DORMIR, TALVEZ SONHAR

O PSDB tenta convencer o Tribunal Superior Eleitoral de que Dilma usou dinheiro sujo para se eleger em 2014; mas Temer, seu vice, eleito na mesma chapa, com os mesmos eleitores, já que o voto era em ambos, é inocente. Invertendo a frase do apóstolo Mateus, é como se, ao receber o dinheiro ilegal, a mão direita não soubesse o que faz a esquerda.

O senador Romero Jucá, amigo de Temer, se queixa, referindo-se à Lava Jato, de que vivemos uma caça às bruxas, uma Inquisição. Imagine a ousadia, querem pegar corruptos!

Enquanto os políticos procuram encobrir como trabalham, coube a um não político, o empresário Marcelo Odebrecht, contar como se faz uma campanha eleitoral: “o Governo sabia, a população sabia, eu sabia que o empresário, para atuar na Petrobrás, de alguma maneira tinha de atender os interesses políticos daquela diretoria. Eu fazia vista grossa, a sociedade fazia vista grossa, todo mundo fazia vista grossa”.

Ele sabe das coisas; costumamos ignorar os sinais exteriores de riqueza de quem não tem renda legal para pagá-los.

Depois criticam os corruptos e esperam que o país melhore. Mas, em vez de apontar a corrupção, preferem o clássico discurso de Hamlet: “Dormir! Talvez sonhar”.

A verdade…

Já que Marcelo Odebrecht mostra os fatos como são, mais um trechinho do que disse (se mentiu, arrisca-se a ficar anos na prisão): “Duvido que tenha um político no Brasil que tenha se eleito sem caixa 2. E, se ele diz que se elegeu sem, é mentira, porque recebeu do partido. Então, impossível”.

…do dinheiro

Do dinheiro reservado pela Odebrecht para as campanhas, 25% eram legais; e 75% iam por fora. Marcelo Odebrecht diz: “Caixa 2, para a gente, e acho que para todas as empresas, era visto como natural. Os valores definidos pelos candidatos eram tão aquém do que eles iam gastar que não tinha como a maior parte das doações não ser caixa 2. Era impossível”.

A mentira…

Nos últimos dias de Dilma como presidente, a oposição anunciava que o déficit orçamentário seria de R$ 139 bilhões – um absurdo, considerando-se que o país precisa gerar superávits para reduzir a dívida e o pagamento de juros. Dilma caiu, e o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reafirmou que o rombo – o déficit primário, antes do pagamento dos juros) – seria de inacreditáveis R$ 139 bilhões. E ninguém poderia acusar Meirelles de adversário do petismo: ele foi presidente do Banco Central durante os dois mandatos de Lula, e Lula cansou de indicá-lo a Dilma para o Ministério da Fazenda. O tamanho do rombo, portanto, era aquele mesmo, e não algo inventado pela zelite galega, branca, de zóio azul.

…dos números…

Assim que assumiu, o presidente Michel Temer deu esplêndidos aumentos salariais a corporações de servidores. O dinheiro, explicou Meirelles, já fazia parte dos tais R$ 139 bilhões (e, sabe-se lá o motivo, não poderia ser usado para reduzir a cratera). Mas era tudo tão real quanto o espelho mágico de Temer (“escravo do espelho meu, dir-me-ás se há no mundo um presidente mais belo do que eu”). Agora, o ministro Meirelles diz que o buracão aumentou para R$ 197 bilhões – R$ 58 bilhões a mais, exatamente o que foi gasto na fabulosa farra dos aumentos.

Quem paga?

Leitores e leitoras desta coluna são inteligentes, bem informados, conhecem este país. Há quem faça a barba. Há quem faça a maquiagem. Seu espelho não é mágico, mas mostra direitinho, quando o Governo diz que é preciso aumentar ainda mais os impostos, quem é que vai pagá-los.

Boa notícia

O deputado Rogério Marinho, tucano potiguar, relator da reforma trabalhista, decidiu propor o fim do imposto sindical. Imposto sindical é aquele dia anual de trabalho descontado do salário de cada trabalhador com carteira assinada e entregue ao sindicato, seja a vítima do desconto associada ou não. Com a vultosa quantia que recebem de imposto sindical, os sindicatos não têm nenhum estímulo para convencer os assalariados de sua base a sindicalizar-se. Se quiserem, os dirigentes sindicais têm condições de se acomodar e ignorar sua base. É também o imposto sindical que dá condições para a existência de tantas centrais sindicais. Mas é jogo duro: nem a ditadura militar conseguiu abolir o imposto sindical.

OLHOS NOS OLHOS

Lula pediu ao Supremo Tribunal Federal a interrupção das investigações sobre ele em Curitiba. Foi derrotado por unanimidade. Já pediu medidas semelhantes ao Tribunal Regional Federal de Curitiba, ao Superior Tribunal de Justiça, e perdeu. Ao que tudo indica, terá de sentar-se diante do juiz Sérgio Moro, em 5 de maio, pela primeira vez pessoalmente, e ser ouvido sobre o triplex do Guarujá. Lula é o último a depor: depois, virão as alegações finais dos advogados e Sérgio Moro dará a sentença.

Lula é réu em cinco processos, e este é o primeiro em que haverá sentença. Se condenado, poderá recorrer em liberdade. Mas, se o recurso for rejeitado, estará às portas da prisão. E inelegível, como ficha suja.

E tudo piora, para seu lado, com o depoimento de Marcelo Odebrecht. Diz o Príncipe dos Empreiteiros que pagou R$ 50 milhões pela Medida Provisória 470/2009, a MP dos Refis, editada pelo presidente Lula para beneficiar quem estava com os impostos atrasados. Diz também que Lula informou a sua sucessora, Dilma, que Antônio Palocci era o encarregado de ordenhar a Odebrecht. Diz ainda que Dilma trocou Palocci por Mantega. Tanto Lula quanto Dilma, portanto, sabiam de tudo.

E gostaram.

Depois do depoimento de Marcelo Odebrecht, depois da delação de outros diretores da empresa, ficou claro que os fatos ocorreram. A questão agora é definir se configuram crime ou não. E punir os culpados.

Dilma em risco

Odebrecht diz que Dilma lhe informou sobre a troca do captador, de Palocci para Mantega, logo depois de Palocci deixar o Governo. Citou até a frase que ela teria dito: “Daqui pra frente é com o Guido”. Informou que a presidente sabia que seu marqueteiro João Santana recebia da Odebrecht pelo caixa 2. E que ele mesmo, Odebrecht, disse a Dilma que as contas bancárias no Exterior estavam ao alcance da Operação Lava Jato. Se essas informações forem falsas, Marcelo Odebrecht terá de cumprir pena de quase 20 anos. Se verdadeiras, sai da prisão no fim deste ano.

A defesa de Dilma

A ex-presidente não quis falar. Sua resposta está numa nota, na qual classifica o depoimento de Marcelo Odebrecht como “novas mentiras”.

A reação do PT

O PT, discretamente, está montando uma caravana para ir a Curitiba no dia em que Lula for interrogado por Moro.

A ordem é se reorganizar

O PT gostaria de ter Lula como presidente do partido. Lula rejeitou o cargo: prefere cuidar de sua candidatura à Presidência. E, claro, de sua defesa. Quem será o presidente do partido? O senador fluminense Lindbergh Farias é candidato; mas a corrente de Lula, majoritária, está escolhendo outro nome. O 7º Congresso Nacional do PT se realiza de 7 a 9 de abril. A nota informativa poderia ter sido escrita por Dilma Rousseff:

“O VI Congresso Nacional do PT será realizado nos dias 7, 8 e 9 de abril de 2017, com a participação de 600 delegados e delegadas, observando a paridade de gênero e as cotas étnico raciais e de juventude (…)”. Haverá espaço para índios, orientais, galegos?

Pisando na bola 1

O juiz Sérgio Moro, que até agora vinha resistindo bem aos ataques que sofreu, acabou errando feio e tendo de recuar ao determinar a condução coercitiva (a pessoa é conduzida presa para prestar depoimento) do blogueiro Eduardo Guimarães. A história: Guimarães, abertamente petista, soube com antecedência que Lula seria conduzido coercitivamente para prestar depoimento. Transmitiu a informação a Lula e, mais tarde, publicou-a em seu blog. Moro encarou a atitude de Guimarães como tentativa de atrapalhar as investigações. Errado: conforme a Constituição, os jornalistas podem divulgar as informações que tiverem, mesmo secretas. Quem tem de guardar sigilo de documentos são os servidores públicos, não os jornalistas. E jornalistas devem ouvir todos os lados. Moro disse que Guimarães não é jornalista. Errado: se trabalha em jornalismo, é jornalista e ponto final. Moro acabou recuando.

Pisando na bola 2

A Operação Carne Fraca gerou muito calor e pouca luz. Mais de mil homens, depois de dois anos de investigações, pegaram 33 fiscais e uns poucos frigoríficos pequenos. Erraram na divulgação, confundiram a opinião pública, confundiram os importadores, derrubaram as exportações brasileiras, geraram demissões em massa, provocaram problemas que o país levará anos para resolver. E não se pode aceitar que ignorem que ácido ascórbico é vitamina C, que os produtos são embalados em caixas de papelão, que ácido sórbico é um conservante tradicional e, ao que se saiba, seguro. Se a operação não trouxer outros resultados, foi um fracasso.

OS DELÍRIOS DA CARNE

O problema não é a carne. O problema não é o tamanho das malfeitorias, nem o prejuízo às exportações. O problema é o Governo; o Governo que politiza a fiscalização de alimentos, que deveria ser estritamente técnica, rígida, intolerante, preocupada com a saúde da população, absolutamente desconhecedora das conveniências de partidos.

Boa parte do Ministério da Agricultura está loteada, aparelhada para servir a interesses partidários. Nos Estados onde houve mais problemas com a Operação Carne Fraca, o PMDB (ala Temer) e o PP, do ministro Ricardo Barros, comandam a Superintendência do Ministério da Agricultura do Paraná. Em Goiás, o poder é exercido pelo PTB, na pessoa do deputado Jovair Arantes. Quem cuida da qualidade da carne?

Quem cuida da qualidade da carne são os próprios produtores e exportadores, que sabem o custo da negligência na redução das vendas internacionais. Já Temer oferece churrasco a representantes dos países exportadores – e mantém a mesma política de loteamento do Governo que levou à questão da carne, sem notar que é esse o seu problema. Narra o bem informado Radar on-line que Temer sinalizou à bancada do PMDB mineiro na Câmara que lhe dará a próxima vaga no Ministério. Diante dos governos que temos, a qualidade dos alimentos que consumimos e exportamos é até boa demais.

Os dados da briga

As principais críticas à Operação Carne Fraca envolvem números. Foram dois anos de investigações e mais de mil policiais federais para autuar 21 dos 4.837 frigoríficos nacionais, dos quais foi preciso interditar três, responsáveis por menos de 2% da produção brasileira de carnes; dos 11.300 funcionários do Ministério da Agricultura, 33 foram afastados. E os 21 frigoríficos colocados sob fiscalização especial exportaram, em 2016, US$ 120 milhões. No total, 0,89% das exportações brasileiros de carne.

Os fatos da vida

Mas o fato é que havia politicagem, que houve servidores que facilitaram aos infratores o que não deveriam facilitar, que foram encontradas coisas erradas – talvez não as que, no calor da notícia, levaram fontes e jornalistas a divulgar que vitamina C dava câncer. Pode ter havido exagero, mas tinha coisa errada. O estrago está feito. Como assinalou o jornalista gaúcho Fernando Albrecht, “o povo sempre acredita na acusação, mas nunca na defesa”. E com motivos.

Quem paga a conta

Imaginemos que haja apenas um bife estragado em toda a imensa produção nacional. Uma porcentagem desprezível, sem dúvida. Mas, para quem comeu esse bife e passou mal, de que adianta saber que todo o restante da carne produzida no país estava em excelentes condições? E os importadores, por via das dúvidas, por que comprarão do Brasil e não da Argentina, do Uruguai ou da Austrália? A propósito, uma bela explicação em perguntas e respostas sobre a Operação Carne Fraca e os problemas causados por carne em más condições está aqui.

A grande definição

O príncipe Otto von Bismarck, principal responsável pela unificação da Alemanha, em 1871, criou uma frase definitiva: “Quanto menos soubermos como são feitas as leis e as salsichas, melhor dormiremos à noite”.

A transposição…

O presidente Michel Temer inaugurou festivamente a transposição das águas do rio São Francisco. O ex-presidente Lula, dias depois, também a inaugurou, mais festivamente ainda. Há alguns probleminhas, claro: as águas do rio só chegarão às casas e fazendas afastadas de suas margens depois de colocados os encanamentos (e só haverá tranquilidade para o consumidor depois de instaladas, também, as estações de tratamento).

…de que, mesmo?

E há um problemão: moradores das margens do rio original se queixam da redução do volume das águas, puxadas pelas bombas para o curso estendido. Algum tempo atrás, o político baiano Antônio Carlos Magalhães disse a este jornalista que não valia a pena transpor as águas do São Francisco sem antes recuperar a saúde do rio. “O São Francisco está doente”, disse ACM. Em boa parte de sua extensão, e nas margens de quase todos os seus afluentes, a mata ciliar tinha sido derrubada. Com isso, os rios recebiam menos água e, assoreados,com as margens desprotegidas, nem teriam capacidade de receber mais. Já na época, as águas do São Francisco lhe pareciam insuficientes até para abastecer sua bacia original.

Festa precoce

Lula diz que se for candidato é para ganhar. OK; mas como vencer a rejeição de 44% dos eleitores, que não aceitam votar nele de jeito nenhum?

PASSARÁ O CÉU E O INFERNO

O Inferno vem antes: com o avanço da Operação Lava Jato e a entrega ao Supremo da Lista de Janot, na qual há pedidos de abertura de inquérito sobre 107 pessoas – todas, de alguma forma, poderosas – Brasília parou. A oposição decidiu ir à guerra: entre os envolvidos, estão Dilma e Lula, e os ex-ministros Palocci e Mantega. O Governo não sabe bem como agir: os ministros Eliseu Padilha, Gilberto Kassab, Moreira Franco, Aloysio Nunes fazem parte da lista. Que fará Temer, com tantos ministros sob suspeita?

Boa pergunta: o que não falta, nos meios políticos, é gente imaginando fórmulas para se livrar da prisão. A mais simples é definir especificamente a Caixa 2 como crime. Em seguida, enquadrar nessa definição o maior número possível de políticos e empresários. E, como a lei que especifica que a Caixa 2 é crime será recente, todos os acusados serão inocentes, já que quando a praticaram ainda não havia lei que a definisse como crime.

As tentativas de livrar-se legalmente da cadeia podem não dar certo, se a opinião pública se mantiver atenta (e mobilizada, o que será demonstrado no próximo dia 26). Entretanto, ao menos para o pessoal mais poderoso, os pedidos de inquérito podem incomodar, mas dificilmente os atingirão.

Há dois anos, Janot pediu ao Supremo a abertura de 27 inquéritos envolvendo pouco mais de 40 políticos. Passados dois anos, seis estão sendo processados. Para quem tem foro privilegiado, o Supremo é o Céu.

Através do espelho

Toda verdade tem múltiplas facetas. A nota acima pode perfeitamente ser lida ao contrário. Há quem conteste a existência do foro privilegiado; há quem até o aceitaria, mas discorda de uma legislação que joga nas costas de um tribunal constitucional, já sobrecarregado de processos, o julgamento de réus, o que não é sua especialidade, e desprovido de recursos para dar aos casos a celeridade que deveria ser a norma. Para a população, que espera Justiça, e a quem os julgamentos deveriam mostrar que o crime não compensa, Céu e Inferno se invertem.

Os anjos da guarda

Há profissionais da política cuja especialidade é resolver o insolúvel (e em tornar insolúvel, se o retorno não for o esperado, aquilo que poderia ser resolvido). Não estamos falando de moral, de ética, de serviço público, mas de política no sentido básico do termo, de luta pelo poder. É um pessoal competente – um pessoal que, para atender a seus interesses, conseguiu fazer com que o impeachment de Dilma deixasse de incluir a perda de seus direitos políticos. Eles não vão deixar, sem luta, que seus privilégios sejam atingidos. Já estão com pintura de guerra e as flechas preparadas.

Vereda da salvação

O primeiro passo dos Anjos do Mal é garantir a manutenção do foro privilegiado. Ou seja, uma reforma eleitoral a ser aprovada até setembro, válida para as eleições do ano que vem. Se alguém mexer no foro privilegiado, eles estarão reeleitos, podendo argumentar que, ao eleger-se, esse direito lhes estava assegurado. A formatação da reforma eleitoral vem sendo discutida por gente que conhece o tema: proteção para quem usou Caixa 2 (anistia, ou definição de que o crime é crime só de agora em diante); criação de um fundo eleitoral – com dinheiro público, claro – para custear as campanhas, sem contribuições de empresas nem de pessoas físicas; e voto em lista fechada. Cada eleitor vota num partido. Cada partido tem uma lista eleitoral elaborada por seus caciques. Conforme o número de votos, são escolhidos os nomes conforme a ordem da lista.

Lava Jato? Quem tiver foro privilegiado não precisará se preocupar com isso. E mais, dará forte apoio ao combate “sem tréguas” à corrupção.

O nome das coisas

Fundo público, Fundo eleitoral são nomes bonitos. Talvez “Mão no Tesouro” não seja tão elegante, mas descreve com mais precisão a ordenha que Suas Excelências estão propondo. O Fundo Eleitoral teria entre R$ 4 bilhões e R$ 8 bilhões (e não se misturaria com o Fundo Partidário, onde os partidos mamam mais R$ 1 bilhão por ano). Em vez de algum prestador de serviços pagar, quem paga é o contribuinte. Mas quem garante que as vacas leiteiras de sempre desistirão da propina e das vantagens que ela traz?

O destino da ideia

Há listas fechadas de candidatos em diversos países, e funcionam bem. Na Alemanha, metade dos parlamentares se elege pela lista, a outra metade por voto distrital (cada um vota em quem conhece, e o custo da propaganda se reduz muito). E por que aqui o sistema seria ruim? Porque na Alemanha, por exemplo, entram na lista os líderes partidários, aqueles que fazem campanha por seus companheiros. Aqui até poderia ser assim: Sérgio Cabral, Renan, Palocci, Aécio, Demóstenes Torres, todos são líderes partidários. E, encabeçando a lista, sua reeleição seria garantida e fácil.

A VERDADE, COMO LHE CONVÉM

Pois eis que agora, tantos anos depois do início da Operação Lava Jato, depois de impiedosamente atacado, Lula começa a repor a verdade dos fatos – a verdade dele, claro, mas quem disse que a verdade é apenas uma?

Agora sabemos, por seu depoimento, que Lula há três anos é vítima de um massacre. Pois nenhum político ou empresário, nem os Odebrecht, jamais lhe deu dez reais. E diz a verdade: ninguém lhe deu dez reais.

Acusá-lo de tentar obstruir as investigações da Lava Jato, que absurdo! Afirma Lula que o senador Delcídio do Amaral “disse uma inverdade”, ao afirmar, em delação premiada, que haviam conversado sobre maneiras de convencer Nestor Cerveró a calar-se sobre o que sabia da Petrobras. Lula, aliás, nem conhecia Cerveró. É verdade, claro: é impossível exigir que o presidente da República conheça um funcionário de uma estatal, mesmo que seja de alto escalão, mesmo que a empresa seja a maior do país, mesmo que seja Cerveró. Lula deve tê-lo cumprimentado sem prestar muita atenção. Seria incapaz de reconhecê-lo – afinal de contas, por que iria prestar atenção num rosto tão comum, numa empresa tão grande?

Lula diz também que fica profundamente ofendido com a insinuação de que o PT é organização criminosa. Só porque o “capitão do time” está preso, os três últimos tesoureiros do PT foram condenados, um presidente do partido também? Isso o ofende, claro: pois quem é o Brahma, o nº 1?

A verdade…

No depoimento, Lula disse que passou os oito anos de seu Governo sem participar de jantares e aniversários, “exatamente para não dar pretexto de aparecer àqueles que vêm tirar fotografia com celular para depois explorar essa fotografia”. Os maldosos lembram um belo jantar, em 4 de agosto de 2006, oferecido por ele no Jockey Club de São Paulo a empresários e políticos, para arrecadar fundos. Foram mil convites a R$ 2 mil cada; descontada a despesa, sobraria R$ 1,7 milhão. E, segundo o coordenador da campanha, Ricardo Berzoini, “é evidente que dá a oportunidade de diálogo do presidente com o empresariado e profissionais liberais”. Terá Lula dito uma inverdade? Não: ele disse que não participou de jantares. E esse, preparado pelo ótimo chef Charlô, não foi um jantar, foi um banquete.

…é uma mentira…

Houve também um almoço mais baratinho, em 13 de julho de 2006, no Restaurante São Judas, na rota do Frango com Polenta, no Grande ABC. Foram servidos dois tipos de frango (frito, com polenta frita; e à italiana, com molho de maionese); água, cerveja, refrigerantes. Lucro: R$ 495 mil. “É que Lula circula bem em todas as classes”, esclareceu Berzoini.

…que aconteceu

Lula disse, enfim, que não é contra a Operação Lava Jato. “Eu quero que a Lava Jato vá fundo para ver se acaba com a corrupção”. E não é que mais uma vez ele fala a verdade? Lula é a favor da Lava Jato, e só dela discorda num pequeno detalhe: andou pegando políticos companheiros e empresários aliados, que além de aliados sempre foram generosos. Se a Lava Jato esquecesse o PT, Lula seria 100% a favor.

A verdade…

Para completar o elenco de verdades pouco conhecidas, o ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse ao juiz Sérgio Moro que “nunca falou de propina com Palocci”. Claro que não! Gabrielli sempre foi um executivo preocupado com a empresa. Até hoje, por exemplo, defende a compra pela Petrobras da Ruivinha, uma refinaria toda enferrujada em Pasadena, EUA. A empresa belga Astra Oil comprou a refinaria por US$ 42 milhões e a vendeu à Petrobras, pouco depois, por US$ 1,1 bilhão. Segundo o delator Agosthilde Mônaco de Carvalho, já antes da compra Gabrielli tinha indicado a Odebrecht para reformá-la. Um executivo tão preocupado com a empresa que antes mesmo de fechar um negócio já tinha decidido como iniciar a operação não iria conversar sobre propinas e pixulecos com um político importante como Palocci. Talvez tenham discutido a adequada destinação dos parcos recursos disponíveis.

…de cada um

O patriarca da empresa, Emílio Odebrecht, vê Antônio Palocci como um político especial – “não carreirista como a maioria, mas um homem inteligente com visão de estadista”. Emílio Odebrecht, com tantos anos de experiência no mercado, certamente sabe avaliar as pessoas; conhece a diferença entre o que um político acha que vale e seu valor real.

“A gente trocava muitas ideias sobre aquilo que era importante para o nosso Brasil”, narrou. De um lado da mesa, Emílio Odebrecht; de outro, Antônio Palocci. Assistir à troca de ideias entre ambos, conhecedores do mundo e do comportamento dos seres humanos, deve ser instrutivo, uma aula de economia, de gestão e de política. Um privilégio valiosíssimo.

Emílio Odebrecht e Antônio Palocci

É COR-DE-ROSA CHOQUE

M de Michel, M de Marcela, M de Michelzinho, M do comando político do Governo. Só M, M de machos – que não entendem nada do M de mulher.

Michel Temer, como Dilma antes dele, não pode ver ninguém comendo banana na outra calçada sem atravessar a rua para ver se escorrega na casca. Teve tempo para elaborar um discurso memorável, mas preferiu a fórmula das revistas femininas da década de 1950, privilegiando o bom desempenho doméstico.

Temer até que fez coisas, há muito tempo, para ser bem lembrado pelas feministas. Criou, por exemplo, as delegacias da mulher, que de São Paulo se espalharam pelo Brasil. Mas os maus hábitos com relação a mulheres são comuns entre os políticos. Quando a ministra Ellen Gracie foi sabatinada no Senado, houve parlamentares que elogiaram seu porte, sua elegância, suas roupas. Alguém se lembrou de comentar os ternos e o porte do ministro Alexandre de Moraes?

Pior ocorreu quando Sylvia Kristel, a bela estrela do filme Emmanuelle, visitou o Congresso. Parlamentares de idade avançada, cabelos mal pintados, babavam diante da atriz. Um deputado, olhando para ela, levou um tombo.. E qual era a participação de Sylvia Kristel na política? Zero. Nenhuma. Estava no Brasil para um ensaio fotográfico da revista Status, e passou pelo Congresso. Pois não é que naquele dia o Congresso estava cheio?

A fala infeliz de Temer tornou-o alvo dos defensores dos direitos das mulheres. Como adverte a música de Rita Lee, não provoque: é cor-de-rosa choque.

Esperando Janot – bom

O Supremo Tribunal Federal solicitou aos veículos de comunicação interessados na Lista de Janot (os pedidos formulados pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot), que enviassem um HD em que coubesse todo o material disponível. Isso indica que as acusações da Promotoria estão para ser liberados, e os jornalistas terão conhecimento de tudo que os procuradores solicitam ao Supremo, sem vazamentos seletivos. Não haverá mais boatos de que fulano será investigado, já que todas as suspeitas dos procuradores estarão na Lista de Janot.

Esperando Janot – mau

Acontece que o Supremo pediu à mídia que envie equipamentos com capacidade de memória de um terabyte – um trilhão de bytes. Um smartphone bem recente, o IPhone 7, tem na versão mais cara a capacidade de 256 gigabytes, GB. Um terabyte equivale a 1.024 GB. Com um terabyte, dá para guardar umas 200 mil músicas; e gravar 730 filmes de 1h30, com qualidade de imagem de DVD.

Quem é que vai analisar tudo isso de arquivos? Este é o problema da Lava Jato e das operações conexas: o volume da ladroeira é tamanho que fica impossível acompanhar tudo, individualizar as culpas, analisar convenientemente as provas, julgar os réus. Há quem diga que essa foi a tática dos principais envolvidos: contar tudo, até superar o limite operacional de quem os julga. Ninguém é jovem entre os acusados na bandalheira. Se o julgamento demorar, talvez nem ocorra.

Esperando Janot – real

Hoje há 800 réus de ações penais aguardando julgamento no foro privilegiado do Supremo. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, publicado no bom site jurídico Espaço Vital, “o tempo de espera de um processo para uma nova providência do ministro relator ou revisor, que era de sete dias em 2002, saltou para 42 dias em 2015”. O pessoal apanhado na Lava Jato deve, claro, se preocupar. Mas talvez não seja preciso preocupar-se muito.

A magia eleitoral

Depois de anos de guerra fiscal, São Paulo e Goiás chegaram a um acordo. Goiás festeja os termos da paz: “Os incentivos fiscais foram determinantes para o crescimento de Goiás nos últimos anos”, diz o governador Marconi Perillo, “e agora estão garantidos em nossa política de desenvolvimento”. O governador Geraldo Alckmin determinou a retirada da ação que pedia o fim dos incentivos fiscais goianos; e o Supremo retirou a questão da pauta de julgamentos.

Nada como interesses eleitorais comuns para promover reconciliações, não é mesmo? Alckmin quer ser candidato à Presidência da República em 2018, mas precisa vencer no PSDB seus adversários Aécio Neves e José Serra. O goiano Perillo agora está a seu lado; e pode ser vice de Alckmin, ou senador.

O terror eleitoral

O problema das eleições é que todos os candidatos se transformam automaticamente em alvos. Antigos aliados que se julgam abandonados, por exemplo. E agora os adversários do PSDB querem atingir simultaneamente Alckmin, Serra e o senador Aloysio Nunes – que substituiu seu amigo José Serra no Itamaraty – com o caso Paulo Preto. O poderoso Paulo Preto, ou Paulo Vieira de Souza, foi presidente da Dersa, que administra as mais modernas rodovias paulistas, e, depois de acusado de se relacionar bem com Carlinhos Cachoeira e Fernando Cavendish – um, bicheiro; outro, presidente da Delta, empresa que acabou sendo proibida de realizar obras para governos – deixou o cargo. Queixou-se de Serra, dizendo que aliados feridos não podem ser abandonados. E agora há quem diga que ele prepara uma delação premiada. Seria um problema sério para o PSDB.

O PAÍS DAS NOTÍCIAS VELHAS

Lula informa em entrevista que aceita ser presidente do PT. Quando, desde que Lula é Lula, ele deixou de ser, de direito ou de fato, o presidente do PT? Quem é que manda no PT: Mercadante, Falcão, Mantega, Dilma?

Alckmin informa que gostaria de ser candidato à Presidência em 2018. E quem é que não sabia disso há anos? Ele quer, o Aécio quer, o Serra quer – até agora, quem não os quis foram apenas os eleitores.

O prefeito João Dória, com alto nível de aprovação, garantiu que não é candidato à Presidência, e que apoia Alckmin. E que é que queriam que ele dissesse? Se admitisse ser candidato, o governador Alckmin passaria a tratá-lo como adversário. Os demais candidatos mobilizariam suas tropas de choque para desgastá-lo. Os seguidores de Aécio, Alckmin e Serra no PSDB lutariam para inviabilizá-lo no partido. Dória conhece a importância da máquina de Alckmin para lançá-lo e elegê-lo. Ele pode ser candidato se Alckmin desistir; se o PSDB se convencer de que, com Aécio ou com Serra, vai perder de novo; e que, com Dória, pode ganhar.

A defesa do presidente tenta anular o processo contra a chapa Dilma-Temer, alegando que foi alimentado por vazamentos irregulares e é, portanto, ilegal. Pode ser; mas quem é que não sabe que boa parte das doações ia mesmo para o caixa 2? De novo, só os detalhes. Mas sempre se soube que nossos líderes são os melhores que o dinheiro pode comprar.

Fernando Henrique explica

O financiamento de campanhas nunca deixou de ter aspectos ocultos (embora menos escandalosos do que agora, em que até governos estrangeiros foram pixulecados para favorecer empresas brasileiras). Mas todos conheciam o caminho das pedras. Agora Fernando Henrique recebe espaço nos noticiosos para contar aquilo que, se os cisnes do Palácio da Alvorada falassem, grasnariam para qualquer maluco que conversasse com eles. O fato é o seguinte: nos meios políticos, arrecadar dinheiro irregular para a campanha é um fato da vida, um deslize menor. Mas pegar parte do dinheiro para enriquecer é corrupção, um crime. O político honesto é o que usa na campanha tudo aquilo que arrecada, sem apropriar-se de nada.

Fernando Henrique está certo, mas diz o óbvio. Quem não sabia disso?

Quem sabe um dia

Dizem que a nova lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, levará ao Supremo mais 30 nomes de autoridades. É dinamite pura – ou melhor, não é, não. Nesta segunda-feira, 6, a primeira Lista de Janot, em que eram pedidos 28 inquéritos sobre 55 suspeitos, completou dois anos. Entre a Lista de Janot e hoje, a Procuradoria apresentou 20 denúncias, contra 59 pessoas. Até agora, o Supremo recebeu cinco denúncias e enviou duas à primeira instância. Foram abertos 27 inquéritos, dos quais 40% foram arquivados, total ou parcialmente; 17 ainda estão correndo.

Como pode o STF enfrentar o volume de trabalho da nova Lista Janot?

Uma ideia de quem sabe

O jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, propõe uma saída para dar vazão aos processos com foro privilegiado: criar duas forças-tarefa no Supremo. Uma, formada por desembargadores escolhidos pelos ministros, teria como tarefa acelerar a fase de instrução dos processos; outra, juntando desembargadores, a Procuradoria Geral da República e a Policia Federal, iniciaria imediatamente as investigações requeridas pelo Supremo. Pode dar certo.

Lula e Moro, frente a frente

O juiz Sérgio Moro agendou o depoimento de Lula para 3 de maio, às 14h, em Curitiba. Até agora Lula conseguiu depor à distância, em contato eletrônico com Moro. Nesse processo – o do apartamento triplex no Guarujá – pode ocorrer o primeiro encontro pessoal entre ambos.

Tucano contra Aécio

O ex-deputado federal Marcelo Itagiba, do PSDB do Rio, iniciou campanha para que Aécio, citado em delações premiadas, se licencie da presidência do partido até que terminem as investigações sobre ele. “O PSDB é maior do que seu presidente”, diz Itagiba. E completa com uma pergunta, esta no twitter: “Se tivesse recebido, admitiria?”

O PSDB é um partido de amigos composto 100% por inimigos.

O Dia da Mulher

Este colunista deveria ser contra o Dia da Mulher, por achar que todo dia é Dia da Mulher. Mas, enquanto houver idiotas depreciando e maltratando mulheres, é preciso haver o Dia da Mulher. E a excelente blogueira Marli Gonçalves  montou um belo cardápio musical, só de grandes mulheres. Ali há Maysa, Billie Holiday, Gal, tantas outras, com música maravilhosa. Este colunista acha que faltam Carmen Miranda e Barbra Streisand. Fica para a próxima!

Ó LADROEIRA, POR QUE ESTÁS TÃO TRISTE?

A divulgação das delações premiadas dos diretores da Odebrecht tumultuou a estratégia dos políticos já condenados pela Operação Lava Jato, e por três motivos. Primeiro, porque confirma mais uma vez seu envolvimento em práticas sem amparo legal, no financiamento de campanhas, na estruturação do partido e na rápida ascensão das fortunas pessoais. Segundo, porque, embora toque também em dirigentes de outros partidos hoje no poder, deixa brechas para que se alegue que, nesses casos, tudo foi feito dentro da lei (quem levou os principais tiros foram políticos importantes, de alto escalão, mas que podem ser descartados e substituídos – o processo de fritura dos amigos, aliás, já começou). Terceiro, porque se esperava que as delações provassem que político é tudo igual, permitindo que se tentasse a libertação dos poucos presos diante da impossibilidade de investigar, julgar, condenar e prender as multidões de suspeitos de iguais crimes.

A estratégia dos condenados e seus aliados não está totalmente errada: suas diferenças morais diante dos demais delatados, se as há, são de gradação, não de comportamento. Mas, para efeito político, a gradação ganha força; e os crimes, digamos, menores, deixam de justificar os maiores. Mesmo assim, não há motivo para a tristeza dos corruptos já julgados. O Supremo não é um tribunal penal; dificilmente terá condições de julgar, em prazo aceitável, todos que caírem em suas malhas. Se a lei for mudada, para que ninguém deixe de ser julgado, os condenados terão boa chance de recorrer. Para eles, talvez amanhã vá ser outro dia.

O Brasil, como é

Em seu depoimento, Marcelo Odebrecht diz que a empresa entregou ao PT, nos Governos de Lula e Dilma, um total de R$ 300 milhões. Destes, 150 milhões foram para a campanha de reeleição de Dilma. Mais R$ 50 milhões foram pagos para que o Governo Dilma editasse uma medida provisória modificando o Refis. A medida provisória foi assinada por Dilma e pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Marcelo Odebrecht disse que também repassou dinheiro a Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, mas sem esclarecer se a doação foi legal ou para o Caixa 2. Citou um jantar com o vice-presidente Michel Temer, companheiro de chapa de Dilma, mas negou ter tratado de valores para a campanha. Pelo que disse, pode até ter prometido contribuir, mas os detalhes – quantia, modo de repasse – seriam tratados por outras pessoas. Segundo o advogado José Yunes, amigo de Temer, quem cuidava disso era Eliseu Padilha.

Opinião de jurista

Do portal jurídico Migalhas, sobre o depoimento de José Yunes que aparentemente dinamitou o ministro Eliseu Padilha:

“De duas uma : ou alguns comentaristas políticos são ingênuos, ou são venais. Só isso explica a análise que fazem do depoimento espontâneo de José Yunes, aquele que confessou ter recebido o “envelope gorducho” do doleiro. Ninguém duvide, o que aconteceu é que ele teve acesso à delação (ou da Odebrecht, ou de Lucio Funaro, ou, ainda, de ambos) e se antecipou. Ou seja, criou sua versão para os fatos que inexoravelmente vão surgir. E mais, isso foi combinado com todos os partícipes. Fimdepapo.”

De volta…

Um grupo de 400 pessoas, que se apresentam como intelectuais, artistas e ativistas, fez um apelo ao ex-presidente Lula para que lance sua candidatura à Presidência da República em 2018, “porque é preciso incluir muita gente e reincluir aqueles que foram banidos outra vez”. Há alguns nomes já esperados – Leonardo Boff, Fernando Morais, Chico Buarque, Beth Carvalho; outros, menos militantes, mas tradicionalmente petistas – Marieta Severo, Dira Paes, Tássia Camargo. A partir do dia 6, segunda, o manifesto estará aberto a quem quiser aderir.

A razão do lançamento de Lula à Presidência é clara: se ele for preso, parecerá que estão tentando barrar sua candidatura. Mas Lula ainda não se manifestou.

…ao passado

Ah, Chico Buarque! Na opinião deste colunista, divergir das opiniões de Chico Buarque é uma coisa, deixar de admirar um dos maiores letristas que o Brasil já gerou é outra. Mesmo quem ache que Lula é a encarnação do mal absoluto deve evitar que sua repulsa ao político se estenda a seus seguidores; e lembrar que Chico tem obras notáveis no campo da música. Pois muitos anos antes da Lava Jato, em 1990, ele lançou a excelente “Vai Passar” (e foi dessa letra que o ótimo jornalista Augusto Nunes, que não compartilha nem de longe o pensamento político de Chico, foi buscar o “Sanatório Geral”, título de uma de suas colunas).

E veja esses versos, escritos no final do século passado, antes que alguém imaginasse que dirigentes partidários e empresários pudessem ir para a cadeia:

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“Num tempo
Página infeliz da nossa história,
Passagem desbotada na memória,
das nossas novas gerações.
Dormia/ a nossa pátria mãe tão distraída,
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.”

Acabou para você

No Congresso, o Carnaval não acabou. A folga só acaba na terça-feira.

POLÍCIA, CARNAVAL E CINZAS

Se Temer, deliberadamente, decidiu manter o clima carnavalesco na área política para deixar sua equipe econômica trabalhar em paz, é um tático brilhante. Enquanto todos discutem Moreira Franco, Eliseu Padilha, Renan Calheiros, Alexandre de Moraes e Osmar Serraglio, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, e o ministro Henrique Meirelles ganharam sossego para apresentar resultados. E, pelo jeito, já têm o que mostrar.

Isso não quer dizer que a economia vá bem, já que ainda não recuperou as perdas do período Dilma nem começou a reabsorver os desempregados. Mas vai num bom caminho: a inflação é a mais baixa dos últimos anos, tanto que já se fala em baixar a meta de 4,5% para 3% ao ano; apesar das farras corporativas, o déficit público caiu; os juros (oficiais) tiveram uma boa queda – embora os bancos mantenham suas taxas alucinadamente altas.

O carnaval na área política também permitiu a aprovação das reformas pedidas pela área econômica. Só há um problema: como sair da festa da uva na política mantendo a estabilidade do Governo? Se Temer planejou usar o frege dos políticos enquanto cuidava do essencial, projetou também a rota de saída. Mas, se tudo aconteceu por acaso (e o favoreceu), chegou a hora de pagar a conta. A Lava Jato está atrás de gente ligada a Temer. E o TSE se prepara para julgar em breve a cassação do registro da chapa Dilma-Temer, podendo depor o presidente. Depois do Carnaval, as Cinzas.

O bom a gente mostra…

Temer elogia sempre o desempenho da economia – inflação em baixa, contas públicas sob controle, a alta da arrecadação, apesar de os negócios não terem sido retomados, a queda dos juros Selic que, acha, levará à queda dos juros cobrados pelos bancos. Está feliz também com a recuperação da Petrobras e com o desempenho de Maria Sílvia Bastos no BNDES, voltado menos às grandes empresas escolhidas pelo Governo e mais às menores. Temer acredita que será possível até mexer num tema difícil, que muda a receita dos Estados e atinge cada um dos cidadãos: a reforma tributária. Enquanto congressistas pedem privilégios, a área econômica se beneficia.

…o ruim a gente esconde

O relatório oficial sobre Direitos Humanos no Brasil, entregue à ONU, esqueceu a ruptura da barragem de resíduos da Samarco, em Mariana, Minas Gerais, que matou 18 pessoas, um dos maiores desastre ambientais já ocorridos no país; e a morte de 350 presidiários em 2016. Naturalmente, há explicações para tudo: o desastre da Samarco, que além de matar muita gente envenenou os rios cujos peixes alimentavam a população, não entrou porque a ONU impõe um limite de tamanho para o documento, e o disciplinadíssimo pessoal brasileiro não quis violar a norma; e, como foi elaborado em novembro, o relatório não poderia englobar todos os mortos do ano. E, além disso, que são 350 pessoas mortas em um ano, se só na primeira quinzena de 2017 foram assassinados 131 presidiários?

É o amigo que diz!

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, não perde a oportunidade de, ao ver a bola quicando na área, botá-la dentro do gol – do próprio gol. Acaba de comparar o caso dos líderes petistas José Dirceu, Antônio Palocci e João Vaccari Neto, acusados de crimes do colarinho branco, ao do goleiro Bruno, condenado em primeira instância pelo assassínio da namorada Eliza Samúdio e aguardando julgamento de recurso. E, no site do PT, pediu que os três petistas recebam o mesmo benefício de Bruno, libertado pelo ministro Marco Aurélio por excesso de prazo de prisão sem julgamento. Detalhe: Rui Falcão é amigo e aliado dos três petistas presos.

Como…

É curiosa a história contada pelo advogado José Yunes, amigo há dezenas de anos do presidente Temer, a respeito de delações de dirigentes da Odebrecht sobre a entrega de pixulecos a peemedebistas. Diz ele que, a pedido de Eliseu Padilha, outro velho amigo de Temer, recebeu em seu escritório um envelope do doleiro Lúcio Funaro – que Padilha nega conhecer, e a quem Yunes se refere como “um tal de Lúcio”. Sem abrir o envelope, e sem saber o que continha, entregou-o a alguém que não sabe quem é e cujo nome desconhece. Tamanho do envelope? “Parecia um documento com um pouco mais de espessura”, diz Yunes. Os R$ 4 milhões citados na delação premiada, em notas de R$ 50,00, pesam 90 quilos.

…é mesmo?

Eliseu Padilha, que nem conhece o cavalheiro, manda-o entregar um envelope com 90 kg de cédulas no escritório do amigo, que também não o conhece. O cavalheiro, o “tal do Funaro”, chega com um envelope de 90 kg um pouco mais grosso do que um documento. Todos carregam o envelope na mão, nem notam que é pesadinho. Mais tarde vem um desconhecido, e a secretária de Yunes lhe entrega o envelope de 90 kg. Então, tá.

OPERAÇÃO ÚLTIMA CHANCE

Que José Serra operou a coluna no fim do ano é fato conhecido; que os médicos lhe recomendaram que por alguns meses, até a recuperação total do organismo, evitasse viagens prolongadas, é inegável. Que Serra desde então, para cumprir a agenda de chanceler, só viajou na companhia de um médico, com ampla variedade de fortes remédios contra a dor, Brasília inteira sabia. O presidente Temer estava pronto a dar ao chanceler uma licença do cargo, pelo tempo que fosse necessário. Não queria perder um dos mais eficientes de seus ministros, o primeiro a tomar medidas de impacto positivo, como recolocar Venezuela e bolivarianos em geral no lugar que lhes cabe – e olhe lá!

Mas Serra é um ser político. Preocupa-se com sua saúde (dizem até que é hipocondríaco), mas se preocupa muito mais com seu futuro político. Aos 75 anos, quase 76 no dia das eleições, sabe que esta é sua última chance de ser presidente. E seu sonho não é ser um grande chanceler: é ser presidente.

A idade não o preocupa. Adenauer assumiu a chefia do Governo alemão aos 75 anos, mudou a cara do país e da Europa. Deixou ao poder por vontade própria 19 anos depois, aos 94 anos, após firmar aquilo que se julgava até então impossível: um tratado de paz e amizade entre Alemanha e França.

Mas há uma maldição política que Serra está desafiando: quem muito quer a Presidência não chega lá. Maluf, Quércia, Ulysses, Carlos Lacerda, o brigadeiro Eduardo Gomes se prepararam, lutaram, e ficaram pelo caminho.

A vez dos sem voz

Em compensação, Itamar Franco, José Sarney, o marechal Eurico Gaspar Dutra, o ministro do Supremo José Linhares jamais pensaram em chegar à Presidência. Todos chegaram. Jânio Quadros queria ser presidente, e foi – mas queria mais do que isso e em sete meses acabou largando o mandato.

Aliança sem limites

Serra tem outro problema: seu partido, o PSDB, é integralmente formado por amigos, dos quais todos se detestam. Serra foi candidato e Aécio Neves, então governador de Minas, à época com muito prestígio, abandonou-o (como abandonaria também Geraldo Alckmin, recebendo a devida retribuição quando saiu candidato contra Dilma e foi surrado até em Minas. O PSDB, como ocorre desde 2002, está dividido entre Aécio, Alckmin e Serra. João Dória, que vem conquistando a população de São Paulo, diz que quer apenas ser prefeito. Claro que aceitaria ser candidato à Presidência, mas não liderando um partido rachado. E emendá-lo é mais difícil do que lembrar aos líderes das várias facções que podem voltar a ser amigos, ao menos na época da eleição.

Fogo amigo

O advogado José Yunes, amigo de fé e irmão camarada de Michel Temer, abriu fogo na direção do ex-amigo de fé e ex-irmão camarada. Disse ter recebido e encaminhado uma caprichada propina da Odebrecht a Eliseu Padilha, ligadíssimo a Temer (em seu Governo chegou a ministro) – e ainda por cima o pacote teria sido levado a seu escritório pelo doleiro Lúcio Funaro, frequente personagem das investigações da Lava Jato. Padilha é amigo de Temer, o mais próximo a ele; mexeu com um, mexeu com outro. Mas Yunes foi mais longe: disse que Temer tinha conhecimento do repasse do dinheiro.

Não podia ser pior? Podia: nesta quarta-feira de Cinzas, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, relator do processo que pode levar à cassação da chapa Dilma-Temer, vai a Curitiba ouvir Marcelo Odebrecht e dois outros delatores da empresa sobre o financiamento à campanha de ambos.

Temer na mira

A acusação examinada pelo TSE é de que Temer, como vice na chapa de Dilma, é igualmente culpado de todas as violações à lei ocorridas na campanha. Caso isso tenha ocorrido, a chapa inteira é cassada e Temer perde o cargo. A defesa de Temer é que, embora companheiros de chapa, cada um conduziu sua própria campanha, e o vice não participou de eventuais ilegalidades patrocinadas pela líder da chapa. Pelo sim, pelo não, Temer gostaria de ver o processo andar devagarzinho, sem ameaçar sua posição de presidente da República. Já o ministro Herman Benjamin quer concluir logo o processo. Ele já disse que o processo não pode durar indefinidamente.

O atirador

O ministro Herman Benjamin poderia retirar, dos abundantes depoimentos já prestados pelo pessoal da Odebrecht, os trechos que interessarem ao processo. Mas preferiu interrogar pessoalmente os principais delatores, para apurar todos os detalhes possíveis. Poderia também ouvir os depoentes por videoconferência, mas preferiu ir a Curitiba para ouvi-los pessoalmente. Temer não está gostando da rapidez com que o caso anda nem com a busca do ministro por detalhes das propinas, E, cá entre nós, faz bem em preocupar-se.

Pressa?

Temer só não pode reclamar da pressa. Daqui a pouco, termina seu mandato sem que o caso seja examinado. Benjamin tem de acelerar, sim.

NINGUÉM OUVE CANTAR CANÇÕES

Pode tudo: homem com homem, mulher com mulher, vistosas fantasias masculinas de Veado Imperial, a modelo sem calcinha posando com o presidente da República, bicheiro negociando oficialmente com as autoridades, másculos estivadores de sutiã e minissaia, mulheres peladas, beijar desconhecidos na boca, moça linda levando na coleira o nome do marido. Ou pode quase tudo: com base em confusas teorias raciais, mais o politicamente correto, algumas das canções mais populares podem ser banidas do Carnaval. Nem todas, claro. Perseguem-se os clássicos carnavalescos que falam em cor da pele ou comportamento sexual. O teu cabelo não nega, de Lamartine Babo e Irmãos Valença, Nega do cabelo duro, de David Nasser e Rubens Soares, Mulata Bossa Nova, de João Roberto Kelly, Fricote (“nega do cabelo duro que não gosta de pentear”), de Luís Caldas, são acusadas de racismo e proibidas pelos blocos mais radicais.

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Vida sexual é suspeita: Cabeleira do Zezé, de Kelly, é vetada. Como Maria Sapatão, também de Kelly, embora elogie as que de dia são Maria e de noite viram João. Falar de imigrantes pode: “Jacó, a senhor me prometeu, uma gravata, até hoje inda não deu”), A promessa de Jacó, de Américo Campos; Lig, lig, lé, de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago (“Chinês come somente uma vez por mês”). Falar de parentes, também: “Trocaram o coração da minha sogra, puseram coração de jacaré, é, é, é, é, coitado do jacaré”.

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Se ninguém passar mais cantando feliz, saudades e cinzas é o que vai restar.

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E no entanto é preciso cantar

Este ano, na abertura do Carnaval não oficial, houve músicos que se recusaram a tocar músicas a seu ver inadequadas. Por exemplo, as que continham a palavra “mulata”, cuja origem remota é “mula”, híbrido de égua com jumento – o que gerou “mulata” para a híbrida de brancos com negros. É verdade; e não é. “Missa”, “míssil”, “missão”, comissão” têm a mesma raiz, de enviar algo a alguém. E daí? O fato é que no Governo Geisel, durante a ditadura militar, o Bloco do Pacotão desfilou cantando “Ah, Aiatolá”, referindo-se ao ditador. Seria aquela época mais democrática do que hoje?

Mudando de conversa

Mas vamos falar de outras coisas. Estas duas notas iniciais certamente servirão para que muita gente xingue este colunista – e o material é suficiente, ninguém precisa de mais. Como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzche, as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Quem está convencido de que o perigo está no Carnaval não vai mudar de ideia.

Os caminhos de Lula

Lula teve excelentes resultados nas pesquisas CNT/MDA e Instituto Paraná para a Presidência da República, mas antes de festejar terá de se desviar de um obstáculo perigoso. Há uma denúncia pesada contra ele, nos processos da Lava Jato: o ex-senador Delcídio do Amaral reafirmou ao Ministério Público que foi Lula que lhe determinou que fizesse uma oferta de propina a Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, para dificultar as apurações da Lava Jato. Livrando-se desses processos, Lula poderá articular sua candidatura à Presidência. Se tiver problemas, poderá ser chamado pelo juiz Sérgio Moro.

Aliança de aço

A ex-presidente Dilma Rousseff voltou a repetir que seu candidato à Presidência é Lula; e que ela não será candidata à Presidência em hipótese alguma. Mas Dilma disse que tem vontade de se candidatar ao Legislativo – senadora ou deputada federal. Uma dúvida: se Dilma acha que desempenhou bem suas funções e só caiu vitimada por um golpe de Estado, por que não pleiteia nas eleições o cargo do qual foi afastada?

Brigar sem motivo

Quem foi mal-educado: o escritor Raduan Nassar, que ao receber o Prêmio Camões acusou pesadamente o Governo brasileiro, considerando-o golpista, ou o ministro da Cultura, Roberto Freire, que bateu forte no premiado? É uma boa discussão, mas sem grande importância. Este colunista gostaria de saber por que existe um Ministério da Cultura – cuja existência é tão discutível que o presidente Michel Temer já o extinguiu uma vez. Dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, só 15 têm Ministério da Cultura, entre eles França e México. Estados Unidos, Canadá e Reino Unido geram ampla produção cultural sem precisar de um ministério. E são esses países que ganham o prêmio Nobel sem intervenção estatal.

Me dá um dinheiro aí

Professor no Brasil ganha mal? Nem todos: em dezembro, um professor da Universidade Federal de Juiz de Fora recebeu R$ 157 mil – cinco vezes o teto do funcionalismo, que é o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, R$ 33.700. Um desembargador de Sergipe deixou facilmente o professor mineiro para trás: recebeu em janeiro R$ 326 mil.

Pode? Não. Mas cada um dá um jeito de dizer que o salário não é salário, mas verba indenizatória. O limite de salários é só para quem ganha pouco.

COMO SERÁ O AMANHÃ?

As duas pesquisas que indicam Lula em primeiro lugar dizem tudo, mas não dizem nada. Dizem que denúncias de corrupção não impedem a vitória de ninguém (quantos acusados já não foram eleitos em nosso país?) Não dizem, por mais que os lulodilmistas o proclamem, que Lula será eleito presidente em 2018. A eleição é daqui a dois anos, muito longe para que as pesquisas indiquem agora um eventual vencedor. Não levam em conta o derretimento do PT, o que reduz a força de seu candidato. Mas demonstram que o antipetismo não tem hoje nenhum candidato viável. Tem vários candidatos, mas caso se abracem é melhor separá-los, porque é briga. Ai do aliado que não proteger as costas quando estiver entre os amigos.

A prova de que os adversários do PT não têm candidato é que, na pesquisa da Confederação Nacional do Trabalho, quem se saiu melhor foi Jair Bolsonaro, encostando em Marina Silva, à frente de Aécio. É difícil imaginar Bolsonaro numa final presidencial, mas o exemplo Trump mostra que tudo é possível. No trabalho da Paraná Pesquisas, quem surpreende é João Dória, que vem se saindo bem mas não tem nem dois meses de exercício do mandato. Dória está tecnicamente empatado com Marina, Bolsonaro e Joaquim Barbosa, pouco mais de dez pontos atrás de Lula.

A pesquisa diz mais de uma coisa: quem quiser Lula fora tem de se esforçar para que seja condenado e preso. Solto, é um candidato temível.

Inscrito nos anais

A decisão é da juíza Eliana Cassali Tosi, da 30ª Vara Criminal de São Paulo: chamar Lula de “chefe de quadrilha” não é calúnia nem injúria. Por isso, absolveu o historiador Marco Antônio Villa no processo que lhe foi movido pelo ex-presidente. Villa, no mesmo comentário, pela TV Cultura, SP, acusou Lula de dirigir esquemas de propina dentro do Poder Público.

O vento levou

Lembra da Operação Hurricane (“Furacão”), contra autoridades acusadas de comprar e vender decisões judiciais para liberar máquinas caça-níqueis? Já lá se vão nove anos. A pena de João Sérgio Leal Pereira, do Ministério Público Federal, prescreveu, e ninguém mais, entre os acusados, tem foro privilegiado. Resultado: por ordem do STJ, o processo vai para a primeira instância. E se faz tudo de novo – agora, pela terceira vez. Na primeira, a questão estava no STF. Um dos acusados no processo era o ministro Paulo Medina, do STJ. Este foi rapidamente punido, pela acusação de vender decisões e receber propina de R$ 1 milhão, com aposentadoria e vencimentos proporcionais ao tempo de serviço – hoje, seus R$ 25 mil mensais. Com Medina condenado a ignorar a maldição bíblica, de ganhar o pão com o suor de seu rosto, a questão foi enviada ao STJ, e lá refeita. E daqui a algum tempo será julgada.

Já viu tudo?

O excelente portal jurídico Espaço Vital  traz uma notícia notável: o STF decidiu que o Estado tem a obrigação de indenizar presos em razão de danos morais causados pela falta das condições legais de encarceramento. É uma decisão de repercussão geral, a ser obrigatoriamente aplicada em casos semelhantes. O caso analisado foi o do presidiário Anderson Nunes da Silva, que dormia com a cabeça encostada na privada, no Mato Grosso do Sul, por falta de espaço na cela.

OK: o Estado, quando prende alguém, se obriga a protegê-lo e a dar-lhe condições corretas de alojamento. Mas não há nenhuma referência na sentença às vítimas de quem foi preso. Há alguma compensação às vítimas do crime ou apenas aos acusados que foram presos e condenados?

A volta de Rose

Rosemary Nóvoa de Noronha, que até 2015 foi chefe de Gabinete da Presidência da República em São Paulo, aliada próxima do ex-presidente Lula, é alvo, ao lado de 12 outros réus, de uma petição do Ministério Público Federal à Justiça, para que receba ação civil pública contra todos. A ação foi ajuizada em abril de 2015, mas ainda não foi recebida. A soma das vantagens recebidas por Rose durante o período investigado é minúscula, comparada com as cifras bilionárias a que nos acostumamos: são R$ 140 mil. Se não houver nada mais, é caso de dumping.

Contra tudo

As grandes centrais sindicais decidiram promover, em 15 de março, o Dia Nacional de Lutas com Greve e Paralisações contra a “Reforma” da Previdência Social Pública. Apesar das divergências entre as centrais, todas concordaram em, unidas, defender sua posição com o mote Resistir a Todo Custo contra a Retirada dos Direitos.

Deve ser a primeira grande manifestação de março. No dia 26, as entidades que promoveram as passeatas contra Dilma devem voltar às ruas para defender a Lava Jato e protestar contra quem tenta reduzir seu ímpeto.

PARA OS AMIGOS, TUDO; E NADA

Convenhamos: a opinião pública já se cansou do vaivém dos políticos que tentam escapar da Lava Jato. Se avisarem no Congresso que o Japonês da Federal apareceu para uma visita de cortesia, quantos parlamentares o esperarão tranquilamente no gabinete? Como se sentirá um eleitor que participou das manifestações contra Dilma ao saber que a Comissão de Constituição e Justiça, que ouvirá o escolhido para o Supremo, tem dez de seus 13 integrantes respondendo a processo no mesmo tribunal cujo novo ministro estão contribuindo para escolher – e todos loucos para afogar a Lava Jato? Como se sentirá este eleitor que marchou contra Dilma sabendo que o líder do Governo no Congresso enfrenta os mesmos problemas jurídicos da líder do PT, Gleisi Hoffmann? Lembrando que Renan lidera a maior bancada do Senado – bancada que já foi de Lula e de Dilma e hoje é Temer desde criancinha? Consciente de que quem é bem tratado pelo Governo, hoje, foi bem tratado pelo Governo Dilma, de quem era íntimo? É um pessoal coerente: está sempre ao lado do governo. Se o Governo muda, mantém-se a seu lado.

Uma boa hora para protestar é agora, quando ficou claro que amigo é amigo e a lei é para os outros. Mais: Lula deve depor nesta sexta, acusado de obstruir as investigações da Lava Jato. Está sendo organizada uma grande manifestação popular, em todo o país. Não nesse domingo, nem no próximo, que é Carnaval. Mas daqui a 40 dias, no final de março. Tremei, corruptos!

Quem é quem?

A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal pede ao presidente Michel Temer a substituição do seu diretor-geral, delegado Leandro Daiello. A Associação culpa Daiello pela saída de delegados que integravam a Lava Jato desde o começo e diz estar temerosa de que as investigações sejam prejudicadas. OK, mas quem é que comandou a Polícia Federal desde o início da Lava Jato? Bingo: o próprio Leandro Daiello. Se ele apresentou bom trabalho, o que parece inegável, como é que de repente sua permanência poderia afetar as investigações? O curioso é que esta é a primeira vez na história da PF que os delegados pedem a substituição de seu chefe – e exatamente quando a PF desfruta do maior prestígio entre a população.

Como é mesmo?

Parece brincadeira: no Espírito Santo, com a volta ao trabalho de pouco menos de dois mil dos policiais militares rebelados, tanto o Governo Federal como o capixaba se apressam em proclamar a “volta à normalidade”. Suas Excelências que nos perdoem, mas a normalidade estará de volta só quando os amotinados forem identificados e julgados por motim – e julgar meia dúzia, achando que isso servirá de exemplo, a todos não vale. Servidores públicos armados não fazem greve nem desobedecem ao comando. Não se pode admitir que deem exemplo para outras PMs, nem que tenham o poder de decidir quando irão obedecer. Este colunista acha que o policial militar ganha pouco e não tem proteção nem reconhecimento adequados. Mas motim, isso não pode.

Os donos do poder

O primeiro efeito da leniência com o motim já tem data para ocorrer: na sexta, policiais capixabas fazem assembleia para decidir sobre greve geral.

O tempo passa

O jogo entre Flamengo e Botafogo, no Estádio Nilton Santos, antigo Estádio João Havelange, ou Engenhão, exigia segurança redobrada: era dia de sol, com 13 blocos carnavalescos nas ruas do Rio e 25 mil ingressos vendidos antecipadamente. Mas foi, ao contrário, policiado por um número reduzido de homens. Motivo: querendo seguir o exemplo capixaba, policiais militares fluminenses se esconderam atrás da saia de suas esposas, que fingiam impedir que saíssem dos quartéis. Morreu um torcedor do Botafogo na briga de torcidas. Foi a crônica da morte anunciada. Até quando?

Questão de sonhos 1

Num momento em que suas relações com os Estados Unidos estão em baixa, qual a saída do México para manter em dia seu comércio exterior? A professora Raquel León, professora da Universidade Autônoma de Puebla, propôs em Brasília a intensificação do relacionamento econômico entre México e América do Sul. A ideia é ótima e será boa para mexicanos, brasileiros, e sul-americanos em geral; mas não substituirá as trocas do México com os Estados Unidos. Hoje, o comércio do México com o Brasil atinge US$ 9,2 bilhões. Com os EUA, chega a US$ 550 bilhões por ano.

Questão de sonhos 2

O comércio exterior brasileiro, no total, com o mundo todo, não alcança os US$ 200 bilhões por ano. Comerciar mais com o México é ótimo, mas o Brasil, ao menos por enquanto, não tem condições de substituir os Estados Unidos como seu parceiro preferencial. É por isso que Trump se sente à vontade e é até grosseiro para tentar obter mais vantagens dos mexicanos.

E DO MOMENTO ERRADO FEZ-SE O DRAMA

Um bom político é o que cheira a direção do vento, ensinava Ulysses Guimarães, o lendário comandante da oposição civil à ditadura militar. O faro do próprio Ulysses falhou, e ele se candidatou à Presidência quando não tinha a menor chance. Michel Temer, que manteve unido o maior partido do país, que conseguiu aliar-se alternadamente ao PT e a Bolsonaro, que moveu os cordéis do impeachment e chegou à Presidência; e Lula, que tem a política no sangue e soube exercitá-la, ambos farejaram com atraso a direção dos ventos e pagam caro por isso.

Temer e Lula cometeram o mesmo erro: deixaram claro que seu objetivo não era político, era livrar-se de Sérgio Moro. Se Lula entrasse no Ministério de Dilma um mês antes, a acusação de que procurava proteger-se no foro privilegiado perderia muito de sua força. Mas resolveu esperar o Bessias (e ainda por cima combinar com Dilma, por telefone, como funcionaria a manobra). Se Temer tivesse colocado Moreira Franco como ministro, até seria criticado, mas ninguém iria acusá-lo de oferecer o foro privilegiado ao amigo. Moreira Franco entraria no pacote de Jucá, Padilha, Geddel e outras criaturas. E tanto Temer como Lula sabiam, muito antes que qualquer outra pessoa, o que é que tinham feito, e porque lhes seria difícil comparecer perante um juiz de primeira instância.

Gerou-se a crise.

Como diria Vinícius de Moraes, de repente, não mais que de repente.

Trim, trim

Certa vez, Tancredo Neves disse que telefone só servia para marcar encontro, e no lugar errado. Para conversas sérias, jamais. Por que? “Eu fui ministro da Justiça e sei como são essas coisas”. Tancredo foi ministro da Justiça em 1954, há 63 anos, e já naquela época Havia “essas coisas”. Lula e Dilma falaram o que não deviam quando a tecnologia já tinha avançado.

Mas quem não é?

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado ouvirá Alexandre de Moraes, indicado pelo presidente Michel Temer para o Supremo Tribunal Federal. O presidente da CCJ é Édison Lobão. E, dos seus 13 integrantes, dez respondem a processo no STF. E são eles que ouvirão um candidato a ministro do tribunal em que estão sendo processados.

Mas tudo bem: no Senado, o presidente, Eunício Oliveira, o líder do PMDB, Renan Calheiros, o líder do Governo no Congresso, Romero Jucá, e a líder do PT, Gleisi Hoffmann, na melhor das hipóteses estão entre os citados em delações premiadas. Mas há também investigados e indiciados na Lava Jato e operações correlatas. Atravessando os corredores, chega-se à Câmara – cujo presidente, Rodrigo Maia, é o próximo alvo da Procuradoria Geral da República, que já anunciou um pedido ao Supremo de abertura de inquérito contra ele.

O nome das coisas

A imprensa e os políticos em geral que perdoem esse colunista, mas no Espírito Santo não houve greve nenhuma: houve um motim, uma insurreição. É caso de prisão imediata dos amotinados, com julgamento pelo Regulamento Disciplinar do Exército. Há 700 PMs presos por insubordinação, mas são poucos diante do tamanho do motim. Cabe às Forças Armadas enquadrar os insurretos. As queixas sobre salários podem até ser justas, mas tropa armada não tem a greve entre seus direitos.

Com arma não se brinca

E o Governo Federal tem de tratar a população do Espírito Santo, no mínimo, com seriedade; lembrar do número de pessoas que morreram porque as autoridades, tão rígidas na hora de cobrar impostos, não conseguem sequer policiar as ruas. Enviar 300 agentes da Força Nacional ao Estado é brincadeira sem graça.

Primeiro, porque os homens da Força Nacional não conhecem a região, suas peculiaridades, nada; segundo, porque 300 homens é o tamanho da tropa mobilizada para policiar o jogo Campinense x 13, de Campina Grande, Paraíba. Terceiro, a Polícia Militar capixaba tem 11 mil homens. Não vão resistir aos 300 de Brasília, vão?

Agora vai

Mas, justiça seja feita, mandar cinco ônibus de soldados para o Espírito Santo não foi a única providência do Governo Federal para restabelecer a paz. Houve também a importantíssima e corajosa medida de mudar o nome do Ministério da Justiça para Ministério da Justiça e Segurança Pública. É outra coisa. Voltando ao passado, imagine Renan Calheiros como “ministro da Justiça e da Defesa Pública”! E fora o temor que o novo nome causará nos policiais amotinados e nos bandidos, haverá outras consequências: trocar toda a papelaria do Ministério, para que as notas fiscais, por exemplo, já saiam com a nova identificação; mandar fazer aquelas belas letras de latão polido que identificam cada Ministério pelo lado de fora; trocar os cartões de visita dos altos escalões da Casa.

É caro mas é bom.

GOVERNO FAZ, DESFAZ E SE DESFAZ

O problema do Brasil definitivamente não é a falta de Governo. Só em Brasília há três, que jamais poderiam conviver se não fossem, os três, presididos simultaneamente pelo mesmo Michel Miguel Elias Temer Lulia.

Ou talvez sejam três os Michel Temer, mudando conforme o tema. Na Economia, as coisas andam: pode-se discordar dos seus rumos, mas é certo que há objetivos, e que vêm sendo alcançados sem grandes turbulências, sob o comando de gente do ramo, de boa reputação. Nesse clima, mesmo notícias ruins, como o desemprego em alta, acabam sendo bem aceitas.

Na Política, Temer parece chamar a Lava Jato a cada instante. Perde-se em bobaginhas. O caso Geddel, do ministro que caiu porque queria mexer no gabarito de um prédio na praia, só não é exemplar porque não serviu de exemplo. Temer repete Dilma, que quis nomear Lula ministro para dar-lhe foro privilegiado: nomeia Moreira Franco para salvá-lo de Moro.

O restante do Governo parece descoordenado. Insistir em Édison Lobão, que responde a inquérito autorizado pelo Supremo, para presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, é atrair tempestades. Elevar Alexandre de Moraes ao Supremo, ele que, em sua tese de doutoramento, já deu os argumentos para não ser nomeado? Eleger Eunício, citado em delação, para presidente do Senado, é contratar uma crise futura.
Na disputa dos três Michéis, quem é o Michel verdadeiro?

Sejamos sérios

Esta coluna levantou uma questão para cada leitor examinar e decidir. Mas sem maldade: fica feio dizer que o Michel verdadeiro é o Michelzinho.

Em busca do escorregão

Eunício, Alexandre de Moraes, Édison Lobão? Há mais gente. O PMDB do Mato Grosso do Sul indicou o deputado federal Carlos Marum para presidir a comissão especial sobre a reforma da Previdência. Marum é uma pedra solta aguardando um tropeção: sempre foi o maior defensor de Eduardo Cunha na Câmara. Cunha hoje está preso.

Nesta data querida

Na prática, já é Carnaval. Terminados os festejos, a Operação Lava Jato estará completando três aninhos de vida. Na área empresarial, a Lava Jato entrou como um furacão. Na área política, está bem mais para brisa. Condenou um político de peso, Delcídio do Amaral. Só um. Outros políticos, como Eduardo Cunha, aguardam julgamento. Há os que foram condenados em processos anteriores, como José Dirceu. OK, nunca houve clima tão tenso nos meios políticos, nunca houve tantas Excelências atrás das grades, somando Petrolão, Mensalão e Lava Jato. Mas não dá para comparar o andamento dos casos que envolvem políticos com o avanço dos processos contra empresários, a cargo de juízes de primeira instância. Com a homologação das delações (só na Odebrecht, são 78 especialistas que prometem contar cada caso como o caso foi), tudo fica mais lento.

Muitos anos de vida

Imagine que cada delator premiado da Odebrecht entregue só um nome (uma expectativa das mais conservadoras). De repente, caem sobre o Supremo mais 78 inquéritos, que revelarão outros nomes de suspeitos. Como farão os ministros para enfrentar o excesso de trabalho, eles que já têm milhares de processos aguardando decisão? Não haverá o risco de transformar julgamentos importantes, didáticos, em simples estatísticas?

Mais e mais

E, por falar em risco de soterrar o Supremo sob uma avalanche de julgamentos, a delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, gerou quatro pedidos de abertura e inquérito ao Supremo: sobre José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e o próprio Machado. Imaginemos o que vem das 78 delações da Odebrecht – em que o setor de pixulecos era estabelecido e organizadíssimo – e de outras empreiteiras, além de personalidades como Eike Batista. A menos que seja possível multiplicar a velocidade dos julgamentos, como fazer com que todos se realizem?

Bis repetita

Há poucas semanas, o ex-presidente José Sarney informava que não mais se candidataria ao Senado pelo Amapá. Questão de idade, dizia. Aos 87 anos, teria chegado a hora de se aposentar. Há alguns dias, amigos de Sarney garantiram que a eleição seria facílima e ele não teria de se esforçar para ganhar. Pois é. Será que o pedido do procurador-geral Janot nada tem a ver com a possível mudança de posição de Sarney diante da eleição?

A voz da experiência

Anúncio de Sérgio Cabral nas eleições de 2006: “Sérgio Cabral é o mais preparado para governar o Rio de Janeiro porque tem um compromisso com a eficiência. Compromisso em fazer as coisas bem feitas, falar com as pessoas direito e tratar o dinheiro público com honestidade e respeito”.

QUATRO NOTAS

Por baixo dos panos

A politicazinha continua comendo solta. O secretário de Parcerias de Investimentos do Governo Federal, Wellington Moreira Franco – conforme o grau de amizade, há quem o chame de Gato Triste, Gato Angorá ou, quando se trata de um amigão, simplesmente o Gato – andou sendo citado justamente como O Gato numa das delações premiadas da Odebrecht. Quem tem amigos não morre pagão: o presidente Temer transformou uma Secretaria Geral em cargo privativo de ministro e ali alojou Moreira Franco – que, além de ser um dos políticos mais próximos do presidente, é também sogro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Agora que é ministro, o Gato Triste passou a ter foro privilegiado, e só precisará viajar a Curitiba para desempenhar as funções de sua pasta, sem qualquer obrigação de visitar o juiz Sérgio Moro. Moreira Franco diz que seu caso é diferente da nomeação de Lula para um ministério de Dilma: ele já fazia parte do Governo e foi apenas remanejado. Dizem também que já exercia o papel de ministro e só faltava nomeá-lo. Então, tá.

Briga no Supremo

O senador Randolfe Rodrigues acha que a nomeação de Moreira Franco é ilegal, tanto quanto foi ilegal a de Lula, no finalzinho do Governo Dilma. Na sexta à tarde, entrou com ação na Justiça Federal do Amapá para anulá-la. “O caso”, diz o senador, “é um escárnio às instituições da República, vai contra os princípios da moralidade e atinge o Estado Democrático de Direito.”

Os grandes acertos

O Congresso em ação: o PT, embora acuse o presidente da República de golpista, embora o chame de “presidente interino”, negociou o apoio a Eunício Oliveira, amigo de fé e irmão camarada de Temer, para presidente da Mesa do Senado. Em troca de seus votos, conseguiu colocar o senador José Pimentel, do PT piauiense, na primeira secretaria. Neste posto estratégico, Pimentel tem à disposição 70 cargos de livre provimento para abrigar a “cumpanherada”. Nada foi definido ainda, mas há fortes rumores de que Gilberto Carvalho, que foi secretário-geral da Presidência no Governo Dilma, assumirá a presidência do Interlegis, programa de modernização e integração do Poder Legislativo Brasileiro. É mais do que um bom emprego: dá poder.

“Pode contar com meu voto, cumpanhero Eunício”

…é vendaval

Falta dinheiro? Funde um partido: neste finzinho de janeiro, o Fundo Partidário pagou R$ 58,5 milhões aos 35 partidos políticos com registro definitivo no Tribunal Superior Eleitoral. Quem recebeu a maior parte foi o PT, R$ 7.866.826,90. Seguem-se o PMDB, com R$ 6.453.403,47, e o PSDB, com R$ 6.453.403,47. E de onde vem o Fundo Partidário? Multas, doações, recursos financeiros destinados por lei, dotações orçamentárias da União “nunca inferiores ao número de eleitores inscritos, multiplicados por R$ 0,35”.

Ou seja, a principal fonte do tal Fundo Partidário é o velho e bom Tesouro. Em outras palavras, o seu, o meu, o nosso dinheiro dado a partidos que não são os que queremos e para eleger parlamentares que não teriam nosso voto.

MAMA COM FÉ E ORGULHO

E, de repente, houve no Brasil aquele vislumbre de que tínhamos chegado ao Primeiro Mundo: a Odebrecht, organizadíssima, dispondo de departamento especializado em propinas, com registro computadorizado, nome, RG e foto do beneficiário, impecável no pecado. E ainda multinacionalizada, multicolorida, o dinheiro da propina verde-amarela lubrificando candidatos vermelhos no Exterior, em parte pagando lá fora serviços aqui de dentro, girando internacionalmente obras de porte, monumentais, que cá e lá, devidamente azeitadas e negociadas por autoridades, mais propinas renderiam.

Só que não era bem assim: Eike Batista, apesar do nome alemão (e dos nomes escandinavos que deu aos filhos), é um carioca daqueles de anedota, solto, feliz. Deu-se muito bem com outro carioca de almanaque, alegre, divertido, boa praça, o então governador fluminense Sérgio Cabral. Deram-se tão bem que, descobriu-se agora, Cabral se transformou, só com os mimos de Eike, no maior pixulequeiro da era Lava Jato. E nada daquela organização primeiro-mundista com advogados, transferências múltiplas, trusts e trustees, seja lá isso o que for: a grana é ainda mais farta, mas em joias, pedras preciosas, minas de ouro (na África, talvez), presentes. Como nos tempos das miçangas e espelhinhos, havia gentilezas como tecidos finos para ternos, gravatas daquelas caríssimas, dinheiro vivo para despesas imediatas e dois doleiros exclusivos. Brasil!!!! Século 21, século 16, sempre bons no pixuleco.

Avança, onça!

Dizem que, em certa ocasião, dois amigos passeavam na floresta quando ouviram, bem pertinho, o inconfundível rugido da onça. Um saiu correndo, o outro se agachou para trocar os tênis. O que corria gritou: “Você acha que vai conseguir correr mais do que a onça?” O amigo respondeu, já em velocidade: “Eu não preciso correr mais do que a onça. Preciso correr mais do que você”.

Esta é a disputa de agora entre Cabral e Eike: quem delatar primeiro dá a ficha do outro, e lhe tira a chance de ganhar os benefícios da delação premiada. No final, é um amigo jogando o outro às onças para ver se sozinho dá para sobreviver. Parece que havia até joalheiro quase exclusivo a serviço dos dois amigos. Cadê as joias?

A resposta milionária

Eike pode ser tudo, mas burro definitivamente não é. Qual o motivo que o fez comprar uma passagem só de ida (bem mais cara) para os Estados Unidos, correndo o risco de ser preso, decidindo enfrentar as acusações de estar foragido? Se pretendia ir para a Alemanha, usando seu passaporte alemão, por que não foi direto para lá? Que é que foi fazer nos Estados Unidos um ou dois dias antes de se entregar? Com quem conversou? Quem o ajudou a se decidir?

Pingando

Outra informação preciosa que Eike carrega: alguém lhe vazou a notícia de que seria preso? A Justiça determinou sua prisão no dia 13, a ordem foi cumprida no dia 26, quase duas semanas depois. Eike tinha viajado. Quando? Dois dias antes da mobilização da Polícia para prendê-lo. Com passagem só de ida comprada no dia da viagem. Viajando sozinho, um dia antes da família.

Esse é o segredo que Eike não pode contar. Pois, se contar, sabe-se lá que tipo de divergências entre instituições e autoridades ficará esclarecido de vez.

Números

Lembra do Pedro Barusco, gerente da Petrobras que tinha mergulhado a mão em pouco menos de US$ 100 milhões? Como diria o ex-deputado Roberto Jefferson, que denunciou o Mensalão, é um petequeiro. Sérgio Cabral, só de Eike, levou mais do que isso, segundo as investigações da Federal. Por enquanto, entre pixulecos e acarajés, Cabral está no pódio.

Escutar é bom

Do senador paranaense Roberto Requião, PMDB, comentando a sanidade mental de seus colegas: “Sou a sanidade em pessoa”. Requião, para agradar o então presidente Lula, na fase anterior ao pré-sal, quando ia inundar o mundo de biocombustíveis, mastigou uma mamona e fez cara de quem gostou, embora a mamona seja amarga e venenosa. O mais sensato dos dois, Lula, evitou que a Sanidade em Pessoa engolisse a mamona assassina.

A grande dúvida

O colunista James Akel estranha a manutenção do sigilo das delações da Odebrecht, mesmo já tendo sido acolhidas pelo Supremo. Uma frase: “Denúncia premiada sem premiar Judiciário é esquisita (…)” Outra: “Acreditar que na denúncia da Odebrecht não apareça nenhum denunciado togado é o mesmo que acreditar em doce de leite sem leite e sem açúcar.” Uma nota sobre Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador Sérgio Cabral: “(…) A jornalista Mônica Bérgamo conta que Adriana Ancelmo (…) tem carta na manga pra denunciar. Ela vai falar nomes de juízes de vários tipos de togas, desde as mais simples até as sofisticadas. Até que enfim alguém vai fazer denúncia de verdade (…)”.

A VIDA, À VIDA

Em frente ao hospital onde está internada Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do ex-presidente Lula, duas ou três pessoas gritam slogans contra a senhora doente. É pouca gente. Para o gosto deste colunista, é gente demais.

Há uns dois mil e poucos anos, pediram ao rabino Hillel uma definição rápida de Judaísmo. Hillel respondeu: “Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem. Esta é toda a Torah, a Lei. O resto é comentário”. Na mesma época, Jesus ampliou a lição: “Façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam, pois esta é a palavra da Lei e dos Profetas”.

Nunca fui apresentado a dona Marisa; não tenho motivos para dela gostar ou não (a não ser aquela estrelinha que ela inventou nos jardins tombados do Alvorada). Mas tenho todos os motivos para respeitá-la, ainda mais neste momento em que luta pela vida. Divergências políticas cessam quando algo superior se apresenta. Quem zela por uma vida zela por sua própria vida; zela pela vida de todos nós. Um esplêndido poeta inglês do século 16, o clérigo anglicano John Donne, sintetiza brilhantemente essa questão: “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. A morte de cada ser humano me diminui, porque eu faço parte da Humanidade”.

Saúde, dona Marisa. Brindemos à vida. Aliados ou não, lembremos que, se a sabedoria não deixa espaço para opiniões divergentes, sabedoria não será.

Outra coisa é outra coisa

Mas não podemos confundir manifestações de mau gosto com o exercício do jornalismo. A divulgação de documentos referentes à saúde do paciente está sujeita às normas legais, supervisionada pelo Conselho de Medicina, sem dúvida. Mas se um jornalista obtém esses documentos tem o direito – sem censura, determina a Constituição – de divulgá-los. Vejamos a Lava Jato: se o jornalista obtém um vazamento e o divulga não comete crime. E lembremos aquele parágrafo clássico, “documentos a que este jornal teve acesso”.

Os segredos do X

Em 2012, Eike Batista publicou seu livro para ensinar empreendedorismo: “O X da Questão – a trajetória do maior empreendedor do Brasil”.

Pois é, há muito a estudar na trajetória de Eike. A ordem de prisão contra ele foi emitida em 13 de janeiro de 2017, pelo juiz federal Marcelo Bretas. Os agentes foram buscar Eike 13 dias depois, e não o encontraram. Soube-se que decolara para Nova York duas noites antes. Normalmente, os investigados ficam sob monitoramento dos federais até que a operação seja desfechada. Outro detalhe curioso: Eike viajou sozinho, na véspera da viagem da família. Por algum motivo, sabe-se lá qual, preferiu sair um dia mais cedo.

Valor real

Da jornalista Suyen Miranda, lembrando que Eike Batista não tem diploma universitário e, se preso, irá para prisão comum: “diploma universitário faz bem a saúde, mas passaporte alemão faz muito mais”.

Curiosidade

Segundo a Polícia Federal, boa parte da propina para o ex-governador fluminense Sérgio Cabral, já durante o decorrer da Operação Lava Jato, foi entregue na sede da Frangos Ricca, em mãos, pelo próprio frangueiro. Não se fale, pois, apenas em pixulecos: tinha pixuleco, sim, mas também moela, miúdos em geral, asinhas e até mesmo a pele dos contribuintes.

Uzianqui, uz gringo, uz galego

Na terça, Lula garantiu que a Lava Jato “tem dedo estrangeiro”. Na quarta, Dilma disse que há “interesses escusos” na Lava Jato, de ‘inviabilizar empresas brasileiras”. E essa inviabilização das empresas brasileiras “não é algo gratuito”: o objetivo é beneficiar empresas estrangeiras.

Poderia ser – mas as maiores empreiteiras brasileiras confessaram listas e mais listas de irregularidades pesadas, pelas quais concordaram em pagar multas monumentais. Mas Dilma está firme: empreiteiras estrangeiras, que hoje entram em concorrências da Petrobras, também estão envolvidas em corrupção, e levam vantagem sobre as concorrentes nacionais.

Mas é maldade dizer que a corrupção deve ser exclusivamente nossa.

É proibido gastar

Crise, que crise? Levantamento elaborado pelo colunista Cláudio Humberto mostra que, em 2016, o Senado gastou R$ 684 mil só em passagens aéreas para “missões oficiais” ao Exterior. Há também as diárias de viagem: apenas para ir ao Fórum Parlamentar dos Brics, em Moscou, Lindbergh Farias (PT-Rio), Vanessa Grazziotin (PCdoB-Amazonas) e Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), receberam pouco mais de R$ 16 mil. Além das verbas para missões oficiais, há as viagens normais de senadores, para Brasília e suas bases eleitorais, que bateram em algo próximo a R$ 6 milhões durante o ano.

A FORÇA DA LAVA JATO

Sem ilusões: todos os interessados em substituir o ministro Teori Zavascki (e todos os que fazem força por eles) têm amigos ameaçados pela Lava Jato. O ministro que o substituirá sabe que é sua a oportunidade única de fazer bons favores a bons amigos (bons amigos? Quem faz um favor ganha um amigo e cria dezenas de ingratos). Mas sabe também que achou a oportunidade única de cumprir seu dever e ganhar um lugar na História. E será bem recompensado por fazer o que deve: um ministro do Supremo tem o maior salário do funcionalismo público, é inamovível, indemissível, tem amplos poderes, e no caso estará o tempo todo sob os holofotes favoráveis da imprensa. Vai beneficiar puxa-sacos ou pensar em sua biografia?

Um caso negativo marca a História do Brasil. Quando o ditador Getúlio Vargas foi deposto, no final de 1945, o presidente do Supremo José Linhares assumiu a Presidência da República até a realização de eleições. Aproveitando a oportunidade, nomeou a família toda. Eram tantos que se popularizou o slogan “Os Linhares são milhares”. É o que restou de sua biografia. Isso e o Fundo Rodoviário Nacional, que ele criou e financiou as terríveis estradas brasileiras – além das excelentes empreiteiras.

Mas não é sempre assim. O sábio Tancredo Neves sempre comentou que, diante de uma tomada de posição difícil, o voto tornava fáceis as opções corretas. “Nessas ocasiões”, dizia, “dá uma vontade de trair!”

* * *

Ação rápida

A presidente do Supremo, Carmen Lúcia, já autorizou o prosseguimento do trabalho de análise das delações premiadas da Odebrecht, elaborado pela equipe de Teori Zavascki, sob o comando do juiz-auxiliar Márcio Schiefler. Não haverá perda de tempo: concluída a tarefa, escolhe-se o novo ministro relator. Pode ser por sorteio, pode ser por homologação da própria ministra Carmen Lúcia, como plantonista do Supremo em exercício. E a Lava Jato continuará assustando quem talvez precise ter de se afastar da política.

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O apoio dos advogados

Cláudio Lamachia, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, comemorou a decisão da presidente do STF. “Representa uma vitória para a sociedade a decisão da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, de autorizar que os juízes auxiliares do gabinete de Teori Zavascki continuem o trabalho referente às delações premiadas de executivos da Odebrecht. Assim, a análise dos processos da Operação Lava Jato não fica paralisada”.

* * *

Incompetência

O ditador do Gabão, Ali Bongo, ficou oito anos no poder e fugiu com 11 milhões de dólares. Vai tomar processo dos colegas de regime por comportamento chinfrim.

Dilma sendo recebida por Ali Bongo

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Chegando lá

Os hábitos políticos brasileiros são mais requintados e rendosos. O PT, por exemplo, que não conversa com Governo golpista, que considera o presidente Temer apenas um interino, é bem mais flexível quando há debates reais em jogo. O PT faz parte da ampla aliança que deve eleger o primeiro-amigo de Temer, Eunício Oliveira, golpista entre os golpistas, coxinhíssimo, para a Presidência do Senado.

Papo baratinho: os petistas se contentam com a primeira-secretaria – por coincidência, a que cuida dos cofres da Casa.

“Aqui entre nós dois: o PT vai votar em mim, Renan. Acreditas?”

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Fatos e dúvidas

Fugas, confrontos, rebeliões e massacres espalhados por prisões de Bauru, Natal, Roraima, Manaus.

Dúvida nº 1 – Alguém se lembra de alguma rebelião em prisão japonesa?

Dúvida nº 2 – Alguém se lembra de alguma rebelião numa prisão argentina?

Dúvida nº 3 – Alguém se lembra de alguma rebelião numa prisão coreana, ou chilena, ou alemã, ou norueguesa?

* * *

Dúvidas e fatos

Alguém já ouviu falar, nesses países, em negociações com chefes de facções criminosas que instalaram seus escritórios em prisões?

Aliás, alguém já terá ouvido falar, nesses países, em chefes de facções criminosas que instalaram seus escritórios em prisões?

* * *

Boa notícia

Uma belíssima exposição começa amanhã no Museu de Arte Sacra de São Paulo, no Metrô Tiradentes: “Os Filhos de Deus”, de Daniel Taveira, uma busca “de mostrar ao mundo uma história humana, por intermédio do olhar e das lentes de seu autor”. Taveira quer mostrar ao mundo que, independentemente de raça, crença, cultura, crença, orientação sexual ou cor, você é por natureza um filho ou uma filha de Deus”. De terça a domingo, a partir das 11h, grátis para usuários do Metrô.

QUEM É QUEM ENTRE OS CANDIDATOS

Não se iluda: assim que voltar do recesso, o deputado gaúcho Ônix Lorenzoni começa a trabalhar para erguer a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República. Caiado já autorizou o colega a trabalhar por ele – inclusive articulando com outros partidos e montando uma frente que lhe permita candidatar-se reforçando as alianças possíveis.

Lorenzoni quer disputar o Governo gaúcho, e o apoio de Caiado, se for mesmo candidato, dará a Lorenzoni a oportunidade de jogar com o apoio de um candidato à Presidência da República. Para Lorenzoni, é uma grande oportunidade. O ok de Caiado tem alto valor para Ônix.

Caiado sempre diz que só pensa em ser candidato a governador. Mas quer mesmo ir mais longe. Esse monte de candidatos ao Governo diz a mesma coisa. Mas Caiado pensa mais longe. Se tiver a oportunidade, buscará o máximo. E por que não? Se João Dória Jr. buscou a tese do gestor, não do político, e ganhou no primeiro turno, por que não Caiado? Caiado está prontinho para se candidatar à Presidência da República. E jamais hesitou em abrir fogo contra Lula, desde o escândalo da Lubeca, em 1989. Manteve-se como fiel adversário do PT, mesmo quando o PT deu um jeito de buscar novos amigos. Sempre criticou Lula e se manteve na oposição. E agora, quando o PT e Lula sofrem na Justiça, não é Ronaldo Caiado que vai ignorar seus adversários do PT e fingir que não os conhece..

Negócios à parte

Lembra de Luís Inácio Adams, amigo de fé e irmão camarada de Lula e Dilma, advogado geral da União? Agora ele ajuda Rodrigo Maia, que quer se reeleger presidente da Câmara. E se propõe a escrever um artigo num jornal de grande circulação, dando apoio a Maia. E por que? Para desvincular sua imagem do passado petista. Tem gente que é esperta!

Já Jovair Arantes, do PTB, que está brigando com Rodrigo Maia, acusa o adversário, sem citar seu nome, de “burlar a Constituição e as normas de funcionamento da Câmara” para tentar se reeleger esquecendo as normas legais. Todo mundo é santo, né?

PT quer tudo

O PT ainda não decidiu em quem vota na Câmara. Pode ser Rodrigo Maia, pode ser André Figueiredo, do PDT cearense. Jovair Arantes chegou a oferecer uma vice-presidência aos petistas. O PT tem 57 deputados; E, se trabalhar direito, pode até se sair bem. Por exemplo, o PT quer a primeira secretaria da Câmara. É aí que o PT pode nomear muita gente e se livrar dos interessados apenas em cargos. O Partido enriquece com isso. E o orçamento da Câmara é de R$ 5,2 bilhões por ano. Dá para nomear todos os assessores que estavam sem emprego.

Como que fica?

Rodrigo Maia é o favorito para a Câmara, Eunício Oliveira para o Senado. Só que os dois foram mencionados nas delações da Odebrecht como beneficiários de repasses financeiros ilegais.

Vergonha? Decência?

Lagosta ao molho de queijo, camarão, casquinha de siri, picanha, rosquinha húngara e oito tipos de pães estão entre os itens de uma licitação aberta pela Assembleia Legislativa de Alagoas para os serviços de bufê deste ano. Pelo jeito, Suas Excelências vão passar bem!

Abaixo os outros

José Eduardo Martins Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão, todos ex-ministros da Justiça, pediram ao ministro Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo ocupando o cargo, não chegaram à grandeza de trabalhar por ele.

José Eduardo Cardozo, Tarso Genro e Eugênio Aragão assinaram um documento pedindo a Alexandre de Moraes “a grandeza de renunciar ao cargo”. Os três sabem o que dizem: mesmo no cargo, mantiveram-se tranquilos, sempre evitando renunciar a ele,

Os três ministros da Justiça do PT serão recordados para sempre pela grandeza de sua defesa do Governo comandado por Lula e Dilma Rousseff.

A grande declaração

Da ex-presidente Dilma Rousseff, sobre seus planos para o futuro:

“Não penso em voltar à política porque o grande presidente para o Brasil é Lula”.

Ele é bom mas não é

Engraçada, essa política interna petista: quando Lula pediu a Dilma que lhe abrisse caminho nas eleições, Dilma recusou, e fez questão de ser candidata à reeleição. Não deu a Lula a menor oportunidade de se candidatar no lugar dela. E fez questão de bloquear o ministro da Fazenda preferido de Lula: Henrique Meirelles. Resultado: no Governo Temer, Meirelles acabou sendo o ministro da Fazenda.

DIDI, DEDÉ, MUÇUM, ZACARIAS

Preocupado com os massacres nas penitenciárias, achando que é preciso tomar providências urgentes? O governo também. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, discute o assunto em reunião urgentíssima com secretários estaduais da Administração Previdenciária. Dia marcado: 17.

É até bom esperar um pouco. Quem sabe até lá há novas revoltas e massacres e dá para aproveitar a reunião urgentíssima para discutir tudo?

Todo mundo criticou o presidente Temer por ter demorado a falar sobre os pavorosos acidentes nos presídios amazônicos. Pois é: aí ele falou.

A Defensoria Pública da União pediu ao STF que determine ao sistema prisional do Amazonas que garanta aos presos o direito à progressão de pena. Espera-se que a garantia se estenda a todos os sobreviventes.

O secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, foi exonerado pelo presidente Temer depois de defender mais massacres em presídios. Seu cargo (para que servirá?) é disputado pela “ala jovem” (existe!) do PSDB, pelo PSC, que se queixa de ocupar pouco espaço no Governo, e, naturalmente, o PMDB. Considerando-se que no Congresso os parlamentares mais antigos são conhecidos como “cabeças brancas” e os mais novos como “cabeças pretas”, os secretários nacionais da Juventude (quais as funções do cargo?), se seguirem o exemplo do demitido Bruno Júlio, poderão orgulhar-se de seu novo apelido de “cabeças vazias”.

Zorra Total

Alguém, no Portal Brasil, caprichou na confusão – e postou no twitter um link com todas as senhas disponíveis do Governo, de Instagram, Facebook e Gmail. Foi completo: além de senhas do Governo, senhas também de gente do Governo. Uma das senhas mais curiosas (não, esta coluna não está fazendo fofoca: a essa altura do Campeonato, se todas as senhas não foram mudadas é porque eles merecem a quebra de sigilo) era usada, ao que dizem, pela equipe de Temer: planaltodotemer2016. E, ao lado, a observação em letras maiúsculas, mais vermelhas do que roupa de petista, “NÃO TROCAR A SENHA NUNCA”. Já devem tê-la trocado.

Professora Raimunda

O pior, nesses vazamentos de senhas, é o que pode aparecer nas mensagens. Este colunista já ouviu falar (e não vai contar pra ninguém) de um certo cavalheiro com hábitos peculiares, que só contrata profissionais calipígias. Ambos se despem, ficando ela apenas com sapatos de salto alto, fininhos. Ele se deita de barriga para cima, e ela passeia, de salto alto, sobre seu corpo nu. Ele tem fama de pagar bem. Que dirá em suas mensagens?

Praça da Alegria

Haverá alguém, neste país, por menos atento que esteja, que não tenha ouvido alguma coisa a respeito de redução de gastos do Governo? Pois é: o futebol profissional, que se der lucro é só para os clubes, sem dividir com ninguém, está solidamente amparado em bancos estatais. Se anunciar na camisa dos bons times é lucrativo, por que as empresas estatais não deixam o filé para as companhias privadas? Enfim, no Rio Grande do Sul, em difícil situação financeira, devendo R$ 50 bilhões para o Governo Federal e atrasando o pagamento, o banco estatal Banrisul é o principal patrocinador de Grêmio e Internacional, com R$ 13 milhões anuais para cada um.

E o Governo Federal, querendo cortar despesas? A Caixa Econômica Federal, estatalzíssima, patrocina em 2017 a grande maioria dos 20 times da elite futebolística nacional. O Corinthians recebe R$ 30 milhões por ano da Caixa, como sua patrocinadora principal (patrocínio máster, aquele estampado no peito das camisas); o Flamengo, R$ 25 milhões. Os demais clubes, com torcidas menores, têm verba menor. Os bancos privados, que têm de prestar contas aos acionistas, delegam a tarefa ao dinheiro público.

Italianíssimo

A probabilidade é boa: Andrea Matarazzo, fiel dos fieis do PSDB, hoje no PSD, ligadíssimo ao tucano José Serra (que, chanceler, trabalhando de mãos dadas com Michel Temer, pode acabar saindo candidato à Presidência da República pelo PMDB), talvez acabe disputando uma cadeira no Parlamento italiano. Andrea tem cidadania dupla, brasileira e italiana, já foi embaixador do Brasil em Roma, nos tempos do Governo Fernando Henrique, e tem condições legais de candidatar-se. Nas últimas eleições que disputou, foi vice de Marta. Dória ganhou no primeiro turno.

Fala que te escutam

Tem gente que se esquece do avanço das telecomunicações, e fala como se estivesse num rádio de ondas curtas. O deputado Cássio Cunha Lima, por exemplo, tucano da Paraíba. Na entrevista a uma rádio paraibana, Cunha Lima disse que Temer teria dificuldades para chegar ao fim do mandato. Com aliados desses, tem mesmo. Só no dia seguinte o senador se lembrou do alcance das emissoras de hoje. Ainda está se desculpando com o presidente e aliados – que, por coincidência, são os mesmos que os seus.

OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM

Falou-se bobagem, jogou-se conversa fora. O governador do Amazonas, José Melo, do PROS, garantiu que entre os mortos no massacre da Penitenciária não havia nenhum santo. Deve ter razão; mas haverá santos em seu partido, em seu Governo? Qual de seus aliados colocará a auréola?

Falou-se o óbvio: que, entre mortos e matadores, havia estupradores, assassinos, gente malvada. E, isto é importante, gente do crime organizado.

Quem se rebelou e matou foi a FDN, Família do Norte, aliada ao Comando Vermelho, do Rio. Suas vítimas favoritas foram do PCC, do crime organizado com base em São Paulo. Como conter a futura vingança? E, a menos que a vingança seja contida, novos massacres ocorrerão: do PCC contra CV/FDN, do CV/FDN contra o PCC. Pelo noticiário sobre o crescimento de assassínios nas ruas, as vinganças já começaram, enquanto novos massacres se organizam em penitenciárias de todo o país.

De certa forma, Suas Excelências até entendem a sangueira. Os mortos, disse o governador José Melo, eram “(…) pessoas ligadas a outra facção, que é minoria no Estado do Amazonas”. São de fora, não são santos, são estupradores, matadores. É claro que, como presos, cabe ao Estado garantir sua segurança. É o que diz a lei. É o que diz a lei, também, sobre quem será morto como vingança. E a Segurança Pública? Todos já ouvimos falar nela.

Surpresa total

A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim pode não ter surpreendido as autoridades, que sabiam que o controle do presídio era dos detentos, que sabiam (e as gravaram em áudio e vídeo) das grandes festas cheias de poeira, que jamais ignoraram que os celulares da cadeia eram de alta qualidade. Mas houve pelo menos uma surpresa: o secretário da Segurança do Amazonas, Sérgio Fontes, garantiu que as autoridades não perderam o controle do sistema prisional. “O sistema prisional continua sob controle”, disse o secretário. “O que aconteceu, aconteceu nos primeiros minutos da rebelião, e por isso nada poderia ser feito”.

A surpresa é que Fortes continua no cargo e não foi demitido na hora.

Promessas, promessas

Temer prometeu R$ 800 milhões para construir um presídio por Estado. É difícil que o dinheiro seja suficiente. Aliás, o dinheiro nem novo é: faz parte daquele pacote de R$ 1,2 bilhão do fim do ano passado, para presídios e instalação de bloqueadores de celulares em 30% dos presídios de cada Estado. Depois, um dia desses virão mais R$ 200 milhões e outros nacos de verba para completar R$ 1,8 bilhão no primeiro semestre.

A vida como ela é

O colunista James Akel comenta o custo dos presos: “Custa 5.800,00 por mês cada preso do Amazonas. Em São Paulo um flat de luxo em Moema custa R$ 2.500,00.

Ao lado pode-se comer bem com 1.000,00 ao mês. Sobra grana”.

O que importa

E a vida continua. Os políticos costumam fazer aquilo de que gostam: política. Amazonas já era: os erros, sejam quais forem, serão encobertos por uma pedra em cima e esquecidos pelo passar dos anos. O que se discute hoje é a presidência da Câmara e do Senado. Na Câmara, a discussão é entre dois grupos, ambos aliados ao presidente Michel Temer. No Senado, o PT busca retomar sua tradicional ligação com o atual presidente da Casa, Renan Calheiros, para evitar a vitória do candidato de Temer, Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará. A ideia é que Renan escolha o nome para que o PT o lance e solidifique, e que ele só o apoie na hora em que tiver certeza da vitória. Se não der para ganhar, Renan fecha com Temer e sai como um dos vitoriosos, como sempre cacique do PMDB.

Tudo bem

Há pontos que vão bem na economia brasileira – por exemplo, com a crise, o setor da recuperação judicial. Hoje se desenrola o maior pedido de recuperação judicial da nossa História, os R$ 64 bilhões da Oi. Ainda não havia experiência no país de recuperação judicial deste porte. “mas já está claro que a providência pode levar a sucesso na manutenção das funções sociais das empresas”, diz o advogado Fernando de Luizi, de São Paulo, especialista no tema. “A Lava Jato criou uma modalidade de recuperação judicial atípica”, explica de Luizi. “Empresas saudáveis e superavitárias se tornaram insolventes pelas circunstâncias originadas pela Lava Jato, ou seja, em face do congelamento de seus recebíveis, pela perda de contratos, e acabaram tendo de buscar a recuperação para equacionar suas contas”.

Voa, governador, voa

O governador mineiro Fernando Pimentel, PT, viajou no helicóptero do Governo para buscar o filho no réveillon. Ele não entendeu as manifestações de rua: é para voar do cargo e nem pensar em voltar mais.

CHEGA DE INTERMEDIÁRIOS

A grande novidade dessas eleições – noves fora quem foi eleito e preso em seguida – é conhecida apenas em Manacapuru, a “Princesinha do Solimões”, a uns 80 km de Manaus, capital do Amazonas. Francisca Ferreira da Silva, 32 anos, tomou posse neste domingo como vereadora – a quarta parlamentar mais votada da cidade, a vereadora líder de votos, com 1.722. Contribuições para a campanha, só de pessoa física: taxistas, mototaxistas, pequenos comerciantes. Marqueteiro, nem pensar. Pensa no futuro da população mais pobre de Manacaparu: “Estou grata pelo apoio que recebi dos amigos e parentes”, diz. “Vou cobrar o prefeito e vou lutar para que Manacaparu tenha uma clínica de hemodiálise”.

Francisca Ferreira da Silva não concluiu o Fundamental, tem três filhos e é a primogênita de Manoel Nonato Oliveira da Silva e Alcina Lomas da Silva, ambos aposentados. Muito popular no porto, onde trabalha, foi escolhida pelos prestadores de serviços da área para representá-los, diante das sucessivas frustrações com seus eleitos. Têm certeza de que ela é imune à corrupção. Ela corresponde: até que receba os R$ 7.800,00 de salário, trabalha como feirante, feliz com a perspectiva de ajudar seus eleitores.

Ah, ninguém a conhece pelo nome, mas pelo apelido, Coroca, que usou como prostituta. Defende-a seu pai: “Jesus diz que quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. No país da Lava-Jato, quem se atreverá?

A firmeza de Temer

Não se impressione com os manifestos oposicionistas que, sempre que citam o Governo, acrescentam que está próximo a cair. Bobagem. Diz a Constituição que uma eleição para substituir Temer será indireta. Se tentarem transformá-la em direta, não haverá eleição nenhuma, por falta de tempo para aprovar a emenda constitucional. Imaginemos que Temer seja fartamente citado nas 77 delações da Odebrecht. Até acabar o processo, terá acabado o mandato. E se o TSE decidir que as irregularidades de Dilma se transferem a Temer? Mesmo que o julgamento saia rápido, há recursos que o atrasarão até o final do mandato. Temer fica até o fim.

A terra tudo encobre

O caro leitor jamais tinha ouvido falar da Família do Norte, forte facção criminosa que controla as prisões da região, e que, ao rebelar-se, deflagrou a matança? Pois a Polícia sabia de tudo. A FDN é liderada pelo traficante Márcio Garrote Ramagem, torcedor do Compensão, time de Manaus. Os presos financiavam times amadores, todos chamados de Compensão, pregavam seu escudo nas muralhas de todas as prisões, convocavam a torcida para todas as partidas (“salves”) e davam grandes festas, com secos e molhados. Seus celulares funcionavam melhor que o dos clientes que pagam a conta. Na cadeia havia três presos por vaga, amontoados.

As pedras por cima

Imagine o leitor que enclaves de luxemburgueses ocupem áreas do território brasileiro, em Rio, São Paulo, Amazônia, e resolvam seguir sua própria lei. Nenhum Governo aceitaria isso. Mas por que os luxemburgueses seriam piores que os condenados? Se não há condições de manter presídios adequados, bem guardados, onde se cumpra a lei do país, que a política prisional seja repensada, sem dar vantagens ilegais a quem tem o dedo mais mole na hora de atirar. Ou isso ou matanças sem fim.

La verdad

Aquela “onda vermelha” que engolfou parte da América Latina era, na verdade, abundantemente verdinha, e com fotos de Benjamin Franklin. Em duas semanas, começa o julgamento do ex-presidente de El Salvador, Maurício Funes, de um de seus filhos, Diego, e de sua ex-esposa, Vanda Pignato, brasileira e militante petista. Eles conseguiram, a pedido de Lula, que a Odebrecht pagasse a campanha – João Santana incluído. A Odebrecht, no mandato de Funes, obteve US$ 50 milhões em contratos.

Ricardo Martinelli, ex-presidente do Panamá, é acusado de receber, para ele, R$ 59 milhões; e, para outros, R$ 118 milhões. Rafael Correa, do Equador, está com problemas: a Polícia apreendeu há dias em Quito os arquivos eletrônicos da Odebrecht. Os subornos atingem US$ 35 milhões. No Peru, três ex-presidentes e uma ex-primeira-dama tentam jogar a propina, US$ 29 milhões, no colo do atual presidente Pedro Pablo Kuczynsky. Danilo Medina, República Dominicana, é acusado de receber US$ 92 milhões, em troca de US$ 163 milhões em ganhos extra-ordinários.

…sin perder las verduras jamás

Os melhores negócios parecem ter ocorrido onde não há abertura para a Justiça: Angola, onde a filha do presidente José Eduardo dos Santos se transformou na mulher mais rica da África, e Venezuela, onde o presidente Maduro faz o que pode para manter-se no poder. Ali a Odebrecht teve seus maiores lucros no Exterior e manobrou como quis o dinheiro.

FELIZ ANO VELHO E BOAS ENTRADAS

Pois não é que, apesar de tudo, dá para chamar 2016 de Feliz Ano Velho? A população foi para a rua, mostrou que estava farta do PT, deu forte apoio à apuração da ladroeira, usou contra Dilma expressões mais habituais a protestos contra juízes de futebol, e ganhou a parada, tirando-a da Presidência. Nas eleições de outubro último, o PT foi varrido do poder. E boa parte dos Guerreiros do Povo Brasileiro foi parar em Curitiba.

Petistas de peso foram desidratados e perderam seus cargos. Outros trocaram de partido – incluindo alguns ícones como Marta Suplicy e Cândido Vaccarezza. Outros ainda não sabem o rumo que vão tomar, como José Genoíno. E Dilma? Como é difícil escolher os próximos passos, quando nem o Grão Cacique Luiz Inácio Lula da Silva sabe o que fazer?

Lula pode ser candidato à Presidência, com algumas chances (se bem que arrastando uma inédita rejeição, que até agora jamais um candidato como ele tinha sustentado). Há também o risco de ser condenado em segunda instância num dos cinco processos em que já é réu. Condenação em segunda instância implica prisão e suspensão de direitos políticos. Candidatura, nesse caso, nem pensar.

Inflação em alta, emprego em baixa, negócios paralisados.Mas abriu-se caminho para apurar a gatunagem, para o saneamento das finanças estatais e a fixação de limites aos gastos públicos. Feliz Ano Velho, apesar de tudo!

Festa brava

A farra da mexerica, eta festa boa! Toda a população acredita que os candidatos devem fazer campanha com seu próprio dinheiro. Mas quem é que se contenta em gastar o próprio dinheiro, se o dinheiro do Governo está à disposição de gatos, ratos e gatunos? O Fundo Partidário rendeu aos partidos, em dez anos, pouco mais de R$ 3 bilhões. PT, PMDB e PSDB, neste período, molharam as mãos em algo como 350 a 450 milhões cada um. Acharam pouco: em dezembro de 2014, o Fundo triplicou. Fique tranquilo o caro leitor: não faltará dinheiro público, nosso, para que os partidos deles façam campanha sem dificuldades financeiras.

Triste futuro

Cuba se recusa a reconhecer o Governo brasileiro do presidente Michel Temer. Cuba se recusa a receber as credenciais do embaixador do Brasil, Frederico Duque Estrada. E o embaixador cubano no Brasil, Alberto Castellar, ainda não entregou suas credenciais. Como poderá o Brasil sobreviver sem relações diplomáticas com Raúl Castro?

Cena curitibana

Há coisas que só acontecem na política paranaense. Por exemplo, a troca de insultos entre o senador Roberto Requião e seus adversários políticos. No início de dezembro, Requião tinha dito que quem tivesse participado de passeatas contra o PT deveria comer alfafa, muita alfafa, ao natural ou em chá, própria para muares e equinos. Há uma semana, o jogo virou. Numa esquina curitibana, manifestantes depositaram um fardo de alfafa; e pediram que quem achasse que Requião deveria comê-lo buzinasse.

Cena curitibana. Hoje, na esquina da avenida Visconde de Guarapuava com rua Brigadeiro Franco, alguns manifestantes colocaram um fardo de alfafa e, numa faixa, pediam a quem concordasse que o senador Roberto Requião deveria comer aquilo, que buzinasse. O barulho tornou-se ensurdecedor por todo o tempo que durou a manifestação. Requião foi amplamente derrotado na Batalha da Alfafa. Ele não devia se envolver na briga: afinal, foi ele que andou mascando mamona.

Jornal Livre

Há uns 30 anos, o grande repórter Lúcio Flávio Pinto, meu colega de Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo, teve uma ideia revolucionária: lançou em Belém o Jornal Pessoal, uma publicação em defesa da Amazônia. Anúncios, não; publicidade, nenhuma. A única receita é obtida pelas vendas em bancas. Agora é preciso levar-lhe um aporte de capital – ou o jornal, o único realmente independente do país, fecha as portas.

A volta de Frankenthal

Seu pai, Leonardo Frankenthal, era conhecido como Leão do Júri; dizia sua lenda que ele perdera apenas um júri na vida, Quando morreu, sua filha e discípula Lilia Frankenthal decidiu retomar a notável carreira do pai. Neste 1º de janeiro, já com a carteira da OAB em mãos, reabre o escritório, com os telefones 9 8317-5800 e 4801-4907, e o e-mail lilia@frankenthal.adv.br

Dois livros notáveis

Dois lançamentos simultâneos: de Aristóteles Drummond, “O homem mais realista do Brasil, as melhores frases de Delfim Netto”; de Ives Gandra Martins, “Uma breve teoria do poder”. Os dos livros compõem um excelente presente de começo de ano.

FUMO MAS NÃO TRAGO. UM AMIGO TRAZ

Diz um cruel humorista americano que, certa manhã, uma esfuziante Chelsea Clinton chegou à Casa Branca e contou à mãe que tinha conhecido naquela noite um rapaz maravilhoso, simpático, bonito, bem educado, uma paixão!, que lhe fez agradável companhia. A mãe, preocupada, perguntou: “Rolou sexo?” E a jovem, direta: “De acordo com o papai, não”.

O ex-ministro Jaques Wagner (Governo Dilma) se aproximou de outra frase do ex-presidente Clinton: “eu fumei, mas não traguei”. Wagner, acusado de receber da Odebrecht um caprichado pixuleco, um relógio Rolex de US$ 20 mil, confirmou o presentão, mas explicou: “Guardei e nunca usei, porque uso outro tipo de relógio. Mas, se o cara me deu de presente, vou fazer o quê?” Claro: talvez prefira um relógio de bolso (“cebolão”), da Patek Phillipe, o Henry Graves Super Complication, avaliado em US$ 11 milhões. Se alguém lhe der de presente, que mal faz?

Pois é: junte as duas frases de Clinton, a verdadeira e a falsa, com a brasileira, de Jaques Wagner, e terá uma pista do caminho legislativo a seguir para livrar boa parte dos envolvidos na Lava Jato. Representantes dos três Poderes montam uma tese jurídica para separar o caixa 2 destinado a financiar campanhas do dinheiro usado para, oh, horror! enriquecer políticos. O que sempre se usou e é culturalmente aceito continua legal. O que não é culturalmente aceito, quem sabe um dia se acerta isso também.

Quem apita o jogo

Nessa limpeza toda de dinheiro até agora apontado como sujo, quem separaria o “culturalmente aceito” do que a nós parece pura roubalheira?

A ideia é entregar essa delicada operação ao Supremo. Os ministros teriam algum tempo para estudar direitinho o caso, já que o novo entendimento começaria a vigorar, dando tudo certo, no julgamento dos casos do Petrolão. Imagine o caro leitor se o Supremo condenar um figurão. Ficaria aberto o caminho para livrar réus de menor calibre.

No nosso, não

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, nem pensa em resolver juridicamente a situação de seus companheiros de partido. Quer resolvê-la do jeito que der, sem se preocupar em articular uma solução com as demais legendas. Ele propõe separar antigos companheiros, como José Dirceu e Antônio Palocci, que eram chamados de Guerreiros do Povo Brasileiro mas foram abandonados na prisão, sem sequer receber visitas, sem merecer sequer uma menção nos discursos petistas, e eventualmente expulsá-los do partido. Outros Guerreiros do Povo Brasileiro seriam defendidos pelo PT.

Traduzindo, o partido abandonaria os companheiros mais difíceis de defender, defenderiam os envolvidos em casos menos escandalosos e mobilizariam o partido numa cruzada quando chegasse sua vez no tribunal.

Cuidado essencial

Importante: é preciso tomar todos os cuidados possíveis antes de levar petistas de alta patente ao banco dos réus. O banco pode quebrar por excesso de fundos.

Operação Tetas Secas

Em 2013, condenados ao pagamento de multas, José Genoíno arrecadou R$ 700 mil numa vaquinha, e Delúbio Soares, em outra, R$ 1 milhão. Em 2014, José Dirceu levantou mais de R$ 900.000,00. Dilma, proibida de usar o Airbus oficial, e sentindo-se mal diante da possibilidade de voar em avião de carreira, obteve quase R$ 800 mil. A meta da vaquinha de Lula para financiar sua defesa era de R$ 500 mil. Chegou a R$ 270 mil.

Faturar menos que Dilma… que demonstração de força ao contrário! E Rui Falcão quer lançar imediatamente a candidatura de Lula à Presidência.

A falta que ela nos faz

Violeta Jafet, alma e coração do Hospital Sírio-Libanês, um dos melhores do país, morreu na segunda-feira, aos 108 anos. Por 50 anos dirigiu o dia a dia do hospital; quando já não tinha condições de caminhar pelas imensas instalações do Sírio-Libanês, ia de cadeira de rodas, sempre impecavelmente vestida, cuidando de tudo. Filha de Adma Jafet, primeira presidente da Sociedade de Mulheres que ergueu e comanda o Sírio-Libanês, Violeta tinha o dom da palavra. Após um discurso seu, o presidente Fernando Henrique beijou-lhe as mãos e disse que pediria a Deus que lhe concedesse chegar à idade dela com a lucidez que demonstrava. Violeta Basílio Jafet. Ela fará falta, a nós, à cidade, ao país.

Falou e disse

O vereador Fernando Holiday, do DEM paulistano, militante do MBL, Movimento Brasil Livre, já mostrou a que veio: diante da atitude dos vereadores paulistanos de aumentar seus salários em 20%, classificou-a de “desrespeito” e “canalhice das velhas raposas da Câmara”.

Holiday é de briga. Não está na Câmara para aumentar seus salários.

A MERITÍSSIMA SAÍDA

É cedo, muito cedo; pesquisa eleitoral, tantos anos antes de uma eleição, é mais adivinhação do que previsão. Celso Russomanno e Paulo Maluf cansaram de disparar na frente e perder o fôlego em campanhas por cargos majoritários. Mas a pesquisa, embora longe de indicar um favorito, é ótima para avaliar a atual situação de cada possível candidato. Neste momento, quem dispara na pesquisa do Instituto Ipsos é o juiz Sérgio Moro.

Moro é aprovado por 66% da população, e rejeitado por 22% – isso apesar da campanha feroz que o PT, os advogados do ex-presidente Lula e o próprio Lula movem contra ele, considerando-o parcial. Há ataques mais graves de alguns setores, que o acusam de investigar a corrupção com o objetivo de prejudicar a Petrobras e as grandes empreiteiras, em benefício de multinacionais concorrentes que buscam o mercado brasileiro. Até agora, as acusações não pegaram no juiz, que vai ganhando prestígio.

A primeira pesquisa do Ipsos sobre a popularidade de Moro se realizou em setembro do ano passado. Na ocasião, Moro tinha 10% de aprovação, e era desconhecido por 56% dos entrevistados. Em pouco mais de um ano, seu índice de aprovação se multiplicou por 6,6, um desempenho impressionante. Em junho, superava outro super-herói nacional, o ministro aposentado Joaquim Barbosa, por 55 a 52. De junho para cá, cresceu mais.

Será Moro candidato? Será candidato forte? Melhor ouvir a Mãe Dinah.

Temer, não…

O presidente Michel Temer tem números ruins: as pesquisas CNI-Ibope (46%), Datafolha (45%) e CUT-Vox Populi (55%) mostraram como cresce a rejeição a seu Governo. O Datafolha pesquisou também a taxa de rejeição de Lula (44%), e concluiu que o presidente e o ex-presidente estão tecnicamente empatados no número de eleitores que não votariam neles de jeito nenhum, caso sejam ambos candidatos nas eleições de 2018. O detalhe: os três institutos indicam quedas de prestígio semelhantes. Os números podem diferir um pouco, mas sinalizam idêntica fraqueza política.

…não…

O resultado mais dramático é o do Instituto Ipsos: 77%. Com esse número, Temer será o presidente da República mais mal visto pelos eleitores desde que se iniciaram as pesquisas sobre esse tema – um presidente pior até do que Dilma Rousseff. O número negativo disparou logo após o vazamento das delações da Odebrecht, em que é citado.

…sim…

Mas as medidas econômicas anunciadas na quinta-feira foram bem recebidas por empresários e especialistas. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Martins Filho, disse que as mudanças nas leis trabalhistas deixarão a Justiça mais tranquila e segura. “Quando a lei é clara é mais fácil trabalhar”. O presidente do TST acredita que não haverá quaisquer prejuízos jurídicos para os assalariados. “A cada direito flexibilizado, há uma vantagem compensatória para o trabalhador”.

A CUT será contra, pois o Governo não é do PT. O trabalho é convencer as outras centrais sindicais a tomar posição a favor, ou de esperar para ver.

…sim…

Um fato é inegável: ao que tudo indica, Temer só deixará a Presidência se quiser. Tem uma tremenda maioria parlamentar, capaz de barrar qualquer iniciativa contra ele. Pode ser que o Tribunal Superior Eleitoral conclua que as irregularidades cometidas por Dilma na campanha eleitoral o atingem, como seu companheiro de chapa, e decida cassar seu mandato, Nesse caso, disse Temer, no café da manhã com jornalistas, em Brasília, entrará na Justiça com recursos contra a decisão – todos os recursos possíveis. A partir de domingo que vem, restar-lhe-ão dois anos de mandato; e, diz a Constituição, se ele deixar o cargo, o substituto será escolhido em eleição indireta. Podem tentar afastá-lo como vingança, uma compensação pela queda de Dilma, mas ninguém vai ganhar nada com isso.

…sim!

A inflação, que caminhava para dois algarismos pelo segundo ano consecutivo, deve ficar pouco acima da margem superior da meta: 6,6%. Boa parte dessa queda, claro, se deve à crise econômica. Mas o eleitor sente no bolso a queda da inflação, e pode voltar-se a favor do Governo.

Brincando no bolso…

O Governo autorizou as empresas aéreas a cobrar as bagagens embarcadas. Explicaram que isso é ótimo porque permitirá reduzir a tarifa de quem não despacha bagagem. Alguém topa apostar com esta coluna?

Michel Temer diz que as novas medidas econômicas talvez não tenham efeito imediato, mas a médio prazo, todos verão, serão ótimas.

…dos outros

Nos dois casos, o Governo diz que tudo vai melhorar, só que mais tarde.

MIRA NO MORO, MORO NA MIRA

As táticas da grande batalha estão totalmente definidas: a defesa do ex-presidente Lula acusa o juiz Sérgio Moro de parcialidade (e as acusações são tão constantes que por vezes o tiram do sério, levando-o a bater boca com a defesa); Moro – e outros juízes que examinam o Petrolão – vão preparando o caminho para que, no dia em que alguém determinar a prisão de Lula, já seja uma medida esperada – como foi, por exemplo, a prisão de José Dirceu.

Especialistas em Direito comentam que Moro irá até uma eventual condenação de Lula, mas sem prendê-lo. Lula se defenderia em liberdade até que um tribunal de segunda instância rejeitasse seu apelo e, na forma da lei, ordenasse a prisão. Lula é réu em cinco processos. Basta uma condenação em duas instâncias para que seja preso e se torne inelegível.

Esta é a ordem de batalha, que pode mudar conforme os acontecimentos. Uma tentativa de fuga, por exemplo; mas Lula não demonstrou intenção de fugir. Foi a Cuba, com jato fretado e tudo, e voltou para enfrentar os julgamentos. Ou um flagrante de obstrução de investigações. Mas Lula até agora não deu qualquer indício de irregularidade. Ou, de outro lado, uma reação explosiva de Moro às constantes acusações de que age com parcialidade, de que – crime dos crimes! – numa cerimônia pública foi fotografado sorrindo ao lado de Aécio. Isso serviria para tentar considerá-lo suspeito. Mas Moro, até agora, é só profissional. É acompanhar a luta.

Homem forte

O presidente Michel Temer desfruta de forte posição no Congresso – a mais forte desde 1996. Na Câmara, dos 513 deputados, 90 estão na oposição. Dos 81 senadores, a turma do “Fora, Temer” tem 16.

Temer pode implantar tranquilamente seu plano de Governo. Se der certo, mérito seu; se não der, não pode botar a culpa na oposição.

Homens fortes

Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas chegou a um dado preocupante: 35% dos entrevistados são favoráveis a uma intervenção militar provisória. São minoria: 59,2% são contrários à intervenção. Mas é surpreendente perceber que 1/3 dos pesquisados esqueceram que a última intervenção militar “provisória” durou 21 anos. O Estado de S. Paulo, em 1964, queria uma intervenção militar provisória. Os militares teriam poder absoluto por seis meses, fariam as reformas necessárias, e entregariam o poder aos civis. Acontece que, quando chega ao poder, ninguém gosta de entregá-lo. Os militares descobriram que era mais fácil governar com o Congresso, na base do toma lá – dá cá, ainda mais com os congressistas amedrontados. Experimentaram mordomias e viram que era bom. Retirá-los foi difícil. E o próprio general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, já se manifestou contra qualquer intervenção militar no Governo.

Honra fraca

A Folha de S.Paulo publicou nesta terça, 20, uma reportagem que merece ser guardada por quem queira entender o Brasil: duas medidas provisórias compradas por R$ 16,9 milhões renderam à Odebrecht R$ 8,4 bilhões. O cálculo é de Cláudio Melo Filho, alto funcionário da Odebrecht especializado em compras, primeiro grande delator premiado da empresa. Claro, houve outras compras, mas essas são um belo exemplo: como era barato aprovar medidas legais que dão a uma empresa, ou a um setor, lucros substanciosos, muito superiores aos gastos que exigiram.

Como diz um antigo provérbio, quem se vende por dinheiro se vende por muito pouco.

Dois detalhes

1 – Em seu acordo de leniência, a Odebrecht se comprometeu a pagar (em suaves prestações) a multa de R$ 6 bilhões. Ou seja, menos do que obteve apenas com a compra de duas medidas provisórias.

2 – A Braskem, cujo controle acionário pertence à Odebrecht, pagará de multa, por seu acordo de leniência, R$ 3,1 bilhões.

O controle acionário é da Odebrecht, mas a Braskem tem outros sócios, que pagarão sua parte na multa, na proporção de suas ações. Uma grande sócia da Braskem é a Petrobras. Também vai morrer com algum.

Todos juntos, vamos

O político baiano Octavio Mangabeira costumava dizer que, por mais que um fato parecesse estranho, tinha precedente na Bahia. Em termos políticos, o Paraná também tem suas peculiaridades. Por exemplo, só no Paraná se imagina a homenagem conjunta aos tucanos Fernando Henrique e Geraldo Alckmin e ao petista Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu, um dos mais emblemáticos altos funcionários a sobreviver à queda do PT. Na segunda-feira, comemorando os 163 anos de emancipação política do Paraná, os três receberam a Ordem Estadual do Pinheiro, concedida pelo governador tucano Beto Richa. Numa boa, sem brigas, só sorrisos.

O BARULHO DOS INOCENTES

Um fato há que reconhecer: tanto o presidente da República quanto o líder da oposição, mesmo vivendo no meio de toda essa sujeira que tanto nos assusta, mantêm intacta sua pureza. Lula conviveu dezenas de anos com José Dirceu, Delúbio, Marcelo Odebrecht, todos já condenados por corrupção, e proclama que é inocente, aliás nem sabia de nada; Temer presidiu o PMDB de Eduardo Cunha por quinze anos, teve convívio próximo com os seis ministros que se afastaram por problemas judiciais, admite ter recebido um empresário do ramo de doações ilícitas (que, na delação premiada, citou seu nome como captador de recursos) mas garante que não tratou disso com ele. É inocente, diz. Não mexia com essas coisas.

É bonito saber que o ambiente depravado em que circularam com tanto êxito, sem saber que era depravado, não afetou sua inocência. Lula sustenta que o apartamento triplex e o sítio de Atibaia não são dele, que a propósito nem imaginava que os voos em jatinhos fossem algo mais que uma gentileza. Temer ofereceu um jantar ao empresário Marcelo Odebrecht em sua residência oficial de vice-presidente da República, o Palácio do Jaburu, após o qual a Odebrecht ficou R$ 10 milhões mais pobre. O delator Cláudio Melo Filho diz que o dinheiro foi para o caixa 2 (o que é confirmado por Marcelo Odebrecht). Temer explica que não, que todas as doações recebidas foram legais, nada de caixa 2. Aliás, o que é Caixa 2?

Fique tranquilo

Estiveram no jantar do Jaburu o então vice-presidente Temer, o deputado Eliseu Padilha, Odebrecht, Cláudio Melo Filho. Como a conta foi paga pelo caro leitor, esta coluna informa que pode ficar tranquilo: Temer é pessoa cultivada, de fino trato, e com certeza comida e vinhos foram bons.

Balanço geral

1 – Temer foi acusado pela segunda vez, nas delações da Odebrecht, de pedir pixulecos de campanha em troca de favorecimentos à empreiteira.

2 – Lula, que já é réu em quatro processos, foi denunciado pela quinta vez pela Lava Jato, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

3 – O quarto processo, da Operação Zelotes, foi recebido anteontem pela Justiça. Refere-se à acusação de tráfico de influência na compra dos 36 caças supersônicos suecos Grippen.

4 – Lula abriu processo por danos morais contra o promotor Deltan Dallagnol. Pede indenização de R$ 1 milhão.

5 – O promotor Deltan Dallagnol critica o Congresso, por modificar o projeto das medidas anticorrupção. “Congresso: nos deixem trabalhar”.

6 – Lembra da liminar do ministro Luiz Fux, mandando, sob críticas do ministro Gilmar Mendes, que o Senado devolvesse à Câmara as “medidas anticorrupção”?

Pois o presidente do Senado, Renan Calheiros, se recusa a cumpri-la. Renan já tinha se recusado a cumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, que o afastava do cargo. Daquela vez ganhou a parada.

Sem fantasia

Já ouvimos autoridades dizer que não podem combater a barbárie que acompanha algumas manifestações de rua por não haver lei específica sobre o tema. Já estamos cansados de ouvir que a manifestação era pacífica, que a Polícia é que atacou os manifestantes e de repente, naquele grupo de pessoas ordeiras e pacíficas, surgiram rojões, morteiros, correntes, socos ingleses e outros objetos que em geral todo mundo traz nos bolsos. Já estamos carecas de aguentar a pregação de que os pacíficos manifestantes, contra sua pacífica vontade, sofreram infiltração de black blocs.

Chega. Chega. A brincadeira já cansou. Os vândalos são filmados, podem ser identificados, mas apenas um ou outro vai preso, e destes, muitos são liberados em seguida. Não há infiltração nenhuma: os vândalos lamentavelmente são parte do grupo, que os aceita e não age de maneira nenhuma contra eles. O que houve na avenida Paulista, há dias, é inaceitável: os vândalos destruindo o teatro do SESI, que apresenta espetáculos gratuitos, e invadindo o prédio da Fiesp, depois de arrebentar sua fachada, e ninguém é preso? O Governo, que detém legalmente o monopólio do uso da força, desistiu da segurança?

Se o Governo deixa de cumprir sua obrigação legal, não estará cometendo prevaricação? Estará ainda dentro da lei?

Uma história de verdade

Dentro de poucos dias ocorrerá o terceiro aniversário do assassínio do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes. Foi morto por um rojão na nuca quando trabalhava na cobertura de uma manifestação no Rio. Os dois acusados do assassínio foram presos em poucos dias. Até hoje não foram julgados (e estão soltos). Até há pouco a Justiça discutia se o caso deve ir a júri. O STJ decidiu que sim. Mas o caso precisou ir a Brasília para a decisão sobre a forma de julgamento. É bom-mocismo demais.

DO OUTRO LADO DO ESPELHO

A área política do Governo Temer está bem complicada: como bananas que passaram do ponto, meia dúzia de ministros já foi descartada, outros aguardam o iminente descarte. Até o presidente já foi citado em delação premiada. Um aliado importante, o senador goiano Ronaldo Caiado, DEM, propôs a renúncia imediata de Temer, para que uma eleição direta indique um sucessor com apoio popular para dar um jeito na crise e na economia.

Mas exatamente a economia tem mostrado bons resultados, submersos pelos erros políticos, pela Operação Lava Jato e pelo cansaço da opinião pública, que provavelmente esperava ação mais decisiva do novo Governo. Há uma nova safra de empresas, em especial as individuais: 1,55 milhão, informa a Serasa. Boa parte dos empreendedores reage ao desemprego que os atingiu, mas o número dá um sinal da força do mercado interno. E há a rápida queda da inflação, que no fim do Governo Dilma buscava dois algarismos e hoje parece estar no centro da meta oficial: 4,5% ao ano. Se o cálculo estiver correto, abre-se campo para redução rápida da taxa de juros. E a emenda que limita os gastos estatais logo logo entra em vigor.

A equipe econômica é boa e trabalha em silêncio. Montou um pacote de oito iniciativas que podem funcionar: por exemplo, um programa de emprego, com R$ 1,3 bilhões em quatro anos, algumas mexidas no crédito, redução na burocracia. A cartada é essa: sai a Política, entra a Economia.

Todos os trunfos…

Ao pedir ao procurador-geral Rodrigo Janot que bloqueie vazamentos de delações premiadas, e as divulgue logo, na íntegra, depois de homologadas pelo STF, Temer, respeitado constitucionalista, sabe o que está fazendo. Se as citações a seu respeito forem verdadeiras, ele não poderá ser julgado por elas, já que se referem todas a período anterior a seu mandato.

…do presidente

E se as citações da delação premiada (faltam 77 delações, só na Odebrecht) continuarem vazando, talvez possam ser contestadas como ilegítimas. Até agora, portanto, não há como atingi-lo do ponto de vista penal. O prejuízo se limita à sua imagem como político e ao debate público.

Coisa estranha

O senador Ronaldo Caiado, expoente do DEM, sabe das coisas. Por isso, sua ideia de que Temer renuncie a tempo de convocar eleições diretas para presidente parece esquisita. Caiado sabe que Michel Temer é do PMDB, e jamais se ouviu dizer que alguém do PMDB tenha largado algum cargo.

Coisa normal

O presidente do DEM, Agripino Maia, é claro: antecipar eleições é ideia de Caiado, não do partido. O DEM continua firme apoiando o Governo.

Efeito externo

Michel Temer conversou ontem, pela primeira vez, com o presidente americano eleito, Donald Trump. Temer disse que o Brasil tem interesse em atrair capitais americanos, Trump cumprimentou-o pelo programa de reformas econômicas e apresentou pêsames pelo desastre do Chapecoense,

Lula sob pressão 1

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Lula por corrupção passiva. Com ele, foram indiciados sua esposa, Marisa Letícia, seu advogado e compadre, Roberto Teixeira, o ex-ministro Antônio Palocci e mais três pessoas. Motivo: a Federal considera que a compra de um terreno para a construção de um novo Instituto Lula e de um apartamento ao lado daquele em que mora, que estaria em nome de terceiros, mas alugado pela esposa de Lula, foram feitas com propina da Odebrecht. Lula diz que nenhuma das duas compras ocorreu, que não há planos de mudar o local do Instituto Lula, e que ele vem sendo perseguido pelo delegado Márcio Anselmo.

Lula sob pressão 2

Outra operação da Polícia Federal, iniciada na terça-feira, apura fraudes e desvio de pouco mais de R$ 10 milhões no Museu do Trabalhador, que está sendo construído em São Bernardo do Campo, ao lado do Paço Municipal, e é conhecido na cidade como Museu do Lula. É a Operação Hefestos, que atingiu 16 pessoas, oito em prisão temporária, oito em condução coercitiva. Hefestos, ou Hefaístos, é o nome grego de um deus conhecido pelos romanos como Vulcano, que se dedicava à metalurgia. A operação foi autorizada pela 3ª Vara Federal de São Bernardo, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada em fraude às licitações, peculato e uma série de outras ilegalidades.

Os especialistas

Nossos parlamentares, faça-se justiça, são observadores sagazes das mais diversas situações. Com a emenda de limitação de gastos, e a reforma da Previdência, os parlamentares aumentaram suas férias em sete dias. Pela Constituição, deveriam trabalhar até dia 22, mas só ficam até o dia 15.

ELES VOLTAM. E VOLTARAM

Em maio de 1959, o jovem líder revolucionário Fidel Castro visitou o Brasil e foi recebido como herói. Houve festa em sua homenagem na mansão dos Nabuco, no Rio, cheia de gente importante. O prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros, disse a Fidel que admirava a revolução cubana, mas desaprovava os fuzilamentos. Fidel se explicou: “Pero solo fuzilamos los ladrones del diñero público”. Adhemar, a quem se atribuía o slogan “rouba, mas faz”, rebateu: “Os ladrões voltam, señor. Sempre voltam”.

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Adhemar de Barros e Fidel Castro

Adhemar tinha razão. Para manter Renan, que enfrenta onze inquéritos e é réu por peculato (desvio de dinheiro público), na Presidência do Senado, houve um grande e discreto acordo. Ninguém perdeu. Quem ganhou?

Mais fortes: ministra Carmen Lúcia, ministro Celso de Mello, senador Romero Jucá. Supersalários? Algum dia, lá no futuro, voltarão à discussão.

Prestigiado: Renan. Mas em poucos dias deixa de ser presidente do Senado. Forte, mas menos. Desacato, abuso de autoridade? Um dia, talvez.

Mais ou menos: Temer. Seus projetos econômicos serão aprovados rapidamente pelo Congresso. Está aliado a Rodrigo Maia, que como presidente da Câmara rejeitará todos os pedidos de impeachment. Em compensação, não conseguiu nem nomear o substituto de Geddel: chegou a anunciar Antônio Imbassahy, mas teve de recuar porque o Centrão não deixou. Quem não consegue enfrentar nem PTB, PR, PSD e PP forte não é.

Viva o supersalário!

Os supersalários que, um dia, voltarão ao debate, eram uma questão urgentíssima, considerados a bomba atômica de que os parlamentares dispunham para enfrentar juízes e promotores. Já não são urgentíssimos, pois cada setor encontrou seu lugar de conforto sem uso de armas tão letais. Mas o trabalho da senadora Kátia Abreu (PMDB-Tocantins) tem dados interessantes. De acordo com a Constituição, o maior salário que pode ser pago ao servidor público é o de ministro do Supremo: R$ 33.700 mensais. Mas há funcionários que, acumulando benefícios, chegam a R$ 100 mil.

O duelo que não houve

O ministro Marco Aurélio, que desencadeou a crise mandando o Senado trocar de presidente, disse que a decisão que manteve Renan foi um “deboche institucional”. Mas, quando afastou Renan e foi ignorado, poderia ter mandado prendê-lo por desobediência. Preferiu pedir um parecer à Procuradoria Geral da República.

O ministro Gilmar Mendes, que sugeriu ao Senado votar o impeachment de Marco Aurélio ou reconhecer-lhe a inimputabilidade (falta de condições para responder por seus atos), viajou e nem participou da votação.

E Curitiba?

Sérgio Moro tem prestígio no Supremo, ganho pelo profissionalismo com que vem atuando; e construiu boa reputação quando a ministra Rosa Weber o chamou para auxiliá-la. Mas aquele apoio total que recebeu de alguns ministros já não é tão total. Os ministros devem ter notável saber jurídico e ilibada reputação, condições básicas para ser nomeados; mas seu cargo é político. Talvez alguém tenha chegado à conclusão de que um juiz puro e duro como Moro, inconversável, precise ouvir mais o Supremo.

O trabalho do juiz

Mas que ninguém subestime Moro. Ele cresceu cumprindo rigidamente a lei. Não deve mudar, ainda mais agora que tem uma chuva de delações.

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Lava Jato premiada

A Operação Lava Jato ganhou o Prêmio Innovare de 2016, na categoria Ministério Público, derrotando 51 outras iniciativas do MP. A força-tarefa da Lava Jato reúne 14 procuradores, 50 servidores de outras áreas, mais equipes da Polícia Federal, Receita, Petrobras, Coaf, Cade, CGU e CVM.

Às vésperas de receber o prêmio nacional, a Lava Jato recebeu o da Transparência Internacional, disputado por mais de 500 organizações de todo o mundo. A Lava Jato firmou 70 acordos de delação, fez 175 prisões, com 23 sentenças condenatórias, e pediu R$ 38 bilhões de ressarcimento. O balanço completo está na página do Conselho Nacional de Justiça.

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Petismo médico

O Governo petista caiu, o PT levou uma surra nas eleições, mas o petismo militante continua vivo. Sem repetir os dogmas petistas, era impossível passar na prova de Português do concurso para ginecologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 15 das 20 questões, observa o colunista Cláudio Humberto as “respostas certas” eram as que louvavam o PT e a administração da presidente impichada Dilma Rousseff. “Resposta certa”, por exemplo, era a que dizia que houve golpe no Brasil. E a maioria esmagadora do Congresso que afastou Dilma era chamada de “força tirânica de maioria institucional”.

TODOS UNIDOS PARA ENXUGAR GELO

Multidões, em 200 cidades do país, gritaram “Fora Renan”. E foram atendidas. Talvez isso mude após a reunião de hoje do Supremo, talvez não mude. E não vai fazer a menor diferença.

Este colunista está entre os que ficaram contentes com o afastamento de Renan – até se lembrar de que o substituto de Renan na Presidência do Senado é Jorge Viana (PT-Acre). O motivo do afastamento de Renan é que um réu não pode estar na linha sucessória da Presidência da República. E Jorge Viana é réu, numa ação por improbidade administrativa como governador do Acre, movida pelo Ministério Público Federal.

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O fato é que Renan é parte do problema, mas não é o problema inteiro. O problema está na organização política: a campanha é caríssima, exige a captação de muito dinheiro, e ninguém dá muito dinheiro só por simpatia. São quase 40 partidos, pagos por você, caro leitor: é algo como R$ 1 bilhão por ano – fora o horário gratuito, a preços de tabela cheia, que as emissoras recebem em créditos fiscais. Haverá mais algum para pagar as campanhas. Os Estados Unidos não têm nenhuma despesa com isso. Cada candidato que se vire. Há o voto distrital, que baratearia tudo – mas quem quer isso?

Sai um Renan. ótimo. Mas surgem dois, três, muitos. Eles são legião, nutridos pelos fartos recursos mobilizados para eleições. É possível, é fácil, mudar o quadro. Só é preciso saber que gelo não se enxuga, se derrete.

Brasília ferve

A decisão do ministro Marco Aurélio, de afastar Renan da Presidência do Senado, deixou Brasília perplexa. Um dia isso poderia acontecer (Renan é réu em um processo e tem outros 12 inquéritos em andamento), mas seu mandato só dura mais dez dias. E surgiram manobras jurídicas: o Senado decidiu não tomar qualquer providência imediata, aguardando a decisão do plenário do Supremo, hoje. Não chega a ser um confronto, de recusar-se a cumprir uma decisão judicial; é mais uma demora no seu cumprimento – que terá o efeito de anulá-la, conforme a decisão do plenário do Supremo,. Há também um desafio: o ministro Gilmar Mendes abriu fogo contra Marco Aurélio (veja abaixo) com termos pouco habituais para pessoas que usam toga. Qual a reação de Marco Aurélio, diante da decisão do Senado?

Ferve o Supremo

O ministro Gilmar Mendes deu entrevista ao respeitado jornalista Jorge Moreno, de O Globo, sobre a decisão do ministro Marco Aurélio de afastar Renan. Gilmar já dizia, em particular, que “não se afasta o presidente de um poder por iniciativa individual e com base em um pedido de um partido político apenas, independentemente da sua representatividade”. Para Moreno, Gilmar abriu o jogo. Algumas frases sobre Marco Aurélio:

* “É caso de reconhecimento de inimputabilidade ou de impeachment”;

* “No Nordeste se diz que não se corre atrás de doido porque não se sabe para onde ele vai”.

Narra o blog: “durante encontro com políticos, Mendes chegou a chamar de ‘indecente’ a decisão de Marco Aurélio e, nesse sentido, advertiu que, se o Tribunal quiser restaurar a decência, terá que derrubar a decisão”.

Planalto fervente

Mas, se o mandato de presidente do Senado está no finzinho, por que tanta preocupação? Porque o Governo quer votar logo a emenda constitucional que impõe limites ao gasto público, uma das chaves do plano econômico do ministro Henrique Meirelles. Renan concorda em votá-la nos dez dias que lhe restam. O PT quer segurá-la ao máximo. Jorge Viana é PT.

Governo gelado

Os indicadores econômicos não são lá grande coisa, a reforma da Previdência só agora foi ao Congresso (onde enfrenta muitas resistências), e a aprovação do limite de gastos do Governo indicará aos investidores que as coisas estão andando. É preciso ter algo para mostrar. A única coisa que ocorreu de novo foi a declaração de apoio de Temer a Meirelles. Como se diz no futebol, “o técnico está prestigiado”. No futebol, o técnico cai logo.

Frio na espinha

A reforma da Previdência, a outra chave do plano econômico do ministro Henrique Meirelles, provocará intensas discussões: aposentadoria aos 65 anos, contribuição mínima por 25 anos, unificação dos regimes de aposentadoria, com unificação das normas para empregados dos setores público e privado (só os militares ficarão fora), redução das pensões por morte de 100% para 50%, o viúvo, mais 10% por filho. Os atuais segurados com mais de 50 anos (homens) e 45 anos (mulheres) terão normas de transição. Abaixo dessas idades, é na veia: novas normas para todos.

É muita discussão. Mas, como diz a abertura desta coluna, pelo motivo errado. Como se aposentar com 65 anos se gente com 40 já é considerada velha? Só com falta de mão de obra. Crescimento. E empregos sobrando.

MORTAL LOUCURA SEM CURA

Para os romanos, um poeta (“vate”) tinha dons divinos, entre eles o de prever o futuro – “vaticínio”. Parece que tinham razão: um monumental poeta brasileiro, falecido num final de novembro há 320 anos, é o autor de Mortal Loucura) – poema que, com música de José Miguel Wisnik, na voz de Maria Bethania, foi a trilha sonora de Velho Chico. Até isso ele previu!

A loucura começa pelo presidente da República, que considera “um fatozinho” a pressão de um ministro para obrigar outro a desconsiderar uma lei para poder construir um apartamento em Salvador. Continua pelo Congresso, que tenta votar disfarçadamente uma anistia imoral, bem quando todo mundo está prestando atenção; e culmina com promotores da Lava Jato ameaçando renunciar se a lei anticorrupção que sugeriram (e que é discutível) não for aprovada do jeito que querem. “Quem do mundo a mortal loucura… cura”, diz o poeta. Os procuradores não podem renunciar a uma investigação, a menos que se demitam. É o trabalho para o qual foram designados, ponto. Empenhar-se menos seria fazer o jogo de quem quer escapar das investigações – que não ficariam tristes se os procuradores renunciassem à Lava Jato. E não é função de procuradores, por mais razão que tenham, dar ordens ao Congresso e ao presidente da República.

Agora entram no Supremo cerca de 80 delações da Odebrecht. Quando haverá denúncias e julgamentos? “Será no fim dessa jornada… nada”.

Mistérios mil que desenterra…

Parecia impossível, mas possível foi: Renan Calheiros se torna réu e será julgado pelo Supremo, que recebeu a denúncia de peculato. O presidente do Senado é acusado de pagar a pensão de uma filha que teve fora do casamento, com dinheiro fora dos trâmites legais, que recebia de uma empreiteira. Tão logo o caso se tornou conhecido, Renan admitiu que tinha a filha, a mãe da filha falou sobre o caso (e posou para Playboy), sabia-se qual era a empreiteira, conhecia-se o portador dos pixulecos mensais. O caso chegou ao Supremo em 6 de agosto de 2007. Passaram-se nove anos até que a denúncia fosse aceita. E ainda falta o julgamento.

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… enterra

A Odebrecht é organizadíssima, e a organização se estende ao ramo de pagamentos descentralizados. Há informações completas sobre o pixuleco, seus destinatários, entregador, receptor, local e horário da entrega. Com assustadora frequência a entrega é fotografada ou filmada – a Odebrecht sabia com quem lidava. Pois bem: se no pixuleco romântico para Renan já se sabia de tudo, com nomes e quantias, e o caso levou mais de nove anos para chegar à aceitação da denúncia, quanto tempo levará para processar o tsunami de documentos e chegar ao mesmo estágio? Há gente imaginando até que se trate de uma estratégia da defesa da Odebrecht: fornecer todas as informações possíveis e soterrar o Supremo com o excesso de trabalho.

Quem do mundo a mortal loucura… cura

Este colunista conheceu o jornalista Perseu Abramo nas redações. Jornalista meticuloso, atento aos detalhes, estudioso (formou-se também em Sociologia, fez mestrado), dono de excelente memória e texto esmerado. Nos tempos pré-Google, era a ele que se recorria para refrescar a memória. Era também a ele que se dirigia quem tinha dúvidas sobre grafia correta ou questões de gramática. O jornalista Gilberto di Pierro, Giba Um, até hoje, vinte anos após a morte de Perseu Abramo, ainda se queixa da falta que lhe fazem a cultura, a memória, a boa educação e a paciência do amigo ao elaborar sua coluna diária.

E quem é que o PT coloca como presidente do Conselho Curador de sua Fundação Perseu Abramo? Sim: Dilma Vana Rousseff. Voltando a nosso poeta, “O voz zelosa que dobrada… brada”.

Da morte ao ar não desaferra…

A posse como presidente da Fundação Perseu Abramo foi o último compromisso de Dilma Rousseff no país. Em seguida, iria para Cuba com o ex-presidente Lula, para prestar as últimas homenagens a Fidel Castro. As cinzas de Castro partem de Santiago de Cuba (onde está o túmulo de Che Guevara, seu companheiro de revolução) e farão um circuito pelo país.

… aferra

É uma bonita atitude de Lula e Dilma: mesmo enfrentando problemas, não esqueceram do amigo. Mas outro amigo, que fisicamente esteve muito mais próximo de ambos, que enfrenta a pior fase de sua vida, não mereceu a honra de uma visita dos amigos: é José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”, que chamou Dilma de “companheira de armas”. Dirceu está preso desde 3 de agosto de 2015, condenado a mais de 20 anos de prisão e com processos ainda correndo. Apesar da pena pesada, Dirceu lembrou dos amigos e se recusou a fazer a delação premiada. O comando do PT, Lula e Dilma incluídos, o deixou abandonado na prisão de Curitiba.

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CRÔNICA DA CRISE ANUNCIADA

A informação é oficial, do IBGE: a renda da população se reduziu em 5,4% em 2015, último ano completo de Dilma na Presidência. É a primeira queda em 11 anos.

“É a economia, estúpido”, repetia o estrategista-chefe do candidato Bill Clinton, James Carville. Explorar o desemprego, principalmente, era a única maneira de derrotar o presidente Bush (o pai), vitorioso na guerra contra o Iraque e na defesa do Kuwait, que tinha sido ocupado pelos iraquianos. Clinton ganhou e se reelegeu cuidando da economia. As guerras ele deixou para os republicanos, os dois Bush, pai e filho.

E aqui? O presidente Temer passa seu tempo discutindo política, como se a população empobrecida, desempregada, irritada com tanta roubalheira, estivesse preocupada com o substituto de Geddel. Trata de um assunto ridículo como o apartamento que é de Geddel, mas não foi construído, como se o assunto fosse da alçada do presidente. Houve tentativa de obter favores indevidos? Era muito mais simples afastar do Governo o ministro abusado, para recolocá-lo quando sua inocência estivesse comprovada. E voltar-se ao corte de despesas oficiais, que é o que todos esperavam.

O auxílio-moradia para quem não precisa custou, neste ano, até 18 de novembro, R$ 1 bilhão e pouco – mais que os 900 milhões do ano passado inteiro. E R$ 281 milhões gastou a Fazenda, que deveria cortar despesas.

FASS

Há 2 mil anos atrás

Frase perfeita sobre o Governo Temer que o bom jornalista Fernando Albrecht  foi buscar em Diógenes, pensador grego do século 4 Antes de Cristo: “Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador”. Michel Miguel Temer Lulia é vítima de ambos.

De volta para o passado

O presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá, anunciou que o partido quer mudar de nome e voltar a ser MDB, como foi entre 1966 e 1979. Depois de aprovada em consulta aos diretórios estaduais, a mudança seria efetivada em fevereiro de 2017. A ideia de voltar a 1979 é tão boa que merece ser ampliada: por exemplo, mudar o nome do presidente do partido de Romero Jucá para, como nos velhos e bons tempos, Ulysses Guimarães.

Tudo certinho

Diz Romero Jucá: “Queremos deixar de ser partido e ser um movimento”. Vivendo e aprendendo: este colunista sempre achou que girar os dedos da mão em torno do polegar fixo também fosse um movimento.

A economia é a política

A primeira medida econômica de longo alcance de Michel Temer é a PEC, proposta de emenda constitucional, que estabelece um limite para os gastos do Governo. É uma providência que atende aos desejos de boa parte da opinião pública, favorável à redução da gastança; e por isso está sob fogo dos movimentos lulistas, ansiosos por convencer o eleitorado de que a PEC do limite de gastos se volta contra os orçamentos da Educação e da Saúde (não é verdade, mas a própria Dilma já dizia que em campanha se faz o diabo). E como é que a PEC está sendo apresentada à opinião pública? Não está: pesquisa Ipsos mostra que 40% da população não sabem do que se trata. E não seria difícil apresentá-la convenientemente: 64% são a favor de reduzir os gastos públicos. Da PEC só se mostram os sacrifícios, esquecendo o motivo dos sacrifícios e as vantagens que dizem que trará.

O lado brilhante

Tudo mal? Talvez. Um senador importante, em conversa com o ex-prefeito carioca César Maia, acha que até a crise do apartamento que se existisse seria de Geddel acabará bem para Temer. Este senador, segundo César Maia, é dos que vale a pena ouvir.

A economia e a lei

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou proposta de Ivo Cassol, do PP de Rondônia, que limita os juros dos cartões de crédito ao dobro da taxa Selic. Hoje em dia, os juros cairiam de 475,8%, conforme o Banco Central informou há poucos dias, para 28%.

Ótimo. Mas, se os juros de 12% ao ano, fixados pela Constituição, nunca foram obedecidos, por que um limite fixado por lei seria respeitado?

Ano quente

Lula, no processo em que é acusado de ser mandante do suborno para comprar o silêncio de Nestor Cerveró, deve ser interrogado em Brasília em 17 de fevereiro – dois dias depois do interrogatório de Delcídio do Amaral, que foi gravado pelo filho de Cerveró quando lhe passava uma proposta de facilitação de fuga do Brasil, acompanhada de um substancioso suborno.

Este caso não tem nada a ver com o apartamento à beira-mar e o sitio de Atibaia que Lula diz que não são dele, que são examinados em Curitiba.

IMÓVEIS, GOVERNO, TUDO FANTASMA

País estranho, esse nosso. Num caso o apartamento com vista para o mar existe, mas todo mundo nega ser seu dono. Em outro caso, o dono existe; o que não existe é o apartamento. Nos dois casos a briga é brava: num dos casos, o dono que não é dono foi colocado em cheque e enfrenta o juiz Sérgio Moro; no outro, o apartamento que não existe acaba de derrubar um ministro e de colocar em xeque o presidente da República.

Temer demorou a agir, Geddel demorou a sair. Com isso, ficou claro que aquele Temer determinado, assertivo, que foi secretário da Segurança em São Paulo, transformou-se num Temer que tem medo de tomar posição. E agora tem bons motivos para temer o futuro. Há quem queira derrubá-lo, mas isso não é preciso. Mesmo ficando, presidir é que não vai.

Um peemedebista, citado pelo repórter Maurício Lima, do Radar on-line, tem a seguinte leitura da situação: o pedido de impeachment que o PSOL tenta formalizar, o próximo presidente da Câmara terá superpoderes. A decisão de dar prosseguimento ao processo será dele, que terá interesse no caso: afastado Temer, ele será seu substituto na Presidência. Embora interino, é tentador.

Cá entre nós, é o que dá escolher para o Ministério gente com telhado de vidro. Briga de R$ 2,5 milhões? No país do Petrolão, mixaria. É como o triplex que não é do Lula, que tem 171 m². Vale a pena lutar por isso?

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Baixaria

Quem achava que Delcídio do Amaral revelou seu caráter ao procurar amigos e gravar as conversas para implicá-los, e obter o máximo por sua delação premiada, tinha razão. Mas a demissão de Marcelo Calero foi do mesmo quilate. Gravar as pressões de Geddel para que fosse liberada a construção de seu apartamento, vá lá. Mas ir ao presidente só para gravá-lo, o presidente que o tirou do anonimato e o transformou em ministro, aí já é meio muito. Bem feito para Temer, que tinha extinto o Ministério da Cultura e voltou atrás, buscando o aplauso de quem, por motivos ideológicos, jamais o aplaudiria, mesmo que fosse um grande presidente.

Complicou

Este é um momento-chave para Temer, com votações importantes no Congresso, em que ele mais precisa de sua articulação política. Perdeu o ministro que cuidava disso. E deixou parlamentares importantes, que assinaram manifesto em favor de Geddel, pendurados na brocha.

Palavra de amigo

Fernando Henrique, em conversa com repórteres, disse que, diante das circunstâncias brasileiras depois do impeachment, o que temos de fazer é atravessar o rio. “Isso é uma ponte. Pode ser uma ponte frágil, uma pinguela. Mas é o que tem. Se você não tiver uma ponte, cai no rio”.

Isso mostra a força atual do Governo Temer: Fernando Henrique, que diz essas coisas, é um de seus maiores aliados.

O burro falante

Conta-se que na antiga Arábia um camponês foi preso por roubar um burro e condenado a uma longa pena. Apelou e disse ao vizir que mandava na região que tinha roubado o burro para ensiná-lo a falar. O vizir se interessou e o camponês prometeu que, se o vizir lhe desse um burro, em dez anos ele estaria falando. O vizir lhe deu o burro mas esclareceu que, se o burro não falasse direitinho, o camponês seria condenado à morte.

Ao saber da história, a mulher do camponês se desesperou: “Você assinou sua sentença de morte!” O camponês explicou: “Fique tranquila, mulher. Daqui a dez anos, morreu o vizir, morri eu ou morreu o burro”.

Os vivíssimos votantes

É por isso que o Congresso deve (não há certeza, mas é a atitude mais provável) aprovar a anistia a quem doou ou recebeu dinheiro para caixa 2, apesar das pressões da sociedade civil, apesar de eventuais manifestações de rua, apesar da possibilidade de que a Justiça intervenha, apesar de prejuízos eleitorais. Se a Justiça intervier, começa uma daquelas batalhas demoradas – com um pouco de sorte, dois anos, quando terminam os mandatos parlamentares. Prejuízos eleitorais? As eleições serão daqui a dois anos, quando, esperam Suas Excelências, o caso já esteja esquecido. Se a anistia não for aprovada, muitas Excelências enfrentarão em breve a Lava Jato, ou outras forças-tarefas, e em pouco tempo estarão sendo interrogados pelo juiz Sérgio Moro. Qual alternativa deverão escolher?

A voz do trono

O presidente Michel Temer não deu sua opinião sobre a anistia. Ou melhor, deu: disse que sancionará aquilo que for decidido pelo Congresso.

A crise e a história

A lendária Karmann-Ghia, que produziu um primeiro carro esporte do Brasil, modelo belíssimo, foi à falência. Mais 700 operários sem emprego.

DIAS DE HOJE, IGUAIS AOS DE ONTEM

Quando o deputado Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro, sua Inglaterra estava perdendo a guerra contra a Alemanha nazista. Fez um discurso curtíssimo, com quatro promessas: sangue, trabalho, suor e lágrimas. Cumpriu as quatro (e perdeu as primeiras eleições após a vitória na guerra). Mas é cultuado até hoje como herói nacional.

O ex-deputado Michel Temer teve a mesma oportunidade de Churchill. Ao assumir, os cidadãos sabiam que precisaria tomar medidas normalmente impopulares; seus adversários tinham perdido força após sucessivos erros; e ele, com idade avançada, não precisava pensar em reeleição, mas em sua biografia. E que fez Temer com esse cheque em branco? Nomeou Geddel.

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Geddel é um político hábil, mas sua história sempre foi controvertida. Antônio Carlos Magalhães o chamou de “agatunado” e divulgou o vídeo “Geddel vai às compras”, em que o acusa de ter comprado 12 fazendas na Bahia e seis apartamentos em Brasília sem ter, legalmente, recursos para isso. Agora foi um colega de Governo, que se demitiu do Ministério acusando Geddel de tê-lo pressionado para liberar a construção de um prédio em que comprou apartamento, em área tombada de Salvador. Usar o prestígio ministerial por um apê? Roberto Jefferson, que denunciou o Mensalão, chamá-lo-ia de “petequeiro”, por disputar migalhas. E Temer perdeu a chance de afastá-lo na hora e mostrar que os tempos mudaram.

…cada vez aumenta mais

Nada como ter prestígio na Corte, nada como ter prestígio com o chefão.

Deputado Jovair Arantes, PTB de Goiás: “Geddel é um excelente ministro, interage muito bem com a Câmara”.

Deputado Rogério Rosso, PSD de Brasília: “Entendo ser um assunto superado”.

Senador Ronaldo Caiado, DEM de Goiás: “(…o ministro Geddel) não poderia ter misturado as coisas. Ele poderia tocar no assunto se não tivesse nenhuma propriedade no prédio. No momento em que você tem propriedade no prédio, isso pode parecer para a opinião pública que você está se valendo do cargo para benefício próprio”. Pois é. Pode parecer.

Fraquezas de memória

Já no fim de seu Governo, conta o ótimo repórter Jorge Moreno, Sérgio Cabral conversava com um deputado que sugeria pequenas mudanças urbanísticas que, a seu ver, causariam efeito positivo em Niterói, como causaram em várias cidades francesas. “Governador, morei dois anos em Paris e vi como as praças…” Cabral o interrompeu: “Paris? Que inveja!” e começou a listar os pontos parisienses de que mais gostava. O deputado puxou conversa, disputando quem conhecia mais pontos interessantes de Paris, até que um terceiro perguntou: “Vamos voltar a Niterói?”

Mas, em seus depoimentos à Polícia Federal, disse que não lembra que joias comprou, ou o valor de suas obras de arte, ou quem paga as despesas de manutenção de sua casa e família. Ele lembrava, por exemplo, que no final de 2010 teve de fazer obras em sua casa e, por isso, passou algum tempo num imóvel emprestado por um amigo. Mas não lembrava quem tinha contratado e pago a obra e a nova mobília. Também não sabia se era verdadeira a informação da vendedora de uma joalheria, de que pagava tudo em dinheiro vivo. A memória de Cabral já não anda tão boa.

Arquivos implacáveis

Dilma Rousseff também tem tido problemas de memória. Garantiu, por exemplo, que Cabral apoiou em 2010 a candidatura de Serra, e em 2014 a de Aécio, ambos do PSDB. Pois não é que já acharam um vídeo de Dilma e Cabral fazendo propaganda juntos? E, dando um Google, acharam também as notícias do apoio de Cabral a Dilma em 2010 e em 2014?

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E as leis?

O deputado Carlos Marun, PMDB do Mato Grosso do Sul, é um dos principais membros da bancada que quer rejeitar a proposta de pacote anticorrupção proposto pelo Ministério Público. “Como está, não passa”.

Marun é ligadíssimo ao ex-senador Delcídio do Amaral, que há pouco fez delação premiada para de livrar da cadeia. Acusado de corrupção.

O trensalão, enfim

Nove anos depois de denunciado na Suíça (e republicado nesta coluna), três anos depois de a Siemens informar às autoridades brasileiras que tinha participado de cartéis para fornecer equipamento ao Metrô e a trens urbanos, dois anos depois de a Polícia Federal ter indiciado mais de 30 pessoas por envolvimento no caso, o Ministério Público Federal está preparando as denúncias relativas a São Paulo, envolvendo a companhia do Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Todos os casos se referem a governos do PSDB, que governa o Estado desde 2004. Dos três candidatos tucanos à Presidência, só Aécio não governou São Paulo.

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ALI BABÁ E OS MILHARES DE LADRÕES

Ali Babá no Brasil não teria a menor chance. Nas Mil e Uma Noites derrotou 40 ladrões, mas como enfrentaria as fabulosas hordas de ladrões que conhecem a senha dos cofres públicos? Lula, que já naquela época não sabia de nada, orçou a ladroagem congressual em 300 picaretas (e, ao ganhar poder, aliou-se a todos). Errou feio ao subestimar o número. Mas, embora não seja chegado à leitura de filósofos e pensadores, compreendeu o pensamento de John Dalberg, o primeiro barão de Acton, “Todo poder corrompe”. Abriram-se as porteiras e cada um tratou de garantir o seu.

Um ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, foi preso, acusado de receber R$ 224 milhões em pixulecos. No custo das obras, somavam-se 7%, dos quais, diz a força-tarefa da Lava Jato, 5 eram para Cabral, 1 para o assessor Hudson Braga e 1 para dividir entre alguns conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. Fala-se também de uma mesada paga a Sua Excelência por empreiteiras.

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No presídio, encontrou outro ex-governador, que já foi aliado e hoje é adversário, Anthony Garotinho – cuja esposa é prefeita de Campos, cuja filha é deputada federal. Ambos foram, em épocas distintas, aliados e adversários do petismo. Os dois, aliás, não estão juntos no presídio, como talvez fosse educativo: adversários quando no poder, forçados ao mesmo destino. Uma decisão judicial superior autorizou Garotinho que fosse para um hospital particular e se trate lá.

Conto carioca

Em 2010, a Prefeitura do Rio investiu R$ 44 milhões em valores da época na Cidade do Rock, destinada ao Rock in Rio, com garantia de permanência. “Com o novo local”, disse o empresário Roberto Medina, proprietário do evento, “o Rock in Rio poderá acontecer a cada dois anos”.

Agora, decidiu-se erguer uma nova Cidade do Rock no lugar do Parque Olímpico. E os R$ 44 milhões (que hoje, corrigidos, dariam R$ 70 milhões)? E o que se gastou para erguer o Parque dos Atletas, que também deveria ser utilizado depois das Olimpíadas? OK, foi gasto da Prefeitura, não do Estado. Mas o prefeito Eduardo Paes faz parte do grupo político de Sérgio Cabral e do atual governador Pezão, do PMDB – no poder desde 2007. Talvez esse caso ajude a entender a crise financeira do Rio.

Cabral? Quem?

Dilma Rousseff não perde a oportunidade de perder uma oportunidade. E acaba de perder uma grande oportunidade de calar-se. Mas fez questão de se manifestar sobre a prisão de Sérgio Cabral: disse que ele jamais foi seu aliado. Mas foi, sim: há vídeos de ambos juntos em comícios, em 2010. fazendo campanha. E, quando o PMDB do Rio hesitou em apoiá-la, em 2014, foi Sérgio Cabral o primeiro a pedir votos para a candidata. Se é para mentir, e num caso em que sua opinião nem é tão solicitada, por que falar?

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O de sempre

Parecia impossível, mas está acontecendo: os gastos sigilosos com cartões corporativos, no Governo Temer, são 40% maiores que os do Governo Dilma. Em seus primeiros cinco meses, Temer já gastou R$ 13 milhões, enquanto em seus cinco primeiros meses Dilma gastou R$ 9,4 milhões. Os números foram apurados pelo respeitado site Contas Abertas.

Carmen Lúcia…

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, argumenta com números: “Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por mês, e um estudante de ensino médio custa R$ 2,2 mil por ano. Alguma coisa está errada na nossa Pátria Amada”. Vai mais longe: “Darcy Ribeiro fez em 1982 uma conferência dizendo que, se os governadores não construíssem escolas, em 20 anos faltaria dinheiro para construir presídios. O fato se cumpriu (…) Quando não se faz escolas, falta dinheiro para presídios”.

…é isso aí

Carmen Lúcia apontou a solução a longo prazo, mas acha possível tomar providências imediatas. “A violência no país exige mudanças estruturantes e o esforço conjunto de governos e da União, para que possamos dar corpo a uma das necessidades do cidadão, que é ter o direito de viver sem medo. Sem medo do outro, sem medo de andar na rua, sem medo de saber o que vai acontecer com seu filho”. E lembrou que, a cada nove minutos, uma pessoa é morta violentamente no Brasil. “Nosso país registrou mais mortes em cinco anos do que a guerra na Síria”.

País tropical

A ministra só não disse o que leva tantos governantes a investir mais em cadeias do que em educação. É que muitos, depois de exercer o poder, não é para a escola que vão. João Bussab, decano da imprensa policial paulista, sugere que os políticos corruptos harmonizem seus interesses com os do país. Como quiseram construir um shopping exclusivo no Congresso, que façam um presídio exclusivo para políticos. Estarão cuidando do futuro.

NOS ENGANA QUE A GENTE GOSTA

Errar é humano, mas acreditar sempre é insano. Nos Estados Unidos, há cada vez mais gente séria dizendo que a torcida dos jornais e jornalistas por Hillary, associada à incredulidade sobre Trump, fez com que o público ficasse mal informado e se surpreendesse com a vitória republicana. “Como todos, erramos”, disse Tony Romando, da Topix Media, que produziu uma edição especial de Newsweek com Hillary na capa, Madam President” – e soltou a edição antes da hora, tendo de sair correndo para recolher milhares de revistas já entregues a assinantes e jornaleiros.

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Há outro exemplo americano clássico; em 1948, todos previam a vitória do republicano Thomas Dewey sobre o presidente Harry S. Truman. Truman ganhou; e, na foto de sua entrevista como presidente reeleito, exibiu o Chicago Daily Tribune com a manchete Dewey Derrota Truman.

Acontece; como aconteceu em São Paulo, onde Fernando Henrique até posou para fotos sentado na cadeira de prefeito. A promessa era de que as fotos só sairiam após a apuração. Fernando Henrique acreditou. As fotos, claro, vazaram, e fizeram a delícia dos adversários (Jânio desinfetou a cadeira, na frente dos fotógrafos, “porque nádegas indevidas a usaram”). Houve – e não houve – a festa da vitória que não houve, no ótimo bufê Baiúca – o belo salão vazio, com impecáveis garçons e maitres esperando, com boa bebida e ótimos salgadinhos, os fernandohenriquistas que não mais viriam.

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Pois é, falaram tanto

À medida que as urnas eram apuradas e a vantagem de Jânio se mantinha, políticos e repórteres explicavam que aquelas urnas eram só de áreas janistas. Eram; e bastaram. Este colunista era editor-chefe da Folha da Tarde e só um ótimo repórter, João Russo, aliás tucano, interpretou bem o que acontecia: “Jânio está ganhando em todas as urnas. Perdemos”.

Ninguém me ama

E o consumidor de informação? Ou acompanha vários noticiosos ou fica preso à opinião de um – nem desonesto nem mal informado, mas que pode ser influenciado por suas próprias opiniões. Às vezes, nem assim o leitor, ouvinte, espectador escapa: certas certezas são tão certas que, se os fatos forem contrários, danem-se os fatos. Agora, Delcídio do Amaral, em entrevista explosiva ao repórter Cláudio Tognolli no Yahoo!, seguida de outra na Rádio Jovem Pan, diz que Lula e Dilma sabiam perfeitamente o que ocorria nos bastidores. Importante: Delcídio fez delação premiada. Caso se comprove alguma mentira, perde os benefícios e vai para a cadeia.

Mas voltemos a 2004, época em que Waldomiro Diniz foi flagrado tomando algum de alguém e, sabe-se hoje, levando ao início do processo do Mensalão. Sabe-se hoje? Em 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas, desfilou em Brasília cantando:

“Ô Waldomiro, ô Waldomiro
me responda por favor
se nesse rolo, o bicho pega
nosso Lulinha paz e amor!
ô Waldomiro, ô Waldomiro
diga o bicho que deu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu
se o Zé Dirceu também comeu?
Ô Zé Dirceu/ que bicho deu?
ô Zé Dirceu, eu quero o meu”.

Tem mas não tem

E a festa continua. Amanhã, quinta-feira, deve ser votado, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relatório sobre a proposta de emenda constitucional que extingue o foro privilegiado. Mas, para votar a proposta, é preciso reunir um terço da bancada de senadores: 27 Excelências. E sabe como é, o feriadão, a visita às bases, tudo cansa. Talvez não haja número.

Não tem mas tem

O que o Congresso quer mesmo aprovar, e logo, é um pacote de medidas contra a corrupção, baseado em propostas dos promotores da Lava Jato. No pacote, reluz o que tipifica a caixa 2 em campanhas eleitorais como crime – crime gravíssimo, hediondo, nefando, o nome mais forte possível. Qual o objetivo real? Alegar que, se o crime de caixa 2 foi tipificado agora, o que havia antes não era crime. É o truque de quem acha que será citado na delação da Odebrecht. Por isso o projeto anticorrupção tem de ser aprovado logo, para apagar a corrupção de até agora.

E a corrupção de agora em diante? É o problema seguinte. O de hoje é sobreviver ao tsunami Odebrecht. Depois se discute como roubar no futuro.

Que coisa feia!

Em relatório sobre o caso Bumlai – o pecuarista que se tornou bom amigo do presidente Lula – a Polícia Federal cita o ministro do Supremo Dias Toffoli, por ter o nome no caderno de endereços do investigado. É uma citação leve, lembrando que ter o nome no caderno de endereços de alguém não implica ligação. O juiz Sérgio Moro reagiu duramente, mandou retirar a citação a Toffoli, uma “afirmação leviana”.

Mas agora quem é que não sabe que Bumlai tinha o telefone de Toffoli?

SAI, CAPETA, ESTA GRANA NÃO É SUA!

O ex-presidente Lula já descobriu os responsáveis pelas denúncias de corrupção que vem enfrentando: segundo disse a um grupo de seguidores em São Paulo, são os procuradores da Lava-Jato, a imprensa e o juiz Sérgio Moro, que fizeram um pacto diabólico para falsamente incriminá-lo. Dos citados, quem será o Cramulhão, o Canhoto? Lula não esclareceu a dúvida.propina

Mas o Demônio não é um, é Legião. E há nova denúncia contra Lula, mais uma vez trazida pela imprensa demoníaca. A revista IstoÉ afirma que, em sua delação premiada, o presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, oferece mais munição às hordas de capetas que detestam a cor vermelha: diz ter dado R$ 8 milhões a Lula em dinheiro vivo. Um Belzebu amador sentiria cheiro de enxofre. Presente ou pagamento? Pagamento de quê? Por que usar dinheiro vivo? Ora, rastrear dinheiro vivo é muito mais difícil.

No mesmo dia em que Lula denunciou o Pacto Diabólico, foram presos Rodrigo Tacla Duran e Adir Assad, considerados peças-chave do esquema. Empreiteiras contratavam serviços não prestados, pagavam em cheque a eles e recebiam em troca dinheiro vivo, para comprar servidores públicos. Duran e Assad foram delatados pela Odebrecht, a antes celestial benfeitora, a distribuidora de valiosas bênçãos. Deus é o Diabo nesta terra do Sol.

Lula nega tudo, diz que o Capiroto mente, que Asmodeu inventou a propina, pois a delação ainda não foi divulgada. Promete processar a IstoÉ.

Lúcifer

De acordo com a revista – que circularia normalmente neste sábado, 12, mas liberou a edição eletrônica dois dias antes – os pixulecões que Lula teria recebido se referem a suas gestões que ajudaram a Odebrecht a conseguir obras em Angola e Cuba – especialmente o porto de Mariel.

Purgatório

Lula e o PT não são, de acordo com a reportagem assinada por Débora Bergamasco, Mário Simas Filho e Sérgio Pardellas, os únicos alvos das delações premiadas da Odebrecht. Dos R$ 7 bilhões em propinas, houve partes oferecidas (e aceitas) pela ex-presidente Dilma Rousseff (R$ 1 milhão, em dinheiro vivo), a 20 governadores e ex-governadores, a uns cem parlamentares, distribuídos por vários partidos – em especial PT e PMDB, mas atingindo também dirigentes do PSDB. Há brasas para todos. E um detalhe interessante: Dilma e Temer foram eleitos pela mesma chapa.

Escrituras

A Odebrecht, organizadíssima, tinha um departamento de distribuição de pixulecos, com tudo registrado. As delações premiadas têm mais de 300 anexos com documentos (a entrega de dinheiro a Lula, segundo a IstoÉ, ocupa um dos anexos). A documentação dos depoimentos foi preparada por 50 escritórios de advocacia, em Brasília, São Paulo, Rio e Salvador. Trabalham para a Odebrecht, nessa delação premiada, 400 advogados.

Exorcismo

A reação de Lula ao Pacto Diabólico se inicia com a ação judicial contra os proprietários da revista e os repórteres que assinaram a reportagem. A nota de Lula anunciando o processo diz que a revista “é conhecida no mercado editorial pela venalidade e pela desfaçatez com que vende reportagens, capas e até editoriais, aos mais diversos clientes’”. E garante que jamais recebeu ou pediu (…) “valores ilícitos, seja da empresa citada pela revista ou por qualquer outra”. E acusa: “A má-fé da revista é tão evidente que os autores sequer procuraram a defesa ou a assessoria do ex-presidente antes de publicar a mentira”.

O corte das despesas

Michel Temer diz que, se não cuidar dos gastos, o Brasil vai a falência em 2023. Luta para aprovar a emenda constitucional que limita gastos públicos, promete reformar a Previdência para deixá-la mais barata.

Enquanto isso, o mesmo Michel Temer gastou R$ 596 mil num show, no último dia 7, em homenagem ao centenário do samba – um show exclusivíssimo, para 600 convidados, com Neguinho da Beija-Flor, Áurea Martins, Márcio Gomes e André Lara. Fafá de Belém foi contratada exclusivamente para encerrar o espetáculo com o Hino Nacional. Terminado o show, coquetel para 600 pessoas, coisa fina. Somos pobres mas sabemos o que é bom, principalmente quando o Tesouro paga a conta.

O Legislativo se esforça para ficar à altura do Executivo: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passeia no Azerbaijão com tudo pago por nós, e ainda recebe diárias. No Judiciário, o ministro Recardo Lewandowski, que está na faixa mais alta dos vencimentos de servidores públicos, pede um bom aumento. Se tudo sobe, por que os vencimentos sobem menos?

Pague sem espernear

O ministro Lewandowski tem razão: por que os salários têm de subir menos que os preços? Mas isso deveria valer para todos, não é mesmo?

ASSIM ESTAVA ESCRITO

A festa é geral, irrestrita. E com o nosso dinheiro, justo o nosso, que não participamos da festa. Entre 2007 e 2009, 443 ex-parlamentares gastaram R$ 25 milhões na Farra das Passagens – digamos, levar a namorada a Paris com a verba destinada a viagens de serviço. As investigações, com toda a documentação disponível, levaram sete anos. E só agora os casos chegam ao sobrecarregado Supremo. Um dia os envolvidos serão julgados.

O jeitinho brasileiro no uso de dinheiro público não se limita a Executivo e Legislativo. Uma auditoria do Tribunal Superior do Trabalho revelou que 24 dos 27 tribunais regionais do trabalho “compram” férias dos juízes, convertendo em dinheiro períodos não desfrutados. É uma boa quantia: só em São Paulo, 290 magistrados receberam R$ 21,6 milhões. Diz o TST que no Judiciário não pode haver conversão de férias em dinheiro. Mas nem todo benefício é dinheiro: em Porto Seguro, 700 juízes estaduais se esfalfam em debater os problemas do setor, alheios às belezas naturais da Bahia e aos bons serviços do hotel que os hospeda, a R$ 605 a diária. O show de encerramento é com Ivete Sangalo e Diogo Nogueira. O patrocínio é de uma empresa condenada por crimes ambientais e cheia de casos judiciais, que podem cair com os juízes cuja conta ajudou a pagar.

Mas por que irritar-se lendo tudo, se os escândalos são iguais? Um bom livro, recém-lançado, mostra como as coisas acontecem. Está tudo lá.

O poderoso checão

Nilo Dante, um grande repórter, com anos de cobertura de Política Nacional e Política Internacional nos principais veículos do país, aprendeu muito sobre os bastidores do Poder. E conta, em O Sócio Oculto, como é que as coisas realmente funcionam; como é que prestigio, dinheiro e bons presentes, bem distribuídos (e muito bem retribuídos), têm influência decisiva nos rumos do país. Há aquilo que uma dirigenta já chamou de “malfeitos” que, quando descobertos, se transformam em escândalos, com CPIs e ameaças de desestabilização política; há o jeito, planejado por ótimos advogados e financistas, de ocultar o rastro do dinheiro, fazendo-o passear pelo mundo até voltar lavadinho ao Brasil; há o amaciamento da crise, executado por profissionais especializados, de ação internacional.so

The Goldfather

As contas, as transferências, os apelidos que, mais do que ocultar os envolvidos, retratam os nomes pelos quais os amigos o chamam – o Hebreu, o Turco, o Italiano – epa, este é o do escândalo não literário. Um retrato do Brasil. Só falta dar os nomes verdadeiros, mas seria impossível: os escândalos são iguais, mas os envolvidos variam – um pouco.

O Sócio Oculto, Editora Mídia In, ou em e-book Amazon. Um toque de perfeição: os culpados jamais são punidos, nem têm sentimento de culpa.

Menos é melhor

Talvez esses escândalos tão bem retratados por Nilo Dante em O Sócio Oculto levem ao resultado da consulta pública do Senado sobre projeto de emenda constitucional que reduz o número de parlamentares federais a 2/3 do atual: senadores de 81 para 54 (dois por Estado, e não três), e deputados federais, de 513 para 386: são 99,5% favoráveis, 0,5% contra. Este colunista é contra: senadores, vá lá, mas quer no máximo 250 deputados.

Os cortes no Orçamento

A redução nas verbas federais para Educação, Saúde e Previdência virou bandeira de guerra. Um bom jornalista, Antônio Carlos Cacá Leite, do Metro de Vitória, Espírito Santo, calculou os cortes na Educação: 10%. Ou R$ 10 bilhões a menos. O programa mais atingido é o FIES (bolsas em universidades privadas), com perda de R$ 1,7 bilhão e 313 mil contratos. O Pronatec teria de adiar as novas turmas por seis meses. As universidades federais perderiam 47% do orçamento. A meta de gastos em Educação cairia de 10% para 6% do PIB. Terrível, essa PEC 241 neoliberal!

Só que esses dados não são da PEC 241. São os números oficiais da Educação em 2015, primeiro ano da Pátria Educadora da presidente Dilma Rousseff.

Mais do mesmo

O senador Romero Jucá (PMDB – Acre) está de volta ao ninho: é o líder do Governo no Senado – e já reforma o gabinete a seu gosto, com gastos próximos de R$ 300 mil. Louve-se a firme postura ideológica de Jucá, que foi vice-líder do Governo de Fernando Henrique, líder do Governo de Lula e Dilma e agora de Temer: os governos podem mudar, mas Jucá, inflexível, não cede em seus princípios, não muda. Faz parte de todos. Foi também duas vezes ministro, em ambas afastado por denúncias de corrupção.

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Narizinho

Em inquérito sigiloso, a Procuradoria Geral da República cita um mimo da Odebrecht, em 2014, para Coxa, que poderia ser Gleisi Hoffmann. Mas não espere vê-la em Curitiba: Gleisi é senadora, seu foro é o Supremo.

AQUI SE BRIGA, LÁ SE DECIDE

Já se fala numa chapa só tucana para a eleição presidencial: a Min-Asia, Alckmin-Anastasia, unindo Aécio, padrinho político do ex-governador mineiro Alberto Anastasia, e o governador Alckmin. Mas quem avisa Serra de que ele, bem relacionado com o PMDB, ministro de Temer, está fora? E qual o sentido de montar uma chapa no mundo das delações premiadas, em que não se sabe qual inatacável de hoje vai virar o bandido de amanhã?

A propósito, um providencial pedido de vista do ministro Toffoli adiou o parecer do Supremo sobre a presença de réus na linha de sucessão presidencial. Com isso, Renan pode até ter alguma denúncia aceita pelo Supremo sem perder o cargo, no qual é o terceiro na linha de sucessão. Assim, a decisão fica para o ano que vem – depois do Carnaval, claro. Os aliados de Renan festejam, os adversários lastimam, este País não tem jeito.

E, no entanto, o balê de Brasília não tem a menor importância. Neste momento, há duas cidades em que se define o futuro brasileiro: Washington, por motivos óbvios (embora ninguém se atreva a prever o que significa para nós a vitória de Hillary ou de Trump nas eleições de hoje), e Curitiba, por motivos ainda mais óbvios. É em Curitiba que estão no forno delações que podem mudar o balanço de forças no país. É em Washington que se decide como funcionarão os acordos de comércio dos países ricos e quais nossas chances de participar.

E Brasília? Vai bem, obrigado.

Café com leite

A turma da Min-Asia parece que quer repetir a antiga política do café com leite, em que os partidos Republicano Paulista e Republicano Mineiro indicavam alternadamente presidente e vice (assim se governou o Brasil de 1899 a 1930, de Campos Salles a Prudente de Moraes). Mas os tempos mudaram, o sentido das palavras mudou, e até que o nome da política não está errado.

Existirá chapa mais café-com-leite do que Alckmin-Anastasia?

Tem quem tente

Pode não existir, mas há tucanos tentando. Com o crescimento de Alckmin, vencedor em São Paulo, buscam anulá-lo com um pacto entre Aécio e Serra. Os dois estão tão próximos que Aécio ofereceu uma nota de solidariedade a Serra, acusado de ter recebido doações clandestinas da Odebrecht. Ambos até marcaram uma conversa política em São Paulo.

Apenas relembrando

O PSDB é um partido formado exclusivamente por amigos em que todos são inimigos uns dos outros.

Vestindo a fantasia

O Globo dá a notícia em primeira mão: Dilma Rousseff vai ganhar um bloco de Carnaval, o Bloco da Querida. Letícia Sabatella será a madrinha. E Dilma pode até participar da festa, talvez fantasiada de Presidenta.

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Uruguai, beleza!

A propósito, Dilma deu palestra anteontem em Montevidéu, na Jornada Continental contra o Neoliberalismo.

A propósito, Luiz Cláudio Lula da Silva, Lulinha, filho de Lula, está trabalhando no Uruguai, desde a última terça-feira, como preparador físico das equipes de base do Juventud de Las Piedras. De acordo com Yamandú Costa, presidente do Juventud, Lulinha trabalhará “sob um conceito progressista da formação do atleta”.

A propósito, o bom repórter Germano Oliveira, da revista IstoÉ, informou na semana passada que há investigações sobre uma bela casa em Punta Del Este, cujo dono oculto, acham os investigadores, seria Lula.

O país dos sonhos

A propósito, o Uruguai é governado pela Frente Ampla, uma espécie de PT dos tempos do Governo Lula, que em matéria econômica sinaliza à esquerda e segue pela direita. O sistema bancário uruguaio acredita em sigilo e em livre movimentação de capitais, com o mínimo de impostos.

A propósito, o Governo uruguaio trata Lula como um amigo de prestígio mundial, sempre bem-vindo; e, se houvesse uma ordem internacional de prisão contra ele, não a cumpriria, como se fosse cidadão uruguaio.

Trabalho completo

O advogado criminalista Adib Abdouni era do PCdoB e fã de Lula. À medida que foi tomando conhecimento da rede de corrupção, revoltou-se e decidiu escrever o livro Operação Lava Lula – os inquéritos, os grampos, as delações. Um retrato completo, elaborado por quem conhece as leis. Lançamento amanhã, segunda, 7, a partir das 19h, Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

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Bom debate

Amanhã, a partir das 9 horas, no Campus Liberdade da Fecap, debate sobre partidos políticos e propostas para aprimorar a democracia. Com Ricardo Young (Rede), Marcos Pestana (PSDB), Paulo Teixeira (PT), Raimundo Lyra (PMDB) e Christian Lobauer (Partido Novo).


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