O “QUEIMA”

Décadas atrás, entrando pelo século passado, as lojas não faziam promoções. Faziam “queimas”.

Em Natal, o povo esperava, com ansiedade, o “queima” semestral das Lojas Paulista, Casas Cebarros e outras lojas tradicionais da cidade. Era possível se comprar tecidos, lençóis, toalhas e outros artigos, por preços baratos, com pagamento à vista.

As tentadoras “parcelinhas”, dos cartões de crédito, só apareceram muito tempo depois.

A modernidade trouxe vantagens e desvantagens para o povo. Entretanto, ainda há pessoas que sentem saudade dos antigos “queimas”, quando o freguês tinha que ter o dinheiro na mão, para poder comprar.

Em 1956, o Diners chegou ao Brasil, sendo, inicialmente, um cartão de compra e não um cartão de crédito. Em 1968, foi lançado o primeiro cartão de crédito de banco, o Credicard, e em 1971 foi fundada, no Rio de Janeiro, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços – ABECS.

Antes do advento do cartão de crédito, o poder aquisitivo do povo era menor, mas, em compensação, havia mais controle entre os compradores. Com as facilidades proporcionadas pelos cartões de crédito, as pessoas passaram a ser induzidas a comprar cada vez mais, para pagar em “parcelinhas”.

Atualmente, com as constantes promoções, as lojas atraem centenas de pessoas por dia, incluindo compradores compulsivos. Confiando nas parcelinhas do cartão de crédito, nesse momento, eles esquecem suas limitações financeiras e comprometem o orçamento doméstico.

Dizem os estudiosos, que os compradores compulsivos, estimulados pelas “parcelinhas” dos cartões de crédito, entram nas lojas com o olhar sereno e depois de cinco minutos, diante das “promoções”, o “pisco” dos olhos acelera, acentuadamente. No final das compras, quando já estão no caixa, subscrevendo as dívidas contraídas, esses “piscos” atingem seu ápice, como se o “freguês” houvesse sido acometido por uma enfermidade ocular.

A inadimplência do comprador compulsivo poderá resultar em angústia e depressão, se ele tiver boa índole. Caso contrário, passará a encarar a inadimplência com naturalidade.

Os devedores compulsivos, quando se tornam inadimplentes, procuram contrair empréstimos, aumentando ainda mais suas dívidas. É o que se chama, na linguagem popular, procurar “cobrir um santo, descobrindo outro.”

O bom é evitar a tentação das promoções e das “parcelinhas” dos cartões de crédito, pois, como diz o ditado popular, “quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.

BELEZA INTERIOR

Nem sempre uma pessoa bonita, fisicamente, reúne todas as grandes qualidades que a tornariam perfeita. Às vezes, a pessoa é somente bonita e nada mais. Falta-lhe cultura, educação, bom caráter e simplicidade. Entretanto, há casos raros, em que uma pessoa é bonita por dentro e por fora. É a tal da beleza interior, que não interessa somente aos “decoradores de ambiente”.

Pois bem. Belisário considerava Maura, sua esposa, a mulher ideal. Aquela mulher que todo homem gostaria de ter ao seu lado. Para não ser perfeita, Belisário achava Maura bonita demais para ele. Era seu único defeito.

Baixinho, usando óculos de grau do tipo “fundo de garrafa”, narigudo, careca e muito magro, Belisário tinha complexo de feiura. Por isso, preferia que a esposa fosse menos bonita e não tivesse atributos físicos tão acentuados. Por outro lado, não podia negar que se sentia orgulhoso, por ser casado com uma mulher linda como Maura. Além da beleza física, sua esposa reunia qualidades, como bom caráter, simpatia, cumplicidade, bondade, além de ser totalmente dedicada a ele e aos filhos. Não jogava problemas corriqueiros em cima dele, tomando, ela mesma, providências para resolvê-los.

Maura procurava contornar todas as dificuldades da vida e não dava valor aos bens materiais. Para ela, a beleza interior valia mais do que tudo nesse mundo.

O casal vivia em plena harmonia. Aos domingos, os dois iam à Missa das 9 horas, levando com eles os dois filhos de 7 e 9 anos.

Na realidade, o que tinha Maura de bonita, tinha Belisário de feio. Ele se sentia humilhado, quando iam à praia, e ela, mesmo com um maiô discreto, deixava homens e mulheres boquiabertos. Sabia que destoava fisicamente de Maura. Perto dela, sentia-se um tipo insignificante.

Maura era alta, de pele morena clara, ancas largas, seios fartos e chamava atenção pela sua elegância.

Certa vez, em conversa com Bento, seu melhor amigo e colega de trabalho, depois de tomar algumas cervejas, Belisário confessou o seu complexo de feiura. Chegou a manifestar vontade de se separar da esposa, por causa disso.

O amigo quis convencê-lo de que ele não era feio, mas foi em vão. Embriagado, Belisário abriu as torrentes, chorou e disse que Maura chamava a atenção até de mulheres e pessoas idosas. Parecia uma misse. Disse que tinha a impressão de que todas as pessoas sentiam pena dela, por ser tão bonita e ter se casado com um homem horroroso como ele. E não parava de elogiar a mulher:

– Saiba, amigo, que minha mulher tem beleza natural. Nem ao menos se pinta. Nunca vai à academia, cabeleireiro, manicure, nem usa cosméticos. Usa sabonete no corpo e até na cabeça. Nem Xampu ela usa. Seu perfume é natural, igual ao da Gabriela de Jorge Amado, com seu cheiro de cravo e canela.

O amigo, cheio de cerveja e já irritado com a “lenga-lenga”, falou:

– Pois, quando ouço você falar isso tudo, fico revoltado com Rosilda, minha mulher. Quanto mais a danada gasta pra ficar bonita, mais feia fica. Tenho uma proposta pra lhe fazer, Belisário:

– Vamos trocar de mulher, amigo???

Belisário não gostou da proposta e retirou-se indignado. A partir desse dia, cortou relações com o amigo Bento.

O MARIDO MANSO

Antonino, como todos os homens traídos, era um marido manso, incapaz de levantar a voz para a esposa Bernadete, ou para quem quer que fosse. Dizia aos amigos que sua mulher era uma santa, e que os dois eram muito felizes. Quando dava as costas, suas palavras serviam de chacota, pois todos sabiam que a coquete e bonitona mulher não era confiável e tinha um comportamento suspeito. Flertava abertamente com os amigos do marido, e isso era o mínimo que ela fazia. Em suma, Antonino levava mais chifres do que pano de toureiro.

Certa tarde, Antonino saiu do escritório mais cedo. Querendo fazer uma surpresa, antes de ir para casa, entrou numa doceria e comprou uma torta de abacaxi para levar para a mulher. Era a sua torta preferida.

Ao chegar em casa, foi direto colocar a torta na geladeira. Não viu Bernadete, mas ouviu sua voz e sua risada, falando com alguém ao telefone, dentro do quarto do casal. Como sempre fazia, foi até onde estava a mulher, que se assustou e demonstrou irritação pela sua chegada inesperada. Bernadete abafou o telefone e disse para o marido:

-Quer me matar de susto? Entrou silencioso como um ladrão! Estou conversando com Rosanália. Ela está me contando um filme ótimo, que assistiu na televisão. Uma comédia nacional.

Antonino sentiu algo estranho no ar. Nunca tinha desconfiado da mulher, mas, dessa vez, ficou de orelha em pé. Achou muito estranha a reação dela ao notar que ele havia chegado. Em vez de demonstrar alegria, Bernadete mostrou-se irritada, chegando a ser grosseira com ele. Antonino saiu do quarto pensativo e a mulher continuou falando ao telefone, agora em tom muito alto, como quem queria mostrar que estava conversando mesmo com a amiga:

-Desculpe, Rosanália! Foi Antonino que chegou. Amanhã eu te ligo. Vamos combinar para almoçarmos juntas, quando você se curar dessa virose.

Bernadete desligou o telefone e disse para Antonino que a amiga Rosanália havia sido acometida de uma virose, e estava em casa, repousando.

Na mesma ocasião, alguém tocou a campainha da porta e Antonino mesmo foi abrir. Era Rosanália, saudável e eufórica como sempre, que viera visitar Bernadete.

O destino é imprevisível. A chegada de Rosanália foi uma péssima surpresa para Bernadete e uma grande decepção para Antonino.

Desse dia em diante, o marido manso acordou para a realidade.

A ARTRITE

A artrite é uma inflamação das articulações, com desgaste da cartilagem, que gera sintomas como dor, deformidade e dificuldade nos movimentos. Em geral, seu tratamento é feito com medicamentos, fisioterapia e exercícios, e, em alguns casos, com cirurgia. É uma enfermidade que não mata, mas maltrata, e é muito comum nos dias atuais.

Pois bem. Na época em que os religiosos cumpriam votos de pobreza, vestiam batina e usavam transporte coletivo, Padre Belizário, muito conhecido em Natal, sempre andava de ônibus, para fazer visitas às Paróquias da periferia. Durante o percurso, evitava conversar com estranhos, procurando ler a Bíblia, que sempre levava consigo.

De pouca conversa e irritado por natureza, certa vez, esse padre teve a “sorte” de ver sentar-se ao seu lado, num transporte coletivo, um bêbado, sujo e mal cheiroso, que insistia em puxar assunto com ele. Essa figura entrou no ônibus tombando e tossia bastante. A cada solavanco do ônibus, o bêbado tombava para o lado do padre, que o empurrava irritado. O padre abriu Bíblia e fingiu estar lendo. Mas o bêbado não parava de interromper a leitura do vigário, sempre cutucando o seu braço:

-Padre, que horas são no seu relógio?

E o padre, secamente, respondeu: – São 14 horas.

-Padre, já viu que calor???

O padre balançou a cabeça, afirmativamente, e fixou os olhos na Bíblia, fingindo concentrar-se na leitura.

De repente, o bêbado interrompeu, novamente, a leitura do padre:

-Seu Padre, o senhor sabe o que é artrite?

Chateado, o padre respondeu:

-É uma doença muito grave, que dá nas pessoas cachaceiras, farristas e irresponsáveis.

Assustado, o bêbado perguntou?

-Essa doença mata, padre?

O padre respondeu, irritado:

-Mata e mata muito rápido. Se o doente não parar de beber, morre logo. Não dura seis meses. É galopante mesmo.

Ao ouvir a resposta do padre, o bêbado entrou em pânico:

-Padre, o senhor jura que isso é verdade? Artrite mata ligeiro assim?

O Padre respondeu?

-Pode acreditar, em nome da Cruz de Cristo, que artrite mata muito ligeiro. Não tem cura! E o pior: Quem morre de artrite, vai direto arder no fogo do inferno! Vai se encontrar com Satanás, na mesma hora!!!

O bêbado começou a chorar e depois falou:

-Ô meu Deus!!! Coitadinho dele, Padre! Vai morrer logo. Ele bebe vinho todo dia!!!

O padre, já cheio de tanta chateação, disse:

-Pois trate logo de se tratar e não beber mais nada! Se não, você vai morrer já, já. E vai se encontrar com Lúcifer!!!

O bêbado, com a voz trêmula, respondeu:

– Eu estou bonzinho, seu padre. Quem está com artrite é o Papa. Eu ouvi a notícia no rádio…

O padre levantou-se e foi sentar-se mais na frente.

O INTERROGATÓRIO

A vida imita a arte, muito mais do que a arte imita a vida… (Oscar Wilde)

“A Escolinha do Professor Raimundo”, programa do saudoso e genial humorista cearense, Chico Anysio, durante anos encantou os telespectadores brasileiros. Nesse programa, entre outros personagens hilários, havia um que se destacava: “Seu Rolando Lero”. As reações desse personagem, coincidentemente, eram idênticas às de algumas pessoas, arroladas como testemunhas, em processos criminais.

Esse caso ocorreu há várias décadas, numa Comarca do interior do Rio Grande do Norte.

Foi cometido um homicídio em Serra Negra do Norte (RN), em plena via pública e em frente à principal Barbearia da cidade, frequentada por fazendeiros ricos, chefes políticos e outras pessoas importantes da comunidade. Ali, era o ponto de encontro, onde tudo que acontecia na cidade, de bom ou de ruim, era comentado.

O barbeiro Manoel Divino, proprietário da barbearia, foi arrolado como principal testemunha do crime, no inquérito e na denúncia, para ser ouvido em Juízo.

No dia da audiência de instrução e julgamento, o barbeiro compareceu ao Fórum, visivelmente nervoso. Aguardava, com ansiedade, a sua vez, para relatar ao Juiz, na presença do Promotor de Justiça, do Advogado e do Escrivão, e de todos os interessados no processo, o que sabia informar sobre o fato criminoso.

Iniciada a audiência, o Juiz perguntou à testemunha:

– O que a testemunha sabe dizer, sobre o crime ocorrido em frente à sua barbearia, e a morte de Antônio Bento da Silva, na tarde de 10 de março do corrente ano?

Demonstrando uma grande surpresa, o barbeiro respondeu, com voz trêmula:

– Doutor, o senhor está dizendo que o meu compadre Antônio Bento morreu? Mataram o meu compadre???– Juro que estou sabendo desse acontecimento infeliz, agora. Pode acreditar, Dr. Juiz, que eu não sabia dessa tragédia! Então, o meu compadre, amigo e melhor cliente morreu e eu não fui avisado?!!!

Ato contínuo, a testemunha puxou um enorme lenço do bolso da calça e disparou num choro compulsivo, abrindo as torrentes e ensopando o lenço de lágrimas.

O barbeiro, principal testemunha arrolada, não teve mais condições psicológicas para dar o seu depoimento, indispensável na elucidação do fato criminoso. .

O Juiz dispensou a testemunha, marcando outra data para ouvir o seu valioso depoimento, sem tanto nervosismo.

A cidade inteira sabia que Manoel Divino tinha sido testemunha ocular do crime. Seu depoimento seria de suma importância nos autos.

Essas cenas imprevistas, em que as testemunhas são acometidas de surtos nervosos, são comuns, quando elas são ameaçadas pela parte contrária ou, praticamente, são obrigadas a depor. Ninguém gosta de ser testemunha, principalmente em processos criminais. Por isso, é fato comprovado, que, mesmo jurando dizer a verdade, é comum as testemunhas omitirem, nos depoimentos, detalhes importantes por elas testemunhados, e que, por si só, bastariam à elucidação do crime… Essas omissões prejudicam o julgamento dos processos, e tornam a justiça mais lenta..

TEM GENTE!!!

Era dia de eleições municipais. Nas cidades do interior, os caminhões começavam a transportar, ainda pela madrugada, os eleitores da zona rural, que votariam nas zonas eleitorais da cidade.

Nesse tempo, as cabines de votação eram verdadeiros quartinhos fechados, e o voto era mesmo secreto. O eleitor ficava mais à vontade, para votar.

Muitos eleitores da zona rural só sabiam assinar o nome. Eram semianalfabetos e os votos eram de cabresto, fiscalizados pelos políticos e donos de propriedades rurais, onde eles trabalhavam. Era fácil votar, pois bastava colocar um “X” no quadrinho ao lado do nome do candidato escolhido e depois colocar na urna eleitoral. A apuração dos votos era manual e demorada. O resultado das eleições somente era divulgado, no mínimo, dois ou três dias depois.

Para votar, a matutada vinha para a cidade, vestida com a melhor roupa que tivesse. Os homens que tinham paletó, iam votar todos enfatiotados. O dia da eleição era um dia de festa, nas cidades do interior.

Em Nova-Cruz (RN), a prefeita em exercício abria as portas de sua enorme casa, oferecendo ao eleitorado de cabresto, comida farta, ponches e água para beber, à vontade.

Da mesma forma, acontecia na casa do candidato da oposição. Era o dia em que a pobreza aproveitava para se empanturrar de comida, tirando, literalmente, a barriga da miséria.

Havia eleitores inescrupulosos, que aproveitavam o dia da fartura e enchiam a barriga, exageradamente, com tudo o que havia de comida boa, nas casas dos candidatos dos partidos da situação e da oposição. O PSD e a UDN eram os partidos principais. Os eleitores chegavam a se empanzinar com tanta comida. Essa fartura durava até o fim do dia. Ainda havia almoço farto, em algumas casas de outros cabras eleitorais dos dois partidos.

Havia, nesse tempo, as fraudes de se entregar a chapa ao eleitor já marcada, como também de se trocar a chapa que o eleitor levava para lhe servir de modelo, por outra do outro partido, com o nome do outro candidato. Essas fraudes eram feitas por pessoas que faziam “boca de urna”.

Fora isso, ainda havia as famosas “BREJEIRAS”, nome que se dava ao “roubo” de urnas, depois do encerramento das eleições. Essas “brejeiras”, onde os votos eram trocados, eram chefiadas por verdadeiras quadrilhas, especializadas em fraudes eleitorais, compostas por “gente grossa”, incluindo políticos e advogados.

Conta-se que em uma conhecida cidade do interior nordestino, um matuto entrou na cabine para sufragar o seu voto, sentindo cólicas intestinais. Não deu tempo de olhar para a chapa, e só lhe restou se acocorar e evacuar ali mesmo. Para se higienizar, fez uso da chapa eleitoral onde teria que marcar seu candidato com um X e de santinhos de diversos candidatos, que trazia no bolso.

Quando o mesário bateu na porta da cabine, avisando que seu tempo de votação havia se esgotado, o eleitor gritou:

-TEM GENTE!!!

A INJÚRIA

Injúria é a ação de ofender a honra e a dignidade de alguém. Em termos penais, o direito define a injúria como um dos crimes contra a honra, assim como a calúnia e a difamação.

O crime de injúria está previsto no artigo 140 do Código Penal (CP), e a queixa crime por injúria pode gerar condenação, com pena de 1 (um) a 6 (seis) meses de prisão e multa.

Esse caso ocorreu há décadas, numa determinada audiência, quando o Juiz ouvia o depoimento de uma testemunha de defesa, em processo de crime de injúria.

A acusação que pesava contra o constituinte do grande criminalista José Moreno, era a de que o acusado havia chamado o autor da representação de “PEDERASTA”. O autor tratava-se de um conhecido vereador da cidade, candidato à reeleição.

O Ministério Público estava ali representado por uma Promotora de Justiça, no início da carreira, muito séria e cerimoniosa, que demonstrava absoluto respeito aos circunstantes.

O crime de injúria, para ser provado, exigia perguntas indiscretas e respostas claras, no sentido de inocentar o réu. O Juiz começou a ouvir o depoimento de uma testemunha de defesa, empregado de uma mercearia, que tinha pouco estudo. O réu seria inocentado, caso a prova da pederastia de que era portador o autor da representação viesse para o processo.

Mesmo se esforçando, para manter o equilíbrio da seriedade da audiência, o advogado de defesa, com muita ética profissional, fez, através do juiz, a seguinte pergunta:

– Pergunto à testemunha se pode informar se o autor da ação demonstra “trejeitos” nos seus costumes de homem honrado ou algum gesto efeminado?

Imediatamente, a testemunha respondeu:

– Doutor, eu não entendo essas palavras difíceis que o senhor falou. Mas, mesmo assim, doutor, pela maneira e o tom da pergunta, posso dizer, com toda a certeza, que o autor da representação, como toda a cidade sabe, realmente, dá o “SEDÉM”.

Diante da inesperada resposta que a testemunha deu ao Juiz, na presença das partes, pairou na sala de audiências um silêncio sepulcral, deixando surpresos todos os participantes daquele ato jurídico.

Esse caso passou a fazer parte do anedotário forense do Rio Grande do Norte.

O PARENTE

Numa manhã de domingo, Severina estava preparando o almoço, quando alguém tocou a campainha da porta. Era um homem aparentando uns 30 anos, bem vestido e educado, que assim falou:

-Bom dia! O Genésio está?

A empregada respondeu:

-Não. Dr. Genésio saiu com dona Ângela e os filhos. Só volta na hora do almoço.

O homem continuou:

-Ah, meu Deus! Meu primo parece que é leso. Combinou comigo para eu vir almoçar com ele hoje e colocar os assuntos em dia, e parece que se esqueceu.

O homem segurava uma sacola na mão, onde se podia ver alguns presentes.

A empregada, que era novata na casa, perguntou:

-O senhor é primo dele?

E o estranho respondeu

-Sou primo legítimo, quase irmão.. Fomos criados juntos. Meu nome é Josué.

A empregada , então, disse:

-Faz uma semana que estou trabalhando aqui. Vim do interior. Já que o senhor é primo dele, pode entrar e esperar que ele chegue.

O rapaz agradeceu o convite, entrou e colocou a sacola de presentes sobre uma cadeira. Sentou-se na sala, pegou o controle remoto e ligou a televisão, como se fosse muito íntimo da casa.

A empregada voltou para a cozinha e continuou preparando o almoço. O visitante elogiou o cheiro da comida e permaneceu, muito à vontade, assistindo televisão. Toda ancha com o elogio, Severina ofereceu ao homem um cafezinho com bolo, mas ele recusou. Perguntou se tinha cerveja, e foi o que a mulher lhe serviu.

Josué, o “primo”, perguntou à empregada:

– Genésio tem recebido carta da tia Raimunda, a mãe dele?

A mulher respondeu:

-Não sei não, senhor. Só faz uma semana que estou trabalhando aqui.

O “primo” visitante entrou no quarto do dono da casa, dizendo que iria usar o banheiro. A empregada ouviu isso com naturalidade, já que se tratava de um primo do seu patrão.

O homem saiu do quarto e disse à empregada que iria dar uma volta pelo quarteirão, para fazer hora. A espera pelo primo já estava lhe dando sono. Lá da praça, ele veria Genésio chegar em casa e voltaria para o almoço.

Genésio, Elza e os dois filhos, finalmente, chegaram em casa. Estranharam a liberdade da empregada novata, em ligar a televisão, e em volume tão alto.
A patroa reclamou, irritada:

-Quem lhe ensinou a ligar a televisão, Severina?

A empregada respondeu:

-Quem ligou a televisão, não fui eu, não. Foi o primo de Dr. Genésio, Seu Josué, que estava aqui esperando por ele. Ele disse que Dr. Genésio convidou ele pra almoçar hoje aqui. Ele deixou até uma sacola de presentes aí na cadeira. Esperou muito e depois disse que ia dar uma volta no quarteirão, pra passar o tempo e depois voltava pra almoçar.

Genésio mudou de cor:

-Eu não tenho nenhum primo chamado Josué, nem convidei ninguém pra almoçar aqui, Severina!

-Dr. Genésio, ele disse que era quase seu irmão.trouxe até essa sacola cheia de presente, que está aí na cadeira, pro senhor, Dona Ângela e os meninos. Ele chegou antes das 10 horas. Ligou a televisão, pediu cerveja e depois usou seu banheiro. Parece que estava desarranjado. Depois disse que já estava cansado de esperar e por isso ia dar uma volta pra passar o tempo. Depois, voltava para o almoço.

Genésio, Ângela e os dois filhos de 8 e 10 anos pegaram a sacola e abriram todos os “presentes”. O que parecia uma caixa de sapato, continha um vidro vazio. Os outros, eram somente papel picado.

Ao avisar à empregada que estava indo ao banheiro, o golpista furtou de dentro do guarda-roupa do casal, todas as joias da casa, e todo o dinheiro que ali estava guardado.

Genésio e a esposa registraram um Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia de Polícia, mas não deu em nada.

MARQUESA

Era o final da década de 70. Zefa, 26 anos, saía todas as tardes para comprar o pão, na Padaria São Miguel. Numa certa quarta-feira, ao chegarmos do trabalho, não a encontramos em casa. Já eram quase 18 horas e a casa ainda estava às escuras. Também, não havia jantar pronto.

Ficamos apreensivos, quando vimos que o dinheiro do pão não estava em cima da geladeira. Estava claro que Zefa tinha saído para comprar o pão e que algo muito grave havia acontecido. O nosso primeiro pensamento foi de que a moça houvesse sido atropelada, na Avenida. Hermes da Fonseca, onde o trânsito, em Natal, é muito intenso.

Saímos à procura de Zefa, perguntando às empregadas domésticas da vizinhança, se a tinham visto naquela tarde, indo à padaria. Mas ninguém a tinha visto sair de casa. Os empregados da padaria também não a tinham visto. Percorremos todas as ruas próximas à nossa casa, no bairro do Tirol, indagando das pessoas, aqui e ali, se tinham notícia de algum atropelamento, ali por perto, naquela tarde. Todas as respostas foram negativas.

Telefonamos para o Pronto-Socorro mais próximo, mas não constava a entrada de ninguém com o nome de Josefa Maria da Silva, nas ocorrências daquela tarde. Telefonamos para outros hospitais e recebemos a mesma resposta. Até para o IML, nós ligamos, e, para nosso alívio, o nome de Josefa Maria da Silva não constava na relação de cadáveres que tinham dado entrada, no referido órgão, naquela tarde/noite.

No dia seguinte, fomos registrar esse desaparecimento na Delegacia de Polícia Civil.

Zefa era do interior e não tinha parentes em Natal. Trabalhava na nossa casa, há mais de um ano, e o seu endereço era o nosso: Rua Ângelo Varela – 1007, Tirol. Não sabíamos detalhes da sua vida, pois era muito calada e se limitava a fazer suas tarefas domésticas com perfeição. Sua folga dominical, passava na casa de uma amiga chamada Rosilda, cujo endereço nós nunca soubemos.

O fato é que o sumiço de Zefa nos causou um transtorno muito grande.

No sábado, três dias depois do seu desaparecimento, Zefa, por volta das 14 horas, abriu o portão do quintal da nossa casa e entrou, calmamente, dirigindo-se para o seu quarto e fechando a porta.

Mesmo aliviada por ela estar viva, senti uma certa indignação, pelo fato dela ter ficado três dias sem nos dar notícia. Como se fazia antigamente, em Nova-Cruz (RN), tomei uma garapa para me acalmar e fui conversar com Zefa, para saber o que tinha acontecido.

Quando lhe perguntei o motivo do seu inesperado desaparecimento, imediatamente, ela começou a chorar e falou:

– Meu pai está no hospital, operado, muito doente, e eu estava sendo acompanhante dele.

Muito irritada, eu respondi:

-Ainda que ele tivesse morrido, você devia ter mandado me avisar. Você não sabe a aflição que nós passamos com isso. Telefonamos para todos os hospitais e até para o IML, pensando que você houvesse morrido atropelada!!! Fomos à Polícia e comunicamos o seu desaparecimento! Amanhã, seu nome vai ser publicado no jornal “O POTI”, como pessoa desaparecida.

E continuei, irritada:

-Seu pai foi operado de que? Em que hospital está?

Em cima da bucha, Zefa respondeu, sempre chorando:

-Pai se operou de ovário (Isso mesmo, OVÁRIO!!!). Está internado no Hospital das Clínicas, na enfermaria 12, leito 3, pelo FUNRURAL. O nome dele é José Bento da Silva. A senhora pode ir lá, pra ver se não é verdade!!!

É lógico que o pai de Zefa não podia ter sido operado dos ovários. Atribuí o equívoco à sua ignorância. Na certa, o homem havia se operado da próstata.

Peguei a chave do fusca e, sem dizer nada, fui ao Hospital das Clínicas. Constatei as seguintes mentiras:

-Não havia nenhum paciente internado, com o nome de José Bento da Silva;

-Naquele hospital, não havia enfermaria 12, leito 3, no segundo andar;

-Os pacientes do FUNRURAL não tinham direito a acompanhantes.

Voltei para casa, vermelha de raiva e fui novamente conversar com Zefa:

-Como você mente mal, Zefa! Estou voltando do Hospital das Clinicas agora. Seu pai nunca esteve lá, pois o nome dele não consta na relação das pessoas ali internadas. Também não existe enfermaria 12, leito 3, no segundo andar. Mesmo que fosse verdade, os pacientes do FUNRURAL não tem direito a acompanhantes. E você ainda levantou um falso ao seu pai, dizendo que ele se operou de ovário.Quem tem ovário é mulher, Zefa!!!

A “moça” prendeu o choro e confessou:

– “Apois”, vou contar a verdade: Quarta-feira de tarde, eu tive que fazer uma “coretage” (curetagem). Tinha tomado uma garrafada pra abortar e depois que a senhora e seu marido saíram pra trabalhar, senti uma dor muito grande no pé da barriga. De repente, comecei a ter uma “morragia” (hemorragia), que não parava. Com medo de morrer, peguei um táxi na pista e corri pra Maternidade. Só tive alta hoje… A senhora me desculpe! Eu tive vergonha de lhe dizer que estava “buchuda”.

Sem acreditar mais em nenhuma palavra de Zefa, peguei o fusca, novamente, e fui à “Maternidade Escola Januário Cicco”, para conferir se ela continuava mentindo.

Para minha surpresa, dessa vez, ela havia dito a verdade. Seu nome e o nosso endereço estavam registrados na lista de pacientes, atendidas gratuitamente,. na tarde da última quarta-feira. Também estava registrado o procedimento cirúrgico ao qual Zefa fora submetida, em consequência do aborto sofrido. A curetagem, realmente, tinha acontecido, e Zefa não morreu por um triz, pois perdeu muito sangue.

Voltei para casa mais calma e muito triste. Fui ao quarto de Zefa e lhe contei que tinha ido à Maternidade, conferir se o que ela tinha dito, dessa vez, era verdade. De fato, agora estava tudo esclarecido. Reclamei por ela não haver confiado em mim, pois, talvez, nada disso tivesse acontecido. Também, alertei-a para o risco de morte pelo qual ela havia passado, ao provocar um aborto, que poderia ter tirado, ao mesmo tempo, duas vidas. Ela chorou muito e eu confesso que fiquei muito penalizada com o ocorrido. Vi até que ponto vai a miséria humana.

Enquanto isso, ali perto, cheia de ternura, estava Marquesa, a minha gata angorá, alimentando seus filhotes. É impressionante, como os animais amam e defendem suas crias.

DUAS VIÚVAS, DOIS DESTINOS

Tina, 53 anos, sofreu muito com a morte repentina de Quintino, 60 anos, com quem foi casada durante dez anos. Ele era aposentado da Rede Ferroviária Federal. Moravam em João Pessoa (PB), mas iam sempre a Nova-Cruz, onde ela tinha familiares. Viviam bem, financeiramente, e sempre em harmonia.

Com a morte do marido, e sem filhos, Tina ficou muito depressiva e sozinha. Era alta e bonitona. Depois de viúva, começou a engordar e tornou-se obesa. Tinha 1.70 m, e passou a pesar quase 100 quilos. Tornou-se o que se diz no interior, “um mulherão”.

Um ano depois, Maura, 46 anos, sua melhor amiga, também residente em João Pessoa (PB) e casada com Petrônio, também ferroviário, por coincidência, enviuvou. Sua única filha já era casada e morava no Rio de Janeiro. De repente, Maura se viu mergulhada na mesma solidão em que Tina passara a viver.

As duas amigas, viúvas, e ainda “casáveis”, meses depois, começaram a sair juntas para o shopping, Igreja, cinema, circo e finalmente se juntaram a outras pessoas da cidade, para fazer excursões. Isso serviu para que descobrissem que a vida continuava. Tornaram-se vaidosas e alegres.

De repente, os olhos das duas voltaram a brilhar, apesar da saudade que continuavam sentindo dos falecidos maridos.

Maura, mais coquete e charmosa do que Tina, por obra do destino, reencontrou numa das viagens ao Rio de Janeiro, um ex-namorado do seu tempo de juventude, agora divorciado. Os dois se sentiram novamente atraídos um pelo outro e ressurgiu entre eles um novo relacionamento, que depois se transformou em união estável.

Tina era muito religiosa, conservadora e se policiava muito. Jurava que jamais colocaria outro homem no lugar de Quintino.. Apesar de muito simpática, não era atraente, e sua obesidade a prejudicava. Era ruim de dieta e tinha dificuldade de perder peso.

Ao ver Maura se aprumar com o ex-namorado, Tina sentiu inveja, embora escondesse isso da amiga. Disfarçava sua frustração, dizendo sempre que a coisa melhor do mundo era a liberdade. Jurava que, após esses cinco anos de viuvez, se fosse possível o falecido voltar, ela seria a primeira pessoa a lhe dizer:

“Homem, pela caridade, não invente de voltar, não! Fique aí no Céu mesmo! A sede do inferno mudou-se aqui pra terra. É época de campanha política e a coisa aqui está preta. “

Com o passar do tempo, Tina entrou em depressão. Perdeu o gosto de passear e viajar, deixando que a tristeza se apoderasse dela. Vivia sempre chorando e olhando para o retrovisor do passado. As amigas a aconselharam a fazer terapia. A viúva procurou um Psiquiatra e abriu-lhe as torrentes, confessando o motivo de toda sua angústia:

– Doutor! Eu sinto falta de um companheiro, como meu marido Quintino era! Não é de um “macho”! Estou tão solitária, que já redigi até um anúncio para colocar, domingo, nos “classificados” do melhor jornal da cidade. O senhor pode ler!

No papel, estava escrito:

“Procura-se um companheiro, para fins de relacionamento sério, de 45 a 60 anos, que “dê no couro”, seja .sadio e que tenha ainda as seguintes qualidades:

– Saiba ler e escrever;

– não diga: “adevogado” “menas gente”, “o pessoal foram”, “o povo disseram”, “nesse “interím”, “bonel”, “fazem dois anos”;

– de preferência, que seja motorista de caminhão, podendo ser um belo mulato. Não precisa ser doutor, nem “branco de m…..”

Em troca, ofereço:

– casa, comida, roupa lavada, e ainda uma boa mesada!!!”

O médico se controlou para não sorrir. Aconselhou Tina a sair de casa, para se divertir, namorar, viajar e evitar a solidão. Receitou-lhe antidepressivos, até que a angústia desaparecesse. A viúva ainda continua “esperando Godot”.

Nas suas crises de solidão, Tina se lastima:

“Ah, meu Deus, se as farmácias vendessem marido bom, eu comprava de ruma…”

O APOSENTADO

Alexandrino, professor aposentado, tinha horror à velhice, e não dizia sua idade, “nem a pau”.

A quem lhe perguntasse quantos anos tinha, respondia em cima da bucha: “Sou do tempo da civilidade, quando era falta de educação se perguntar a idade”.
Na verdade, o homem já beirava os setenta anos, assim como quase todos os seus amigos de prosa, com quem se reunia todas as tardes.

Sentindo que a velhice estava chegando, o aposentado começou a ter sonhos eróticos, passando a alimentar o desejo de ir para a cama com uma mulher bonita, fogosa e de carne dura, como tantas vezes fizera no seu tempo de rapaz. Ele não aceitava o fato de ser idoso.

Há quarenta anos, apaixonou-se por Rosalinda, com quem se casou e constituiu família. Entretanto, a rotina, a maior responsável pelo fim dos relacionamentos, logo transformou a paixão em fogo de palha. O amor que uniu o casal, há anos havia sumido, no tempo e no espaço.

A frustração de Alexandrino, ao acordar todas as manhãs, era grande. Passava a noite sonhando com outras mulheres e logo cedo despertava, ao lado da esposa sessentona, xexelenta e flácida da cabeça aos pés. Esquecia de que ele, também, já não tinha 24 anos. No íntimo, quando via a esposa ao seu lado, a vontade que tinha era de lhe dar uma piza. Mas vontade dá e passa… Jamais faria isso. Sempre dizia que numa mulher, não se bate nem com uma flor.

A diferença de idade entre o casal era somente de dois anos.

Certo dia, morreu uma cunhada de Rosalinda, e ele, como bom marido que era, comprou-lhe passagem de avião para ir ao Rio de Janeiro, assistir aos funerais. Por economia, não acompanhou a mulher.

Ao se ver sozinho, Alexandrino foi se encontrar com os amigos e manifestou sua vontade de fazer uma farra. Afinal, esse sonho ele há muito tempo alimentava, mas não tinha coragem de pôr em prática. Considerava-se um preso, em prisão domiciliar. Só faltavam as tornozeleiras. Era dominado por Rosalinda, e não tinha voz altiva pra nada. A mulher era uma jararaca.

Por essa chance, ele não esperava. Por isso, não podia desperdiçá-la. Dessa vez, iria matar seu desejo de ir pra cama com uma das mulheres lindas, que povoavam os seus sonhos.

No “clube” em que a turma foi se reunir, havia mulheres para todos os gostos.

O aposentado sentiu-se atraído por uma bela morena, e com ela seguiu para uma suíte. Até que enfim, iria matar o seu desejo de ter nos braços uma mulher jovem, bonita e gostosa, e reviver sua juventude.

Depois de horas de amor, exausto, Alexandrino adormeceu. A “mariposa”, acostumada a grandes noitadas, aproveitou o seu sono profundo, retornou ao salão, e continuou se divertindo e bebendo. Quando o dia estava amanhecendo, muito embriagada, voltou à suíte e deitou-se junto do cliente.

O homem, ainda sonolento, acordou assustado, pensando que estava em sua casa, ao lado de Rosalinda. Mas, de imediato, veio-lhe à mente a noite de amor que tivera com uma mulher linda e gostosa, uma verdadeira artista na cama. Procurou a beldade e ficou paralisado. Ao seu lado, estava um travesti sem peruca, exageradamente pintado e completamente nu. Uma figura dantesca, que lhe provocou um terrível mal-estar. Ao vê-lo passando mal, a “moça” fugiu da suíte, correndo, à procura de socorro.

O SAMU veio buscar Alexandrino, que estava desfalecido. O idoso sofreu um AVC, que lhe deixou sequelas para o resto da vida.

Rosalinda nunca soube dessa estripulia do marido. Soube, apenas, que ele se sentiu mal, em casa mesmo.

TERRA SECA

Num lugar de terra muito seca, um matuto perseverante, que tinha muita fé em Deus, comprou um pequeno terreno, e começou a trabalhar nele com empenho. Terminou transformando a terra seca numa produtiva plantação. Empenhou-se de noite e de dia, capinando, arando, cultivando, adubando e limpando as pragas locais. Exausto pelo trabalho físico, recebeu a visita do vigário da cidade, que passeava pelos campos.

Ao avistar a plantação, de um verde deslumbrante, o vigário perguntou quem era o responsável por aquela plantação. O matuto respondeu que era ele.

Mas o padre retrucou:

– Isso tudo foi a mão de Deus!

O matuto, muito católico, concordou, sem esquecer o duro que tinha dado para recuperar aquela terra seca.

-Foi com a ajuda de Deus – disse novamente o padre, sem fazer ao homem um só elogio, pelo empenho que tivera na recuperação dessa terra seca. O trabalho do homem não foi valorizado pelo padre, em nenhum momento.

Na sua ignorância, o matuto sabia do esforço que fizera para restaurar a terra que comprara, e em cuja recuperação obtivera êxito. Por isso, não gostou das palavras do vigário, que em nenhum momento reconheceu o seu esforço e a sua dedicação, em recuperar aquela terra e torná-la produtiva. Como era católico, o matuto balançou a cabeça, concordando com o padre. Mas lembrou-se do trabalho que tivera, plantando milho e legumes, e as noites inteiras que, junto com os filhos, passou regando tudo com cuidado. Por isso, a plantação floresceu tanto.

O padre já ia dizer que tudo aquilo fora com a ajuda de Deus, quando o matuto falou:

– Mas, deu uma praga danada de gafanhotos por aqui e destruiu tudo.

O vigário ficou desapontado, e não pôde dizer que ali tivera a mão de Deus. Preferiu se calar. E o matuto continuou, dizendo que adoeceu de aperreio com a praga de gafanhotos, mas, ele e os seis filhos arregaçaram as mangas e conseguiram debelar o problema. Todos foram à luta, empenhando-se no cultivo da terra e recuperando o estrago.

Desapontado por não ter recebido um só elogio do padre, pelo êxito da plantação, o matuto disse:

-Mas seu padre, o trabalho foi grande. Ajudei muito a Deus, para poder recuperar essa terra seca. Mas, é claro que ele me ajudou muito mais, com a sua proteção.

A DECEPÇÃO

Anos atrás, um pobre homem, completamente embriagado, pisava torto numa rua de grande movimento em Natal e morreu atropelado por um ônibus.
Sem documentos, o corpo foi conduzido ao IML, e lá permaneceu à espera de alguém que fizesse sua identificação.

O caso foi noticiado no programa de rádio “Patrulha da Cidade” e logo se espalhou no Bairro de Mãe Luiza.

Enquanto isso, Geraldo, vendedor ambulante, que se dava ao feio vício da embriaguez, saíra para trabalhar e há dois dias não pisava em casa.

Ouvindo a “Patrulha da Cidade,” Antônia, sua mulher, teve um mau pressentimento e saiu em disparada, até o IML, para verificar se o corpo que ali se encontrava era o dele.

O morto ficara com a face desfigurada, mas Antônia o identificou, através de alguns sinais que ele tinha nas costas. Sem dúvida, o defunto era Geraldo, seu trabalhoso marido, cachaceiro contumaz e irresponsável.

Há 15 anos, Geraldo e Antônia eram casados e tinham dois filhos, de 14 e 13 anos.

Foi providenciada a compra do caixão, e o corpo foi velado num salão pertencente à casa funerária “Nossa Senhora da Guia – Sua morte é nossa Alegria”.

Os amigos e parentes choraram muito, lamentando a partida precoce de Geraldo, bom de prosa e de copo. O falecido era ótimo amigo, embora fosse péssimo marido e pai.

Durante o velório, a viúva estava lívida e controlada, contendo as lágrimas. Mantinha sua dignidade ao lado do falecido, sem dar escândalo. Seu olhar era parado, como se a ficha ainda não tivesse caído. Essa reação é comum, nos casos de morte repentina e trágica de alguém.

Ao mesmo tempo em que o velório acontecia, lá na cadeia pública da cidade, um outro cachaceiro, que tinha ido em cana na noite anterior, estava sendo solto. Dirigiu-se para casa, mas, ao descer do ônibus, dois conhecidos o abordaram, avisando que a sua casa estava fechada, e estavam todos no seu velório. Seu sepultamento seria à tarde. Esse homem era Geraldo.

Achando que se tratava de uma brincadeira de mau gosto, Geraldo foi até sua casa, encontrando-a, realmente, fechada. Como sempre perdia a chave nas carraspanas que tomava, a mulher era quem lhe abria a porta, quando chegava em casa.

Revoltado com a falsa notícia de que tinha batido as botas, Geraldo foi depressa ao local do velório, para desfazer o engano. No íntimo, sentia-se gratificado, pois ainda pretendia viver muito e tão cedo não iria prestar contas ao Criador.

Ficou sabendo que quem estava no caixão era um bêbado, que morrera atropelado e o rosto ficara irreconhecível.

Mesmo sem dizer nada, Geraldo assumiu a culpa dessa confusão, pois há dois dias, não pisava em casa. Por isso, sua mulher ficou certa de que o homem atropelado era ele. Ainda por cima, ela identificou o corpo, por causa de alguns sinais, idênticos aos seus.

Furioso, o homem adentrou ao salão, onde o defunto estava sendo velado e chegou a agredir a ex-quase-viúva, fisicamente. Os amigos o contiveram e os parentes levaram Antônia dali, para a casa de seus pais.

Geraldo não se conformava com o fato de ter sido confundido com outro homem, que só podia ser algum “macho” da mulher.

A ex –quase-viúva se refugiou na casa dos pais, temendo se encontrar frente à frente com o ex-quase-defunto, seu violento marido. Jurou que nunca mais voltaria para Geraldo, de quem há 15 anos, juntamente com os filhos, só recebia maus-tratos. Ela sempre manteve a casa, com o dinheiro das costuras que fazia para fora. O dinheiro de Geraldo só servia para ele tomar de cachaça.

Antônia não parava de chorar, lamentando que o defunto que velara não tivesse sido seu marido. O traste continuava vivo.

Depois que o IML levou o defunto de volta, Geraldo e os pinguços, companheiros de copo, foram comemorar com muita cachaça a sua ressurreição.

O EMBAIXADOR

Luiz entrou para o serviço diplomático brasileiro em 1947, tendo servido em Belgrado, (capital da antiga Iugoslávia), México, Guatemala, Egito, Dinamarca, Japão, Venezuela, Suriname e República Dominicana.

Até então, fora um jovem imaturo, que, por competência pessoal, furara as barreiras tradicionais, que fechavam o acesso à carreira diplomática, a quem não pertencesse às elites dos estados mais influentes na República brasileira, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia. Uma vez admitido, logo visualizou que poderia realizar seu sonho de conhecer o mundo, para melhor compreender os problemas do seu país.

Fez os primeiros estudos em Natal, seguindo, depois, para Recife (PE), onde se formou em Direito.

Durante todo o tempo em que andou pelo mundo, como Embaixador, Luiz acalentou o sonho de voltar para Natal, na companhia tranquila da esposa Verônica e da filha Graziela, quando chegasse a época da sua aposentadoria. Elas sempre concordaram com as suas escolhas de posto, dentro dos estreitos limites que lhe permitia a fria administração que o comandava de longe. Pensava em Natal todos os dias. Natal representava a paz com que ele sonhava.

Depois de 40 anos fora do Brasil, Luiz foi aposentado pelo Itamaraty, retornando em 1985.

Pouco tempo depois, estava morando em Natal, na Praia do Meio, numa enorme casa que mandara construir.

Imaginava que Natal continuava a mesma cidade branca, cheia de tranquilidade. Sonhava caminhar descalço novamente pela areia da praia e mergulhar na imensidão do mar azul.

Da varanda da sua casa, o Embaixador podia observar, com a família, a interminável e diária partida de futebol de areia, na qual os inúmeros contendores se esforçavam para fazer “gols”, nas balizas dos dois grupos.

Sua mulher, cuja formação acadêmica a tornou uma incansável observadora, disse-lhe subitamente: “É curioso. Os jovens que se batem nessas infindáveis peladas, neste sol causticante, não são negros, embora o pareçam. Na verdade, ou são índios ou mestiços de índios”.

Luiz parou para pensar e retorquiu: “São os mesmos brasileiros que receberam aqui nestas praias, em 1500, os primeiros portugueses e os comeram. Quanto progresso fizemos de 1500 pra cá… Não é?” E todos riram com a sua pertinente observação.

O Embaixador temia sofrer, em breve, um impacto visual, com a construção desenfreada de arranha-céus na Praia do Meio e com a cogitada construção de uma ponte colossal, que cruzaria a barra, ligando a Praia do Meio à Praia da Redinha. Considerava essa ideia um absurdo, fruto da cabeça dos improvisados urbanistas das novas gerações.

De repente, a tranquilidade na casa de Luiz, na Praia do Meio, começou a sofrer as consequências de um tresloucado projeto da autoridade que dirigia a prefeitura de Natal, que visava transformar a praia de Iemanjá em Zona turística, com barracas imitando as da Bahia.

Como todo governante nordestino, a maior autoridade municipal de Natal esqueceu de que o povo nordestino também tem suas necessidades fisiológicas. Resultado: As concentrações de bêbados e farristas, que passaram a utilizar as barracas construídas pela prefeitura, passaram a fazer suas necessidades mal cheirosas, na própria praia ou em torno do aconchegante muro de dois metros, da casa da esquina, em frente à casa do Embaixador. A poluição orgânica dos bêbados e dos farristas, e a poluição sonora dos poderosos aparelhos eletrônicos das tais barracas e mais os dos bêbados automobilistas, passaram a infernizar a vida do Embaixador e de sua família. A zona de concentração dos frequentadores era em frente à sua casa. O barulho não tinha hora para terminar.

O Embaixador tomou as providências necessárias, para solucionar o sério problema junto às autoridades competentes, mas não obteve êxito.

Para completar,a perturbação, os cultos e os alfabetizados de Natal resolveram se divertir, quebrando garrafas a tiros, na beira das praias urbanas, tornando impraticáveis as caminhadas na areia, com os pés descalços.

Num momento de inspiração, Luiz lembrou-se da técnica jesuítica, que ensina com o exemplo. E foi à luta.
A partir de então, todos os dias via-se um homem com uma camisa vermelha e uma lata a tiracolo, onde estava escrito “GARI VOLUNTÁRIO”, percorrendo as praias do Morcego, dos Artistas, de Iemanjá, e Praia do Forte. Colhia cacos de vidro, sem se importar com o que os outros pensassem dele.

Luiz passou o primeiro mês, fazendo as suas colheitas de cacos de vidro, nos três quilômetros da Praia do Meio, dialogando sempre com os curiosos que o seguiam, as mulheres que o interrogavam e os céticos que o provocavam.

Os velhos pescadores lhe perguntavam por que o doutor estava pescando caco de vidro: “Pra botar em cima do muro?”, “Pra vender?”

Ele sentia que a curiosidade aumentava com o espetáculo diário e com o seu silêncio, que era outra palavra de ordem de um grande líder francês, o General De Gaulle. Nada como o silêncio para acentuar a autoridade. Até um simples pescador compreende a linguagem do silêncio.

Luiz sabia que o que estava fazendo incomodava. Nos altos círculos intelectuais da cidade, pelo telefone da Academia de Letras, um confrade o inquiriu sobre o disparate de um Embaixador, mesmo aposentado, estar colhendo cacos de vidro nas praias da cidade. E não faltava quem lhe dissesse que “uma andorinha só não faz verão.”

Nas suas costas, os “amigos” o ridicularizavam, dizendo que ele voltara do exterior, sueco, e que queria limpar as praias.

O exemplo que Luiz quis dar, apanhando lixo nas praias, logo teve repercussão. Certa manhã, na Praia do Meio, uma moça de ótima aparência aproximou-se dele e perguntou: – O Senhor é Embaixador mesmo? -Não, fui. – respondeu. E a moça continuou: – E está apanhando cacos de vidro, para que? – A ela, Luiz respondeu:

“Para ver se dou uma lição ao Governo, de como se começa a resolver um problema. E a moça continuou: “Eu vou tirar algumas fotografias do Senhor, se não for inconveniente.” E Luiz respondeu:– Não há nenhum inconveniente. Posso lhe assegurar.

Passadas duas semanas, pararam em sua casa enormes caminhões da Globo, com equipamento mirabolante. Vinham se certificar se era tudo verdade.

Duas semanas depois, o programa “Fantástico” abriu às 20:00, com a manchete: “Um embaixador aposentado limpa as praias de Natal, colhendo cacos de vidro”.

Seguiram-se as imagens que haviam feito.

Luiz solucionou sua insatisfação, perante a inércia do poder público municipal de Natal, mudando-se para Brasília, em 1991.

Em 1993, Luiz voltou a Natal. Muita coisa tinha mudado. As barracas imundas, que poluíam as areias e o mar, tinham desaparecido, devido à intervenção da Marinha, solicitada por ele próprio ao Almirante Didier. Permaneceram as barracas horríveis da Prefeitura, sem latrinas para os bêbados e os farristas.

Andando pela praia, um velho pescador aproximou-se de Luiz e perguntou: “Cadê os cacos de vidro, Embaixador? Acabaram, como o senhor queria?”

– Exatamente. – respondeu Luiz.

Em 1999, Luiz foi dar um mergulho, na baía que cerca todo o paredão do rochedo negro do Morcego, onde se situam grandes restaurantes, que antes jogavam esgoto na baiazinha. Notou a água azul, impecável. Indagou, então, aos moleques que o acompanhavam:

“Água limpa, hein? O esgoto não cai mais para este lado?”

O garoto foi franco: -Doutor, agora não há mais “merda” por aqui.

Luiz foi confirmar com o pessoal da Peixada da Comadre, a quem muitas vezes entregara memorando sobre a implantação dos coletores da CAESB. Estavam lá, sim. Os coletores tinham sido implantados e agora os excrementos colhidos são expulsos para longe, pela unidade de compressão dos esgotos da Praia do Meio. Ouviu encantado essa boa notícia, que serve para provar, que nem tudo está perdido, neste Brasil de tantos problemas.

A MADAME

Malvino, 65 anos, morava perto de um botequim, que era um verdadeiro canavial. Lá, a cana corria solta e os caneiros enchiam a cara no final da tarde, entrando pela noite. Uns iam curtir a bebedeira em casa e outros ficavam no botequim até de madrugada.

Malvino fazia parte do grupo que ia curtir a cana em casa. Valdete, sua segunda esposa, uma mulher braba e irreverente, não permitia que ele cometesse excessos com a bebida. Ia buscá-lo no botequim todas as noites e ele a obedecia mansamente.

Muito querido pela turma da boemia, Malvino, contador aposentado, era considerado um intelectual.

Era bom de copo e de prosa. Lia os principais jornais da cidade, diariamente, e assistia aos telejornais.

Sempre que anoitecia, ele avisava aos companheiros de copo:

– Daqui a pouco, a chata da minha patroa vem me buscar para jantar. Não aguento mais essa jararaca. Parece uma bruxa. Só falta uma vassoura, para que saia daqui voando.

As gargalhadas dos boêmios que ali se encontravam eram uníssonas.

Na verdade, a esposa de Malvino parecia um sargento de cavalaria reformado. Mandona e prepotente, não hesitava em agredi-lo fisicamente, se o encontrasse embriagado. Certa vez, nesse botequim, ela tirou o sapato e deu-lhe na cara, por encontrá-lo bêbado. Se ele discordasse de uma opinião sua, a mulher partia logo para o bufete.

Malvino sentia-se injustiçado, perante a sociedade. Sonhava com a Lei “Malvino”, para concorrer com a Lei “Maria da Penha”.

Num final de tarde, quando o papo estava animado, e Malvino tinha enchido a cara, Valdete chegou para buscá-lo. Ao vê-lo embriagado, ficou possessa e gritou:

– Ah, bandido! Eu pedi para você não beber hoje, pois nós vamos ao aniversário do meu irmão! Ande logo, seu irresponsável!!!

Envergonhado perante os amigos, o homem respondeu:

-Tenha calma, querida! Quase não bebi…

De nada adiantaram suas palavras. Parecendo endemoniada, a mulher arrastou o marido pelo braço e deu-lhe um empurrão, que o desequilibrou na calçada.

Os companheiros de copo baixaram a cabeça, fazendo de conta que não estavam vendo nada.

Entretanto, um velho “cachacista”, que estava na calçada e a tudo assistira, ao ver Malvino levar um empurrão da mulher, não se conteve e gritou:

– Mulher dos seiscentos diabos, respeite seu marido!!! Volte para o lugar de onde saiu!!!

Na realidade, há dez anos, Malvino havia se apaixonado por Valdete, num cabaré. De quenga, ela passou a

“Madame”. Vinte e cinco anos mais nova do que ele, nunca conseguiu ser “bonita, recatada e do lar.” Era somente “boazuda”. Parecia que tinha escrito no rosto: “Eu sou p….”

E o velho “cachacista”, ainda indignado, continuou falando:

– Essa mulher, Malvino tirou da Zona. Mas ela nunca deixará de ser quenga!!!

O TROCO

Idalino e Lenira, ambos com 57 anos, eram casados há 30 anos. e tinham dois filhos, com 25 e 27 anos.

Júlio, o mais novo, muito calmo, casou-se com a primeira namorada e já dera um neto aos pais.

Tiago, o mais velho, era um “boa vida” e muito inconstante. Apaixonava-se facilmente e logo o fogo de palha se apagava. Era namorador e aventureiro. E tinha a quem puxar.

Lenira era uma esposa exemplar e dedicada à família. Filha de pais ricos, casara com Idalino, quando ele ainda era estudante de Direito. A mulher era proprietária de alguns imóveis herdados dos pais e tinha uma excelente renda.

Depois de formado, Idalino passou a exercer a advocacia, abrindo um escritório com dois colegas de turma.

Idalino vivia “pulando a cerca” e, certa vez, chegou a abandonar a casa, para morar com uma amante. Tempos depois, o relacionamento terminou, e ele conseguiu o perdão de Lenira, retornando ao lar. Jurou à esposa que jamais repetiria a loucura de deixar a família por causa de uma “vagabunda”.

Entretanto, poucos meses depois, voltou a ser o mesmo “conquistador barato” de antes.

Quando Lenira já estava certa de haver reconquistado o marido, apostando na sua fidelidade, Idalino, foi acometido, mais uma vez, de uma paixão violenta.

Através de um amigo, conheceu Cacilda, uma “mulher de programa” e virou a cabeça, como se fosse um adolescente.

Quando se viu, novamente, apaixonado, Idalino montou um apartamento para Cacilda, em um bairro afastado, refúgio para tardes de amor inesquecíveis, onde poderiam dar vazão à atração fatal que os unia. Tudo do jeito que o diabo gosta.

As noites eram livres para os dois. Ele, em casa, pousando de bom marido, ao lado da esposa, e Cacilda solta na noite, para fazer o que bem quisesse.

Tiago, o filho mais velho de Idalino e Lenira, era mulherengo igual ao pai e dava preferência às mulheres mais experientes. Casualmente, conheceu Cacilda em uma boate, e houve entre eles uma atração mútua. Pouco tempo depois, Tiago passou a dormir no apartamento dela. De dia era o pai, à noite era o filho.

O tempo foi passando e um detetive pago por Lenira, para seguir os passos do seu marido, informou-lhe que Idalino tinha uma amante de nome Cacilda, e tinha montado um apartamento para ela.

Dias depois, informou que a referida mulher estava traindo Idalino com um rapaz jovem, chamado Tiago, que subia para o apartamento dela todas as noites, depois das baladas.

Numa noite em que Idalino chegou em casa, dizendo-se exausto do trabalho no escritório, Lenira resolveu desmascará-lo, pois não aguentava mais tanta falsidade.

Cheia de ironia, a mulher falou:

– Idalino, tenha vergonha!!! Já estou cansada de ouvir suas mentiras. Eu sei que você passou o dia no apartamento de uma rameira, chamada Cacilda, como vem fazendo há vários meses. Pois fique sabendo que ela lhe põe chifres, com um rapaz muito jovem.

Idalino reagiu, agressivo:

– Pra “seu governo”, eu e você não temos mais nada em comum! Não adianta essa nossa convivência doentia, cheia de desconfiança.! Por conta dessas insinuações, vou me separar de você e agora é pra valer!!! Sem retorno!!!

Idalino saiu de casa indignado, dizendo que iria dormir no escritório. Entretanto, pela madrugada, usando sua cópia da chave, entrou no apartamento que mobiliara para Cacilda. e deparou-se com uma cena sórdida:

Seu filho Tiago e Cacilda estavam em colóquio amoroso animalesco, do jeito que nasceram.

Idalino tossiu alto, e agrediu o filho com bofetões e impropérios. Entretanto, não tinha moral para se voltar contra ele, que era um rapaz solteiro, livre e desimpedido. O adúltero, ali, era ele próprio, casado e com filhos.

Sem controle emocional, Idalino gritou para Tiago:

– Se você ama esta vagabunda, trate de dar o fora daqui com ela, agora mesmo! Arranje um emprego para sustentá-la, e não conte mais com o meu dinheiro!

Disse isso e saiu, sentindo um misto de raiva e decepção, por ter sido corneado pelo próprio filho.

Quando voltou para casa, o homem ainda encontrou a esposa dormindo. Deitou-se no sofá da sala, e ali permaneceu acordado, até o meio dia.

No íntimo, desejava que Cacilda lhe telefonasse, pedindo perdão.

Três dias depois, um empregado do prédio informou a Idalino que Cacilda havia se mudado dali, deixando a chave e um bilhete na portaria, para lhe serem entregues.

O bilhete dizia: “POR FAVOR, NÃO ME PROCURE NUNCA MAIS.”

Querendo ser agradável a Idalino, o empregado lhe disse baixinho:

– Acho que, agora, Cacilda se arrumou. O rapaz que está com ela parece que é muito rico. Foram morar num apartamento de luxo.

Idalino ficou perplexo. Sabia que o filho não tinha condições de bancar um apartamento luxuoso para ninguém. Ainda morava com ele e Lenira e tinha horror a trabalho.

O homem ficou de orelha em pé e jurou que iria descobrir de onde estava saindo esse dinheiro.

Na mesma semana, descobriu que quem estava bancando todas as despesas do filho e Cacilda era sua própria esposa.

Lenira, ironicamente, confessou tudo.

Revoltada por estar sendo traída novamente, a mulher procurou dar o troco ao marido, prometendo ao filho que assumiria todas as suas despesas com Cacilda, e incentivando-o a “casar” com ela.

A separação dessa vez foi definitiva. Lenira deu o troco a Idalino, pela traição que sofrera, ao longo desses trinta anos de um casamento, que se arrastou aos trancos e barrancos.

A TRAIÇÃO

Jonas, há quinze anos casado com Josefa, e com três filhos adolescentes, era um marido fiel e ótimo chefe de família. Entretanto, a rotina, maior rival dos relacionamentos amorosos, já tinha mandado para o espaço a paixão que uniu o casal.

Josefa respeitava muito o marido e sempre dizia:

– Enquanto você me for fiel, eu também serei. Mas não caia na besteira de me trair, pois você será corno para o resto da vida. E não existe “ex -corno.”

Com essa ameaça na cabeça, Jonas foi sempre sonso. Comportava-se como um marido fiel, mas nunca deixou de pular a cerca. Sabia fingir muito bem que era apaixonado pela esposa. Só pulava a cerca durante o dia, e em dias úteis.

Ocupando um posto elevado dentro de uma instituição financeira em Fortaleza, Jonas recebeu para trabalhar em sua sala uma moça muito bonita, chamada Zênia, com curso de computação, para ser sua secretária.

De tanto conviver com Zênia no ambiente de trabalho, Jonas por ela se apaixonou, sendo correspondido. Foi uma paixão violenta, que fez o homem “bem casado” virar a cabeça completamente. Seguiram-se inúmeras saídas para motéis depois do expediente, e telefonemas de Jonas para Josefa, avisando que estava em “reunião”.

O romance tomou vulto e a moça passou a pressionar Jonas para que se separasse da esposa. Chegou a dar-lhe um ultimato: Se fosse para ele continuar com a esposa, a amante colocaria um ponto final naquele romance. Afinal, ela era jovem e bonita, e desejava ter um lar, marido e filhos.

Por sorte, Jonas foi transferido para um novo escritório da empresa, instalado em Teresina (PI). A Secretária o acompanharia.

Muito satisfeito com a transferência, Jonas recebeu a notícia como uma oportunidade de poder se separar de Josefa. Como não tinha coragem de pedir a separação cara a cara,e dizer que, para ele, ela era apenas a mãe de seus filhos, e muito menos dizer que estava apaixonado por outra mulher, Jonas resolveu lhe enviar uma carta pelo correio, confessando tudo.

Providenciou um apartamento em Teresina (PI), para iniciar, aos 40 anos, uma nova vida a dois. Tinha certeza de que Zênia era o grande amor de sua vida.

Não tinha intenção de voltar para sua família. Entretanto, desde já, continuaria dando total assistência financeira aos filhos e à esposa.

Jonas escreveu à Josefa uma longa carta, onde, entre frases de elogio e gratidão, dizia:

“Josefa:

Sempre lhe fui fiel e jamais tive intenção de me separar de você, uma mulher maravilhosa, que me deu três filhos lindos e que sempre me respeitou. Mas a carne é fraca e de repente me apaixonei perdidamente por outra mulher. Como não quero me sentir um traidor, preferi lhe escrever para dizer que já contratei um advogado para fazer a nossa separação. Estou deixando a nossa casa definitivamente. Estou me mudando para Teresina (PI), para trabalhar no novo escritório da Financeira

Nada faltará a você nem aos nossos filhos. Determinei à empresa uma pensão no valor de 40% do meu salário, que será paga a você todos os meses.”

Jonas pôs essa carta no Correio, poucos minutos antes da viagem.

Os dois amantes pegaram a estrada para Teresina (PI) e algumas horas depois sofreram um acidente fatal, ao tentar ultrapassar um caminhão.

Josefa estava certa de que o marido tinha viajado a negócios e que logo estaria de volta.

Inconsolável, no velório do marido, Josefa esqueceu que tinha filhos e a toda hora pedia a Deus que também a levasse, pois queria morrer junto com o amor da sua vida.

Depois do sepultamento, a viúva e os filhos voltaram para casa. À tarde, um dos rapazes abriu a caixa de correspondência e encontrou a carta endereçada à mãe. Não imaginava que fosse do pai, que acabara de ser enterrado. Josefa abriu a carta e leu a confissão do marido de que estava indo embora de casa para sempre e que estava apaixonado por outra mulher. Josefa sentiu o mundo desabar novamente sobre ela. O marido, que ela considerava um santo, revelava-se agora um grande canalha.

O sangue de Josefa ferveu nas veias e ela desejou estrangular o marido. Ainda bem que ele já estava morto e enterrado!!! E que ficasse por lá mesmo!!!. Nem luto ela usaria, nem mandaria celebrar missa de 7º dia, e muito menos de 30º dia!!!

A VISITA

Rosa e Bento estavam em casa, numa sexta-feira à tardinha, quando um amigo que estava em Natal, numa excursão, telefonou, dizendo que ele e a esposa queriam aproveitar aquela noite, para visitá-los. se fosse possível. No dia seguinte, teriam que cumprir a programação do pacote turístico, sendo impossível visitá-los depois.

Muito preocupados com a inesperada visita, Rosa e Bento foram ligeiro ao supermercado, para comprar uma pizza e um bom vinho.

Os donos da casa estavam de dieta, e, sob orientação de uma nutricionista, haviam abolido carne vermelha e outras proteínas, gorduras, carboidratos e açúcar. O modismo havia feito com que introduzissem na alimentação alimentos integrais, soja, linhaça, chia, gergelim, semente de girassol e até alpiste, comida de passarinho. Esses cereais eram a coqueluche do momento.

No interior do Estado, espalharam que esses alimentos da moda, além de servirem para emagrecer, curavam todas as doenças, inclusive diabetes, hipertensão, colesterol alto, intestino preso, insuficiência renal, problemas hepáticos, hérnia de disco, cãimbra, unha encravada e bicho-de-pé.

Com a dieta rígida que estavam fazendo há um ano, o casal havia emagrecido quase dez quilos. Os dois estavam pálidos e com aparência doentia.

Naquela noite, a dieta iria ser interrompida. A visita ilustre que iriam receber merecia o sacrifício. Mas no dia seguinte, voltariam à dieta rígida.

Na fila do supermercado, encontraram algumas pessoas conhecidas, por coincidência, todas bem alimentadas, coradas e saudáveis.

A moça do caixa não parava de passar a mão no cabelo, visivelmente esticado por uma escova “progressiva”, também na moda.

Enquanto aguardava sua vez, Bento pediu que a esposa fosse pegar dois refrigerantes “zero”. Quando a mulher se afastou, ele avistou na fila um colega seu do curso Ginasial, que não via há bastante tempo e de quem era intrigado. Hoje, ambos já casados e bem sucedidos, não havia motivo para essa intriga.

Bento sorriu para Herculano e o cumprimentou. Em resposta, ouviu um grosseiro “você deve estar me confundindo com alguém”.

Bento ficou encabulado. Mas, em seguida, o próprio Herculano foi quem falou:

-Como é seu nome? Você é encanador?

Bento respondeu:

-Nunca fui encanador. Eu me chamo Bento. Fui seu colega no Colégio São Luiz.

Com cara de gozação, Herculano, hoje construtor, disse:

-Rapaz, você deve estar com alguma doença grave. Está pálido e com os olhos amarelos. Estou me lembrando da minha tia Marina, que começou assim e quando foi ao médico, foi diagnosticada com câncer de fígado, em estado terminal. Só durou três meses.

Bento ficou apavorado.

E o maldoso rapaz se despediu do antigo colega de classe, dizendo:

-Até qualquer dia. Mas não se impressione. Pode ser que ainda não esteja no estado terminal. Procure se alimentar muito bem, mas não deixe de ir logo ao médico.

Rosa encontrou o marido em pânico, querendo desistir das compras e voltar logo para casa. Esqueceu até de que os dois iriam receber a visita do casal amigo.

A mulher foi quem passou as compras, e Bento, desesperado, chamava para irem logo embora.

Rosa ouviu Bento contar sobre o rápido encontro com Herculano, colega de Ginásio, com quem era intrigado e a quem não via há 20 anos. Contou sobre o susto que Herculano fingiu ter tomado, dizendo que ele estava muito pálido e abatido, com cara de quem estava muito doente. Achando pouca a humilhação de ter fingido não o ter reconhecido, Herculano ainda lhe dera um péssimo prognóstico, comparando o seu estado de saúde com o de uma sua tia falecida há pouco tempo.

Mesmo conhecendo a maldade de Herculano, Bento ficou impressionado e combinou com Rosa que, dessa noite em diante, voltariam a se alimentar como antigamente, com proteínas, massas, manteigas e todas as comidas boas, das quais os dois vinham se privando, em nome do modismo.

Às favas, as folhas, frango grelhado, alimentos integrais, leite desnatado e cereais.

Às favas o modismo!!!

O BANQUETE

Luiz Gonzaga Pimentel, nascido em Natal (RN), cursou a Escola Naval no Rio de Janeiro, e ingressou na Marinha de Guerra. Fez uma brilhante carreira militar, chegando ao posto de Almirante. Foi comandante do Navio Almirante Barroso e chegou a exercer o cargo de Adido Militar do Brasil, em Londres.

Numa de suas vindas a Natal, para visitar o pai Celestino Pimentel e demais familiares, na hora do almoço não se serviu da famosa macarronada, feita por sua madrasta Francisca Pimentel, dando preferência a outros pratos que compunham a mesa.Todos estranharam, pois sabiam que o prato preferido dele era macarrão. Sem dar explicação, ele almoçou muito bem, sem sequer olhar para a macarronada. A madrasta ficou sem entender aquela “mudança de hábito.” O militar deixou para se justificar depois. Pediu desculpas à madrasta, mas não houve quem fizesse ele se servir da célebre macarronada, feita exclusivamente em sua homenagem.

Como Adido Militar em Londres, Luiz participava sempre de jantares e almoços com o corpo diplomático, e teve oportunidade de participar até de banquetes em que a Rainha da Inglaterra estava presente.

Nesses banquetes, havia comidas sofisticadas e para ele desconhecidas. Certo dia, num desses banquetes, temendo não gostar da comida, Luiz optou pela mesa de Massas, com molhos variados. Aliás, macarrão sempre foi sua comida preferida. Serviu-se de macarrão com molho de ervas e quando começou a mastigar, sentiu que estava mastigando um cabelo. Luiz ficou paralisado, dominando a vontade de pôr para fora tudo o que tinha na boca. Entretanto, o ambiente era altamente requintado e formal. Num banquete solene, sob holofotes, um Adido Militar não poderia cometer tamanha gafe. Luiz tinha que continuar comendo. Lembrou-se de Natal e sentiu saudade da macarronada feita por sua madrasta, muito mais saborosa do que aquela e sem cabelo dentro.

Por um minuto, Luiz entendeu que a solução seria engolir o cabelo. Sua vontade era devolver ao prato a porção que tinha na boca. Mas seria um gesto grosseiro no ambiente requintado em que se encontrava.

Jamais na sua vida, Luiz tinha passado por uma experiência tão desagradável. Por alguns segundos, conseguiu permanecer sem engolir, mas, finalmente, respirou fundo e, ajudado por um gole d’água, engoliu a porção que tinha na boca, juntamente com o maldito cabelo. Pegou-se com todos os anjos e arcanjos, para não vomitar. Sem saber se o cabelo era preto, branco ou louro, nem de onde tinha saído, Luiz sentiu vontade de sumir para sempre daquele ambiente de luxo e ir direto ao banheiro para vomitar. Passou o resto do dia enjoado. Sentiu-se a pessoa mais infeliz do mundo, como se naquele dia tivesse pagos todos os seus pecados, passados, presentes e futuros.

E o Almirante fez uma jura de nunca mais comer macarrão.

O FANATISMO

Décadas atrás, havia em Natal dois boêmios e amigos inseparáveis, Plínio e Baltasar, fanáticos por velórios e enterros. Nessa época, os velórios ocorriam em casa, pois ainda não havia Centro de Velórios na cidade.

Diariamente, eles se informavam sobre a ocorrência de algum óbito e o endereço do velório. E para lá se dirigiam, mesmo que não conhecessem o defunto nem a família enlutada.

Abraçavam os parentes do (a) morto (a), choravam, procuravam consolá-los e faziam até discursos, lamentando aquela partida “precoce”, ainda que se tratasse de uma pessoa centenária..

Bem apessoados e educados, eram recebidos com cordialidade e até confundidos com os parentes e amigos.

Entretanto, o que mais os atraía nos velórios era o costume de se oferecer bebida aos presentes, principalmente quando se prolongavam pela madrugada. A cana corria solta e os dois passavam a noite enchendo a cara. Duros na queda, pela manhã conseguiam acompanhar o enterro e ainda faziam discurso no Cemitério.

Os dois tinham o dom da oratória, apesar de não terem formação acadêmica. Nos discursos, exaltavam as virtudes da pessoa morta e às vezes confundiam a identidade, chegando a elogiar as qualidades daquela “admirável esposa e mãe”, quando, na verdade, a pessoa morta era solteirona e virgem como tinha nascido.

Mesmo sendo carismáticos, ambos eram os “timotes” de tradicionais famílias da cidade. Em tudo que era velório ou enterro eles se metiam. Faziam-se tão íntimos da casa, que chegavam a receber pêsames e procurar onde estavam as bebidas.

Quando não tomavam conhecimento de nenhum velório, Plínio e Baltasar costumavam fazer ponto num bar, perto do Cemitério do Alecrim. Mas, se, por acaso, vissem a chegada de algum enterro, entravam no Cemitério e antes do coveiro começar a enterrar, o que estivesse mais “alto” iniciava um discurso bonito e comovente, tirado dos jornais, que eles sabiam decorado. Foi assim no enterro de um simples servidor público, que havia morrido em consequência de um tumor fecal. Plínio, o orador do momento, saiu-se com essas palavras:

“Mataram-te, Presidente, mas serás enterrado em pé. A cabeça acima do coração. O coração acima do estômago!”

E prosseguiu com o discurso feito por um doido, no enterro de João Pessoa.

Certa vez, Baltasar, o outro fanático por enterro, foi convidado por um grupo de teatro amador para ser o Lázaro, na peça “A PAIXÃO DE CRISTO”. Ao lado do teatro havia uma birosca e ele se embriagou bem antes da peça começar. Como Lázaro teria que se deitar num caixão de defunto, Baltasar achou ótimo. Adormeceu profundamente e não houve jeito de obedecer às ordens do artista que representava Jesus Cristo. Cansado de chamá-lo, o artista implorava:

-Levanta-te, Lázaro! Ergue-te, Lázaro! Ressuscita, Lázaro!

O artista que representava Jesus Cristo perdeu a calma e deu um chute no caixão.

O bêbado abriu os olhos, meio confuso, olhou para aquele Cristo de araque e respondeu aos gritos e grosseiramente:

-Vai se lascar, homem! Vai se f….

A cortina do palco foi fechada, e a peça terminou aí.

Também terminou aí a futura carreira artística de Baltasar.

UMA RUMA DE ZÉ

No interior nordestino, é comum se usar a alcunha de Zé, ou seu Zé, para nominar alguém do sexo masculino, cujo verdadeiro nome se desconhece. É o “nome” mais comum que existe. Zé do Café, Zé de Baixo, Zé de Riba, Zé da Luz; Zé do Cuscuz; Zé da Água; Zé do Algodão Doce; Zé da Cocada; Zé da Pipoca.

É Zé, em banda de lata…

Para se ter o privilégio de ser chamado de Zé, não interessa o nome de batismo ou registro de nascimento.

Já em relação à mulher, da qual não se sabe o nome, costuma-se chamar “Dona Maria”, quando se trata de uma senhora, ou “Maria”, para se chamar as mocinhas. Também se usa chamar “essa menina” ou “esse menino”, para meninas e meninos.

Na feira de Nova-Cruz, era comum se ouvir: “Seu Zé, quanto é um cacho de pitomba?” “ Dona Maria, quanto é o litro da goma? “Esse menino, quanto é um pirulito?” E assim por diante.

Contam os historiadores norte-riograndenses, que Natal (RN) esteve na rota de viagens de Antoine de Saint-Exupéry, na 1ª fase da 2ª guerra mundial. Esse piloto francês e escritor pisou o solo do Rio Grande do Norte, descansando em Natal dos seus seguidos voos. Chegou a se familiarizar com várias pessoas do povo. Entretanto, diante da dificuldade da pronúncia do seu nome, logo foi apelidado de Zé Perri, ficando assim conhecido e “batizado”. Portanto, nem Exupéry escapou dos costumes da região, passando a ser conhecido como mais um Zé. Estabeleceu-se, então, uma relação afetiva entre ele e a capital potiguar.

Durante esse período, o transporte de malotes do correio, com escalas na África, passava pela capital potiguar, primeiro ponto continental sul-americano, depois de Fernando de Noronha, com escala de pouso para hidroaviões.

Realmente, está evidenciado que Natal esteve na rota de viagens do autor de “O Pequeno Príncipe”.

O Baobá da Rua São José o encantou e lhe serviu de inspiração, ao escrever, depois, a importante obra.

Muitas histórias cercam a sua passagem por Natal, havendo registros incontestáveis da constância dessas visitas.

Exupéry escreveu diversas obras, focalizando sempre elementos de aviação e de guerra, entre elas: “O Aviador” (1926), “Voo Noturno” (1931), “Terra dos Homens” (1939), e “Carta a um Refém” (1944).

Entretanto, sua obra mais importante foi “O Pequeno Príncipe” (1943), livro mais vendido no mundo, depois da Bíblia.

O famoso piloto e escritor foi vitimado por um acidente de avião, durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de julho de 1944. Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram encontrados os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, na França.

O assunto voltou à tona, com o lançamento dos livros “O Pequeno Príncipe me disse” e “Antoine de Saint-Exupéry – A história da história”, no dia 22 de março de 2009, em São Paulo, pela escritora e pesquisadora Sheila Dryzun. Como convidado, esteve presente ao evento François d’Agay, 84 anos, sobrinho do autor de “O Pequeno Príncipe”. Ele ainda participou de uma conversa, no dia 6 de março de 2009, na Aliança Francesa de Natal (Praça Cívica, Petrópolis), sobre seu tio, e sobre os livros de Dryzun. O sobrinho ratificou a evidência da relação do parente famoso com Natal.

Ainda no dia 6 de maio de 2009, o Baobá da Rua São José, em Natal, hoje chamado “O Baobá do Poeta”, recebeu a visita do sobrinho de Saint-Exupéry, engenheiro François D’Agay, a convite da Prefeitura Municipal.

No nosso planeta, o Baobá é considerado a árvore mais longeva que existe, podendo atingir milhares de anos. Sua altura pode atingir mais de 25m. O seu tronco pode medir até 20m de diâmetro. São necessários vinte homens abraçados, para abraçar o tronco de um Baobá.

Entre as famosas frases de Exupéry, na sua obra “O Pequeno Príncípe”, estâo:

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

O famoso piloto e escritor foi vitimado por um acidente de avião, durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de julho de 1944. Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram encontrados os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, na França.

O MAIOR ABANDONADO

A festa na casa de Rita e Eudo, em Nova-Cruz (RN), num dia de sábado, começou ao meio dia. Era o aniversário do dono da casa. Vários amigos e familiares foram convidados.

Dona Leide e Seu Vítor, exímio violonista, tinham chegado de Natal, para prestigiar o aniversário do filho.

A família gostava muito de música. Quase todos os membros tocavam algum instrumento e cantavam bem, como amadores.

No alpendre da casa, formou-se uma animada roda de amigos, com violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, afoxé e tantã.

Logo começaram as rodadas de cerveja e tira-gostos, muita música e muita animação.

Depois do almoço, a farra continuou, entrando pela noite. A turma demorou muito a dar sinal de cansaço. Aos poucos, alguns convidados foram se despedindo, mas a música custou a parar. A bebedeira tinha sido pesada e o sono estava chegando.

Altas horas da noite, ainda estavam no alpendre, conversando, o amigo Carlito, o aniversariante e o seu pai. Os três, mesmo exaustos, ainda tomavam cerveja.

Entretanto, pela madrugada, já cansados de beber, os três ficaram sem assunto e o astral baixou.

Antes de se despedir, o amigo Carlito, completamente embriagado, resolveu “fazer uma fala.” Dizendo-se emocionado e feliz, por estar ali ao lado de dois grandes amigos, pai e filho, o “orador” assim se expressou:

– Não tive a felicidade de conhecer meu Pai! Como eu gostaria de ter convivido com ele! Mas nem sequer me lembro do seu rosto, pois eu só tinha três meses quando ele morreu!

Que coisa linda, pai e filho, grandes amigos e bebendo juntos! Como esta cena que estou vendo me comove! Ô coisa do meu agrado! Foi a cena mais bonita, que encontrei no meu caminho! Como eu tenho inveja de quem tem pai vivo!

A emoção também dominou Eudo e o pai, e os três amigos choraram abraçados. Pai e filho abriram as torrentes, em solidariedade à orfandade do amigo Carlito.

Controladas as emoções, o aniversariante também resolveu falar, para consolar o amigo órfão, que, por sinal, já tinha 50 anos de idade:

– Carlito, a partir de agora, quero que você me chame de PAPAI…

O órfão se abraçou com seu novo pai, aceitando a simpática proposta. Em lágrimas e com voz pastosa, de quem passara o dia bebendo, falou:

– A “BENÇA”, PAI!

Por coincidência, Eudo, naquele dia, estava completando 50 anos, a mesma idade do amigo Carlito. Jamais poderiam ser pai e filho.

Enquanto os três amigos choravam de emoção, as três esposas, que haviam escutado a conversa dos bêbados, não paravam de rir.

A cena ficou na história.

A DEVOÇÃO

Antigamente, nas Escolas Públicas, uma vez por semana havia uma “hora cívica”, antes do início das aulas. A Diretora se reunia no pátio da escola, com os professores e todos os alunos. Havia o hasteamento da Bandeira Brasileira e todos cantavam o Hino Nacional, com a mão no coração.

Uma das matérias que faziam parte do currículo escolar era Canto Orfeônico. A professora, geralmente uma musicista, ensinava aos alunos a cantar todos os hinos cívicos brasileiros. Todos eram obrigados a decorar as letras.

Depois do Hino Nacional, o Hino mais cantado no Colégio era o Hino da Independência, principalmente na Semana da Pátria.

Rosinha, uma aluna do Colégio das Freiras, desde criança aprendeu a cantar os hinos cívicos. Muito religiosa, tornou-se devota de São Muralhas, e o elegeu seu santo protetor. Era com ele que se pegava quando tinha prova de Matemática, o terror das alunas. Entretanto, nunca viu no colégio ou em nenhuma Igreja uma imagem do santo da sua devoção.

A jovem pagava promessas a São Muralhas, acendendo velas para ele ou rezando terços em sua intenção.

Certo dia, Rosinha pediu à Dona Neusa, sua mãe, que lhe comprasse uma imagem de São Muralhas. Apesar de ser católica, a mulher disse à filha que não conhecia esse santo, mas iria à lojinha da Igreja Matriz, para ver se conseguia comprar alguma coisa relacionada com ele. Não encontrou imagem, retrato, nem oração de São Muralhas. Dona Neusa resolveu, então, falar com o Vigário da Paróquia, para obter informações sobre esse santo. Padre José lhe garantiu que esse santo não existia.

Rosinha não se conformou com a notícia e continuou devota de São Muralhas.

Era a Semana da Pátria. No Colégio, houve a “hora cívica”, com o hasteamento da Bandeira Brasileira. Todos os presentes cantaram o Hino Nacional, e em seguida o Hino da Independência.

Foi aí que Rosinha fortaleceu a sua fé em São Muralhas. Ele realmente existia e era um santo forte e poderoso. O povo é que era burro, pois nem ao menos o Padre José sabia da sua existência..

O problema é que a terceira estrofe do Hino da Independência diz:

“Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
“SÃO MURALHAS DO BRASIL”

Depois da solenidade, Rosinha foi perguntar à Madre Superiora por que São Muralhas era tão desprezado, se até no Hino da Independência do Brasil ele era citado. Sabia que ele era poderoso, pois quando ela queria alcançar uma graça era a ele que fazia promessas, e nunca deixou de ser atendida.

A religiosa ficou chocada com a fraca inteligência de Rosinha. Foi difícil fazê-la aceitar que esse santo não existia. Simplesmente, a jovem não conseguia entender o significado da letra do Hino da Independência.

Aliás, os antigos hinos cívicos usavam uma linguagem erudita, que nem todas as pessoas compreendiam. Foi o caso de Rosinha.

As “ímpias falanges” significavam as tropas inimigas, que estavam prestes a enfrentar as forças brasileiras. E o Hino dava força aos brasileiros, dizendo:

“VOSSOS PEITOS, VOSSOS BRAÇOS
“SÃO MURALHAS” DO BRASIL”

Esse hino foi composto em homenagem à Independência do Brasil, do domínio da Coroa Portuguesa (07.09.1822), pelo poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro, Evaristo da Veiga. No estilo árcade, o Hino da Independência pretende engrandecer o Brasil e o seu principal produto, o brasileiro.

Na letra, há uma saudação ao povo brasileiro, desejando-se que a servidão à Coroa Portuguesa não mais retorne.

A decepção de Rosinha foi grande, ao saber que São Muralhas do Brasil só existia na cabeça dela.

O CAMPEÃO

Décadas atrás, em Natal, na descida do Baldo, um pequeno grupo de boêmios, gostava de se reunir na calçada de uma bodega muito simples, onde só havia uma mesa velha e algumas cadeiras. No começo, eram poucos frequentadores, mas depois houve outras adesões. Os novatos sentavam-se até em caixotes vazios. Não queriam perder as boas conversas e o bom humor dos frequentadores.

O tira-gosto era sardinha, cujas latas ornamentavam as duas prateleiras da bodega. As bebidas disponíveis eram cerveja, cachaça e refrigerantes.

A bodega era humilde e o próprio dono fazia as vezes de empregado da limpeza e de garçom. Era um senhor alto, forte e careca, muito receptivo e carismático. Zé Coroa, como era chamado, era muito querido pelos boêmios. Eles preferiam passar o dia todo nessa simples calçada, bebendo e batendo papo, do que frequentar barzinhos de luxo. Só funcionava durante o dia.

Havia uma hierarquia entre os bebedores, de acordo com a capacidade etílica de cada um. Nilton, o líder dos frequentadores, tinha o apelido de “Campeão”, pois já tinha chegado a beber sozinho, num dia, uma grade de cerveja, ganhando uma aposta. O apelido pegou. Os mais fracos, que não aguentavam o rojão e se embriagavam rapidamente, eram chamados de “sem futuro”. Se atrapalhassem o ambiente, recebiam cartão vermelho do dono da bodega.

Campeão, representante comercial, era o mais falante da turma, simpático e o mais atualizado com as notícias de jornais. Por isso, era muito respeitado, e considerado “intelectual”. Quando falava, sua voz bonita e eloquente fazia com que todos o ouvissem com atenção.

Certa vez, Campeão conheceu Anita, uma jovem muito bonita, novata no bairro. Foi paixão mútua, à primeira vista. Ao vê-lo ser tratado com respeito e ser chamado de Campeão, a moça imaginou que ele fosse lutador de artes marciais.

Pouco tempo depois, conversando com uma conhecida, Anita falou no seu novo namorado, e ficou sabendo que ele era “campeão de bebedeira”. O rapaz era um alcoólico inveterado. Divorciado e com dois filhos, não havia jeito de maneirar a bebida. A cerveja e o cigarro, para ele, eram sagrados. A moça ficou decepcionada, mas preferiu ignorar o que considerou um “boato”. Foi a segunda esposa de Campeão, mas a paixão violenta que os uniu logo se transformou em “fogo de palha”.

O cervejeiro, vencedor de apostas, algum tempo depois estragou sua saúde. Não acreditou nos médicos. Quando resolveu levar o tratamento a sério e parar de beber, já era tarde. Dessa vez, ele perdeu o título de Campeão. Venceu a cirrose.


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