LAVOU-ME A VIDA…

Estava chovendo naquela noite. Não me atentei às horas, só fiquei a observar o movimento da rua pelo vidro da janela. Não recordo também se era época de tanta chuva, mas lembro que fazia dias que continuava assim, e eu recolhida em casa, sem a mínima vontade de sair. Nem para vê-lo.

Era um estado de inércia, sentia-me possuída pela melancolia que a chuva traz. Bom, para mim é assim; apesar de ver a renovação que chega com ela, enxergava também tudo de ruim que ela lavava do meu ser, como se inundasse tudo e ao secar levasse embora quaisquer indícios de sujeira. Era bom afinal, mas até isso acontecer, muita coisa vinha à tona.

Deve ser isso que me hipnotizou por longos minutos ao pé da janela. Ali fiquei a lembrar do que eu gostaria que ela levasse desta vez. Sonhos desfeitos, planos desajustados, metas que não alcançaria. E, convenhamos, nem preciso dizer o motivo disso tudo estar em minha mente, bagunçando minha ordem.

Sabe o que notei prontamente quando vi aquela foto? O olhar dela era de uma pessoa realmente apaixonada. Sim, até me enxerguei nela. Sem dúvida você é uma pessoa apaixonante. Mas isso não me impressionou, como disse, era o esperado; você encanta. O que estranhei foi a sua feição, estava com olhar perdido, como se soubesse que ali não era seu devido lugar. De certa forma isso me deu uma ponta de esperança, pelo menos sabia que imoralidade daquele abraço, da dor que estaria me causando a cada beijo trocado que não em meus lábios.

Até hoje me pergunto como essa foto veio parar em minhas mãos. Costumo dizer, e isso aprendi com minha avó e mãe, que não precisamos procurar por problemas, eles nos chegam. Caem no colo, adormecem em nossas mãos, nos encontram como se pedissem resolução. Pois é, simplesmente vi, estava ali, dentro da caixinha do relógio na cabeceira da cama. E, como providência divina, apareceu-me justamente enquanto estava em viagem. Acho que para que eu digerisse, refletisse, entendesse essa nova fase. Porque é, se torna uma nova fase. Você faz a merda e eu tenho que decidir o que fazer. É injusto não?

Em discussões aleatórias em que eu tocava no assunto sempre deixava claro que a maior decepção não seria a traição em si, mas todo o teatro, a enganação, as mentiras que devem ser contadas para sustentar a infidelidade. Isso e, claro, ver seu cuidado e olhar apaixonado por outra pessoa. E isso eu não vi. Pelo contrário, estava ciente que eu o veria naquela foto; no exato momento em que a tirava sabia que eu o veria.

Acho que sentiu que eu não estava bem. Meu celular gritava em chamadas suas. Apenas o desliguei, sem compromisso, sem culpa. Há quilômetros de distância, palavras trocadas pelo celular não resolveriam nada. Fiquei a fitar a via por um tempo. O copo, já vazio, amargava mais do que entorpecia.

Fechei as janelas, cansada de ver carros indo e vindo; pessoas correndo, evitando a chuva que teimava em cair sem descanso. Despi-me e entrei na banheira, já cheia, e desta vez com os sais de banho que me deu de aniversário. Lavanda, né? Delicadamente doce. Certeiro. Você é, como já falei, encantador.

Cabeça encostada na beira da banheira, acomodei meu corpo totalmente dentro da água. Somente os pensamentos permaneceram secos, literalmente secos. Não queria nenhum tipo de interferência emotiva neste jogo. Jogo esse que eu perdi no exato momento em que encontrei a foto. É isso, é isso que queria me dizer com este olhar triste que ousou em escancarar na foto. Eu decido sim o que será de nós, mas você me conhece e sabe que não é um papel que desempenho bem. Penso que cada um cuida do seu, não podia lhe dizer como seguir com sua vida. Eu tinha é que decidir a minha.

Inebriada por tamanho embaraço por sua inteligência, por ver o quanto pode ser maquiavélico, deixei molhar meus os cabelos, mergulhei inteiramente na banheira e por ali fiquei. Com a mesma inércia de quando estava na janela, estática como no momento em que peguei a foto, sem ânimo para o que você me deu como caminho. Por ali fiquei, inundei-me com a água de lavanda, e, junto com a chuva que parou instantaneamente, levou o que eu não queria mais.



EU ME SINTO E SEI DE SENTIMENTO

Tem quem ache estranho, singular, ou apenas fora de órbita. Engraçado, não pedimos opinião alheia, ainda assim passamos pelos olhos e pensamentos dos outros como se precisássemos de orientação, conselho ou aprovação.

Pode falar, não ligo. Eu tô em outra. Isso que acha sobre qualquer comportamento meu que lhe chama a curiosidade, é apenas meu, não compartilho com você. Mas, sem problemas, a tranquilidade de viver tira-me o peso de sua presença sem solicitação.

Gosto dela assim, meio louca meio sã. Séria e inegavelmente eufórica. Totalmente responsável e sabiamente ‘carpe diem’. Adora o calor e sente um prazer enorme em curtir as brisas mais geladas da madrugada. Totalmente tímida e publicamente acessível. Pinta as unhas de preto e usa rosa nos brincos. Não gosta de bagunçar os cabelos, mas abre o teto do carro toda vez que pegamos a estrada. É uma doçura de menina e a força madura de mulher vivida. Tem gente que chama isso tudo de dificuldade, eu mesmo chamo de vive-la. Sim, vive-la como é, com o doce e o amargo de sua personalidade instigante.

Essa complexidade toda é tão simples quando a levamos para o campo do sentimento… é brisa leve, e que me leve para a mais gostosa sensação! E o mais engraçado de tudo não está aqui dentro – somos apaixonadamente sérios, mas lá fora – onde as bocas distintas têm mil palavras a serem ditas – contrárias a nós – mas continuam inaudíveis. Quero acreditar que é porque somos, e ponto.

Os relacionamentos são idealizados num nível, muitas vezes, inatingível. Sinto muito por vocês porque eu sinto muito ela! Estão por aí, a observar, e ela aqui seguindo sua vida plena e eu plenamente vivendo com ela. Acho que isso até é um incômodo. Como disse, fico tranquilo pois olho-me no espelho e reconheço o que vejo, só me distraio com a imagem dela, linda, ao meu lado, distraidamente suportando qualquer que seja o reflexo que nos apareça.

Somos todos complicados, cada um com sua vírgula. A dela é apenas para dar continuidade em minha história. E assim, dando outro significado no que chamamos de ‘nós’. A beleza do que vivemos não está apenas no amor que nos transborda internamente, mas, no que esperamos um do outro dentro da limitação de cada um.

A maior diferença aqui, além do meu ‘não ligo para tudo o que pensam’ é que não somos iludidos por qualquer modelo de relacionamento dito exemplar. Eu só disse ‘oi’ e ela respondeu ‘vamos?’. Como negar? Foi simples; nosso café é black e o pão de queijo é diário. E tudo isso colore os dias, mesmo as segundas-feiras. Eu acho ela chata e ela me acha engraçado, não combina?

Andamos de mãos dadas, como qualquer um. Mas quaisquer andam de almas abraçadas? Eu acho nela o que não está em mim mesmo. Ela é pontual e não acho nem meu relógio. Totalmente organizada e eu gosto da bagunça. Lembra de cada data importante e eu nem sei que dia é hoje. Mas, não é pra ser assim? Completar o que nos falta, aprender com quem sabe o que nos é difícil fazer? Enfim, o somos, radiantes e confiantes. Difícil sempre, mas o abraço dela é tão gostoso…



AOS TEUS OLHOS E AOS MEUS SENTIMENTOS

Penteando meus longos cabelos lisos em frente ao espelho encarava-me profundamente, perdida em meu próprio olhar. Pensamentos desconexos, aleatórios, pensaria uma pessoa se pudessem os escutar. Para mim, autora destes devaneios íntimos, eles seguem uma linha bastante lógica. Fiquei ali por longos minutos, lembrando da enorme e desnecessária discussão da noite anterior. É impressionante como perdemos o controle facilmente, como uma pequena chateação torna-se um questionamento sobre ir ou ficar.

Já imóvel ainda me olhando no espelho, deixei o pente na cama e forcei-me a secar as lágrimas que escorriam pelo rosto, a esta altura, já contavam-se muitas. Forcei-me porque não queria ainda esconder as provas de tamanha infelicidade pelo último acontecimento. Queria deixar escancarado todo meu sentimento de revolta, essas lágrimas mostram a minha insatisfação e isso tem que ficar claro!

No fim, enxugando-as, vejo que não passam apenas de sentimentos meus, meus apenas. Preocupações minhas, ninguém dá a mínima pra isso. E sinto-me ainda mais revoltada, por saber disso e ainda esperar que seja diferente. Deixei meu corpo amortecido por tanto ódio, cair sob a cama, ainda com a bagunça de uma noite mal dormida. Deitei nos lençóis quentinhos e senti-me acolhida. Chorei novamente, de desgosto, de ver minha estupidez, de sentir necessidade de mudar a situação, mas querê-la como está.

Deveria querer sair e respirar a liberdade de ser eu mesma sem ter responsabilidade na vida das outras pessoas. Seria mais fácil andar sem rumo, sem compromisso, e esquecer essas mágoas que marcam meu coração e me enchem de tanta infelicidade. Essa intensidade de sentir, inclusive essas coisas mais pesadas e tristes, dão a impressão de que sou deliberadamente depressiva. Não, não o sou. Confesso ser intensa; uma gota é um oceano dentro de mim, com certeza! Mas isso se dá nas alegrias também… acontece que as melancolias nos abatem mais do que as felicidades nos fazem sorrir pelos olhos.

Ainda deitada, já soluçando apenas, sem mais pranto a me consumir, respirei fundo, quase como se colocasse um ponto final nesta situação. Sinto outra presença no quarto, abro os olhos e ali estava ele, a me encarar, a me cobrar um comportamento diferente. Como se me desse uma lição, mais ainda, como se quisesse provar o que havia me dito noite passada: ‘és muito depressiva, há de aprender a ser diferente!’ Essas palavras ecoaram através do seu olhar feroz naquele instante.

Como explicar que a intensidade tem dois lados? Como mostrar que é a própria tristeza nos faz lembrar que a felicidade é melhor e mais gostosa de se viver? Ainda assim há de se passar por ela… A cobrança que me ele me faz é injusta e inapropriada. Ainda mais pelo seu papel em minha vida e pelo seu papel nesta confusão e drama todo.

Casada, exausta na verdade, só olhei pra ele. Olhinhos marejados novamente, com um nó na garganta, que nem ousava a desatar naquele momento, apenas acenei positivamente com a cabeça, concordando apenas com o gesto não com o sentimento. Há tanto que não sabe, ou se limita a não saber… Me deixa confusa, temos que despertar o melhor em nós, as experiências, boas ou ruins, nos fazem isso. Prefere ser apenas um pedaço de papel em branco, sem cor, sem traço algum. Que seja, que me responsabilize por qualquer que seja a obra que temos que fazem em nós, que deixa como mentora de uma vida que nem eu mesma sei guiar. Sou suficientemente responsável e capaz de nos levar, ambos, para um caminho de rosas, sem dúvidas! Deixe-me apenas curtir, um dia ou outro, a dor que os espinhos me causam por cultivá-las. Sentir este sofrimento me é essencial, faz-me renovar o espírito e buscar o que mais quero: viver plenamente feliz.

Depois de acenar-lhe com a cabeça, virou as costas e saiu do quarto, deixando a porta aberta. Olhei seu caminhar lento até o fim do corredor, apenas onde minha visão alcançava. Notei que estava mais perdido, e em dor, do que eu. Ali, senti mais forte a necessidade de nos fazer caminhar. Sequei a última lágrima a descer, levantei, prendi os cabelos já penteados e saí a te ajudar a terminar o caminho.



VOCÊ É MEU SUBTERFÚGIO

Por muito tempo nada foi igual, nada encaixava em mim, era como se eu fosse uma farsa totalmente exposta, mas ninguém realmente via isso. Eu realmente me achava uma fraude, sem vida, sem sentido estar por aqui…Como se faltasse um propósito e que ele fosse realmente válido, tão válido que me aceitassem sem eu precisar de toda essa carga que eu carregava e que no fundo era inútil, só eu mesma é que via assim.

A cor do esmalte, o tipo de roupa, o perfume cítrico… não combinavam com a minha personalidade. Vaguei por muitas ruas, noites e noites, sem ninguém entender a minha confusão. Os dias nem contavam, cheios de compromissos e responsabilidades, enchiam as horas de vazios incansáveis.

Isso se deu por longos meses, ou poucos meses; isso vai depender se você é daquelas pessoas que enxergam o copo meio vazio ou meio cheio. É, vejo vídeos motivacionais, nada a acrescentar sobre eles aqui e nada a exaltar também… enfim, o foco é que tudo era meio vazio mesmo: copo, cama, coração.

Até que teve um começo. Um começo no meio da história. Você veio, chegou com esse tamanho de lucidez. Enxergou tudo. Sentia tudo… e soube, na primeira conversa, quem eu era. Demorei a entender essa organização no meu caos. Fugia de você, das suas cobranças caladas. Achava engraçado sua procura por mim, uma procura na qual eu também compartilhava, entende?

Por que você ficou? Sabe que continuei para simplesmente, de forma egocêntrica, descobrir a resposta desta pergunta… qual o motivo de, ainda vendo tudo e sabendo de tudo, você escolheu ficar? Deixei-nos levar. As brincadeiras foram ficando mais sérias, os carinhos mais intensos e os sentimentos mais verdadeiros. Seus beijos mais tocantes, meus sonhos mais reais e sua estadia mais palpável.

Já não achava que partiria sem voltar, já sabia escolher a cor do esmalte que mais combinava comigo e, com certeza passei a entender que minha personalidade feminina combinava com o perfume doce que me presenteara. Isso, claro, sem contar com a prova cabal de que se inebriava com meu cheiro em meu pescoço quando dele eu fazia uso, propositalmente.

Não consigo admitir que foi meu ‘norte’, mas seu caminho me mostrou o meu. Engraçado como nos deixamos completar por pessoas aleatórias. Veja bem, não se ofenda, não quis dizer ‘sem importância’, mas não era alguém de papel em minha vida… Encontrar-me sentada a ler no pequeno e único espaço coberto do parque foi aleatório, não? Minha leitura o instigou assim como seu interesse fez o mesmo comigo. Por que se interessou?

Hoje isso realmente importa? Eu não sei, acho que me daria uma satisfação infantil saber. Não, deixa pra lá, toda vez que a porta se abre e vejo sua barba a chegar perto de mim, encho-me de certezas e me deixo apenas curtir essa descoberta. Sim, a cada dia sento-me descoberta por você. A cada momento em que passamos juntos eu me vejo uma mulher diferente, ou melhor, uma mulher! E com várias qualidades diferentes, despertadas. Espero que esse interesse continue mesmo após a novidade. Dizem que o tempo tira esse frescor. Ai, sem mais devaneios, pensamentos de copos meio cheios, só beije-me por vários instantes; aleatórios e constantes.



NÃO ME DEIXE PRA TRÁS

E quando não havia mais esperança eu simplesmente parei na beirada e olhei pra baixo. Nunca me senti tão leve. O pânico era alheio, não meu. Olhei pra cima, estiquei os braços ao máximo que consegui, como se eu sentisse que iria receber alguma bênção, e relaxei o corpo. Os pés juntos, na beira da ponte, com os dedos quase totalmente para fora de onde eu podia pisar com segurança, e eu não sentia nada além de alívio.

Por ali fiquei por segundos, longos, parecia passavam lentamente. Poderia ter me irritado com isso, mas naquele momento eu não queria mesmo que o tempo passasse. Aquela sensação de liberdade deveria durar mais tempo… Meus cabelos longos me cegaram por momentos, a brisa passou tão forte que eles se emaranharam em meu rosto. Não vi nada… e não precisei, bastava sentir.

Continuei com os braços lindamente esticados, me dando, perigosamente, uma instabilidade inapropriada para o momento. Não liguei. Não entende que não era importante? Não me importava com o perigo iminente, ou escancaradamente mortal, parecia, para mim, apenas fugaz.

Fugaz! Pensei naqueles dias em que pensei que seu carinho por mim seria menos efêmero. Duradouro, na verdade, isso que achei. Este pensamento subitamente doeu-me o coração… se é que isso, literalmente é possível. Pois é, com você aprendi que os fatos são como são, não há maneiras de deixá-lo romântico o suficiente se uma das partes o torna cruel por simples prazer. A sua partida foi muito cruel. Inesperada, desnecessária, brusca…

Mesmo num estado de êxtase e meditação angelical, o pensamento em você me fez sentir uma lágrima amarga descer pelo rosto. O desequilíbrio chegou por momentos poucos; lembrar sua partida egoísta me causou desconforto. Desci os braços junto ao corpo, realmente procurando equilíbrio. Abri os olhos e percebi onde estava. Num estado de lucidez apenas desci do parapeito. O barulho da água batendo nas pedras laterais ficou ensurdecedor… o que antes era apenas quietude. Foi você, foi o pensamento em você me trazia caos, imagine a presença…

Respirei fundo, bem fundo. Acho que procurava a vida. Não sei, queria perdê-la, já tinha perdido você. Firmei as mãos na beira da ponte, segurando-me firmemente, em mim mesma. Pensando que este gesto externo me daria forças para achar-me internamente. Trêmulos, os braços, me seguraram em mais um momento de lucidez. Como enxergaria minha sombra como uma apenas se já me acostumara a vê-la como dupla? Mais lágrimas densas e teimosas me desceram as bochechas. Caiam, aqui, agora e chega. Abro os olhos e vejo apenas o horizonte à frente… Preparada para seguir em frente, abri-me para os sentidos naquele instante. O primeiro passo para sair dali foi duvidoso.

Inesperadamente sua voz surge ao fundo. Inebriada pelas emoções dos últimos segundos, em que a decisão de continuidade estava ainda delicada, escutei você ainda mais perto. Os olhos o procuravam em várias direções e, mesmo sem vê-lo, sua voz já chegava como um grito ao ouvido. Não tive mais dúvidas, senti-me forte o suficiente para juntar-me a você. Fui, sem repensar. Não deixei vestígios. Apenas um corpo inerte, já desfalecido pelo encontro com a água gélida.



NÃO É DO MEU AGRADO CONFESSAR…

Não é do meu agrado confessar que, se sua real intenção com esse teatro todo era apenas humilhar-me e irritar-me, obteve um enorme sucesso.

É sabido, e muito notório, que procuramos em nossos possíveis companheiros qualidades que não temos, ou ainda, que temos dificuldade em desenvolver. Para muitos pode parecer imenso desafio essa coisa de convivência, mas, eu via a nossa como uma completude… Aí vem você, com essa imaturidade emocional pontual e me apresenta uma mulherzinha que mal sabe onde está? Realmente procurei enxergar o que você viu de interessante; bem o conheço e tenho essa bagagem para argumentar. Mas tive que observar por mais tempo para tentar chegar a uma conclusão que me deixasse satisfeita o suficiente e forte o suficiente para que o soluço de lágrimas cessasse antes que me visse em tão lastimável estado. Nesses momentos vejo que minha postura de ‘emocionalmente equilibrada’ fica apenas na emissão de palavras porque o sentimento e imagem em si, deduram-me instantaneamente.

E o fiz mesmo, observei desde que entraram com grandioso alvoroço pelos fundos. Fiquei até a imaginar: se queriam mesmo chamar a atenção, por que os fundos? Enfim, deve fazer parte da cena, quem sabe pensaram que geraria a impressão de que não importa o caminho que fizessem, seriam notados, não?

Delicadamente com a mão na cintura dela, guiando-a pelo caminho, vi que tentou fazer acontecer uma intimidade entre vocês. Mas isso ‘eu’ notei, ela, pelo visto, preocupava-se mais com o cumprimento e olhares alheios. Exibindo o penteado espalhafatoso e a saia extremamente justa e muito acima do limite aceitável, não por questão estética, mas pela manutenção da intimidade que devia ser apenas dela; devia…

Com um sorriso sem graça, puxou-a para perto de si encostando sua boca pertinho do ouvido dela, sussurrou; ela prontamente o olhou com uma fúria contida, e também sorriu. Gostando da cena, levei o copo à boca antes que teimasse em emitir qualquer som para que notasse minha presença. Em vão! Viu-me ainda assim, ainda que encolhida no canto da sala, com o mais normal vestido creme de costume, com o batom cor da boca mais sem graça e brincos que só estavam ali para não ficarem encostados na caixa de joias empoeirada. Levantou a mão como cumprimento e eu apenas o imitei.

É claro que ela nem viu, ainda preocupada em manter a atenção de outros para si, gritou para o garçom servi-la com a melhor dose de whisky da casa, timidamente você pediu um chopp mesmo, daqueles com colarinho branquinho, típico sambista de boteco. Tão logo chegou, tomou a caneca e, olhando pra mim, ergueu a bebida procurando certa intimidade e cumplicidade que lhe faltava nesta nova cena. Por educação, e apenas por isso, também o fiz com meu copo já vazio. Aproveitei e pedi outro ao garçom. Nem vi você se aproximando, no susto já me peguei a lhe abraçar de volta. Não foi um encontro qualquer, você sentiu né? Por cinco segundos senti o pulsar do seu coração ritmado que me envolveu juntamente com o cheiro do perfume que insisto em dizer que bem combina com sua personalidade. Só o soltei porque senti que precisava ir. Engraçado que, sem nem uma palavra, trocamos confidências doces e a promessa de um encontro posterior.

Voltou à mesa. Ela continuava a falar e falar sobre sua carreira de sucesso, a plateia era grande, masculina em sua totalidade. Entediado, movimentou-se para sair de lá novamente quando foi repreendido pela mão dela segurando sua coxa. Virou-se para ele e balançou negativamente a cabeça. O beijou mais como uma ordem e não um gesto de carinho, o rubor tomou-lhe as bochechas, da mesma cor rubra que sua boca ficou após o encontro com a dela. Ali eu vi o torpor que isso lhe causou, ali notei que a paixão o tomou pelo pescoço como um enlace de boi, sabe? Mas também foi ali que notei que a fisgada dela foi pelo pescoço mesmo e não coração. Bebi o último gole que me restava no copo e fui ao banheiro, só, como a noite toda.

Como disse, irritou-me tudo isso, não só por vê-lo longe de mim mas, principalmente, por estar com ela. Ela! Contra tudo o que somos, pensamos, acreditamos… Irritou-me de tal forma que repensei a mim mesma. Será que meu ar blasé perdeu o mistério nato e o interesse curioso? Ela é tão escancarada que não há maneira de encará-la sem considerar ser teatral. Olhei-me no espelho por minutos. Assim sou. Saí de lá apenas desamassando o vestido e bagunçando os cabelos que teimavam em ficar alinhados. No coração não tinha como mexer né, mas o humor eu controlei, ou tentei… nem sei.

Desatenta, saí de lá, direto para rua, sem direito a saideira. Não por acaso, tenho certeza, estava a respirar do lado de fora. Sem me deixar entender veio ao meu encontro e apenas se encaixou em mim novamente, tudo se encaixou novamente. O afastei no momento em que percebi que ela estava a nos olhar pelo vidro da porta. Sem palavras sai andando a contar as luzes queimadas da rua, maneira besta de fingir que era isso o mais importante da caminhada. Ficou ali, esperando a última ordem dela. Sei porque olhei pra trás e vi que, cabisbaixo, subiu os degraus e entrou ao encontro dela.

Assim acabou a noite: você aos comandos infundados de ‘não sei quem’ e eu a contar os pontos que me iluminavam o caminho nas ruas escuras que agora eu fazia questão de andar apenas em minha companhia.



ESTA É MINHA VERDADE INVENTADA

Procuramos tanto uma maneira de ser feliz constantemente que chegamos a gastar energia e tempo de vida, muitas vezes sem notar que já o somos!

Inventamos patamares a serem alcançados, depositamos cargas em coisas e pessoas alegando ser para nos fazer feliz, responsabilizamos nossos companheiros de vida (sejam cônjuges, amigos, filhos, pais) como se dependessem deles a conquista de uma felicidade que é mais nossa do que consigamos confessar!

Condicionamos um estado de espírito à bens, à situações que não dependem de nós – muitas vezes; mas acredito que é mais simples que tudo isso e, ao mesmo tempo angustiante encontrar esse desejo constante de ser feliz: conhecer a ti mesmo.

Só acho mesmo, apenas como crença, não experiência, até porque acho extremamente difícil e tenho uma evolução muito infantil ainda em relação a essas plenitudes.

E isso – nos conhecer – será descoberto num conjunto de reflexões e experiências vividas, sim, como esta a que se depara, lendo este texto pretensioso, tão pretensioso que busca diretrizes para uma felicidade que certamente é individual. Esse descobrimento pessoal não está apenas em nosso interior, há que considerar as escolhas externas e os reflexos que elas geram em nós!

outro texto falei sobre a felicidade como algo a se conquistar considerando nossas pequenas alegrias, detalhes diários que nos contentam. O que ainda acho muito válido e é uma maneira de considerar ver o lado positivo de muitas situações de nossas vidas, mas como um complemento penso que há uma outra forma de entender isso também… saber sobre o que lhe amedronta, saber sobre o que quer distância e não mais vivenciar, por exemplo. Assim, fazer o contrário disso lhe mostrará um caminho mais perto do que quer…. ser feliz!

Pensando ainda mais, superestimamos essa tal felicidade não? Poxa, tudo tem que ser perfeito, como queremos, na hora em que desejamos… Bem, é assim com vocês né? Espero não ser a única imatura no mundo! Bem, essas são mais autorreflexões que diretrizes a outrem. E se apenas deixarmos as coisas mais leves, sem muitas exigências, sem muitos parâmetros. Ah vá, quer falar pra mim que isso é teoria e a prática é complicada? Meu bem, eu sou a rainha da falta de prática em tudo relacionado a essas facilidades emocionais. Pois sim, me complico que é uma beleza! Leia meus textos, verá tamanho drama melancólico!
Ah, sem medo da exposição! Essas trocas (porque ideias vêm e vão) me fazem ser uma pessoa melhor, o que me atinge e reflete em mim como um estado feliz de mim mesma! Lhe ajuda também? Achou sem sentido?…

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” Clarice Lispector



VOU ME COMPORTAR, PROMETO!

Tenho que confessar que fiz promessas íntimas no começo do ano. Sei, clichê, sim, sei. Ano novo, vida nova, planos novos e atitudes a se renovar, não é o que sempre falamos no primeiro dia do ano, geralmente? Então, fiz isso. Prometi me comportar.

Como disse, prometi me comportar. O que isso quer dizer exatamente? Ah, muitas coisas que vivemos juntos me impediram de seguir em frente. O fato de ser teimoso, de ser inflexível em relação a praticamente tudo, de esquecer de mim durante o dia… Ok, já até imagino suas feições agora: um sorriso de canto de boca, escondendo na verdade a imensa chateação pelas minhas palavras. Mas é tudo verdade…

Assim, afastamo-nos. Definitivamente? Pois então, isso que prometi. Não repetir as mesmas brigas, apontamentos, sensações infelizes… E consequentemente nosso afastamento foi quase que inevitável…

Prometi me comportar e não lhe procurar. Prometi não deixar que o carinho de sua mão me convença novamente num afago certeiro; que não deixaria que seu cheiro tão viril me enlouquecesse a ponto de entregar-me ao seu perfume; prometi não notar a covinha que forma em sua bochecha ao sorrir timidamente quando confesso meu amor por você. Prometi ainda ensurdecer-me para as palavras que me diz ao ouvido, quentes e convincentes.

Vou comportar-me e não deixar que me seduza com seu jeito carinhoso de me abraçar ao dormir no sofá, após um longo filme, ou sua tentativa de me alegrar num despertar matinal ruim, nem reparar o quanto se esforça para deixar-me confortável quando numa situação que me sinto insegura. Bom, prometi tudo isso né…

Mas, diz-me, como prometer tudo isso se, ao rever ao que tenho que resistir, pego-me completamente sem incentivo? Acabo enxergando que há mais a agradecer e celebrar do que realmente a reclamar. Aí, pego-me em outro clichê: não cumprir promessas de início de ano!

Certo, não tenho medo de parecer piegas, banal muito menos ‘uma mulher sem palavras’. Palavras as tenho, sempre, bem sabe… Entendi que gosto mais de encarar tudo isso como desafios e vivenciá-los do que reclamações sem soluções.

Bom, esta não foi uma reflexão lógica. Não me comportei, você não deixou. E que delícia de delírios e descumprimentos. Já espero o ano que vem em que já planejei minha promessa ser: desobediência. Imagina a que me permitirei então…