Categoria: SHEILA LIZ – FLOR DE LIS

NÃO ME DEIXE PRA TRÁS

E quando não havia mais esperança eu simplesmente parei na beirada e olhei pra baixo. Nunca me senti tão leve. O pânico era alheio, não meu. Olhei pra cima, estiquei os braços ao máximo que consegui, como se eu sentisse que iria receber alguma bênção, e relaxei o corpo. Os pés juntos, na beira da ponte, com os dedos quase totalmente para fora de onde eu podia pisar com segurança, e eu não sentia nada além de alívio.

Por ali fiquei por segundos, longos, parecia passavam lentamente. Poderia ter me irritado com isso, mas naquele momento eu não queria mesmo que o tempo passasse. Aquela sensação de liberdade deveria durar mais tempo… Meus cabelos longos me cegaram por momentos, a brisa passou tão forte que eles se emaranharam em meu rosto. Não vi nada… e não precisei, bastava sentir.

Continuei com os braços lindamente esticados, me dando, perigosamente, uma instabilidade inapropriada para o momento. Não liguei. Não entende que não era importante? Não me importava com o perigo iminente, ou escancaradamente mortal, parecia, para mim, apenas fugaz.

Fugaz! Pensei naqueles dias em que pensei que seu carinho por mim seria menos efêmero. Duradouro, na verdade, isso que achei. Este pensamento subitamente doeu-me o coração… se é que isso, literalmente é possível. Pois é, com você aprendi que os fatos são como são, não há maneiras de deixá-lo romântico o suficiente se uma das partes o torna cruel por simples prazer. A sua partida foi muito cruel. Inesperada, desnecessária, brusca…

Mesmo num estado de êxtase e meditação angelical, o pensamento em você me fez sentir uma lágrima amarga descer pelo rosto. O desequilíbrio chegou por momentos poucos; lembrar sua partida egoísta me causou desconforto. Desci os braços junto ao corpo, realmente procurando equilíbrio. Abri os olhos e percebi onde estava. Num estado de lucidez apenas desci do parapeito. O barulho da água batendo nas pedras laterais ficou ensurdecedor… o que antes era apenas quietude. Foi você, foi o pensamento em você me trazia caos, imagine a presença…

Respirei fundo, bem fundo. Acho que procurava a vida. Não sei, queria perdê-la, já tinha perdido você. Firmei as mãos na beira da ponte, segurando-me firmemente, em mim mesma. Pensando que este gesto externo me daria forças para achar-me internamente. Trêmulos, os braços, me seguraram em mais um momento de lucidez. Como enxergaria minha sombra como uma apenas se já me acostumara a vê-la como dupla? Mais lágrimas densas e teimosas me desceram as bochechas. Caiam, aqui, agora e chega. Abro os olhos e vejo apenas o horizonte à frente… Preparada para seguir em frente, abri-me para os sentidos naquele instante. O primeiro passo para sair dali foi duvidoso.

Inesperadamente sua voz surge ao fundo. Inebriada pelas emoções dos últimos segundos, em que a decisão de continuidade estava ainda delicada, escutei você ainda mais perto. Os olhos o procuravam em várias direções e, mesmo sem vê-lo, sua voz já chegava como um grito ao ouvido. Não tive mais dúvidas, senti-me forte o suficiente para juntar-me a você. Fui, sem repensar. Não deixei vestígios. Apenas um corpo inerte, já desfalecido pelo encontro com a água gélida.

NÃO É DO MEU AGRADO CONFESSAR…

Não é do meu agrado confessar que, se sua real intenção com esse teatro todo era apenas humilhar-me e irritar-me, obteve um enorme sucesso.

É sabido, e muito notório, que procuramos em nossos possíveis companheiros qualidades que não temos, ou ainda, que temos dificuldade em desenvolver. Para muitos pode parecer imenso desafio essa coisa de convivência, mas, eu via a nossa como uma completude… Aí vem você, com essa imaturidade emocional pontual e me apresenta uma mulherzinha que mal sabe onde está? Realmente procurei enxergar o que você viu de interessante; bem o conheço e tenho essa bagagem para argumentar. Mas tive que observar por mais tempo para tentar chegar a uma conclusão que me deixasse satisfeita o suficiente e forte o suficiente para que o soluço de lágrimas cessasse antes que me visse em tão lastimável estado. Nesses momentos vejo que minha postura de ‘emocionalmente equilibrada’ fica apenas na emissão de palavras porque o sentimento e imagem em si, deduram-me instantaneamente.

E o fiz mesmo, observei desde que entraram com grandioso alvoroço pelos fundos. Fiquei até a imaginar: se queriam mesmo chamar a atenção, por que os fundos? Enfim, deve fazer parte da cena, quem sabe pensaram que geraria a impressão de que não importa o caminho que fizessem, seriam notados, não?

Delicadamente com a mão na cintura dela, guiando-a pelo caminho, vi que tentou fazer acontecer uma intimidade entre vocês. Mas isso ‘eu’ notei, ela, pelo visto, preocupava-se mais com o cumprimento e olhares alheios. Exibindo o penteado espalhafatoso e a saia extremamente justa e muito acima do limite aceitável, não por questão estética, mas pela manutenção da intimidade que devia ser apenas dela; devia…

Com um sorriso sem graça, puxou-a para perto de si encostando sua boca pertinho do ouvido dela, sussurrou; ela prontamente o olhou com uma fúria contida, e também sorriu. Gostando da cena, levei o copo à boca antes que teimasse em emitir qualquer som para que notasse minha presença. Em vão! Viu-me ainda assim, ainda que encolhida no canto da sala, com o mais normal vestido creme de costume, com o batom cor da boca mais sem graça e brincos que só estavam ali para não ficarem encostados na caixa de joias empoeirada. Levantou a mão como cumprimento e eu apenas o imitei.

É claro que ela nem viu, ainda preocupada em manter a atenção de outros para si, gritou para o garçom servi-la com a melhor dose de whisky da casa, timidamente você pediu um chopp mesmo, daqueles com colarinho branquinho, típico sambista de boteco. Tão logo chegou, tomou a caneca e, olhando pra mim, ergueu a bebida procurando certa intimidade e cumplicidade que lhe faltava nesta nova cena. Por educação, e apenas por isso, também o fiz com meu copo já vazio. Aproveitei e pedi outro ao garçom. Nem vi você se aproximando, no susto já me peguei a lhe abraçar de volta. Não foi um encontro qualquer, você sentiu né? Por cinco segundos senti o pulsar do seu coração ritmado que me envolveu juntamente com o cheiro do perfume que insisto em dizer que bem combina com sua personalidade. Só o soltei porque senti que precisava ir. Engraçado que, sem nem uma palavra, trocamos confidências doces e a promessa de um encontro posterior.

Voltou à mesa. Ela continuava a falar e falar sobre sua carreira de sucesso, a plateia era grande, masculina em sua totalidade. Entediado, movimentou-se para sair de lá novamente quando foi repreendido pela mão dela segurando sua coxa. Virou-se para ele e balançou negativamente a cabeça. O beijou mais como uma ordem e não um gesto de carinho, o rubor tomou-lhe as bochechas, da mesma cor rubra que sua boca ficou após o encontro com a dela. Ali eu vi o torpor que isso lhe causou, ali notei que a paixão o tomou pelo pescoço como um enlace de boi, sabe? Mas também foi ali que notei que a fisgada dela foi pelo pescoço mesmo e não coração. Bebi o último gole que me restava no copo e fui ao banheiro, só, como a noite toda.

Como disse, irritou-me tudo isso, não só por vê-lo longe de mim mas, principalmente, por estar com ela. Ela! Contra tudo o que somos, pensamos, acreditamos… Irritou-me de tal forma que repensei a mim mesma. Será que meu ar blasé perdeu o mistério nato e o interesse curioso? Ela é tão escancarada que não há maneira de encará-la sem considerar ser teatral. Olhei-me no espelho por minutos. Assim sou. Saí de lá apenas desamassando o vestido e bagunçando os cabelos que teimavam em ficar alinhados. No coração não tinha como mexer né, mas o humor eu controlei, ou tentei… nem sei.

Desatenta, saí de lá, direto para rua, sem direito a saideira. Não por acaso, tenho certeza, estava a respirar do lado de fora. Sem me deixar entender veio ao meu encontro e apenas se encaixou em mim novamente, tudo se encaixou novamente. O afastei no momento em que percebi que ela estava a nos olhar pelo vidro da porta. Sem palavras sai andando a contar as luzes queimadas da rua, maneira besta de fingir que era isso o mais importante da caminhada. Ficou ali, esperando a última ordem dela. Sei porque olhei pra trás e vi que, cabisbaixo, subiu os degraus e entrou ao encontro dela.

Assim acabou a noite: você aos comandos infundados de ‘não sei quem’ e eu a contar os pontos que me iluminavam o caminho nas ruas escuras que agora eu fazia questão de andar apenas em minha companhia.

ESTA É MINHA VERDADE INVENTADA

Procuramos tanto uma maneira de ser feliz constantemente que chegamos a gastar energia e tempo de vida, muitas vezes sem notar que já o somos!

Inventamos patamares a serem alcançados, depositamos cargas em coisas e pessoas alegando ser para nos fazer feliz, responsabilizamos nossos companheiros de vida (sejam cônjuges, amigos, filhos, pais) como se dependessem deles a conquista de uma felicidade que é mais nossa do que consigamos confessar!

Condicionamos um estado de espírito à bens, à situações que não dependem de nós – muitas vezes; mas acredito que é mais simples que tudo isso e, ao mesmo tempo angustiante encontrar esse desejo constante de ser feliz: conhecer a ti mesmo.

Só acho mesmo, apenas como crença, não experiência, até porque acho extremamente difícil e tenho uma evolução muito infantil ainda em relação a essas plenitudes.

E isso – nos conhecer – será descoberto num conjunto de reflexões e experiências vividas, sim, como esta a que se depara, lendo este texto pretensioso, tão pretensioso que busca diretrizes para uma felicidade que certamente é individual. Esse descobrimento pessoal não está apenas em nosso interior, há que considerar as escolhas externas e os reflexos que elas geram em nós!

outro texto falei sobre a felicidade como algo a se conquistar considerando nossas pequenas alegrias, detalhes diários que nos contentam. O que ainda acho muito válido e é uma maneira de considerar ver o lado positivo de muitas situações de nossas vidas, mas como um complemento penso que há uma outra forma de entender isso também… saber sobre o que lhe amedronta, saber sobre o que quer distância e não mais vivenciar, por exemplo. Assim, fazer o contrário disso lhe mostrará um caminho mais perto do que quer…. ser feliz!

Pensando ainda mais, superestimamos essa tal felicidade não? Poxa, tudo tem que ser perfeito, como queremos, na hora em que desejamos… Bem, é assim com vocês né? Espero não ser a única imatura no mundo! Bem, essas são mais autorreflexões que diretrizes a outrem. E se apenas deixarmos as coisas mais leves, sem muitas exigências, sem muitos parâmetros. Ah vá, quer falar pra mim que isso é teoria e a prática é complicada? Meu bem, eu sou a rainha da falta de prática em tudo relacionado a essas facilidades emocionais. Pois sim, me complico que é uma beleza! Leia meus textos, verá tamanho drama melancólico!
Ah, sem medo da exposição! Essas trocas (porque ideias vêm e vão) me fazem ser uma pessoa melhor, o que me atinge e reflete em mim como um estado feliz de mim mesma! Lhe ajuda também? Achou sem sentido?…

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” Clarice Lispector

VOU ME COMPORTAR, PROMETO!

Tenho que confessar que fiz promessas íntimas no começo do ano. Sei, clichê, sim, sei. Ano novo, vida nova, planos novos e atitudes a se renovar, não é o que sempre falamos no primeiro dia do ano, geralmente? Então, fiz isso. Prometi me comportar.

Como disse, prometi me comportar. O que isso quer dizer exatamente? Ah, muitas coisas que vivemos juntos me impediram de seguir em frente. O fato de ser teimoso, de ser inflexível em relação a praticamente tudo, de esquecer de mim durante o dia… Ok, já até imagino suas feições agora: um sorriso de canto de boca, escondendo na verdade a imensa chateação pelas minhas palavras. Mas é tudo verdade…

Assim, afastamo-nos. Definitivamente? Pois então, isso que prometi. Não repetir as mesmas brigas, apontamentos, sensações infelizes… E consequentemente nosso afastamento foi quase que inevitável…

Prometi me comportar e não lhe procurar. Prometi não deixar que o carinho de sua mão me convença novamente num afago certeiro; que não deixaria que seu cheiro tão viril me enlouquecesse a ponto de entregar-me ao seu perfume; prometi não notar a covinha que forma em sua bochecha ao sorrir timidamente quando confesso meu amor por você. Prometi ainda ensurdecer-me para as palavras que me diz ao ouvido, quentes e convincentes.

Vou comportar-me e não deixar que me seduza com seu jeito carinhoso de me abraçar ao dormir no sofá, após um longo filme, ou sua tentativa de me alegrar num despertar matinal ruim, nem reparar o quanto se esforça para deixar-me confortável quando numa situação que me sinto insegura. Bom, prometi tudo isso né…

Mas, diz-me, como prometer tudo isso se, ao rever ao que tenho que resistir, pego-me completamente sem incentivo? Acabo enxergando que há mais a agradecer e celebrar do que realmente a reclamar. Aí, pego-me em outro clichê: não cumprir promessas de início de ano!

Certo, não tenho medo de parecer piegas, banal muito menos ‘uma mulher sem palavras’. Palavras as tenho, sempre, bem sabe… Entendi que gosto mais de encarar tudo isso como desafios e vivenciá-los do que reclamações sem soluções.

Bom, esta não foi uma reflexão lógica. Não me comportei, você não deixou. E que delícia de delírios e descumprimentos. Já espero o ano que vem em que já planejei minha promessa ser: desobediência. Imagina a que me permitirei então…