11 dezembro 2009NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA



(para minhas sobrinhas Tamires, Jade e Vitória)

No tempo da minha infância
Nossa vida era normal
Nunca me foi proibido
Comer muito açúcar ou sal
Hoje tudo é diferente
Sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal            

Bebi leite ao natural
Da minha vaca Quitéria
E nunca fiquei de cama
Com uma doença séria
As crianças de hoje em dia
Não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria             
 
A barriga da miséria
Tirei com tranquilidade
Do pão com manteiga e queijo
Hoje só resta a saudade
A vida ficou sem graça
Não se pode comer massa
Por causa da obesidade           

Eu comi ovo à vontade
Sem ter contra indicação
Pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão
Hoje a vida é uma loucura
Dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração               

Com a modernização
Quase tudo é proibido
Pra tudo tem uma Lei
Que nos deixa reprimido
Fazendo tudo que eu fiz
Hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido               

Eu nunca fui impedido
De poder me divertir
E nas casas dos amigos
Eu entrava sem pedir
Não se temia a galera
E naquele tempo era
Proibido proibir

Vi o meu pai dirigir
Numa total confiança
Sem apoio, sem air-bag
Sem cinto de segurança
E eu no banco de trás
Solto, igualzinho aos demais
Fazia a maior festança             
 
No meu tempo de criança
Por ter sido reprovado
Ninguém ia ao psicólogo
Nem se ficava frustrado
Quando isso acontecia
A gente só repetia
Até que fosse aprovado             

Não tinha superdotado
Nem a tal dislexia
E a hiperatividade
É coisa que não se via
Falta de concentração
Se curava com carão
E disso ninguém morria            

Nesse tempo se bebia
Água vinda da torneira
De uma fonte natural
Ou até de uma mangueira
E essa água engarrafada
Que diz-se esterilizada             
Nunca entrou na nossa feira      

Para a gente era besteira
Ter perna ou braço engessado
Ter alguns dentes partidos
Ou um joelho arranhado
Papai guardava veneno
Em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado       

Nunca fui envenenado   
Com as tintas dos brinquedos
Remédios e detergentes
Se guardavam, sem segredos
E descalço, na areia
Eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos   

Aboli todos os medos
Apostando umas carreiras
Em carros de rolimã
Sem usar cotoveleiras
Pra correr de bicicleta
Nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras               

Entre outras brincadeiras
Brinquei de Carrinho de Mão
Estátua, Jogo da Velha
Bola de Gude e Pião
De mocinhos e Cawboys
E até de super-heróis
Que vi na televisão                

Eu cantei Cai, Cai Balão,
Palma é palma, Pé é pé
Gata Pintada, Esta Rua
Pai Francisco e De Marré
Também cantei Tororó
Brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé         

Com anzol e jereré
Muitas vezes fui pescar
E só saía do rio
Pra ir pra casa jantar
Peixe nenhum eu pagava
Mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar            

Tomava banho de mar
Na estação do verão
Quando papai nos levava
Em cima de um caminhão     
Não voltava bronzeado
Mas com o corpo queimado
Parecendo um camarão        

Sem ter tanta evolução
O Playstation não havia
E nenhum jogo de vídeo
Naquele tempo existia
Não tinha vídeo cassete
Muito menos internet
Como se tem hoje em dia         

O meu cachorro comia
O resto do nosso almoço
Não existia ração
Nem brinquedo feito osso
E para as pulgas matar
Nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço          
           
E ele achava um colosso
Tomar banho na mangueira
Ou numa água bem fria
Debaixo duma torneira
E a gente fazia farra
Usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira                    
             
Fui feliz a vida inteira
Sem usar um celular
De manhã ia pra aula
Mas voltava pra almoçar
Mamãe não se preocupava
Pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar                     
             
Comecei a trabalhar
Com oito anos de idade
Pois o meu pai me mostrava
Que pra ter dignidade
O trabalho era importante
Pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade                      

Mas hoje a sociedade
Essa visão não alcança
E proíbe qualquer pai
Dar trabalho a uma criança
Prefere ver nossos filhos
Vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança           

A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes
De tudo que a gente fez,
Por isso tenho saudade
E hoje sinto vontade
De ser criança outra vez…     

Ismael Gaião – Recife, 11/12/09

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4 Respostas em: “NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA”

  • Luiza Diz:

    Gostei Tio Ismael.

  • Padre Ismael Gaião Diz:

    Essa poesia é para você também minha Linda!
    Te adoro!

  • Milton Alves Diz:

    Olá Ismael, esta poesia é um colosso. Me lebrei das vezes que fui em cima do caminhão de “Joca Galego”, seu pai, pras praias do litoral norte de Pernambuco, junto com os Piratas do Mé. Me fez lembrar, também, dos versos de uma música de Martinho da Vila que nos modificamos e cantavamos assim: …naquele tempo existia dez vintém, um tostão, eu soltava papagaio e jogava o meu pião, no domingo de manhã “no sítio da laranjeira, eu roubava uma laranja e Zé Povo na carreira, na carreira, na carreira…”. Uma abraço, Milton Alves. Condado-PE.

  • José Augusto Araújo da Silva - Uma acorda de cordel - BLOG Diz:

    Eta! Tempo cascudo bom seu menino…

    Eu cresci numa família
    Que dizia todo dia:
    – Pode andar remendado,
    Contudo nunca podia
    Andar sujo pelos cantos
    Essa era a filosofia.

    E também dizia que:
    – Tem um sujo que não sai
    Nem com água com sabão,
    Quarando dias não vai
    Ser limpo nem esquecido:
    É o roubo, disse papai.

    Disso nunca esqueci.
    Como me lembro também
    De Tio Chico Cachico
    Que era pra nós armazém
    De história pra contar
    Da terra, céu e além.
    (Trecho do cordel O ladrão e o político)

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