20 outubro 2018 SHEILA LIZ - FLOR DE LIS

PERMANECER TEM QUE FAZER SENTIDO

Entre tantas promessas que já nos fizemos, a de permanecermos um com o outro é a mais forte. Sim, mesmo a de ‘nos amarmos para sempre’ fica pra trás quando elencamos o que há de mais importante entre nós. Isso porque ‘permanecer’ é uma escolha exclusivamente pessoal; o amor, entre filosofias românticas e crenças emocionais, nem sempre é uma escolha.. é um caminho que o coração segue. Mas a de permanecer, enfrentar o que for, ah, esta sim é uma escolha que, com certeza é feita.

Há momentos em que tanta decepção reina mesmo num dia bom, em que analisamos os prós e contras e com certeza refletimos sobre o resultado, em que a raiva nos cega tão deliberadamente que não há possibilidade de dividirmos um almoço simples em companhia do outro. Mas, deitar na cama em dias como estes, para amanhecermos juntos novamente, é uma escolha, e é o que nos fortalece ainda mais.

O problema é quando um dos dois acha que ela será permanente; que ficarmos juntos será independente de qualquer situação. Veja, não há papel nenhum que nos obriga civilmente a dividir o mesmo banheiro, muito menos um outro ‘serzinho’ que puxou aos meus olhos e veio com um furinho no queixo como o seu e que precise de nós vivendo por ele, muito menos a obrigação de pagar boletos juntos, nada! Apenas a nossa escolha de permanecer. Mas, já se perguntou o motivo pelo qual ainda escolhemos ficar? Não, não me venha com a resposta piegas de que é o amor, não!

Estou pedindo uma reflexão madura e sensata aqui. Posso responder por mim. As qualidades que tem, os feitos pela família, algumas ações que tem comigo, me fazem querer ficar. E é claro que não quer dizer que sou cega para seus defeitos ou para suas irracionalidades. Só acho que compensa… e se no final da frase tiver: ‘ainda’. Sim, e se eu achar um dia que não compensa mais? Que prevalece os defeitos às qualidades. Sabe que isso não é tão difícil acontecer?

Esquecemos que temos de nutrimos os sentimentos nos outros, que temos de ter cuidado em relação ao que falamos, que temos que agir carinhosamente com o companheiro. E isso vem naturalmente pelo amor que sentimos um pelo outro. Mas, e se ao longo do tempo você achar que não há de ser feito mais, que a permanência é certa? Não quero despertar medo de perda em ninguém, penso apenas que continuar ‘regando o jardim’ o deixa florido o ano inteiro e não apenas na primavera.

Achar que o outro aguenta tudo ou tem que ver sempre o lado positivo das coisas é ser muito egoísta e, ao meu ver, isso vai contra a qualquer tipo de relacionamento de vida… sendo companheiro, pai, filho, amigo. Pensar em si, decidir apenas por si, beneficiar apenas a si mesmo é falir toda e qualquer relação que tenha ou que poderia ter. Responsabilizar alguém em aceitar apenas o que você quer doar é, não só egoísta, como cruel. Desse jeito planta dúvidas sobre a personalidade da outra pessoa quando na verdade é você quem devia repensar a maneira como enxerga o outro em sua vida.

Dizer o que o companheiro deveria levar em conta como aspecto importante, determinar como ele tem que enxergar as escolhas do outro é insano. Cada um tem seus valores. Acredito que há consenso sim, e há de se ter para que a permanência aconteça. O problema é que o egoísta não admite que tem algo a melhorar, a dar, a agradecer. Ele está tão certo de que se cada um fizer o que é melhor pra si estará, necessariamente, fazendo ambos felizes, que acaba deixando completamente de lado a noção de que a relação é feita por duas pessoas. Fazer o bem para si utilizando da máxima que ‘saber ser feliz sozinho é garantir a felicidade em dupla’ é nadar na teoria e se afogar na prática.

Olhar para o outro com empatia é uma das maiores provas de que a permanência faz sentido e é sustentada por fatos. E contra fatos não há argumentos. Fazer questão da felicidade do outro é garantir a própria felicidade sim, e não o contrário… bem, falando de pessoas sensatas ou no mínimo amantes. Fazer com que uma relação tenha sentido de ser é saber que a companhia será uma escolha, e com certeza, de ambos.

30 setembro 2018 SHEILA LIZ - FLOR DE LIS

NÃO POSSO MENTIR

Não posso mentir. Não para nós! Não sou assim. Já lhe falei em caos passados que eu não preciso de promessas, elas não me compram, não me convencem de que o ato será concretizado. Palavras são sim importantes, desde que acompanhadas de sentimentos, de intenções verdadeiras e críveis.

Não vou dizer o que não sinto como verdade. Eu realmente não sei mentir. Os meus sentimentos, impressões, descontentamentos, aprovações – ou desaprovações – ficam bem visíveis em meu semblante. Meus olhos não choram inverdades, meus lábios não proferem calúnias e, o mais importante, meu coração não engana e não se engana por qualquer invenção da realidade. Não esqueça de que sei que o amor não vive, tampouco sobrevive, de teorias.

É pedir muito um amor simples? Feito café pela manhã. Inunda o ser com a fortaleza do seu sabor, nos sustenta com toda energia que traz em apenas uma xícara e conforta com toda a quentura típica de um bom, bom café. Sem obrigações, sem dificuldades, apensas sendo. Falta isso, inebriar-me novamente. Van Gogh sabia do que falava… ‘prefiro morrer de paixão a morrer de tédio’. Muito forte a palavra ‘tédio’ aqui, mas, mar calmo me enjoa.

A loucura de ser extremamente sincera aqui só me foi possível pela maturidade que conquistei ao longo dos anos, e com certeza pelo sentimento que nutro em mim mesma e por mim mesma. Não há maneira de eu aceitar menos. Fazer isso seria admitir que eu mereça isso, e eu não concordo. Já me arrisco aqui, apenas por ser sincera, soar arrogante. Compreensível, mas injusto. Se não lutarmos pelo que achamos ser nosso objetivo, pelo que respiramos afinal?

E as verdades são simples, sendo verdades mesmo. Parto do princípio de sermos sinceros com nosso próprio sentimento… Se amo logo penso em cuidar, em afagar, em abraçar… Simples. Viver com alguém nos desperta atitudes empáticas, necessariamente. Ou não? Será que venho me enganando toda minha vida consciente amorosa? Não acho. Agora ouso parecer dramática: acho que posso ser mal interpretada e, principalmente, mal compreendida.

Falando ainda sobre má compreensão… Acho que há muita confusão acerca das verdades ditas e expressas. Arrisco porque acho que vale a pena, ainda que, se tenho realmente que explicar o motivo pelo qual não estamos bem, já imagino que posso falhar nisso. Se não entende ou não vê o que fez, que garantia tenho de que entenderá meus argumentos? É, aqui conto apenas com o crédito que tem por ser a pessoa que mais me conhece e sabe que não sei mentir, ou fingir, ou deixar para depois. Não sou mulher do ‘depois’! O ‘depois’ eu mesma construo, agora quero é que sejamos nós, simples, como café preto matinal.

20 setembro 2018 SHEILA LIZ - FLOR DE LIS

PARTES DE MIM

Nem pensei muito, acho até que se tivesse feito choraria ainda mais. Apenas sentada no banco do carro, olhei pro céu e vi lindamente um arco-íris se formar. Curioso porque não estava num momento muito bom, na verdade, péssimo. E consegui achar beleza em algum lugar, mesmo que distante.

Ali, sentada, só sabia chorar. Como disse, nem pensava muito sobre o motivo, quaisquer soluções possíveis, só chorava. Era como se eu tivesse que tirar do peito uma angústia sem explicação; pelo menos não pensei em nenhuma em que eu quisesse realmente acreditar. As lágrimas me limpavam a cabeça na mesma proporção em que me inundavam o coração de perguntas sem respostas. Só não sabia se era eu quem estava fazendo os questionamentos errados ou se os retornos eram tão sutis que minha alma ingrata não captava em sua totalidade.

Enfim, ver aquele colorido me fez tomar um respiro mais longo e profundo. Por instantes as lágrimas insistentes cessaram e minha mente limpou-se para surgimento de novas e mais crentes reflexões. Será que encaro como uma mensagem, será que tenho que notar mais os pontos positivos do que os negativos ou foi só a luz do sol refletida pelas gotas de chuva fina começava a cair já no início do dia? Incrédula. Descrente… Permito-me ainda assim.

São acontecimentos como estes que nos fazem parar de sofrer por pequenos detalhes realmente sem importância e enxergar que há mais a agradecer mesmo. Clichê essa coisa toda de ‘gratidão’ mas, ser grato para consigo, inclusive, é um presente, uma bênção que poucos sabem receber. A gratidão é mais por nos permitirmos viver, conviver e aprender com tudo.

Fácil falar não? Não! As lágrimas escorrem e eu tento me convencer disso tudo. Tento me fazer enxergar que há de se tomar cuidado sim, e isso nos faz encarar a realidade feia das pessoas. Há mais mentiras cativantes por aí do que verdades gratas. E isso nos dá cada tombo! Foi numa dessas que eu caí, conto do vigário, sabe? A confiança em mim mesma foi ludibriada por falsas considerações. Quando sentimos algo a tendência é saber se é verdade, até como autoproteção. E me passou batido isso. Me abri e não soube catar os pedaços que se espalharam pelas incertezas escancarada, mas ocultas pelos meus olhos cansados.

Então, volto ao meu pranto no banco do carro, em frete ao arco-íris matinal. Há de ser algo maior do que eu consiga enxergar, preciso me agarrar a esta esperança, caso contrário, por que exatamente fiz o caminho de volta pra casa então? Nesta hora lembro que deixei o café passado, o livro marcado na melhor página de Clarice, bem em cima do banco do jardim da minha própria casa, onde as flores estavam lá apenas para me lembrar que há mais colorido no mundo do que eu ando conseguindo apreciar… Sem mencionar o abraço aconchegante, prometido por alguém que me ajudou a recolher as partes de mim que nunca nem eu soube onde deixei…

NÃO SEI O QUE FAZER

É só eu sentir sua presença que a desordem se instala novamente dentro de mim… Só não sei ainda se eu ainda gosto disso. Há algum tempo a ventania que você trazia para o meu mar calmo me invadia o ser de mudanças e esperanças positivas, hoje já não sei mais se é assim.

Procuro nem pensar muito, a indecisão, ou pior, ter que saber o que fazer com essa dúvida, me amedronta. Não tem como explicar algumas situações… De repente, sentada apenas olhando o tempo, meus olhos se enchem de lágrima e elas simplesmente escorrem pelo meu rosto. Respiro e volto ao meu dia. Não pode me roubar isso: a paz do meu dia!

Por isso demorei muito a falar sobre o que realmente está acontecendo, não queria ter que explicar o que se passa. E eu esperar que você notasse ou tomasse a iniciativa de uma conversa não passa apenas de ilusão mesmo, né?

Como cheguei nisso não sei. As mãos ainda se encaixam, os abraços ainda se esquentam, os ombros ainda se consolam e a cama ainda é nosso refúgio aconchegante; eu não sei, não me faça falar qualquer inverdade dura, que nem eu aguentaria lidar com qualquer bobagem imediata. Até porque a minha verdade com toda certeza não será a sua!

Nem agora sei se é isso que tenho a lhe dizer… Quando notei esse silêncio incômodo, logo em mim que as palavras são tão tão minhas… vi que estava abalando minhas estruturas mais íntimas. Não só por não querer mais, mas porque eu queria como éramos… não somos mais. Nós sabemos que amadurecemos num relacionamento, só esperávamos que fossemos para o mesmo caminho. Também não aconteceu.

Sabe que no fundo eu acho melhor que não observe mesmo as coisas, há uma maldição nisso. Ser uma pessoa observadora nos faz entender e perceber algumas situações que, no fundo, é melhor nem serem descobertas. Então abençoado seja você; não veja, não sinta, aproveite e não me procure mais. Eu queria dizer que sinto muito por isso, mas não sinto. Já me anestesiou os sentimentos.

O maior problema é que além de não ser observador é surdo, mudo e egoísta. Até aí tudo bem, somos todos imperfeitos, mas me infectou com indiferença por tanto insistir que cada um tem um jeito e ‘ponto’. Vi que não podia viver em função de como agir com você, como lidar com o que você vai querer… segui a vida e agora diz que a nossa vida é seguida juntos? Eu nem sei o que sou, não recebi pedido algum vindo de você, apenas a junção de nossas vidas. Poderia dar certo, se você levasse em conta o que realmente me importa, uma única coisa que me importa a ponto de desistir de tudo.

Sem mais explicações, esses são argumentos proferidos há mais tempo do que eu possa lembrar. Acho até que é por isso que não notei chegando essa vontade inevitável de seguir só. Não me tornei tão fria assim de repente, começou apenas como um bater de asas de uma borboleta, como uma pequena brisa em meus cabelos, com um pequeno gelar de barriga. Até que me congelou o coração…

Não sei o que fazer. Mesmo que o fim venha acontecendo há algum tempo, eu não achei que chegaria definitivamente. Ninguém nos ensina a ficar só, ainda mais quando queremos estar juntos. Estou tentando ver como viver isso. Simplesmente não sei o que fazer…

É TRISTE TER QUE ESQUECER…

Não foi por mera coincidência que achei aqueles velhos escritos no fundo da gaveta. Sabe quando a gente sente que era para acontecer? Pois assim mesmo que me encontro agora. Nem o torpor do café matinal, nem os mais brilhantes e realistas raios do sol já aparecendo nas primeiras horas da manhã me fizeram acordar desta terrível situação que me colocou. Sim, você mesmo quem me ‘deu’ este papel, eu tenho certeza que desempenhei de maneira totalmente verdadeira, agora, seu coração egoísta me fez ver que sou coadjuvante quando eu ilusoriamente achava que o papel principal era meu… Alguém me tirou isso, de repente.

Engraçado. Pensar nisso tudo me fez lembrar algumas situações pelas quais passei que acho serem ‘dicas’ que não consegui entender… Numa conversa distraída dia desses me perguntaram se eu realmente o conhecia. Estranhei, enfim, são tantos anos. Mas, parei um pouco e refleti sobre o questionamento. Um milhão de memórias passarem em minha cabeça, um milhão de gestos seus, de trejeitos que descobri com a convivência…mas sem nem perceber apenas sussurrei: não mais. Acho que era minha sanidade me dando indícios do que eu já sabia e não admitia.

Bom, continuei com meu propósito para este dia: livrar-me de você. Tirei todos os seus pertences da casa, procurei os mínimos detalhes de você ali para que os jogasse fora. Esqueci que o lugar onde mais habita é difícil de alcançar, assim, com as mãos, literalmente. Me olho no espelho e vejo meu rosto envelhecido, meus cabelos diferentes, os anos passaram e isso não consigo tirar de nós. Hoje sou o que me construí com você. Me entristece ainda mais porque não quero fazer parte do que você se tornou. É nesse momento que, com a casa praticamente vazia, deito no chão gelado e noto que os objetos se foram, mas há mais de você em mim do que eu gostaria e sei que um dia nem eu mesma saberei que isso aconteceu.

Me espalho por ali mesmo, orando para que eu sobreviva a mais uma eternidade de um dia cheio de vazios, seus vazios, ou meus? Essa dúvida que me cerca e que me mata. Não pode ser amor mais; isso era quando eu desejava que fosse. O adequado e o que quero não se encontram mais, a junção de tempo e desejo não somam mais a alegria vivida nos dias mais cegos que tive.

Confesso que, apesar de dizer que tirei tudo que consegui do apartamento, fiquei com as cartas. Aquelas achadas na gaveta, escondidas, clandestinas, proibidas. Por que não entende que elas nem deveriam existir? Cansei de lhe explicar e mais ainda de escutar suas desculpas totalmente sem sentido. É claro que existia esta pessoa, estava escrito, a presença dela se fez física no momento em que iniciou as letras no papel. Tocou-me, de uma maneira mais cruel do que eu gostaria, ver a sua sensibilidade em notá-la e descrevê-la. Se eu não estivesse tão enfurecida, conseguiria admitir que a amava profundamente.

Xícara vazia, a noite chegava e não conseguia me mover daquele lugar. Deu a hora de você aparecer e buscar as caixas que restavam. Mais uma vez sei que tentará me explicar que eram cartas de amor, mostrando sentimentos verdadeiros e para aquela que seria a única em sua vida. Como não cansa de me mostrar o que decidi não ver mais? Não entende que é a sua vida que tinha que ter continuidade, não queria que ficasse preso, mas você tinha que deixar este amor registrado!

Faça um favor a nós dois: rasgue e queime isso tudo. Não significa mais nada para mim, principalmente porque a loucura é meu estado mental normal. Não faça mais isso com você e nem comigo, sinto-me responsável por essa desgraça. Não escolhi passar por essa situação, mas escolho não aprisioná-lo neste esquecimento doente que é só meu!

Só deixe-me ir sem a lembrança escrita de nós, eu não nos reconhecerei mais. Não seria justo comigo, muito menos com você que ficou com o melhor de mim: meu amor mais puro, sadio. Esqueça de mim como estou sendo obrigada a fazer conosco, obrigada…

É CONFUSO SER SÓ EM PALAVRAS, SER SÓ

Estava chovendo muito naquela noite. Nem sei dizer se estava na época de ver os dias passarem lá fora, apenas a molhar as ruas, janelas e quem se arriscava a caminhar por ali.

O sol aparecia tímido, brilhavam alguns raios, mais reluzentes que quentes. E durante aquele dia foi assim, e à noite a chuva não nos deu trégua. Não me atentei às horas, só fiquei a observar o movimento pelos vidros da janela. Pessoas iam e vinham, faziam me sentir ainda mais solitária, presa ali naquele quarto já há alguns longos dias.

Meu reflexo no vidro me fez lembrar há quantos dias estava sem pentear os cabelos. Arrumei-os com as mãos, em vão. Enchi o copo, que agora tinham apenas cubos de gelo. Uísque barato, é desses que gosto, faz esquecer o amargor da vida. Voltei à cadeira e iniciei mais um capítulo.

Não sei dizer se era do livro ou da minha própria vida. Como era fácil eu fazer esta confusão. Me via nas linhas em diversas páginas e em outras era como se fosse uma pessoa totalmente diferente, nem como autora imaginava serem minhas aquelas palavras. Acho que isso acontece muito porque sou uma tremenda farsa, não há como limitar onde começa nem onde termina minha vida, acho que sou mais mentira do que verdade.

Falo muito de amor, constância, felicidade… em minha cama isso parece tão fugaz. Tão distante! Momento melhor para mais um gole desta versão barata de Johnnie Walker não há, ainda mais quando as conclusões não são nada favoráveis para mim. Logo vejo que terei que reabastecer o copo.

Sem pestanejar levanto e deixo a continuação do livro a aguardar mais um pouco. Não tenho mais nada a fazer, exclusivamente estas palavras me consomem o dia, deixei-me consumir-me um pouco pelo silêncio alcoólico.

Ainda vendo a chuva lá fora, imagino como seria sair um pouco. Mesmo molhada, mesmo sendo tarde, por que não o fiz ainda? O que me segura aqui? Desperto destes meus questionamentos fadados a serem retóricos quando noto a folha saindo da máquina de escrever, o ventilador insistente a tirou do lugar. Correndo, temendo desordenar as folhas, assim como faço com meus dias, e vida, e lembranças; pego tudo e tento arrumar sob a mesa, esta sim, em ordem.

O cheiro final do último cigarro já no cinzeiro me lembrou que este era o último, e prometi que o seria. Mas, como não acompanhar o copo com um cigarro? Mentolado por favor, não somos todos perfeitos. O torpor de sentidos que eles me trazem, distraem-me desta solidão permanente.

Não, não posso ser ingrata. As palavras sempre me acompanharam também. Ainda que elas permanecessem apenas em minha confusa cabeça, ali estavam. Sabe que elas é que me seguram em uma pequena sanidade? Mais literária que física mesmo.

Já com o copo cheio novamente, desejando um Lucky Strike, volto a escrever a continuação do capítulo. As ideias fluem, as letras minuciosamente datilografadas. Nestes momentos de escrita é que sinto… Sinto tudo, o que escrevo chega até mim como um turbilhão se emoções que mal sei nomear. É bom, é ótimo. Sem querer que acabe, percebo o fim da lauda. Ainda que a noite esteja fresquinha, com a chuva a cair teimosamente lá fora, transpiro nervosamente. É pelo fim, por este fim. Não do copo, não da fumaça, mas deste torpor. De tudo. E chega o ponto, final.

LAVOU-ME A VIDA…

Estava chovendo naquela noite. Não me atentei às horas, só fiquei a observar o movimento da rua pelo vidro da janela. Não recordo também se era época de tanta chuva, mas lembro que fazia dias que continuava assim, e eu recolhida em casa, sem a mínima vontade de sair. Nem para vê-lo.

Era um estado de inércia, sentia-me possuída pela melancolia que a chuva traz. Bom, para mim é assim; apesar de ver a renovação que chega com ela, enxergava também tudo de ruim que ela lavava do meu ser, como se inundasse tudo e ao secar levasse embora quaisquer indícios de sujeira. Era bom afinal, mas até isso acontecer, muita coisa vinha à tona.

Deve ser isso que me hipnotizou por longos minutos ao pé da janela. Ali fiquei a lembrar do que eu gostaria que ela levasse desta vez. Sonhos desfeitos, planos desajustados, metas que não alcançaria. E, convenhamos, nem preciso dizer o motivo disso tudo estar em minha mente, bagunçando minha ordem.

Sabe o que notei prontamente quando vi aquela foto? O olhar dela era de uma pessoa realmente apaixonada. Sim, até me enxerguei nela. Sem dúvida você é uma pessoa apaixonante. Mas isso não me impressionou, como disse, era o esperado; você encanta. O que estranhei foi a sua feição, estava com olhar perdido, como se soubesse que ali não era seu devido lugar. De certa forma isso me deu uma ponta de esperança, pelo menos sabia que imoralidade daquele abraço, da dor que estaria me causando a cada beijo trocado que não em meus lábios.

Até hoje me pergunto como essa foto veio parar em minhas mãos. Costumo dizer, e isso aprendi com minha avó e mãe, que não precisamos procurar por problemas, eles nos chegam. Caem no colo, adormecem em nossas mãos, nos encontram como se pedissem resolução. Pois é, simplesmente vi, estava ali, dentro da caixinha do relógio na cabeceira da cama. E, como providência divina, apareceu-me justamente enquanto estava em viagem. Acho que para que eu digerisse, refletisse, entendesse essa nova fase. Porque é, se torna uma nova fase. Você faz a merda e eu tenho que decidir o que fazer. É injusto não?

Em discussões aleatórias em que eu tocava no assunto sempre deixava claro que a maior decepção não seria a traição em si, mas todo o teatro, a enganação, as mentiras que devem ser contadas para sustentar a infidelidade. Isso e, claro, ver seu cuidado e olhar apaixonado por outra pessoa. E isso eu não vi. Pelo contrário, estava ciente que eu o veria naquela foto; no exato momento em que a tirava sabia que eu o veria.

Acho que sentiu que eu não estava bem. Meu celular gritava em chamadas suas. Apenas o desliguei, sem compromisso, sem culpa. Há quilômetros de distância, palavras trocadas pelo celular não resolveriam nada. Fiquei a fitar a via por um tempo. O copo, já vazio, amargava mais do que entorpecia.

Fechei as janelas, cansada de ver carros indo e vindo; pessoas correndo, evitando a chuva que teimava em cair sem descanso. Despi-me e entrei na banheira, já cheia, e desta vez com os sais de banho que me deu de aniversário. Lavanda, né? Delicadamente doce. Certeiro. Você é, como já falei, encantador.

Cabeça encostada na beira da banheira, acomodei meu corpo totalmente dentro da água. Somente os pensamentos permaneceram secos, literalmente secos. Não queria nenhum tipo de interferência emotiva neste jogo. Jogo esse que eu perdi no exato momento em que encontrei a foto. É isso, é isso que queria me dizer com este olhar triste que ousou em escancarar na foto. Eu decido sim o que será de nós, mas você me conhece e sabe que não é um papel que desempenho bem. Penso que cada um cuida do seu, não podia lhe dizer como seguir com sua vida. Eu tinha é que decidir a minha.

Inebriada por tamanho embaraço por sua inteligência, por ver o quanto pode ser maquiavélico, deixei molhar meus os cabelos, mergulhei inteiramente na banheira e por ali fiquei. Com a mesma inércia de quando estava na janela, estática como no momento em que peguei a foto, sem ânimo para o que você me deu como caminho. Por ali fiquei, inundei-me com a água de lavanda, e, junto com a chuva que parou instantaneamente, levou o que eu não queria mais.

EU ME SINTO E SEI DE SENTIMENTO

Tem quem ache estranho, singular, ou apenas fora de órbita. Engraçado, não pedimos opinião alheia, ainda assim passamos pelos olhos e pensamentos dos outros como se precisássemos de orientação, conselho ou aprovação.

Pode falar, não ligo. Eu tô em outra. Isso que acha sobre qualquer comportamento meu que lhe chama a curiosidade, é apenas meu, não compartilho com você. Mas, sem problemas, a tranquilidade de viver tira-me o peso de sua presença sem solicitação.

Gosto dela assim, meio louca meio sã. Séria e inegavelmente eufórica. Totalmente responsável e sabiamente ‘carpe diem’. Adora o calor e sente um prazer enorme em curtir as brisas mais geladas da madrugada. Totalmente tímida e publicamente acessível. Pinta as unhas de preto e usa rosa nos brincos. Não gosta de bagunçar os cabelos, mas abre o teto do carro toda vez que pegamos a estrada. É uma doçura de menina e a força madura de mulher vivida. Tem gente que chama isso tudo de dificuldade, eu mesmo chamo de vive-la. Sim, vive-la como é, com o doce e o amargo de sua personalidade instigante.

Essa complexidade toda é tão simples quando a levamos para o campo do sentimento… é brisa leve, e que me leve para a mais gostosa sensação! E o mais engraçado de tudo não está aqui dentro – somos apaixonadamente sérios, mas lá fora – onde as bocas distintas têm mil palavras a serem ditas – contrárias a nós – mas continuam inaudíveis. Quero acreditar que é porque somos, e ponto.

Os relacionamentos são idealizados num nível, muitas vezes, inatingível. Sinto muito por vocês porque eu sinto muito ela! Estão por aí, a observar, e ela aqui seguindo sua vida plena e eu plenamente vivendo com ela. Acho que isso até é um incômodo. Como disse, fico tranquilo pois olho-me no espelho e reconheço o que vejo, só me distraio com a imagem dela, linda, ao meu lado, distraidamente suportando qualquer que seja o reflexo que nos apareça.

Somos todos complicados, cada um com sua vírgula. A dela é apenas para dar continuidade em minha história. E assim, dando outro significado no que chamamos de ‘nós’. A beleza do que vivemos não está apenas no amor que nos transborda internamente, mas, no que esperamos um do outro dentro da limitação de cada um.

A maior diferença aqui, além do meu ‘não ligo para tudo o que pensam’ é que não somos iludidos por qualquer modelo de relacionamento dito exemplar. Eu só disse ‘oi’ e ela respondeu ‘vamos?’. Como negar? Foi simples; nosso café é black e o pão de queijo é diário. E tudo isso colore os dias, mesmo as segundas-feiras. Eu acho ela chata e ela me acha engraçado, não combina?

Andamos de mãos dadas, como qualquer um. Mas quaisquer andam de almas abraçadas? Eu acho nela o que não está em mim mesmo. Ela é pontual e não acho nem meu relógio. Totalmente organizada e eu gosto da bagunça. Lembra de cada data importante e eu nem sei que dia é hoje. Mas, não é pra ser assim? Completar o que nos falta, aprender com quem sabe o que nos é difícil fazer? Enfim, o somos, radiantes e confiantes. Difícil sempre, mas o abraço dela é tão gostoso…

AOS TEUS OLHOS E AOS MEUS SENTIMENTOS

Penteando meus longos cabelos lisos em frente ao espelho encarava-me profundamente, perdida em meu próprio olhar. Pensamentos desconexos, aleatórios, pensaria uma pessoa se pudessem os escutar. Para mim, autora destes devaneios íntimos, eles seguem uma linha bastante lógica. Fiquei ali por longos minutos, lembrando da enorme e desnecessária discussão da noite anterior. É impressionante como perdemos o controle facilmente, como uma pequena chateação torna-se um questionamento sobre ir ou ficar.

Já imóvel ainda me olhando no espelho, deixei o pente na cama e forcei-me a secar as lágrimas que escorriam pelo rosto, a esta altura, já contavam-se muitas. Forcei-me porque não queria ainda esconder as provas de tamanha infelicidade pelo último acontecimento. Queria deixar escancarado todo meu sentimento de revolta, essas lágrimas mostram a minha insatisfação e isso tem que ficar claro!

No fim, enxugando-as, vejo que não passam apenas de sentimentos meus, meus apenas. Preocupações minhas, ninguém dá a mínima pra isso. E sinto-me ainda mais revoltada, por saber disso e ainda esperar que seja diferente. Deixei meu corpo amortecido por tanto ódio, cair sob a cama, ainda com a bagunça de uma noite mal dormida. Deitei nos lençóis quentinhos e senti-me acolhida. Chorei novamente, de desgosto, de ver minha estupidez, de sentir necessidade de mudar a situação, mas querê-la como está.

Deveria querer sair e respirar a liberdade de ser eu mesma sem ter responsabilidade na vida das outras pessoas. Seria mais fácil andar sem rumo, sem compromisso, e esquecer essas mágoas que marcam meu coração e me enchem de tanta infelicidade. Essa intensidade de sentir, inclusive essas coisas mais pesadas e tristes, dão a impressão de que sou deliberadamente depressiva. Não, não o sou. Confesso ser intensa; uma gota é um oceano dentro de mim, com certeza! Mas isso se dá nas alegrias também… acontece que as melancolias nos abatem mais do que as felicidades nos fazem sorrir pelos olhos.

Ainda deitada, já soluçando apenas, sem mais pranto a me consumir, respirei fundo, quase como se colocasse um ponto final nesta situação. Sinto outra presença no quarto, abro os olhos e ali estava ele, a me encarar, a me cobrar um comportamento diferente. Como se me desse uma lição, mais ainda, como se quisesse provar o que havia me dito noite passada: ‘és muito depressiva, há de aprender a ser diferente!’ Essas palavras ecoaram através do seu olhar feroz naquele instante.

Como explicar que a intensidade tem dois lados? Como mostrar que é a própria tristeza nos faz lembrar que a felicidade é melhor e mais gostosa de se viver? Ainda assim há de se passar por ela… A cobrança que me ele me faz é injusta e inapropriada. Ainda mais pelo seu papel em minha vida e pelo seu papel nesta confusão e drama todo.

Casada, exausta na verdade, só olhei pra ele. Olhinhos marejados novamente, com um nó na garganta, que nem ousava a desatar naquele momento, apenas acenei positivamente com a cabeça, concordando apenas com o gesto não com o sentimento. Há tanto que não sabe, ou se limita a não saber… Me deixa confusa, temos que despertar o melhor em nós, as experiências, boas ou ruins, nos fazem isso. Prefere ser apenas um pedaço de papel em branco, sem cor, sem traço algum. Que seja, que me responsabilize por qualquer que seja a obra que temos que fazem em nós, que deixa como mentora de uma vida que nem eu mesma sei guiar. Sou suficientemente responsável e capaz de nos levar, ambos, para um caminho de rosas, sem dúvidas! Deixe-me apenas curtir, um dia ou outro, a dor que os espinhos me causam por cultivá-las. Sentir este sofrimento me é essencial, faz-me renovar o espírito e buscar o que mais quero: viver plenamente feliz.

Depois de acenar-lhe com a cabeça, virou as costas e saiu do quarto, deixando a porta aberta. Olhei seu caminhar lento até o fim do corredor, apenas onde minha visão alcançava. Notei que estava mais perdido, e em dor, do que eu. Ali, senti mais forte a necessidade de nos fazer caminhar. Sequei a última lágrima a descer, levantei, prendi os cabelos já penteados e saí a te ajudar a terminar o caminho.

VOCÊ É MEU SUBTERFÚGIO

Por muito tempo nada foi igual, nada encaixava em mim, era como se eu fosse uma farsa totalmente exposta, mas ninguém realmente via isso. Eu realmente me achava uma fraude, sem vida, sem sentido estar por aqui…Como se faltasse um propósito e que ele fosse realmente válido, tão válido que me aceitassem sem eu precisar de toda essa carga que eu carregava e que no fundo era inútil, só eu mesma é que via assim.

A cor do esmalte, o tipo de roupa, o perfume cítrico… não combinavam com a minha personalidade. Vaguei por muitas ruas, noites e noites, sem ninguém entender a minha confusão. Os dias nem contavam, cheios de compromissos e responsabilidades, enchiam as horas de vazios incansáveis.

Isso se deu por longos meses, ou poucos meses; isso vai depender se você é daquelas pessoas que enxergam o copo meio vazio ou meio cheio. É, vejo vídeos motivacionais, nada a acrescentar sobre eles aqui e nada a exaltar também… enfim, o foco é que tudo era meio vazio mesmo: copo, cama, coração.

Até que teve um começo. Um começo no meio da história. Você veio, chegou com esse tamanho de lucidez. Enxergou tudo. Sentia tudo… e soube, na primeira conversa, quem eu era. Demorei a entender essa organização no meu caos. Fugia de você, das suas cobranças caladas. Achava engraçado sua procura por mim, uma procura na qual eu também compartilhava, entende?

Por que você ficou? Sabe que continuei para simplesmente, de forma egocêntrica, descobrir a resposta desta pergunta… qual o motivo de, ainda vendo tudo e sabendo de tudo, você escolheu ficar? Deixei-nos levar. As brincadeiras foram ficando mais sérias, os carinhos mais intensos e os sentimentos mais verdadeiros. Seus beijos mais tocantes, meus sonhos mais reais e sua estadia mais palpável.

Já não achava que partiria sem voltar, já sabia escolher a cor do esmalte que mais combinava comigo e, com certeza passei a entender que minha personalidade feminina combinava com o perfume doce que me presenteara. Isso, claro, sem contar com a prova cabal de que se inebriava com meu cheiro em meu pescoço quando dele eu fazia uso, propositalmente.

Não consigo admitir que foi meu ‘norte’, mas seu caminho me mostrou o meu. Engraçado como nos deixamos completar por pessoas aleatórias. Veja bem, não se ofenda, não quis dizer ‘sem importância’, mas não era alguém de papel em minha vida… Encontrar-me sentada a ler no pequeno e único espaço coberto do parque foi aleatório, não? Minha leitura o instigou assim como seu interesse fez o mesmo comigo. Por que se interessou?

Hoje isso realmente importa? Eu não sei, acho que me daria uma satisfação infantil saber. Não, deixa pra lá, toda vez que a porta se abre e vejo sua barba a chegar perto de mim, encho-me de certezas e me deixo apenas curtir essa descoberta. Sim, a cada dia sento-me descoberta por você. A cada momento em que passamos juntos eu me vejo uma mulher diferente, ou melhor, uma mulher! E com várias qualidades diferentes, despertadas. Espero que esse interesse continue mesmo após a novidade. Dizem que o tempo tira esse frescor. Ai, sem mais devaneios, pensamentos de copos meio cheios, só beije-me por vários instantes; aleatórios e constantes.

NÃO ME DEIXE PRA TRÁS

E quando não havia mais esperança eu simplesmente parei na beirada e olhei pra baixo. Nunca me senti tão leve. O pânico era alheio, não meu. Olhei pra cima, estiquei os braços ao máximo que consegui, como se eu sentisse que iria receber alguma bênção, e relaxei o corpo. Os pés juntos, na beira da ponte, com os dedos quase totalmente para fora de onde eu podia pisar com segurança, e eu não sentia nada além de alívio.

Por ali fiquei por segundos, longos, parecia passavam lentamente. Poderia ter me irritado com isso, mas naquele momento eu não queria mesmo que o tempo passasse. Aquela sensação de liberdade deveria durar mais tempo… Meus cabelos longos me cegaram por momentos, a brisa passou tão forte que eles se emaranharam em meu rosto. Não vi nada… e não precisei, bastava sentir.

Continuei com os braços lindamente esticados, me dando, perigosamente, uma instabilidade inapropriada para o momento. Não liguei. Não entende que não era importante? Não me importava com o perigo iminente, ou escancaradamente mortal, parecia, para mim, apenas fugaz.

Fugaz! Pensei naqueles dias em que pensei que seu carinho por mim seria menos efêmero. Duradouro, na verdade, isso que achei. Este pensamento subitamente doeu-me o coração… se é que isso, literalmente é possível. Pois é, com você aprendi que os fatos são como são, não há maneiras de deixá-lo romântico o suficiente se uma das partes o torna cruel por simples prazer. A sua partida foi muito cruel. Inesperada, desnecessária, brusca…

Mesmo num estado de êxtase e meditação angelical, o pensamento em você me fez sentir uma lágrima amarga descer pelo rosto. O desequilíbrio chegou por momentos poucos; lembrar sua partida egoísta me causou desconforto. Desci os braços junto ao corpo, realmente procurando equilíbrio. Abri os olhos e percebi onde estava. Num estado de lucidez apenas desci do parapeito. O barulho da água batendo nas pedras laterais ficou ensurdecedor… o que antes era apenas quietude. Foi você, foi o pensamento em você me trazia caos, imagine a presença…

Respirei fundo, bem fundo. Acho que procurava a vida. Não sei, queria perdê-la, já tinha perdido você. Firmei as mãos na beira da ponte, segurando-me firmemente, em mim mesma. Pensando que este gesto externo me daria forças para achar-me internamente. Trêmulos, os braços, me seguraram em mais um momento de lucidez. Como enxergaria minha sombra como uma apenas se já me acostumara a vê-la como dupla? Mais lágrimas densas e teimosas me desceram as bochechas. Caiam, aqui, agora e chega. Abro os olhos e vejo apenas o horizonte à frente… Preparada para seguir em frente, abri-me para os sentidos naquele instante. O primeiro passo para sair dali foi duvidoso.

Inesperadamente sua voz surge ao fundo. Inebriada pelas emoções dos últimos segundos, em que a decisão de continuidade estava ainda delicada, escutei você ainda mais perto. Os olhos o procuravam em várias direções e, mesmo sem vê-lo, sua voz já chegava como um grito ao ouvido. Não tive mais dúvidas, senti-me forte o suficiente para juntar-me a você. Fui, sem repensar. Não deixei vestígios. Apenas um corpo inerte, já desfalecido pelo encontro com a água gélida.

NÃO É DO MEU AGRADO CONFESSAR…

Não é do meu agrado confessar que, se sua real intenção com esse teatro todo era apenas humilhar-me e irritar-me, obteve um enorme sucesso.

É sabido, e muito notório, que procuramos em nossos possíveis companheiros qualidades que não temos, ou ainda, que temos dificuldade em desenvolver. Para muitos pode parecer imenso desafio essa coisa de convivência, mas, eu via a nossa como uma completude… Aí vem você, com essa imaturidade emocional pontual e me apresenta uma mulherzinha que mal sabe onde está? Realmente procurei enxergar o que você viu de interessante; bem o conheço e tenho essa bagagem para argumentar. Mas tive que observar por mais tempo para tentar chegar a uma conclusão que me deixasse satisfeita o suficiente e forte o suficiente para que o soluço de lágrimas cessasse antes que me visse em tão lastimável estado. Nesses momentos vejo que minha postura de ‘emocionalmente equilibrada’ fica apenas na emissão de palavras porque o sentimento e imagem em si, deduram-me instantaneamente.

E o fiz mesmo, observei desde que entraram com grandioso alvoroço pelos fundos. Fiquei até a imaginar: se queriam mesmo chamar a atenção, por que os fundos? Enfim, deve fazer parte da cena, quem sabe pensaram que geraria a impressão de que não importa o caminho que fizessem, seriam notados, não?

Delicadamente com a mão na cintura dela, guiando-a pelo caminho, vi que tentou fazer acontecer uma intimidade entre vocês. Mas isso ‘eu’ notei, ela, pelo visto, preocupava-se mais com o cumprimento e olhares alheios. Exibindo o penteado espalhafatoso e a saia extremamente justa e muito acima do limite aceitável, não por questão estética, mas pela manutenção da intimidade que devia ser apenas dela; devia…

Com um sorriso sem graça, puxou-a para perto de si encostando sua boca pertinho do ouvido dela, sussurrou; ela prontamente o olhou com uma fúria contida, e também sorriu. Gostando da cena, levei o copo à boca antes que teimasse em emitir qualquer som para que notasse minha presença. Em vão! Viu-me ainda assim, ainda que encolhida no canto da sala, com o mais normal vestido creme de costume, com o batom cor da boca mais sem graça e brincos que só estavam ali para não ficarem encostados na caixa de joias empoeirada. Levantou a mão como cumprimento e eu apenas o imitei.

É claro que ela nem viu, ainda preocupada em manter a atenção de outros para si, gritou para o garçom servi-la com a melhor dose de whisky da casa, timidamente você pediu um chopp mesmo, daqueles com colarinho branquinho, típico sambista de boteco. Tão logo chegou, tomou a caneca e, olhando pra mim, ergueu a bebida procurando certa intimidade e cumplicidade que lhe faltava nesta nova cena. Por educação, e apenas por isso, também o fiz com meu copo já vazio. Aproveitei e pedi outro ao garçom. Nem vi você se aproximando, no susto já me peguei a lhe abraçar de volta. Não foi um encontro qualquer, você sentiu né? Por cinco segundos senti o pulsar do seu coração ritmado que me envolveu juntamente com o cheiro do perfume que insisto em dizer que bem combina com sua personalidade. Só o soltei porque senti que precisava ir. Engraçado que, sem nem uma palavra, trocamos confidências doces e a promessa de um encontro posterior.

Voltou à mesa. Ela continuava a falar e falar sobre sua carreira de sucesso, a plateia era grande, masculina em sua totalidade. Entediado, movimentou-se para sair de lá novamente quando foi repreendido pela mão dela segurando sua coxa. Virou-se para ele e balançou negativamente a cabeça. O beijou mais como uma ordem e não um gesto de carinho, o rubor tomou-lhe as bochechas, da mesma cor rubra que sua boca ficou após o encontro com a dela. Ali eu vi o torpor que isso lhe causou, ali notei que a paixão o tomou pelo pescoço como um enlace de boi, sabe? Mas também foi ali que notei que a fisgada dela foi pelo pescoço mesmo e não coração. Bebi o último gole que me restava no copo e fui ao banheiro, só, como a noite toda.

Como disse, irritou-me tudo isso, não só por vê-lo longe de mim mas, principalmente, por estar com ela. Ela! Contra tudo o que somos, pensamos, acreditamos… Irritou-me de tal forma que repensei a mim mesma. Será que meu ar blasé perdeu o mistério nato e o interesse curioso? Ela é tão escancarada que não há maneira de encará-la sem considerar ser teatral. Olhei-me no espelho por minutos. Assim sou. Saí de lá apenas desamassando o vestido e bagunçando os cabelos que teimavam em ficar alinhados. No coração não tinha como mexer né, mas o humor eu controlei, ou tentei… nem sei.

Desatenta, saí de lá, direto para rua, sem direito a saideira. Não por acaso, tenho certeza, estava a respirar do lado de fora. Sem me deixar entender veio ao meu encontro e apenas se encaixou em mim novamente, tudo se encaixou novamente. O afastei no momento em que percebi que ela estava a nos olhar pelo vidro da porta. Sem palavras sai andando a contar as luzes queimadas da rua, maneira besta de fingir que era isso o mais importante da caminhada. Ficou ali, esperando a última ordem dela. Sei porque olhei pra trás e vi que, cabisbaixo, subiu os degraus e entrou ao encontro dela.

Assim acabou a noite: você aos comandos infundados de ‘não sei quem’ e eu a contar os pontos que me iluminavam o caminho nas ruas escuras que agora eu fazia questão de andar apenas em minha companhia.

ESTA É MINHA VERDADE INVENTADA

Procuramos tanto uma maneira de ser feliz constantemente que chegamos a gastar energia e tempo de vida, muitas vezes sem notar que já o somos!

Inventamos patamares a serem alcançados, depositamos cargas em coisas e pessoas alegando ser para nos fazer feliz, responsabilizamos nossos companheiros de vida (sejam cônjuges, amigos, filhos, pais) como se dependessem deles a conquista de uma felicidade que é mais nossa do que consigamos confessar!

Condicionamos um estado de espírito à bens, à situações que não dependem de nós – muitas vezes; mas acredito que é mais simples que tudo isso e, ao mesmo tempo angustiante encontrar esse desejo constante de ser feliz: conhecer a ti mesmo.

Só acho mesmo, apenas como crença, não experiência, até porque acho extremamente difícil e tenho uma evolução muito infantil ainda em relação a essas plenitudes.

E isso – nos conhecer – será descoberto num conjunto de reflexões e experiências vividas, sim, como esta a que se depara, lendo este texto pretensioso, tão pretensioso que busca diretrizes para uma felicidade que certamente é individual. Esse descobrimento pessoal não está apenas em nosso interior, há que considerar as escolhas externas e os reflexos que elas geram em nós!

outro texto falei sobre a felicidade como algo a se conquistar considerando nossas pequenas alegrias, detalhes diários que nos contentam. O que ainda acho muito válido e é uma maneira de considerar ver o lado positivo de muitas situações de nossas vidas, mas como um complemento penso que há uma outra forma de entender isso também… saber sobre o que lhe amedronta, saber sobre o que quer distância e não mais vivenciar, por exemplo. Assim, fazer o contrário disso lhe mostrará um caminho mais perto do que quer…. ser feliz!

Pensando ainda mais, superestimamos essa tal felicidade não? Poxa, tudo tem que ser perfeito, como queremos, na hora em que desejamos… Bem, é assim com vocês né? Espero não ser a única imatura no mundo! Bem, essas são mais autorreflexões que diretrizes a outrem. E se apenas deixarmos as coisas mais leves, sem muitas exigências, sem muitos parâmetros. Ah vá, quer falar pra mim que isso é teoria e a prática é complicada? Meu bem, eu sou a rainha da falta de prática em tudo relacionado a essas facilidades emocionais. Pois sim, me complico que é uma beleza! Leia meus textos, verá tamanho drama melancólico!
Ah, sem medo da exposição! Essas trocas (porque ideias vêm e vão) me fazem ser uma pessoa melhor, o que me atinge e reflete em mim como um estado feliz de mim mesma! Lhe ajuda também? Achou sem sentido?…

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” Clarice Lispector

VOU ME COMPORTAR, PROMETO!

Tenho que confessar que fiz promessas íntimas no começo do ano. Sei, clichê, sim, sei. Ano novo, vida nova, planos novos e atitudes a se renovar, não é o que sempre falamos no primeiro dia do ano, geralmente? Então, fiz isso. Prometi me comportar.

Como disse, prometi me comportar. O que isso quer dizer exatamente? Ah, muitas coisas que vivemos juntos me impediram de seguir em frente. O fato de ser teimoso, de ser inflexível em relação a praticamente tudo, de esquecer de mim durante o dia… Ok, já até imagino suas feições agora: um sorriso de canto de boca, escondendo na verdade a imensa chateação pelas minhas palavras. Mas é tudo verdade…

Assim, afastamo-nos. Definitivamente? Pois então, isso que prometi. Não repetir as mesmas brigas, apontamentos, sensações infelizes… E consequentemente nosso afastamento foi quase que inevitável…

Prometi me comportar e não lhe procurar. Prometi não deixar que o carinho de sua mão me convença novamente num afago certeiro; que não deixaria que seu cheiro tão viril me enlouquecesse a ponto de entregar-me ao seu perfume; prometi não notar a covinha que forma em sua bochecha ao sorrir timidamente quando confesso meu amor por você. Prometi ainda ensurdecer-me para as palavras que me diz ao ouvido, quentes e convincentes.

Vou comportar-me e não deixar que me seduza com seu jeito carinhoso de me abraçar ao dormir no sofá, após um longo filme, ou sua tentativa de me alegrar num despertar matinal ruim, nem reparar o quanto se esforça para deixar-me confortável quando numa situação que me sinto insegura. Bom, prometi tudo isso né…

Mas, diz-me, como prometer tudo isso se, ao rever ao que tenho que resistir, pego-me completamente sem incentivo? Acabo enxergando que há mais a agradecer e celebrar do que realmente a reclamar. Aí, pego-me em outro clichê: não cumprir promessas de início de ano!

Certo, não tenho medo de parecer piegas, banal muito menos ‘uma mulher sem palavras’. Palavras as tenho, sempre, bem sabe… Entendi que gosto mais de encarar tudo isso como desafios e vivenciá-los do que reclamações sem soluções.

Bom, esta não foi uma reflexão lógica. Não me comportei, você não deixou. E que delícia de delírios e descumprimentos. Já espero o ano que vem em que já planejei minha promessa ser: desobediência. Imagina a que me permitirei então…


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