O BANQUETE

Luiz Gonzaga Pimentel, nascido em Natal (RN), cursou a Escola Naval no Rio de Janeiro, e ingressou na Marinha de Guerra. Fez uma brilhante carreira militar, chegando ao posto de Almirante. Foi comandante do Navio Almirante Barroso e chegou a exercer o cargo de Adido Militar do Brasil, em Londres.

Numa de suas vindas a Natal, para visitar o pai Celestino Pimentel e demais familiares, na hora do almoço não se serviu da famosa macarronada, feita por sua madrasta Francisca Pimentel, dando preferência a outros pratos que compunham a mesa.Todos estranharam, pois sabiam que o prato preferido dele era macarrão. Sem dar explicação, ele almoçou muito bem, sem sequer olhar para a macarronada. A madrasta ficou sem entender aquela “mudança de hábito.” O militar deixou para se justificar depois. Pediu desculpas à madrasta, mas não houve quem fizesse ele se servir da célebre macarronada, feita exclusivamente em sua homenagem.

Como Adido Militar em Londres, Luiz participava sempre de jantares e almoços com o corpo diplomático, e teve oportunidade de participar até de banquetes em que a Rainha da Inglaterra estava presente.

Nesses banquetes, havia comidas sofisticadas e para ele desconhecidas. Certo dia, num desses banquetes, temendo não gostar da comida, Luiz optou pela mesa de Massas, com molhos variados. Aliás, macarrão sempre foi sua comida preferida. Serviu-se de macarrão com molho de ervas e quando começou a mastigar, sentiu que estava mastigando um cabelo. Luiz ficou paralisado, dominando a vontade de pôr para fora tudo o que tinha na boca. Entretanto, o ambiente era altamente requintado e formal. Num banquete solene, sob holofotes, um Adido Militar não poderia cometer tamanha gafe. Luiz tinha que continuar comendo. Lembrou-se de Natal e sentiu saudade da macarronada feita por sua madrasta, muito mais saborosa do que aquela e sem cabelo dentro.

Por um minuto, Luiz entendeu que a solução seria engolir o cabelo. Sua vontade era devolver ao prato a porção que tinha na boca. Mas seria um gesto grosseiro no ambiente requintado em que se encontrava.

Jamais na sua vida, Luiz tinha passado por uma experiência tão desagradável. Por alguns segundos, conseguiu permanecer sem engolir, mas, finalmente, respirou fundo e, ajudado por um gole d’água, engoliu a porção que tinha na boca, juntamente com o maldito cabelo. Pegou-se com todos os anjos e arcanjos, para não vomitar. Sem saber se o cabelo era preto, branco ou louro, nem de onde tinha saído, Luiz sentiu vontade de sumir para sempre daquele ambiente de luxo e ir direto ao banheiro para vomitar. Passou o resto do dia enjoado. Sentiu-se a pessoa mais infeliz do mundo, como se naquele dia tivesse pagos todos os seus pecados, passados, presentes e futuros.

E o Almirante fez uma jura de nunca mais comer macarrão.



O FANATISMO

Décadas atrás, havia em Natal dois boêmios e amigos inseparáveis, Plínio e Baltasar, fanáticos por velórios e enterros. Nessa época, os velórios ocorriam em casa, pois ainda não havia Centro de Velórios na cidade.

Diariamente, eles se informavam sobre a ocorrência de algum óbito e o endereço do velório. E para lá se dirigiam, mesmo que não conhecessem o defunto nem a família enlutada.

Abraçavam os parentes do (a) morto (a), choravam, procuravam consolá-los e faziam até discursos, lamentando aquela partida “precoce”, ainda que se tratasse de uma pessoa centenária..

Bem apessoados e educados, eram recebidos com cordialidade e até confundidos com os parentes e amigos.

Entretanto, o que mais os atraía nos velórios era o costume de se oferecer bebida aos presentes, principalmente quando se prolongavam pela madrugada. A cana corria solta e os dois passavam a noite enchendo a cara. Duros na queda, pela manhã conseguiam acompanhar o enterro e ainda faziam discurso no Cemitério.

Os dois tinham o dom da oratória, apesar de não terem formação acadêmica. Nos discursos, exaltavam as virtudes da pessoa morta e às vezes confundiam a identidade, chegando a elogiar as qualidades daquela “admirável esposa e mãe”, quando, na verdade, a pessoa morta era solteirona e virgem como tinha nascido.

Mesmo sendo carismáticos, ambos eram os “timotes” de tradicionais famílias da cidade. Em tudo que era velório ou enterro eles se metiam. Faziam-se tão íntimos da casa, que chegavam a receber pêsames e procurar onde estavam as bebidas.

Quando não tomavam conhecimento de nenhum velório, Plínio e Baltasar costumavam fazer ponto num bar, perto do Cemitério do Alecrim. Mas, se, por acaso, vissem a chegada de algum enterro, entravam no Cemitério e antes do coveiro começar a enterrar, o que estivesse mais “alto” iniciava um discurso bonito e comovente, tirado dos jornais, que eles sabiam decorado. Foi assim no enterro de um simples servidor público, que havia morrido em consequência de um tumor fecal. Plínio, o orador do momento, saiu-se com essas palavras:

“Mataram-te, Presidente, mas serás enterrado em pé. A cabeça acima do coração. O coração acima do estômago!”

E prosseguiu com o discurso feito por um doido, no enterro de João Pessoa.

Certa vez, Baltasar, o outro fanático por enterro, foi convidado por um grupo de teatro amador para ser o Lázaro, na peça “A PAIXÃO DE CRISTO”. Ao lado do teatro havia uma birosca e ele se embriagou bem antes da peça começar. Como Lázaro teria que se deitar num caixão de defunto, Baltasar achou ótimo. Adormeceu profundamente e não houve jeito de obedecer às ordens do artista que representava Jesus Cristo. Cansado de chamá-lo, o artista implorava:

-Levanta-te, Lázaro! Ergue-te, Lázaro! Ressuscita, Lázaro!

O artista que representava Jesus Cristo perdeu a calma e deu um chute no caixão.

O bêbado abriu os olhos, meio confuso, olhou para aquele Cristo de araque e respondeu aos gritos e grosseiramente:

-Vai se lascar, homem! Vai se f….

A cortina do palco foi fechada, e a peça terminou aí.

Também terminou aí a futura carreira artística de Baltasar.



UMA RUMA DE ZÉ

No interior nordestino, é comum se usar a alcunha de Zé, ou seu Zé, para nominar alguém do sexo masculino, cujo verdadeiro nome se desconhece. É o “nome” mais comum que existe. Zé do Café, Zé de Baixo, Zé de Riba, Zé da Luz; Zé do Cuscuz; Zé da Água; Zé do Algodão Doce; Zé da Cocada; Zé da Pipoca.

É Zé, em banda de lata…

Para se ter o privilégio de ser chamado de Zé, não interessa o nome de batismo ou registro de nascimento.

Já em relação à mulher, da qual não se sabe o nome, costuma-se chamar “Dona Maria”, quando se trata de uma senhora, ou “Maria”, para se chamar as mocinhas. Também se usa chamar “essa menina” ou “esse menino”, para meninas e meninos.

Na feira de Nova-Cruz, era comum se ouvir: “Seu Zé, quanto é um cacho de pitomba?” “ Dona Maria, quanto é o litro da goma? “Esse menino, quanto é um pirulito?” E assim por diante.

Contam os historiadores norte-riograndenses, que Natal (RN) esteve na rota de viagens de Antoine de Saint-Exupéry, na 1ª fase da 2ª guerra mundial. Esse piloto francês e escritor pisou o solo do Rio Grande do Norte, descansando em Natal dos seus seguidos voos. Chegou a se familiarizar com várias pessoas do povo. Entretanto, diante da dificuldade da pronúncia do seu nome, logo foi apelidado de Zé Perri, ficando assim conhecido e “batizado”. Portanto, nem Exupéry escapou dos costumes da região, passando a ser conhecido como mais um Zé. Estabeleceu-se, então, uma relação afetiva entre ele e a capital potiguar.

Durante esse período, o transporte de malotes do correio, com escalas na África, passava pela capital potiguar, primeiro ponto continental sul-americano, depois de Fernando de Noronha, com escala de pouso para hidroaviões.

Realmente, está evidenciado que Natal esteve na rota de viagens do autor de “O Pequeno Príncipe”.

O Baobá da Rua São José o encantou e lhe serviu de inspiração, ao escrever, depois, a importante obra.

Muitas histórias cercam a sua passagem por Natal, havendo registros incontestáveis da constância dessas visitas.

Exupéry escreveu diversas obras, focalizando sempre elementos de aviação e de guerra, entre elas: “O Aviador” (1926), “Voo Noturno” (1931), “Terra dos Homens” (1939), e “Carta a um Refém” (1944).

Entretanto, sua obra mais importante foi “O Pequeno Príncipe” (1943), livro mais vendido no mundo, depois da Bíblia.

O famoso piloto e escritor foi vitimado por um acidente de avião, durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de julho de 1944. Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram encontrados os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, na França.

O assunto voltou à tona, com o lançamento dos livros “O Pequeno Príncipe me disse” e “Antoine de Saint-Exupéry – A história da história”, no dia 22 de março de 2009, em São Paulo, pela escritora e pesquisadora Sheila Dryzun. Como convidado, esteve presente ao evento François d’Agay, 84 anos, sobrinho do autor de “O Pequeno Príncipe”. Ele ainda participou de uma conversa, no dia 6 de março de 2009, na Aliança Francesa de Natal (Praça Cívica, Petrópolis), sobre seu tio, e sobre os livros de Dryzun. O sobrinho ratificou a evidência da relação do parente famoso com Natal.

Ainda no dia 6 de maio de 2009, o Baobá da Rua São José, em Natal, hoje chamado “O Baobá do Poeta”, recebeu a visita do sobrinho de Saint-Exupéry, engenheiro François D’Agay, a convite da Prefeitura Municipal.

No nosso planeta, o Baobá é considerado a árvore mais longeva que existe, podendo atingir milhares de anos. Sua altura pode atingir mais de 25m. O seu tronco pode medir até 20m de diâmetro. São necessários vinte homens abraçados, para abraçar o tronco de um Baobá.

Entre as famosas frases de Exupéry, na sua obra “O Pequeno Príncípe”, estâo:

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

O famoso piloto e escritor foi vitimado por um acidente de avião, durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de julho de 1944. Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram encontrados os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, na França.



O MAIOR ABANDONADO

A festa na casa de Rita e Eudo, em Nova-Cruz (RN), num dia de sábado, começou ao meio dia. Era o aniversário do dono da casa. Vários amigos e familiares foram convidados.

Dona Leide e Seu Vítor, exímio violonista, tinham chegado de Natal, para prestigiar o aniversário do filho.

A família gostava muito de música. Quase todos os membros tocavam algum instrumento e cantavam bem, como amadores.

No alpendre da casa, formou-se uma animada roda de amigos, com violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, afoxé e tantã.

Logo começaram as rodadas de cerveja e tira-gostos, muita música e muita animação.

Depois do almoço, a farra continuou, entrando pela noite. A turma demorou muito a dar sinal de cansaço. Aos poucos, alguns convidados foram se despedindo, mas a música custou a parar. A bebedeira tinha sido pesada e o sono estava chegando.

Altas horas da noite, ainda estavam no alpendre, conversando, o amigo Carlito, o aniversariante e o seu pai. Os três, mesmo exaustos, ainda tomavam cerveja.

Entretanto, pela madrugada, já cansados de beber, os três ficaram sem assunto e o astral baixou.

Antes de se despedir, o amigo Carlito, completamente embriagado, resolveu “fazer uma fala.” Dizendo-se emocionado e feliz, por estar ali ao lado de dois grandes amigos, pai e filho, o “orador” assim se expressou:

– Não tive a felicidade de conhecer meu Pai! Como eu gostaria de ter convivido com ele! Mas nem sequer me lembro do seu rosto, pois eu só tinha três meses quando ele morreu!

Que coisa linda, pai e filho, grandes amigos e bebendo juntos! Como esta cena que estou vendo me comove! Ô coisa do meu agrado! Foi a cena mais bonita, que encontrei no meu caminho! Como eu tenho inveja de quem tem pai vivo!

A emoção também dominou Eudo e o pai, e os três amigos choraram abraçados. Pai e filho abriram as torrentes, em solidariedade à orfandade do amigo Carlito.

Controladas as emoções, o aniversariante também resolveu falar, para consolar o amigo órfão, que, por sinal, já tinha 50 anos de idade:

– Carlito, a partir de agora, quero que você me chame de PAPAI…

O órfão se abraçou com seu novo pai, aceitando a simpática proposta. Em lágrimas e com voz pastosa, de quem passara o dia bebendo, falou:

– A “BENÇA”, PAI!

Por coincidência, Eudo, naquele dia, estava completando 50 anos, a mesma idade do amigo Carlito. Jamais poderiam ser pai e filho.

Enquanto os três amigos choravam de emoção, as três esposas, que haviam escutado a conversa dos bêbados, não paravam de rir.

A cena ficou na história.



A DEVOÇÃO

Antigamente, nas Escolas Públicas, uma vez por semana havia uma “hora cívica”, antes do início das aulas. A Diretora se reunia no pátio da escola, com os professores e todos os alunos. Havia o hasteamento da Bandeira Brasileira e todos cantavam o Hino Nacional, com a mão no coração.

Uma das matérias que faziam parte do currículo escolar era Canto Orfeônico. A professora, geralmente uma musicista, ensinava aos alunos a cantar todos os hinos cívicos brasileiros. Todos eram obrigados a decorar as letras.

Depois do Hino Nacional, o Hino mais cantado no Colégio era o Hino da Independência, principalmente na Semana da Pátria.

Rosinha, uma aluna do Colégio das Freiras, desde criança aprendeu a cantar os hinos cívicos. Muito religiosa, tornou-se devota de São Muralhas, e o elegeu seu santo protetor. Era com ele que se pegava quando tinha prova de Matemática, o terror das alunas. Entretanto, nunca viu no colégio ou em nenhuma Igreja uma imagem do santo da sua devoção.

A jovem pagava promessas a São Muralhas, acendendo velas para ele ou rezando terços em sua intenção.

Certo dia, Rosinha pediu à Dona Neusa, sua mãe, que lhe comprasse uma imagem de São Muralhas. Apesar de ser católica, a mulher disse à filha que não conhecia esse santo, mas iria à lojinha da Igreja Matriz, para ver se conseguia comprar alguma coisa relacionada com ele. Não encontrou imagem, retrato, nem oração de São Muralhas. Dona Neusa resolveu, então, falar com o Vigário da Paróquia, para obter informações sobre esse santo. Padre José lhe garantiu que esse santo não existia.

Rosinha não se conformou com a notícia e continuou devota de São Muralhas.

Era a Semana da Pátria. No Colégio, houve a “hora cívica”, com o hasteamento da Bandeira Brasileira. Todos os presentes cantaram o Hino Nacional, e em seguida o Hino da Independência.

Foi aí que Rosinha fortaleceu a sua fé em São Muralhas. Ele realmente existia e era um santo forte e poderoso. O povo é que era burro, pois nem ao menos o Padre José sabia da sua existência..

O problema é que a terceira estrofe do Hino da Independência diz:

“Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
“SÃO MURALHAS DO BRASIL”

Depois da solenidade, Rosinha foi perguntar à Madre Superiora por que São Muralhas era tão desprezado, se até no Hino da Independência do Brasil ele era citado. Sabia que ele era poderoso, pois quando ela queria alcançar uma graça era a ele que fazia promessas, e nunca deixou de ser atendida.

A religiosa ficou chocada com a fraca inteligência de Rosinha. Foi difícil fazê-la aceitar que esse santo não existia. Simplesmente, a jovem não conseguia entender o significado da letra do Hino da Independência.

Aliás, os antigos hinos cívicos usavam uma linguagem erudita, que nem todas as pessoas compreendiam. Foi o caso de Rosinha.

As “ímpias falanges” significavam as tropas inimigas, que estavam prestes a enfrentar as forças brasileiras. E o Hino dava força aos brasileiros, dizendo:

“VOSSOS PEITOS, VOSSOS BRAÇOS
“SÃO MURALHAS” DO BRASIL”

Esse hino foi composto em homenagem à Independência do Brasil, do domínio da Coroa Portuguesa (07.09.1822), pelo poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro, Evaristo da Veiga. No estilo árcade, o Hino da Independência pretende engrandecer o Brasil e o seu principal produto, o brasileiro.

Na letra, há uma saudação ao povo brasileiro, desejando-se que a servidão à Coroa Portuguesa não mais retorne.

A decepção de Rosinha foi grande, ao saber que São Muralhas do Brasil só existia na cabeça dela.



O CAMPEÃO

Décadas atrás, em Natal, na descida do Baldo, um pequeno grupo de boêmios, gostava de se reunir na calçada de uma bodega muito simples, onde só havia uma mesa velha e algumas cadeiras. No começo, eram poucos frequentadores, mas depois houve outras adesões. Os novatos sentavam-se até em caixotes vazios. Não queriam perder as boas conversas e o bom humor dos frequentadores.

O tira-gosto era sardinha, cujas latas ornamentavam as duas prateleiras da bodega. As bebidas disponíveis eram cerveja, cachaça e refrigerantes.

A bodega era humilde e o próprio dono fazia as vezes de empregado da limpeza e de garçom. Era um senhor alto, forte e careca, muito receptivo e carismático. Zé Coroa, como era chamado, era muito querido pelos boêmios. Eles preferiam passar o dia todo nessa simples calçada, bebendo e batendo papo, do que frequentar barzinhos de luxo. Só funcionava durante o dia.

Havia uma hierarquia entre os bebedores, de acordo com a capacidade etílica de cada um. Nilton, o líder dos frequentadores, tinha o apelido de “Campeão”, pois já tinha chegado a beber sozinho, num dia, uma grade de cerveja, ganhando uma aposta. O apelido pegou. Os mais fracos, que não aguentavam o rojão e se embriagavam rapidamente, eram chamados de “sem futuro”. Se atrapalhassem o ambiente, recebiam cartão vermelho do dono da bodega.

Campeão, representante comercial, era o mais falante da turma, simpático e o mais atualizado com as notícias de jornais. Por isso, era muito respeitado, e considerado “intelectual”. Quando falava, sua voz bonita e eloquente fazia com que todos o ouvissem com atenção.

Certa vez, Campeão conheceu Anita, uma jovem muito bonita, novata no bairro. Foi paixão mútua, à primeira vista. Ao vê-lo ser tratado com respeito e ser chamado de Campeão, a moça imaginou que ele fosse lutador de artes marciais.

Pouco tempo depois, conversando com uma conhecida, Anita falou no seu novo namorado, e ficou sabendo que ele era “campeão de bebedeira”. O rapaz era um alcoólico inveterado. Divorciado e com dois filhos, não havia jeito de maneirar a bebida. A cerveja e o cigarro, para ele, eram sagrados. A moça ficou decepcionada, mas preferiu ignorar o que considerou um “boato”. Foi a segunda esposa de Campeão, mas a paixão violenta que os uniu logo se transformou em “fogo de palha”.

O cervejeiro, vencedor de apostas, algum tempo depois estragou sua saúde. Não acreditou nos médicos. Quando resolveu levar o tratamento a sério e parar de beber, já era tarde. Dessa vez, ele perdeu o título de Campeão. Venceu a cirrose.



O PALHAÇO

O mundo mágico do Circo sempre encantou crianças e adultos.

Rute aprendeu a gostar de Circo desde criança. Sempre que chegava um bom Circo ao Recife, seus pais a levavam, nas tardes de domingo, para assistir aos divertidos espetáculos. Entre todos os Circos que passavam temporadas em Recife, o que mais se destacava, pelo luxo, beleza e talento dos artistas, era o Circo Nerino. Eram números de palco e picadeiro, com acrobatas, trapezistas, palhaços, além dos belos animais.

Mesmo passando temporadas em todos os Estados do Brasil, houve ocasião do Circo Nerino permanecer um ano inteiro no Recife, mudando apenas de bairro. Às vezes, também percorria as melhores cidades do interior de Pernambuco.

Depois de muitos anos, as idas do Circo Nerino ao Recife foram diminuindo, até que cessaram definitivamente.

As lembranças do Circo Nerino nunca saíram da memória de Rute, mesmo depois de casada. Seu sonho era levar as duas filhas a esse mundo mágico, no dia em que ele retornasse ao Recife. As meninas ouviam a mãe falar desse fantástico espetáculo de beleza e alegria, como se fosse um conto de fadas.

Certa vez, no final de 1969, Rute soube que havia chegado a Olinda um maravilhoso Circo, chamado Circo Garcia. Entretanto, sendo da “torcida organizada” do Circo Nerino, tal qual uma torcedora fanática de um time de futebol, não admitia que nenhum outro Circo pudesse superá-lo. Mesmo assim, entregou os pontos e numa tarde de domingo, foi com as filhas ao Circo Garcia.

Quando passava pela entrada, Rute olhou para o porteiro, enquanto lhe entregava os ingressos, e no mesmo instante reconheceu nele um dos mais famosos acrobatas do Circo Nerino. Sem conter a emoção, falou:

– Seu Gaetan!

E o homem respondeu:

– A senhora me conhece?

– Conheço! O senhor é do Circo Nerino! .

O homem ficou calado. A mulher insistiu:

– Seu Gaetan, onde está o Circo Nerino? Onde estão os outros artistas? Onde está o Roger?

O porteiro nada respondeu.

Gaetan acompanhou Rute e as filhas até as cadeiras, mesmo ela tendo comprado entradas para os poleiros, de onde se podia ver melhor o Picadeiro.

No intervalo, Rute viu Gaetan vendendo pipocas, pirulitos e balas.

Quando o espetáculo acabou, o homem chamou Rute e as filhas e as levou aos camarins. Foi então que a mulher se emocionou, ao ver Roger, o mais bonito galã do Circo Nerino, e filho do dono, com uma toalha na mão, tirando a maquiagem de palhaço. Era ele que, no Circo Nerino, sabia se equilibrar com perfeição nas ancas de um belo cavalo. Agora, era um simples palhaço, do Circo Garcia.

Rute ficou sabendo que as famílias Avanzi e Garcia haviam se unido, com o casamento de Roger e Anita.

Soube também que, há muito tempo, Roger se tornara o Palhaço Picolino, substiuindo o pai, o saudoso Nerino Avanzi. Sua mãe, Armandine Avanzi e seu tio Gaetan Ribolá estavam com ele, há meses, no Circo Garcia.

A permanência do Circo Garcia, em Olinda, passou despercebida pela imprensa, até que no dia 10 de março de 1970, o Diário de Pernambuco noticiou: “Gaetan Ribolá, do Circo Nerino, que se encontrava no Circo Garcia, está morto.” O artista sofrera um enfarte fulminante.

Gaetan Ribolá, irmão de Nerino Avanzini, foi velado no Recife, na Capela do Hospital Santa Maria, no Bairro Cordeiro. Presentes ao velório, um pequeno número de amigos da cidade e alguns artistas do Circo Garcia.

Roger Avazani passou o dia providenciando os documentos, para transportar o corpo do tio para João Pessoa (PB), onde a família tinha um jazigo. Chegou ao velório no final da tarde, e, logo que anoiteceu, precisou ir para o Circo, porque naquela noite teve espetáculo. E o espetáculo não pode parar. O espetáculo continua!

Sendo palhaço há mais de dez anos, Roger já tinha sentido o amargor de ter que fazer rir, com vontade de chorar. Mas, naquela noite, vestido de palhaço, e executando seu número de ciclismo cômico, ele abriu as comportas e chorou copiosamente.

Ainda de madrugada, encerrou-se o velório. O caixão foi fechado e colocado na carroceria da caminhonete do Circo Garcia.

Roger na direção, sua mãe Armandine e uma amiga apertaram-se no banco da caminhonete, e seguiram para João Pessoa (PB).

Inúmeras vezes, desde a década de 1940, Gaetan percorreu aquela estrada. Dirigiu os primeiros caminhões da frota que o Circo Nerino viria a adquirir, até o início de 1950. Comandava uma caravana de carros-moradia, que ele próprio ajudara a construir.

Ao amanhecer, a caminhonete chegou a João Pessoa, e logo depois estacionou na frente do Cemitério. Um grupo de pessoas aproximou-se. Eram os radioamadores que souberam da morte de Gaetan, por meio de uma colega do Recife, que se encarregara de divulgar a notícia e que se chamava Nerina. Por sinal, essa radioamadora era muito amiga de Dr. Ernani Hugo, ex -titular da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Norte.

Eles estranharam a solidão daquela caminhonete. Esperavam uma grande carreata. O sol já ia alto e os radioamadores precisavam trabalhar. Não puderam ficar até o fim do ato.

E assim, Gaetan Ribolá, que já havia sustentado uma pirâmide de cinco homens, e foi a viga mestra do Circo Nerino, e irmão do dono, foi enterrado sem nenhuma pompa. Não teve grinaldas, salva de tiros, ramalhetes de flores, nem discursos de “autoridades civis, militares ou eclesiásticas”. Não teve, sequer, os aplausos daquele a quem dedicou sua vida: O RESPEITÁVEL PÚBLICO.

“Aplauso não se pede. O povo aplaude quando quer”.



A PROMESSA

São Severino do Ramo (ou São Severino dos Ramos) é uma imagem devocional católica, centro de um importante culto religioso, em alguns estados do Nordeste do Brasil, como Pernambuco e estados vizinhos.

A estátua em tamanho natural, cuja origem é incerta, representa São Severino de Nórica, deitado e vestido em trajes de soldado romano. Encontra-se na Igreja de Nossa Senhora da Luz, no município pernambucano de Paudalho, em uma capela ao lado do altar principal.

Os primeiros relatos da realização de milagres por intermédio de São Severino do Ramo datam do século XIX, quando se espalhou o boato de que a estátua seria o próprio cadáver incorrupto de São Severino, de tal maneira preservado, que se fosse furado, verteria sangue.

A notícia se espalhou entre os habitantes das regiões circunvizinhas. Chegou a outros estados do Nordeste, e passou a atrair grande número de romeiros, para visitar a Igreja de Nossa Senhora da Luz, no Engenho Ramos, onde a estátua se encontrava. Logo o São Severino do Engenho Ramos tornou-se São Severino do Ramo, nome pelo qual a devoção é até hoje conhecida.

A devoção a São Severino do Ramo continua sendo uma manifestação religiosa, ainda importante nesses estados, tendo sido mencionada por João Cabral de Melo Neto, no poema “Morte e Vida Severina”.

Essa devoção é fundamentada na Devoção de São Severino, soldado romano, martirizado nos primeiros séculos do cristianismo.

O Martirológio Romano de 1930 acrescenta que São Severino foi martirizado no tempo de Diocleciano, e que as suas relíquias se conservaram em catacumbas romanas.

Pois bem. Décadas atrás, em Nova-Cruz, cidade do interior do Rio Grande do Norte, era comum o deslocamento de devotos até o santuário de São Severino do Ramo, para o pagamento de promessas alcançadas. A viagem de ida e volta era feita no trem que trafegava de Natal para Recife, e de Recife para Natal, com parada na Estação Ferroviária de Nova-Cruz. Os romeiros costumavam regressar no dia seguinte. Levavam objetos de cera, como cabeças, braços, mãos, joelhos ou pernas, para depositar aos pés do altar, conforme o milagre alcançado.

Certa vez, a devota dona Luísa, de Nova-Cruz, viajou até Paudalho, (PE), para pagar uma promessa a São Severino do Ramo. Foi na companhia do marido Dilermano e da filha Rose, de 8 anos. Levava numa bolsa uma cabeça de cera, para depositar aos pés do altar e uma oferta em dinheiro.

A menina passara mais de um ano se tratando de uma impingem na cabeça, doença de pele, cujo nome científico é “Tinha Corporis” (Tinea Corporis), provocada por um fungo altamente contagioso. Em vez de cicatrizar com os unguentos indicados pelo médico consultado, a “Tinha” se alastrava cada vez mais, com forma arredondada e atingindo o tamanho de um pires. Na parte afetada, o cabelo caiu todo, ficando exposto o couro cabeludo. Era uma ferida repugnante, que causava à doente ardores insuportáveis.

Desesperada, vendo a filha piorar cada vez mais, Dona Luísa se pegou com São Severino do Ramo, fazendo uma promessa de viajar até o seu santuário, para dar o seu testemunho, se a menina fosse curada. Levaria também uma cabeça de cera e uma oferta em dinheiro.

Depois de dois meses, Rose estava curada. A ferida sarou completamente. Aos poucos, os cabelos foram nascendo novamente.

A notícia do milagre se espalhou em Nova-Cruz e o número de devotos de São Severino do Ramo aumentou bastante.

Dona Luísa, o marido e a filha foram, de trem, a São Severino do Ramo pagar a promessa. Desembarcaram na Estação Ferroviária de Paudalho, e se hospedaram num pequeno hotel da cidade. Chegaram com antecedência ao santuário, para a Missa que seria celebrada às 10 horas da manhã.

Depois de falar com o celebrante da Missa, entregar sua oferta e depositar a cabeça de cera aos pés do altar de São Severino do Ramo, Dona Luísa, ao lado do marido e da filha curada, deu o seu testemunho, sob um clima de grande emoção. Para os fiéis, estava configurado mais um milagre, com a cura da menina Rose.

Voltaram para o hotel, onde almoçaram e depois foram a uma feirinha de artesanato nas imediações, onde predominavam motivos religiosos.

Nessa feirinha, Dona Luísa notou que sua bolsa estava aberta e dela tinham furtado a “capanga” do seu marido, portando o dinheiro para as despesas, documentos e talão de cheque.

Desesperados, o casal e a filha curada voltaram ao santuário, na intenção de pedir que lhes fosse devolvida uma parte da oferta que tinham feito. Mas o vigário já tinha se retirado, levando consigo todo o dinheiro.
Ajoelhados, os romeiros rezaram muito, e imploraram a São Severino do Ramo que lhes concedesse a graça de recuperar o que lhes fora furtado. A fé que tinham nesse santo milagroso continuava inabalável.

A viagem, de volta para Nova-Cruz, seria às 5 horas da manhã, no trem de Recife.

Um caminhoneiro, hóspede do mesmo hotel, ouviu o casal contar ao gerente o furto ocorrido, e se ofereceu para levá-los à Delegacia de Polícia, para prestar queixa, e registrar o B.O (Boletim de Ocorrência). Ao chegarem à Delegacia, viram entrar um casal, preso, conduzido por dois policiais.

Imediatamente, Dona Luísa reconheceu a “capanga” do seu marido, que a mulher trazia na mão, e, sem se controlar, falou para o Delegado, em voz alta:

– Esta “capanga” é a do meu marido!!!

Depois de confrontados o conteúdo da “capanga” e o furto registrado em B.O, Dilermano recuperou totalmente o que lhe tinha sido furtado. Estava tudo intacto: O dinheiro, os documentos e o talão de cheque.

Mais um testemunho de uma graça alcançada. Outro milagre de São Severino do Ramo.
A fé remove montanhas.



O RIRRI

A história do zíper, fecho éclair ou simplesmente “fecho”, começou em 1893, na Exposição Mundial de Chicago, nos EUA, onde esse objeto deslizante, para fechar e abrir roupas, foi apresentado pela primeira vez. Tratava-se de uma versão primitiva do dispositivo, com minúsculos ganchos e argolas, desenvolvida pelo engenheiro americano Whitcomb Judson. Cansado de abrir e fechar todos os dias os cordões dos seus sapatos, ele teve a ideia de criar um artefato rústico, composto de ganchos e furos, para facilitar. Porém, esse tipo de zíper não era muito eficiente: não fechava com facilidade e abria em horas impróprias.

O mecanismo atual do zíper, com o uso de dentes que se engancham, surgiu, somente, em 1912, desenvolvido por Gideon Sundback, um engenheiro elétrico sueco, que trabalhava nos Estados Unidos. No mesmo ano, a patente para um sistema semelhante foi concedida na Europa em nome de uma mulher chamada Catharina Kuhn-Moos. A indústria de confecção foi a mais beneficiada com essa invenção, que facilitou, de maneira fantástica, o abrir e fechar de roupas.

Antes do zíper, as roupas tinham fileiras intermináveis de botões.

A palavra “zíper” só surgiu em 1923. Ela foi criada por um funcionário da empresa americana B.F. Goodrich, que usou o termo para dar nome ao fecho deslizante, que acabava de ser lançado numa linha de galochas de borracha, as chamadas Zipper Boots (“Botas Zipper”).

Antigamente, no interior nordestino, os fechos de saias e vestidos eram chamados de “Rirri”. Zíper e Fecho-Eclair não eram palavras conhecidas. Toda saia ou vestido tinha um “Rirri”, costurado numa fenda lateral ou nas costas, que variava de 20 a 35 centímetros. Tinha a finalidade de facilitar o vestimento da peça, na passagem pela cabeça. O nome está ligado ao som, provocado pelo seu fechamento ou abertura, quando as duas carreiras de dentinhos de metal deslizam sobre os trilhos que o compõem.

De acordo com o costume, as barguilhas (ou braguilhas) das calças masculinas eram fechadas com botões. Somente com a moda de calças Jeans (Faroeste, Lee etc), tecido bastante pesado, os botões foram substituídos pelo Rirri.

Convém salientar que, enquanto os botões nunca causaram danos físicos ao homem, o “Rirri” lhe tem causado muitos “acidentes”. Já houve casos do homem ficar preso a ele, pela pele do membro sexual, ao abrir ou fechar a calça ou bermuda, com necessidade de procedimento cirúrgico.

A primeira participação desse utilitário, na indústria do vestuário, aconteceu durante a I Guerra Mundial, quando os uniformes dos soldados norte- americanos foram confeccionados com zíper nas calças.
Na II Guerra, foi usado em sacos de dormir, uniformes, malas e sacolas para transporte de mortos.

Na década de 50, a calça “LEE” fez, a união do z¡per com jeans, quando lançou a calça de jeans feminina.
Na década de 70, o zíper triunfou no setor do vestuário, entrando em contato com a alta costura. Também esteve a serviço do vestuário dos Hippies e dos Astronautas.

No Brasil o maior fabricante do zíper é a YKK, Yoshida Brasileira Indústria e Comércio, com sede no Japão e atuando em 44 países. Os outros fabricantes são: Linhas Correntes e Metalúrgica Ultra.
Há casos hilários, envolvendo o zíper.

Uma certa noite, um jovem casal de “sem carro”, com os hormônios fervendo, estava namorando na calçada da casa da moça. Já era tarde, a rua deserta, e o pai da jovem assobiou, dando sinal de que estava na hora de entrar. Ao ver a filha demorando, o homem foi até a calçada e flagrou o casal abraçado, debaixo de um pé de Castanhola, sem poder se apartar. O rapaz, em pânico, tentava fechar o zíper da calça, que ele mesmo abrira, e não conseguia. O pai da moça deu um escândalo com os dois e marcou a data do casamento na hora.



O JOGO

Cena ocorrida no caminho do século passado, meados da década de 60. Numa cidade do interior nordestino,. Seu Messias, comerciante e religioso fanático, sabia a Bíblia decorada, e gostava de pregar a palavra de Deus a toda hora. Falava difícil e gostava de impressionar os ouvintes, usando sempre palavras desconhecidas, tiradas do dicionário. As pessoas simples, que o escutavam, não entendiam nada.

Era convencido de que o homem mais santo, mais honesto e mais inteligente do mundo era ele mesmo. Acima dele, só havia Jesus Cristo. Gabava-se de respeitar a lei e tinha horror a jogo de azar, principalmente ao jogo do bicho. Sabia que, de acordo com a lei, jogo de azar era contravenção penal. Gostava de dizer que o seu dinheiro era fruto do trabalho honesto. Ficava no balcão da sua mercearia, das 7 horas da manhã às 5 da tarde. Ia em casa almoçar ao meio dia e antes das 2 estava de volta.

Certa manhã, entrou no seu estabelecimento comercial um cambista chamado Chicão, com o talão de apostas na mão, insistindo para que ele jogasse no bicho:

– Seu Messias, faça aqui uma aposta no bicho, pra me ajudar! Meu talão ainda está inteiro… Tenho um palpite pra hoje, e tenho certeza que vai dar Galo, 13. Tive um sonho de ontem pra hoje e quando eu sonho, é “batata”! .

Seu Messias danou-se de raiva e disse uns desaforos ao cambista:

– Rapaz, como é que você tem um atrevimento desse? Adentrar ao meu estabelecimento comercial, propondo-me que cometa uma contravenção penal!! Jogo do bicho é contra a lei e coisa do Satanás! Eu sou um homem temente a Deus e um cidadão íntegro! Tenho princípios morais!!! Você me respeite!!!

O cambista não conseguia entender o motivo de tanta indignação. Afinal, muita gente boa da cidade jogava no bicho, abertamente. E ainda insistiu:

– Estou precisando de dinheiro pra feira, seu Messias. Meu trabalho de cambista é o que me sustenta. Jogue, ao menos pra me ajudar!

O comerciante, para se ver livre do cambista, e também para ajudá-lo, deu-lhe 5 cruzeiros, e pediu que fosse oferecer jogo a outra pessoa.

O cambista saiu encabulado e nem sequer agradeceu os 5 cruzeiros.

No final do expediente, Chicão entrou novamente na mercearia e foi recebido pelo comerciante com “quatro pedras na mão”:

– Não acredito que você voltou aqui para me encher o saco novamente!

E o cambista, sorrindo, respondeu:

– Seu Messias, o bicho foi GALO e o senhor ganhou na milhar!!!

Perplexo, o comerciante perguntou:

– Como ganhei, se nem ao menos joguei?!!!

Chicão respondeu:

– O senhor ganhou na milhar. do Galo. Já trouxe seu prêmio. Com aquele dinheiro que o senhor me deu, fiz uma aposta pequena pro senhor e ainda fiz uma feirinha..

Seu Messias, fingindo indignação, rapidamente, respondeu:

– Para não ser grosseiro com o distinto, vou receber este vil metal, mesmo contra os meus princípios morais!

E, por curiosidade, perguntou:

– Que sonho foi esse que você teve?

Orgulhoso por saber interpretar sonhos, Chicão respondeu:

– Eu sonhei que estava trepado num coqueiro, tirando coco. Um coco, quando a gente parte, vira duas quengas. Quenga é “mulher da vida”. “Mulher da vida” é galinha. E quem gosta de galinha é GALO!!! Foi o meu palpite do dia!

Seu Messias deu uma pequena gratificação a Chicão e nunca mais deixou de jogar no bicho.



XEXÉU

Alexino, desde menino, por ser muito briguento, foi apelidado de XEXÉU. Tornou-se um rapaz bonito, boêmio e seresteiro, dono de uma belíssima voz. Por causa disso, continuou sendo chamado de Xexéu, pássaro de canto melodioso, que, facilmente, pode ser confundido com um coral de vozes harmoniosas.
Xexéu era um conquistador nato. As mulheres eram loucas por ele.

Numa época em que não se falava em preservativo, nem em pílula anticoncepcional, Xexéu contribuiu para o aumento da população do Rio Grande do Norte. Casou-se com Luzia, uma jovem de boa família, e muito religiosa.

Muito dedicada ao lar, a moça não queria saber de falatório sobre a vida do seu marido, da porta da sua casa para fora. Chegou a expulsar da sua sala pessoas fofoqueiras, que a visitavam, levando “historinhas” sobre o comportamento de Xexéu fora de casa.

Luzia nunca estragou seu casamento, com ciúme ou desconfiança do marido. Afinal, ele sempre se mostrava apaixonado, e respeitava o lar, como se fosse um templo sagrado. A esposa e filhos eram sua maior ventura.

Quando Xexéu chegava em casa, era sempre muito carinhoso com Luzia, e fazia-lhe um filho atrás do outro. A mulher, literalmente, vivia grávida.

Se cego “é aquele que não quer ver”, Luzia se fazia de cega. Nunca teve uma briga com Xexéu. O casal teve 8 filhos, sendo três meninas e 5 meninos.

Extra-oficialmente, Xexéu teve mais 4 filhos, completando, assim, uma dúzia. Paralelamente, pelos caminhos percorridos como caixeiro-viajante, em cidades distantes, Xexéu deve ter deixado outra porção de filhos, frutos de relações casuais e paixões sem amanhã.

A fama de mulherengo acompanhou Xexéu por toda a sua vida. E, por brincadeira dos amigos, foi rotulado com um jargão:

“Por onde Xexéu passa, nasce um menino”.

Luzia, esposa de Xexéu, pertencia a uma irmandade de 9 irmãos, que, ainda crianças, perderam o pai e alguns anos depois, a mãe. Depois de adultos, apenas uma das irmãs, Ivanilda, ficou no “caritó”. E foi quem mais ajudou a Luzia na criação dos filhos.

Já idosa, Ivanilda ainda era revoltada com um caso, ocorrido em Natal, há muitos anos, envolvendo pessoas conhecidas. Aproveitando a oportunidade para destacar seus valores morais, gostava de contar:

“Décadas atrás, Dorinha, 25 anos, tinha vindo do interior para morar com sua irmã mais velha, Silvina, casada com Zé Vitor, e ajudá-la com as crianças e serviços domésticos. Dois anos depois, Dorinha apareceu grávida, sem sequer ter namorado.

Voltou para o interior, e pariu um menino, que parecia um clone de Zé Vitor, o marido da irmã, no caso, o cunhado que lhe dera guarida em Natal. Foi um escândalo!

Nesse tempo, não se fazia exame para provar a paternidade. Mas, ainda que houvesse, nesse caso, o exame seria plenamente dispensável. O menino era Zé Vítor, “em carrara esculpido”, ou, para ficar mais claro, “cagado e cuspido”, como diz o ditado popular.

Abafaram a história, e Zé Vitor não admitia que se falasse nessa “infâmia”. Jurava que não era o pai da criança. Dorinha também nunca disse que era ele.

E a “Santa” Silvina engoliu com água, como se fosse um comprimido, essa traição do marido e da irmã, até morrer.”

E a idosa continuava o discurso:

“Pois bem. Eu, na minha mocidade, como era solteira, passei muitas temporadas com as minhas irmãs casadas. Ajudei a criar meus sobrinhos e passei muitas noites em claro, balançando rede de menino doente, que chorava inquieto, sem poder dormir. Minhas irmãs, exaustas do trabalho doméstico, deixavam que eu tomasse conta dos seus filhos, durante a noite, enquanto elas dormiam. Convivi com vários cunhados, e nenhum deles nunca me faltou com o respeito, nem tentou me seduzir.

Fui cunhada de Xexéu, o homem mais mulherengo que Natal já teve. Por onde Xexéu passava, ficava um menino. Parecia que tinha nascido para ajudar a povoar o mundo.

Digo e repito: Xexéu sempre me respeitou. Da mesma forma, eu sempre o respeitei, como marido da minha irmã e, por conseguinte, também meu irmão. “

E Ivanilda se orgulhava dessa convivência respeitosa com Xexéu, jogando farpas em Dorinha, a moça que engravidou do cunhado, “nas barbas da irmã”. Para ela, isso foi o cúmulo da traição!

E a idosa continuou soltando seu veneno:

– Essa Dorinha engravidou porque quis. Deve ter se botado para o cunhado. Homem é igual a cachorro. Se alguém lhe oferece um osso, ele não enjeita. A culpa foi exclusivamente dela. Ela devia ter espírito de “Messalina”,- “a mulher que tinha o reino entre as pernas”.



O CHAPÉU

Genésio, há 14 anos, era casado com Josina, com quem tinha três filhas. Sempre chegava em casa tarde da noite, alegando serviço extra, no Jornal onde trabalhava. A esposa acreditava piamente no que ele dizia.

Numa noite, demorou mais do que o normal. As crianças já estavam dormindo, quando ele chegou. A esposa, como sempre, ainda estava acordada.Tinha lhe pedido um presente. Logo que viu o marido, perguntou?

– Comprou meu presente?

Nervoso, Genésio respondeu:

– Que presente? É seu aniversário?

– Não é meu aniversário, mas eu lhe pedi um chapéu…

Sem graça, Genésio respondeu:

– Daqui a alguns dias, eu comprarei. Vá se arranjando com o antigo, por enquanto. Ando gastando muito…

Friamente, os dois adormeceram.

Desapontada, Josina acordou cedo e foi cuidar dos afazeres domésticos, inclusive do café da manhã. Usando o chapéu velho, foi levar as filhas à Escola.

Essa rotina se arrastava com muita compreensão. Josina e as filhas sentiam a falta de Genésio na hora do jantar, mas acabaram se acostumando.

Genésio ganhava bem, e há dez anos tinha uma amante, teúda e manteúda, com casa por ele montada, bem melhor e mais moderna do que a casa onde vivia com a esposa e filhas.

Antigamente, na linguagem arcaica, chamava-se “teúda e manteúda”, a amante sustentada pelo companheiro. A expressão sobrevive no “juridiquês”.

Por economia, Josina não tinha empregada. Mas, agora, com 50 anos, sentia-se cansada e resolvera arranjar uma boa cozinheira. Vivia pedindo ao marido.que arranjasse uma, nos classificados do jornal onde trabalhava, mas ele lhe devolveu a tarefa.

Por outro lado, Zilda, a teúda e manteúda, tinha uma cozinheira excelente, que também cuidava da casa.

Muito vaidosa, a amante frequentava academia e se cuidava muito. Tinha 45 anos, mas parecia menos.

Pois bem. Num fim de tarde, ao chegar à casa da outra, Genésio a encontrou chorando. Não havia jantar preparado. A empregada pedira as contas, sem mais nem menos.

Genésio, de táxi, chegara com um pacote na mão, para levar para sua casa, e pôs em cima de uma cadeira. Era o presente de Josina, Zilda, sem perguntar nada, abriu o pacote e se deparou com um chapéu muito cafona, cheio de laço de fita. Genésio não teve coragem de dizer que não era para ela, e sim para Josina, a esposa, a quem ele prometera..

Pediram sanduíche pelo telefone e Zilda se acalmou. Às 11 horas em ponto, Genésio pediu um táxi, saindo sutilmente, para não acordar a filial.

Como sempre, chegou em casa, cansado e com sono. A esposa disse que tinha arranjado uma cozinheira, que já viria pela manhã cedo.

“Para variar” , depois de um beijo na testa, adormeceram de costas, um para o outro.

Pela manhã, Genésio tomou um susto, ao ver a cara da empregada que a esposa havia arranjado. Era a ex-empregada da teúda e manteúda, que lhe preparava o jantar todas as noites.

Aproveitando a saída de Josina, para deixar as filhas na escola, ele indagou à empregada o motivo que a fizera sair da casa de Zilda. Muito franca, ela confessou que não aguentava mais, ver a ex-patroa, abrindo a porta para um rapaz, que todas as noites dormia com ela. Esse namorado era antigo e ela o sustentava.

Genésio só acreditou na empregada, após pegar Zilda em flagrante.

Depois dessa decepção, Genésio acabou o relacionamento com Zilda e passou a jantar em casa.



O PNEU FURADO

Na década de 60, Tarcilda, uma balzaquiana, foi passar alguns dias na casa de uma tia, no interior do Rio Grande do Norte, incluindo as festas de final de ano.

Dessa vez, já com trinta anos, a moça foi disposta a arranjar um namorado, para fins de “um relacionamento sério”. Era louca para se casar, e, por ser muito conservadora, era virgem como nasceu.

Por sorte, arranjou um namorado viúvo, Patrocínio, comerciante rico, considerado um partidão, mas feio de dar dó e piedade. As informações sobre esse homem eram as melhores possíveis.

Patrocínio, o viúvo, apaixonou-se por Tarcilda e foi correspondido. Logo fez questão de apresentar os filhos, já adultos, à atual candidata a “madrasta”, cuja fama, na filosofia de pára-choque de caminhão, “só o nome basta”.

Feitos os “comerciais”, Tarcilda se esforçou para parecer simpática aos possíveis futuros enteados. Fazendo das tripas coração, num esforço sobre-humano, engoliu a antipatia das duas filhas do namorado, de 13 e 15 anos. O filho, entretanto, era simpático e educado, mostrando-se receptivo ao novo relacionamento amoroso do pai. Afinal, um homem de 75 anos, acostumado a ter uma boa esposa ao seu lado, dificilmente iria permanecer sozinho, em caso de viuvez.

Quem foi bem casado, sempre se arrisca a uma segunda união. E para o homem, é difícil viver sozinho, pois é sempre mal-acostumado a depender da esposa para tudo, como dependia da mãe ou avó. Manhoso, quase sempre conta com a cumplicidade da mulher para tudo, principalmente nas lidas domésticas.

Tarcilda ainda sonhava com a lua de mel e com uma futura vida conjugal. Todo namorado que arranjava, acreditava que fosse o seu príncipe encantado, e que iria fazê-la feliz pelo resto de sua vida. Apaixonava-se facilmente, da mesma forma que se desapaixonava.

Num dia de domingo, Tarcilda aceitou o convite do namorado, para um almoço na fazenda de um amigo, que estava aniversariando. Muito arrumada e perfumada, a futura segunda esposa do viúvo foi com ele e o filho ao tal almoço.

Patrocínio foi dirigindo o seu antigo “Jeep Willys 51”, seu carro de estimação, entre os dois carros modernos que possuía na garagem da sua suntuosa casa.

Era verão e o mormaço pedia roupas leves. Tarcilda vestia uma bonita bermuda e uma blusa decotada. Pai e filho usavam bermudas bem diferentes uma da outra. A do filho era moderna e justa. A do viúvo era muito folgada e parecia antiga. Era “démodé”, como dizem os franceses.

A fazenda ficava a 15 quilômetros da cidade, e a estrada ainda era de barro. O Jeep ia devagar, livrando buracos e dando muitos solavancos.

Num dado momento, Patrocínio parou, ao perceber que um dos pneus havia furado. Todos desceram do Jeep.

Sob um sol causticante, pai e filho cuidaram de resolver o problema, enquanto Tarcilda observava de perto.

O viúvo se acocorou, para colocar o macaco e suspender o Jeep, para retirar o pneu furado. Enquanto isso, o filho tratava de pegar o pneu de suporte.

De repente, Tarcilda mudou de cor, diante de uma “visage” que viu na sua frente, e que parecia ter saído do inferno. Os “possuídos” do namorado, de tão avantajados, haviam escapado completamente pela perna da folgada bermuda e estavam arrastando no chão de barro.

A virgem se controlou para não dar um grito de pavor. Essa coisa descomunal fez com que se sentisse ameaçada de morte.

Sua atração pelo viúvo terminou aí. Nunca imaginou que pudesse existir uma arrumação tão feia como aquela. Para ela, na sua frente estava o próprio personagem do filme “O Homem de Itu”, de que já ouvira falar. Jamais enfrentaria aquele perigo iminente.

Tarcilda, completamente sem graça, afastou-se dali e foi se abrigar à sombra de uma árvore. A tenebrosa “visage” foi “água na fervura”. Ficou sem fala e tomou abuso do homem na hora.

Nisso, ouviu a voz do ex-futuro enteado:

-Pai, se ajeite! Tá tudo de fora!!!

Hoje, sessentona, Tarcilda ainda sonha com um príncipe encantado.



O ESTRESSE

O esgotamento nervoso, ou estresse, é uma constante na sociedade atual.

A insegurança em que vivem os servidores públicos e empregados de empresas privadas deixa-os em suspense, vendo a hora o Governo lhes puxar o tapete e jogá-los na rua da amargura, contando seus trocados para sobreviver. Esse drama psicológico atinge também os aposentados. Em cima disso, o Governo suga o que lhes sobra, extorquindo-lhes impostos exorbitantes e absurdos.

Entretanto, ninguém perde por ser honesto. Nada melhor do que poder repousar a cabeça no travesseiro e sentir-se em paz com a sua consciência, sem procurar enriquecer ilicitamente.

O clima de impunidade e violência que assola o País deixa o povo brasileiro cada vez mais estressado, com crises de ansiedade e pânico.

Isso tudo justifica o título do livro de Millôr Fernandes, “Que País é Este?” – publicado em 1978, e ainda atual.

Pois bem. Para falar em estresse, palavra da moda, cujas consequências poderão ter fins trágicos, vai o caso de Jatobá, mais um nordestino, que, décadas atrás, iludido com o que ouvia falar da Cidade Maravilhosa, foi para o Rio de Janeiro, tentar ganhar a vida. Seu maior desejo era arranjar um trabalho, que lhe permitisse mandar um dinheiro certo, mensalmente, para o sustento dos pais e irmãos, que moravam numa pequena cidade do interior nordestino.

No Rio, conseguiu emprego em uma empresa de vigilância. Com o passar dos anos, passou a trabalhar no escritório da empresa. Ganhava uma boa gratificação, além do salário, e era comedido em seus gastos.

Dessa forma, conseguiu seu intento de poder ajudar seu pai no sustento da família. Todos os meses, religiosamente, enviava-lhe uma boa quantia em dinheiro. Isso lhe dava a certeza de que estava cumprindo com o seu dever de filho.

Apesar de gostar muito da cidade grande, depois de alguns anos o nordestino começou a ficar nervoso, com medo de bala perdida e da violência generalizada, mostrada na televisão. Diante disso, resolveu voltar para a sua terra, logo que juntasse um “pé de meia”. Morava no subúrbio, em companhia de dois colegas de trabalho, e só ficava tranquilo quando entrava em casa.

Num dia de muita agitação, começo de mês, Jatobá, ansioso e preocupado com o tempo, sem almoçar, aproveitou o intervalo, para fazer a remessa do dinheiro do pai. O vai-e-vem de transeuntes, na Praça 15, era constante e interminável. Jatobá olhava para o relógio, controlando os minutos que teria para resolver seus problemas. Num dado momento, foi abordado por um rapaz bem parecido, que muito nervoso e agitado lhe falou:

– Corra, Seu José, volte pra Niterói! Sua casa está pegando fogo e sua mulher está dentro, com seu filho, gritando por socorro! Os bombeiros ainda não chegaram!!!

Jatobá entrou em pânico e, desesperado, tomou a barca “Cantareira”, para atravessar a Baía da Guanabara, e chegar a Niterói. Por alguns minutos, esqueceu do depósito que iria fazer. Na sua cabeça, só via a esposa e seu filho prestes a morrerem queimados, no incêndio que estava destruindo sua casa.
Quando a barca alcançou a outra margem, Jatobá teve um momento de lucidez e caiu na realidade:

-Ai, meu Deus! Eu não me chamo José, não tenho mulher nem filho e não moro em Niterói!!! O que foi que eu vim fazer aqui?!!!

E voltou na mesma barca para o Rio.

Muito nervoso e apavorado com a violência da cidade grande, o vigilante deu um jeito de apressar sua volta para o nordeste.



O LENHADOR

Antônio era um lenhador muito pobre, que todos os dias ia com a mulher e os quatro filhos cortar lenha na floresta. A lenha se destinava a uso caseiro. Sempre traziam alguma caça para alimentação. A família vivia numa tremenda miséria. . Os filhos eram todos crianças de 7 a 12 anos. Toninho, o mais velho, era o que mais ajudava ao pai..

Levavam a vida “como Deus permitia”. Antônio tinha se acomodado à pobreza e não tinham esperança de melhorar. Para aumentar a miséria em que a família vivia, veio um inverno violento e as coisas se modificaram para pior. Apavorado, ante a perspectiva dos filhos passarem fome, o homem entrou em desespero. Passava horas perdido em seus pensamentos, à espera de uma luz que lhe mostrasse o caminho que deveria seguir. As caças sumiram com o inverno, e a lenha molhada não acendia o fogo. O feijão e a mandioca que tinham em casa, não garantiam a eles o sustento, por mais um mês completo.

Toninho era muito esperto e logo percebeu a preocupação que afligia seus pais.

À noite, inquieto em sua rede, ouviu o pai dizer para sua mãe:

– Não quero ver meus filhos morrerem de fome. Amanhã, vou levar todos para passear na floresta e lá eles irão ficar. Tenho certeza de que vai aparecer gente caridosa que tomará conta deles e eles não irão passar fome.

A mãe se desfez em lágrimas e protestou:

– Como você pode ser tão cruel?- Se eles tiverem de morrer de fome, que morram ao nosso lado. Morreremos todos juntos.

Porém, o marido completamente transtornado, não quis ouvir mais nada. Também amava seus filhos, mas não podia suportar a ideia de vê-los sofrer..

Pela madrugada, antes mesmo das aves começarem a cantar, o menino levantou-se, correu até junto de um regato, e ali encheu os bolsos com pequenas pedras brancas. Voltou, então, para casa e deitou-se outra vez na rede, fingindo dormir. Estava apavorado, diante da certeza de que, no dia seguinte, o pai iria se livrar dele e dos irmãos. Abafou seus soluços e amargou suas lágrimas em silêncio.

Pela manhã, depois do todos comerem um bico de pão duro com água, disse o pai que todos teriam que ir passar o dia na floresta, para buscar lenha e procurar caças.

No trajeto, Toninho atrasou os passos, e, à medida que andava, ia deixando pelo caminho as pedrinhas que tinha nos bolsos. Bem depressa, chegaram a uma parte da floresta muito espessa, onde as árvores se juntavam muito. Aí, o pai parou e começou a cortar uma árvore, dizendo aos meninos que fizessem feixes com as toras de lenha.

Quando estavam muito ocupados e distraídos com esse serviço, o pai desapareceu. Quando viram que ia escurecer e ele não voltava, as crianças se encheram de medo e os menores começaram a chorar. Toninho os tranquilizou, dizendo:

– Não se assustem. Eu sei voltar para casa. Venham atrás de mim, e chegaremos lá.

Ali muito perto, estava a última pedrinha que ele tinha deixado cair, depois outra e outra, e assim seguindo as pedrinhas, Toninho e os três irmãos chegaram ao casebre onde moravam, sãos e salvos.

Enquanto isso se passava, a mãe, muito triste, chorava sem parar, certa de que tinha visto os filhos pela última vez. Imaginava o que estaria acontecendo com eles, naquela hora, todos ainda tão crianças.

Nesse momento, bateram à porta e chegou um guarda da floresta dizendo que vinha da parte do seu amo, trazer-lhes um bom presente de caça, pois ele tinha sabido da miséria em que estavam vivendo. Antes que a mulher pudesse agradecer, ouviu a porta se abrir novamente e por ela entraram os seus quatro filhos, gritando eufóricos:

– Estamos aqui, mãe! Ficamos perdidos na floresta, mas Toninho acertou o caminho de volta!

Chorando de alegria, a mulher os abraçou e jurou para si mesma, que isso jamais iria acontecer novamente. Quando o pai chegou, depois de ter passado a noite vagando pela estrada, sem coragem de encarar a mulher, a alegria foi grande. Todos pareciam formar uma família feliz.

Mas, a caça recebida não podia durar para sempre. Dias depois, a situação se agravou novamente e para comer, só restava um bocado de pão seco. Toninho percebendo a situação, imaginou logo o que iria novamente acontecer com ele e os irmãos.

Nessa mesma noite, o menino ouviu o lenhador dizer à mulher que levaria, mais uma vez, os quatro filhos para a floresta, na esperança de que pessoas ricas e generosas pudessem encontrá-los e dar-lhes casa e comida.

Mal rompeu a aurora, Toninho saltou da rede e foi abrir a porta para sair, à procura das pedrinha salvadoras. Dessa vez, a porta estava trancada e sem a chave.. Desapontado, voltou para a sua rede, sentindo-se perdido, diante da maldade do pai.

Na hora de tomarem café com pão, Toninho teve outra ideia. Em vez de comer o seu pão, guardou-o no bolso do casaco, para fazer com as migalhas o mesmo que tinha feito com as pedrinhas, marcando o caminho por onde passassem. Logo depois, o pai chamou os filhos e convidou-os a irem com ele, novamente, para a floresta, procurar caça e buscar lenha.

Repetindo a cena, o homem entreteve-se com o seu serviço, e quando viu os meninos distraídos, amarrando os feixes de toras de lenha, fugiu como um ladrão.

Dessa vez, os seus filhos não se assustaram, “Toninho sabe voltar” pensaram os menores. Mas quando o irmão foi procurar as migalhas que tinha cuidadosamente espalhado pelo caminho, não encontrou nenhuma. Os pássaros tinham comido todas. “Estamos perdidos!”. Pensou Toninho, dizendo para os irmãos:

– Venham, meninos! Não podemos ficar aqui!, Daqui a pouco estará escuro”. Disse ele , visivelmente nervoso.

Depressa, o sol se pôs e Toninho, que ia na frente, disse:

– Vejo uma luz! Ali tem uma casa! Vamos pedir para passarmos a noite lá.

Correram todos até a casa e bateram à porta. Uma mulher, com cara de boa pessoa, veio abrir. Mas quando lhe disseram o que queriam, abanou tristemente a cabeça.

“Ai, disse ela, meu marido é um homem mau e não vai gostar de ver vocês aqui. É melhor irem embora..”

Os meninos tremiam de frio e se viram perdidos. A noite já estava totalmente escura, sem lua e sem estrelas.

Cheios de medo, saíram correndo estrada afora, até que, cansados, deitaram-se abraçados debaixo de uma árvore, esperando o dia amanhecer..

Quando viu o dia clarear, Toninho chamou os irmãos, para saírem dali o mais rápido possível. Saíram correndo em disparada, à procura de alguém que os pudesse ajudar.

Vendo o cansaço dos irmãos menores, Toninho resolveu ir sozinho à procura de socorro. Pediu-lhes que ficassem ali sentados, aguardando sua volta.

Muito cansado, chegou a uma enorme casa. Era uma fazenda. Encontrou, no terraço, um senhor muito gordo, risonho e simpático, que lhe perguntou o que fazia por ali. Com muito medo da reação daquele homem que parecia rico, Toninho contou-lhe que ele e seus três irmãos tinham passado a noite na estrada e estavam com muita fome. Tinham sido abandonados pelo pai, que se encontrava sem condições de sustentar a família, na esperança de que pessoas boas os pudessem ajudar. O fazendeiro se compadeceu daquela história e quis ver os outros meninos.

Toninho conquistou logo a simpatia do bom homem, ao dizer que sabia amarrar feixes de toras de lenha, cortadas pelo pai , que era lenhador. Também sabia limpar mato. Disse que ele e os irmãos gostavam de ajudar ao pai, na lida. Obedecendo ao fazendeiro, o menino foi correndo à procura dos irmãos. Em meia hora, estavam os quatro ali, todos tremendo de frio e fome. O homem, imediatamente, conduziu as crianças até uma enorme mesa, onde um lauto café da manhã os esperava. A esposa do fazendeiro, uma boníssima e simpática senhora de 60 anos, também se penalizou com a situação dos garotos. Combinaram, então, de lhes dar abrigo imediato e tomar as providências necessárias, para localizar seus pais.

Ao ficar provado que Antônio, o lenhador, abandonou os filhos, levado pelo desespero, o fazendeiro lhe deu emprego na fazenda.