CADEIA DE EQUÍVOCOS

Juristas das mais diversas tendências, estrategistas políticos, acusadores e defensores que nos perdoem, mas só falta uma semana para que o Tribunal Regional Federal examine o apelo de Lula contra sua condenação em primeira instância. O que se sabe é que as questões que importam não devem ser resolvidas. Muito barulho por nada: mesmo que, dia 24, Lula perca por unanimidade, 3×0, não será preso (quem diz é o presidente do TRF-4, desembargador Thompson Flores). E pode ser que a Lei da Ficha Limpa, segundo a qual réus condenados em segunda instância por um colegiado não podem ser candidatos, por algum motivo deixe de ser aplicada. Conforme a tendência política do jurista consultado, a lei é clara ou tem muitas brechas, abrindo campo para recursos mil. Em resumo, pode sair uma sentença com a qual ou sem a qual a eleição continua tal e qual.

Lula, sem dúvida, sai vitorioso: ao contrário do que muitos imaginavam, abre-se a possibilidade de arrastar a candidatura até a eleição, ou pelo menos perto o suficiente para que ele se apresente como vítima e lance um poste para herdar seus votos. Se for preso, melhor: vira mártir. Nem precisa atacar a Justiça, pois tem quem faça isso por ele. Como Gleisi Hoffmann, que disse que para prender Lula será preciso matar gente. Logo se desculpou, mas é o que pensa. E já se sabe que, para muitos, a Justiça só é justa quando é favorável a Lula. Teremos um ano bem quente.

O apito final

A grande esperança de Lula é levar o caso até Brasília. Por um lado, por ganhar tempo; por outro, sente-se melhor com ministros do Supremo, que já conhece, com quem teve alguma convivência, do que com o pessoal de primeira e segunda instâncias. Ao longo de treze anos de poder petista, coube-lhe, e à sucessora Dilma Rousseff, nomear sete dos atuais ministros (só Gilmar Mendes, escolhido por Fernando Henrique; Celso de Mello, por José Sarney; Marco Aurélio, por Fernando Collor; e Alexandre de Moraes, por Michel Temer, não foram indicados por eles).

Olha o candidato!

Michel Temer deve terminar seu mandato em 31 de dezembro. No dia 1° de janeiro de 2019, deixa de ter direito ao foro privilegiado. Os processos que o Congresso suspendeu voltam a andar, e o então ex-presidente estará sujeito a juízes de primeira instância, tendo de explicar a conversa com Joesley Batista, a corrida de seu amigo Rocha Loures com a mala e sabe-se mais o que. É ruim, aos 78 anos, antever essa aposentadoria.

Todas as atitudes de Temer na área política devem ser avaliadas levando em conta esse fato. Nos EUA, ao deixar o poder, Nixon combinou com o sucessor Gerald Ford que seria indultado. O indulto foi bem aceito, já que era a condição para o país voltar à vida normal. Aqui, com a radicalização em alta, quem pode garantir que o indulto será dado e validado? Se é para ficar na luta política, Temer tentará a reeleição. Nada é impossível, nem isso. Na opinião do presidente, se a economia for bem, ele pode até ganhar.

Michel Temer vem aí

Teremos um ano bem quente. E com cenas inimagináveis: amanhã, 18, Temer grava uma participação no Programa Sílvio Santos. Eles têm algo em comum (como o bordão “Quem quer dinheiro? Quem quer dinheiro?”), mas só se pode imaginar os dois juntos na TV levando em conta o esforço de Temer para elevar seus índices de popularidade. O programa com Temer vai ao ar no dia 28, mas foi preciso gravar com antecedência porque Sílvio viaja de férias já neste fim de semana. Tudo bem, Michel Temer deve ser coisa nossa, mas nem tanto que interrompa o intervalo de férias de Sílvio.

Outra saída

Há gente de boa cabeça trabalhando com outra hipótese: disputar com um candidato de centro, que tenha o apoio de Temer (dependendo das pesquisas, aberto ou discreto), e que, eleito, lhe garanta o foro privilegiado.

A tese básica desse grupo é que nenhum candidato radical terá chances de vencer a eleição – o que elimina Lula e Bolsonaro (mais os anedóticos, tipo Boulos, Maria do Rosário, Contra Burguês Vote 16 e outros). Um bom candidato de centro teria grandes chances de vencer, e nomearia Temer no dia da posse para o Itamaraty. Ele viajaria pelo mundo e manteria o foro.

Bolívia x Brasil

Evo Morales e Michel Temer trocam elogios e gentilezas, mas há um sério problema no futuro das relações entre Brasil e Bolívia. Dois altos funcionários bolivianos, o procurador-geral (na Bolívia, Fiscal-General) e o chefe de Polícia, que participaram da investigação oficial sobre a morte de três estrangeiros suspeitos de planejar o assassínio de Evo Morales, descobriram algo que ainda não querem revelar (até se sentirem em segurança) e fugiram para o Brasil, onde conseguiram refúgio. Ambos dizem que estão sendo ameaçados de morte. A Bolívia os quer de volta.

ACABOU-SE A POUCA VERGONHA

As orações dos bons cidadãos foram atendidas: o Brasil promove amplo combate à pobreza (os pobres estão perdendo por 7×1), o Governo tirou milhões da miséria (milhões devidamente embolsados por cidadãos que já estiveram acima de qualquer suspeita), e acabou-se de uma vez a pouca vergonha em Brasília, pois a pouca vergonha que existia já não existe mais.

O caso da nomeação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho é um fim de feira. E não apenas pela escolha para o Trabalho de uma pessoa já condenada duas vezes em processos trabalhistas: o pior é a entrega pública de um Ministério a Roberto Jefferson, proprietário do PTB e pai de Cristiane. Jefferson prestou um serviço inestimável ao Brasil ao revelar o Mensalão. Mas, para se vingar de José Dirceu, a quem acusava de ter-lhe prometido um pixuleco mais gordo que o efetivamente entregue, Jefferson revelou seus próprios e abundantes ilícitos – tantos que, apesar da delação, foi para a cadeia, de onde saiu há pouco tempo. É ele que manda num dos ministérios. E, para agradá-lo, Temer luta na Justiça para nomear sua filha.

Temer, político experiente, sabe que isso pega mal. Mas quer garantir os votos do PTB para a reforma da Previdência. O problema é que a compra dos votos dos parlamentares mais compreensivos já chegou a tal custo que talvez a reforma da Previdência, economicamente, não valha mais a pena.

Tem mais. Hoje, esta coluna inteira mostra o fim da pouca vergonha.

No Executivo…

O projeto de Orçamento de 2018 enviado pelo Governo ao Congresso prevê R$ 17.818,00 para o Gabinete da Vice-Presidência. Ocorre que o Brasil não tem vice-presidente e não o terá antes de 2019. Verba para que?

O Orçamento prevê também R$ 197,7 milhões para auxílio-moradia da Justiça do Trabalho. O Itamaraty, com 255 postos diplomáticos espalhados pelo mundo, tem menos: R$ 188,534 milhões. Segundo o bem-informado colunista Cláudio Humberto, de Brasília, a Justiça do Trabalho, sozinha, custa mais do que toda a Justiça americana. A população dos Estados Unidos é 50% maior que a do Brasil.

…no Judiciário…

A Justiça trabalhista se esforça para manter-se à frente. O Tribunal Superior do Trabalho está comprando togas, becas e capas novas para seus dez ministros. São togas de gala, togas de serviço, os dois tipos com nomes bordados na parte interna, dez de cada; dez becas de secretário; 50 capas de serventuários; 30 conjuntos de jabor e punhos (os “punhos de renda”), com formato e comprimento sob medida. Valor da licitação: R$ 40 mil.

…na Justiça Eleitoral…

Coisa fina: a empresa Flextronics foi contratada pelo Tribunal Superior Eleitoral para desenvolver a impressora que, acoplada à urna eletrônica, imprima os votos, dificultando fraudes. Algumas curiosidades: dois centros de excelência de tecnologia avançada, o IME, Instituto Militar de Engenharia, e o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, se colocaram à disposição do TSE para desenvolver o projeto, a preço de custo; o TSE contratou a Flextronics, sem licitação. A Flextronics investiu no projeto dinheiro do TSE, R$ 7,5 milhões, para depois vender este projeto ao próprio financiador. As urnas serão 30 mil, quando seriam necessárias, por lei, 600 mil. E quem ganhou a licitação para vender as impressoras? Pois é: a Smartmatic, a empresa de origem venezuelana que já fornecia ao Brasil.

…no Congresso…

Diz o artigo 57 da Constituição Federal, a Constituição Cidadã: “O Congresso Nacional reunir-se-á, anualmente, na Capital Federal, de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. Parágrafo 1º: As reuniões marcadas para essas datas serão transferidas para o primeiro dia útil subsequente, quando recaírem em sábados, domingos ou feriados.” Só que não: 2 de fevereiro cai na sexta, e o retorno dos parlamentares, após as férias de fim de ano, deveria ocorrer no dia 5. Mas dia 13 é terça-feira de Carnaval. Dia 19 é segunda, e trabalhar na segunda é para quem não tem foro privilegiado nem auxílio-moradia. Os primeiros a voltar, portanto, chegarão ao Congresso no dia 20. A maioria volta mesmo é no dia 21.

…e os candidatos?

A equipe de Lula está convencida de que ele não será candidato apenas se não quiser. Se o recurso contra a sentença de primeira instância, que o condenou a nove anos e meio de prisão, for negado, ele cai na Lei da Ficha Limpa e não pode ser candidato; e pode ser preso imediatamente. Mas não é bem assim. O ótimo repórter Gabriel Manzano, no O Estado de S.Paulo, apurou cada uma das hipóteses – inclusive a pior para Lula, ser derrotado por 3×0. Os recursos no tribunal podem levar seis meses; e ainda pode recorrer ao STJ e Supremo. Se disputar a eleição e ganhar, quem o segura?

Quanto a Bolsonaro, disse a uma repórter que usava o auxílio-moradia, tendo casa em Brasília, para comer gente. Perdeu-se na primeira pergunta.
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O BRASIL QUE O BRASIL LARGOU

Há territórios, no Rio, em que a Polícia só entra com apoio das Forças Armadas. Há áreas, em São Paulo, em que o Governo garante que a Polícia entra, mas onde não entra, não. Em todo o país, há glebas ocupadas pelos movimentos dos sem-alguma-coisa, com reintegração de posse concedida pela Justiça, em que a Polícia não entra. E há o caso mais escandaloso, que agora ocorreu em Goiás: a presidente do Supremo Tribunal Federal, um dos três Poderes da República, tinha decidido visitar o presídio dos motins. Mas desistiu: segundo sua assessoria, “por questões de segurança”.

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, tem segurança, pode convocar a Polícia Federal, estava com o governador Marconi Perillo, que tem sob seu comando a Polícia Militar de Goiás. Há a guarda do presídio. E a ministra não pôde entrar. A 200 km da Capital Federal, onde fica o comando das Forças Armadas, o presídio não obedece às autoridades: é exercido por facções do crime organizado, que decidem entre si, pelas armas, quem manda naquela área que, como nos foi ensinado, e até agora acreditávamos, pertencia ao Brasil.

O governador Perillo garantiu que a ministra não conversou com ele a respeito da visita ao presídio; e, se quisesse ir, “teria absoluta segurança para fazer a visita”. Sua Excelência só esqueceu de combinar com a equipe da ministra, cuja versão é outra. Em quem o caro leitor prefere acreditar?

Quem pode, pode

Os poderes Executivo e Judiciário não conseguiram garantir o acesso da presidente do Supremo Tribunal Federal a uma prisão goiana onde quem manda é o crime organizado (qual facção? Isso está sendo decidido com muito sangue). E o Poder Executivo acaba de descobrir que não tem poder nem para nomear ministros sem receber ordens de fora: o juiz federal Costa Couceiro, da 4ª Vara de Niterói, suspendeu a nomeação da ministra do Trabalho, Cristiane Brasil, obrigando o Governo a adiar a posse. Adiar ou desistir: o recurso foi rejeitado pela segunda instância. Mas Temer garantiu que vai até o Supremo para manter a nomeação. Tudo, menos largar o osso.

A causa do bem

Por que insistir tanto em Cristiane Brasil, que não tem grande presença como deputada nem se notabilizou por vastos conhecimentos na área do Trabalho? Simples: Cristiana é filha do deputado Roberto Jefferson, chefão do PTB, que tem vinte votos na Câmara – votos que podem ser essenciais na votação da reforma da Previdência. Como comentou um assíduo leitor desta coluna, Alex Solomon, a negociação sobre a reforma da Previdência segue conforme a rotina: “É pagar ou largar”.

Dia D – ou quase D

Com manifestações ou sem elas, sejam favoráveis ou contrárias, e seja qual for o resultado do julgamento, o ex-presidente Lula não será preso no dia 24 de janeiro. De acordo com a assessoria de imprensa do TRF-4, onde deverá ser julgado o recurso de Lula contra a condenação em primeira instância, um condenado só pode ser preso depois de esgotados todos os recursos no segundo grau. Mesmo que nenhum juiz peça vista do processo, o que adiará a decisão até seu voto ser proferido, e Lula seja condenado por unanimidade, há a possibilidade de embargos de declaração, em que a defesa pede esclarecimentos sobre a sentença. Se houver prisão, só depois.

Válvula de escape

A notícia é excelente para o PT, que inicialmente ameaçava promover manifestações em todo o país (alguns dirigentes do partido, incluindo José Dirceu, falavam até em revolta). Depois reduziu as manifestações a duas, uma em São Paulo, outra em Porto Alegre, e estava em dificuldades para assegurar que as duas tivessem público ao mesmo tempo. Transporte, comida e hospedagem, mais o cachezinho dos voluntários, exigem quantias que hoje as centrais sindicais têm dificuldades de levantar, sem o imposto sindical e com a dramática redução das bancadas e cargos públicos do PT.

O incrível Huck

Luciano Huck, da Globo, apareceu no programa do Fausto Silva, como tantos astros da Globo. Se Huck será candidato, não se sabe. Ainda não é.

Hora H

O deputado Jair Bolsonaro, que até agora navegou tranquilo no mar sem candidatos das eleições presidenciais, está prestes a fazer uma descoberta: a de que não tem tempo de televisão, seja qual for o partido pelo qual decida sair. Nos blocos de 30 segundos, terá direito a algo como meio segundo. E nos blocos de 12m30s, terá pouco mais de 12 segundos. Dá para repetir, sincopadamente, por cinco vezes, a frase “Militar é bom, civil é ruim”.

Desembarque

Não dá tempo nem para responder à reportagem sobre o crescimento de seu patrimônio. O parco horário de que disporá não é tão mau assim.

MAIS INFINDA QUE O INFINITO

Nelson Marchezan Jr., PSDB, prefeito de Porto Alegre, sem consultar o governador gaúcho Ivo Sartori, MDB, pediu ao Governo federal que mande o Exército e a Força Nacional para manter a ordem na cidade, no dia 24, quando o apelo de Lula contra a sentença que o condenou a 9,5 anos de prisão será julgado pelo Tribunal Regional Federal. Conforme a decisão, o ex-presidente pode ficar inelegível pela Lei da Ficha Limpa e ser até preso.

A situação de Lula deixou o PT ultra-inquieto: o partido programou até a ocupação de Porto Alegre, líderes como José Dirceu pregam algo muito parecido com insurreição e guerra civil. Bobagem: se alguém ultrapassar os limites pode ser preso. E o PT tem um problema sério: sem o poder, com a Lava Jato, sem imposto sindical, como pagar os voluntários, transportá-los e alimentá-los? O partido se arrisca a um fiasco como o da última caravana.

Aí entra Nelson Marchezan Jr., ultrapassando os limites de ser prefeito e dando à manifestação petista, que não era muito diferente de demonstração de intenções, o caráter de coisa séria. Considera-se ameaçado, o prefeito! E pede gente fardada para protegê-lo das hordas vermelhas, que imagina que existam e que queiram ocupar sua cidade. Marchezan virou a esperança dos petistas radicais, ao dar-lhes crédito e visibilidade, como se força tivessem.

Frase de Einstein: “Duas coisas são infinitas, o Universo e a estupidez humana. Mas, com relação ao Universo, ainda não tenho certeza absoluta”.

…ói ele aí tra veiz

José Rainha, que foi líder do MST, perdeu o posto para Stedile e estava silencioso, foi convocado para ajudar a ocupar Porto Alegre (afinal de contas, é um a mais). Rainha diz que este será um “janeiro quente” e que todos devem se mobilizar em defesa de Lula. Há pouco mais de dois anos, Rainha foi condenado a 31 anos de prisão, mas não foi preso até agora.

Dois destinos

Lula em Porto Alegre, tentando reverter a condenação que sofreu em Curitiba, com risco de ser preso ou declarado inelegível; Temer, na mesma data, 24 de janeiro, a caminho de Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico Mundial, levando os ótimos resultados que a economia brasileira vem apresentando. Com ele, os dois principais executivos da área econômica: o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. São bons resultados; e, se houver medidas de apoio – por exemplo, a volta do grau de investimento, perdido por Dilma – Temer pode até sonhar em ganhar popularidade e ser candidato à reeleição.

Desafio maior

A tropa de choque oposicionista nas redes sociais (e jornais) tem um problema sério para negar que os dados econômicos tenham melhorado. É que Meirelles foi repetidamente indicado por Lula a Dilma para ocupar o Ministério da Fazenda; e Dilma seguidamente o rejeitou. Lula tinha razão.

Martelo…

Ao mesmo tempo em que escolheu gente do ramo para tocar a economia e deixa seu pessoal trabalhar, Temer continua devastando a administração com apetite de gafanhoto faminto. A escolha de Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, para o Ministério do Trabalho, é um exemplo notável: Cristiane é citada na delação da JBS (por estar entre os negociantes de um pixuleco de R$ 20 milhões para o seu PTB, em troca do apoio do partido à candidatura de Aécio Neves, do PSDB, em 2014). É apontada na delação da Odebrecht como receptora de uma bonita mochila com R$ 200 mil. Há mais: dois funcionários a processaram na Justiça do Trabalho pedindo indenização por horas extras não-remuneradas. Ambos ganharam.

…na ferradura

Por falar em “ambos”, Moreira Franco e Eliseu Padilha, ambos ministros, estão ambos na mira da Lava Jato – ai de ambos se perderem o cargo e o foro privilegiado! Temer tem encontro com a Justiça de primeiro grau assim que deixar o mandato (por isso é importante para ele poder tentar a reeleição). Solitário num escândalo antigo, o ministro das Cidades, Alexandre Baldy, era chamado por Carlinhos Cachoeira de “menino de ouro”. Cachoeira não é de distribuir elogios a quem não os mereça.

Tesouro detonado

Foi bonita a festa, pá, como disse Chico Buarque sobre outro assunto. O Rio teve fogos durante 17 minutos seguidos, um recorde. Mas a conta veio logo: os dois principais hospitais universitários do Rio ficaram ser verbas e ameaçam suspender a contratação de residentes – o que é pior do que parece, por prejudicar o atendimento dos pacientes e o treinamento dos médicos. As escolas de samba, habituadas a fartos cofres, ajustam em cima da hora seus desfiles, para que não lhes falte dinheiro no Sambódromo. Que ninguém diga que este é um problema do Rio: o Carnaval carioca é o grande símbolo do turismo brasileiro, e o Rio é o cartão de visitas do país.

TUDO TEM SEU NOME CERTO

Um dia, perguntaram a Lula se era comunista. “Não”, respondeu. “Sou torneiro mecânico”. Lula tinha razão e não tinha: não era comunista (como não é até hoje); torneiro mecânico tinha sido quando ainda era capaz de lembrar-se dos comandos de um torno. Lula tem fascínio por Cuba e pela família Castro, mas deve achar Maduro um chato. Maduro, Evo e outros seres servem a seus objetivos e são descartáveis. Usou, gastou, lixo.

Lula não é comunista. Nem outros que são chamados de comunistas porque não seguem totalmente a religião do Estado mínimo – até Fernando Henrique, que privatizou a Vale e a telefonia, virou comuna, porque torce para que Lula não vá preso. E João Dória, onde achará um cashmere vermelho para enrolar na gola do macacão Ferragamo sob medida?

Kim Kataguiri, direita? Imagine um debate sobre Economia, com Bolsonaro, Kim e o Instituto Mises. Kim teria de recorrer ao notável livro O caminho da servidão, de Friedrich Hayek: para debater à altura, só subindo no livro. E Suplicy, cuja tese da renda mínima vem da economia liberal, será direitista? Nem toda a direita é fascista, nem toda a esquerda é comunista. É preciso saber quem é quem para que o debate seja livre, sem ódios, e permita achar um caminho para o país. Caso se mantenha a troca de insultos, como no futebol, acabaremos, como no futebol, tendo jogos de torcida única. Que, em politica, se chamam ditaduras.

A guerra do pernil

O caro leitor acompanha a briga do presidente bolivariano Nicolás Maduro com fornecedores brancos, loiros, dizóio azul, neoliberais a serviço duzianque, que não entregaram os pernis encomendados pela Venezuela só porque a encomenda não foi paga? Pois é: a informação de cocheira (ou, em se tratando de pernis de porco, de cocho) é de que 20 mil toneladas de pernil foram embarcadas pelos exportadores portugueses, e estão guardadas na Colômbia, pertinho da Venezuela, para entrega assim que Maduro pagar o preço combinado de € 40 milhões. Mas não sejamos inflexíveis com Maduro: essa história de ele, como Pai dos Pobres, distribuir pernis ao seu povo, e por conta de produtores de outro país, é muito engraçada.

Dinheiro vira pipoca

No Rio de Janeiro os salários do funcionalismo estão atrasados, faltam recursos para enquadrar os narcotraficantes em guerra, não há dinheiro para despoluir seu cartão de visitas, a belíssima Baía da Guanabara, acabaram as verbas para manutenção dos carros da Polícia (que andaram enguiçando em frente à bandidagem). Mas houve dinheiro à vontade para pagar a mais longa queima de fogos do réveillon: 17 minutos de foguetório, disparado de grandes barcaças ancoradas perto da praia. Se houvesse 15 minutos em vez dos 17, qual a diferença? E 13, ou 10? Uma das cidades mais bonitas do mundo, com aquela orla, com o Cristo Redentor, teria a festa comprometida se houvesse menos volúpia em detonar o Tesouro carioca?

Amarelinha recorde

Em São Paulo, a grande atração só não foi mais ridícula porque custou menos. Mas na avenida Paulista foi batido o recorde mundial de gente pulando num pé só. Sim, fizeram isso. E não se limitaram a isso: fizeram a maior questão de registrar a besteira e incluí-la no Livro Guiness. Tudo bem, era feriado, festa, cada um se diverte como quer, mas recorde de amarelinha em grupo (para perna direita)… Agora, vamos á perna esquerda!

O dinheiro detonado

Mas sejamos compreensivos com os gastos de nossos dirigentes, mesmo que pareçam estranhos. Vejamos como funciona nosso país fora das festas. O Brasil paga auxílio-moradia a 88 juízes de tribunais superiores, nove ministros do Tribunal de Contas da União, 553 conselheiros de tribunais de contas de Estados e Municípios, 14.882 juízes, 2.381 desembargadores, 2.390 procuradores do Ministério Público Federal, 10.687 procuradores dos ministérios públicos estaduais. Total das despesas com auxílio-moradia a quem, em geral, ganha bem, mora em sua própria cidade e, com frequência, em casa própria, em bairros nobres: R$ 1 bilhão e 580 milhões por ano.

É nosso, mas é deles

O ano que agora começa é especial: nele ocorre a grande festa eleitoral. A campanha vai custar R$ 1,7 bilhão, todinha com dinheiro público, como o PT vinha reivindicando e os adversários se apressaram a apoiar. Os donos dos partidos distribuem as verbas de acordo com sua vontade. Imagine.

Feliz ano velho

O Rio começou 2018 com tiroteios em três favelas, São Paulo com a morte de um menino de cinco anos, atingido por bala perdida e pela incapacidade do sistema de saúde, que durante seis horas não o atendeu. Em Goiás, nove presos morreram numa rebelião (houve mais duas, essas porém sem vítimas) e dez ficaram feridos. O ano muda, o Brasil continua.

2018, UM ANO CLARAMENTE ESCURO

O presidente Michel Temer, usando sem parar a máquina do Governo, prometendo ampliar ainda mais as vantagens oferecidas a quem o apoia, mantendo-se ao lado de cavalheiros amplamente conhecidos como Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco, atraindo para seu grupo mais pessoas vocacionadas para integrá-lo, como o deputado Carlos Marun, tem o apoio de 6% do eleitorado – um número como o ostentado, veja só, por Dilma. Por que usar maneiras tão discutíveis de fazer política, para ter resultados tão frustrantes? Por que, com tão pouco apoio, ensaia tentar a reeleição?

Simples: porque a primeira obrigação de um político é sobreviver. Vale tudo, portanto, para manter-se no cargo, mesmo tendo de chamar de Vossa Excelência alguns cavalheiros que só agora aprenderam a usar talheres às refeições (e a devolvê-los no final do banquete). Sobreviver não quer dizer que continue dando as ordens – que essas, mesmo em seus melhores tempos, dava em voz tão baixa que o gravador de Joesley não pôde captá-las direito. Sobreviver significa ficar livre de juízes de primeira instância, como Sérgio Moro. Tentar a reeleição segue a mesma lógica: findo o mandato, Temer perde o foro privilegiado e cai nas mãos dos juízes de primeira instância, como Moro. Temer só não tentará a reeleição se houver um acordo que lhe garanta foro privilegiado ou indulto. Sem isso, não perguntem a Temer se prefere o demônio ou Moro. E se ele responde?

Perdão demais

Indulto é decisão privativa do presidente da República. O Supremo não deveria se intrometer no assunto, mas se intrometeu (e, cá entre nós, foi bom). O presidente decide, mas decidir aumentando ainda mais as regalias dos delatores é meio muito. Pense num dedo-duro bem safado, que trocou amigos e cúmplices por uma pena que é quase um prêmio. Ganharia mais um prêmio, ficando livre de cumprir outro pedaço daquela pena de mentirinha com a qual foi premiado, e sem pagar multa nenhuma? Dá inveja dos bandidos que roubam o Tesouro e, sem dó, entregam até a mãe.

Temer, mestre de Constituição, sabe que foi além do razoável. Se sabe, por que fez? Para indicar a aliados que, se apanhados, terão apoio, pois alguém lá em cima gosta deles. Que sigam votando com Temer. A arma de Temer para a reeleição é a economia. Se tudo der certo e ele ficar, será bom para o bando todo. Bando, claro, no bom sentido; é sinônimo de “grupo”.

É isso aí

Por falar em Carlos Marun, uma pessoa nova no grupo sempre é alguém que ainda não se acostumou a narrar os fatos da maneira que agrade os companheiros. Pois não é que Marun, agora ministro da Secretaria de Governo, acaba de admitir que está pedindo apoio à reforma da Previdência especialmente para quem recebe recursos oficiais?

“Não vamos abrir mão de pleitear o apoio dos agentes públicos brasileiros e, especialmente, daqueles beneficiados por ações do Governo”, disse. Ou, em linguagem menos rebuscada, é recebendo que se dá. É bom aproveitar a verdade antes que o ministro Marun aprenda a dizê-la.

O golpe e “o górpi”

O governo da Venezuela expulsou o embaixador brasileiro, por “representar um Governo de extrema direita” – na linguagem petista, “o górpi”. As coisas estão agora mais claras: a Venezuela está entre os quatro países bolivarianos que pegaram dinheiro do BNDES para realizar obras e, agora, dão o golpe no credor, não pagando as prestações. Segundo a Operação Lava Jato, há nesses empréstimos, com os quais seriam pagos os serviços de empreiteiras brasileiras, farto superfaturamento, que em parte voltou ao Brasil para pessoas bem relacionadas. Maduro falou mal do Brasil, do Canadá (que também expulsou diplomatas venezuelanos) e de Portugal (ver nota abaixo). Mas a crise que a Venezuela procura para ter um inimigo externo e abafar a crise interna é com outro país: a Guiana. Tão logo o vizinho descobriu petróleo na fronteira com a Venezuela, Maduro passou a reivindicar a região. Tenta intimidar o vizinho com os jatos Sukhoi que comprou da Rússia. Não vai adiantar: a Guiana tem o apoio de Brasil e Colômbia. E os Sukhoi são caças ótimos mas não voam sozinhos.

A Guerra do Pernil

O presidente venezuelano Nicolás Maduro está também em crise com Portugal. Prometeu distribuir pernis de porco neste fim de ano a todas as famílias venezuelanas, encomendou o produto a Portugal e só se esqueceu de pagar a conta – deste ano e do ano passado. Os exportadores portugueses suspenderam a operação, e Maduro acusa o Governo português de sabotar o socialismo venezuelano por ordem, claro, dos Estados Unidos.

O curioso é que o Governo português, como o brasileiro, não exporta carne nenhuma: quem exporta são as empresas produtoras. E todas têm o vicio capitalista, neoliberal e pequeno burguês de exigir o pagamento.

PENSANDO O IMPENSÁVEL

A economia cresceu pouco, 0,1% no terceiro trimestre, mas acima do previsto. Prevê-se que em 2018 a produção cresça até 3% – nada espetacular, mas bem mais do que os números habituais. Os shopping centers, que tiveram queda de vendas nos dois últimos Natais, venderam 6% a mais neste ano. O Indicador Serasa-Experian teve o melhor desempenho desde 2011: na semana de Natal, as vendas subiram 5,2%. São números baixos, que partem de um patamar baixíssimo; não vão deixar consumidor algum com a sensação de que ficou mais rico. Mas podem deixá-lo com a sensação de que não ficou mais pobre.

E daí? Daí, nada. Mas há a queda dos juros básicos do Banco Central, que algum dia deve se refletir nos juros cobrados no crediário. Não é mais possível tomar mil reais emprestados e ficar devendo dez prestações de mil reais. Se a recuperação da renda dos consumidores se acelerar um pouco, se a inflação se mantiver baixa, estaremos diante de um cenário hoje improvável: um candidato do MDB à Presidência. Um candidato viável.

Quem? Há tempo até 2018. Pode ser, apesar da idade e das acusações, Michel Temer (para ele, ótimo: mais um tempo com foro privilegiado). Ou Henrique Meirelles, dono da política econômica. É do PSD, já foi do PSDB e do Governo Lula e, se precisar, muda de sigla. Tem carisma zero; mas tem como pagar a própria campanha. Pode emplacar? Resposta em 2018.

Através do espelho

Naquela antiga frase sobre o que pode sair da cabeça de juiz e de bunda de nenê, em geral se esquece o terceiro elemento imprevisível: boca de urna. Há uma foto clássica de eleições americanas em que o presidente Harry S. Truman, recém-reeleito, segura um jornal que anuncia a vitória de seu opositor Thomas Dewey. Jânio Quadros ganhou a Prefeitura de São Paulo pela primeira vez contra o favoritíssimo Francisco Antônio Cardoso; e pela segunda contra o ainda mais favorito Fernando Henrique Cardoso. Erundina, uma semana antes da eleição, era a terceira colocada. Virou o jogo e bateu o grande favorito Paulo Maluf. Duvida de Meirelles? Depois de bem-sucedida temporada como banqueiro no BankBoston, voltou ao Brasil e se elegeu deputado federal por Goiás. E Temer vem se elegendo, embora sempre com votação baixa, desde 1986. Bem ou mal, já chegou lá.

Portas abertas

Claro, Temer e Meirelles não são as únicas surpresas que podem ocorrer neste ano (nem as mais prováveis). Alckmin chefia um partido forte, com boas raízes no Centro-Sul. Dória já surpreendeu uma vez (embora nenhum de seus possíveis padrinhos vá se surpreender de novo). Há os corredores paraguaios Marina e Ciro – e se um deles acertar o ritmo? Álvaro Dias, Arthur Virgílio? Este colunista não apostaria em nenhum deles, nem em Bolsonaro ou Lula (mas também não apostaria contra eles). Joaquim Barbosa? Tantos candidatos só indicam que não há candidato nenhum.

Um país sem patrão

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, classificou o embaixador do Canadá em Caracas como “persona non grata” – ou seja, indesejável. O Canadá imediatamente expulsou de Ottawa o embaixador venezuelano – a retaliação tradicional diante do tipo de agressão cometido pela Venezuela.

Um país “mais compreensivo”

A Venezuela também declarou “persona non grata” o embaixador do Brasil, informando que a medida é um protesto pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff. E o Brasil? Tão atrasado quanto os maduros, que só agora descobriram que Dilma foi afastada, o Governo brasileiro só retaliou a Venezuela na terça. Tem motivos – o Governo venezuelano vem atrasando o pagamento de compras no Brasil – e armas terríveis: basta liberar as confissões de empreiteiros brasileiros sobre a realização de obras por lá. Mas parece a ocupação militar da refinaria da Petrobras na Bolívia: protegemos ao máximo regimes que se dedicam a usar à vontade o dinheiro do Brasil.

Exemplo

A Unidade de Coordenação Central do Tesouro Espanhol acusa “o melhor jogador de futebol do mundo”, Cristiano Ronaldo, de ter sonegado aproximadamente € 15 milhões (pouco mais de R$ 60 milhões), e pede sua prisão. O centro-avante do Real Madrid alega que paga “a peso de ouro” os especialistas que declaram seu imposto de renda, e portanto não tem culpa de eventuais erros. Caridad Gómez, a chefe da Receita espanhola, diz que contribuintes “com acusações muito menos graves” estão presos e que Cristiano Ronaldo usou testas-de-ferro e paraísos fiscais para sonegar. É famoso? Melhor: sendo preso, serve de exemplo aos sonegadores.

Desapega!

Luislinda Valois saiu do PSDB mas não quer deixar sua Secretaria, onde é mal avaliada. Mal avaliada por que? Ela não fez nada – nem de errado!

NOSSO NATAL, NATAL TROPICAL

Ho! Ho! Ho! E José Dirceu, condenado a mais de 30 anos de prisão, mas solto enquanto prega uma rebelião caso Lula tenha a condenação confirmada, ganha pensão mensal de quase R$ 10 mil da Câmara.

Ho! Ho! Ho! Lula foi condenado a 9 anos e meio de prisão por alguma daquelas coisas que ele usa mas não são dele. Apelou na forma da lei e o apelo deve ser julgado no dia 24 de janeiro. Seus seguidores divulgam abaixo-assinados. Normalmente, os signatários dizem que não são petistas. É verdade: são lulistas ainda mais radicais, o “eu não sou petista, mas…”

Ho! Ho! Ho! Está no Diário Oficial da União, do dia 11 último: a advogada Samantha Ribeiro Meyer foi nomeada conselheira da Itaipu Binacional, com pagamento de R$ 40 mil mensais e obrigação de comparecer a quatro reuniões por ano. Samantha Ribeiro Meyer vem a ser a ex-esposa de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Ho! Ho! Ho! Condenação vai, liminar vem, e todas essas jabuticabas estranhas acabam caindo nas mãos da Justiça. E daí? Teto salarial de juízes é definido pela Constituição. Nenhum funcionário público pode receber do Estado mais de R$ 33 mil, algo por aí. Mas a média salarial dos juízes é em geral superior a cem salários mínimos, uns R$ 100 mil mensais. Há juiz que ganha bem mais (veja, na nota abaixo, como achar o salário de alguém do ramo). Se com ele é assim, por que o juiz iria dar um jeito nos outros?

O lar do Bom Velhinho

Há dúvidas sobre o volume dos recebimentos de algum juiz? Clique aqui e confira. Tem juiz com quase R$ 250 mil.

O juiz e os juízes

Que é que o presidente da Ajufe, Associação dos Juízes Federais, acha da questão do teto salarial definido pela Constituição? O presidente Roberto Veloso distribuiu mensagem autocongratulatória dizendo que, apesar da campanha para atingir financeiramente os magistrados, eles não foram prejudicados, “pois o projeto do extrateto, que estava em vias de aprovação, não foi votado neste ano”. O projeto extrateto define o que pode ser pago fora do limite constitucional – como salário, nada.

A renda dos punhos

Ho! Ho! Ho! Pensa que a política externa é definida pelo Governo Federal e executada pelo Itamaraty, por profissionais escolhidos entre os disponíveis no Ministério das Relações Exteriores? Não é bem assim: já há interferência do Judiciário na escolha dos profissionais. O diplomata Sóstenes Arruda de Macedo pediu à Justiça Federal de Brasília que determinasse ao Itamaraty sua transferência para o Consulado em Paris – um dos postos mais cobiçados da carreira. A Justiça o atendeu – embora, até hoje, a transferência de diplomatas seja privativa do Itamaraty. A União deve recorrer, e por isso a decisão não terá efeito imediato.

Quem perde…

O Espaço Vital, ótimo portal jurídico do Rio Grande do Sul, dá um balanço do que aconteceu com a Odebrecht durante o tempo, dois anos e meio, em que Marcelo Odebrecht ficou preso em Curitiba. Um resumo: quem comprou um título da Odebrecht em 2010 por US$ 100 mil tem agora, após sete anos, US$ 31 mil. A empresa está fora de concorrências no México e no Peru. E superar as desconfianças que passaram a cercá-la depois da Lava Jato é problema ainda sério.

…quanto perde

Quando Marcelo Odebrecht foi preso, em 2015, a empresa tocava US$ 28 bilhões em obras. Em julho de 2017, o volume de contratos tinha caído para US$ 15 bilhões. A dívida líquida, inferior à geração operacional de caixa, agora se multiplicou para 5,6 vezes este número.

O x do problema

O problema dessa análise é algum número desconhecido: é válida enquanto se acreditar que, nas delações premiadas, o conglomerado de empresas confessou todas as eventuais transgressões da lei. Caso isso não tenha ocorrido, a situação do grupo pode estar bem melhor do que parece.

Só pra contrariar

O comando petista começou a orientar os chefes de equipe que procuram lotar Porto Alegre no dia 24, data do julgamento do recurso de Lula, para que busquem inundar de e-mails as caixas dos desembargadores do TRF-4. O tribunal analisará a sentença do juiz Sérgio Moro, de Curitiba, que condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão. Poderá optar pelo cancelamento ou manutenção da sentença, ou pela modificação do período de pena. Até agora, o TRF-4 tem adotado penas mais duras que as fixadas pelos juízes de primeira instância. A ordem é mandar o maior número possível de mensagens, mas em termos educados, sem ofensas.

OS FILHOS DE PAPAI NOEL

Os delatores, que confessaram ter participado de milhares de crimes de corrupção, estão aos poucos sendo soltos, ou cumprindo pena no conforto de seu lar. Os delatados, que participaram de menos crimes, mas mesmo assim suficientes para criar-lhes enormes complicações legais, estão numa boa. Fora um ou outro, apanhado de surpresa pelo furacão Lava Jato, antes que seus companheiros de ladroeira tivessem elaborado uma boa estratégia de esquiva, os demais comemoram um réveillon dos sonhos – livres, leves, soltos. Sabe quantos processos o Supremo julgou contra a turma do foro especial? Puxe pela memória! Não lembra? Pois tem razão: nenhum.

Não é por falta de freguesia. Só a delação da Odebrecht rendeu a abertura de inquérito contra 24 senadores, 37 deputados e oito ministros do Governo Federal. O povo da toga discute entre si, pronuncia votos de matar os ouvintes de sono, discorre sobre qualquer tema. E para que? Para nada.

Para os delatores, os problemas foram superados. Marcelo Odebrecht fica em sua mansão de 3 mil m² em São Paulo, mas com uma restrição: só pode receber visita de 15 pessoas ao mesmo tempo (mais advogados). Adriana Ancelmo, esposa de Sérgio Cabral, volta à prisão domiciliar, para poder tomar conta dos filhos, e também é alvo de dura restrição: não pode usar Internet. Lúcio Funaro, o doleiro, foi para a prisão domiciliar. Todos somos filhos de Papai Noel, mas alguns são mais queridinhos do pai.

O custo da Justiça

Os processos andam devagar, mas a Justiça busca equipar-se para cumprir suas tarefas. De acordo com o excelente site jurídico gaúcho Espaço Vital, o gasto da Justiça Federal com o aluguel de veículos passou de R$ 99 mil em 2009 para R$ 25 milhões em 2016. São 16 mil por cento em sete anos, já descontada a inflação.

O custo da folia

O BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, decidiu contribuir com R$ 2 milhões para a SRCom, empresa que realiza o réveillon na praia de Copacabana. A Petrobras também vai contribuir, mas ainda não decidiu com quanto. A Caixa Econômica Federal e a Ambev estudam sua participação. O país vai bem, obrigado. Se tudo der certo, quatro empresas arcarão com o maior custo do réveillon; das quatro, três são estatais. E a única que pode lucrar diretamente com a festa é a empresa privada, a Ambev, vendendo cerveja durante as comemorações.

Bye, bye, Brasil

Condenado, absolvido? O ex-presidente Lula não parece preocupado com seu futuro. No dia 24 de janeiro, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, deve julgar o recurso de Lula contra a sentença do juiz Sérgio Moro que o condenou a 9 anos e 6 meses de prisão. Caso a condenação seja confirmada, Lula poderá ser preso. Mas ele já informou que pretende viajar para o Exterior dois dias após o julgamento, para participar em Adis Abeba, na Etiópia, de debates sobre a fome na África. Os debates foram convocados por um companheiro de PT, José Graziano, que chefiou o programa Fome Zero em seu Governo e hoje está na ONU.

Como é mesmo?

O simples anúncio de que está com viagem marcada para o Exterior logo após o julgamento pode servir como base para que Lula seja preso, garantindo sua presença para cumprir a eventual pena. Caso seja condenado, o TRF-4 poderá mandar prendê-lo na hora, para evitar que fuja.

O sonho brasileiro

A Ipsos, empresa internacional de pesquisa de mercado, acaba de chegar a uma conclusão surpreendente: 70% dos brasileiros acreditam que é possível governar o país sem corrupção. E 73% rejeitam o lema “rouba, mas faz”. Boa parte dos pesquisados acredita que há poucas discussões sobre o tema “como acabar com a corrupção”.

E por que a conclusão é surpreendente? Porque políticos que chegaram a renunciar ao mandato para fugir de denúncias de corrupção voltaram a se eleger com facilidade. E o PT, alvo de denúncias pesadas desde o início da Operação Lava Jato, tem tido bons índices de preferência para as eleições de 2018. Na pesquisa, foram ouvidas 1.200 pessoas em 72 municípios.

Um país enlouquecido

Um cunhado da apresentadora Ana Hickmann reagiu quando um jovem armado de revólver atirou na apresentadora e em sua assessora: com um tiro, matou o rapaz que tentava assassinar as jovens. E está sendo acusado de homicídio por um promotor, que alega que, embora tenha havido legítima defesa, foi excessiva, e o cunhado da apresentadora poderia ter evitado a morte do candidato a assassino. O promotor que nos perdoe, mas este colunista, em situação igual, descarregaria o revólver, para garantir a vida de suas parentes. Alguém seria capaz de moderar-se nessa situação?

BRINCANDO DE FAZ DE CONTA

Economistas de primeiro time, empresários influentes e políticos de importância chegaram à mesma conclusão: o Governo brasileiro precisa cortar as despesas. Como não disse PC Farias (e só não disse porque já tinha morrido), Madama estava gastando demais, até saindo da legalidade.

Para que se inaugurasse uma nova era de contas saudáveis, Madama caiu. O novo Governo que assumiu já fez de conta que não é o antigo, embora o elenco pouco tivesse mudado. Eles, os novos, cortariam despesas.

Mas, para cortar, era preciso cuidar dos amigos da casa. As despesas subiram uns R$ 50 bilhões. Houve o encontro com Joesley nos porões do Jaburu. Tentaram cassar o Vampiro por sugar a vaca leiteira. Mas, cassado o Vampiro, quem cortaria as despesas? Foi preciso gastar muitos pixulecos para manter vivo o Cortador Geral das Despesas da República. Mas atrair os votos essenciais para aprovar a Reforma previdenciária, mãe dos cortes de despesas, também teria seu custo. Num rápido balanço, foram cinco pagamentos e a Mãe dos Cortes não foi tocada. Mexer nesse vespeiro sai caro: não são só outros 500, mas cargos, áreas de influência, proteção contra juízes de primeira instância. Foi preciso até agradar Luislinda, que se achava escravizada por ganhar só trinta e poucos mil por mês. O PSDB saiu do Governo; ela preferiu sair do PSDB e ficar no bem-bom, recebendo. Claro, a solução é cortar despesas. Mas cortá-las custa caro.

Uma coisa e outra coisa

Quem trata política e finanças como coisas paralelas, afins, uma influenciando a outra, não entende nem de política nem de finanças.

Dirceu, tem pena

José Dirceu é o novo insuflador-geral do PT: está convocando petistas para lotar Porto Alegre em 24 de fevereiro, dia do julgamento pelo Tribunal Regional Federal do recurso de Lula contra a pena de nove anos e seis meses que lhe foi imposta pelo juiz Sérgio Moro. “A hora é de ação, não de palavras. De transformar a fúria, a revolta, a indignação e mesmo o ódio em energia, para a luta e o combate. Todos a Porto Alegre no dia 24, o dia da revolta (…)” Dirceu, que aguarda em liberdade o julgamento de seu recurso contra a pena de 30 anos e 9 meses por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa, talvez corra risco de punição. Mas este é seu estilo: no governo Covas, em São Paulo, grupos de professores em greve bloquearam a entrada da Secretaria da Educação. Covas, sem segurança, já com o câncer que o mataria, foi agredido pelos, digamos, educadores. Dirceu deu apoio aos agressores, dizendo que era preciso surrar os adversários nas ruas e nas urnas. Errou: Fernando Henrique bateu Lula em duas eleições seguidas, no primeiro turno.

General punido

Demorou, mas o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, e o ministro da Defesa, Raul Jungmann, puniram o general Antônio Hamilton Mourão, transferindo-o da Secretaria de Economia e Finanças para o posto de adido na Secretaria Geral do Exército. Na última quinta, o general Mourão acusou o Governo Michel Temer de “equilibrar-se num balcão de negócios”. As Forças Armadas são organizadas com base na hierarquia e na disciplina, e seu comandante-chefe é o presidente da República. O presidente fala pela Força; seus subordinados devem calar-se.

Mourão já havia dado opiniões há algumas semanas, mas o general Villas Boas preferiu deixar pra lá. Agora sua paciência se esgotou.

Olhando o futuro

Nos tempos do Império Romano, era atribuído aos poetas (“vates”) o “poder divinatório”, a capacidade concedida pelos deuses de prever o futuro. Daí vêm as palavras “vaticínio” e “adivinhar”.

Pois bem: no Carnaval de 1949, Tancredo Silva, José Alcides e Sátiro de Melo fizeram seu vaticínio musical, gravado por Blecaute. Acompanhe a letra, caro leitor, quase 70 anos depois: “Chegou o general da banda, e ê/ chegou o general da banda, e á/ Mourão, mourão, vara madura que não cai/ Mourão, mourão, mourão, catuca por baixo que ele vai”.

Cinco letras que choram

Boa parte da família Odebrecht está de saída. Emílio, pai de Marcelo,se afasta do comando da empresa, e determina que, de agora em diante, o poder na Odebrecht seja entregue a executivos profissionais, de mercado. Sua esposa fica com ele no Brasil. Marcelo, o Príncipe dos Empreiteiros, deixa a prisão no dia 19: de agora em diante, cumpre pena em casa, com tornozeleira eletrônica, em companhia da esposa. Filhos e cônjuges de Marcelo Odebrecht, com toda a família, mudam-se para Frankfurt, na região. Os estudantes já estão matriculados em boas escolas da Frankfurt. Saem por livre e espontânea vontade: não aguentam mais o clima de hostilidade que enfrentam no Brasil.

RIR, RIR, RIR COM PAPAI NOEL

Para extrair o melhor humor desta história real, é bom relembrar a figura de seus personagens. O primeiro, Fernando Henrique Cardoso, ele mesmo! – o presidente da República que contratou a chef de cuisine Roberta Sudbrack para incrementar as refeições em palácio. O segundo, mau humor permanente, é o senador José Aníbal. Floriano Pesaro, secretário de Dória; e o poeta e cientista político Fernando Fefo Guimarães. Todos tucanos; e Guimarães, além disso, criador da ala tucana Esquerda pra valer. Pois é.

Um encontro tucano, claro. E, claro, num bom restaurante de carnes importadas, harmonizadas com os vinhos caros da moda. Assunto maior, fora o cardápio: a necessidade de uma guinada do PSDB à esquerda. Nada mais justo, recordando-se a origem política muroesquerdizante dos tucanos.

A folhas tantas, após sabe-se lá quantas harmonizações bem sucedidas no cardápio, liberaram-se os espíritos, e o grupo começou a cantar o hino clássico do comunismo, A Internacional. Pense, caro leitor: Fernando Henrique e José Aníbal soltando a voz, “De pé, famélicos da Terra/ De pé, oh vítimas da fome/(…) Messias, Deus, Chefes Supremos/ Nada esperemos de nenhum/ Sejamos nós que conquistemos/ A Terra-Mãe livre e comum”.

A radical tentativa de buscar a esquerda pra valer ocorreu na última sexta, em Brasília. Ainda bem que o tempo voa: pense em ACM, sempre ao lado de Fernando Henrique, cantando com ele no Orfeão Vermelho.

Humor de Natal

Fernando Henrique se esforça, faz coisas esquisitas, mas Natal é uma festa onde Lula se sente melhor e se destaca sem precisar de bebidas harmonizadas com comida metida a besta. No sábado, 10, em comício, disse que o Rio de Janeiro “não merece que governadores eleitos democraticamente estejam presos porque roubaram dinheiro público”.

Essa coisa horrorosa de prender governantes democraticamente eleitos só porque roubaram dinheiro público irrita Lula. Política não é cadeia.

Proposta do horror

Há quem diga que quem fala demais dá bom dia a cavalo. Mas é pior: quem fala demais acaba revelando o que realmente pensa – e muitas vezes sua reputação sofre com isso. O juiz Sérgio Moro, avesso a badalações, sempre profissional, falando nos autos, acabou abrindo parte daquilo que pensa – e que horror! Moro propôs que a Petrobras institucionalize a virtude da delação. Disse que os bons funcionários, preocupados em garantir o sucesso da Petrobras, deveriam delatar colegas a seu ver corruptos. E que a empresa deveria estudar como gratificar o dedo-duro.

É bobagem por vários motivos – a começar porque não funciona. Não há grande empresa no mundo com sistema semelhante porque todas sabem que o clima de desconfiança as destruiria. Que Moro fique onde é mestre.

Quem com quem?

Quem acha que a posição tucana para 2018 está definida, após a escolha de Geraldo Alckmin para presidir o partido, engana-se. O PSDB enfrenta, em primeiro lugar, o risco do isolamento. Aliados tradicionais (PSB, DEM, partidos pequenos) se afastaram dos tucanos e têm alternativas – a começar pelo PMDB, que, no Governo, e se mantiver o sucesso da política econômica, pode lançar um candidato à sucessão de Temer. Pode ser, por exemplo, Henrique Meirelles, do PSD, mas flexível quanto a legendas; pode ser o próprio Temer – para ele seria ótimo, pelo foro privilegiado. Sem o tempo de TV dos aliados, as chances do PSDB são pequenas.

Bicadas no muro

E há outro problema que poucos tucanos levam a sério, mas que é sério: o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, tem a promessa de Alckmin de que o candidato será escolhido em prévia nacional, com debates entre os postulantes. Virgílio está disposto a brigar pela prévia; e, considerando-se a tradição tucana, terá muita gente a seu lado, querendo liquidar Alckmin de uma vez. Já houve brigas na convenção, quando a segurança hesitou em permitir que Virgílio subisse ao palco. O clima é tenso e pode piorar.

Olho nas exportações!

O Brasil parece, enfim, despertar para o comércio exterior: no dia 19, terça, o Instituto Aliança Procomex promove um seminário internacional Programa OEA no Cone Sul. O seminário ocorre no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Segundo o coordenador executivo do Instituto Procomex, John Mein, “o foco principal do Programa OEA é aumentar o nível de confiança das empresas intervenientes, objetivando facilitar os procedimentos aduaneiros, tanto no país, quanto no exterior, além de dar celeridade ao processo”. Até o dia 18, inscrições em Procomex; no dia 19, só inscrições presenciais. Mais informações com Linoel Dias, assessor de Imprensa do Procomex, (11) 3812-4566, (11) 9 9619-6108

AS MAGIAS DO NATAL

A frase é de Lula, nesta terça, no Maranhão: “Todo ladrão tem de ir para a cadeia”. O Maranhão, Estado mais pobre do Brasil, é dirigido pela família Sarney, aliada de Lula, ou pelo PCdoB, aliado de Lula.

O PSDB está dividido, com relação ao Governo Temer, entre o Muro e o Muro do B. O Partido do Muro, chefiado pelo chanceler Aloysio Nunes, aceita tudo, menos descer de lá de cima. O Muro do B, chefiado por quem não tem força no Governo, combinou com o presidente Temer “uma saída elegante”. Como diria Temer, tê-la-ão: o PSDB certamente ficará feliz quando souber que o pé que vai levar no local adequado usa calçados finos.

Sérgio Cabral, PMDB, ex-governador do Rio, condenado em primeira instância a 72 anos de prisão (mas pode me chamar de 30, pena máxima a ser cumprida), presta o Enem nesta semana para História. Cabral, formado em Jornalismo, diz que adora História. Nada mais justo: o Brasil foi descoberto pelo Cabral português, e outro Cabral, carioca, soube pesquisar os tesouros que o país escondia. Tem mais: o estudo permite abater parte da pena. Se o Brasil não mudou, será com certeza um bom abatimento. Quem sabe teremos ainda novas chapas peemedebistas com Cunha e Cabral?

Cabral lembra algo de nossa história. Diz, por exemplo, que não é como Adhemar de Barros, ex-governador paulista que cunhou o slogan “rouba mas faz”. E não é mesmo: obra de Adhemar podia ser cara, mas era feita.

Bom velhinho sempre vem

Lembra-se do doleiro Lúcio Funaro, envolvido desde 2003 na remessa de dinheiro ilegal ao Exterior? Em 2003, foi apanhado por Moro, mas sabe como é, o tempo passa, o tempo voa e ele foi se mantendo no ramo. Agora. apanhado de novo, delatou muita gente e conseguiu pegar apenas dois anos de pena. Mas vai passar o Natal em casa, porque o bom Papai Noel não se esquece de ninguém. Sai da Papuda nesta semana, seis meses antes de completar os já generosos dois anos com que havia conseguido se safar. Se Funaro, que não pertence a partidos, sai tão cedo, por que outros vão ficar?

Conexão africana

O ex-ministro Antônio Palocci, um dos homens mais importantes do Governo Lula, coordenador da campanha de Dilma, totalmente abandonado pelos companheiros quando foi preso, está concluindo sua proposta de delação premiada, informa a revista Veja. Palocci promete provar que Moamar Khadaffi, ditador da Líbia, deu um milhão de dólares à campanha de Lula em 2002 – dinheiro lavadinho, a fundo perdido, “empréstimo” sem devolução. Lula chamava o líbio de “irmão”. Khadaffi, ditador da Líbia por 42 anos, foi deposto e morto em 2011. Palocci diz ter outras coisas a contar sobre movimentação ilegal de recursos, mas a de Khadaffi tem um sabor especial: a lei brasileira pune com o cancelamento de registro do partido o recebimento de dinheiro do Exterior. Lula não poderá ser candidato, nem o PT poderá apresentar outros candidatos: o partido talvez seja extinto.

Espada a prêmio

Num dos quatro encontros que teve com Khaddafi, Lula ganhou uma espada de aço e ouro branco, cravejada de pedras preciosas. Ao deixar a Presidência, Lula guardou a espada num cofre do Banco do Brasil, em nome de sua esposa Marisa e do filho Fábio Luís Lula da Silva. A espada foi localizada pelo juiz Sérgio Moro e devolvida ao Tesouro.

Alerta

Quem conhece o empreiteiro Marcelo Odebrecht está convencido de que o período na prisão não o modificou de forma alguma. Como dizia do rei Luís 18 da França o chanceler Talleyrand, após a Revolução Francesa e o período de Napoleão Bonaparte, “nada aprendeu e nada esqueceu”.

A reforma vem chegando

A votação será mesmo apressada, atrapalhada, como aliás é frequente ocorrer em nosso Congresso, principalmente quando se aproxima o recesso. Mas tudo indica que a reforma da Previdência – meio esfarrapada – será aprovada. E talvez seja aprovada até por mais do que se imagina, especialmente se o pessoal mais resistente do PSDB descobrir que, se continuar no muro, vai deixar claro que não teve a menor importância no resultado da votação. É o risco que também corre o PSD de Kassab: assistir à aprovação, deixando claro que, com ou sem PSD, Temer vai vivendo.

Pior do que estava, fica

Não se iluda com a suposta beleza do gesto de renúncia do deputado Tiririca. Em oito anos, é seu primeiro discurso – a primeira vez que nos deixa entrever sua posição política. Levou esse tempo todo desfrutando os benefícios, aliás indecentes mesmo, que agora denunciou. E ainda aproveitou para pagar as despesas de um espetáculo de circo do qual era o astro com dinheiro da Câmara. Tiririca, ao contrário do que prometeu, não contou o que é que um deputado federal faz. Mas seguiu o exemplo deles.

AS TORNOZELEIRAS DE GRIFE

Atenção para o dia 19: o Príncipe dos Empreiteiros, um dos responsáveis confessos por alguns bilhões de dólares em propinas, pixulecos, acarajés, presentes e quetais, aquém e além fronteiras, nunca assaz louvado em terras bolivarianas e africanas, livra-se enfim da prisão. Vai para casa cumprir pena domiciliar; restam-lhe, dizem, R$ 14 bilhões para garantir-lhe um mínimo de conforto. Dizem também que, apesar de não ter ficado pobre, sente-se injustiçado: por exemplo, não teria nada a ver com o sítio de Atibaia, aquele que não é de Lula, e que o presente que Lula jura que não recebeu foi-lhe dado por seu pai, Emílio Odebrecht. As relações de Marcelo com o pai, a mãe, o cunhado, a irmã parecem abaladas. Pior: embora não se considere responsável por boa parte da pixulecagem, seu nome e rosto é que ficaram marcados para a opinião pública, a ponto de se considerar perigosa qualquer indicação sobre sua viagem de retorno.

Há quem tema, dentro da Odebrecht, os próximos depoimentos de Marcelo. Ao que se comenta, ele tem sido muito critico das confissões dos 77 diretores da empresa, e insinua a possibilidade de corrigi-las. Conforme o tipo da correção, isso pode significar a anulação da delação premiada, com a cassação dos benefícios outorgados aos delatores. Mas é tudo muito estranho: o alto comando da empresa confessou os crimes. Se a empresa se responsabilizou pelos crimes todos, como poupar o Príncipe Herdeiro?

A luta de Lula

O juiz-relator do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, o TRF-4, já entregou seu voto sobre o apelo de Lula, condenado a 9 anos e meio de prisão pelo juiz Sérgio Moro. O voto é agora encaminhado ao juiz-revisor. Mantida a média de prazo, o recurso de Lula será julgado até março.

Togas em luta

Caso seja condenado em segunda instância, o ex-presidente Lula seria obrigatoriamente preso, mesmo que o processo não tenha ainda transitado em julgado? Uma decisão do STF autorizou a prisão do condenado em segunda instância, situação em que Lula se enquadraria se o apelo fosse rejeitado. Mas o ministro Gilmar Mendes disse que o Supremo autorizou a prisão, mas não a tornou obrigatória. O problema então é outro: Lula, que já lançou sua candidatura à Presidência, estaria ou não enquadrado na Lei da Ficha Limpa, mesmo sem aprisionado? Como a questão de Lula envolve posições políticas complexas, haverá boas discussões nos tribunais.

Prisão bem-bão

Três deputados fluminenses, Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertasi, detidos desde 16 de novembro na Cadeia Pública de Benfica, Rio, recebem normalmente seu salário de R$ 25.322,00. E, embora estejam em outro endereço, custodiados pelo Tesouro do Estado, recebem também auxílio-moradia de R$ 3.190,00 cada um.

Não estranhe: de acordo com a Mesa da Assembléia, como os três foram afastados pela Justiça e não se licenciaram dos cargos, “têm direito ao pagamento decorrente do mandato outorgado pelo voto popular”. Os Nobres Parlamentares se baseiam também num antecedente: em março, cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Estado foram presos por suspeita de envolvimento em corrupção, e receberam tudo di rei ti nho.

Quem mandou estudar e trabalhar, caro leitor, para ganhar bem menos?

É assim que se faz

André Puccinelli, ex-governador do Mato Grosso do Sul, foi eleito no último sábado, em chapa única, para a Presidência Regional do PMDB. O líder peemedebista foi eleito por aclamação 17 dias depois de deixar a prisão, envolvido na Operação Papiros de Lama da Polícia Federal: segundo a acusação, uma empresa de prestação de serviços comprava livros jurídicos superfaturados em quantidade suficiente para atender o Governo.

Puccinelli foi duas vezes prefeito de Campo Grande, duas vezes governador do Mato Grosso do Sul, sempre pelo PMDB; e tem ótimas possibilidades de vencer as próximas eleições para o Governo, em 2018.

Reforma, nos descontos

Ao que tudo indica, a reforma da Previdência do Governo Temer deve passar – por margem pequena, insuficiente, após negociação extremamente cara, num dos últimos dias do prazo – mas, mesmo assim, passa. O Governo espera 320 votos, quando o mínimo legal seria de 308. Há ainda um pouco de folga para ampliar a vantagem: o PSD do ministro Kassab, por exemplo, tem 38 deputados, dos quais só oito se comprometeram com a votação. Kassab dificilmente deixará seu partido sair com a pecha de infiel aos amigos. E definitivamente não irá concordar em perder ministérios por passar a mão na cabeça de deputados infiéis. Na segunda-feira, Temer avaliou quem é quem e se convenceu de que a reforma pode ser votada.

BICOS COMPRIDOS E VOO CURTO

O presidente nacional do PSDB, Geraldo Alkmin, provável candidato em 2018, disse no início da semana ao jornalista José Luiz Datena, na Rádio Bandeirantes, que no comando do partido faria o PSDB se afastar do Governo Temer. Apoiaria as reformas, mas de fora. A seu ver, não havia nenhum motivo para se manter no Governo. O partido sai? Na hora das promessas, ia sair. Mas o chanceler Aloysio Nunes já disse que não sai, não há motivo para sair. Apoiar de fora não gera limusine nem viagens. Bruno Araújo saiu, mas LuizLinda Vallois, a que se sente escrava com menos de R$ 60 mil mensais, só sai obrigada. Tem razão: se sair, quem vai notar?

Aloysio usou o mais puro tucanês ao dizer que o problema do afastamento entre PSDB e Governo é outro. “O PSDB não faz parte da base do Governo, o PSDB apoia o Governo, não rompeu com o Governo”. A prova de que Aloysio tem razão é o número de reuniões que os tucanos marcam para discutir como apoiar sem apoiar: as decisões estão tomadas, todos em cima do muro, mas só numa reunião é possível que todos ergam os braços, se abracem, e nessa posição apunhalem os amigos pelas costas.

Mas o próprio Aloysio, chefe da diplomacia tucana, anunciou outra decisão: se o partido decidir se afastar do Governo, ele, Aloysio, se mantém no cargo. Irritou-se muito com os repórteres que insistiram em fazer perguntas sobre o tema. Afastar-se de limusines não é algo que lhe agrade.

Tinha uma prévia…

Alckmin tem tudo para sair em 2018, mas precisa vencer (ou esmagar) o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que pede prévias no PSDB. Alckmin defendia prévias para escolher o candidato, mas isso, era quando não tinha maioria. Agora tem Arthur na disputa. E se algo ocorre e Arthur ganha?

…no meio do caminho

Há Serra, candidato a alguma coisa (pode sair pelo PSD de Kassab). Há os partidos aliados a Alckmin que o apoiariam, mas queriam retribuição na eleição estadual. Se não ganharem o apoio tucano, não faltará quem o dê.

Tucanos, enfim, como sempre: brigando a bicadas mas incapazes de voar longe. Fernando Henrique voa longe. Mas ninguém aprendeu com ele.

Democracia vermelha

O deputado petista Paulo Pimenta mandou deter a militante Carla Zambelli, do Nas Ruas. Carla queria entrevistá-lo, ele a mandou trabalhar, ela disse que estava trabalhando e não roubando como ele. Ele mandou a Polícia Legislativa prendê-la. Quem é Paulo Pimenta, além de chefe de policiais legislativos prendendo cidadãos de quem discorda? Sim, é o petista fotografado por Júlio Redecker quando entrava no carro de Marcos Valério, controlador do Mensalão. Pimenta é chamado de “Montanha” pela Odebrecht e é inimigo de Sérgio Moro. “Montanha” – por que será?

O caldeirão…

Por que Luciano Huck anunciou que não seria candidato, justo quando, segundo o Estadão, crescia seu caldeirão de votos? É provável que nunca tenha tido a real disposição de disputar, a menos que houvesse uma avalanche de adesões. Alguns anos atrás, uma respeitada senhora do Interior paulista, força notável na política da cidade, era pressionada a candidatar-se. Esse colunista, consultado, foi contra: a senhora comandava as principais entidades de classe e era mais poderosa que o prefeito. Para que se candidatar? Perderia o status de unanimidade e entraria no moedor de carne das campanhas eleitorais. Mas que diriam dela, de conduta tão transparente? Insisti: se nada encontrarem, inventam. Mas que poderiam inventar contra ela? Sugeri: vão dizer que o filho dela é pai solteiro.

Silêncio na sala: era. Já se faziam os exames. Desistiram da candidatura.

…do Huck

Imagine-se na situação de Huck, astro da maior rede de TV do Brasil, rico por si próprio, rico de família, um ídolo ligado a programas “do bem”. É bem educado, forma um casal de anúncio de margarina com uma moça que também é ídolo. Entrar numa campanha para ser xingado todos os dias, com denúncias, esculachos, armações? Melhor emprestar seu prestígio a um candidato de sua confiança, para quem contribuirá, a quem referendará.

Um é…

O candidato do Partido Novo, João Amoêdo, com plataforma liberal (é favorável, por exemplo, à venda de todas as empresas estatais), informou ao site O Antagonista que atingiu 1% das intenções de voto. Amoêdo, oriundo do sistema bancário, se propõe a pagar a maior parte das despesas de campanha com seu próprio dinheiro e o dos companheiros de chapa.

…outro não

O senador brasiliense José Antônio Reguffe, do Livres (ex-PSL), disse ter sido convidado a disputar a Presidência pelo partido, mas recusou, por ter o compromisso de terminar o mandato – que acaba em 2023.

O VELHINHO SEMPRE VEM

Job Ribeiro Brandão era assessor parlamentar do deputado Lúcio Vieira Lima, o irmão de Geddel. Suas digitais estavam nas notas daqueles R$ 51 milhões do apê em Salvador. Participava da contagem do dinheiro; confessou ter destruído provas contra Geddel; para continuar no esquema, devolvia a Lúcio Vieira Lima parte de seu salário como assessor. Usou o que era bom e, na hora da queda, denunciou os companheiros. Está livre.

Gustavo Pedreira do Couto Ferraz era do esquema, levou dinheiro a Salvador, ajudou na contagem, e, acabado o bem-bom, delatou. Tirou da reta. Sua defesa pede que fique livre, já que o caso é como o de Job.

Agora, três casos levantados por Marco Antônio Birnfeld, do ótimo site gaúcho Espaço Vital. Nestor Cerveró: a partir de 24 de dezembro, poderá sair de casa nos dias úteis, de 10 às 18h. Quase!

Também na véspera do Natal, o lobista Fernando Baiano Soares se livra das tornozeleiras. Fica obrigado a dormir em casa, na Barra da Tijuca, Rio, e a prestar seis meses de serviço comunitário. Depois disso, em julho, livre.

Pedro Barusco, que era gerente da Petrobrás e devolveu à Lava Jato uns R$ 200 milhões, sofre mais uma semana. Em 31 de dezembro, fica livre da tornozeleira. A partir de março, estará livre de vez, sem restrição. Diz o Espaço Vital que, se quiser viajar ao Exterior, tudo bem, sem problemas, tem cacife. E completa: “Já tem gente pensando que o crime compensa”.

Cada caso é (1) caso

Eduardo Cunha tentou, mas falhou: o STF negou-lhe habeas corpus. Se desse, não faria diferença: há outras ordens de prisão no caminho.

Cada caso é (2) caso

Job Brandão teve a prisão revogada a pedido da procuradora-geral Raquel Dodge. Nem ela nem o ministro Edson Fachin têm dúvidas sobre o papel de Job no esquema; mas a liberdade fazia parte da delação premiada.

Cada caso é (3) caso

O caso de Gustavo Pedreira do Couto Ferraz é igualzinho ao de Job: ambos funcionários de confiança, felizes em ajudar os chefes, talvez levando um pedacinho. Ambos fizeram delação. Por que um já está livre e o outro não? A ladroeira já custou a Gustavo cinco meses de domiciliar!

Cada caso é (4) caso

Nestor Cerveró fez tudo o que se sabe, talvez alguma coisa de que não se saiba, contou muito, foi alvo de uma tentativa de fuga do país – que, para muitos, seria uma maneira de tirá-lo da condição de arquivo vivo. Ficou nove meses com tornozeleiras, em sua casa – uma bela casa, aliás. E a promessa judicial, ao que tudo indica, será cumprida na íntegra.

Cada caso é (5) caso

Nem todas as promessas judiciais são cumpridas conforme entendidas pelos delatores. O caso mais interessante foi o de Joesley. Criou problemas imensos para Temer e saiu sem qualquer punição visível, como herói: barco de alto luxo levado para os EUA, declarações do tipo “nóis num vai sê preso”, e acabaram dando margem a investigações que envolveram procuradores e levaram à suspensão das promessas. Está preso.

Cada caso é (6) caso

Fernando Baiano e Pedro Barusco seguiram a regra do jogo, cumpriram penas beeeeem suaves, e estão com data marcada para a liberdade.

Tucanudos não se beijam

A roda dos candidatos ainda vai girar muito. Como esta coluna antecipou, Luciano Huck não foi candidato. Para ele, seria interessante avaliar a repercussão de uma candidatura; candidatar-se é outra coisa. João Dória, se sair, não será a presidente (e, se sair, terá de convencer o patrono da candidatura de que ele é confiável). Alckmin, hoje, é o candidato do PSDB. Mas tem, contra ele, Tasso (que gostaria de ser), Aécio, Serra (quer perder até aprender). E agora apareceu a esquerda tucana, que quer se reunir com PSOL, PSTU, PT – e, pior, quer que acreditemos nisso.

Nomes possíveis

Ainda falta muito para a eleição, mas ainda há Henrique Meirelles, João Amoêdo (que fará campanha fortemente liberal), a eterna Marina Cintra, que até hoje sempre foi destruída no caminho mas que um dia pode acertar o passo, algum poste indicado por Lula – que, se Lula estiver preso, ou impedido legalmente de se candidatar, ganha ainda mais força.

Até Requião

O senador Roberto Requião, do PMDB paranaense, é improvável. Mas tem até slogan, vindo das velhas campanhas de Getúlio: “Condenação absurda de Dona Marisa, massacre de direitos de trabalhadores, entrega de nosso petróleo, tentativa de humilhar Lula, não apenas condená-lo. Lembram Getúlio? Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar. Consequência lógica! Outra vez!”

THE BLACK MASK DA LADROEIRA

Já que falar estrangeiro no dia a dia parece estar no rigor da moda, tratemos em inglês da Black Week: que roubada, de ponta a ponta! A Black Week do Brasil foi copiada dos gringos. Só se esqueceram dos descontos.

A ideia, os objetivos (de vender mais entre o Dia da Criança e o Natal), a propaganda, é tudo igual. Mas, nos Estados Unidos e Europa, liquida-se de verdade; aqui, como mostraram a Folha e O Globo, os preços sobem antes para dar a impressão de que houve desconto. Em outras palavras, os preços da Black Week são a metade do dobro. Há ocasiões em que o preço parece ter caído; mas confira o frete, que subiu e muito.

E aí surge a segunda roubada, a dos cartões, que supostamente parcelam o valor da compra. Só que não é bem assim: o cliente só tem a compra aprovada se dispuser no cartão do valor somado de todas as parcelas, O cartão pode parcelar uma bicicleta em duzentas prestações, sem risco: se o cliente não tiver no cartão o suficiente para pagá-las todas, a compra não é aprovada. Não é muito diferente de pagar a vista, em cheque ou dinheiro: só que, em vez de seu dinheiro liquidar a conta na hora, e de o caro leitor trocar seu saldo por um produto, o dinheiro fica bloqueado no cartão e não pode ser usado até que a conta inteira seja paga com seus próprios recursos.

E não acredite em “sem juros”. Os juros estão embutidos no preço. Banco não é entidade de benemerência. Sem jurinho não tem negócio.

No freshness

Alguém poderia nos dizer por que Black Week, e não Semana Negra? A ideia é evitar conotações de discriminação? Nesse caso, usa-se o inglês por achar que o cliente, sem conhecê-lo, não entende o significado do nome. Pode ser; mas por que Liquidação é chamada de “Sale”, ou “Off”?

O Rio, quebrando mais

Os dirigentes cariocas ainda não acham que o Rio já esteja sufocado: a Câmara de Vereadores (antigamente conhecida como ”Gaiola de Ouro”) aprovou, por 40 votos a 1, o retorno dos cobradores aos ônibus da cidade. A proposta foi de dois vereadores, do PT e PTB. Só que o cobrador tem salário, que aumenta as despesas dos ônibus; e não têm serviço. Em São Paulo, só 7% dos passageiros pagam a passagem em dinheiro. Cobrador hoje dorme, ou mexe no celular. Sua atividade é tão essencial quanto a de ascensorista. Mas quem paga o ascensorista, quando há, é o condomínio, não uma cidade com economia quebrada, capital de um Estado quebrado.

Quem é quem

Dos sete governadores eleitos do Rio desde 1982, três estão presos, todos por corrupção: Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral (dois mandatos). O governador atual, Pezão (suspeito de receber doações irregulares da Odebrecht) e Moreira Franco (Quadrilhão do PMDB), eleito entre os dois mandatos de Brizola, têm problemas com a Justiça. Moreira virou ministro para ter foro especial – a manobra que Dilma tentou com Lula e não deu certo. Brizola e Marcelo Alencar morreram. Qual Estado aguenta vinte e tantos anos sendo sugado?

Fora, Kátia

A senadora Kátia Abreu, Tocantins, foi expulsa do PMDB por infidelidade partidária. Kátia é do ramo: dirigia a Confederação Nacional da Agricultura, ferozmente antipetista, e era do DEM. Saiu do DEM para o PSD de Kassab; e, logo em seguida, saiu do PSD para o PMDB. De repente, virou ministra de Dilma e sua amiga de infância, e aliada do PT. Contra a posição do partido a que pertencia, rejeitou o impeachment e vota sistematicamente contra as reformas propostas pelo Governo do PMDB.

Daqui a pouco, fora Requião

O senador paranaense Roberto Requião deve ser o próximo alvo do Conselho de Ética do PMDB (sim, existe – e ainda bem, que Requião, como Kátia, está aliado ao PT para votar contra as propostas de Temer). Requião ameaça “soltar os cachorros” contra Romero Jucá, presidente do PMDB. Bobagem: Jucá está habituado alimentar-se de cães ferozes.

Pode ser… mas Renan?

Há quem aposte que Renan Calheiros, que vem liderando a oposição a Temer, pode entrar na lista dos expulsos. Este colunista não acredita: Renan vem há anos fazendo o que quer e escapando de punições.

E Marun?

Pior que os que foram e serão afastados do PMDB é um peemedebista do Mato Grosso do Sul, Carlos Marun, ex-Eduardo Cunha, hoje Temer. Marun diz que as denúncias contra Temer deixaram os deputados “um pouco fatigados”, e que não vê disposição para votar a reforma da Previdência. O que ele não diz é como ligar esses parlamentares: nomeá-lo para o Ministério do Governo, no lugar do tucano Antônio Imbassahy. Ali nunca faltam mimos para distribuir a aliados pouco dispostos a trabalhar.

MUITO TROVÃO, POUCA CHUVA

Esta semana política tem tudo para ser quente: hoje recomeça a CPMI da JBS, e para que se tenha uma ideia do ânimo parlamentar, o primeiro a ser chamado seria Eduardo Pellela, que foi chefe de Gabinete de Rodrigo Janot, o procurador-geral da República que fez aquele acordo com Joesley Batista. A CPI do BNDES também recomeça, e conforme anunciou, quer passar o pente fino no banco, incluindo financiamentos no Exterior (R$ 50 bilhões, na maior parte para obras da Odebrecht) e contratos com Estados. Isso pode chegar a Lula, cujo papel na concessão de créditos é investigado pelo Ministério Público. Aldemir Bendine, que foi presidente do Banco do Brasil e da Petrobras no Governo Dilma, acusado de receber R$ 3 milhões de propinas da Odebrecht, deve depor hoje ao juiz Sérgio Moro. Ele tentou adiar o depoimento ou evitar que fosse gravado. Nos dois casos, perdeu.

Amanhã, quinta, o Supremo retoma a discussão da validade do foro privilegiado. O privilégio vale para sempre, para qualquer caso, ou apenas para fatos ocorridos durante o mandato e ligados ao exercício político? Quatro dos 11 votos já são conhecidos e restringem o foro privilegiado.

O barulho está assegurado. As consequências, nem tanto. O ministro Dias Toffoli, do Supremo, impediu a convocação de Pellela. O BNDES até hoje se livrou de problemas (e, se atingido, ficará em silêncio?) E o debate do STF sobre foro privilegiado pode parar se algum ministro pedir vistas.

Calma no Brasil

O problema é que os escândalos se alastraram tanto que ninguém tem certeza de que, ao atingir um adversário, não irá também atingir aliados. Joesley Batista não imaginava que, ao montar uma armadilha para Michel Temer, estaria se jogando na cadeia, junto com seu irmão, e derrubando as ações de suas empresas. Nem o procurador Miller esperava fazer parte do rol dos atingidos. Eduardo Cunha não esperava cair com Dilma, nem Dilma com Cunha. Hoje, todos querem ir devagar, até saber quem cai com quem.

Exemplo da velocidade com que o bonde anda: o julgamento do foro privilegiado foi iniciado pelo STF em 1º de junho, há quase seis meses. E não se sabe se termina amanhã – afinal, será julgado também o pedido de libertação do ex-ministro Palocci, e é preciso evitar trabalho excessivo.

Cuidado com seus desejos

O ministro Antônio Imbassahy, do PSDB baiano, tem boa reputação – tanto assim que não foi bem aceito pelos aliados de Temer como ministro do Governo. Deixa o cargo; seu substituto, ao que tudo indica, será Carlos Marun, do PMDB (MS). Os antigos gregos diziam que, quando os deuses queriam destruir alguém, atendiam a seus desejos. Pois é: o caro leitor não desejava que houvesse substituição de ministros neste Governo?

Lugar de tucano

Além de Imbassahy, os tucanos ministros são Luislinda Valois, aquela que se compara aos escravos por ganhar apenas R$ 33 mil mensais, mais penduricalhos, e Aloysio Nunes Ferreira, das Relações Exteriores. Desde seu pedido de aumento, Luislinda não abre a boca (ainda mais para pedir demissão); e Aloysio, amigo de Temer, já disse que não pensa em sair. Hoje há tucanos contra Temer, como Tasso Jereissati; a favor de Temer, como Aécio e Aloysio; tico-tico-no-fubá, como Alckmin, que não quer o PSDB na situação nem na oposição, nem muito pelo contrário. Em resumo, os tucanos se mantêm firmes e unidos, como de hábito em cima do muro.

Trovão de verdade

Numa semana tão rica de eventos (mas frios), o que desperta as atenções é o lançamento de um ótimo livro: Laços de Sangue, do procurador Márcio Sérgio Christino e do jornalista Cláudio Tognolli. O livro informa que o chefão do crime organizado violento, Marcola, entregou à Polícia informações sobre os dois chefes da época, ambos fundadores do PCC: Geleião e Cesinha. Com isso, a Justiça impôs mais restrições aos dois, que foram isolados e perderam o poder. O PCC diz que a acusação é falsa.

Carcará paulista

Aquele pássaro malvado, “que avoa que nem avião”, sobrevoa a Assembleia paulista e ameaça provocar uma demissão em massa a menos de um mês do Natal. O pássaro predador não é convocado por causa de nenhuma irregularidade – não é surpreendente? A TV Assembleia é gerida há quatro anos, após concorrência pública, pela Fundação Fundac, a mesma que gere a TV Justiça no STF. Seu contrato deve acabar no fim de 2018.

Mas o atual presidente da Assembleia, deputado Cauê Macris (PSDB), quer rescindir o contrato – o que provocará a demissão de 80 funcionários, a substituir por outros, da empresa que assumirá o contrato. Economia? Não deve ser: Cauê Macris se propõe a contratar por R$ 35 milhões uma agência de propaganda, para divulgar a Assembleia. Se o contrato for rescindido, a empresa prejudicada entra com processo. É tudo muito caro.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Não é a injúria racial, ou racismo, o motivador da campanha: é o pensamento de Waack, que desagrada militantes de tendências opostas.

Não consegui ouvir direito a frase que motivou o afastamento de William Waack da Rede Globo de Televisão. Mas minha eventual incapacidade auditiva, e a de vários colegas que também tentaram ouvi-la sem êxito, não entra na discussão: admitamos que Waack tenha mesmo dito que as buzinadas na rua, que atrapalharam a gravação de seu programa e o irritaram, eram “coisas de preto”.

Mas, como minha surdez, a frase de Waack não tem nada a ver com o caso. A campanha contra ele, um ano depois da gravação da frase, não tem como motivo algo que tenha dito, mas o fato de ter sido dito por ele. Não é a injúria racial, ou racismo, o motivador da campanha: é o pensamento de Waack, que desagrada militantes de tendências opostas.

Imaginemos que, em vez de Waack, outras pessoas, de outras tendências político-partidárias, tivessem pronunciado frases do mesmo teor. Melhor, em vez de imaginar, lembremos frases já enunciadas por pessoas tão ou mais influentes que William Waack:

Do presidente Ernesto Geisel, referindo-se a um economista liberal (e, portanto, adversário de sua política econômica), professor Eugênio Gudin: “Esse judeu filho da puta!” O episódio é narrado na excelente obra de Elio Gaspari sobre o regime militar. Alguém protestou contra a frase preconceituosa de Geisel? OK, era perigoso falar mal de Geisel durante a ditadura. Mas nas dezenas de anos que se passaram, e com o caso voltando ao debate com os livros de Gaspari, houve protestos? A propósito, o professor Gudin não era judeu.

Do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o prefeito de Pelotas, RS: “Pelotas é um pólo exportador de veados”. Homofobia? Ninguém chegou a falar nisso, que me lembre. Ah, se Waack fosse o autor da frase!

… cá entre nós, quem nunca fez piada de português, de loira burra, de preto, de judeu, de turco, de veado, de sapatão? Apresente-se…

Do governador paulista Orestes Quércia, brincando ao telefone com o prefeito de Pelotas (que ficou furioso): “Podemos fazer uma estrada ligando Campinas a Pelotas, a Transviadônica”.

E há, é óbvio, o caso de Caetano Veloso. Paula Lavigne disse que, aos 13 anos, foi à festa de aniversário de Caetano, que fazia 40, com a intenção (bem sucedida) de fazer sexo com ele. Agora, na mesma guerra ideológica que tenta vitimar Waack, mas com sinal partidário trocado, quiseram atribuir a Caetano o crime de pedofilia, como querem atribuir a Waack o de racismo. E, semelhante em ambos os casos, há a má intenção de atingir uma pessoa de quem não gostam usando pretextos politicamente corretos.

E, cá entre nós, quem nunca fez piada de português, de loira burra, de preto, de judeu, de turco, de veado, de sapatão? Apresente-se. E atire a primeira pedra.

RIO DE JANEIRO QUE EU SEMPRE HEI DE AMAR

Um sucesso de 1954, de Fernando Martins e Victor Simon, com os Anjos do Inferno, era explícito e verdadeiro: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. Meu pai contava que já nos anos 30, quando estudava Medicina no Rio, luz e água faltavam na cidade.

Foram décadas de queixas. Bastou um grande Governo, o de Carlos Lacerda, para que o problema da água fosse resolvido (o que vale até hoje, mais de 50 anos depois). E bastou que a Eletrobrás pusesse ordem na casa para que o problema da eletricidade fosse resolvido: hoje, há água e há luz.

O problema agora é a insaciável máquina de corrupção, unida ao tráfico e ao contrabando. Os narcotraficantes herdaram o poder dos bicheiros, multiplicando-o ao torná-lo mais sangrento. Agora? Isso vem de longe – o governador Brizola apôs obstáculos ao trabalho policial na década de 1980, há quase 40 anos; parte significativa da classe média, média-alta e rica se rendeu aos secos e molhados; o eleitorado perdeu oportunidades excelentes de eleger políticos corretos, como Fernando Gabeira, para escolher, veja só, Sérgio Cabral (Miro Teixeira, embora politicamente oscilante, manteve-se livre de acusações e ninguém duvidou de suas boas intenções).

Mas a vida segue. O paraense Billy Blanco, com Tom Jobim, compôs a Sinfonia do Rio de Janeiro. O Rio é a cidade, cidade mágica, que o mineiro Ruy Castro escolheu como sua. Quando o Rio vai bem, o Brasil vai bem.

Cultura útil

A cornucópia (em latim, o chifre da abundância) representava, no ritual pagão de Roma, a fertilidade, a fortuna, as riquezas da Terra. A palavra é hoje pouco usada – até porque, com essa história de corno, pode parecer indecente. E é indecente, mas não pelo corno: por representar as riquezas da Terra, simboliza também certas fortunas que apareceram do nada.

Dinheiro vem…

O Ministério Público Federal em Brasília pediu ao juiz Vallisney de Oliveira que bloqueie R$ 21,4 milhões das contas do ex-presidente Lula e de um de seus filhos, Luís Cláudio. No processo a que se refere esse bloqueio, Lula é acusado de tráfico de influência na compra, pelo Brasil, dos caças supersônicos Grippen, da empresa sueca Saab. Detalhe curioso, que pode ter várias interpretações: na negociação com o Brasil, cada caça saiu por US$ 150 milhões. Alguns anos depois, a Suíça rejeitou a compra, por julgar excessivo o preço de US$ 140 milhões por caça. Diferenças nos modelos podem explicar a diferença de US$ 10 milhões por caça; ou não. Considerando-se o bloqueio de R$ 10 milhões já determinado pelo juiz Sérgio Moro, nos últimos meses Lula teve suspenso o acesso a mais de R$ 30 milhões de seus bens. Considerando-se os salários que recebeu nos seus anos de serviço, seus cachês de conferencista devem ter sido excelentes.

A defesa de Lula diz que ele e o filho não interferiram no negócio, feito integralmente de acordo com os pareceres técnicos da Aeronáutica.

…dinheiro vai

Luiz Marinho, um dos dirigentes petistas mais próximos de Lula, que há pouco deixou a Prefeitura de São Bernardo e é cotado para disputar pelo PT o Governo paulista, também foi denunciado à Justiça: ele é acusado, em companhia de empreiteiros, de fraudes nas concorrências para a construção do Museu do Trabalhador. As acusações envolvem uso de empresa de fachada, cláusulas de restrição à competitividade e propostas “de cobertura”, cuja utilidade é dar ao vencedor previamente definido a garantia de que seus preços serão os mais baixos. Duas das empresas que o Ministério Público aponta como participantes das fraudes venceram 19 licitações para a execução das obras públicas mais lucrativas durante a administração do prefeito Luiz Marinho.

Chico Xavier…

O desenhista Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, já premiado pela ONU por uma notável historia que demonstra a imbecilidade do racismo, acaba de colocar seus personagens num livro infantil sobre um dos maiores médiuns brasileiros, Francisco Cândido Xavier. No livro, Mauricio e a Turma da Mônica mostram grandes exemplos de Chico Xavier; o novo personagem André, primo de Cascão, apresenta aos leitores 25 ensinamentos do líder espírita. Há histórias inéditas de pessoas que conviveram diretamente com Chico Xavier e dele receberam lições de vida.

…em quadrinhos

Cebolinha se surpreende ao saber que Chico Xavier doou todo o dinheiro que ganhou com milhões de livros vendidos a instituições de caridade – “ele podelia ter ficado lico!” André lembra que Chico Xavier escrevia por amor, e uma vez disse: “Ame sempre porque isso faz bem a você, não por esperar algo em troca”. São 64 páginas por R$ 11,00.

TUDO SERÁ COMO DANTES

Hoje é feriado nacional, 128º aniversário da Proclamação da República. A República foi proclamada pelo marechal Deodoro, amigo do imperador D. Pedro 2º e antirrepublicano (um de seus ministros, Ruy Barbosa, era um dos maiores defensores da monarquia). O povo, disse Aristides Lobo, “assistiu bestializado” à Proclamação – e Aristides Lobo, além de líder republicano, era ministro de Deodoro. Por que Deodoro, monarquista, virou líder republicano? Porque o convenceram de que Silveira Martins chegaria a primeiro-ministro do Império. Deodoro e Silveira Martins se detestavam: ambos disputaram a baronesa do Triunfo (que escolheu Silveira Martins).

Claro, houve a questão financeira: o Império tinha prometido obter um empréstimo no Exterior para indenizar os donos de escravos pela Abolição. O empréstimo foi obtído, mas o dinheiro jamais chegou ao destino.

O DNA do Brasil é antigo. Já se sabe, portanto, quem ganha as eleições de 2018. É bom acompanhar o processo para saber quem fica com os cargos, com a caneta das nomeações, com a possibilidade de viajar em boa companhia e conseguir um Porsche ou outro e alegrar as atuais Baronesas do Triunfo. Mas é bom saber também que, seja qual for o resultado na urna, o povo poderá “assistir bestializado” ao triunfo de Jucá, Renan, Eunício, Geddel, Jader, Moreira, Padilha, nesta terra descoberta por Cabral. Não nos espantemos com mais do mesmo. Quem sai aos seus não degenera.

Tudo junto…

Houve quem duvidasse quando esta coluna informou que PT e PMDB estavam negociando um acordo para 2018, e que Lula tinha mandado parar a campanha contra “o golpe”. Agora é tudo oficial: Lula diz que “perdoou os golpistas”; Dilma disse na Alemanha que era preciso perdoar “os que bateram panelas, equivocadamente”, contra ela. Uma curiosidade: quem foi o intérprete que traduziu o português de Dilma para o alemão? É gênio!

…e misturado

Eunício Oliveira, PMDB, um dos primeiros-amigos de Temer, quer porque quer chegar ao Governo do Ceará. José Guimarães, PT, o deputado cearense cujo prestígio no partido é imenso? Pois José Guimarães disse ao jornal Valor que Eunício ligou para Lula no dia 27, para cumprimentá-lo pelo aniversário e oferecer-lhe apoio à candidatura presidencial. Jader Barbalho, PMDB, que já teve de renunciar ao mandato de senador para não ser cassado por seus pares, cacique maior do Pará, diz: “Minha relação com o Lula não é boa, é excelente. Lula é um candidato fortíssimo. Como a classe política em geral está sob suspeição, o eleitorado vai dizer: ‘Todos não prestam, mas ele fez’. Se concorrer, ninguém ganha do Lula”.

Há negociações também, além de Ceará e Pará, em Minas (onde o governador petista Fernando Pimentel tenta lançar a candidatura de Dilma ao Senado), Piauí, Paraná (o dirigente peemedebista Roberto Requião está há muito tempo aliado ao PT), Sergipe e Tocantins, onde a senadora Kátia Abreu, antes ferrenha antipetista, virou ministra e amiga de Dilma. Requião está tão petista, e há tanto tempo, que até apoia o governo venezuelano de Nicolás Maduro; e se interessa tanto em agradar Lula que, quando o então presidente lhe mostrou uma semente de mamona, ele imediatamente a mordeu, imaginando que fosse uma oleaginosa como amendoim ou nozes.

Cadeia de comando

O PMDB do Mato Grosso do Sul está enfrentando um problema sério: no sábado, faria a convenção para entregar o comando estadual do partido ao ex-governador André Puccinelli, que seria candidato de novo em 2018. Ontem, terça, surgiu um contratempo: Puccinelli foi preso preventivamente na Operação Papiros de Lama, suspeito do desvio de R$ 235 milhões. Seu filho também foi colocado em prisão preventiva, e houve bloqueio de contas bancárias. A situação de Puccinelli está piorando na operação: na fase anterior, teve de usar tornozeleiras, mas não tinha sido preso. De acordo com os investigadores, houve uso de documentos falsos, compra irregular de produtos e obras e concessão de créditos tributários aos amigos. E agora? Ainda não se sabe: fazer a convenção na cadeia não é possível; e fora seria engraçado, ainda mais quando o vencedor não tivesse condições de discursar. Mas o PMDB local saberá lidar com o problema: um de seus dirigentes é o deputado federal Carlos Marun, aquele que vivia na TV defendendo Temer e, antes, era o maior defensor de Eduardo Cunha. Tem experiência com políticos enrolados.

Modéstia

A Polícia Federal anunciou que três deputados do Rio são suspeitos de receber propina. Três? Só se a Polícia Federal considerar que boa parte dos nobres parlamentares já ultrapassou a fase das suspeitas. Sua situação está estabelecida – nada de suspeitas – e só falta completar o trabalho.


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