QUEM É QUEM ENTRE OS CANDIDATOS

Não se iluda: assim que voltar do recesso, o deputado gaúcho Ônix Lorenzoni começa a trabalhar para erguer a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República. Caiado já autorizou o colega a trabalhar por ele – inclusive articulando com outros partidos e montando uma frente que lhe permita candidatar-se reforçando as alianças possíveis.

Lorenzoni quer disputar o Governo gaúcho, e o apoio de Caiado, se for mesmo candidato, dará a Lorenzoni a oportunidade de jogar com o apoio de um candidato à Presidência da República. Para Lorenzoni, é uma grande oportunidade. O ok de Caiado tem alto valor para Ônix.

Caiado sempre diz que só pensa em ser candidato a governador. Mas quer mesmo ir mais longe. Esse monte de candidatos ao Governo diz a mesma coisa. Mas Caiado pensa mais longe. Se tiver a oportunidade, buscará o máximo. E por que não? Se João Dória Jr. buscou a tese do gestor, não do político, e ganhou no primeiro turno, por que não Caiado? Caiado está prontinho para se candidatar à Presidência da República. E jamais hesitou em abrir fogo contra Lula, desde o escândalo da Lubeca, em 1989. Manteve-se como fiel adversário do PT, mesmo quando o PT deu um jeito de buscar novos amigos. Sempre criticou Lula e se manteve na oposição. E agora, quando o PT e Lula sofrem na Justiça, não é Ronaldo Caiado que vai ignorar seus adversários do PT e fingir que não os conhece..

Negócios à parte

Lembra de Luís Inácio Adams, amigo de fé e irmão camarada de Lula e Dilma, advogado geral da União? Agora ele ajuda Rodrigo Maia, que quer se reeleger presidente da Câmara. E se propõe a escrever um artigo num jornal de grande circulação, dando apoio a Maia. E por que? Para desvincular sua imagem do passado petista. Tem gente que é esperta!

Já Jovair Arantes, do PTB, que está brigando com Rodrigo Maia, acusa o adversário, sem citar seu nome, de “burlar a Constituição e as normas de funcionamento da Câmara” para tentar se reeleger esquecendo as normas legais. Todo mundo é santo, né?

PT quer tudo

O PT ainda não decidiu em quem vota na Câmara. Pode ser Rodrigo Maia, pode ser André Figueiredo, do PDT cearense. Jovair Arantes chegou a oferecer uma vice-presidência aos petistas. O PT tem 57 deputados; E, se trabalhar direito, pode até se sair bem. Por exemplo, o PT quer a primeira secretaria da Câmara. É aí que o PT pode nomear muita gente e se livrar dos interessados apenas em cargos. O Partido enriquece com isso. E o orçamento da Câmara é de R$ 5,2 bilhões por ano. Dá para nomear todos os assessores que estavam sem emprego.

Como que fica?

Rodrigo Maia é o favorito para a Câmara, Eunício Oliveira para o Senado. Só que os dois foram mencionados nas delações da Odebrecht como beneficiários de repasses financeiros ilegais.

Vergonha? Decência?

Lagosta ao molho de queijo, camarão, casquinha de siri, picanha, rosquinha húngara e oito tipos de pães estão entre os itens de uma licitação aberta pela Assembleia Legislativa de Alagoas para os serviços de bufê deste ano. Pelo jeito, Suas Excelências vão passar bem!

Abaixo os outros

José Eduardo Martins Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão, todos ex-ministros da Justiça, pediram ao ministro Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo ocupando o cargo, não chegaram à grandeza de trabalhar por ele.

José Eduardo Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão assinaram um documento pedindo a Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo no cargo, mantiveram-se tranquilos, sempre evitando renunciar a ele,

Os três ministros da Justiça do PT serão recordados para sempre pela grandeza de sua defesa do Governo comandado por Lula e Dilma Rousseff.

A grande declaração

Da ex-presidente Dilma Rousseff, sobre seus planos para o futuro:

“Não penso em voltar à política porque o grande presidente para o Brasil é Lula”.

Ele é bom mas não é

Engraçada, essa política interna petista: quando Lula pediu a Dilma que lhe abrisse caminho nas eleições, Dilma recusou, e fez questão de ser candidata à reeleição. Não deu a Lula a menor oportunidade de se candidatar no lugar dela. E fez questão de bloquear o ministro da Fazenda preferido de Lula: Henrique Meirelles. Resultado: no Governo Temer, Meirelles acabou sendo o ministro da Fazenda.

DIDI, DEDÉ, MUÇUM, ZACARIAS

Preocupado com os massacres nas penitenciárias, achando que é preciso tomar providências urgentes? O governo também. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, discute o assunto em reunião urgentíssima com secretários estaduais da Administração Previdenciária. Dia marcado: 17.

É até bom esperar um pouco. Quem sabe até lá há novas revoltas e massacres e dá para aproveitar a reunião urgentíssima para discutir tudo?

Todo mundo criticou o presidente Temer por ter demorado a falar sobre os pavorosos acidentes nos presídios amazônicos. Pois é: aí ele falou.

A Defensoria Pública da União pediu ao STF que determine ao sistema prisional do Amazonas que garanta aos presos o direito à progressão de pena. Espera-se que a garantia se estenda a todos os sobreviventes.

O secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, foi exonerado pelo presidente Temer depois de defender mais massacres em presídios. Seu cargo (para que servirá?) é disputado pela “ala jovem” (existe!) do PSDB, pelo PSC, que se queixa de ocupar pouco espaço no Governo, e, naturalmente, o PMDB. Considerando-se que no Congresso os parlamentares mais antigos são conhecidos como “cabeças brancas” e os mais novos como “cabeças pretas”, os secretários nacionais da Juventude (quais as funções do cargo?), se seguirem o exemplo do demitido Bruno Júlio, poderão orgulhar-se de seu novo apelido de “cabeças vazias”.

Zorra Total

Alguém, no Portal Brasil, caprichou na confusão – e postou no twitter um link com todas as senhas disponíveis do Governo, de Instagram, Facebook e Gmail. Foi completo: além de senhas do Governo, senhas também de gente do Governo. Uma das senhas mais curiosas (não, esta coluna não está fazendo fofoca: a essa altura do Campeonato, se todas as senhas não foram mudadas é porque eles merecem a quebra de sigilo) era usada, ao que dizem, pela equipe de Temer: planaltodotemer2016. E, ao lado, a observação em letras maiúsculas, mais vermelhas do que roupa de petista, “NÃO TROCAR A SENHA NUNCA”. Já devem tê-la trocado.

Professora Raimunda

O pior, nesses vazamentos de senhas, é o que pode aparecer nas mensagens. Este colunista já ouviu falar (e não vai contar pra ninguém) de um certo cavalheiro com hábitos peculiares, que só contrata profissionais calipígias. Ambos se despem, ficando ela apenas com sapatos de salto alto, fininhos. Ele se deita de barriga para cima, e ela passeia, de salto alto, sobre seu corpo nu. Ele tem fama de pagar bem. Que dirá em suas mensagens?

Praça da Alegria

Haverá alguém, neste país, por menos atento que esteja, que não tenha ouvido alguma coisa a respeito de redução de gastos do Governo? Pois é: o futebol profissional, que se der lucro é só para os clubes, sem dividir com ninguém, está solidamente amparado em bancos estatais. Se anunciar na camisa dos bons times é lucrativo, por que as empresas estatais não deixam o filé para as companhias privadas? Enfim, no Rio Grande do Sul, em difícil situação financeira, devendo R$ 50 bilhões para o Governo Federal e atrasando o pagamento, o banco estatal Banrisul é o principal patrocinador de Grêmio e Internacional, com R$ 13 milhões anuais para cada um.

E o Governo Federal, querendo cortar despesas? A Caixa Econômica Federal, estatalzíssima, patrocina em 2017 a grande maioria dos 20 times da elite futebolística nacional. O Corinthians recebe R$ 30 milhões por ano da Caixa, como sua patrocinadora principal (patrocínio máster, aquele estampado no peito das camisas); o Flamengo, R$ 25 milhões. Os demais clubes, com torcidas menores, têm verba menor. Os bancos privados, que têm de prestar contas aos acionistas, delegam a tarefa ao dinheiro público.

Italianíssimo

A probabilidade é boa: Andrea Matarazzo, fiel dos fieis do PSDB, hoje no PSD, ligadíssimo ao tucano José Serra (que, chanceler, trabalhando de mãos dadas com Michel Temer, pode acabar saindo candidato à Presidência da República pelo PMDB), talvez acabe disputando uma cadeira no Parlamento italiano. Andrea tem cidadania dupla, brasileira e italiana, já foi embaixador do Brasil em Roma, nos tempos do Governo Fernando Henrique, e tem condições legais de candidatar-se. Nas últimas eleições que disputou, foi vice de Marta. Dória ganhou no primeiro turno.

Fala que te escutam

Tem gente que se esquece do avanço das telecomunicações, e fala como se estivesse num rádio de ondas curtas. O deputado Cássio Cunha Lima, por exemplo, tucano da Paraíba. Na entrevista a uma rádio paraibana, Cunha Lima disse que Temer teria dificuldades para chegar ao fim do mandato. Com aliados desses, tem mesmo. Só no dia seguinte o senador se lembrou do alcance das emissoras de hoje. Ainda está se desculpando com o presidente e aliados – que, por coincidência, são os mesmos que os seus.

OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM

Falou-se bobagem, jogou-se conversa fora. O governador do Amazonas, José Melo, do PROS, garantiu que entre os mortos no massacre da Penitenciária não havia nenhum santo. Deve ter razão; mas haverá santos em seu partido, em seu Governo? Qual de seus aliados colocará a auréola?

Falou-se o óbvio: que, entre mortos e matadores, havia estupradores, assassinos, gente malvada. E, isto é importante, gente do crime organizado.

Quem se rebelou e matou foi a FDN, Família do Norte, aliada ao Comando Vermelho, do Rio. Suas vítimas favoritas foram do PCC, do crime organizado com base em São Paulo. Como conter a futura vingança? E, a menos que a vingança seja contida, novos massacres ocorrerão: do PCC contra CV/FDN, do CV/FDN contra o PCC. Pelo noticiário sobre o crescimento de assassínios nas ruas, as vinganças já começaram, enquanto novos massacres se organizam em penitenciárias de todo o país.

De certa forma, Suas Excelências até entendem a sangueira. Os mortos, disse o governador José Melo, eram “(…) pessoas ligadas a outra facção, que é minoria no Estado do Amazonas”. São de fora, não são santos, são estupradores, matadores. É claro que, como presos, cabe ao Estado garantir sua segurança. É o que diz a lei. É o que diz a lei, também, sobre quem será morto como vingança. E a Segurança Pública? Todos já ouvimos falar nela.

Surpresa total

A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim pode não ter surpreendido as autoridades, que sabiam que o controle do presídio era dos detentos, que sabiam (e as gravaram em áudio e vídeo) das grandes festas cheias de poeira, que jamais ignoraram que os celulares da cadeia eram de alta qualidade. Mas houve pelo menos uma surpresa: o secretário da Segurança do Amazonas, Sérgio Fontes, garantiu que as autoridades não perderam o controle do sistema prisional. “O sistema prisional continua sob controle”, disse o secretário. “O que aconteceu, aconteceu nos primeiros minutos da rebelião, e por isso nada poderia ser feito”.

A surpresa é que Fortes continua no cargo e não foi demitido na hora.

Promessas, promessas

Temer prometeu R$ 800 milhões para construir um presídio por Estado. É difícil que o dinheiro seja suficiente. Aliás, o dinheiro nem novo é: faz parte daquele pacote de R$ 1,2 bilhão do fim do ano passado, para presídios e instalação de bloqueadores de celulares em 30% dos presídios de cada Estado. Depois, um dia desses virão mais R$ 200 milhões e outros nacos de verba para completar R$ 1,8 bilhão no primeiro semestre.

A vida como ela é

O colunista James Akel comenta o custo dos presos: “Custa 5.800,00 por mês cada preso do Amazonas. Em São Paulo um flat de luxo em Moema custa R$ 2.500,00.

Ao lado pode-se comer bem com 1.000,00 ao mês. Sobra grana”.

O que importa

E a vida continua. Os políticos costumam fazer aquilo de que gostam: política. Amazonas já era: os erros, sejam quais forem, serão encobertos por uma pedra em cima e esquecidos pelo passar dos anos. O que se discute hoje é a presidência da Câmara e do Senado. Na Câmara, a discussão é entre dois grupos, ambos aliados ao presidente Michel Temer. No Senado, o PT busca retomar sua tradicional ligação com o atual presidente da Casa, Renan Calheiros, para evitar a vitória do candidato de Temer, Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará. A ideia é que Renan escolha o nome para que o PT o lance e solidifique, e que ele só o apoie na hora em que tiver certeza da vitória. Se não der para ganhar, Renan fecha com Temer e sai como um dos vitoriosos, como sempre cacique do PMDB.

Tudo bem

Há pontos que vão bem na economia brasileira – por exemplo, com a crise, o setor da recuperação judicial. Hoje se desenrola o maior pedido de recuperação judicial da nossa História, os R$ 64 bilhões da Oi. Ainda não havia experiência no país de recuperação judicial deste porte. “mas já está claro que a providência pode levar a sucesso na manutenção das funções sociais das empresas”, diz o advogado Fernando de Luizi, de São Paulo, especialista no tema. “A Lava Jato criou uma modalidade de recuperação judicial atípica”, explica de Luizi. “Empresas saudáveis e superavitárias se tornaram insolventes pelas circunstâncias originadas pela Lava Jato, ou seja, em face do congelamento de seus recebíveis, pela perda de contratos, e acabaram tendo de buscar a recuperação para equacionar suas contas”.

Voa, governador, voa

O governador mineiro Fernando Pimentel, PT, viajou no helicóptero do Governo para buscar o filho no réveillon. Ele não entendeu as manifestações de rua: é para voar do cargo e nem pensar em voltar mais.

CHEGA DE INTERMEDIÁRIOS

A grande novidade dessas eleições – noves fora quem foi eleito e preso em seguida – é conhecida apenas em Manacapuru, a “Princesinha do Solimões”, a uns 80 km de Manaus, capital do Amazonas. Francisca Ferreira da Silva, 32 anos, tomou posse neste domingo como vereadora – a quarta parlamentar mais votada da cidade, a vereadora líder de votos, com 1.722. Contribuições para a campanha, só de pessoa física: taxistas, mototaxistas, pequenos comerciantes. Marqueteiro, nem pensar. Pensa no futuro da população mais pobre de Manacaparu: “Estou grata pelo apoio que recebi dos amigos e parentes”, diz. “Vou cobrar o prefeito e vou lutar para que Manacaparu tenha uma clínica de hemodiálise”.

Francisca Ferreira da Silva não concluiu o Fundamental, tem três filhos e é a primogênita de Manoel Nonato Oliveira da Silva e Alcina Lomas da Silva, ambos aposentados. Muito popular no porto, onde trabalha, foi escolhida pelos prestadores de serviços da área para representá-los, diante das sucessivas frustrações com seus eleitos. Têm certeza de que ela é imune à corrupção. Ela corresponde: até que receba os R$ 7.800,00 de salário, trabalha como feirante, feliz com a perspectiva de ajudar seus eleitores.

Ah, ninguém a conhece pelo nome, mas pelo apelido, Coroca, que usou como prostituta. Defende-a seu pai: “Jesus diz que quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. No país da Lava-Jato, quem se atreverá?

A firmeza de Temer

Não se impressione com os manifestos oposicionistas que, sempre que citam o Governo, acrescentam que está próximo a cair. Bobagem. Diz a Constituição que uma eleição para substituir Temer será indireta. Se tentarem transformá-la em direta, não haverá eleição nenhuma, por falta de tempo para aprovar a emenda constitucional. Imaginemos que Temer seja fartamente citado nas 77 delações da Odebrecht. Até acabar o processo, terá acabado o mandato. E se o TSE decidir que as irregularidades de Dilma se transferem a Temer? Mesmo que o julgamento saia rápido, há recursos que o atrasarão até o final do mandato. Temer fica até o fim.

A terra tudo encobre

O caro leitor jamais tinha ouvido falar da Família do Norte, forte facção criminosa que controla as prisões da região, e que, ao rebelar-se, deflagrou a matança? Pois a Polícia sabia de tudo. A FDN é liderada pelo traficante Márcio Garrote Ramagem, torcedor do Compensão, time de Manaus. Os presos financiavam times amadores, todos chamados de Compensão, pregavam seu escudo nas muralhas de todas as prisões, convocavam a torcida para todas as partidas (“salves”) e davam grandes festas, com secos e molhados. Seus celulares funcionavam melhor que o dos clientes que pagam a conta. Na cadeia havia três presos por vaga, amontoados.

As pedras por cima

Imagine o leitor que enclaves de luxemburgueses ocupem áreas do território brasileiro, em Rio, São Paulo, Amazônia, e resolvam seguir sua própria lei. Nenhum Governo aceitaria isso. Mas por que os luxemburgueses seriam piores que os condenados? Se não há condições de manter presídios adequados, bem guardados, onde se cumpra a lei do país, que a política prisional seja repensada, sem dar vantagens ilegais a quem tem o dedo mais mole na hora de atirar. Ou isso ou matanças sem fim.

La verdad

Aquela “onda vermelha” que engolfou parte da América Latina era, na verdade, abundantemente verdinha, e com fotos de Benjamin Franklin. Em duas semanas, começa o julgamento do ex-presidente de El Salvador, Maurício Funes, de um de seus filhos, Diego, e de sua ex-esposa, Vanda Pignato, brasileira e militante petista. Eles conseguiram, a pedido de Lula, que a Odebrecht pagasse a campanha – João Santana incluído. A Odebrecht, no mandato de Funes, obteve US$ 50 milhões em contratos.

Ricardo Martinelli, ex-presidente do Panamá, é acusado de receber, para ele, R$ 59 milhões; e, para outros, R$ 118 milhões. Rafael Correa, do Equador, está com problemas: a Polícia apreendeu há dias em Quito os arquivos eletrônicos da Odebrecht. Os subornos atingem US$ 35 milhões. No Peru, três ex-presidentes e uma ex-primeira-dama tentam jogar a propina, US$ 29 milhões, no colo do atual presidente Pedro Pablo Kuczynsky. Danilo Medina, República Dominicana, é acusado de receber US$ 92 milhões, em troca de US$ 163 milhões em ganhos extra-ordinários.

…sin perder las verduras jamás

Os melhores negócios parecem ter ocorrido onde não há abertura para a Justiça: Angola, onde a filha do presidente José Eduardo dos Santos se transformou na mulher mais rica da África, e Venezuela, onde o presidente Maduro faz o que pode para manter-se no poder. Ali a Odebrecht teve seus maiores lucros no Exterior e manobrou como quis o dinheiro.

FELIZ ANO VELHO E BOAS ENTRADAS

Pois não é que, apesar de tudo, dá para chamar 2016 de Feliz Ano Velho? A população foi para a rua, mostrou que estava farta do PT, deu forte apoio à apuração da ladroeira, usou contra Dilma expressões mais habituais a protestos contra juízes de futebol, e ganhou a parada, tirando-a da Presidência. Nas eleições de outubro último, o PT foi varrido do poder. E boa parte dos Guerreiros do Povo Brasileiro foi parar em Curitiba.

Petistas de peso foram desidratados e perderam seus cargos. Outros trocaram de partido – incluindo alguns ícones como Marta Suplicy e Cândido Vaccarezza. Outros ainda não sabem o rumo que vão tomar, como José Genoíno. E Dilma? Como é difícil escolher os próximos passos, quando nem o Grão Cacique Luiz Inácio Lula da Silva sabe o que fazer?

Lula pode ser candidato à Presidência, com algumas chances (se bem que arrastando uma inédita rejeição, que até agora jamais um candidato como ele tinha sustentado). Há também o risco de ser condenado em segunda instância num dos cinco processos em que já é réu. Condenação em segunda instância implica prisão e suspensão de direitos políticos. Candidatura, nesse caso, nem pensar.

Inflação em alta, emprego em baixa, negócios paralisados.Mas abriu-se caminho para apurar a gatunagem, para o saneamento das finanças estatais e a fixação de limites aos gastos públicos. Feliz Ano Velho, apesar de tudo!

Festa brava

A farra da mexerica, eta festa boa! Toda a população acredita que os candidatos devem fazer campanha com seu próprio dinheiro. Mas quem é que se contenta em gastar o próprio dinheiro, se o dinheiro do Governo está à disposição de gatos, ratos e gatunos? O Fundo Partidário rendeu aos partidos, em dez anos, pouco mais de R$ 3 bilhões. PT, PMDB e PSDB, neste período, molharam as mãos em algo como 350 a 450 milhões cada um. Acharam pouco: em dezembro de 2014, o Fundo triplicou. Fique tranquilo o caro leitor: não faltará dinheiro público, nosso, para que os partidos deles façam campanha sem dificuldades financeiras.

Triste futuro

Cuba se recusa a reconhecer o Governo brasileiro do presidente Michel Temer. Cuba se recusa a receber as credenciais do embaixador do Brasil, Frederico Duque Estrada. E o embaixador cubano no Brasil, Alberto Castellar, ainda não entregou suas credenciais. Como poderá o Brasil sobreviver sem relações diplomáticas com Raúl Castro?

Cena curitibana

Há coisas que só acontecem na política paranaense. Por exemplo, a troca de insultos entre o senador Roberto Requião e seus adversários políticos. No início de dezembro, Requião tinha dito que quem tivesse participado de passeatas contra o PT deveria comer alfafa, muita alfafa, ao natural ou em chá, própria para muares e equinos. Há uma semana, o jogo virou. Numa esquina curitibana, manifestantes depositaram um fardo de alfafa; e pediram que quem achasse que Requião deveria comê-lo buzinasse.

Cena curitibana. Hoje, na esquina da avenida Visconde de Guarapuava com rua Brigadeiro Franco, alguns manifestantes colocaram um fardo de alfafa e, numa faixa, pediam a quem concordasse que o senador Roberto Requião deveria comer aquilo, que buzinasse. O barulho tornou-se ensurdecedor por todo o tempo que durou a manifestação. Requião foi amplamente derrotado na Batalha da Alfafa. Ele não devia se envolver na briga: afinal, foi ele que andou mascando mamona.

Jornal Livre

Há uns 30 anos, o grande repórter Lúcio Flávio Pinto, meu colega de Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo, teve uma ideia revolucionária: lançou em Belém o Jornal Pessoal, uma publicação em defesa da Amazônia. Anúncios, não; publicidade, nenhuma. A única receita é obtida pelas vendas em bancas. Agora é preciso levar-lhe um aporte de capital – ou o jornal, o único realmente independente do país, fecha as portas.

A volta de Frankenthal

Seu pai, Leonardo Frankenthal, era conhecido como Leão do Júri; dizia sua lenda que ele perdera apenas um júri na vida, Quando morreu, sua filha e discípula Lilia Frankenthal decidiu retomar a notável carreira do pai. Neste 1º de janeiro, já com a carteira da OAB em mãos, reabre o escritório, com os telefones 9 8317-5800 e 4801-4907, e o e-mail lilia@frankenthal.adv.br

Dois livros notáveis

Dois lançamentos simultâneos: de Aristóteles Drummond, “O homem mais realista do Brasil, as melhores frases de Delfim Netto”; de Ives Gandra Martins, “Uma breve teoria do poder”. Os dos livros compõem um excelente presente de começo de ano.

FUMO MAS NÃO TRAGO. UM AMIGO TRAZ

Diz um cruel humorista americano que, certa manhã, uma esfuziante Chelsea Clinton chegou à Casa Branca e contou à mãe que tinha conhecido naquela noite um rapaz maravilhoso, simpático, bonito, bem educado, uma paixão!, que lhe fez agradável companhia. A mãe, preocupada, perguntou: “Rolou sexo?” E a jovem, direta: “De acordo com o papai, não”.

O ex-ministro Jaques Wagner (Governo Dilma) se aproximou de outra frase do ex-presidente Clinton: “eu fumei, mas não traguei”. Wagner, acusado de receber da Odebrecht um caprichado pixuleco, um relógio Rolex de US$ 20 mil, confirmou o presentão, mas explicou: “Guardei e nunca usei, porque uso outro tipo de relógio. Mas, se o cara me deu de presente, vou fazer o quê?” Claro: talvez prefira um relógio de bolso (“cebolão”), da Patek Phillipe, o Henry Graves Super Complication, avaliado em US$ 11 milhões. Se alguém lhe der de presente, que mal faz?

Pois é: junte as duas frases de Clinton, a verdadeira e a falsa, com a brasileira, de Jaques Wagner, e terá uma pista do caminho legislativo a seguir para livrar boa parte dos envolvidos na Lava Jato. Representantes dos três Poderes montam uma tese jurídica para separar o caixa 2 destinado a financiar campanhas do dinheiro usado para, oh, horror! enriquecer políticos. O que sempre se usou e é culturalmente aceito continua legal. O que não é culturalmente aceito, quem sabe um dia se acerta isso também.

Quem apita o jogo

Nessa limpeza toda de dinheiro até agora apontado como sujo, quem separaria o “culturalmente aceito” do que a nós parece pura roubalheira?

A ideia é entregar essa delicada operação ao Supremo. Os ministros teriam algum tempo para estudar direitinho o caso, já que o novo entendimento começaria a vigorar, dando tudo certo, no julgamento dos casos do Petrolão. Imagine o caro leitor se o Supremo condenar um figurão. Ficaria aberto o caminho para livrar réus de menor calibre.

No nosso, não

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, nem pensa em resolver juridicamente a situação de seus companheiros de partido. Quer resolvê-la do jeito que der, sem se preocupar em articular uma solução com as demais legendas. Ele propõe separar antigos companheiros, como José Dirceu e Antônio Palocci, que eram chamados de Guerreiros do Povo Brasileiro mas foram abandonados na prisão, sem sequer receber visitas, sem merecer sequer uma menção nos discursos petistas, e eventualmente expulsá-los do partido. Outros Guerreiros do Povo Brasileiro seriam defendidos pelo PT.

Traduzindo, o partido abandonaria os companheiros mais difíceis de defender, defenderiam os envolvidos em casos menos escandalosos e mobilizariam o partido numa cruzada quando chegasse sua vez no tribunal.

Cuidado essencial

Importante: é preciso tomar todos os cuidados possíveis antes de levar petistas de alta patente ao banco dos réus. O banco pode quebrar por excesso de fundos.

Operação Tetas Secas

Em 2013, condenados ao pagamento de multas, José Genoíno arrecadou R$ 700 mil numa vaquinha, e Delúbio Soares, em outra, R$ 1 milhão. Em 2014, José Dirceu levantou mais de R$ 900.000,00. Dilma, proibida de usar o Airbus oficial, e sentindo-se mal diante da possibilidade de voar em avião de carreira, obteve quase R$ 800 mil. A meta da vaquinha de Lula para financiar sua defesa era de R$ 500 mil. Chegou a R$ 270 mil.

Faturar menos que Dilma… que demonstração de força ao contrário! E Rui Falcão quer lançar imediatamente a candidatura de Lula à Presidência.

A falta que ela nos faz

Violeta Jafet, alma e coração do Hospital Sírio-Libanês, um dos melhores do país, morreu na segunda-feira, aos 108 anos. Por 50 anos dirigiu o dia a dia do hospital; quando já não tinha condições de caminhar pelas imensas instalações do Sírio-Libanês, ia de cadeira de rodas, sempre impecavelmente vestida, cuidando de tudo. Filha de Adma Jafet, primeira presidente da Sociedade de Mulheres que ergueu e comanda o Sírio-Libanês, Violeta tinha o dom da palavra. Após um discurso seu, o presidente Fernando Henrique beijou-lhe as mãos e disse que pediria a Deus que lhe concedesse chegar à idade dela com a lucidez que demonstrava. Violeta Basílio Jafet. Ela fará falta, a nós, à cidade, ao país.

Falou e disse

O vereador Fernando Holiday, do DEM paulistano, militante do MBL, Movimento Brasil Livre, já mostrou a que veio: diante da atitude dos vereadores paulistanos de aumentar seus salários em 20%, classificou-a de “desrespeito” e “canalhice das velhas raposas da Câmara”.

Holiday é de briga. Não está na Câmara para aumentar seus salários.

A MERITÍSSIMA SAÍDA

É cedo, muito cedo; pesquisa eleitoral, tantos anos antes de uma eleição, é mais adivinhação do que previsão. Celso Russomanno e Paulo Maluf cansaram de disparar na frente e perder o fôlego em campanhas por cargos majoritários. Mas a pesquisa, embora longe de indicar um favorito, é ótima para avaliar a atual situação de cada possível candidato. Neste momento, quem dispara na pesquisa do Instituto Ipsos é o juiz Sérgio Moro.

Moro é aprovado por 66% da população, e rejeitado por 22% – isso apesar da campanha feroz que o PT, os advogados do ex-presidente Lula e o próprio Lula movem contra ele, considerando-o parcial. Há ataques mais graves de alguns setores, que o acusam de investigar a corrupção com o objetivo de prejudicar a Petrobras e as grandes empreiteiras, em benefício de multinacionais concorrentes que buscam o mercado brasileiro. Até agora, as acusações não pegaram no juiz, que vai ganhando prestígio.

A primeira pesquisa do Ipsos sobre a popularidade de Moro se realizou em setembro do ano passado. Na ocasião, Moro tinha 10% de aprovação, e era desconhecido por 56% dos entrevistados. Em pouco mais de um ano, seu índice de aprovação se multiplicou por 6,6, um desempenho impressionante. Em junho, superava outro super-herói nacional, o ministro aposentado Joaquim Barbosa, por 55 a 52. De junho para cá, cresceu mais.

Será Moro candidato? Será candidato forte? Melhor ouvir a Mãe Dinah.

Temer, não…

O presidente Michel Temer tem números ruins: as pesquisas CNI-Ibope (46%), Datafolha (45%) e CUT-Vox Populi (55%) mostraram como cresce a rejeição a seu Governo. O Datafolha pesquisou também a taxa de rejeição de Lula (44%), e concluiu que o presidente e o ex-presidente estão tecnicamente empatados no número de eleitores que não votariam neles de jeito nenhum, caso sejam ambos candidatos nas eleições de 2018. O detalhe: os três institutos indicam quedas de prestígio semelhantes. Os números podem diferir um pouco, mas sinalizam idêntica fraqueza política.

…não…

O resultado mais dramático é o do Instituto Ipsos: 77%. Com esse número, Temer será o presidente da República mais mal visto pelos eleitores desde que se iniciaram as pesquisas sobre esse tema – um presidente pior até do que Dilma Rousseff. O número negativo disparou logo após o vazamento das delações da Odebrecht, em que é citado.

…sim…

Mas as medidas econômicas anunciadas na quinta-feira foram bem recebidas por empresários e especialistas. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Martins Filho, disse que as mudanças nas leis trabalhistas deixarão a Justiça mais tranquila e segura. “Quando a lei é clara é mais fácil trabalhar”. O presidente do TST acredita que não haverá quaisquer prejuízos jurídicos para os assalariados. “A cada direito flexibilizado, há uma vantagem compensatória para o trabalhador”.

A CUT será contra, pois o Governo não é do PT. O trabalho é convencer as outras centrais sindicais a tomar posição a favor, ou de esperar para ver.

…sim…

Um fato é inegável: ao que tudo indica, Temer só deixará a Presidência se quiser. Tem uma tremenda maioria parlamentar, capaz de barrar qualquer iniciativa contra ele. Pode ser que o Tribunal Superior Eleitoral conclua que as irregularidades cometidas por Dilma na campanha eleitoral o atingem, como seu companheiro de chapa, e decida cassar seu mandato, Nesse caso, disse Temer, no café da manhã com jornalistas, em Brasília, entrará na Justiça com recursos contra a decisão – todos os recursos possíveis. A partir de domingo que vem, restar-lhe-ão dois anos de mandato; e, diz a Constituição, se ele deixar o cargo, o substituto será escolhido em eleição indireta. Podem tentar afastá-lo como vingança, uma compensação pela queda de Dilma, mas ninguém vai ganhar nada com isso.

…sim!

A inflação, que caminhava para dois algarismos pelo segundo ano consecutivo, deve ficar pouco acima da margem superior da meta: 6,6%. Boa parte dessa queda, claro, se deve à crise econômica. Mas o eleitor sente no bolso a queda da inflação, e pode voltar-se a favor do Governo.

Brincando no bolso…

O Governo autorizou as empresas aéreas a cobrar as bagagens embarcadas. Explicaram que isso é ótimo porque permitirá reduzir a tarifa de quem não despacha bagagem. Alguém topa apostar com esta coluna?

Michel Temer diz que as novas medidas econômicas talvez não tenham efeito imediato, mas a médio prazo, todos verão, serão ótimas.

…dos outros

Nos dois casos, o Governo diz que tudo vai melhorar, só que mais tarde.

MIRA NO MORO, MORO NA MIRA

As táticas da grande batalha estão totalmente definidas: a defesa do ex-presidente Lula acusa o juiz Sérgio Moro de parcialidade (e as acusações são tão constantes que por vezes o tiram do sério, levando-o a bater boca com a defesa); Moro – e outros juízes que examinam o Petrolão – vão preparando o caminho para que, no dia em que alguém determinar a prisão de Lula, já seja uma medida esperada – como foi, por exemplo, a prisão de José Dirceu.

Especialistas em Direito comentam que Moro irá até uma eventual condenação de Lula, mas sem prendê-lo. Lula se defenderia em liberdade até que um tribunal de segunda instância rejeitasse seu apelo e, na forma da lei, ordenasse a prisão. Lula é réu em cinco processos. Basta uma condenação em duas instâncias para que seja preso e se torne inelegível.

Esta é a ordem de batalha, que pode mudar conforme os acontecimentos. Uma tentativa de fuga, por exemplo; mas Lula não demonstrou intenção de fugir. Foi a Cuba, com jato fretado e tudo, e voltou para enfrentar os julgamentos. Ou um flagrante de obstrução de investigações. Mas Lula até agora não deu qualquer indício de irregularidade. Ou, de outro lado, uma reação explosiva de Moro às constantes acusações de que age com parcialidade, de que – crime dos crimes! – numa cerimônia pública foi fotografado sorrindo ao lado de Aécio. Isso serviria para tentar considerá-lo suspeito. Mas Moro, até agora, é só profissional. É acompanhar a luta.

Homem forte

O presidente Michel Temer desfruta de forte posição no Congresso – a mais forte desde 1996. Na Câmara, dos 513 deputados, 90 estão na oposição. Dos 81 senadores, a turma do “Fora, Temer” tem 16.

Temer pode implantar tranquilamente seu plano de Governo. Se der certo, mérito seu; se não der, não pode botar a culpa na oposição.

Homens fortes

Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas chegou a um dado preocupante: 35% dos entrevistados são favoráveis a uma intervenção militar provisória. São minoria: 59,2% são contrários à intervenção. Mas é surpreendente perceber que 1/3 dos pesquisados esqueceram que a última intervenção militar “provisória” durou 21 anos. O Estado de S. Paulo, em 1964, queria uma intervenção militar provisória. Os militares teriam poder absoluto por seis meses, fariam as reformas necessárias, e entregariam o poder aos civis. Acontece que, quando chega ao poder, ninguém gosta de entregá-lo. Os militares descobriram que era mais fácil governar com o Congresso, na base do toma lá – dá cá, ainda mais com os congressistas amedrontados. Experimentaram mordomias e viram que era bom. Retirá-los foi difícil. E o próprio general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, já se manifestou contra qualquer intervenção militar no Governo.

Honra fraca

A Folha de S.Paulo publicou nesta terça, 20, uma reportagem que merece ser guardada por quem queira entender o Brasil: duas medidas provisórias compradas por R$ 16,9 milhões renderam à Odebrecht R$ 8,4 bilhões. O cálculo é de Cláudio Melo Filho, alto funcionário da Odebrecht especializado em compras, primeiro grande delator premiado da empresa. Claro, houve outras compras, mas essas são um belo exemplo: como era barato aprovar medidas legais que dão a uma empresa, ou a um setor, lucros substanciosos, muito superiores aos gastos que exigiram.

Como diz um antigo provérbio, quem se vende por dinheiro se vende por muito pouco.

Dois detalhes

1 – Em seu acordo de leniência, a Odebrecht se comprometeu a pagar (em suaves prestações) a multa de R$ 6 bilhões. Ou seja, menos do que obteve apenas com a compra de duas medidas provisórias.

2 – A Braskem, cujo controle acionário pertence à Odebrecht, pagará de multa, por seu acordo de leniência, R$ 3,1 bilhões.

O controle acionário é da Odebrecht, mas a Braskem tem outros sócios, que pagarão sua parte na multa, na proporção de suas ações. Uma grande sócia da Braskem é a Petrobras. Também vai morrer com algum.

Todos juntos, vamos

O político baiano Octavio Mangabeira costumava dizer que, por mais que um fato parecesse estranho, tinha precedente na Bahia. Em termos políticos, o Paraná também tem suas peculiaridades. Por exemplo, só no Paraná se imagina a homenagem conjunta aos tucanos Fernando Henrique e Geraldo Alckmin e ao petista Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu, um dos mais emblemáticos altos funcionários a sobreviver à queda do PT. Na segunda-feira, comemorando os 163 anos de emancipação política do Paraná, os três receberam a Ordem Estadual do Pinheiro, concedida pelo governador tucano Beto Richa. Numa boa, sem brigas, só sorrisos.

O BARULHO DOS INOCENTES

Um fato há que reconhecer: tanto o presidente da República quanto o líder da oposição, mesmo vivendo no meio de toda essa sujeira que tanto nos assusta, mantêm intacta sua pureza. Lula conviveu dezenas de anos com José Dirceu, Delúbio, Marcelo Odebrecht, todos já condenados por corrupção, e proclama que é inocente, aliás nem sabia de nada; Temer presidiu o PMDB de Eduardo Cunha por quinze anos, teve convívio próximo com os seis ministros que se afastaram por problemas judiciais, admite ter recebido um empresário do ramo de doações ilícitas (que, na delação premiada, citou seu nome como captador de recursos) mas garante que não tratou disso com ele. É inocente, diz. Não mexia com essas coisas.

É bonito saber que o ambiente depravado em que circularam com tanto êxito, sem saber que era depravado, não afetou sua inocência. Lula sustenta que o apartamento triplex e o sítio de Atibaia não são dele, que a propósito nem imaginava que os voos em jatinhos fossem algo mais que uma gentileza. Temer ofereceu um jantar ao empresário Marcelo Odebrecht em sua residência oficial de vice-presidente da República, o Palácio do Jaburu, após o qual a Odebrecht ficou R$ 10 milhões mais pobre. O delator Cláudio Melo Filho diz que o dinheiro foi para o caixa 2 (o que é confirmado por Marcelo Odebrecht). Temer explica que não, que todas as doações recebidas foram legais, nada de caixa 2. Aliás, o que é Caixa 2?

Fique tranquilo

Estiveram no jantar do Jaburu o então vice-presidente Temer, o deputado Eliseu Padilha, Odebrecht, Cláudio Melo Filho. Como a conta foi paga pelo caro leitor, esta coluna informa que pode ficar tranquilo: Temer é pessoa cultivada, de fino trato, e com certeza comida e vinhos foram bons.

Balanço geral

1 – Temer foi acusado pela segunda vez, nas delações da Odebrecht, de pedir pixulecos de campanha em troca de favorecimentos à empreiteira.

2 – Lula, que já é réu em quatro processos, foi denunciado pela quinta vez pela Lava Jato, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

3 – O quarto processo, da Operação Zelotes, foi recebido anteontem pela Justiça. Refere-se à acusação de tráfico de influência na compra dos 36 caças supersônicos suecos Grippen.

4 – Lula abriu processo por danos morais contra o promotor Deltan Dallagnol. Pede indenização de R$ 1 milhão.

5 – O promotor Deltan Dallagnol critica o Congresso, por modificar o projeto das medidas anticorrupção. “Congresso: nos deixem trabalhar”.

6 – Lembra da liminar do ministro Luiz Fux, mandando, sob críticas do ministro Gilmar Mendes, que o Senado devolvesse à Câmara as “medidas anticorrupção”?

Pois o presidente do Senado, Renan Calheiros, se recusa a cumpri-la. Renan já tinha se recusado a cumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, que o afastava do cargo. Daquela vez ganhou a parada.

Sem fantasia

Já ouvimos autoridades dizer que não podem combater a barbárie que acompanha algumas manifestações de rua por não haver lei específica sobre o tema. Já estamos cansados de ouvir que a manifestação era pacífica, que a Polícia é que atacou os manifestantes e de repente, naquele grupo de pessoas ordeiras e pacíficas, surgiram rojões, morteiros, correntes, socos ingleses e outros objetos que em geral todo mundo traz nos bolsos. Já estamos carecas de aguentar a pregação de que os pacíficos manifestantes, contra sua pacífica vontade, sofreram infiltração de black blocs.

Chega. Chega. A brincadeira já cansou. Os vândalos são filmados, podem ser identificados, mas apenas um ou outro vai preso, e destes, muitos são liberados em seguida. Não há infiltração nenhuma: os vândalos lamentavelmente são parte do grupo, que os aceita e não age de maneira nenhuma contra eles. O que houve na avenida Paulista, há dias, é inaceitável: os vândalos destruindo o teatro do SESI, que apresenta espetáculos gratuitos, e invadindo o prédio da Fiesp, depois de arrebentar sua fachada, e ninguém é preso? O Governo, que detém legalmente o monopólio do uso da força, desistiu da segurança?

Se o Governo deixa de cumprir sua obrigação legal, não estará cometendo prevaricação? Estará ainda dentro da lei?

Uma história de verdade

Dentro de poucos dias ocorrerá o terceiro aniversário do assassínio do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes. Foi morto por um rojão na nuca quando trabalhava na cobertura de uma manifestação no Rio. Os dois acusados do assassínio foram presos em poucos dias. Até hoje não foram julgados (e estão soltos). Até há pouco a Justiça discutia se o caso deve ir a júri. O STJ decidiu que sim. Mas o caso precisou ir a Brasília para a decisão sobre a forma de julgamento. É bom-mocismo demais.

DO OUTRO LADO DO ESPELHO

A área política do Governo Temer está bem complicada: como bananas que passaram do ponto, meia dúzia de ministros já foi descartada, outros aguardam o iminente descarte. Até o presidente já foi citado em delação premiada. Um aliado importante, o senador goiano Ronaldo Caiado, DEM, propôs a renúncia imediata de Temer, para que uma eleição direta indique um sucessor com apoio popular para dar um jeito na crise e na economia.

Mas exatamente a economia tem mostrado bons resultados, submersos pelos erros políticos, pela Operação Lava Jato e pelo cansaço da opinião pública, que provavelmente esperava ação mais decisiva do novo Governo. Há uma nova safra de empresas, em especial as individuais: 1,55 milhão, informa a Serasa. Boa parte dos empreendedores reage ao desemprego que os atingiu, mas o número dá um sinal da força do mercado interno. E há a rápida queda da inflação, que no fim do Governo Dilma buscava dois algarismos e hoje parece estar no centro da meta oficial: 4,5% ao ano. Se o cálculo estiver correto, abre-se campo para redução rápida da taxa de juros. E a emenda que limita os gastos estatais logo logo entra em vigor.

A equipe econômica é boa e trabalha em silêncio. Montou um pacote de oito iniciativas que podem funcionar: por exemplo, um programa de emprego, com R$ 1,3 bilhões em quatro anos, algumas mexidas no crédito, redução na burocracia. A cartada é essa: sai a Política, entra a Economia.

Todos os trunfos…

Ao pedir ao procurador-geral Rodrigo Janot que bloqueie vazamentos de delações premiadas, e as divulgue logo, na íntegra, depois de homologadas pelo STF, Temer, respeitado constitucionalista, sabe o que está fazendo. Se as citações a seu respeito forem verdadeiras, ele não poderá ser julgado por elas, já que se referem todas a período anterior a seu mandato.

…do presidente

E se as citações da delação premiada (faltam 77 delações, só na Odebrecht) continuarem vazando, talvez possam ser contestadas como ilegítimas. Até agora, portanto, não há como atingi-lo do ponto de vista penal. O prejuízo se limita à sua imagem como político e ao debate público.

Coisa estranha

O senador Ronaldo Caiado, expoente do DEM, sabe das coisas. Por isso, sua ideia de que Temer renuncie a tempo de convocar eleições diretas para presidente parece esquisita. Caiado sabe que Michel Temer é do PMDB, e jamais se ouviu dizer que alguém do PMDB tenha largado algum cargo.

Coisa normal

O presidente do DEM, Agripino Maia, é claro: antecipar eleições é ideia de Caiado, não do partido. O DEM continua firme apoiando o Governo.

Efeito externo

Michel Temer conversou ontem, pela primeira vez, com o presidente americano eleito, Donald Trump. Temer disse que o Brasil tem interesse em atrair capitais americanos, Trump cumprimentou-o pelo programa de reformas econômicas e apresentou pêsames pelo desastre do Chapecoense,

Lula sob pressão 1

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Lula por corrupção passiva. Com ele, foram indiciados sua esposa, Marisa Letícia, seu advogado e compadre, Roberto Teixeira, o ex-ministro Antônio Palocci e mais três pessoas. Motivo: a Federal considera que a compra de um terreno para a construção de um novo Instituto Lula e de um apartamento ao lado daquele em que mora, que estaria em nome de terceiros, mas alugado pela esposa de Lula, foram feitas com propina da Odebrecht. Lula diz que nenhuma das duas compras ocorreu, que não há planos de mudar o local do Instituto Lula, e que ele vem sendo perseguido pelo delegado Márcio Anselmo.

Lula sob pressão 2

Outra operação da Polícia Federal, iniciada na terça-feira, apura fraudes e desvio de pouco mais de R$ 10 milhões no Museu do Trabalhador, que está sendo construído em São Bernardo do Campo, ao lado do Paço Municipal, e é conhecido na cidade como Museu do Lula. É a Operação Hefestos, que atingiu 16 pessoas, oito em prisão temporária, oito em condução coercitiva. Hefestos, ou Hefaístos, é o nome grego de um deus conhecido pelos romanos como Vulcano, que se dedicava à metalurgia. A operação foi autorizada pela 3ª Vara Federal de São Bernardo, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada em fraude às licitações, peculato e uma série de outras ilegalidades.

Os especialistas

Nossos parlamentares, faça-se justiça, são observadores sagazes das mais diversas situações. Com a emenda de limitação de gastos, e a reforma da Previdência, os parlamentares aumentaram suas férias em sete dias. Pela Constituição, deveriam trabalhar até dia 22, mas só ficam até o dia 15.

ELES VOLTAM. E VOLTARAM

Em maio de 1959, o jovem líder revolucionário Fidel Castro visitou o Brasil e foi recebido como herói. Houve festa em sua homenagem na mansão dos Nabuco, no Rio, cheia de gente importante. O prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros, disse a Fidel que admirava a revolução cubana, mas desaprovava os fuzilamentos. Fidel se explicou: “Pero solo fuzilamos los ladrones del diñero público”. Adhemar, a quem se atribuía o slogan “rouba, mas faz”, rebateu: “Os ladrões voltam, señor. Sempre voltam”.

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Adhemar de Barros e Fidel Castro

Adhemar tinha razão. Para manter Renan, que enfrenta onze inquéritos e é réu por peculato (desvio de dinheiro público), na Presidência do Senado, houve um grande e discreto acordo. Ninguém perdeu. Quem ganhou?

Mais fortes: ministra Carmen Lúcia, ministro Celso de Mello, senador Romero Jucá. Supersalários? Algum dia, lá no futuro, voltarão à discussão.

Prestigiado: Renan. Mas em poucos dias deixa de ser presidente do Senado. Forte, mas menos. Desacato, abuso de autoridade? Um dia, talvez.

Mais ou menos: Temer. Seus projetos econômicos serão aprovados rapidamente pelo Congresso. Está aliado a Rodrigo Maia, que como presidente da Câmara rejeitará todos os pedidos de impeachment. Em compensação, não conseguiu nem nomear o substituto de Geddel: chegou a anunciar Antônio Imbassahy, mas teve de recuar porque o Centrão não deixou. Quem não consegue enfrentar nem PTB, PR, PSD e PP forte não é.

Viva o supersalário!

Os supersalários que, um dia, voltarão ao debate, eram uma questão urgentíssima, considerados a bomba atômica de que os parlamentares dispunham para enfrentar juízes e promotores. Já não são urgentíssimos, pois cada setor encontrou seu lugar de conforto sem uso de armas tão letais. Mas o trabalho da senadora Kátia Abreu (PMDB-Tocantins) tem dados interessantes. De acordo com a Constituição, o maior salário que pode ser pago ao servidor público é o de ministro do Supremo: R$ 33.700 mensais. Mas há funcionários que, acumulando benefícios, chegam a R$ 100 mil.

O duelo que não houve

O ministro Marco Aurélio, que desencadeou a crise mandando o Senado trocar de presidente, disse que a decisão que manteve Renan foi um “deboche institucional”. Mas, quando afastou Renan e foi ignorado, poderia ter mandado prendê-lo por desobediência. Preferiu pedir um parecer à Procuradoria Geral da República.

O ministro Gilmar Mendes, que sugeriu ao Senado votar o impeachment de Marco Aurélio ou reconhecer-lhe a inimputabilidade (falta de condições para responder por seus atos), viajou e nem participou da votação.

E Curitiba?

Sérgio Moro tem prestígio no Supremo, ganho pelo profissionalismo com que vem atuando; e construiu boa reputação quando a ministra Rosa Weber o chamou para auxiliá-la. Mas aquele apoio total que recebeu de alguns ministros já não é tão total. Os ministros devem ter notável saber jurídico e ilibada reputação, condições básicas para ser nomeados; mas seu cargo é político. Talvez alguém tenha chegado à conclusão de que um juiz puro e duro como Moro, inconversável, precise ouvir mais o Supremo.

O trabalho do juiz

Mas que ninguém subestime Moro. Ele cresceu cumprindo rigidamente a lei. Não deve mudar, ainda mais agora que tem uma chuva de delações.

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Lava Jato premiada

A Operação Lava Jato ganhou o Prêmio Innovare de 2016, na categoria Ministério Público, derrotando 51 outras iniciativas do MP. A força-tarefa da Lava Jato reúne 14 procuradores, 50 servidores de outras áreas, mais equipes da Polícia Federal, Receita, Petrobras, Coaf, Cade, CGU e CVM.

Às vésperas de receber o prêmio nacional, a Lava Jato recebeu o da Transparência Internacional, disputado por mais de 500 organizações de todo o mundo. A Lava Jato firmou 70 acordos de delação, fez 175 prisões, com 23 sentenças condenatórias, e pediu R$ 38 bilhões de ressarcimento. O balanço completo está na página do Conselho Nacional de Justiça.

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Petismo médico

O Governo petista caiu, o PT levou uma surra nas eleições, mas o petismo militante continua vivo. Sem repetir os dogmas petistas, era impossível passar na prova de Português do concurso para ginecologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 15 das 20 questões, observa o colunista Cláudio Humberto as “respostas certas” eram as que louvavam o PT e a administração da presidente impichada Dilma Rousseff. “Resposta certa”, por exemplo, era a que dizia que houve golpe no Brasil. E a maioria esmagadora do Congresso que afastou Dilma era chamada de “força tirânica de maioria institucional”.

TODOS UNIDOS PARA ENXUGAR GELO

Multidões, em 200 cidades do país, gritaram “Fora Renan”. E foram atendidas. Talvez isso mude após a reunião de hoje do Supremo, talvez não mude. E não vai fazer a menor diferença.

Este colunista está entre os que ficaram contentes com o afastamento de Renan – até se lembrar de que o substituto de Renan na Presidência do Senado é Jorge Viana (PT-Acre). O motivo do afastamento de Renan é que um réu não pode estar na linha sucessória da Presidência da República. E Jorge Viana é réu, numa ação por improbidade administrativa como governador do Acre, movida pelo Ministério Público Federal.

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O fato é que Renan é parte do problema, mas não é o problema inteiro. O problema está na organização política: a campanha é caríssima, exige a captação de muito dinheiro, e ninguém dá muito dinheiro só por simpatia. São quase 40 partidos, pagos por você, caro leitor: é algo como R$ 1 bilhão por ano – fora o horário gratuito, a preços de tabela cheia, que as emissoras recebem em créditos fiscais. Haverá mais algum para pagar as campanhas. Os Estados Unidos não têm nenhuma despesa com isso. Cada candidato que se vire. Há o voto distrital, que baratearia tudo – mas quem quer isso?

Sai um Renan. ótimo. Mas surgem dois, três, muitos. Eles são legião, nutridos pelos fartos recursos mobilizados para eleições. É possível, é fácil, mudar o quadro. Só é preciso saber que gelo não se enxuga, se derrete.

Brasília ferve

A decisão do ministro Marco Aurélio, de afastar Renan da Presidência do Senado, deixou Brasília perplexa. Um dia isso poderia acontecer (Renan é réu em um processo e tem outros 12 inquéritos em andamento), mas seu mandato só dura mais dez dias. E surgiram manobras jurídicas: o Senado decidiu não tomar qualquer providência imediata, aguardando a decisão do plenário do Supremo, hoje. Não chega a ser um confronto, de recusar-se a cumprir uma decisão judicial; é mais uma demora no seu cumprimento – que terá o efeito de anulá-la, conforme a decisão do plenário do Supremo,. Há também um desafio: o ministro Gilmar Mendes abriu fogo contra Marco Aurélio (veja abaixo) com termos pouco habituais para pessoas que usam toga. Qual a reação de Marco Aurélio, diante da decisão do Senado?

Ferve o Supremo

O ministro Gilmar Mendes deu entrevista ao respeitado jornalista Jorge Moreno, de O Globo, sobre a decisão do ministro Marco Aurélio de afastar Renan. Gilmar já dizia, em particular, que “não se afasta o presidente de um poder por iniciativa individual e com base em um pedido de um partido político apenas, independentemente da sua representatividade”. Para Moreno, Gilmar abriu o jogo. Algumas frases sobre Marco Aurélio:

* “É caso de reconhecimento de inimputabilidade ou de impeachment”;

* “No Nordeste se diz que não se corre atrás de doido porque não se sabe para onde ele vai”.

Narra o blog: “durante encontro com políticos, Mendes chegou a chamar de ‘indecente’ a decisão de Marco Aurélio e, nesse sentido, advertiu que, se o Tribunal quiser restaurar a decência, terá que derrubar a decisão”.

Planalto fervente

Mas, se o mandato de presidente do Senado está no finzinho, por que tanta preocupação? Porque o Governo quer votar logo a emenda constitucional que impõe limites ao gasto público, uma das chaves do plano econômico do ministro Henrique Meirelles. Renan concorda em votá-la nos dez dias que lhe restam. O PT quer segurá-la ao máximo. Jorge Viana é PT.

Governo gelado

Os indicadores econômicos não são lá grande coisa, a reforma da Previdência só agora foi ao Congresso (onde enfrenta muitas resistências), e a aprovação do limite de gastos do Governo indicará aos investidores que as coisas estão andando. É preciso ter algo para mostrar. A única coisa que ocorreu de novo foi a declaração de apoio de Temer a Meirelles. Como se diz no futebol, “o técnico está prestigiado”. No futebol, o técnico cai logo.

Frio na espinha

A reforma da Previdência, a outra chave do plano econômico do ministro Henrique Meirelles, provocará intensas discussões: aposentadoria aos 65 anos, contribuição mínima por 25 anos, unificação dos regimes de aposentadoria, com unificação das normas para empregados dos setores público e privado (só os militares ficarão fora), redução das pensões por morte de 100% para 50%, o viúvo, mais 10% por filho. Os atuais segurados com mais de 50 anos (homens) e 45 anos (mulheres) terão normas de transição. Abaixo dessas idades, é na veia: novas normas para todos.

É muita discussão. Mas, como diz a abertura desta coluna, pelo motivo errado. Como se aposentar com 65 anos se gente com 40 já é considerada velha? Só com falta de mão de obra. Crescimento. E empregos sobrando.

MORTAL LOUCURA SEM CURA

Para os romanos, um poeta (“vate”) tinha dons divinos, entre eles o de prever o futuro – “vaticínio”. Parece que tinham razão: um monumental poeta brasileiro, falecido num final de novembro há 320 anos, é o autor de Mortal Loucura) – poema que, com música de José Miguel Wisnik, na voz de Maria Bethania, foi a trilha sonora de Velho Chico. Até isso ele previu!

A loucura começa pelo presidente da República, que considera “um fatozinho” a pressão de um ministro para obrigar outro a desconsiderar uma lei para poder construir um apartamento em Salvador. Continua pelo Congresso, que tenta votar disfarçadamente uma anistia imoral, bem quando todo mundo está prestando atenção; e culmina com promotores da Lava Jato ameaçando renunciar se a lei anticorrupção que sugeriram (e que é discutível) não for aprovada do jeito que querem. “Quem do mundo a mortal loucura… cura”, diz o poeta. Os procuradores não podem renunciar a uma investigação, a menos que se demitam. É o trabalho para o qual foram designados, ponto. Empenhar-se menos seria fazer o jogo de quem quer escapar das investigações – que não ficariam tristes se os procuradores renunciassem à Lava Jato. E não é função de procuradores, por mais razão que tenham, dar ordens ao Congresso e ao presidente da República.

Agora entram no Supremo cerca de 80 delações da Odebrecht. Quando haverá denúncias e julgamentos? “Será no fim dessa jornada… nada”.

Mistérios mil que desenterra…

Parecia impossível, mas possível foi: Renan Calheiros se torna réu e será julgado pelo Supremo, que recebeu a denúncia de peculato. O presidente do Senado é acusado de pagar a pensão de uma filha que teve fora do casamento, com dinheiro fora dos trâmites legais, que recebia de uma empreiteira. Tão logo o caso se tornou conhecido, Renan admitiu que tinha a filha, a mãe da filha falou sobre o caso (e posou para Playboy), sabia-se qual era a empreiteira, conhecia-se o portador dos pixulecos mensais. O caso chegou ao Supremo em 6 de agosto de 2007. Passaram-se nove anos até que a denúncia fosse aceita. E ainda falta o julgamento.

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… enterra

A Odebrecht é organizadíssima, e a organização se estende ao ramo de pagamentos descentralizados. Há informações completas sobre o pixuleco, seus destinatários, entregador, receptor, local e horário da entrega. Com assustadora frequência a entrega é fotografada ou filmada – a Odebrecht sabia com quem lidava. Pois bem: se no pixuleco romântico para Renan já se sabia de tudo, com nomes e quantias, e o caso levou mais de nove anos para chegar à aceitação da denúncia, quanto tempo levará para processar o tsunami de documentos e chegar ao mesmo estágio? Há gente imaginando até que se trate de uma estratégia da defesa da Odebrecht: fornecer todas as informações possíveis e soterrar o Supremo com o excesso de trabalho.

Quem do mundo a mortal loucura… cura

Este colunista conheceu o jornalista Perseu Abramo nas redações. Jornalista meticuloso, atento aos detalhes, estudioso (formou-se também em Sociologia, fez mestrado), dono de excelente memória e texto esmerado. Nos tempos pré-Google, era a ele que se recorria para refrescar a memória. Era também a ele que se dirigia quem tinha dúvidas sobre grafia correta ou questões de gramática. O jornalista Gilberto di Pierro, Giba Um, até hoje, vinte anos após a morte de Perseu Abramo, ainda se queixa da falta que lhe fazem a cultura, a memória, a boa educação e a paciência do amigo ao elaborar sua coluna diária.

E quem é que o PT coloca como presidente do Conselho Curador de sua Fundação Perseu Abramo? Sim: Dilma Vana Rousseff. Voltando a nosso poeta, “O voz zelosa que dobrada… brada”.

Da morte ao ar não desaferra…

A posse como presidente da Fundação Perseu Abramo foi o último compromisso de Dilma Rousseff no país. Em seguida, iria para Cuba com o ex-presidente Lula, para prestar as últimas homenagens a Fidel Castro. As cinzas de Castro partem de Santiago de Cuba (onde está o túmulo de Che Guevara, seu companheiro de revolução) e farão um circuito pelo país.

… aferra

É uma bonita atitude de Lula e Dilma: mesmo enfrentando problemas, não esqueceram do amigo. Mas outro amigo, que fisicamente esteve muito mais próximo de ambos, que enfrenta a pior fase de sua vida, não mereceu a honra de uma visita dos amigos: é José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”, que chamou Dilma de “companheira de armas”. Dirceu está preso desde 3 de agosto de 2015, condenado a mais de 20 anos de prisão e com processos ainda correndo. Apesar da pena pesada, Dirceu lembrou dos amigos e se recusou a fazer a delação premiada. O comando do PT, Lula e Dilma incluídos, o deixou abandonado na prisão de Curitiba.

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CRÔNICA DA CRISE ANUNCIADA

A informação é oficial, do IBGE: a renda da população se reduziu em 5,4% em 2015, último ano completo de Dilma na Presidência. É a primeira queda em 11 anos.

“É a economia, estúpido”, repetia o estrategista-chefe do candidato Bill Clinton, James Carville. Explorar o desemprego, principalmente, era a única maneira de derrotar o presidente Bush (o pai), vitorioso na guerra contra o Iraque e na defesa do Kuwait, que tinha sido ocupado pelos iraquianos. Clinton ganhou e se reelegeu cuidando da economia. As guerras ele deixou para os republicanos, os dois Bush, pai e filho.

E aqui? O presidente Temer passa seu tempo discutindo política, como se a população empobrecida, desempregada, irritada com tanta roubalheira, estivesse preocupada com o substituto de Geddel. Trata de um assunto ridículo como o apartamento que é de Geddel, mas não foi construído, como se o assunto fosse da alçada do presidente. Houve tentativa de obter favores indevidos? Era muito mais simples afastar do Governo o ministro abusado, para recolocá-lo quando sua inocência estivesse comprovada. E voltar-se ao corte de despesas oficiais, que é o que todos esperavam.

O auxílio-moradia para quem não precisa custou, neste ano, até 18 de novembro, R$ 1 bilhão e pouco – mais que os 900 milhões do ano passado inteiro. E R$ 281 milhões gastou a Fazenda, que deveria cortar despesas.

FASS

Há 2 mil anos atrás

Frase perfeita sobre o Governo Temer que o bom jornalista Fernando Albrecht  foi buscar em Diógenes, pensador grego do século 4 Antes de Cristo: “Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador”. Michel Miguel Temer Lulia é vítima de ambos.

De volta para o passado

O presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá, anunciou que o partido quer mudar de nome e voltar a ser MDB, como foi entre 1966 e 1979. Depois de aprovada em consulta aos diretórios estaduais, a mudança seria efetivada em fevereiro de 2017. A ideia de voltar a 1979 é tão boa que merece ser ampliada: por exemplo, mudar o nome do presidente do partido de Romero Jucá para, como nos velhos e bons tempos, Ulysses Guimarães.

Tudo certinho

Diz Romero Jucá: “Queremos deixar de ser partido e ser um movimento”. Vivendo e aprendendo: este colunista sempre achou que girar os dedos da mão em torno do polegar fixo também fosse um movimento.

A economia é a política

A primeira medida econômica de longo alcance de Michel Temer é a PEC, proposta de emenda constitucional, que estabelece um limite para os gastos do Governo. É uma providência que atende aos desejos de boa parte da opinião pública, favorável à redução da gastança; e por isso está sob fogo dos movimentos lulistas, ansiosos por convencer o eleitorado de que a PEC do limite de gastos se volta contra os orçamentos da Educação e da Saúde (não é verdade, mas a própria Dilma já dizia que em campanha se faz o diabo). E como é que a PEC está sendo apresentada à opinião pública? Não está: pesquisa Ipsos mostra que 40% da população não sabem do que se trata. E não seria difícil apresentá-la convenientemente: 64% são a favor de reduzir os gastos públicos. Da PEC só se mostram os sacrifícios, esquecendo o motivo dos sacrifícios e as vantagens que dizem que trará.

O lado brilhante

Tudo mal? Talvez. Um senador importante, em conversa com o ex-prefeito carioca César Maia, acha que até a crise do apartamento que se existisse seria de Geddel acabará bem para Temer. Este senador, segundo César Maia, é dos que vale a pena ouvir.

A economia e a lei

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou proposta de Ivo Cassol, do PP de Rondônia, que limita os juros dos cartões de crédito ao dobro da taxa Selic. Hoje em dia, os juros cairiam de 475,8%, conforme o Banco Central informou há poucos dias, para 28%.

Ótimo. Mas, se os juros de 12% ao ano, fixados pela Constituição, nunca foram obedecidos, por que um limite fixado por lei seria respeitado?

Ano quente

Lula, no processo em que é acusado de ser mandante do suborno para comprar o silêncio de Nestor Cerveró, deve ser interrogado em Brasília em 17 de fevereiro – dois dias depois do interrogatório de Delcídio do Amaral, que foi gravado pelo filho de Cerveró quando lhe passava uma proposta de facilitação de fuga do Brasil, acompanhada de um substancioso suborno.

Este caso não tem nada a ver com o apartamento à beira-mar e o sitio de Atibaia que Lula diz que não são dele, que são examinados em Curitiba.

IMÓVEIS, GOVERNO, TUDO FANTASMA

País estranho, esse nosso. Num caso o apartamento com vista para o mar existe, mas todo mundo nega ser seu dono. Em outro caso, o dono existe; o que não existe é o apartamento. Nos dois casos a briga é brava: num dos casos, o dono que não é dono foi colocado em cheque e enfrenta o juiz Sérgio Moro; no outro, o apartamento que não existe acaba de derrubar um ministro e de colocar em xeque o presidente da República.

Temer demorou a agir, Geddel demorou a sair. Com isso, ficou claro que aquele Temer determinado, assertivo, que foi secretário da Segurança em São Paulo, transformou-se num Temer que tem medo de tomar posição. E agora tem bons motivos para temer o futuro. Há quem queira derrubá-lo, mas isso não é preciso. Mesmo ficando, presidir é que não vai.

Um peemedebista, citado pelo repórter Maurício Lima, do Radar on-line, tem a seguinte leitura da situação: o pedido de impeachment que o PSOL tenta formalizar, o próximo presidente da Câmara terá superpoderes. A decisão de dar prosseguimento ao processo será dele, que terá interesse no caso: afastado Temer, ele será seu substituto na Presidência. Embora interino, é tentador.

Cá entre nós, é o que dá escolher para o Ministério gente com telhado de vidro. Briga de R$ 2,5 milhões? No país do Petrolão, mixaria. É como o triplex que não é do Lula, que tem 171 m². Vale a pena lutar por isso?

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Baixaria

Quem achava que Delcídio do Amaral revelou seu caráter ao procurar amigos e gravar as conversas para implicá-los, e obter o máximo por sua delação premiada, tinha razão. Mas a demissão de Marcelo Calero foi do mesmo quilate. Gravar as pressões de Geddel para que fosse liberada a construção de seu apartamento, vá lá. Mas ir ao presidente só para gravá-lo, o presidente que o tirou do anonimato e o transformou em ministro, aí já é meio muito. Bem feito para Temer, que tinha extinto o Ministério da Cultura e voltou atrás, buscando o aplauso de quem, por motivos ideológicos, jamais o aplaudiria, mesmo que fosse um grande presidente.

Complicou

Este é um momento-chave para Temer, com votações importantes no Congresso, em que ele mais precisa de sua articulação política. Perdeu o ministro que cuidava disso. E deixou parlamentares importantes, que assinaram manifesto em favor de Geddel, pendurados na brocha.

Palavra de amigo

Fernando Henrique, em conversa com repórteres, disse que, diante das circunstâncias brasileiras depois do impeachment, o que temos de fazer é atravessar o rio. “Isso é uma ponte. Pode ser uma ponte frágil, uma pinguela. Mas é o que tem. Se você não tiver uma ponte, cai no rio”.

Isso mostra a força atual do Governo Temer: Fernando Henrique, que diz essas coisas, é um de seus maiores aliados.

O burro falante

Conta-se que na antiga Arábia um camponês foi preso por roubar um burro e condenado a uma longa pena. Apelou e disse ao vizir que mandava na região que tinha roubado o burro para ensiná-lo a falar. O vizir se interessou e o camponês prometeu que, se o vizir lhe desse um burro, em dez anos ele estaria falando. O vizir lhe deu o burro mas esclareceu que, se o burro não falasse direitinho, o camponês seria condenado à morte.

Ao saber da história, a mulher do camponês se desesperou: “Você assinou sua sentença de morte!” O camponês explicou: “Fique tranquila, mulher. Daqui a dez anos, morreu o vizir, morri eu ou morreu o burro”.

Os vivíssimos votantes

É por isso que o Congresso deve (não há certeza, mas é a atitude mais provável) aprovar a anistia a quem doou ou recebeu dinheiro para caixa 2, apesar das pressões da sociedade civil, apesar de eventuais manifestações de rua, apesar da possibilidade de que a Justiça intervenha, apesar de prejuízos eleitorais. Se a Justiça intervier, começa uma daquelas batalhas demoradas – com um pouco de sorte, dois anos, quando terminam os mandatos parlamentares. Prejuízos eleitorais? As eleições serão daqui a dois anos, quando, esperam Suas Excelências, o caso já esteja esquecido. Se a anistia não for aprovada, muitas Excelências enfrentarão em breve a Lava Jato, ou outras forças-tarefas, e em pouco tempo estarão sendo interrogados pelo juiz Sérgio Moro. Qual alternativa deverão escolher?

A voz do trono

O presidente Michel Temer não deu sua opinião sobre a anistia. Ou melhor, deu: disse que sancionará aquilo que for decidido pelo Congresso.

A crise e a história

A lendária Karmann-Ghia, que produziu um primeiro carro esporte do Brasil, modelo belíssimo, foi à falência. Mais 700 operários sem emprego.

DIAS DE HOJE, IGUAIS AOS DE ONTEM

Quando o deputado Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro, sua Inglaterra estava perdendo a guerra contra a Alemanha nazista. Fez um discurso curtíssimo, com quatro promessas: sangue, trabalho, suor e lágrimas. Cumpriu as quatro (e perdeu as primeiras eleições após a vitória na guerra). Mas é cultuado até hoje como herói nacional.

O ex-deputado Michel Temer teve a mesma oportunidade de Churchill. Ao assumir, os cidadãos sabiam que precisaria tomar medidas normalmente impopulares; seus adversários tinham perdido força após sucessivos erros; e ele, com idade avançada, não precisava pensar em reeleição, mas em sua biografia. E que fez Temer com esse cheque em branco? Nomeou Geddel.

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Geddel é um político hábil, mas sua história sempre foi controvertida. Antônio Carlos Magalhães o chamou de “agatunado” e divulgou o vídeo “Geddel vai às compras”, em que o acusa de ter comprado 12 fazendas na Bahia e seis apartamentos em Brasília sem ter, legalmente, recursos para isso. Agora foi um colega de Governo, que se demitiu do Ministério acusando Geddel de tê-lo pressionado para liberar a construção de um prédio em que comprou apartamento, em área tombada de Salvador. Usar o prestígio ministerial por um apê? Roberto Jefferson, que denunciou o Mensalão, chamá-lo-ia de “petequeiro”, por disputar migalhas. E Temer perdeu a chance de afastá-lo na hora e mostrar que os tempos mudaram.

…cada vez aumenta mais

Nada como ter prestígio na Corte, nada como ter prestígio com o chefão.

Deputado Jovair Arantes, PTB de Goiás: “Geddel é um excelente ministro, interage muito bem com a Câmara”.

Deputado Rogério Rosso, PSD de Brasília: “Entendo ser um assunto superado”.

Senador Ronaldo Caiado, DEM de Goiás: “(…o ministro Geddel) não poderia ter misturado as coisas. Ele poderia tocar no assunto se não tivesse nenhuma propriedade no prédio. No momento em que você tem propriedade no prédio, isso pode parecer para a opinião pública que você está se valendo do cargo para benefício próprio”. Pois é. Pode parecer.

Fraquezas de memória

Já no fim de seu Governo, conta o ótimo repórter Jorge Moreno, Sérgio Cabral conversava com um deputado que sugeria pequenas mudanças urbanísticas que, a seu ver, causariam efeito positivo em Niterói, como causaram em várias cidades francesas. “Governador, morei dois anos em Paris e vi como as praças…” Cabral o interrompeu: “Paris? Que inveja!” e começou a listar os pontos parisienses de que mais gostava. O deputado puxou conversa, disputando quem conhecia mais pontos interessantes de Paris, até que um terceiro perguntou: “Vamos voltar a Niterói?”

Mas, em seus depoimentos à Polícia Federal, disse que não lembra que joias comprou, ou o valor de suas obras de arte, ou quem paga as despesas de manutenção de sua casa e família. Ele lembrava, por exemplo, que no final de 2010 teve de fazer obras em sua casa e, por isso, passou algum tempo num imóvel emprestado por um amigo. Mas não lembrava quem tinha contratado e pago a obra e a nova mobília. Também não sabia se era verdadeira a informação da vendedora de uma joalheria, de que pagava tudo em dinheiro vivo. A memória de Cabral já não anda tão boa.

Arquivos implacáveis

Dilma Rousseff também tem tido problemas de memória. Garantiu, por exemplo, que Cabral apoiou em 2010 a candidatura de Serra, e em 2014 a de Aécio, ambos do PSDB. Pois não é que já acharam um vídeo de Dilma e Cabral fazendo propaganda juntos? E, dando um Google, acharam também as notícias do apoio de Cabral a Dilma em 2010 e em 2014?

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E as leis?

O deputado Carlos Marun, PMDB do Mato Grosso do Sul, é um dos principais membros da bancada que quer rejeitar a proposta de pacote anticorrupção proposto pelo Ministério Público. “Como está, não passa”.

Marun é ligadíssimo ao ex-senador Delcídio do Amaral, que há pouco fez delação premiada para de livrar da cadeia. Acusado de corrupção.

O trensalão, enfim

Nove anos depois de denunciado na Suíça (e republicado nesta coluna), três anos depois de a Siemens informar às autoridades brasileiras que tinha participado de cartéis para fornecer equipamento ao Metrô e a trens urbanos, dois anos depois de a Polícia Federal ter indiciado mais de 30 pessoas por envolvimento no caso, o Ministério Público Federal está preparando as denúncias relativas a São Paulo, envolvendo a companhia do Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Todos os casos se referem a governos do PSDB, que governa o Estado desde 2004. Dos três candidatos tucanos à Presidência, só Aécio não governou São Paulo.

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ALI BABÁ E OS MILHARES DE LADRÕES

Ali Babá no Brasil não teria a menor chance. Nas Mil e Uma Noites derrotou 40 ladrões, mas como enfrentaria as fabulosas hordas de ladrões que conhecem a senha dos cofres públicos? Lula, que já naquela época não sabia de nada, orçou a ladroagem congressual em 300 picaretas (e, ao ganhar poder, aliou-se a todos). Errou feio ao subestimar o número. Mas, embora não seja chegado à leitura de filósofos e pensadores, compreendeu o pensamento de John Dalberg, o primeiro barão de Acton, “Todo poder corrompe”. Abriram-se as porteiras e cada um tratou de garantir o seu.

Um ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, foi preso, acusado de receber R$ 224 milhões em pixulecos. No custo das obras, somavam-se 7%, dos quais, diz a força-tarefa da Lava Jato, 5 eram para Cabral, 1 para o assessor Hudson Braga e 1 para dividir entre alguns conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. Fala-se também de uma mesada paga a Sua Excelência por empreiteiras.

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No presídio, encontrou outro ex-governador, que já foi aliado e hoje é adversário, Anthony Garotinho – cuja esposa é prefeita de Campos, cuja filha é deputada federal. Ambos foram, em épocas distintas, aliados e adversários do petismo. Os dois, aliás, não estão juntos no presídio, como talvez fosse educativo: adversários quando no poder, forçados ao mesmo destino. Uma decisão judicial superior autorizou Garotinho que fosse para um hospital particular e se trate lá.

Conto carioca

Em 2010, a Prefeitura do Rio investiu R$ 44 milhões em valores da época na Cidade do Rock, destinada ao Rock in Rio, com garantia de permanência. “Com o novo local”, disse o empresário Roberto Medina, proprietário do evento, “o Rock in Rio poderá acontecer a cada dois anos”.

Agora, decidiu-se erguer uma nova Cidade do Rock no lugar do Parque Olímpico. E os R$ 44 milhões (que hoje, corrigidos, dariam R$ 70 milhões)? E o que se gastou para erguer o Parque dos Atletas, que também deveria ser utilizado depois das Olimpíadas? OK, foi gasto da Prefeitura, não do Estado. Mas o prefeito Eduardo Paes faz parte do grupo político de Sérgio Cabral e do atual governador Pezão, do PMDB – no poder desde 2007. Talvez esse caso ajude a entender a crise financeira do Rio.

Cabral? Quem?

Dilma Rousseff não perde a oportunidade de perder uma oportunidade. E acaba de perder uma grande oportunidade de calar-se. Mas fez questão de se manifestar sobre a prisão de Sérgio Cabral: disse que ele jamais foi seu aliado. Mas foi, sim: há vídeos de ambos juntos em comícios, em 2010. fazendo campanha. E, quando o PMDB do Rio hesitou em apoiá-la, em 2014, foi Sérgio Cabral o primeiro a pedir votos para a candidata. Se é para mentir, e num caso em que sua opinião nem é tão solicitada, por que falar?

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O de sempre

Parecia impossível, mas está acontecendo: os gastos sigilosos com cartões corporativos, no Governo Temer, são 40% maiores que os do Governo Dilma. Em seus primeiros cinco meses, Temer já gastou R$ 13 milhões, enquanto em seus cinco primeiros meses Dilma gastou R$ 9,4 milhões. Os números foram apurados pelo respeitado site Contas Abertas.

Carmen Lúcia…

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, argumenta com números: “Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por mês, e um estudante de ensino médio custa R$ 2,2 mil por ano. Alguma coisa está errada na nossa Pátria Amada”. Vai mais longe: “Darcy Ribeiro fez em 1982 uma conferência dizendo que, se os governadores não construíssem escolas, em 20 anos faltaria dinheiro para construir presídios. O fato se cumpriu (…) Quando não se faz escolas, falta dinheiro para presídios”.

…é isso aí

Carmen Lúcia apontou a solução a longo prazo, mas acha possível tomar providências imediatas. “A violência no país exige mudanças estruturantes e o esforço conjunto de governos e da União, para que possamos dar corpo a uma das necessidades do cidadão, que é ter o direito de viver sem medo. Sem medo do outro, sem medo de andar na rua, sem medo de saber o que vai acontecer com seu filho”. E lembrou que, a cada nove minutos, uma pessoa é morta violentamente no Brasil. “Nosso país registrou mais mortes em cinco anos do que a guerra na Síria”.

País tropical

A ministra só não disse o que leva tantos governantes a investir mais em cadeias do que em educação. É que muitos, depois de exercer o poder, não é para a escola que vão. João Bussab, decano da imprensa policial paulista, sugere que os políticos corruptos harmonizem seus interesses com os do país. Como quiseram construir um shopping exclusivo no Congresso, que façam um presídio exclusivo para políticos. Estarão cuidando do futuro.

NOS ENGANA QUE A GENTE GOSTA

Errar é humano, mas acreditar sempre é insano. Nos Estados Unidos, há cada vez mais gente séria dizendo que a torcida dos jornais e jornalistas por Hillary, associada à incredulidade sobre Trump, fez com que o público ficasse mal informado e se surpreendesse com a vitória republicana. “Como todos, erramos”, disse Tony Romando, da Topix Media, que produziu uma edição especial de Newsweek com Hillary na capa, Madam President” – e soltou a edição antes da hora, tendo de sair correndo para recolher milhares de revistas já entregues a assinantes e jornaleiros.

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Há outro exemplo americano clássico; em 1948, todos previam a vitória do republicano Thomas Dewey sobre o presidente Harry S. Truman. Truman ganhou; e, na foto de sua entrevista como presidente reeleito, exibiu o Chicago Daily Tribune com a manchete Dewey Derrota Truman.

Acontece; como aconteceu em São Paulo, onde Fernando Henrique até posou para fotos sentado na cadeira de prefeito. A promessa era de que as fotos só sairiam após a apuração. Fernando Henrique acreditou. As fotos, claro, vazaram, e fizeram a delícia dos adversários (Jânio desinfetou a cadeira, na frente dos fotógrafos, “porque nádegas indevidas a usaram”). Houve – e não houve – a festa da vitória que não houve, no ótimo bufê Baiúca – o belo salão vazio, com impecáveis garçons e maitres esperando, com boa bebida e ótimos salgadinhos, os fernandohenriquistas que não mais viriam.

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Pois é, falaram tanto

À medida que as urnas eram apuradas e a vantagem de Jânio se mantinha, políticos e repórteres explicavam que aquelas urnas eram só de áreas janistas. Eram; e bastaram. Este colunista era editor-chefe da Folha da Tarde e só um ótimo repórter, João Russo, aliás tucano, interpretou bem o que acontecia: “Jânio está ganhando em todas as urnas. Perdemos”.

Ninguém me ama

E o consumidor de informação? Ou acompanha vários noticiosos ou fica preso à opinião de um – nem desonesto nem mal informado, mas que pode ser influenciado por suas próprias opiniões. Às vezes, nem assim o leitor, ouvinte, espectador escapa: certas certezas são tão certas que, se os fatos forem contrários, danem-se os fatos. Agora, Delcídio do Amaral, em entrevista explosiva ao repórter Cláudio Tognolli no Yahoo!, seguida de outra na Rádio Jovem Pan, diz que Lula e Dilma sabiam perfeitamente o que ocorria nos bastidores. Importante: Delcídio fez delação premiada. Caso se comprove alguma mentira, perde os benefícios e vai para a cadeia.

Mas voltemos a 2004, época em que Waldomiro Diniz foi flagrado tomando algum de alguém e, sabe-se hoje, levando ao início do processo do Mensalão. Sabe-se hoje? Em 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas, desfilou em Brasília cantando:

“Ô Waldomiro, ô Waldomiro
me responda por favor
se nesse rolo, o bicho pega
nosso Lulinha paz e amor!
ô Waldomiro, ô Waldomiro
diga o bicho que deu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu também comeu?
Ô Zé Dirceu/ que bicho deu?
ô Zé Dirceu, eu quero o meu”.

Tem mas não tem

E a festa continua. Amanhã, quinta-feira, deve ser votado, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relatório sobre a proposta de emenda constitucional que extingue o foro privilegiado. Mas, para votar a proposta, é preciso reunir um terço da bancada de senadores: 27 Excelências. E sabe como é, o feriadão, a visita às bases, tudo cansa. Talvez não haja número.

Não tem mas tem

O que o Congresso quer mesmo aprovar, e logo, é um pacote de medidas contra a corrupção, baseado em propostas dos promotores da Lava Jato. No pacote, reluz o que tipifica a caixa 2 em campanhas eleitorais como crime – crime gravíssimo, hediondo, nefando, o nome mais forte possível. Qual o objetivo real? Alegar que, se o crime de caixa 2 foi tipificado agora, o que havia antes não era crime. É o truque de quem acha que será citado na delação da Odebrecht. Por isso o projeto anticorrupção tem de ser aprovado logo, para apagar a corrupção de até agora.

E a corrupção de agora em diante? É o problema seguinte. O de hoje é sobreviver ao tsunami Odebrecht. Depois se discute como roubar no futuro.

Que coisa feia!

Em relatório sobre o caso Bumlai – o pecuarista que se tornou bom amigo do presidente Lula – a Polícia Federal cita o ministro do Supremo Dias Toffoli, por ter o nome no caderno de endereços do investigado. É uma citação leve, lembrando que ter o nome no caderno de endereços de alguém não implica ligação. O juiz Sérgio Moro reagiu duramente, mandou retirar a citação a Toffoli, uma “afirmação leviana”.

Mas agora quem é que não sabe que Bumlai tinha o telefone de Toffoli?

SAI, CAPETA, ESTA GRANA NÃO É SUA!

O ex-presidente Lula já descobriu os responsáveis pelas denúncias de corrupção que vem enfrentando: segundo disse a um grupo de seguidores em São Paulo, são os procuradores da Lava-Jato, a imprensa e o juiz Sérgio Moro, que fizeram um pacto diabólico para falsamente incriminá-lo. Dos citados, quem será o Cramulhão, o Canhoto? Lula não esclareceu a dúvida.propina

Mas o Demônio não é um, é Legião. E há nova denúncia contra Lula, mais uma vez trazida pela imprensa demoníaca. A revista IstoÉ afirma que, em sua delação premiada, o presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, oferece mais munição às hordas de capetas que detestam a cor vermelha: diz ter dado R$ 8 milhões a Lula em dinheiro vivo. Um Belzebu amador sentiria cheiro de enxofre. Presente ou pagamento? Pagamento de quê? Por que usar dinheiro vivo? Ora, rastrear dinheiro vivo é muito mais difícil.

No mesmo dia em que Lula denunciou o Pacto Diabólico, foram presos Rodrigo Tacla Duran e Adir Assad, considerados peças-chave do esquema. Empreiteiras contratavam serviços não prestados, pagavam em cheque a eles e recebiam em troca dinheiro vivo, para comprar servidores públicos. Duran e Assad foram delatados pela Odebrecht, a antes celestial benfeitora, a distribuidora de valiosas bênçãos. Deus é o Diabo nesta terra do Sol.

Lula nega tudo, diz que o Capiroto mente, que Asmodeu inventou a propina, pois a delação ainda não foi divulgada. Promete processar a IstoÉ.

Lúcifer

De acordo com a revista – que circularia normalmente neste sábado, 12, mas liberou a edição eletrônica dois dias antes – os pixulecões que Lula teria recebido se referem a suas gestões que ajudaram a Odebrecht a conseguir obras em Angola e Cuba – especialmente o porto de Mariel.

Purgatório

Lula e o PT não são, de acordo com a reportagem assinada por Débora Bergamasco, Mário Simas Filho e Sérgio Pardellas, os únicos alvos das delações premiadas da Odebrecht. Dos R$ 7 bilhões em propinas, houve partes oferecidas (e aceitas) pela ex-presidente Dilma Rousseff (R$ 1 milhão, em dinheiro vivo), a 20 governadores e ex-governadores, a uns cem parlamentares, distribuídos por vários partidos – em especial PT e PMDB, mas atingindo também dirigentes do PSDB. Há brasas para todos. E um detalhe interessante: Dilma e Temer foram eleitos pela mesma chapa.

Escrituras

A Odebrecht, organizadíssima, tinha um departamento de distribuição de pixulecos, com tudo registrado. As delações premiadas têm mais de 300 anexos com documentos (a entrega de dinheiro a Lula, segundo a IstoÉ, ocupa um dos anexos). A documentação dos depoimentos foi preparada por 50 escritórios de advocacia, em Brasília, São Paulo, Rio e Salvador. Trabalham para a Odebrecht, nessa delação premiada, 400 advogados.

Exorcismo

A reação de Lula ao Pacto Diabólico se inicia com a ação judicial contra os proprietários da revista e os repórteres que assinaram a reportagem. A nota de Lula anunciando o processo diz que a revista “é conhecida no mercado editorial pela venalidade e pela desfaçatez com que vende reportagens, capas e até editoriais, aos mais diversos clientes’”. E garante que jamais recebeu ou pediu (…) “valores ilícitos, seja da empresa citada pela revista ou por qualquer outra”. E acusa: “A má-fé da revista é tão evidente que os autores sequer procuraram a defesa ou a assessoria do ex-presidente antes de publicar a mentira”.

O corte das despesas

Michel Temer diz que, se não cuidar dos gastos, o Brasil vai a falência em 2023. Luta para aprovar a emenda constitucional que limita gastos públicos, promete reformar a Previdência para deixá-la mais barata.

Enquanto isso, o mesmo Michel Temer gastou R$ 596 mil num show, no último dia 7, em homenagem ao centenário do samba – um show exclusivíssimo, para 600 convidados, com Neguinho da Beija-Flor, Áurea Martins, Márcio Gomes e André Lara. Fafá de Belém foi contratada exclusivamente para encerrar o espetáculo com o Hino Nacional. Terminado o show, coquetel para 600 pessoas, coisa fina. Somos pobres mas sabemos o que é bom, principalmente quando o Tesouro paga a conta.

O Legislativo se esforça para ficar à altura do Executivo: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passeia no Azerbaijão com tudo pago por nós, e ainda recebe diárias. No Judiciário, o ministro Recardo Lewandowski, que está na faixa mais alta dos vencimentos de servidores públicos, pede um bom aumento. Se tudo sobe, por que os vencimentos sobem menos?

Pague sem espernear

O ministro Lewandowski tem razão: por que os salários têm de subir menos que os preços? Mas isso deveria valer para todos, não é mesmo?

ASSIM ESTAVA ESCRITO

A festa é geral, irrestrita. E com o nosso dinheiro, justo o nosso, que não participamos da festa. Entre 2007 e 2009, 443 ex-parlamentares gastaram R$ 25 milhões na Farra das Passagens – digamos, levar a namorada a Paris com a verba destinada a viagens de serviço. As investigações, com toda a documentação disponível, levaram sete anos. E só agora os casos chegam ao sobrecarregado Supremo. Um dia os envolvidos serão julgados.

O jeitinho brasileiro no uso de dinheiro público não se limita a Executivo e Legislativo. Uma auditoria do Tribunal Superior do Trabalho revelou que 24 dos 27 tribunais regionais do trabalho “compram” férias dos juízes, convertendo em dinheiro períodos não desfrutados. É uma boa quantia: só em São Paulo, 290 magistrados receberam R$ 21,6 milhões. Diz o TST que no Judiciário não pode haver conversão de férias em dinheiro. Mas nem todo benefício é dinheiro: em Porto Seguro, 700 juízes estaduais se esfalfam em debater os problemas do setor, alheios às belezas naturais da Bahia e aos bons serviços do hotel que os hospeda, a R$ 605 a diária. O show de encerramento é com Ivete Sangalo e Diogo Nogueira. O patrocínio é de uma empresa condenada por crimes ambientais e cheia de casos judiciais, que podem cair com os juízes cuja conta ajudou a pagar.

Mas por que irritar-se lendo tudo, se os escândalos são iguais? Um bom livro, recém-lançado, mostra como as coisas acontecem. Está tudo lá.

O poderoso checão

Nilo Dante, um grande repórter, com anos de cobertura de Política Nacional e Política Internacional nos principais veículos do país, aprendeu muito sobre os bastidores do Poder. E conta, em O Sócio Oculto, como é que as coisas realmente funcionam; como é que prestigio, dinheiro e bons presentes, bem distribuídos (e muito bem retribuídos), têm influência decisiva nos rumos do país. Há aquilo que uma dirigenta já chamou de “malfeitos” que, quando descobertos, se transformam em escândalos, com CPIs e ameaças de desestabilização política; há o jeito, planejado por ótimos advogados e financistas, de ocultar o rastro do dinheiro, fazendo-o passear pelo mundo até voltar lavadinho ao Brasil; há o amaciamento da crise, executado por profissionais especializados, de ação internacional.so

The Goldfather

As contas, as transferências, os apelidos que, mais do que ocultar os envolvidos, retratam os nomes pelos quais os amigos o chamam – o Hebreu, o Turco, o Italiano – epa, este é o do escândalo não literário. Um retrato do Brasil. Só falta dar os nomes verdadeiros, mas seria impossível: os escândalos são iguais, mas os envolvidos variam – um pouco.

O Sócio Oculto, Editora Mídia In, ou em e-book Amazon. Um toque de perfeição: os culpados jamais são punidos, nem têm sentimento de culpa.

Menos é melhor

Talvez esses escândalos tão bem retratados por Nilo Dante em O Sócio Oculto levem ao resultado da consulta pública do Senado sobre projeto de emenda constitucional que reduz o número de parlamentares federais a 2/3 do atual: senadores de 81 para 54 (dois por Estado, e não três), e deputados federais, de 513 para 386: são 99,5% favoráveis, 0,5% contra. Este colunista é contra: senadores, vá lá, mas quer no máximo 250 deputados.

Os cortes no Orçamento

A redução nas verbas federais para Educação, Saúde e Previdência virou bandeira de guerra. Um bom jornalista, Antônio Carlos Cacá Leite, do Metro de Vitória, Espírito Santo, calculou os cortes na Educação: 10%. Ou R$ 10 bilhões a menos. O programa mais atingido é o FIES (bolsas em universidades privadas), com perda de R$ 1,7 bilhão e 313 mil contratos. O Pronatec teria de adiar as novas turmas por seis meses. As universidades federais perderiam 47% do orçamento. A meta de gastos em Educação cairia de 10% para 6% do PIB. Terrível, essa PEC 241 neoliberal!

Só que esses dados não são da PEC 241. São os números oficiais da Educação em 2015, primeiro ano da Pátria Educadora da presidente Dilma Rousseff.

Mais do mesmo

O senador Romero Jucá (PMDB – Acre) está de volta ao ninho: é o líder do Governo no Senado – e já reforma o gabinete a seu gosto, com gastos próximos de R$ 300 mil. Louve-se a firme postura ideológica de Jucá, que foi vice-líder do Governo de Fernando Henrique, líder do Governo de Lula e Dilma e agora de Temer: os governos podem mudar, mas Jucá, inflexível, não cede em seus princípios, não muda. Faz parte de todos. Foi também duas vezes ministro, em ambas afastado por denúncias de corrupção.

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Narizinho

Em inquérito sigiloso, a Procuradoria Geral da República cita um mimo da Odebrecht, em 2014, para Coxa, que poderia ser Gleisi Hoffmann. Mas não espere vê-la em Curitiba: Gleisi é senadora, seu foro é o Supremo.

AQUI SE BRIGA, LÁ SE DECIDE

Já se fala numa chapa só tucana para a eleição presidencial: a Min-Asia, Alckmin-Anastasia, unindo Aécio, padrinho político do ex-governador mineiro Alberto Anastasia, e o governador Alckmin. Mas quem avisa Serra de que ele, bem relacionado com o PMDB, ministro de Temer, está fora? E qual o sentido de montar uma chapa no mundo das delações premiadas, em que não se sabe qual inatacável de hoje vai virar o bandido de amanhã?

A propósito, um providencial pedido de vista do ministro Toffoli adiou o parecer do Supremo sobre a presença de réus na linha de sucessão presidencial. Com isso, Renan pode até ter alguma denúncia aceita pelo Supremo sem perder o cargo, no qual é o terceiro na linha de sucessão. Assim, a decisão fica para o ano que vem – depois do Carnaval, claro. Os aliados de Renan festejam, os adversários lastimam, este País não tem jeito.

E, no entanto, o balê de Brasília não tem a menor importância. Neste momento, há duas cidades em que se define o futuro brasileiro: Washington, por motivos óbvios (embora ninguém se atreva a prever o que significa para nós a vitória de Hillary ou de Trump nas eleições de hoje), e Curitiba, por motivos ainda mais óbvios. É em Curitiba que estão no forno delações que podem mudar o balanço de forças no país. É em Washington que se decide como funcionarão os acordos de comércio dos países ricos e quais nossas chances de participar.

E Brasília? Vai bem, obrigado.

Café com leite

A turma da Min-Asia parece que quer repetir a antiga política do café com leite, em que os partidos Republicano Paulista e Republicano Mineiro indicavam alternadamente presidente e vice (assim se governou o Brasil de 1899 a 1930, de Campos Salles a Prudente de Moraes). Mas os tempos mudaram, o sentido das palavras mudou, e até que o nome da política não está errado.

Existirá chapa mais café-com-leite do que Alckmin-Anastasia?

Tem quem tente

Pode não existir, mas há tucanos tentando. Com o crescimento de Alckmin, vencedor em São Paulo, buscam anulá-lo com um pacto entre Aécio e Serra. Os dois estão tão próximos que Aécio ofereceu uma nota de solidariedade a Serra, acusado de ter recebido doações clandestinas da Odebrecht. Ambos até marcaram uma conversa política em São Paulo.

Apenas relembrando

O PSDB é um partido formado exclusivamente por amigos em que todos são inimigos uns dos outros.

Vestindo a fantasia

O Globo dá a notícia em primeira mão: Dilma Rousseff vai ganhar um bloco de Carnaval, o Bloco da Querida. Letícia Sabatella será a madrinha. E Dilma pode até participar da festa, talvez fantasiada de Presidenta.

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Uruguai, beleza!

A propósito, Dilma deu palestra anteontem em Montevidéu, na Jornada Continental contra o Neoliberalismo.

A propósito, Luiz Cláudio Lula da Silva, Lulinha, filho de Lula, está trabalhando no Uruguai, desde a última terça-feira, como preparador físico das equipes de base do Juventud de Las Piedras. De acordo com Yamandú Costa, presidente do Juventud, Lulinha trabalhará “sob um conceito progressista da formação do atleta”.

A propósito, o bom repórter Germano Oliveira, da revista IstoÉ, informou na semana passada que há investigações sobre uma bela casa em Punta Del Este, cujo dono oculto, acham os investigadores, seria Lula.

O país dos sonhos

A propósito, o Uruguai é governado pela Frente Ampla, uma espécie de PT dos tempos do Governo Lula, que em matéria econômica sinaliza à esquerda e segue pela direita. O sistema bancário uruguaio acredita em sigilo e em livre movimentação de capitais, com o mínimo de impostos.

A propósito, o Governo uruguaio trata Lula como um amigo de prestígio mundial, sempre bem-vindo; e, se houvesse uma ordem internacional de prisão contra ele, não a cumpriria, como se fosse cidadão uruguaio.

Trabalho completo

O advogado criminalista Adib Abdouni era do PCdoB e fã de Lula. À medida que foi tomando conhecimento da rede de corrupção, revoltou-se e decidiu escrever o livro Operação Lava Lula – os inquéritos, os grampos, as delações. Um retrato completo, elaborado por quem conhece as leis. Lançamento amanhã, segunda, 7, a partir das 19h, Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

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Bom debate

Amanhã, a partir das 9 horas, no Campus Liberdade da Fecap, debate sobre partidos políticos e propostas para aprimorar a democracia. Com Ricardo Young (Rede), Marcos Pestana (PSDB), Paulo Teixeira (PT), Raimundo Lyra (PMDB) e Christian Lobauer (Partido Novo).

TUNDA-LÁ

Foi uma surra memorável. Não varreu o PT do mapa (se o Mensalão e o Petrolão não o fizeram, não será uma derrota eleitoral, mesmo essa tunda de criar bicho, que o fará), mas o deixou em décimo lugar, ele que era o maior dos partidos. Nas últimas eleições municipais, em 2012, as cidades governadas pelo PT tinham 38 milhões de habitantes. Agora, restaram-lhe seis milhões, ou pouco menos – uma queda de 85%. O PSDB cresceu 89% e deve governar, no total, 48,7 milhões de habitantes.stl

Nordeste, reduto do PT? Não é mais. ABCD paulista, berço do PT? Mudou de lado. Na São Bernardo de Lula e seu aliado inseparável, Luiz Marinho, o PT nem foi para o segundo turno (fazendo com que Lula deixasse de votar – ou escolhia um petista ou não votava em ninguém). O PT perdeu mesmo quando era representado por outra legenda: o PSOL do Rio, com maciço apoio de artistas, intelectuais e imprensa, entregou ao senador Marcelo Crivella, do PRB, sua primeira vitória em cinco eleições majoritárias. O governador petista mineiro Fernando Pimentel teve o prazer de assistir à derrota do PSDB e de Aécio Neves em Belo Horizonte – mas não para o PT, e sim para o PHS de Alexandre Kalil, ex-dirigente do Clube Atlético Mineiro que diz não ser aliado de nenhum grande partido: “acabou coxinha, acabou mortadela, o papo agora é quibe”. Aliás, o PT de Belo Horizonte não chegou nem a 8% dos votos e ficou fora do segundo turno.

A próxima…

Mas não se deve imaginar que a derrota, por pesada que seja, vai acabar com o PT ou com o futuro político de Lula. Política é como nuvem, ensinava o sábio governador mineiro Magalhães Pinto: a gente olha está de um jeito, olha de novo está de outro. O PT não vai acabar porque há muita gente que acredita em suas ideias, muita gente que encara o petismo como religião. O partido pode até mudar de nome, mas continua existindo. E Lula pode aparecer como candidato forte em 2018. Lembremos Richard Nixon: perdeu a presidência para Kennedy, perdeu o Governo da Califórnia para Pat Brown, ficou com fama de perdedor. Em 1968 chegou à Presidência, batendo Hubert Humphrey.

James Reston, lendário jornalista do New York Times, comentou: “Foi a maior ressurreição desde Lázaro”.

…eleição…

Frase de Nixon sobre sua passagem de perdedor a vencedor: “Um homem não está acabado quando perde. Ele está acabado quando desiste.”

Alguém acredita que Lula vai desistir?

…é a próxima

Há um único Poder capaz de evitar que Lula, carismático, hábil, bom político, volte à campanha, com a possibilidade de fascinar multidões: o Poder Judiciário. Lula só estará fora se for julgado e condenado, impedido legalmente de concorrer. Se for absolvido, volta por cima. Aí é Lula 2018.

La garantía del futuro

Enquanto se discute o Brasil depois da eleição municipal, o cerco a Lula continua firme. De acordo com a revista IstoÉ, a Operação Lava Jato investiga desde agosto se uma bela casa muito bem localizada em Punta Del Este, balneário mais luxuoso e caro do Uruguai, é um daqueles imóveis que não são de Lula, mas nos quais, como os donos são seus amigos e o autorizaram a fazer o que quiser, ele faz o que quiser. No caso uruguaio, a mansão seria de uma empresa off-shore que seria controlada pelo empresário Alexandre Grendene, sócio do grande grupo calçadista Grendene e dono de vários imóveis no pais. Com tantos condicionais, verdade ou mentira? Depende: que a Operação Lava Jato investiga o caso, deve ser verdade, já que o repórter Germano Oliveira é sério e competente. Que a casa é de Lula, só haverá resposta precisa no final das investigações.

A segurança

De qualquer forma, o Uruguai é um excelente lugar pra investir, com boa segurança jurídica e tratamento fiscal favorável. Para Lula, caso prefira afastar-se dos aborrecimentos dos interrogatórios do juiz Sérgio Moro de uma eventual prisão, o Uruguai é ideal: um país agradável, perto do Brasil, e cujo presidente, Tabaré Vasquez, é seu amigo e compartilha suas ideias. Nada de aborrecimentos com a Interpol; a garantia total de que não será extraditado; e, ao contrário de outros países onde seria recebido como herói, como Venezuela e Cuba, a vida uruguaia corre mansa, sem desabastecimentos nem a necessidade de ouvir discursos quilométricos.

Caso queira aposentar-se ou descansar algum tempo, o lugar é perfeito.

Questão religiosa

Boa parte das críticas ao prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella, é causada por sua religião (evangélico, membro da Igreja Universal e sobrinho do bispo Edir Macedo).

No Brasil, questiona-se a religião do candidato? Tivemos presidentes católicos, um ateu, um protestante. E daí?

SOMOS TODOS IGUAIS. OU MAIS IGUAIS

Nada de hesitações: o importante é combater a crise, com os sacrifícios que isso exige de todos. O Governo propôs emenda constitucional que limita os gastos do próprio Governo, e para aprová-la na Câmara promoveu dois luxuosos e caros banquetes, em palácio, para centenas de deputados. É bonito ver como o povo, unido, se articula para o duro embate.

Tão logo assumiu o poder, Temer aprovou um forte aumento para as 38 carreiras mais organizadas do serviço público. Custo total, R$ 170 bilhões. Estas carreiras já estão prontas pra enfrentar a crise. E aprovou outro aumento, de 47%, para outras carreiras bem organizadas, entre elas a Polícia Federal, no dia seguinte ao da aprovação do limite de gastos do Governo. O funcionalismo desses setores já está apto a enfrentar a crise.

O Governo é que ainda está atrapalhado: em setembro, seu déficit foi de R$ 25,3 bilhões – um recorde, quase o quádruplo de setembro do ano passado. Em 12 meses, o buraco federal já chegou a R$ 138 bilhões. E o orçamento prevê que, em dezembro, o rombo pode bater em R$ 170 bilhões – praticamente o custo daquele primeiro momento de generosidade oficial. Como é duro um Governo preparar seus servidores para a crise!

Os bancos se armaram para a crise jogando os juros ao alto. Cartões, 15,7% ao mês; cheque especial, 324% ao ano. E nós? Que quer, moleza? Ganhando menos na crise, temos é de trabalhar mais. Se houver emprego.

Questão de detalhes

A nova rodada de aumentos foi tão discreta que a líder do Governo no Congresso, senadora Rose de Freitas, de nada sabia. Era contra e decidiu deixar o cargo. A aprovação, por uma comissão da Câmara, ocorreu só oito horas após o plenário aceitar a emenda constitucional que impôs limites aos gastos oficiais. A tática era deixar o aumentão passar despercebido, sob a sombra da emenda. Nem isso deu certo. A base não chegou a rachar, mas muitos parlamentares se sentiram enganados. E vão cobrar.

O equilibrista

Temer deve escolher, para a liderança do Governo no Congresso, o senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima. Jucá é um político de excelente trânsito em todas as áreas: foi presidente da Funai com Figueiredo, governador nomeado de Roraima com Sarney, ministro e vice-líder do Governo com Fernando Henrique, líder do Governo no Congresso com Lula e Dilma, ministro com Temer. Um político de convicções firmes: está sempre com o Governo. Se o Governo muda, problema do Governo.

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Serra, Temer, Odebrecht

A delação premiada de Marcelo Odebrecht e de 80 dirigentes de suas empresas está marcada para o dia 8. Mas as informações já começaram a vazar. As mais explosivas se referem ao presidente Michel Temer e ao chanceler José Serra. Serra, o mais atingido pelos vazamentos, teria recebido R$ 23 milhões da Odebrecht, no Brasil e na Suíça, na campanha presidencial de 2010. Ao assinar a delação premiada, a Odebrecht entregaria os comprovantes dos depósitos no Brasil e no Exterior. Serra disse que “não vai se pronunciar sobre vazamentos de supostas delações relativas a doações feitas ao partido em sua campanha”.

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Lula, o réu

O juiz Sérgio Moro marcou para 21 de novembro as primeiras audiências do processo contra Lula. Devem ser ouvidos, até o dia 25, Nestor Cerveró, Fernando Baiano, Paulo Roberto Costa, Delcídio do Amaral, Pedro Correia e Alberto Youssef. Depois, Moro deve ouvir Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, sobre o triplex do Guarujá.

As preliminares estão pegando fogo: Lula decidiu abrir processo contra o delegado Felipe Hile Pace, da Polícia Federal, que o identificou como o “Amigo” citado nas planilhas da Odebrecht. Pede indenização de R$ 100 mil. E insiste em afastar Moro, considerando-o parcial e, portanto, suspeito.

As novidades

Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, e Antônio Palocci são agora réus.

Voa, dinheiro!

A Saudi Aramco, uma das maiores empresas petroleiras do mundo, controlada pela família real saudita, informou que um funcionário se envolveu em caso de corrupção com a Embraer. O caso ocorreu durante as negociações para a venda de três jatos EMB-170, em 2010. A Embraer não se manifestou sobre a acusação. O informe saudita não dá detalhes do caso.

Reformar sem reforma

Não leve a sério o noticiário sobre a reforma política, cuja discussão começa nos próximos dias. A reforma é necessária: as campanhas são caras demais, exigindo doações demais (e, depois, há a retribuição); há parlamentares demais; há partidos demais. Mas que parlamentar irá mudar o sistema pelo qual se elegeu? É onde sabe se mover. Mudar, jamais.

AMIGO É COISA PRA SE GANHAR

E onde se guarda um amigo? “No lado esquerdo do peito”, ensinam Milton Nascimento e Fernando Brant na esplêndida Canção da América. No mesmo lado do peito em que se guardam as recheadas, generosas, dadivosas (ou, conforme o caso, receptivas e gulosas) carteiras.

O pensamento voou, e ele disse que gostaria de ter um sítio para passar alguns fins de semana. Amigos compraram o sítio e o puseram à sua disposição. Outros amigos o reformaram para receber o ilustre hóspede. Na belíssima área rural, o sinal do celular era fraco. E surgiu, magicamente, uma torre de celular, que outros amigos cuidaram de instalar. Mas por mais belo que seja, um sítio pode tornar-se monótono. E os amigos apareceram com um triplex à beira-mar, com piscina exclusiva, cozinha top e elevador.

O que importa é ouvir a voz do coração, e estender a bênção da amizade aos próximos. Amigos providenciaram o apartamento em que mora o filho, tranquilo, livre de aluguel. Os sócios do garotão, com 50% da empresa, nunca fizeram questão de receber sua parte nos lucros. Num ano, o filho recebeu 100% dos lucros; em outro, 96%; em outro, 62%.

Pois o que importa, entre amigos, não é dinheiro, é ouvir a voz que vem do coração. Amizade gera amizade: só um dos bons amigos multiplicou seu faturamento por nove, em oito anos. Boa parte por baixo de sete chaves.

Alguém pode reclamar quando dizem que seu apelido era “Amigo”?

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Todo mundo…

É preciso cortar despesas, diz o presidente Michel Temer aos parlamentares aliados, defendendo em lauto banquete, pago com dinheiro público, uma tese correta: limitar os gastos federais pelos próximos 20 anos. É preciso cortar despesas, diz o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para que os juros possam baixar e a economia volte a crescer.

…menos eu

Mas, antes mesmo que a limitação das despesas federais seja votada, já existe quem defenda economia só para os outros. Na comissão da Câmara sobre reforma política, a primeira proposta trata de um bom aumento de despesas. O tucano mineiro Marcus Pestana quer criar o Fundo de Defesa da Democracia, com verba de R$ 3 bilhões anuais, para bancar as despesas dos partidos com manutenção e campanhas. A verba multiplica por pouco mais de quatro os gastos com o Fundo Partidário e atende a uma ideia originalmente petista, de pagamento de campanhas com dinheiro público.

Me dá um dinheiro aí

O caro eleitor não tem vontade de pagar a conta da campanha de ninguém? Bem-vindo ao clube! A desculpa da nova ordenha é que, sem as doações de pessoas jurídicas, não há dinheiro para as campanhas (o PT acrescenta que doadores privados tendem a beneficiar partidos que lhes retribuirão o favor). Só que não é assim: na rigorosa Alemanha, onde o financiamento de campanhas é exclusivamente público, o primeiro-ministro Helmut Kohl perdeu o posto quando descobriram que reforçava seu caixa eleitoral com doações privadas. Imagine no Brasil.

Um dia frio

Sim, ainda há gente bem-humorada na Capital Federal. Diziam que, se frio na barriga fosse transmissível, Brasília nesses dias seria uma nova Sibéria. Foi aceita a delação premiada de Marcelo Odebrecht e dezenas de seus executivos. Tudo certo, organizado, arquivado nos computadores, com nome de quem entregou e de quem recebeu, quantia, local, horário. Começa a temporada de verificações – e vazamentos, talvez seletivos.

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Quem é?

As informações são de O Globo: os executivos da Odebrecht delataram 130 deputados, senadores e ministros; 20 governadores ou ex-governadores. São citados o presidente Michel Temer, os ministros Eliseu Padilha (seu auxiliar mais próximo, da Casa Civil), Geddel Vieira Lima (Governo) e José Serra (Relações Exteriores); e os ex-poderosos Guido Mantega, Eduardo Cunha e Antônio Palocci.

É vendaval

O caso Pasadena (uma refinaria de petróleo apelidada de Ruivinha, de tão enferrujada) demonstrou que a direção da Petrobras, nos governos Lula-Dilma, não sabia comprar instalações no Exterior – ou, o que é muito pior, sabia, sim.

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Mas essa falha era compensada: segundo ação popular aceita pela juíza Maria Amélia de Carvalho, da 23ª Vara de Justiça Federal do Rio, a empresa também não sabia vender instalações no Exterior. Diz a ação popular que a venda dos ativos da Petrobras na Argentina à Pampa, no finzinho do Governo Dilma, deu prejuízo de U$ 1 bilhão. No Japão, a Petrobras comprou refinaria em Okinawa, há oito anos, por US$ 350 milhões. Neste ano, Dilma cuidando só do impeachment, a refinaria ficou quase parada desde março. A Petrobras vendeu-a por US$ 129 milhões.

ACOSTUMA-TE À LAMA QUE TE ESPERA

Eduardo Cunha, planejador meticuloso, sabia que ser preso era seu destino. Deve estar pronto para suportar o período atrás das grades. Mas, para ele, esta prisão era aceitável, fazia parte do jogo. O que o magoou muito foi a atitude de seus aliados, que o entregaram a Sérgio Moro.

Fique claro que, sem o trator Cunha no comando da Câmara, o impeachment seria só uma proposta, Dilma estaria no Poder, e Temer não. Temer deve seu posto a Cunha; a oposição e os governistas que mudaram de lado devem seu poder e seus cargos atuais a Eduardo Cunha. Mas não hesitaram em condená-lo no conselho de Ética (faltou apenas um deputado que virasse o voto!) e em cassar seu mandato, entregando-o à mão severa de Moro. Cunha queria só adiar um pouco a votação, para que as festas natalinas jogassem o problema para fevereiro ou março, dando-lhe uma chance de manobra. Com ajuda de Temer, adiar-se-ia a decisão para 2017. Isso é o que lhe dói: a ingratidão de quem se beneficiou com seu trabalho.

Cunha é um planejador detalhista, estudioso; como o diabo, sabe mais pela experiência que por seus outros atributos. Mas não imaginava que quem se beneficiou com seu trabalho quisesse tudo, menos tê-lo a seu lado. É sabido demais para não ser perigoso. Liquidado, é mais seguro. E não conhecia a frase definitiva do sábio general De Gaulle: “A ingratidão é uma das maiores virtudes de que deve ser dotado um estadista”.

A mão que afaga

Os dois títulos destas duas notas estão num poema notável, Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, obrigatório para quem pensa em política:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Abr/1884 – Nov/1914)

Folha corrida

É um perigo esquecer os bons resultados da ingratidão. Mas é um perigo, também, esquecer a força de retaliação de um aliado ferido.

Cunha se candidatou à Presidência da Câmara pelo PMDB, partido aliado a Dilma. Ela tentou derrubá-lo, ele reagiu: fez passar algumas medidas de alto custo, às quais Dilma se opunha. Quiseram cassá-lo, e ele deixou claro que, se o PT votasse por sua cassação, ele movimentaria o pedido de impeachment que estava parado em sua mesa. O PT votou contra ele, ele liberou o impeachment.

Dilma e Cunha caíram juntos.

A mão que apedreja

Segundo o jornal Valor, Cunha disse a seus advogados que quer falar. Um dos advogados, Marlus Arns, já intermediou processos de delação premiada. OK, ele pode deixar mal vários deputados do baixo clero, mas isso não lhe daria o que quer: que os promotores esqueçam sua mulher e sua filha.

Já o colar de alho, a estaca de madeira, a água benta e a terra consagrada que liquidariam Michel Temer, já isso vale muito mais.

Passarinho que come pedra

O noticiário de hoje em dia fala do medo que muitos parlamentares têm de eventual delação de Cunha. Que é que esse povo andou fazendo para ter tanto medo de um deputado que foi deposto, cassado e está preso?

O anel de brilhantes

Lembra de Fernando Cavendish, da empreiteira Delta, primeiro-amigo do governador fluminense Sérgio Cabral? Agora é ele que delata. Dizem que atinge PMDB e PSDB, cita-se o senador Aloysio Nunes e o governador goiano Marconi Perillo. Mas a melhor história é de Sérgio Cabral. Conta Cavendish que Cabral e ele passeavam por Monte Carlo quando Cabral parou em frente a uma joalheria finíssima, Van Cleef &Arpels. “Amanhã”, disse Cabral, “é aniversário de Adriana (sua esposa, Adriana Ancelmo) e preciso ver um presente”. Entraram e uma funcionária trouxe, já embalado, um anel de ouro branco e brilhantes. E ficou claro que quem pagaria a conta, uns R$ 800 mil, seria Cavendish. Ilustrando a história, foto de Adriana Ancelmo com o anel, recibo e nota em nome da Delta.

Arrasador.

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Boa notícia

A artista plástica brasileira Renata Barros acaba de expor no Museu de Arte de Hangzhou, na China. É um prolongamento cultural e artístico da reunião do G20. A “2016 – China Hangzhou G20 International Art Exchange Exhibition” reúne 40 artistas desde o dia 11 até hoje. Foi a primeira vez que o encontro diplomático teve extensão artística.

LULA LÁ

A expectativa de prisão de Lula foi levantada por petistas (e reforçada, naturalmente, pelo conjunto da obra): quem deu a notícia de que o risco era real e iminente foi um blogueiro paulista, Eduardo Guimarães, que aproveitou a oportunidade para convocar os correligionários a uma vigília em frente à casa de seu líder. Nada deu certo: a vigília reuniu umas vinte pessoas, 30 no máximo, e o Japonês da Federal não apareceu por lá.

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Lula será preso? Talvez; mas não é obrigatório que a prisão ocorra. Pode acontecer até que ele seja condenado num dos três processos a que por enquanto responde e o juiz lhe dê o direito de recorrer em liberdade.

E que fará o ex-presidente enquanto a máquina da Justiça avança para triturá-lo? Breno Altman, jornalista ligado a Lula, editor do site Opera Mundi, diz que uma coisa é certa: o líder petista não sai do Brasil, não pede asilo em nenhuma Embaixada e já comunicou a decisão aos companheiros. Acha que se exilar, ou asilar. enfraqueceria sua defesa, deixaria o PT mais frágil e seria um mau exemplo. E se for preso? “Irá enfrentar, pelas ruas e instituições do país, contando sempre com a solidariedade internacional, a perseguição da qual é vítima. Não se renderá nem fugirá. Se vier a ser preso, será do calabouço que continuará lutando contra o arbítrio e o golpismo, liderados pelos setores mais reacionários da PF, do MPF e do Poder Judiciário”.

É uma situação complexa: a prova dos nove.

Cadeia para os outros

O ex-ministro José Dirceu, que Lula gostava de chamar de Capitão do Time, acaba de provar que sete anos e 11 meses se esgotam em dois anos. Graças a essa matemática política, está livre da pena do Mensalão. Só não está livre, leve e solto por ter sido condenado também no Petrolão. É uma das últimas heranças de Dilma antes de ser impichada.

Em dezembro, Dilma assinou decreto de indulto natalino extinguindo a pena de condenados abaixo de oito anos, que tivessem cumprido um quarto do período, sem falta disciplinar grave. Dirceu, veja só a coincidência, tinha pena de 7 anos e 11 meses, precisamente no limite. Tinha cumprido dois anos, um na prisão, outro em casa. Por sorte, bem no limite,. Mas tinha mantido o envolvimento no Petrolão enquanto cumpria pena pelo Mensalão. Por isso, o ministro Luis Roberto Barroso impediu que Dirceu tivesse o perdão. Mas aí ocorreu outra coincidência: o procurador Janot informou que Dirceu tinha cometido os crimes do Petrolão até 13 de dezembro de 2013. Como foi preso no Mensalão em 15 de dezembro de 2013, por coincidência já há dois dias tinha abandonado as atividades ilegais. E isso permitiu que obtivesse o indulto das penas do Mensalão.

O papel do destino

Claro que Dilma não escolheu o limite de oito anos para beneficiar Dirceu. Deve ter jogado dois dadinhos para cima ao escolher o número. Nem ninguém pensaria num preso específico na hora de verificar o bom comportamento. Dirceu, efetivamente, acordou num determinado dia disposto a mudar de vida e a cumprir a lei. Ponto final. E foi recompensado pelo céu: por ter-se regenerado bem a tempo, ganhou o indulto.

Alvíssaras!

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Querem mais

A defesa de Lula, que busca comprovar a suspeição do juiz Sérgio Moro, tenta de novo: quer ouvir o prefeito eleito de São Paulo, João Dória; Moro esteve num evento promovido por Dória 13 meses antes da eleição.

Dinheiro na mão…

Mas a matemática, ora de subtração de tempo, ora de multiplicação de fortunas, não se encerra em indultos que, por puro acaso, parecem feitos sob medida. Agora se inicia uma estação do ano em que haverá fartura de contas – especialmente bancárias. O mandado de segurança 20.895, impetrado pelo repórter Thiago Herdy e a Infoglobo, foi concedido pelo Superior Tribunal de Justiça; só falta o ministro Napoleão Nunes Maia Filho, do STJ, determinar o cumprimento do acórdão. Dizem que é explosivo: autoriza o acesso às despesas pagas com o cartão corporativo do Governo Federal usado por Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe da representação da Presidência da República em São Paulo. Conforme o que foi pago, e a quem, podem surgir ligações suspeitas.

Ou insuspeitadas.

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…é vendaval

Rose há muito tempo tem boas relações com Lula; viajou ao Exterior com ele 32 vezes, no Airbus presidencial. Dizem em Brasília que com frequência o nome de Rose não estava na lista de passageiros, o que é ilegal. O cartão tem a resposta para algumas dúvidas. Por exemplo, se aparecerem despesas, digamos, em Angola, e seu nome não estiver entre os passageiros, como terá ido para lá? Rose se manteve poderosa até novembro de 2012, quando foi presa pela Operação Porto Seguro, e Dilma a demitiu do cargo. Ela responde a processo, mas não delatou ninguém.

TIRO LIVRE, DIRETO

Antes da era dos mísseis teleguiados, os combates marítimos obedeciam a uma fórmula consagrada: primeiro, os tiros eram disparados aos quatro lados do inimigo (enquadramento do alvo), e as colunas d’água levantadas pelos projéteis indicavam o movimento do mar e orientavam a mira. Davam também ao inimigo a chance de se render. O tiro seguinte era direto ao alvo, para afundá-lo ou pelo menos reduzir sua capacidade de combate.

É assim que a Justiça se aproxima de Lula: enquadrando o alvo.

1- Na quinta-feira, Lula se tornou réu pela terceira vez, agora em Brasília. Acusações: tráfico de influência, organização criminosa (mais grave que a antiga formação de quadrilha), lavagem de dinheiro e corrupção passiva nos negócios financiados pelo BNDES em Angola.

2 – No mesmo dia, a Receita suspendeu a isenção tributária de 2011 do Instituto Lula por desvio de finalidade: o Instituto pagou despesas de Lula e de sua esposa. Isso quer dizer que a entidade está sujeita a pagar os impostos de que era isenta, corrigidos, mais multa de uns R$ 2 milhões.

3 – Lula é réu duas vezes em Curitiba: por corrupção e lavagem de dinheiro no apartamento do Guarujá e por tentar atrapalhar as investigações sobre a Petrobras. Nos dois casos deve ser julgado por Sérgio Moro.

Se sofrer duas condenações, Lula não poderá se candidatar em 2018. Se for condenado num caso, e o recurso for rejeitado, vai para a prisão.

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Do palácio à cadeia

Crime pelo qual foi condenado o senador Gim Argello: vender proteção na CPI da Petrobras (entre os compradores, confessos, os empreiteiros Léo Pinheiro, da OAS, e Ricardo Pessoa, da UTC). Pena determinada pelo juiz Sérgio Moro: 19 anos de prisão.

Curiosa figura, Gim Argello. Rico, tornou-se suplente do candidato Joaquim Roriz. Foi morar na Península dos Ministérios. Acordava cedo, vestia o agasalho e só saía quando a ministra-chefa da Casa Civil, Dilma Rousseff, iniciava sua caminhada. Por acaso, seus caminhos se cruzavam todos os dias. Caminhavam juntos, ficaram amigos, Dilma o ouvia. Quando Joaquim Roriz renunciou, o suplente Gim já assumiu como político poderoso. Subiu rápido, caiu rápido: as delações premiadas o jogaram no olho do furacão. Em 12 de abril foi preso. E agora, sabe-se lá quando sai.

Preso fica preso

A mudança está sendo pensada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a pedido do presidente Michel Temer: endurecer o cumprimento de penas de prisão. Hoje, um condenado pode ser solto depois de cumprir 1/6 da pena – o que significa que um condenado a 5 anos pode ficar livre após onze meses. A ideia é aumentar o tempo mínimo de prisão para metade da pena. E seria ótimo reestudar as “saidinhas”, libertação de presos por um período curto. Algo como a autorização de saída de Suzanne von Richthofen para o Dia dos Pais: ela foi condenada por matar pai e mãe.

Nova força

O encontro entre Michel Temer e Fernando Henrique teve outros temas além de amenidades. Ambos começaram a conversar sobre uma aliança eleitoral entre PMDB e PSDB – nas condições atuais, uma composição imbatível. Mas não é simples: há rivalidades estaduais, haverá guerras por posições no partido. A disputa entre Renan Calheiros e Eduardo Cunha por pouco não impediu o impeachment. O PSDB já tem três candidatos à Presidência da República, os três de sempre, os três inconciliáveis. E. só para dar uma ideia do clima entre os tucanos, a vitória na maior cidade do país, no primeiro turno, gerou mais divergências do que festas.

Força crescente

Aos poucos, cresce a aprovação do presidente Michel Temer. Entre agosto (21%) e setembro (30%), a alta foi de nove pontos percentuais. A rejeição a Temer caiu no mesmo ritmo: de 68% em agosto para 60% em setembro. A pesquisa foi realizada pela Ipsos entre 6 e 16 de setembro, em todo o país. Temer tem muito a crescer: primeiro, porque obteve uma grande vitória política num tema complexo, a imposição de um teto ás despesas do Governo; segundo, porque ainda é pouco conhecido pela população; terceiro, porque está tratando agora de temas controversos, em que a população é majoritariamente contrária, mas metade dos entrevistados nunca ouviu falar de reforma da Previdência nem das leis trabalhistas.

Trata-se, portanto, de uma batalha de comunicação – e quem tem verbas mais abundantes para o, digamos, trabalho de convencimento?

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Bob Nobel

Robert Zimmerman, ou Bob Dylan, esplêndido músico americano (Blowing in the Wind, Like a rolling stone), ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2016. E ainda bem que ainda desta vez o premiado não foi brasileiro. Diante do que mostrou a Lava Jato, nosso Nobel seria Safadão.

MANDA QUEM PODE, MAS TEM DE QUERER

O Governo de Michel Temer obteve sua primeira grande vitória: os 366 votos a 111 que aprovaram a emenda constitucional 241, limitando o aumento dos gastos oficiais nos próximos 20 anos, foram um 7×1 na oposição. Temer se jogou abertamente na batalha, de tal modo que, se perdesse, teria de repensar todo o seu Governo. Ganhou – e mostrou para o mercado, para os investidores, para os bancos estrangeiros, que tem cacife para reformar a economia e enfrentar vitoriosamente os grupos de pressão.

quebra

É ótimo que os estrangeiros voltem a acreditar no Brasil como polo de investimento. E, para isso, uma emenda constitucional aprovada por imensa maioria do Congresso é essencial, mostra que o clima econômico mudou, melhorou, e que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Mas nós somos brasileiros, e sabemos que leis elaboradas para disciplinar despesas públicas nem sempre são executadas em nosso país. Se fossem, esta reforma da Constituição nem seria necessária. Cortar despesas oficiais de maneira a que possam ser suportadas pelo país exige disposição e convicção do governante; exige exemplo. Tudo bem, era o grande lance da conquista da maioria, o lance definitivo, mas banquete para mais de 400 pessoas talvez seja meio muito para pedir corte de despesas.

O presidente Michel Temer tem o controle do Congresso e, portanto, do país. Mas precisa mostrar o caminho para que o país continue a segui-lo.

…é vendaval

Um caso exemplar é o do juiz Leo Denisson Bezerra de Almeida, de Marechal Deodoro, Alagoas, acusado de vender decisões. O Conselho Nacional de Justiça instaurou processo administrativo disciplinar contra ele, e o afastou de suas funções. O juiz deixou de trabalhar, mas recebe salário integral e auxílio moradia. Fica difícil convencer outras categorias a concordar com o teto de despesas do Governo tendo exemplos como este.

O perdedor 1

O líder da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, está acossado. Foi denunciado pela quarta vez na Operação Lava Jato. Responde, num dos processos já aceitos pelo Supremo, pelas ligações com operações da Odebrecht em Angola. O outro processo, para que se tenha uma ideia, é chamado de Quadrilhão, e considerado o mais importante da Operação Lava Jato. Cada denúncia pode transformar-se em novo processo. E, no caso Odebrecht, em que a qualquer momento sairá a delação premiada de Emílio Odebrecht – que sempre foi, na empresa, o responsável pelas conversas com Lula – a situação tende a piorar. E pode piorar mais ainda se a delação de Leo Pinheiro, que foi presidente da OAS, for aceita pelo Ministério Público, que hoje a rejeita por divulgação antecipada.

O perdedor 2

Lula está sendo processado (as denúncias foram aceitas pela Justiça e se transformaram em processo) em Curitiba, acusado, no caso do triplex, de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No STF, é investigado no Quadrilhão e em mais um processo. As acusações são de organização criminosa, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, corrupção passiva. E há mais cinco investigações a cargo da procuradoria Geral da República sobre negócios da Odebrecht, financiados pelo BNDES, em Cuba, Equador, Venezuela, Panamá e República Dominicana.

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A posição da defesa

Como Lula se defende? Jamais participou, no comando ou não, de um esquema de desvio de dinheiro público; afirma que contra ele não há uma prova sequer, apenas “descompromissadas convicções” dos procuradores. E o objetivo do “cenário de guerra” é impedir que Lula seja eleito presidente da República em 2018. Caso Lula seja condenado em todas as ações a que responde, estará sujeito à pena de 35 anos de prisão. Seus advogados são Roberto Teixeira, amigo de longa data, e Cristiano Zanin.

Outro perdedor

O deputado Celso Russomanno, PRB, pela segunda vez liderou as pesquisas em São Paulo durante um longo período, e pela segunda vez foi derrotado. Agora, diz ele, só deixaria a Câmara por um de dois cargos: secretaria da Segurança de São Paulo ou Ministério da Justiça.

Tiririca estava errado: pedia votos dizendo que pior do que está não fica.

A frase

De acordo com a delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral, Lula não queria inicialmente aliar-se ao PMDB. E trocou a aliança por vantagens diversas, dando início ao Mensalão. Mais tarde, quando a descoberta do Mensalão ameaçou derrubá-lo, Lula teria dito: “Ou abraço o PMDB ou vou morrer”.

Entre manter seu poder político e a lealdade a seu projeto, Lula optou por manter seu poder político. E destruiu seu projeto.

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A ÁFRICA PARA OS BRASILEIROS

Por longos e tristes anos, empresários brasileiros mantiveram lucrativos negócios na África, que só cessaram com o fim da escravidão. Passam-se os tempos e os bons negócios voltam – para alguns brasileiros, para alguns africanos. Até um bom dinheirinho na conta de Eduardo Cunha, lembra-se? foi atribuído à venda de carne moída brasileira, enlatada, para a África.

O Quadrilhão, por enquanto o principal processo da Lava Jato, que envolve Lula, o sobrinho de sua primeira esposa, e a Odebrecht, tem tudo a ver com a África – exceto o dinheiro, que passa por lá e volta para os bolsos já preparados para recebê-lo (e distribuí-lo). A Exergia, empresa energética do sobrinho, foi criada, segundo a Polícia Federal, apenas para receber e destinar corretamente os pixulecos da Odebrecht.

O sobrinho tinha metade de uma empresa de fechamento de varandas. Criou a Exergia, que firmou 16 contratos com a Odebrecht, financiados pelo BNDES. E sua vida mudou: viagens, jatinhos, gastos exuberantes, contatos com estadistas.

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O sobrinho Taiguara Rodrigues dos Santos e o tio Lula

Um desses estadistas é o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Seu país é rico, tem petróleo e diamantes; seu povo é pobre, vivendo com cerca de R$ 7 por dia; sua filha é a mulher mais rica da África. E deste relacionamento, diz a investigação, R$ 31 milhões sobram para o sobrinho do homem. Acompanhe o julgamento do Quadrilhão, que pode levar à prisão um ex-presidente e líder popular. Mas tem muito mais.

O caminho das pedras

Os diamantes, pedras pequenas e valiosas, fáceis de esconder, sempre foram as favoritas de quem quer contrabandear dinheiro. E consta que Angola, ainda bem relacionada com Portugal, seu ex-colonizador, e com países como Cuba, faz parte do ciclo de movimentação de valores. Se depósitos bancários são monitorados e arrestados, dinheiro embutido em financiamentos internacionais circula com muito mais segurança e garantia.

O Banco Espírito Santo baseou suas operações no triângulo África, Brasil, Espanha; mas cometeu uma série de irregularidades graves. Na mesma época, uma senhora que costumava viajar no avião presidencial brasileiro sem constar na lista de passageiros foi várias vezes à África, e daí a Portugal. Rumores, até hoje não comprovados, citavam a entrega de pacotes e caixotes, talvez lembranças, a funcionários do banco.

E dizia-se que qualquer problema no Espírito Santo se refletiria no pai e no filho.

Registrado

Todas as histórias estão narradas no relatório da CPI do BNDES. Veja tudinho em “Como Lula operou na África”, de Cláudio Júlio Tognolli. É grande, mas fascinante. Compensa ler.

Golpe. Na praça.

Atenção, turma do não vai ter golpe: teve golpe, sim. Pela segunda vez em dois anos, o Tribunal de Contas da União rejeitou as contas de Dilma Rousseff.

Considerando-se que o Parlamento foi criado para impedir que o Estado dilapide o Tesouro, duas vezes em dois anos é muito golpe na praça.

O nosso é o deles

Como ninguém para de apregoar, o Governo está sem dinheiro. Que fazer? Pois estão propondo no Congresso a criação de um fundo público de R$ 3 bilhões, com o nobre objetivo de pagar, com nosso dinheiro, a campanha eleitoral de Suas Excelências. E ninguém está regulando mixaria: além dos R$ 3 bilhões, continuará sendo pago, sempre com dinheiro público, o Fundo Partidário, que, com R$ 724 milhões, tem a nobre missão de pagar o funcionamento de nossas dezenas de partidos.

O problema que se pretende resolver com nosso dinheiro é a proibição das doações de empresas. Mas o problema, pelo jeito, não é tão grande: resolve-se recorrendo ao bolso de cidadãos já sufocados por tanto imposto.

Pense no impensável

Militantes petistas que seguem a orientação do ex-governador gaúcho Tarso Genro há algum tempo fazem críticas ao comando do partido e até mesmo a Lula. Jamais pensaram, porém, em afastar Lula, seu sumo-sacerdote.

Mas uma derrota como esta faz com que muita gente pense no impensável. À derrota se soma a demissão de 50 mil petistas hoje em cargos comissionados (nomeados sem concurso), e que terão agora de procurar emprego como cidadãos comuns, gente como a gente. Mais grave: a queda da receita do dízimo (cada petista comissionado se obriga a dar ao partido 10% de seus vencimentos). Pior ainda: a Lava Jato cria uma série de riscos a outra importante fonte de rendas, a propina para o partido.

Em casa onde falta pão, todo mundo briga e todos se sentem com razão.

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Estrela apagada

Em São Bernardo, berço político de Lula e do PT, o segundo turno será disputado entre PSDB e Alex Manente. Ambos rejeitam o apoio do PT e do prefeito Luiz Marinho.

Ambos sabem o peso de um prefeito mal sucedido.

A VOLTA DA FEDERAL

A trégua eleitoral, que não permite prisões, exceto em flagrante, nos cinco dias anteriores e nos dois posteriores aos pleitos, acaba de encerrar-se. Este colunista tem o palpite de que, depois da exibição nas eleições da atual popularidade do ex-presidente Lula, algumas investigações ganharão velocidade. Para usar a imagem citada pelo próprio Lula, o objetivo é pisar na cabeça da jararaca, no mínimo para anulá-la.

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O grande manancial de informações é a documentação apreendida na Odebrecht, que ainda pode ser enriquecida pela delação premiada de diretores da empresa e, talvez, do próprio Marcelo Odebrecht. Mas o material apreendido vale o trabalho investigativo: organizadíssima, a empresa tem um Setor de Operações Estruturadas que relaciona as propinas uma a uma, incluindo quantia, local e modo de entrega, e destinatário. Uma dessas planilhas é exclusiva de um destinatário chamado “Amigo” – e, pelo que dizem, em vez de “Amigo” poderia chamar-se “Cumpanhêro”.

E há Leo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, que sabe tudo sobre o apartamento triplex que não é de Lula. Pinheiro já contava sua história quando houve um vazamento de informações. As autoridades consideraram que o compromisso com Pinheiro, que envolvia penas mais brandas, estava rompido, e descartaram sua delação. Mas isso pode mudar.

Contra político que perdeu apoio popular, até o impossível é possível.

Novos tempos

Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, duas vezes prefeito de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, lançou Dayana Mazzer para a Prefeitura. Dayana foi batida por Beto da Lotérica, que teve o dobro de seus votos.

Em São Paulo, das 58 zonas eleitorais, Marta venceu em duas, e Dória em 56. O prefeito Fernando Haddad, candidato de Lula, em nenhuma.

Em todo o país, o número de vereadores do PT se reduziu a pouco mais da metade. A porcentagem exata da queda: 44,8%.

O PT tinha 644 Prefeituras, entre elas a de São Paulo. Caiu para 237, e uma só, Rio Branco, no Acre, é capital. Seu número de eleitores caiu de 17,4 milhões, em 2012, para 6,8 milhões agora em 2016. É recuperável, mas trabalhoso.

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Tentando explicar

Além das versões de sempre – a culpa pela derrota nacional do PT é de juízes antipetistas, apoiados pela mídia golpista – surgiu uma nova: muita gente não votou, o que enfraqueceu os candidatos petistas – só eles. Que muita gente votou nulo, se absteve ou faltou, é verdade: 40 milhões, num total de 114 milhões. Conclusão: mostravam o desgosto, que o PT partilha, pela situação do país. Logo, são petistas que não saíram do armário.

Mas não é bem assim: este colunista, temporariamente (tomara!) em cadeira de rodas, não pôde votar. Sua seção só tinha acesso por escada. O candidato que receberia o voto não tinha nada com isso.

Sabedoria eleitoral

Do jornalista Mário Mendes, normalmente peçonhento e inteligente: “Sobre o dia de hoje só digo: O voto é secreto mas choro é livre. Bom dia!”

Les fatigués

Não faz tanto tempo assim: foi em 2007 que surgiu o “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, ou simplesmente Cansei, que pretendia se transformar numa frente de luta contra o excesso de impostos e a favor da saída do presidente Lula (seu slogan era “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”). Não deu certo, durou pouco.

O Cansei foi organizado pela OAB de São Paulo e empresários, entre os quais se destacavam Paulo Skaf e João Dória Jr,

Saber perder

A vitória é alegre e cordial, com abraços sucessivos, muitos aperitivos e até, com sorte, a alguns tira-gostos. A derrota é feia, selvagem. No Diretório Municipal do PT em São Paulo, uma equipe da GloboNews, comandada pela ótima repórter Andrea Sadi, que ao lado dos petistas acompanhava a apuração, foi hostilizada aos gritos de “golpista” e “fora daqui” durante uma entrada ao vivo. A equipe decidiu, por falta de segurança, deixar o local. A coletiva do prefeito derrotado Fernando Haddad não pôde ser transmitida.

Quem perdeu foi a opinião pública, que não teve acesso à opinião do prefeito. Quem perdeu, também, foi o próprio prefeito, impedido de transmitir sua posição ao público.

Acreditemos

Então, fica combinado assim:

Marta nunca foi de esquerda.

Fernando Haddad, numa virada sensacional, tinha a presença assegurada no segundo turno que não houve.

Lula, capaz de eleger um poste, faria de seu filho (que acabou perdendo) o vereador mais votado de São Bernardo, berço político e fortaleza do PT.

O tal apartamento triplex não é de Lula.

A GUERRA DO FIM DO MUNDO

As operações da Polícia Federal vão se desenvolvendo normalmente, as delações premiadas continuam a apontar pagamentos e conexões que levam a novas investigações, mas a Lava Jato hoje busca um objetivo principal: a condenação do ex-presidente Lula. Há um certo consenso de que todo o trabalho até agora realizado se perderá se Lula puder ser candidato em 2018 – e, pior ainda, se for eleito, apesar do que foi até agora conhecido.

É difícil explicar à opinião pública que um gerente da Petrobras, como Pedro Barusco, tenha se apossado de uns R$ 200 milhões, enquanto o presidente da República se limitou ao triplex, ao sítio de Atibaia, a presentes que deveria ter mandado incorporar ao patrimônio da União e a gentilezas de empreiteiras. As denúncias contribuem para minar a imagem de Lula, mas é preciso ter mais do que isso para cercear um político com sua popularidade, contatos e capacidade de manobra. É quase uma operação especial dentro da Operação Lava Jato: a Operação Pega Lula.

Boa parte das perspectivas de êxito da investigação está no material colhido com a apreensão de documentos da Odebrecht. Saem daí, por exemplo, informações sobre as palestras de Lula. A LILS, empresa do ex-presidente, se antecipou e divulgou seus dados: 72 palestras, cada uma a US$ 200 mil, para 45 empresas contratantes. Seis dessas empresas, a propósito, acusadas por superfaturamento e propinas na Petrobras.

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Lula fora

As seis empresas acusadas no Petrolão e que pagaram US$ 200 mil por palestra de Lula são Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, UTC e Queiroz Galvão. Executivos da Andrade Gutierrez, UTC e Camargo Corrêa fizeram delações premiadas, confessaram o pagamento de propinas, mas ao que se saiba não incluíram os pagamentos pelas palestras de Lula na lista de ilegalidades.

É a Guerra do Fim do Mundo: a Lava Jato e Lula, frente a frente, com sangue nos olhos, um querendo destruir o outro.

O novo-pobre

O Supremo Tribunal Federal liberou os bens de Marcelo Odebrecht. O empresário, preso e condenado na Lava Jato, demonstrou que o bloqueio dos bens inviabilizava sua sobrevivência e de sua família. Então, tá.

Passinho pra frente…

No período em que Temer assumiu interinamente a Presidência, antes do impeachment, ele e sua equipe deixaram claro que revitalizar a economia iria exigir um substancial corte de gastos públicos, a reforma da Previdência e amplas modificações nas leis trabalhistas. A emenda constitucional estabelecendo um teto para o aumento dos gastos públicos seria (e foi) encaminhada ao Congresso. Era o caminho a seguir.

…passinho pra trás…

Ao assumir de vez a Presidência, Temer se tornou bem mais flexível: concedeu ótimos aumentos a grupos corporativos com capacidade de pressão, e ampliou os gastos públicos em algo como R$ 40 bilhões (com isso, aumentou o déficit orçamentário em bons 30%). Em seguida, a reforma que considerava essencial e inadiável, a da Previdência, para não desagradar deputados e senadores, foi adiada para depois das eleições (que se realizam hoje; mas há segundo turno, há um período de consolidação do novo quadro político, e as festas de fim de ano vão chegando). Temer promete enviar o projeto de reforma em novembro – e ou é votado às pressas, sem que haja debate profundo no Congresso, ou fica para 2017.

…passinho pro lado

Agora, segundo o bem informado colunista Josias de Souza , a reforma trabalhista ficou para depois. Há no Governo quem ache que um novo projeto é desnecessário: já tramitam no Congresso projetos que tratam do tema. Basta emendá-los, se for o caso, e aprová-los. Quando houver tempo e disposição.

O fim do caminho

Resultados do vaivém, quando se esperavam atitudes decisivas:

Buraco nas contas públicas: R$ 58,8 bilhões até 31 de agosto. No mesmo período do ano passado, o buraco era de R$ 1,15 bilhão;

Rombo na Previdência: R$ 87,57 bilhões até 31 de agosto. No mesmo período do ano passado, era de R$ 44,56 bilhões.

Dinheiro público é público

O Ministério Público sugeriu a anulação de normas do programa Minha Casa, Minha Vida que submetem as famílias às organizações privadas que gerem empreendimentos. Entidades de luta pela moradia inscritas no programa escolhem, segundo seus critérios, as famílias que vão receber casas. Há entidades, por exemplo, que dão preferência a quem for a mais manifestações. Se a sugestão não for aceita, o MP entrará na Justiça.

A NOVA ETAPA DA GUERRA

Depois da prisão de Palocci, o grande articulador da aliança entre o PT e parte do grande empresariado, alguns dias de folga: não pode haver prisões, exceto em flagrante, até dois dias depois das eleições. Mas este colunista, mesmo não sendo nenhum Alexandre de Moraes, pode garantir que, passado o prazo de calma imposto pela lei eleitoral, a Lava Jato volta às atividades externas. Até lá, dedica-se às atividades internas – como a leitura e análise do rico material apreendido na Odebrecht. É muita coisa.

Por exemplo, foi determinado o bloqueio de R$ 10 milhões na conta de Guido Mantega, mas só foram encontrados R$ 4 mil. Ou os R$ 10 milhões nunca existiram – e a fonte da informação passa a ser suspeita – ou existiam e foram distribuídos. No caso, para quem?

Um detalhe: ainda não houve a delação premiada de Marcelo Odebrecht e de alguns de seus executivos. Por enquanto, o que se analisa é o material apreendido – que entre outras coisas indica a transferência de R$ 128 milhões da Odebrecht para Palocci. A apreensão de papéis de Palocci e Mantega pode trazer novos subsídios à investigação, talvez com novas ordens de prisão. Outro detalhe: o pedido de prisão de Palocci não partiu dos procuradores, mas da Polícia Federal – que não se limita portanto, a cumprir ordens, mas age ativamente na investigação. Se alguém quiser controlar a Lava Jato, terá de convencer o juiz, os procuradores e a Federal.

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Curiosidade

Os três homens-chave da campanha de Dilma eram chamados por ela, nos seus raros momentos de bom-humor, de Três Porquinhos: José Eduardo Dutra, Antônio Palocci e José Eduardo Martins Cardozo. Dos Três Porquinhos, um, Dutra, morreu há um ano; outro, Palocci, está preso. Como no clássico livro de mistério O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie, dos Três Porquinhos só restou um.

Mais nomes, mais casos…

Nos papéis de Odebrecht, aparece mais um nome importante: Aldemir “Dida” Bendine, que foi presidente do Banco do Brasil e da Petrobras. Odebrecht quer saber se um assessor tinha conseguido marcar uma reunião com “o Italiano” – pode ser Mantega, pode ser Palocci, O assessor não tinha conseguido, mas promete conversar com “Dida do BB” sobre o caso.

…mais casos, mais nomes

Do ótimo Lauro Jardim, em O Globo: as informações da Odebrecht já somam 4,5 metros de altura.

O grande nome

O Tribunal de Contas da União pediu o bloqueio dos bens de Dilma, de Palocci e de outros ex-integrantes do Conselho de Administração da Petrobras, pelos prejuízos na compra da refinaria de Pasadena, no Texas, EUA – aquela que funcionários da empresa apelidaram de Ruivinha, por estar enferrujada. As perdas que podem ser atribuídas, ao menos em parte, a Dilma e demais conselheiros, atingem, segundo o relatório do TCU, US$ 266 milhões. Pasadena foi comprada pela empresa belga Astra Oil em 2005, por US$ 42 milhões. Em 2006, a Petrobras comprou metade da empresa por US$ 359 milhões, com voto favorável de Dilma. Em 2012, a Petrobras comprou a outra metade, pagando à Astra Oil US$ 820 milhões.

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Filme queimado

Esses e outros casos influíram na queda de prestígio político e eleitoral do PT. A presidente foi impichada, e da tal “resistência ao golpe” restaram manifestações de rua, a cada dia menores e mais violentas, o grito folclórico “Fora Temer” e dificuldades para os candidatos que ficaram com Dilma até o fim. Jandira Feghali do PCdoB, estava mal no Rio, com 8% nas pesquisas. Pediu socorro aos padrinhos, e tanto Lula quanto Dilma entraram em seus anúncios e no programa gratuito. Jandira caiu para 6%. E o PT tem a perspectiva de eleger apenas um prefeito de capital, no Acre.

Perseguição, não

Uma pesada campanha, nas redes sociais e em correspondência enviada diretamente à emissora, exige que a Record demita o jornalista Paulo Henrique Amorim, apresentador do Domingo Espetacular, vice-líder de audiência aos domingos. Motivo: em seu blog na Internet, Conversa Afiada, Paulo Henrique defendeu a presidente Dilma Rousseff (e, antes dela, o presidente Lula) com todas as sua forças; e abriu fogo contra quem quer que fosse da oposição aos Governos petistas.

Enfoque unilateral? Sim, e muitas vezes injusto, Mas persegui-lo por isso é antidemocrático e não pode ser aceito. Quem não quiser ler as opiniões de Paulo Henrique Amorim pode perfeitamente evitar seu blog. Quem quiser levar o protesto mais longe não é obrigado a assistir ao Domingo Espetacular, nem a ouvir Chico Buarque, nem a ler Marilena Chauí ou Maria da Conceição Tavares, mas é obrigado a aceitar que outras pessoas tenham outras opiniões.

O SAMBA DO SACI

Ao contrário do Governo anterior, que não sabíamos por onde andava (ainda bem, porque quem sabia não era cumpanhêro, mas comparsa), temos agora um Governo que indica todos os dias o que vai fazer. Às segundas, quartas e sextas, anuncia providências; às terças, quintas e sábados, se desmente, ou adia o que era urgente. Aos domingos imagina novos planos.

Não dava para aguentar o déficit de R$ 170 bilhões, herança de Dilma. Era urgente baixá-lo. O Governo deu um aumentão para grupos poderosos do funcionalismo, gastando bilhões para inteirar o déficit de R$ 170 bilhões. Erraram na conta e o buraco ficou maior. Aumentou-se a previsão de capitais que serão repatriados. Só que o dinheiro ainda não existe.

Todos os partidos estavam livrando quem usou Caixa 2. Alguém descobriu, o projeto morreu, o Governo informou que jamais permitiria o golpe baixo – que, entre outros, era articulado pelo ministro Geddel..

Alguém ouviu o ministro Meirelles dizer que haveria corte de juros em 2015. Tanto disse que algum indiscreto ouviu. Mas Meirelles desmentiu.

Diz o Governo que a Previdência, com déficit crescente (em 2015, R$ 148,8 bilhões) ou é reformada com urgência ou quebra o país. E, como já estamos em setembro, o problema urgente ficou para o ano que vem.

Todos os cidadãos, democraticamente, podem opor-se ao Governo ou apoiá-lo. Em nosso país peculiar, isso só depende do dia da semana.

Decadence avec elegance

Lula está investindo em sua imagem internacional. O evento que promoveu em Nova York, aproveitando a Assembleia Geral da ONU, para criticar o juiz Sérgio Moro e a Operação Lava Jato (pelo menos na parte que lhe cabe no latifúndio das investigações), foi caprichado. De acordo com o respeitado repórter Maurício Lima, de Veja, “foram servidos canapés de lagosta e camarão acompanhados por taças de espumante”. Sai caro.

Bateu, cortou

Da língua afiada do jornalista Cláudio Humberto, analisando a conjuntura: “Pensando bem, o tour de Lula para apoiar candidatos a prefeito do PT começa pelo Nordeste, mas tem tudo para acabar em Curitiba.”

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Gleisi está diferente

A senadora Gleisi Hoffmann, do PT paranaense, estava loira há tanto tempo que sua antiga companheira de partido Dilma Rousseff só a chamava de “loirinha”. Mas os problemas de imagem dos políticos petistas, insultados em aeroportos, restaurantes, até no Exterior (Aloízio Mercadante foi vaiado em Portugal), levaram-na a mudar de imagem: pintou os cabelos de castanho.

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Línguas ferinas, lembrando a definição ideológica do ex-governador Leonel Brizola, tentaram apelidá-la de Socialista Morena. Este colunista prefere lembrar Carlos Drummond de Andrade, no poema que, mudando a cor dos cabelos, é a cara de Gleisi: Também já fui brasileiro:

Eu também já fui brasileiro/moreno como vocês (…)/ Eu também já tive meu ritmo,/ Fazia isso, dizia aquilo/ E meus amigos me queriam,/ meus inimigos me odiavam./ Eu irônico deslizava/ satisfeito de ter meu ritmo./ Mas acabei confundindo tudo./ Hoje não deslizo mais não,/ não sou irônico mais não,/ não tenho ritmo mais não.

Como acontece

Ninguém deve acreditar na história de que Eike Batista acordou com vontade de expiar eventuais pecados, pegou o telefone, ligou para o pessoal da Lava Jato e entregou espontaneamente o ex-ministro Guido Mantega. Eike teve excelentes motivos para decidir depor mesmo sem ser intimado.

As acusações

No seu depoimento, a principal denúncia de Eike foi contra Mantega. Acusou-o de ter pedido a ele, Eike, R$ 5 milhões, que lhe foram entregues pela empresa OSX, de construção naval; mais 2,5 milhões por intermédio de agências de publicidade que atendiam a outras empresas de seu grupo.

As investigações

Dizem investigadores da Polícia Federal que Mantega pediu diretamente ao comando de uma empresa privada que repassasse recursos a um partido político da situação para pagar dívidas de campanha. “Estes valores teriam como destino pessoas já investigadas na operação e que atuavam no marketing e propaganda de campanhas do mesmo partido”, diz a PF.

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A guerra interna

O PMDB federal enfrenta o risco de cisões. Motivo? Acertou: dinheiro. Moreira Franco, homem de confiança de Temer e presidente da Fundação Ulysses Guimarães, se negou a repassar recursos da fundação para a campanha. Em represália, o PMDB não entregou à fundação, neste mês, os habituais 20% do dinheiro (público) que recebe do Fundo Partidário.

O SURPREENDENTE BALÊ DOS ZUMBIS

Aécio teve 50 milhões de votos em 2014. Lula era o grande líder político, o presidente mais popular da História da República, com imensas perspectivas de voltar ao cargo em 2018. Dilma, a granda gerenta, estava pronta para mostrar o que era capaz de fazer no segundo mandato, livre da necessidade de buscar apoio partidário, já que não poderia disputar outras eleições. Serra, derrotado por um poste que ninguém sabia direito quem era, estava politicamente liquidado. Haddad, o tal poste, era mal avaliado, mas tinha certeza de que o eleitorado ainda o consideraria um grande prefeito – quem sabe candidato ao Governo paulista? O PMDB, grande mas sem estrelas, parecia feliz em cobrar caro seu apoio ao Governo – qualquer governo. E Michel Temer, o obscuro vice, contentar-se-ia em manter bons laços com os subcaciques do PMDB, conseguindo-lhes ainda mais cargos, e encaminhar-se-ia para a merecida aposentadoria política.

Nada deu certo – ou quase nada. Serra se articulou com Temer, tornou-se chanceler, tomou as medidas mais populares do novo Governo, o chega-pra-lá na Venezuela e demais bolivarianos, a busca de acordos proveitosos com parceiros mais confiáveis. E Michel Temer é o presidente da República – ou sê-lo-á, quando souber que em vez de aposentar-se chegou ao mais alto cargo do país, e quando tiver uma política de Governo.

Pois seu discurso na ONU foi tão sem substância que até Dilma poderia fazê-lo.

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Do lado de fora

O discurso de Temer foi um jato d’água na Assembleia Geral: inodoro, insípido, incolor. Tão previsível que seu efeito mais notável ocorreu antes de ser pronunciado: os representantes de Equador, Costa Rica, Bolívia, Venezuela, Cuba e Nicarágua, o que restou de bolivarianismo depois que Brasil e Argentina mudaram de rumo, retiraram-se do plenário.

Não perderam nada. Em compensação, ninguém notou que tinham saído.

O jeito é aguardar

O fato é que, com as delações premiadas impelindo as investigações, ninguém sabe como será o amanhã. E as coisas já anunciadas que estão por vir devem tumultuar ainda mais a cena política: a aceitação da denúncia contra Lula pelo juiz federal Sérgio Moro, a delação premiada de Marcelo Odebrecht e de dezenas de executivos da empresa, o depoimento de Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, o depoimento de Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, no processo de cassação da chapa Dilma-Temer. Mônica deve depor depois de amanhã no TSE.

O que se sabe é que aqui pra frente tudo vai ser diferente. Pense nos três maiores partidos: PT, PMDB, PSDB. Quais seus candidatos viáveis (e ficha limpa) em 2018?

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Bomba

De Leandro Mazzin, coluna Esplanada: “O procurador do MP de São Paulo Augusto Rossini fez revelação bombástica no evento de segurança da informação ITSA Brasil, há dias, na capital. Disse que ‘gravações oficiais feitas em presídios de São Paulo captaram conversas de dois assessores de ministros de tribunais superiores em Brasília com seus irmãos que estão presos’.

“Rossini disse que não revelaria quem são estes ministros, por questão de sigilo de informação e investigações em andamento, mas o caso é conhecido de todos do Judiciário brasileiro, e demonstra o poder de influência do crime organizado”.

Agora é cobrar informações e exigir a divulgação dos nomes. Crime organizado é demais até para nossa política.

O cerco a Lula

O juiz federal Sérgio Moro aceitou a denúncia do Ministério Público contra o ex-presidente Lula, que assim passa à condição de réu. Na peça do MP, Lula é acusado de crimes com contatos da Petrobras e do recebimento de propina de R$ 3,7 milhões da OAS. Sem foro privilegiado desde que deixou a Presidência, o Supremo mandou o inquérito sobre ele para a primeira instância. Lula lutou longamente para que seu caso ficasse no Supremo, chegando ao episódio do Bessias, em que foi nomeado ministro do Governo Dilma (mas, por ordem da Justiça, não pôde tomar posse). Como ministro, teria foro privilegiado e se livraria de Sérgio Moro.

A volta de Dilma

A ex-presidente, poucos dias depois de impichada, voltou à atividade política (mas, ao menos por enquanto, para candidatos do PCdoB, não do PT). A primeira a ter seu apoio foi Jandira Feghali, candidata à Prefeitura do Rio. Dilma elogiou Jandira por sua luta contra o impeachment. Na semana que vem, em Salvador, Dilma discursa em favor de Alice Portugal.

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Forno ligado

Desta vez não passou, mas mostra que o pessoal está ligado. Tentaram passar na Câmara uma lei que torna crime o uso de Caixa 2. Assim, quem usou Caixa 2 antes da nova lei ficaria livre, porque ainda não era crime.

A HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA

O Ministério Público abusou na entrevista coletiva sobre o indiciamento de Lula, como dizem os advogados de defesa, ou apenas demonstraram por que fizeram a denúncia? Tanto faz: o fato é que chegou a hora de a onça beber água, e Lula e o juiz Sérgio Moro devem encontrar-se frente a frente.

A denúncia contra Lula, sua esposa Marisa Letícia, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e o ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, já foi encaminhada a Sérgio Moro. Espera-se que ele decida até amanhã se aceita a denúncia e transforma os indiciados em réus ou se a rejeita e manda arquivá-la. Moro tem-se notabilizado não apenas pela dureza de suas providências (como o amplo uso – legal, segundo os tribunais superiores – da prisão cautelar, em que o investigado fica preso por longos períodos, à disposição do juiz) quanto pela celeridade de seu trabalho: por exemplo, sentenciou o pecuarista José Carlos Bumlai a nove anos e dez meses de prisão em dois minutos. As últimas alegações de um dos acusados no processo foram-lhe entregues às 7h52, e a sentença saiu às 7h54.

Há coisas no processo difíceis de entender. Atribui-se a Lula o recebimento de propina de R$ 3 milhões – isso quando de um gerente da Petrobras, Pedro Barusco, a Operação Lava Jato recuperou R$ 182 milhões.

Enfim, chegou a hora de a onça beber água. O grande problema é que há onças que não gostam de beber água.

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De um bicho a outro

Quando ficou claro que a Operação Lava Jato fixava a mira nele e foi determinada sua condução coercitiva para depor, Lula lançou um desafio: estava pronto para a briga. “Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve”.

Com a possibilidade de ser julgado por Sérgio Moro, Lula chorou na entrevista coletiva. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, garantiu que o ex-presidente tem o couro duro. A julgar pelo couro duro e pelas lágrimas, a jararaca mal pisada se transformou em crocodilo.

O processo que falta

Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, deu uma entrevista famosa quando Waldomiro Diniz, subchefe da Casa Civil, homem de confiança do ministro José Dirceu, foi filmado ao tomar R$ 3 mil de bicheiros. O caso iniciou as investigações do Mensalão. Jefferson foi duro com Diniz, que se corrompia por tão pouco: chamou-o de “petequeiro”.

Mas transformar Lula em “petequeiro”, de forma depreciativa, é inaceitável. Seria o caso, então, de levá-lo ao Juizado de Pequenas Causas. Ou de simplesmente processá-lo por dumping.

Deslize 1

De Lula, falando de seu prestigio popular: “No Brasil, só Jesus Cristo ganha de mim”.

Não ganha: Cristo foi condenado entre apenas dois ladrões.

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Deslize 2

De Lula, criticando os promotores da força-tarefa da Operação Lava Jato, que o denunciaram à Justiça: “Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por que? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem de ir para a rua encarar o povo e pedir voto. O concursado não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”.

Lula é o autor da imortal denúncia segundo a qual há 300 picaretas no Congresso. Mudou o Congresso ou mudou Luiz Inácio Lula da Silva?

E a vida continua

Só Lula? Não: a Polícia Federal indiciou, na última sexta, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel; e, mais uma vez, o empreiteiro Marcelo Odebrecht, do Grupo Odebrecht. Motivo: corrupção no BNDES. Segundo a Polícia Federal, Pimentel, como ministro do Desenvolvimento do Governo Dilma, recebeu vantagens indevidas para facilitar a liberação de financiamentos.

Importante: Pimentel participou da luta armada ao lado de Dilma e é provavelmente o seu amigo mais próximo e há mais tempo.

Pátria enriquecedora

Extraído do levantamento do número de funcionários no Palácio da Alvorada, a serviço exclusivo da presidente afastada, enquanto se aguardava o impeachment: 34 motoristas contratados pela Presidência, com 28 carros alugados. Entre eles, um furgão para transportar a bicicleta de Sua Excelência.

E por que 28 carros com 34 motoristas para atender a Dilma, sua mãe e uma tia? Porque sim. Não havia controle de despesas. O contrato de locação termina em 1º de novembro e, dizem, será reduzido.

EU SOU VOCÊ AMANHÃ

Não, não se trata de propaganda de vodca, embora pudesse, com propriedade (e haja propriedade!), sê-lo. É política: Mauricio Funes, ex-presidente de El Salvador, investigado por enriquecimento ilícito, corrupção, tráfico de influência e peculato (crime que consiste em transformar a verba pública em privada), conseguiu asilo político na Nicarágua, que o considerou “perseguido político”.

E não ganhou o benefício sozinho: “perseguidos políticos”, asilados com ele, são sua companheira, Ada Mitchell Guzmán, e seus filhos Carlos Mauricio, 34 anos, Diego Roberto, 25 anos, e Mauricio Alexandre, 2 anos – um raro caso de perseguido político pediátrico. Maurício Funes sempre teve excelentes relações com o PT, foi casado com uma brasileira, a militante petista Vanda Guiomar Pignato, e sua vitoriosa campanha, que o levou à Presidência de 2009 a 2014, foi conduzida pelo marqueteiro João Santana.

Maurício Funes foi o primeiro presidente salvadorenho eleito com o apoio da Frente Farabundo Marti, antigo movimento guerrilheiro. Seu sucessor Sanchez Cerén foi eleito pela mesma base política, mas a coisa era tão brava que, em pouco mais de um ano, Funes passou de Guerreiro Ferrenho do Povo Salvadorenho a forte candidato a uma vaga na prisão.

Lembra algum personagem de algum país? Não: as acusações a Funes envolvem só US$ 600 mil. Como diriam seus amigos, dinheiro de pinga.

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Mauricio Funes com o ex-presidente Lula

Salvem-se os bons

Há ainda outras coisas em El Salvador diferentes das de outros países. Lá, em um ano e pouco de investigações, o ex-presidente corre risco de prisão. No Brasil, de março de 2014 até hoje, foram abertos processos no Supremo contra 54 parlamentares. Desses, dois viraram réus. Quanto tempo se passou do desastre até a identificação dos donos do jatinho utilizado em campanha por Eduardo Campos?

O tempo passa

O ministro do Supremo Teori Zavascki tinha retirado da pauta, por causa do impeachment, a denúncia de longa data contra a senadora Gleisi Hoffmann e seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo. Agora o caso voltou à tona: perto do fim do mês, o caso deve entrar em julgamento.

Artilharia pesada

Emílio Odebrecht conversou longamente com promotores da Lava Jato, em Curitiba. Era o passo que faltava para a delação premiada. A Odebrecht entra no jogo com o filho do dono, Marcelo, em companhia de 60 executivos de porte. Mais letal ainda, trata-se de uma empresa organizada. Tem tudo registrado, cada propina, paga a quem, de que maneira, entregue em que lugar.

Só falta (se faltar) o número de série de cada nota.

O sucesso e o declínio

Há um ano, Eduardo Cunha era um dos homens mais poderosos do Brasil. Botou o Governo na parede, enquadrou a tal base aliada e comandou o processo político que levou ao impeachment. Mas seu telhado de precioso vidro suíço, Verre au Pishoulec, não resistiu aos temporais e Cunha foi cassado.

Na sessão em que caiu, dos 469 deputados presentes, cinco o cumprimentaram. E o placar foi de 450×10 contra ele, com 9 abstenções. Agora, ele está à disposição da Justiça de primeira instância, que deverá julgar dois inquéritos que estavam no Supremo. Enfrenta outros seis inquéritos, um pedido de abertura de investigações, uma ação cautelar com pedido de prisão, uma ação de improbidade. Dos dois inquéritos que estavam no STF, um tem tudo para ser enviado ao juiz Sérgio Moro.

O poeta é um fingidor

Renan Calheiros, presidente do Senado e companheiro de partido de Cunha, comentou a cautelosamente a cassação – afinal, responde a 12 inquéritos no Supremo – citando provérbios e frases de sucessos musicais, como “Afasta de mim esse cálice”, de Chico Buarque e Gil, inspirado nos Evangelhos, e “Quem planta vento colhe tempestades”, com base na Bíblia (Provérbios, 22).

Aos leitores mais maldosos: não, ele não citou o sucesso Reunião de Bacanas, de Ary do Cavaco e Bebeto di São João. Lembra? Começa com “se gritar pega-ladrão/ Não fica um, meu irmão (…)”

Boa notícia

A Câmara aprovou ontem a conversão de pouco mais de dez mil cargos comissionados (de livre nomeação) em vagas exclusivas para aprovados em concurso público. A redução de tetas disponíveis é uma ótima notícia.

Volta de investimentos

A canadense Brooksfield, liderando consórcio com os fundos soberanos da China e de Singapura, comprou a rede de gasodutos da Petrobras no Sudeste brasileiro. Valor do negócio: US$ 5,2 bilhões.

A Brooksfield é uma velha conhecida do Brasil, onde opera há mais de um século em energia e transportes, com os nomes Light e Brascan.

A LEI PARA OS MAIS FRACOS

A Operação Lava Jato comemora mais de dois anos de sucesso de público e êxitos no ataque a enormes focos de corrupção. Já condenou 74 réus a penas de mais de mil anos de prisão. Tem sido cautelosa ao botar gente na cadeia: políticos em atividade, por exemplo, são poucos; empresários de peso foram presos, foram condenados, mas só os de trato mais difícil estão na cadeia. Outros fizeram delação premiada e hoje vivem confortavelmente em suas mansões. Mesmo os políticos atingidos, como o ex-líder do Governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral, tiveram boas chances de livrar-se do pior. A casa de Delcídio, onde ele está recolhido, é ótima, e já abrigou festas com 700 convidados. Citando a excelente obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que os animais tomam conta de uma fazenda e acabam escravizados por outros animais, “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Mas ser mais igual não parece suficiente aos que já são mais iguais: no Congresso, pensa-se numa lei que anistie os envolvidos nos crimes de Caixa 2 cometidos até as eleições de 2014 – as últimas que se realizaram. Abre-se caminho para discutir se pixulecos seriam propinas ou doações para o Caixa 2 de partidos e candidatos. Isso criaria tal novelo jurídico que multiplicaria o trabalho dos investigadores e daria muito mais tranquilidade a receptores e doadores. Enfim, aos corruptos, a paz que tanto desejam.

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Lula na fritura

Este colunista não acredita que Lula seja preso, a não ser, eventualmente. por poucos dias. Mas este colunista não acreditava na prisão de empreiteiros, nem na de José Dirceu, e estava enganado.

Mas o fato é que corre risco, mais ainda depois que o ministro Teori Zavascki rejeitou o pedido de transferir seus inquéritos para o STF. Pior: ao recusar o pedido, Zavascki acusou a defesa de Lula de “embaraçar as investigações”. Está aberto o caminho para que Lula vá a Curitiba enfrentar Sérgio Moro.

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Falam muito!

É fácil saber quais são as medidas mais importantes até agora adotadas pelo presidente Temer: são aquelas das quais desistiu, explicando (ele ou algum ministro) que não era bem assim, ou voltando atrás e desistindo daquilo que horas antes era imprescindível. Alguém precisa contar ao presidente que seus publicitários e marqueteiros podem criar slogans criativos, com ou sem a assistência do Michelzinho, mas que sua tarefa mais importante é comunicar à população aquilo que o Governo quer fazer.

Mais ainda, têm de manter em mente o princípio básico de sua profissão: comunicação não é o que se transmite, mas o que o público percebe.

É mas não é

Neste caso foi ainda pior: ao comunicar mudanças na legislação trabalhista, liberando e formalizando empregos por hora, tudo foi tão mal explicado que até grandes jornais, com equipes experientes, se confundiram, achando que o Governo queria autorizar o horário de trabalho de 12 horas por dia (contra os oito atuais).

Resultado: o ministro teve de se desmentir no dia seguinte. E quem acredita nele de agora em diante?

Cunha, enfim

O Supremo negou por 10×1 o pedido de Eduardo Cunha para que seu processo de cassação fosse suspenso. A votação da Câmara para decidir o processo está marcada para amanhã. O número de parlamentares que se declaram dispostos a votar contra Cunha é suficiente para cassá-lo.

Terminou? Não se sabe. Cunha é hábil, estudioso, capaz de encontrar novos caminhos para adiar a decisão do processo. Há dois caminhos óbvios (e Cunha deve conhecer outros): (a) falta de quórum e (b) questões de ordem para prolongar indefinidamente a sessão, até que seja adiada para sabe-se lá quando, já que não há datas disponíveis. Há um número fixo para cassá-lo, 257 (metade mais um dos deputados). Se aparecerem poucos deputados, alcançar 257 votos fica muito mais difícil.

É claro que, cedo ou tarde, Cunha será cassado. Isso faz com que seu apoio, antes maciço, se esvaia. O resultado depende do que for mais importante: favores passados ou falta de perspectivas de favores no futuro.

Trabalhar cansa

Feliz com as perspectivas de amanhã? Calma: ou se vota a cassação de Cunha amanhã ou não se sabe quando. Em seguida a Câmara entra em seu quinto recesso do ano, agora para que Suas Excelências participem da campanha eleitoral. Depois da eleição haverá segundo turno, comemorações, articulações em busca de boquinhas com quem ganhou.

Parabéns, ministra Carmen!

Nesta segunda, há outro evento que não depende de ninguém: a ministra Carmen Lúcia toma posse na Presidência do Supremo Tribunal Federal, no lugar do ministro Ricardo Lewandowski.

Duas boas notícias.

FORA, MAS MEIO DENTRO

A maior manifestação popular dos últimos tempos pedia Fora, Dilma.

Esperava-se que o vice Michel Temer assumisse dizendo a que veio: reduzindo o número de Ministérios, desaparelhando a administração que havia sido aparelhada pelo Governo, enfrentando pelo menos alguns dos grupos corporativos que, indiferentes á crise, insistiam em multiplicar seus salários, vantagens, benefícios e penduricalhos diversos.

Temer assumiu falando grosso, mas concordou em seguida com um pacotão de benefícios a grupos corporativos que aumentou o déficit público em mais de R$ 40 bilhões. Fechou o Ministério da Cultura e o reabriu em seguida. Impôs medidas restritivas ao aumento de gastos dos Estados como preço para aliviar seus problemas financeiros, mas em seguida desimpôs as exigências. Virou uma Dilma que fala português mais requintado, com mesóclises.

Qual seria a reação do eleitorado se Temer assumisse a linha de sua equipe econômica e fizesse o necessário, em vez de pedir ao ministro Meirelles que explique por que R$ 40 bilhões não aumentam o déficit?

No Reino Unido, mesmo tendo de passar frio durante a luta de Margaret Thatcher com os mineiros de carvão, o eleitorado a manteve no poder por 12 anos. Lee Kwan Yew, em Cingapura, foi mantido 25 anos no poder; seu filho Lee Hsien Loong ganhou as eleições, e mantém a política do pai.

Aqui, Temer e o PMDB querem apoio para manter Dilma meio fora.

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Negócios da China

Temer não deu sorte na China. Menosprezou lá a grande manifestação contra seu Governo, falando em 30, 40 pessoas, “aqueles que põem fogo em carros”. Era mais gente, e não só quem punha fogo em carros. Teve de comprar, publicamente, sapatos – justamente um dos pontos difíceis das relações com os chineses, que invadiram o mercado mundial e são acusados, pelos exportadores brasileiros, de dumping. E com isso revelou que governar de salto alto, para ele, não é um ato apenas simbólico. Temer, de verdade, usa salto alto. Para quebrar, devia ser bem alto.

Mas os chineses gostaram de Temer e o convidaram para nova visita. Simpatia: devem ter visto que, até hoje, seu Governo está sendo xing-ling.

O dia de…

Não se irrite com os parlamentares que fatiaram o impeachment, livrando a cara de Dilma. Cada um pensa no seu futuro. Hoje, antes do final da Operação Lava Jato, antes de importantes delações premiadas, antes de revelações da Operação Greenfield, a entrada da Polícia Federal nos fundos de pensão de estatais, há uns 30 senadores com pendências criminais no Supremo. Quem tem, digamos, cuidado, tem medo!

Muito antes disso o pessoal cuidou das aposentadorias presidenciais. Dilma tem direito, mesmo impichada, a dois automóveis e oito servidores de sua livre escolha, pagos por esta pessoa que se vê de manhã no espelho. Dois receberão R$ 11.235 mensais; dois, R$ 8.554; dois, R$ 2.837; dois, 2.227,85. A FAB a transportará para onde resolver morar, e o Governo pagará a empresa escolhida para levar a bagagem.

…amanhã

Agora vem o mais importante: Dilma mantém o direito de ser eleita. Se for, mantém o foro privilegiado, livre do juiz Moro, livre do juiz Vallisney. Esta, sim, é a causa que move os senadores. Amanhã pode ser outro dia.

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Fato relevante

Mas Dilma agora tem de ser eleita para manter o foro privilegiado. Só Delcídio a delata mais de 70 vezes. Está sujeita aos juízes de 1ª instância.

Jogo pesado

A Operação Greenfield, autorizada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, começou espetacularmente: bloqueio de R$ 8 bilhões, 106 mandados de busca e apreensão, 7 de prisão temporária, 34 de condução coercitiva, visando, fora as pessoas, 38 empresas e entidades, entre elas a Postalis (fundo de pensão, com sérios problemas financeiros, dos funcionários do Correio), Funcef, da Caixa, Previ, do Banco do Brasil, e Petros (Petrobras).

Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, foi levado coercitivamente pela Greenfield para depor e em seguida deve cumprir nova ordem de prisão preventiva, da Lava Jato. A expectativa é grande: considerando-se as normas dos fundos de pensão, atingir prejuízos elevados exige muitas e importantes cumplicidades.

Quem é quem?

No impeachment, a senadora Gleisi Hoffmann disse que no Congresso não havia ninguém com moral para julgar Dilma. Renan, irritado, disse que um mês atrás, a pedido dela, tinha conseguido impedir o indiciamento de Gleisi no Supremo. Falta saber como Renan atingiu seu objetivo. E falta:

1 – Saber com qual ministro do Supremo conversou, neste caso;

2 – Saber se o Ministério Público também se mostra curioso.

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TIRO AO ALVO

Dilma, enfim, é vista pelas costas. Não é o ideal, mas bem melhor do que quando era ela que nos olhava pelas costas.

Entretanto, não imagine que a inédita demissão em fatias de Dilma encerre a crise. Ao contrário, marca o início de outra: além da disputa no Supremo sobre o fatiamento, há a nova fase das denúncias e investigações, agora com mira direta em Lula. O ex-líder do Governo no Senado, Delcídio do Amaral, passou dois dias em Curitiba, depondo basicamente sobre Lula.

Aguarda-se a apresentação de três denúncias contra o ex-presidente, as três por corrupção e lavagem de dinheiro:

1 – Por R$ 2,4 milhões oferecidos pela OAS em obras no apartamento do Guarujá e na guarda de objetos da Presidência que Lula trouxe com ele;

2 – Pelo pagamento de R$ 11,8 milhões à LISL, sua empresa de palestras;

3- pelas obras no sítio de Atibaia que também não é dele.

Está na moda: as denúncias serão fatiadas, esperando que a Procuradoria Geral da República retome a delação de Leo Pinheiro, da OAS.

E haverá mais: foi confirmado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo o envio das investigações do Ministério Público paulista sobre o apartamento triplex do Guarujá que não é de Lula para o juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Essas investigações atingem a esposa e um dos filhos do líder petista.

Há muita gente querendo matar a Lava Jato. E sabem direitinho por que.

Lula Triplex

Me inclua…

O inédito impeachment fatiado até pode ser aprovado pelo Supremo, onde oito dos onze ministros foram nomeados por Lula e Dilma; mas terá maus efeitos, beneficiando políticos que só não foram ainda cassados porque sabem se equilibrar, como Eduardo Cunha, ou utilizam seu prestígio para convencer aqueles dispostos a ser convencidos, como Renan Calheiros. Se Cunha for cassado sem perder os direitos políticos, será eleito em seguida, e poderá dizer que voltou nos braços do povo, que o absolveu. Se for punido pela via branda, ficará mais forte do que hoje. No caso, é melhor esquecer problemas passados e mergulhar juntos na geleia geral.

…dentro disso

O julgamento de Cunha está previsto para 12 de setembro. Ele tem cartas suficientes para conseguir um adiamento. Só que em seguida os parlamentares saem de férias para ajudar candidatos a prefeito e vereador, há eleições, negociações, festas de fim de ano e outro recesso. Para Cunha, ótimo: ele mantém o mandato até 2017. Se o método-Dilma pegar, ainda ganha um cargo público, dentro da lei, para reforçar sua posição eleitoral.

E Temer?

O presidente da República falou grosso contra o impeachment brando de Dilma, disse que quem está no Governo tem de votar com o Governo. Em seguida, viajou com um dos articuladores da traição, Renan Calheiros, e na chegada à China já dizia coisas bem mais suaves. Alguns senadores do PMDB garantem que Temer sabia de tudo e tudo aprovou.

É possível: ninguém chega ao comando do PMDB sem jogar o jogo do partido.

Gente má

Gente maliciosa estranhou quando, ao ser informado de uma medida jurídica tão pouco ortodoxa, Lewandowski tenha sacado na hora anotações, cópias de leis, etc. Existe gente que vê maldade em tudo. Lewandowski contou como as coisas de fato aconteceram: no sábado, ele imaginou que os partidários de Dilma talvez propusessem o fatiamento do impeachment, e mergulhou, com sua equipe, no estudo da tese. Pois não é que a intuição do ministro deu certo e o PT decidiu seguir o caminho por ele imaginado?

Jornada de glória

Em 1925, o Club Athletico Paulistano fez a primeira viagem de um time brasileiro de futebol à Itália. Sucesso total: nove vitórias em dez jogos. Mais: os europeus, nessa época, começaram a chamar os brasileiros – um timaço, com Araken e Evangelista atacando pela esquerda, e Friedenreich de centroavante – de reis do futebol. Só que até agora não havia imagens em movimento desses jogos; e os gols de Friedenreich eram registrados apenas em fotos. O Club Athletico Paulistano melhorou bem a situação: encomendou a Beto Duarte, filho do magnífico Orlando Duarte, um filme com as imagens disponíveis do time que apresentou nosso futebol aos europeus. O filme 1925, o ano em que nos tornamos reis foi exibido, para convidados, no dia 1º, numa bela festa no Club.

A propósito, há gols de Friedenreich. Ele seria hoje titular de qualquer time brasileiro.

Quem fez o que

O fatiamento do impeachment foi sugerido por José Eduardo Cardozo e aceito por Ricardo Lewandowski, aconselhado por Renan Calheiros. O Brasil é um país rico em personalidades multiculturais: em que outro país um ministro do Supremo tem um conselheiro do nível de Renan Calheiros?

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LOUCADEMIA DO IMPEACHMENT

Dilma, nos debates: “Discordo que a Constituição proíba, pois quando ela proíbe ela permite que se faça ela”.

José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça, advogado de defesa de Dilma, disse em sua peroração que ela foi presa porque lutava contra a democracia. Pura confusão: ela lutou contra a ditadura, mas não por ou contra a democracia. Queria mesmo uma ditadura comunista, estilo cubano.

Dilma, respondendo ao senador Ricardo Ferraço: “Considero que essa sua acusação é improcedente. Acho que ela é aquela mentira que não tem base na realidade, ou seja, ela não expressa a verdade dos fatos”.

O excelente repórter Ricardo Cabrini entrevista o traficante Fernandinho Beira-Mar, no SBT. Pergunta: “Que é que dá mais dinheiro, tráfico de armas, cocaína ou maconha?” Fernandinho Beira-Mar: “A política”.

José Eduardo Cardozo chorou, dizendo “é injustiça, é injustiça”. Mas é maldade dizer “não condene a clienta de Cardozo senão ele chora”.

A Folha de S.Paulo diz que uma universidade francesa e uma americana convidaram Dilma para estudar. Segundo o portal O Antagonista, é a primeira vez que um presidente é chamado para ser aluno, e não professor.

Mas talvez não haja nenhuma indelicadeza das faculdades, apenas um erro na passagem de uma língua para outra. O convite a Dilma não deve ser para estudar, mas para ser estudada.

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O Manda-Chuva

José Eduardo Cardozo diz que a História se encarregará de inocentar Dilma. Pois é: que fazer se ele, o advogado de defesa, não conseguiu?

Chico no julgamento

Chico Buarque de Holanda, convidado por Dilma, compareceu ao julgamento, e para isso abriu mão de seu obrigatório (quando está no Brasil) futebol das segundas-feiras. Não deu certo: houve filas de gente para tirar selfies com ele, o que ofuscou a presença de Lula.

O problema é que, se os senadores se aproximassem de Lula, talvez pudessem ser convencidos a votar por Dilma. Já Chico, petista roxo, não consegue mudar o voto de um senador sequer, nem tirando selfies em ritmo industrial.

CBL

Amanhã…

E, já que falamos em Chico Buarque, como será o amanhã com Temer e sem Dilma? Sem Dilma, melhor: independente das motivações jurídicas para impichá-la, ela criou uma imagem de confusão gerencial, autoritarismo, voluntarismo, de não levar em conta a realidade econômica, de achar que o Governo deve gastar o que ela decide, que o dinheiro aparece. Sem Dilma, empresários e investidores talvez se sintam em melhores condições de arriscar seu capital.

Já Temer depende de Temer.

…há de ser…

Até agora, Temer prometeu reformas, limitação nos gastos públicos, mão forte para sua boa equipe econômica. Mas na hora da verdade, liberou amplos aumentos para setores já bem aquinhoados, falou de reformas mas não as fez, falou muito sobre redução dos gastos públicos mas não contrariou ninguém que estivesse reclamando bons aumentos de salários. A desculpa é que não poderia perder apoios na votação do impeachment.

…outro dia

Com mão firme, Michel Miguel Temer Lulya pode repetir o mandato de Itamar Franco, vice que assumiu com o impeachment de Collor e deixou como legado o Plano Real, que estabilizou a moeda. Com mão de PMDB, pode repetir o período de José Linhares, presidente do Supremo que assumiu após a queda da ditadura de Getúlio Vargas, e se dedicou a nomear parentes.

Popularmente, espalhou-se o slogan “Os Linhares são milhares.” Atribuía-se a ele a frase segundo a qual sua experiência política duraria pouco tempo, mas com a família teria de conviver a vida inteira. Linhares ficou na História, mas, em termos de biografia, pelo motivo errado. A escolha sobre seu papel na História cabe apenas a Temer.

Lava tudo

O procurador-geral Rodrigo Janot já disse que não tolera o vazamento de delações premiadas. Então terá um problema e tanto: sua vice procuradora Ela Wieko foi fotografada com faixas pró-Dilma e gritando Fora, Temer numa manifestação em Portugal. Até aí o problema é menor. Mas, ao dizer aos repórteres que não se sentia bem com Temer na Presidência, acrescentou: “Ele está sendo delatado. Eu sei.”

Cadê o sigilo? E é ela que cuida da Operação Acrônimo, que envolve o governador de Minas, Fernando Pimentel, um dos mais próximos amigos de Dilma.

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De alto a baixo

O MP do Paraná abriu processo contra a Federação Paranaense e a empresa BB Corretora, que puseram à venda o dobro da lotação do estádio Willie Davis. Dono da BB: deputado Ricardo Barros, ministro da Saúde.


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