Coluna: XICO BIZERRA – XICO COM X, BIZERRA COM I

FERNANDA E PAULO

Paulo esquivou-se. Fez que ia, não foi e terminou por mudar de calçada. O que temia? Aquele reencontro já fora seu sonho dourado, mas, àquele dia, não seria apropriado: ele estava triste, sem muita motivação e não queria que ela percebesse que ele envelhecera, que seus cabelos ficaram brancos e que as rugas já haviam lhe visitado. Fernanda, também, já tinha o branco a cobrir-lhe a cabeça e, pernas cansadas, andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora melodiava a trilha sonora de seu andar. Fernanda percebeu Paulo mas fez que não. Olhou pro lado de dentro das casas e pro lado de dentro de si enquanto ele, do outro lado, também virou o olhar pro lado contrário da rua e pro seu lado interior, cansado e desesperançado. Fernanda desapareceu no final da rua. Paulo sumiu do outro lado da mesma rua do mesmo mundo tão parecido e tão diferente. A exemplo de Fernanda, Paulo também andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora melodiava a trilha sonora de seu andar. De seus andares.

DEUS SALVE O CANÁRIO-BELGA 

Quando menino, encantava-me um canário-belga que pousava em minha janela, cantando alegre e belamente. Em sua homenagem resolvi torcer pela Bélgica nessa Copa que está chegando. Será minha modesta vingança em nome dos que se deitam no chão de hospitais da rede pública à espera de um atendimento que, muitas vezes, não acontecem: a morte chega antes. Será meu insignificante protesto contra a educação do País e o transporte público degradante a que o povo está submetido. Será o meu desagravo àqueles que passaram da extrema miséria ao desemprego e à pobreza enorme graças a alguns contos de réis oferecidos para calar a boca destes. Será o meu não-conformismo aos imensos ‘elefantes -brancos’ construídos às custas do povo que paga o maior imposto de todo o mundo. Será o meu Basta! ao roubo, à corrupção, aos malfeitos dos que se elegem e aos que habitam o entorno do nosso mundo político, não me interessando a coloração partidária de suas ‘ideologias’. E tem mais: se a Bélgica não conseguir ir adiante, estarei, de azul e branco, torcendo pela Argentina. Ou pela Espanha, por Portugal ou Uruguai. Quem sabe, a França? Nada de Pátria de chuteiras: a Pátria está descalça e o caminho é pedregoso.

A POESIA, O POETA E A MUSA

Ela detesta poesia. Verdade. Ela me disse. Jamais pararia para ouvir um Poema. Livros de Poesia, nunca os leu. Arredia, é um pé de parede em que a rima fugidia escapa pra casa vizinha onde mora um cabra que, um dia sem querer, inventou a palavra saudade e mandou todos à volta à puta que os pariu. Nunca ouviu falar de Joaquim Cardozo e pouco, ou quase nada, sabia sobre João Cabral. Mas gostava de flores e de pássaros e ficava feliz se o Poeta lhe falasse de luas e estrelas. Mas detestava Poesia, mesmo amando o Poeta. Adorava quando o Poeta lhe dizia – Eu Te Amo! Na verdade, ela ama Poesia.

NUVEM, NEBLINA, CHUVA

Escureço-me
e me faço bonito pra chover.
Sou nada suspenso no ar
precipitando-me até virar nuvem.
Vapores e partículas de gelo
enfeitam o céu
fazendo e desmanchando bichos no alto azul.
Elefantes, jacarés, em breve instante,
passeiam lá no alto
antes de se trasformarem em girafas e em nada.
Neblino.
O ar resfriado me faz líquido
e então gotejo e viro água.
Pinto de verde o chão
e assisto à parição de frutos doces.
O que era semente vira alimento.
Lavo sonhos e enxaguo mágoas.
Águas sou.
Tempo líquido de um quase inverno.
Sou chuva.

VERDE OU AZUL?

Minha cor preferida era o verde até Bernardo me confessar que sua cor predileta era o azul. Então vi como estava errado: claro que o azul é a cor mais bonita, muito mais bonita que o verde. A partir daí, minha cor preferida passou a ser o azul, não importa se claro ou escuro, mas o azul. Não há como discordar da sabedoria de Bernardo. Meu barquinho azul hoje navega no mar azul e as estrelas azuis povoam o azul do céu. E nós, eu e Bernardo, conseguimos vislumbrar barquinhos e estrelas. Nossos olhos vêem as cores que queremos ver. Doce e singelamente. E aí, todos os meus lápis de cor agora são de uma cor só que eu não posso revelar. Ganha um presente azul quem descobrir a cor dos meus lápis. São tão coloridos quanto os lápis azuis de Bernardo.

VIVA A MULHER, VIVA A MÃE

Súbito, a luz.

A claridão invade os olhos e tudo aquilo que não se via agora está à vista. Parece tão simples quanto um interruptor que, a um simples toque, permite que o dedo invente o claro e faça o escuro já não ser.

E é assim, tão simples quanto sublime, a invenção que antecedeu a de Thomas Edison, muito tempo antes de a lâmpada ter sido inventada.

Um homem, uma mulher, o amor. Depois de nove meses, a luz. Naturalmente. O desprisionamento, a liberdade, a vida.

O acolher no colo, o amar e o babar a cria, cumprindo o milagre divino da vida, dádiva de Deus.

Do óvulo à gente, a parição sublime, o dormir seu resguardo com as tetas cheias de leite para nutrir o novo cidadão que acaba de conhecer o claro.

Viva a luz e viva aquela que a produz!

Viva a mulher mãe!

(In BREVIÁRIO LÍRICO DE UM AMOR MAIOR QUE IMENSO, Xico Bizerra, Edições Bagaço, 2013)

NEBLINA E TEMPESTADE

Antes de tornar-me chuva, neblinei-me lentamente em meio às nuvens cinzentas que flutuavam sobre meu chapéu. Ao primeiro pingo mais grosso, pressenti o brotar de um pé de verso, carregado de poesia, rimas e amor, no jardim de minha casa, bem ao lado ao lado do meu pé de manacá. A semente do bem-querer virou flor. Já quase tempestade, deixei-me envolver no lençol das lembranças boas e dormi o sono dos que acreditam que pode haver um mundo feliz. E sonhei. E ainda sonho. E sonharei até quando for possível sonhar.

MORADA DOS LAGARTOS E DAS PEDRAS

Sinto-me sede e redescubro o pote que repousa, seco, à sombra de uma esquina esquecida dentro de casa. Sobre ele descansa o caneco de alumínio areado, quase inox, capaz de saciar-me, de amenizar o soluço doloroso da falta de saliva, a pouca água que me visita, às vezes. Mas nada se contém no pote além do seu destino frustrado de saciar sedes. Frustração de um barro que poderia ter sido um violeiro de Vitalino e transformou-se num artefato sem utilidade naquele sertão sem águas. Sou sede de justiça, do bem comum, tão incomum nas bandas de cá, das planícies distantes, da morada dos lagartos e das pedras. Sedo-me e aguardo a água, uma ribançã que seja voltando para casa com a asa molhada, um trovãozinho ‘peido-de-véia’ ou um relampo pequenininho, do tamanho de minha fé que está indo embora, no primeiro pau-de-arara que aparece levantando a poeira da vergonha. Sêde justo, meu Deus.

PAVÃO MYSTERIOZO – Revisita – Xico Bizerra

Misterioso pavão de colorida cauda: qual teu destino secreto senão o mistério dos céus desconhecidos? Tu és formoso e em tua cauda aberta em leque me guardarei moleque num eterno brincar, enquanto moço sou e serei. Voa, e diz àquela donzela que de tuas faíscas despejadas em trovões haverá de nascer a força para contar nossa história de amor no combate feroz contra os condes raivosos, que são muitos, eu sei, mas não sabem voar. Menos ainda nos nossos céus de anil em que misturas as cores de tuas penas de matizes tão fortes quanto o nosso amor.

PIRILAMPOS E VAGALUMES

Bem sei, deveria pirilampear em tua noite escura na mais pura esperança de te abraçar. Mas uma nuvem negra e espessa de tão carregada me carregou de volta à solidão, velha companheira, não me deixando ser o vagalume desejado. Tentei, em vão, relampejar a minha claridade mas a cidade, sonolenta, preguiçosa e ainda não desperta, não deixou que meu sonho prosperasse. Nada a fazer a não ser me enuvencer cinzento e chorar as mágoas junto com a chuva que cai e molha as lágrimas do meu rosto. Trovões fazem coro ao meu sofrer.

O FILHO DA FILHA DE DONA DULCE

O arrulhar dos mais gentis pombos e o zunir de abelhas aflitas pelo excesso de mel levam para Bernardo o silêncio de um belo sino a badalar na mais antiga das igrejas do meu povoado. E o filho da filha de dona Dulce, no sigilo misterioso que se contém no bater de asas de uma nuvem colorida de borboletas, olha para mim, ainda sem saber falar, mas já balbuciando a palavra Amor, deixando escapar na ternura de seus olhos a canção de Paz por que tanto lutei. E depois, no calor de um grão de chuva, neblina pouca em uma manhã de sol, sinto na pele o amanhecer do dia ao preparar os meus milhares de colos e berços para receber Bernardo, enquanto começam a surgir as notas da canção que pensei criar e que o desassossego da vida só permitiria compor os primeiros acordes. Mariana dança. Sua mãe sorri. Bernardo agora dorme o sono do ano um, enternecendo minha tarde de domingo. Era 2014, outubro.

CHUVA CHEGANDO

Bem que eu achei que estava bonito pra chover. Céu cinzento, um vento arejador e portador de boas novas. Daí, pingos e mais pingos. Esse água que cai do Céu serve também pra nos fazer lembrar da existência de um ser supremo que transforma nuvens em rimas e poemas em chuva. Que bom ver de volta a ribançã com a asa molhada e o chão vestindo um verde bonito como os tons da fartura. Motivação e inspiração para os poetas, cantadores e outros loucos de plantão. Saudemos a sagrada água e agradeçamos sua chegada com letras, palavras e versos com a cor dos crisântemos, o cheiro das rosas e a beleza das dálias e margaridas. Será tudo poesia, sonetos e poemas, a saudar o bom tempo que se anuncia. Acordai, Poetas: a chuva chegou.