PRIMAVERAR

desde sempre sou assim:
quando em vez me primavero,
antes que o verão me abrace
e me leve o cheiro da flor …

deixo-me no sereno,
antes que as folhas do outono
embacem o meu pensar
e me proíbam lembrar a flor

inverno-me e chovo
com todos os pingos da chuva,
e deixo-me molhar de alegria
para nunca esquecer a flor …

e na chegada do verão,
meus jardins então floridos,
aromas e cores a me afagar,
sinto o cheiro bom
pois sempre há flor…

VOTO ABERTO

(Esta crônica foi escrita antes do dia 7. Assim, quando for publicada, na segunda, dia 8, já teremos, ou talvez não, o novo comandante do barco verde-amarelo. Será que desperdicei o meu voto?)

Já sei em quem vou votar. Declaro abertamente meu voto ao amigo Rochinha, candidato independente política e ideologicamente, que promete um Ministério de duendes, fadas e elfos para cuidar da Secretaria das Coisas Impossíveis. Obriga-se com a nomeação de um agente social muito bem intencionado e falante que visite as casas do povo para tomar um cafezinho e falar da vida alheia … Também serão criadas a Assessoria de Sonhos e Prevenção a Pesadelos, a Comissão Interministerial de Visitas a Senadores Inoperantes, o Centro de Ócio Permanente e uma Procuradoria Geral Para Assuntos Irrelevantes. No Plano de Governo a criação da Ouvidoria Especial de Poetas, a Diretoria Consultiva de Afazeres Domésticos Noturnos e o Conselho de Nuances Semânticas. Tantas promessas boas já me fizeram decidir em quem votar. Condiciono meu sufrágio, porém, a que ele inclua no seu programa a criação do Bolsa Sorriso, disponibilizando-o a todos que sofrem com diarreia, cáries dentárias e desamor. Também exijo que ele determine, de imediato, a construção de uma fábrica de fazer carinho e de uma escola de ensinar abraços. Se não for muito condicionar, peço que não esqueça de derramar muitas flores na estrada dos encantos juvenis e na beira do açude dos prazeres inadiáveis. Com o meu voto e de outros tantos que ainda acreditam na felicidade geral, ele estará eleito no curral eleitoral dos homens e mulheres de boa vontade, onde cada voto é trocado por um beijo sincero, um sorriso terno e um piscar de olhos sedutor, fugaz e cheio de encanto. Pouco me importa quem será seu vice: meu voto será de Rochinha. Está decidido!

O ARADO E O ARADOR

O terreno, devastado, está à espera de quem tenha competência para cultivá-lo, tornando-o fértil e útil para quem nele vive, para quem dele depende. A nós, pobres mortais, mas ainda com poder de decisão, compete escolher o arador certo, como bem disse um Poeta amigo meu. Ter a liberdade de escolher o arado já é um grande privilégio, impensável em outros tempos. Melhor, porém, é saber escolher quem vai pilotar esse arado. Se mal escolhido, a amplidão dos sonhos, de que fala as pessoas sábias, pode transformar-se numa estreiteza em que não passe a menor das pedras que desejamos filtrar, um terreno tão árido que não aceite e impeça a floração da boa semente, que impossibilite a colheita de flores. Não quero canhões, nem porões, nem ladrões. É preciso ter cuidado. Caminhar, cantar e seguir a canção é muito bom, mas isto só, não basta. O mundo é bem mais vasto.

ACORDAR SONETO

Beber um trago de Poesia, com gosto de Quintana e esbarrar na pedra que atrapalhava o caminho de Drummond. Daí é um passo para o reencontro com as rãs com que sonhava Manoel de Barros. As canções de um certo Buarque, também chamado de Chico, se insinuam entre um canto e outro do passarinho Bandeira, misturando o encanto de suas palavras com as do distante Neruda ou as dos tão próximos Louros e Pintos de nossos sertões. Presentes, todos os Severinos de João Cabral. E aí não dá para não torcer pelo encontro iminente da lua carente com o incerto sol, deixando a todos nós, sob o clarão das estrelas, balançando numa rima, cochilando num verso, dormindo num poema para, feliz, acordarmos num soneto de amor.

SILÊNCIOS E BARULHOS

Para onde vão nossos silêncios quando calamos nosso sentir? Acho que se arraigam em nosso peito e se escondem nos vazios da alma até que alguém os descubra, antes que virem pesadelos. E então descobertos, eles tagarelam com toda a zoada que o silêncio liberto pode permitir. É quando os sentimentos se mostram presentes para iluminar, colorir e perfumar nossa vida, tornando-a um poço de possibilidades alvissareiras em que o barulho silencioso de um abraço torna-se tão envolvente quanto o silêncio ensurdecedor de um reencontro desejado. É quando silêncios e barulhos se desimportam e se confundem ante a importância do todo ao redor, da pequenina e distante estrela à imensidão do mar.

NÃO DIGO

vem e tá chegando …
embrulhado num pingo de chuva,
amarrado numa bula de remédio,
‘apregado’ no suor do matuto …

vem, chega já, já
no fumacê do cigarro,
no pincinês do ‘ ceguim’,
no vidro de merthiolate no fundo da bolsa …

vem, eu já tô vendo
escondido na pestana de uma puta,
‘amontado’ na boléia de uma mula,
no algodão de um cotonete …
vem, e já chegou
chegou das bandas de lá,
e não me pergunte o que é …
eu sei mas não digo!

VERBO AMAR E VERBO MENTIR

Verdades e mentiras andam encangadas na mesma cangalha, abraçadas no mesmo caçuá. Às vezes a carga pende pra um lado e a gente mente verdades que no dia seguinte soam falsas, como na verdade são; outras vezes verdadeirizamos mentiras de uma forma tão real que elas terminam por confundir quem as ouve. Mas bom mesmo é quando todas as verdades nos apraz e satisfaz a quem amamos. Aí até esquecemos o que é a mentira. Pra quê, se recitar o verbo amar é muito mais doce que declamar o verbo mentir?

SAGRADA E BENDITA ÁGUA

A água é sagrada. Quem é do sertão sabe a razão. E exatamente por isso ela deve singrar areias e leitos secos, molhando-os da leveza úmida de seu correr. Em alguns dos Sertões que há, restam ainda cacimbas vazias e galões que precisam andar léguas para dar uma gota d’água para o sertanejo beber. Noutros Sertões, um quase rio virou um quase mar, um oceano de alegria e esperança. Benditos canais que levam um verde de confiança aos homens, um resto de crença em Deus, um rastro de fé. Um copo de água benta, o quase suficiente para afogar as mágoas do homem simples do mato que por ela esperou tanto, tanto … Que sejam secadas todas as lágrimas matutas derramadas com a seca e que as sedes sejam saciadas. Todas. As de justiça, inclusive.

VIAGEM DAS ÁGUAS

À sombra de uma mangueira, no quintal da casa de minha avó, vejo o rio passar. Um filete de água, apenas, mas o rio mais bonito que conheço. Igual a ele, nenhum outro. Nem o rio da aldeia de Pessoa. Todos os rios dos Poetas são bonitos, mas o da minha Aldeia é mais. À frente, ele se juntará a outros rios e estes a outros e outros até desembarcarem, todos de mãos dadas, ainda doces, no salgado do mar. Chove e a chuva fininha tenta encher o bucho do rio mas o bucho é grande e a chuva, pouca. Os pingos são apenas gotas minguadas em seu ventre. Servem apenas para molhar as pedras, pintadas de verde pelo lodo. Minha avó se preocupa que eu não vá à margem, que eu não escorregue. Não vou. Consola-me o distante olhar. Penso no mistério dos peixes quando, à tarde, o sol se afoga em suas poucas águas. É o rio parindo sossego e alegrando a pupila de meus versos. No dia seguinte, de sóis e claras manhãs, tento decifrar a correnteza e imaginar a viagem das águas. E eu, pequenino diante do mundo, diante do rio, também pequenino, respiro a vida daquela água limpinha que corre para o mar.

PÉS DE TODO MÊS

Plantações de Janeiro, se não tiverem o adubo de Dezembro, dificilmente chegam a Março. E o local a ser plantado tem que ser bem escolhido, perto dos sonhos e bem distante do poço da ganância de jardineiros que vestem paletó e viajam pro Planalto para se esconderem de nós nas poucas esquinas que aparecem por ali. Para aguar, a água tem que ser colhida na fonte dos desejos solidários e terá que ter a cor da esperança misturada com o amarelo do sol. E água tem cor? – perguntarás. Claro que tem. Veja a chuva caindo maneira, pouco mais que um chuvisco e você entenderá o que quero dizer. No mais, é deixar o pé-de-janeiro por conta das estrelas sorridentes e da lua alcoviteira. Ele florescerá e, quando você menos esperar, será setembro e ele fará sombra para as flores que chegarão ansiosas por lhe fazer companhia. Que venham os Outubros …

DOR DE FLOR

Um amigo meu disse sofrer de árvore. Ele sempre acorda com pássaros pousados nos cabelos desgrenhados solfejando ventos, declamando brisas e cantando tempestades. Disse-lhe que essa dor eu quero ter. Sofrer de árvore é tão doce como padecer de flor, coisa que bem conheço por comigo acontecer sempre. E desperto cantando aromas e cheirando amores, misturado com sorrisos alegres. Outro dia senti dores de mar. Ondas e marés suaves e ternas embalaram meu despertar e ensolararam meus pés ansiosos por andar, de areia em areia, até o paraíso de uma floresta verde enfeitada por rios e riachos, árvores e frutos, borboletas e pirilampos. E fui ao encontro do padecimento que só encontro na flor. E se me aparece um analgésico, eu o enterro no primeiro jardim, perto da roseira mais bonita. Deixem-me a dor de flor …

VOTO ABERTO

Já sei em quem vou votar. Declarei meu voto ao amigo Paulo Rocha, candidato que promete uma equipe de duendes, fadas e elfos para cuidar do Ministério das Coisas Impossíveis. Um agente social muito bem intencionado que visite as casas do povo para tomar um cafezinho e falar da vida alheia … Também serão fundadas a Assessoria de Sonhos e Prevenção a Pesadelos, a Comissão Interministerial de Visitas a Senadores, com tudo pago, o Centro de Ócio Permanente e uma Procuradoria Geral Para Assuntos Irrelevantes e outras ideias que são “contra tudo que está aí”, como a Ouvidoria Especial de Poetas, a Diretoria Consultiva de Afazeres Domésticos Noturnos e o Conselho de Nuances Semânticas. Tantas promessas boas que já me fizeram decidir em quem votar. Condiciono meu sufrágio, porém, a que ele inclua no seu programa o Bolsa Sorriso, disponibilizando-o a todos que sofrem com diarreia, cáries dentárias e desamor. Também exijo que ele determine, de imediato, a construção de uma fábrica de fazer carinho e de uma escola de ensinar abraços. Se não for muito condicionar, peço que não esqueça de derramar muitas flores na estrada dos encantos juvenis e na beira do açude dos prazeres inadiáveis. Com o meu voto e de outros tantos que ainda acreditam na felicidade geral, ele estará eleito no curral eleitoral dos homens e mulheres de boa vontade, onde cada voto é trocado por um beijo sincero e um piscar de olhos sedutor, fugaz e cheio de encanto.

DIA DOS AVÓS

Inventaram o dia dos Avós. Foi ontem. Penso que todo dia é o dia deles. Ainda que assim não seja, é muito bom ser avô, todo dia. Sobre isso, disse Rachel de Queiróz (e quem sou para dela discordar?) “Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu… É como dizem os ingleses, um ato de Deus” … “Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é devolvido.“ …Disse ainda Rachel: “E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: “Vô!”, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!” Salve Bernardo, que me dá a alegria de ser avô.

TRISTEZA

Era triste. Tão triste quanto um jardim deserto de flor ou uma terra que não vê chuva, vários invernos ausentes. Não se sabia exatamente a razão da tristeza daquela mulher. Sabia-se, apenas, que ela era triste. E sua tristeza era plenamente perceptível aos olhos até dos mais desatentos: bastava olhar para senti-la triste, talvez desesperançada. Por certo, algum amor não correspondido ou uma saudade escondida no fundo do peito. Na verdade, toda tristeza é quase igual, seja de saudade, seja de desalento ou mágoa. Fere a alma e magoa o coração da mesma forma, quase. Nunca me atrevi a perguntar-lhe a razão de tamanha tristeza. Talvez, com receio de que também ficasse triste ao saber. Temor de que tristeza fosse algo contagiante. E é. Só de vê-la triste também entristeci.

ONDE O VENTO FAZ A CURVA

Lá onde Judas perdeu as botas e o vento costuma fazer a curva, pedi ao senhor dos ares, com a maior das humildades, que, antes de fazer a volta, viesse acariciar minha alma e afagar meu coração. Estava precisado. E o vento atendeu ao meu pedido, sorrindo com jeito de conivência. Também sorri satisfeito por saber que há razões ainda para cantar e fazer versos. E os farei. E cantarei. Enquanto razões houver estarei atento para saudar o dia, o céu, o sol, a noite e as estrelas. Quanto à lua, esta eu sempre reverenciei e assim vou continuar fazendo, retribuindo tudo o que dela recebo. E não é pouco.

O DIA SEM SOL E NOSSOS POLÍTICOS

Essa Copa de algumas surpresas serviu também para revelar-me uma região da Rússia, onde está situada a cidade de São Petersburgo, onde o sol permanece ‘aceso’ por 18 horas durante o dia, por conta do fenômeno relacionado à sua posição geográfica. Hoje, por exemplo, dia da semifinal da copa, sábado, 14 de julho de 2018, o nascer do Sol ocorreu às 4:01 h e seu pôr se dará às 22.07 h, perfazendo um dia com 18 horas, 5 minutos e 29 segundos.

Há outras regiões em que isto ocorre com maior intensidade, não havendo noites, literalmente. A lua vive de férias e o sol trabalhando 24 horas por dia. No verão no Polo Sul , durante quatro meses, a noite é inexistente, ou seja, vários dias de 24 horas com o sol brilhando no céu.

Em outros lugares a natureza se diverte de forma diferente: são vários dias de escuridão, sol escondido e muito mais frio durante o inverno. Em Norilsk, por exemplo, três meses por ano, de novembro a fevereiro, o sol não nasce e somente a aurora boreal rompe a escuridão da longa noite. Ventos e o frio são quase eternos.

Dentro da utopia que às vezes nos ajuda a sonhar, fiquei a imaginar fosse o Brasil situado vizinho à Norilsk, num lugar em que não existisse dias e que o sol não aparecesse. Seriam 24 horas de lua, de muitas luas, de noites longas, escuro total. Seria o local ideal onde deveriam morar nossos políticos: talvez as 24 horas às escuras os estimulassem a dormir e, dormindo, não pudessem nos roubar. Talvez sonhassem com o roubo, como sonho com a existência desse lugar. Sonhar ainda pode.

SER PASSARINHO

Acordei querendo ser passarinho. Outra vez. Mas não fui capaz. Tentei. Há dois minutos, não mais, pela última vez e soltei-me a cantar. Mas ninguém ouviu. Estavam todos preocupados com a Síria e com Trump. Meu canto era mais desimportante que o ditador coreano ou a malvadeza dos tiranos. Lembrei-me que há dois mil anos quem foi passarinho, de tanto cantar o bem, teve as asas espetadas numa cruz e ali ficou. De nada adiantou ter voado sementes e abençoado colinas. Voei dez mil anos atrás: foi quando descobri-me dinossauro, que não sabia voar. Que não adiantava cantar. Mas vou continuar tentando. Passarinho serei. Não tenho vocação para dinossauro.

TEMPO DE DRUMONDS E BANDEIRAS

Um dia, eu também quis ir pra Pasárgada dos meus sonhos, mas no caminho do meio tinha uma pedra colocada pela nora que nunca tive. E nem adiantou dizer que era amigo do rei, pois tinha uma pedra no meio do caminho que não me deixava passar, tornando impossível aquele caminho. Não adiantou invocar Joana, a louca da Espanha: não houve meio de tirar a pedra do caminho. Chamei, chorei, clamei, e mãe-d’água não veio me contar as histórias do meu tempo de menino, dos tempos de Rosa, porque tinha um caminho de pedra no meio e minha água foi pouca para bater e furá-la deixando o caminho sem pedras tal e qual as estradas da Pasárgada verdadeira, onde não existe a vontade de se matar, onde as pedras são pequeninas, quase grãos. Onde todos são apenas Carlos, alguns Manoel. Tantos Drumonds e tantos Bandeiras. E hoje, aprendido o caminho, retiro as pedras e volto à Pasárgada. É que lá sou amigo de Bandeira. Pode perguntar a Drumond …

CASAMENTO MATUTO

Era semana pré-carnavalesca e o Anjo da Guarda de Bastião, mermo de ressaca, nesse dia tava de prontidão e foi ele quem segurou a mão de seu Benedito de Dora, que já tava se coçando em procura da lambe-suvaco amolada, num sei quantas polegadas. O ‘bigodim de beiço de gato mijado’ do caba fazedor da mal à fia dele chega arrupiou-se todim. E Francisquim, ali quieto e embuchado já há cinco meses, só assistindo, de camarote, à solenidade. O cabra do Cartório já tava meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório. Quando Padre Luiz, afinal, perguntou se tinha alguém contra aquele casamento, Francisquim arretou-se, levantou o dedo, de dentro do bucho cutucou o umbigo da mãe menininha do Crato e gritou em alto e bom som pra todo o sertão do Araripe escutar: ‘tem não, seu Pade, se avexe e acabe logo esse babado que eu tô querendo descansar um pouquim’. Descansou por mais quatro meses, sonolento e preguiçoso desembuchou, e hoje tá aí, contando história, fazendo poesia bonita que só a gota e aumentando a prole. Benedito Neto que o diga. E inté hoje são felizes que só a gota serena!

FERNANDA E PAULO

Paulo esquivou-se. Fez que ia, não foi e terminou por mudar de calçada. O que temia? Aquele reencontro já fora seu sonho dourado, mas, àquele dia, não seria apropriado: ele estava triste, sem muita motivação e não queria que ela percebesse que ele envelhecera, que seus cabelos ficaram brancos e que as rugas já haviam lhe visitado. Fernanda, também, já tinha o branco a cobrir-lhe a cabeça e, pernas cansadas, andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora melodiava a trilha sonora de seu andar. Fernanda percebeu Paulo mas fez que não. Olhou pro lado de dentro das casas e pro lado de dentro de si enquanto ele, do outro lado, também virou o olhar pro lado contrário da rua e pro seu lado interior, cansado e desesperançado. Fernanda desapareceu no final da rua. Paulo sumiu do outro lado da mesma rua do mesmo mundo tão parecido e tão diferente. A exemplo de Fernanda, Paulo também andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora melodiava a trilha sonora de seu andar. De seus andares.

DEUS SALVE O CANÁRIO-BELGA 

Quando menino, encantava-me um canário-belga que pousava em minha janela, cantando alegre e belamente. Em sua homenagem resolvi torcer pela Bélgica nessa Copa que está chegando. Será minha modesta vingança em nome dos que se deitam no chão de hospitais da rede pública à espera de um atendimento que, muitas vezes, não acontecem: a morte chega antes. Será meu insignificante protesto contra a educação do País e o transporte público degradante a que o povo está submetido. Será o meu desagravo àqueles que passaram da extrema miséria ao desemprego e à pobreza enorme graças a alguns contos de réis oferecidos para calar a boca destes. Será o meu não-conformismo aos imensos ‘elefantes -brancos’ construídos às custas do povo que paga o maior imposto de todo o mundo. Será o meu Basta! ao roubo, à corrupção, aos malfeitos dos que se elegem e aos que habitam o entorno do nosso mundo político, não me interessando a coloração partidária de suas ‘ideologias’. E tem mais: se a Bélgica não conseguir ir adiante, estarei, de azul e branco, torcendo pela Argentina. Ou pela Espanha, por Portugal ou Uruguai. Quem sabe, a França? Nada de Pátria de chuteiras: a Pátria está descalça e o caminho é pedregoso.

A POESIA, O POETA E A MUSA

Ela detesta poesia. Verdade. Ela me disse. Jamais pararia para ouvir um Poema. Livros de Poesia, nunca os leu. Arredia, é um pé de parede em que a rima fugidia escapa pra casa vizinha onde mora um cabra que, um dia sem querer, inventou a palavra saudade e mandou todos à volta à puta que os pariu. Nunca ouviu falar de Joaquim Cardozo e pouco, ou quase nada, sabia sobre João Cabral. Mas gostava de flores e de pássaros e ficava feliz se o Poeta lhe falasse de luas e estrelas. Mas detestava Poesia, mesmo amando o Poeta. Adorava quando o Poeta lhe dizia – Eu Te Amo! Na verdade, ela ama Poesia.

NUVEM, NEBLINA, CHUVA

Escureço-me
e me faço bonito pra chover.
Sou nada suspenso no ar
precipitando-me até virar nuvem.
Vapores e partículas de gelo
enfeitam o céu
fazendo e desmanchando bichos no alto azul.
Elefantes, jacarés, em breve instante,
passeiam lá no alto
antes de se trasformarem em girafas e em nada.
Neblino.
O ar resfriado me faz líquido
e então gotejo e viro água.
Pinto de verde o chão
e assisto à parição de frutos doces.
O que era semente vira alimento.
Lavo sonhos e enxaguo mágoas.
Águas sou.
Tempo líquido de um quase inverno.
Sou chuva.

VERDE OU AZUL?

Minha cor preferida era o verde até Bernardo me confessar que sua cor predileta era o azul. Então vi como estava errado: claro que o azul é a cor mais bonita, muito mais bonita que o verde. A partir daí, minha cor preferida passou a ser o azul, não importa se claro ou escuro, mas o azul. Não há como discordar da sabedoria de Bernardo. Meu barquinho azul hoje navega no mar azul e as estrelas azuis povoam o azul do céu. E nós, eu e Bernardo, conseguimos vislumbrar barquinhos e estrelas. Nossos olhos vêem as cores que queremos ver. Doce e singelamente. E aí, todos os meus lápis de cor agora são de uma cor só que eu não posso revelar. Ganha um presente azul quem descobrir a cor dos meus lápis. São tão coloridos quanto os lápis azuis de Bernardo.


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