SILÊNCIOS ABSTRATOS

No meu espaço desmedido, por desmesurado que é em relação à pequenez que me acompanha, deixo-me envolver na dureza que o concreto propicia, deparando-me, quando em vez, com todos os silêncios abstratos que povoam minha alma. Nessas terras de rara existência e pouquíssimos sonhos percebo que a poesia areja e arejará a alma das pessoas, que o verso limpa o coração dos homens ensejando-lhes sentimentos bons. A pedra do silêncio continuará sendo pedra, imóvel enquanto alguém não a chute, muda, mas que pode ser bem lavada, limpa, embora continue silenciosa, mas abstraída do ruim. Se assim for, de tão bonita, ninguém ousará atirá-la contra alguém. De tão silenciosa e serena calará nos homens os sentimentos maus. E pedras deixarão de ser atiradas. Chegará o dia?

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A MENINA DO SINAL

As televisões anunciam o jornal das oito. A avenida, já um pouco menos lotada de automóveis, de pedintes e de lavadores de para-brisas. A menina que distribuía sorriso no sinal da esquina, neste final de dia, volta para a favela sobrando-lhe tristeza e chicletes não vendidos. A dor se reflete em sua retina. Na bolsa quase vazia, esperança em porção pouca. Alegria e miséria não se unem, exatamente porque interesses opostos se digladiam, água e óleo desunidos que são: o rico é rico, o pobre é pobre. E a força do pobre é menor que a prepotência do rico. Luta inglória, rochedo e marisco. A chuva que vem prenunciada pelo assobio do vento confirma a negritude dos tempos que estão por vir. Se acinzenta o horizonte. Tudo como dantes. Nada mudou. O sinal ficou verde e todos partiram. Buzinas e faróis, algaravia total. Nem a menina do sinal ficou. Ela também partiu, magra e frágil quanto sempre foi, desde quando, recém-nascida, se abraçava ao peito da mãe, tão frágil e magra quanto ela, pedindo esmola naquele mesmo sinal, incitando misericórdia nos motoristas que as via e lhes dava uma moeda para depois seguirem se enganando com o equivocado sentimento da consciência tranquila e do dever social cumprido. Amanhã cedo, após a chuva, aquela menina voltará àquela esquina, com seus chicletes, um sorriso banguela de desesperança plena e um olhar cor de tristeza profunda. Nada mudou. Tudo como dantes no sinal de Abrantes.

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MEU ROMANCE – QUEM VIVER, VERÁ

No campo das escritas, gosto do pouco: escrever pouco. Por isso escrevo crônicas, pequenas. De vez em quando, faço versos, também pequenos que, de quando em vez, se transformam em canções. Assim, restrinjo a possibilidade do erro. Gosto, também, de fazer histórias infantis que, por assim serem, dispensam maior extensão, são sempre curtas. Em se tratando de textos mais longos, prefiro lê-los. Calma e preguiçosamente. Mas, ainda assim, estou começando a escrever um romance, um pequeno romance, não mais que 160 páginas, para não fugir à regra, contando a história de Bastião do Jesus Bom, um deficiente mental, um louco, apaixonado por Tieta, uma quase irmã de caridade (era assim que chamávamos as freiras na minha cidadezinha do interior). Por conta dessa remotíssima possibilidade de a impossibilidade tornar-se possível, Bastião vai-se tornando, inversamente à lógica, cada vez mais lúcido, menos louco, ao contrário de sua Tieta, que se aliena aos poucos até tornar-se tão louca quanto louco era seu pretendente. O livro está escrito até o Capítulo 5, os personagens com seus perfis delineados e até o seu desfecho também está escrito. Falta, apenas, coragem, para retomar o lápis e dar andamento ao projeto. A expectativa é que eu conclua o trabalho em meados de 2040, dentro, portanto, de vinte e dois anos. Tivesse eu a disposição, o talento e a genialidade de Dr. José Paulo, que gastou apenas 10 anos para pensar, escrever e concluir sua obra prima sobre Fernando Pessoa, eu não levaria tanto tempo para conclusão de meu romance. Mas se a preguiça deixar e a saúde permitir, o acesso às bestagens e bobagices de meu romance se dará neste ano 40 que está por vir, daqui a 5 copas do mundo.

A CASA DAS DUAS JANELAS

A casa tinha apenas uma porta, sempre fechada, ladeada por duas pequenas janelas, sempre abertas. Os passarinhos não precisavam de porta aberta para adentrar àquela casa: faziam-no por uma das janelas, à livre escolha de suas asas. Dentro da casa, o velho solitário lia livros antigos balançando-se em sua cadeira enquanto o sono não lhe vencia. E o sono sempre vencia, forte e inabalável, aquele contendor já fraco e sem forças. Pelo chão, grãos de milho que o velho espalhava logo cedo para atrair as aves. Ele gostava do convívio com os pássaros. Seus cantos se espalhavam pelos cantos da casa e fazia do velho um velho quase feliz. E nada lhe exigiam. Um dia acabou o milho. A seca não permitira a colheita do grão. Nada mais havia a oferecer aos pássaros, além de um sorriso amarrotado pelo tempo e um jeito sereno de ver a vida. Mas, para sua surpresa, os bichos não o abandonaram e continuaram a fazer a mesma festa diária, ainda que sem o milho que outrora lhes era oferecido. O velho sorria a cada ‘serenata’. Lembrava-se, quando em vez, dos tempos áureos antes da rasteira que a vida lhe preparara, levando seus bens, inclusive uma casa com várias portas e janelas. Sobrou-lhe aquela, apenas. A porta, agora sem utilidade, vivia sempre fechada porque os amigos o abandonaram tão logo tomaram conhecimento de sua derrocada, do início de sua estrada rumo à pobreza. Ninguém por ela entrava ou entraria. Hoje, final do dia, o velho, cansado e desiludido, fecha as janelas (a porta, nem precisa pois fechada já está), coloca o livro que lê sobre a mesa, enxuga uma lágrima teimosa e insistente e deita. Ainda assim e apesar de tudo, sonha. Imagina o dia em que a amizade seja verdadeira e em que os homens não precisem de milho para enfeitar a vida dos amigos com seus cantos. Sonha com o dia em que os amigos sejam como os pássaros, que valorizam muito mais a amizade que um grão de milho. Com o dia em que uma porta aberta tenha serventia.

TENENTE AGUIAR

Os anos 60 vestiam fraldas. Corria célere o de 62, ou o de 63, não tenho certeza. Na casa do Tenente Aguiar, bairro de Nazaré, em Fortaleza, morava o único televisor da região. Luxo de poucos. O militar, caladão, abusado, cochilava e peidava em sua poltrona, sonhando um dia ser Capitão. Sua esposa, Dona Madalena, ao contrário dele, era afável, talvez para compensar a cara-durice de sua cara-metade. Aquela casa ficava na rua paralela à nossa Francisco Parrião (nunca descobri quem era ou o que fez esse cidadão para merecer nome de rua), e, para lá íamos ficar parados em frente à única janela aberta para a rua, eu e muitas outras crianças, olhos arregalados, esperando entrar no ar o Vídeo Alegre, TV Ceará, início de carreira de Renato Aragão. Tempos em que não havia o Faustão. Como demorava bater 8 horas da noite! Às risadas se juntava a frustração da falta de um assento, um tamborete que fosse, para a gente se sentar. As trapalhadas, nas quartas-feiras, eram a diversão maior de todos nós. Sobravam gargalhadas e pernas doídas depois de uma hora em pé na janela da casa do Tenente. Tempos depois, lembro bem, meu pai conseguiu comprar uma TV, SEMP, acho que de 20 polegadas, com uma antena em forma de ‘V’ sobre ela. Na época inventaram um plástico colorido, vermelho-amarelo-verde que se colava à frente da tela preto e branca e aí tínhamos a TV colorida. Literalmente colorida. Ficamos todos felizes. Pedi a meu pai, e ele atendeu, que colocasse na sala um banco grande que coubesse os 7 ou 8 meninos que comigo assistiam Renato Aragão se transformar em Didi Muçu, em sua fase pré-Trapalhão. Além de sentados, víamos o programa ‘a cores’ e sem precisar ouvir o ronco do quase velho Tenente Aguiar. Aquela era a única TV ‘a cores’ da Região. Até dona Madalena rendeu-se aos apelos ‘tecnológicos’ da época e um dia foi assistir a novela colorida, sentada no banco da meninada que, àquela hora, jogava bola de meia na rua Francisco Parrião. Inocente e alegremente, sem notícia de trapalhadas como as que hoje frequentam as não-esquinas de um Planalto brasileiro. Só muito tempo depois soube que o Tenente Aguiar fora para a reserva sem realizar seu sonho de ser Capitão.

ERA ASSIM EM 1979

Em frente à igreja de Santo Antônio, pombos e putas disputam espaço com os pingos de chuva que caem, insistentemente. E o ônibus demora a chegar. O guarda chuva já não é suficiente para deixar minha camisa desmolhada. Na rua, o corre-corre das seis da noite, todos ansiosos para chegar em casa, depois de mais um dia. Carros, homens e beatas agora se misturam aos pombos e às putas, na calçada e na rua, em frente à porta principal da Igreja. E o ônibus demora. Ainda bem que sou um dos primeiros da fila e, otimista, nunca imagino a existência dos espertos que a furam com a maior sem-cerimônia. Até que enfim me livrarei de tudo, da chuva, dos pombos, das putas, dos carros, dos homens apressados, das beatas e de suas ave-Marias e dos espertalhões que furam as filas. Cedo meu lugar a uma mulher gorda que não consegue se desvencilhar da água que cai. Quem está logo atrás reclama, com razão, de minha gentileza com os vários chapéus alheios dos que estão depois de mim, na fila. Conformam-se: obesos, idosos, aleijados e grávidas desde esse tempo já tinham prioridade. A mulher gorda, espremendo no banco o rapaz magrinho sentado no lado da janela, ocupa o último lugar sentado dentro do ônibus. Aquele, o lugar que seria meu. Pelo menos oferece-se para levar minha bolsa. Levo para Candeias alguns pingos de chuva guardados no bolso de minha camisa azul e o cansaço de um dia de trabalho. Como se não bastasse, me acompanha também a falta de cheiro do suor do homem que viajou a viagem inteira perto de mim, braço levantado, sovaco exposto às narinas de quem perto dele estava. Que bom que Candeias não é tão longe assim. Ainda hoje guardo, com cuidado, não só os pingos da chuva como todas as boas e más lembranças daquele distante tempo. Os pombos se foram e os homens continuam apressados. As beatas, como disse um Poeta amigo meu, viraram evangélicas ou ativistas políticas e as putas hoje trepam pelo celular. Sinal dos tempos. Do homem do sovaco fedorento, não mais tive notícias, tampouco saudades A mulher gorda morreu. Hoje sou amigo de sua filha, dona de um restaurante regional em Santo Amaro. Serve ótima galinha à cabidela.

COLINA DA UTOPIA

Na colina das borboletas felizes os dias eram todos de sol e duravam 25 horas. De quando em vez por ali passeava um arco-iris colorido que misturava suas cores com as das asas que voavam por entre as flores. Sem pressa, as pessoas colhiam rosas dos mais diversos matizes e cheiros. Davam-nas uns aos outros. Os pássaros cantantes também frequentavam a colina e ali se deliciavam com a leveza do ambiente. Todos puros, todos bons, bichos, plantas e crianças, únicos habitantes do lugar. Só se pensava o bem. Na colina das borboletas felizes o tempo da maldade não havia chegado, não se via ladrões. Dali, sequer se enxergava, tão longe que era, o planalto dos ratos medonhos. Estes, não se dariam bem naquele ambiente de pureza.

O SOL E O NUBLADO

O sol foi passear na praia e encontrou pouca gente. E uma gente triste. Não entendeu: A praia boa, um domingo amanhecendo e o povo em casa … – O que houve? quis saber. – Será que a lua se escondeu esta noite e maltratou esse povo? Ou a desesperança tomou conta de todos? O alto tornou-se anuviado, o negro tomou conta do céu e o nublado se instalou. Escuro e insistente. Relâmpagos e trovões surgiram de rtepente, prenunciando a tempestade vizinha. O sol, cansado, foi embora e prometeu voltar daqui a quatro anos …

O MENINO, A MENINA E A ELEIÇÃO

Tudo parecia igual naquele meio-dia, num domingo antes da eleição. O restaurante sempre à meia-lotação e o cheiro de boa comida no ar. De diferente, uma passeata política que passava na rua em frente: carros, bandeiras, zoada muita. Passada a multidão, tudo volta ao normal. Quase. Em mesas diferentes e à pouca distância entre elas, pessoas vestidas de vermelho, umas, e de amarelo, outras, começam a se desentender e elevam o tom das falas. A motivação, percebe-se, é política. Refere-se a diferenças entre as partes sobre o pleito que se aproxima e os candidatos que o disputam. Ninguém mais presta atenção ao DVD de Maciel Melo que passa nos dois televisores estrategicamente colocados no interior do restaurante. Sobram insultos, de parte a parte. Moucos a tudo, duas crianças, um menino e uma menina, não mais que 5 anos, brincam despreocupadamente no parquinho infantil a um canto do lugar, indiferentes à discussão que se travava entre seus pais, em mesas opostas. Foi quando me lembrei da última eleição, quatros anos passados: nela, um Senador e uma Presidente disputavam o comando do País e o clima era parecido com o atual. Hoje, denunciado por crimes, ele foi ‘rebaixado’ a Deputado, única e humilhante forma de preservar um foro dito ´privilegiado’; ela, afastada do Poder, amargou um quarto lugar na disputa pelo Senado, por um estado do Leste. Os candidatos atuais abominam a presença dos dois em seus programas políticos. Valeu a pena tanta briga, discussão e inimizade em defesa dos protagonistas da época? Terá valido a pena, quando o domingo passar, a discussão e a inimizade em defesa dos protagonistas atuais? Melhor não seria cada um exercer seu direito de voto livremente, sem pressão, de acordo com a consciência de cada um? Chegou minha hora de ir embora. No parquinho, as duas crianças de 5 anos, ele de camisa azul, ela de short vermelho, como se fossem amigos há tempos trocam um fraternal, inocente, desinteressado e emocionante abraço. Antes de sair, dei um beijo na menina, um cheiro na cabeça do menino e fui-me, triste com a discussão que prosseguia dentro do restaurante. Convenci-me da certeza que sempre tive: criança é muito mais inteligente que adulto. Por isso, melhor ficar com a pureza delas.

O AZUL E O AZUL

Era só uma quarta-feira, igual a tantas outras quartas-feiras já vividas. Estava eu a soletrar sílabas, embalar palavras e transformá-las em versos, quando abri o escuro e meus olhos enxergaram um azul mais azul que aquele que o Poeta Carlos Pena Filho tanto gostava. Acho que até meus sapatos, se estivessem em mim calçados, estariam azuis. Meus cabelos, revoltos e também azuis, voavam ao sabor dos ventos anunciadores da chuva que estava por vir. A lua, escondida entre nuvens, teimava em clarear de quando em quando, anunciando que naquele dia ela estava preguiçosa e sem vontade, meio azulada, até. Estava ali apenas por obrigação de ofício. O relógio bateu meia-noite e naquele instante respirei o cheiro de uma quarta-feira de passado recente. Além disso, percebi restar um derradeiro cheirinho de chuva pendurado na telha, caindo num ritmo lento e compassado, tal qual uma valsa triste de um final de noite, molhando a pata-de-elefante adormecida no jardim azul de minha casa. Mas aí já era quinta-feira.

PRIMAVERAR

desde sempre sou assim:
quando em vez me primavero,
antes que o verão me abrace
e me leve o cheiro da flor …

deixo-me no sereno,
antes que as folhas do outono
embacem o meu pensar
e me proíbam lembrar a flor

inverno-me e chovo
com todos os pingos da chuva,
e deixo-me molhar de alegria
para nunca esquecer a flor …

e na chegada do verão,
meus jardins então floridos,
aromas e cores a me afagar,
sinto o cheiro bom
pois sempre há flor…

VOTO ABERTO

(Esta crônica foi escrita antes do dia 7. Assim, quando for publicada, na segunda, dia 8, já teremos, ou talvez não, o novo comandante do barco verde-amarelo. Será que desperdicei o meu voto?)

Já sei em quem vou votar. Declaro abertamente meu voto ao amigo Rochinha, candidato independente política e ideologicamente, que promete um Ministério de duendes, fadas e elfos para cuidar da Secretaria das Coisas Impossíveis. Obriga-se com a nomeação de um agente social muito bem intencionado e falante que visite as casas do povo para tomar um cafezinho e falar da vida alheia … Também serão criadas a Assessoria de Sonhos e Prevenção a Pesadelos, a Comissão Interministerial de Visitas a Senadores Inoperantes, o Centro de Ócio Permanente e uma Procuradoria Geral Para Assuntos Irrelevantes. No Plano de Governo a criação da Ouvidoria Especial de Poetas, a Diretoria Consultiva de Afazeres Domésticos Noturnos e o Conselho de Nuances Semânticas. Tantas promessas boas já me fizeram decidir em quem votar. Condiciono meu sufrágio, porém, a que ele inclua no seu programa a criação do Bolsa Sorriso, disponibilizando-o a todos que sofrem com diarreia, cáries dentárias e desamor. Também exijo que ele determine, de imediato, a construção de uma fábrica de fazer carinho e de uma escola de ensinar abraços. Se não for muito condicionar, peço que não esqueça de derramar muitas flores na estrada dos encantos juvenis e na beira do açude dos prazeres inadiáveis. Com o meu voto e de outros tantos que ainda acreditam na felicidade geral, ele estará eleito no curral eleitoral dos homens e mulheres de boa vontade, onde cada voto é trocado por um beijo sincero, um sorriso terno e um piscar de olhos sedutor, fugaz e cheio de encanto. Pouco me importa quem será seu vice: meu voto será de Rochinha. Está decidido!

O ARADO E O ARADOR

O terreno, devastado, está à espera de quem tenha competência para cultivá-lo, tornando-o fértil e útil para quem nele vive, para quem dele depende. A nós, pobres mortais, mas ainda com poder de decisão, compete escolher o arador certo, como bem disse um Poeta amigo meu. Ter a liberdade de escolher o arado já é um grande privilégio, impensável em outros tempos. Melhor, porém, é saber escolher quem vai pilotar esse arado. Se mal escolhido, a amplidão dos sonhos, de que fala as pessoas sábias, pode transformar-se numa estreiteza em que não passe a menor das pedras que desejamos filtrar, um terreno tão árido que não aceite e impeça a floração da boa semente, que impossibilite a colheita de flores. Não quero canhões, nem porões, nem ladrões. É preciso ter cuidado. Caminhar, cantar e seguir a canção é muito bom, mas isto só, não basta. O mundo é bem mais vasto.

ACORDAR SONETO

Beber um trago de Poesia, com gosto de Quintana e esbarrar na pedra que atrapalhava o caminho de Drummond. Daí é um passo para o reencontro com as rãs com que sonhava Manoel de Barros. As canções de um certo Buarque, também chamado de Chico, se insinuam entre um canto e outro do passarinho Bandeira, misturando o encanto de suas palavras com as do distante Neruda ou as dos tão próximos Louros e Pintos de nossos sertões. Presentes, todos os Severinos de João Cabral. E aí não dá para não torcer pelo encontro iminente da lua carente com o incerto sol, deixando a todos nós, sob o clarão das estrelas, balançando numa rima, cochilando num verso, dormindo num poema para, feliz, acordarmos num soneto de amor.

SILÊNCIOS E BARULHOS

Para onde vão nossos silêncios quando calamos nosso sentir? Acho que se arraigam em nosso peito e se escondem nos vazios da alma até que alguém os descubra, antes que virem pesadelos. E então descobertos, eles tagarelam com toda a zoada que o silêncio liberto pode permitir. É quando os sentimentos se mostram presentes para iluminar, colorir e perfumar nossa vida, tornando-a um poço de possibilidades alvissareiras em que o barulho silencioso de um abraço torna-se tão envolvente quanto o silêncio ensurdecedor de um reencontro desejado. É quando silêncios e barulhos se desimportam e se confundem ante a importância do todo ao redor, da pequenina e distante estrela à imensidão do mar.

NÃO DIGO

vem e tá chegando …
embrulhado num pingo de chuva,
amarrado numa bula de remédio,
‘apregado’ no suor do matuto …

vem, chega já, já
no fumacê do cigarro,
no pincinês do ‘ ceguim’,
no vidro de merthiolate no fundo da bolsa …

vem, eu já tô vendo
escondido na pestana de uma puta,
‘amontado’ na boléia de uma mula,
no algodão de um cotonete …
vem, e já chegou
chegou das bandas de lá,
e não me pergunte o que é …
eu sei mas não digo!

VERBO AMAR E VERBO MENTIR

Verdades e mentiras andam encangadas na mesma cangalha, abraçadas no mesmo caçuá. Às vezes a carga pende pra um lado e a gente mente verdades que no dia seguinte soam falsas, como na verdade são; outras vezes verdadeirizamos mentiras de uma forma tão real que elas terminam por confundir quem as ouve. Mas bom mesmo é quando todas as verdades nos apraz e satisfaz a quem amamos. Aí até esquecemos o que é a mentira. Pra quê, se recitar o verbo amar é muito mais doce que declamar o verbo mentir?

SAGRADA E BENDITA ÁGUA

A água é sagrada. Quem é do sertão sabe a razão. E exatamente por isso ela deve singrar areias e leitos secos, molhando-os da leveza úmida de seu correr. Em alguns dos Sertões que há, restam ainda cacimbas vazias e galões que precisam andar léguas para dar uma gota d’água para o sertanejo beber. Noutros Sertões, um quase rio virou um quase mar, um oceano de alegria e esperança. Benditos canais que levam um verde de confiança aos homens, um resto de crença em Deus, um rastro de fé. Um copo de água benta, o quase suficiente para afogar as mágoas do homem simples do mato que por ela esperou tanto, tanto … Que sejam secadas todas as lágrimas matutas derramadas com a seca e que as sedes sejam saciadas. Todas. As de justiça, inclusive.

VIAGEM DAS ÁGUAS

À sombra de uma mangueira, no quintal da casa de minha avó, vejo o rio passar. Um filete de água, apenas, mas o rio mais bonito que conheço. Igual a ele, nenhum outro. Nem o rio da aldeia de Pessoa. Todos os rios dos Poetas são bonitos, mas o da minha Aldeia é mais. À frente, ele se juntará a outros rios e estes a outros e outros até desembarcarem, todos de mãos dadas, ainda doces, no salgado do mar. Chove e a chuva fininha tenta encher o bucho do rio mas o bucho é grande e a chuva, pouca. Os pingos são apenas gotas minguadas em seu ventre. Servem apenas para molhar as pedras, pintadas de verde pelo lodo. Minha avó se preocupa que eu não vá à margem, que eu não escorregue. Não vou. Consola-me o distante olhar. Penso no mistério dos peixes quando, à tarde, o sol se afoga em suas poucas águas. É o rio parindo sossego e alegrando a pupila de meus versos. No dia seguinte, de sóis e claras manhãs, tento decifrar a correnteza e imaginar a viagem das águas. E eu, pequenino diante do mundo, diante do rio, também pequenino, respiro a vida daquela água limpinha que corre para o mar.

PÉS DE TODO MÊS

Plantações de Janeiro, se não tiverem o adubo de Dezembro, dificilmente chegam a Março. E o local a ser plantado tem que ser bem escolhido, perto dos sonhos e bem distante do poço da ganância de jardineiros que vestem paletó e viajam pro Planalto para se esconderem de nós nas poucas esquinas que aparecem por ali. Para aguar, a água tem que ser colhida na fonte dos desejos solidários e terá que ter a cor da esperança misturada com o amarelo do sol. E água tem cor? – perguntarás. Claro que tem. Veja a chuva caindo maneira, pouco mais que um chuvisco e você entenderá o que quero dizer. No mais, é deixar o pé-de-janeiro por conta das estrelas sorridentes e da lua alcoviteira. Ele florescerá e, quando você menos esperar, será setembro e ele fará sombra para as flores que chegarão ansiosas por lhe fazer companhia. Que venham os Outubros …

DOR DE FLOR

Um amigo meu disse sofrer de árvore. Ele sempre acorda com pássaros pousados nos cabelos desgrenhados solfejando ventos, declamando brisas e cantando tempestades. Disse-lhe que essa dor eu quero ter. Sofrer de árvore é tão doce como padecer de flor, coisa que bem conheço por comigo acontecer sempre. E desperto cantando aromas e cheirando amores, misturado com sorrisos alegres. Outro dia senti dores de mar. Ondas e marés suaves e ternas embalaram meu despertar e ensolararam meus pés ansiosos por andar, de areia em areia, até o paraíso de uma floresta verde enfeitada por rios e riachos, árvores e frutos, borboletas e pirilampos. E fui ao encontro do padecimento que só encontro na flor. E se me aparece um analgésico, eu o enterro no primeiro jardim, perto da roseira mais bonita. Deixem-me a dor de flor …

VOTO ABERTO

Já sei em quem vou votar. Declarei meu voto ao amigo Paulo Rocha, candidato que promete uma equipe de duendes, fadas e elfos para cuidar do Ministério das Coisas Impossíveis. Um agente social muito bem intencionado que visite as casas do povo para tomar um cafezinho e falar da vida alheia … Também serão fundadas a Assessoria de Sonhos e Prevenção a Pesadelos, a Comissão Interministerial de Visitas a Senadores, com tudo pago, o Centro de Ócio Permanente e uma Procuradoria Geral Para Assuntos Irrelevantes e outras ideias que são “contra tudo que está aí”, como a Ouvidoria Especial de Poetas, a Diretoria Consultiva de Afazeres Domésticos Noturnos e o Conselho de Nuances Semânticas. Tantas promessas boas que já me fizeram decidir em quem votar. Condiciono meu sufrágio, porém, a que ele inclua no seu programa o Bolsa Sorriso, disponibilizando-o a todos que sofrem com diarreia, cáries dentárias e desamor. Também exijo que ele determine, de imediato, a construção de uma fábrica de fazer carinho e de uma escola de ensinar abraços. Se não for muito condicionar, peço que não esqueça de derramar muitas flores na estrada dos encantos juvenis e na beira do açude dos prazeres inadiáveis. Com o meu voto e de outros tantos que ainda acreditam na felicidade geral, ele estará eleito no curral eleitoral dos homens e mulheres de boa vontade, onde cada voto é trocado por um beijo sincero e um piscar de olhos sedutor, fugaz e cheio de encanto.

DIA DOS AVÓS

Inventaram o dia dos Avós. Foi ontem. Penso que todo dia é o dia deles. Ainda que assim não seja, é muito bom ser avô, todo dia. Sobre isso, disse Rachel de Queiróz (e quem sou para dela discordar?) “Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu… É como dizem os ingleses, um ato de Deus” … “Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é devolvido.“ …Disse ainda Rachel: “E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: “Vô!”, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!” Salve Bernardo, que me dá a alegria de ser avô.

TRISTEZA

Era triste. Tão triste quanto um jardim deserto de flor ou uma terra que não vê chuva, vários invernos ausentes. Não se sabia exatamente a razão da tristeza daquela mulher. Sabia-se, apenas, que ela era triste. E sua tristeza era plenamente perceptível aos olhos até dos mais desatentos: bastava olhar para senti-la triste, talvez desesperançada. Por certo, algum amor não correspondido ou uma saudade escondida no fundo do peito. Na verdade, toda tristeza é quase igual, seja de saudade, seja de desalento ou mágoa. Fere a alma e magoa o coração da mesma forma, quase. Nunca me atrevi a perguntar-lhe a razão de tamanha tristeza. Talvez, com receio de que também ficasse triste ao saber. Temor de que tristeza fosse algo contagiante. E é. Só de vê-la triste também entristeci.


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