
Na sua hora derradeira
Foi certo, pois o achei
C’o a vela na cabeceira.

—Meu collega, estás doente
Pois eu vim te visitar,
Se teu mal fôr muito grave
Não o posso remediar.
Porem, amigo sincéro
Eu venho te consolar.

Nogueira

—Collega Nicandro, adeus
Eu fico muito obrigado
Em te abalares a vir
Visitar o teu creado.
E’ chegada a minha hora.
Porem estou consolado.

Nicandro

—Nogueira qual o teu mal
Eu quero muito saber,
Se não te trago remedio
Mas desejo o conhecer,
Quem não tem pena do proximo
Não se lembra de morrer,

Noqueira

—É muito grande o meu mal;
Eu me acho esmorecido,
Parece que o meu corpo
Por dentro é todo moido.
Doe-me a cabeça e o rosto.
Pés, mãos, olhos e ouvido.

Nicandro

—Quem era como Nogueira
Que quando elle falava
0 povo todo em silencio
Admirado ficava:
Qual o ronco do trovão
A sua voz echoava !

Nogueira

—Meu collega, o homem são
Não é igual ao doente.
Fala 0 doente sem força,
O são arrogadamente.
Vive 0 doente gemendo
E o são vive contente.

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CANTADORES E POETAS POPULARES (1)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Nicandro Nunes da Costa e Bernardo Nogueira

Respeitada a ortografia da época

Nogueira

—Acho-me hoje, criminoso,
Porque em lucta corporal
Me furaram com um punhal,
Fiquei com o corpo reimoso ;
Sou um homem perigoso,
Que se escondeu numa brenha :
Procurar-me ninguém venha,
Porque perderá o giro ;
Dou de passo em passo um tiro,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

—Quem contra nós se oppor,
Não escolho qualidade.
Solto fogo sem piedade
Perco da vida o amor,
Faça o mesmo se homem for;
Quem contra Nogueira venha.
Por seu inimigo me tenha,
Porque se eu passar a mão
No cabo do espadagão,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

—Se qualquer um delegado,
Que passar por valentão,
Vier fallar-me em prisão,
Fica desmoralisado,
Seja paisano, ou soldado :
Ninguém me caçar não venha,
Porque eu farei resenha
Daquelles que me enfrentarem
E emquanto não me matarem,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

Não faz inveja Roldão,
Ao meu collega Nogueira;
Nem Joaquim Pinto Madeira,
Nem Achilles, nem Sansão,
Nem Lopez com vil acção,
Que a ganhar fama se empenha ;
De Nogueira a mão ferrenha
E’ mais cruel é mais forte,
Pois não tem medo da morte,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

—Terá perigo na vista
Quem persistir na contenda ;
Faço uma guerra tremenda,
Se achar quem me resista ;
E perderá a conquista
J Quem contra Nogueira venha,
Porque a Virgem da Penha
é Me proteje e me defende ;
P Quem me enfrentar se arrepende,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

E’ bem triste é ‘temeroso
Andar sem seguro norte,
Até mesmo á noite a sorte
Não lhe concede repouso;
Vive o homem desgostoso,
Occulto em deserta brenha,
Como uma féra que tenha
Odio ao civilisado!
Nogueira se for cercado,
«Ronca páo, troveja lenha».

Nogueira

—Confio-me no valor
De minha espada-navalha,
Que cortando na batalha.
Ninguém não lhe sente a dor;
Sou um gigante Adamastor
Que em luctar se empenha ;
Mato sem fazer «resenha»,
E pegando a granadeira
Tomo conta da trincheira,
«Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

— Ouve os tiros dos canhões
E debaixo das metralhas,
Nogueira sobe muralhas,
Passando entre os esquadrões,
Vem se internar nos sertões,
Se occultando em uma penha
Onde não ha quem detenha
0 seu resistente braço ;
No páo, na bala, ou no aço,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

Collega, sustento a frente
E lhe entrego a retaguarda;
Se faltar-lhe a espingarda,
Com páo, com pedra, sustente:
Eu estando de sangue quente.
Sou peor que Mascarenha;
Quem for imigo não venha,
Porque eu ’stando agastado,
Na cabêça e no costado,
«Ronca páo, troveja lenha».

Nicandro

O Brum pipoca a explosão.
Disparando peças de aço;
Caiam corpos em pedaço.
Rebente a revolução
Na frente do esquadrão;
Faça o general resenha,
Mas, para o sertão não venha,
Porque inda que a terra trema,
E o mar de Neptuno gema,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

Estando em uma trincheira
Seja ruim ou seja boa,
Força alguma desacôa
De alli, Bernardo Nogueira;
Em quanto da granadeira
Eu ouvir a voz roufenha,
Perto de mim ninguém venha
Porque estou enfurnado;
Atiro p’ra todo lado,
Ronca páo, troveja lenha.

GLOSAS DE MANOEL BENTEVI

Avenida Guararapes, centro do Recife, anos 70

Mote:

Paro todo movimento do estado,
Só funciona o Recife se eu quiser

Se eu chegar no Recife aperriado
Eu acabo com todas as fortalezas
Vou no Palácio do Campo das Princesas
Paro todo movimento do Estado.
Na Assembléia não deixo um deputado
Na zona não fica uma mulher
Acabo as forças armadas que houver
Tranco banco, instituto, inspetoria,
Fecho hospitais, detenções, secretarias
Só funciona o Recife se eu quiser.

Prendo guarda civil, cabo, soldado,
Comandante chefe do Estado Maior
Prendo tenente, capitão, prendo major
Paro todo movimento do estado.
Prendo telegrafo, imprensa, consulado,
Emissora não deixo uma sequer,
Prendo a Lloyd, a costeira e a Panair
Paro o transito, não passa mais ninguém
Da estação central não sai um trem
Só funciona o Recife se eu quiser.

Prendo médico, doutor, advogado,
Prendo juiz de direito e promotor
Prendo prefeito e prendo vereador
Paro todo movimento do estado.
Prendo o governo, prendo secretariado
Só Deus resolve na terra o que eu fizer
Prendo moça, menino, homem e mulher
Tapo as águas do rio Beberibe
Corto o curso do rio Capibaribe
Só funciona o Recife se eu quiser.

Paulo Afonso eu deixo desmantelado
Vou quebrar as barragens e as turbinas
Quebro os quadros e depois quebro as bobinas
Paro todo movimento do Estado.
Transformador um por um deixo quebrado
Rebento toda as torres que houver
A linha de transmissão se ainda tiver
Eu rebento toda ela em meio dia
De Paulo Afonso não sai mais energia
Só funciona o Recife se eu quiser.

Lá na boca da barra eu dou um brado
Nos armazéns não atraca mais navio
Do Capibaribe acabo o delta aterro o rio
Paro todo movimento do estado.
Beberibe e Gurjau deixo aterrado
Não deixo um litro d´áqua sequer
Pra ninguém não dou chá nem dou colher
Homem mais brabo eu tranco na enxovia
Por enquanto só deixo a reitoria
Só funciona o Recife se eu quiser.

Dois Irmãos dessa vez deixo trancado
Nos domingos jamais ninguém visita
Em Mourão Filho não deixo uma guarita
Paro todo movimento do estado.
Vou acabar com faculdade e juizado
O aeroporto e o Ibura e outro qualquer
E algum aeroporto que ainda houver
Acabo o Náutico, o Esporte e o Santa Cruz
Acabo até a procissão do Bom Jesus
Só funciona o Recife se eu quiser.

Eu derrubo arranha-céu, casa, sobrado
Fecho o comercio, acabo as padarias
Laboratórios, farmácias e drogarias
Paro todo movimento do estado.
Carro-tanque canhão carro blindado
Porta-avião, baleeira se tiver
Todo carro de praça que houver
Arranco a pista isolo toda a entrada
No Recife não entra nem sai nada
Só funciona o Recife se eu quiser.

Mas isso foi um sonho muito pesado
Que eu sonhei certa vez quando dormi
Uma voz no ouvido me dizia
Paro todo movimento do estado.
Acordei tristemente atribulado
Vi que era uma coisa sem mister
Não encontrei uma pessoa sequer
Que me dissesse o que tinha acontecido
E uma voz me dizendo no ouvido
Só funciona o Recife seu eu quiser.

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

João de Lima de Alagoas glosando o mote:

Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Meu pai olhava sorrindo
A roça de algodão
E no varal de feijão
As bages secas se abrindo
Meu Deus como era lindo
Ver o milho pendoando
E as borboletas pousando
Em um tapete de flor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Não é pecado trabalhar
Preguiça, só atrapalha
Até formiga trabalha
Dia e noite sem parar
Faz buraco pra morar,
Fica saindo e entrando
Cavando a terra e tirando
Sem precisar cavador
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Nos galhos das juremeiras
Toda hora que chovia,
Cantavam com alegria
Milhares de lavandeiras
Canários e tecedeiras
Os garranchinhos levando,
Faziam ninho cantando
Sem ter frio e sem calor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Calo na mão é a prova
Do trabalho do roceiro
Meu pai cavava canteiro
E minha mãe ainda nova,
Com um pé cavando cova
Com outro pé aterrando
Muita semente plantando
Sem precisar de trator
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Nosso sítio Cariri
Craíbas e Boa Vista,
Orgulho de repentista
Nascido e criado ali
Poço-verde: estou aqui
A nossa história contando
Hoje recordo chorando
Como quem sente uma dor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Me criei com tapioca,
Com farinha e com beiju
Com castanha e com caju
Amendoim e paçoca
Plantei muita mandioca
Vi o milho bonecando
E os camaleões andando
Como quem muda de cor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Na hora do meio dia
Quando o almoço chegava,
Todo mundo descansava
Numa mangueira sombria
Lá no sítio ninguém via
Menino vagabundando
Nem pedindo, nem roubando,
Nem matando professor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

No meu tempo de menino
Cantava pelas estradas
Vendo flores perfumadas
Naquele campo divino
Vi beija-flor pequenino
De uma em uma beijando
Vi as flores desbotando
Embriagadas d’amor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

* * *

Hélio Crisanto glosando o mote:

No cabresto da saudade
Amarrei minha ilusão.

Me sinto prisioneiro
Nas rédeas do teu destino,
Me tornei um peregrino
Por esse amor bandoleiro;
A ausência do teu cheiro
Maltrata o meu coração,
Por não sentir mais paixão
Fiz voto de castidade;
No cabresto da saudade
Amarrei minha ilusão.

* * *

Ademar Macedo glosando o mote:

Perdoar não pesa nada,
Pesado é pedir perdão!

Errar, é do ser humano
E todos podem errar;
Mas, saiba que perdoar
É divino, é soberano.
Não deixe que um ato insano
Lhe amargure o coração,
Perdoe-me, e me estenda a mão
Pra ser, por mim, apertada;
Perdoar não pesa nada,
Pesado é pedir perdão!

* * *

Manoel Filó glosando o mote:

A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

Quando a dor é dividida
Qualquer comprimido cura.

Uma doença que humilha
Uma mãe – joia sagrada,
É bem melhor suportada
Depois que se compartilha.
Esposo, irmãos, filho, filha…
Um no outro se segura
E a morte – dama obscura,
Vai atrás de outra guarida.
Quando a dor é dividida
Qualquer comprimido cura.

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO CLÁSSICO DE PELEJA

Renda de bilros

Ademar Macedo

Um forró numa latada
numa plena sexta-feira,
um bebum no meio da feira
topando em toda calçada;
uma velha na almofada
com um bilro em cada mão,
prestando muita atenção
naquilo que vai fazendo;
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

* * *

Chico Monteiro

O nome dessa cidade
É São Francisco do Oeste
Faz 45 anos
Que eu conheço essa peste
Tem nome de São Francisco,
Mas num tem nada que preste.

* * *

João Alves de Souza (João Pereira)

Eu nunca gostei da morte
que a morte é um cabra ruim
levou papai muito cedo
pegou mamãe deu um fim
já carregou minha esposa
e anda feito uma raposa
farejando atrás de mim…

* * *

Manoel Xudu

Quando Deus me fez poeta
Me colocou no paraíso
Abriu a minha cabeça
Colocou tanto improviso
Que quase faltou lugar
Pra colocar o juízo.

* * *

Odilon Nunes de Sá

O homem quando é poeta
Só faz o verso medido
Nunca faz curto demais
Nem também muito comprido,
Pois, sendo de menos não presta
Sendo de mais é perdido.

* * *

João Paraibano

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

A PELEJA DE BERNARDO NOGUEIRA E O PRETO LIMÃO – João Martins de Athayde

Em Natal já teve um negro
Chamado Preto Limão
Representador de talento
Poeta de profissão
Em toda parte cantava
Chamando o povo atenção

Esse tal Preto Limão
Era um negro inteligente
Em toda parte que chega
Já dizia abertamente
Que nunca achou cantador
Que lhe desse no repente

Nogueira sabendo disto
Prestava pouca atenção
Dizendo: – eu nunca pensei
Brigar com Preto Limão
Sendo assim da raça dele
Eu não deixo nem pagão

O encontro destes homens
Causou admiração
Que abalou o povo em roda
Daquela povoação
Pra ver Bernardo Nogueira
Brigar com Preto Limão

Eu sou Bernardo Nogueira
Santificado batismo
Força de água corrente
Do tempo do Sacratíssimo
Quando eu queimo as alpercatas
Pareço um magnetismo

Me chamam Preto Limão
Sou turuna no reconco
Quebro jucá pelo meio
Baraúna pelo tronco
Cantador como Nogueira
Tudo obedece meu ronco

Seu ronco não obedeço
Você pra mim não falou
Até o diabo tem pena
Das lapadas qu’eu lhe dou
Depois não saia dizendo:
– Santo Antônio me enganou!

Bernardo eu não me enganei
Agora é que eu pinto a manta
Cantor pra cantar comigo
Teme, gagueja, se espanta
Dou murro em braúna velha
Que o entrecasco alevanta!

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CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (VI)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpreta uma composição do disco Cantorias de Pé de Parede.

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (V)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede.

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (IV)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (III)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (II)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (I)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

DEZ IMPROVISOS DO POETA CANTADOR MANOEL XUDU

Manoel Xudu Sobrinho, natural de São José de Pilar–PB (1932-1985)

* * *

Dia 13 de março terça-feira
Ano mil novecentos trinta e dois
Pouco tempo depois que o sol se pôs
Mamãe dava gemidos na esteira
Numa casa de barro e de madeira
Muito humilde coberta de capim
Eu nasci pra viver sofrendo assim
Minha dor vem dos tempos de menino
Vivo triste por causa do destino
E a saudade correndo atrás de mim.

* * *

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo.

* * *

Quanto é bonito a vaca
Se destacar do rebanho,
Dando de mamar ao filho
Quase do mesmo tamanho,
Lambendo as costas do bicho
Porque não sabe dar banho.

* * *

Minha mãe que me deu papa
Me deu doce, me deu bolo
Mamãe que me deu consolo
Leite fervido e garapa
Minha mãe me deu um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
acabou a inchação
Quem perde mãe tem razão
De chorar o que perdeu

* * *

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor Onipotente
Criador da Suprema Natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que Ele impera no trono divinal.

* * *

O meu amor pelo campo,
Cada vez mais, continua.
Eu não troco a claridade
Embaraçada da lua
Pelas lâmpadas de mercúrio
Que clareiam aquela rua.

* * *

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho no feno,
No meio, bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem, sem força,
O bico do pinto novo.

* * *

A vaca que quer dar cria
Se desgarra do rebanho
Tem, às vezes, um bezerro
Que é quase do seu tamanho,
Depois do parto inda o lambe
Por não poder dar-lhe o banho.

* * *

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco, que nada lhe imita,
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão, feroz e raivoso,
É verde, azulado, sereno, espumoso,
Se espalha na terra , quer subir pra o ar,
Se sacode todo querendo voar,
Retumba, ribomba, penera e balança,
Nem sangra, sem seca, nem pára, nem cansa,
Nos dez de galope na beira do mar.

O TEMA É SAUDADE

Esta palavra saudade
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente
Não é saudade, é lembrança
Saudade só é saudade
Quando morre a esperança

Pinto do Monteiro

A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro
nem distorcendo não sai.

Antônio Pereira

Saudade mata é verdade,
Mas dessa morte eu me esquivo.
Como morrer de saudade
Se é de saudade que eu vivo.

Antonio Pereira

Procuro uma explicação
Para a saudade viver
E ver tanto amor morrer
Como uma reles paixão
Nas brechas do coração
Existe um adjetivo
Onde meu mundo é nocivo
E uma pergunta me invade:
Como morrer de saudade
Se é de saudade que vivo?

Renato Santos

Não esqueço um só segundo
Dos dias da mocidade
Mas o tempo me roubou
Da vida mais da metade
Restando só amargura
Tristeza, dor e saudade.

Biu de Crisanto

* * *

SAUDADE SERTANEJA – Biu de Crisanto

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

SAUDADE – Lamartine Passos

Nunca pensei que te amasse tanto,
Pois só depois que me perdi de ti
Que a solidão me assombra em cada canto
E grita, em silêncio, “estou morando aqui”.

Olho a palmeira, sem sentido, enquanto
Vejo o sanhaçu pousar sempre ali.
Mas sem ter força pra soltar seu canto,
Cala sentindo tudo que perdi.

É tanta dor que me envelhece a alma
E um tédio louco me adultera a calma
De tanta lágrima que já verti.

Já não me sinto em mim, não sou verdade.
E após beber mil goles de saudade
Não sei se ainda estou vivo ou se morri.

CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UMA DUPLA EM CANTORIA

O grande cantador pernambucano Ivanildo Vilanova, um mestre do improviso

Ivanildo Vilanova

Pelo vaqueiro que vaga
Por Pinto e sua viola
Por Zumbi, o Quilombola
Conselheiro e sua saga
Pelo baião de Gonzaga
E a luta de Virgolino
O barro de Vitalino
Pelo menino de engenho
Por isso tudo é que tenho
Orgulho de ser nordestino.

* * *

Lourival Batista

Amanhã, cedo do dia
vou à casa de Tatá.
Eu ficarei muito triste
se Tatá não tiver lá
mas a mãe de Tatá tando
é o mesmo que Tatá tá.

* * *

Bráulio Tavares

Entre as aves, eu lembro do pavão
de pés feios e penas coloridas
e se as aves são todas bem vestidas
o seu manto parece o de um sultão.
Sua cauda a se abrir com lentidão
ofuscante de cores e beleza
forma um leque que nem uma princesa
nem rainha nem rei já possuiu;
e esse leque, quem fez e coloriu?
Foi o grande poder da Natureza.

* * *

Manoel Xudu

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho no feno,
No meio, bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

Zé Bezerra trabalhando o tema “Lá no sertão é assim”

O caboclo sertanejo
Convive em seu lugarejo
Do campo entende o manejo
Sabe encarar tempo ruim
Trabalhando no pesado
Cortando ração pra gado
O seu palco é o roçado
Lá no sertão é assim.

Esse homem de mão grossa
Sai cedo de sua choça
Para cultivar a roça
E a vazante de capim
Planta cana e bananeira
Dá duro a semana inteira
No domingo vai pra feira
Lá no sertão é assim.

Seu cardápio tem mistura
De feijão com rapadura
Às vezes é fava pura
E espécie de gergelim
Traíra assada e preá
Carne de peba ou jabá
Toucinho com mungunzá
Lá no sertão é assim.

A cabocla nordestina
Passeia pela campina
Não gosta de ser granfina
Nunca usa trancelim
Desde os tempos infantis
Ela só quer ser feliz
E com muito orgulho diz
Lá no sertão é assim.

* * *

MOACIR LAURENTINO E SEBASTIÃO DA SILVA IMPROVISANDO UM QUADRÃO PERGUNTADO

UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO DE PELEJA

João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote

A vida pior do mundo
é melhor do que morrer

João Paraibano

Embora eu fique ancião,
vivendo em lugar incerto,
não quero caixão aberto,
nem vela acessa na mão,
nem que eu viva na prisão,
a polícia a me bater,
sem olhar o sol nascer
no meu torrão rude, imundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Eu peço ao onipotente,
não mude a minha vontade,
não tenho medo da idade,
eu quero é chegar na frente,
se um dia eu ficar doente,
sem poder locomover,
sem vontade de comer,
oiça curta e olho fundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

João Paraibano

A morte tem lance ingrato,
da cova ninguém arranca,
ao invés da meia branca,
eu quero meia e sapato
eu tendo que bater, bato,
pra o rival não me bater,
que é melhor envelhecer
do que morrer num segundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Mais alto do que os Andes
estou em todos terrenos,
não acompanho os pequenos,
fico do lado dos grandes,
disse assim José Fernandes,
que não vai se aborrecer,
não faltando o que comer,
outra coisa em não confundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

João Paraibano

Na casa que eu estou morando,
quero escutar sem complô,
um neto olhando, vovô,
e eu perto lhe abençoando,
minha mulher implorando,
pra meu corpo não morrer,
e ouvir meu filho dizer,
papai já tá moribundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Se eu tiver esse pecado,
não vou lamentar da vida,
se eu gostar de bebida,
um amigo é meu prezado,
eu posso comprar fiado,
se achar quem me vender,
e quando eu quiser beber,
passar um cheque sem fundo.
A vida pior do mundo
é melhor do que morrer.

* * *

Um folho de Cárlisson Galdino – PELEJA DE PELÉ COM ROBERTO CARLOS

Meus amigos que acompanham
Esta rádio pela antena
Hoje temos dois gigantes
Duelando na arena
Rei do esporte e da cantiga
Atenção para essa briga
Ela não vai ser pequena

É o rei do futebol
Pelé, como é conhecido
Há muito aposentado
Um jogador bem vivido
Vindo aqui mostrar seu jeito
Está do lado direito
Pra provar que é mais sabido

No outro lado desta arena
Temos outro renomado
Disputando com Pelé
Para tentar derrotá-lo
De talento que agrada
É o rei da Jovem Guarda
É o rei Roberto Carlos

A disputa desses dois
Não será no futebol
Roberto jogar não pode
E o Pelé não joga só
A disputa desses dois
Será decidida, pois
Em repente sob o Sol

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SÃO JOÃO

FESTA DE SÃO JOÃO – Anilda Figueiredo

Quanta saudade eu sinto
do São João de antigamente
que a gente brincava muito
e dançava bem contente
era tudo engraçado
com um matutinho de lado,
era tudo diferente.

O São João de antigamente
tinha q-suco e aluá,
canjica, pamonha, paçoca,
chapéu-de-couro e fubá
pé-de-muleque e sequilho,
bolo de puba e de milho,
arroz doce e mungunzá.

E pra gente se alegrar
uma caninha brejeira,
a famosinha fubuia,
velha cana brigadeira,
uns bebiam caipirinha
esperta, porém docinha,
na derruba era ligeira.

Com a faca na bananeira
no outro dia sabia
com quem ia se casar
a gente se divertia
todo mundo se alegrava
um dançava, outro dançava
até amanhecer o dia.

Improvisava a quadria
e saía de par em par
viva a noiva! viva o noivo!
a festa vai começar!
chamava um bom sanfoneiro
e nós no mei do terreiro
dançava até se cansar.

Cuidado pra não errar
preste atenção, minha gente!
camim da roça, olha a chuva…
hoje é tudo diferente…
faria tudo de novo
pra ver, outra vez, meu povo
no São João de antigamente.

* * *

MEU VESTIDO DE SÃO JOÃO – Dalinha Catunda

Foi mexendo em meus guardados
E fazendo arrumação
Que encontrei embrulhado
Meu vestido de São João
Um vestidinho singelo.
Mas eu considero belo
E logo voltei ao sertão.

Eu sinto tanta saudade,
Das velhas festas juninas
Onde eu era bem feliz
Junto com outras meninas
Ensaiando nossas danças
Organizando as festanças
Tipicamente nordestinas.

Vestia-me de matuta,
Com meu vestido de chita
Nos cabelos duas tranças
Nas tranças laço de fita.
De palha era meu chapéu
E eu me sentia no céu,
Não conhecia desdita.

O fogo unia famílias
Fogueira era tradição
O casamento matuto
Não faltava no São João
E o bom forró que rolava
Quando a gente rebolava
Era do rei do baião.

Hoje tudo esta mudado
Veio a modernização,
Acabando com os costumes
Do nosso agreste sertão.
Acabando com a folia,
E com a nossa alegria
Enterrando a tradição.

* * *

SÃO JOÃO NA ROÇA – Luiz Gonzaga

* * *

SÃO JOÃO SÓ PRESTA NA ROÇA – Zé Bezerra

Festa tradicional
De maior empolgação
É a festa de São João
Feita na zona rural
Se reúne o pessoal
Ali ninguém se alvoroça
Todos dizem: – A festa é nossa
E a alegria é completa
Por isso, afirma o poeta
São João só presta na roça.

É um São João diferente
Dos que fazem na cidade
Tem brincadeira à vontade
Alegrando a toda gente
O sertanejo contente
Logo depois que almoça
Corta lenha fina e grossa
Bem animado e feliz
Acende a fogueira e diz
São João só presta na roça.

No santo o povo tem fé
Festejando a noite inteira
Em toda casa há fogueira
Foguetão e buscapé
Mais tarde há arrasta-pé
No pavilhão da palhoça
Sanfoneiro da mão grossa
Toca um repertório novo
Para a alegria do povo
São João só presta na roça.

Na noite, a cada minuto
A lua no alto brilha
Logo antes da quadrilha
Tem casamento matuto
O noivo se faz de bruto
A noiva se alvoroça
De cima duma carroça
A mãe da noiva gasguita
Estufando o peito grita
São João só presta na roça.

A moça faz simpatia
Para saber com quem casa
Tem milho assado na brasa
Tem canjica quente e fria
Milho cozido em bacia
Pamonha na palha grossa
Se chover, a água empoça
Mas não para o forrozão
Para o povo do sertão
São João só presta na roça.

A festança é animada
Sem ritmo modernizado
Sem guitarra, sem teclado
Sem quadrilha estilizada
É mantida, é conservada
A pura cultura nossa
Pra que o sertanejo possa
Se orgulhar de sua festa
Em outro canto não presta
São João só presta na roça.

HOMENAGEM A DOMINGUINHOS

Duas glosas do poeta Andrade Lima em homenagem a Dominguinhos:

Sente o mundo uma perda no forró
Sentimentos o povo todo sente
Foi chamado por Deus onipotente,
Pra morar com certeza em outro pó
Suas músicas: lembra meu xodó
Num salão de reboco da cidade
Desses gênios só nos resta a saudade
Se tocarem no céu vamos dançar.
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

Partindo pro céu o Gonzagão,
Sua saga deixou pra Dominguinhos
Que cantou e espalhou em vários caminhos
Seu forró com xaxado, xote e baião
Fez a gente arrastar pé no salão
“Olha por céu meu amor”, sente vontade!
O balão subiu pra festividade
Deus quer ver esses dois no céu tocar
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

* * *

Um Sonhador Maginando, composição do Poeta Jessier Quirino, colunista do JBF.

Interpretação de Dominguinhos e Jessier Quirino:

QUATRO MESTRES DO REPENTE E LAMPIÃO CANDIDATO A PRESIDENTE

O grande poeta cantador pernambucano Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Nasci no sertão, desfrutando as virtudes
Do tempo de inverno, fartura e bonança.
Depois veio a seca, fugiu-me a esperança
Deixando-me assim, de tristeza tão rude.
Vi secos os rios, fontes e açudes.
E eu que gostava tanto de pescar,
Saí pelo mundo tristonho a vagar,
Fui ter numa praia de areias branquinhas
E vendo a beleza das águas marinhas,
Cantei meu galope na beira do mar.

Ali na cabana de alguns pescadores,
Fitando a beleza do mar, do arrebol,
Bonitas morenas queimadas de sol,
Alegres ouviram cantar meus amores.
O vento soprava com leves rumores,
O pinho a gemer, depois de chorar.
Aquelas morenas à luz do luar
Me davam impressão que fossem sereias,
Alegres, risonhas, sentadas nas areias,
Ouvindo os meus versos na beira do mar.

Eu sempre que via, lá no meu sertão,
Caboclo vaqueiro de grande bravura,
Vestido de couro, na mata mais dura,
Entrar pelo mato e pegar o barbatão,
Ficava pensando, na minha impressão:
Não há quem o possa, em bravura igualar;
Mas depois que vi o praiano pescar
Numa frágil jangada, ou barco veleiro,
Achei-o tão bravo, tal qual o vaqueiro,
Merece uma estátua na beira do mar.

* * *

Manoel Xudu

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

* * *

Sebastião Dias

O cemitério é a casa
Dos nossos restos mortais.
Ambição, ódio e vingança,
Ficam do portão pra trás,
Porque do portão pra frente
Todos nós somos iguais.

* * *

José Gomes do Amaral (Zezé Lulu)

A noite estava dormindo,
Canta o galo dando hora
Me levantei saí fora,
A lua vinha saindo.
Aquele clarão tão lindo
Fiquei prestando atenção
Pensei em forrar o chão,
E me deitar na calçada,
Vendo a lua debruçada,
Na janela do sertão.

* * *

Bandeira Sobrinho

A minha felicidade
perdeu-se como a fumaça,
foi uma sombra que passa
com o surgir da claridade;
fugiu-me contra a vontade,
fugiu sem eu nem dar fé;
minh’alma hoje é a ré
e o destino seu juiz.
A gente só é feliz
quando não sabe que é.

* * *

Um folho de Vicente Campos Filho

A CANDIDATURA DE LAMPIÃO PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Das histórias que surgiram
No Nordeste do Brasil
Sobre um tal de Virgulino
Lampião, homem viril,
Tem uma que ficou fora
Dos registros da história
Pouca gente já ouviu.

Quem me contou com detalhes
Eu não sei se é mentira
Foi um velho ex-cangaceiro
Chamado Zé Macambira
Me disse que Lampião
Foi um herói do sertão
Esse título ninguém tira.

Me disse que era tanta
A fama de Lampião
Que um cangaceiro seu
Deu a sua opinião
Meu Capitão vosmecê
É quem merecia ser
Presidente da nação.

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DOIS MOTES BEM GLOSADOS

Poetas repentistas Jomaci Dantas e Zé Carlos do Pajeú glosando o mote

“A velhice sorriu acompanhando
o enterro da minha mocidade”.

* * *

O genial poeta cantador Zé Vicente da Paraíba (1922-2008)

Zé Vicente da Paraíba, pai do colunista fubânico Wellington Vicente, glosando o mote

“Fiz do choro das cordas viola
O maior ganha-pão da minha vida”

Fiz o que desejava em minha infância:
Correr prado de um ponto a outro ponto;
Lá chegando cansado e meio tonto,
Boca aberta, tremendo e tendo ânsia.
Sem pensar ser por causa da distância,
Sem usar nem metragem, nem medida,
Muitas horas esquecia da comida
E trocava a merenda pela bola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz cachimbo de barro e matricó,
Conhecido também por “pai de fogo”,
Onde havia castanha, havia um jogo,
Que eu era o atleta do bozó,
O porreta no fojo e no quixó,
Só não era viciado na bebida,
Mas já tinha a ideia evoluída
Fabricando o alçapão e a gaiola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz um plano de vida pra viver
Com amor, com o riso e a saudade,
Como Deus é amor e é Trindade
Sabe e pode sustar o meu sofrer,
Muitas vezes cantando sem poder
Nem tocar na viola sustenida,
Agradeço à Maria Concebida,
Solitário na minha casinhola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Valdir Teles, grande poeta cantador pernambucano, glosando o mote

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

Lá em casa não tinha geladeira
Guarda roupa ,sofá nem energia
Tinha um pote revendo água fria
Enfiado em um gancho de madeira
O chapéu de papai andar pra feira
E as roupas da gente passear
Por não ter um cabide pra botar
Pendurava em um gancho de cambito
Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

* * *

Moyses Lopes Sesyom glosando o mote:

Se Celina me matar,
Ninguém tenha dó de mim.

Não posso mais suportar,
É grande a minha paixão,
Perdoo de antemão
Se Celina me matar.
Se dela me aproximar
Terei um prazer sem fim;
Se alguém me vir assim
Chupando o beicinho dela,
Se eu morrer fodendo nela,
Ninguém tenha dó de mim.

* * *

Marcos Rangel glosando o mote:

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Mocidade foi ontem que passou
E hoje vivo sentindo falta dela
Já mandei mil recados para ela
Mais nem mesmo um só me respostou
Muita gente viu e perguntou
Por que ela passava tão ligeiro
Respondi sem pensar e sem exagero
Ela veio, me usou e jogou fora
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Aprendi descrever essa passagem
Que vivi como ontem em minha vida
Sem dizer que a época foi perdida
Descrevendo somente, igual miragem
Que chorar o passado é bobagem
E saudade é flagelo que devora
Esse homem que em tua frente chora
Dos perfumes da vida sabe o cheiro
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

* * *

Ademar Macedo glosanto o mote:

O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote

O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Numa tarde de inverno o céu se agita
Uma nuvem pesada esconde o sol
Aparece relâmpago, caracol
A cascata do rio enche e vomita
Desce raio de fogo o trovão grita
Na cabeça de um grande torreão
Passa o vento entoando uma canção
Que o porão do açude se arrepia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Na esperança o campônio se agarra
Do fantasma da seca sente medo
Quando chega o natal, acorda cedo
Para ver se aurora trás a barra
Inimiga da seca é a cigarra
Que só canta no tempo do verão
O profeta do inverno é o carão
Quando está pra chover ele anuncia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Quando chove na entrada de janeiro
O riacho transborda e solta roncos
Lambe os galhos do mato, arrasta troncos
De raízes que encontra em todo aceiro
Passam sapos montados no balseiro
Parecendo um chofer de caminhão
Não dirige, mas dá a impressão
Onde tem um perigo ele desvia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

No inverno o vaqueiro tange bois
O roceiro na luta mete a cara
Queima a broca o que sobra faz coivara
Deixa arranca de touco pra depois
Corta a terra na baixa de arroz
Faz remonte de cerca aduba o chão
Abre cova semeia e enterra o grão
Tudo quanto plantar a terra cria
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

DOIS POEMAS DE ZÉ DA LUZ

Severino de Andrade Silva (Itabaiana/PB, 1904 – Rio de Janeiro/RJ, 1965), mais conhecido como Zé da Luz, foi um alfaiate de profissão e poeta popular brasileiro

* * *

A TERRA CAIU NO CHÃO

Visitando o meu sertão
que tanta grandeza encerra,
trouxe um punhado de terra
com a maior satisfação.

Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo
levá-lo no meu caixão.

Chegando ao Rio, pensei
guardá-lo só para mim
e num saquinho de brim
essa relíquia encerrei!

Com carinho e com cuidado
numa ripa do telhado,
o saquinho pendurei…

Uma doença apanhei
e vendo bem próxima a morte
lembrando as terras do norte
do saquinho me lembrei.

Que cruel desilusão!
As traças, sem coração
meteram os dentes no saco,
fizeram um grande buraco
e a terra caiu no chão.

* * *

CANTADÔ E VIOLÊRO

Eu nunca aprendí a lê.
Eu nunca tive im iscóla.
Mas, Deus mi deu o sabê,
De sê impruvisadô
E tocadô de viola.

Eu não invejo a sabênça
De nenhum hôme letrado.
Deus mi deu intiligênça,
Qui tem feito diferença
A munto doutô formado.

De que serve os anelão
Qui êsses doutô tem nos dêdo,
Se de uma impruvização
Êles não sabe o segrêdo?

As iscóla, a Acadimía,
Faz doutô de todo jeito:
– Faz doutô de inginharía;
Doutô Juiz de Dereito;
Doutô prá curá duênça;
Faz inté doutô dentista.
Mas, nunca há de fazê,
Um doutô saí de lá,
Formado na puisía,
Num puéta repentista!

Quando eu pego na vióla
Qui óiço o gemê das prima,
Os verso sái da cachóla
Im cachuêras de rima!

Praquê maió aligría,
Prá um cabra impruvisadô,
De que numa canturía
Êle lová u’a moça,
Pra dispôis dela lováda,
Fica tôda derrengáda
Agradicendo o lovô?

E a vióla, contente,
Ficá tocando um baião,
Inquanto o cabôco sente,
Outra vióla tocando
Cá dentro do coração?…

Se os versos q’eu impruviso
Não tem graça nem belêza,
Piçuí um grande valô:
– Êsses verso, eu aprendí
No livro da Naturêza
Tendo Deus pru professô!

O cantadô de repente
Tem tudo qui êle quizé:
– Tem os rio, as cachuêra,
Tem as noite inluaráda,
O rompê das arvoráda
E a graça das muié!

E tem o céu brasilêro
Qui cobre as terra Norte!
E tem o cabôco forte,
Tem o valente vaquêro,
As “Festa de Apartação”,
Tem o calô das fuguêra
Das noites de São João!

Tem os cabôco valente
Flô da alma do sertão!
Êsses cabôco ribusto,
Qui vinga a honra ultrajada,
Sem tê mêdo, sem tê susto,
Cum um “Bacamarte” na mão!

Praquê livro ou iscóla,
Praquê ané de doutô?
Se eu piçúo uma vióla,
Tenho livro e prufessô;
Tenho Deus e a Naturêza
Aonde tá a grandêza
De tudo qui Êle criou!?

Eu sou feliz, meu patrão.

Eu vivo nesse mundão
Bem satisfeito e contente.

E peço à Deus das artura,
(Ao meu grande prufessô)
Qui não mi farte o repente,
Esse dom qui Êle mi deu
Cum Seu pudê verdadêro
De eu sê impruvisadô,
Cantadô e violêro!

A CORRUPÇÃO NA POESIA POPULAR

GRITO DO POVO – Manoel do Côco

Essa tal corrução
Está comendo um pedaço
Transmitindo um fracasso
Da saúde e da nação
Falta de condição,
Falta de medicamento
O tamanho do sofrimento
Dos filhos e também dos pais
Nas portas dos hospitais
Um morre a cada momento.

Corrupção é doença,
Um câncer nacional
O Supremo Tribunal
Quer tomar as providências
Mas a nossa paciência
Há tempos se esgotou
Nosso povo se juntou,
Estamos indo pra rua
E se ninguém der um jeito,
Essa luta continua !

* * *

CORRUPTO SÓ É ELEITO POR QUEM SE CORROMPE TAMBÉM – Cleber Sardinha

Brasil meu Brasil tão bonito
Vai vivendo assim aflito
Do luxo ao lixo maldito
Que fede e nos faz refém
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

Povo, gente e pátria amada
Uma história manchada
Por delitos federais
Deputados , senadores
Sem moral e sem valores
Não se movem nada faz.

Como pode nossa gente
Ir as urnas novamente
Votar errado assim?
Apoiando vagabundo
Ferrando com todo mundo
Decretando o nosso fim.

Pra votar está difícil
Chega a ser um sacrifício
Achar alguém que merece
Um candidato direito
Sem tretas e sem defeito
Que promete e não esquece.

Só achamos picaretas
Com processos nas gavetas
E a ficha encardida
Nós que pagamos o pato
Pois tem certos candidatos
Que são atraso de vida.

Não se faz democracia
Com propina e regalia
Ferrando gente de bem
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

* * *

O VALOR DO SEU VOTO – Izaías Gomes de Assis

Eu quero meu caro amigo
Neste verso te alertar
Sobre a tal corrupção ,
Que pode contaminar
Nos anos das eleições
Querendo te devorar.

É uma coisa do diabo
A tal da corrupção
Ela corrompe a moral
E desgraça o cidadão ,
Fazendo uns bandidos
Controlar nossa nação.

E tudo isso pelo amor
Do maldito e bom dinheiro,
Que infesta a humanidade,
Desgraçando o mundo inteiro,
É um mal do capitalismo,
Que viciou o brasileiro.

Meu caro amigo eleitor
Que é honesto e bom cristão,
Não venda nem troque o voto,
Deus não gosta disso, não
O anjo Dele te ilumine
Te trazendo educação.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM MOTE BEM GLOSADO

Ademar Macedo

Um forró numa latada
numa plena sexta-feira,
um bebum no meio da feira
topando em toda calçada;
uma velha na almofada
com um bilro em cada mão,
prestando muita atenção
naquilo que vai fazendo;
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

Bráulio Bessa

Uma carta escrita à mão
achar dinheiro no bolso
cochilo depois do almoço…
curtir um feriadão
ter bicho de estimação
ser grato e compreender…
Um dia vamos morrer
e sentir na despedida
que as coisas simples da vida
nos dão forças pra viver.

Daniel do Assaré

Plantei um pé de saudade
No sol quente ao meio-dia
Certo que aquela semente
No chão seco não nascia
A semente floresceu
E hoje só não matou eu
Por causa da poesia.

Odilon Nunes de Sá

Todo aquele que vive mal ou bem
Sempre quer que a vida viva mais,
Pra ter vida e viver vivendo em paz
Com outros tantos dos anos que já tem,
Nunca quer esperar se a morte vem
E quando vem, ai sim não quer saber,
Só deseja a vida ainda crescer
Na crescença de uma idade ainda crescida,
Agradeço a vida ainda ser vida
E eu ter vida vivendo pra viver.

Manoel Xudu

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar

* * *

Moacir Laurentino e Sebastião Silva glosando o mote:

A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Eu passeei com meu bem
pelo cantinho da sorte,
já cruzei de Sul a Norte,
de Leste a Oeste também
e o destino ingrato vem
nos deixa dores, sequela,
e hoje da minha bela
tenho lembrança e mais nada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

O antigo casarão
do meu amor verdadeiro,
que eu abracei no terreiro,
lhe dei aperto de mão,
hoje só tem solidão,
a tristeza e a sequela,
está velhinha a cancela,
pendida e escancarada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Naquele belo recanto,
que foi nossa moradia,
onde havia Cantoria,
muita festa em todo canto,
houve novena de santo,
no altar e na capela,
só tem o santo e a vela,
onde a missa era rezada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

A mulher que me amou,
que me queimou como brasa,
eu fui visitar a casa
e tudo se divisou,
a saudade ela deixou,
a sua saia amarela,
o resto de uma chinela
e uma blusa remendada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.


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