COMO ESTÁ, FICA

Não, caro leitor, o presidente Michel Temer não vai chutar o PSDB para fora do Governo. No máximo, pode reduzir um pouco a presença tucana (hoje são quatro ministros e sabe-se lá quantos ocupantes de cargos de confiança). Num momento difícil, Temer não pode dispensar apoios.

Não, caro leitor, Lula não vai ficar quieto, embora tenha sido condenado e esteja prestes a ser julgado de novo, agora pelo sítio de Atibaia. E seu alvo principal continua sendo o juiz Sérgio Moro, que irá julgá-lo. Lula não acredita que possa ser absolvido na primeira instância; só acredita que a Justiça, habitualmente lenta, não irá condená-lo em segunda instância antes de 15 de agosto de 2018, quando sua candidatura à Presidência já estará registrada. Se condenado em segunda instância, vira ficha-suja, sem poder se candidatar; mas, se já for candidato, terá como brigar. Não é uma tese pacífica: há quem diga que, no momento em que um candidato é condenado em segunda instância, a Justiça pode cancelar o registro. Mas dá margem para argumentar que só foi condenado para tirá-lo da eleição. E promete ser combativo, não permitindo que sua história seja maculada.

Não, caro leitor, nesta hora de definições, o Congresso não está funcionando. Senado e Câmara estão de férias. Voltam a se reunir no dia 2, e a pauta é a autorização ao Supremo para instaurar inquérito contra Temer.

Não, caro leitor, não reclame. Se o Governo parou, talvez o país ande.

PSDB total

A votação da denúncia contra Temer deve trazer surpresas. Em todos os partidos da base governista há gente disposta a votar contra o presidente a quem apoia – e, por tabela, contra seus próprios partidos, que têm cargos e portanto partilham a política oficial. Até no próprio partido de Temer, o PMDB, há dissidentes. Um, o deputado Jarbas Vasconcelos, acha que qualquer denúncia de corrupção tem de ser investigada. Outro, Osmar Serraglio, foi ministro da Justiça de Temer e não engoliu seu afastamento. Um é ligado ao ex-governador fluminense Sérgio Cabral e não tem qualquer apreço pelo presidente. Há quatro outros dizendo que ainda não decidiram (aliás, os críticos de Temer na base governista também usam a desculpa da indecisão). Em resumo, todos são PSDB. Em cima do muro.

Temer, vitória provável

O presidente tem excelentes probabilidades de vencer na Câmara. Seus adversários, para mandar investigar a denúncia, precisam de 342 votos. Até agora não conseguiram sequer 342 deputados, votem como votarem, para abrir a sessão. A oposição pode adiar a votação o quanto quiser, mas enquanto isso a pauta fica trancada. Quanto tempo os deputados resistem sem votar nada do interesse de seus eleitores e doadores de campanha?

O grande acordo

E, o que todos os envolvidos desmentem, há uma tentativa de acordo entre Governo e oposição para proteger-se mutuamente. Por enquanto a articulação é subterrânea, mas logo terá de aparecer em leis que limitem os poderes do Ministério Público e da Justiça. O interesse é de todos: um terço do Congresso está sob investigação. Será preciso rever a delação premiada, evitando acordos como o da JBS, reduzindo a vantagem legal do corruptor sobre os corruptos; endurecer as exigências para a ordem de condução coercitiva; punir os vazamentos de informações; limitar o prazo em que o suspeito pode ficar preso sem qualquer julgamento. Em suma, Sérgio Moro nunca mais. Na hora de votar essas medidas que beneficiam a eles todos, quem aceitará que fiquem trancadas por uma denúncia contra Temer?

Tucano x tucano

Aliás, o PSDB é um partido completo: ele mesmo escolhe seus líderes, ele mesmo fala mal deles, ele mesmo tenta destruí-los. Aécio não apoiou Serra nem Alckmin; nem Serra nem Alckmin apoiaram Aécio; nem Serra nem Aécio aceitam a candidatura de Alckmin. Os tucanos só se unem para lamentar a derrota do candidato que não apoiaram. A história se repete: Lula, embora lidere as pesquisas, tem rejeição gigantesca, e os tucanos unidos poderiam batê-lo. Mas o PSDB ainda é um partido de amigos em que todos são inimigos. O prefeito paulistano João Dória Jr. ganhou alcance nacional por seu bom trabalho em São Paulo. Aí surge seu colega tucano José Aníbal para acusá-lo de ser um péssimo prefeito, em cuja administração a cidade só piora. Dória tem 62% de aprovação na cidade.

A notícia agradável

E, saindo dessas coisas chatas, uma bela notícia: duas rádios públicas, a Rádio MEC (EBC, federal) e a Rádio Cultura (FPA, paulista), lançaram um programa de boa música brasileira, comandado por um conhecedor do assunto (e bom papo), Ruy Castro. Aos domingos, às 20h30, na Cultura FM (103,3 MHz) e na MEC FM (99,3 MHz) e AM (800 kHz). Vale pelas ótimas músicas, em gravações raras, preciosas; vale pelo ótimo Ruy Castro.

LULA CONDENADO, E DAÍ?

Além de nove anos e meio de prisão, a pena de Lula o proíbe de ocupar cargo ou função pública. Mas Lula não vai para a prisão; e a proibição do exercício de cargo ou função pública só passa a valer se for confirmada pelo Tribunal Federal de Recursos, TRF-4, em Porto Alegre. Mesmo se a apelação for negada, Lula ainda poderá ser candidato à Presidência, desde que a sentença não seja dada antes do fim do prazo de registro de sua candidatura. Resumindo: em termos penais e de lei eleitoral, não mudou nada. Com sentença ou sem sentença, Lula continua solto e é candidato.

A questão já não envolve o juiz Sérgio Moro. Tudo depende do eleitor. Se a condenação afetar o prestígio de Lula, a ponto de reduzir a tradicional fatia fiel de 25 a 30% do eleitorado, o PT, longe do poder, deve demorar para recuperar-se. Caso a prisão não afete o prestígio de Lula, o PT vai se recuperar da estrondosa derrota das últimas eleições. Com a anulação da pena, será candidato à Presidência e se apresentará como injustiçado, perseguido por querer reduzir a desigualdade social. E, se for preso, ficará como vítima e tentará eleger algum poste para presidente. Quem elegeu Dilma é capaz de tudo – embora, dessa vez, sem estar no Governo. Comenta-se que pensa em dois nomes: Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, e Guilherme Boulos, dos sem-teto. Ciro Gomes seria mais forte, mas não é do PT. E Lula jamais aceitou alianças sem o PT no comando.

Limpeza de ficha

A proibição de exercício de cargo ou função pública, mesmo confirmada pelo TRF-4, só entra em vigor após a confirmação (ou agravamento) da sentença, em Brasília, sabe-se lá quando. Mas existe a Lei da Ficha Limpa, que impede que condenados em segunda instância se candidatem. Lula, mantida ou ampliada a sentença, estará inelegível como ficha suja.

Caneta pesada

Agravamento da sentença? Sim: até agora, os três desembargadores da Oitava Turma do TRF-4, encarregados de julgar as apelações dos processos da Lava Jato, têm sido mais duros que Sérgio Moro. Em 23 apelações, libertaram cinco réus (incluindo João Vaccari Neto) e aumentaram as penas em 16 casos. De 365 pedidos de habeas corpus, concederam quatro.

Quem contra quem?

O PT tem candidato, Lula (ou quem Lula mandar). Ciro Gomes é candidato pelo PDT, correndo na mesma faixa do escolhido de Lula (se Lula se lançar, Ciro pode se aliar a ele). O PSDB oscila entre Alckmin, Serra e, apesar de tudo, Aécio; e pode lançar João Dória Jr., que subiu nas pesquisas pelo bom desempenho na Prefeitura de São Paulo. Em qualquer caso, sai desunido, como sempre. PSB e Rede, de Marina Silva, tentam convencer o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (lembra-se dele?) a entrar. Sem Barbosa, a Rede lança Marina. Há quem pense em Sérgio Moro. Há espaço para alguém sem passado político. Há Jair Bolsonaro, PSC, crescendo: busca o voto de quem tem saudades do regime militar.

Revivendo – a economia

Parafraseando um grande jornalista, Pedro Cavalcanti, a melhor coisa da ditadura militar é que todos tínhamos uns 40 anos a menos. Houve também, em parte do tempo, excelentes índices de crescimento (porém o mais duro dos ditadores, general Emílio Médici, em cujo governo o país cresceu mais aceleradamente, disse: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”). E, apesar dos plenos poderes, o regime militar se encerrou com a inflação a mais de 240% ao ano. Houve estatizações em massa, para os escolhidos o BNDE financiou até a produção de goiabada em lata, ruínas de obras monumentais, iniciadas e abandonadas, demonstram que já havia pouco caso com o dinheiro público. Exemplo: na Rio-Santos projetada, iniciada e abandonada, há até túneis sem o tradicional morro em cima. Acabou-se construindo outra Rio-Santos, mais simples, em cima das estradas velhas.

Revivendo – a barbárie

E houve a grande mancha da tortura. Houve o delegado Sérgio Fleury, cuja esplêndida biografia, Autópsia do Medo, feita pelo repórter Percival de Souza, mostra um assassino que tinha prazer em matar, um torturador que tinha prazer em torturar. Vários torturadores, depois da ditadura, migraram para o crime: tomaram a bala os pontos de bicheiros. E passaram a viver da contravenção. Segurança nas ruas? Besteira: este colunista viveu a época em que, em São Paulo, os assaltantes eram conhecidos pelo nome, de tão poucos. E viu a segurança se deteriorar nos tempos da ditadura.

Qualquer ditadura é indefensável, e a brasileira exagerou na barbárie. Se é isso que Jair Bolsonaro elogia, é preciso pensar muito antes de votar nele.

Vale a pena ver o que diz o advogado José Paulo Cavalcanti Filho, insuspeito de esquerdismo, estudioso da ditadura militar, num artigo brilhante, que dá gosto de ler: clique aqui.

EM NOME DO FILHO

Para a Rede Globo e muitos políticos, Michel Temer já caiu: só falta avisá-lo de que seu mandato acabou. Para grande parte da imprensa, mesmo que Temer sobreviva a esta primeira denúncia, não resistirá à seguinte (e, se sobreviver, ainda haverá uma terceira). Para o deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara, primeiro na lista de sucessão, nem é preciso esforçar-se para chegar ao Planalto: o poder cairá no seu colo.

Para este colunista, a previsão (nome chique que o pessoal citado acima dá ao palpite), é de que Temer tem boas probabilidades de resistir. A fonte principal da coluna lembra que uma conceituada consultoria internacional de análise de risco político, Eurasia Group, dá a Temer maiores chances de terminar o mandato do que de cair: no dia 11, de 60% a 40%. Deve ser uma análise séria, já que os clientes da Eurasia a utilizam em suas decisões de investimento. Mas a fonte do colunista acha que a probabilidade de Temer sobreviver é maior do que a calculada pela Eurasia. E lembra que, se o grupo contrário a Temer tivesse a certeza de derrotá-lo, iria acelerar a votação, em vez de retardá-la com depoimentos e recursos ao STJ.

Qual é a fonte em quem tanto confia este colunista? A fonte é um bom analista, César Maia. Mais do que bom analista, é pai do deputado Rodrigo Maia. Se o pai prevê, publica e assina  que o filho não chega agora à Presidência, quem pode dizer o contrário?

A arma do presidente

Ao menos neste momento, Temer tem o apoio do baixo clero, nome do grupo de parlamentares que têm pouca importância política e que em geral são ignorados pelos líderes políticos – mas cujo voto vale tanto quanto o dos caciques. Temer foi três vezes presidente da Câmara e sabe conversar com esses deputados, dando-lhes a importância que não têm; e, presidente da República, tem condições de oferecer-lhes mais importância e algo mais. Admitir o pedido de autorização para a abertura de inquérito sobre Temer exige 342 votos. Se 172 deputados faltarem à votação, ou votarem contra, o número mínimo não será atingido e a autorização estará rejeitada.

Olha o nível!

Dia de votar a reforma das leis trabalhistas no Senado. O PT é contra (bem como sindicatos e centrais sindicais, que perdem a grande boquinha do Imposto Sindical). Início da sessão: 11 horas. O presidente da Casa, senador Eunício Oliveira, chega no horário e descobre que quatro senadoras, três do PT e uma do PSB, estão ocupando a Mesa. Recusam-se a sair de lá. Eunício encerra a sessão e manda apagar a luz. As senadoras continuam no mesmo lugar. Na hora do almoço, chegam as marmitas para as quatro. Mais tarde, vêm à Mesa mais duas senadoras. Perto da Mesa, circulam outras parlamentares, como Benedita da Silva, PT, esquerdista histórica, e Kátia Abreu, PMDB, que passou de líder ruralista a militante de esquerda. E Lindbergh Farias fica ali, como camarada orientador. Discutir o projeto para que? Fazer arruaça infanto-juvenil rende mais tempo na TV.

A Mesa foi desocupada às 18h45. Quem negociou com as senadoras? Um peemedebista que tem bom diálogo com elas, Jader Barbalho, PMDB.

Os nomes, os nomes

As primeiras ocupantes da Mesa foram Lídice da Mata (PSB), Gleisi Hoffmann (presidente nacional do PT), Fátima Bezerra e Regina Souza, ambas do PT. Juntou-se a elas, mais tarde, Vanessa Grazziotin (PCdoB).

Todos juntos

O Imposto Sindical, um dia do ordenado de cada um dos assalariados do país, estimula a criação de mais sindicatos, por ser uma bela fonte de renda, e faz com que os sindicatos não precisem trabalhar, pois tenham ou não associados sua receita está garantida. Resultado, temos mais de 17 mil sindicatos no país, que funcionam do jeito que se sabe. E é importante lembrar que sindicatos patronais, que representam quase 1/3 deste número, também se beneficiam do Imposto Sindical e querem mantê-lo. O setor empresarial tem ainda outro benefício: o Sistema S (Sesc, Senac, Sesi, Senai) recebe dinheiro do Governo, via federações patronais.

Dia quente

Hoje, ao meio-dia, outra sessão movimentada: a sabatina de Raquel Dodge, indicada pelo presidente Temer para procuradora-geral da República. No foco, o que pretende Raquel Dodge fazer com a Lava Jato. Entende-se: em público, todos querem que a Lava Jato seja prioritária. Mas querem mesmo que a Lava Jato morra de inanição e que o juiz Sérgio Moro seja promovido a desembargador. Aí será mais um, não mais o único.

Rompendo o sigilo

Nesta semana, notícias não faltarão: o BNDES deve apresentar o Livro Verde, com as principais operações realizadas de 2001 a 2016. Por exemplo, o caso JBS, de Joesley Batista.

COMO SERÁ O AMANHÃ

No Brasil, ensinava um lúcido ministro da Fazenda, Pedro Malan, até o passado é imprevisível. O que Malan não disse é que o futuro, esse sim, é previsível: seja qual for o resultado da campanha contra Michel Temer, o Brasil continuará sendo governado pelo PMDB. E continuará discutindo Renan, Geddel, Romero Jucá, Eunício e outros luminares da política.

O PMDB esteve no governo de Fernando Henrique, teve presença maior com Lula, cresceu com Dilma, é dominante com Temer: tem o presidente, os ministros mais importantes, e comanda até a oposição, com Jarbas Vasconcelos, em nome da ética, e Requião, muito próximo do PT. Tem os articuladores do Fica, Temer, como Moreira Franco e Eliseu Padilha, e os articuladores do Fora, Temer, como Renan e Sérgio Zveiter, relator da aceitação ou não da denúncia. Tem intimidade com o poder. Renan vem da época de Collor, e só não participou do governo Itamar. Geddel foi ministro de Lula, vice-presidente da Caixa com Dilma, ministro com Temer. Jucá, como o patriarca do partido, Sarney, é cria do regime militar.

E o presidente? Temer já mostrou o que é: a Economia ficou com os especialistas e a Política com fregueses de investigações. Rodrigo Maia é citado em inquérito da Lava Jato. Pouco se sabe o que pensa: é DEM, mas poderia ser PMDB. E é um homem de família: começou na política por ser filho de César Maia, DEM, e subiu como genro de Moreira Franco, PMDB.

As diferenças

Há diferenças importantes entre Temer e Maia. Temer foi três vezes presidente da Câmara Federal e sempre fez parte da elite da Casa. Fez carreira no Direito e tem ótima fama como constitucionalista. Maia estudou Economia mas não concluiu o curso e, desde os 26 anos, sua vida é a política. Faz parte do baixo clero da Câmara – os deputados com menor destaque, raramente ouvidos. O baixo clero é maioria na Câmara, mas só elegeu três presidentes: Severino Cavalcanti (perdeu o mandato, acusado de cobrar mesada do dono do restaurante da Casa e de outros concessionários de serviços); Eduardo Cunha, que, acusado de corrupção, perdeu o mandato e está hoje preso, condenado a 15 anos; e Rodrigo Maia.

A semelhança

Ambos, Temer e Rodrigo Maia, jamais foram campeões de votos. Michel Temer sempre se elegeu, mas com dificuldades; numa das eleições, foi o último colocado entre os eleitos por São Paulo. Maia tentou ser prefeito do Rio e teve 3% dos votos, apesar do apoio do pai.

Como está, fica

Traduzindo: fique Temer ou caia Temer, não há o menor risco de que a algo se modifique. Do jeito que a coisa vai, não mudam nem as moscas.

Quem sabe, sabe

Um fato deve ser destacado nessa guerra política de Brasília; a defesa de Temer, elaborada pelo advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira. É de primeira linha, competentíssima. Como a questão é política, não jurídica, boa parte dos parlamentares não se preocupa com a acusação nem com a defesa: já tem o voto na cabeça, ou segue a posição de seus líderes. Mas a defesa é um trabalho exemplar, não só nos argumentos como no texto claro e compreensível. Independentemente de posição política, vale a pena ler.

Meio cheio…

Estranhíssima a decisão da Polícia Federal de incorporar a equipe da Lava Jato à Delecor, Delegacia de Combate à Corrupção e Desvio de Verbas Públicas. A PF informa que a medida fortalece a Lava Jato, pois facilita a participação de mais delegados nas investigações. Por que, então, não fazer o anúncio ao contrário, incorporando a Delecor à Lava Jato? No clima atual, em que tanta gente tenta melar as investigações, é óbvio que qualquer mexida na Lava Jato, exceto seu reforço, provoca a suspeita de que uma operação tão popular esteja sendo neutralizada pelos investigados.

…meio vazio

Há quem pense que a divulgação foi deliberadamente alarmista, como protesto pela restrição de verbas à Polícia Federal. É que o caso Lava Jato é uma das três medidas impopulares anunciadas pela PF: a suspensão do fornecimento de passaportes e a redução dos serviços nas rodovias são as outras duas. Os federais suspeitam da restrição de verbas. Acreditam que, a um tempo, serve para vingar-se das investigações e forçar a Polícia Federal a, sem dinheiro, reduzir as atividades que lançam luz sobre a corrupção.

Delata e paga

Surpresa no caso Joesley. O Tribunal de Contas da União decidiu incluí-lo num processo que apura desvios em financiamentos do BNDES à JBS. Acusam o grupo de ter cobrado do BNDES um ágio de R$ 2,50 por ação na compra da Swift – total, cerca de R$ 70 milhões. Em sua delação, Joesley não tocou no assunto. E pode por isso perder os privilégios que teve.

DUELO DE TANTÃS

De um lado, com a caneta nas mãos, podendo nomear aliados e liberar verbas parlamentares, o presidente Michel Temer; de outro, com o arco e flecha nas mãos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Ambos lutam contra o tempo. Temer precisa resistir no cargo, até 17 de setembro, às investidas de Janot – nesse dia, termina o mandato do procurador-geral. Janot precisa derrubar Temer até 17 de setembro, quando terá de abandonar o comando da cruzada. No dia 18, ambos terão encontrado seu destino: Janot festejando a glória de derrubar um presidente ou amargando a lembrança dos dias em que seu poder era temido; Temer, lutando pela sobrevivência, talvez afastado do cargo enquanto o Supremo o investiga, ou livre para governar – espera-se que com ministros menos alvejáveis.

Livrando-se da tragédia que ele mesmo semeou, ao assumir o Governo ao lado de tipos discutíveis, Temer poderá ancorar sua estabilidade na economia. A inflação está abaixo da meta prevista, as exportações deram um salto, a Petrobras recupera produção e rentabilidade, as estatais deram R$ 10,5 bilhões de lucro nos primeiros três meses do ano. Mas, para se livrar, reduziu as reformas ao mínimo possível. Uma oportunidade perdida. Janot transformou a denúncia contra Temer num jogo tático, dividindo-a, para, se perder uma, ter outra a atrapalhá-lo. Nenhum dos dois, obcecados pela vitória, pensou no país. Para ambos, o Brasil é apenas um detalhe.

Dia D

Temer é acusado de corrupção passiva: seria o destinatário dos R$ 500 mil entregues pelos delatores premiados da JBS ao então deputado Rocha Loures. A entrega da mala de dinheiro foi filmada, e as imagens de Loures correndo com ela até seu carro são inesquecíveis. Temer pretende defender-se dizendo que não era o destinatário da rica mala e desafiando os acusadores a provar que era. A defesa de Temer deve ser entregue à Comissão de Constituição e Justiça ainda hoje. O presidente quer que o plenário decida antes de 17 de julho, quando começa o recesso parlamentar.

Questão de placar

Temer passou ontem algo como 14 horas recebendo parlamentares. Ele precisa de 34 votos na Comissão de 66 deputados para que a denúncia não seja aceita, e tem hoje, calcula-se, entre 25 e 35. Mesmo que tenha 35, a margem é pequena e ele corre risco. Deputados detestam apoiar quem esteja perdendo. Por isso, mesmo tendo na Comissão 44 integrantes de partidos aliados, que indicaram ministros e ganharam cargos, luta para se salvar. No plenário, que votará em julho, salvo imprevisto, o acusador é que tem de conquistar a maioria: são 342 votos. Se o número não for alcançado, a denúncia estará rejeitada. Neste momento, Temer tem folga. Até a votação final, entretanto, há inúmeras possibilidades de mudança.

Firula

O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, diz que, em nome da transparência, exigirá que cada deputado anuncie seu voto no microfone. É jogo para a torcida: os deputados favoráveis a rejeitar a denúncia não precisam votar contra (podem abster-se, ou nem comparecer à sessão). Se 172 parlamentares não comparecerem, todos os demais podem votar contra Temer que não atingirão o número de 342, e a denúncia será rejeitada.

Jogo bruto

Os acusadores têm ainda, entretanto, muitas armas: se o acordo de delação premiada do doleiro Lúcio Funaro for homologado, não se sabe o que poderá dizer sobre Michel Temer e seus aliados mais próximos. Há mais: Geddel Vieira Lima, preso nesta semana, estará disposto a delatar? E Lula? Quais modificações no cenário político pode causar sua condenação ou absolvição pelo juiz Sérgio Moro?

Reforma que reforma

Esta é uma semana movimentada no Congresso: enquanto a Câmara recebe a defesa de Temer, o Senado estará iniciando a votação da reforma trabalhista. É esta reforma que levou dirigentes sindicais à oposição: nela é abolido o Imposto Sindical, grande fonte de receita dos sindicatos e suas centrais. O Imposto Sindical é um dia de salário de cada trabalhador do país, seja ou não filiado a algum sindicato. E sua existência: a) desobriga os sindicatos de representar adequadamente a categoria, já que, com ou sem associados, tem uma bela verba à disposição: b) torna a abertura de novos sindicatos um excelente negócio.

Hoje, temos 15 mil sindicatos no país.

Reforma que não reforma

E é em torno desta reforma que se trama um jogo sujo: há quem diga que o presidente Temer se comprometeu com os sindicalistas a vetar o fim do Imposto Sindical; ou aprovar a reforma e, em seguida, distribuir um agrado permanente aos sindicatos e suas centrais, de maneira a compensar a perda do Imposto Sindical. Pelego de bolso cheio é muito mais dócil.

SIGA O CAMINHO DO DINHEIRO

Tudo bem, houve greve geral. Só que não foi geral: tirando alguns congestionamentos chatos em algumas cidades, o país funcionou como de costume. Também não foi greve: até os congestionamentos chatos, seu símbolo maior, ocorreram por manifestações com pouca gente, em locais estratégicos, para dificultar o trânsito. Trabalhou-se como de costume.

Guilherme Boulos, líder do MTST, movimento dos sem-teto, um dos organizadores da greve, atribuiu o fracasso ao desemprego. “As pessoas estão com medo de ser demitidas, achacadas por patrões”. A explicação tem lógica, mas não é verdadeira. O objetivo da greve geral era impedir um ponto da reforma trabalhista: o que prevê o fim do imposto sindical. Este imposto, um dia de trabalho de cada assalariado do país, é a grande fonte de renda das centrais sindicais (e dos sindicatos, que ficam desobrigados de trabalhar em favor de seus associados, porque eles não lhes fazem falta: o dinheiro do imposto sindical continua irrigando seus cofres com fartura).

O problema era esse? Michel Temer o resolveu: o Imposto Sindical será abolido e, em seu lugar, surgirá uma nova fonte de financiamento para a pelegada. Em outras palavras, o imposto sindical só muda de nome. Paulinho, presidente da Força Sindical, confirma a manobra: resolvido o problema do dinheiro (R$ 3,5 bilhões por ano), a reforma passa a ser boa.

As centrais ameaçaram, Temer acertou tudo, e o caro leitor paga a conta.

Os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, em passeata na avenida Faria Lima, em São Paulo

Dinheiro entra…

Um dia de salário de todos os empregados com carteira assinada (pouco mais de 41 milhões de pessoas) representa uns R$ 3,5 bilhões por ano. Desse dinheiro, pela CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, 60% vão para 15.315 sindicatos, para muitos deles a principal receita; 15% às federações; 5% às confederações; 20% ao Ministério do Trabalho, para financiar programas como o FAT, Fundo de Amparo ao Trabalhador, que sustenta o seguro-desemprego e o PIS. Da verba repassada ao FAT, 10% vão para as centrais, livres de prestar de contas. Por isso há tantas centrais sindicais e tantos sindicatos: há muito dinheiro sem precisar trabalhar.

…dinheiro sai

A Assembleia Legislativa de São Paulo planeja licitação para contratar uma agência de publicidade. A agência terá verba inicialmente calculada em R$ 35 milhões por ano (podendo chegar a R$ 50 milhões). Pergunta que vale milhões: que é que a Assembleia paulista pretende anunciar? A Assembleia faz aniversário e quem ganha o presente é você? Assembleia, sempre a seu dispor? Assembleia, novas obras, agora ainda mais bonita?

Para que publicidade da Assembleia? Alguém lhe faz concorrência? Há alguma disputa de mercado? Não: é pura vontade de gastar cada vez mais.

Direito na prática

Depois de quatro sessões, o Supremo Tribunal Federal decidiu como tratar os acordos para obter delações premiadas. Os acordos de delação não poderão ser revistos, exceto em dois casos: quando houver uma ilegalidade afrontosa ou quando o delator não cumprir o que prometeu. Em outras palavras, os acordos legais deverão ser mantidos. E os ilegais, cancelados.

Temer, o poeta do futuro

Nos tempos do Império Romano, acreditava-se que os poetas recebiam dos deuses a capacidade de prever o futuro. Poeta, em latim, é “vate”; daí vem a palavra “vaticínio”, previsão. E, quem diria, nos dias atuais há quem preveja o futuro em seus poemas. O presidente Michel Temer publicou em 2012, pela Topbooks, o livro de poesias Anônima Intimidade. Cinco anos depois, é cada vez mais atual. Quem descobriu essa pedra preciosa foi o jornalista Augusto Nunes:

SABER: “Eu não sabia./ Eu juro que não sabia!”
TRAJETÓRIA: “Se eu pudesse,/ Não continuaria”.
FUGA: “Está/ Cada vez mais difícil/ Fugir de mim!”
RADICALISMO: “Não. Nunca mais!”
EU: “Deificado./ Demonizado./ Decuplicado.”/
“Desfigurado./ Desencantado./ Desanimado.”/
“Desconstruído./ Derruído./ Destruído”.
COMPREENSÃO TARDIA: “Se eu soubesse que a vida era assim,/ Não teria vindo ao mundo.”

Justiça petista

Frase do ex-presidente Lula (PT), que aguarda sentença de Sérgio Moro: “Se tiver uma decisão que não seja a minha absolvição, quero dizer que não vale a pena ser honesto neste país”.

Pimenta no ar

Rádio Jovem Pan de São Paulo, a partir desta terça, dia 3: voltam os Pingos nos Is, com Felipe Moura Brasil, Joice Hasselmann, Fernando Martins, mais o ótimo repórter Cláudio Tognolli. Metralhadora giratória.

CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA

Como no futebol, há juízes para decidir cada lance. Como no futebol, a derrota pode derrubar o time. Como no futebol, há quem se rebele contra o juiz. Como no futebol, muita gente levou uma bolada. Mas não se trata de futebol: trata-se de um país e de seu futuro. Futuro? Como no futebol, cada um pensa no próprio futuro, e os outros que, digamos, se danem.

O presidente Temer e o ex-presidente Lula buscam desmoralizar seus acusadores. Ataca-se o procurador-geral Janot, que denunciou Temer, e o Ministério Público, que, segundo Temer, não investigou procuradores cujo comportamento considera duvidoso. Ataca-se o juiz Moro, que Lula acusa de parcialidade, e procuradores da Lava Jato, porque fazem palestras pagas. Tanto Temer quanto Lula suspeitam que os acusadores tenham forçado delações “a la carte”, dando substanciais reduções de pena a quem atingisse determinado acusado. O embate nos tribunais mais parece uma guerra.

O juiz Sérgio Moro pode, a qualquer momento, emitir a sentença de Lula. A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, diz que só é aceitável a sentença que o absolva integralmente. O presidente do PT do Rio, Washington Quaquá, defende “o confronto popular aberto nas ruas” se Lula for condenado. Temer acena com o êxito da política econômica (a inflação ficou abaixo da meta, as exportações cresceram) que, indica, só será mantida caso fique no cargo. E o Brasil? O Brasil é apenas um detalhe.

Dois lados, uma defesa

Temer e Lula são hoje adversários ferozes, mas sua defesa é a mesma: há uma conspiração dos inimigos contra eles, e não há provas de nada. Mas cada um tem um antídoto diferente para a peçonha dos adversários. Lula, a ameaça de convulsão social, com apoio do PT, de partidos como PSOL e PSTU, de centrais sindicais como a CUT; Temer, a blindagem parlamentar, já que é preciso que 342 deputados (em 513) autorizem o processo contra ele. Só que Lula já ameaçou colocar nas ruas “o exército de Stedile” (o MST) e não deu certo. E Temer, em seu duro discurso de ontem, apareceu na TV ao lado de políticos de menor expressão. Os caciques se pouparam.

É o que temos

Outra arma de Temer é a falta de um bom nome para sucedê-lo, caso seja afastado. Mesmo que surja alguém, será eleito por um Congresso em que o presidente do Senado, Eunício Oliveira, e o da Câmara, Rodrigo Maia, são investigados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Caso Temer seja afastado, Rodrigo Maia é o favorito para sucedê-lo.

O Temer…

Um fato está intrigando os meios políticos: este Temer não é o Temer a que todos se acostumaram. Temer sempre foi discreto, afável, racional, cauteloso, frio e duro – foi quem assumiu com êxito a Secretaria de Segurança de São Paulo logo depois do massacre do Carandiru. O Temer presidente não tem como ser discreto. Mas anda ríspido, irritado, reagindo emocionalmente à pressão que sofre. O político cauteloso, que antes de falar “boa noite” pensava muito para não ser mal interpretado, referiu-se duas vezes aos russos como “soviéticos” – o que não são há 27 anos; e, em visita oficial à Noruega, confundiu o rei da Noruega com o da Suécia.

…que não é o Temer

O duro Temer levou um pito da primeira-ministra norueguesa sobre desmatamento na Amazônia e calou a boca. O sempre bem-informado Temer nem lembrou, ou nem sabia, que uma empresa controlada pelo Governo da Noruega está desmatando quase cinco mil hectares da floresta amazônica para extrair bauxita, o minério básico do alumínio; e que um país tão interessado no meio-ambiente talvez devesse repensar a poluente extração de petróleo no Mar do Norte e a autorização para a caça às baleias.

O cauteloso Temer ainda recebe Joesley Batista nos porões do Jaburu.

O dia da caça

Os procuradores da República elegem hoje três candidatos à Procuradoria-Geral, na sucessão de Janot. Mas o presidente Temer nomeia quem quiser, esteja ou não na lista tríplice. Uma escolha acertada pode fazer com que Janot se enfraqueça até deixar o cargo, em 17 de setembro. Temer acredita que, saindo Janot, se reduzam as pressões contra ele. Mas nem sempre é assim: o novo procurador-geral pode querer provar que não está lá para acochambrar, e que é tão duro quanto o antecessor.

Gravando lá e cá

O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu a família para dizer que ninguém deve se preocupar com delações premiadas em que é citado. Informou que, durante todo seu período como ministro, gravou todas as conversas que manteve em seu gabinete. São oito anos de gravações.

NOSSO PAÍS É LEGAL

Roger Abdelmassih, médico cassado, condenado a 181 anos de prisão por estuprar 37 pacientes anestesiadas, preso há pouco menos de três anos, já está deixando a cadeia: ganhou o direito a prisão domiciliar, com direito de sair de sua casa para tratar-se de broncopneumonia. A justificativa é notável: o presídio onde cumpria pena não tem condições de tratá-lo.

Na última vez em que foi libertado, Roger Abdelmassih fugiu do país e ficou três anos foragido, até ser localizado e preso no Paraguai.

Indignado? Então, mais uma: Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão por participar do assassínio a pauladas de seu pai e sua mãe, em cerca de três anos teve direito de sair da cadeia para – sim, é isso mesmo – comemorar o Dia das Mães. Tem o direito também de sair da cadeia no Dia dos Pais; e na Páscoa, no Dia da Criança e na semana do Natal e Ano Novo. Há certo simbolismo em algumas dessas datas: Natal lembra o Papai Noel, o único papai que lhe restou depois do assassínio do seu; a Páscoa celebra o milagre da Ressurreição; o Ano Novo, o recomeço. O Dia dos Pais e o Dia das Mães, convenhamos, já é demais.

E por que acontecem esses absurdos, em que criminosos condenados ganham benefícios muito antes de cumprida a pena? Porque a lei permite. É preciso ficar indignado não só com esses casos, mas com as leis esburacadas, com os legisladores que não sabem o que fazem. Ou sabem.

Ganhando sempre

É fácil ficar com pena de Roger Abdelmassih, 74 anos, doente. Mas um relato do bom repórter Renato Lombardi conta quem ele é: uma das vítimas de estupro disse ao médico que iria denunciá-lo. A resposta que ouviu: “Pode ir quantas vezes quiser. Sou poderoso e vamos ver quem ri por último”. Renato Lombardi completa a narrativa: “E ele está rindo”.

Como é o nome disso?

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que o Governo estuda a possibilidade de reter parte do Fundo de Garantia de assalariados demitidos sem justa causa para reduzir gastos com o seguro-desemprego. O Fundo de Garantia foi criado exatamente para ajudar o desempregado na hora em que mais precisa; e garantir ao aposentado um pecúlio para a velhice. Tomar uma parte desse dinheiro tem nome. Como isso se chama?

Ajuda dos universitários

Se tiver alguma dúvida quanto à resposta, procure-a no Código Penal, artigos 155 e 157. O Código Penal reúne as leis que, em outros países, definem aquilo que é proibido, por ser crime; e que, no Brasil, servem como roteiro para quem gosta de levar muita vantagem em tudo.

Mais motivos…

Hoje, dos cinco ex-presidentes vivos, quatro estão sendo processados – o único contra quem nada consta é Fernando Henrique. O atual presidente está sendo processado (embora o Congresso possa determinar que a ação seja encerrada). Ministros e ex-ministros, há 30 com problemas judiciais. Governadores, dez; senadores, mais de 20; deputados federais, mais de 60. E dois figurões que estiveram na linha de sucessão presidencial, os ex-presidentes da Câmara Eduardo Cunha e Henrique Alves, estão presos.

…para indignação

Pois este pessoal faz parte do grupo que planeja aprovar, daqui a algumas semanas, a verba de R$ 3,5 bilhões para a campanha eleitoral de 2018. A criação do Fundo de Financiamento de campanhas já tem apoio de PMDB, PSDB, DEM, PP, PSB, PSD e PR. O PT, pioneiro na tese de financiamento público de campanhas, também deve votar a favor.

Lula lá longe

O colunista Cláudio Humberto do Diário do Poder, um dos mais importantes do país, informa que dirigentes petistas discutem se Lula, caso seja condenado pelo juiz Sérgio Moro, deve fugir do país. Claro que a fuga não seria considerada fuga, embora fosse fuga: o PT a chamaria de “período sabático” em outro país – possivelmente o Uruguai, próximo, tranquilo, agradável e dirigido por aliados de Lula (o presidente é Tabaré Vásquez, da Frente Ampla, que reúne partidos de esquerda). Ter aliados no poder é importante, para evitar que pedidos de extradição sejam aceitos. Os outros países bolivarianos, que também têm aliados no poder, são menos agradáveis: Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua e Equador.

Lula cá

Há dirigentes petistas frontalmente contrários a qualquer fuga. Acham que Lula, por seu perfil político, não deve fugir: deve, sim, percorrer o Brasil, proclamando-se perseguido. Consideram difícil que, em caso de condenação, por mais severa que seja a sentença, os tribunais exijam que Lula seja preso antes do julgamento em segunda instância. Ele aproveitaria o tempo para articular e tentar virar politicamente o jogo.

SÃO TANTAS COISINHAS MIÚDAS

Num dia, tarde da noite, o bandido notório de maior sucesso na história do país telefonou ao líder da maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil para marcar uma visita. Ótimo: marcou-se a conversa para a mesma noite. O bandido notório combinou com o líder da quadrilha que usaria nome falso e a visita não entraria na agenda. Se a opinião de um sobre o outro era a que depois declararam, por que um pediu a reunião, por que o outro a aceitou? A história da reunião, da gravação e da entrevista é marcada por pequenos mistérios. Esquisitices – como entendê-las?

No início da conversa gravada de ambos, o líder da quadrilha comenta com seu convidado que há tempos não o via. O bandido notório lembrou um evento em que se encontraram. Mas, na entrevista, o bandido notório diz que o líder quadrilheiro vivia atrás dele para pedir dinheiro. Onde está a verdade? Se o bandido notório mentiu na delação, diz a regra do jogo, perde as vantagens – e que vantagens! Terá corrido o risco? E os 500 mil por semana, durante 20 anos? Terminado o mandato do capo da quadrilha, ele não vai ver um centavo a mais. Sem poder, sem dinheiro. Os dois sabem disso. Não seriam idiotas de propor ou aceitar essa bobagem.

Como compôs Gonzaguinha, e Maria Bethânia interpretou com brilho, essas coisinhas miúdas, tantas delas, vão “roendo, comendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal”. Historinhas, “já não dá mais para engolir”.

Grito de alerta

Michel Temer é inocente ou culpado? Isso o Supremo irá decidir. E, no Brasil, só o Capitão Gancho põe a mão no fogo pela inocência de um figurão. Já Joesley confessou; se disse tudo, ou apenas parte, caberá ao Supremo julgar. Mas é estranho que, tendo multiplicado seus negócios nos 14 anos de Governo petista e neles transformado suas empresas nas maiores do mundo em proteína animal, concentre a maior parte da delação e acusações nos dez meses de Temer. E que, além de delatar, procure dar a maior repercussão possível às acusações, sem que isso lhe renda qualquer vantagem. Passou semanas negociando sua entrevista, com diversos veículos, até escolher quem a publicaria. Por que esse trabalho todo?

Amanhã ou depois

Com a entrega das alegações finais dos advogados de Lula, o juiz Sérgio Moro pode, a qualquer momento, emitir a sentença. Em caso de condenação, dificilmente Lula será preso: há a possibilidade de defender-se em liberdade até o julgamento da apelação pelo Tribunal Regional Federal. A sentença pode até sair hoje, mas, embora Moro seja conhecido pela rapidez das decisões, o normal é que demore mais de uma semana.

O que é, o que é

Além deste, Lula tem dois outros processos penais na 14ª Vara de Curitiba, do juiz Sérgio Moro. Mas o mais problemático é este que aguarda sentença. Se Lula for condenado, e sua apelação for negada, estará automaticamente proibido de concorrer a qualquer eleição – e, portanto, não poderá disputar a Presidência em 2018. Nos outros dois processos, não há tempo para que seja condenado em segunda instância.

É

No episódio da perseguição ao jornalista Alexandre Garcia no aeroporto de Brasília, noticiou-se que o responsável pelo assédio foi Rodrigo Grassi Cademartori, conhecido pelo apelido de Pilha. O que passou quase despercebido foi o passado do cavalheiro: Pilha (que filmou a perseguição a Alexandre Garcia e a colocou na Internet) já ofendeu o então senador Aloysio Nunes e foi detido por isso, sendo rapidamente solto, hostilizou a blogueira cubana Yoani Sánchez, tentando impedir suas palestras, e comandou a perseguição na rua ao ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal. Na época, era assessor da deputada petista Erica Kokay.

Não é

Esta coluna errou ao dizer que Mário Covas, quando se opôs duramente à entrada do PSDB no Governo de Fernando Collor, dispunha do poder de governador de São Paulo. Na verdade, Covas dispunha apenas de seu prestígio e boa reputação: ainda não tinha sido eleito governador.

Sangrando

Lula, líder de um dos maiores partidos do país, sob ameaça de condenação. O PSDB, um dos maiores partidos do país, enfrenta problemas internos com grupos que querem afastá-lo do Governo. O PMDB, um dos maiores partidos do país, ocupante da Presidência da República, luta para manter o mandato ameaçado de Temer. Pois nada disso afeta nossos parlamentares: depois da semana folgada com desculpa do feriado de Corpus Christi, nesta semana o expediente termina mais cedo, por causa das festas juninas. Nesta quarta, o expediente termina às 15h, para que Suas Excelências possam pegar um voo mais cedo. Folgam até a terça que vem.

TIRA, PÕE, DEIXA FICAR

Tira: Fernando Henrique, em notável artigo, pôs gasolina na fogueira: sugeriu que o seu PSDB deixe o Governo e que o presidente Michel Temer proponha eleições diretas antecipadas para a sucessão.

Põe: mas Temer já estava preparado para neutralizar a proposta. Seus emissários no Congresso lembraram que mais de 150 deputados enfrentam ações penais ou inquéritos; o mesmo ocorre com cerca de 30 senadores. Quem vai querer que o precedente seja aberto, justo com Temer?

Tira: Joesley Batista, em depoimento à Polícia Federal, reafirmou que entregou uma mala com R$ 500 mil ao então deputado Rocha Loures, da estrita confiança de Temer e por ele indicado para receber o dinheiro, uma propina para retribuir ao presidente benefícios recebidos do Governo. Seria mais uma bomba num Governo cuja base política se derrete.

Põe: mas Temer liberou R$ 50 bilhões do velho e bom BNDES para os Estados. Os governadores, encalacrados em dívidas, sabem que, se Temer cair, caem junto suas promessas. Trabalharão por ele (e, a propósito, agora já se sabe por que Maria Sílvia deixou o comando do BNDES).

Deixa ficar: para que a Câmara autorize uma ação penal contra Temer (investigado por organização criminosa, corrupção passiva e obstrução da Justiça), são necessários 342 votos. Se 341 deputados votarem contra Temer, a ação não poderá ser proposta. Se 172 deputados não comparecerem à sessão, Temer estará salvo. Quem tem de se esforçar para reunir votos, portanto, não é Temer: é o procurador-geral Rodrigo Janot.

Vida que segue

Agora, para Temer, o importante é mostrar que o Governo continua vivo. Escreveu um artigo sobre sua próxima viagem à Noruega e à Rússia, articula a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência, ou do que sobrou delas depois da negociação política. A menos que haja manifestações de rua ou delações que o atinjam diretamente, vai conseguir aprová-las. Os sindicatos tentam ir às ruas, não para garantir direitos, mas manter de pé o imposto sindical que os financia.

Palavras ao vento

A propósito, Fernando Henrique sabe que, a menos que o improvável aconteça, sua proposta não é realizável. Sabe que reformar a Constituição para convocar eleições diretas exige mais tempo do que o disponível até o fim do mandato de Temer. Sabe que conseguir 2/3 dos votos é difícil. E, apesar de seu prestigio, Aécio Neves e outros parlamentares de seu partido têm um compromisso maior do que com ele: com a própria sobrevivência.

Passando a limpo

Enquanto a Lava Jato e outras investigações atingiram um dos lados do espectro político, receberam apoio do outro lado. Enquanto atingiram, fora do alvo principal, pessoas dificilmente defensáveis, tudo bem. Mas agora, que estão em risco políticos das mais diversas tendências e empresários, há uma união contra as investigações. Oficialmente, todos são favoráveis à Lava Jato e congêneres, “aguardando serenamente a decisão a Justiça”. Na prática, é guerra: quando mais de 1/3 dos deputados e senadores estão ameaçados, não apenas politicamente, mas até de prisão, eles vão reagir.

A primeira iniciativa é suspender as ações penais contra senadores e deputados federais, medida prevista no artigo 53 da Constituição. Para que esta prerrogativa seja exercida, deve ser aprovada por maioria absoluta de deputados e senadores. Os parlamentares já atingidos, 1/3, são votos certos; quem não foi atingido mas sabe que pode ser deve votar também a favor.

Guerra total

A medida é impopular, todos sabem, mas é melhor se arriscar a perder uma eleição do que passar algum tempo hospedado em Curitiba. Ficar sem mandato a partir de 2019 é ruim, mas pelo menos será em liberdade, A medida, em princípio, só não entrará na pauta em duas circunstâncias:

1 – Se houver possibilidade de derrota. Nesse caso, os parlamentares que votassem a favor perderiam a popularidade sem vantagem alguma;

2 – Se surgir outra ideia eficiente, de menor custo político. Porque todos sabem que a grande maioria dos eleitores se revoltará com a sujeirada.

A voz do Planalto

Os articuladores da Presidência estão trabalhando para garantir mais votos contra as investigações. O jornalista Josias de Souza, em seu bom blog, conta que testemunhou o telefonema de um ministro de Temer a um parlamentar do PP, partido com 21 deputados atingidos pela Lava Jato. Cita: “Se a Procuradoria e o Supremo querem derrubar o presidente da República, imagine o que não farão com os parlamentares!” É a batalha dos mandatos contra as togas.

As investigações

Atenção ao depoimento de Antônio Palocci. Tem novidades explosivas.

VELHAS NOVIDADES

O veterano Repórter Esso, que marcou época no rádio e na TV, tinha como lema “o primeiro a dar as últimas”. Os noticiários do Brasil, hoje, são os de sempre, divulgando o de sempre. Novidades? Preferem velhidades. Para todos nós, resta a impressão de que só há notícias bem antigas.

O PSDB fica no Governo, como ficou sempre que pôde. Claro, dizem que é para garantir a governabilidade e a estabilidade do país e os avanços na economia. Nada a ver com cargos e verbas, claro. Puro patriotismo.

Lula diz que o PT tem muito a ensinar aos outros partidos. Não é bem assim: com Mensalão, Petrolão, empreiteiras amigas, açougueiros amigos, propriedades que não são dele, nunca antes na História desse país partido nenhum girou tanto dinheiro. Mas o PMDB é mais competente: participou da farra petista e continuou no poder quando o PT caiu. O PT, na busca de pixulecos, perdeu gente de nível, como Hélio Bicudo, Paulo de Tarso Venceslau (que, além de sair, fez as primeiras denúncias de malfeitos petistas), Erundina. O PMDB fez igual e não perdeu ninguém. O PSDB, este tem a aprender. Não é questão de ética: há muito tucano, incluindo seu candidato à Presidência, em listas de denunciados. Nem de caráter: a ala jovem tucana, que era contra ficar no Governo, resmunga mas ficou. Miguel Reale Jr., 73, foi quem saiu do partido. Pergunta que os líderes tucanos não fizeram: se o PSDB é igual aos outros, por que ficar lá?

Alto nível

O PSDB promoveu uma reunião de altíssimo nível para decidir o que fazer. Havia quatro governadores, Geraldo Alckmin, de São Paulo, Beto Richa, do Paraná, Marconi Perillo, de Goiás, e Simão Jatene, do Pará, quatro ministros, Bruno Araújo, Aloysio Nunes, Antônio Imbassahy e Luislinda Valois, dois prefeitos de capitais, Arthur Virgílio Neto, Manaus, e João Dória, São Paulo, mais um carro Gol lotado com a ala jovem tucana. Decidiram que ficar no Governo é melhor do que na oposição.

Exemplo partidário

O PMDB é coerente: está sempre com o Governo. O Governo muda, o PMDB fica. Ninguém desvia o PMDB de seus ideais.

De um lado a outro

Quando os fundadores do PSDB resolveram tomar rumo próprio, eram classificados como “a consciência do PMDB”. Tinham deixado o partido por não concordar com seus rumos. Mas, se os tucanos deixaram o PMDB, o PMDB não deixou os tucanos. O PSDB esteve em todos os governos, exceto o de Collor – e só porque Mário Covas, governador de São Paulo, impediu a adesão (Collor queria Serra e Fernando Henrique no Ministério). Mas há uma diferença entre Reale Jr. e Covas: Reale Jr. tem prestígio, caráter, e Covas tinha o Governo paulista.

A força da palavra

Miguel Reale Jr. tem também o dom da palavra. E está indignado:

“É difícil sair de um partido do qual fui vice-presidente em São Paulo, amigo de todos os dirigentes, em que compartilhei ideais e esperanças. Mas desisti diante de tantas vacilações e fragilidades. Não se pode ser fraco diante da afronta à ética.” E, referindo-se à fama tucana de sempre ficar em cima do muro, previu o futuro do PSDB: “Espero que o partido encontre um muro suficientemente grande que possa servir de túmulo”.

O TSE é só nosso

Do repórter Cláudio Tognolli: “Só no Brasil o juiz Napoleão cita o Alcorão, pede guilhotina para os jornalistas e fica tudo por isso mesmo”.

O voto do TSE…

Houve quem aprovasse e quem criticasse a decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Os dois lados têm leis para citar (e citam só a parte da legislação que melhor atenda às suas preferências políticas). O fato é que as leis devem ser interpretadas, e quem decide é a Justiça. Ponto final.

Decisão judicial se cumpre, mas pode-se (e deve-se) discuti-la. A posição de um dos procuradores da Lava Jato contra a decisão, porém, não pode ser aceita: primeiro, porque os procuradores têm o direito de propor, mas não de decidir; quem decide são os juízes, ouvidos obrigatoriamente os advogados que defendem os réus. Insultar os juízes, faltando-lhes com o respeito, e classificando o voto dos que não concordam com os promotores de “verdadeiro cúmulo do cinismo”, é um excesso que também deve ser discutido. E os próprios procuradores devem, entre si, iniciar a discussão.

…e suas consequências

A senadora Kátia Abreu, antiga líder dos ruralistas, ex-DEM, ex-PSD, hoje PMDB, que era ferozmente antipetista e virou amiga de infância de Dilma, quer vê-la candidata ao Senado ou à Câmara pelo Tocantins. Dilma sairia pelo PT e Kátia a apoiaria pelo PMDB. Mas já há reações: no Estado, entidades antipetistas estão organizando o movimento “Aqui, não!”

A TERRA EM QUE NASCESTE

Vamos esquecer um pouco a bandidagem de colarinho branco, a insegurança nas ruas, os delatores premiados: trocando uns ou outros nomes, o jornal do dia é igual ao da véspera, os telejornais apresentam há um tempão as mesmas cenas, variando apenas os personagens. E todos negam com veemência aquilo que todos sabem que é verdade, e aguardam com serenidade o decorrer dos processos – enquanto esperneiam para que todos eles virem de cabeça para baixo. Esperneiam, mas nem disso sabiam.

Vamos à raiz de tudo: o tumulto da estrutura legal do país. Há poucos dias, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 96, que autoriza as vaquejadas em todo o país. “Práticas esportivas” e “manifestações culturais” com bichos deixam de ser tidas como cruéis, e a vaquejada passa a ser “bem de natureza imaterial”. Há quem ache que puxar um boi pelo rabo, obrigando-o a correr entre dois cavalos, até que alguém o derrube numa área demarcada, é cruel. Mas não entremos no mérito da questão. O que aqui se discute é a introdução da vaquejada na Constituição.

Tratar-se-á, perguntaria o presidente Temer, de tema constitucional? E por que não o futebol, praticado por mais gente, em mais lugares? Se tudo cabe na Constituição, por que não substituí-la por uma lista telefônica, ou uma Wikitituição, em que cada um vai botando aquilo que acha sobre tudo que quiser? Sai mais barato e o resultado é o mesmo: não funciona.

Nosso exemplo

Originalmente, a Constituição republicana brasileira foi baseada na americana. A Constituição americana nasceu em 1789 com sete artigos, definindo os Três Poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário), os direitos e responsabilidades dos Estados. De lá para cá houve 27 emendas, sendo as dez primeiras conhecidas pelo nome de Bill of Rights, em tradução livre Lista de Direitos. No Brasil, a Constituição de 1988 tem 250 artigos, que sofreram de lá para cá cento e poucas emendas. A Constituição americana tem 228 anos; a brasileira, de 1988, é a sexta da República para cá. Mais uma vez sem entrar no mérito, a deles parece mais durável que as nossas.

Vai, dinheiro!

O ótimo portal jurídico Espaço Vital traz uma informação interessantíssima sobre a ladroeira (que todos sabiam que existia mas que agora vem sendo mais bem conhecida). O economista Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B, estudioso da infraestrutura brasileira, levantou o custo da corrupção em obras públicas no país, nos últimos 45 anos. Em valores corrigidos para a moeda atual, mas sem juros, a ladroeira atingiu algo como R$ 2,1 trilhões de 1970 até 2015. Um número de 16 algarismos, observa o portal.

Uma comparação: o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo, que marca a quantidade de impostos municipais, estaduais e federais pagos a cada instante em todo o Brasil, marcava até 9 de junho, às 19h06, muito menos da metade da quantia roubada nos últimos 45 anos.

Voa, dinheiro

Há um motivo pelo qual a Operação Lava Jato está tão interessada na delação premiada do ex-ministro Antônio Palocci, e que não envolve nem bancos nem outras grandes empresas: é, isso sim, levantar o processo de liberação de aproximadamente R$ 8 bilhões do BNDES para a J&F, dona do JBS, Friboi, Swift, Seara, Vigor, São Paulo Alpargatas, Osklen e outras, entre 2007 e 2015. Todo o processo de obtenção e liberação de verbas do BNDES, acreditam os investigadores, passou pelas mãos de Palocci.

O mundo gira

Há dois anos, o J&F pensou em entrar no setor da iluminação pública em São Paulo. Hoje tenta vender a Vigor e a Alpargatas para fazer caixa.

Humor no TSE

Primeiro, um momento de descontração: o pessoal das redes sociais descobriu que o ministro Hermann Benjamin, relator do processo de cassação da chapa Dilma-Temer, é parecidíssimo com duas personalidades nacionais: a deputada Luiza Erundina e o maestro Tom Jobim. Outra semelhança parece ter passado despercebida até agora: Benjamin é a cara da senhora que aparece no logotipo da franquia Casa do Pão de Queijo.

Guerra no TSE

Algumas frases dos duelos travados no TSE, durante o julgamento:

Hermann Benjamin: “Só os índios não contactados da Amazônia não sabiam que a Odebrecht havia feito colaboração premiada”.

Gilmar Mendes: “Um Barusco corresponde a US$ 100 milhões nesta corruptocracia”.

Hermann Benjamin: “Vossa Excelência, senhor presidente Gilmar Mendes, tem de pedir desculpas a si mesmo, pelas suas contradições”.

SUICÍDIOS COM O PUNHAL NAS COSTAS

Em Brasília, todos são gente do ramo, hábeis, espertíssimos. Mas…

1 – O PSDB voltou ao poder aliando-se a Temer. Porém, ao perder a eleição, processou os vitoriosos “só para encher o saco do PT”, como Aécio agora admitiu. Esta ação, revanche infanto-juvenil, se não derrubar Temer, o enfraquece. O PSDB encheu o saco do PT. E perde junto.

2 – A queda de Dilma se acelerou porque o PT queria vingar-se de Eduardo Cunha. Cunha avisou que, se o PT o deixasse em paz, ele não poria o impeachment em pauta. O PT pôs Cunha em julgamento, Cunha pôs Dilma em julgamento, deu no que deu: Cunha preso e Dilma fora.

3 – Hoje o grande problema de Temer é seu amigo Rocha Loures. Loures era suplente. Assumiu a deputança (e o foro especial) quando Temer nomeou o inacreditável Osmar Serraglio para ministro da Justiça. Serraglio não deu certo, Temer resolveu trocá-lo de Ministério, sem se dar ao trabalho de conversar com ele – justo Temer, sempre tão educado! Serraglio recusou a troca e reassumiu o mandato, deixando Loures sem foro especial. Temer podia ter mantido Loures na Câmara nomeando outro deputado do Paraná. Não o fez. Rocha Loures, sem foro, foi preso. E ele era da tchurma, sabe o que todos fizeram no verão passado. Numa delação, pode acelerar a queda de Temer e até mesmo ameaçar sua liberdade.

Quando a esperteza é muita, dizia Tancredo, vira bicho: come o esperto.

O PSDB

Aécio foi secretário de seu avô, Tancredo Neves, e teve a oportunidade de, bem jovem, acompanhar a costura política que destruiu por dentro o bloco governista e lhe permitiu derrotar Paulo Maluf. Tancredo jamais “encheu o saco” dos adversários. Mantinha com eles um diálogo urbano, que lhe permitiu, por exemplo, aceitar José Sarney como vice e com ele devolver o poder aos civis. Pensava-se que Aécio seria o herdeiro do talento de Tancredo. Quem imaginaria que herdasse apenas o sobrenome?

O PT

Apesar do bombardeio que vem sofrendo, e da derrota eleitoral em 2016, o PT lidera as pesquisas para 2018, com Lula. Então entra em campo, recém-saído da cadeia, aquele que Lula já chamou de “capitão do time”, José Dirceu, e propõe controles bolivarianos sobre quase tudo, mas em especial a imprensa. Em seguida, na mesma cerimônia petista, Benedita da Silva diz que só se pode reformar o país com derramamento de sangue. No Rio, que Benedita já governou, há muito derramamento de sangue. E, como mostrou Cabral, reformas não houve. Junte-se a corrupção a essas duas propostas e Lula, se puder concorrer, terá muito trabalho. Ainda mais precisando explicar por que disse que não conhecia vários delatores, esquecendo que esta é a época dos celulares: todos tinham fotos com ele.

Dinheiro sai

Derrotada a dinastia Sarney, o comunista Flávio Dino, PCdoB, assumiu o Governo com promessas de mudança. Já começou a mudar: em vez de pendurar o pessoal do Sarney nas tetas do Estado, está pendurando o seu.

O Procon do Maranhão tem 76 funcionários. O governador Flávio Dino nomeou, para chefiá-los, 347 novos chefes, todos sem concurso. São mais de quatro chefes por funcionário. Mas Dino tem um problema no Supremo: o ministro Alexandre de Moraes pede explicações sobre a violação da lei que criou o Procon, que exige o preenchimento dos cargos por concurso.

Dinheiro voa

Lembra de Carlos Gabas, ministro da Previdência de Dilma, que levava a chefe na garupa em passeios de moto? Não se preocupe com ele: já está bem empregado. Ganhou um cargo do senador Lindbergh Farias (PT-Rio) no gabinete da liderança da minoria. Salário (bruto): R$ 20.950 mensais. Lindbergh Farias foi também quem contratou Gilberto Carvalho, que foi ministro de Lula e Dilma. Gilbertinho ganha R$ 15.700. Nenhum dos dois precisará assinar o ponto ou comprovar presença. Você, caro leitor, paga.

Pra que dinheiro?

De acordo com o Tribunal de Contas da União, o prejuízo da Petrobras pela compra da refinaria de Pasadena, no Texas, foi de US$ 800 milhões. A refinaria era conhecida como Ruivinha, por estar inteirinha enferrujada.

Mas o maior prejuízo brasileiro em refinarias não foi culpa da Petrobras. Em 2006, por ordem do presidente Evo Morales, o Exército boliviano ocupou duas refinarias da Petrobras, e passou-as ao controle de La Paz. Foi uma ação sem reação, já que o Governo brasileiro silenciou sobre o caso. Mais tarde, a Bolívia decidiu pagar US$ 112 milhões pela “desapropriação” das duas refinarias, cujo valor estimado era de US$ 1 bilhão.

Mais um

Renato Duque, ex-diretor da Petrobras condenado a 40 anos de prisão pelo desvio de R$ 650 milhões, se ofereceu para ser delator. Sabe muito.

SURUBA, TROCA-TROCA, VALE TUDO

Um político que está no poder faz tanto tempo sabe das coisas. E foi o senador Romero Jucá (PMDB-Roraima), que deu o nome à festa: suruba. É suruba, mas também pode chamar de troca-troca. Todos com todos, todos amigos. Afinal, as turmas de Dilma e Temer são as mesmas.

Na terça, entra em julgamento a chapa Dilma-Temer, por abuso de poder na campanha presidencial. Dilma e Temer são adversários. Mas, se a Justiça cassar a chapa, é ruim para Dilma (impedida de sair para o Senado em 2018); para Temer, que perde o mandato; para o PSDB, que fez a denúncia, porque Aécio depende dos dois para salvar-se das delações. Uma mão lava a outra, as duas lavam a cara e cada uma pega o que pode.

A Comissão de Ética da Presidência livrou o petista Aloízio Mercadante da acusação de tentar impedir a delação de Delcídio do Amaral.

Rede e PSOL pediram a cassação de Aécio. O PT não assinou o pedido.

Temer e Lula, delatados por Joesley do JBS, defendem-se da mesma maneira, desacreditando a investigação e acusando o delator. Para Lula, a Lava Jato “é uma palhaçada” e Joesley é “canalha” e “bandido”. Temer chama Joesley de “o menino, o grampeador”. E, sobre uma possível delação de seu amigo Rocha Loures, diz que só crê numa hipótese: “Nunca posso prever se ele tiver um problema maior, e as pessoas disserem para ele: ‘olha, você terá as vantagens tais e tais se disser isso e aquilo’”.

Jogo duro

Ambos dizem, com palavras diferentes, que a delação ganharia valor (e os benefício da Joesley e seu irmão Wesley seriam prova disso) se fossem eles os delatados. Sem as acusações contra eles, teriam tantos benefícios?

Fala a defesa

O respeitado advogado José Roberto Batocchio, que defende Lula e Dirceu, vem há tempos criticando (muito antes da Lava Jato) o instituto da delação premiada. Batocchio sustenta a tese de que a delação premiada abre caminho para a “delação a la carte”: o acusado não precisa contar a verdade inteira, mas apenas a parte que interessa à acusação, para obter os benefícios oferecidos – como a liberdade, apesar dos crimes cometidos

Voto…

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral deve ser apertada, para um lado ou outro. PT e Temer jogam juntos – primeiro, na possibilidade de um dos ministros pedir vistas do processo por 30 dias, o que, graças às peculiaridades do sistema jurídico nacional, fará com que o julgamento demore tanto que o mandato de Temer já esteja encerrado, ou se encerrando (e, ao mesmo tempo, que a possível candidatura de Dilma ao Senado, pelo Rio Grande do Sul, já esteja consolidada). E 30 dias são apenas o começo: frequentemente algum ministro demora mais tempo com o processo em suas mãos – prazo que pode ultrapassar um ano.

…a voto

Se nenhum ministro pedir vistas, há um pedido do PT que pode mexer na votação: o pedido para que as delações da Odebrecht e dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura sejam retirados do processo, que deve limitar-se à denúncia formulada pelo PSDB no final de 2014. Esta é uma questão que os ministros devem decidir antes de iniciar o julgamento. Se a tese for aceita, o relator Herman Benjamin terá de retirar de seu voto tudo o que se refira à delação – que deve ser a parte mais contundente. Dilma é a mais beneficiada, porque a delação dos marqueteiros não atinge Temer. Mas a da Odebrecht atinge. De qualquer forma, para Temer é boa qualquer solução que adie e tumultue o processo, o que o beneficiará indiretamente.

Chegando junto

E se o Tribunal Superior Eleitoral decidir cassar a chapa Dilma-Temer, levando a novas eleições (indiretas) para a Presidência? Existe um grupo de trabalho cuidando disso na Câmara Federal: Orlando Silva, do PCdoB, que foi ministro de Lula, Andrés Sanchez, do PT, ex-presidente do Corinthians, e Vicente Cândido, do PT, representam a esquerda na negociação com Rodrigo Maia, presidente da Câmara, do DEM fluminense. O objetivo é colocar Maia na Presidência da República, tendo Aldo Rebelo, do PCdoB, ex-ministro de Lula, como vice. DEM, PT e PCdoB – hoje, tudo a ver.

Diretas, mas não já

O PT faz campanha pela convocação de eleições diretas, caso Temer seja afastado? Faz, no grande palco público, e desfaz no mundo real. Fora a negociação com o DEM, fora a luta para adiar o voto do TSE que poderia derrubar Temer, há uma atitude simbólica de grande efeito: mudou as normas internas do partido, trocando a eleição direta por indireta para presidente da sigla. Isso leva ao comando do PT a senadora Gleisi Hoffmann, do Paraná, que foi ministra de Dilma e é investigada, com autorização do Supremo, por desvio de recursos da Petrobras.

PALAVRÕES AO VENTO

Quem achava que Osmar Serraglio, como ministro da Justiça, não passava de uma nulidade, equivocou-se: passava, sim. Comprovou que, também em questão de caráter, tinha plenas condições de equiparar-se a outros ministros de Temer e Dilma. Seu desempenho na Justiça só não conseguiu reprovação unânime porque foi elogiado por Roberto Requião – ou seja, era pior ainda. E terminou o serviço abandonando Temer, com quem tinha tramado a estratégia para manter o mandato de seu suplente, Rocha Loures, evitando que caísse nas mãos de Sérgio Moro. Gente fina.

Serraglio virou ministro para que Loures (aquele da mala de dinheiro), assumisse sua cadeira de deputado, com foro privilegiado. Talvez Temer achasse que, se até José Eduardo Cardozo foi ministro da Justiça, por que não Serraglio? Temer logo viu o engano. Então resolveu levar Torquato Jardim, bem avaliado, bem relacionado, para a Justiça. E, para garantir o foro de Loures, Serraglio continuaria ministro, agora na Transparência.

Serraglio concordou, deixou que o Governo anunciasse a troca, e recuou, pondo Loures na linha de tiro dos juízes da primeira instância. Aécio Neves, hoje aliado de Temer, definiu-o com palavrões diversos (tranquilize-se: esta coluna é de família, não irá transcrevê-los). Serraglio bem poderia ter assumido: em Brasília, Ministério da Transparência não pode fazer nada. E o ministro seria tão transparente que ninguém o veria.

Perdas, não: ganhos

Com a desistência de Serraglio, Temer nada perdeu: o ministro do STF Édson Fachin decidiu manter o processo de Loures unido ao dele. Temer tem foro privilegiado e Loures fica junto. Só perdeu outra preocupação: um afilhado político de Serraglio, Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, está no alvo da Operação Carne Fraca. Dizem que está disposto a uma delação premiada, atingindo Serraglio. Seria muito ruim para Temer ter outro ministro sob suspeita.

Palavras ao vento

Desde a delação premiada de Joesley Batista, surgiram grandes frases. Quem acompanha a vida de alguns políticos as achará ainda melhores.

Joesley: “Eu dava essa grana toda, mas ficava muito constrangido“.

Renan Calheiros: “Se falar de propina comigo, mando prender“.

Rocha Loures: “Eu não sabia o que tinha na mala”.

Lula: “O PT pode ensinar a combater a corrupção”.

Dilma: “Olha o que eles fizeram com o Brasil

Aécio Neves: “Lamento minha ingenuidade”.

Escuta seu lamento

Quando governador de Minas, Tancredo Neves, avô de Aécio, deu longa entrevista a este repórter. No final, perguntei-lhe qual o melhor telefone para esclarecer alguma dúvida. Tancredo disse que não falava ao telefone.

Por que? “Eu fui ministro da Justiça e sei como são essas coisas”.

Tancredo foi ministro da Justiça até agosto de 1954 – há quase 63 anos. Não havia celulares que gravam e fotografam. Mas ele sabia como eram essas coisas. Seu neto Aécio, hoje, quando gravações e interceptações progrediram um pouco, fala tudo ao telefone. Pelo jeito, herdou do avô aquele belo apartamento no Rio, alguns imóveis e o sobrenome. Só.

Tem motivos para lamentar-se.

As diferenças

Mais uma frase, desta vez do jurista Ives Gandra Martins, sobre o comportamento da Ordem dos Advogados do Brasil:

“A OAB levou dez meses, depois do meu parecer, para pedir o impeachment de Dilma, e 24 horas com uma fita com trechos individuais nos pontos comprometedores, para pedir o impeachment de Michel Temer, no momento em que o Brasil começava a sair do caos petista”.

Ajuste governamental

O novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, em entrevista ao Correio Braziliense, já se mostrou mais adequado ao cargo e ao Governo Temer do que seus antecessores. Tem, por exemplo, uma versão mais palatável do soturno encontro nos porões do Palácio do Jaburu entre o presidente da República e Joesley Batista, que vinha gravá-lo para enriquecer sua delação premiada. Afinal, por que Temer permitiu conversas tão inconvenientes e tolerou, sem reagir, confissões de crimes que o interlocutor lhe narrava?

“O presidente é parlamentar faz 24 anos”, disse Jardim, “e tem a conduta de informalidade própria de quem é do Congresso. Ele tem uma descontração ao encontrar as pessoas, doadores de campanha, empresários… Nesse âmbito é que eu compreendo ele ter recebido o empresário.” Explicar, no caso, é melhor do que negar, ou, como Aécio, lamentar a própria ingenuidade. Acreditar na explicação é outra tarefa.

COMO MENTEM ESSAS VERDADES

Joesley Batista deu pistas do que iria fazer: por exemplo, batizou seu iate (modelo Leonardo, cem pés, ou 30 metros, de comprimento, três andares, o mais caro do estaleiro italiano Azimut) com nome em inglês, Why Not?, e mandou transportá-lo para Miami. O iate vale uns nove, dez milhões de dólares, mas os organismos oficiais que cuidam de exportações não o perceberam, ou não acharam necessário relatar nada, ou a relataram e, como no Governo ninguém conhece Joesley, tudo passou despercebido.

Joesley teve sorte de ser pouco conhecido. Isso lhe permitiu, embora com ordem do presidente Temer, algo difícil: atravessar numa boa as cercas eletrônicas do Palácio do Jaburu, livre de câmeras indiscretas, sem sequer um guarda para pedir-lhe que deixasse na portaria objetos que não deveria levar para uma conversa com o presidente, como celular ou um gravador (que usou para gravar e delatar o amigo). Dá para controlá-los de longe, Joesley sabe. Já comprou em Nova York um vibrador com wi-fi. Ou poderia ter uma arma. Amigo? Tiro de amigo é igual a tiro de inimigo. Uma pistola moderna é leve, silenciosa e faz um tremendo estrago.

Joesley é corajoso: encontrou-se com Temer altas horas da noite, nos porões do palácio. Este colunista só iria a uma reunião assim com alho no bolso. Pense em encontrar Temer no porão, à noite, de terno escuro.

Achou graça nesses absurdos? Não deveria: eles acabam de acontecer.

Verdade é…

Sindicalistas vociferantes, e seus amigos desordeiros mascarados, atacam ministérios, depredam o que podem, incendeiam um deles, fazem o que querem com equipamentos eletrônicos que armazenam a rotina de todo o país. Talvez haja algum serviço interno de combate a incêndios, mas na TV não apareceu. Seguranças? Procure nos orçamentos ministeriais, está lá: empresas terceirizadas de prestação de serviços de segurança (e portaria, e limpeza, etc.). Procure na porta, nos filmes dos tumultos em Brasília, e não encontrará ninguém. O jornalista Luis Mir, em seu livro Guerra Civil – Estado e Trauma, mostra os dados oficiais: proporcionalmente ao número de habitantes, Brasília tem o triplo dos policiais de Berlim. Mas, diante dos vândalos comandados por pelegos, é preciso chamar o Exército.

…a mentira…

A Polícia Militar não sabia de nada. Deveria saber: a data estava marcada. Na véspera das manifestações, a PM interceptou vários ônibus fretados, revistou-os e encontrou armas brancas, porretes, socos ingleses. Parlamentares do PT pediram ao governador de Brasília que as revistas fossem suspensas. O pedido foi negado.

Mesmo assim, surgiram na manifestação bombas caseiras, escudos, muito material de ataque. Como o PT e as centrais sindicais garantiram, depois do tumulto e dos prejuízos, que nada tinham a ver com os vândalos, por que os parlamentares pediram que os ônibus – eram 900, que levaram de 35 a 40 mil pessoas à manifestação – não fossem revistados, isso num momento em que já se sabia que transportavam material para o quebra-quebra?

…que aconteceu

Para o leitor que não está entendendo nada do que acontece (o que é muito justo, já que é complicado mesmo), aqui vai um pequeno resumo:

O Brasil estava indo muito bem, com crescimento sustentável, terra para quem quisesse plantar, terrenos à vontade, bem situados, para construir moradias; agricultura forte, preservação ambiental, qualidade de vida, habitantes orgulhosos do povo e do país.

Então, uma caravela atracou em Porto Seguro e tudo desandou.

Culpa…

A Associação Brasileira de Imprensa acusou a Procuradoria Geral da República por violação do segredo da fonte. Pelo artigo 5º da Constituição, a fonte do jornalista é sigilosa. Se houver processo, ele é que responde. Pois o ministro Edson Facchin liberou o sigilo da delação premiada que atingiu Andréa, irmã do senador Aécio Neves, PSDB. Legalmente, o material que não se referisse ao caso teria de ser destruído. Mas não foi: alguém separou das horas de grampo do telefone de Andréa o trecho em que conversava com o jornalista Reinaldo Azevedo, de Veja e da Rádio Jovem Pan. Justo ele, que vinha criticando a forma das investigações!

…sem culpados

Tanto a PGR quanto a PF concordam: houve quebra do sigilo. Ambas negam ser culpadas. Mas bem que poderiam contar a verdade, mesmo que seja difícil de acreditar. As gravações referentes a Reinaldo Azevedo são espertíssimas e saíram sozinhas do material a ser destruído. Enviaram-se a jornalistas, fingindo que a remessa era de alguma autoridade. Foi assim que tudo aconteceu: ninguém é culpado pela ilegalidade, nem mesmo as gravações desobedientes – pois quem vai julgar a culpa de uma gravação?

TEMER LUTA NA GUERRA ERRADA

Quando Bill Clinton desafiava o prestigiado presidente George Bush (o pai), amplamente vitorioso na guerra contra o Iraque, seu marqueteiro James Carville repetiu até ser ouvido: “É a economia estúpido”. Bush era popular, mas o desemprego era grande e a economia americana ia mal das pernas. Clinton espalhou pelo país seu slogan: “Saddam Hussein manteve o emprego. E você?” Ganhou – e garantiu ao país oito anos de crescimento.

Temer tenta usar o mesmo argumento no Brasil: enquanto se discutem problemas políticos e criminais, a economia volta lentamente a crescer, a inflação caiu abaixo dos 4,5% anuais fixados pelo Governo, as exportações voltam a superar as importações. Mas, como lembrava o primeiro-ministro francês na época da 1ª Guerra Mundial, Georges Clemenceau, o principal erro dos comandantes é lutar numa guerra com as táticas que deram certo na guerra anterior, e já estão superadas. Temer acha que vai ganhar a guerra apresentando bom desempenho econômico. Não vai: nesta luta pelo poder, a guerra não é econômica e o slogan é outro. “É a política, estúpido”.

Temer perdeu um partido médio, o PSB. Seu PMDB está rachado, e a Renan Calheiros o quer com uma estaca de madeira cravada no peito. PSDB e DEM balançam, embora prometam apoio (o presidente nacional tucano, Tasso Jereissati, tem até o nome de seu ministro da Fazenda caso vá para o lugar de Temer: em vez de Meirelles, Armínio Fraga. É o jogo.

Prósperas…

Delação premiada não significa perdão total aos dedos-duros. Nem é feita para atingir um só alvo. Na delação premiada, o delator confessa os crimes que cometeu e indica, com provas, seus companheiros de malfeitos. Vale para todos, não apenas para um dos times. Joesley disse a Temer na gravação, que tinha boas relações com a imprensa e por isso estava livre do noticiário dos avanços da Lava Jato. O fato é que um dos delatores da JBS acusou o jornalista Cláudio Humberto de ter extorquido da empresa R$ 18 mil mensais, para poupá-la em suas publicações. Cláudio Humberto informou que tem um contrato de publicidade com a JBS, neste valor, assinado, registrado e com os impostos devidamente recolhidos. OK, que se investigue o caso (embora sem o foguetório que os inimigos de Cláudio Humberto vêm fazendo). E se investigue também como é que um jornalista, que fazia campanha pública contra Lula na TV, de repente mudou de lado e, sempre na TV, passou a defensor radical de Lula, Dilma e do PT). Como é que outro jornalista enriqueceu ao criar uma espécie de Diário Oficial do PT na Internet. Tem mais, e tem dos dois lados.

…notícias

Um dos empresários mais competentes que este colunista conheceu costumava dizer, quando lhe diziam que alguém enriqueceu honestamente, que “ninguém enriquece honestamente”. Em seguida, ria muito. Ele era empresário, tinha enriquecido e sabia direitinho como o mundo funcionava. E acreditaria menos ainda se lhe dissessem que um grupo empresarial enriquecera honesta e rapidamente, tendo acesso a gordos cofres públicos.

Religião atacada

Aonde vai a barbárie: uma linda canção cristã, Amazing Grace, de John Newton, é espalhada na Internet com uma letra falsa, de Marcos Borkowski, louvando guerras e combates e terminando com um apelo à intervenção constitucional no Brasil, seja lá isso o que for. (Clique aqui para ler)

Ninguém é santo

Comentário de Sérgio Fadul, diretor da Sucursal de O Globo em Brasília: “Joesley preparou uma armadilha e Temer caiu. Não há inocentes nessa conversa. Ali, quem falou sabia o que estava falando, para quem estava falando e por que estava falando. Joesley não queria Justiça, queria arrumar um cúmplice e conseguiu. Para o presidente, político experiente e profundo conhecedor das normas legais, o tom de informalismo que tenta dar ao encontro não combina com a imagem que construiu de homem público cioso dos protocolos de postura. Ali, na conversa, ficam expostos os ‘usos e costumes’ que comandam a política e alguns empresários.”

Não dá vontade de ter assinado este comentário?

Ponto final?

Um dos alvos mais resistentes do Ministério Público sofreu dura derrota: Paulo Maluf foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, por 4×1, por lavagem de dinheiro. Pena: 7 anos, 9 meses e dez dias de prisão em regime fechado. O único a votar contra foi Marco Aurélio Mello, para quem o crime atribuído a Maluf prescreveu. Maluf foi acusado de lavar dinheiro desviado da Prefeitura de SP entre 1993 e 1996.

IDEAIS ALTAMENTE LUCRATIVOS

Primeiro, Michel Temer errou ao dar conversa demais a um cavalheiro que sempre usou a política para abrir portas. Segundo, erramos nós, jornalistas, que demos crédito a uma transcrição de gravação que não era fiel à gravação, mas lhe atribuía um viés (inexistente) anti-Temer. Com a sucessão de erros, o país mergulhou numa crise em que não se vê saída.

E, já que falamos de quem errou, falemos também de quem acertou e lucrou com a crise. A gravação da conversa de Joesley Batista com Temer foi feita uma semana depois que a Operação Carne Fraca revelou que o império JBS era investigado. O império contra-atacou, armando a delação premiada. Ainda aproveitou para lucrar com isso: vendeu pouco mais de R$ 300 milhões em ações, sabendo que o preço desabaria com a confissão de irregularidades – na quinta-feira, 18, a queda foi de 9,68%. E comprou grande quantidade de dólares (algo como US$ 1 bilhão, segundo o jornal Valor Econômico). Com o presidente da República em xeque, o dólar subiria. Subiu 17% – ampliando o lucro da delação em US$ 170 milhões.

Como ensinou um intelectual de gênio, Millôr Fernandes, “desconfie de todo idealista que lucre com seu ideal”. Mas o lucro não parou por aí: com a delação premiada, Joesley Batista ganhou o direito de morar nos Estados Unidos, num excelente apartamento, sem tornozeleiras, sem nada. Multa? Foram R$ 250 milhões, menos que o lucro com a compra dos dólares. E só.

Mal comparando

Nas operações conduzidas por Curitiba, quem confessou seus crimes em delação premiada foi menos beneficiado. Marcelo Odebrecht, que acusou tanta gente, pegou dois anos e meio de prisão em regime fechado (que terminam no fim deste ano), e cumprirá o restante dos dez anos da pena em regime semiaberto e aberto. Joesley e seus principais executivos, morando nos EUA, simplesmente transferem o comando do grupo para lá.

Fernando Albrecht, ótimo colunista gaúcho, lembra que o primeiro delator premiado da História do Brasil foi Joaquim Silvério dos Reis, que entregou Tiradentes e demais companheiros de Inconfidência Mineira, recebeu em troca o perdão das dívidas com a Coroa. E ficou 11 anos e meio em regime fechado, na Ilha das Cobras, Rio.

Sobra para todos

O primeiro a ser atingido pela delação premiada da JBS foi Temer (que, entretanto, tem margem para se defender, já que na gravação não há nada explícito recomendando atos fora da lei); o mesmo tiro acertou Aécio Neves, que logo renunciou à presidência nacional do PSDB, e sua irmã Andréia Neves, que foi presa. Fala-se que é a maior das delações, superando a da Odebrecht, e atinge gente importante da maioria dos partidos. Pois é: citando de novo o ótimo Millôr Fernandes, “os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil”.

Onde está a saída? Ficar

Agora, que é que pode acontecer? Com o Governo, duas possibilidades: sai ou fica. Fica em uma de duas situações: ou convence boa parte do eleitorado de que as frases de Temer não tiveram o significado que lhes foi atribuído inicialmente e consegue arrostar a fúria da oposição, até hoje sedenta de vingança pela expulsão de Dilma, ou não é convincente, mas se mantém na base do “falta pouco tempo”, ou “neste Congresso em que há tantos suspeitos, quem elegerá o novo presidente”, tudo acompanhado de generosa oferta de cargos e privilégios. Nesse caso, será o que nos EUA chamam de “lame duck”, um pato manco, que preside mas não governa.

Onde está a saída? Cair

Temer pode se sentir fragilizado, ou ser abandonado por seus colegas de Governo, e renunciar. Mas há um problema: perde o foro privilegiado e exposto ao juiz Sérgio Moro. Ou o TSE pode cassar o registro da chapa Dilma-Temer, por abuso de poder econômico e político. Nos dois casos, como não há vice, o Congresso tem 30 dias para eleger indiretamente o substituto. Nesse prazo, assumiria o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; ou, em sua ausência, o presidente do Senado, Eunício Oliveira. Ambos, porém, têm problemas no Supremo, e podem ser impedidos de assumir. Assumiria então a presidente do Supremo, Carmen Lúcia. Temer também pode sair por impeachment, mas isso levaria praticamente um ano: o eleito governaria por seis meses, ou pouco mais. A ideia da eleição direta é inviável: aprovar uma emenda à Constituição, realizar a campanha e finalmente colher os votos é muita coisa para o prazo disponível.

Todo lado!

Lembra do procurador da República Ângelo Goulart Vilela, que falou na Câmara sobre as virtudes das Dez Medidas Contra a Corrupção, propostas pelo Ministério Público Federal? Foi preso no dia 18, por suspeita de passar a Joesley Batista, do JBS, informações a respeito da investigação sobre ele.

DE CURITIBA A BRASÍLIA

A sentença de Lula deve ser anunciada até o início de julho, se o juiz Sérgio Moro mantiver seu rápido ritmo de decisão. Caso seja condenado, Lula irá recorrer ao Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, que costuma decidir em um ano. Se condenado, Lula irá para a cadeia? Talvez não: um condenado em segunda instância pode ser preso, mas isso não é obrigatório. A Justiça pode aplicar a pena só após o trânsito em julgado, no Superior Tribunal de Justiça. Aliás, isso não tem muita importância. Ninguém, exceto os mais ferozes inimigos do PT (e boa parte da opinião pública), quer ver Lula em Curitiba. O que não se quer é vê-lo em Brasília.

O nome do jogo é outro: se Lula conseguirá ou não ser candidato à Presidência da República. Condenado em segunda instância, não poderá concorrer. Mas a condenação, para evitar que ele apareça como vítima, deve ocorrer antes que se inicie o prazo legal para registro de candidaturas, em agosto de 2018. Os prazos, portanto, são a chave da história.

Se Lula for candidato, terá dificuldades para se eleger. Lidera com folga as pesquisas de opinião, mas não o suficiente para ganhar no primeiro turno. E metade do eleitorado o rejeita, o que pode ser decisivo num eventual segundo turno. Mas quem conseguiu eleger até Dilma e Haddad pode dar a vitória a um candidato mais competitivo – ele mesmo. Pelo sim, pelo não, os adversários de Lula preferem que ele fique longe das urnas.

O abecedário petista

Se Lula não for candidato, quem sairá pelo PT? O partido nega que esteja pensando nisso. Mas tenta um Plano B, sim: o nome mais citado, por incrível que pareça, é o de Fernando Haddad, que deixou a Prefeitura paulistana com rejeição recorde e não conseguiu a reeleição. Há quem sugira o ex-governador baiano Jaques Wagner, houve quem pensasse no governador mineiro Fernando Pimentel. Mas Wagner tem ampla troca de mensagens com Leo Pinheiro, então presidente da OAS, sobre liberação de pagamentos; e Fernando Pimentel é alvo de delações premiadas.

O abecedário tucano

O PSDB, que desde o fim dos mandatos de Fernando Henrique manteve três candidatos à Presidência da República, uns abandonando os outros e sendo alternadamente surrados nas eleições, enfim pensa num Plano B: sem Aécio, nome constante de delações premiadas, e sem Serra, também delatado e com problemas de coluna (que, segundo disse, o levaram a renunciar ao Itamaraty), dos TCS (Três Candidatos de Sempre) só restou Geraldo Alckmin. Mas Alckmin não desperta grandes entusiasmos desde que, nas eleições de 2006, teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. O Plano B dos tucanos é João Dória Jr., que vem tendo forte aprovação popular como prefeito de São Paulo. Dória foi lançado por Alckmin para disputar a Prefeitura, e já disse muitas vezes que Alckmin é seu nome para a Presidência. Mas, se continuar crescendo, pode ser candidato. Dória não tem esquema montado no partido, porém já disse que o melhor candidato para os tucanos é o que tiver melhores condições de vencer. Em política, o cheiro da vitória é o mais atraente que existe.

O abecedário dos outros

Tirando PT e PSDB, nenhum partido mostrou musculatura suficiente para disputar bem a Presidência. O PMDB é forte, mas não tem candidato (e Michel Temer, hoje com baixa popularidade, dificilmente se arriscaria a sair). Ciro Gomes sonha com a candidatura, pelo seu PDT, ou algum outro; Jair Bolsonaro quer ser candidato pelo PSC (embora brigado com a cúpula partidária). Há candidatos nanicos, como sempre. Há outras possibilidades, mas só nos sonhos de alguma legenda, sem nada articulado, como Sérgio Moro, Joaquim Barboza, ministra Carmen Lúcia ou Luciano Huck.

Firmes…

Um fator novo é a cada vez mais possível delação de Antônio Palocci. Palocci é gente de dentro; conhece hábitos, costumes, manias, vícios do pessoal do PT, do Governo e dos aliados; sabe quem doou e quem levou, como o dinheiro foi ganho e foi gasto. Mônica Moura e João Santana, os marqueteiros de Lula e Dilma, íntimos dos hábitos eleitorais do Planalto, fizeram delações devastadoras. Palocci, além de íntimo, foi coordenador de campanha, foi ministro da Fazenda, foi a conexão entre o PT e os grandes empresários. Ele sabe o que todos fizeram no verão passado.

…como geleia

E tudo depende, enfim, de investigações e de decisões judiciais. Nos dias 6, 7 e 8 de junho, o Tribunal Superior Eleitoral decide se cassa ou não o registro da chapa Dilma-Temer por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2014. Se o registro for cassado, Temer perde o cargo e o Congresso elege quem completará seu mandato. Quem? O TSE levará em conta que o Congresso está cheio de parlamentares sob investigação?

ESTÁ CHEGANDO A HORA

Lula finalmente prestou depoimento a Sérgio Moro. Encontraram-se em pessoa, falaram olhos nos olhos. Nada aconteceu de espetacular. Não houve briga de torcidas em Curitiba, nem troca de ofensas entre depoente, juiz e promotores. Quem achava que Lula é culpado continua achando, quem achava que Lula é inocente não mudou de ideia. Assunto encerrado.

Encerrado, pois a disputa hoje é menos no campo jurídico do que no eleitoral. É difícil acreditar que tantos delatores diferentes façam descrições tão parecidas do método petista de redistribuir a renda dos outros se algo não for verdade – e sabendo que, se mentirem, perderão as vantagens que já obtiveram e ficarão na cadeia. Lula, no depoimento, vacilou algumas vezes: garantiu que não tem influência no PT, nem no Instituto Lula, e que sua esposa decidia negócios de centenas de milhares de reais sem consultá-lo. Moro, um juiz duro, certamente esteve atento a esse tipo de detalhe.

A sentença de Moro, com possível condenação, deve sair em junho. Lula terá uns 13 meses até que o PT o lance candidato à Presidência da República. Mas, nesse período, se o Tribunal Regional Federal confirmar uma eventual condenação, Lula vira ficha suja e fica inelegível. Os magistrados poderão até permitir que se defenda em liberdade até o processo transitar em julgado, mas ele não poderá ser candidato. E, com o número de processos que sofre, eleger-se presidente é sua única boa saída.

Nus, em segurança

Detalhe saboroso da delação do marqueteiro João Santana e de sua esposa, Mônica Moura: o líder do PT no Senado, Delcídio do Amaral, exigiu que parte das contribuições de empreiteiras à sua campanha fosse depositada em conta clandestina no Exterior. A negociação foi feita na sauna da casa de Delcídio, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Justo: na sauna, nenhum negociador teria como ocultar gravadores ou câmeras.

Vantagem extra

E ninguém teria como botar a mão no bolso dos outros.

Odebrecht? Café pequeno

Marcelo Odebrecht e seus 77 diretores fizeram uma radiografia notável da circulação de dinheiro não só em campanhas eleitorais, mas também como retribuição a atitudes amigáveis dos poderosos da época. Mas nada foi tão espetacular como a delação premiada de João Santana e Mônica Moura: enquanto a Odebrecht se aproximava dos cofres públicos de maneira protocolar – heterodoxa, sim, mas protocolar – João Santana e Mônica Moura é como se fossem da família, conheciam tudo por dentro. Surgiram então as bombas: a narrativa de Mônica segundo a qual o ministro da Justiça de Dilma, José Eduardo Cardozo, contava à presidente tudo que conseguia saber – e não deveria saber, quanto mais espalhar – sobre as ações da Polícia Federal na Lava Jato; e como Dilma, operando um e-mail falso, passava as informações sigilosas aos marqueteiros. Nas duas delações, ambos garantiram que Lula e Dilma sabiam tudo sobre as doações premiadas, e que Lula era o comandante-chefe do esquema – “a instância final”, como o chamavam. E que Dilma, quando tinha uma informação sigilosa a passar-lhes, sem risco de ser interceptada, levava Mônica para passear numa varanda ou nos jardins do palácio.

Detalhes saborosos

Algumas despesas que, conforme Mônica Moura, Dilma Rousseff lhe pediu para pagar: ao cabeleireiro, R$ 40 mil; a uma dama de companhia, R$ 4 mil mensais durante quase um ano; a um operador de teleprompter, (aquele vídeo em que corre o texto para quem fala na TV) R$ 95 mil. A Secretaria de Comunicações tem operadores de teleprompter, a EBC tem operadores de teleprompter, mas Dilma só aceitava um, e pagava por fora.

Carne queimando

A Operação Bullish (referência ao nome em inglês de manobras para elevar o preço de ações em bolsa) atinge a J&F, dona do JBS, maior produtor mundial de carne bovina. Mas a Polícia Federal investiga principalmente como é que o BNDES Participações entrou com mais de R$ 8 bilhões para financiar o crescimento do grupo. É operação para ir longe.

Sem fantasia

O programa de TV do PSDB foi muito interessante: insistiu na ética. Um dos políticos que mais destaque obtiveram foi o presidente nacional do partido, senador Aécio Neves, atingido por delações premiadas. E, segundo depoimento de Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, foi apontado por José Dirceu como responsável pela nomeação de uma pessoa de sua confiança numa diretoria da empresa. Aécio não falou sobre isso. O partido, ao que se saiba, ainda não buscou apurar como um dos principais dirigentes da oposição conseguiu nomear gente sua num Governo petista. A troco de que? A propósito, quem é que Aécio teria indicado?

O ENCONTRO MARCADO

Hoje é o dia que o ex-presidente Lula tanto lutou para adiar: chegou a hora da jararaca beber água. Rejeitado pelo Tribunal Regional Federal o pedido para que houvesse novo adiamento do encontro marcado, o juiz Sérgio Moro recebe o depoimento de Lula sobre seu relacionamento com a empreiteira OAS, o apartamento tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia.

Há um Carnaval fora de época em Curitiba. Segundo a Polícia Federal, 60 ônibus de petistas chegaram à cidade. Há também o pessoal do MST de Foz do Iguaçu, que foi chegando aos poucos. E os parlamentares: metade da bancada de deputados federais (cerca de 30 em 58), nove senadores de um total de 11. Não se sabe exatamente quem pagou os ônibus, as refeições dos militantes, seus símbolos de luta (facões e foices em quantidade foram apreendidos pela Polícia curitibana). Já sobre o pagamento de passagens aéreas, hospedagem e alimentação dos dirigentes petistas não há qualquer dúvida: quem paga os caríssimos parlamentares é nosso caro leitor.

Gleisi Hoffmann em Curitiba

Gilberto Carvalho, que fez parte dos governos de Lula e Dilma, diz que a militância petista está em Curitiba apenas para manifestar solidariedade a Lula, e que não haverá qualquer tumulto. Mas há gravações do dirigente de um partido de ultraesquerda a respeito da boa oportunidade de iniciar uma rebelião popular em Curitiba. E o senador Tião Viana sugeriu a Lula que desacate Sérgio Moro, para ser preso e politizar de vez o julgamento.

Dia D…

Lula enfrenta uma situação difícil no depoimento: os empresários Emílio Odebrecht, Marcelo Odebrecht, José Carlos Bumlai e Léo Pinheiro, da OAS, mais o marqueteiro João Santana e sua esposa Mônica Moura, fizeram delações que o deixam mal. Delação não é prova; é apenas uma pista para facilitar as investigações. Mas, se as delações forem mentirosas, seus autores estarão sujeitos a pesadas penas, das quais só estariam livres se tivessem contado a verdade. Por isso, boa parte dos petistas recomendou que se tentasse transferir a discussão jurídica para o lado político, em que Lula se apresentasse como candidato à Presidência perseguido pelas elites. É o que vem sendo feito: Lula e seus defensores conseguiram até, algumas vezes, irritar o juiz Sérgio Moro, para caracterizá-lo como inimigo.

…Hora H

Do ponto de vista da defesa, a politização do caso é correta, até porque Lula tem insistido num único argumento para defender-se: o de que nada do que usufrui é de sua propriedade, pertence a amigos que o convidam. Mas há um obstáculo: se condenado na primeira instância pelo juiz Sérgio Moro, num julgamento que pode ocorrer rapidamente (o depoimento de hoje é um dos últimos do processo), e tiver a sentença confirmada pelo Tribunal Regional Federal, em segunda instância, poderá ser preso imediatamente; e, de qualquer forma, como “ficha suja”, será inelegível. A defesa de Lula apostou nos adiamentos, para que a candidatura seja oficialmente lançada antes do julgamento do recurso. Ficaria difícil, politicamente, condená-lo: pareceria que a condenação só teria como objetivo impedir que ele se candidatasse. Mas, se a condenação em segunda instância for mais rápida, seria impossível sacramentar a candidatura.

Relembrando

O colunista Ricardo Noblat, repórter que há muitos anos acompanha a movimentação política em Brasília, conta a seguinte história: “Em dezembro de 1989, poucos dias após a eleição do presidente Fernando Collor de Melo, o deputado Ulysses Guimarães (PMDB-SP), ex-condestável do novo regime, almoçava no restaurante Piantella, em Brasília, quando entrou a cantora Fafá de Belém, amiga de Lula. ‘Como vai Lula?’, perguntou Ulysses. Fafá passara ao lado dele o domingo da sua derrota para Collor. E contou: ‘Lula ficou muito chateado, mas começamos a beber e a comer, os meninos foram para a piscina e ele acabou relaxando’. Ulysses quis saber: ‘Tem piscina na casa de Lula?’ Fafá explicou: ‘Tem, mas a casa é de um compadre dele, o advogado Roberto Teixeira’. Ulysses calou-se. Depois comentou com amigos: ‘O mal de Lula é que ele parece gostar de viver de obséquios’. Na mosca!”

Roberto Teixeira e Lula: bons amigos

Só Lula? E Aécio?

Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, citou em sua delação premiada uma série de histórias altamente desfavoráveis a Lula. Mas não falou só de Lula: disse que ganhou o cargo (no qual comandou alentado esquema de propinas, pixulecos e acarajés) após uma disputa que foi resolvida pelo então chefe da Casa Civil e homem-forte do Governo Lula, José Dirceu.

Segundo Duque, Dirceu disse que o candidato que concorria com Duque não poderia ser nomeado, porque era uma indicação de Aécio Neves, do PSDB. E Aécio já tinha conseguido dele, Dirceu, a nomeação de um aliado na Petrobras, então não levaria outro cargo. Aécio Neves. Pois é.

AS PROVAS DE FOGO

A libertação de José Dirceu, certa ou errada, gera um debate de curta duração: dentro de pouco tempo o Tribunal Regional Federal do Paraná julgará o apelo de Dirceu. Se o absolver, Dirceu continua em liberdade, inocentado neste caso, esperando o julgamento de outros processos. Se o condenar, Dirceu volta à prisão para cumprir pena de quase 21 anos, menos o que já foi cumprido e os abatimentos legais. Ele pode fazer as proclamações revolucionárias que quiser que isso não muda sua situação.

Mas a luta dos alvos da Lava Jato com a Justiça continua quentíssima. Lula deve prestar depoimento a Sérgio Moro nesta quarta.. Tema: o apartamento no Guarujá e o sítio em Atibaia. A suspeita é de que os imóveis sejam parte de uma propina. Há manifestações organizadas dos dois lados, e a Polícia quer mantê-las separadas: pró-Lula, na rua 15 de Novembro; contra, no Centro Cívico. Haverá bloqueios a 150 metros da Justiça Federal de Curitiba. Só entra quem tiver relação com o depoimento.

Antônio Palocci, que talvez opte pela delação premiada, deve ser ouvido sete vezes por Moro: nos dias 8, 9, 22, 24 e 26 de maio, 5 e 7 de junho. Palocci, ministro de Lula e Dilma, é acusado de receber quase R$ 50 milhões em propinas do Petrolão, disfarçadas de serviços de consultoria.

Há ainda as novas revelações de Renato Duque e outros empresários querendo entrar na lista de delatores. Há dias muito quentes pela frente.

É tudo política

Tanto Dirceu quanto boa parte do PT (há alas petistas que abandonaram Dirceu quando foi preso e ainda não se reaproximaram dele) acreditam que sua melhor defesa é politizar o julgamento – antes ser preso com imagem de revolucionário do que como corrupto. Dirceu saiu da prisão propondo que o PT faça agora o que não fez em 13 anos de Governo: “Nada será como antes e não voltaremos a repetir os erros. Voltaremos com um giro à esquerda para fazer as reformas que não fizemos na renda, riqueza, poder, a tributária, a bancária, a urbana e a política. Não se iludam vocês e os nossos. Não há caminho de volta. Quem rompeu o pacto que assuma as consequências”. Gilberto Carvalho, do núcleo duro de Lula e Dilma, ameaça: “Se vierem para atacar, disseminando o ódio, vamos acionar a nossa militância”. Uma dúvida: que pacto é esse de que fala Dirceu? Que é que foi pactuado, e com quem? Exceto, claro, as empreiteiras?

Dilma em risco 1

Mônica Moura, esposa de João Santana, o marqueteiro de Dilma, colocou-a numa situação perigosa: em sua delação premiada, disse que Dilma e ela tinham um meio seguro de comunicação (uma conta de e-mail, com nome falso, da qual só as duas tinham a senha. O e-mail, escrito como rascunho, não era enviado. Quem tinha a senha o abria, lia e assumia o compromisso de apagá-lo). Segundo Mônica, Dilma a avisou de que ela e o marido estavam na mira da Operação Lava Jato. A presidente teria também uma linha desse tipo com o empreiteiro Marcelo Odebrecht, usando-a para informá-lo dos avanços da Lava Jato; e, muitas vezes, teria usado o notebook de Mônica para enviar mensagens ao empreiteiro. O notebook foi entregue por Mônica Moura à Polícia Federal, para perícia.

Esta parte da delação é fácil de confirmar: o notebook guarda registros de mensagens apagadas. O computador abre o local da mensagem para outras gravações, mas só a apaga quando vem nova gravação por cima.

Se isso for verdade, Dilma pode ser acusada de obstrução da Justiça.

Dilma em perigo 2

Pior será se a ex-presidente utilizou computadores do Governo para trocar esse tipo de mensagens. É agravante.

Governos em risco

1 – O Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato do governador do Amazonas, José Melo (PROS), e do vice Henrique Oliveira, por compra de votos nas eleições de 2014. Foram convocadas novas eleições.

2 – A Procuradoria Geral da República pediu ao TSE a cassação do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), e da vice Lígia Feliciano (PDT), por abuso de poder político. Segundo o procurador Nicolao Dino, o governador concedeu reajustes de R$ 7,2 milhões, pouco antes das eleições de 2014, a aposentados e pensionistas, via PBPrev. Foi pedida também a condenação do superintendente da PBPrev na época, Severino Ramalho Leite. Coutinho já tinha sido julgado e absolvido pelo TRE da Paraíba.

3 – A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio pediu ao TSE que seja mantida a cassação do governador Pezão (PMDB) e do vice Francisco Dornelles (PP), condenados pelo TRE por abuso de poder econômico: concessão de benefícios a empresas em troca de doações posteriores.

4 – O Supremo autorizou processos contra 12 governadores. Outro já foi cassado. É quase metade do número de governadores do país.

MAS A FESTA CONTINUA

Deve ser terrível acordar cedinho com o Japonês da Federal tocando a campainha, não? Talvez seja menos mau do que pensamos. Como não disse Belchior, nossos governantes ainda são os mesmos. Esta é a terra de Cabral – de Sérgio Cabral. E Cabral não é o único a gostar de ostentação.

Neste fim de semana, casou-se a filha do governador (tucano) de Goiás, Marconi Perillo. O governador ergueu em sua fazenda, para o casamento, uma réplica da bela igreja de Pirenópolis, cidade histórica de Goiás. Decorou-a com R$ 680.000,00 de flores; serviu aos 350 convidados (entre eles os casais Geraldo Alckmin e João Dória Jr., que viajaram de jatinho) champanhe Veuve Clicquot, vinho Don Melchior (nos dois casos, há melhores, mas ambos são ótimos), lagostas, flores comestíveis, tudo preparado por um bufê de Brasília. Goiás tem bons bufês, mas não deve ser esta a opinião do governador de Goiás; como Goiás tem a igreja original de Pirenópolis, mas quem quer casar a filha num lugar ao qual tem acesso o povo que o elegeu? E se de repente alguém fala da Lava Jato? Segundo a delação da Odebrecht, Perillo recebeu R$ 8 milhões, caixa 2 – por fora.

Uma festa espetacular da filha caçula do senador Delcídio do Amaral (PT) foi o primeiro sinal de que o padrão de vida de Sua Excelência tinha melhorado. Ele perdeu o mandato, foi preso, virou delator para conseguir prisão domiciliar. Mesmo assim, quem tem medo do Japonês da Federal?

Quero ver você não sonhar

É gostoso ver uma festa bonita, bem decorada, com gente bem vestida. O vídeo do casamento está aqui. As fotos do pessoal elegante, comendo e bebendo bem, estão aqui.

Dinheiro vem, dinheiro vai

1 – O Governo Federal enfrenta um tremendo déficit orçamentário, mas prevê gastar neste ano R$ 200 milhões com propaganda. O Governo disputa o mercado? Para que propaganda – exceto a obrigatória (editais, etc.) e de temas de interesse público (campanhas de vacinação, problemas com serviços essenciais)? Se o Governo é bom ou não, o eleitor que decida.

2 – A Câmara Municipal de São Paulo está gastando pesado com propaganda. Ao que se saiba, não tem concorrentes. Para que anunciar?

Dinheiro entra…

A Câmara Federal decidiu enviar onze deputados para Barcelona, Atenas e Londres. Exilados? Não: para tomar conhecimento do legado olímpico de cada cidade. Por que não estudar o tal legado antes das Olimpíadas do Rio?

…dinheiro sai

O Brasil está há um ano sem vice-presidente da República, desde que o vice Michel Temer passou a presidente. Mas, só nos primeiros três meses de 2017, a vice-presidência já nos custou R$ 370 mil. Uma das despesas do gabinete: R$ 72 mil com uma empresa de terceirização. No gabinete, diz a Folha de S.Paulo, há uma pessoa, com R$ 2 mil e pouco de salário.

Mudando de conversa

O segundo maior município de São Paulo, Guarulhos, tem dívidas que superam de longe a previsão orçamentário deste ano. A informação é do prefeito Gustavo “Guti” Costa, PSB, eleito como boa novidade na política da cidade Ao assumir, Guti disse que um aterro sanitário municipal, a ser operado pela Multilixo, era um problemão que a gestão anterior lhe havia deixado: há especialistas em Direito Ambiental apontando irregularidades no projeto, a empresa operadora tem experiência em coleta, não em gestão de aterros. Mas o prefeito, depois e assumir, já se mostrou flexível: declarou-se disposto a gastar mais R$ 130 milhões na ampliação do aterro.

…da onça beber água

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, já havia cantado a bola no início do ano: o STF teria um encontro com as alongadas prisões (sem prévia condenação) dos juízes de primeira instância – em especial de Sérgio Moro. O STF já havia mandado libertar dois presos que tinham o direito de recorrer em liberdade, e manteve na terça a mesma posição, determinando a soltura de José Dirceu. Dirceu foi condenado, mas pode recorrer em liberdade; e estava em prisão preventiva, ordenada pelo juiz Sérgio Moro. Na opinião dos três ministros que votaram pela libertação, a prisão preventiva não pode servir como antecipação de pena.

A hora da fogueira

O noticiário dos próximos dias vai girar em torno de Dirceu: a ordem de soltura, o novo pedido de prisão preventiva, especulações sobre o efeito da libertação de judeu sobre Antônio Palocci, que, segundo se comentou, estaria disposto a fazer delação premiada para sair da cadeia. Mas essa discussão termina na sexta, quando Renato Duque, ex- diretor de serviços da Petrobras e homem-chave no Petrolão, deve ser interrogado por Moro.

Promete contar tudo sobre propina.

AJUSTE-SE À JUSTA JUSTIÇA

Este colunista discorda de uma das principais reivindicações da oposição: a que rejeita modificações na Previdência e exige uma aposentadoria mais justa. Aposentadoria mais justa, acha o colunista, seria uma pensão equivalente ao último salário recebido na ativa, mais uma porcentagem que compense o aumento inevitável de gastos dos idosos.

O problema é que não há dinheiro para isso. A questão sai da esfera da justiça e passa ao setor a que efetivamente pertence, o econômico. Há dois tipos de aposentadoria: o que usamos, de repartição simples (quem trabalha paga, e os aposentados recebem. Cada geração paga a aposentadoria da anterior); e o de capitalização (o desconto de cada assalariado vai para uma conta em seu nome e é investido. Como num fundo de pensão, os rendimentos são somados ao capital. Na aposentadoria, o cidadão passa a receber parcelas de seus investimentos). Cada sistema tem virtudes e defeitos. Ambos são limitados pelo comportamento da economia. Ambos podem ser bem ou mal geridos. Na capitalização, os aposentados recebem mais, ou menos, conforme a gestão. No nosso caso, quem cobre os buracos é o Tesouro, e surgem as reformas para que a Previdência sobreviva. No Governo Fernando Henrique, houve o fator previdenciário; agora, é o aumento do tempo de contribuição para se aposentar. Nos dois casos, não se fala em justiça. Nos dois casos, a correia sai do couro. Do aposentado.

Inúmeros números

As centrais sindicais dizem que 40 milhões de brasileiros cruzaram os braços em adesão à greve geral. O Governo, extraoficialmente, fala em meia dúzia de gatos pingados, que bloqueou os transportes para impedir que a população chegasse ao trabalho. Ambos os lados têm sua parcela de razão: houve sindicatos que fizeram greve, muitas escolas de classe média alta que aderiram; houve agressões a quem queria trabalhar (no aeroporto de Santos Dumont, no Rio, por exemplo), e ações de combate urbano na tentativa (quase sempre fracassada) de bloquear o trânsito. Em boa parte dos casos, não houve greve, mas violência para bloquear não grevistas.

Greve de cima

O mais curioso na greve foi a adesão, disfarçada ou não, de entidades de Estado. Os tribunais regionais do trabalho de Minas, Bahia e Rio Grande do Sul suspenderam o expediente, liberaram servidores, adiaram os prazos que venceriam na sexta para o primeiro dia útil seguinte (terça-feira). O TRT baiano suspendeu o expediente em todo o Estado, “por segurança institucional de magistrados, servidores, advogados e cidadãos”. Desobedeceram à ordem expressa do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra, para que os TRTs funcionassem normalmente. O TRT gaúcho foi além: explicou sua decisão de não funcionar “levando em conta as manifestações de entidades que expressaram repúdio às reformas”.

Maldade

Mas a participação na greve nada tem a ver, com certeza, com o feriadão que vai até amanhã, 1º de Maio. Com a greve, o feriadão acabou virando um superferiado, com quatro dias de duração.

Cuidado com a festa

O foro privilegiado, alvo de tantas queixas nos últimos tempos, sofreu duro golpe nesta última semana: foi derrubado no Senado, em primeira votação, mantendo-se apenas para os chefes dos três poderes. Mas ainda não é hora de festejar: eliminado o foro privilegiado, quem está sendo processado em tribunais superiores será enviado aos juízes de primeira instância. Pode ser bom para os processados, com reabertura de prazos, etc., e a possibilidade de recorrer à segunda instância e, eventualmente, de chegar ao Supremo de novo, passados alguns anos. Há outros problemas, de hierarquia: pode um ministro do Superior Tribunal de Justiça ser processado por um juiz hierarquicamente inferior? Talvez essas questões atrapalhem o bom andamento da Justiça ainda mais que o foro privilegiado – e talvez esse tipo de problema seja levado ao Supremo.

Quem cai com a Odebrecht

A situação financeira do grupo Odebrecht vem sendo discretamente acompanhada e discutida pela área econômica do Governo. A preocupação não é exatamente com a Odebrecht, mas com sua dívida superior a R$ 100 bilhões. Se a empresa não conseguir pagar esses débitos, vai atingir pesadamente o balanço dos bancos que lhe fizeram empréstimos. E as despesas continuam altas: os 77 executivos que concordaram em fazer delações premiadas receberam, em troca de seu afastamento da empresa, a promessa de indenizações substanciais. Enfrentando problemas e multas no Brasil e no Exterior, onde irá a Odebrecht buscar mais dinheiro?

Não é no BNDES, que já deu R$ 100 bilhões de subsídios, nos últimos nove anos, às empresas “campeãs nacionais” escolhidas pelo Governo.

RATOEIRA DESPOVOADA

Diziam os políticos que, quando o poder chega ao fim, até o cafezinho, quando vem, vem frio. As coisas mudaram: hoje, quando se acaba a capacidade de ofertar agrados, nem há para quem servir o café. E o pessoal tem bom faro – percebe com antecedência a hora de abandonar o navio.

Dia 21: o governador mineiro Fernando Pimentel, o último seguidor de Dilma, faria farta distribuição de Medalhas da Inconfidência. Faria: os governadores do Maranhão, Flávio Dino; do Acre, Tião Viana; e da Bahia, Rui Costa, não apareceram. Marieta Severo, Wagner Moura, Camila Pitanga e Gregório Duvivier, artistas petistas ativistas, não apareceram. Lula faltou à cerimônia. São amigos, mas sabem o que lhes convém.

Dia 24: a Procuradoria Geral da República pediu ao Superior Tribunal de Justiça que abrisse inquérito sobre Fernando Pimentel, em consequência das delações premiadas do pessoal da Odebrecht. Pouco depois, a Polícia Federal indiciou a jornalista Carolina Pimentel, esposa do governador, por participação em lavagem de dinheiro e crime eleitoral. O indiciamento teve base na Operação Acrônimo, que desde maio de 2015 investiga a possibilidade de tráfico de influência na liberação de empréstimos do BNDES e esquemas de lavagem de dinheiro em campanhas eleitorais.

E pensar que, não faz muito tempo, quando jorravam as benesses, o navio mal se aguentava com o peso de tantos obscuros habitantes do porão!

Há quem queira

É maldade dizer, entretanto, que todos os políticos condecorados por Fernando Pimentel se esquivaram da homenagem. Os petistas e o comunista Dino, sim. Mas Renan Calheiros Filho pegou sua condecoração.

Bola com Dilma

A ex-presidente Dilma Rousseff sempre disse que nada tinha a ver com a corrupção, e que tudo aquilo não era de seu conhecimento. Mas a delação premiada de seu marqueteiro, João Santana, e de sua esposa e sócia, Mônica Moura, é clara: ambos afirmam que Dilma, em 2014, sabia dos pagamentos ilícitos para sua campanha. Santana diz que conversou com Dilma, em maio de 2014, sobre repasses de verbas na caixa dois; Mônica Moura diz que atrasos nos pagamentos foram tratados, por ordem de Dilma, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o tesoureiro da campanha, Edinho Silva. Em conversa, completa Mônica, Dilma até quis saber se era seguro utilizar uma conta no Exterior.

Com a delação premiada de Santana e Mônica Moura, o problema de lavagem de dinheiro, caixa 2 e pagamento de propina como doação de campanha cai no colo da ex-presidente.

Lula x Moro

Por que a Polícia Federal e a Secretaria da Segurança do Paraná teriam pedido que o depoimento de Lula perante o juiz Sérgio Moro fosse adiado? A versão inicial, de que seria necessário mais tempo para organizar a segurança, não é verossímil: o depoimento foi marcado por Moro com 60 dias de antecedência. Quem não conseguiu planejar a segurança de um depoimento em dois meses, de quantos precisará a mais para organizar-se?

Talvez a delação premiada do empresário Léo Pinheiro, da OAS, exija investigações complementares. Talvez. Mas Léo Pinheiro já tinha feito uma delação premiada, que o procurador Rodrigo Janot suspendeu, irritado com um vazamento. Será que, dela, ninguém tivesse investigado nada até hoje?

A única hipótese aceitável seria a de que alguma nova prova, sólida e substancial, esteja a ponto de ser concluída. Porque, se aceitarmos a tese de que o objetivo do adiamento é impedir que petistas de todo o Brasil se reúnam em Curitiba e tumultuem o julgamento, isso significará que o Estado brasileiro não tem poder sequer para garantir a Justiça. É mau.

Palocci e sua hora

O jornalista Marco Piva, da ala pensante petista, discorda da nota desta coluna sobre o depoimento do ex-ministro Antônio Palocci. Na íntegra:

“Alô, Carlinhos! Anota aí: Palocci não traiu o PT. Não vai fazer delação, premiada nem sem prêmio, contra o partido, que já está bastante chamuscado. Publicamente, ele preparou as condições para ampliar o foco da operação em cima de outras empresas e instituições, no caso os bancos e alguns membros da Justiça, que estavam na moita até agora. Ele tem arquivado muito mais coisa que os 77 delatores da Odebrecht juntos.

“Nesse sentido, deu um trucaço no Moro, obrigando-o publicamente a ir atrás das informações. Se não fizer isso, o juiz será visto como alguém que está protegendo outros envolvidos na Lava Jato, cujos nomes ele e a PGR já sabiam faz tempo, mas ainda não haviam investigado (por qual motivo, não faço a menor ideia). Portanto, novos lances da operação.

“Prepare a coluna para tempos calientes. Muito chumbo gordo pela frente”.

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES

Se quiser conhecer o caráter de um amigo, perca o poder. Lula, que manteve os maiores empreiteiros do país como companheiros nos quase 14 anos de governo do PT, sofre agora em suas mãos. Emílio Odebrecht já colocou em toda a sua gestão a suspeita de só agir pensando em propinas. E Léo Pinheiro, da OAS, com quem, já fora da Presidência, mas com Dilma em seu lugar, conversava nos fins de tarde, em caprichadas happy-hours, entregou-o impiedosamente: não só disse que Lula era o dono oculto do famoso apartamento no Guarujá, mas também que o ex-presidente lhe pediu que destruísse provas das propinas entregues ao tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. É uma acusação que, se comprovada, configura obstrução de Justiça, e pode justificar uma ordem de prisão (foi por algo assim, embora menos específico, que Marcelo Odebrecht parou na cadeia).

Vaccari – ele e José Dirceu, reconheçamos, ficaram fiéis ao chefe, mesmo tendo ele perdido o poder, mesmo presos. Não aceitaram virar delatores para livrar-se de sentenças duríssimas. Já Antônio Palocci teve outro comportamento: disse muito, sem delação premiada, e se ofereceu em público para contar ao juiz Sérgio Moro “muito mais coisas” de interesse da Lava Jato, cuja investigação “levará um ano de trabalho”.

Michel Temer acaba de sancionar a lei que cria o Dia Nacional do Perdão. Perdão? Difícil: aproveita-se a delação, mas despreza-se o delator.

Tudo em público

É importante conhecer as condições em que Palocci depôs e as palavras exatas de sua proposta ao juiz Sergio Moro. Ele não fez delação premiada. É processado por lavagem de dinheiro e corrupção ocorridas na entrega, à Odebrecht, de contratos com a Petrobras de afretamento de 29 sondas; e por pagamentos em caixa 2 para João Santana e Mônica Moura, o casal de marqueteiros do PT (e de candidatos de esquerda em vários países latino-americanas, apoiados pelo partido, com financiamento da empreiteira).

O alvo oculto

Palocci começou seu depoimento surpreendendo o partido com fartos elogios à Lava Jato – abominada pelo PT. Respondeu tranquilamente às perguntas de Moro, e terminou oferecendo ao juiz “nomes e operações do interesse da Lava Jato.” Segue-se a frase completa: “Todos os nomes e situações que optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição o dia que o senhor quiser”.

Siga o dinheiro

Por que é importante saber exatamente o que Palocci disse?

Por dois motivos: primeiro, as delações premiadas de 78 dirigentes da Odebrecht, organizadíssimas, já trazem nomes e informações de interesse da Lava Jato, e foram completadas pelo devastador depoimento de Léo Pinheiro, da OAS. Que restaria acrescentar ao dossiê empreiteiras? Segundo, Palocci sempre foi, desde a primeira campanha presidencial de Lula, o encarregado do relacionamento do PT com os meios financeiros.

Estaria Palocci, com seu pedido público de delação premiada, advertindo os bancos de que abandoná-lo quando perdeu o poder talvez não seja uma boa ideia? O poder passou, mas a memória continua.

Talvez Palocci nem pense nisso. Mas a possibilidade de que possa pensar nisso é suficiente para deixar preocupados os donos do dinheiro.

Um dia de problemas

O depoimento de Palocci, caso seja aceita sua proposta, não assusta só os donos do dinheiro. Para o PT, o risco é alto: até agora, o partido foi atacado na Lava Jato e operações conexas por “companheiros de viagem”, aliados eventuais mas não gente de dentro. Palocci é do núcLéo duro.

Mas o que mais irritou os petistas foi o depoimento de Léo Pinheiro. Primeiro, por reforçar a tese de que o apartamento no Guarujá e o sítio de Atibaia são de Lula, enquanto Lula sustenta que nem o apartamento nem o sítio são seus. Segundo, por oferecer um motivo novo para que Lula seja preso, a obstrução das investigações. O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, acusou Léo Pinheiro de ter contado uma versão, criada de acordo com os promotores, para sustentar a tese de que Lula é o dono do apartamento do Guarujá. “A versão fabricada de Pinheiro foi a ponto de criar um diálogo – não presenciado por ninguém – no qual Lula teria dado a fantasiosa e absurda orientação de destruição de provas sobre contribuições de campanha, tema que o próprio depoente reconheceu não ser objeto das conversas que mantinha com o ex-presidente”, diz Zanin em nota oficial.

Lula, o verdadeiro

Lula, façamos justiça, falou a verdade, embora muitos duvidassem dele. Sempre disse que o apartamento triplex no Guarujá era do Amigo e que o sítio de Atibaia era do Amigo. Agora, com as delações da Odebrecht, ficamos sabendo qual o apelido de Lula na empreiteira: Amigo.

PODE VIR QUENTE QUE ESTOU FERVENDO

Agora que, passada a Páscoa, 2017 está começando, a Lava Jato vem com tudo: as delações premiadas de João Santana e Mônica Moura, os marqueteiros do PT (que conhecem boa parte das manobras da Odebrecht para financiar as campanhas de Lula, Dilma e candidatos presidenciais em países latino-americanos); e o avanço nas negociações para a delação premiada de Antônio Palocci, chefe da Casa Civil de Dilma, ministro da Fazenda de Lula e seu principal contato nos meios financeiros. Dizem que Palocci vai mostrar como bancos e conglomerados financiaram o PT.

Há ainda o depoimento de Léo Pinheiro, que era presidente da OAS na época da reforma do apartamento triplex, no Guarujá, que não é de Lula; da reforma do sítio de Atibaia, aquele que também não é de Lula; e do pagamento da guarda dos presentes que Lula ganhou como presidente, e que segundo o Ministério Público não são de Lula, mas da Presidência.

Por fim, o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro. Lula montou duas estratégias: uma política, lotar ônibus com petistas e cercar o local do depoimento; outra, jurídica, de convocar 87 testemunhas, para atrasar o julgamento. Nenhuma deve funcionar: os antipetistas também prometem se reunir em Curitiba. E Sérgio Moro, para coibir a iniciativa de atrasar o julgamento, determinou que Lula esteja presente nos 87 depoimentos. Antecipar sua estada em Curitiba é aquilo que Lula menos deseja.

Avalanche – como lidar 1

Acusa-se o Supremo de lentidão – mas o fato é que lhe deram muitas atribuições sem reforçar sua estrutura. O tribunal que deveria julgar só temas constitucionais chega a cuidar de ladrões de galinhas. E o foro privilegiado agravou a situação: hoje, há 500 processos contra autoridades Para julgá-los, onze ministros. Agora, com a delação da Odebrecht, surgem mais 74 processos. A OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, sugeriu a convocação de juízes instrutores para auxiliar os ministros. A medida é autorizada pelo regimento interno do Supremo.

Avalanche – como lidar 2

A ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, decidiu convocar um “grupo de reforço especializado” para dar agilidade aos processos de quem está relacionado à Operação Lava Jato. A assessoria de imprensa do STF diz que a decisão não tem nada a ver com o pedido da OAB. Coincidência.

Onde está o dinheiro…

Esta coluna errou, ao dizer que a Odebrecht gastou um bilhão e tanto em propina. Na verdade, em nove anos de petismo (2006 a 2014), tirou de seus cofres US$ 3,37 bilhões – veja bem, dólares, não reais. Até 2008, a Odebrecht gastava em propinas, agrados, pixulecos, mimos, 0,5% de sua receita anual. A partir daí, o volume aumentou muito. Em 2012, o custo do escândalo já era de 1,7% da receita – e a receita também tinha aumentado, graças ao fermento da propina. Para a Odebrecht, tudo bem: gastava mais, mas faturava muito mais. Para o país, péssimo: a eficiência ficou esquecida. Dava menos trabalho pagar mais pelos equipamentos, material de construção e serviços, e descontar tudo no superfaturamento, do que negociar os preços com seus fornecedores. O preço das obras explodiu.

…o gato comeu

Esta coluna perguntou como a Odebrecht tirava dinheiro de suas contas para subornar autoridades sem que Coaf e Receita Federal sequer suspeitassem da existência de algo errado. Um leitor assíduo desta coluna, conhecedor de finanças, explica: “O dinheiro vem de superfaturamentos. Uma obra é vendida e faturada pelo dobro (com a conivência remunerada de algumas autoridades e a desatenção ou incompetência de outras). Todos os impostos são pagos e, portanto, não há sonegação. O dinheiro aparece no balanço como lucro. Logo, não é caixa 2; mas a Odebrecht não pode, em circunstâncias normais, confessar que superfatura contratos e aditivos. Parte disso é dado como propina, que garante mais superfaturamento”.

OK; mas a dúvida continua válida. Como é que registra as retiradas do caixa, sem que a Receita Federal e autoridades financeiras não percebam?

Mas a vida continua

Aécio talvez não consiga ser candidato, depois da delação da Odebrecht. Serra apanhou menos, mas apanhou. Quem será o candidato do PSDB? Lula, apesar do temporal de acusações, continua bem nas pesquisas (mas com índice recorde de rejeição). E corre o risco real de virar ficha suja até 2018. Se não for Lula, quem será o candidato do PT à Presidência?

Pelo jeito, os candidatos deverão merecer a origem de sua condição (deveriam manter limpíssimas suas togas brancas – “cândidas”, em latim). Gente como Sérgio Moro (já disse que não quer), João Dória (já disse que seu candidato é Alckmin), Joaquim Barbosa (recusou convite do PSB). Ou candidatos exóticos, como Tiririca e Bolsonaro. Quem se habilita?

DE ONDE SAIU O DINHEIRO?

Esqueçamos, por alguns instantes, os banhistas do mar de lama. A pergunta agora é outra: de onde a Odebrecht tirou o bilhão e tanto que confessa ter pago em propinas? Onde estava guardada a fonte do lamaçal?

O controlador da empresa, Emílio Odebrecht, disse que pelo menos nos últimos 30 anos as coisas funcionaram assim. Assim como, cara-pálida? O dinheiro que a Odebrecht recebe por prestação de serviços entra contra uma nota fiscal; se aplica parte da receita, há emissão de comprovantes dos ganhos (e prejuízos). O total de seus recursos, portanto, está registrado. De onde sai o dinheiro das propinas? A explicação possível é que as leis vêm sendo violadas nos últimos 30 anos, em que a empresa parece ter usado uma série de truques para gerar dinheiro de caixa 2. Há vários truques possíveis: simular prejuízos, por exemplo, permite evitar o pagamento de impostos sobre os lucros ali obtidos e abater, dos outros lucros da empresa, o valor necessário para abater o prejuízo inexistente. E, claro, os peritos de que um grupo desse porte dispõe entendem tudo do assunto.

Esses truques implicam, por definição, impostos menores do que deveriam. E a Receita Federal nunca percebeu incongruência nenhuma entre o volume de negócios e os lucros tributáveis? Os balanços também se tornam irreais – e as auditorias independentes, para que servem?

Siga o caminho do dinheiro. É aí que vamos descobrir a fonte da lama.

Abaixo as fronteiras

A propósito, o chefe do setor de Infraestrutura da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Jr., delatou o pagamento de 40 milhões de euros, “com recursos não contabilizados”, ao lobista José Amaro Pinto Ramos, para associar-se aos franceses na construção de submarinos para a Marinha do Brasil. Saiu um acordo esquisito, em que a França forneceria tecnologia desde que a Odebrecht fosse sua parceira no país. Esquisito só para nós, cidadãos: as autoridades não estranharam que outro país determinasse qual empresa brasileira forneceria material de guerra à nossa Marinha.

E os tais € 40 milhões pagos ao lobista? A Receita irá agora cobrar os impostos e tentar saber se onde havia esses euros ainda há algo sobrando?

Tem mais, tem mais

Dentro de poucos dias, na quinta-feira, 20 de abril, uma nova delação que tem tudo para ser explosiva: a de Leo Pinheiro, até há pouco presidente da OAS, tendo como temas centrais o apartamento triplex no Guarujá e o sítio em Atibaia que não são de Lula. Leo Pinheiro comandou a reforma do apartamento e autorizou o pagamento pela OAS da guarda, por quase dois anos, de dez contêineres com presentes recebidos por Lula em seus dois mandatos. Como presidente da OAS, tem condições de confirmar que a empresa investiu uma boa quantia como um agrado ao ex-presidente.

O caso do apartamento é decisivo: o julgamento, pelo juiz Sérgio Moro, deve ocorrer ainda neste primeiro semestre. Caso haja condenação, o julgamento do apelo decidirá se Lula mantém ou não os direitos políticos. Mesmo que se defenda em liberdade até que o processo seja concluído, em terceira instância, estará impedido de se candidatar a qualquer cargo.

Mais um

Antônio Palocci foi dirigente importante do PT, ministro e conselheiro de Lula e Dilma, mantem-se petista. Mas não é José Dirceu, um soldado do partido, preparado para resistir, sem ceder, às piores condições. Palocci, ao que parece, não está disposto a enfrentar longas penas de prisão.

É candidato forte à delação premiada. E ocupou posições em que viu e participou de muita coisa.

O ataque, as defesas

Todos os meios de comunicação estão abarrotados de informações sobre a delação premiada dos 77 diretores da Odebrecht. Nada mais natural: cada depoimento, cheio de detalhes comprobatórios, é suficiente para lotar um jornal por vários dias. Mas a defesa não tem merecido tanto espaço (até porque sempre se repetem as frases “o depoente faltou com a verdade”, “aguardo com serenidade a decisão da Justiça”, “nego veementemente que tenha havido qualquer conversa com esses senhores que não fosse voltada ao interesse público”. “se me fizessem alguma proposta eu encerraria a reunião na hora e lhes mostraria o caminho da saída” e outras do mesmo tipo). Mas há frases que fogem ao repetitivo:

Michel Temer, acusado de chefiar reunião em que se acertou propina de R$ 40 milhões: “Jamais colocaria a minha biografia em risco”.

Fernando Haddad, acusado de receber, a pedido de Lula, R$ 2 milhões no caixa 2: “Nada disso chegou aos meus ouvidos”.

Lula, com vários inquéritos correndo e um processo a ponto de ser julgado: “Estou muito tranquilo e continuo desafiando qualquer empresário brasileiro, qualquer empresário, a dizer que o Lula pediu R$ 10 pra ele”.

AMIGO É COISA PRA SE PAGAR

Sexta-feira Santa, domingo de Páscoa e, enfim, na segunda-feira que vem, 2017 começa de verdade. A previsão é de tempo quente: na própria segunda, 17, João Santana e sua mulher, Mônica Moura, devem depor no TSE sobre, digamos, as doações desburocratizadas à chapa Dilma-Temer. Na terça, ambos também deveriam ser interrogados pelo juiz Sérgio Moro, no processo do ex-ministro Antônio Palocci, acusado de receber propinas, acarajés e pixulecos para a campanha, o PT e um seleto grupo de amigos. Mas pediram adiamento para o dia 24 de abril.

Na quarta, 20, quem depõe é Léo Pinheiro, da OAS, a respeito do apartamento triplex que não é de Lula, no Guarujá. Ele também sabe alguma coisa, ao que dizem, sobre o sítio que não é de Lula em Atibaia. Pinheiro negocia com os procuradores da Lava Jato uma delação premiada. Há quem diga que a cereja do bolo é um esplêndido pixuleco que, este sim, passou a ser de quem não era dono de propriedade nenhuma.

Pule alguns dias: em 3 de maio, Lula deve ser ouvido por Sérgio Moro. Deve ser um dia interessante: grupos lulistas tentam levar uma multidão a Curitiba, para no mínimo constranger o juiz Sérgio Moro e, no máximo, cercar Lula de gente, de tal maneira que o depoimento se torne impossível.

Marcelo Odebrecht disse a Moro que o tal Amigo citado nos papéis da Odebrecht recebendo milhões é mesmo Lula. As reformas milionárias em imóveis que não são dele não passam de lembrancinhas de pouco valor.

Amigo de fé

Marcelo Odebrecht declarou a Sérgio Moro que os recursos sacados em dinheiro vivo por um assessor de Palocci, R$ 13 milhões, eram para Lula. Este é apenas um caso: não envolve retribuições da Odebrecht pela intermediação de Lula em obras no Exterior, nem em financiamentos do BNDES. A compra de submarinos franceses, no Governo de Lula, pode ter envolvido algo desse tipo: para formalizar a venda, os franceses concordaram em exigir do Brasil que os estaleiros fossem construídos e operados pela Odebrecht, o que elevou o preço em pouco mais de 10%. O contrato era de R$ 31 bilhões, e subiu R$ 3,3 bilhões para a Odebrecht.

A lei é dura…

O ministro Edson Fachin, a pedido do procurador-geral Rodrigo Janot, mandou investigar nove ministros de Temer, 29 senadores, 42 deputados federais e três governadores, com base na delação de 78 executivos da Odebrecht. Aécio Neves é campeão de inquéritos, ao lado de Romero Jucá: cinco cada um. Renan Calheiros tem 4 (e seu filho, governador de Alagoas, Renan Filho, tem um). Mas não se preocupe, nem se alegre: o Supremo tem demorado tanto nos inquéritos que é tudo coisa para o longínquo futuro.

…mas é lei

Dilma tem agora um problema sério: Marcelo Odebrecht disse que doou 150 milhões de reais às suas campanhas, R$ 50 milhões em 2010 e R$ 100 milhões em 2014. Pior: segundo ele, as doações mais polpudas foram o pagamento pelas medidas provisórias 470, de 2009 – Governo Lula – e 613, de 2013, de alto interesse da empresa. Dilma (e talvez Lula) dificilmente escaparão de um inquérito na primeira instância, sob Moro.

Levantando…

Está difícil acompanhar a roubalheira? O jornalista Ivo Patarra, que foi petista na época da formação do partido, que foi assessor de imprensa de Luíza Erundina, primeira prefeita petista de São Paulo, que deixou o PT tão logo descobriu o que acontecia, acaba de lançar “Petroladrões – 3 anos da Operação Lava Jato”. Conta tudo – e sabe como contar.

…os véus

Ivo já escreveu um livro revelador, “O Chefe”, em 2010, antecipando aquilo que se descobriria com a Operação Lava Jato. E já dizia: “Lula é o chefe”. Aquilo que Marcelo Odebrecht acaba de confirmar. “Petroladrões – 3 anos da Operação Lava Jato”, 725 páginas. Amazon.com.br, R$ 16,90.

Explorando os mais pobres

Como faz o MST, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, para promover passeatas e dificultar a vida de quem trabalha em São Paulo? Simples: quem comparece a cada ato do MST ganha pontos que servirão para definir quem recebe antes as casas que o movimento, desde os tempos do Governo petista, recebe dos programas federais de moradia popular. Mas não basta ir aos comícios, invasões, bloqueios de trânsito, e votar nos candidatos recomendados pela liderança: é preciso pagar por isso. São R$ 50,00 na inscrição e R$ 30,00 por mês, engordando o cofrinho dos líderes.

O excelente repórter Agostinho Teixeira, da Rádio Bandeirantes, se inscreveu no MST, pagando todas as taxas e participando da pontuação. Não é tão cansativo: depois das invasões, as barracas só são ocupadas de dia. De noite, os “sem-teto” vão para casa – aquela que eles não têm.

NEM O INIMIGO É DOS BONS

Michel Temer convive com ministros ameaçados pela Operação Lava Jato (e correlatas), com aliados que criticam o PT depois de participar de três períodos e meio de petismo no Governo, com suspeitas sobre o financiamento da campanha que o elegeu, ao lado de Dilma. Tudo bem, é do jogo; pelo menos é o que dizem os defensores de seu Governo.

O problema é que Michel Temer escolheu mal até seu principal inimigo. O presidente e sua articulação política temem Renan Calheiros – um senador que já foi obrigado a renunciar à Presidência do Senado por, entre outras coisas, fazer com que uma empreiteira pagasse a pensão de sua amante; que é investigado em 12 inquéritos, nove deles por questões da Lava Jato; que corre o risco de não se reeleger no ano que vem (as pesquisas o colocam atrás de Ronaldo Lessa, PDT, e Teotônio Vilella Filho, PSDB, e empatado com Benedito de Lira, PP); e que, para não perder o foro privilegiado, que o mantém a salvo do juiz Sérgio Moro, pode até desistir da reeleição para o Senado e sair para deputado – de preferência em lista fechada. Antes ser deputado em Brasília do que réu em Curitiba.

Para Renan, é bom brigar com Temer: o Governo tem baixa popularidade, e talvez seja melhor, em Alagoas, dispor do apoio de Lula. Mas Temer deveria arranjar adversários mais qualificados. O que não pode é o presidente brigar com alguém cuja maior aspiração é escapar de Moro.

Os mugidos

Coincidência: o PMDB elegeu os presidentes da Câmara e do Senado. Ambos, quando precisaram explicar a origem de seu dinheiro, voltaram-se à carne. Eduardo Cunha disse que ganhou muito exportando carne moída em lata para a África – embora nunca tenha lidado com carne, nem com exportações. Renan Calheiros apresentou fazendas com rebanhos primorosos, de rápido desenvolvimento, capazes de gerar grandes lucros. Nas mais modernas e rentáveis fazendas do país, a taxa de fertilidade das vacas é de 73%. Nas de Renan, eram de 86% (e, em 2004, chegaram a notáveis 90,8%). E houve até (veja aonde chega a maldade humana) quem dissesse que o gado declarado por ele não caberia na terra disponível.

Eduardo Cunha já está preso em Curitiba.

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã, 10 de abril, Marcelo Odebrecht depõe para Sérgio Moro.

Boas palavras

O prefeito paulistano João Dória Jr., PSDB, determinou a extinção, na Prefeitura, de denominações que indiquem diferenças de classe social entre os cidadãos. Viva! Todos serão chamados de “senhor” e ”senhora”, abolindo-se termos como Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Vossa Magnanimidade, Vossa Eminência e outros quetais. Quem somos nós para julgar o mérito de um juiz a ponto de chamá-lo de “meritíssimo”? Qual parlamentar merece, por seus atos e formação, ser “Vossa Excelência”?

Certa vez, este colunista foi informado de que deveria dirigir-se a determinado funcionário público de alto nível com o termo “Vossa Magnificência”. Primeiro achei que era pegadinha; ao ser informado de que era assim mesmo, exigi ser chamado de Vossa Gordência. Ele, Magnífico; eu, Gordo. Pelo menos no meu caso o título refletiria a realidade.

Tolerância

Combate à intolerância – étnica, de gênero, de origem, poder aquisitivo, seja qual for – e promoção da tolerância. A revista Conib, da Confederação Israelita Brasileira, acaba de ser lançada e dá acesso gratuito em Cadernos Conib. Um primor: coordenada por um competente jornalista, Henrique Veltman, traz textos de Celso Lafer, Renato Janine Ribeiro, Nilton Bonder, Bernardo Sorj, Yossi Alpern, Flávio Azm Rassekh, Hélio Carnassale, Carla Bassaneto Pinsky, Gabriel Holzhaker, Henrique Veltman, Ivanir dos Santos, Patrícia Campos Mello, Jaime Pinsky, Lelette Couto, Peter Demant, Rony Vainzof; e reproduz um excelente debate entre o ex-chanceler Celso Lafer, a advogada Akemi Kamimura e o advogado Fernando Lottenberg, presidente da Conib. O texto introdutório é de Eduardo Wurzmann, secretário-geral da Conib, e Fernando Lottenberg.

Outra visão

O bom jornalista Marco Piva, comentando uma nota desta coluna de apoio à extinção do Imposto Sindical, lembra que dos 17 mil sindicatos existentes no país (cálculo do relator da reforma trabalhista, Rogério Marinho, PSDB potiguar), mais de cinco mil são patronais, também ameaçados pela tesoura. “Os patrões, muitos deles, também vivem a boa vida sindical, sendo que alguns não pisam numa empresa há muitos anos”, diz Piva, e tem razão. Como disseram Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na voz de Nara Leão, é hora de por pra trabalhar gente que nunca trabalhou.

MUDANDO SEM MUDAR

Há um ano, tínhamos Dilma, Eduardo Cunha, Nova Matriz Econômica, PT, Haddad e Dunga. Hoje temos Temer, Rodrigo Maia, política econômica ortodoxa, PT destroçado nas eleições, João Dória e Tite.

A inflação, que ameaçava ultrapassar os 10%, contentou-se com 4%; os juros básicos, ainda altíssimos, que eram de mais de 13%, devem chegar em 8,75% ao fim do ano. A balança comercial está bem positiva: US$ 7,1 bilhões de superávit em março, o melhor resultado desde março de 1989. E não é pela queda das importações, apesar da recessão: o país importou 7% a mais do que em março do ano passado. E o principal problema econômico do Brasil, os estonteantes 13,5 milhões de desempregados, pode começar a ser revertido: o Produto Interno Bruto, soma de tudo que é produzido no país, incluindo serviços, deve crescer 0,47% neste ano; e, em 2018, prevê-se 2,5%. É pouco. Mas para uma economia que há três anos só apresentava números negativos, é um sinal de que podemos ter esperanças.

Mas, com esses sinais, como explicar o baixíssimo índice de aprovação a Temer? Primeiro, pela própria política econômica: combater a inflação, reduzir privilégios e reformar instituições (mesmo falidas) é sempre impopular. E, lembremos, há um ano tínhamos Temer, Renan, Eunício, processos da Lava Jato encalhados no Supremo. Isso hoje mudou: os processos da Lava Jato encalhados no Supremo ficaram mais empoeirados.

O tempo passa…

O Tribunal Superior Eleitoral deveria ter começado ontem a julgar o processo, contra Dilma e Temer, por abuso de poder econômico nas eleições de 2014. Caso houvesse condenação, o registro da chapa seria cancelado; e, portanto, Michel Temer perderia o mandato. Caberia ao Congresso eleger indiretamente seu substituto até 31 de dezembro de 2018.

Temer se defende juridicamente alegando que toda a parte financeira da campanha coube ao PT – como se ele não tivesse nada a ver com sua companheira de chapa. Mas sua defesa real é outra: lutar para que o julgamento demore o suficiente para que ele termine o mandato em paz.

...o tempo voa

A Justiça contribui para que a defesa real de Temer funcione. Ontem, os advogados de Dilma pediram mais cinco dias para apresentar a defesa. Foram atendidos. Dia 4, mais cinco dias, dá 9 de abril, certo? Errado: como se sabe, a Páscoa cai no dia 16 de abril. E o julgamento, portanto, deve começar na última semana do mês. Provavelmente, no dia 27. Talvez.

Réus sim, e daí?

Os Estados e o Distrito Federal têm, no total, 28 governadores. Destes, 12 foram denunciados, ou estão sendo investigados. E dois foram cassados: Simão Jatene, do Pará (PSDB), e Pezão, do Rio (PMDB). Mas tudo bem: nem os cassados perderam os cargos, nem os demais correm grande risco de perdê-lo, graças à lentidão dos processos no foro privilegiado.

O doente…

A Rede Globo acaba de apresentar o caso do remédio L-asparaginase, usado no tratamento da Leucemia Linfoblástica Aguda, câncer no sangue. Quem levantou o caso, bem no início do ano, em seu blog Ucho.Info, foi o bem-informado repórter Ucho Haddad. Ucho não vacila: a compra do remédio (fabricado na China e comprado pelo Ministério da Saúde de um laboratório uruguaio) foi um escândalo. No mundo inteiro, a L-asparaginase é biológica. O Brasil foi o primeiro país a comprar a L-asparaginase chinesa, mais barata, mas sem certificado de origem biológica, sem comprovação de eficácia. O laboratório uruguaio dá um endereço no Uruguai onde não há laboratório nenhum; e seu endereço no Brasil está num escritório de contabilidade.

…que se vire

O ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP do Paraná), não quis dar entrevistas sobre o caso do remédio chinês nem a Ucho nem à Globo.

Ucho se espanta: “E o ministro da Saúde continua no cargo!”

Sabe o seu bolso?

O Fundo Partidário, dinheiro público entregue aos partidos políticos para sua manutenção, era de R$ 313,5 milhões até 2014. De lá para cá, multiplicou-se: já está em R$ 811 milhões. E, já que os doadores estão assustados com a Lava Jato, junto com a tal “reforma política” deve oscilar em torno de R$ 4 bilhões por ano. Hoje, da verba partidária, 10% são gastos em jatinhos e despesas suntuárias. E ainda se pergunta por que há tantos partidos no Brasil. Se dá grana, qual esperto perderá a oportunidade?

Lágrimas sentidas

Andréa, irmã do senador Aécio Neves (PSDB – Minas), chorou ao ler trechos de uma delação premiada em que ela e o irmão são acusados de receber propinas. Não se deve acusar Aécio nem Andréa, senão ela chora.

É SEM NUNCA TER SIDO

O Tribunal Superior Eleitoral inicia depois de amanhã o julgamento da chapa Dilma-Temer, acusada de abuso do poder econômico nas eleições de 2014. Se houver condenação, a chapa é cassada; os candidatos perdem o cargo que tenham obtido. Dilma já se foi; Temer perde o mandato.

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio cassou o registro da chapa Pezão – Francisco Dornelles. E, portanto, decidiu afastá-los dos cargos que ocupam, governador e vice-governador do Rio.

Pezão e Dornelles foram cassados, mas continuam exercendo o mandato até que o Tribunal Superior Eleitoral julgue seu recurso. Não dá tempo: até o recurso ser julgado, o mandato de ambos estará findo. Algo semelhante deve ocorrer com Michel Temer: o relator do processo, ministro Hermann Benjamin, pode apresentar relatório desfavorável ao presidente. Mas, ao que se sabe, ministros favoráveis a Temer estão dispostos a pedir vistas do processo, paralisando tudo. Na prática, não há prazo para devolver os autos, e enquanto isso o julgamento não anda. Mas imaginemos que o processo se mova e Temer seja derrotado. Vai continuar no cargo enquanto todos os recursos não forem julgados. E, em 31 de dezembro de 2018, à meia-noite, seu mandato presidencial se encerra. Depois disso, uma eventual condenação não passará de curiosidade histórica. Como dizia o ex-ministro Roberto Campos, o Brasil não corre o menor risco de dar certo.

Numerologia 1

Da internauta Simone Queiroz, assídua leitora desta coluna:

“13 é o número do PT/13 anos no poder
13,5 milhões de desempregados
Está comprovado: 13 é um número azarado.”

Numerologia 2

O juiz Sérgio Moro trabalha na 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba.

Inflação em queda

A inflação (em parte por maus motivos, como a recessão que obriga os fornecedores a reduzir, ou no máximo manter, seus preços; em parte por bons, já que as medidas antiinflacionárias estão funcionando) mostra tendência de queda – a tal ponto que o ministro Henrique Meirelles pensa em reduzir a meta oficial, em 2018, para 4,25%; e para 4% em 2019. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, já propôs que, a longo prazo, o país busque inflação máxima de 3% ao ano. Hoje a meta é de 4,5%, e o Governo Dilma a ultrapassou todos os anos.

Comércio respirando

A assessoria econômica da Federação do Comércio de São Paulo registra boa recuperação do varejo paulistano em janeiro. É o terceiro aumento seguido nas vendas, que subiram 5,9%, puxadas por concessionárias de veículos, que tiveram alta de 2,8%. Segundo a Federação, o crescimento de vendas de veículos indica a melhora das expectativas dos consumidores paulistanos, já que envolve gastos elevados por um extenso período. Mas os números do desemprego continuam altos.

Ainda falta!

As leves melhoras na economia não foram suficientes para dar uma injeção de popularidade no presidente da República. Uma pesquisa do Ibope, encomendada pela CNI, Confederação Nacional da Indústria, mostra péssimos índices para Michel Temer. Dos entrevistados, 55% consideram seu Governo ruim ou péssimo, contra 10% que o consideram ótimo ou bom. A esperança de Temer está numa recuperação econômica que seja percebida pelos eleitores e os convença de que o desemprego será reduzido.

Falta muito!

De acordo com pesquisa de outro instituto, o Ipsos, sobre a avaliação dos políticos brasileiros, o ex-presidente Lula está na frente: 38%. Mas tem dois grandes obstáculos no caminho para disputar a Presidência: o primeiro é que tem 59% de rejeição. A popularidade não é suficiente para elegê-lo no primeiro turno, e a rejeição é alta demais para permitir-lhe a vitória no segundo. O outro motivo é que o juiz Sérgio Moro e o ministro aposentado do Supremo Joaquim Barbosa são mais populares do que ele, e enfrentam menor rejeição. Moro tem 63% de popularidade; Barbosa, 51%.

Fato novo

Há também um novo possível candidato que pode criar problemas para Lula: o prefeito paulistano João Dória Jr., do PSDB, cuja administração vem sendo muito bem avaliada. Dória diz que não pretende deixar a Prefeitura no meio do mandato e que seu candidato a presidente é o governador Geraldo Alckmin. Mas como se comportará se as pesquisas, no ano que vem, o indicarem como o mais forte candidato entre os tucanos, com possibilidades reais de se eleger presidente? Alckmin, lembremos, já perdeu de Lula, com menos votos no segundo turno do que no primeiro.

DORMIR, TALVEZ SONHAR

O PSDB tenta convencer o Tribunal Superior Eleitoral de que Dilma usou dinheiro sujo para se eleger em 2014; mas Temer, seu vice, eleito na mesma chapa, com os mesmos eleitores, já que o voto era em ambos, é inocente. Invertendo a frase do apóstolo Mateus, é como se, ao receber o dinheiro ilegal, a mão direita não soubesse o que faz a esquerda.

O senador Romero Jucá, amigo de Temer, se queixa, referindo-se à Lava Jato, de que vivemos uma caça às bruxas, uma Inquisição. Imagine a ousadia, querem pegar corruptos!

Enquanto os políticos procuram encobrir como trabalham, coube a um não político, o empresário Marcelo Odebrecht, contar como se faz uma campanha eleitoral: “o Governo sabia, a população sabia, eu sabia que o empresário, para atuar na Petrobrás, de alguma maneira tinha de atender os interesses políticos daquela diretoria. Eu fazia vista grossa, a sociedade fazia vista grossa, todo mundo fazia vista grossa”.

Ele sabe das coisas; costumamos ignorar os sinais exteriores de riqueza de quem não tem renda legal para pagá-los.

Depois criticam os corruptos e esperam que o país melhore. Mas, em vez de apontar a corrupção, preferem o clássico discurso de Hamlet: “Dormir! Talvez sonhar”.

A verdade…

Já que Marcelo Odebrecht mostra os fatos como são, mais um trechinho do que disse (se mentiu, arrisca-se a ficar anos na prisão): “Duvido que tenha um político no Brasil que tenha se eleito sem caixa 2. E, se ele diz que se elegeu sem, é mentira, porque recebeu do partido. Então, impossível”.

…do dinheiro

Do dinheiro reservado pela Odebrecht para as campanhas, 25% eram legais; e 75% iam por fora. Marcelo Odebrecht diz: “Caixa 2, para a gente, e acho que para todas as empresas, era visto como natural. Os valores definidos pelos candidatos eram tão aquém do que eles iam gastar que não tinha como a maior parte das doações não ser caixa 2. Era impossível”.

A mentira…

Nos últimos dias de Dilma como presidente, a oposição anunciava que o déficit orçamentário seria de R$ 139 bilhões – um absurdo, considerando-se que o país precisa gerar superávits para reduzir a dívida e o pagamento de juros. Dilma caiu, e o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reafirmou que o rombo – o déficit primário, antes do pagamento dos juros) – seria de inacreditáveis R$ 139 bilhões. E ninguém poderia acusar Meirelles de adversário do petismo: ele foi presidente do Banco Central durante os dois mandatos de Lula, e Lula cansou de indicá-lo a Dilma para o Ministério da Fazenda. O tamanho do rombo, portanto, era aquele mesmo, e não algo inventado pela zelite galega, branca, de zóio azul.

…dos números…

Assim que assumiu, o presidente Michel Temer deu esplêndidos aumentos salariais a corporações de servidores. O dinheiro, explicou Meirelles, já fazia parte dos tais R$ 139 bilhões (e, sabe-se lá o motivo, não poderia ser usado para reduzir a cratera). Mas era tudo tão real quanto o espelho mágico de Temer (“escravo do espelho meu, dir-me-ás se há no mundo um presidente mais belo do que eu”). Agora, o ministro Meirelles diz que o buracão aumentou para R$ 197 bilhões – R$ 58 bilhões a mais, exatamente o que foi gasto na fabulosa farra dos aumentos.

Quem paga?

Leitores e leitoras desta coluna são inteligentes, bem informados, conhecem este país. Há quem faça a barba. Há quem faça a maquiagem. Seu espelho não é mágico, mas mostra direitinho, quando o Governo diz que é preciso aumentar ainda mais os impostos, quem é que vai pagá-los.

Boa notícia

O deputado Rogério Marinho, tucano potiguar, relator da reforma trabalhista, decidiu propor o fim do imposto sindical. Imposto sindical é aquele dia anual de trabalho descontado do salário de cada trabalhador com carteira assinada e entregue ao sindicato, seja a vítima do desconto associada ou não. Com a vultosa quantia que recebem de imposto sindical, os sindicatos não têm nenhum estímulo para convencer os assalariados de sua base a sindicalizar-se. Se quiserem, os dirigentes sindicais têm condições de se acomodar e ignorar sua base. É também o imposto sindical que dá condições para a existência de tantas centrais sindicais. Mas é jogo duro: nem a ditadura militar conseguiu abolir o imposto sindical.

OLHOS NOS OLHOS

Lula pediu ao Supremo Tribunal Federal a interrupção das investigações sobre ele em Curitiba. Foi derrotado por unanimidade. Já pediu medidas semelhantes ao Tribunal Regional Federal de Curitiba, ao Superior Tribunal de Justiça, e perdeu. Ao que tudo indica, terá de sentar-se diante do juiz Sérgio Moro, em 5 de maio, pela primeira vez pessoalmente, e ser ouvido sobre o triplex do Guarujá. Lula é o último a depor: depois, virão as alegações finais dos advogados e Sérgio Moro dará a sentença.

Lula é réu em cinco processos, e este é o primeiro em que haverá sentença. Se condenado, poderá recorrer em liberdade. Mas, se o recurso for rejeitado, estará às portas da prisão. E inelegível, como ficha suja.

E tudo piora, para seu lado, com o depoimento de Marcelo Odebrecht. Diz o Príncipe dos Empreiteiros que pagou R$ 50 milhões pela Medida Provisória 470/2009, a MP dos Refis, editada pelo presidente Lula para beneficiar quem estava com os impostos atrasados. Diz também que Lula informou a sua sucessora, Dilma, que Antônio Palocci era o encarregado de ordenhar a Odebrecht. Diz ainda que Dilma trocou Palocci por Mantega. Tanto Lula quanto Dilma, portanto, sabiam de tudo.

E gostaram.

Depois do depoimento de Marcelo Odebrecht, depois da delação de outros diretores da empresa, ficou claro que os fatos ocorreram. A questão agora é definir se configuram crime ou não. E punir os culpados.

Dilma em risco

Odebrecht diz que Dilma lhe informou sobre a troca do captador, de Palocci para Mantega, logo depois de Palocci deixar o Governo. Citou até a frase que ela teria dito: “Daqui pra frente é com o Guido”. Informou que a presidente sabia que seu marqueteiro João Santana recebia da Odebrecht pelo caixa 2. E que ele mesmo, Odebrecht, disse a Dilma que as contas bancárias no Exterior estavam ao alcance da Operação Lava Jato. Se essas informações forem falsas, Marcelo Odebrecht terá de cumprir pena de quase 20 anos. Se verdadeiras, sai da prisão no fim deste ano.

A defesa de Dilma

A ex-presidente não quis falar. Sua resposta está numa nota, na qual classifica o depoimento de Marcelo Odebrecht como “novas mentiras”.

A reação do PT

O PT, discretamente, está montando uma caravana para ir a Curitiba no dia em que Lula for interrogado por Moro.

A ordem é se reorganizar

O PT gostaria de ter Lula como presidente do partido. Lula rejeitou o cargo: prefere cuidar de sua candidatura à Presidência. E, claro, de sua defesa. Quem será o presidente do partido? O senador fluminense Lindbergh Farias é candidato; mas a corrente de Lula, majoritária, está escolhendo outro nome. O 7º Congresso Nacional do PT se realiza de 7 a 9 de abril. A nota informativa poderia ter sido escrita por Dilma Rousseff:

“O VI Congresso Nacional do PT será realizado nos dias 7, 8 e 9 de abril de 2017, com a participação de 600 delegados e delegadas, observando a paridade de gênero e as cotas étnico raciais e de juventude (…)”. Haverá espaço para índios, orientais, galegos?

Pisando na bola 1

O juiz Sérgio Moro, que até agora vinha resistindo bem aos ataques que sofreu, acabou errando feio e tendo de recuar ao determinar a condução coercitiva (a pessoa é conduzida presa para prestar depoimento) do blogueiro Eduardo Guimarães. A história: Guimarães, abertamente petista, soube com antecedência que Lula seria conduzido coercitivamente para prestar depoimento. Transmitiu a informação a Lula e, mais tarde, publicou-a em seu blog. Moro encarou a atitude de Guimarães como tentativa de atrapalhar as investigações. Errado: conforme a Constituição, os jornalistas podem divulgar as informações que tiverem, mesmo secretas. Quem tem de guardar sigilo de documentos são os servidores públicos, não os jornalistas. E jornalistas devem ouvir todos os lados. Moro disse que Guimarães não é jornalista. Errado: se trabalha em jornalismo, é jornalista e ponto final. Moro acabou recuando.

Pisando na bola 2

A Operação Carne Fraca gerou muito calor e pouca luz. Mais de mil homens, depois de dois anos de investigações, pegaram 33 fiscais e uns poucos frigoríficos pequenos. Erraram na divulgação, confundiram a opinião pública, confundiram os importadores, derrubaram as exportações brasileiras, geraram demissões em massa, provocaram problemas que o país levará anos para resolver. E não se pode aceitar que ignorem que ácido ascórbico é vitamina C, que os produtos são embalados em caixas de papelão, que ácido sórbico é um conservante tradicional e, ao que se saiba, seguro. Se a operação não trouxer outros resultados, foi um fracasso.

OS DELÍRIOS DA CARNE

O problema não é a carne. O problema não é o tamanho das malfeitorias, nem o prejuízo às exportações. O problema é o Governo; o Governo que politiza a fiscalização de alimentos, que deveria ser estritamente técnica, rígida, intolerante, preocupada com a saúde da população, absolutamente desconhecedora das conveniências de partidos.

Boa parte do Ministério da Agricultura está loteada, aparelhada para servir a interesses partidários. Nos Estados onde houve mais problemas com a Operação Carne Fraca, o PMDB (ala Temer) e o PP, do ministro Ricardo Barros, comandam a Superintendência do Ministério da Agricultura do Paraná. Em Goiás, o poder é exercido pelo PTB, na pessoa do deputado Jovair Arantes. Quem cuida da qualidade da carne?

Quem cuida da qualidade da carne são os próprios produtores e exportadores, que sabem o custo da negligência na redução das vendas internacionais. Já Temer oferece churrasco a representantes dos países exportadores – e mantém a mesma política de loteamento do Governo que levou à questão da carne, sem notar que é esse o seu problema. Narra o bem informado Radar on-line que Temer sinalizou à bancada do PMDB mineiro na Câmara que lhe dará a próxima vaga no Ministério. Diante dos governos que temos, a qualidade dos alimentos que consumimos e exportamos é até boa demais.

Os dados da briga

As principais críticas à Operação Carne Fraca envolvem números. Foram dois anos de investigações e mais de mil policiais federais para autuar 21 dos 4.837 frigoríficos nacionais, dos quais foi preciso interditar três, responsáveis por menos de 2% da produção brasileira de carnes; dos 11.300 funcionários do Ministério da Agricultura, 33 foram afastados. E os 21 frigoríficos colocados sob fiscalização especial exportaram, em 2016, US$ 120 milhões. No total, 0,89% das exportações brasileiros de carne.

Os fatos da vida

Mas o fato é que havia politicagem, que houve servidores que facilitaram aos infratores o que não deveriam facilitar, que foram encontradas coisas erradas – talvez não as que, no calor da notícia, levaram fontes e jornalistas a divulgar que vitamina C dava câncer. Pode ter havido exagero, mas tinha coisa errada. O estrago está feito. Como assinalou o jornalista gaúcho Fernando Albrecht, “o povo sempre acredita na acusação, mas nunca na defesa”. E com motivos.

Quem paga a conta

Imaginemos que haja apenas um bife estragado em toda a imensa produção nacional. Uma porcentagem desprezível, sem dúvida. Mas, para quem comeu esse bife e passou mal, de que adianta saber que todo o restante da carne produzida no país estava em excelentes condições? E os importadores, por via das dúvidas, por que comprarão do Brasil e não da Argentina, do Uruguai ou da Austrália? A propósito, uma bela explicação em perguntas e respostas sobre a Operação Carne Fraca e os problemas causados por carne em más condições está aqui.

A grande definição

O príncipe Otto von Bismarck, principal responsável pela unificação da Alemanha, em 1871, criou uma frase definitiva: “Quanto menos soubermos como são feitas as leis e as salsichas, melhor dormiremos à noite”.

A transposição…

O presidente Michel Temer inaugurou festivamente a transposição das águas do rio São Francisco. O ex-presidente Lula, dias depois, também a inaugurou, mais festivamente ainda. Há alguns probleminhas, claro: as águas do rio só chegarão às casas e fazendas afastadas de suas margens depois de colocados os encanamentos (e só haverá tranquilidade para o consumidor depois de instaladas, também, as estações de tratamento).

…de que, mesmo?

E há um problemão: moradores das margens do rio original se queixam da redução do volume das águas, puxadas pelas bombas para o curso estendido. Algum tempo atrás, o político baiano Antônio Carlos Magalhães disse a este jornalista que não valia a pena transpor as águas do São Francisco sem antes recuperar a saúde do rio. “O São Francisco está doente”, disse ACM. Em boa parte de sua extensão, e nas margens de quase todos os seus afluentes, a mata ciliar tinha sido derrubada. Com isso, os rios recebiam menos água e, assoreados,com as margens desprotegidas, nem teriam capacidade de receber mais. Já na época, as águas do São Francisco lhe pareciam insuficientes até para abastecer sua bacia original.

Festa precoce

Lula diz que se for candidato é para ganhar. OK; mas como vencer a rejeição de 44% dos eleitores, que não aceitam votar nele de jeito nenhum?

PASSARÁ O CÉU E O INFERNO

O Inferno vem antes: com o avanço da Operação Lava Jato e a entrega ao Supremo da Lista de Janot, na qual há pedidos de abertura de inquérito sobre 107 pessoas – todas, de alguma forma, poderosas – Brasília parou. A oposição decidiu ir à guerra: entre os envolvidos, estão Dilma e Lula, e os ex-ministros Palocci e Mantega. O Governo não sabe bem como agir: os ministros Eliseu Padilha, Gilberto Kassab, Moreira Franco, Aloysio Nunes fazem parte da lista. Que fará Temer, com tantos ministros sob suspeita?

Boa pergunta: o que não falta, nos meios políticos, é gente imaginando fórmulas para se livrar da prisão. A mais simples é definir especificamente a Caixa 2 como crime. Em seguida, enquadrar nessa definição o maior número possível de políticos e empresários. E, como a lei que especifica que a Caixa 2 é crime será recente, todos os acusados serão inocentes, já que quando a praticaram ainda não havia lei que a definisse como crime.

As tentativas de livrar-se legalmente da cadeia podem não dar certo, se a opinião pública se mantiver atenta (e mobilizada, o que será demonstrado no próximo dia 26). Entretanto, ao menos para o pessoal mais poderoso, os pedidos de inquérito podem incomodar, mas dificilmente os atingirão.

Há dois anos, Janot pediu ao Supremo a abertura de 27 inquéritos envolvendo pouco mais de 40 políticos. Passados dois anos, seis estão sendo processados. Para quem tem foro privilegiado, o Supremo é o Céu.

Através do espelho

Toda verdade tem múltiplas facetas. A nota acima pode perfeitamente ser lida ao contrário. Há quem conteste a existência do foro privilegiado; há quem até o aceitaria, mas discorda de uma legislação que joga nas costas de um tribunal constitucional, já sobrecarregado de processos, o julgamento de réus, o que não é sua especialidade, e desprovido de recursos para dar aos casos a celeridade que deveria ser a norma. Para a população, que espera Justiça, e a quem os julgamentos deveriam mostrar que o crime não compensa, Céu e Inferno se invertem.

Os anjos da guarda

Há profissionais da política cuja especialidade é resolver o insolúvel (e em tornar insolúvel, se o retorno não for o esperado, aquilo que poderia ser resolvido). Não estamos falando de moral, de ética, de serviço público, mas de política no sentido básico do termo, de luta pelo poder. É um pessoal competente – um pessoal que, para atender a seus interesses, conseguiu fazer com que o impeachment de Dilma deixasse de incluir a perda de seus direitos políticos. Eles não vão deixar, sem luta, que seus privilégios sejam atingidos. Já estão com pintura de guerra e as flechas preparadas.

Vereda da salvação

O primeiro passo dos Anjos do Mal é garantir a manutenção do foro privilegiado. Ou seja, uma reforma eleitoral a ser aprovada até setembro, válida para as eleições do ano que vem. Se alguém mexer no foro privilegiado, eles estarão reeleitos, podendo argumentar que, ao eleger-se, esse direito lhes estava assegurado. A formatação da reforma eleitoral vem sendo discutida por gente que conhece o tema: proteção para quem usou Caixa 2 (anistia, ou definição de que o crime é crime só de agora em diante); criação de um fundo eleitoral – com dinheiro público, claro – para custear as campanhas, sem contribuições de empresas nem de pessoas físicas; e voto em lista fechada. Cada eleitor vota num partido. Cada partido tem uma lista eleitoral elaborada por seus caciques. Conforme o número de votos, são escolhidos os nomes conforme a ordem da lista.

Lava Jato? Quem tiver foro privilegiado não precisará se preocupar com isso. E mais, dará forte apoio ao combate “sem tréguas” à corrupção.

O nome das coisas

Fundo público, Fundo eleitoral são nomes bonitos. Talvez “Mão no Tesouro” não seja tão elegante, mas descreve com mais precisão a ordenha que Suas Excelências estão propondo. O Fundo Eleitoral teria entre R$ 4 bilhões e R$ 8 bilhões (e não se misturaria com o Fundo Partidário, onde os partidos mamam mais R$ 1 bilhão por ano). Em vez de algum prestador de serviços pagar, quem paga é o contribuinte. Mas quem garante que as vacas leiteiras de sempre desistirão da propina e das vantagens que ela traz?

O destino da ideia

Há listas fechadas de candidatos em diversos países, e funcionam bem. Na Alemanha, metade dos parlamentares se elege pela lista, a outra metade por voto distrital (cada um vota em quem conhece, e o custo da propaganda se reduz muito). E por que aqui o sistema seria ruim? Porque na Alemanha, por exemplo, entram na lista os líderes partidários, aqueles que fazem campanha por seus companheiros. Aqui até poderia ser assim: Sérgio Cabral, Renan, Palocci, Aécio, Demóstenes Torres, todos são líderes partidários. E, encabeçando a lista, sua reeleição seria garantida e fácil.

A VERDADE, COMO LHE CONVÉM

Pois eis que agora, tantos anos depois do início da Operação Lava Jato, depois de impiedosamente atacado, Lula começa a repor a verdade dos fatos – a verdade dele, claro, mas quem disse que a verdade é apenas uma?

Agora sabemos, por seu depoimento, que Lula há três anos é vítima de um massacre. Pois nenhum político ou empresário, nem os Odebrecht, jamais lhe deu dez reais. E diz a verdade: ninguém lhe deu dez reais.

Acusá-lo de tentar obstruir as investigações da Lava Jato, que absurdo! Afirma Lula que o senador Delcídio do Amaral “disse uma inverdade”, ao afirmar, em delação premiada, que haviam conversado sobre maneiras de convencer Nestor Cerveró a calar-se sobre o que sabia da Petrobras. Lula, aliás, nem conhecia Cerveró. É verdade, claro: é impossível exigir que o presidente da República conheça um funcionário de uma estatal, mesmo que seja de alto escalão, mesmo que a empresa seja a maior do país, mesmo que seja Cerveró. Lula deve tê-lo cumprimentado sem prestar muita atenção. Seria incapaz de reconhecê-lo – afinal de contas, por que iria prestar atenção num rosto tão comum, numa empresa tão grande?

Lula diz também que fica profundamente ofendido com a insinuação de que o PT é organização criminosa. Só porque o “capitão do time” está preso, os três últimos tesoureiros do PT foram condenados, um presidente do partido também? Isso o ofende, claro: pois quem é o Brahma, o nº 1?

A verdade…

No depoimento, Lula disse que passou os oito anos de seu Governo sem participar de jantares e aniversários, “exatamente para não dar pretexto de aparecer àqueles que vêm tirar fotografia com celular para depois explorar essa fotografia”. Os maldosos lembram um belo jantar, em 4 de agosto de 2006, oferecido por ele no Jockey Club de São Paulo a empresários e políticos, para arrecadar fundos. Foram mil convites a R$ 2 mil cada; descontada a despesa, sobraria R$ 1,7 milhão. E, segundo o coordenador da campanha, Ricardo Berzoini, “é evidente que dá a oportunidade de diálogo do presidente com o empresariado e profissionais liberais”. Terá Lula dito uma inverdade? Não: ele disse que não participou de jantares. E esse, preparado pelo ótimo chef Charlô, não foi um jantar, foi um banquete.

…é uma mentira…

Houve também um almoço mais baratinho, em 13 de julho de 2006, no Restaurante São Judas, na rota do Frango com Polenta, no Grande ABC. Foram servidos dois tipos de frango (frito, com polenta frita; e à italiana, com molho de maionese); água, cerveja, refrigerantes. Lucro: R$ 495 mil. “É que Lula circula bem em todas as classes”, esclareceu Berzoini.

…que aconteceu

Lula disse, enfim, que não é contra a Operação Lava Jato. “Eu quero que a Lava Jato vá fundo para ver se acaba com a corrupção”. E não é que mais uma vez ele fala a verdade? Lula é a favor da Lava Jato, e só dela discorda num pequeno detalhe: andou pegando políticos companheiros e empresários aliados, que além de aliados sempre foram generosos. Se a Lava Jato esquecesse o PT, Lula seria 100% a favor.

A verdade…

Para completar o elenco de verdades pouco conhecidas, o ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse ao juiz Sérgio Moro que “nunca falou de propina com Palocci”. Claro que não! Gabrielli sempre foi um executivo preocupado com a empresa. Até hoje, por exemplo, defende a compra pela Petrobras da Ruivinha, uma refinaria toda enferrujada em Pasadena, EUA. A empresa belga Astra Oil comprou a refinaria por US$ 42 milhões e a vendeu à Petrobras, pouco depois, por US$ 1,1 bilhão. Segundo o delator Agosthilde Mônaco de Carvalho, já antes da compra Gabrielli tinha indicado a Odebrecht para reformá-la. Um executivo tão preocupado com a empresa que antes mesmo de fechar um negócio já tinha decidido como iniciar a operação não iria conversar sobre propinas e pixulecos com um político importante como Palocci. Talvez tenham discutido a adequada destinação dos parcos recursos disponíveis.

…de cada um

O patriarca da empresa, Emílio Odebrecht, vê Antônio Palocci como um político especial – “não carreirista como a maioria, mas um homem inteligente com visão de estadista”. Emílio Odebrecht, com tantos anos de experiência no mercado, certamente sabe avaliar as pessoas; conhece a diferença entre o que um político acha que vale e seu valor real.

“A gente trocava muitas ideias sobre aquilo que era importante para o nosso Brasil”, narrou. De um lado da mesa, Emílio Odebrecht; de outro, Antônio Palocci. Assistir à troca de ideias entre ambos, conhecedores do mundo e do comportamento dos seres humanos, deve ser instrutivo, uma aula de economia, de gestão e de política. Um privilégio valiosíssimo.

Emílio Odebrecht e Antônio Palocci

É COR-DE-ROSA CHOQUE

M de Michel, M de Marcela, M de Michelzinho, M do comando político do Governo. Só M, M de machos – que não entendem nada do M de mulher.

Michel Temer, como Dilma antes dele, não pode ver ninguém comendo banana na outra calçada sem atravessar a rua para ver se escorrega na casca. Teve tempo para elaborar um discurso memorável, mas preferiu a fórmula das revistas femininas da década de 1950, privilegiando o bom desempenho doméstico.

Temer até que fez coisas, há muito tempo, para ser bem lembrado pelas feministas. Criou, por exemplo, as delegacias da mulher, que de São Paulo se espalharam pelo Brasil. Mas os maus hábitos com relação a mulheres são comuns entre os políticos. Quando a ministra Ellen Gracie foi sabatinada no Senado, houve parlamentares que elogiaram seu porte, sua elegância, suas roupas. Alguém se lembrou de comentar os ternos e o porte do ministro Alexandre de Moraes?

Pior ocorreu quando Sylvia Kristel, a bela estrela do filme Emmanuelle, visitou o Congresso. Parlamentares de idade avançada, cabelos mal pintados, babavam diante da atriz. Um deputado, olhando para ela, levou um tombo.. E qual era a participação de Sylvia Kristel na política? Zero. Nenhuma. Estava no Brasil para um ensaio fotográfico da revista Status, e passou pelo Congresso. Pois não é que naquele dia o Congresso estava cheio?

A fala infeliz de Temer tornou-o alvo dos defensores dos direitos das mulheres. Como adverte a música de Rita Lee, não provoque: é cor-de-rosa choque.

Esperando Janot – bom

O Supremo Tribunal Federal solicitou aos veículos de comunicação interessados na Lista de Janot (os pedidos formulados pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot), que enviassem um HD em que coubesse todo o material disponível. Isso indica que as acusações da Promotoria estão para ser liberados, e os jornalistas terão conhecimento de tudo que os procuradores solicitam ao Supremo, sem vazamentos seletivos. Não haverá mais boatos de que fulano será investigado, já que todas as suspeitas dos procuradores estarão na Lista de Janot.

Esperando Janot – mau

Acontece que o Supremo pediu à mídia que envie equipamentos com capacidade de memória de um terabyte – um trilhão de bytes. Um smartphone bem recente, o IPhone 7, tem na versão mais cara a capacidade de 256 gigabytes, GB. Um terabyte equivale a 1.024 GB. Com um terabyte, dá para guardar umas 200 mil músicas; e gravar 730 filmes de 1h30, com qualidade de imagem de DVD.

Quem é que vai analisar tudo isso de arquivos? Este é o problema da Lava Jato e das operações conexas: o volume da ladroeira é tamanho que fica impossível acompanhar tudo, individualizar as culpas, analisar convenientemente as provas, julgar os réus. Há quem diga que essa foi a tática dos principais envolvidos: contar tudo, até superar o limite operacional de quem os julga. Ninguém é jovem entre os acusados na bandalheira. Se o julgamento demorar, talvez nem ocorra.

Esperando Janot – real

Hoje há 800 réus de ações penais aguardando julgamento no foro privilegiado do Supremo. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, publicado no bom site jurídico Espaço Vital, “o tempo de espera de um processo para uma nova providência do ministro relator ou revisor, que era de sete dias em 2002, saltou para 42 dias em 2015”. O pessoal apanhado na Lava Jato deve, claro, se preocupar. Mas talvez não seja preciso preocupar-se muito.

A magia eleitoral

Depois de anos de guerra fiscal, São Paulo e Goiás chegaram a um acordo. Goiás festeja os termos da paz: “Os incentivos fiscais foram determinantes para o crescimento de Goiás nos últimos anos”, diz o governador Marconi Perillo, “e agora estão garantidos em nossa política de desenvolvimento”. O governador Geraldo Alckmin determinou a retirada da ação que pedia o fim dos incentivos fiscais goianos; e o Supremo retirou a questão da pauta de julgamentos.

Nada como interesses eleitorais comuns para promover reconciliações, não é mesmo? Alckmin quer ser candidato à Presidência da República em 2018, mas precisa vencer no PSDB seus adversários Aécio Neves e José Serra. O goiano Perillo agora está a seu lado; e pode ser vice de Alckmin, ou senador.

O terror eleitoral

O problema das eleições é que todos os candidatos se transformam automaticamente em alvos. Antigos aliados que se julgam abandonados, por exemplo. E agora os adversários do PSDB querem atingir simultaneamente Alckmin, Serra e o senador Aloysio Nunes – que substituiu seu amigo José Serra no Itamaraty – com o caso Paulo Preto. O poderoso Paulo Preto, ou Paulo Vieira de Souza, foi presidente da Dersa, que administra as mais modernas rodovias paulistas, e, depois de acusado de se relacionar bem com Carlinhos Cachoeira e Fernando Cavendish – um, bicheiro; outro, presidente da Delta, empresa que acabou sendo proibida de realizar obras para governos – deixou o cargo. Queixou-se de Serra, dizendo que aliados feridos não podem ser abandonados. E agora há quem diga que ele prepara uma delação premiada. Seria um problema sério para o PSDB.

O PAÍS DAS NOTÍCIAS VELHAS

Lula informa em entrevista que aceita ser presidente do PT. Quando, desde que Lula é Lula, ele deixou de ser, de direito ou de fato, o presidente do PT? Quem é que manda no PT: Mercadante, Falcão, Mantega, Dilma?

Alckmin informa que gostaria de ser candidato à Presidência em 2018. E quem é que não sabia disso há anos? Ele quer, o Aécio quer, o Serra quer – até agora, quem não os quis foram apenas os eleitores.

O prefeito João Dória, com alto nível de aprovação, garantiu que não é candidato à Presidência, e que apoia Alckmin. E que é que queriam que ele dissesse? Se admitisse ser candidato, o governador Alckmin passaria a tratá-lo como adversário. Os demais candidatos mobilizariam suas tropas de choque para desgastá-lo. Os seguidores de Aécio, Alckmin e Serra no PSDB lutariam para inviabilizá-lo no partido. Dória conhece a importância da máquina de Alckmin para lançá-lo e elegê-lo. Ele pode ser candidato se Alckmin desistir; se o PSDB se convencer de que, com Aécio ou com Serra, vai perder de novo; e que, com Dória, pode ganhar.

A defesa do presidente tenta anular o processo contra a chapa Dilma-Temer, alegando que foi alimentado por vazamentos irregulares e é, portanto, ilegal. Pode ser; mas quem é que não sabe que boa parte das doações ia mesmo para o caixa 2? De novo, só os detalhes. Mas sempre se soube que nossos líderes são os melhores que o dinheiro pode comprar.

Fernando Henrique explica

O financiamento de campanhas nunca deixou de ter aspectos ocultos (embora menos escandalosos do que agora, em que até governos estrangeiros foram pixulecados para favorecer empresas brasileiras). Mas todos conheciam o caminho das pedras. Agora Fernando Henrique recebe espaço nos noticiosos para contar aquilo que, se os cisnes do Palácio da Alvorada falassem, grasnariam para qualquer maluco que conversasse com eles. O fato é o seguinte: nos meios políticos, arrecadar dinheiro irregular para a campanha é um fato da vida, um deslize menor. Mas pegar parte do dinheiro para enriquecer é corrupção, um crime. O político honesto é o que usa na campanha tudo aquilo que arrecada, sem apropriar-se de nada.

Fernando Henrique está certo, mas diz o óbvio. Quem não sabia disso?

Quem sabe um dia

Dizem que a nova lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, levará ao Supremo mais 30 nomes de autoridades. É dinamite pura – ou melhor, não é, não. Nesta segunda-feira, 6, a primeira Lista de Janot, em que eram pedidos 28 inquéritos sobre 55 suspeitos, completou dois anos. Entre a Lista de Janot e hoje, a Procuradoria apresentou 20 denúncias, contra 59 pessoas. Até agora, o Supremo recebeu cinco denúncias e enviou duas à primeira instância. Foram abertos 27 inquéritos, dos quais 40% foram arquivados, total ou parcialmente; 17 ainda estão correndo.

Como pode o STF enfrentar o volume de trabalho da nova Lista Janot?

Uma ideia de quem sabe

O jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, propõe uma saída para dar vazão aos processos com foro privilegiado: criar duas forças-tarefa no Supremo. Uma, formada por desembargadores escolhidos pelos ministros, teria como tarefa acelerar a fase de instrução dos processos; outra, juntando desembargadores, a Procuradoria Geral da República e a Policia Federal, iniciaria imediatamente as investigações requeridas pelo Supremo. Pode dar certo.

Lula e Moro, frente a frente

O juiz Sérgio Moro agendou o depoimento de Lula para 3 de maio, às 14h, em Curitiba. Até agora Lula conseguiu depor à distância, em contato eletrônico com Moro. Nesse processo – o do apartamento triplex no Guarujá – pode ocorrer o primeiro encontro pessoal entre ambos.

Tucano contra Aécio

O ex-deputado federal Marcelo Itagiba, do PSDB do Rio, iniciou campanha para que Aécio, citado em delações premiadas, se licencie da presidência do partido até que terminem as investigações sobre ele. “O PSDB é maior do que seu presidente”, diz Itagiba. E completa com uma pergunta, esta no twitter: “Se tivesse recebido, admitiria?”

O PSDB é um partido de amigos composto 100% por inimigos.

O Dia da Mulher

Este colunista deveria ser contra o Dia da Mulher, por achar que todo dia é Dia da Mulher. Mas, enquanto houver idiotas depreciando e maltratando mulheres, é preciso haver o Dia da Mulher. E a excelente blogueira Marli Gonçalves  montou um belo cardápio musical, só de grandes mulheres. Ali há Maysa, Billie Holiday, Gal, tantas outras, com música maravilhosa. Este colunista acha que faltam Carmen Miranda e Barbra Streisand. Fica para a próxima!

Ó LADROEIRA, POR QUE ESTÁS TÃO TRISTE?

A divulgação das delações premiadas dos diretores da Odebrecht tumultuou a estratégia dos políticos já condenados pela Operação Lava Jato, e por três motivos. Primeiro, porque confirma mais uma vez seu envolvimento em práticas sem amparo legal, no financiamento de campanhas, na estruturação do partido e na rápida ascensão das fortunas pessoais. Segundo, porque, embora toque também em dirigentes de outros partidos hoje no poder, deixa brechas para que se alegue que, nesses casos, tudo foi feito dentro da lei (quem levou os principais tiros foram políticos importantes, de alto escalão, mas que podem ser descartados e substituídos – o processo de fritura dos amigos, aliás, já começou). Terceiro, porque se esperava que as delações provassem que político é tudo igual, permitindo que se tentasse a libertação dos poucos presos diante da impossibilidade de investigar, julgar, condenar e prender as multidões de suspeitos de iguais crimes.

A estratégia dos condenados e seus aliados não está totalmente errada: suas diferenças morais diante dos demais delatados, se as há, são de gradação, não de comportamento. Mas, para efeito político, a gradação ganha força; e os crimes, digamos, menores, deixam de justificar os maiores. Mesmo assim, não há motivo para a tristeza dos corruptos já julgados. O Supremo não é um tribunal penal; dificilmente terá condições de julgar, em prazo aceitável, todos que caírem em suas malhas. Se a lei for mudada, para que ninguém deixe de ser julgado, os condenados terão boa chance de recorrer. Para eles, talvez amanhã vá ser outro dia.

O Brasil, como é

Em seu depoimento, Marcelo Odebrecht diz que a empresa entregou ao PT, nos Governos de Lula e Dilma, um total de R$ 300 milhões. Destes, 150 milhões foram para a campanha de reeleição de Dilma. Mais R$ 50 milhões foram pagos para que o Governo Dilma editasse uma medida provisória modificando o Refis. A medida provisória foi assinada por Dilma e pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Marcelo Odebrecht disse que também repassou dinheiro a Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, mas sem esclarecer se a doação foi legal ou para o Caixa 2. Citou um jantar com o vice-presidente Michel Temer, companheiro de chapa de Dilma, mas negou ter tratado de valores para a campanha. Pelo que disse, pode até ter prometido contribuir, mas os detalhes – quantia, modo de repasse – seriam tratados por outras pessoas. Segundo o advogado José Yunes, amigo de Temer, quem cuidava disso era Eliseu Padilha.

Opinião de jurista

Do portal jurídico Migalhas, sobre o depoimento de José Yunes que aparentemente dinamitou o ministro Eliseu Padilha:

“De duas uma : ou alguns comentaristas políticos são ingênuos, ou são venais. Só isso explica a análise que fazem do depoimento espontâneo de José Yunes, aquele que confessou ter recebido o “envelope gorducho” do doleiro. Ninguém duvide, o que aconteceu é que ele teve acesso à delação (ou da Odebrecht, ou de Lucio Funaro, ou, ainda, de ambos) e se antecipou. Ou seja, criou sua versão para os fatos que inexoravelmente vão surgir. E mais, isso foi combinado com todos os partícipes. Fimdepapo.”

De volta…

Um grupo de 400 pessoas, que se apresentam como intelectuais, artistas e ativistas, fez um apelo ao ex-presidente Lula para que lance sua candidatura à Presidência da República em 2018, “porque é preciso incluir muita gente e reincluir aqueles que foram banidos outra vez”. Há alguns nomes já esperados – Leonardo Boff, Fernando Morais, Chico Buarque, Beth Carvalho; outros, menos militantes, mas tradicionalmente petistas – Marieta Severo, Dira Paes, Tássia Camargo. A partir do dia 6, segunda, o manifesto estará aberto a quem quiser aderir.

A razão do lançamento de Lula à Presidência é clara: se ele for preso, parecerá que estão tentando barrar sua candidatura. Mas Lula ainda não se manifestou.

…ao passado

Ah, Chico Buarque! Na opinião deste colunista, divergir das opiniões de Chico Buarque é uma coisa, deixar de admirar um dos maiores letristas que o Brasil já gerou é outra. Mesmo quem ache que Lula é a encarnação do mal absoluto deve evitar que sua repulsa ao político se estenda a seus seguidores; e lembrar que Chico tem obras notáveis no campo da música. Pois muitos anos antes da Lava Jato, em 1990, ele lançou a excelente “Vai Passar” (e foi dessa letra que o ótimo jornalista Augusto Nunes, que não compartilha nem de longe o pensamento político de Chico, foi buscar o “Sanatório Geral”, título de uma de suas colunas).

E veja esses versos, escritos no final do século passado, antes que alguém imaginasse que dirigentes partidários e empresários pudessem ir para a cadeia:

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“Num tempo
Página infeliz da nossa história,
Passagem desbotada na memória,
das nossas novas gerações.
Dormia/ a nossa pátria mãe tão distraída,
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.”

Acabou para você

No Congresso, o Carnaval não acabou. A folga só acaba na terça-feira.


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