NINGUÉM OUVE CANTAR CANÇÕES

Pode tudo: homem com homem, mulher com mulher, vistosas fantasias masculinas de Veado Imperial, a modelo sem calcinha posando com o presidente da República, bicheiro negociando oficialmente com as autoridades, másculos estivadores de sutiã e minissaia, mulheres peladas, beijar desconhecidos na boca, moça linda levando na coleira o nome do marido. Ou pode quase tudo: com base em confusas teorias raciais, mais o politicamente correto, algumas das canções mais populares podem ser banidas do Carnaval. Nem todas, claro. Perseguem-se os clássicos carnavalescos que falam em cor da pele ou comportamento sexual. O teu cabelo não nega, de Lamartine Babo e Irmãos Valença, Nega do cabelo duro, de David Nasser e Rubens Soares, Mulata Bossa Nova, de João Roberto Kelly, Fricote (“nega do cabelo duro que não gosta de pentear”), de Luís Caldas, são acusadas de racismo e proibidas pelos blocos mais radicais.

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Vida sexual é suspeita: Cabeleira do Zezé, de Kelly, é vetada. Como Maria Sapatão, também de Kelly, embora elogie as que de dia são Maria e de noite viram João. Falar de imigrantes pode: “Jacó, a senhor me prometeu, uma gravata, até hoje inda não deu”), A promessa de Jacó, de Américo Campos; Lig, lig, lé, de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago (“Chinês come somente uma vez por mês”). Falar de parentes, também: “Trocaram o coração da minha sogra, puseram coração de jacaré, é, é, é, é, coitado do jacaré”.

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Se ninguém passar mais cantando feliz, saudades e cinzas é o que vai restar.

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E no entanto é preciso cantar

Este ano, na abertura do Carnaval não oficial, houve músicos que se recusaram a tocar músicas a seu ver inadequadas. Por exemplo, as que continham a palavra “mulata”, cuja origem remota é “mula”, híbrido de égua com jumento – o que gerou “mulata” para a híbrida de brancos com negros. É verdade; e não é. “Missa”, “míssil”, “missão”, comissão” têm a mesma raiz, de enviar algo a alguém. E daí? O fato é que no Governo Geisel, durante a ditadura militar, o Bloco do Pacotão desfilou cantando “Ah, Aiatolá”, referindo-se ao ditador. Seria aquela época mais democrática do que hoje?

Mudando de conversa

Mas vamos falar de outras coisas. Estas duas notas iniciais certamente servirão para que muita gente xingue este colunista – e o material é suficiente, ninguém precisa de mais. Como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzche, as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Quem está convencido de que o perigo está no Carnaval não vai mudar de ideia.

Os caminhos de Lula

Lula teve excelentes resultados nas pesquisas CNT/MDA e Instituto Paraná para a Presidência da República, mas antes de festejar terá de se desviar de um obstáculo perigoso. Há uma denúncia pesada contra ele, nos processos da Lava Jato: o ex-senador Delcídio do Amaral reafirmou ao Ministério Público que foi Lula que lhe determinou que fizesse uma oferta de propina a Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, para dificultar as apurações da Lava Jato. Livrando-se desses processos, Lula poderá articular sua candidatura à Presidência. Se tiver problemas, poderá ser chamado pelo juiz Sérgio Moro.

Aliança de aço

A ex-presidente Dilma Rousseff voltou a repetir que seu candidato à Presidência é Lula; e que ela não será candidata à Presidência em hipótese alguma. Mas Dilma disse que tem vontade de se candidatar ao Legislativo – senadora ou deputada federal. Uma dúvida: se Dilma acha que desempenhou bem suas funções e só caiu vitimada por um golpe de Estado, por que não pleiteia nas eleições o cargo do qual foi afastada?

Brigar sem motivo

Quem foi mal-educado: o escritor Raduan Nassar, que ao receber o Prêmio Camões acusou pesadamente o Governo brasileiro, considerando-o golpista, ou o ministro da Cultura, Roberto Freire, que bateu forte no premiado? É uma boa discussão, mas sem grande importância. Este colunista gostaria de saber por que existe um Ministério da Cultura – cuja existência é tão discutível que o presidente Michel Temer já o extinguiu uma vez. Dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, só 15 têm Ministério da Cultura, entre eles França e México. Estados Unidos, Canadá e Reino Unido geram ampla produção cultural sem precisar de um ministério. E são esses países que ganham o prêmio Nobel sem intervenção estatal.

Me dá um dinheiro aí

Professor no Brasil ganha mal? Nem todos: em dezembro, um professor da Universidade Federal de Juiz de Fora recebeu R$ 157 mil – cinco vezes o teto do funcionalismo, que é o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, R$ 33.700. Um desembargador de Sergipe deixou facilmente o professor mineiro para trás: recebeu em janeiro R$ 326 mil.

Pode? Não. Mas cada um dá um jeito de dizer que o salário não é salário, mas verba indenizatória. O limite de salários é só para quem ganha pouco.

COMO SERÁ O AMANHÃ?

As duas pesquisas que indicam Lula em primeiro lugar dizem tudo, mas não dizem nada. Dizem que denúncias de corrupção não impedem a vitória de ninguém (quantos acusados já não foram eleitos em nosso país?) Não dizem, por mais que os lulodilmistas o proclamem, que Lula será eleito presidente em 2018. A eleição é daqui a dois anos, muito longe para que as pesquisas indiquem agora um eventual vencedor. Não levam em conta o derretimento do PT, o que reduz a força de seu candidato. Mas demonstram que o antipetismo não tem hoje nenhum candidato viável. Tem vários candidatos, mas caso se abracem é melhor separá-los, porque é briga. Ai do aliado que não proteger as costas quando estiver entre os amigos.

A prova de que os adversários do PT não têm candidato é que, na pesquisa da Confederação Nacional do Trabalho, quem se saiu melhor foi Jair Bolsonaro, encostando em Marina Silva, à frente de Aécio. É difícil imaginar Bolsonaro numa final presidencial, mas o exemplo Trump mostra que tudo é possível. No trabalho da Paraná Pesquisas, quem surpreende é João Dória, que vem se saindo bem mas não tem nem dois meses de exercício do mandato. Dória está tecnicamente empatado com Marina, Bolsonaro e Joaquim Barbosa, pouco mais de dez pontos atrás de Lula.

A pesquisa diz mais de uma coisa: quem quiser Lula fora tem de se esforçar para que seja condenado e preso. Solto, é um candidato temível.

Inscrito nos anais

A decisão é da juíza Eliana Cassali Tosi, da 30ª Vara Criminal de São Paulo: chamar Lula de “chefe de quadrilha” não é calúnia nem injúria. Por isso, absolveu o historiador Marco Antônio Villa no processo que lhe foi movido pelo ex-presidente. Villa, no mesmo comentário, pela TV Cultura, SP, acusou Lula de dirigir esquemas de propina dentro do Poder Público.

O vento levou

Lembra da Operação Hurricane (“Furacão”), contra autoridades acusadas de comprar e vender decisões judiciais para liberar máquinas caça-níqueis? Já lá se vão nove anos. A pena de João Sérgio Leal Pereira, do Ministério Público Federal, prescreveu, e ninguém mais, entre os acusados, tem foro privilegiado. Resultado: por ordem do STJ, o processo vai para a primeira instância. E se faz tudo de novo – agora, pela terceira vez. Na primeira, a questão estava no STF. Um dos acusados no processo era o ministro Paulo Medina, do STJ. Este foi rapidamente punido, pela acusação de vender decisões e receber propina de R$ 1 milhão, com aposentadoria e vencimentos proporcionais ao tempo de serviço – hoje, seus R$ 25 mil mensais. Com Medina condenado a ignorar a maldição bíblica, de ganhar o pão com o suor de seu rosto, a questão foi enviada ao STJ, e lá refeita. E daqui a algum tempo será julgada.

Já viu tudo?

O excelente portal jurídico Espaço Vital  traz uma notícia notável: o STF decidiu que o Estado tem a obrigação de indenizar presos em razão de danos morais causados pela falta das condições legais de encarceramento. É uma decisão de repercussão geral, a ser obrigatoriamente aplicada em casos semelhantes. O caso analisado foi o do presidiário Anderson Nunes da Silva, que dormia com a cabeça encostada na privada, no Mato Grosso do Sul, por falta de espaço na cela.

OK: o Estado, quando prende alguém, se obriga a protegê-lo e a dar-lhe condições corretas de alojamento. Mas não há nenhuma referência na sentença às vítimas de quem foi preso. Há alguma compensação às vítimas do crime ou apenas aos acusados que foram presos e condenados?

A volta de Rose

Rosemary Nóvoa de Noronha, que até 2015 foi chefe de Gabinete da Presidência da República em São Paulo, aliada próxima do ex-presidente Lula, é alvo, ao lado de 12 outros réus, de uma petição do Ministério Público Federal à Justiça, para que receba ação civil pública contra todos. A ação foi ajuizada em abril de 2015, mas ainda não foi recebida. A soma das vantagens recebidas por Rose durante o período investigado é minúscula, comparada com as cifras bilionárias a que nos acostumamos: são R$ 140 mil. Se não houver nada mais, é caso de dumping.

Contra tudo

As grandes centrais sindicais decidiram promover, em 15 de março, o Dia Nacional de Lutas com Greve e Paralisações contra a “Reforma” da Previdência Social Pública. Apesar das divergências entre as centrais, todas concordaram em, unidas, defender sua posição com o mote Resistir a Todo Custo contra a Retirada dos Direitos.

Deve ser a primeira grande manifestação de março. No dia 26, as entidades que promoveram as passeatas contra Dilma devem voltar às ruas para defender a Lava Jato e protestar contra quem tenta reduzir seu ímpeto.

PARA OS AMIGOS, TUDO; E NADA

Convenhamos: a opinião pública já se cansou do vaivém dos políticos que tentam escapar da Lava Jato. Se avisarem no Congresso que o Japonês da Federal apareceu para uma visita de cortesia, quantos parlamentares o esperarão tranquilamente no gabinete? Como se sentirá um eleitor que participou das manifestações contra Dilma ao saber que a Comissão de Constituição e Justiça, que ouvirá o escolhido para o Supremo, tem dez de seus 13 integrantes respondendo a processo no mesmo tribunal cujo novo ministro estão contribuindo para escolher – e todos loucos para afogar a Lava Jato? Como se sentirá este eleitor que marchou contra Dilma sabendo que o líder do Governo no Congresso enfrenta os mesmos problemas jurídicos da líder do PT, Gleisi Hoffmann? Lembrando que Renan lidera a maior bancada do Senado – bancada que já foi de Lula e de Dilma e hoje é Temer desde criancinha? Consciente de que quem é bem tratado pelo Governo, hoje, foi bem tratado pelo Governo Dilma, de quem era íntimo? É um pessoal coerente: está sempre ao lado do governo. Se o Governo muda, mantém-se a seu lado.

Uma boa hora para protestar é agora, quando ficou claro que amigo é amigo e a lei é para os outros. Mais: Lula deve depor nesta sexta, acusado de obstruir as investigações da Lava Jato. Está sendo organizada uma grande manifestação popular, em todo o país. Não nesse domingo, nem no próximo, que é Carnaval. Mas daqui a 40 dias, no final de março. Tremei, corruptos!

Quem é quem?

A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal pede ao presidente Michel Temer a substituição do seu diretor-geral, delegado Leandro Daiello. A Associação culpa Daiello pela saída de delegados que integravam a Lava Jato desde o começo e diz estar temerosa de que as investigações sejam prejudicadas. OK, mas quem é que comandou a Polícia Federal desde o início da Lava Jato? Bingo: o próprio Leandro Daiello. Se ele apresentou bom trabalho, o que parece inegável, como é que de repente sua permanência poderia afetar as investigações? O curioso é que esta é a primeira vez na história da PF que os delegados pedem a substituição de seu chefe – e exatamente quando a PF desfruta do maior prestígio entre a população.

Como é mesmo?

Parece brincadeira: no Espírito Santo, com a volta ao trabalho de pouco menos de dois mil dos policiais militares rebelados, tanto o Governo Federal como o capixaba se apressam em proclamar a “volta à normalidade”. Suas Excelências que nos perdoem, mas a normalidade estará de volta só quando os amotinados forem identificados e julgados por motim – e julgar meia dúzia, achando que isso servirá de exemplo, a todos não vale. Servidores públicos armados não fazem greve nem desobedecem ao comando. Não se pode admitir que deem exemplo para outras PMs, nem que tenham o poder de decidir quando irão obedecer. Este colunista acha que o policial militar ganha pouco e não tem proteção nem reconhecimento adequados. Mas motim, isso não pode.

Os donos do poder

O primeiro efeito da leniência com o motim já tem data para ocorrer: na sexta, policiais capixabas fazem assembleia para decidir sobre greve geral.

O tempo passa

O jogo entre Flamengo e Botafogo, no Estádio Nilton Santos, antigo Estádio João Havelange, ou Engenhão, exigia segurança redobrada: era dia de sol, com 13 blocos carnavalescos nas ruas do Rio e 25 mil ingressos vendidos antecipadamente. Mas foi, ao contrário, policiado por um número reduzido de homens. Motivo: querendo seguir o exemplo capixaba, policiais militares fluminenses se esconderam atrás da saia de suas esposas, que fingiam impedir que saíssem dos quartéis. Morreu um torcedor do Botafogo na briga de torcidas. Foi a crônica da morte anunciada. Até quando?

Questão de sonhos 1

Num momento em que suas relações com os Estados Unidos estão em baixa, qual a saída do México para manter em dia seu comércio exterior? A professora Raquel León, professora da Universidade Autônoma de Puebla, propôs em Brasília a intensificação do relacionamento econômico entre México e América do Sul. A ideia é ótima e será boa para mexicanos, brasileiros, e sul-americanos em geral; mas não substituirá as trocas do México com os Estados Unidos. Hoje, o comércio do México com o Brasil atinge US$ 9,2 bilhões. Com os EUA, chega a US$ 550 bilhões por ano.

Questão de sonhos 2

O comércio exterior brasileiro, no total, com o mundo todo, não alcança os US$ 200 bilhões por ano. Comerciar mais com o México é ótimo, mas o Brasil, ao menos por enquanto, não tem condições de substituir os Estados Unidos como seu parceiro preferencial. É por isso que Trump se sente à vontade e é até grosseiro para tentar obter mais vantagens dos mexicanos.

E DO MOMENTO ERRADO FEZ-SE O DRAMA

Um bom político é o que cheira a direção do vento, ensinava Ulysses Guimarães, o lendário comandante da oposição civil à ditadura militar. O faro do próprio Ulysses falhou, e ele se candidatou à Presidência quando não tinha a menor chance. Michel Temer, que manteve unido o maior partido do país, que conseguiu aliar-se alternadamente ao PT e a Bolsonaro, que moveu os cordéis do impeachment e chegou à Presidência; e Lula, que tem a política no sangue e soube exercitá-la, ambos farejaram com atraso a direção dos ventos e pagam caro por isso.

Temer e Lula cometeram o mesmo erro: deixaram claro que seu objetivo não era político, era livrar-se de Sérgio Moro. Se Lula entrasse no Ministério de Dilma um mês antes, a acusação de que procurava proteger-se no foro privilegiado perderia muito de sua força. Mas resolveu esperar o Bessias (e ainda por cima combinar com Dilma, por telefone, como funcionaria a manobra). Se Temer tivesse colocado Moreira Franco como ministro, até seria criticado, mas ninguém iria acusá-lo de oferecer o foro privilegiado ao amigo. Moreira Franco entraria no pacote de Jucá, Padilha, Geddel e outras criaturas. E tanto Temer como Lula sabiam, muito antes que qualquer outra pessoa, o que é que tinham feito, e porque lhes seria difícil comparecer perante um juiz de primeira instância.

Gerou-se a crise.

Como diria Vinícius de Moraes, de repente, não mais que de repente.

Trim, trim

Certa vez, Tancredo Neves disse que telefone só servia para marcar encontro, e no lugar errado. Para conversas sérias, jamais. Por que? “Eu fui ministro da Justiça e sei como são essas coisas”. Tancredo foi ministro da Justiça em 1954, há 63 anos, e já naquela época Havia “essas coisas”. Lula e Dilma falaram o que não deviam quando a tecnologia já tinha avançado.

Mas quem não é?

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado ouvirá Alexandre de Moraes, indicado pelo presidente Michel Temer para o Supremo Tribunal Federal. O presidente da CCJ é Édison Lobão. E, dos seus 13 integrantes, dez respondem a processo no STF. E são eles que ouvirão um candidato a ministro do tribunal em que estão sendo processados.

Mas tudo bem: no Senado, o presidente, Eunício Oliveira, o líder do PMDB, Renan Calheiros, o líder do Governo no Congresso, Romero Jucá, e a líder do PT, Gleisi Hoffmann, na melhor das hipóteses estão entre os citados em delações premiadas. Mas há também investigados e indiciados na Lava Jato e operações correlatas. Atravessando os corredores, chega-se à Câmara – cujo presidente, Rodrigo Maia, é o próximo alvo da Procuradoria Geral da República, que já anunciou um pedido ao Supremo de abertura de inquérito contra ele.

O nome das coisas

A imprensa e os políticos em geral que perdoem esse colunista, mas no Espírito Santo não houve greve nenhuma: houve um motim, uma insurreição. É caso de prisão imediata dos amotinados, com julgamento pelo Regulamento Disciplinar do Exército. Há 700 PMs presos por insubordinação, mas são poucos diante do tamanho do motim. Cabe às Forças Armadas enquadrar os insurretos. As queixas sobre salários podem até ser justas, mas tropa armada não tem a greve entre seus direitos.

Com arma não se brinca

E o Governo Federal tem de tratar a população do Espírito Santo, no mínimo, com seriedade; lembrar do número de pessoas que morreram porque as autoridades, tão rígidas na hora de cobrar impostos, não conseguem sequer policiar as ruas. Enviar 300 agentes da Força Nacional ao Estado é brincadeira sem graça.

Primeiro, porque os homens da Força Nacional não conhecem a região, suas peculiaridades, nada; segundo, porque 300 homens é o tamanho da tropa mobilizada para policiar o jogo Campinense x 13, de Campina Grande, Paraíba. Terceiro, a Polícia Militar capixaba tem 11 mil homens. Não vão resistir aos 300 de Brasília, vão?

Agora vai

Mas, justiça seja feita, mandar cinco ônibus de soldados para o Espírito Santo não foi a única providência do Governo Federal para restabelecer a paz. Houve também a importantíssima e corajosa medida de mudar o nome do Ministério da Justiça para Ministério da Justiça e Segurança Pública. É outra coisa. Voltando ao passado, imagine Renan Calheiros como “ministro da Justiça e da Defesa Pública”! E fora o temor que o novo nome causará nos policiais amotinados e nos bandidos, haverá outras consequências: trocar toda a papelaria do Ministério, para que as notas fiscais, por exemplo, já saiam com a nova identificação; mandar fazer aquelas belas letras de latão polido que identificam cada Ministério pelo lado de fora; trocar os cartões de visita dos altos escalões da Casa.

É caro mas é bom.

GOVERNO FAZ, DESFAZ E SE DESFAZ

O problema do Brasil definitivamente não é a falta de Governo. Só em Brasília há três, que jamais poderiam conviver se não fossem, os três, presididos simultaneamente pelo mesmo Michel Miguel Elias Temer Lulia.

Ou talvez sejam três os Michel Temer, mudando conforme o tema. Na Economia, as coisas andam: pode-se discordar dos seus rumos, mas é certo que há objetivos, e que vêm sendo alcançados sem grandes turbulências, sob o comando de gente do ramo, de boa reputação. Nesse clima, mesmo notícias ruins, como o desemprego em alta, acabam sendo bem aceitas.

Na Política, Temer parece chamar a Lava Jato a cada instante. Perde-se em bobaginhas. O caso Geddel, do ministro que caiu porque queria mexer no gabarito de um prédio na praia, só não é exemplar porque não serviu de exemplo. Temer repete Dilma, que quis nomear Lula ministro para dar-lhe foro privilegiado: nomeia Moreira Franco para salvá-lo de Moro.

O restante do Governo parece descoordenado. Insistir em Édison Lobão, que responde a inquérito autorizado pelo Supremo, para presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, é atrair tempestades. Elevar Alexandre de Moraes ao Supremo, ele que, em sua tese de doutoramento, já deu os argumentos para não ser nomeado? Eleger Eunício, citado em delação, para presidente do Senado, é contratar uma crise futura.
Na disputa dos três Michéis, quem é o Michel verdadeiro?

Sejamos sérios

Esta coluna levantou uma questão para cada leitor examinar e decidir. Mas sem maldade: fica feio dizer que o Michel verdadeiro é o Michelzinho.

Em busca do escorregão

Eunício, Alexandre de Moraes, Édison Lobão? Há mais gente. O PMDB do Mato Grosso do Sul indicou o deputado federal Carlos Marum para presidir a comissão especial sobre a reforma da Previdência. Marum é uma pedra solta aguardando um tropeção: sempre foi o maior defensor de Eduardo Cunha na Câmara. Cunha hoje está preso.

Nesta data querida

Na prática, já é Carnaval. Terminados os festejos, a Operação Lava Jato estará completando três aninhos de vida. Na área empresarial, a Lava Jato entrou como um furacão. Na área política, está bem mais para brisa. Condenou um político de peso, Delcídio do Amaral. Só um. Outros políticos, como Eduardo Cunha, aguardam julgamento. Há os que foram condenados em processos anteriores, como José Dirceu. OK, nunca houve clima tão tenso nos meios políticos, nunca houve tantas Excelências atrás das grades, somando Petrolão, Mensalão e Lava Jato. Mas não dá para comparar o andamento dos casos que envolvem políticos com o avanço dos processos contra empresários, a cargo de juízes de primeira instância. Com a homologação das delações (só na Odebrecht, são 78 especialistas que prometem contar cada caso como o caso foi), tudo fica mais lento.

Muitos anos de vida

Imagine que cada delator premiado da Odebrecht entregue só um nome (uma expectativa das mais conservadoras). De repente, caem sobre o Supremo mais 78 inquéritos, que revelarão outros nomes de suspeitos. Como farão os ministros para enfrentar o excesso de trabalho, eles que já têm milhares de processos aguardando decisão? Não haverá o risco de transformar julgamentos importantes, didáticos, em simples estatísticas?

Mais e mais

E, por falar em risco de soterrar o Supremo sob uma avalanche de julgamentos, a delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, gerou quatro pedidos de abertura e inquérito ao Supremo: sobre José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e o próprio Machado. Imaginemos o que vem das 78 delações da Odebrecht – em que o setor de pixulecos era estabelecido e organizadíssimo – e de outras empreiteiras, além de personalidades como Eike Batista. A menos que seja possível multiplicar a velocidade dos julgamentos, como fazer com que todos se realizem?

Bis repetita

Há poucas semanas, o ex-presidente José Sarney informava que não mais se candidataria ao Senado pelo Amapá. Questão de idade, dizia. Aos 87 anos, teria chegado a hora de se aposentar. Há alguns dias, amigos de Sarney garantiram que a eleição seria facílima e ele não teria de se esforçar para ganhar. Pois é. Será que o pedido do procurador-geral Janot nada tem a ver com a possível mudança de posição de Sarney diante da eleição?

A voz da experiência

Anúncio de Sérgio Cabral nas eleições de 2006: “Sérgio Cabral é o mais preparado para governar o Rio de Janeiro porque tem um compromisso com a eficiência. Compromisso em fazer as coisas bem feitas, falar com as pessoas direito e tratar o dinheiro público com honestidade e respeito”.

QUATRO NOTAS

Por baixo dos panos

A politicazinha continua comendo solta. O secretário de Parcerias de Investimentos do Governo Federal, Wellington Moreira Franco – conforme o grau de amizade, há quem o chame de Gato Triste, Gato Angorá ou, quando se trata de um amigão, simplesmente o Gato – andou sendo citado justamente como O Gato numa das delações premiadas da Odebrecht. Quem tem amigos não morre pagão: o presidente Temer transformou uma Secretaria Geral em cargo privativo de ministro e ali alojou Moreira Franco – que, além de ser um dos políticos mais próximos do presidente, é também sogro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Agora que é ministro, o Gato Triste passou a ter foro privilegiado, e só precisará viajar a Curitiba para desempenhar as funções de sua pasta, sem qualquer obrigação de visitar o juiz Sérgio Moro. Moreira Franco diz que seu caso é diferente da nomeação de Lula para um ministério de Dilma: ele já fazia parte do Governo e foi apenas remanejado. Dizem também que já exercia o papel de ministro e só faltava nomeá-lo. Então, tá.

Briga no Supremo

O senador Randolfe Rodrigues acha que a nomeação de Moreira Franco é ilegal, tanto quanto foi ilegal a de Lula, no finalzinho do Governo Dilma. Na sexta à tarde, entrou com ação na Justiça Federal do Amapá para anulá-la. “O caso”, diz o senador, “é um escárnio às instituições da República, vai contra os princípios da moralidade e atinge o Estado Democrático de Direito.”

Os grandes acertos

O Congresso em ação: o PT, embora acuse o presidente da República de golpista, embora o chame de “presidente interino”, negociou o apoio a Eunício Oliveira, amigo de fé e irmão camarada de Temer, para presidente da Mesa do Senado. Em troca de seus votos, conseguiu colocar o senador José Pimentel, do PT piauiense, na primeira secretaria. Neste posto estratégico, Pimentel tem à disposição 70 cargos de livre provimento para abrigar a “cumpanherada”. Nada foi definido ainda, mas há fortes rumores de que Gilberto Carvalho, que foi secretário-geral da Presidência no Governo Dilma, assumirá a presidência do Interlegis, programa de modernização e integração do Poder Legislativo Brasileiro. É mais do que um bom emprego: dá poder.

“Pode contar com meu voto, cumpanhero Eunício”

…é vendaval

Falta dinheiro? Funde um partido: neste finzinho de janeiro, o Fundo Partidário pagou R$ 58,5 milhões aos 35 partidos políticos com registro definitivo no Tribunal Superior Eleitoral. Quem recebeu a maior parte foi o PT, R$ 7.866.826,90. Seguem-se o PMDB, com R$ 6.453.403,47, e o PSDB, com R$ 6.453.403,47. E de onde vem o Fundo Partidário? Multas, doações, recursos financeiros destinados por lei, dotações orçamentárias da União “nunca inferiores ao número de eleitores inscritos, multiplicados por R$ 0,35”.

Ou seja, a principal fonte do tal Fundo Partidário é o velho e bom Tesouro. Em outras palavras, o seu, o meu, o nosso dinheiro dado a partidos que não são os que queremos e para eleger parlamentares que não teriam nosso voto.

MAMA COM FÉ E ORGULHO

E, de repente, houve no Brasil aquele vislumbre de que tínhamos chegado ao Primeiro Mundo: a Odebrecht, organizadíssima, dispondo de departamento especializado em propinas, com registro computadorizado, nome, RG e foto do beneficiário, impecável no pecado. E ainda multinacionalizada, multicolorida, o dinheiro da propina verde-amarela lubrificando candidatos vermelhos no Exterior, em parte pagando lá fora serviços aqui de dentro, girando internacionalmente obras de porte, monumentais, que cá e lá, devidamente azeitadas e negociadas por autoridades, mais propinas renderiam.

Só que não era bem assim: Eike Batista, apesar do nome alemão (e dos nomes escandinavos que deu aos filhos), é um carioca daqueles de anedota, solto, feliz. Deu-se muito bem com outro carioca de almanaque, alegre, divertido, boa praça, o então governador fluminense Sérgio Cabral. Deram-se tão bem que, descobriu-se agora, Cabral se transformou, só com os mimos de Eike, no maior pixulequeiro da era Lava Jato. E nada daquela organização primeiro-mundista com advogados, transferências múltiplas, trusts e trustees, seja lá isso o que for: a grana é ainda mais farta, mas em joias, pedras preciosas, minas de ouro (na África, talvez), presentes. Como nos tempos das miçangas e espelhinhos, havia gentilezas como tecidos finos para ternos, gravatas daquelas caríssimas, dinheiro vivo para despesas imediatas e dois doleiros exclusivos. Brasil!!!! Século 21, século 16, sempre bons no pixuleco.

Avança, onça!

Dizem que, em certa ocasião, dois amigos passeavam na floresta quando ouviram, bem pertinho, o inconfundível rugido da onça. Um saiu correndo, o outro se agachou para trocar os tênis. O que corria gritou: “Você acha que vai conseguir correr mais do que a onça?” O amigo respondeu, já em velocidade: “Eu não preciso correr mais do que a onça. Preciso correr mais do que você”.

Esta é a disputa de agora entre Cabral e Eike: quem delatar primeiro dá a ficha do outro, e lhe tira a chance de ganhar os benefícios da delação premiada. No final, é um amigo jogando o outro às onças para ver se sozinho dá para sobreviver. Parece que havia até joalheiro quase exclusivo a serviço dos dois amigos. Cadê as joias?

A resposta milionária

Eike pode ser tudo, mas burro definitivamente não é. Qual o motivo que o fez comprar uma passagem só de ida (bem mais cara) para os Estados Unidos, correndo o risco de ser preso, decidindo enfrentar as acusações de estar foragido? Se pretendia ir para a Alemanha, usando seu passaporte alemão, por que não foi direto para lá? Que é que foi fazer nos Estados Unidos um ou dois dias antes de se entregar? Com quem conversou? Quem o ajudou a se decidir?

Pingando

Outra informação preciosa que Eike carrega: alguém lhe vazou a notícia de que seria preso? A Justiça determinou sua prisão no dia 13, a ordem foi cumprida no dia 26, quase duas semanas depois. Eike tinha viajado. Quando? Dois dias antes da mobilização da Polícia para prendê-lo. Com passagem só de ida comprada no dia da viagem. Viajando sozinho, um dia antes da família.

Esse é o segredo que Eike não pode contar. Pois, se contar, sabe-se lá que tipo de divergências entre instituições e autoridades ficará esclarecido de vez.

Números

Lembra do Pedro Barusco, gerente da Petrobras que tinha mergulhado a mão em pouco menos de US$ 100 milhões? Como diria o ex-deputado Roberto Jefferson, que denunciou o Mensalão, é um petequeiro. Sérgio Cabral, só de Eike, levou mais do que isso, segundo as investigações da Federal. Por enquanto, entre pixulecos e acarajés, Cabral está no pódio.

Escutar é bom

Do senador paranaense Roberto Requião, PMDB, comentando a sanidade mental de seus colegas: “Sou a sanidade em pessoa”. Requião, para agradar o então presidente Lula, na fase anterior ao pré-sal, quando ia inundar o mundo de biocombustíveis, mastigou uma mamona e fez cara de quem gostou, embora a mamona seja amarga e venenosa. O mais sensato dos dois, Lula, evitou que a Sanidade em Pessoa engolisse a mamona assassina.

A grande dúvida

O colunista James Akel estranha a manutenção do sigilo das delações da Odebrecht, mesmo já tendo sido acolhidas pelo Supremo. Uma frase: “Denúncia premiada sem premiar Judiciário é esquisita (…)” Outra: “Acreditar que na denúncia da Odebrecht não apareça nenhum denunciado togado é o mesmo que acreditar em doce de leite sem leite e sem açúcar.” Uma nota sobre Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador Sérgio Cabral: “(…) A jornalista Mônica Bérgamo conta que Adriana Ancelmo (…) tem carta na manga pra denunciar. Ela vai falar nomes de juízes de vários tipos de togas, desde as mais simples até as sofisticadas. Até que enfim alguém vai fazer denúncia de verdade (…)”.

A VIDA, À VIDA

Em frente ao hospital onde está internada Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do ex-presidente Lula, duas ou três pessoas gritam slogans contra a senhora doente. É pouca gente. Para o gosto deste colunista, é gente demais.

Há uns dois mil e poucos anos, pediram ao rabino Hillel uma definição rápida de Judaísmo. Hillel respondeu: “Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem. Esta é toda a Torah, a Lei. O resto é comentário”. Na mesma época, Jesus ampliou a lição: “Façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam, pois esta é a palavra da Lei e dos Profetas”.

Nunca fui apresentado a dona Marisa; não tenho motivos para dela gostar ou não (a não ser aquela estrelinha que ela inventou nos jardins tombados do Alvorada). Mas tenho todos os motivos para respeitá-la, ainda mais neste momento em que luta pela vida. Divergências políticas cessam quando algo superior se apresenta. Quem zela por uma vida zela por sua própria vida; zela pela vida de todos nós. Um esplêndido poeta inglês do século 16, o clérigo anglicano John Donne, sintetiza brilhantemente essa questão: “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. A morte de cada ser humano me diminui, porque eu faço parte da Humanidade”.

Saúde, dona Marisa. Brindemos à vida. Aliados ou não, lembremos que, se a sabedoria não deixa espaço para opiniões divergentes, sabedoria não será.

Outra coisa é outra coisa

Mas não podemos confundir manifestações de mau gosto com o exercício do jornalismo. A divulgação de documentos referentes à saúde do paciente está sujeita às normas legais, supervisionada pelo Conselho de Medicina, sem dúvida. Mas se um jornalista obtém esses documentos tem o direito – sem censura, determina a Constituição – de divulgá-los. Vejamos a Lava Jato: se o jornalista obtém um vazamento e o divulga não comete crime. E lembremos aquele parágrafo clássico, “documentos a que este jornal teve acesso”.

Os segredos do X

Em 2012, Eike Batista publicou seu livro para ensinar empreendedorismo: “O X da Questão – a trajetória do maior empreendedor do Brasil”.

Pois é, há muito a estudar na trajetória de Eike. A ordem de prisão contra ele foi emitida em 13 de janeiro de 2017, pelo juiz federal Marcelo Bretas. Os agentes foram buscar Eike 13 dias depois, e não o encontraram. Soube-se que decolara para Nova York duas noites antes. Normalmente, os investigados ficam sob monitoramento dos federais até que a operação seja desfechada. Outro detalhe curioso: Eike viajou sozinho, na véspera da viagem da família. Por algum motivo, sabe-se lá qual, preferiu sair um dia mais cedo.

Valor real

Da jornalista Suyen Miranda, lembrando que Eike Batista não tem diploma universitário e, se preso, irá para prisão comum: “diploma universitário faz bem a saúde, mas passaporte alemão faz muito mais”.

Curiosidade

Segundo a Polícia Federal, boa parte da propina para o ex-governador fluminense Sérgio Cabral, já durante o decorrer da Operação Lava Jato, foi entregue na sede da Frangos Ricca, em mãos, pelo próprio frangueiro. Não se fale, pois, apenas em pixulecos: tinha pixuleco, sim, mas também moela, miúdos em geral, asinhas e até mesmo a pele dos contribuintes.

Uzianqui, uz gringo, uz galego

Na terça, Lula garantiu que a Lava Jato “tem dedo estrangeiro”. Na quarta, Dilma disse que há “interesses escusos” na Lava Jato, de ‘inviabilizar empresas brasileiras”. E essa inviabilização das empresas brasileiras “não é algo gratuito”: o objetivo é beneficiar empresas estrangeiras.

Poderia ser – mas as maiores empreiteiras brasileiras confessaram listas e mais listas de irregularidades pesadas, pelas quais concordaram em pagar multas monumentais. Mas Dilma está firme: empreiteiras estrangeiras, que hoje entram em concorrências da Petrobras, também estão envolvidas em corrupção, e levam vantagem sobre as concorrentes nacionais.

Mas é maldade dizer que a corrupção deve ser exclusivamente nossa.

É proibido gastar

Crise, que crise? Levantamento elaborado pelo colunista Cláudio Humberto mostra que, em 2016, o Senado gastou R$ 684 mil só em passagens aéreas para “missões oficiais” ao Exterior. Há também as diárias de viagem: apenas para ir ao Fórum Parlamentar dos Brics, em Moscou, Lindbergh Farias (PT-Rio), Vanessa Grazziotin (PCdoB-Amazonas) e Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), receberam pouco mais de R$ 16 mil. Além das verbas para missões oficiais, há as viagens normais de senadores, para Brasília e suas bases eleitorais, que bateram em algo próximo a R$ 6 milhões durante o ano.

A FORÇA DA LAVA JATO

Sem ilusões: todos os interessados em substituir o ministro Teori Zavascki (e todos os que fazem força por eles) têm amigos ameaçados pela Lava Jato. O ministro que o substituirá sabe que é sua a oportunidade única de fazer bons favores a bons amigos (bons amigos? Quem faz um favor ganha um amigo e cria dezenas de ingratos). Mas sabe também que achou a oportunidade única de cumprir seu dever e ganhar um lugar na História. E será bem recompensado por fazer o que deve: um ministro do Supremo tem o maior salário do funcionalismo público, é inamovível, indemissível, tem amplos poderes, e no caso estará o tempo todo sob os holofotes favoráveis da imprensa. Vai beneficiar puxa-sacos ou pensar em sua biografia?

Um caso negativo marca a História do Brasil. Quando o ditador Getúlio Vargas foi deposto, no final de 1945, o presidente do Supremo José Linhares assumiu a Presidência da República até a realização de eleições. Aproveitando a oportunidade, nomeou a família toda. Eram tantos que se popularizou o slogan “Os Linhares são milhares”. É o que restou de sua biografia. Isso e o Fundo Rodoviário Nacional, que ele criou e financiou as terríveis estradas brasileiras – além das excelentes empreiteiras.

Mas não é sempre assim. O sábio Tancredo Neves sempre comentou que, diante de uma tomada de posição difícil, o voto tornava fáceis as opções corretas. “Nessas ocasiões”, dizia, “dá uma vontade de trair!”

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Ação rápida

A presidente do Supremo, Carmen Lúcia, já autorizou o prosseguimento do trabalho de análise das delações premiadas da Odebrecht, elaborado pela equipe de Teori Zavascki, sob o comando do juiz-auxiliar Márcio Schiefler. Não haverá perda de tempo: concluída a tarefa, escolhe-se o novo ministro relator. Pode ser por sorteio, pode ser por homologação da própria ministra Carmen Lúcia, como plantonista do Supremo em exercício. E a Lava Jato continuará assustando quem talvez precise ter de se afastar da política.

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O apoio dos advogados

Cláudio Lamachia, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, comemorou a decisão da presidente do STF. “Representa uma vitória para a sociedade a decisão da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, de autorizar que os juízes auxiliares do gabinete de Teori Zavascki continuem o trabalho referente às delações premiadas de executivos da Odebrecht. Assim, a análise dos processos da Operação Lava Jato não fica paralisada”.

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Incompetência

O ditador do Gabão, Ali Bongo, ficou oito anos no poder e fugiu com 11 milhões de dólares. Vai tomar processo dos colegas de regime por comportamento chinfrim.

Dilma sendo recebida por Ali Bongo

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Chegando lá

Os hábitos políticos brasileiros são mais requintados e rendosos. O PT, por exemplo, que não conversa com Governo golpista, que considera o presidente Temer apenas um interino, é bem mais flexível quando há debates reais em jogo. O PT faz parte da ampla aliança que deve eleger o primeiro-amigo de Temer, Eunício Oliveira, golpista entre os golpistas, coxinhíssimo, para a Presidência do Senado.

Papo baratinho: os petistas se contentam com a primeira-secretaria – por coincidência, a que cuida dos cofres da Casa.

“Aqui entre nós dois: o PT vai votar em mim, Renan. Acreditas?”

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Fatos e dúvidas

Fugas, confrontos, rebeliões e massacres espalhados por prisões de Bauru, Natal, Roraima, Manaus.

Dúvida nº 1 – Alguém se lembra de alguma rebelião em prisão japonesa?

Dúvida nº 2 – Alguém se lembra de alguma rebelião numa prisão argentina?

Dúvida nº 3 – Alguém se lembra de alguma rebelião numa prisão coreana, ou chilena, ou alemã, ou norueguesa?

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Dúvidas e fatos

Alguém já ouviu falar, nesses países, em negociações com chefes de facções criminosas que instalaram seus escritórios em prisões?

Aliás, alguém já terá ouvido falar, nesses países, em chefes de facções criminosas que instalaram seus escritórios em prisões?

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Boa notícia

Uma belíssima exposição começa amanhã no Museu de Arte Sacra de São Paulo, no Metrô Tiradentes: “Os Filhos de Deus”, de Daniel Taveira, uma busca “de mostrar ao mundo uma história humana, por intermédio do olhar e das lentes de seu autor”. Taveira quer mostrar ao mundo que, independentemente de raça, crença, cultura, crença, orientação sexual ou cor, você é por natureza um filho ou uma filha de Deus”. De terça a domingo, a partir das 11h, grátis para usuários do Metrô.

QUEM É QUEM ENTRE OS CANDIDATOS

Não se iluda: assim que voltar do recesso, o deputado gaúcho Ônix Lorenzoni começa a trabalhar para erguer a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República. Caiado já autorizou o colega a trabalhar por ele – inclusive articulando com outros partidos e montando uma frente que lhe permita candidatar-se reforçando as alianças possíveis.

Lorenzoni quer disputar o Governo gaúcho, e o apoio de Caiado, se for mesmo candidato, dará a Lorenzoni a oportunidade de jogar com o apoio de um candidato à Presidência da República. Para Lorenzoni, é uma grande oportunidade. O ok de Caiado tem alto valor para Ônix.

Caiado sempre diz que só pensa em ser candidato a governador. Mas quer mesmo ir mais longe. Esse monte de candidatos ao Governo diz a mesma coisa. Mas Caiado pensa mais longe. Se tiver a oportunidade, buscará o máximo. E por que não? Se João Dória Jr. buscou a tese do gestor, não do político, e ganhou no primeiro turno, por que não Caiado? Caiado está prontinho para se candidatar à Presidência da República. E jamais hesitou em abrir fogo contra Lula, desde o escândalo da Lubeca, em 1989. Manteve-se como fiel adversário do PT, mesmo quando o PT deu um jeito de buscar novos amigos. Sempre criticou Lula e se manteve na oposição. E agora, quando o PT e Lula sofrem na Justiça, não é Ronaldo Caiado que vai ignorar seus adversários do PT e fingir que não os conhece..

Negócios à parte

Lembra de Luís Inácio Adams, amigo de fé e irmão camarada de Lula e Dilma, advogado geral da União? Agora ele ajuda Rodrigo Maia, que quer se reeleger presidente da Câmara. E se propõe a escrever um artigo num jornal de grande circulação, dando apoio a Maia. E por que? Para desvincular sua imagem do passado petista. Tem gente que é esperta!

Já Jovair Arantes, do PTB, que está brigando com Rodrigo Maia, acusa o adversário, sem citar seu nome, de “burlar a Constituição e as normas de funcionamento da Câmara” para tentar se reeleger esquecendo as normas legais. Todo mundo é santo, né?

PT quer tudo

O PT ainda não decidiu em quem vota na Câmara. Pode ser Rodrigo Maia, pode ser André Figueiredo, do PDT cearense. Jovair Arantes chegou a oferecer uma vice-presidência aos petistas. O PT tem 57 deputados; E, se trabalhar direito, pode até se sair bem. Por exemplo, o PT quer a primeira secretaria da Câmara. É aí que o PT pode nomear muita gente e se livrar dos interessados apenas em cargos. O Partido enriquece com isso. E o orçamento da Câmara é de R$ 5,2 bilhões por ano. Dá para nomear todos os assessores que estavam sem emprego.

Como que fica?

Rodrigo Maia é o favorito para a Câmara, Eunício Oliveira para o Senado. Só que os dois foram mencionados nas delações da Odebrecht como beneficiários de repasses financeiros ilegais.

Vergonha? Decência?

Lagosta ao molho de queijo, camarão, casquinha de siri, picanha, rosquinha húngara e oito tipos de pães estão entre os itens de uma licitação aberta pela Assembleia Legislativa de Alagoas para os serviços de bufê deste ano. Pelo jeito, Suas Excelências vão passar bem!

Abaixo os outros

José Eduardo Martins Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão, todos ex-ministros da Justiça, pediram ao ministro Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo ocupando o cargo, não chegaram à grandeza de trabalhar por ele.

José Eduardo Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão assinaram um documento pedindo a Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo no cargo, mantiveram-se tranquilos, sempre evitando renunciar a ele,

Os três ministros da Justiça do PT serão recordados para sempre pela grandeza de sua defesa do Governo comandado por Lula e Dilma Rousseff.

A grande declaração

Da ex-presidente Dilma Rousseff, sobre seus planos para o futuro:

“Não penso em voltar à política porque o grande presidente para o Brasil é Lula”.

Ele é bom mas não é

Engraçada, essa política interna petista: quando Lula pediu a Dilma que lhe abrisse caminho nas eleições, Dilma recusou, e fez questão de ser candidata à reeleição. Não deu a Lula a menor oportunidade de se candidatar no lugar dela. E fez questão de bloquear o ministro da Fazenda preferido de Lula: Henrique Meirelles. Resultado: no Governo Temer, Meirelles acabou sendo o ministro da Fazenda.

DIDI, DEDÉ, MUÇUM, ZACARIAS

Preocupado com os massacres nas penitenciárias, achando que é preciso tomar providências urgentes? O governo também. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, discute o assunto em reunião urgentíssima com secretários estaduais da Administração Previdenciária. Dia marcado: 17.

É até bom esperar um pouco. Quem sabe até lá há novas revoltas e massacres e dá para aproveitar a reunião urgentíssima para discutir tudo?

Todo mundo criticou o presidente Temer por ter demorado a falar sobre os pavorosos acidentes nos presídios amazônicos. Pois é: aí ele falou.

A Defensoria Pública da União pediu ao STF que determine ao sistema prisional do Amazonas que garanta aos presos o direito à progressão de pena. Espera-se que a garantia se estenda a todos os sobreviventes.

O secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, foi exonerado pelo presidente Temer depois de defender mais massacres em presídios. Seu cargo (para que servirá?) é disputado pela “ala jovem” (existe!) do PSDB, pelo PSC, que se queixa de ocupar pouco espaço no Governo, e, naturalmente, o PMDB. Considerando-se que no Congresso os parlamentares mais antigos são conhecidos como “cabeças brancas” e os mais novos como “cabeças pretas”, os secretários nacionais da Juventude (quais as funções do cargo?), se seguirem o exemplo do demitido Bruno Júlio, poderão orgulhar-se de seu novo apelido de “cabeças vazias”.

Zorra Total

Alguém, no Portal Brasil, caprichou na confusão – e postou no twitter um link com todas as senhas disponíveis do Governo, de Instagram, Facebook e Gmail. Foi completo: além de senhas do Governo, senhas também de gente do Governo. Uma das senhas mais curiosas (não, esta coluna não está fazendo fofoca: a essa altura do Campeonato, se todas as senhas não foram mudadas é porque eles merecem a quebra de sigilo) era usada, ao que dizem, pela equipe de Temer: planaltodotemer2016. E, ao lado, a observação em letras maiúsculas, mais vermelhas do que roupa de petista, “NÃO TROCAR A SENHA NUNCA”. Já devem tê-la trocado.

Professora Raimunda

O pior, nesses vazamentos de senhas, é o que pode aparecer nas mensagens. Este colunista já ouviu falar (e não vai contar pra ninguém) de um certo cavalheiro com hábitos peculiares, que só contrata profissionais calipígias. Ambos se despem, ficando ela apenas com sapatos de salto alto, fininhos. Ele se deita de barriga para cima, e ela passeia, de salto alto, sobre seu corpo nu. Ele tem fama de pagar bem. Que dirá em suas mensagens?

Praça da Alegria

Haverá alguém, neste país, por menos atento que esteja, que não tenha ouvido alguma coisa a respeito de redução de gastos do Governo? Pois é: o futebol profissional, que se der lucro é só para os clubes, sem dividir com ninguém, está solidamente amparado em bancos estatais. Se anunciar na camisa dos bons times é lucrativo, por que as empresas estatais não deixam o filé para as companhias privadas? Enfim, no Rio Grande do Sul, em difícil situação financeira, devendo R$ 50 bilhões para o Governo Federal e atrasando o pagamento, o banco estatal Banrisul é o principal patrocinador de Grêmio e Internacional, com R$ 13 milhões anuais para cada um.

E o Governo Federal, querendo cortar despesas? A Caixa Econômica Federal, estatalzíssima, patrocina em 2017 a grande maioria dos 20 times da elite futebolística nacional. O Corinthians recebe R$ 30 milhões por ano da Caixa, como sua patrocinadora principal (patrocínio máster, aquele estampado no peito das camisas); o Flamengo, R$ 25 milhões. Os demais clubes, com torcidas menores, têm verba menor. Os bancos privados, que têm de prestar contas aos acionistas, delegam a tarefa ao dinheiro público.

Italianíssimo

A probabilidade é boa: Andrea Matarazzo, fiel dos fieis do PSDB, hoje no PSD, ligadíssimo ao tucano José Serra (que, chanceler, trabalhando de mãos dadas com Michel Temer, pode acabar saindo candidato à Presidência da República pelo PMDB), talvez acabe disputando uma cadeira no Parlamento italiano. Andrea tem cidadania dupla, brasileira e italiana, já foi embaixador do Brasil em Roma, nos tempos do Governo Fernando Henrique, e tem condições legais de candidatar-se. Nas últimas eleições que disputou, foi vice de Marta. Dória ganhou no primeiro turno.

Fala que te escutam

Tem gente que se esquece do avanço das telecomunicações, e fala como se estivesse num rádio de ondas curtas. O deputado Cássio Cunha Lima, por exemplo, tucano da Paraíba. Na entrevista a uma rádio paraibana, Cunha Lima disse que Temer teria dificuldades para chegar ao fim do mandato. Com aliados desses, tem mesmo. Só no dia seguinte o senador se lembrou do alcance das emissoras de hoje. Ainda está se desculpando com o presidente e aliados – que, por coincidência, são os mesmos que os seus.

OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM

Falou-se bobagem, jogou-se conversa fora. O governador do Amazonas, José Melo, do PROS, garantiu que entre os mortos no massacre da Penitenciária não havia nenhum santo. Deve ter razão; mas haverá santos em seu partido, em seu Governo? Qual de seus aliados colocará a auréola?

Falou-se o óbvio: que, entre mortos e matadores, havia estupradores, assassinos, gente malvada. E, isto é importante, gente do crime organizado.

Quem se rebelou e matou foi a FDN, Família do Norte, aliada ao Comando Vermelho, do Rio. Suas vítimas favoritas foram do PCC, do crime organizado com base em São Paulo. Como conter a futura vingança? E, a menos que a vingança seja contida, novos massacres ocorrerão: do PCC contra CV/FDN, do CV/FDN contra o PCC. Pelo noticiário sobre o crescimento de assassínios nas ruas, as vinganças já começaram, enquanto novos massacres se organizam em penitenciárias de todo o país.

De certa forma, Suas Excelências até entendem a sangueira. Os mortos, disse o governador José Melo, eram “(…) pessoas ligadas a outra facção, que é minoria no Estado do Amazonas”. São de fora, não são santos, são estupradores, matadores. É claro que, como presos, cabe ao Estado garantir sua segurança. É o que diz a lei. É o que diz a lei, também, sobre quem será morto como vingança. E a Segurança Pública? Todos já ouvimos falar nela.

Surpresa total

A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim pode não ter surpreendido as autoridades, que sabiam que o controle do presídio era dos detentos, que sabiam (e as gravaram em áudio e vídeo) das grandes festas cheias de poeira, que jamais ignoraram que os celulares da cadeia eram de alta qualidade. Mas houve pelo menos uma surpresa: o secretário da Segurança do Amazonas, Sérgio Fontes, garantiu que as autoridades não perderam o controle do sistema prisional. “O sistema prisional continua sob controle”, disse o secretário. “O que aconteceu, aconteceu nos primeiros minutos da rebelião, e por isso nada poderia ser feito”.

A surpresa é que Fortes continua no cargo e não foi demitido na hora.

Promessas, promessas

Temer prometeu R$ 800 milhões para construir um presídio por Estado. É difícil que o dinheiro seja suficiente. Aliás, o dinheiro nem novo é: faz parte daquele pacote de R$ 1,2 bilhão do fim do ano passado, para presídios e instalação de bloqueadores de celulares em 30% dos presídios de cada Estado. Depois, um dia desses virão mais R$ 200 milhões e outros nacos de verba para completar R$ 1,8 bilhão no primeiro semestre.

A vida como ela é

O colunista James Akel comenta o custo dos presos: “Custa 5.800,00 por mês cada preso do Amazonas. Em São Paulo um flat de luxo em Moema custa R$ 2.500,00.

Ao lado pode-se comer bem com 1.000,00 ao mês. Sobra grana”.

O que importa

E a vida continua. Os políticos costumam fazer aquilo de que gostam: política. Amazonas já era: os erros, sejam quais forem, serão encobertos por uma pedra em cima e esquecidos pelo passar dos anos. O que se discute hoje é a presidência da Câmara e do Senado. Na Câmara, a discussão é entre dois grupos, ambos aliados ao presidente Michel Temer. No Senado, o PT busca retomar sua tradicional ligação com o atual presidente da Casa, Renan Calheiros, para evitar a vitória do candidato de Temer, Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará. A ideia é que Renan escolha o nome para que o PT o lance e solidifique, e que ele só o apoie na hora em que tiver certeza da vitória. Se não der para ganhar, Renan fecha com Temer e sai como um dos vitoriosos, como sempre cacique do PMDB.

Tudo bem

Há pontos que vão bem na economia brasileira – por exemplo, com a crise, o setor da recuperação judicial. Hoje se desenrola o maior pedido de recuperação judicial da nossa História, os R$ 64 bilhões da Oi. Ainda não havia experiência no país de recuperação judicial deste porte. “mas já está claro que a providência pode levar a sucesso na manutenção das funções sociais das empresas”, diz o advogado Fernando de Luizi, de São Paulo, especialista no tema. “A Lava Jato criou uma modalidade de recuperação judicial atípica”, explica de Luizi. “Empresas saudáveis e superavitárias se tornaram insolventes pelas circunstâncias originadas pela Lava Jato, ou seja, em face do congelamento de seus recebíveis, pela perda de contratos, e acabaram tendo de buscar a recuperação para equacionar suas contas”.

Voa, governador, voa

O governador mineiro Fernando Pimentel, PT, viajou no helicóptero do Governo para buscar o filho no réveillon. Ele não entendeu as manifestações de rua: é para voar do cargo e nem pensar em voltar mais.

CHEGA DE INTERMEDIÁRIOS

A grande novidade dessas eleições – noves fora quem foi eleito e preso em seguida – é conhecida apenas em Manacapuru, a “Princesinha do Solimões”, a uns 80 km de Manaus, capital do Amazonas. Francisca Ferreira da Silva, 32 anos, tomou posse neste domingo como vereadora – a quarta parlamentar mais votada da cidade, a vereadora líder de votos, com 1.722. Contribuições para a campanha, só de pessoa física: taxistas, mototaxistas, pequenos comerciantes. Marqueteiro, nem pensar. Pensa no futuro da população mais pobre de Manacaparu: “Estou grata pelo apoio que recebi dos amigos e parentes”, diz. “Vou cobrar o prefeito e vou lutar para que Manacaparu tenha uma clínica de hemodiálise”.

Francisca Ferreira da Silva não concluiu o Fundamental, tem três filhos e é a primogênita de Manoel Nonato Oliveira da Silva e Alcina Lomas da Silva, ambos aposentados. Muito popular no porto, onde trabalha, foi escolhida pelos prestadores de serviços da área para representá-los, diante das sucessivas frustrações com seus eleitos. Têm certeza de que ela é imune à corrupção. Ela corresponde: até que receba os R$ 7.800,00 de salário, trabalha como feirante, feliz com a perspectiva de ajudar seus eleitores.

Ah, ninguém a conhece pelo nome, mas pelo apelido, Coroca, que usou como prostituta. Defende-a seu pai: “Jesus diz que quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. No país da Lava-Jato, quem se atreverá?

A firmeza de Temer

Não se impressione com os manifestos oposicionistas que, sempre que citam o Governo, acrescentam que está próximo a cair. Bobagem. Diz a Constituição que uma eleição para substituir Temer será indireta. Se tentarem transformá-la em direta, não haverá eleição nenhuma, por falta de tempo para aprovar a emenda constitucional. Imaginemos que Temer seja fartamente citado nas 77 delações da Odebrecht. Até acabar o processo, terá acabado o mandato. E se o TSE decidir que as irregularidades de Dilma se transferem a Temer? Mesmo que o julgamento saia rápido, há recursos que o atrasarão até o final do mandato. Temer fica até o fim.

A terra tudo encobre

O caro leitor jamais tinha ouvido falar da Família do Norte, forte facção criminosa que controla as prisões da região, e que, ao rebelar-se, deflagrou a matança? Pois a Polícia sabia de tudo. A FDN é liderada pelo traficante Márcio Garrote Ramagem, torcedor do Compensão, time de Manaus. Os presos financiavam times amadores, todos chamados de Compensão, pregavam seu escudo nas muralhas de todas as prisões, convocavam a torcida para todas as partidas (“salves”) e davam grandes festas, com secos e molhados. Seus celulares funcionavam melhor que o dos clientes que pagam a conta. Na cadeia havia três presos por vaga, amontoados.

As pedras por cima

Imagine o leitor que enclaves de luxemburgueses ocupem áreas do território brasileiro, em Rio, São Paulo, Amazônia, e resolvam seguir sua própria lei. Nenhum Governo aceitaria isso. Mas por que os luxemburgueses seriam piores que os condenados? Se não há condições de manter presídios adequados, bem guardados, onde se cumpra a lei do país, que a política prisional seja repensada, sem dar vantagens ilegais a quem tem o dedo mais mole na hora de atirar. Ou isso ou matanças sem fim.

La verdad

Aquela “onda vermelha” que engolfou parte da América Latina era, na verdade, abundantemente verdinha, e com fotos de Benjamin Franklin. Em duas semanas, começa o julgamento do ex-presidente de El Salvador, Maurício Funes, de um de seus filhos, Diego, e de sua ex-esposa, Vanda Pignato, brasileira e militante petista. Eles conseguiram, a pedido de Lula, que a Odebrecht pagasse a campanha – João Santana incluído. A Odebrecht, no mandato de Funes, obteve US$ 50 milhões em contratos.

Ricardo Martinelli, ex-presidente do Panamá, é acusado de receber, para ele, R$ 59 milhões; e, para outros, R$ 118 milhões. Rafael Correa, do Equador, está com problemas: a Polícia apreendeu há dias em Quito os arquivos eletrônicos da Odebrecht. Os subornos atingem US$ 35 milhões. No Peru, três ex-presidentes e uma ex-primeira-dama tentam jogar a propina, US$ 29 milhões, no colo do atual presidente Pedro Pablo Kuczynsky. Danilo Medina, República Dominicana, é acusado de receber US$ 92 milhões, em troca de US$ 163 milhões em ganhos extra-ordinários.

…sin perder las verduras jamás

Os melhores negócios parecem ter ocorrido onde não há abertura para a Justiça: Angola, onde a filha do presidente José Eduardo dos Santos se transformou na mulher mais rica da África, e Venezuela, onde o presidente Maduro faz o que pode para manter-se no poder. Ali a Odebrecht teve seus maiores lucros no Exterior e manobrou como quis o dinheiro.

FELIZ ANO VELHO E BOAS ENTRADAS

Pois não é que, apesar de tudo, dá para chamar 2016 de Feliz Ano Velho? A população foi para a rua, mostrou que estava farta do PT, deu forte apoio à apuração da ladroeira, usou contra Dilma expressões mais habituais a protestos contra juízes de futebol, e ganhou a parada, tirando-a da Presidência. Nas eleições de outubro último, o PT foi varrido do poder. E boa parte dos Guerreiros do Povo Brasileiro foi parar em Curitiba.

Petistas de peso foram desidratados e perderam seus cargos. Outros trocaram de partido – incluindo alguns ícones como Marta Suplicy e Cândido Vaccarezza. Outros ainda não sabem o rumo que vão tomar, como José Genoíno. E Dilma? Como é difícil escolher os próximos passos, quando nem o Grão Cacique Luiz Inácio Lula da Silva sabe o que fazer?

Lula pode ser candidato à Presidência, com algumas chances (se bem que arrastando uma inédita rejeição, que até agora jamais um candidato como ele tinha sustentado). Há também o risco de ser condenado em segunda instância num dos cinco processos em que já é réu. Condenação em segunda instância implica prisão e suspensão de direitos políticos. Candidatura, nesse caso, nem pensar.

Inflação em alta, emprego em baixa, negócios paralisados.Mas abriu-se caminho para apurar a gatunagem, para o saneamento das finanças estatais e a fixação de limites aos gastos públicos. Feliz Ano Velho, apesar de tudo!

Festa brava

A farra da mexerica, eta festa boa! Toda a população acredita que os candidatos devem fazer campanha com seu próprio dinheiro. Mas quem é que se contenta em gastar o próprio dinheiro, se o dinheiro do Governo está à disposição de gatos, ratos e gatunos? O Fundo Partidário rendeu aos partidos, em dez anos, pouco mais de R$ 3 bilhões. PT, PMDB e PSDB, neste período, molharam as mãos em algo como 350 a 450 milhões cada um. Acharam pouco: em dezembro de 2014, o Fundo triplicou. Fique tranquilo o caro leitor: não faltará dinheiro público, nosso, para que os partidos deles façam campanha sem dificuldades financeiras.

Triste futuro

Cuba se recusa a reconhecer o Governo brasileiro do presidente Michel Temer. Cuba se recusa a receber as credenciais do embaixador do Brasil, Frederico Duque Estrada. E o embaixador cubano no Brasil, Alberto Castellar, ainda não entregou suas credenciais. Como poderá o Brasil sobreviver sem relações diplomáticas com Raúl Castro?

Cena curitibana

Há coisas que só acontecem na política paranaense. Por exemplo, a troca de insultos entre o senador Roberto Requião e seus adversários políticos. No início de dezembro, Requião tinha dito que quem tivesse participado de passeatas contra o PT deveria comer alfafa, muita alfafa, ao natural ou em chá, própria para muares e equinos. Há uma semana, o jogo virou. Numa esquina curitibana, manifestantes depositaram um fardo de alfafa; e pediram que quem achasse que Requião deveria comê-lo buzinasse.

Cena curitibana. Hoje, na esquina da avenida Visconde de Guarapuava com rua Brigadeiro Franco, alguns manifestantes colocaram um fardo de alfafa e, numa faixa, pediam a quem concordasse que o senador Roberto Requião deveria comer aquilo, que buzinasse. O barulho tornou-se ensurdecedor por todo o tempo que durou a manifestação. Requião foi amplamente derrotado na Batalha da Alfafa. Ele não devia se envolver na briga: afinal, foi ele que andou mascando mamona.

Jornal Livre

Há uns 30 anos, o grande repórter Lúcio Flávio Pinto, meu colega de Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo, teve uma ideia revolucionária: lançou em Belém o Jornal Pessoal, uma publicação em defesa da Amazônia. Anúncios, não; publicidade, nenhuma. A única receita é obtida pelas vendas em bancas. Agora é preciso levar-lhe um aporte de capital – ou o jornal, o único realmente independente do país, fecha as portas.

A volta de Frankenthal

Seu pai, Leonardo Frankenthal, era conhecido como Leão do Júri; dizia sua lenda que ele perdera apenas um júri na vida, Quando morreu, sua filha e discípula Lilia Frankenthal decidiu retomar a notável carreira do pai. Neste 1º de janeiro, já com a carteira da OAB em mãos, reabre o escritório, com os telefones 9 8317-5800 e 4801-4907, e o e-mail lilia@frankenthal.adv.br

Dois livros notáveis

Dois lançamentos simultâneos: de Aristóteles Drummond, “O homem mais realista do Brasil, as melhores frases de Delfim Netto”; de Ives Gandra Martins, “Uma breve teoria do poder”. Os dos livros compõem um excelente presente de começo de ano.

FUMO MAS NÃO TRAGO. UM AMIGO TRAZ

Diz um cruel humorista americano que, certa manhã, uma esfuziante Chelsea Clinton chegou à Casa Branca e contou à mãe que tinha conhecido naquela noite um rapaz maravilhoso, simpático, bonito, bem educado, uma paixão!, que lhe fez agradável companhia. A mãe, preocupada, perguntou: “Rolou sexo?” E a jovem, direta: “De acordo com o papai, não”.

O ex-ministro Jaques Wagner (Governo Dilma) se aproximou de outra frase do ex-presidente Clinton: “eu fumei, mas não traguei”. Wagner, acusado de receber da Odebrecht um caprichado pixuleco, um relógio Rolex de US$ 20 mil, confirmou o presentão, mas explicou: “Guardei e nunca usei, porque uso outro tipo de relógio. Mas, se o cara me deu de presente, vou fazer o quê?” Claro: talvez prefira um relógio de bolso (“cebolão”), da Patek Phillipe, o Henry Graves Super Complication, avaliado em US$ 11 milhões. Se alguém lhe der de presente, que mal faz?

Pois é: junte as duas frases de Clinton, a verdadeira e a falsa, com a brasileira, de Jaques Wagner, e terá uma pista do caminho legislativo a seguir para livrar boa parte dos envolvidos na Lava Jato. Representantes dos três Poderes montam uma tese jurídica para separar o caixa 2 destinado a financiar campanhas do dinheiro usado para, oh, horror! enriquecer políticos. O que sempre se usou e é culturalmente aceito continua legal. O que não é culturalmente aceito, quem sabe um dia se acerta isso também.

Quem apita o jogo

Nessa limpeza toda de dinheiro até agora apontado como sujo, quem separaria o “culturalmente aceito” do que a nós parece pura roubalheira?

A ideia é entregar essa delicada operação ao Supremo. Os ministros teriam algum tempo para estudar direitinho o caso, já que o novo entendimento começaria a vigorar, dando tudo certo, no julgamento dos casos do Petrolão. Imagine o caro leitor se o Supremo condenar um figurão. Ficaria aberto o caminho para livrar réus de menor calibre.

No nosso, não

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, nem pensa em resolver juridicamente a situação de seus companheiros de partido. Quer resolvê-la do jeito que der, sem se preocupar em articular uma solução com as demais legendas. Ele propõe separar antigos companheiros, como José Dirceu e Antônio Palocci, que eram chamados de Guerreiros do Povo Brasileiro mas foram abandonados na prisão, sem sequer receber visitas, sem merecer sequer uma menção nos discursos petistas, e eventualmente expulsá-los do partido. Outros Guerreiros do Povo Brasileiro seriam defendidos pelo PT.

Traduzindo, o partido abandonaria os companheiros mais difíceis de defender, defenderiam os envolvidos em casos menos escandalosos e mobilizariam o partido numa cruzada quando chegasse sua vez no tribunal.

Cuidado essencial

Importante: é preciso tomar todos os cuidados possíveis antes de levar petistas de alta patente ao banco dos réus. O banco pode quebrar por excesso de fundos.

Operação Tetas Secas

Em 2013, condenados ao pagamento de multas, José Genoíno arrecadou R$ 700 mil numa vaquinha, e Delúbio Soares, em outra, R$ 1 milhão. Em 2014, José Dirceu levantou mais de R$ 900.000,00. Dilma, proibida de usar o Airbus oficial, e sentindo-se mal diante da possibilidade de voar em avião de carreira, obteve quase R$ 800 mil. A meta da vaquinha de Lula para financiar sua defesa era de R$ 500 mil. Chegou a R$ 270 mil.

Faturar menos que Dilma… que demonstração de força ao contrário! E Rui Falcão quer lançar imediatamente a candidatura de Lula à Presidência.

A falta que ela nos faz

Violeta Jafet, alma e coração do Hospital Sírio-Libanês, um dos melhores do país, morreu na segunda-feira, aos 108 anos. Por 50 anos dirigiu o dia a dia do hospital; quando já não tinha condições de caminhar pelas imensas instalações do Sírio-Libanês, ia de cadeira de rodas, sempre impecavelmente vestida, cuidando de tudo. Filha de Adma Jafet, primeira presidente da Sociedade de Mulheres que ergueu e comanda o Sírio-Libanês, Violeta tinha o dom da palavra. Após um discurso seu, o presidente Fernando Henrique beijou-lhe as mãos e disse que pediria a Deus que lhe concedesse chegar à idade dela com a lucidez que demonstrava. Violeta Basílio Jafet. Ela fará falta, a nós, à cidade, ao país.

Falou e disse

O vereador Fernando Holiday, do DEM paulistano, militante do MBL, Movimento Brasil Livre, já mostrou a que veio: diante da atitude dos vereadores paulistanos de aumentar seus salários em 20%, classificou-a de “desrespeito” e “canalhice das velhas raposas da Câmara”.

Holiday é de briga. Não está na Câmara para aumentar seus salários.

A MERITÍSSIMA SAÍDA

É cedo, muito cedo; pesquisa eleitoral, tantos anos antes de uma eleição, é mais adivinhação do que previsão. Celso Russomanno e Paulo Maluf cansaram de disparar na frente e perder o fôlego em campanhas por cargos majoritários. Mas a pesquisa, embora longe de indicar um favorito, é ótima para avaliar a atual situação de cada possível candidato. Neste momento, quem dispara na pesquisa do Instituto Ipsos é o juiz Sérgio Moro.

Moro é aprovado por 66% da população, e rejeitado por 22% – isso apesar da campanha feroz que o PT, os advogados do ex-presidente Lula e o próprio Lula movem contra ele, considerando-o parcial. Há ataques mais graves de alguns setores, que o acusam de investigar a corrupção com o objetivo de prejudicar a Petrobras e as grandes empreiteiras, em benefício de multinacionais concorrentes que buscam o mercado brasileiro. Até agora, as acusações não pegaram no juiz, que vai ganhando prestígio.

A primeira pesquisa do Ipsos sobre a popularidade de Moro se realizou em setembro do ano passado. Na ocasião, Moro tinha 10% de aprovação, e era desconhecido por 56% dos entrevistados. Em pouco mais de um ano, seu índice de aprovação se multiplicou por 6,6, um desempenho impressionante. Em junho, superava outro super-herói nacional, o ministro aposentado Joaquim Barbosa, por 55 a 52. De junho para cá, cresceu mais.

Será Moro candidato? Será candidato forte? Melhor ouvir a Mãe Dinah.

Temer, não…

O presidente Michel Temer tem números ruins: as pesquisas CNI-Ibope (46%), Datafolha (45%) e CUT-Vox Populi (55%) mostraram como cresce a rejeição a seu Governo. O Datafolha pesquisou também a taxa de rejeição de Lula (44%), e concluiu que o presidente e o ex-presidente estão tecnicamente empatados no número de eleitores que não votariam neles de jeito nenhum, caso sejam ambos candidatos nas eleições de 2018. O detalhe: os três institutos indicam quedas de prestígio semelhantes. Os números podem diferir um pouco, mas sinalizam idêntica fraqueza política.

…não…

O resultado mais dramático é o do Instituto Ipsos: 77%. Com esse número, Temer será o presidente da República mais mal visto pelos eleitores desde que se iniciaram as pesquisas sobre esse tema – um presidente pior até do que Dilma Rousseff. O número negativo disparou logo após o vazamento das delações da Odebrecht, em que é citado.

…sim…

Mas as medidas econômicas anunciadas na quinta-feira foram bem recebidas por empresários e especialistas. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Martins Filho, disse que as mudanças nas leis trabalhistas deixarão a Justiça mais tranquila e segura. “Quando a lei é clara é mais fácil trabalhar”. O presidente do TST acredita que não haverá quaisquer prejuízos jurídicos para os assalariados. “A cada direito flexibilizado, há uma vantagem compensatória para o trabalhador”.

A CUT será contra, pois o Governo não é do PT. O trabalho é convencer as outras centrais sindicais a tomar posição a favor, ou de esperar para ver.

…sim…

Um fato é inegável: ao que tudo indica, Temer só deixará a Presidência se quiser. Tem uma tremenda maioria parlamentar, capaz de barrar qualquer iniciativa contra ele. Pode ser que o Tribunal Superior Eleitoral conclua que as irregularidades cometidas por Dilma na campanha eleitoral o atingem, como seu companheiro de chapa, e decida cassar seu mandato, Nesse caso, disse Temer, no café da manhã com jornalistas, em Brasília, entrará na Justiça com recursos contra a decisão – todos os recursos possíveis. A partir de domingo que vem, restar-lhe-ão dois anos de mandato; e, diz a Constituição, se ele deixar o cargo, o substituto será escolhido em eleição indireta. Podem tentar afastá-lo como vingança, uma compensação pela queda de Dilma, mas ninguém vai ganhar nada com isso.

…sim!

A inflação, que caminhava para dois algarismos pelo segundo ano consecutivo, deve ficar pouco acima da margem superior da meta: 6,6%. Boa parte dessa queda, claro, se deve à crise econômica. Mas o eleitor sente no bolso a queda da inflação, e pode voltar-se a favor do Governo.

Brincando no bolso…

O Governo autorizou as empresas aéreas a cobrar as bagagens embarcadas. Explicaram que isso é ótimo porque permitirá reduzir a tarifa de quem não despacha bagagem. Alguém topa apostar com esta coluna?

Michel Temer diz que as novas medidas econômicas talvez não tenham efeito imediato, mas a médio prazo, todos verão, serão ótimas.

…dos outros

Nos dois casos, o Governo diz que tudo vai melhorar, só que mais tarde.

MIRA NO MORO, MORO NA MIRA

As táticas da grande batalha estão totalmente definidas: a defesa do ex-presidente Lula acusa o juiz Sérgio Moro de parcialidade (e as acusações são tão constantes que por vezes o tiram do sério, levando-o a bater boca com a defesa); Moro – e outros juízes que examinam o Petrolão – vão preparando o caminho para que, no dia em que alguém determinar a prisão de Lula, já seja uma medida esperada – como foi, por exemplo, a prisão de José Dirceu.

Especialistas em Direito comentam que Moro irá até uma eventual condenação de Lula, mas sem prendê-lo. Lula se defenderia em liberdade até que um tribunal de segunda instância rejeitasse seu apelo e, na forma da lei, ordenasse a prisão. Lula é réu em cinco processos. Basta uma condenação em duas instâncias para que seja preso e se torne inelegível.

Esta é a ordem de batalha, que pode mudar conforme os acontecimentos. Uma tentativa de fuga, por exemplo; mas Lula não demonstrou intenção de fugir. Foi a Cuba, com jato fretado e tudo, e voltou para enfrentar os julgamentos. Ou um flagrante de obstrução de investigações. Mas Lula até agora não deu qualquer indício de irregularidade. Ou, de outro lado, uma reação explosiva de Moro às constantes acusações de que age com parcialidade, de que – crime dos crimes! – numa cerimônia pública foi fotografado sorrindo ao lado de Aécio. Isso serviria para tentar considerá-lo suspeito. Mas Moro, até agora, é só profissional. É acompanhar a luta.

Homem forte

O presidente Michel Temer desfruta de forte posição no Congresso – a mais forte desde 1996. Na Câmara, dos 513 deputados, 90 estão na oposição. Dos 81 senadores, a turma do “Fora, Temer” tem 16.

Temer pode implantar tranquilamente seu plano de Governo. Se der certo, mérito seu; se não der, não pode botar a culpa na oposição.

Homens fortes

Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas chegou a um dado preocupante: 35% dos entrevistados são favoráveis a uma intervenção militar provisória. São minoria: 59,2% são contrários à intervenção. Mas é surpreendente perceber que 1/3 dos pesquisados esqueceram que a última intervenção militar “provisória” durou 21 anos. O Estado de S. Paulo, em 1964, queria uma intervenção militar provisória. Os militares teriam poder absoluto por seis meses, fariam as reformas necessárias, e entregariam o poder aos civis. Acontece que, quando chega ao poder, ninguém gosta de entregá-lo. Os militares descobriram que era mais fácil governar com o Congresso, na base do toma lá – dá cá, ainda mais com os congressistas amedrontados. Experimentaram mordomias e viram que era bom. Retirá-los foi difícil. E o próprio general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, já se manifestou contra qualquer intervenção militar no Governo.

Honra fraca

A Folha de S.Paulo publicou nesta terça, 20, uma reportagem que merece ser guardada por quem queira entender o Brasil: duas medidas provisórias compradas por R$ 16,9 milhões renderam à Odebrecht R$ 8,4 bilhões. O cálculo é de Cláudio Melo Filho, alto funcionário da Odebrecht especializado em compras, primeiro grande delator premiado da empresa. Claro, houve outras compras, mas essas são um belo exemplo: como era barato aprovar medidas legais que dão a uma empresa, ou a um setor, lucros substanciosos, muito superiores aos gastos que exigiram.

Como diz um antigo provérbio, quem se vende por dinheiro se vende por muito pouco.

Dois detalhes

1 – Em seu acordo de leniência, a Odebrecht se comprometeu a pagar (em suaves prestações) a multa de R$ 6 bilhões. Ou seja, menos do que obteve apenas com a compra de duas medidas provisórias.

2 – A Braskem, cujo controle acionário pertence à Odebrecht, pagará de multa, por seu acordo de leniência, R$ 3,1 bilhões.

O controle acionário é da Odebrecht, mas a Braskem tem outros sócios, que pagarão sua parte na multa, na proporção de suas ações. Uma grande sócia da Braskem é a Petrobras. Também vai morrer com algum.

Todos juntos, vamos

O político baiano Octavio Mangabeira costumava dizer que, por mais que um fato parecesse estranho, tinha precedente na Bahia. Em termos políticos, o Paraná também tem suas peculiaridades. Por exemplo, só no Paraná se imagina a homenagem conjunta aos tucanos Fernando Henrique e Geraldo Alckmin e ao petista Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu, um dos mais emblemáticos altos funcionários a sobreviver à queda do PT. Na segunda-feira, comemorando os 163 anos de emancipação política do Paraná, os três receberam a Ordem Estadual do Pinheiro, concedida pelo governador tucano Beto Richa. Numa boa, sem brigas, só sorrisos.

O BARULHO DOS INOCENTES

Um fato há que reconhecer: tanto o presidente da República quanto o líder da oposição, mesmo vivendo no meio de toda essa sujeira que tanto nos assusta, mantêm intacta sua pureza. Lula conviveu dezenas de anos com José Dirceu, Delúbio, Marcelo Odebrecht, todos já condenados por corrupção, e proclama que é inocente, aliás nem sabia de nada; Temer presidiu o PMDB de Eduardo Cunha por quinze anos, teve convívio próximo com os seis ministros que se afastaram por problemas judiciais, admite ter recebido um empresário do ramo de doações ilícitas (que, na delação premiada, citou seu nome como captador de recursos) mas garante que não tratou disso com ele. É inocente, diz. Não mexia com essas coisas.

É bonito saber que o ambiente depravado em que circularam com tanto êxito, sem saber que era depravado, não afetou sua inocência. Lula sustenta que o apartamento triplex e o sítio de Atibaia não são dele, que a propósito nem imaginava que os voos em jatinhos fossem algo mais que uma gentileza. Temer ofereceu um jantar ao empresário Marcelo Odebrecht em sua residência oficial de vice-presidente da República, o Palácio do Jaburu, após o qual a Odebrecht ficou R$ 10 milhões mais pobre. O delator Cláudio Melo Filho diz que o dinheiro foi para o caixa 2 (o que é confirmado por Marcelo Odebrecht). Temer explica que não, que todas as doações recebidas foram legais, nada de caixa 2. Aliás, o que é Caixa 2?

Fique tranquilo

Estiveram no jantar do Jaburu o então vice-presidente Temer, o deputado Eliseu Padilha, Odebrecht, Cláudio Melo Filho. Como a conta foi paga pelo caro leitor, esta coluna informa que pode ficar tranquilo: Temer é pessoa cultivada, de fino trato, e com certeza comida e vinhos foram bons.

Balanço geral

1 – Temer foi acusado pela segunda vez, nas delações da Odebrecht, de pedir pixulecos de campanha em troca de favorecimentos à empreiteira.

2 – Lula, que já é réu em quatro processos, foi denunciado pela quinta vez pela Lava Jato, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

3 – O quarto processo, da Operação Zelotes, foi recebido anteontem pela Justiça. Refere-se à acusação de tráfico de influência na compra dos 36 caças supersônicos suecos Grippen.

4 – Lula abriu processo por danos morais contra o promotor Deltan Dallagnol. Pede indenização de R$ 1 milhão.

5 – O promotor Deltan Dallagnol critica o Congresso, por modificar o projeto das medidas anticorrupção. “Congresso: nos deixem trabalhar”.

6 – Lembra da liminar do ministro Luiz Fux, mandando, sob críticas do ministro Gilmar Mendes, que o Senado devolvesse à Câmara as “medidas anticorrupção”?

Pois o presidente do Senado, Renan Calheiros, se recusa a cumpri-la. Renan já tinha se recusado a cumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, que o afastava do cargo. Daquela vez ganhou a parada.

Sem fantasia

Já ouvimos autoridades dizer que não podem combater a barbárie que acompanha algumas manifestações de rua por não haver lei específica sobre o tema. Já estamos cansados de ouvir que a manifestação era pacífica, que a Polícia é que atacou os manifestantes e de repente, naquele grupo de pessoas ordeiras e pacíficas, surgiram rojões, morteiros, correntes, socos ingleses e outros objetos que em geral todo mundo traz nos bolsos. Já estamos carecas de aguentar a pregação de que os pacíficos manifestantes, contra sua pacífica vontade, sofreram infiltração de black blocs.

Chega. Chega. A brincadeira já cansou. Os vândalos são filmados, podem ser identificados, mas apenas um ou outro vai preso, e destes, muitos são liberados em seguida. Não há infiltração nenhuma: os vândalos lamentavelmente são parte do grupo, que os aceita e não age de maneira nenhuma contra eles. O que houve na avenida Paulista, há dias, é inaceitável: os vândalos destruindo o teatro do SESI, que apresenta espetáculos gratuitos, e invadindo o prédio da Fiesp, depois de arrebentar sua fachada, e ninguém é preso? O Governo, que detém legalmente o monopólio do uso da força, desistiu da segurança?

Se o Governo deixa de cumprir sua obrigação legal, não estará cometendo prevaricação? Estará ainda dentro da lei?

Uma história de verdade

Dentro de poucos dias ocorrerá o terceiro aniversário do assassínio do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes. Foi morto por um rojão na nuca quando trabalhava na cobertura de uma manifestação no Rio. Os dois acusados do assassínio foram presos em poucos dias. Até hoje não foram julgados (e estão soltos). Até há pouco a Justiça discutia se o caso deve ir a júri. O STJ decidiu que sim. Mas o caso precisou ir a Brasília para a decisão sobre a forma de julgamento. É bom-mocismo demais.

DO OUTRO LADO DO ESPELHO

A área política do Governo Temer está bem complicada: como bananas que passaram do ponto, meia dúzia de ministros já foi descartada, outros aguardam o iminente descarte. Até o presidente já foi citado em delação premiada. Um aliado importante, o senador goiano Ronaldo Caiado, DEM, propôs a renúncia imediata de Temer, para que uma eleição direta indique um sucessor com apoio popular para dar um jeito na crise e na economia.

Mas exatamente a economia tem mostrado bons resultados, submersos pelos erros políticos, pela Operação Lava Jato e pelo cansaço da opinião pública, que provavelmente esperava ação mais decisiva do novo Governo. Há uma nova safra de empresas, em especial as individuais: 1,55 milhão, informa a Serasa. Boa parte dos empreendedores reage ao desemprego que os atingiu, mas o número dá um sinal da força do mercado interno. E há a rápida queda da inflação, que no fim do Governo Dilma buscava dois algarismos e hoje parece estar no centro da meta oficial: 4,5% ao ano. Se o cálculo estiver correto, abre-se campo para redução rápida da taxa de juros. E a emenda que limita os gastos estatais logo logo entra em vigor.

A equipe econômica é boa e trabalha em silêncio. Montou um pacote de oito iniciativas que podem funcionar: por exemplo, um programa de emprego, com R$ 1,3 bilhões em quatro anos, algumas mexidas no crédito, redução na burocracia. A cartada é essa: sai a Política, entra a Economia.

Todos os trunfos…

Ao pedir ao procurador-geral Rodrigo Janot que bloqueie vazamentos de delações premiadas, e as divulgue logo, na íntegra, depois de homologadas pelo STF, Temer, respeitado constitucionalista, sabe o que está fazendo. Se as citações a seu respeito forem verdadeiras, ele não poderá ser julgado por elas, já que se referem todas a período anterior a seu mandato.

…do presidente

E se as citações da delação premiada (faltam 77 delações, só na Odebrecht) continuarem vazando, talvez possam ser contestadas como ilegítimas. Até agora, portanto, não há como atingi-lo do ponto de vista penal. O prejuízo se limita à sua imagem como político e ao debate público.

Coisa estranha

O senador Ronaldo Caiado, expoente do DEM, sabe das coisas. Por isso, sua ideia de que Temer renuncie a tempo de convocar eleições diretas para presidente parece esquisita. Caiado sabe que Michel Temer é do PMDB, e jamais se ouviu dizer que alguém do PMDB tenha largado algum cargo.

Coisa normal

O presidente do DEM, Agripino Maia, é claro: antecipar eleições é ideia de Caiado, não do partido. O DEM continua firme apoiando o Governo.

Efeito externo

Michel Temer conversou ontem, pela primeira vez, com o presidente americano eleito, Donald Trump. Temer disse que o Brasil tem interesse em atrair capitais americanos, Trump cumprimentou-o pelo programa de reformas econômicas e apresentou pêsames pelo desastre do Chapecoense,

Lula sob pressão 1

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Lula por corrupção passiva. Com ele, foram indiciados sua esposa, Marisa Letícia, seu advogado e compadre, Roberto Teixeira, o ex-ministro Antônio Palocci e mais três pessoas. Motivo: a Federal considera que a compra de um terreno para a construção de um novo Instituto Lula e de um apartamento ao lado daquele em que mora, que estaria em nome de terceiros, mas alugado pela esposa de Lula, foram feitas com propina da Odebrecht. Lula diz que nenhuma das duas compras ocorreu, que não há planos de mudar o local do Instituto Lula, e que ele vem sendo perseguido pelo delegado Márcio Anselmo.

Lula sob pressão 2

Outra operação da Polícia Federal, iniciada na terça-feira, apura fraudes e desvio de pouco mais de R$ 10 milhões no Museu do Trabalhador, que está sendo construído em São Bernardo do Campo, ao lado do Paço Municipal, e é conhecido na cidade como Museu do Lula. É a Operação Hefestos, que atingiu 16 pessoas, oito em prisão temporária, oito em condução coercitiva. Hefestos, ou Hefaístos, é o nome grego de um deus conhecido pelos romanos como Vulcano, que se dedicava à metalurgia. A operação foi autorizada pela 3ª Vara Federal de São Bernardo, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada em fraude às licitações, peculato e uma série de outras ilegalidades.

Os especialistas

Nossos parlamentares, faça-se justiça, são observadores sagazes das mais diversas situações. Com a emenda de limitação de gastos, e a reforma da Previdência, os parlamentares aumentaram suas férias em sete dias. Pela Constituição, deveriam trabalhar até dia 22, mas só ficam até o dia 15.

ELES VOLTAM. E VOLTARAM

Em maio de 1959, o jovem líder revolucionário Fidel Castro visitou o Brasil e foi recebido como herói. Houve festa em sua homenagem na mansão dos Nabuco, no Rio, cheia de gente importante. O prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros, disse a Fidel que admirava a revolução cubana, mas desaprovava os fuzilamentos. Fidel se explicou: “Pero solo fuzilamos los ladrones del diñero público”. Adhemar, a quem se atribuía o slogan “rouba, mas faz”, rebateu: “Os ladrões voltam, señor. Sempre voltam”.

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Adhemar de Barros e Fidel Castro

Adhemar tinha razão. Para manter Renan, que enfrenta onze inquéritos e é réu por peculato (desvio de dinheiro público), na Presidência do Senado, houve um grande e discreto acordo. Ninguém perdeu. Quem ganhou?

Mais fortes: ministra Carmen Lúcia, ministro Celso de Mello, senador Romero Jucá. Supersalários? Algum dia, lá no futuro, voltarão à discussão.

Prestigiado: Renan. Mas em poucos dias deixa de ser presidente do Senado. Forte, mas menos. Desacato, abuso de autoridade? Um dia, talvez.

Mais ou menos: Temer. Seus projetos econômicos serão aprovados rapidamente pelo Congresso. Está aliado a Rodrigo Maia, que como presidente da Câmara rejeitará todos os pedidos de impeachment. Em compensação, não conseguiu nem nomear o substituto de Geddel: chegou a anunciar Antônio Imbassahy, mas teve de recuar porque o Centrão não deixou. Quem não consegue enfrentar nem PTB, PR, PSD e PP forte não é.

Viva o supersalário!

Os supersalários que, um dia, voltarão ao debate, eram uma questão urgentíssima, considerados a bomba atômica de que os parlamentares dispunham para enfrentar juízes e promotores. Já não são urgentíssimos, pois cada setor encontrou seu lugar de conforto sem uso de armas tão letais. Mas o trabalho da senadora Kátia Abreu (PMDB-Tocantins) tem dados interessantes. De acordo com a Constituição, o maior salário que pode ser pago ao servidor público é o de ministro do Supremo: R$ 33.700 mensais. Mas há funcionários que, acumulando benefícios, chegam a R$ 100 mil.

O duelo que não houve

O ministro Marco Aurélio, que desencadeou a crise mandando o Senado trocar de presidente, disse que a decisão que manteve Renan foi um “deboche institucional”. Mas, quando afastou Renan e foi ignorado, poderia ter mandado prendê-lo por desobediência. Preferiu pedir um parecer à Procuradoria Geral da República.

O ministro Gilmar Mendes, que sugeriu ao Senado votar o impeachment de Marco Aurélio ou reconhecer-lhe a inimputabilidade (falta de condições para responder por seus atos), viajou e nem participou da votação.

E Curitiba?

Sérgio Moro tem prestígio no Supremo, ganho pelo profissionalismo com que vem atuando; e construiu boa reputação quando a ministra Rosa Weber o chamou para auxiliá-la. Mas aquele apoio total que recebeu de alguns ministros já não é tão total. Os ministros devem ter notável saber jurídico e ilibada reputação, condições básicas para ser nomeados; mas seu cargo é político. Talvez alguém tenha chegado à conclusão de que um juiz puro e duro como Moro, inconversável, precise ouvir mais o Supremo.

O trabalho do juiz

Mas que ninguém subestime Moro. Ele cresceu cumprindo rigidamente a lei. Não deve mudar, ainda mais agora que tem uma chuva de delações.

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Lava Jato premiada

A Operação Lava Jato ganhou o Prêmio Innovare de 2016, na categoria Ministério Público, derrotando 51 outras iniciativas do MP. A força-tarefa da Lava Jato reúne 14 procuradores, 50 servidores de outras áreas, mais equipes da Polícia Federal, Receita, Petrobras, Coaf, Cade, CGU e CVM.

Às vésperas de receber o prêmio nacional, a Lava Jato recebeu o da Transparência Internacional, disputado por mais de 500 organizações de todo o mundo. A Lava Jato firmou 70 acordos de delação, fez 175 prisões, com 23 sentenças condenatórias, e pediu R$ 38 bilhões de ressarcimento. O balanço completo está na página do Conselho Nacional de Justiça.

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Petismo médico

O Governo petista caiu, o PT levou uma surra nas eleições, mas o petismo militante continua vivo. Sem repetir os dogmas petistas, era impossível passar na prova de Português do concurso para ginecologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 15 das 20 questões, observa o colunista Cláudio Humberto as “respostas certas” eram as que louvavam o PT e a administração da presidente impichada Dilma Rousseff. “Resposta certa”, por exemplo, era a que dizia que houve golpe no Brasil. E a maioria esmagadora do Congresso que afastou Dilma era chamada de “força tirânica de maioria institucional”.

TODOS UNIDOS PARA ENXUGAR GELO

Multidões, em 200 cidades do país, gritaram “Fora Renan”. E foram atendidas. Talvez isso mude após a reunião de hoje do Supremo, talvez não mude. E não vai fazer a menor diferença.

Este colunista está entre os que ficaram contentes com o afastamento de Renan – até se lembrar de que o substituto de Renan na Presidência do Senado é Jorge Viana (PT-Acre). O motivo do afastamento de Renan é que um réu não pode estar na linha sucessória da Presidência da República. E Jorge Viana é réu, numa ação por improbidade administrativa como governador do Acre, movida pelo Ministério Público Federal.

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O fato é que Renan é parte do problema, mas não é o problema inteiro. O problema está na organização política: a campanha é caríssima, exige a captação de muito dinheiro, e ninguém dá muito dinheiro só por simpatia. São quase 40 partidos, pagos por você, caro leitor: é algo como R$ 1 bilhão por ano – fora o horário gratuito, a preços de tabela cheia, que as emissoras recebem em créditos fiscais. Haverá mais algum para pagar as campanhas. Os Estados Unidos não têm nenhuma despesa com isso. Cada candidato que se vire. Há o voto distrital, que baratearia tudo – mas quem quer isso?

Sai um Renan. ótimo. Mas surgem dois, três, muitos. Eles são legião, nutridos pelos fartos recursos mobilizados para eleições. É possível, é fácil, mudar o quadro. Só é preciso saber que gelo não se enxuga, se derrete.

Brasília ferve

A decisão do ministro Marco Aurélio, de afastar Renan da Presidência do Senado, deixou Brasília perplexa. Um dia isso poderia acontecer (Renan é réu em um processo e tem outros 12 inquéritos em andamento), mas seu mandato só dura mais dez dias. E surgiram manobras jurídicas: o Senado decidiu não tomar qualquer providência imediata, aguardando a decisão do plenário do Supremo, hoje. Não chega a ser um confronto, de recusar-se a cumprir uma decisão judicial; é mais uma demora no seu cumprimento – que terá o efeito de anulá-la, conforme a decisão do plenário do Supremo,. Há também um desafio: o ministro Gilmar Mendes abriu fogo contra Marco Aurélio (veja abaixo) com termos pouco habituais para pessoas que usam toga. Qual a reação de Marco Aurélio, diante da decisão do Senado?

Ferve o Supremo

O ministro Gilmar Mendes deu entrevista ao respeitado jornalista Jorge Moreno, de O Globo, sobre a decisão do ministro Marco Aurélio de afastar Renan. Gilmar já dizia, em particular, que “não se afasta o presidente de um poder por iniciativa individual e com base em um pedido de um partido político apenas, independentemente da sua representatividade”. Para Moreno, Gilmar abriu o jogo. Algumas frases sobre Marco Aurélio:

* “É caso de reconhecimento de inimputabilidade ou de impeachment”;

* “No Nordeste se diz que não se corre atrás de doido porque não se sabe para onde ele vai”.

Narra o blog: “durante encontro com políticos, Mendes chegou a chamar de ‘indecente’ a decisão de Marco Aurélio e, nesse sentido, advertiu que, se o Tribunal quiser restaurar a decência, terá que derrubar a decisão”.

Planalto fervente

Mas, se o mandato de presidente do Senado está no finzinho, por que tanta preocupação? Porque o Governo quer votar logo a emenda constitucional que impõe limites ao gasto público, uma das chaves do plano econômico do ministro Henrique Meirelles. Renan concorda em votá-la nos dez dias que lhe restam. O PT quer segurá-la ao máximo. Jorge Viana é PT.

Governo gelado

Os indicadores econômicos não são lá grande coisa, a reforma da Previdência só agora foi ao Congresso (onde enfrenta muitas resistências), e a aprovação do limite de gastos do Governo indicará aos investidores que as coisas estão andando. É preciso ter algo para mostrar. A única coisa que ocorreu de novo foi a declaração de apoio de Temer a Meirelles. Como se diz no futebol, “o técnico está prestigiado”. No futebol, o técnico cai logo.

Frio na espinha

A reforma da Previdência, a outra chave do plano econômico do ministro Henrique Meirelles, provocará intensas discussões: aposentadoria aos 65 anos, contribuição mínima por 25 anos, unificação dos regimes de aposentadoria, com unificação das normas para empregados dos setores público e privado (só os militares ficarão fora), redução das pensões por morte de 100% para 50%, o viúvo, mais 10% por filho. Os atuais segurados com mais de 50 anos (homens) e 45 anos (mulheres) terão normas de transição. Abaixo dessas idades, é na veia: novas normas para todos.

É muita discussão. Mas, como diz a abertura desta coluna, pelo motivo errado. Como se aposentar com 65 anos se gente com 40 já é considerada velha? Só com falta de mão de obra. Crescimento. E empregos sobrando.

MORTAL LOUCURA SEM CURA

Para os romanos, um poeta (“vate”) tinha dons divinos, entre eles o de prever o futuro – “vaticínio”. Parece que tinham razão: um monumental poeta brasileiro, falecido num final de novembro há 320 anos, é o autor de Mortal Loucura) – poema que, com música de José Miguel Wisnik, na voz de Maria Bethania, foi a trilha sonora de Velho Chico. Até isso ele previu!

A loucura começa pelo presidente da República, que considera “um fatozinho” a pressão de um ministro para obrigar outro a desconsiderar uma lei para poder construir um apartamento em Salvador. Continua pelo Congresso, que tenta votar disfarçadamente uma anistia imoral, bem quando todo mundo está prestando atenção; e culmina com promotores da Lava Jato ameaçando renunciar se a lei anticorrupção que sugeriram (e que é discutível) não for aprovada do jeito que querem. “Quem do mundo a mortal loucura… cura”, diz o poeta. Os procuradores não podem renunciar a uma investigação, a menos que se demitam. É o trabalho para o qual foram designados, ponto. Empenhar-se menos seria fazer o jogo de quem quer escapar das investigações – que não ficariam tristes se os procuradores renunciassem à Lava Jato. E não é função de procuradores, por mais razão que tenham, dar ordens ao Congresso e ao presidente da República.

Agora entram no Supremo cerca de 80 delações da Odebrecht. Quando haverá denúncias e julgamentos? “Será no fim dessa jornada… nada”.

Mistérios mil que desenterra…

Parecia impossível, mas possível foi: Renan Calheiros se torna réu e será julgado pelo Supremo, que recebeu a denúncia de peculato. O presidente do Senado é acusado de pagar a pensão de uma filha que teve fora do casamento, com dinheiro fora dos trâmites legais, que recebia de uma empreiteira. Tão logo o caso se tornou conhecido, Renan admitiu que tinha a filha, a mãe da filha falou sobre o caso (e posou para Playboy), sabia-se qual era a empreiteira, conhecia-se o portador dos pixulecos mensais. O caso chegou ao Supremo em 6 de agosto de 2007. Passaram-se nove anos até que a denúncia fosse aceita. E ainda falta o julgamento.

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… enterra

A Odebrecht é organizadíssima, e a organização se estende ao ramo de pagamentos descentralizados. Há informações completas sobre o pixuleco, seus destinatários, entregador, receptor, local e horário da entrega. Com assustadora frequência a entrega é fotografada ou filmada – a Odebrecht sabia com quem lidava. Pois bem: se no pixuleco romântico para Renan já se sabia de tudo, com nomes e quantias, e o caso levou mais de nove anos para chegar à aceitação da denúncia, quanto tempo levará para processar o tsunami de documentos e chegar ao mesmo estágio? Há gente imaginando até que se trate de uma estratégia da defesa da Odebrecht: fornecer todas as informações possíveis e soterrar o Supremo com o excesso de trabalho.

Quem do mundo a mortal loucura… cura

Este colunista conheceu o jornalista Perseu Abramo nas redações. Jornalista meticuloso, atento aos detalhes, estudioso (formou-se também em Sociologia, fez mestrado), dono de excelente memória e texto esmerado. Nos tempos pré-Google, era a ele que se recorria para refrescar a memória. Era também a ele que se dirigia quem tinha dúvidas sobre grafia correta ou questões de gramática. O jornalista Gilberto di Pierro, Giba Um, até hoje, vinte anos após a morte de Perseu Abramo, ainda se queixa da falta que lhe fazem a cultura, a memória, a boa educação e a paciência do amigo ao elaborar sua coluna diária.

E quem é que o PT coloca como presidente do Conselho Curador de sua Fundação Perseu Abramo? Sim: Dilma Vana Rousseff. Voltando a nosso poeta, “O voz zelosa que dobrada… brada”.

Da morte ao ar não desaferra…

A posse como presidente da Fundação Perseu Abramo foi o último compromisso de Dilma Rousseff no país. Em seguida, iria para Cuba com o ex-presidente Lula, para prestar as últimas homenagens a Fidel Castro. As cinzas de Castro partem de Santiago de Cuba (onde está o túmulo de Che Guevara, seu companheiro de revolução) e farão um circuito pelo país.

… aferra

É uma bonita atitude de Lula e Dilma: mesmo enfrentando problemas, não esqueceram do amigo. Mas outro amigo, que fisicamente esteve muito mais próximo de ambos, que enfrenta a pior fase de sua vida, não mereceu a honra de uma visita dos amigos: é José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”, que chamou Dilma de “companheira de armas”. Dirceu está preso desde 3 de agosto de 2015, condenado a mais de 20 anos de prisão e com processos ainda correndo. Apesar da pena pesada, Dirceu lembrou dos amigos e se recusou a fazer a delação premiada. O comando do PT, Lula e Dilma incluídos, o deixou abandonado na prisão de Curitiba.

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CRÔNICA DA CRISE ANUNCIADA

A informação é oficial, do IBGE: a renda da população se reduziu em 5,4% em 2015, último ano completo de Dilma na Presidência. É a primeira queda em 11 anos.

“É a economia, estúpido”, repetia o estrategista-chefe do candidato Bill Clinton, James Carville. Explorar o desemprego, principalmente, era a única maneira de derrotar o presidente Bush (o pai), vitorioso na guerra contra o Iraque e na defesa do Kuwait, que tinha sido ocupado pelos iraquianos. Clinton ganhou e se reelegeu cuidando da economia. As guerras ele deixou para os republicanos, os dois Bush, pai e filho.

E aqui? O presidente Temer passa seu tempo discutindo política, como se a população empobrecida, desempregada, irritada com tanta roubalheira, estivesse preocupada com o substituto de Geddel. Trata de um assunto ridículo como o apartamento que é de Geddel, mas não foi construído, como se o assunto fosse da alçada do presidente. Houve tentativa de obter favores indevidos? Era muito mais simples afastar do Governo o ministro abusado, para recolocá-lo quando sua inocência estivesse comprovada. E voltar-se ao corte de despesas oficiais, que é o que todos esperavam.

O auxílio-moradia para quem não precisa custou, neste ano, até 18 de novembro, R$ 1 bilhão e pouco – mais que os 900 milhões do ano passado inteiro. E R$ 281 milhões gastou a Fazenda, que deveria cortar despesas.

FASS

Há 2 mil anos atrás

Frase perfeita sobre o Governo Temer que o bom jornalista Fernando Albrecht  foi buscar em Diógenes, pensador grego do século 4 Antes de Cristo: “Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador”. Michel Miguel Temer Lulia é vítima de ambos.

De volta para o passado

O presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá, anunciou que o partido quer mudar de nome e voltar a ser MDB, como foi entre 1966 e 1979. Depois de aprovada em consulta aos diretórios estaduais, a mudança seria efetivada em fevereiro de 2017. A ideia de voltar a 1979 é tão boa que merece ser ampliada: por exemplo, mudar o nome do presidente do partido de Romero Jucá para, como nos velhos e bons tempos, Ulysses Guimarães.

Tudo certinho

Diz Romero Jucá: “Queremos deixar de ser partido e ser um movimento”. Vivendo e aprendendo: este colunista sempre achou que girar os dedos da mão em torno do polegar fixo também fosse um movimento.

A economia é a política

A primeira medida econômica de longo alcance de Michel Temer é a PEC, proposta de emenda constitucional, que estabelece um limite para os gastos do Governo. É uma providência que atende aos desejos de boa parte da opinião pública, favorável à redução da gastança; e por isso está sob fogo dos movimentos lulistas, ansiosos por convencer o eleitorado de que a PEC do limite de gastos se volta contra os orçamentos da Educação e da Saúde (não é verdade, mas a própria Dilma já dizia que em campanha se faz o diabo). E como é que a PEC está sendo apresentada à opinião pública? Não está: pesquisa Ipsos mostra que 40% da população não sabem do que se trata. E não seria difícil apresentá-la convenientemente: 64% são a favor de reduzir os gastos públicos. Da PEC só se mostram os sacrifícios, esquecendo o motivo dos sacrifícios e as vantagens que dizem que trará.

O lado brilhante

Tudo mal? Talvez. Um senador importante, em conversa com o ex-prefeito carioca César Maia, acha que até a crise do apartamento que se existisse seria de Geddel acabará bem para Temer. Este senador, segundo César Maia, é dos que vale a pena ouvir.

A economia e a lei

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou proposta de Ivo Cassol, do PP de Rondônia, que limita os juros dos cartões de crédito ao dobro da taxa Selic. Hoje em dia, os juros cairiam de 475,8%, conforme o Banco Central informou há poucos dias, para 28%.

Ótimo. Mas, se os juros de 12% ao ano, fixados pela Constituição, nunca foram obedecidos, por que um limite fixado por lei seria respeitado?

Ano quente

Lula, no processo em que é acusado de ser mandante do suborno para comprar o silêncio de Nestor Cerveró, deve ser interrogado em Brasília em 17 de fevereiro – dois dias depois do interrogatório de Delcídio do Amaral, que foi gravado pelo filho de Cerveró quando lhe passava uma proposta de facilitação de fuga do Brasil, acompanhada de um substancioso suborno.

Este caso não tem nada a ver com o apartamento à beira-mar e o sitio de Atibaia que Lula diz que não são dele, que são examinados em Curitiba.

IMÓVEIS, GOVERNO, TUDO FANTASMA

País estranho, esse nosso. Num caso o apartamento com vista para o mar existe, mas todo mundo nega ser seu dono. Em outro caso, o dono existe; o que não existe é o apartamento. Nos dois casos a briga é brava: num dos casos, o dono que não é dono foi colocado em cheque e enfrenta o juiz Sérgio Moro; no outro, o apartamento que não existe acaba de derrubar um ministro e de colocar em xeque o presidente da República.

Temer demorou a agir, Geddel demorou a sair. Com isso, ficou claro que aquele Temer determinado, assertivo, que foi secretário da Segurança em São Paulo, transformou-se num Temer que tem medo de tomar posição. E agora tem bons motivos para temer o futuro. Há quem queira derrubá-lo, mas isso não é preciso. Mesmo ficando, presidir é que não vai.

Um peemedebista, citado pelo repórter Maurício Lima, do Radar on-line, tem a seguinte leitura da situação: o pedido de impeachment que o PSOL tenta formalizar, o próximo presidente da Câmara terá superpoderes. A decisão de dar prosseguimento ao processo será dele, que terá interesse no caso: afastado Temer, ele será seu substituto na Presidência. Embora interino, é tentador.

Cá entre nós, é o que dá escolher para o Ministério gente com telhado de vidro. Briga de R$ 2,5 milhões? No país do Petrolão, mixaria. É como o triplex que não é do Lula, que tem 171 m². Vale a pena lutar por isso?

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Baixaria

Quem achava que Delcídio do Amaral revelou seu caráter ao procurar amigos e gravar as conversas para implicá-los, e obter o máximo por sua delação premiada, tinha razão. Mas a demissão de Marcelo Calero foi do mesmo quilate. Gravar as pressões de Geddel para que fosse liberada a construção de seu apartamento, vá lá. Mas ir ao presidente só para gravá-lo, o presidente que o tirou do anonimato e o transformou em ministro, aí já é meio muito. Bem feito para Temer, que tinha extinto o Ministério da Cultura e voltou atrás, buscando o aplauso de quem, por motivos ideológicos, jamais o aplaudiria, mesmo que fosse um grande presidente.

Complicou

Este é um momento-chave para Temer, com votações importantes no Congresso, em que ele mais precisa de sua articulação política. Perdeu o ministro que cuidava disso. E deixou parlamentares importantes, que assinaram manifesto em favor de Geddel, pendurados na brocha.

Palavra de amigo

Fernando Henrique, em conversa com repórteres, disse que, diante das circunstâncias brasileiras depois do impeachment, o que temos de fazer é atravessar o rio. “Isso é uma ponte. Pode ser uma ponte frágil, uma pinguela. Mas é o que tem. Se você não tiver uma ponte, cai no rio”.

Isso mostra a força atual do Governo Temer: Fernando Henrique, que diz essas coisas, é um de seus maiores aliados.

O burro falante

Conta-se que na antiga Arábia um camponês foi preso por roubar um burro e condenado a uma longa pena. Apelou e disse ao vizir que mandava na região que tinha roubado o burro para ensiná-lo a falar. O vizir se interessou e o camponês prometeu que, se o vizir lhe desse um burro, em dez anos ele estaria falando. O vizir lhe deu o burro mas esclareceu que, se o burro não falasse direitinho, o camponês seria condenado à morte.

Ao saber da história, a mulher do camponês se desesperou: “Você assinou sua sentença de morte!” O camponês explicou: “Fique tranquila, mulher. Daqui a dez anos, morreu o vizir, morri eu ou morreu o burro”.

Os vivíssimos votantes

É por isso que o Congresso deve (não há certeza, mas é a atitude mais provável) aprovar a anistia a quem doou ou recebeu dinheiro para caixa 2, apesar das pressões da sociedade civil, apesar de eventuais manifestações de rua, apesar da possibilidade de que a Justiça intervenha, apesar de prejuízos eleitorais. Se a Justiça intervier, começa uma daquelas batalhas demoradas – com um pouco de sorte, dois anos, quando terminam os mandatos parlamentares. Prejuízos eleitorais? As eleições serão daqui a dois anos, quando, esperam Suas Excelências, o caso já esteja esquecido. Se a anistia não for aprovada, muitas Excelências enfrentarão em breve a Lava Jato, ou outras forças-tarefas, e em pouco tempo estarão sendo interrogados pelo juiz Sérgio Moro. Qual alternativa deverão escolher?

A voz do trono

O presidente Michel Temer não deu sua opinião sobre a anistia. Ou melhor, deu: disse que sancionará aquilo que for decidido pelo Congresso.

A crise e a história

A lendária Karmann-Ghia, que produziu um primeiro carro esporte do Brasil, modelo belíssimo, foi à falência. Mais 700 operários sem emprego.

DIAS DE HOJE, IGUAIS AOS DE ONTEM

Quando o deputado Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro, sua Inglaterra estava perdendo a guerra contra a Alemanha nazista. Fez um discurso curtíssimo, com quatro promessas: sangue, trabalho, suor e lágrimas. Cumpriu as quatro (e perdeu as primeiras eleições após a vitória na guerra). Mas é cultuado até hoje como herói nacional.

O ex-deputado Michel Temer teve a mesma oportunidade de Churchill. Ao assumir, os cidadãos sabiam que precisaria tomar medidas normalmente impopulares; seus adversários tinham perdido força após sucessivos erros; e ele, com idade avançada, não precisava pensar em reeleição, mas em sua biografia. E que fez Temer com esse cheque em branco? Nomeou Geddel.

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Geddel é um político hábil, mas sua história sempre foi controvertida. Antônio Carlos Magalhães o chamou de “agatunado” e divulgou o vídeo “Geddel vai às compras”, em que o acusa de ter comprado 12 fazendas na Bahia e seis apartamentos em Brasília sem ter, legalmente, recursos para isso. Agora foi um colega de Governo, que se demitiu do Ministério acusando Geddel de tê-lo pressionado para liberar a construção de um prédio em que comprou apartamento, em área tombada de Salvador. Usar o prestígio ministerial por um apê? Roberto Jefferson, que denunciou o Mensalão, chamá-lo-ia de “petequeiro”, por disputar migalhas. E Temer perdeu a chance de afastá-lo na hora e mostrar que os tempos mudaram.

…cada vez aumenta mais

Nada como ter prestígio na Corte, nada como ter prestígio com o chefão.

Deputado Jovair Arantes, PTB de Goiás: “Geddel é um excelente ministro, interage muito bem com a Câmara”.

Deputado Rogério Rosso, PSD de Brasília: “Entendo ser um assunto superado”.

Senador Ronaldo Caiado, DEM de Goiás: “(…o ministro Geddel) não poderia ter misturado as coisas. Ele poderia tocar no assunto se não tivesse nenhuma propriedade no prédio. No momento em que você tem propriedade no prédio, isso pode parecer para a opinião pública que você está se valendo do cargo para benefício próprio”. Pois é. Pode parecer.

Fraquezas de memória

Já no fim de seu Governo, conta o ótimo repórter Jorge Moreno, Sérgio Cabral conversava com um deputado que sugeria pequenas mudanças urbanísticas que, a seu ver, causariam efeito positivo em Niterói, como causaram em várias cidades francesas. “Governador, morei dois anos em Paris e vi como as praças…” Cabral o interrompeu: “Paris? Que inveja!” e começou a listar os pontos parisienses de que mais gostava. O deputado puxou conversa, disputando quem conhecia mais pontos interessantes de Paris, até que um terceiro perguntou: “Vamos voltar a Niterói?”

Mas, em seus depoimentos à Polícia Federal, disse que não lembra que joias comprou, ou o valor de suas obras de arte, ou quem paga as despesas de manutenção de sua casa e família. Ele lembrava, por exemplo, que no final de 2010 teve de fazer obras em sua casa e, por isso, passou algum tempo num imóvel emprestado por um amigo. Mas não lembrava quem tinha contratado e pago a obra e a nova mobília. Também não sabia se era verdadeira a informação da vendedora de uma joalheria, de que pagava tudo em dinheiro vivo. A memória de Cabral já não anda tão boa.

Arquivos implacáveis

Dilma Rousseff também tem tido problemas de memória. Garantiu, por exemplo, que Cabral apoiou em 2010 a candidatura de Serra, e em 2014 a de Aécio, ambos do PSDB. Pois não é que já acharam um vídeo de Dilma e Cabral fazendo propaganda juntos? E, dando um Google, acharam também as notícias do apoio de Cabral a Dilma em 2010 e em 2014?

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E as leis?

O deputado Carlos Marun, PMDB do Mato Grosso do Sul, é um dos principais membros da bancada que quer rejeitar a proposta de pacote anticorrupção proposto pelo Ministério Público. “Como está, não passa”.

Marun é ligadíssimo ao ex-senador Delcídio do Amaral, que há pouco fez delação premiada para de livrar da cadeia. Acusado de corrupção.

O trensalão, enfim

Nove anos depois de denunciado na Suíça (e republicado nesta coluna), três anos depois de a Siemens informar às autoridades brasileiras que tinha participado de cartéis para fornecer equipamento ao Metrô e a trens urbanos, dois anos depois de a Polícia Federal ter indiciado mais de 30 pessoas por envolvimento no caso, o Ministério Público Federal está preparando as denúncias relativas a São Paulo, envolvendo a companhia do Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Todos os casos se referem a governos do PSDB, que governa o Estado desde 2004. Dos três candidatos tucanos à Presidência, só Aécio não governou São Paulo.

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ALI BABÁ E OS MILHARES DE LADRÕES

Ali Babá no Brasil não teria a menor chance. Nas Mil e Uma Noites derrotou 40 ladrões, mas como enfrentaria as fabulosas hordas de ladrões que conhecem a senha dos cofres públicos? Lula, que já naquela época não sabia de nada, orçou a ladroagem congressual em 300 picaretas (e, ao ganhar poder, aliou-se a todos). Errou feio ao subestimar o número. Mas, embora não seja chegado à leitura de filósofos e pensadores, compreendeu o pensamento de John Dalberg, o primeiro barão de Acton, “Todo poder corrompe”. Abriram-se as porteiras e cada um tratou de garantir o seu.

Um ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, foi preso, acusado de receber R$ 224 milhões em pixulecos. No custo das obras, somavam-se 7%, dos quais, diz a força-tarefa da Lava Jato, 5 eram para Cabral, 1 para o assessor Hudson Braga e 1 para dividir entre alguns conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. Fala-se também de uma mesada paga a Sua Excelência por empreiteiras.

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No presídio, encontrou outro ex-governador, que já foi aliado e hoje é adversário, Anthony Garotinho – cuja esposa é prefeita de Campos, cuja filha é deputada federal. Ambos foram, em épocas distintas, aliados e adversários do petismo. Os dois, aliás, não estão juntos no presídio, como talvez fosse educativo: adversários quando no poder, forçados ao mesmo destino. Uma decisão judicial superior autorizou Garotinho que fosse para um hospital particular e se trate lá.

Conto carioca

Em 2010, a Prefeitura do Rio investiu R$ 44 milhões em valores da época na Cidade do Rock, destinada ao Rock in Rio, com garantia de permanência. “Com o novo local”, disse o empresário Roberto Medina, proprietário do evento, “o Rock in Rio poderá acontecer a cada dois anos”.

Agora, decidiu-se erguer uma nova Cidade do Rock no lugar do Parque Olímpico. E os R$ 44 milhões (que hoje, corrigidos, dariam R$ 70 milhões)? E o que se gastou para erguer o Parque dos Atletas, que também deveria ser utilizado depois das Olimpíadas? OK, foi gasto da Prefeitura, não do Estado. Mas o prefeito Eduardo Paes faz parte do grupo político de Sérgio Cabral e do atual governador Pezão, do PMDB – no poder desde 2007. Talvez esse caso ajude a entender a crise financeira do Rio.

Cabral? Quem?

Dilma Rousseff não perde a oportunidade de perder uma oportunidade. E acaba de perder uma grande oportunidade de calar-se. Mas fez questão de se manifestar sobre a prisão de Sérgio Cabral: disse que ele jamais foi seu aliado. Mas foi, sim: há vídeos de ambos juntos em comícios, em 2010. fazendo campanha. E, quando o PMDB do Rio hesitou em apoiá-la, em 2014, foi Sérgio Cabral o primeiro a pedir votos para a candidata. Se é para mentir, e num caso em que sua opinião nem é tão solicitada, por que falar?

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O de sempre

Parecia impossível, mas está acontecendo: os gastos sigilosos com cartões corporativos, no Governo Temer, são 40% maiores que os do Governo Dilma. Em seus primeiros cinco meses, Temer já gastou R$ 13 milhões, enquanto em seus cinco primeiros meses Dilma gastou R$ 9,4 milhões. Os números foram apurados pelo respeitado site Contas Abertas.

Carmen Lúcia…

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, argumenta com números: “Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por mês, e um estudante de ensino médio custa R$ 2,2 mil por ano. Alguma coisa está errada na nossa Pátria Amada”. Vai mais longe: “Darcy Ribeiro fez em 1982 uma conferência dizendo que, se os governadores não construíssem escolas, em 20 anos faltaria dinheiro para construir presídios. O fato se cumpriu (…) Quando não se faz escolas, falta dinheiro para presídios”.

…é isso aí

Carmen Lúcia apontou a solução a longo prazo, mas acha possível tomar providências imediatas. “A violência no país exige mudanças estruturantes e o esforço conjunto de governos e da União, para que possamos dar corpo a uma das necessidades do cidadão, que é ter o direito de viver sem medo. Sem medo do outro, sem medo de andar na rua, sem medo de saber o que vai acontecer com seu filho”. E lembrou que, a cada nove minutos, uma pessoa é morta violentamente no Brasil. “Nosso país registrou mais mortes em cinco anos do que a guerra na Síria”.

País tropical

A ministra só não disse o que leva tantos governantes a investir mais em cadeias do que em educação. É que muitos, depois de exercer o poder, não é para a escola que vão. João Bussab, decano da imprensa policial paulista, sugere que os políticos corruptos harmonizem seus interesses com os do país. Como quiseram construir um shopping exclusivo no Congresso, que façam um presídio exclusivo para políticos. Estarão cuidando do futuro.

NOS ENGANA QUE A GENTE GOSTA

Errar é humano, mas acreditar sempre é insano. Nos Estados Unidos, há cada vez mais gente séria dizendo que a torcida dos jornais e jornalistas por Hillary, associada à incredulidade sobre Trump, fez com que o público ficasse mal informado e se surpreendesse com a vitória republicana. “Como todos, erramos”, disse Tony Romando, da Topix Media, que produziu uma edição especial de Newsweek com Hillary na capa, Madam President” – e soltou a edição antes da hora, tendo de sair correndo para recolher milhares de revistas já entregues a assinantes e jornaleiros.

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Há outro exemplo americano clássico; em 1948, todos previam a vitória do republicano Thomas Dewey sobre o presidente Harry S. Truman. Truman ganhou; e, na foto de sua entrevista como presidente reeleito, exibiu o Chicago Daily Tribune com a manchete Dewey Derrota Truman.

Acontece; como aconteceu em São Paulo, onde Fernando Henrique até posou para fotos sentado na cadeira de prefeito. A promessa era de que as fotos só sairiam após a apuração. Fernando Henrique acreditou. As fotos, claro, vazaram, e fizeram a delícia dos adversários (Jânio desinfetou a cadeira, na frente dos fotógrafos, “porque nádegas indevidas a usaram”). Houve – e não houve – a festa da vitória que não houve, no ótimo bufê Baiúca – o belo salão vazio, com impecáveis garçons e maitres esperando, com boa bebida e ótimos salgadinhos, os fernandohenriquistas que não mais viriam.

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Pois é, falaram tanto

À medida que as urnas eram apuradas e a vantagem de Jânio se mantinha, políticos e repórteres explicavam que aquelas urnas eram só de áreas janistas. Eram; e bastaram. Este colunista era editor-chefe da Folha da Tarde e só um ótimo repórter, João Russo, aliás tucano, interpretou bem o que acontecia: “Jânio está ganhando em todas as urnas. Perdemos”.

Ninguém me ama

E o consumidor de informação? Ou acompanha vários noticiosos ou fica preso à opinião de um – nem desonesto nem mal informado, mas que pode ser influenciado por suas próprias opiniões. Às vezes, nem assim o leitor, ouvinte, espectador escapa: certas certezas são tão certas que, se os fatos forem contrários, danem-se os fatos. Agora, Delcídio do Amaral, em entrevista explosiva ao repórter Cláudio Tognolli no Yahoo!, seguida de outra na Rádio Jovem Pan, diz que Lula e Dilma sabiam perfeitamente o que ocorria nos bastidores. Importante: Delcídio fez delação premiada. Caso se comprove alguma mentira, perde os benefícios e vai para a cadeia.

Mas voltemos a 2004, época em que Waldomiro Diniz foi flagrado tomando algum de alguém e, sabe-se hoje, levando ao início do processo do Mensalão. Sabe-se hoje? Em 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas, desfilou em Brasília cantando:

“Ô Waldomiro, ô Waldomiro
me responda por favor
se nesse rolo, o bicho pega
nosso Lulinha paz e amor!
ô Waldomiro, ô Waldomiro
diga o bicho que deu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu também comeu?
Ô Zé Dirceu/ que bicho deu?
ô Zé Dirceu, eu quero o meu”.

Tem mas não tem

E a festa continua. Amanhã, quinta-feira, deve ser votado, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relatório sobre a proposta de emenda constitucional que extingue o foro privilegiado. Mas, para votar a proposta, é preciso reunir um terço da bancada de senadores: 27 Excelências. E sabe como é, o feriadão, a visita às bases, tudo cansa. Talvez não haja número.

Não tem mas tem

O que o Congresso quer mesmo aprovar, e logo, é um pacote de medidas contra a corrupção, baseado em propostas dos promotores da Lava Jato. No pacote, reluz o que tipifica a caixa 2 em campanhas eleitorais como crime – crime gravíssimo, hediondo, nefando, o nome mais forte possível. Qual o objetivo real? Alegar que, se o crime de caixa 2 foi tipificado agora, o que havia antes não era crime. É o truque de quem acha que será citado na delação da Odebrecht. Por isso o projeto anticorrupção tem de ser aprovado logo, para apagar a corrupção de até agora.

E a corrupção de agora em diante? É o problema seguinte. O de hoje é sobreviver ao tsunami Odebrecht. Depois se discute como roubar no futuro.

Que coisa feia!

Em relatório sobre o caso Bumlai – o pecuarista que se tornou bom amigo do presidente Lula – a Polícia Federal cita o ministro do Supremo Dias Toffoli, por ter o nome no caderno de endereços do investigado. É uma citação leve, lembrando que ter o nome no caderno de endereços de alguém não implica ligação. O juiz Sérgio Moro reagiu duramente, mandou retirar a citação a Toffoli, uma “afirmação leviana”.

Mas agora quem é que não sabe que Bumlai tinha o telefone de Toffoli?

SAI, CAPETA, ESTA GRANA NÃO É SUA!

O ex-presidente Lula já descobriu os responsáveis pelas denúncias de corrupção que vem enfrentando: segundo disse a um grupo de seguidores em São Paulo, são os procuradores da Lava-Jato, a imprensa e o juiz Sérgio Moro, que fizeram um pacto diabólico para falsamente incriminá-lo. Dos citados, quem será o Cramulhão, o Canhoto? Lula não esclareceu a dúvida.propina

Mas o Demônio não é um, é Legião. E há nova denúncia contra Lula, mais uma vez trazida pela imprensa demoníaca. A revista IstoÉ afirma que, em sua delação premiada, o presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, oferece mais munição às hordas de capetas que detestam a cor vermelha: diz ter dado R$ 8 milhões a Lula em dinheiro vivo. Um Belzebu amador sentiria cheiro de enxofre. Presente ou pagamento? Pagamento de quê? Por que usar dinheiro vivo? Ora, rastrear dinheiro vivo é muito mais difícil.

No mesmo dia em que Lula denunciou o Pacto Diabólico, foram presos Rodrigo Tacla Duran e Adir Assad, considerados peças-chave do esquema. Empreiteiras contratavam serviços não prestados, pagavam em cheque a eles e recebiam em troca dinheiro vivo, para comprar servidores públicos. Duran e Assad foram delatados pela Odebrecht, a antes celestial benfeitora, a distribuidora de valiosas bênçãos. Deus é o Diabo nesta terra do Sol.

Lula nega tudo, diz que o Capiroto mente, que Asmodeu inventou a propina, pois a delação ainda não foi divulgada. Promete processar a IstoÉ.

Lúcifer

De acordo com a revista – que circularia normalmente neste sábado, 12, mas liberou a edição eletrônica dois dias antes – os pixulecões que Lula teria recebido se referem a suas gestões que ajudaram a Odebrecht a conseguir obras em Angola e Cuba – especialmente o porto de Mariel.

Purgatório

Lula e o PT não são, de acordo com a reportagem assinada por Débora Bergamasco, Mário Simas Filho e Sérgio Pardellas, os únicos alvos das delações premiadas da Odebrecht. Dos R$ 7 bilhões em propinas, houve partes oferecidas (e aceitas) pela ex-presidente Dilma Rousseff (R$ 1 milhão, em dinheiro vivo), a 20 governadores e ex-governadores, a uns cem parlamentares, distribuídos por vários partidos – em especial PT e PMDB, mas atingindo também dirigentes do PSDB. Há brasas para todos. E um detalhe interessante: Dilma e Temer foram eleitos pela mesma chapa.

Escrituras

A Odebrecht, organizadíssima, tinha um departamento de distribuição de pixulecos, com tudo registrado. As delações premiadas têm mais de 300 anexos com documentos (a entrega de dinheiro a Lula, segundo a IstoÉ, ocupa um dos anexos). A documentação dos depoimentos foi preparada por 50 escritórios de advocacia, em Brasília, São Paulo, Rio e Salvador. Trabalham para a Odebrecht, nessa delação premiada, 400 advogados.

Exorcismo

A reação de Lula ao Pacto Diabólico se inicia com a ação judicial contra os proprietários da revista e os repórteres que assinaram a reportagem. A nota de Lula anunciando o processo diz que a revista “é conhecida no mercado editorial pela venalidade e pela desfaçatez com que vende reportagens, capas e até editoriais, aos mais diversos clientes’”. E garante que jamais recebeu ou pediu (…) “valores ilícitos, seja da empresa citada pela revista ou por qualquer outra”. E acusa: “A má-fé da revista é tão evidente que os autores sequer procuraram a defesa ou a assessoria do ex-presidente antes de publicar a mentira”.

O corte das despesas

Michel Temer diz que, se não cuidar dos gastos, o Brasil vai a falência em 2023. Luta para aprovar a emenda constitucional que limita gastos públicos, promete reformar a Previdência para deixá-la mais barata.

Enquanto isso, o mesmo Michel Temer gastou R$ 596 mil num show, no último dia 7, em homenagem ao centenário do samba – um show exclusivíssimo, para 600 convidados, com Neguinho da Beija-Flor, Áurea Martins, Márcio Gomes e André Lara. Fafá de Belém foi contratada exclusivamente para encerrar o espetáculo com o Hino Nacional. Terminado o show, coquetel para 600 pessoas, coisa fina. Somos pobres mas sabemos o que é bom, principalmente quando o Tesouro paga a conta.

O Legislativo se esforça para ficar à altura do Executivo: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passeia no Azerbaijão com tudo pago por nós, e ainda recebe diárias. No Judiciário, o ministro Recardo Lewandowski, que está na faixa mais alta dos vencimentos de servidores públicos, pede um bom aumento. Se tudo sobe, por que os vencimentos sobem menos?

Pague sem espernear

O ministro Lewandowski tem razão: por que os salários têm de subir menos que os preços? Mas isso deveria valer para todos, não é mesmo?

ASSIM ESTAVA ESCRITO

A festa é geral, irrestrita. E com o nosso dinheiro, justo o nosso, que não participamos da festa. Entre 2007 e 2009, 443 ex-parlamentares gastaram R$ 25 milhões na Farra das Passagens – digamos, levar a namorada a Paris com a verba destinada a viagens de serviço. As investigações, com toda a documentação disponível, levaram sete anos. E só agora os casos chegam ao sobrecarregado Supremo. Um dia os envolvidos serão julgados.

O jeitinho brasileiro no uso de dinheiro público não se limita a Executivo e Legislativo. Uma auditoria do Tribunal Superior do Trabalho revelou que 24 dos 27 tribunais regionais do trabalho “compram” férias dos juízes, convertendo em dinheiro períodos não desfrutados. É uma boa quantia: só em São Paulo, 290 magistrados receberam R$ 21,6 milhões. Diz o TST que no Judiciário não pode haver conversão de férias em dinheiro. Mas nem todo benefício é dinheiro: em Porto Seguro, 700 juízes estaduais se esfalfam em debater os problemas do setor, alheios às belezas naturais da Bahia e aos bons serviços do hotel que os hospeda, a R$ 605 a diária. O show de encerramento é com Ivete Sangalo e Diogo Nogueira. O patrocínio é de uma empresa condenada por crimes ambientais e cheia de casos judiciais, que podem cair com os juízes cuja conta ajudou a pagar.

Mas por que irritar-se lendo tudo, se os escândalos são iguais? Um bom livro, recém-lançado, mostra como as coisas acontecem. Está tudo lá.

O poderoso checão

Nilo Dante, um grande repórter, com anos de cobertura de Política Nacional e Política Internacional nos principais veículos do país, aprendeu muito sobre os bastidores do Poder. E conta, em O Sócio Oculto, como é que as coisas realmente funcionam; como é que prestigio, dinheiro e bons presentes, bem distribuídos (e muito bem retribuídos), têm influência decisiva nos rumos do país. Há aquilo que uma dirigenta já chamou de “malfeitos” que, quando descobertos, se transformam em escândalos, com CPIs e ameaças de desestabilização política; há o jeito, planejado por ótimos advogados e financistas, de ocultar o rastro do dinheiro, fazendo-o passear pelo mundo até voltar lavadinho ao Brasil; há o amaciamento da crise, executado por profissionais especializados, de ação internacional.so

The Goldfather

As contas, as transferências, os apelidos que, mais do que ocultar os envolvidos, retratam os nomes pelos quais os amigos o chamam – o Hebreu, o Turco, o Italiano – epa, este é o do escândalo não literário. Um retrato do Brasil. Só falta dar os nomes verdadeiros, mas seria impossível: os escândalos são iguais, mas os envolvidos variam – um pouco.

O Sócio Oculto, Editora Mídia In, ou em e-book Amazon. Um toque de perfeição: os culpados jamais são punidos, nem têm sentimento de culpa.

Menos é melhor

Talvez esses escândalos tão bem retratados por Nilo Dante em O Sócio Oculto levem ao resultado da consulta pública do Senado sobre projeto de emenda constitucional que reduz o número de parlamentares federais a 2/3 do atual: senadores de 81 para 54 (dois por Estado, e não três), e deputados federais, de 513 para 386: são 99,5% favoráveis, 0,5% contra. Este colunista é contra: senadores, vá lá, mas quer no máximo 250 deputados.

Os cortes no Orçamento

A redução nas verbas federais para Educação, Saúde e Previdência virou bandeira de guerra. Um bom jornalista, Antônio Carlos Cacá Leite, do Metro de Vitória, Espírito Santo, calculou os cortes na Educação: 10%. Ou R$ 10 bilhões a menos. O programa mais atingido é o FIES (bolsas em universidades privadas), com perda de R$ 1,7 bilhão e 313 mil contratos. O Pronatec teria de adiar as novas turmas por seis meses. As universidades federais perderiam 47% do orçamento. A meta de gastos em Educação cairia de 10% para 6% do PIB. Terrível, essa PEC 241 neoliberal!

Só que esses dados não são da PEC 241. São os números oficiais da Educação em 2015, primeiro ano da Pátria Educadora da presidente Dilma Rousseff.

Mais do mesmo

O senador Romero Jucá (PMDB – Acre) está de volta ao ninho: é o líder do Governo no Senado – e já reforma o gabinete a seu gosto, com gastos próximos de R$ 300 mil. Louve-se a firme postura ideológica de Jucá, que foi vice-líder do Governo de Fernando Henrique, líder do Governo de Lula e Dilma e agora de Temer: os governos podem mudar, mas Jucá, inflexível, não cede em seus princípios, não muda. Faz parte de todos. Foi também duas vezes ministro, em ambas afastado por denúncias de corrupção.

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Narizinho

Em inquérito sigiloso, a Procuradoria Geral da República cita um mimo da Odebrecht, em 2014, para Coxa, que poderia ser Gleisi Hoffmann. Mas não espere vê-la em Curitiba: Gleisi é senadora, seu foro é o Supremo.

AQUI SE BRIGA, LÁ SE DECIDE

Já se fala numa chapa só tucana para a eleição presidencial: a Min-Asia, Alckmin-Anastasia, unindo Aécio, padrinho político do ex-governador mineiro Alberto Anastasia, e o governador Alckmin. Mas quem avisa Serra de que ele, bem relacionado com o PMDB, ministro de Temer, está fora? E qual o sentido de montar uma chapa no mundo das delações premiadas, em que não se sabe qual inatacável de hoje vai virar o bandido de amanhã?

A propósito, um providencial pedido de vista do ministro Toffoli adiou o parecer do Supremo sobre a presença de réus na linha de sucessão presidencial. Com isso, Renan pode até ter alguma denúncia aceita pelo Supremo sem perder o cargo, no qual é o terceiro na linha de sucessão. Assim, a decisão fica para o ano que vem – depois do Carnaval, claro. Os aliados de Renan festejam, os adversários lastimam, este País não tem jeito.

E, no entanto, o balê de Brasília não tem a menor importância. Neste momento, há duas cidades em que se define o futuro brasileiro: Washington, por motivos óbvios (embora ninguém se atreva a prever o que significa para nós a vitória de Hillary ou de Trump nas eleições de hoje), e Curitiba, por motivos ainda mais óbvios. É em Curitiba que estão no forno delações que podem mudar o balanço de forças no país. É em Washington que se decide como funcionarão os acordos de comércio dos países ricos e quais nossas chances de participar.

E Brasília? Vai bem, obrigado.

Café com leite

A turma da Min-Asia parece que quer repetir a antiga política do café com leite, em que os partidos Republicano Paulista e Republicano Mineiro indicavam alternadamente presidente e vice (assim se governou o Brasil de 1899 a 1930, de Campos Salles a Prudente de Moraes). Mas os tempos mudaram, o sentido das palavras mudou, e até que o nome da política não está errado.

Existirá chapa mais café-com-leite do que Alckmin-Anastasia?

Tem quem tente

Pode não existir, mas há tucanos tentando. Com o crescimento de Alckmin, vencedor em São Paulo, buscam anulá-lo com um pacto entre Aécio e Serra. Os dois estão tão próximos que Aécio ofereceu uma nota de solidariedade a Serra, acusado de ter recebido doações clandestinas da Odebrecht. Ambos até marcaram uma conversa política em São Paulo.

Apenas relembrando

O PSDB é um partido formado exclusivamente por amigos em que todos são inimigos uns dos outros.

Vestindo a fantasia

O Globo dá a notícia em primeira mão: Dilma Rousseff vai ganhar um bloco de Carnaval, o Bloco da Querida. Letícia Sabatella será a madrinha. E Dilma pode até participar da festa, talvez fantasiada de Presidenta.

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Uruguai, beleza!

A propósito, Dilma deu palestra anteontem em Montevidéu, na Jornada Continental contra o Neoliberalismo.

A propósito, Luiz Cláudio Lula da Silva, Lulinha, filho de Lula, está trabalhando no Uruguai, desde a última terça-feira, como preparador físico das equipes de base do Juventud de Las Piedras. De acordo com Yamandú Costa, presidente do Juventud, Lulinha trabalhará “sob um conceito progressista da formação do atleta”.

A propósito, o bom repórter Germano Oliveira, da revista IstoÉ, informou na semana passada que há investigações sobre uma bela casa em Punta Del Este, cujo dono oculto, acham os investigadores, seria Lula.

O país dos sonhos

A propósito, o Uruguai é governado pela Frente Ampla, uma espécie de PT dos tempos do Governo Lula, que em matéria econômica sinaliza à esquerda e segue pela direita. O sistema bancário uruguaio acredita em sigilo e em livre movimentação de capitais, com o mínimo de impostos.

A propósito, o Governo uruguaio trata Lula como um amigo de prestígio mundial, sempre bem-vindo; e, se houvesse uma ordem internacional de prisão contra ele, não a cumpriria, como se fosse cidadão uruguaio.

Trabalho completo

O advogado criminalista Adib Abdouni era do PCdoB e fã de Lula. À medida que foi tomando conhecimento da rede de corrupção, revoltou-se e decidiu escrever o livro Operação Lava Lula – os inquéritos, os grampos, as delações. Um retrato completo, elaborado por quem conhece as leis. Lançamento amanhã, segunda, 7, a partir das 19h, Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

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Bom debate

Amanhã, a partir das 9 horas, no Campus Liberdade da Fecap, debate sobre partidos políticos e propostas para aprimorar a democracia. Com Ricardo Young (Rede), Marcos Pestana (PSDB), Paulo Teixeira (PT), Raimundo Lyra (PMDB) e Christian Lobauer (Partido Novo).

TUNDA-LÁ

Foi uma surra memorável. Não varreu o PT do mapa (se o Mensalão e o Petrolão não o fizeram, não será uma derrota eleitoral, mesmo essa tunda de criar bicho, que o fará), mas o deixou em décimo lugar, ele que era o maior dos partidos. Nas últimas eleições municipais, em 2012, as cidades governadas pelo PT tinham 38 milhões de habitantes. Agora, restaram-lhe seis milhões, ou pouco menos – uma queda de 85%. O PSDB cresceu 89% e deve governar, no total, 48,7 milhões de habitantes.stl

Nordeste, reduto do PT? Não é mais. ABCD paulista, berço do PT? Mudou de lado. Na São Bernardo de Lula e seu aliado inseparável, Luiz Marinho, o PT nem foi para o segundo turno (fazendo com que Lula deixasse de votar – ou escolhia um petista ou não votava em ninguém). O PT perdeu mesmo quando era representado por outra legenda: o PSOL do Rio, com maciço apoio de artistas, intelectuais e imprensa, entregou ao senador Marcelo Crivella, do PRB, sua primeira vitória em cinco eleições majoritárias. O governador petista mineiro Fernando Pimentel teve o prazer de assistir à derrota do PSDB e de Aécio Neves em Belo Horizonte – mas não para o PT, e sim para o PHS de Alexandre Kalil, ex-dirigente do Clube Atlético Mineiro que diz não ser aliado de nenhum grande partido: “acabou coxinha, acabou mortadela, o papo agora é quibe”. Aliás, o PT de Belo Horizonte não chegou nem a 8% dos votos e ficou fora do segundo turno.

A próxima…

Mas não se deve imaginar que a derrota, por pesada que seja, vai acabar com o PT ou com o futuro político de Lula. Política é como nuvem, ensinava o sábio governador mineiro Magalhães Pinto: a gente olha está de um jeito, olha de novo está de outro. O PT não vai acabar porque há muita gente que acredita em suas ideias, muita gente que encara o petismo como religião. O partido pode até mudar de nome, mas continua existindo. E Lula pode aparecer como candidato forte em 2018. Lembremos Richard Nixon: perdeu a presidência para Kennedy, perdeu o Governo da Califórnia para Pat Brown, ficou com fama de perdedor. Em 1968 chegou à Presidência, batendo Hubert Humphrey.

James Reston, lendário jornalista do New York Times, comentou: “Foi a maior ressurreição desde Lázaro”.

…eleição…

Frase de Nixon sobre sua passagem de perdedor a vencedor: “Um homem não está acabado quando perde. Ele está acabado quando desiste.”

Alguém acredita que Lula vai desistir?

…é a próxima

Há um único Poder capaz de evitar que Lula, carismático, hábil, bom político, volte à campanha, com a possibilidade de fascinar multidões: o Poder Judiciário. Lula só estará fora se for julgado e condenado, impedido legalmente de concorrer. Se for absolvido, volta por cima. Aí é Lula 2018.

La garantía del futuro

Enquanto se discute o Brasil depois da eleição municipal, o cerco a Lula continua firme. De acordo com a revista IstoÉ, a Operação Lava Jato investiga desde agosto se uma bela casa muito bem localizada em Punta Del Este, balneário mais luxuoso e caro do Uruguai, é um daqueles imóveis que não são de Lula, mas nos quais, como os donos são seus amigos e o autorizaram a fazer o que quiser, ele faz o que quiser. No caso uruguaio, a mansão seria de uma empresa off-shore que seria controlada pelo empresário Alexandre Grendene, sócio do grande grupo calçadista Grendene e dono de vários imóveis no pais. Com tantos condicionais, verdade ou mentira? Depende: que a Operação Lava Jato investiga o caso, deve ser verdade, já que o repórter Germano Oliveira é sério e competente. Que a casa é de Lula, só haverá resposta precisa no final das investigações.

A segurança

De qualquer forma, o Uruguai é um excelente lugar pra investir, com boa segurança jurídica e tratamento fiscal favorável. Para Lula, caso prefira afastar-se dos aborrecimentos dos interrogatórios do juiz Sérgio Moro de uma eventual prisão, o Uruguai é ideal: um país agradável, perto do Brasil, e cujo presidente, Tabaré Vasquez, é seu amigo e compartilha suas ideias. Nada de aborrecimentos com a Interpol; a garantia total de que não será extraditado; e, ao contrário de outros países onde seria recebido como herói, como Venezuela e Cuba, a vida uruguaia corre mansa, sem desabastecimentos nem a necessidade de ouvir discursos quilométricos.

Caso queira aposentar-se ou descansar algum tempo, o lugar é perfeito.

Questão religiosa

Boa parte das críticas ao prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella, é causada por sua religião (evangélico, membro da Igreja Universal e sobrinho do bispo Edir Macedo).

No Brasil, questiona-se a religião do candidato? Tivemos presidentes católicos, um ateu, um protestante. E daí?

SOMOS TODOS IGUAIS. OU MAIS IGUAIS

Nada de hesitações: o importante é combater a crise, com os sacrifícios que isso exige de todos. O Governo propôs emenda constitucional que limita os gastos do próprio Governo, e para aprová-la na Câmara promoveu dois luxuosos e caros banquetes, em palácio, para centenas de deputados. É bonito ver como o povo, unido, se articula para o duro embate.

Tão logo assumiu o poder, Temer aprovou um forte aumento para as 38 carreiras mais organizadas do serviço público. Custo total, R$ 170 bilhões. Estas carreiras já estão prontas pra enfrentar a crise. E aprovou outro aumento, de 47%, para outras carreiras bem organizadas, entre elas a Polícia Federal, no dia seguinte ao da aprovação do limite de gastos do Governo. O funcionalismo desses setores já está apto a enfrentar a crise.

O Governo é que ainda está atrapalhado: em setembro, seu déficit foi de R$ 25,3 bilhões – um recorde, quase o quádruplo de setembro do ano passado. Em 12 meses, o buraco federal já chegou a R$ 138 bilhões. E o orçamento prevê que, em dezembro, o rombo pode bater em R$ 170 bilhões – praticamente o custo daquele primeiro momento de generosidade oficial. Como é duro um Governo preparar seus servidores para a crise!

Os bancos se armaram para a crise jogando os juros ao alto. Cartões, 15,7% ao mês; cheque especial, 324% ao ano. E nós? Que quer, moleza? Ganhando menos na crise, temos é de trabalhar mais. Se houver emprego.

Questão de detalhes

A nova rodada de aumentos foi tão discreta que a líder do Governo no Congresso, senadora Rose de Freitas, de nada sabia. Era contra e decidiu deixar o cargo. A aprovação, por uma comissão da Câmara, ocorreu só oito horas após o plenário aceitar a emenda constitucional que impôs limites aos gastos oficiais. A tática era deixar o aumentão passar despercebido, sob a sombra da emenda. Nem isso deu certo. A base não chegou a rachar, mas muitos parlamentares se sentiram enganados. E vão cobrar.

O equilibrista

Temer deve escolher, para a liderança do Governo no Congresso, o senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima. Jucá é um político de excelente trânsito em todas as áreas: foi presidente da Funai com Figueiredo, governador nomeado de Roraima com Sarney, ministro e vice-líder do Governo com Fernando Henrique, líder do Governo no Congresso com Lula e Dilma, ministro com Temer. Um político de convicções firmes: está sempre com o Governo. Se o Governo muda, problema do Governo.

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Serra, Temer, Odebrecht

A delação premiada de Marcelo Odebrecht e de 80 dirigentes de suas empresas está marcada para o dia 8. Mas as informações já começaram a vazar. As mais explosivas se referem ao presidente Michel Temer e ao chanceler José Serra. Serra, o mais atingido pelos vazamentos, teria recebido R$ 23 milhões da Odebrecht, no Brasil e na Suíça, na campanha presidencial de 2010. Ao assinar a delação premiada, a Odebrecht entregaria os comprovantes dos depósitos no Brasil e no Exterior. Serra disse que “não vai se pronunciar sobre vazamentos de supostas delações relativas a doações feitas ao partido em sua campanha”.

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Lula, o réu

O juiz Sérgio Moro marcou para 21 de novembro as primeiras audiências do processo contra Lula. Devem ser ouvidos, até o dia 25, Nestor Cerveró, Fernando Baiano, Paulo Roberto Costa, Delcídio do Amaral, Pedro Correia e Alberto Youssef. Depois, Moro deve ouvir Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, sobre o triplex do Guarujá.

As preliminares estão pegando fogo: Lula decidiu abrir processo contra o delegado Felipe Hile Pace, da Polícia Federal, que o identificou como o “Amigo” citado nas planilhas da Odebrecht. Pede indenização de R$ 100 mil. E insiste em afastar Moro, considerando-o parcial e, portanto, suspeito.

As novidades

Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, e Antônio Palocci são agora réus.

Voa, dinheiro!

A Saudi Aramco, uma das maiores empresas petroleiras do mundo, controlada pela família real saudita, informou que um funcionário se envolveu em caso de corrupção com a Embraer. O caso ocorreu durante as negociações para a venda de três jatos EMB-170, em 2010. A Embraer não se manifestou sobre a acusação. O informe saudita não dá detalhes do caso.

Reformar sem reforma

Não leve a sério o noticiário sobre a reforma política, cuja discussão começa nos próximos dias. A reforma é necessária: as campanhas são caras demais, exigindo doações demais (e, depois, há a retribuição); há parlamentares demais; há partidos demais. Mas que parlamentar irá mudar o sistema pelo qual se elegeu? É onde sabe se mover. Mudar, jamais.

AMIGO É COISA PRA SE GANHAR

E onde se guarda um amigo? “No lado esquerdo do peito”, ensinam Milton Nascimento e Fernando Brant na esplêndida Canção da América. No mesmo lado do peito em que se guardam as recheadas, generosas, dadivosas (ou, conforme o caso, receptivas e gulosas) carteiras.

O pensamento voou, e ele disse que gostaria de ter um sítio para passar alguns fins de semana. Amigos compraram o sítio e o puseram à sua disposição. Outros amigos o reformaram para receber o ilustre hóspede. Na belíssima área rural, o sinal do celular era fraco. E surgiu, magicamente, uma torre de celular, que outros amigos cuidaram de instalar. Mas por mais belo que seja, um sítio pode tornar-se monótono. E os amigos apareceram com um triplex à beira-mar, com piscina exclusiva, cozinha top e elevador.

O que importa é ouvir a voz do coração, e estender a bênção da amizade aos próximos. Amigos providenciaram o apartamento em que mora o filho, tranquilo, livre de aluguel. Os sócios do garotão, com 50% da empresa, nunca fizeram questão de receber sua parte nos lucros. Num ano, o filho recebeu 100% dos lucros; em outro, 96%; em outro, 62%.

Pois o que importa, entre amigos, não é dinheiro, é ouvir a voz que vem do coração. Amizade gera amizade: só um dos bons amigos multiplicou seu faturamento por nove, em oito anos. Boa parte por baixo de sete chaves.

Alguém pode reclamar quando dizem que seu apelido era “Amigo”?

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Todo mundo…

É preciso cortar despesas, diz o presidente Michel Temer aos parlamentares aliados, defendendo em lauto banquete, pago com dinheiro público, uma tese correta: limitar os gastos federais pelos próximos 20 anos. É preciso cortar despesas, diz o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para que os juros possam baixar e a economia volte a crescer.

…menos eu

Mas, antes mesmo que a limitação das despesas federais seja votada, já existe quem defenda economia só para os outros. Na comissão da Câmara sobre reforma política, a primeira proposta trata de um bom aumento de despesas. O tucano mineiro Marcus Pestana quer criar o Fundo de Defesa da Democracia, com verba de R$ 3 bilhões anuais, para bancar as despesas dos partidos com manutenção e campanhas. A verba multiplica por pouco mais de quatro os gastos com o Fundo Partidário e atende a uma ideia originalmente petista, de pagamento de campanhas com dinheiro público.

Me dá um dinheiro aí

O caro eleitor não tem vontade de pagar a conta da campanha de ninguém? Bem-vindo ao clube! A desculpa da nova ordenha é que, sem as doações de pessoas jurídicas, não há dinheiro para as campanhas (o PT acrescenta que doadores privados tendem a beneficiar partidos que lhes retribuirão o favor). Só que não é assim: na rigorosa Alemanha, onde o financiamento de campanhas é exclusivamente público, o primeiro-ministro Helmut Kohl perdeu o posto quando descobriram que reforçava seu caixa eleitoral com doações privadas. Imagine no Brasil.

Um dia frio

Sim, ainda há gente bem-humorada na Capital Federal. Diziam que, se frio na barriga fosse transmissível, Brasília nesses dias seria uma nova Sibéria. Foi aceita a delação premiada de Marcelo Odebrecht e dezenas de seus executivos. Tudo certo, organizado, arquivado nos computadores, com nome de quem entregou e de quem recebeu, quantia, local, horário. Começa a temporada de verificações – e vazamentos, talvez seletivos.

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Quem é?

As informações são de O Globo: os executivos da Odebrecht delataram 130 deputados, senadores e ministros; 20 governadores ou ex-governadores. São citados o presidente Michel Temer, os ministros Eliseu Padilha (seu auxiliar mais próximo, da Casa Civil), Geddel Vieira Lima (Governo) e José Serra (Relações Exteriores); e os ex-poderosos Guido Mantega, Eduardo Cunha e Antônio Palocci.

É vendaval

O caso Pasadena (uma refinaria de petróleo apelidada de Ruivinha, de tão enferrujada) demonstrou que a direção da Petrobras, nos governos Lula-Dilma, não sabia comprar instalações no Exterior – ou, o que é muito pior, sabia, sim.

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Mas essa falha era compensada: segundo ação popular aceita pela juíza Maria Amélia de Carvalho, da 23ª Vara de Justiça Federal do Rio, a empresa também não sabia vender instalações no Exterior. Diz a ação popular que a venda dos ativos da Petrobras na Argentina à Pampa, no finzinho do Governo Dilma, deu prejuízo de U$ 1 bilhão. No Japão, a Petrobras comprou refinaria em Okinawa, há oito anos, por US$ 350 milhões. Neste ano, Dilma cuidando só do impeachment, a refinaria ficou quase parada desde março. A Petrobras vendeu-a por US$ 129 milhões.

ACOSTUMA-TE À LAMA QUE TE ESPERA

Eduardo Cunha, planejador meticuloso, sabia que ser preso era seu destino. Deve estar pronto para suportar o período atrás das grades. Mas, para ele, esta prisão era aceitável, fazia parte do jogo. O que o magoou muito foi a atitude de seus aliados, que o entregaram a Sérgio Moro.

Fique claro que, sem o trator Cunha no comando da Câmara, o impeachment seria só uma proposta, Dilma estaria no Poder, e Temer não. Temer deve seu posto a Cunha; a oposição e os governistas que mudaram de lado devem seu poder e seus cargos atuais a Eduardo Cunha. Mas não hesitaram em condená-lo no conselho de Ética (faltou apenas um deputado que virasse o voto!) e em cassar seu mandato, entregando-o à mão severa de Moro. Cunha queria só adiar um pouco a votação, para que as festas natalinas jogassem o problema para fevereiro ou março, dando-lhe uma chance de manobra. Com ajuda de Temer, adiar-se-ia a decisão para 2017. Isso é o que lhe dói: a ingratidão de quem se beneficiou com seu trabalho.

Cunha é um planejador detalhista, estudioso; como o diabo, sabe mais pela experiência que por seus outros atributos. Mas não imaginava que quem se beneficiou com seu trabalho quisesse tudo, menos tê-lo a seu lado. É sabido demais para não ser perigoso. Liquidado, é mais seguro. E não conhecia a frase definitiva do sábio general De Gaulle: “A ingratidão é uma das maiores virtudes de que deve ser dotado um estadista”.

A mão que afaga

Os dois títulos destas duas notas estão num poema notável, Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, obrigatório para quem pensa em política:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Abr/1884 – Nov/1914)

Folha corrida

É um perigo esquecer os bons resultados da ingratidão. Mas é um perigo, também, esquecer a força de retaliação de um aliado ferido.

Cunha se candidatou à Presidência da Câmara pelo PMDB, partido aliado a Dilma. Ela tentou derrubá-lo, ele reagiu: fez passar algumas medidas de alto custo, às quais Dilma se opunha. Quiseram cassá-lo, e ele deixou claro que, se o PT votasse por sua cassação, ele movimentaria o pedido de impeachment que estava parado em sua mesa. O PT votou contra ele, ele liberou o impeachment.

Dilma e Cunha caíram juntos.

A mão que apedreja

Segundo o jornal Valor, Cunha disse a seus advogados que quer falar. Um dos advogados, Marlus Arns, já intermediou processos de delação premiada. OK, ele pode deixar mal vários deputados do baixo clero, mas isso não lhe daria o que quer: que os promotores esqueçam sua mulher e sua filha.

Já o colar de alho, a estaca de madeira, a água benta e a terra consagrada que liquidariam Michel Temer, já isso vale muito mais.

Passarinho que come pedra

O noticiário de hoje em dia fala do medo que muitos parlamentares têm de eventual delação de Cunha. Que é que esse povo andou fazendo para ter tanto medo de um deputado que foi deposto, cassado e está preso?

O anel de brilhantes

Lembra de Fernando Cavendish, da empreiteira Delta, primeiro-amigo do governador fluminense Sérgio Cabral? Agora é ele que delata. Dizem que atinge PMDB e PSDB, cita-se o senador Aloysio Nunes e o governador goiano Marconi Perillo. Mas a melhor história é de Sérgio Cabral. Conta Cavendish que Cabral e ele passeavam por Monte Carlo quando Cabral parou em frente a uma joalheria finíssima, Van Cleef &Arpels. “Amanhã”, disse Cabral, “é aniversário de Adriana (sua esposa, Adriana Ancelmo) e preciso ver um presente”. Entraram e uma funcionária trouxe, já embalado, um anel de ouro branco e brilhantes. E ficou claro que quem pagaria a conta, uns R$ 800 mil, seria Cavendish. Ilustrando a história, foto de Adriana Ancelmo com o anel, recibo e nota em nome da Delta.

Arrasador.

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Boa notícia

A artista plástica brasileira Renata Barros acaba de expor no Museu de Arte de Hangzhou, na China. É um prolongamento cultural e artístico da reunião do G20. A “2016 – China Hangzhou G20 International Art Exchange Exhibition” reúne 40 artistas desde o dia 11 até hoje. Foi a primeira vez que o encontro diplomático teve extensão artística.

LULA LÁ

A expectativa de prisão de Lula foi levantada por petistas (e reforçada, naturalmente, pelo conjunto da obra): quem deu a notícia de que o risco era real e iminente foi um blogueiro paulista, Eduardo Guimarães, que aproveitou a oportunidade para convocar os correligionários a uma vigília em frente à casa de seu líder. Nada deu certo: a vigília reuniu umas vinte pessoas, 30 no máximo, e o Japonês da Federal não apareceu por lá.

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Lula será preso? Talvez; mas não é obrigatório que a prisão ocorra. Pode acontecer até que ele seja condenado num dos três processos a que por enquanto responde e o juiz lhe dê o direito de recorrer em liberdade.

E que fará o ex-presidente enquanto a máquina da Justiça avança para triturá-lo? Breno Altman, jornalista ligado a Lula, editor do site Opera Mundi, diz que uma coisa é certa: o líder petista não sai do Brasil, não pede asilo em nenhuma Embaixada e já comunicou a decisão aos companheiros. Acha que se exilar, ou asilar. enfraqueceria sua defesa, deixaria o PT mais frágil e seria um mau exemplo. E se for preso? “Irá enfrentar, pelas ruas e instituições do país, contando sempre com a solidariedade internacional, a perseguição da qual é vítima. Não se renderá nem fugirá. Se vier a ser preso, será do calabouço que continuará lutando contra o arbítrio e o golpismo, liderados pelos setores mais reacionários da PF, do MPF e do Poder Judiciário”.

É uma situação complexa: a prova dos nove.

Cadeia para os outros

O ex-ministro José Dirceu, que Lula gostava de chamar de Capitão do Time, acaba de provar que sete anos e 11 meses se esgotam em dois anos. Graças a essa matemática política, está livre da pena do Mensalão. Só não está livre, leve e solto por ter sido condenado também no Petrolão. É uma das últimas heranças de Dilma antes de ser impichada.

Em dezembro, Dilma assinou decreto de indulto natalino extinguindo a pena de condenados abaixo de oito anos, que tivessem cumprido um quarto do período, sem falta disciplinar grave. Dirceu, veja só a coincidência, tinha pena de 7 anos e 11 meses, precisamente no limite. Tinha cumprido dois anos, um na prisão, outro em casa. Por sorte, bem no limite,. Mas tinha mantido o envolvimento no Petrolão enquanto cumpria pena pelo Mensalão. Por isso, o ministro Luis Roberto Barroso impediu que Dirceu tivesse o perdão. Mas aí ocorreu outra coincidência: o procurador Janot informou que Dirceu tinha cometido os crimes do Petrolão até 13 de dezembro de 2013. Como foi preso no Mensalão em 15 de dezembro de 2013, por coincidência já há dois dias tinha abandonado as atividades ilegais. E isso permitiu que obtivesse o indulto das penas do Mensalão.

O papel do destino

Claro que Dilma não escolheu o limite de oito anos para beneficiar Dirceu. Deve ter jogado dois dadinhos para cima ao escolher o número. Nem ninguém pensaria num preso específico na hora de verificar o bom comportamento. Dirceu, efetivamente, acordou num determinado dia disposto a mudar de vida e a cumprir a lei. Ponto final. E foi recompensado pelo céu: por ter-se regenerado bem a tempo, ganhou o indulto.

Alvíssaras!

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Querem mais

A defesa de Lula, que busca comprovar a suspeição do juiz Sérgio Moro, tenta de novo: quer ouvir o prefeito eleito de São Paulo, João Dória; Moro esteve num evento promovido por Dória 13 meses antes da eleição.

Dinheiro na mão…

Mas a matemática, ora de subtração de tempo, ora de multiplicação de fortunas, não se encerra em indultos que, por puro acaso, parecem feitos sob medida. Agora se inicia uma estação do ano em que haverá fartura de contas – especialmente bancárias. O mandado de segurança 20.895, impetrado pelo repórter Thiago Herdy e a Infoglobo, foi concedido pelo Superior Tribunal de Justiça; só falta o ministro Napoleão Nunes Maia Filho, do STJ, determinar o cumprimento do acórdão. Dizem que é explosivo: autoriza o acesso às despesas pagas com o cartão corporativo do Governo Federal usado por Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe da representação da Presidência da República em São Paulo. Conforme o que foi pago, e a quem, podem surgir ligações suspeitas.

Ou insuspeitadas.

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…é vendaval

Rose há muito tempo tem boas relações com Lula; viajou ao Exterior com ele 32 vezes, no Airbus presidencial. Dizem em Brasília que com frequência o nome de Rose não estava na lista de passageiros, o que é ilegal. O cartão tem a resposta para algumas dúvidas. Por exemplo, se aparecerem despesas, digamos, em Angola, e seu nome não estiver entre os passageiros, como terá ido para lá? Rose se manteve poderosa até novembro de 2012, quando foi presa pela Operação Porto Seguro, e Dilma a demitiu do cargo. Ela responde a processo, mas não delatou ninguém.

TIRO LIVRE, DIRETO

Antes da era dos mísseis teleguiados, os combates marítimos obedeciam a uma fórmula consagrada: primeiro, os tiros eram disparados aos quatro lados do inimigo (enquadramento do alvo), e as colunas d’água levantadas pelos projéteis indicavam o movimento do mar e orientavam a mira. Davam também ao inimigo a chance de se render. O tiro seguinte era direto ao alvo, para afundá-lo ou pelo menos reduzir sua capacidade de combate.

É assim que a Justiça se aproxima de Lula: enquadrando o alvo.

1- Na quinta-feira, Lula se tornou réu pela terceira vez, agora em Brasília. Acusações: tráfico de influência, organização criminosa (mais grave que a antiga formação de quadrilha), lavagem de dinheiro e corrupção passiva nos negócios financiados pelo BNDES em Angola.

2 – No mesmo dia, a Receita suspendeu a isenção tributária de 2011 do Instituto Lula por desvio de finalidade: o Instituto pagou despesas de Lula e de sua esposa. Isso quer dizer que a entidade está sujeita a pagar os impostos de que era isenta, corrigidos, mais multa de uns R$ 2 milhões.

3 – Lula é réu duas vezes em Curitiba: por corrupção e lavagem de dinheiro no apartamento do Guarujá e por tentar atrapalhar as investigações sobre a Petrobras. Nos dois casos deve ser julgado por Sérgio Moro.

Se sofrer duas condenações, Lula não poderá se candidatar em 2018. Se for condenado num caso, e o recurso for rejeitado, vai para a prisão.

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Do palácio à cadeia

Crime pelo qual foi condenado o senador Gim Argello: vender proteção na CPI da Petrobras (entre os compradores, confessos, os empreiteiros Léo Pinheiro, da OAS, e Ricardo Pessoa, da UTC). Pena determinada pelo juiz Sérgio Moro: 19 anos de prisão.

Curiosa figura, Gim Argello. Rico, tornou-se suplente do candidato Joaquim Roriz. Foi morar na Península dos Ministérios. Acordava cedo, vestia o agasalho e só saía quando a ministra-chefa da Casa Civil, Dilma Rousseff, iniciava sua caminhada. Por acaso, seus caminhos se cruzavam todos os dias. Caminhavam juntos, ficaram amigos, Dilma o ouvia. Quando Joaquim Roriz renunciou, o suplente Gim já assumiu como político poderoso. Subiu rápido, caiu rápido: as delações premiadas o jogaram no olho do furacão. Em 12 de abril foi preso. E agora, sabe-se lá quando sai.

Preso fica preso

A mudança está sendo pensada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a pedido do presidente Michel Temer: endurecer o cumprimento de penas de prisão. Hoje, um condenado pode ser solto depois de cumprir 1/6 da pena – o que significa que um condenado a 5 anos pode ficar livre após onze meses. A ideia é aumentar o tempo mínimo de prisão para metade da pena. E seria ótimo reestudar as “saidinhas”, libertação de presos por um período curto. Algo como a autorização de saída de Suzanne von Richthofen para o Dia dos Pais: ela foi condenada por matar pai e mãe.

Nova força

O encontro entre Michel Temer e Fernando Henrique teve outros temas além de amenidades. Ambos começaram a conversar sobre uma aliança eleitoral entre PMDB e PSDB – nas condições atuais, uma composição imbatível. Mas não é simples: há rivalidades estaduais, haverá guerras por posições no partido. A disputa entre Renan Calheiros e Eduardo Cunha por pouco não impediu o impeachment. O PSDB já tem três candidatos à Presidência da República, os três de sempre, os três inconciliáveis. E. só para dar uma ideia do clima entre os tucanos, a vitória na maior cidade do país, no primeiro turno, gerou mais divergências do que festas.

Força crescente

Aos poucos, cresce a aprovação do presidente Michel Temer. Entre agosto (21%) e setembro (30%), a alta foi de nove pontos percentuais. A rejeição a Temer caiu no mesmo ritmo: de 68% em agosto para 60% em setembro. A pesquisa foi realizada pela Ipsos entre 6 e 16 de setembro, em todo o país. Temer tem muito a crescer: primeiro, porque obteve uma grande vitória política num tema complexo, a imposição de um teto ás despesas do Governo; segundo, porque ainda é pouco conhecido pela população; terceiro, porque está tratando agora de temas controversos, em que a população é majoritariamente contrária, mas metade dos entrevistados nunca ouviu falar de reforma da Previdência nem das leis trabalhistas.

Trata-se, portanto, de uma batalha de comunicação – e quem tem verbas mais abundantes para o, digamos, trabalho de convencimento?

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Bob Nobel

Robert Zimmerman, ou Bob Dylan, esplêndido músico americano (Blowing in the Wind, Like a rolling stone), ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2016. E ainda bem que ainda desta vez o premiado não foi brasileiro. Diante do que mostrou a Lava Jato, nosso Nobel seria Safadão.

MANDA QUEM PODE, MAS TEM DE QUERER

O Governo de Michel Temer obteve sua primeira grande vitória: os 366 votos a 111 que aprovaram a emenda constitucional 241, limitando o aumento dos gastos oficiais nos próximos 20 anos, foram um 7×1 na oposição. Temer se jogou abertamente na batalha, de tal modo que, se perdesse, teria de repensar todo o seu Governo. Ganhou – e mostrou para o mercado, para os investidores, para os bancos estrangeiros, que tem cacife para reformar a economia e enfrentar vitoriosamente os grupos de pressão.

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É ótimo que os estrangeiros voltem a acreditar no Brasil como polo de investimento. E, para isso, uma emenda constitucional aprovada por imensa maioria do Congresso é essencial, mostra que o clima econômico mudou, melhorou, e que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Mas nós somos brasileiros, e sabemos que leis elaboradas para disciplinar despesas públicas nem sempre são executadas em nosso país. Se fossem, esta reforma da Constituição nem seria necessária. Cortar despesas oficiais de maneira a que possam ser suportadas pelo país exige disposição e convicção do governante; exige exemplo. Tudo bem, era o grande lance da conquista da maioria, o lance definitivo, mas banquete para mais de 400 pessoas talvez seja meio muito para pedir corte de despesas.

O presidente Michel Temer tem o controle do Congresso e, portanto, do país. Mas precisa mostrar o caminho para que o país continue a segui-lo.

…é vendaval

Um caso exemplar é o do juiz Leo Denisson Bezerra de Almeida, de Marechal Deodoro, Alagoas, acusado de vender decisões. O Conselho Nacional de Justiça instaurou processo administrativo disciplinar contra ele, e o afastou de suas funções. O juiz deixou de trabalhar, mas recebe salário integral e auxílio moradia. Fica difícil convencer outras categorias a concordar com o teto de despesas do Governo tendo exemplos como este.

O perdedor 1

O líder da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, está acossado. Foi denunciado pela quarta vez na Operação Lava Jato. Responde, num dos processos já aceitos pelo Supremo, pelas ligações com operações da Odebrecht em Angola. O outro processo, para que se tenha uma ideia, é chamado de Quadrilhão, e considerado o mais importante da Operação Lava Jato. Cada denúncia pode transformar-se em novo processo. E, no caso Odebrecht, em que a qualquer momento sairá a delação premiada de Emílio Odebrecht – que sempre foi, na empresa, o responsável pelas conversas com Lula – a situação tende a piorar. E pode piorar mais ainda se a delação de Leo Pinheiro, que foi presidente da OAS, for aceita pelo Ministério Público, que hoje a rejeita por divulgação antecipada.

O perdedor 2

Lula está sendo processado (as denúncias foram aceitas pela Justiça e se transformaram em processo) em Curitiba, acusado, no caso do triplex, de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No STF, é investigado no Quadrilhão e em mais um processo. As acusações são de organização criminosa, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, corrupção passiva. E há mais cinco investigações a cargo da procuradoria Geral da República sobre negócios da Odebrecht, financiados pelo BNDES, em Cuba, Equador, Venezuela, Panamá e República Dominicana.

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A posição da defesa

Como Lula se defende? Jamais participou, no comando ou não, de um esquema de desvio de dinheiro público; afirma que contra ele não há uma prova sequer, apenas “descompromissadas convicções” dos procuradores. E o objetivo do “cenário de guerra” é impedir que Lula seja eleito presidente da República em 2018. Caso Lula seja condenado em todas as ações a que responde, estará sujeito à pena de 35 anos de prisão. Seus advogados são Roberto Teixeira, amigo de longa data, e Cristiano Zanin.

Outro perdedor

O deputado Celso Russomanno, PRB, pela segunda vez liderou as pesquisas em São Paulo durante um longo período, e pela segunda vez foi derrotado. Agora, diz ele, só deixaria a Câmara por um de dois cargos: secretaria da Segurança de São Paulo ou Ministério da Justiça.

Tiririca estava errado: pedia votos dizendo que pior do que está não fica.

A frase

De acordo com a delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral, Lula não queria inicialmente aliar-se ao PMDB. E trocou a aliança por vantagens diversas, dando início ao Mensalão. Mais tarde, quando a descoberta do Mensalão ameaçou derrubá-lo, Lula teria dito: “Ou abraço o PMDB ou vou morrer”.

Entre manter seu poder político e a lealdade a seu projeto, Lula optou por manter seu poder político. E destruiu seu projeto.

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A ÁFRICA PARA OS BRASILEIROS

Por longos e tristes anos, empresários brasileiros mantiveram lucrativos negócios na África, que só cessaram com o fim da escravidão. Passam-se os tempos e os bons negócios voltam – para alguns brasileiros, para alguns africanos. Até um bom dinheirinho na conta de Eduardo Cunha, lembra-se? foi atribuído à venda de carne moída brasileira, enlatada, para a África.

O Quadrilhão, por enquanto o principal processo da Lava Jato, que envolve Lula, o sobrinho de sua primeira esposa, e a Odebrecht, tem tudo a ver com a África – exceto o dinheiro, que passa por lá e volta para os bolsos já preparados para recebê-lo (e distribuí-lo). A Exergia, empresa energética do sobrinho, foi criada, segundo a Polícia Federal, apenas para receber e destinar corretamente os pixulecos da Odebrecht.

O sobrinho tinha metade de uma empresa de fechamento de varandas. Criou a Exergia, que firmou 16 contratos com a Odebrecht, financiados pelo BNDES. E sua vida mudou: viagens, jatinhos, gastos exuberantes, contatos com estadistas.

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O sobrinho Taiguara Rodrigues dos Santos e o tio Lula

Um desses estadistas é o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Seu país é rico, tem petróleo e diamantes; seu povo é pobre, vivendo com cerca de R$ 7 por dia; sua filha é a mulher mais rica da África. E deste relacionamento, diz a investigação, R$ 31 milhões sobram para o sobrinho do homem. Acompanhe o julgamento do Quadrilhão, que pode levar à prisão um ex-presidente e líder popular. Mas tem muito mais.

O caminho das pedras

Os diamantes, pedras pequenas e valiosas, fáceis de esconder, sempre foram as favoritas de quem quer contrabandear dinheiro. E consta que Angola, ainda bem relacionada com Portugal, seu ex-colonizador, e com países como Cuba, faz parte do ciclo de movimentação de valores. Se depósitos bancários são monitorados e arrestados, dinheiro embutido em financiamentos internacionais circula com muito mais segurança e garantia.

O Banco Espírito Santo baseou suas operações no triângulo África, Brasil, Espanha; mas cometeu uma série de irregularidades graves. Na mesma época, uma senhora que costumava viajar no avião presidencial brasileiro sem constar na lista de passageiros foi várias vezes à África, e daí a Portugal. Rumores, até hoje não comprovados, citavam a entrega de pacotes e caixotes, talvez lembranças, a funcionários do banco.

E dizia-se que qualquer problema no Espírito Santo se refletiria no pai e no filho.

Registrado

Todas as histórias estão narradas no relatório da CPI do BNDES. Veja tudinho em “Como Lula operou na África”, de Cláudio Júlio Tognolli. É grande, mas fascinante. Compensa ler.

Golpe. Na praça.

Atenção, turma do não vai ter golpe: teve golpe, sim. Pela segunda vez em dois anos, o Tribunal de Contas da União rejeitou as contas de Dilma Rousseff.

Considerando-se que o Parlamento foi criado para impedir que o Estado dilapide o Tesouro, duas vezes em dois anos é muito golpe na praça.

O nosso é o deles

Como ninguém para de apregoar, o Governo está sem dinheiro. Que fazer? Pois estão propondo no Congresso a criação de um fundo público de R$ 3 bilhões, com o nobre objetivo de pagar, com nosso dinheiro, a campanha eleitoral de Suas Excelências. E ninguém está regulando mixaria: além dos R$ 3 bilhões, continuará sendo pago, sempre com dinheiro público, o Fundo Partidário, que, com R$ 724 milhões, tem a nobre missão de pagar o funcionamento de nossas dezenas de partidos.

O problema que se pretende resolver com nosso dinheiro é a proibição das doações de empresas. Mas o problema, pelo jeito, não é tão grande: resolve-se recorrendo ao bolso de cidadãos já sufocados por tanto imposto.

Pense no impensável

Militantes petistas que seguem a orientação do ex-governador gaúcho Tarso Genro há algum tempo fazem críticas ao comando do partido e até mesmo a Lula. Jamais pensaram, porém, em afastar Lula, seu sumo-sacerdote.

Mas uma derrota como esta faz com que muita gente pense no impensável. À derrota se soma a demissão de 50 mil petistas hoje em cargos comissionados (nomeados sem concurso), e que terão agora de procurar emprego como cidadãos comuns, gente como a gente. Mais grave: a queda da receita do dízimo (cada petista comissionado se obriga a dar ao partido 10% de seus vencimentos). Pior ainda: a Lava Jato cria uma série de riscos a outra importante fonte de rendas, a propina para o partido.

Em casa onde falta pão, todo mundo briga e todos se sentem com razão.

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Estrela apagada

Em São Bernardo, berço político de Lula e do PT, o segundo turno será disputado entre PSDB e Alex Manente. Ambos rejeitam o apoio do PT e do prefeito Luiz Marinho.

Ambos sabem o peso de um prefeito mal sucedido.

A VOLTA DA FEDERAL

A trégua eleitoral, que não permite prisões, exceto em flagrante, nos cinco dias anteriores e nos dois posteriores aos pleitos, acaba de encerrar-se. Este colunista tem o palpite de que, depois da exibição nas eleições da atual popularidade do ex-presidente Lula, algumas investigações ganharão velocidade. Para usar a imagem citada pelo próprio Lula, o objetivo é pisar na cabeça da jararaca, no mínimo para anulá-la.

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O grande manancial de informações é a documentação apreendida na Odebrecht, que ainda pode ser enriquecida pela delação premiada de diretores da empresa e, talvez, do próprio Marcelo Odebrecht. Mas o material apreendido vale o trabalho investigativo: organizadíssima, a empresa tem um Setor de Operações Estruturadas que relaciona as propinas uma a uma, incluindo quantia, local e modo de entrega, e destinatário. Uma dessas planilhas é exclusiva de um destinatário chamado “Amigo” – e, pelo que dizem, em vez de “Amigo” poderia chamar-se “Cumpanhêro”.

E há Leo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, que sabe tudo sobre o apartamento triplex que não é de Lula. Pinheiro já contava sua história quando houve um vazamento de informações. As autoridades consideraram que o compromisso com Pinheiro, que envolvia penas mais brandas, estava rompido, e descartaram sua delação. Mas isso pode mudar.

Contra político que perdeu apoio popular, até o impossível é possível.

Novos tempos

Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, duas vezes prefeito de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, lançou Dayana Mazzer para a Prefeitura. Dayana foi batida por Beto da Lotérica, que teve o dobro de seus votos.

Em São Paulo, das 58 zonas eleitorais, Marta venceu em duas, e Dória em 56. O prefeito Fernando Haddad, candidato de Lula, em nenhuma.

Em todo o país, o número de vereadores do PT se reduziu a pouco mais da metade. A porcentagem exata da queda: 44,8%.

O PT tinha 644 Prefeituras, entre elas a de São Paulo. Caiu para 237, e uma só, Rio Branco, no Acre, é capital. Seu número de eleitores caiu de 17,4 milhões, em 2012, para 6,8 milhões agora em 2016. É recuperável, mas trabalhoso.

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Tentando explicar

Além das versões de sempre – a culpa pela derrota nacional do PT é de juízes antipetistas, apoiados pela mídia golpista – surgiu uma nova: muita gente não votou, o que enfraqueceu os candidatos petistas – só eles. Que muita gente votou nulo, se absteve ou faltou, é verdade: 40 milhões, num total de 114 milhões. Conclusão: mostravam o desgosto, que o PT partilha, pela situação do país. Logo, são petistas que não saíram do armário.

Mas não é bem assim: este colunista, temporariamente (tomara!) em cadeira de rodas, não pôde votar. Sua seção só tinha acesso por escada. O candidato que receberia o voto não tinha nada com isso.

Sabedoria eleitoral

Do jornalista Mário Mendes, normalmente peçonhento e inteligente: “Sobre o dia de hoje só digo: O voto é secreto mas choro é livre. Bom dia!”

Les fatigués

Não faz tanto tempo assim: foi em 2007 que surgiu o “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, ou simplesmente Cansei, que pretendia se transformar numa frente de luta contra o excesso de impostos e a favor da saída do presidente Lula (seu slogan era “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”). Não deu certo, durou pouco.

O Cansei foi organizado pela OAB de São Paulo e empresários, entre os quais se destacavam Paulo Skaf e João Dória Jr,

Saber perder

A vitória é alegre e cordial, com abraços sucessivos, muitos aperitivos e até, com sorte, a alguns tira-gostos. A derrota é feia, selvagem. No Diretório Municipal do PT em São Paulo, uma equipe da GloboNews, comandada pela ótima repórter Andrea Sadi, que ao lado dos petistas acompanhava a apuração, foi hostilizada aos gritos de “golpista” e “fora daqui” durante uma entrada ao vivo. A equipe decidiu, por falta de segurança, deixar o local. A coletiva do prefeito derrotado Fernando Haddad não pôde ser transmitida.

Quem perdeu foi a opinião pública, que não teve acesso à opinião do prefeito. Quem perdeu, também, foi o próprio prefeito, impedido de transmitir sua posição ao público.

Acreditemos

Então, fica combinado assim:

Marta nunca foi de esquerda.

Fernando Haddad, numa virada sensacional, tinha a presença assegurada no segundo turno que não houve.

Lula, capaz de eleger um poste, faria de seu filho (que acabou perdendo) o vereador mais votado de São Bernardo, berço político e fortaleza do PT.

O tal apartamento triplex não é de Lula.

A GUERRA DO FIM DO MUNDO

As operações da Polícia Federal vão se desenvolvendo normalmente, as delações premiadas continuam a apontar pagamentos e conexões que levam a novas investigações, mas a Lava Jato hoje busca um objetivo principal: a condenação do ex-presidente Lula. Há um certo consenso de que todo o trabalho até agora realizado se perderá se Lula puder ser candidato em 2018 – e, pior ainda, se for eleito, apesar do que foi até agora conhecido.

É difícil explicar à opinião pública que um gerente da Petrobras, como Pedro Barusco, tenha se apossado de uns R$ 200 milhões, enquanto o presidente da República se limitou ao triplex, ao sítio de Atibaia, a presentes que deveria ter mandado incorporar ao patrimônio da União e a gentilezas de empreiteiras. As denúncias contribuem para minar a imagem de Lula, mas é preciso ter mais do que isso para cercear um político com sua popularidade, contatos e capacidade de manobra. É quase uma operação especial dentro da Operação Lava Jato: a Operação Pega Lula.

Boa parte das perspectivas de êxito da investigação está no material colhido com a apreensão de documentos da Odebrecht. Saem daí, por exemplo, informações sobre as palestras de Lula. A LILS, empresa do ex-presidente, se antecipou e divulgou seus dados: 72 palestras, cada uma a US$ 200 mil, para 45 empresas contratantes. Seis dessas empresas, a propósito, acusadas por superfaturamento e propinas na Petrobras.

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Lula fora

As seis empresas acusadas no Petrolão e que pagaram US$ 200 mil por palestra de Lula são Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, UTC e Queiroz Galvão. Executivos da Andrade Gutierrez, UTC e Camargo Corrêa fizeram delações premiadas, confessaram o pagamento de propinas, mas ao que se saiba não incluíram os pagamentos pelas palestras de Lula na lista de ilegalidades.

É a Guerra do Fim do Mundo: a Lava Jato e Lula, frente a frente, com sangue nos olhos, um querendo destruir o outro.

O novo-pobre

O Supremo Tribunal Federal liberou os bens de Marcelo Odebrecht. O empresário, preso e condenado na Lava Jato, demonstrou que o bloqueio dos bens inviabilizava sua sobrevivência e de sua família. Então, tá.

Passinho pra frente…

No período em que Temer assumiu interinamente a Presidência, antes do impeachment, ele e sua equipe deixaram claro que revitalizar a economia iria exigir um substancial corte de gastos públicos, a reforma da Previdência e amplas modificações nas leis trabalhistas. A emenda constitucional estabelecendo um teto para o aumento dos gastos públicos seria (e foi) encaminhada ao Congresso. Era o caminho a seguir.

…passinho pra trás…

Ao assumir de vez a Presidência, Temer se tornou bem mais flexível: concedeu ótimos aumentos a grupos corporativos com capacidade de pressão, e ampliou os gastos públicos em algo como R$ 40 bilhões (com isso, aumentou o déficit orçamentário em bons 30%). Em seguida, a reforma que considerava essencial e inadiável, a da Previdência, para não desagradar deputados e senadores, foi adiada para depois das eleições (que se realizam hoje; mas há segundo turno, há um período de consolidação do novo quadro político, e as festas de fim de ano vão chegando). Temer promete enviar o projeto de reforma em novembro – e ou é votado às pressas, sem que haja debate profundo no Congresso, ou fica para 2017.

…passinho pro lado

Agora, segundo o bem informado colunista Josias de Souza , a reforma trabalhista ficou para depois. Há no Governo quem ache que um novo projeto é desnecessário: já tramitam no Congresso projetos que tratam do tema. Basta emendá-los, se for o caso, e aprová-los. Quando houver tempo e disposição.

O fim do caminho

Resultados do vaivém, quando se esperavam atitudes decisivas:

Buraco nas contas públicas: R$ 58,8 bilhões até 31 de agosto. No mesmo período do ano passado, o buraco era de R$ 1,15 bilhão;

Rombo na Previdência: R$ 87,57 bilhões até 31 de agosto. No mesmo período do ano passado, era de R$ 44,56 bilhões.

Dinheiro público é público

O Ministério Público sugeriu a anulação de normas do programa Minha Casa, Minha Vida que submetem as famílias às organizações privadas que gerem empreendimentos. Entidades de luta pela moradia inscritas no programa escolhem, segundo seus critérios, as famílias que vão receber casas. Há entidades, por exemplo, que dão preferência a quem for a mais manifestações. Se a sugestão não for aceita, o MP entrará na Justiça.


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