RIO DE JANEIRO QUE EU SEMPRE HEI DE AMAR

Um sucesso de 1954, de Fernando Martins e Victor Simon, com os Anjos do Inferno, era explícito e verdadeiro: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. Meu pai contava que já nos anos 30, quando estudava Medicina no Rio, luz e água faltavam na cidade.

Foram décadas de queixas. Bastou um grande Governo, o de Carlos Lacerda, para que o problema da água fosse resolvido (o que vale até hoje, mais de 50 anos depois). E bastou que a Eletrobrás pusesse ordem na casa para que o problema da eletricidade fosse resolvido: hoje, há água e há luz.

O problema agora é a insaciável máquina de corrupção, unida ao tráfico e ao contrabando. Os narcotraficantes herdaram o poder dos bicheiros, multiplicando-o ao torná-lo mais sangrento. Agora? Isso vem de longe – o governador Brizola apôs obstáculos ao trabalho policial na década de 1980, há quase 40 anos; parte significativa da classe média, média-alta e rica se rendeu aos secos e molhados; o eleitorado perdeu oportunidades excelentes de eleger políticos corretos, como Fernando Gabeira, para escolher, veja só, Sérgio Cabral (Miro Teixeira, embora politicamente oscilante, manteve-se livre de acusações e ninguém duvidou de suas boas intenções).

Mas a vida segue. O paraense Billy Blanco, com Tom Jobim, compôs a Sinfonia do Rio de Janeiro. O Rio é a cidade, cidade mágica, que o mineiro Ruy Castro escolheu como sua. Quando o Rio vai bem, o Brasil vai bem.

Cultura útil

A cornucópia (em latim, o chifre da abundância) representava, no ritual pagão de Roma, a fertilidade, a fortuna, as riquezas da Terra. A palavra é hoje pouco usada – até porque, com essa história de corno, pode parecer indecente. E é indecente, mas não pelo corno: por representar as riquezas da Terra, simboliza também certas fortunas que apareceram do nada.

Dinheiro vem…

O Ministério Público Federal em Brasília pediu ao juiz Vallisney de Oliveira que bloqueie R$ 21,4 milhões das contas do ex-presidente Lula e de um de seus filhos, Luís Cláudio. No processo a que se refere esse bloqueio, Lula é acusado de tráfico de influência na compra, pelo Brasil, dos caças supersônicos Grippen, da empresa sueca Saab. Detalhe curioso, que pode ter várias interpretações: na negociação com o Brasil, cada caça saiu por US$ 150 milhões. Alguns anos depois, a Suíça rejeitou a compra, por julgar excessivo o preço de US$ 140 milhões por caça. Diferenças nos modelos podem explicar a diferença de US$ 10 milhões por caça; ou não. Considerando-se o bloqueio de R$ 10 milhões já determinado pelo juiz Sérgio Moro, nos últimos meses Lula teve suspenso o acesso a mais de R$ 30 milhões de seus bens. Considerando-se os salários que recebeu nos seus anos de serviço, seus cachês de conferencista devem ter sido excelentes.

A defesa de Lula diz que ele e o filho não interferiram no negócio, feito integralmente de acordo com os pareceres técnicos da Aeronáutica.

…dinheiro vai

Luiz Marinho, um dos dirigentes petistas mais próximos de Lula, que há pouco deixou a Prefeitura de São Bernardo e é cotado para disputar pelo PT o Governo paulista, também foi denunciado à Justiça: ele é acusado, em companhia de empreiteiros, de fraudes nas concorrências para a construção do Museu do Trabalhador. As acusações envolvem uso de empresa de fachada, cláusulas de restrição à competitividade e propostas “de cobertura”, cuja utilidade é dar ao vencedor previamente definido a garantia de que seus preços serão os mais baixos. Duas das empresas que o Ministério Público aponta como participantes das fraudes venceram 19 licitações para a execução das obras públicas mais lucrativas durante a administração do prefeito Luiz Marinho.

Chico Xavier…

O desenhista Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, já premiado pela ONU por uma notável historia que demonstra a imbecilidade do racismo, acaba de colocar seus personagens num livro infantil sobre um dos maiores médiuns brasileiros, Francisco Cândido Xavier. No livro, Mauricio e a Turma da Mônica mostram grandes exemplos de Chico Xavier; o novo personagem André, primo de Cascão, apresenta aos leitores 25 ensinamentos do líder espírita. Há histórias inéditas de pessoas que conviveram diretamente com Chico Xavier e dele receberam lições de vida.

…em quadrinhos

Cebolinha se surpreende ao saber que Chico Xavier doou todo o dinheiro que ganhou com milhões de livros vendidos a instituições de caridade – “ele podelia ter ficado lico!” André lembra que Chico Xavier escrevia por amor, e uma vez disse: “Ame sempre porque isso faz bem a você, não por esperar algo em troca”. São 64 páginas por R$ 11,00.

TUDO SERÁ COMO DANTES

Hoje é feriado nacional, 128º aniversário da Proclamação da República. A República foi proclamada pelo marechal Deodoro, amigo do imperador D. Pedro 2º e antirrepublicano (um de seus ministros, Ruy Barbosa, era um dos maiores defensores da monarquia). O povo, disse Aristides Lobo, “assistiu bestializado” à Proclamação – e Aristides Lobo, além de líder republicano, era ministro de Deodoro. Por que Deodoro, monarquista, virou líder republicano? Porque o convenceram de que Silveira Martins chegaria a primeiro-ministro do Império. Deodoro e Silveira Martins se detestavam: ambos disputaram a baronesa do Triunfo (que escolheu Silveira Martins).

Claro, houve a questão financeira: o Império tinha prometido obter um empréstimo no Exterior para indenizar os donos de escravos pela Abolição. O empréstimo foi obtído, mas o dinheiro jamais chegou ao destino.

O DNA do Brasil é antigo. Já se sabe, portanto, quem ganha as eleições de 2018. É bom acompanhar o processo para saber quem fica com os cargos, com a caneta das nomeações, com a possibilidade de viajar em boa companhia e conseguir um Porsche ou outro e alegrar as atuais Baronesas do Triunfo. Mas é bom saber também que, seja qual for o resultado na urna, o povo poderá “assistir bestializado” ao triunfo de Jucá, Renan, Eunício, Geddel, Jader, Moreira, Padilha, nesta terra descoberta por Cabral. Não nos espantemos com mais do mesmo. Quem sai aos seus não degenera.

Tudo junto…

Houve quem duvidasse quando esta coluna informou que PT e PMDB estavam negociando um acordo para 2018, e que Lula tinha mandado parar a campanha contra “o golpe”. Agora é tudo oficial: Lula diz que “perdoou os golpistas”; Dilma disse na Alemanha que era preciso perdoar “os que bateram panelas, equivocadamente”, contra ela. Uma curiosidade: quem foi o intérprete que traduziu o português de Dilma para o alemão? É gênio!

…e misturado

Eunício Oliveira, PMDB, um dos primeiros-amigos de Temer, quer porque quer chegar ao Governo do Ceará. José Guimarães, PT, o deputado cearense cujo prestígio no partido é imenso? Pois José Guimarães disse ao jornal Valor que Eunício ligou para Lula no dia 27, para cumprimentá-lo pelo aniversário e oferecer-lhe apoio à candidatura presidencial. Jader Barbalho, PMDB, que já teve de renunciar ao mandato de senador para não ser cassado por seus pares, cacique maior do Pará, diz: “Minha relação com o Lula não é boa, é excelente. Lula é um candidato fortíssimo. Como a classe política em geral está sob suspeição, o eleitorado vai dizer: ‘Todos não prestam, mas ele fez’. Se concorrer, ninguém ganha do Lula”.

Há negociações também, além de Ceará e Pará, em Minas (onde o governador petista Fernando Pimentel tenta lançar a candidatura de Dilma ao Senado), Piauí, Paraná (o dirigente peemedebista Roberto Requião está há muito tempo aliado ao PT), Sergipe e Tocantins, onde a senadora Kátia Abreu, antes ferrenha antipetista, virou ministra e amiga de Dilma. Requião está tão petista, e há tanto tempo, que até apoia o governo venezuelano de Nicolás Maduro; e se interessa tanto em agradar Lula que, quando o então presidente lhe mostrou uma semente de mamona, ele imediatamente a mordeu, imaginando que fosse uma oleaginosa como amendoim ou nozes.

Cadeia de comando

O PMDB do Mato Grosso do Sul está enfrentando um problema sério: no sábado, faria a convenção para entregar o comando estadual do partido ao ex-governador André Puccinelli, que seria candidato de novo em 2018. Ontem, terça, surgiu um contratempo: Puccinelli foi preso preventivamente na Operação Papiros de Lama, suspeito do desvio de R$ 235 milhões. Seu filho também foi colocado em prisão preventiva, e houve bloqueio de contas bancárias. A situação de Puccinelli está piorando na operação: na fase anterior, teve de usar tornozeleiras, mas não tinha sido preso. De acordo com os investigadores, houve uso de documentos falsos, compra irregular de produtos e obras e concessão de créditos tributários aos amigos. E agora? Ainda não se sabe: fazer a convenção na cadeia não é possível; e fora seria engraçado, ainda mais quando o vencedor não tivesse condições de discursar. Mas o PMDB local saberá lidar com o problema: um de seus dirigentes é o deputado federal Carlos Marun, aquele que vivia na TV defendendo Temer e, antes, era o maior defensor de Eduardo Cunha. Tem experiência com políticos enrolados.

Modéstia

A Polícia Federal anunciou que três deputados do Rio são suspeitos de receber propina. Três? Só se a Polícia Federal considerar que boa parte dos nobres parlamentares já ultrapassou a fase das suspeitas. Sua situação está estabelecida – nada de suspeitas – e só falta completar o trabalho.

VENCER O INIMIGO INVENCÍVEL

Um Governo grande, caro, metido na vida de todo mundo; ou, depois de mais de 500 anos, um Governo enxuto, leve, que libere a criatividade dos brasileiros e se preocupe em exercer as funções típicas de Governo, sem a tentação de regulamentar até os quadros que cada museu pode exibir.

Um balanço dos candidatos e seus assessores econômicos parece indicar que o Governo, enfim, deixará de sufocar o país. Alckmin deve ter a seu lado um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida. Aécio, antes da queda, pensava em Armínio Fraga (também companheirão de Luciano Huck e de João Amoêdo, fundador do Partido Novo, ligado ainda a Gustavo Franco). Amoêdo é sócio da Casa das Garças, centro liberal de estudos político-econômicos. O Pastor Everaldo, do PSC, tem Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES (fala-se até na candidatura de Rabello, no lugar do Pastor Everaldo). Bolsonaro, conservador linha-dura na área de costumes, reserva a Adolpho Sachsida, do Instituto Liberal, seu programa econômico. Henrique Meirelles, ex-tucano, ex-Lula, hoje Temer e Kassab, pode ser ele mesmo o candidato. E Lula? Não se sabe – mas já usou Palocci.

Terá chegado a hora de desmontar os empregões estatais? Talvez – mas Roberto Campos, Delfim e Simonsen, defensores da iniciativa privada, tentaram controlar até o preço do cafezinho. Falharam; é fantástico o poder da maquina estatal de gerar nomeações. Mas nunca desistiram do cargo.

Irmãos Bobagem

Aécio Neves, mesmo com o prestígio abaixo dos rastros da cascavel que destrói candidatos, continua ostentando o título de presidente do PSDB. Era só para constar, para não parecer que o próprio partido o tinha abandonado. Mas a falta de poder subiu-lhe à cabeça: afastou o dirigente interino, Tasso Jereissati, colocou Alberto Goldman no lugar e implodiu o partido que já tinha explodido. Goldman detesta Dória, que pode ser candidato a alguma coisa, embora não a presidente – e que lhe retribui a ojeriza; e é ligado a José Serra, que candidato à Presidência também não será. E abriu mais uma divergência: quem vai controlar o PSDB e tentar uni-lo de agora em diante, Fernando Henrique, Alckmin ou o senador Antonio Anastasia? Aécio, sem dúvida, só herdou do avô Tancredo, um sábio, o sobrenome Neves.

Parente é serpente

Muitos colunistas disseram que o PSDB vive uma luta fratricida, e foram criticados: luta, sim, mas não fratricida, já que todos ali se odeiam. Mas é fratricida, sim: afinal de contas, Caim e Abel eram irmãos.

Os jardins do Paraíso

Por falar em Bíblia, em Gênesis conta-se a história do fruto proibido, da Árvore do Bem e do Mal. Adão e Eva viviam no Paraíso, livres da fome e da morte. Um dia, convencida pela serpente, Eva colheu o fruto proibido e o ofereceu também a Adão. A Humanidade foi então expulsa do Paraíso, conheceu a morte e a fome; e Deus determinou que os seres humanos tivessem de trabalhar para comer – “ganhar o pão com o suor de seu rosto”.

Avancemos no tempo. O desembargador Vulmar de Araújo Coêlho e o juiz trabalhista Domingos Sávio Gomes dos Santos, de Porto Velho, Rondônia, foram punidos: o desembargador, por deslocar uma ação de R$ 5 bilhões da 2ª para a 7ª Vara, onde o juiz trabalhista manteria a causa sob controle. O Conselho Nacional de Justiça determinou a aposentadoria compulsória de juiz e desembargador – e só. Ambos continuarão a receber integralmente seus vencimentos, embora sejam proibidos de trabalhar.

Ambos têm deuses poderosos: ganham o pão sem o suor de seu rosto.

Juntos de novo

A informação que chegou a ser recebida com desdém – o grande acordo eleitoral entre PMDB e PT – já está publicamente confirmada. Em Minas, o PMDB informou ao diretório nacional que pretende se aliar ao governador Fernando Pimentel – o mais próximo aliado de Dilma Rousseff, alvo de diversas investigações. Objetivo: aumentar as bancadas estadual e federal do partido, esquecendo as divergências recentes. Serão eleições curiosas: Aécio Neves terá fôlego para concorrer? E votos para ser levado a sério?

Paz nas ruas

Se depender das manifestações da oposição para mostrar força, Temer pode avançar tranquilo nas reformas: o protesto contra a reforma trabalhista, amplamente divulgado, organizado com grande antecedência, com apoio de todas as centrais sindicais, reuniu menos gente que os jogos de futebol das equipes mais mal colocadas na tabela. Os congestionamentos de trânsito foram raros e rápidos; mais problemas eventuais do que muita gente nas ruas. A manifestação de sexta-feira, ocorrida na véspera da entrada em vigor da nova lei trabalhista, não chegou sequer a incomodar quem dela não participava. E, não esqueçamos, não houve qualquer acordo sobre o imposto sindical. Neste momento, e desde ontem, está extinto.

É TUDO VERDADE, MAS DEIXA PRA LÁ

Imagine que uma quadrilha de narcotraficantes acuse outra de trabalhar secretamente para a Polícia. Haverá guerra: acusadores e acusados tentarão provar, a tiros de fuzil contrabandeado, que a outra quadrilha é mentirosa.

O ministro da Justiça acusou a PM do Rio de, entre seus comandantes, ter vários escolhidos por narcotraficantes. É acusação pesada, que envolve quem nomeia os comandantes, o Governo do Estado. Mas ninguém está preocupado em provar coisa nenhuma: o ministro da Justiça diz que tudo o que declarou sobre o Rio é “posição pessoal”. Desde quando ministro tem posição pessoal? Sua posição é a do Governo, é oficial – a menos que se admita que narcotraficantes sejam mais sérios que ministros e governantes.

Este colunista não tem a menor ideia sobre o que deve ser feito para que a população do Rio deixe de ser refém de quadrilhas. Mas sabe que, seja o que for, nada irá dar certo se os bandidos tiverem apoio da polícia e do Governo. E se, na Presidência da República, o objetivo for deixar tudo pra lá, em vez de combater políticos, policiais e governantes envolvidos com o crime, as coisas irão piorar cada vez mais, e não apenas no Rio.

Entre perder a vergonha para garantir sua permanência tranquila no Governo ou fazer o que deve ser feito para restabelecer a ordem no país, nossos governantes optaram por perder a vergonha. E não conseguirão assegurar sua permanência tranquila no Governo.

Deixa comigo…

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, tem uma boa carreira jurídica. Foi secretário-geral do Tribunal Regional Eleitoral, assessor da chefia do Gabinete Civil da Presidência, consultor da Secretaria do Planejamento, ministro do Tribunal Superior Eleitoral por oito anos, é bem considerado como especialista em Direito Eleitoral. Não precisava ser ministro – e foi: no Governo Temer, foi ministro da Transparência. Assumiu o nome do cargo: ninguém o notou. Culminou com o vexame do Ministério da Justiça, em que fez uma denúncia grave e depois só faltou pedir desculpas pelo incômodo (a propósito, vários políticos fluminenses, como o ex-governador Garotinho, concordaram com as denúncias). Mas ninguém se importa com autoridades a serviço do crime organizado. Publicamente desmoralizado, que faz o ministro? Nada: é como se não tivesse feito acusação alguma. Feliz com o carro oficial na porta, fica no cargo. E não faz diferença.

…tudo na boa

O mesmo apego ao cargo foi demonstrado pela inacreditável ministra da Igualdade Racial, Luislinda Valois. Depois de dizer que com 33 mil reais por mês, mais carro, mais mordomias, mais jatinho à disposição, mais moradia, é como se estivesse em trabalho escravo, cala-se e finge que não é com ela. Seu partido, o PSDB, também se cala: nem com a palavra de Fernando Henrique, de que é hora de sair do Governo, os tucanos descem do muro das mordomias. Um detalhe: se não saírem por bem, acabarão chutados. Mesmo que PT e PMDB não estivessem articulando uma aliança para 2018, os tucanos teriam problemas. O ministro Imbassahy, bom político, é detestado pelos aliados do Centrão; a ministra Luislinda Valois só não virou motivo de galhofa porque passou direto a motivo de raiva; o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, continua sendo o reserva de José Serra. Resta – tente lembrar, caro leitor! – Bruno Araújo, Cidades.

É um grupo com o qual ou sem o qual o Governo Temer seria tal e qual.

Mural

Um grande analista do Brasil, Millôr Fernandes, dizia que o mal do mar de lama era a praia pequena, que não dava para todos. Para o PSDB, é este o problema do muro: há mais tucano do que muro. Tasso Jereissati e Marconi Perillo querem a presidência do partido, hoje em mãos de Aécio (não, não pensem que ele renunciou: licenciou-se, mas sem largar o osso). E Geraldo Alckmin espera para ver se não sobra para ele. O candidato à Presidência deve ser Alckmin (isso se Dória desistir, e parar de lutar pela inviável hipótese de montar uma chapa só paulista, só tucana). Tasso quer sair do Governo, Fernando Henrique também, mas Dória quer ficar. O PSDB se aliaria a qualquer partido para 2018, menos o PT – isso porque o PT adora tê-lo como adversário. Mas o PSDB ainda está sem rumo.

Enfrentando o autismo

E chega de candidatos. Toquemos num tema importante: neste sábado, 11, às 11h, no Instituto Casa do Sol, a terapeuta Mari Aprile fala sobre terapia animal assistida para tratamento do autismo – no caso, com uma linda coruja Suindara, treinada desde filhotinha (em Terapia Animal Assistida Por Corujas, a emocionante história desta terapia para autistas). A terapia foi desenvolvida para seu filho Nick, e é aplicada numa escola especial para autistas. Rua Antônio de Macedo Soares, 409, Campo Belo, SP. Custo: R$ 25,00, mais um quilo de alimento não perecível. Vale comover-se.

TRABALHAR DÁ TRABALHO

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse o que todos que não estão implicados gostariam de dizer: o crime não teria tomado as proporções que tomou, no Rio, sem muita cumplicidade oficial e policial. Jardim sabe de coisas que muita gente deve saber, mas: a) tem informações do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, ou seja, do general Sérgio Etchegoyen; 2) como ministro, tem obrigação legal de agir. Portanto…

Portanto, não se sabe. O caro leitor deve lembrar-se de que vive sob o auriverde pendão de nossa terra. O presidente Temer já pediu ao ministro que aja com discrição, o máximo de discrição (se não agir, melhor ainda). Jardim é velho amigo, Temer espera dele que compreenda seus problemas.

O fato é que PMDB e PT tentam rearticular a velha aliança, só rompida pela inabilidade da presidente Dilma. Lula já mandou um recado: é hora de parar com o “fora Temer”. O PMDB de Temer (e de Sérgio Cabral, e do governador Pezão) enfrenta as mesmas dificuldades do PT do Mensalão, do Petrolão e do Quadrilhão; ambos ficariam felizes com medidas legislativas como a proibição da delação de réus presos, condução coercitiva só em caso de recusa ao depoimento e fim de prisões temporárias que, pela longa duração, funcionam sem julgamento como antecipação de pena.

Juntos, PT e PMDB, calcula a repórter Lydia Medeiros, de O Globo, ficam com ¼ do dinheiro de campanha. Esta linguagem ambos entendem.

O trabalho eleitoral

É cada vez menos lógico, portanto, imaginar a eleição polarizada entre Lula e Bolsonaro. Lula dificilmente será candidato, Bolsonaro dificilmente terá fôlego para ir muito longe. Há outros nomes possíveis, na perspectiva de uma chapa PT/PMDB: Luiz Felipe d’Ávila, por exemplo; ou, no caso de a economia crescer bem, Henrique Meirelles. Meirelles tem boa entrada na área empresarial, foi presidente do Banco Central com Lula, ministro da Fazenda com Temer (e Lula cansou de indicá-lo a Dilma, que o rejeitou). D’Ávila, professor respeitado, é genro do empresário Abílio Diniz (que há tempos mantém boas relações com o PT). Do outro lado, o nome provável é o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Caso algo semelhante ocorra de fato, a campanha será muito mais tranquila do que se espera hoje.

O trabalho cansa

Todas as articulações estão ocorrendo nos níveis mais altos de cada sigla e provavelmente provocarão algumas exclamações de horror se, e quando, se confirmarem. E estão ocorrendo longe do Legislativo – até porque quem deveria trabalhar contra o acordo ou a seu favor optou pelo repouso. Não, nada a ver com as férias disfarçadas de diplomacia parlamentar oferecidas, com dinheiro público, às Excelências que viajaram à Europa e ao Oriente Médio; é coisa mais bem distribuída. A Câmara prepara um recesso branco de dez dias – agora, quando pouco mais de um mês nos separa do recesso oficial do fim do ano. Funciona assim: há sessões marcadas para a próxima semana, de segunda a sexta. Mas não é para valer: é só para que o número de sessões atinja o mínimo e seja possível folgar de 13 a 21, sem que haja qualquer tipo de desconto. O Senado deve seguir o exemplo da folga.

O trabalho pacífico

Um acerto entre PT e PMDB deverá provocar a queda de muita gente do PSDB instalada no Governo. O ministro Antônio Imbassahy, bom político, por isso mesmo caiu em desgraça junto à bancada franciscana (a que segue a oração de São Francisco, “é dando que se recebe”). Aloysio Nunes e Bruno Araújo não despertam grande emoção no partido; Luislinda Valois, no Governo, mais retira prestígio do PSDB do que lhe acrescenta. Mas o desembarque do PSDB deve ser ameno, com garantia de apoio às reformas econômicas, sem brigas – até porque, embora em menor escala, os tucanos enfrentem os mesmos problemas que PT e PMDB tentam resolver.

O trabalho escravo

Livrar-se de Luislinda Valois, a inacreditável ministra que escreveu 207 páginas para dizer que ganhar pouco mais de R$ 33 mil por mês, como ela, se assemelha a trabalho escravo, é tarefa urgente para o Governo e o PSDB. Justificar-se alegando que é preciso vestir-se com dignidade, alimentar-se e usar maquiagem já é escárnio. Se a ministra acha baixos seus vencimentos, ninguém a obriga a ficar no Governo: pode ir embora. E será aplaudida.

O trabalho necessário

Mesmo que o ministro Torquato Jardim se aquiete, atendendo aos apelos de Temer, a acusação ao Governo e à PM fluminenses deve gerar efeitos. O secretário da Justiça e da Segurança do Mato Grosso do Sul cobra também o Governo Federal, pelo frágil combate ao tráfico nas fronteiras. “O crime no Rio é diretamente ligado ao tráfico de drogas”, diz, em ótima entrevista ao repórter Paulo Renato Coelho Netto, do UOL. E que faz a União para combater o narcotráfico? O Ministério da Justiça não respondeu à pergunta.

FINADOS? IMAGINE! TODOS SANTOS

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, mudou o jogo: no país em que bois voadores fizeram a fortuna de Eduardo Cunha, em que fazendas de muitos andares abrigaram os bois de apartamento de Renan Calheiros, no país dos bois anônimos e de hábitos pouco comuns, Jardim deu nomes aos bois e apontou seu papel na insegurança pública do Rio. Em notável entrevista a Josias de Souza, Jardim disse que o governador Pezão e seu secretário da Segurança perderam o controle das forças de segurança e que o que define o comando da PM é um acerto com deputados estaduais e o crime organizado. Disse mais: “Comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio”.

Há o que fazer? O ministro acredita que ações com tropa federal podem ajudar um pouco, mas que só haverá condições para um combate efetivo ao crime organizado a partir de 2019, com outro governador, outro secretário. Com os atuais dirigentes, não há jeito: disse Jardim que ele, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o secretário do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Sérgio Etchegoyen, já tiveram duras conversas com Pezão, sem êxito. Antes que a situação melhore, ainda deve piorar: na opinião do ministro, os atuais bandidos estão cedendo espaço às milícias, quadrilhas que envolvem policiais. Cada milícia tem seu espaço, dificultando ainda mais o restabelecimento da segurança pública no Estado.

Nós, não

O ministro Torquato Jardim diz estar convencido de que o assassínio do tenente-coronel Luiz Gustavo Teixeira, comandante do 3º Batalhão da PM carioca, que emocionou o país, não está bem contado. Não foi, acredita, a consequência de reação a um assalto. “Ninguém me convence de que não foi acerto de contas”. O governador Pezão e o secretário da Segurança, Roberto Sá, garantiram que o Governo do Rio não negocia com criminosos.

O rigor da lei

O ministro da Justiça é uma autoridade e se responsabiliza pelo que diz. Fez acusações pesadas ao governador do Rio, incluindo opiniões sobre um assassínio que a Polícia fluminense diz estar empenhada em esclarecer. Neste momento, está reunida na Câmara dos Deputados a Comissão de Segurança Pública, que convidou o ministro Torquato Jardim a depor. Hoje? Amanhã, embora seja feriado? Não, nada disso: imagina-se que ele vá falar no dia 8, quarta-feira que vem. Morre mais gente no Rio, nas mãos das quadrilhas, do que em países onde há guerra civil. Para que pressa?

Poderes unidos

E não é só o Legislativo – inclusive as Excelências da oposição ao governador, que deveriam estar interessados em desdobrar rapidamente o caso – que se recusam a qualquer esforço extraordinário. O alto comando da Câmara, sob a chefia do presidente Rodrigo Maia, está no Oriente Médio, diz-se que a serviço – embora nada esteja acontecendo de diferente por lá, embora Maia seja o substituto legal do presidente Michel Temer, que acaba de deixar o hospital. O Poder Judiciário, no momento em que o governador de um dos principais Estados do país sofre pesadas acusações de um ministro, entrou de folga (e, ainda por cima, legalizou-a)

O Direito em repouso

O Dia do Servidor Público, 28 de outubro, caiu num sábado. Como não dá para repousar duas vezes no mesmo dia, o Supremo transferiu o feriado para esta sexta, dia 3, em que supostamente haveria trabalho normal. Com isso, a folga do STF já começa hoje, porque 1º de novembro é feriado para o Judiciário; o dia 2, amanhã, é Finados; e o dia 3, que não era feriado, agora é um supremo feriadão. E não vale só para o Supremo: o STJ aderiu. Não é por ter 60 dias anuais de férias e cinco feriados além dos válidos para o restante da população que as togas devam sofrer a perda de um feriado.

Bico fechado, tá?

O caro leitor não deve reclamar da nova folga dos togados. Se tivesse se dedicado mais aos estudos, em vez de ficar reclamando do pouco empenho dos supremos escolhidos, poderia ter alcançado o conhecimento jurídico de um Dias Toffoli; ou, versando-se em comunicação, talvez pudesse igualar-se à esfuziante oratória de um Marco Aurélio. Esforçando-se na arte do bom relacionamento, emularia, é possível, um Gilmar Mendes, E, caso tivesse mergulhado na leitura do clássico de autoajuda Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie, ficaria em melhores condições para pleitear um lugar de destaque, como o de Ricardo Lewandowski. Não conseguiu tão boa posição? Quem mandou não estudar o que deveria?

É coisa deles

Um fato da maior importância para o Brasil ocorreu no Exterior: dois dirigentes da campanha de Trump são investigados pelo FBI por permitir interferência de outros países na eleição. Um já está preso, outro ainda não.

NA CONTRAMÃO DO CAMINHO

Foi uma vitória suada; suada, difícil e cara. Neste momento, dez entre dez analistas dizem que o Governo acabou, que Michel Temer não tem força nem para se livrar da obstrução urinária sem fazer shopping parlamentar. Ficará manquitolando à espera do último dia de seu mandato.

Só que não é assim: vitória suada e cara também vale três pontos. Se, no momento em que enfrentava uma denúncia que poderia afastá-lo do cargo, ele sobreviveu, tem tudo para ganhar forças depois de livrar-se de Janot. O presidente tem muitos fatores a favor: o exercício do poder, que lhe permite preencher o Diário Oficial e dar apoio a algum candidato à Presidência, o fim das denúncias e esplêndidos resultados econômicos. Depende dele: não adianta usar Moreira Franco, Padilha e Eunício para divulgar boas notícias, porque neles ninguém vai acreditar. Mas, abrindo seu Governo à luz do Sol e tirando os suspeitos de sempre de seu lado, terá tudo para virar o jogo.

As exportações por Santos se aproximam de 100 milhões de toneladas, e vão batendo recordes. A balança comercial deve ter superávit de US$ 70 bilhões até o final do ano – recorde absoluto. A taxa de juros, em um ano e pouco de Temer, caiu à metade do que era com Dilma: foi de 14,25% a 7,5%. Há leves sinais de melhora da atividade – que ficarão mais visíveis a partir da taxa de juros mais baixa, que facilita os investimentos. Afastando a turma vetusta para que a equipe econômica cresça, Temer cresce com ela.

A vista…

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-Rio) acha que Temer não terá força para votar a reforma da Previdência. Maia deve entender bem os sentimentos parlamentares, ou não se elegeria presidente; mas é verdade, ao mesmo tempo, que sua maior credencial é o pai, César Maia. Antes dos atuais episódios, poucos tinham ouvido falar de Rodrigo Maia.

O fato é que Temer está disposto a votar, ainda neste ano, a reforma da Previdência. Temer também conhece os sentimentos parlamentares, tanto que, sem apoio familiar externo, se elegeu três vezes presidente da Câmara. E, tendo sido quem convenceu Suas Excelências a ficar a seu lado, sabe perfeitamente quanto custa um voto, e qual seu prazo de validade.

…e a prazo

Quem foi abençoado com cargos para votar contra a aceitação da denúncia contra Temer pode, de uma hora para outra, perdê-los: não tem como retirar seu voto. Não pode, portanto, virar oposição a Temer, sem entrar no prejuízo, de uma hora para outra. Para aprovar a reforma, Temer precisará de 308 votos – os 251 que rejeitaram a denúncia contra ele, mais 57. Temer acredita que, entre os 107 deputados governistas que votaram contra ele, há pelo menos 57 favoráveis à reforma. E Suas Excelências sabem que, ao votar contra a reforma, estarão votando contra os cargos que seus partidos tiverem recebido; estarão contra a equipe econômica, bem na hora em que a economia mostra sinais de recuperação; e estarão contra um possível – e forte – candidato à Presidência, o ministro Henrique Meirelles.

A hora do sonho

Quando Meirelles voltou para o Brasil, depois de boa carreira no Banco de Boston, tinha um plano em duas etapas: primeiro, eleger-se governador de seu Estado, Goiás; segundo, tentar a Presidência. Entrou no PSDB, com a proposta de pagar sua própria campanha, sem doações. Havia, entretanto, um obstáculo intransponível: o cacique tucano de Goiás, Marconi Perillo. Meirelles então se elegeu deputado federal. Nem tomou posse: Lula, eleito ao mesmo tempo, convidou-o para presidente do Banco Central. Mas seu sonho se manteve: está no PSD de Kassab, seu trabalho na Fazenda vai bem, Temer não tem outro nome. Entre Lula (ou poste de plantão), Alckmin e Bolsonaro, Meirelles pode ser o candidato-novidade, sem processos, capaz de viajar a Curitiba a passeio, sem medo, e com Temer.

O Ministro da Fazenda de Temer e o ex-presidente Lula

Atenção em Lula

Lula disse que está na hora de parar de gritar “Fora, Temer”. Por que?

Amigos…

Lula não se transformou, de uma hora para outra, em apreciador de Temer. Soltou até, em Minas, uma frase venenosa (que, embora atinja a posta de sua escolha, derrama mais peçonha no adversário): “Como Deus escreve certo por linhas tortas, as pessoas que diziam que a Dilma era uma desgraça perceberam que Temer era desgraça e meia”.

…inimigos

Na verdade, Lula não tinha como falar isso sem atingir aliados. Quem foi que montou a chapa Dilma-Temer que ganhou a eleição?

Mas Lula provavelmente está estudando o terreno, escolhendo os adversários de campanha. Pois sua caravana, que deve percorrer o país inteiro, não está repetindo o sucesso da Caravana da Cidadania, de antes de se eleger presidente. É pouca gente e muita vaia.

BLACK QUARTA, DIA DE COMPRAS

Neste país todo mundo se queixa. Só porque o Governo volta a investir, colocando uns R$ 12 bilhões de capital em ações de apoio ao presidente Temer, ficam criticando vendedores de votos e compradores de opiniões.

Injustiça! Muito dinheiro trocou de mãos, mas civilizadamente, sem que até agora alguém tenha sido apanhado em flagrante, como o senhor ridículo que corria com a mala na rua. Uma transferência contábil – como a do Refis, em que o Governo deixará de faturar pouco mais de R$ 2 bilhões, em favor de Suas Excelências – não é tão inconveniente. Os de sempre são beneficiados e transferem parte dos ganhos a seus parlamentares de estimação, sem que bons amigos do presidente tenham de rechear e entregar pacotes com suas próprias mãos. É, convenhamos, mais chique. O efeito é o mesmo, garantir ao presidente os votos de que precisa para garantir aos amigos, e aos amigos dos amigos, que a garantia continua. É algo sólido: nada de la garantía soy yo. Emendas parlamentares de R$ 15 milhões, cada? Dinheirinho para pequenas obras. É uma boa economia: só se distribui a parte de cada um, sem que se gaste um centavo na tal obra.

Há o desconto de 60% nas multas ambientais. Justo: o prejuízo do Governo com as multas não pagas será 60% menor. O Governo desiste de privatizar o aeroporto de Congonhas: uma vaca com mais tetas tem mais a oferecer a quem quer mamar. E sobra até para nós: cabe-nos pagar a conta.

Mamãe eu quero

O caro leitor pode ficar tranquilo: Temer ultrapassa mais essa denúncia, que deve ser votada hoje. Mas, se o resultado é certo e sabido, por que tanta gentileza com os senhores deputados? Porque não ficaria bem, para Temer, derrubar a denúncia com menos votos do que teve ao derrubar a denúncia anterior. Para evitar que ele se mantenha no cargo dando a impressão de que perdeu apoio, fez-se a Grande Queima Pré-Natalina de Votos. Sabe como é, se prevalece a impressão de que o presidente se enfraqueceu, vários parlamentares passarão a exigir ainda mais por seu apoio. Evita-se então o vexame pagando adiantado para o presidente parecer forte. Muda algo? Muda: o dinheiro, por exemplo, muda do Tesouro para bolsos ávidos.

Mamãe, eu quero mamar

É claro que, aparentemente, é mais fino oferecer favores transformáveis em dinheiro do que dinheiro propriamente dito. Nem é preciso, por mais substanciosas que sejam as quantias transferidas, alugar apartamentos-cofre com um geddel de área construída para abrigar a fila de caixotes de notas novinhas. Mas, por maior que seja a tolerância com que se observe o mafuá das Excelências, o que está ocorrendo ultrapassa largamente a fronteira do decoro: o PMDB, por exemplo, partido de Temer, liberou seus deputados para apoiá-lo ou não. Traduzindo, o apoio ao presidente é negociado voto por voto com seus correligionários, mesmo sabendo-se que Temer foi presidente do PMDB, seu candidato em aliança com Lula e Dilma, e é a única possibilidade que o partido tem de permanecer no poder. Como esta é a última chance de derrubar o presidente, cada deputado exige o que pode. O Governo não se preocupa com isso: afinal, nós é que pagamos.

De tanto piscar olho

Na luta contra a denúncia, Michel Temer já convenceu todos os que poderia ter convencido (a oposição, convencida da derrota, decidiu tentar impedir o início da sessão, negando o número necessário de deputados). Mas há uma luta que Temer ainda terá de lutar, e com amplas chances de ser derrotado: as centrais sindicais não aceitam a reforma trabalhista. O motivo é o de sempre: com a extinção do Imposto Sindical, hoje cobrado de todo assalariado do país, seja ou não sindicalizado, e entregue aos sindicatos, só terá receita quem prestar serviços aos associados. Receber, sim; trabalhar para ter sócios contribuintes é outra coisa, dá trabalho. Centrais sindicais e sindicatos programam manifestações em todo o pais em 10 de novembro, véspera da entrada em vigor da reforma trabalhista. Só voltam atrás se o Governo lhes der outra receita no lugar desta.

E não se fale mal apenas de centrais e sindicatos de assalariados. Centrais e sindicatos patronais também estão pendurados no imposto.

Frase notável

Do ótimo site gaúcho Espaço Vital: “Depois do apartamento de Geddel, entendi por que Lula queria um tríplex”.

Ficha imaculada

Preocupado com o assassínio da turista espanhola María Esperança Jiménez Ruiz, na Favela da Rocinha? Tranquilize-se: a Justiça concedeu liberdade provisória ao PM que a alvejou.

Diz a decisão: “O custodiado estava trabalhando, possui imaculada ficha funcional, não havendo indícios de que solto possa reiterar o comportamento criminoso ocorrido à luz do dia”.

O VENTO E OS TEMPOS

Pois são tempos estranhos, estes; tempos em que se descobre que um antigo político, que se supunha afastado do ramo desde que foi condenado pelo Mensalão, controla um robusto partido com 37 deputados federais. O presidente Temer, naturalmente, sabia de tudo; e sabia ainda que o preço do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, Boy, comandante-chefe do PR, era a manutenção do Aeroporto de Congonhas em mãos do Estado. Nada de privatização: Congonhas continua estatal, prometeu Temer a Boy. Em troca de tão patriótica atitude, Temer ganha o apoio do PR para continuar no cargo, livre das desagradáveis denúncias da Procuradoria da República.

OK, Valdemar Costa Neto pediu, Temer concedeu. Mas por que estará Boy tão interessado na permanência de Congonhas em mãos do Governo?

Talvez alguma vertente brizolista em sua ideologia, por que não? Seria novidade, porque: a) parte dos políticos brasileiros acha que Boy não tem ideologia, guiando-se sempre pelos resultados, estes sempre excelentes; b) outra parte dos políticos brasileiros acha que Boy tem ideologia, sim, mas menos brizolista e muito mais petista, da ala ligada ao empresariadão. Talvez esteja preocupado em garantir a eficiência do aeroporto, já que, como se sabe, as estatais tradicionalmente produzem melhores resultados – e, sem dúvida, os bons resultados são sempre seu objetivo, um objetivo sempre alcançado. Temer e Boy, políticos experientes, sabem conversar.

Ventos uivantes

Nesse tipo de bate-papo entre velhos amigos, entre xícaras de bom café e biscoitinhos, a conversa sempre deriva para assuntos paralelos. No caso, decidiu-se reativar o antigo aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte, para voos interestaduais. Pampulha, é certo, também trará bons resultados.

Blowin’ in the Wind

Não se assuste: esta coluna não trará aos leitores nenhuma nova versão do clássico de Bob Dylan na interpretação de Eduardo Suplicy. Para evitar más interpretações da história dos aeroportos, o ministro dos Transportes, Maurício Quintella, apresentou a Michel Temer estudos da aviação civil e análises de consultorias independentes que demonstram que, sem a receita de Congonhas, a Infraero perde sua base financeira, e outros aeroportos do sistema no país ficam inviáveis. Que tal privatizá-los? O aeroporto da ilha de Santa Elena, entre América do Sul e África, está num lugar tão ruim que só um modelo de avião no mundo, um Embraer, lá chega e decola. É um aeroporto privado e dá lucro. A resposta, diz Bob Dylan, é soprada pelos ventos. Mas, que pena, o aeroporto dá lucro, embora só aos investidores!

Palavras ao vento

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse que Geddel Vieira Lima é o chefe da quadrilha. Renan Calheiros, que conhece tudo do partido e do Governo – o que é preciso saber e o que nem fica bem pensar que ele sabe – rebateu: “Engraçado. Nunca soube que Geddel era o chefe. Para mim, o chefe dele era outro”. Renan se conteve: já pensou se ele conta e de repente descobrimos que aquilo já não é mais surpresa?

Depois do vendaval

No interior de São Paulo, há uma frase feita a respeito de chefe: “Quem tem chefe é índio”. Coincidência: o presidente do Senado, Eunício Oliveira, fiel dos fieis de Michel Temer, tem o apelido de Índio. Ele acaba de dizer que é eleitor de Lula e é nele que, “obviamente”, deve votar nas eleições do ano que vem, se o PMDB não tiver candidato próprio e com acordos locais para decidir quem indica quem para cada cargo. Traduzindo, se não estiver garantida a ele, Eunicio, uma candidatura forte ao Senado pelo Ceará.

Livre como o vento

Segundo Eunício, o PMDB é um partido livre. “Livre” é uma palavra bonita, uma das preferidas deste colunista. Mas não é em todos os lugares, nem em todas as épocas, que “livre” é uma palavra elogiosa. Conforme o lugar, conforme a época, dizer que uma senhora tem comportamento livre é tudo, exceto um elogio. Em certos partidos, também. Pode significar que, a menos que haja garantias de sucesso em certas áreas, as palavras “livre” e “traidor” se transformam em sinônimos perfeitos.

O vento sabe a resposta

E, a propósito, há lógica na união, ao menos regional, de PT e PMDB. No Nordeste, Lula é o político mais popular; e o PMDB tem de longe a melhor estrutura, com mais prefeituras e mais tempo de televisão. Ambos são pragmáticos, digamos. Unir-se e ganhar juntos, muito, é o que querem.

Onde o vento faz a volta

Aeroportos, bons lucros – como na cobrança do transporte das malas, que segundo a Anac geraria uma tendência para reduzir o custo das passagens. Resultado: as passagens subiram 35,9% – cálculo da Fundação Getúlio Vargas, obtido pelo Diário do Poder.

CINCO LETRAS QUE CHORAM

Michel Temer está com a popularidade abaixo de cauda de jacaré, mas sai dessa; e, em algum momento até o final do mandato, dezembro de 2018, alguém reconhecerá os êxitos de seu Governo num setor-chave, Economia. Com o mesmo problema da área política, basicamente a necessidade de dar um agrado a numerosos parlamentares, conseguiu reduzir a inflação para baixo da meta, ampliar as atividades de maneira a indicar crescimento futuro, tomar providências que um dia forçarão o Governo a reduzir seus monumentais, extraordinários gastos. Na política e na economia, seguiu a oração de São Francisco: é dando que se recebe. E talvez ganhe para sua memória a frase seguinte do santo, “é perdoando que se é perdoado”.

Já Aécio, tanto faz ter ou não seu mandato mantido pelo Senado. Pois não há como manter um mandato que já não existe: por algum motivo, as delações de Joesley Batista, que abalaram mas não derrubaram o poder de Temer, foram catastróficas para Aécio. De repente, o segundo colocado na eleição presidencial, com 51 milhões de votos, quase metade do eleitorado, cujos aliados se cansaram de dizer que só perdeu por ter sido prejudicado na apuração, virou um zero político. O antigo presidente do Senado demonstrou-se incapaz de coordenar sua própria defesa, de articular-se com seus colegas senadores, de defender-se sem choramingos, sem argumentos.

As acusações foram aceitas como verdade. Deve haver motivo para isso.

Os passos de Temer

O presidente não deve tentar a reeleição. Acha que haverá um bloco à direita, com Jair Bolsonaro ou alguém menos flutuante (Bolsonaro já esteve em nove partidos, inclusive o Ecológico, diz defender o liberalismo mas gosta de estatais); um à esquerda, sob o comando do PT – ou, mais precisamente, de Lula, preso ou solto); um em cima do muro, o esfacelado PSDB; e quer chefiar a sucessão unindo partidos como PMDB, DEM, PSD, PTB, PTB, PR, PRB. Candidato provável, Henrique Meirelles. É cedo para prever, mas no meio da briga partidária, pode sobrar para ele. Ou Dória.

Como diria Caetano

Ou não. Lula neste momento lidera as pesquisas, mas ninguém vence a eleição com o nível da rejeição que ostenta: metade dos eleitores diz que não vota nele de jeito nenhum. Mas falta um ano e isso pode mudar. E Lula nem precisa ser candidato: basta que possa proclamar que “a zelite” usa as leis para prejudicá-lo e, por isso, em vez de sair candidato, lança outro. Quem conseguiu eleger Dilma sabe a força de que um poste é dotado.

A força do adversário

Lula conta, na campanha para que o eleitor o veja como perseguido, com o valioso apoio dos adversários. Os procuradores da Lava Jato já fizeram o que não deveriam com aquele “power point” segundo o qual, com ou sem investigações, Lula era apontado como ponto central da ladroeira. Já havia ocorrido, há tempos, o caso “Vavá dois pau”, uma operação contra Genival, irmão de Lula, que teria pedido “dois pau pra eu” para usar sua influência num caso. Que influência, cara pálida? Alguém que, entre Petrolão, Mensalão e Quadrilhão, aceita “dois pau”? E agora houve o caso mais obscuro de todos; a pressão sobre o filho de Lula.

Vale tudo

Há pouco mais de uma semana, no dia 10, um delegado da Polícia Civil de Paulínia, SP, com três policiais armados, invadiu com ordem judicial a casa do psicólogo Marcos Lula da Silva, o mais velho dos filhos de Lula. Segundo se soube, com base em denúncia anônima, acreditavam que na casa houvesse drogas e armas. Não havia. Recolheram então dois computadores, pendrives, CDs e DVDs; foram a outro endereço, com base na mesma suspeita, e o resultado foi o mesmo: nenhum.

A juíza Marta Pistelli, que dera a ordem de busca e apreensão de “armas e drogas”, disse ter sido enganada pela Polícia Civil. Mandou devolver tudo o que tinha sido ilegitimamente apreendido e foi mais longe: disse que tinha autorizado a busca e apreensão em um endereço, não em dois.

E até agora o governador Geraldo Alckmin, PSDB, que pretende ser candidato à Presidência, talvez contra Lula, ficou mudo. Nada disse – nem ele nem seu secretário da Segurança. Abriu-se uma investigação e o delegado foi afastado do caso – aliás, de qual caso? Por que adversários de Lula tanto querem estimular sua candidatura?

Como se faz

As investigações sobre corrupção no Brasil ocorreram também em Portugal, com manobras casadas e sócios ultramarinos. Mas, em Portugal, sem delações premiadas, a acusação é completa e não dá margem à criação de vítimas (Lava Jato à portuguesa). Atingiu do banqueiro Ricardo Salgado (Banco Espírito Santo) a José Sócrates, preso enquanto era primeiro-ministro. Sócrates se diz perseguido mas ninguém lhe dá bola. Juiz e procurador podem andar tranquilos pelas ruas, sem ser reconhecidos.

O PAÍS DO MOLHA A MÃO

A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do Governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, iriam denunciá-lo. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é um bom sinal. Quem sabe um dia?

Fica a dica

Conhecendo-se o que já se conhece, sabendo como pensa boa parte da população, acompanhando a disputa entre parlamentares e procuradores (tendo alguns ministros do Supremo, surpreendentemente, na mediação do jogo) vale a pena mergulhar um pouco na Operação Lava Jato. De duas, uma: ou a ofensiva contra a Lava Jato consegue sufocá-la, ou o cruzamento de delações premiadas, combinado com enxurradas de investigações bem-sucedidas, vai gerar tantos processos que ninguém conseguirá acompanhá-los (e, de um ou outro jeito, vamos perder o fio da meada). É hora de pegar um bom livro que sistematize o que se sabe da ladroeira geral e irrestrita. Uma sugestão: República dos Acarajés, do gaúcho Walter Soares, e-book Amazon.

Catalunha, só lá

O movimento catalão ameaçou repercutir no Brasil, com grupos sulistas querendo separar do Brasil o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. É daquelas ideias que parecem ótimas à primeira vista, mas não resistem mais do que isso; ninguém ganha nada e os custos são fantásticos. No caso, o Sul teria de importar todo o petróleo que consome, construir nova refinaria, ou importar derivados; e não haveria nem o sal grosso, que teria de ser levado de Mossoró, para o churrasco nosso de cada dia. E, como na Catalunha, o plebiscito é ótimo, bonito, mobilizador, mas só funciona quando os sonhadores perdem. Quando ganham, como agora na Espanha, que fazer?

O mundo gira

E essas histórias de independência não são as únicas coisas estranhas que acontecem no Brasil. Há dias, em Brasília, o ex-presidente Lula foi embora bem cedo de um churrasco na casa do deputado Paulo Pimenta, do PT gaúcho. Comeu e bebeu pela metade, não esperou o evento petista que deveria ocorrer logo após o churrasco, e disse que iria fazer acupuntura.

Não faz muito tempo, quem acreditaria que Lula iria suspender um churrasco, com todos os acompanhamentos de que gosta, seguido por um ato público, quase um comício, para fazer um tratamento médico?

Volta ao lar

Césare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios, com a extradição do Brasil aprovada pelo Supremo e suspensa pelo então presidente Lula no último dia de seu mandato, está a ponto de ser mandado de volta a seu país. Pelo que se comenta, falta pouco: só que o Governo italiano aceite reduzir a pena que vai cumprir na Itália à que ele sofreria no Brasil, 30 anos no máximo. O presidente Temer está disposto a devolvê-lo, caso os italianos cumpram as exigências da lei brasileira.

Evo, última chance

O presidente boliviano Evo Morales luta para conseguir disputar mais um mandato – seria o quarto em seguida. Morales se elegeu e logo tratou de reformar a Constituição, permitindo-se disputar o terceiro mandato. Mas as coisas, agora, estão difíceis: em nove das onze maiores cidades da Bolívia houve manifestações contra ele, exigindo que respeite o resultado da última votação a que concorreu (em fevereiro, sua proposta de disputar o quarto mandato foi derrotada). Mas Morales promete lutar até o fim.

OS DIAS FRIAMENTE QUENTES

Choque entre poderes: a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal impôs ao senador Aécio Neves, do PSDB mineiro, algumas medidas cautelares – por exemplo, obrigá-lo a passar a noite em casa. Na prática, sem que o senador tenha sido julgado e condenado, é obrigado a cumprir medidas que dificultam o exercício de seu mandato. O Senado ameaçou reagir, mas se acalmou quando o plenário do Supremo, mais poderoso que uma turma, resolveu analisar o caso. O julgamento é hoje. Se o plenário mantiver a decisão, o STF entrará em choque com a Advocacia Geral da União, ligada ao Executivo, e o Congresso: ambos, citando a Constituição, sustentam que parlamentares só podem ser presos em flagrante e por crime inafiançável. No próprio STF há ministros em favor dessa tese.

Choque entre poderes? Como diria um famoso líder político, menas, menas. A AGU é ligada ao Executivo, mas não é todo o Executivo. O STF já tem a postos a turma do deixa-disso. E o julgamento do Supremo gira em torno de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por três partidos que fizeram parte dos Governos Lula e Dilma: PP, Solidariedade e PSC (e que, a propósito, também fazem parte do Governo Temer) – o que indica que falam em nome de todos. Os partidos defendem a tese de que tudo que atinja mandatos tem de ser examinado pela Casa em 24 horas.

Palpite deste colunista: entre mortos e feridos, salvam-se todos.

Análise a frio

Por mais que alguém não goste de Aécio (e por melhores que sejam os motivos para isso), é difícil entender a obrigação de ficar em casa à noite. Como medida cautelar, é estranha: Aécio representa algum perigo ficando fora de casa? Qual perigo? Aécio, ao que se saiba, tem pago suas despesas noturnas e não tem dirigido depois de pagá-las. Ou então é antecipação de pena – pena que só poderia ser-lhe imposta após o julgamento.

Gelo morno

A segunda denúncia do ex-procurador-geral Rodrigo Janot contra Temer também não deve provocar tumulto institucional. Temer, não esqueçamos, foi deputado por seis mandatos e exerceu por três vezes a Presidência da Câmara. Em resumo, conhece o jogo e o ambiente. Não é fácil vencê-lo na área que melhor domina. E ele trabalha duro: distribui cargos, convence partidos a escolher deputados amigos para as votações importantes, abre esperanças para quem ainda não foi contemplado ou acha que recebeu pouco.
Imoral? Claro. Mas, em política, imoral mesmo é ser derrotado.

Irmãos camaradas

A guerra santa entre João Dória Jr. e Alberto Goldman só poderia ocorrer no PSDB, um partido de amigos formado apenas por inimigos. Goldman, como seus aliados Serra e Andrea Matarazzo, não engoliu a vitória de Dória, apoiado por Alckmin, nas prévias do partido. E, nove meses após sua posse, disse que Dória como prefeito nem tinha nascido.

Dória reagiu dizendo que Goldman era fracassado e vivia de pijama em casa. Goldman disse que era velho mas não velhaco. Ufa! para ouvir alguém falar bem de tucanos, só mesmo procurando inimigos. Se o caro leitor não acredita, basta procurar algum tucano que defenda o senador Aécio Neves.

Amores odiados

Se ambos pensassem mais, talvez tivessem ofensas mais sólidas para dirigir um ao outro. Goldman errou ao dizer que Dória não tem ligação com o PSDB, Dória era ligado a um tucano de raiz, o governador Montoro, e trabalhou com outro tucano bicudo, o prefeito e governador Mário Covas. Na época, quem não era tucano era Goldman, escudeiro do governador Quércia, responsável pela saída de Montoro e Covas do PMDB. E Dória errou ao dizer que Goldman está aposentado. Tem 80 anos, vinte mais que Dória, e é incansável como ativista tucano. Para o bem ou para o mal.

El nombre del hombre

Dória levou um susto ao ver sua avaliação como prefeito cair, sem que suas intenções de voto para a Presidência subissem em outras regiões do país. Poderia recuar, dizer que jamais se proclamou candidato, que todos os seus esforços foram feitos para eleger Alckmin. Ninguém iria acreditar, mas quem acredita em políticos? Vai continuar, pelo mesmo motivo que levou Ulysses Guimarães a se candidatar em 1989, com os índices lá em baixo: era sua única chance. Talvez marque mais presença em São Paulo, em especial quando iniciativas suas de privatização derem certo. E manterá o ritmo de viagens.
Eleger-se é outra coisa – e quem pode se eleger por um partido em que os aliados são seus irmãos de sangue, e querem bebê-lo?

A hora de Bolsonaro

Jair Bolsonaro tem tudo para repetir a trajetória de Marina Silva: sai na ponta e chega na ponta, só que na outra ponta. Há entrevistas gravadas em que defende a tortura (com estas palavras) e diz que sonega impostos.

NOSSO POVO É INGRATO

Desculpe, mas é preciso registrar que nossos concidadãos só reclamam, e quando suas reclamações são atendidas reclamam do mesmo jeito.

Carlos Arthur Nuzman, supremo cacique olímpico e chefão do vôlei, foi preso há dias. E está todo mundo indignado com ele. Lembremos: durante 50 anos, o país só viu o ouro olímpico em 1920 (Guilherme Paraense, tiro). 1952 e 1956 (Adhemar Ferreira da Silva, salto triplo). Não ganhávamos ouro olímpico nem no futebol. Enquanto isso, americanos, russos, cubanos, alemães orientais e chineses se entupiam de medalhas de ouro. Com a prisão de Nuzman, descobrimos que em seu poder tinha 16 barras de ouro. Mais ouro que todas as medalhas de todos os gringos, em todos esses anos, somadas. Agora reclamam dele por realizar nossos sonhos de medalhas!

E Geddel, então? Geddel, mais que uma pessoa, é legião; aqui o citamos como símbolo de tantos colegas que, como ele, se dedicam ao bem. E essa nobre atividade é desempenhada com tanto desvelo que, em poucos anos de carreira, os mais competentes entre eles já acumularam bens de sobra. Geddel, nosso exemplo, tinha R$ 51 milhões em casa.

Temos ainda o túnel construído para roubar R$ 1 bilhão do banco. Nós nos queixamos de obras superfaturadas e malfeitas. Este túnel foi bem feito em três meses, é sólido, custou R$ 4 milhões. Não temos do que reclamar: apenas reconhecer que os bandidos dos outros são melhores que os nossos.

Sem fantasia

Devido à prisão de Nuzman, acusado de pingar pixulecos para trazer ao Brasil os Jogos de 2016, o Comitê Olímpico Internacional suspendeu o Comitê Olímpico Brasileiro. Indignação por essa coisa tão feia, suborno!

Mas, desde que se concluiu que a Olimpíada é um grande evento turístico-econômico, Governos dos mais diversos países entraram na disputa para atraí-la. Devemos acreditar que, apesar dos abundantíssimos interesses comerciais em jogo, jamais algum Governo acenou com um “por fora” a dirigentes olímpicos que o apoiassem? Serão os dirigentes da Olimpíada tão fiéis ao amadorismo no esporte que não queiram, para usar o termo da moda, “monetizar” seu voto e influência? Devemos? Então, tá.

Vem que eu te quero tolo

As primeiras investigações indicam que Nuzman duplicou seus bens nos dois anos anteriores aos Jogos. Deve ter feito excelentes negócios, que lhe deram muito dinheiro, mais algum para gringos que poderiam ser úteis ao país. Ou isso, ou recebeu o dinheirão da turma lá de cima, separou uma boa parte para sim (quem parte e reparte sempre fica com a melhor parte) e deu o restante a gulosos futuros aliados internacionais. Fica faltando identificar a turma lá de cima. É só procurar nos jornais da época quem é que estava mais feliz com a vitória politica que era trazer ao Brasil a Olimpíada. Este colunista não vai pesquisar, não: já está cansado de ouvir o “é górpi!”

Vem prender-te em meus braços

Pegar aquele túnel tão bem feito no momento em que já estava debaixo do cofre do banco foi uma bela vitória. Só resta uma dúvida: por que não esperar os bandidos começarem a parte final do trabalho, o corte do cofre, para prender todos juntos? Há várias hipóteses: ou os bandidos detectaram a movimentação da policia e caíram fora ou, pior, tinham informantes bem situados que lhes contaram que a Polícia já havia descoberto tudo.

O erro dos afobados

O deputado Ricardo Tripoli, líder do PSDB na Câmara Federal, acha que o governador Geraldo Alckmin erra ao aproximar-se do presidente Michel Temer. Alckmin, possível candidato do PSDB à Presidência, quer minar as resistências do PMDB, o partido de Temer, a apoiar um candidato tucano. Tripoli acha que o Governo Temer já está com a popularidade perto de zero e, no ano que vem, terá virado pó. E seu apoio, em vez de ajudar o candidato tucano, irá é prejudicá-lo. Tripoli é um bom deputado, correto, estudioso, mas está se deixando levar por pesquisas fora de hora.

Número é número

Neste 6 de outubro, foram divulgados os números da inflação. A alta em setembro foi de 0,16% – um número baixíssimo, a ser festejado até na Suíça ou Alemanha. No acumulado do ano, de janeiro a setembro, a inflação foi de 1,78%. Fazendo-se a conta de 12 meses, de outubro de 2016 ao final de setembro de 2017, a alta de preços atinge 2,54%. A meta de inflação definida pelo Banco Central é de 4,5% ao ano, e Dilma jamais conseguiu mantê-la nesse nível. No momento, o Brasil discute ladroeira, está em crise política, Michel Temer sofre com processos. Na hora em que o país descobrir que o dinheiro está mantendo o valor, o apoio oficial volta a ser bom. Claro que Meirelles pode sair candidato, capitalizando o fato de ter comandado o time que segurou os preços, mas é sempre melhor estar do lado da inflação baixa, e não da desvalorização do dinheiro do eleitor.

GINGA PRA LÁ, GINGA PRA CÁ

A pesquisa Datafolha sobre as eleições presidenciais e a atual conjuntura chega a conclusões claríssimas a respeito da opinião popular: Lula é o candidato preferido para a Presidência, vence qualquer adversário no segundo turno e deveria estar na cadeia.

Nada de teorias conspiratórias: o Datafolha é respeitado, sério, dispõe de equipe experiente e qualificada, com excelente histórico de previsões corretas. Este é seu patrimônio maior; perdê-lo significaria sair de um mercado estável e lucrativo, além de prejudicar a reputação do jornal a que pertence, a Folha de S.Paulo. Que há algo esquisito, isso parece evidente. Mas não se refere à manipulação de pesquisas, e sim à hora de fazê-las.

Lula está sendo julgado por corrupção, em vários processos. Condenado já está, em primeira instância; um de seus aliados mais próximos, Antônio Palocci, que foi seu ministro, acaba de acusá-lo de roubalheira desenfreada. As acusações de Palocci foram um aperitivo do que poderá contar, em delação premiada. São fatos atuais, que acontecem agora, com TV e tudo.

Já a eleição presidencial é daqui a um ano e não se sabe nem quem serão os concorrentes. Alckmin, Dória, Serra, pelo PSDB? E se Joaquim Barboza for candidato? Ou Sérgio Moro, hoje popularíssimo? A economia mostra sinais de recuperação. Daqui a um ano, se a recuperação continuar, que tal Henrique Meirelles, do PSD? Pesquisa sem concorrentes é coisa só nossa.

Ele sabe

Gilberto Kassab, cacique do PSD, disse há poucos dias, sobre Meirelles: “Ainda não é candidato, mas reconheço que é um bom presidenciável”.

Moro, o ingênuo

O juiz Sérgio Moro disse nesta semana que o trabalho da Lava Jato está chegando ao fim, mas que o combate à ladroeira continuará com o mesmo vigor. A Lava Jato, disse, teve como alvo a corrupção no setor de petróleo e fez seu trabalho; agora falta pouco. Moro agiu e age de forma competente, desmontando esquemas de roubo na Petrobras. Há quem faça restrições a seus métodos, mas os tribunais superiores os aceitaram. Moro é um profissional de primeira linha. Só é ingênuo ao supor que o combate à corrupção continuará com o mesmo vigor. Moro pegou de surpresa os chefes do roubo, que demoraram a reagir por acreditar que estavam acima de qualquer suspeita. Hoje já sabem que a lei pode atingi-los. Protegem-se.

O vigor de Moro e dos outros

Uma ótima revista gaúcha, o Espaço Vital pesquisou os números do tal vigor. Em Curitiba, Moro condenou 107 réus da Lava Jato. Em Brasília, o Supremo ainda não condenou ninguém. É por isso que tanta gente luta para garantir o foro privilegiado: é muito mais seguro. Agora, outros casos levantados pelo Espaço Vital desta semana.

Celular alto padrão

O Tribunal de Justiça de Pernambuco autorizou a compra, por pregão eletrônico, de 60 smartphones (embora só tenha 52 desembargadores). Preço autorizado: R$ 12.633,00 por unidade, R$ 758 mil no total. Este colunista não encontrou anúncios de nenhum smartphone custando nem metade deste preço. Mas isso não faz diferença: o caro leitor ganha celulares ou costuma comprá-los com seu próprio dinheiro? Pois é.

Câmara Tour

De janeiro a 15 de setembro, a Câmara Federal autorizou 274 viagens internacionais de Suas Excelências, anunciadas como “missão oficial”. Newton Cardoso Jr., do PMDB mineiro, foi conhecer o Mercado de Maryland, EUA. Dois tucanos, Pedro Vilela (Alagoas) e Vanderlei Macris (São Paulo), e Cláudio Cajado (DEM – Bahia), passaram cinco dias em Paris num congresso de aviação. José Nunes (PSD-Bahia) e Paulo Azi (DEM-Bahia) foram a Orlando “para um encontro com diretores da Disney”. E todos nós nos responsabilizamos pela conta e pelas diárias.

Dúvida pertinente

Se o caro leitor emitir um cheque de R$ 5 mil, o banco é legalmente obrigado a encaminhá-lo às autoridades, para que cruzem as informações e vejam se não há irregularidades e se sua declaração de imposto de renda o capacita a pagar esse valor. Mas a JBS pagou R$ 248 bilhões a políticos e ninguém percebeu nada, nem no Governo do PT, nem no do PMDB?

Duvidar sempre

Luciano Coutinho, presidente do BNDES de 2007 a 2016, disse que os negócios do banco deram lucro, comprovando seu acerto. Coutinho é um economista renomado, conhece o ramo. Mas agora sabemos como é que a JBS obteve seus lucros. E há casos curiosos – por exemplo, uma produtora de pás eólicas, a Tecsis, que recebeu US$ 460 milhões do BNDES e, três anos depois, demitiu sete mil de seus oito mil empregados, fechou sua maior fábrica e enfrenta diversos pedidos de falência.

MISTURANDO BEM, FICA LIVRE

É tudo muito simples: os petistas agora têm de falar mal de Palocci, falar bem de Maluf e defender Aécio. Os parlamentares do Centrão têm de falar bem de Temer e Aécio, dizer que não existe Quadrilhão, esquecer Maluf (as alas que hoje comandam o PP operaram sozinhas no Mensalão) e ignorar Palocci. Os tucanos falam bem e mal de Temer, esquecem Maluf, ignoram Palocci e defendem Aécio, que foi seu candidato à Presidência. Mas nem todos defendem Aécio: Alckmin, Serra, Fernando Henrique e Tasso Jereissati, os caciques do partido, mantêm-se em estrondoso silêncio.

Todos, petistas, tucanos das mais diversas alas (há aproximadamente uma ala por parlamentar), a turma do Quadrilhão, se aliaram em defesa da democracia deles, especialmente das normas que dificultam prisões. Onde já se viu, punir senadores só porque fizeram o que não deviam? E até onde isso vai, considerando-se que metade dos senadores está sendo investigada?

Suas Excelências descobriram que gritar “Fulano na cadeia” para fins eleitorais virou algo perigoso: o grito vira eco, vai e volta. Querem mudar. Só falta combinar com o Supremo. Mas aí tudo é mais suave: o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade, que os partidos propuseram em defesa dos parlamentares atingidos por decisões do Supremo, está marcado para breve, 11 de outubro. E a presidente do Supremo, ministra Carmen Lúcia, já disse que Supremo e Senado “estão na boa”. Estão na boa, pois.

O objetivo final

Como presidente do Supremo, Carmen Lúcia tem papel da maior importância. Frase sua: “O fim do Direito é a paz, a finalidade do Direito é a paz. Nós construímos a paz”. A paz, portanto, será construída.

Nem burros…

Há muitos anos, a deputada estadual paulista Conceição da Costa Neves, a temida rainha da Assembleia, dizendo a este repórter que os deputados eram o retrato do povo, exemplificou: “Na Assembleia há honestos e ladrões, estudiosos e ignorantes, preguiçosos e trabalhadores. Só não tem burro nem bobo, porque burro e bobo não conseguem chegar aqui”.

Todo esse comportamento de Suas Excelências, que nós consideramos esquisito, eles sabem que é mesmo esquisito. Burro e bobo não chegam ao Congresso. Eles têm motivo para agir assim; na verdade, motivos. Alguns querem livrar-se de problemas futuros com grades e tornozeleiras; outros só se preocupam em manter o padrão de vida, sem devoluções, sem multas.

…nem bobos

O fato é que não há partido importante livre de escândalos. Quem parece lutar por Aécio está é salvando Lula; quem diz que Lula não deveria passar por tantos problemas está lutando por Aécio – e todos, inclusive Renan Calheiros, que fez discursos oposicionistas, por Michel Temer, que sabe o que fazem aliados e adversários quando ninguém está olhando. Em cada caso, seguem a regra básica de sobrevivência congressual: “no meu, não”.

Do chão não passa

Michel Temer está a ponto de bater um recorde mundial: daqui a pouco, seu índice de aprovação poderá ser divulgado com nome por nome dos que o apoiam. Na última pesquisa Ibope, Temer está com 3%, menos da metade de Dilma na sua pior fase. E 77% acham seu Governo ruim ou péssimo.

Aliados já querem botar a culpa no pessoal de Comunicação, já que os bons resultados econômicos – um pouco menos de desemprego, uma leve alta no consumo, a tendência ao retorno do crescimento econômico, a forte baixa nos juros, a inflação em queda – não têm contribuído para evitar a má imagem de Temer e do Governo. O problema é que, no momento, os resultados econômicos teriam de ser fenomenais para elevar a popularidade do presidente. Na hora em que cada prisão é saudada antes que se saiba seu motivo, esperava-se que Temer limpasse a área, cortando despesas, combatendo privilégios, implantando austeridade. E ele assumiu com Jucá, Padilha, Moreira Franco, e apareceu conversando com Joesley – aquele que não resistiu e caguetou a si mesmo. Não há popularidade que aguente.

As tropas-ioiô

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, anunciaram a retirada das tropas que cercaram a Rocinha. Ambos dizem que houve significativos avanços para a paz na favela e que, “se necessário”, os militares podem voltar. Lembremos: o traficante-chefe da favela, Rogério 157, escapou do cerco. Como não será aceito em outros morros (cada um já tem seu traficante-chefe), nem se converterá a alguma religião contemplativa, tem mesmo é de voltar para a Rocinha. O chefão anterior, Nem, que comanda a guerra contra 157, tem seu quartel-general num presidio federal de segurança máxima, a milhares de quilômetros do Rio. Mas agora querem prendê-lo no Rio mesmo, pertinho da favela. Sairia mais barato manter as tropas na Rocinha, em vez de fazê-las ir e voltar.

GUERREIROS COM GUERREIROS FAZEM ZIG ZIG ZA

O clima político começou a ferver quando um general da ativa ameaçou as instituições com o roncar dos canhões. Ferveu ainda mais porque, agora, está soando na Câmara o ronco de outra denúncia contra o presidente Michel Temer – e isso logo depois de Lula exibir seu ronco rouco de candidato à Presidência ao apresentar ao juiz Sérgio Moro os recibos de pagamento de aluguel de um apartamento vizinho àquele em que mora e que, segundo as suspeitas, seria de sua propriedade, pago por empreiteiras, como parte de propina. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, CPMI, ronca contra o ex-procurador-geral Janot, que acusou tantos deputados e senadores. E na Câmara dos Deputados já se ouve o ronco das ruas, pedindo a votação das reformas eleitorais que estão em pauta. Um calor infernal, derretendo o regime e as instituições. Bem…

Calma, caro leitor. A denúncia contra Temer, ao que tudo indica, cairá como caiu a anterior (e pode até custar mais barato – alegre-se, já que a conta é sua). Os adversários de Temer apostavam suas cartas numa denúncia mais sólida, mas de novo houve muita delação premiada e pouca investigação. Mais ainda, a defesa de Lula vai ter mais trabalho, diante de novas denúncias e investigações. As reformas serão fraquinhas, e só uma é certa: mais dinheiro para as campanhas eleitorais. Resta o ronco das ruas – o ronco de quem não aguenta acordado a repetição desse ritual tão chato.

Temer

Não há como discutir, por enquanto, o mérito da denúncia contra Temer. É baseada em declarações que podem ser verdadeiras ou falsas, o que só se saberá se forem verificadas (e muitas já poderiam tê-lo sido). Mas o pessoal do Fora, Temer se esqueceu de que ninguém é deputado federal por tanto tempo, nem exerce três vezes a Presidência da Câmara, se não a conhecer direito. E a tática de atirar para todos os lados talvez tenha prejudicado ainda mais a possibilidade de aceitação da denúncia: com tantos deputados denunciados, quanto menos houver investigações melhor será para todos.

Lula

A primeira reação à entrega dos recibos de pagamento de aluguéis foi boa – mas só até que os recibos fossem analisados. Há enganos visíveis, como pagamentos no dia 31 de meses que têm 30 dias; há erros de grafia que se repetem em vários recibos, como se tivessem sido impressos um em seguida ao outro. E há a declaração do proprietário oficial do apartamento, Glaucos da Costamarques, de que entre 2011 e 2015 não recebeu qualquer aluguel, e que só passou a recebê-lo após a prisão do pecuarista José Carlos Bumlai, seu primo e amigo de Lula. De qualquer forma, há como verificar as informações: nas contas bancárias de Costamarques, por exemplo. O pagamento sempre em dinheiro é pouco usual, mas não é crime.

Lula 2

O ex-presidente está condenado em primeira instância a nove anos e meio de prisão; recorreu ao Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. O TRF absolveu João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, que tinha sido condenado por Sérgio Moro na primeira instância; mas aumentou a pena imposta a José Dirceu. Se o TRF condenar Lula, ele estará incurso na Lei da Ficha Limpa. Não poderá ser candidato em 2018 (e, conforme a decisão do tribunal, será preso ou não). Mas, além desse julgamento, e do outro a que responde perante Moro, Lula é réu em seis ações penais, foi denunciado em dois casos (se a denúncia for aceita, passa a ser réu), e é alvo de seis inquéritos abertos pelo Ministério Público e pela Polícia Federal em Brasília, São Paulo e Curitiba.

Janot

As ações propostas pelo então procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente Temer dificilmente terão êxito: seus adversários internos têm hoje o poder na Procuradoria Geral da República e parlamentares feridos por suas denúncias têm a CPMI para incomodá-lo. Mas quem resolver hostilizar Janot corre um risco: passar do ponto. Há muitos procuradores que não o apreciam, mas que se considerariam pessoalmente atingidos por investigados à cata de revanche. O espírito de corpo do Ministério Público, se houver tentativa de vingança, estará ao lado de Janot. Será preciso provar algo muito grave contra ele para que o MP o deixe ser imolado.

O mais sério de tudo

O acontecimento mais grave dos últimos dias ocorreu em São Paulo, na manhã desta terça-feira. Houve falta de energia elétrica por um curto período, que conforme o local variou entre alguns segundos e 20 minutos. E talvez o problema seja falta de energia na rede de distribuição. As represas do Nordeste estão vazias, a chuva não começou no Sul/Sudeste, e o consumo de eletricidade iguala a produção, sem margem para falhas.

RIO SEM LEI

Bandidos descem a pé da favela onde estão aquartelados, no Rio, carregando nas mãos, sem disfarce, armas de grande potência. Estão indo para invadir a favela ao lado, onde pretendem estabelecer nova base de fornecimento de drogas. Não que a favela que pretendem conquistar não tenha seus próprios traficantes armados, que fornecem todos os tipos de droga a quem quer que tenha dinheiro para comprá-la; o que os invasores querem é se apropriar do tráfico dos vizinhos, embolsando novos lucros.

Na luta pela conquista de novas áreas, as balas às vezes atingem seus alvos, às vezes matam seus inimigos. Mas boa parte das balas atinge casas de consumidores, ou de cidadãos que não têm nada a ver com o tráfico mas se transformam em vítimas. Algumas balas matam e ferem crianças, atingem mulheres grávidas, fazem vítimas que tiveram a má sorte de estar no lugar errado, na hora errada. Os bandidos não se preocupam com isso: o problema é das vítimas, da família das vítimas, do governo que tem de atendê-las e isso num momento em que o Rio está totalmente sem verbas.

Há Polícia nas ruas, há Forças Armadas nas ruas. Os bandidos os ignoram. Sabem que são mais fortes; que dirigentes das Forças Armadas e da Polícia brigam entre si para ver quem manda mais. Parecem não perceber que quem manda mais são os bandidos. A propósito, a favela que tenta invadir as outras é a Rocinha. Bem em frente ao belo Hotel Nacional.

As ações oficiais

Mas ninguém imagine que o Governo (federal, estadual, municipal, seja qual for) esteja inerte. Não! Os governos mudaram o nome das “favelas” para “comunidades”, politicamente mais correto. Claro que “comunidade” não é a mesma coisa que “favela”: qualquer condomínio fechado, por mais chique que seja, é também uma comunidade. Mas vá lá: daqui a pouco poderão dizer que o número de favelas se reduziu, já que várias já favelas não são, mas comunidades. Os governos investiram também em unidades de polícia pacificadora, UPP; mas não é só de polícia que a favela precisa. Cadê os postos de saúde, as escolas, as quadras esportivas? Se a presença do Estado nas favelas se limitar à Polícia, à pura e simples repressão ao crime, não há como impedir os bandidos de comandar os homens de bem.

Dúvida pertinente

Há alguns anos, o repórter Gilberto Dimenstein perguntou que é que faríamos se a Argentina tomasse um pedaço do Brasil. Haveria protestos, conclamações à guerra, tudo o que fosse necessário para reaver o território ocupado. Perguntava: os bandidos tomaram uma parte de nosso país, na qual não permitem nem a entrada da Polícia. E completava: em que é que os traficantes, que ninguém incomoda, são melhores que os argentinos?

Mar mineiro

O deputado Jair Bolsonaro disse que, se for eleito presidente da República, o Brasil vai explorar suas riquezas – “quem sabe até abrindo uma saída para o mar para Minas Gerais”. Para que? Minas exporta minério de ferro em grandes quantidades, já exportou ouro até provocar inflação em Portugal, exporta manganês. Não tem saída própria para o mar, mas utiliza os portos de outros Estados, sem precisar cavar um rio salgado para chamar de seu. Bolsonaro acha que pode ganhar. Pretende levar os militares de volta ao poder, com eleições. Mas, se tentar construir um mar interior, não haverá no país quem não fique de olho nas concorrências públicas.

Os outros

João Dória e Geraldo Alckmin, um dos dois sai pelo PSDB. Lula não deve sair, mas não se sabe quem é o poste que escolherá para substituí-lo. Álvaro Dias é candidato pelo Podemos, novo nome do PTN. Joaquim Barbosa é disputado por vários partidos, já que, imagina-se, tem bom potencial eleitoral. Henrique Meirelles é do PSD; se sua política econômica continuar dando certo, pode ser o candidato do Governo (ele ou Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES). Ciro Gomes gostaria de ser o candidato de Lula, mas é difícil. Carlos Ayres Britto, ex-presidente do Supremo, não tem partido nem voto. Mas traria respeitabilidade à eleição.

As chances?

Ainda não dá para saber nem quem será candidato, quanto mais as possibilidades de vitória de cada um: falta um ano para as eleições.

Atrapalhado

Há políticos capazes de atravessar a rua para escorregar numa casca de banana na calçada oposta. Michel Temer, por exemplo, resolveu colocar em estudos o fim do horário de verão. Num país que paga contas de energia mais altas porque é preciso ligar as termelétricas, Temer acha razoável desperdiçar a economia de eletricidade trazida pelo horário de verão. Vale pelas piadas: por exemplo, Temer não quer que o por do Sol ocorra uma hora mais tarde porque, com sua aparência de vampiro, tem de evitar o Sol.

BAGUNÇA FARDADA

Há um ponto de coincidência entre democracias e ditaduras, entre países de todas as tendências, da extrema esquerda à extrema direita: as Forças Armadas têm de seguir a hierarquia. Quando este princípio básico deixa de ser respeitado, implanta-se a bagunça. E este princípio básico acaba de ser desrespeitado no Brasil. Quem deveria estar no comando está se omitindo.

O fato: um general da ativa, Antônio Hamilton Mourão, disse no dia 15, numa palestra em Brasília, que o Exército pode se sentir obrigado a intervir, e tem “planejamentos muito bem feitos” para isso. “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos de impor isto”. E “a imposição não será fácil”.

O general deveria receber do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, imediata ordem de prisão, por desrespeito à hierarquia. Se o comandante do Exército se omite, pode ser demitido pelo ministro da Defesa, Raul Jungman (que levou três dias para, em pífia nota oficial, dizer que há clima de disciplina nas Forças Armadas – o que agora é falso – e que chamou o comandante para explicar a fala do subordinado). Há o comandante-chefe das Forças Armadas, que tem cara feia mas se calou: o presidente Michel Temer. Quem vai impor a ordem nas Forças Armadas?

Relembrando

Uma das causas principais da deposição do presidente João Goulart, em 1964, foi a quebra da hierarquia nas Forças Armadas, quando sargentos e cabos se rebelaram. A quebra da hierarquia fez com que oficiais favoráveis em princípio à manutenção do presidente passassem à oposição. E depois se soube que um dos principais incentivadores da quebra da hierarquia, o Cabo Anselmo, era agente provocador – que, mais tarde, faria a infiltração na guerrilha, trabalhando em sintonia com o delegado Sérgio Fleury.

Bagunça sem farda

A censura prévia é proibida pela Constituição (que também assegura a livre expressão do pensamento). A prática, porém, vem sendo outra:

*Uma exposição artística em Porto Alegre teve de parar porque seu patrocinador, o Banco Santander, se retirou, após manifestações hostis.

*Um projeto de iniciativa popular para proibir o funk está em análise no Senado. Proibir um ritmo? Aqui já se tentou proibir o samba, o maxixe e até um instrumento, o violão. Mas isso ocorria no início do século passado.

*a Justiça proibiu a exibição, no SESC de Jundiaí, SP, da peça teatral O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, na qual Cristo é transexual. O pedido de proibição diz que a peça é “atentatória à fé cristã”; o juiz que aceitou o pedido diz que, além de atentar contra a dignidade da fé cristã, “caracteriza-se como ofensa a um sem-número de pessoas”; é desrespeito “a uma pessoa venerada no mundo inteiro”, “o Filho de Deus”.

A exposição e a peça não são públicas. Vai quem quer (no caso da peça, comprando ingresso). Este colunista não iria a nenhuma das duas. Nos dois casos, podem ser de mau gosto e ofensivas. Mas induzem a agressões? Não. Enganam o público, para que veja o que não queira? Não. Então, não podemos agir como os malucos muçulmanos que assassinaram cartunistas do Charlie Hebdo, em Paris, e ameaçaram o jornal dinamarquês que publicou uma charge de Maomé. Somos diferentes deles – ou não?

Idiota? Nem sempre

O dirigente norte-coreano Kim Jung-un pode parecer bobo, mas se fosse não sobreviveria à disputa pelo poder com seus parentes – um dos quais já foi executado, e outro assassinado no Exterior. E a menção à ilha de Guam como possível alvo de suas bombas atômicas foi uma forma inteligente de mostrar conhecimento sobre forças e fraquezas americanas. Se Guam for atacada, o poderio americano na região do Oceano Pacífico sofrerá forte abalo, diz o especialista Richard Parker, em estudo para a Political Review de Arlington, EUA. Vale ler.

Jogo de soma zero

De Fernando Albrecht, ótimo colunista gaúcho: “Vocês devem conhecer a história de um vilarejo em que todos deviam R$ 100,00 para um amigo ou conhecido. É um exercício de lógica: no final, ninguém pagou ninguém e as dívidas foram quitadas. Nas 170 e tantas delações premiadas corre-se o risco de acontecer algo semelhante.

“Eis o que pode acontecer: João delatou André que delatou Tiago que delatou Roberto que delatou Carlos que delatou Miguel que delatou José que delatou Luís que delatou Maurício que delatou Felipe que delatou Adriano que delatou Paulo que delatou João, mas como João já era um delatado premiado ficou tudo zero a zero e todos viveram felizes para sempre. Só que agora todos sabem de tudo.”

Mas, cá entre nós, quem é que não sabia?

CADA CRIME COM SEU NOME

Vamos falar claro: nenhum empresário deu propina a políticos, nenhum político recebeu propina. A palavra propina é sinônimo de “gratificação”, ou “gorjeta”, agradecimento livre e espontâneo pela prestação de bons serviços. Não é crime. “Gorjeta” deriva de “gorja”, garganta – algo como “tome uma dose”. Equivale ao francês “pour boire” – para beber. O que esses empresários fizeram foi “suborno”; Suas Excelências foram “subornados”. Todos os envolvidos no suborno cometeram crime.

Os “malfeitos” de que falava Dilma chamam-se crimes. A delação premiada foi essencial para desmascarar esse tipo de práticas. Mas deixemos de lado os eufemismos: aproveitemos as revelações da delação e desprezemos os delatores. São “caguetas”, “dedos-duros”, “alcaguetes”, “X9” – seres desprezíveis, que jogam cúmplices no fogo para salvar os próprios rabos sujos. Seres que não se envergonham de ostentar, perante filhos e família, a pena reduzida, o símbolo da traição. Visitar o cúmplice para gravá-lo? São traidores. Que tenham tido tantos privilégios para fazer coisas tão feias mostra o nível de bandalheira a que chegou a moral do país.

Na zona não há santos. Os ingleses diziam que um cavalheiro não ouve a conversa dos outros (diziam, mas ouvem; dizer era a homenagem que o vício presta à virtude). No Brasil do vale-tudo, em que milícias de policiais disputam com bandidos o controle da bandidagem, nem se faz, nem se diz.

A novilíngua

Todo esse esforço para amenizar o nome tradicional dos crimes lembra um romance clássico de George Orwell, 1984. Num Estado totalitário, em que os habitantes são permanentemente monitorados por câmeras, em que até o sexo tem de ser autorizado, tenta-se mudar o idioma para uma tal Novilíngua, em que certos conceitos desapareceriam, na falta de palavras para designá-los. “Liberdade”, por exemplo, era uma palavra politicamente incorreta. Aqui, em vez de cuidar da urbanização, saneamento, transporte, passa-se a chamar favela de “comunidade”, como se isso mudasse alguma coisa. A máfia de larápios que se entupiu de dinheiro para trair eleitores vira um grupo que “recebeu propina”. Queremos clareza: ladrão é ladrão.

E, veja, é médico!

Muita gente aqui tem amigos que de vez em quando viram inimigos mas logo voltam a ser amigos. Lula sempre tratou Antônio Palocci, coordenador de sua campanha vitoriosa à Presidência, seu ministro da Fazenda, indicado por ele para coordenar a campanha de Dilma, imposto por ele para a Casa Civil da nova presidente, como amigo de fé e irmão camarada, daqueles de se guardar do lado esquerdo do peito (lado do coração e da carteira). Agora, caguetado, eis o que disse do amigo Palocci, que pelo jeito agora é inimigo, para Sérgio Moro: “É médico, frio, calculista, simulador”. Que é que significa, na frase, “médico?” Um dia Lula diz “Conheço o Palocci bem. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”. “Ele espertamente diz ‘não é que sou santo’, e pau no Lula”.

Amigos, amigos…

Do lado do procurador-geral Rodrigo Janot, a surpresa veio de onde ele menos esperava: de seu colega mais próximo, o procurador Marcelo Miller. Miller, um dos coordenadores da caguetagem dos dois Batista, demitiu-se da Procuradoria e começou a trabalhar no escritório de advocacia que defende os irmãos que dedaram Michel Temer. Não é comum, mas a lei permite – só que surgiram suspeitas de que Miller já orientava a defesa dos dois alcaguetes enquanto estava na Procuradoria. A Polícia Federal tem certeza de que as suspeitas são verdadeiras. Janot obteve a prisão de Miller.

…negócios à parte

Enquanto cuida da frente interna, Janot aproveitou seus últimos dias como procurador-geral (a partir desta semana, o cargo é de Raquel Dodge) para apresentar nova denúncia ao Supremo contra o presidente Michel Temer e o Quadrilhão do PMDB; Segundo a denúncia, o grupo, chefiado por Temer, incluía os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, mais Eduardo Cunha, Rodrigo Rocha Loures, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves – estes quatro já presos. As fraudes em contratos da Caixa, Furnas, Petrobras, ministérios da Agricultura e da Integração, Secretaria da Aviação Civil e Câmara dos Deputados atingiriam R$ 587 milhões.

Calma no Brasil

A denúncia será agora examinada no Supremo. Se aceita, vai à Câmara, que terá de autorizar a abertura de inquérito. Não é fácil: se 172 deputados votarem contra, ou simplesmente não aparecerem, o pedido é rejeitado.

A festa do caqui

Joesley foi preso com um terço nas mãos (os outros dois terços não apareceram). Geddel chorou (e explicou: teme ser estuprado). Wesley, irmão de Joesley, diz que seu crime foi virar delator. Foi mesmo. Feio, né?

O MAIS LONGO DOS DIAS

É hoje: Lula, acusado de chefiar o esquema de corrupção na Petrobras, depõe ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Esperam-se perguntas sobre o Pacto de Sangue entre a Odebrecht e Lula, citado por Antônio Palocci.

Nesta mesma Super-Quarta, o Supremo deve decidir se as provas constantes da delação de Joesley Batista devem ser anuladas. Se forem, quase dois mil políticos nela citados ficarão mais tranquilos, ao menos por algum tempo – pois, embora não possam ser processados pelas acusações de Joesley, eleitor e Polícia saberão o que eles fizeram no verão passado.

O Supremo decide também se o procurador-geral Janot é suspeito para apresentar nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Caso não seja, Janot tem a denúncia pronta, por chefiar organização criminosa, o Quadrilhão do PMDB, que envolve, além de Temer, seus auxiliares mais próximos. Na denúncia, deve ser citada a delação do doleiro Lúcio Funaro. O inquérito em que se baseia a nova denúncia foi concluído nesta segunda pela Polícia Federal. Atinge Temer, os ex-ministros Geddel Vieira Lima (o das malas de dinheiro) e Henrique Alves, os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha, e Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. Todos devem ser denunciados por corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisas e fraude em licitações. Destes, só Eliseu Padilha, Moreira Franco e Michel Temer estão soltos.

Tem mais, tem mais…

A Super-Quarta é o mais longo dos dias por ter começado na terça. No Congresso, foi instalada a CPMI do BNDES – M de mista, por englobar Senado e Câmara. Os dois membros petistas, o senador Lindbergh Farias e o deputado Paulo Rocha, chegaram atrasados – mas a tempo de reclamar que Lula, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, já tinham sido convocados para depor. O caro leitor tem uma chance de adivinhar os termos do protesto de Lindbergh. Claro: ele exclamou várias vezes “é golpe, é golpe”.

…e tem mais

Ainda na quarta, o Tribunal Regional Federal 4, em Porto Alegre, deve decidir se aceita o recurso de José Dirceu, que está em prisão domiciliar.

Maldade

Dizem que, terminado o mandato de procurador-geral, e após a confusão de ter um assessor próximo acusado de atuar dos dois lados do balcão, Janot fará cinema. Ocupará o lugar de Peter Sellers, o Inspetor Clouseau, na refilmagem de A Pantera Cor-de-Rosa. Fará o papel de Inspetor Janot.

De um bolso para outro

A Pilgrim’s Pride, maior produtora americana de carne de frango, acaba de comprar a irlandesa Moy Park, fornecedora de 25% do frango consumido na Europa, por US$ 1,3 bilhão. “A compra nos dá acesso aos atraentes mercados do Reino Unido e da Europa, atendendo nossa estratégia de diversificação do portfolio”, anunciou Bill Lovette, presidente executivo da Pilgrim’s Pride. Um detalhe: a Pilgrim’s é controlada pela JBS e a Moy Park é integralmente pertencente à JBS. Alô, Rolf Kuntz! Alô, Alexandre Schwartsman! Não é a mesma coisa que tirar dinheiro da carteira e botá-lo no bolso? Sabendo que quem comprou e quem vendeu foi a JBS, de Joesley Batista, será que não existe nada esquisito nisso? Tomara que este colunista esteja errado: será a prova de que nem sempre o que acontece é aquilo de que a gente comum, como eu, desconfia.

Meu pai-pai

Flávio Bolsonaro, deputado estadual (PSC-Rio), prova viva de que sobrenome ajuda em eleição, estreia em nova área profissional: biógrafo. Bolsonaro preparou um livro com passagens da vida de seu pai, o deputado federal (e candidato à Presidência) Jair Bolsonaro. O lançamento do livro deve ocorrer neste mês, a tempo de transformar-se em possível presente de Natal. Deve haver uma grande noite de autógrafos, com a presença do pai, Bolsonaro, e dos dois filhos deputados, Bolsonaro e Bolsonaro.

Recordando ACM

O principal cacique político da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, volta a ser lembrado por escrito a partir de amanhã, às sete da noite: é o horário previsto para o lançamento de ACM em Cena, livro de crônicas sobre os tempos em que ele comandava a Bahia (diga-se, com mão de ferro). São, em textos que quem viveu esta época, “depoimentos e cenas de uma grande história de amor pela Bahia”. Preço do livro: uma lata de leite em pó. Este colunista, que jamais morreu de amores por ACM, mas reconhece seu papel dominante na história recente da Bahia, já encomendou o livro à amiga (e autora de uma das crônicas) Rose Vitaly. Junto com o lançamento do livro, no Cine-Teatro Gláuber Rocha, praça Castro Alves, deve ser apresentado ACM, Tempo e Espaço, documentário de Oscar Santana. Vale.


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