PEQUENOS CUIDADOS NA FRANÇA

Você vem a Paris? Muitas coisas a agência de turismo não nos conta e convém saber, para não ter de desembolsar euros inesperados (valiosos!) ou, sem mais aquela, ir parar atrás das grades.

Primeira coisa: não se desfaça do “tiquê” do metrô após passar pela roleta! Só jogue fora depois de estar são e salvo em plena rua.

É que muita gente (muita mesmo!) entra sem pagar.   

Às vezes os caroneiros se colam às costas da pessoa que está entrando para passar junto. É rapidinho, como coelho. Quando você sente a colada… já passou!

Outros esperam você abrir a porta da saída e entram correndo. Mas, o mais comum é eles pularem a roleta.

Só que, de vez em quando, a fiscalização está esperando na curva. São muitos, acostumados a qualquer tipo de desculpa. Eles não perdoam, não adianta dizer que é estrangeiro, não sabia e jogou fora. Terá de deixar cinqüentinha. Ou mais! Depende das circunstâncias da infração.

Outra coisa: você achou linda aquela flor no jardim. Biba quer enfeitar o cabelo, ou é mulher e quer colocar num vasinho em casa para embelezar o banheiro. Lascou-se. Vai pagar 38 euros pelo adorno. Acha pouco? Isso, hoje, com o euro a uns dois reais e sessenta dá por volta de cem paus!

Mais umazinha: Você está acostumado a atravessar a rua em qualquer lugar. Chega em Paris e passa fora da faixa de pedestre. Se o guarda te vir e se existir faixa há menos de cinqüenta metros… já era! Multinha boba; onze euros.

Lembrei de outra: O sujeito não conseguiu se livrar do vício porco do cigarro, deu umas baforadas e jogou o “mégot” (guimba ou toco) pela janela, não acertou em ninguém mas um guarda viu, lá se vão mais trinta e oito euros. Porém, se a bituca caiu em cima de alguém e a queimou a cana é braba: dois anos de cadeia e trinta mil euros de multa. Não, você não entendeu mal, é cadeia e multa de setenta e cinco mil reais – lá se vai teu sonho de comprar um carrão.

Para finalizar: A cada esquina você encontra uma bicicleta para alugar. É fácil. Você já adquiriu o passe, é só pegar e sair pedalando. Depois devolve em um dos inúmeros pontos existentes na cidade.  Aí você encontra aquela calçada larga nos Champs Elysées, ou aquela outra da Géneral Léclerc, resolve sair da rua, que está muito perigosa, e rolar pelo passeio: chiiii! Lá vem o guarda! 375 euros virando fumaça!

No mais, é levar o passaporte e a grana grossa naquela bolsinha de pano que vai por baixo das calças para que o “pickpocket” não te alivie no aperto dos vagões.

Não se esqueça de dizer sempre, a cada contato, “bonjour”, a cada pedido “s’il vous plaît” e a cada esbarrão “pardon”.

Atento a isso e ao golpe do casaco você já está livre de grande parte dos aborrecimentos e dos prejuízos nessas férias na Cidade-Luz.

- Bonne journée!

TRAJETÓRIA DE CARLINHOS CACHOEIRA

Conta-se que a história de Carlinhos Cachoeira não é de hoje, remontando a 1950, e teria suas raízes em atividades de seu pai, que de apontador do jogo do bicho teria passado a bicheiro na cidade de Goiânia, em Goiás.

Mais tarde, já nos anos sessenta, alguns dos filhos – dentre eles Cachoeira – teriam começado a trabalhar com o pai nessa atividade, sendo que uma parte acabou sendo controlada por um dos filhos e a outra por Carlinhos Cachoeira.

Embora rentável, a situação de Carlinhos Cachoeira e de sua família não era ainda tão “esplendorosa” até 1990. Mas, a partir desse ano,  a ascensão se deu com a obtenção, por Cachoeira, da concessão da loteria do Estado de Goiás. O governador era, então, Maguito Vilela, do PMDB.

Nessa década os negócios prosperaram, Cachoeira fez ligações com bicheiros famosos do Rio de Janeiro e talvez tenha vindo daí a inspiração para que ele viesse a se tornar pioneiro na exploração  de caças-níqueis e do bingo eletrônico na região Centro-Oeste.

Em 1999, quando Marcondes Perillo (PSDB) assumiu o governo do Estado de Goiás, Carlinhos Cachoeira já estava muito rico e a família passou a abrir negócios também nos setores legais da atividade comercial, prática semelhante à da máfia italiana e seus braços internacionais. Também neste caso, a figura do contador – foragido – é de suma importância para desvendar os caminhos do dinheiro.

A expansão das atividades de Cachoeira chamou a atenção das autoridades, desconfiadas de que além das atividades tradicionais da família no setor dos jogos ilegais criara-se uma rede de corrupção estendida aos setores legais de suas atividades, contaminando a realização de licitações, a sua dispensa e outras práticas irregulares, mediante a compra de favorecimentos a políticos e a servidores públicos.

Então, a Polícia Federal passou a rastrear as atividades do grupo, culminando na Operação Monte Carlo que, em fevereiro de 2012, no governo da presidenta Dilma Roussef (PT), começou a desbaratar a quadrilha, prendendo Carlinhos Cachoeira em abril, bem como os demais pertencentes ao seu núcleo.

Empresários, políticos e servidores públicos ainda têm sua participação investigada – assevera-se que os criminosos teriam “repassado” bllhões de reais para as mãos desses “colaboradores”.

Na verdade, as atividades policiais iniciaram-se bem antes, desde 2006, no governo do Presidente Lula (PT), mas foram abortadas pelo vazamento de informações que impediram o sucesso das investigações.

O resto da história estamos acompanhando em todo o noticiário e, é claro,  esperamos que dê resultados exemplares para golpear a corrupção em nosso País.

É interessante lembrar que Cachoeira ficou conhecido nacionalmente em 2004, após ter divulgado um vídeo sobre o escândalo Waldomiro Diniz, então assessor da Casa Civil.

Cachoeira esqueceu-se do ditado de que quem brinca com fogo acorda molhado. No caso, encharcado – no próprio nome.

MEU PRIMEIRO LIXO

Eu era rapazinho – e isso já faz bastante tempo… – quando ouvi dizer que os norte-americanos não consertavam mais seus aparelhos domésticos velhos ou danificados. Não valia a pena consertar. Era mais econômico comprar um novo.  E quando adquiriam um mais moderno não tinham o que fazer com o antigo. E então, eles simplesmente deixavam televisores e geladeiras, dentre outros pertences usados, na rua, para serem recolhidos. E havia quem recolhesse, fosse para vender como ferro-velho, no caso dos defeituosos, fosse para utilizar, quem não tinha um ou o seu estava em ainda pior estado.

Fiquei admiradíssimo. Para nós, uma geladeira era um luxo, uma televisão era um sonho. Se dava defeito era sempre mais barato consertar, pois um aparelho desses, novo… nem pensar. Geladeira, então, era coisa para toda a vida.

Por isso, não me admirei quando, agora, muitos e muitos anos depois, vim morar na França e comecei a ver que o futuro aqui já chegara e que, como nos Estados Unidos, até computadores são deixados na rua para quem quiser levar.

Tenho visto fogões, colchões, armários e outras coisas abandonados por aí.

Jamais pensei que algo me interessaria.

É que, apesar de pequeno, o sala e quarto em que moro em Paris tem de tudo, forno, fogão, micro-ondas, telefone, geladeira, televisão com seiscentos canais, internet, máquina de lavar pratos, lavadora de roupas e tudo o mais que faz o conforto moderno.

Eis que se não quando me aparece, cara a cara, uma pequena estante, estreita, seis prateleiras, perfeita, abandonada.

Virei-me para minha mulher, trocamos um olhar cobiçoso: precisamos muuuuito de uma estante. Se o pequeno apartamento tem tudo, falta algum quase, um lugar para pôr pequenas coisas,  como um relógio, um frasco de perfume, um vidro de remédio, coisitas pequenas que ficam espalhadas por aqui e por lá.

Ela encorajou-me mas fingiu que não me conhecia enquanto eu punha o tesouro às costas e me apressava para o apartamento, onde depositei o meu primeiro lixo francês e voltei para a rua.

Lá, próximo ao lugar de onde eu recolhera a tralha, minha mulher me aguardava assustada, de olhos arregalados. 

É que dois parrudos franceses procuravam o safado que tinha levado a estante que estava na calçada aguardando para ser transportada sabe-se lá para onde.

Enquanto eles xingavam e imprecavam ao vento nós já estávamos no metrô, suando frio e com o coração em disparada. A situação precária de brasileiros na Europa não recomendou que explicássemos que pulga não é elefante e que achado não é roubado.

Premidos pelas circunstâncias, vamos usando enquanto resolvemos se um dia desses, na calada da noite, deixamos de volta no mesmo lugar.

EU, OS FRANCESES E OS LUGARES-COMUNS

Uma das coisas que mais odeio são lugares-comuns.

Por isso, não direi que chegando em Paris admirei-me de como até as criancinhas falam perfeitamente o Francês.

Não observarei que aqui  todos tomam vinho nacional.

Recusar-me-ei a jurar que vi uma pessoa jogar lixo pela janela do ônibus, ser imediatamente detido pela polícia  e era um brasileiro.

Evitarei tratar do fato de que basta pôr o pé na rua para que os carros parem.

Sem dúvida, não comentarei que dizem que no restaurante todos sabem que aquela turma barulhenta somos nós, do Brasil.

Prometo  que não repetirei que quando os franceses identificam nossa origem falam logo ah oui u-lá-lá Pêlé, Rrrronaldinhô, Cácá…

Se pensarem que falarei que os franceses amam a música brasileira podem acreditar que eu não direi nem isso e nem que são vidrados em bossa-nova.

Nem afirmarei o que todos dizem, que eles apreciam demais a musicalidade de nossa língua.

Sequer comentarei que aqui tem brasileiro para tudo quanto é canto.

Não me verão fofocar que os franceses  carregam um pão enorme sem embrulhar debaixo do braço.

E que saem comendo pelo meio da rua.

Garanto não falar da difundida crença de que eles se enchem de perfume porque não gostam dessa maluquice brasileira de tomar banho todos os dias.

Estejam certos de que não sugerirei também que franceses são mal-humorados e  tratam as pessoas com rispidez.

Gostariam que todos soubessem que em tempo algum direi o que tantos dizem, que franceses odeiam que se fale com eles em Inglês.             

Não serei eu quem comentará mais uma vez que eles falam fazendo biquinho.

E por aí vai.

Apenas falarei do inusitado, porque é para isso sou pago a peso de ouro e de queijos e vinhos pelos jornais para os quais trabalho, não para jogar conversa fora.

Lá vão as informações inéditas:

Os franceses fumam desesperadamente.

Só tomam água da torneira, sem filtrar.

Sempre iniciam um contato dizendo bom-dia.

Fazem questão de pedir alguma coisa delicadamente, dizendo que gostariam, em lugar de eu quero.

Pedem perdão milhares de vezes por dia para pedir passagem ou por qualquer mínimo esbarrão.

E comem carne de cavalo!

Só falta descobrir se é verdade que eles se alimentam de lesmas, eca!

Depois eu conto.
 

A MORTALIDADE INFANTIL E O PODER DA BOLSA

Não jogo na bolsa, não sei como aquilo funciona, e apenas uma vez que apliquei uma mixaria em um fundo relacionado a títulos negociados na bolsa de valores lasquei-me todinho, perdi quase todas as minhas merrecas.

Entretanto, não venho falar dessa bolsa, que atende a ricos, médios e remediados, mas da instituição maciça da assistência social pelo governo, iniciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, os que são contra PT, Lula e Dilma, embora em minoria fazem forte pressão na mídia atacando determinadas atividades do governo.

Um dos pontos a que esses mais se opõem costuma ser o relativo, injustamente, à “Bolsa-Família”.

Por mais que nós, que apoiamos o governo nesse empreendimento, tentemos fazer ver a necessidade desse auxílio neste “momento” histórico e sociológico, reclama-se que o governo deveria aplicar esse dinheiro em “investimentos”.

Comparando as bolsas de assistência social a esmolas, alegam que  a esmola “para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”, valendo-se de um bordão atribuído ao Luiz Gonzaga.

Um dado trazido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vem desmerecer a argumentação dos que condenam o assistencialismo do governo: A mortalidade infantil caiu 47% no Brasil nos últimos dez anos!

No Nordeste o índice de queda foi ainda mais alto: 50% menos de mortalidade infantil.

Pois, o IBGE entende que essa redução é explicada em parte, pelo aumento do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda, que ajudaram a ampliar a renda especialmente da parcela mais pobre da população – e que isso acarretou queda das desigualdades sociais e regionais, atuando em favor da diminuição da mortalidade infantil no país.

É preciso entender, também, que a assistência social na constitui esmola: é acima de tudo uma atividade essencial do Estado, que não pode permitir que seus tutelados sofram de fome, de falta de assistência à saúde (alimentado, o indivíduo, notadamente as crianças, é menos sujeito às doenças comuns e evitáveis).

Esmola é o que o cidadão dá ao pobre que não foi assistido pelo Estado.  E mesmo a esmola conta com defensores, como Victor Hugo, que disse:  “Dêem, ricos! A esmola é irmã da prece.”

CIENTISTAS FOTOGRAFAM SONHOS PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA

 (Reportagem do Dr. Goy, incluindo mais novidades científicas)

 Não faz muito tempo li um artigo científico que afirmava que pela primeira vez haviam sido fotografados sonhos.

Não me pareceu grande coisa, a ciência está avançada, o homem foi à Lua, não passa um só dia sem que novidades tecnológicas apareçam.

Sequer conseguimos acompanhar esses avanços – nós que somos de outra geração.

No entanto, me esforço.

Não quero que digam que deixamos de aproveitar o progresso e que ficamos à margem da civilização.

Por isso, saí em campo.

Resolvi que faria uma proeza científica capaz de demonstrar que não é por sermos antigos que não somos capazes de contribuir com novidades e descobertas.

Estudei detidamente a foto dos sonhos, examinei os detalhes de ângulos e cores, a textura, a pixagem.

Foi quando notei que os autores da foto não foram tão felizes, porque fotografaram sonhos sem recheio e não os famosos sonhos de padaria, também conhecidos como “pesadelos”.

Notem que esses sonhos estão mais para os chamados “bolinhos de chuva” do que para sonhos mesmo:

 

Produzi, então, uma foto de sonhos de verdade, que são os recheados com creme  e que têm a capacidade de proporcionar cremor e pirose em abundância bem como de causar transtornos ao sono:

 

Fui além! Consegui fotografar empadas! O que não foi nada fácil, porque estavam muito quentes e quando esfriou um pouco o pessoal avançou:

Para completar minha missão estou com um projeto de fotografar quibes, assim que eu consiga patrocínio para as passagens e que a situação no Líbano esteja bem tranqüila. 

A CANÇÃO DE PORTUGAL

Ele chegou aqui no Brasil com uma mão na frente e outra atrás, dizia que vinha de um lugar chamado Trás-os-Montes, creio,  que eu imaginava como um sítio poético, um vale localizado além das montanhas, de onde ninguém deveria sair para encontrar as durezas do mundo.

Dizia que não havia como ficar lá, porque era um tempo difícil, aqui era a terra prometida, muitos vieram e venceram, ele queria vencer também.

E conseguiu. Trabalhando sem descanso, fez seu pé-de-meia, encontrou sua alma gêmea, também da terrinha, juntos estabeleceram um comércio, se deram bem, os filhos tocam juntos o negócio, agora.

É feliz, mas há nele um quê de melancolia, de quem perdeu um pedaço do coração.

Disse-me que quando vai à associação de patrícios e toca o vira ele canta de um jeito embriagante a canção de sua terra. O coração bate descompassado e quase pula do peito, num balanço exagerado, e a mente se desgarra deste mundo.

Não sabe explicar suas sensações de quando dança essa música genuinamente portugusa, enquanto seu corpo se revira em mil trejeitos. É um rio saindo do leito, uma cerração subindo a serra, enquanto sua respiração se agita e a alma grita no delírio do ritmo.

Quando dança e canta o vira, sente invadi-lo o cheiro do perfume dos campos de Trás-os-Montes.

Convidou-me um dia para ir à festa de aniversário de um amigo que veio com ele na mesma leva. Ia ser no clube deles, mas não tinha problema, muitos brasileiros sempre iam, parentes ou não dos portugueses, e eram  bem acolhidos; os convidados até cantavam e dançavam juntos as músicas que evocavam as lembranças do seu Portugal.

Quando entramos, o conjunto musical tocava samba bossa-nova, o salão estava cheio, muitos cantavam  e acompanhavam o ritmo batendo suavemente as mãos nas mesas.

A banda era formada de portugueses, quase brasileiros de tanto tempo que viviam aqui.

A diferença foi quando começaram a tocar o vira. Era como se se incendiassem, seus rostos irradiavam uma alegria contagiante e o meu amigo parecia que iria explodir de contentamento, levantando-se, cantando a canção de sua terra, braços para o alto, saltitando e requebrando despudoradamente.

Quando se sentou, perguntei-lhe como conseguia, tão ligado a suas raízes, continuar longe de Trás-os-Montes, afastado dos parentes e amigos que deixou para trás.

Ele disse que às vezes ia visitá-los lá na pátria distante. Quando isso acontecia, de tempos em tempos, de início parecia que os laços haviam se afrouxado. Mas logo essa impressão se desvanecia, quando o vira enchia o ar e juntos dançavam sua sina e sua sorte. Juntos, aprenderam com sua pátria que quem canta tudo pode e que quando cantam e dançam unidos em uma só vontade, com emoção e sangue quente, só se anda para a frente.

Não importava onde estivesse, aqui ou em Portugal, vivia a ventura que Deus lhe deu de sempre ter alegria e de viver a vida com doçura. O que mais haveria de querer? Seguia no rumo que o mundo vira, porque nós também giramos sem parar numa roda que nunca termina para encontrar o nosso destino.

Começou a tocar um vira novamente. Meu amigo me puxou, dançou na minha frente. Eu timidamente comecei a imitar seus passos, seus trejeitos, e embebi-me da canção de sua terra, sentindo aflorarem em mim as raízes  ancestrais.

E compreendi.

A FOLHA EM BRANCO

Creio ser comum que se defrontem com o problema da folha em branco a sua frente os cronistas que escrevem textos diários para jornais     

Já vi isso acontecer muitas vezes; quero dizer, já li várias crônicas do escritor que precisa escrever e se encontra com a cabeça oca de idéias frente à página vazia.

É um estresse. O pobre coitado do cronista confessa: estou aqui, de frente para esta página branca, sem saber o que escrever, tendo que entregar a matéria para o jornal fechar a edição… e… não tenho nada para dizer.

No entanto, à medida que se imagina algum tema algo se vai apresentando, como se brotasse de porosidades das células, baixando como uma névoa rasa,  invadindo a folha, tomando conta do escritor e do leitor, espraiando-se, construindo-se; e uma história interessante afinal se desdobra aos nossos olhos.

É o fenômeno da inspiração sendo invocada, ou, melhor dizendo, assumindo o controle, servindo-se do seu instrumento.

Encontro-me em situação semelhante. Hoje, a tela do computador me apresenta uma folha, que registraremos como sendo o Documento 1, porque nada ainda foi salvo, completamente vazia, alva como uma folha de papel de verdade. Talvez alvacenta, mas como alva a vejo.

Não sei qual a mais vazia, ela ou minha mente. Gostaria de pegá-la e aproximá-la de mim, para dela captar alguma idéia, subjacente a sua estrutura molecular, mas essa folha é etérea… desculpem-me, quero dizer virtual, aquilo que é sem ser.

Espero que uma nuvem dela se desprenda e surja por entre as teclas, ou mine do vidro do monitor, desabrochando em palavras, frases e idéias que encantem o leitor e diminuam a ansiedade do criador.

Comprometi-me com um jornal diário a apresentar um trabalho por dia. Tarefa árdua para quem não é prenhe de idéias. O jornal que era diário,  submetido às intempéries que assolam as publicações dessa natureza, tornou-se quase diário, ameaçou transformar-se em hebdomadário (e desistiu, certamente para não ser classificado por uma das mais desagradáveis palavras de nossa amada língua pátria), quis virar revista (quinzenal, mensal, sabe-se lá), para, afinal, firmar-se como jornal de extração incerta: dia sim, dia não, dia talvez, dia pode ser, dia sim de novo! E assim por diante.

Sofre com isso o editor-chefe, o corpo editorial, o dono do jornal, sofrem os auxiliares, sofre todo mundo, até a moça da copa, assimilando o desespero geral, e se espera que quem estaria aliviado em deixar o jornal de ser diário seria, única e exclusivamente, o encarregado da fatídica coluna diária, que teria mais tempo para colher da rede cósmica que envolve o Planeta, como as ondas de rádio, mais alguma coisa para contar ao distinto público.

Mas, que nada! A folha em branco não se prende a periodicidade. Ela vem e virá sempre, em um dado momento, tenha você que escrever todos os dias, tenha você que escrever de meses em meses, tenha você que escrever uma vez por ano. Sempre haverá aquele dia em que ela estará, insolentemente, encarando-o, a desafiá-lo.

Resolvi, portanto, frente ao inevitável, já que hoje nada se me apresenta para ser desenvolvido, submeter-me neste momento ao branco desta folha. E assim o faço. Nada escreverei.

Simplesmente, apresento-a a você imaculada, caro leitor. Como veio ao mundo: Branca, branca, branca.

Creio ser o melhor a fazer,  se me fogem as idéias.

Espero que você se deleite com a sua brancura.

VOU SER REI

Sou descendente do Barão de Cocais, aquele que deixou fortuna incalculável em um banco da Inglaterra.

Em titulação de nobreza, acima de mim existem descendentes de visconde, de conde, de marquês e de duque.

Nenhum desses nobres reclamou o reino.

E a família real, propriamente dita, está bem quieta, à sombra dos laudêmios em flor.

Para a presidência da república temos poucos nomes capazes de concorrer no próximo pleito.

A não ser Dilma Roussef.

Os demais estarão na maioria barrados pela Lei da Ficha Limpa.

Um nome, adorado e idolatrado pelos intelectuais é  Lula, mas não se sabe se pretende concorrer.

O único que poderia disputar a presidência com Dilma ou Lula seria eu mesmo, mas estou em outra, não vou me candidatar pelo motivo que veremos a seguir.

É que prefiro ser rei.

Sou de ascendência nobre e aspiro herdar uma fortuna que não é brincadeira, a tal que o meu ancestral deixou e está lá paradinha me esperando.

Então, como tenho meus direitos, reclamo, neste momento, o trono do Brasil.

Serei um rei diferente.

Nada déspota.

Trato com mão de ferro apenas inimigos do povo – aqueles que desviam, de qualquer forma, recursos do Estado.

Os impostos, no meu reinado,  serão reduzidos a dez por cento dos atuais. Com essa providência todos os que devem pagar pagarão, aumentado a arrecadação em torno de mil por cento, segundo meus cálculos pessimistas. É o que todos desejam.

Toda forma de bitributação estará extinta. É o que exige a lei e a decência. Aliás, penso em um imposto único com muita seriedade.

Cada indivíduo terá direito à alimentação básica:  bastará  reclamar comida ao rei, porque fica proibido passar fome. É desumano não ter o que comer.

O rei garante trabalho para todos. O trabalho dignifica e enobrece.

Que ninguém fique sem teto, não o admitirei. Mandarei construir casas para todos. É degradante não ter um lar.

Quem quiser plantar requisite e terá terra. É antinatural querer e não poder colher os frutos do chão.   

Construirei escolas em abundância, mandarei que se pague bem aos professores, um dos mais valiosos patrimônios da Nação, e determinarei o fim do exame para ingresso no ensino superior.                 

O atendimento à saúde estará plenamente garantido: hospitais, médicos e remédios serão suficientes e de graça.

Os pedestres não mais terão que escalar altas passarelas para passar sobre as estradas: as estradas  é que passarão por cima das passagens para pedestres.

As cidades serão reformuladas: carros fora! Os meios de transporte serão públicos e gratuitos, as calçadas devem ser confortáveis, todos os lugares serão ligados por ciclovias. Os veículos de passeio terão vias próprias e limitadas, mas garanto que não haverá problema de escoamento nem falta de estacionamentos. Para resolver isso os técnicos serão pagos adequadamente. Criatividade é tudo.

Mandarei construir estradas de ferro a torto e a direito.

Serão extintas as filas de banco.

Proibirei toda forma de crueldade. Em decorrência, instituo o regime vegetariano obrigatório.

Reclamações e críticas serão bem-vindas. Bastará  marcar hora e receberei cada  súdito pessoalmente no palácio real.

Para que seja oficial, assino e selo.

PERFUME COM FEROMÔNIOS ATRAI UM BLOCO DE CARNAVAL INTEIRINHO!

Levo susto atrás de susto com as mensagens que recebo diariamente oferecendo coisas que, segundo dizem, eu não posso recusar!

Faz pouco tempo recebi uma me perguntando se meu desejo é tornar-me um bom pegador e se for eu posso estar certo porque já há mais de cento e cinqüenta mil clientes satisfeitos.

Fiquei pensando nesse monte de pegador… não, eu não quero ser um pegador, sou macho!

Mas, lendo o resto da oferta descubro que me enganei, pegador não era o que eu estava pensando, pegador é pegador de mulher.

Bem, aí pode ser outro caso. Segundo ele, a fórmula do amor não existe, mas de atração física sim! E se conquistar mulheres lindas é coisa difícil para muitos homens, para mim será uma barbada, porque eu conhecerei o segredo de ter sucesso com elas, que nada mais é do que usar o “Perfume da Sedução”, que contém feromônios.

Quêquéisso? ! Ah, ele explica: – Feromônios são substâncias químicas que captadas por animais de uma mesma espécie permitem o reconhecimento mútuo e sexual dos indivíduos.

Pois bem, vamos que eu use esse perfume. Quem me garante que ele só atrai mulheres lindas, como ele sugeriu?

E se “esse extraordinário perfume já despertou paixões descontroladas em milhares de clientes” isso não pode ser um troço perigoso?

Ora, sou um sujeito curioso, estava chegando o Carnaval, eu matando cachorro a grito, achei que não me custava fazer a experiência, comprei.

Encomendei e poucos dias depois me chegou pelo correio, em uma embalagem discreta com os dizeres: “Cuidado! Contém Perfume da Sedução com feromônios”.

Ainda bem que ninguém sabe o que é essa coisa e não corri o risco de passar vergonha, igual aquela outra vez que encomendei… deixa pra lá, vamos ao assunto.

Tomei um banho, passei  o Perfume da Sedução no corpo inteiro e fui para a rua ver o movimento animado do carnaval da Bahia.

Lasquei-me! A coisa funciona, atraí um bloco de carnaval inteirinho!  E vem vindo atrás de mim. Meu Deus, são os Filhos de Gandhy!

O vendedor me paga! Esse bloco é só de homens!

“Animais da mesma espécie”! Qual! Sai fora!

AUMENTE O TAMANHO DO SEU MEMBRO E FIQUE COM UM PAU DE JUMENTO

Recebi uma mensagem que poderia ser tentadora, não fosse eu quem sou.

Com a maior intimidade o cara veio dizendo olá amigão, você está com problemas no tamanho de seu membro? Deixe-o capaz de entusiasmar qualquer mulher!

Confesso que não sofro de “capitis de minutia”, minha auto-estima quanto às minhas dimensões podem até ser consideradas algo exageradas, mas fiquei curioso de saber do que se tratava.

Pois, continuava ele, existe agora a solução para esse problema, deixe-o do tamanho de um de ator de filme Adulto e além disso torne-se um Leão na cama.

Ele não queria deixar dúvidas a respeito do que se relacione a tamanho, tanto que pôs adulto e leão com maiúsculas: o cara entende de psicologia e cuidou de espalhar umas pedrinhas para consumo do inconsciente. (Não pude deixar de imaginar meu pau do tamanho de um ator de cinema…).

É pouco? Não, o interessado em ver-me expondo meus atributos em um circo, no Fantástico e quem sabe em outros programas de televisão, propõe-me que resolva também problemas como, ejaculação precoce, curvatura, tonificação como uma rocha e muito mais!

É claro, desconfio, que ele não está interessado apenas em minha satisfação. Ele quer o meu dinheiro e para isso me acena com alguma vantagem ao oferecer-me que receba também vários manuais de brinde que equivalem a mais de R$1.500,00 reais se comprados separadamente! (Divago que devem ser manuais que ensinam como disfarçar o volume de um pau imenso dentro das calças, de como utilizar um cacete duro como rocha para bater pregos ou para aproveitando sua exagerada curvatura para sinalizar o trânsito indicando retorno à esquerda, sempre à esquerda!).

Deduzo que se  trata de alguém familiarizado com a “gramática do excluído”, uma vez que desprezou algumas regras ao evocar: “Conheça está com custo super aproveitoso e com vários adicionais!”.

Educado, atencioso e religioso, concluiu: – Agradeço sua atenção, Fique com Deus. (Não pude deixar de incomodar-me em misturar coisas sagradas com o mais mundano dos assuntos que possa existir).

É claro que o cara não me conhece, ao oferecer-me algo para aumentar o que ele eufemisticamente chamou de membro. Se eu adicionar mais um centímetro que seja aos meus atributos passarei da já merecida classificação de leão à categoria de “equus asinus” – jumento, no popular.

Não creio que entusiasmaria alguma mulher. Assustar, seria o termo mais adequado, quando uma delas imaginasse, pensando na prática do ato comigo, estar parindo uma criança para dentro.

Termino considerando que o aparelho, medicamento, massagem ou fisioterapia que o cavalheiro me ofereceu para tornar meu membro do tamanho de um ator de filme adulto não teria a menor serventia no caso, além do que não sei o que é ejaculação precoce, faço o amorzinho no tempo certo para ambos os envolvidos, a curvatura do digníssimo tem a minha mesma orientação política, voltada para a esquerda, como de praxe, e gozo, a bem dizer, muito apropriadamente, de invejável tonificação, mas nem tanto para rocha que ninguém é de ferro.

Declino, por essas razões, da oferta, salvo se os adicionais incluírem cama, mesa e roupa lavada.

Resta-me apenas despedir-me desse vendedor de coisas estranhas para desejar-lhe que os outros pretensos clientes não sejam murrinhas e avantajados como eu e comprem esse troço para que o seu negócio cresça.

ESQUERDA E DIREITA, TUDO É CENTRO

Bons tempos aqueles, quando o mundo era maniqueísta, se dividia em dois blocos, o bem e o mal.

De um lado, o capitalismo e do outro o comunismo.

Não havia dúvida sobre quem era quem e o que era o que: pertencia-se à direita ou à esquerda, claramente, indubitavelmente.

Falar em centro era falar de mineiro, o mesmo que dizer que se estava em cima do muro. Posição de quem não queria comprometer-se.

Não era possível ser apenas contra o imperialismo ianque, abominar o Tio Sam, o pacote vinha pronto, essa revolta seria apenas um aspecto do comunista. Para considerar-se um esquerdista era preciso, mais do que tudo, execrar o papel da mais valia, como base do lucro capitalista, abraçar a estatização dos meios de produção, filiar-se à ditadura do proletariado, acreditar que os fins justificam os meios e mais umas tantas coisas que vinham prontas e acabadas para a configuração da posição.

Do outro lado, não era necessário muito, bastava odiar o comunismo para ser capitalista, uma vez que não havia uma terceira opção – como ainda não há. Nesse pacote vinha o temor de um ataque nuclear, deflagrando a terceira guerra mundial e levando ao fim do mundo, a garantia do direito de querer ser rico,  a ilusão das liberdades,  o direito de propriedade, enfim, a livre iniciativa, tudo embrulhado em papel cristão.  E tínhamos o direitista.

Para um, o outro era comedor de criancinhas e para o outro o um era um reacionário inimigo do povo.

Simples assim.

Hoje os conceitos, os limites, as fronteiras e as filosofias perderam nitidez. Caiu o muro de Berlim, caíram as perfeitas configurações das ideologias e tenho de explicar detalhadamente por que me considero de esquerda, sem ser comunista, até porque não existe mais a esquerda, mas as esquerdas.

A direita pode ser direita apenas, ou extrema-direita, ou radical, podendo-se usar o eufemismo que constitui uma chamada posição de centro, que ainda vai abrigar as idéias de centro-direita e, pasmem, centro-esquerda.

Ortega y Gasset precisaria rever a tão citada e desgastada frase que dizia ser imbecilidade e hemiplegia moral ser de esquerda ou de direita, em um mundo em que as posições políticas não cabem mais em um Kama Sutra.

No Brasil vivemos a realidade da inexistência de ideologia, nesse sentido que configurava comunismo e, por assim dizer, capitalismo, de modo que o que temos hoje são, mais que tudo,  programas de partidos,intenções e ações de políticos. Em geral, pregarão praticamente as mesmas coisas, todos dirão que querem as reformas políticas, tributárias, previdenciárias, pautar-se-ão pela ética, promoverão o bem-estar social e a justa distribuição da riqueza, manterão a estabilidade e por aí vai.

Embora a chamada democracia abrigue, inclusive, partidos comunistas e socialistas, nenhum deles em sã consciência adotará o marxismo como caminho e meta; e se nem um partido desses se comprometerá com as ideologias cujos nomes carregam…

É, portanto, de cada um a espinhosa tarefa de tentar conhecer-se, identificar sua posição e pregar o rótulo na própria testa,  porque, apesar de tudo, não é politicamente correto não ser nada.

Por menos científico que pareça, as cartas que estão na mesa nos põem apenas uma proposta, desdobrável: capitalismo. Capitalismo de esquerda e capitalismo de direita.

Escolha o teu e bom proveito.

DIÁLOGO FILHO-DA-PUTA

Conversa entre pai e filho, de carro a caminho da escola:

FILHO: – Pai, já que roubaram o som do carro, vamos conversar um pouco?

PAI: – Claro, filho. Eu preferiria mesmo ouvir um pouco de música, de futebol ou notícias políticas, mas já que uns filhos-da-puta levaram o rádio e não tem outro jeito…

FILHO: – Pai, o que é inclusão social?

PAI: – Bom filho, inclusão social é o que muitas pessoas têm  e outras não têm. A inclusão consiste em dar direitos iguais a todos.

FILHO: – Ah tá… os integrantes do MST são um exemplo de excluídos, né?

PAI: – Isso, filho. Pelo menos é assim que são tratados pelo governo que afirma que governa para dar inclusão social aos excluídos.

FILHO: – Pai, o que você acha que eu devo ser quando crescer?

PAI: – Bom, primeiro escolha uma profissão que você goste. Depois, estude muito, mas muito mesmo, e depois trabalhe demais, dia e noite, só assim você será alguém na vida. Vai ter que competir com uma cambada de filhos-da-puta querendo te pisar e você vai ter que ser o mais forte e o melhor para subir na cabeça deles e conseguir galgar uma posição elevada.

(Atrasados para a escola,  o pai tenta furar o sinal vermelho mas não dá e pára sobre a faixa de pedestres, quando é multado, além de ser maltratado pelo policial).

FILHO: – Pai, o que houve

PAI: – Fomos injustamente multados pelo filho-da-puta do guarda, filho.

FILHO: – Mas por que?

PAI: – Porque estávamos bloqueando a passagem de uns filhos-da-puta de uns pedestres.

(Um pouco adiante o trânsito pára.  A marcha do MST está passando).

FILHO: – Pai, por que eles estão bloqueando nosso caminho?

PAI: – É a marcha do MST, uns filhos-da-puta, filho.

FILHO: – Ah tá… e aqueles policiais estão multando eles, né?

PAI: – Não filho, estão escoltando eles. Porque os policiais sãos uns filhos-da-puta e em vez de maltratá-los os protegem.
 
FILHO: – Ué, mas nós estávamos bloqueando a passagem e fomos multados e maltratados…  mas eles estão bloqueando tudo e  são escoltados?

PAI: (silêncio – pai pensa: – Filhos-da-puta! )

FILHO: – E o que é aquilo ali?

PAI: – É o refeitório deles, onde eles comem aquela gororoba.

Clique aqui e leia este artigo completo »

O CÓDIGO PORTINARI

(Resenha do Filme)

Título Original: Portinari Code

Ano: 2011

Direção: Goyambú Bigeys (Dr.)

Gênero: Ação e Reação

País de origem: Brazil

José Pedro é um agente da lei cuja noiva, restauradora de arte, estranhou que o quadro O Cangaceiro, exposto na Tate Modern de Londres, ao sul do Rio Tâmisa, mostrasse o personagem em primeiro plano usando um relógio Mondaine, o que poderia constituir uma pista para a localização do cálice de São Francisco de Holanda, desaparecido em 1973 durante uma operação militar. Pela primeira vez havia uma pist que o destino lhe colocara no colo por um capricho surpreendente. Face à evidência, seu chefe, o delegado Milton Gonçalves, designou-o para o caso, Ao pegar a aeronave que lhe foi designada para a investigação, o agente da lei resolveu elevar e agilizar seus trabalhos a nível de um Sherlock. O ancião ao seu lado não pôde deixar de apreciar suas atividades na poltrona, porque ele compulsava com afã fotos do presidente da república apresentando condolências e consolando a genitora, a esposa e os familiares do falecido cujo passamento estava sendo objeto das análises. O óbito se dera em circunstâncias muito estranhas. A vítima fatal dirigia-se em sua viatura para o nosocômio, para cuidar de uma enfermidade congênita, quando um deficiente visual cruzou a via pública, sem o uso do bastão característico e trajando vestes que, àquela hora do lusco-fusco, o tornavam pouco visível. Uma guinada brusca salvou o deficiente, mas foi fatal para o ministro. Sua pasta ficaria vaga exatamente quando seu causídico de confiança o advertira sobre forças estranhas que agiam para derrubar seu matrimônio, para levá-lo à perda do cargo e para obstaculizar sua possível candidatura ao mais alto cargo da nação. Outra coincidência é que o passamento se dera no mesmo dia em que fora dada entrada do seu pedido no moroso processo de aceitação do seu nome na convenção do partido. Seus adversários, por outro lado, liderados por um magistrado conhecido por disponibilizar seus serviços às forças que faziam oposição ao de cujus, parabenizavam-se uns aos outros pelo “acidente”. O agente da lei sentia-se envolvido em um labirinto de idéias, mas uma, principalmente, não lhe saía da cabeça: – O que é que a colônia japonesa tem a ver com isso? Outras questões assolavam sua mente: – O fato de sua genitora não o ter acompanhado ao nosocômio revelaria algo importante? Por que motivo o defunto não escreveu uma mensagem com o seu próprio sangue ou outros fluidos do corpo no pára-brisas? Havia sido provado que o sujeito que atravessou a rua era mesmo um deficiente visual?  Qual a razão de o cão-guia usar cilício? Como o causídico de confiança tivera acesso às informações? Por que a aeronave balançava tanto e qual o motivo de o ancião ao seu lado esboçar um riso irônico? Tudo isso não era mais misterioso do que o fato de ter sido construída uma pirâmide de vidro contrastando com a arquitetura medieval do Louvre, a despeito dos protestos gerais. Não, o agente da lei não tinha mais dúvidas, o sacro ofício estava, decididamente, envolvido na trama. Com um suspiro, desceu da aeronave. Não haveria mais morosidade, nada mais poderia obstaculizar as investigações a respeito do misterioso passamento. Iria dali direto para uma visita à colônia japonesa. Uma chuva fina caía sobre Paris, mas ele pressentiu que alguma coisa estava muito errada quando viu, ao fundo, imponente, a figura da Estátua da Liberdade. O agente da lei imaginou que seu fim havia chegado. Seu voto para uma das sete maravilhas do mundo moderno tinha sido dado para o Cristo Redentor e havia aí um padrão, claramente um padrão, mais um, o sétimo! Sete eram as chaves, faltava apenas uma! Sim, quando fizera o check-in Alicia lhe dissera: – Se encontrar com Cândido, dê-lhe um beijo no coração. Agora lhe ocorria que jamais conhecera um Cândido! Alicia lhe dera a chave e ele, um agente da lei, não percebera! Voltou correndo. Um helicóptero já o esperava. Era meia-noite. Na avenida Rio Branco o pálido gerente do banco abriu-lhe a porta. O agente da lei entreviu em seu braço um relógio de camelô. Por que um gerente de banco usaria um relógio de camelô? Não era por pouca coisa que os bancos viviam em greve, divagou. Dentro, Alicia, com o cão usando um cinto de cilício sob a manta, já o esperava para partirem para a Holanda. No táxi o rádio tocava uma música: “Cálice! Afaste de mim esse cálice!”. Outra coincidência? Finalmente saberia. Deu um beijo suave no rosto de sua companheira de aventuras. O guarda alfandegário arregalou os olhos quando abriu os seus passaportes e leu os nomes inscritos em letras góticas. Em um, Maria Alicia, bibliotecária e restauradora. E no outro, José Pedro, agente da lei. No vagão-leito um pequeno ser ainda essa noite estaria sendo gerado enquanto meditavam que talvez em poucos dias pudessem afinal solucionar o mistério de ser impossível beber o líquido pelo outro lado do cálice sem entornar tudo.

MINHA VIDA DE CÃO

(Uma autobiografia não autorizada)

Pessoas que dizem ter lido crônicas minhas, publicadas aqui e alhures, escrevem-me cartas, telegramas e “e-mails”, telefonam, mandam torpedos e recados desaforados.

Outras, que me encontram nas ruas, parecem ter medo de serem mordidas por mim.

Todos dizem que viram minhas fotos junto a escritos, mostrando minha face cachorra, mas, afirmam, cães não escrevem crônicas.

Aliás, não escrevem nada.

Também argumentam que o meu nome não é nome de cachorro, que se chamam Rex, Totó e outros bichos.

Aí é que se enganam.

Meu nome, na verdade, como consta do meu “pedigree”, são tantos que só me lembro de uns doze.

Sou John Axton Blueterrier Goytacazes de Bragança Pantaleones Huertabravo Foxterrier da Silva Dezoito! (esse dezoito é em algarismos romanos, mas não sei como se escreve).

Quer dizer, muitos antes de mim o carregaram, a esse belo e extenso nome.

Para simplificar, uso um pseudônimo nos meus textos que é o que em alguma parte destas confissões se pode ver.

Em casa, chamam-me, simplesmente, de Goy.

Vem, Goy! Deita, Goy! Pára, Goy! Goy, rola! Gente! Que coisa fedorenta: – Alguém tira esse cachorro daqui pelamordedeus?! Nossa!

Além de escrever crônicas, contos, versos e até bobagens, tenho outras habilidades incomuns. Por exemplo, eu canto.

Não, não uivo, eu canto mesmo. E toco um pouquinho de violão. Nem me perguntem como, mas toco! E componho!

Vocês nem eram nascidos ainda e eu fiz parte de um conjunto de cães cantores.

Nosso disco foi um sucesso mundial.

Cada um latia em um tom e com um timbre diferente, formando uma música.

O empresário ficou com o filé e deixou-nos com os ossos, daí, parti para uma carreira solo.

Quem pensa que minto pode me ver, se quiser, cantando músicas de minha própria autoria, clicando aqui

Odeio quando o computador automaticamente põe o endereço em azul e grifado, porque nós (os cães) temos uma certa dificuldade com cores, o que frustrou minha carreira de pintor.

E minha humildade proverbial, da qual me orgulho, recomenda que não me auto-eleve grifando minhas promoções publicitárias, nem que eu indique dezenas de outros “sites” dos quais participo.

Além do Latim, que é a língua dos cães, falo um pouco de Inglês, me viro em Francês, quebro um galho em Espanhol, tenho noções de Italiano e como fui judoca sei umas palavrinhas de Japonês. Em casa nos comunicamos em Português.

Mas, deixem-me discorrer sobre minha personalidade canina, minha vida de cachorro.

Eu era uma criança como qualquer outra, quando a primeira revelação se deu.

Minhas amiguinhas de infância, rindo-se entre si, aproximaram-se de mim e disseram nas minhas fuças que eu tinha cara de cachorro. 

Não era uma ofensa, apenas uma observação amigável, jocosa e alegre.

Na adolescência, uma mocinha chamou-me de cachorro, assim mesmo, “seu cachorro”, e nunca mais me dirigiu uma palavra, nem o olhar.

Já entrando na idade adulta, fui chamado repetida e carinhosamente de meu cachorrão.

Olhando por trás de minhas orelhas, pude ver que minha vida sempre foi maravilhosa mesmo, pais amorosos, doces e suaves, irmãos amigos, amigos irmãos, família unida, sombra, água fresca e cafuné… Cafunë?

Foi quando dei por minha identidade canina. Não havia dúvida, eu era mesmo um cachorro. Sou um cachorro.

Às vezes, isso bate de forma esquisita em meu sistema lógico, porque, no fundo no fundo, sei que não é próprio de cachorros fazerem muitas das coisas que faço.

Porém, as minhas dúvidas logo passam quando, como agora, acabo de cavar um buraco no chão, retirar de lá de dentro um gambá que invadiu meu território há vários dias, e que matei impideosamente, e colocá-lo, sequinho, na porta de casa onde moro.

¿Por que faço isso, mesmo sabendo que vou levar a maior bronca, talvez provocar gritos, vômitos e desmaios e até, quem sabe, levar umas vassouradas?

E eu lá sei?

São coisas de cachorro.

Nem Freud explica.

Ah, falando em Freud, quase me esquecia de dizer que sou psicólogo.

JOGO DURO

O treino de Capoeira corria normal, jogavam Benguela, rasteiro, estudado, cuidadoso. Parecia uma dança – como era para parecer. Às vezes lembrava movimento de siris na praia, indo e vindo. Ou como as ondas do mar correndo pela areia e deslizando rápido de volta, sinuosamente. Um jogo de gato e rato. Difícil descrever.

A roda, formada como no tempo dos escravos, atrapalhava a visão dos que estavam de fora, enquanto os que a formavam, vestidos de calça branca, amarrada na cintura por cordas de cores diferentes conforme o adiantamento dos jogadores, batiam palmas e cantavam.

Em curtos intervalos os capoeiristas se revezavam, todos queriam participar. Iniciavam fazendo cumprimentos e orações aos pés do berimbau principal e entravam na roda dando cambalhotas.

Em dado momento, o berimbau mudou seu som, tornou-se mais rápido, atabaque e pandeiro ficaram mais frenéticos, os outros berimbaus acompanharam a agitação e as vozes entoaram uma canção que mencionava São Bento Grande.

Os ânimos explodiram, os movimentos tornaram-se vertiginosos,  os lutadores competiam mais eretos, girando as pernas como se tentassem atingir um ao outro em alta velocidade.

A roda parecia estimular os lutadores a aumentarem sua agressividade. E assim foi que alguns golpes, antes apenas ensaiados, passaram a atingir o alvo.

Em um confronto em que os corpos se aproximaram, tanto que se tocaram, um deles com uma rasteira derrubou o seu oponente no chão e anulou-o.

O derrotado sentiu-se humilhado, seu semblante denotava isso claramente, enquanto davam a volta ao mundo – um intervalo em que os lutadores andam em círculos por dentro da roda, aguardando o chamamento para o reinício dos combates.

Esse reinício foi regido pelo sangue quente: o que se sentiu humilhado partiu para cima do seu adversário, procurando combate verdadeiro, luta real.

Era uma briga de verdade que se iniciava.

Foram imediatamente separados. O  que comandava a roda e que era quem tocava o berimbau principal chamou a atenção dos dois: que jogassem Capoeira, que soubessem ganhar e perder, e que tivessem em mente que o lutador uma hora ganha e outra perde, um dia bate e no outro apanha,  ora vence algum adversário e outra vez é derrotado pelo mesmo ou por outro.  Era preciso aceitar de cabeça fria a vitória e o fracasso. Essa era uma lição da Capoeira para a vida.

Os dois combatentes se entreolharam de cabeça baixa, muito sérios.

Se abraçaram, algo constrangidos

Pareciam ter compreendido os ensinamentos que acabavam de ouvir.

Mas naquele dia não foi mais possível continuar a roda da Capoeira.

Porque era São Salvador

E era Bahia.

EU QUERO ASSISTIR O BBB!

Hoje tive um dia estafante de trabalho. Felizmente, consegui sair a tempo de chegar em casa, tomar um banho, jantar com a família e sentar no sofá para descansar, bem em frente à TV.

A televisão me permite abandonar os compromissos, os pensamentos, a preocupação com as responsabilidades e só e simplesmente relaxar.

Vou ver um pouco de besteira. Nada melhor do que um BBB para ficar só espiando, vendo umas fofocas, umas briguinhas, uns beijinhos, uns rala-e-rola… quem sabe até algo mais quente um pouco, debaixo dos panos…

- Uai! Mulher! Não tá na hora do BBB?

- Tá, querido! Mas eles tiraram do ar. Teve uma campanha na Internet contra a baixaria! Até eu entrei, me pediram para aderir…

- … Mas você assiste todo dia!

- Pois é. Agora é tarde! Foram milhares e milhares de assinaturas. Uma verdadeira revolução. E eu fiquei sem saber quem vai ganhar o carro.

- Pôxa, mulher! Hoje era dia de escolher o líder!

- Então! E a coisinha, aquela bunduda,  saiu, vai ficar fácil para o fulano aquele. Acho que ele é que vai pegar o milhão…

- Tá bem, terei de ver outra coisa, fazer o quê, né?

Bem, vou rodar os canais… TV Senado, fora, TV Câmara, fora! TV Justiça, fora. Vamos ver essa tal de TV Brasil, afinal, precisamos de educação neste País… ah, programa destinado ao ensino médio, não é minha praia. Vejamos este outro, caçada de um ser desconhecido no Quentuqui, mas as fotos são de um passarinho… um canal do Amazonas um garoto tocando violão e cantando músicas regionais, chii, uma cerimônia de entrega de medalhas neste outro, e neste estão ensinando a fazer uma horta virtual dentro de casa! Eu não gosto de novela e tem novela, novela, novela… Quanto canal, meu Deus! Canal de vendas, canal de vendas, canal de vendas, uma mulher  ensinando a fazer alongamento mas eu quero é relaxar! Um pastor ameaçando, um padre cantando, outro pastor, outro padre, outro pastor com outros pastores em volta de um monte de grana mandando pegar o carnê, um cara com voz cavernosa falando, falando, falando, vamos pular… canal  alemão,,, canal português…  canal italiano…  infantil,  infantil, infantil, futebol europeu, comédia, canal de filmes brasileiros de quando o cinema foi inventado, aula de dança, comédia já vi, comédia já vi, comédia já vi, filme das corujas falantes de novo, teatro de marionetes, syfy parecendo que é sobre o abominável homem das neves, mortos-vivos, vampiros, cruzes! aqui uma experiência interessante para saber se as balas penetram nos coletes, o outro construindo uma moto enorme para ver se ela agüenta o peso de um elefante, mulher dando à luz, jovem fazendo implante de silicone nos seios, isso tá parecendo coisa de tarado… canal europeu com filmes da época da Brigite Bardot mas sem a Brigite Bardot, leão atacando, helicóptero explodindo, cara caçando cobra, hipopótamos virando canoas,  uma jibóia de seis metros! Jacaré atacando búfalos, suricatos… CHEGA!!!…

-… MULHER!

- Que foi, homem!

- Vem cá! Adere aqui!

- Aderir a quê?

- Estou começando um abaixo-assinado para a volta do BBB!

LUÍZA VOLTOU DO CANADÁ E SERÁ ENGOLIDA!

Luíza estava no Canadá e não pôde comparecer a um evento imobiliário no Brasil.

Deve estar desolada por isso.

Mas, por outro lado, o fato de ser a única ausente da família ao lançamento à venda de um prédio de apartamentos rendeu-lhe dias de fama igualável à dos Beatles.

O acontecimento,  se podemos chamar uma ausência de um acontecimento, rendeu-lhe milhões de repasses da mensagem na Internet. Criou-se até uma nova expressão, para dizer que alguma reunião foi um sucesso: Só faltou a Luíza, que estava no Canadá.

Foi assim que Lenine brincou com o seu numeroso público, dizendo que estava todo o mundo ali para assisti-lo, menos ela.

Houve um tempo em as pessoas se referiam a alguém cuja presença costumava ser indesejada, dizendo: – Sua ausência preencheu uma grande lacuna.

Com Luiza ocorreu fenômeno interessante: A lacuna consistente em sua ausência preencheu um espaço inacreditável – e por tão pouco. Isto é, há milhares de brasileiros ausentes do País que deixaram de comparecer a isso ou a aquilo, mas por um motivo insondável só a ausência de Luíza se fez tão sentida.

Um fato corriqueiro serviu para que os internautas, especialmente eles, se unissem e se identificassem com a graça de repetir em blogues, e-mails e comentários: – Todo o mundo veio,  menos Luíza, que estava no Canadá.

Mas Luíza voltou.

Era de esperar que com seu retorno a piada perdesse a força e se dissolvesse  no espaço cibernético, como a fumaça se dissipa no ar.

Porém, Luiza é predestinada; nova mensagem ocupou o lugar da anterior e espalhou-se rapidamente. Agora é:  A Luiza chegou do Canadá!

E daí? Ora, e daí a mesma coisa! Não havia razão aparente para o primeiro sucesso de Luíza e o segundo sucesso apenas pegou carona no outro.

O que Luíza fará com a exposição do seu  nome e de sua pessoa?  Consta que estava fazendo intercâmbio no exterior, o que parece indicar que saiu para estudar, mas,,, o quê?  Já se sabe que é “uma garota da Paraíba” e que seu pai é colunista social. Descobriram que tem um irmão que é um gato e que anda sem camisa no Facebook. Há quem garanta que o bordão lhe renderá muito dinheiro pela exploração da imagem e que seu pai ficará rico com os direitos autorais.

Espero que ela aproveite bem seus minutos, horas, dias ou semanas de fama, o tempo que durar, mas me preocupo com ameaças que se descortinam  no horizonte e que parecem avançar sobre ela:

- Os edredons!

O EXTERMINADOR DE PICHADORES

Mané terminou de pintar o muro da casa. Doze metros de comprimento, dois e dez de altura, uma fortaleza. Em cima, ofendículas: cacos de vidro pontiagudos, impedindo o atrevimento de aventureiros. No outro dia, cedinho, saindo para comprar pão, oh! desgraça das desgraças, horror dos horrores: o muro branquinho estava completamente pichado de letras e sinais ininteligíveis. Não deixaram um metro livre. Uma porcaria só.

Mas a surpresa maior Mané teve ao afastar-se, com a mão na testa em expressão de incredulidade, andando de costas para o meio da rua: o segundo andar da casa, superprotegida, estava todo emporcalhado por aqueles malditos borrões de spray de tinta preta! Impossível, nem os cachorros acordaram! Cambada de filhos-das-putas, os cachorros e os pichadores!

Mané chamou de volta os pintores, gastou uma dinheirama, pintou tudo de novo, três demãos para cobrir o pretume, que teimava em aparecer por debaixo da tinta branca.

Não demorou nada, tudo pichado de novo.

Mané teve ataques de ira, de ódio. O sangue subiu-lhe à cabeça, os pensamentos de morte, de vingança, tomavam conta de suas idéias. Resolveu tocaiar os pichadores. Mandou pintar mais uma vez, armou-se de dois revólveres e passou a noite à espreita. Nada! Os safados parece que adivinham! Uma semana sem dormir para nenhum resultado, Mané resolveu sair à caça. Sorrateiro, andou pelas sombras, procurando, procurando. Lembrou-se de ter visto o Palácio das Artes, prédio tombado pelo patrimônio histórico, acabar de ser restaurado por fora naquele dia. Um pressentimento. Seguiu para lá, escondeu-se, já quase adormecia quando eles apareceram como fantasmas na noite, silenciosos. Furtivos como gatos, escalaram as paredes, subiram às janelas, treparam pelas colunas, espirraram suas tintas horrendas pelas superfícies de contornos maravilhosos, pelo mármore de Carrara, pelas grandiosas luminárias de ferro fundido, mas só até quando Mané começou a disparar. Um rolou sem um grito, o outro berrou ensangüentado, enquanto os demais, por entre os barulhos dos estampidos, fugiam apavorados em desabalada carreira.

Antes que alguém pudesse vê-lo, Mané esgueirou-se para casa como aparecera na cena do crime, pelas sombras.

Durante alguns dias, os pichamentos cessaram. Quando recomeçaram, continuaram os crimes. Mané especializava-se, pegava as manhas dos pichadores, adivinhava onde eles iam atacar e atacava junto. Nunca sacava primeiro. Só depois que os pichadores começavam a lançar os jatos de tinta nas paredes é que ele começava a atirar. Ninguém ainda vira o seu rosto. Como um ninja, ele se mantinha tanto quanto possível no escuro, todo vestido de negro, disparava suas balas mortíferas, certeiras, matava alguns, feria outros, alguns fugiam ilesos fisicamente, mas jamais seriam emocionalmente os mesmos. E voltava para casa, vingado e revingado, para dormir — poder-se-ia classificá-lo assim? — o sono dos justos. Se não era, parecia, pois só acordava lá pelas tantas para apreciar doentiamente as manchetes dos jornais: “EXTERMINADOR DE PICHADORES ATACA DE NOVO”, “MAIS UM BANDO DIZIMADO PELO ASSASSINO DE PICHADORES”.

As matérias jornalísticas traziam entrevistas e apreciações de juristas, sociólogos, psicólogos, psiquiatras, cada um dando suas opiniões técnicas sobre o criminoso, enquanto a opinião da população se dividia, uns contra, outros a favor dos nefandos atos de Mané, que se sentia encorajado pelos que afirmavam que um justiceiro assim devia ter surgido antes.

Mas a polícia, a despeito do que dela se dizia, não era ineficiente. Um dia, sob o comando de um delegado cabeçudo, uma patrulha que vinha passando, também, as noites sem dormir chegou ao local da chacina na hora em que ela ocorria, quando Mané acabava de dar cabo de mais uma turma em pleno ato de vandalismo. Mané não encontrou saída. Todas as ruas foram estrategicamente bloqueadas, numa ação bem coordenada, e ele foi, mais facilmente do que se imaginara, algemado, recebendo voz de prisão em flagrante. Ainda pôde ouvir o delegado determinar, em tom de voz triunfante: – Recolhe o elemento!

De nada adiantou a simpatia do povo. Mané foi julgado e condenado por seus crimes escabrosos a muitíssimos anos de prisão.

Podia ter terminado o assunto por aí. Mas, que nada!

Os grupos locais de pichadores resolveram que não iam deixar aquilo tão barato. Eles eram antes adversários, mas agora juntavam-se todos; reuniram-se secretamente e resolveram, por unanimidade, ligados pelo sentimento revanchista comum à classe naquelas circunstâncias, adotar uma ação conjunta radical, uma vingança terrível, diretamente proporcional aos crimes contra a classe cometidos. Nesses planos, incluía-se entrar na penitenciária, penetrar dentro da cela do assassino, para a desforra!

Incrível, mas se alguém podia fazer aquilo, esse alguém eram os pichadores, habituados a atingir os locais mais inacessíveis para colocarem as suas marcas.

Pois eles invadiram furtivamente a prisão de segurança máxima onde se encontrava trancafiado Mané, escalaram muros, evitaram as torres, escaparam, aos holofotes, ultrapassaram os rolos de arame farpado, tornaram-se invisíveis às câmaras, abriram os portões dos corredores e, sem serem vistos, tanto na entrada quanto na saída por qualquer um dos guardas ou pelas centenas de prisioneiros, naquela madrugada enevoada invadiram a cela onde dormia Mané, indefeso, desavisado, desarmado.

De manhã, uma gritaria alertou os guardas, que abriram os portões dos corredores e entraram correndo, de armas na mão.

Encontraram Mané com o rosto deformado e emplastrado de sangue bem vermelho e quente, escorrendo-lhe pelo uniforme, de tanto bater com a cabeça nas grades, como uma manifestação de sua incontrolável ira. Os pichadores, mesmo, nada fizeram em termos de agressão física contra Mané, mas deram-lhe uma cacetada de morte na moral e na auto-estima. Mané acordou de manhã como se estivesse narcotizado, abriu os olhos lentamente para em seguida arregalá-los com a visão do inacreditável: sua cela estava completamente pichada, os tetos borrados, as paredes emporcalhadas, o chão pintado, as camas e os lençóis rabiscados, seu uniforme borrifado, seu corpo marcado, seu rosto lambuzado de tinta preta. Mané urrava como um louco, não de dor, mas de ódio.

Os guardas custaram a entender a cena: Mané naquele estado, dilacerando o seu próprio corpo, o sangue escorrendo-lhe no rosto por cima da tinta preta, sua cela e todo o corredor da penitenciária completamente cobertos pelos sinais de todas as gangues de pichadores da cidade.

Não seria preciso muita argúcia para deduzir que, naquele momento, também a casa de Mané e o seu muro branquinho estariam uma porcaria só. Assim aconteceu, de verdade: tudo maculado, até o canil — os cachorros não só não viram nada, não emitiram um latido, um mísero ganido, como ainda por cima ficaram por muito tempo manchados com os códigos dos vândalos. Não ficou pedra sobre pedra sem um jato de tinta.

A partir de então, em paredes, muros e monumentos dessa cidade prolifera uma estranha legenda: o nome Mané escrito por todos os lados com um grande e robusto xis bem riscado por cima.

Quem dera que a história tivesse acabado por aí. Mané saiu da prisão faz alguns anos, por bom comportamento, graças a um tal de regime semi-aberto, ou coisa parecida. Que eu saiba, não tem havido mais eliminação de pichadores. Também, seria muita bandeira, como se diz na gíria. Entretanto, coincidentemente, desde então, alguém anda liqüidando sistematicamente depredadores de telefones públicos!

TEORIA DE QUE O TEMPO NÃO EXISTE

Um dos mistérios do Universo é o tempo, sobre o qual nos perguntamos freqüentemente se existe.

É claro que há algo que apreendemos como a existência do tempo: afinal, vemos os dias correrem, os meses passarem e os anos se arrastarem – ora mais lento, ora mais rápido, ou, como se diz atualmente, voando!

Também, não deixa dúvida de que o tempo existe o tic-tac do relógio, o movimento dos ponteiros ou dos mostradores, indicando que ele (o tempo) está “andando”.

Então, queremos saber: existe uma instituição chamada tempo?

Se existe, ele – o tempo – está se movimentando para que as coisas que já passaram fiquem no passado, as que estão acontecendo fiquem no presente (que já passou) e as que virão sejam consideradas o futuro?

Ora, pareceremos concordar: é claro que o tempo existe! Se o tempo não existisse não haveria, então, passado, presente e furuto, de modo que todas as coisas aconteceriam superpostas em um mesmo instante.

Assim, não se poderia pensar nessas três etapas, tudo seria o momento único no qual os fatos aconteceriam.

Bem, afirmemos então que existe o fenômeno “tempo” e concordemos que ele “passa”.

É hora de perguntar: passa para onde? Em qual sentido?

E continuaremos: se ele “anda”, os fatos andam com ele? Se estou amadurecendo da infância para a juventude isso quer dizer que eu e o tempo estamos “andando”? Ou é só o tempo que anda?

Se o tempo “anda” e eu ando junto com ele, meu andar coincide com o andar do tempo, com sua direção e com sua velocidade?

Essa e uma série de outras questões levam a refletir que pode ser que não exista tempo e que o Universo esteja sempre no momento presente.

Então, propõe-se a hipótese “o tempo não existe”.

Mas… se a hipótese pode ser verdadeira, porque então não ocorre o tal fenômeno de os acontecimentos, acontecendo “ao mesmo tempo”, ficarem superpostos? Sabemos que não ficam, pois vemos que uns acontecimentos ficaram no ano “passado”, outros na semana anterior, outros no segundo que se foi… Ou seja, “já passaram”.

Uma explicação para isso poderia ser a de que, não existindo um ente, uma entidade, uma instituição, um elemento ou seja o que for chamado “tempo”, as coisas acontecem simultaneamente, sim, de tal forma que o que está parado superpõe-se parado e o que está em movimento não se superpõe porque mudou de lugar. Neste momento olho para uma bicicleta parada e vejo que ela continua a mesma que era ontem, há um minuto e será “amanhã”, se ninguém retirá-la do lugar.

É  como ocorrem as coisas dentro de uma casa: a casa está parada, as coisas se movimentam dentro dela.

Imagine o Universo como uma casa e dentro dele as coisas movimentando-se, O que estava em um lugar agora está em outro; e o que não se movimentou continua no mesmo lugar, de modo que para o objeto parado o tempo não passou.

Contudo, para que haja “mudança de lugar” é preciso que haja “espaço”, logo, o que parece tempo é a mudança de lugar dentro de um espaço.

Seria algo como dizer que o Universo está parado e o que chamamos de tempo é o movimento, como o movimento do ponteiro do relógio, que estava em um lugar, dentro da caixa parada do relógio (a casa do relógio) e mudou de lugar.

Mas, se o ponteiro moveu-se e “o tempo”  do movimento anterior é o mesmo tempo do movimento seguinte, porque é que não vejo o ponteiro em todos os lugares, superpostos?

A resposta pode ser que é porque o ponteiro que se movimentou não está mais no lugar em que estava, e só podemos ver o que está no lugar – tanto que se o movimento for muito rápido não será possível ver o objeto, porque seu movimento não será apreendido pela vista humana, embora possa sê-lo por algo que se movimente tão rápido quanto o objeto que se moveu.

Inúmeras questões se levantam com essa especulação e é por isso que se trata de uma teoria.

AS CONTAS

(Um lindo poema do Dr. Goy)

Vai-se a primeira nota inflacionada
Vai-se o dólar, o euro e o real
Aumenta o preço até da goiabada
Vou acabar limpando com o jornal

À  tarde, quando pego uma amassada
Nota de dez eu choro a duras penas
Valia dez  e agora vale apenas
Menos de dois merréis, não vale nada!

Também os meus cartões todos se foram
Para o fundo do poço onde moram
Os cheques, a esperança e tudo o mais

Para o azul minhas contas não retornam
À minha porta os credores vão e voltam
Eu vou mandar todos tomarem atrás

O DRAGÃO DA INFLAÇÃO NÃO COME CEBOLA

Eu estava de passagem na porta do supermercardo e vi um bicho parecendo um jacaré de asas chorando desesperadamente, quando um senhor se aproximou e começou a conversar com o animal:

- Bom dia, Sr. Dragão da Inflação, vejo que o senhor está chorando, posso ajudá-lo em algo?

- Acho que nããããoooo.

- Quem sabe se me disser o motivo…

- É que eu estava todo feliz, o gunverno tinha dito que Recife tinha tido o menor nível de inflação dentre as cidades brasileiras pesquisadas e eu consegui desmentir isso…

- De que jeito?

- Quando a Papisa Aline foi comprar peitinho de frango eu tasquei um aumento violento de preço, fiz pular de seis para oito!

- Nossa! Tudo isso? E aí?

- Aí foi coisa de trinta por cento de uma tacada só na inflação pelas contas de Papa Berto!

- Não ficaste satisfeito com a vitória, Sr. Dragão da Inflação? Essa enchida de bola deu tanto certo que, depois de um gunvernista aí ter cutucado o Papa com vara curta, ele, o Papa, se aproveitou disso para tascar dezenas de charges contendo Vossa Senhoria fazendo das suas na inflação deste nosso País.

- Pois é, era para eu festejar… mas aí eu também comprei uns peitinhos de frango a esse preço absurdo e ia cozinhar, quando lembrei que estava sem cebola…

- E?…

- Voltei para dentro do mercado! Quando olhei para elas o preço da cebola estava a noventa e nove centavos! Noventa e nove centavos!

- Isso quer dizer o quê?

- Quer dizer que a inflação de trinta por cento e caqueirada que eu tinha lascado no preço do peitinho do frango foi liquidada por uma deflação de mais de cinqüenta por cento na cebola!

- Entendo, Sr. Dragão da Inflação, engoliste um frango.

- Pois é… chuif… com que moral o Jornal da Besta Fubana vai continuar depois disso a me usar? Estou desempregado!

A MORAL QUE A LEI NOS DÁ

(Uma crônica ingênua e fofinha)

Antigamente não havia cinto de segurança nos carros, os pedestres não tinham vez nas ruas, os lugares nos quais era proibido fumar limitavam-se a elevadores e cinemas (nestes, dizem, para não prejudicar a projeção); e timidamente em transportes coletivos, onde a norma interna era pouco respeitada.

Fico apenas nesses exemplos para mostrar como é importante que a lei socorra anseios legítimos da população que não se realizam por constrangimentos decorrentes da rigidez de costumes e crenças sociais.

Faz muito tempo – vocês nem eram nascidos – finalmente resolveu-se instalar cintos de segurança nos automóveis no Brasil.

Eram os chamados “cintos abdominais”, que mais tarde foram substituídos pelos modelos atuais, que oferecem melhor proteção e menores riscos.

Aderi imediatamente, intuindo sua eficácia. Para quê? Toda vez que eu colocava o cinto as demais pessoas que se encontravam no carro faziam piadas e ridicularizavam meu procedimento.

Entreguei os pontos passei a só usar o cinto quando estava só e ciente de que ninguém me pegaria em tão vergonhoso procedimento.

Porém, quando a lei tornou o obrigatório, após tímida reação dos que o abominavam o uso universalizou-se e hoje ninguém pensa em deixar de apertá-lo. É que a medida já tardava, a sociedade queria providências que melhorassem a segurança no trânsito, mas ainda não podia usar o cinto por uma estranha coerção social, aquela que sofri.

Pois, popularizado, o cinto de segurança salvou a minha vida e a de minha mulher em grave acidente de trânsito, quando um caminhão carregado de minérios nos pegou na estrada e acabou com o nosso veículo.

Quanto aos pedestres, aqui admirávamos os europeus: quem voltava de lá dizia, para nossa surpresa, que bastava o pedestre pôr os pés na rua para o trânsito parar.

Entretanto, se um motorista se atrevesse a fazê-lo em nossa terra, sofreria buzinaços e xingamentos de quem vinha atrás, quando não sofresse uma batida por parar no meio da rua.

Hoje, vinda a lei, seguida das campanhas de trânsito, os motoristas sentem-se felizes de poder  – dever -  parar para o pedestre, nas faixas e por vezes até fora delas. Faltava apenas que a lei mandasse fazer o que é claro que devia ser feito. De modo que, atualmente, até cachorro atravessa nas faixas de segurança.

O fumo é outro de muitos exemplos: antes, os incomodados que se mudassem. Hoje, o fumante deve ir para lugar aberto e fumar apenas para si. A adesão é total, sem reclamações – quem fuma sabia que era errado poluir os ambientes, mas seria estranho se pedisse licença para sair sempre que quisesse acender o cigarrinho. Só faltava obrigá-lo a fazer isso para que ele pudesse fazê-lo sem acanhar-se…

Convém entender isso, compreender o poder da lei para que ela regulamente as nossas vidas e nos apóie a fazer aquilo que é benéfico para todos.

Contudo, é tênue a linha divisória entre o que deve e o que não deve ser regulamentado, digo recordando-me da famigerada lei seca de 1920 a 1933 nos Estados Unidos, que deu no que deu…

Bem, pelo menos The Noble Experiment serviu de lição ao mundo, de modo que “a nossa Lei Seca” não ultrapassou os limites do bom senso e hoje é mais uma vitória da norma legal como apoiadora das tendências e das atitudes civilizadas.

Parabéns a nós. Estamos no bom caminho.

Quem sabe prosseguindo assim não mais jogaremos lixo nos lugares públicos, deixaremos de enriquecer fabricantes de armas e traficantes de drogas, pararemos de desmatar criminosamente e de poluir as águas…

São sonhos que vêm se realizando!

A INFLAÇÃO VAI EXPLODIR O SACO DO DRAGÃO!

É bom fazer o registro, para que amanhã ou depois não venham dizer que eu estou falando água: vêm sendo publicadas, há anos, charges e mais charges de humoristas malucos, ou que não têm “assunto contra” para fazer graça, cujo tema é o Dragão da Inflação, que por sua deles  visão terrorista ataca o Brasil.

Algo de incompreensível existe nessa insistência, uma vez que ela acontece quando a inflação em nosso País foi, no governo do Lula, de 9,3 % em 2003 (já desacelerando a do ano anterior, que foi de 12,53 %; de 7,6 % em 2004; de 5,69 % em 2005; de 3,14 % em 2006; de 4,46 % em 2007; de 5,90 % em 2008; de 4,31 % em 2009; de 5,91 % em 2010! Uma média anual, pelos oito anos, de 5,78 %!

As duas crises internacionais emendadas levaram a inflação em 2011, já então no governo da Dilma,  a 6,5% no máximo, limite que o governo havia previamente estabelecido como o tolerável.

Não parece aterrorizante, se considerarmos que a inflação nos oito anos imediatamente anteriores a Lula deve ter girado pela média de 8,97 %, índice já formidável, considerando que nos quatro anos anteriores a isso (1990 / 1994) a inflação tinha atingido o terrível índice médio anual de 764 % e que antes disso (década de 80) a média anual era de 330% !

Hoje, dia 3 de janeiro de 2012, aqui mesmo, a charge do Jorge Braga é hermética, traz um dragão da inflação dizendo: “Duvido que o mundo acabe em 2012”. Se alguém se habilitar, me explique, por favor.

E hoje ainda é publicada outra, intitulada “Primeiro bebê do ano”, com um dragão da inflação dentro de um bercinho na rampa do Planalto chupando chupetinha.

No dia anterior, 2 de janeiro, já havia uma charge com o ameaçador dragão afirmando: “Se depender de mim o show (pirotécnico, da virada) vai continuar pelo resto do ano inteiro”. E de suas ventas saem fogos, estrondos e o sinal de porcentagem… sutil.

No mesmo dia 2, depois de uma charge em que uma vidente afirma que a inflação vai disparar em 2012, temos novamente o tal dragão desejando um “Feliz 2013”… vá entender! Ôxe!

Pulamos o dia 1º de janeiro com o dragão dando um descanso, mas é só virar a página para 31 de dezembro de 2011 para encontrar a fera novamente informando que  “Ano Novo tudo novo”, segurando um cifrão sugerindo que a inflação viria quente.

E lá vinha ele de novo, em 28 de dezembro, como uma bóia que a Dilma leva para um mergulho;  e no dia 27 com o rabinho aparecendo perto da árvore de Natal;  e no dia 24 o bicho feio segurando o saco de Papai Noel; e no dia 23, vindo passar o Natal com a gente; e no dia 20, apresentando-se como amigo secreto;  e no dia 17, ameaçando o décimo-terceiro salário; e no dia 16; e no dia 15; e de novo no dia 15!;  e no dia 14;  e no dia 13; e no dia 12; e novamente no dia 12!; e no dia 10 uma repetida, a do primeiro bebê do ano; e no dia 9 ela de novo!;…

… E assim por diante, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Então, tenho que confirmar que é falta de material para os chargistas. que é falta de imaginação dos humoristas, que é excesso de má vontade para com o governo, que é muito interesse em torcer contra, que é política desestabilizadora atabalhoada, que é tentativa de desacreditar o governo com premissas falsas, que é uma grande encheção de lingüiça e do meu poderoso saco!

Esse é um bom mau exemplo de como adversários do governo de Lula, de Dilma, do PT, “argumentam” facciosamente, gratuitamente, com visões distorcidas e falsas da realidade, para tentar convencer a si mesmos e aos outros que o governo fracassa.

Para mim, é doentio isso.

O FIM DO MUNDO DE ZÉ DOS BODES

Nunca imaginei que um dia o homem pudesse  viajar à velocidade da luz. Agora, que olho para a imensidão do universo, e que avanço como se afundasse num abismo sem  fim, vejo-me na carroceria daquele  caminhão,  ainda  menino, sentindo o vento frio no rosto, o turbilhão nos ouvidos,  a estrada rolando para dentro dos meus olhos. Acho  que neste mesmo dia estive assistindo gravações em vídeo de antigas reportagens mostrando o primeiro  homem na lua e pensava quão pouco, em tantos anos, havia evoluído a aventura do ser humano no espaço. Muitos conhecimentos e progressos haviam sido obtidos através do lançamento de satélites e sondas-robôs que viajavam, por décadas e décadas, através do éter infinito, enviando sinais, sons e imagens, fazendo análises, perscrutando as profundezas do cosmos, – friamente,  porém – sem emoção e, verdade seja dita, sem inteligência. Nada se pode comparar à apreensão dos nossos olhos, que agora vêem, assombrados, o sem-fim, o vazio, o nada rolando vista a dentro como  a estrada comprida, de terra batida, que também parecia levar a lugar nenhum.

Quem diria que um pobre velho, como eu, poderia estar aqui, agora, nesta aventura cósmica, varando o espaço infinito, invadindo a privacidade das estrelas e dos astros?

Lembro-me que, já lá se vão muitos anos, sequer conhecia avião; mas não estou falando de avião daqueles grandes, supersônicos, não; refiro-me aos teco-tecos mesmo, aos aviõezinhos de hélice, de um motor só, de que mal havíamos ouvido falar em Iporá.

Falando assim, hoje, muita gente pensa que é mentira. Mas ali, naquela cidadezinha isolada, no meio do século vinte, a maior parte das pessoas nem mesmo acreditava que fosse verdade que existissem aviões.

Seu Zé dos Bodes nunca havia sequer ouvido falar de avião.  Vivia num sítio afastado da cidade, onde criava seus cabritos, quase sem contato com outras pessoas que não fossem a mulher e sua filharada. Não ia ao lugarejo nem para as compras do mês, já que obtinha mantimentos através de rudimentares operações de escambo, trocando porco por botina, por calça de brim e por vestido de chita, barganhando cabrito por sal, por café e por açúcar, negociando milho por foice e por enxada e assim por diante, no próprio sítio, onde era procurado pelos mascates e por comerciantes vizinhos. As obrigações religiosas eram cumpridas no paiol cedido pelo velho Mathias, na fazenda próxima, para as reuniões dominicais. E os filhos aprendiam as primeiras letras na escolinha rural, junto a mais meia dúzia de gatos-pingados, com a professorinha que mal sabia para si.

Eram tementes a Deus e cumpriam com fervor os ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Dizia-se por ali que o fim do mundo estava próximo e que Deus não tardaria a fazer cair sua ira dos céus sobre os homens, pecadores incorrigíveis, contumazes, empedernidos, impuros e inconseqüentes. O fim do mundo viria com fogo, enxofre, raios e trovões, para queimar os pecados do mundo e lançar às profundas dos infernos os pecadores.

Com esse prognóstico, todas as vezes que armava uma tempestade e começavam a agitar os ares as ventanias de chuva acompanhadas de faíscas e trovoadas, seu Zé dos Bodes ajuntava seu rebanho de cabritos, seus porcos, seus cachorros e mais os animais que conseguisse e os reunia, com sua família, debaixo da casa do sítio, erguida do chão sobre grossas estacas de aroeira.

Ali ficavam a rezar fervorosamente, até que a chuva caísse e o fim do mundo, assim, abortasse. Não sabiam seu Zé dos Bodes e familiares se o  cataclismo se adiava a cada vez pela fé de suas rezas ou se simplesmente ainda não era chegada a hora e o que se anunciara fora mesmo, apenas, uma tempestade.

Todos conheciam esse costume do Zé dos Bodes e dele se riam. Mas mais se riram no dia em que o primeiro aviãozinho se aproximou de Iporá. Sem lugar certo para pousar, ficou dando voltas em torno da cidade, de modo que de alguns lugares só se lhe ouvia o barulho, o ronco do motor. No sítio, seu Zé dos Bodes não conversou. Ao ouvir o estranho trovejar, em dia claro, de céu limpo, não teve dúvidas. Agora era, sim, o fim do mundo. Reuniu a família e os animais debaixo da casa e rezaram com uma circunspecção nunca vista. Ao cessar o barulho, sem que o fim do mundo tivesse ocorrido, entoaram louvores aos céus até o anoitecer e foram deitar-se orgulhosos de poderem ter afastado da Terra, em favor dos justos e dos pecadores, o Juízo Final, para data incerta e não sabida.

Dizem que quando o barulho do avião começou nem foi preciso muito trabalho para juntar bodes, cabritos, patos, galinhas, porcos e cachorros que, de tão acostumados, assim que ouviram o ronco do motor começaram, por conta própria, a se reunir sob o costumeiro abrigo.

Enquanto isto, nós, na cidadezinha, víamos o aeroplano aproximar-se bem baixo, com pouca velocidade, quase parando no ar, para uma aterrissagem forçada no descampado que usávamos  para nossas peladas com bolas de meia. Depois de verificar as redondezas, o piloto achou que ali era o melhor lugar para pousar. Conseguiu, mas ficou sem as duas asas, ao passar por dentro das balizas do gol.

Desde esse dia, junto com a lembrança engraçada da situação armada pelo seu Zé dos Bodes um encantamento pelo vôo tomou conta da minha alma, fazendo-me suspirar por ser, um dia, também, um piloto; e cruzar os céus azuis como um passarinho, viajando por esse mundo imenso sem fronteiras, livre como o vento!

Agora, aqui estou: à velocidade da luz! Vejo coisas que, de outro modo, não poderia ver. Vejo a luz. Não o seu reflexo sobre as coisas, sobre os objetos, mas a própria luz, caminhando ao meu lado! Vejo que a luz não viaja como se dizia, através de vibrações de moléculas, não. Ela flui por entre os átomos. Vejo-a escorrer pelos ralos da matéria infinitesimal, como a água se infiltra veloz por dentro da areia. E no espaço vazio, o tempo rola como se fosse um gigantesco meteoro e vai ficando para trás. Então o tempo é concreto? Ultrapasso o tempo, venço a barreira do tempo e o tempo pára, ou anda para trás. Ainda não sei ao certo. Penso: quanto tempo viajarei? chegarei ao infinito? com o tempo parado, viajarei eternamente e não chegarei a lugar algum, a não ser que o infinito seja o não-ser e eu, algum dia, me perca nele e me desfaça em nada.

Percebo que não posso saber há quanto tempo estou aqui, rolando através de sóis e estrelas, se o tempo parou na minha viagem. Vejo que não posso precisar se foi hoje, se foi ontem, se foi antes ou depois do seu Zé dos Bodes. Percebo que o tempo está apenas em minhas lembranças, pois junto comigo o que corre é a inércia absoluta, o nada!

Tento lembrar como cheguei aqui, tento de novo lembrar como cheguei aqui, tento, a toda hora, recordar. Tento, tento, tento… Mas só me lembro do seu Zé dos Bodes, do fim do mundo e do avião descendo, entrando por dentro das balizas e perdendo as asas, como eu, voando sem asas por esta imensidão, livre como o vento, ágil como um pássaro, prisioneiro do espaço. Olho para as minhas mãos e não me vejo. Olho para o meu corpo e não existo.

Sou luz?

O AZARADO

Olhando assim para ele, ninguém diria que podia merecer esse nome. Nós mesmos o batizamos. É, bem escondidinho, um desses lugares que encantam as vistas, cheio de pedras, com chão de laje e mato característico de lugares com muita água; longo declive, com um regato caudaloso rolando ribanceira abaixo, infestado de calangos e borboletas, pássaros e flores, o ar úmido, carregado de frescor e energia: assim é o Azarado. Bem afastado da estrada, nós o descobrimos em uma das freqüentes excursões pelas estradotas que se embrenham pela roça, varando sítios e atravessando arraiais. De vez em quando voltávamos lá. Esses passeios eram, para nós, altamente estimulantes. Vibrávamos de alegria ao sairmos, o pequeno grupo de sempre, andarilhos, pelos campos e matas vizinhos à nossa pequena cidade. Os pés descalços levantavam poeira do chão de terra, enquanto ouvíamos a brisa, os sons de cachoeiras, os cantos dos coleirinhos, dos canários-da-terra, dos curiós, observando a ginga engraçada dos anus, pretinhos, reluzentes, pousando em cercas e galhos e balançando o corpo para a frente e para trás, para a frente e para trás, grotescamente desequilibrados, bêbados de céu azul, parecendo que iam cair, mas nunca caíam.

Comíamos o pão que levávamos nos embornais com sabor de fina iguaria, ao sentarmo-nos para descansar à fronde fresca de alguma árvore, depois de muito caminhar, envoltos na quietude majestosa da natureza.

Nesses momentos de parada, a agitação costumava dar lugar a um recolhimento quase que religioso, a uma contemplação semelhante à que nos surpreende quando entramos em uma igreja vazia, silenciosa, atravessando o corredor central, rumo ao altar. Pois aquele pão seco era mais do que o melhor dos banquetes. Imaginem, então, a sublime maravilha, quando conseguíamos um pouco de manteiga mais um gordo pedaço de salame ou “mortandela”.

Um dia, após a parada do lanche, descobrimos uma trilha quase imperceptível, bem escondida, formando um estreitíssimo túnel vegetal por dentro da floresta. Depois de uma caminhada de quilômetros, sufocados pelo oxigênio carregado da mata espessa, muito fechada e escura, vimos a trilha abrir-se clara e arenosa à nossa frente, trazendo o ressoar distante da água corrente.

Observamos que todo o lugar era uma grande clareira em uma baixada cercada por todos os lados pela floresta. Nossa imaginação começou a fervilhar de hipóteses sobre a descoberta de um mundo perdido, selvagem, pré-histórico, com animais estranhos e ambientes virgens, jamais visto nem pisado por seres humanos ou, pelo menos, pelo homem civilizado. Afinal, éramos meninos, entrando na adolescência, dados a esses rompantes imaginativos.

Pelo menos em parte, a criatividade de nossos espíritos delirantes estava certa. Assim que vimos o local, ao fundo, onde as águas rolavam espumejantemente sobre uma larga laje de pedra, os problemas começaram a acontecer. O aparecimento dessa visão coincidia com o momento em que a trilha, formada de areia grossa de pedras-cristal, leitosas ou transparentes como diamantes, salpicada do brilho reluzente, como ouro, de malacacheta, bruscamente inclinava-se, do topo, em acentuada descida. Um dos meninos escorregou nesse cascalho solto, ralando-se nos pedregulhos, sangrando nos joelhos, nos cotovelos e nas palmas das mãos. Não havia, por isso, o menor motivo de sobressalto. Era comum algum de nós ralar-se aqui ou ali, nas pedras, nos galhos, ou enfiar um espinho no pé, dar uma topada, levar uma picada de marimbondo. Mas ainda nessa vez, mal acabáramos de socorrer o acidentado, um outro, ao esticar-se para pegar uma fruta silvestre no meio do mato, assustado por uma incrível revoada de centenas, milhares ou milhões de borboletas que se agitaram sobre ele, caiu num barranco mais em baixo, emaranhando-se no cipoal. Além de um galo na testa, ganhou arranhões em todo o corpo, daqueles que se inflamam na hora, pela má sorte de terminar o tombo em cima de uma cama-de-gato, que é aquele arbusto miserável feito quase só de pequenos espinhos, finos e aguçados como as unhinhas dos bichanos.

Clique aqui e leia este artigo completo »

A REVOLUÇÃO DAS CUECAS

(mais uma campanha do Dr. Goy)

Por Esses dias aí eu notei que os homens, nós, os homens, os homens mesmo, estamos sendo brutalmente discriminados na sociedade em relação às mulheres, que têm um dia dedicado a elas, que ganharam uma lei para não apanhar, enquanto a gente não tem um Dia do Homem e elas podem dar porrada em nós o quanto quiserem que não acontece nada com elas, não vão presas nem nada,  porque conseguiram uma lei facciosa que só protege a mulher.

Hoje as mulheres, além de terem sido beneficiadas pela natureza com o parto, que garante seis meses de licença no trabalho e outro tanto de afastamento dos deveres matrimoniais, com horas e horas para dar de mamar, bem como de poderem menstruar à vontade e pôr a culpa do seu mau humor na TPM, ainda por cima podem acumular suas atividades caseiras com um extra por fora arranjando empregos para ganhar dinheiro que gastarão com bobagens.

Me dei conta, subitamente, de que a gente para ganhar uma barriga tem de se entupir de cerveja, quando para elas basta até uma rapidinha para ficarem com aquele barrigão, só que a delas todo o mundo admira, elogia quando se mexe, passa a mão e fala com ela, ao passo que a nossa é ridicularizada e ninguém dá gritinhos de alegria para nossos movimentos peristálticos.

Ninguém sabe porque é que usamos cueca. Uns dizem que é para disfarçar o volume para não agredir a sensibilidade feminina, outros que é para segurar o último pingo, há quem assevere que a cueca impede que linhas soltas da costura das calças penetrem no âmago de nosso ser, e há quem pense que a cueca evita que o pano grosso da calça rale nossas partes mais, por assim dizer, delicadas.  evitando o atrito da genitália com o tecido, protegendo de uma fricção mais abrasiva.
 
Também se diz que a cueca é para evitar que o zíper grude na coisa, mas a cueca é desde os tempos do botão. Na verdade, ela foi inventada na época das armaduras de metal, para – aí sim – evitar o contato desastroso daquele trem duro e raspento com algo que prezamos e zelamos tanto.

E para quem imagine que a cueca protege do frio, eu pergunto: que frio? Estamos no Brasil, ôxe!

Por essas e outras me revoltei, fui na gaveta de roupas, peguei todas as cuecas e queimei. Queimei tudo. Fiz uma grande fogueira (igual elas fizeram com os sutiãs quando quiseram se rebelar contra a opressão masculina) e fiquei olhando, já antevendo o mesmo sucesso que elas tiveram com seu protesto.

Só que ninguém ligou para isso, não saiu na televisão, não veio nenhum jornal me entrevistar e eu é que estou tendo de fazer o maior esforço para divulgar isso e obter os ganhos sociais que nós os homens também merecemos.

Depois de todas essas explicações, estou convocando os homens para participarem da revolução das cuecas: comecem o ano queimando as cuecas, seja samba-canção, sunguinha, justinha de perninha, colorida, branca ou estampada, queimem tudo!

Se não conseguirmos atingir todos os objetivos, garanto que pelo menos uma vantagem será alcançada, que é o conforto.

Posso assegurar isso porque já estou sem usar cueca há vários meses e descobri que, realmente, cueca não serve para nada, só para dar despesa e para as mulheres reclamarem quando ficamos muito tempo sem trocar.

Está lançado o grito de libertação: abaixo a cueca!

MULA-SEM-CABEÇA

O  homem  sentado  no chão frio do quartinho escuro,  com as costas apoiadas na parede, a cabeça pendendo para o ombro,  tem as roupas sujas de terra, a camisa rasgada, os cabelos longos ensebados de suor,  quase escorrendo, a barba grossa brilhando, o olhar perdido no lúgubre sombrio, o pensamento  voltado para dentro de pesadas tensões e  fúnebres sentimentos. Não lhe ocorrem medo, nem coragem. Apenas, a circunstância. Espera, ao abrir-se a porta de madeira, que deixa ver réstias de luz por numerosas frestas, a consumação inevitável, a violência cheia de ódio, a  brutalidade, a ignorância, o rancor.  Da floresta chega  um silêncio profundo, de medo, e calmaria de solidão. Talvez venha,  à noite, a mula-sem-cabeça.

A primeira vez que ouvi falar dela estávamos à beira  de uma fogueira. Era uma fazenda.  Noite de  São João, o fogo  crepitava. Alguns troncos de madeira atravessados uns sobre os outros, queimando, as brasas rubras, quentes, soltando o seu calor delicioso em nossos peitos, nossas pernas e nossas faces, enquanto o frio úmido atacava-nos por trás. Escuridão total. Poucos meninos, nós arregalávamos os olhos, aterrorizados, com as histórias contadas pelos peões, de assombração, alma-penada, saci-pererê, mula-sem-cabeça! Ficávamos ali, sentados em grossos troncos em volta do fogo, observando os rostos sulcados, os chapéus de palha, as mãos incrivelmente grossas, rudes e calejadas, de unhas duras e amarelecidas, segurando os finos cigarros de palha, de fumo de rolo, de onde os homens descalços tiravam compassadas baforadas, a fumaça misturando-se  ao vento gelado da noite negra como  breu. Os pés pareciam feitos de barro, pousados duramente no chão de terra batida, enquanto cada um contava um caso. O pavor tomava conta de nós. Percebíamos que os homens também deixavam transparecer cada vez maior medo, à medida que cada um se lembrava do que lhe tinha sucedido,  do que acontecera com algum conhecido, ou do que lhe haviam simplesmente relatado. As narrativas eram cheias  de emoção, embora contadas sem dramaticidade, em tom algo baixo, mesmo, por vezes quase sussurrado.

Talvez nenhum caso nos tenha assustado  mais do que o da mula-sem-cabeça. O homem contava que tinha acontecido com ele, não fazia muito tempo, e ali mesmo, naquelas redondezas, em um casebre que ocupava com sua pobre família. De dia – era domingo – tinham ido à missa na cidadezinha e as crianças do lugar zombavam de uma mulher, na rua. Seus filhos estavam junto ao grupo, brincando de pique, mas, alheios a esse tipo de farra que os espertos garotos da cidade sabiam fazer, não mexiam com ninguém. Arregalaram os olhos quando a mulher, profeticamente, em altos brados, dizia  que a mula-sem-cabeça iria aparecer naquela noite para todos eles, para ensiná-los a não serem assim tão maus.

A volta para casa fora sobressaltada. Já era noite quando estavam na estrada. A lua cheia iluminava vigorosamente a trilha de terra, de dois sulcos, separados por um murundu de capim, que as rodas das carroças não desmanchavam. Vez por outra os cavalos eriçavam os pescoços, levantavam as orelhas e arregalavam os olhos para os lados, como que assustados. Todos se arrepiavam, lembrando da ameaça, embora injusta em relação a eles.

Nunca as noites foram tão cheias de sussurros, estalidos e gemidos como aquela, nem de sombras e de pressentimentos tão impressionantes.

Chegaram à choupana aliviados. Apesar do dia cansativo e de se fazerem horas, muitas mais do que as que de costume se faziam para que se recolhessem,  ninguém conseguia dormir. Nas camas de varas os corpos tremiam e as cabeças procuravam afastar os inquietos pensamentos. Ali estavam todos, em um só cômodo, a lamparina de querosene acesa esquecida da indispensável economia, quando o angustiosamente esperado acabou por acontecer! Barulhos fortes de galopar arrebentando tudo pelo lado de fora fizeram com que os cabelos ficassem em pé. Um resfolegar abafado, rouco, acompanhava as batidas violentas dos cascos no chão e os sons de vasilhame caindo, de pedras rolando, de cercas se quebrando.  Ninguém se movia nas camas. Um dizia, engolindo para dentro: “Pai!”. E ele: “Quieto, menino! Faz que dorme!”. A mulher, do seu lado, tremia que balançava as cobertas.

Até que ela mandou: – Vige! Vai ver o que é isso, homem!.

Clique aqui e leia este artigo completo »

ERA PITORESCA A CASINHA DE UILDO

Era pitoresca a casinha do Uildo, dependurada na beira de um barranco, caindo aos pedaços, uma miséria só. Quem diria que ali morava um homem riquíssimo. Sozinho, deixara toda a família na penúria, não ajudava ninguém. Era de admirar ver o gerente do banco pressuroso a atendê-lo – Uildo maltrapilho, sujo, um chapéu ensebado de dar dó – o gerente quase a pegá-lo na rua para levá-lo para a sua mesa  e servir-lhe cafezinho, que ele tomava abundantemente, devorando biscoitos. Todo o mundo sabia, Uildo era agiota. Não tinha piedade, diziam que mandava desancar quem não lhe pagasse direitinho os juros escorchantes,  muitos afirmavam que já arrancara algumas vidas pessoalmente. Todos se lembram do dia em que sua casa afundou no chão, com ele dentro. Foi uma coisa estranha – a primeira de uma série – a casa inteira foi engolida, como se o diabo a chupasse;  e não ficou nenhum buraco, nenhum vestígio: a casa desceu e a terra subiu, recompondo o local, deixando o quadrado nu, revolvido, fofo, cheirando a mandioca.

No dia seguinte, foram duas engolidas. Uma, era um palacete, no centro da cidade, cercada de jardins maravilhosos, com guarita de segurança, circuito fechado de televisão, guardas para todos os lados. Morava nela um traficante de drogas, manjadíssimo.  Afundou com todo o mundo dentro. A outra, era uma casa comercial. Segundo o juiz confidenciou a sua mulher, o proprietário era um crápula, registrava salário-mínimo mas pagava a metade aos empregados, não reconhecia direitos, não recolhia impostos, roubava no peso, na medida e onde mais pudesse. Afundou de noite, enquanto ele, avidamente, fechava o caixa, contava dinheiro e se preparava para lançar a débito dos seus vendedores um cheque sem fundos que um deles recebera. Mais tarde ainda pretendia dar um jeito de receber do emitente, sem que ninguém soubesse, o valor do cheque (ganharia duas vezes!). Também cobraria dos seus empregados uma forjada diferença nas contas do dia.

Fiquei morto de medo. Quem conhece os meus pecados sou eu; e Deus, é claro. Parecia um ajuste e, quem é que não sabe disto, ninguém está livre de algumas culpas. Pelo que observei, as pessoas começaram a se preocupar, não sem razão, porque no terceiro dia afundaram seis casas e no quarto desapareceram dezoito. Todas nas mesmas circunstâncias, todas de safados, bandidos mesmo, assaltantes conhecidos, traficantes odiados, assassinos cruéis, estupradores repugnantes, o diabo a quatro. Pelo menos é o que se comentava. Não havia um caso de afundamento de residência de cidadão honesto, pois quando se achava que isto tinha acontecido, como na ocasião em que mal se lamentava, dentre os casos ocorridos, a perda de uma senhora que mexia com obras de caridade, descobriu-se que para os pobres não iam nem dez por cento do que se arrecadava.

No quinto dia a cidade parecia saída de uma guerra, tantas as residências e estabelecimentos comerciais que só apresentavam, agora, um tufo de terra revolvida onde antes eles existiam. Jornalistas percorriam as ruas de um lado para outro, sem atinar para o fato de que que não precisariam ter saído de suas cidades para obter notícias assombrosas, porque enquanto eles anotavam dados e corriam aos telefones as estações de rádio e de televisão já anunciavam: mais de cem mil casas, só naquele quinto dia, afundaram simultaneamente em todo o país; e havia um congestionamento de comunicações a respeito de ocorrências semelhantes pelo mundo inteiro. Os fatos vinham truncados, incompletos, imperfeitos, pois muitas rádios, estações de transmissão de televisão e redações de jornais afundaram ao mesmo tempo.

Mas uma coisa era certa, as construções engolidas pelo chão eram todas de pessoas e empresas muito mal faladas, comprometidas por atos violentos, desonestos, por negócios sujos, escusos e toda a sorte de sujeiras.

Foi de admirar que no sexto dia afundaram a prefeitura da cidade vizinha e a câmara de vereadores da capital do estado, em plena reunião, conforme nos chegavam boatos de boca em boca. Mas o espanto foi total quando o noticiário da noite anunciou: na capital federal, afundaram, de uma vez só, dezoito ministérios, a câmara dos deputados, o senado e o próprio tribunal de contas, em plena luz do dia, bem no meio da tarde, lotados de gente; só escapou quem estava de férias ou de licença, um ou outro ministro, deputado ou senador em missão externa, coisas assim. Mas o certo é que, se não se podia fazer um inventário moral de quem havia sido tragado, pelo menos  se asseverava que os poupados eram gente da mais elevada estirpe ética, de intocável honradez.

E o presidente da república? todos queriam saber. Não  havia dúvida: o palácio onde ele trabalhava afundou, a residência oficial também afundou, um magote de gente desapareceu por baixo de onde restava agora aquela terra cheirosa de raiz de grama, mas o destino do chefe da nação era incerto, uns diziam que estava dentro, outros afirmavam que havia saído de helicóptero, especulava-se se estava vivo ou não, mas até aquela hora ignorava-se a verdade. Esclareciam os noticiários, também, que das oito mil prefeituras de todas as cidades do país nem um décimo escapou; a quantidade de câmaras de vereadores que escorreu pelo ralo do mundo em plena assembléia também era de arrepiar; e não faltaram quartéis, delegacias, instalações militares de toda a sorte; houve até casos de templos sugados, de casas de religiosos sorvidas! Quem estaria seguro? Soube-se que muitas pessoas acampadas foram chupadas com suas tendas e chegou a comentar-se de gente que não quis voltar mais para casa, de medo, de consciência pesada, e que foi vista desaparecendo num redemoinho de terra em plena rua.

Rezava-se para todos os lados, uma igreja afundou lotada de fiéis. Nunca se viu tanto choro e ranger de dentes, tanta ladainha, tanta vela acesa. Lágrimas e desespero, desespero e lágrimas. Quanto maiores os pecados, maior a certeza do castigo próximo. Estampadas nos olhos molhados de lágrimas, fixos no céu, as expressões de sofrimento e dor antecipavam o arrependimento pelas faltas reconhecidas e por aquelas apenas suspeitadas.

Nesse sexto dia, eu gostaria que tudo isto não passasse de um conto, de uma história inventada por algum escritor maluco ou que não fosse mais que o enredo de um filme tenebroso de ficção científica, porque todo o nosso planeta estava reduzido, segundo as estimativas mais otimistas, a menos de um sexto da população, e já não era possível saber quais eram os critérios e os pecados visados, tantas as vítimas.

No sétimo dia, nenhuma casa foi sugada, ninguém foi arrebatado para o fundo da terra. O mundo parece, agora, ter sido devastado por uma estranha guerra nuclear, que destrói seletivamente os prédios e ceifa vidas a dedo.

Por onde desapareceram as construções e os seus ocupantes nenhum sinal surgiu, nem um resto de obra, nenhum corpo, nada. Um mistério completo.

Os que sobraram esperam o fim deste dia para saber o que será do planeta, quem foi poupado, se continuarão os afundamentos, se o mundo será reconstruído ou tragado de uma só vez, se quem era para ir já foi, qual a ordem de pecadores que ainda está para saldar as suas contas, coisas que se indagam assim, inquietantemente, enquanto contam-se os mortos e reconhecem-se os vivos.

Amanhã é segunda-feira.

A MÁQUINA DO TEMPO

(Um quase monógolo num bar, com um cara muito, muito estranho…)

-  Veja só, meu companheiro de balcão, um sujeito parou-me na rua, tinha um modo de falar diferente, com um sotaque que eu nunca ouvi antes. Um indivíduo verdadeiramente esquisito, assim como uma mistura de Falcão,  Tiririca e  Ratinho.

- ?!#

- Perguntou-me onde ficava a rua Presidente Enéas.

- !!!*>!

-  Achei que o cara estava brincando ou era  completamente doido mesmo.

- @§!

-  Ele pareceu ler-me os pensamentos, afirmou que não era maluco e começou a falar coisas do Brasil do seu tempo…  no futuro! Contou que o Papa, em dois mil e não sei quanto, era brasileiro, que o Brasil era a principal nação do mundo, que o Rio de Janeiro era a cidade mais pacífica e limpa do planeta…

- &…

- Resolvi testá-lo e pedi-lhe que fornecesse detalhes científicos. Perguntei se as viagens no tempo eram feitas através dos “wormholes”, ou “buracos de minhoca”, túneis que funcionam no universo como atalhos cósmicos para viagens no tempo e no espaço. Ou se utilizavam máquinas capazes de acelerar a trezentos mil quilômetros por segundo,  que corresponde à velocidade da luz,  mantendo o viajante parado no tempo enquanto para o resto das pessoas ele transcorre normalmente…

- 8!

- … O cara disse que, nada disso, a máquina do tempo é muito mais simples, é um apetrecho  que se serve de ondas magnéticas obtidas pela  compressão molecular de latinhas vazias de cerveja.

- //\\

- Pediu-me que o ajudasse a esvaziar algumas latas de cerveja para provar a sua história, o que eu fiz com o maior prazer. Explicou-me que os buracos de minhoca existentes no Universo foram descobertos e explorados na sua época, mas não serviam para nada, pois a única coisa que eles tinham dentro eram minhocas espaciais.

- ~~~~~~~~~~~~ z…

- Nesse tipo de conversa, esvaziamos latas e mais latas…                 

- ***!!!

- Eu já estava quase acreditando naquela maluquice, quando dois homens vestidos de branco chegaram de surpresa e o seguraram, enfiaram o coitado numa camisa de força, meteram-no num camburão e o levaram embora, enquanto ele gritava que estava sendo raptado pelos futuróides, e berrava que eles eram seres malignos que precisavam dos seus conhecimentos para dominar o tempo e conquistar todas as eras da humanidade.

-  !!!

-  Fiquei extremamente decepcionado. Já pensava que ele vinha mesmo do futuro quando vi que ele não passava de um maluco….

-    xpto!…

-  …Afinal, que bobagem acreditar que alguém pudesse viajar no tempo. Se isto fosse possível, o presente estaria cheio de viajantes do futuro, descendo a toda hora dos seus aparelhos, igualzinho turistas. E isso não acontece.

-  + -º?

-  É o mesmo caso dos  viajantes do espaço: porque é que eles se escondem? Porque é que eles não descem com seu disco-voador aqui mesmo na praça? Eles não se apresentam para nós só por um motivo: eles não existem.

- §<..>

-  Portanto, amigo, isso tudo é bobagem, pode ficar calmo e pedir mais um chopinho enquanto eu vou ali extrair uma água do joelho.

- £#!ooo

- E olha, por favor,  vou lhe pedir uma delicadeza: quer tirar essa antena das batatinhas? Pega com palito, pô!

PATA DE ELEFANTE

Era  hora  do  almoço, ou do café da manhã,  já nem me lembro mais. Só sei que estavam todos à mesa e que os talheres tilintavam. De repente, ele, ainda uma criança, levantou-se e passou a mão aberta  pelo  ar, agilmente, como  quem pega  um mosquito em pleno vôo. O punho fechado,  chegou-o bem junto ao  rosto. Aproximou a mão do ouvido  e franziu  o cenho, atento. Com o dedo indicador de uma mão puxou, cuidadosamente, o fura-bolo da outra, mantendo expressão muito séria; em seguida, puxou o pai-de-todos, mas não chegou a afastá-lo completamente. Assustado, como que com medo de deixar escapar sua presa, fechou a mão de novo, rapidamente. Todos olhavam para ele, curiosos. Fez-se silêncio profundo.  Alguém lhe perguntou o que  havia pegado e ele respondeu, em tom grave:

- Um elefante!

Mal terminou de dizer isso, subiu as escadas correndo e trancou-se no quarto, de onde, a partir daí, escutavamn-se barulhos estranhos – gritos, risos, arrastações de pés e de móveis. Ninguém podia entrar. Ele saía poucas vezes, quieto, não  falava com ninguém. Estranhamente, mantinha constantemente um riso bonito e um brilho nos olhos, de quem guarda um segredo e detém o conhecimento de algum mistério exclusivo.  De dia, subia com sacolas; de noite, descia com outras, sempre furtivamente. Os familiares conseguiram  retê-lo algumas vezes e levá-lo para que algum  médico o examinasse, mas os diagnósticos eram taxativos, todos diziam que não tinha cura. Por isso, foi até levado a bruxos, médiuns, videntes, uns passaram-lhe poções, outros lhe dedicaram trabalhos e orações, houve quem recomendasse que tratassem de  desenvolver seus dons, mas nada conseguiam de resultado positivo; ele desvencilhava-se rapidamente das interrupções a sua rotina e voltava correndo para o quarto. Lá de dentro  vinham barulhos cada vez mais fortes, como se coisas estivessem sendo destruídas. Em baixo, diziam uns para os outros perceber o teto balançar; e afirmavam que, às vezes, a lâmpada pendurada pelo fio oscilava como um pêndulo. Arregalavam os olhos voltados para cima e logo assustavam-se com o barulho da porta se abrindo a sua saída. Às vezes ele descia sujo, despenteado. Outras, vinha  de banho tomado, a barba feita. Saía, trancava a porta, passava, como se não fosse deste mundo, voltava, fechava-se.  Os barulhos recomeçavam. Ocorria de soltar altas gargalhadas, entre ruídos de arrastar de coisas e de pancadas de objetos caindo no chão. Por vezes, o silêncio  da noite era cortado por gritos  selvagens como os barridos de elefante vindos do seu quarto. Os familiares e vizinhos se surpreendiam de ver a que ponto podia chegar um ser humano para emitir sons terríveis como aqueles.

Os embrulhos com que entrava e saía  aumentavam de tamanho a cada dia. Ele vinha da rua com braçadas de mato, capim, galhos e folhas, saía com sacos cheios, voltava com sacos vazios, numa faina diária de fazer dó. Tentou-se espionar pelo buraco da fechadura, que ele mantinha sempre  tampado, e quis-se espiar pela alta janela, inutilmente, pois ela a tinha trancada e vedada. Várias vezes tentativas como essas foram desestimuladas por baldes de água suja e fedorenta que ele lançava sobre os curiosos. Muito tempo se passou até que o cheiro que vinha do quarto atingiu níveis insuportáveis, repugnantes.  E o barulho tornava-se cada vez mais irritante, pois já de manhã bem cedo, quando o sol nascia no  horizonte, começavam as pancadas do tum-tum-tum pesado e compassado, indo e vindo, que não deixava ninguém continuar a dormir.

Um dia, finalmente, quando ninguém agüentava mais, resolveu-se pela adoção de providências drásticas. Não era só pela família e pela vizinhança; era mais pelo bem dele mesmo, que, quem sabe, poderia um dia voltar a ser normal, viver uma vida decente, de gente, se fizessem o que precisava ser feito.

Conforme o combinado, ao descer ele foi interceptado, contudo não esboçou qualquer resistência, manteve o olhar sereno de quem adivinhava que um dia isso iria acontecer e que seria inútil reagir. Apenas virou a cabeça, olhou para a porta do quarto  e deixou-se levar, com a sensação de nunca mais. As mãos agarradas nos seus braços conduziam-no. Ele ia, o rosto banhado de lágrimas, com a família atrás, seguindo-o, todos cabisbaixos. Os mais velhos seguravam a aba dos chapéus com as duas mãos, como quem acompanha um enterro.

Quando  a família retornou no dia seguinte,  deixando-o internado no hospício, era a imagem da tristeza, da mesma consternação de quando saíram,  no dia anterior, para levá-lo embora. O silêncio era agora profundo, contrastando com o barulho infernal de antes. Havia um vazio por dentro de todos, por reconhecerem que ele não tinha cura mesmo, não iria voltar nunca mais.

Chegaram, abriram a porta da  casa e entraram, de cabeça baixa. Espalharam-se pelos assentos, quietos, os olhares perdidos, os olhos vermelhos, parecendo um velório.

De repente, o silêncio foi quebrado. De cima, veio o barulho descomunal, de  destruição, de raiva, de ódio, de coisas pesadas batendo, objetos se arrastando e caindo,  como nunca acontecera antes tão violentamente.

Foi quando algo explodiu como uma bomba e os olhos espantados viram, cheios de horror, o teto romper-se com estrondo e dele brotar, entre uma nuvem de  poeira, pedaços de madeira  e  destroços de alvenaria,  bem em cima da sala onde estavam reunidos, a formidável, descomunal e gigantesca pata do furioso elefante.

LAURINHA DOS GATOS E O GOLPE DO MIAU

Laurinha encontrou um gato doente na rua. Levou o bichinho para casa, tratou no veterinário, cuidou direitinho. Poucos dias depois, achou um outro atropelado, mandou operar, pôs tala na patinha, um mês depois estava bonzinho. Nem os dois estavam crescidos, viu um bichano sarnento mexendo em uma lata de lixo, lá se foi Laurinha com o animal para cuidar. Eram três gatas. Sua história se espalhou, a dona que cuidava dos gatos desgraçados. Por isso, começaram a abandonar filhotinhos na porta da sua casa. Em três meses eram trinta e oito, entre indivíduos filhotes, jovens e adultos, machos e fêmeas.

Laurinha se desdobrava em desvelos. Não demorou a algumas das fêmeas estarem buchudas.

Sábado e Domingo, Laurinha em casa cuidando de tantos bichos. A cambada devolvia os afagos em profusão. Laurinha no meio da gataria não queria mais nada.

Mas de Segunda a Sexta, fazer o quê? Trabalhar. Tinha que trabalhar oito horas por dia, ficava mais de dez fora de casa, preocupada com seus bichanos.

Na volta passava na loja de animais. Era quase sócia, brincavam – tratada com a maior atenção e admiração, verdadeira heroína entre os defensores dos direitos dos animais.

Um dia notou que um moço bonito a olhava quando comprava ração. Viu que ele perguntava a seu respeito.

Dois dias depois estava ele a sua porta, dizendo-se amigo dos gatos. Era muito gato com Laurinha, podia levar um ou dois.

Pouco tempo depois já entrava, brincava com a gataiada, sentava, tomava café, levava mais gatos para dar em adoção.

Dez gatos depois, namoravam.

Laurinha não parava de receber gatos, mas a cada dois que entravam três saíam pelas mãos do namorado.

A paixão de Laurinha por Cindo crescia, já pensava em casamento.

Até que um dia deu-se conta de que não tinha mais nem um gato.

Nem Cindo, que desse dia em diante nunca mais voltou.

(Esta crônica, ou pequeno conto, como preferirem, foi publicada no Jornal da Besta Fubana de 9 de fevereiro de 2009. Luiz Otávio Cavalcanti aproveitou-a no livro CRONISTAS INTERNAUTAS, que ele organizou e a Edições Bagaço acaba de lançar. Aproveito o tema – gatos – para apresentar, nesta reedição, a música de Célio Mattos, com letra de minha autoria, que interpreto: nada mais nada menos que o Gato Sem-Vergonha. Espero que gostem!)

1964

Ao passar por estes corredores sombrios, tenebrosos, os pulsos doídos, machucados,  dias e dias algemados, o corpo curvado de tanta pancada, ainda penso em você, quase só penso em você, que na certa não sabe de mim, se vivo, se estou morto, o  que terá acontecido a este pobre diabo. Tenho medo. Certamente vão jogar-me em um novo cubículo. Logo cuidam de transferir-me  para  novos algozes e recomeçam os interrogatórios, as mais inimagináveis torturas a que se possa ser submetido. Como se sobrevive a isto, por tanto tempo, sem perder completamente a razão? Como não perder de todo o equilíbrio, a coragem para, mesmo tendo  pavor, preferir a morte a abrir a boca para estes insanos? Fraco como estou, alquebrado, semi-morto, não dou dois passos sem levar um safanão, uma porrada nos ossos, um tapa no pé-do-ouvido, um empurrão rancoroso. Acostumo-me  a andar aos trancos, sentindo a dor nas costelas quebradas, nos músculos enrijecidos, na carne  machucada, no corpo cheio de hematomas, inchaços, cortes, calombos e arranhões, como se tivesse sido jogado ribanceira abaixo,  ralando-me nas pedras.  Deixam-me na  cela, já sei que o descanso é por pouco tempo.  São espertos, sádicos, logo, logo, virão arrastar-me, aos chutes, para alguma sala de bordoadas e eletrochoques, paus-de-arara e  rodas dágua, queimaduras com pontas de cigarro e tapas na cara. Não se bate  na cara de um homem! E quem é homem aqui! Me traz a vela! Acesa! Vamos ver quem é homem! Fala, seu cachorro! Mas eu não falo. Pode fazer o que quiser que eu não falo,  não conto o que você quer saber. Você, sim! Porque senhor é  só para quem se  dá ao respeito, tem dignidade, honra as calças que veste! Com esta boca, com estes dentes quebrados, com este frio de gelo que me toma o corpo e a alma, com este sangue que me escorre dos lábios rachados, com esta língua grossa da sede e do sal com que me entopem a garganta, o que lhe digo é o que lhe digo, apanhe o que apanhar, sofra o que sofrer. Você quer saber? Pois eu lhe conto, não precisa  ferir mais as suas mãos nos pedaços que restam do meu rosto, porque eu me lembro, eu me lembro muito bem. Era noite e estava muito escuro na  entrada do prédio de apartamentos, mas ruídos vindos do  lado de onde vinha o cheiro forte, de lixo, me chamam a atenção, porque  penso ouvir vozes  de crianças, quase uma algaravia, e é muito tarde. Acabo de chegar da festa gostosa, alegre, adolescente, já  são horas de dormir, mas este barulho parece ter marcado encontro comigo esta noite. Estas vozinhas  de criança não fazem sentido, tão tarde, noite escura e fria, quando todos dormem o sono tranqüilo e eu  também ia dormir um

Clique aqui e leia este artigo completo »

A CONSTRUÇÃO DO DESTINO

No início pensei que estivesse sonhando. Aquela sala, o laboratório de imagens, sons, cores, nomes, datas, estatísticas, formando uma bagunça infernal, controlada atabalhoadamente por um número imenso de pessoas se atropelando, se descabelando, parecendo enlouquecidas, como se jogassem um jogo onde cada lance fosse de vida ou de morte, os olhos esbugalhados nas telas, em que se movimentavam pessoas, seres, coisas, numa sucessão alucinante, apertando botões, virando manivelas,  gritando e torcendo, não, não podia ser real.

Por outro lado, eu tinha plena consciência de estar são, lúcido e acordado. Às vezes, sonhando, imaginamos estar vivendo um momento real. Mas, quando isso acontece, não passa de uma impressão fugaz, que logo se desvanece pelo despertar ou pela simples apreensão de que aquilo é mesmo um sonho. Naquele momento, eu podia sentir, sem dúvida, que estava presenciando uma cena real, que estava vivendo  dentro dela, embora o seu absurdo.

A passagem para aquela realidade foi estranha. Eu dirigia meu carro pela estrada, durante horas e horas. Anoiteceu. O tempo estava fechado, úmido, e às vezes chovia um pouco. Andei ameaçando cochilar, mas conseguia vencer o sono, na esperança de encontrar algum lugar onde pudesse descansar. Em um dado momento, tive uma impressão fora do comum. Olhei para o foco dos faróis, iluminando fracamente a estrada, e tive a sensação de não me encontrar mais no mundo concreto. É difícil de explicar isto. A estrada era a estrada. As árvores que a ladeavam também eram árvores. O breu da noite era a escuridão do mundo, mesmo. Mas, por dentro, eu sentia que aquilo que via não pertencia à mesma dimensão onde estivera segundos atrás.

Finalmente, encontrei um posto para encher o tanque do carro, repousar um pouco, fazer um lanche. Não conseguia tirar de meu íntimo aquela impressão de que havia trespassado uma parede entre dois mundos, embora tudo o que visse não fosse em nada diferente do que sempre conhecera. Apenas o som parecia  algo mais reverberante? Os movimentos escorriam mais lentos e o tempo parecia palpável, pastoso? Quem sabe… Talvez não devesse ter dado aquela carona. Mas,  afinal de contas, eu mesmo a ofereci.

Quando entrei no bar para lanchar, sentei-me a uma mesa onde já havia alguém, pois todas as outras estavam também ocupadas com duas ou mais pessoas. Puxei conversa, fiquei sabendo que o homem ia para a mesma direção que eu e que aguardava alguma condução. Não titubeei em propor que fosse comigo. Quando saímos pela estrada, já era dia claro, o sol brilhava intensamente por entre restos de bruma. A estrada continuava me impressionando de um modo estranho, como se não fosse a lugar nenhum. Quando vi a indicação de “Destino” a dois quilômetros, por uma estrada secundária, senti ímpeto de entrar nela e o declarei ao companheiro de viagem, que sorriu condescendentemente… enigmaticamente,  eu diria melhor, agora que o tempo passou e tudo aconteceu.

Clique aqui e leia este artigo completo »

O EFEITO DRAUZIO VARELLA

A droga quebra o caráter do dependente, diz o Dr. Drauzio Varella, depois de confessar que foi viciado em cigarro por vinte anos.

Pois, como médico, está ele agora empenhado em uma campanha da Rede Globo de Televisão, com outros parceiros, para convencer vinte e cinco milhões de brasileiros a parar de fumar.

Ele também esclarece que o cigarro é responsável por um, de três cânceres; que uma das causas principais da gastrite é o cigarro e que outra enfermidade que pode estar associada ao tabagismo é a Doença de Crohn, que é um mal inflamatório crônico do sistema digestivo.

Talvez, graças ao efeito Drauzio Varella,  uma boa quantidade de fumantes venha a se livrar do câncer  e de outras doenças causadas pelo fumo, como (também) o enfisema pulmonar, que é uma doença respiratória crônica, de evolução lenta, quase sempre causada pelo cigarro, determinando tosse, respiração ofegante e sensação de falta de ar, restringindo a capacidade do indivíduo de ter uma vida normal e freqüentemente levando à morte.

Muita gente conseguirá abandonar o vício, irmanados por uma decisão comum provocada pelo aglutinamento em torno dessa idéia em face da campanha que, com a penetração desse canal de televisão, atinge as partes mais remotas do nosso País.

Uns fingirão que não é com eles. Dirão que o cigarro é sua companhia.

Outros tentarão parar mas não conseguirão.

É bom saber (especialmente quem quer parar de fumar mas não consegue) que uma ajuda médica pode ser decisiva, pois há remédios que atuam no sentido de dar um reforço à intenção de não fumar mais, como a bupropiona, freqüentemente aliada a adesivos de nicotina.

Porém, o mais importante é a tomada da decisão de parar de fumar.

Essa decisão pode decorrer do reconhecimento de que se trata de um vício prejudicial à própria saúde e que pode atingir até mesmo os filhos, familiares e quaisquer outras pessoas, transformados em fumantes passivos; mas também por vezes se dá pela revolta do indivíduo de ser dominado por uma força capaz de levá-lo a, na falta do cigarro, pegar uma ponta no chão da rua para saciar sua compulsão. Diria Bóris Casoy: – É uma vergonha!…

Eu, que fumei por uns trinta anos e já parei há uns vinte e seis, recomendo: -  Parem agora! Minha saúde mudou para muito melhor, meu vigor aumentou, minha capacidade respiratória é cem por cento e me sinto um vitorioso.

Afora isso, economizei mais de cinqüenta mil reais…

Vão nessa, fumantes!

ENCONTROS

Vidas que se cruzam, parece nome de filme, mas é o que, de verdade, acontece neste nosso mundo, o tempo todo, histórias se confundindo, enredos se entrelaçando, construindo o romance de uma era ligada a outra. Somos o que somos, o que vivemos, o que está acontecendo, mas não desligados do passado, mais remoto, que vem lançando os fios desta teia que se projeta para o futuro.

Daqui a dez mil anos, assim como nossos antepassados de cem séculos nos construíram, estaremos presentes nas células dos corpos de todos os seres que nos sucederem, do mesmo modo que na estrutura das plantas, nas águas dos rios e dos mares, na terra, no ar.

Somos tudo e não somos nada. Cada partícula que nos compõe esteve, há bilhões, trilhões — uma infinidade — de anos, perdida no funil de tempo e de espaço do Universo, vagando pelo Cosmo, separadas umas das outras por distâncias inimagináveis, compondo nebulosas, formando estrelas, que iluminaram mundos, explodiram, recomeçaram o seu interminável trabalho, quantas e quantas vezes?, e juntaram-se para constituir este corpo.

Assim Carminha olhou para o espelho e admirou sua imagem, a beleza morena, os lábios expressivos, olhos profundos. A juventude da pele deu-lhe uma sensação de vigor, um quê superior, que impelia para a vida lá fora.

Enquanto isto, Borges escrevia. Ele não pensava nessas coisas, nem no burburinho das ruas. Sentia-se solitário, enquanto tirava os olhos do papel e observava a claridade entrando pela vidraça. No fio da rede de energia elétrica, alguns passarinhos remexiam-se, nervosos, agitados, trinando. Uma pedra abateu um deles. Borges levantou-se e olhou pela janela. Um menino segurava uma atiradeira numa mão e na outra agasalhava o passarinho, barriguinha para cima, a cabeça pendida, balançando-se. Ele, o menino, não entendia aquilo. O passarinho estava morto. Pela primeira vez Borges e o menino compreendiam a morte. Os olhos de ambos marejavam de lágrimas. Borges voltou para sua escrivaninha e deixou a cena.

O que acontecerá com Borges e Carminha? Qual a distância que neste momento os separa?

A sirene do carro de patrulha agita os ares e as pessoas. Automóveis sobem na calçada para dar passagem ao insistente gemido. Dentro, Moacir agarra o fuzil com as duas mãos e cerra os dentes. Ele está apavorado, mas ninguém há de notar. Gostaria que o trânsito se tornasse impenetrável, mas os veículos à frente se viram e vão abrindo caminho para o terror, para a morte. À frente, um tiroteio na certa, com os traficantes muito mais numerosos e bem armados. Mas o Sargento Gracinha, como o chamam pelas costas, odeia covardes. Quer todo o mundo se apresentando, atirando, se oferecendo às balas. Carminha está passando quando é retirada de seus pensamentos pela balbúrdia. Gente se joga no chão, se esconde atrás de carros, de postes, do que for, para escapar do tiroteio. Moa passa correndo, esbarra nela, quase a derrubando. Ele sobe, com um grupo, pelas vielas da favela. Rostos surgem das quinas e das janelas dos barracos e desaparecem rapidamente. Todas as portas se fecham, crianças choram, mães gritam desesperadas, as balas comem, granadas explodem. Moa está em um beco, ouve um tiro às suas costas, sente um calor no tórax, não compreende nada, seu peito mina um líquido grosso, quente, muito, muito vermelho. Vira-se. O cara continua apertando o gatilho, mas não sai mais nada. O cara está apavorado. Moa não pensa, só atira. Sempre odiei, pensa ele, enquanto entra em choque, ser chamado de Moa. Meu nome é Moacir! Moacir! Moacir, grita a sirene da ambulância, enquanto sua cabeça gira.

Talvez não tenha nada a ver com tudo isto o fato de um grupo de executivos estar almoçando num restaurante sofisticado quase à beira da Lagoa. Nem se pode dizer que tudo está acontecendo no mesmo momento, nem no mesmo lugar. As pastas pretas no chão, encostadas aos pés das cadeiras, estão abarrotadas de documentos, notas, projetos, sonhos de sucesso. Dentro delas, esquemas para derrubarem-se uns aos outros, atingirem metas, ganharem percentuais, garantirem o emprego, conseguirem muito, muito, mas muito dinheiro mesmo, além de terem as contas pagas, o combustível e o telefone liberados, o cartão com um amplo crédito para os gastos diários. Coisa boa. Riem-se muito e apostam quem ficará com a Dany. Que está noiva e que ama Marino, que corresponde.

Marino toca na noite, acompanhando um casal que canta divinamente, mas que não consegue uma oportunidade de gravar. Nessa noite, não exatamente aquela, daquele dia, mas numa noite qualquer, enquanto Borges telefonava para pedir que lhe entregassem uma pizza, Moacir estava na unidade de terapia intensiva tentando sobreviver aos ferimentos. Carminha mancava, com a coxa ralada no muro chapiscado, pelo esbarrão. Num quarto escuro, um menino molhava o travesseiro com suas lágrimas por um passarinho morto. Acreditava, queria acreditar, que o espírito da avezinha voava alegremente nos céus do Paraíso.

Vejo as águas da cachoeira rolarem borbulhosamente pelas pedras, fazendo um chiado gostoso, frio, como parte deste mundo, deste Universo de nêutrons, prótons, elétrons, partículas atômicas sem fim, rolando pela imensidão numa bola de terra e água, azul, que vai para não se sabe onde, como se caísse num buraco imenso, num poço sem fundo, acompanhado de uma miríade de sóis e estrelas que ignoram para onde vão, tragados pelo tempo e pelo espaço.

Borboletas, pássaros, aves, minhocas, gatos, feras, peixes, bois, cachorros e cavalos, tudo misturado, cidades e florestas, campos e mares, montanhas e gelo, esperando que a história aconteça, que as pessoas se encontrem, que seus destinos se entrelacem, enquanto os astros se movem. As fábricas produzem seus gases poluentes, os carros lançam venenos nos ares, os esgotos estragam as águas e destroem toda a vida, escreve Borges. Onde iremos parar? E as gerações futuras? e Carminha? e Dany? e Marino? E Moacir? E — que ele não nos ouça — o Gracinha? e o garoto que Moa — droga, não me chame assim! — fuzilou no beco? e eu? E o menino que matou o passarinho e chora sem parar?

Os objetos e os acontecimentos realmente estão amarrados como o cenário e o enredo de uma novela, um novelo, uma corda enrolada. Nada é separado de nada, tudo tem conseqüência sobre todas as coisas, embora resulte em coisa alguma, pois, em dado momento, nada mais restará, daqui a anos, bilhões de anos, quando os diversos universos, que vagam pelo espaço, em rota inevitável de colisão uns com os outros, se encontrarem e explodirem. Aí, não tem Borges nem passarinho, apenas as cinzas.

A última coisa que se pôde ver foram os executivos saindo do restaurante, cada qual com sua pasta na mão, rindo-se, despedindo-se, pegando os carros, dando uma gorjeta para o manobrista e indo embora.

Não ficamos sabendo o nome deles, nem do manobrista. Como todos os demais, estarão com seus átomos, com suas partículas subatômicas, com os elétrons de suas pastas e de seus documentos, com a energia que restar da matéria das solas dos seus sapatos e do suor de suas meias, presentes naquela nebulosa que, um dia, será a poeira das estrelas.

UM OÁSIS DE SOLIDARIEDADE SEM GABIRUS

Desde 1992 existe um oásis para crianças pobres em São Sebastião, noDistrito Federal, que subsiste à custa dos esforços de um grupo de pessoas abnegadas que prestam serviços ou fazem doações para a sua manutenção.

É um trabalho extraordinário que merece a adesão de quem possa contribuir com qualquer importância, sendo que com a chegada do Natal as colaborações se transformam em alegria para esses pequeninos.

Conheço os dirigentes, são pessoas da maior seriedade.

Quem quiser doar pode fazer seu depósito no Banco do Brasil, agência 2881-9, conta-corrente nº 60987-0.

Utilizando as dependências da antiga LBA, um grupo de voluntários de boa vontade fundou  a OASIS – OBRA DE ASSISTÊNCIA À INFÂNCIA E À SOCIEDADE, mantenedora da creche Bem Me Quer. Desde então atende cerca de 1000 crianças e suas famílias, aquelas em creche convivencial e essas com programas de apoio psicológico e de cursos de culinária, artesanato e alguns profissionalizantes  (garçom, cabeleileiro etc). Quem quiser conferir antes de fazer sua contribuição aí vão as coordenadas:

A creche Bem Me Quer fica na Rua 42, lote 420, Setor Tradicional, São Sebastião, DF.

Possui a documentação de CNPJ, Utilidade Pública Federal, Utilidade Pública Distrital, CNAS, CAS e CDCA.

Contatos da Creche: César e Nelma, pelo telefones  (61) 3335-3107, pelo fax: (61) 3248-4798 ou pelo e-mail: crechebemmequer@gmail.com, podendo-se também acessar o site Creche Bem Me Quer

Quem quiser ajudar com qualquer valor pode estar certo – eu garanto: sua contribuição não será desviada por nenhum gabiru.

O REI NAGÔ

Ade exultou quando nasceu seu filho Abiade. Levantou-o nos braços para que todos os iorubas o vissem e admirassem.

Ali, onde é a Nigéria, essa criança correria livre e solta com seus companheiros. Mais tarde tornar-se ia um caçador e sem demora indicaria os caminhos ao seu povo.

Para Abiade o amor trouxe a suprema felicidade quando conheceu ainda pequeno a linda Ifetayo, com quem se casou, até que a desgraça caiu sobre seu povo, capturado para ser escravo em terras de onde não se volta mais.

Para onde foi Abiade, ninguém sabe. Conhece-se a história de um rei guerreiro que lutou bravamente contra os invasores, mas a partir daí só lendas, umas que falam de sua morte gloriosa, outras que dizem que transformou-se em um leão, e as que dizem que foi afinal capturado como tantos outros e levado para algum lugar do Brasil.

Ifetayo conseguiu fugir para a floresta, com Adebamgbe no ventre. Foi capturada alguns meses depois e com toda a certeza atravessou o mar e foi vendida na Bahia, onde Adeamgbe nasceu.

Toda essa dinastia tinha a realeza iouruba, ou iorubá, nos nomes dados às crianças, tradição que se manteve até o nascimento de Adeyemi, que ainda tinha o sangue puro de sua nação.

A partir daí, porém, os negros foram se misturando, por força mesmo da miscigenação imposta pelo homem branco, que visava tão somente proles fortes para o trabalho, escolhendo escravos robustos para terem filhos com escravas saudáveis e vistosas, a fim de obter mão de obra da melhor qualidade e escravos de maior preço no mercado, ou pelo próprio uso que os patrões faziam de suas escravas, deitando-se com elas.

Um dia, Vovó Morena sentou Reinaldo no colo e contou para o menino toda a história que vinha da tradição oral de sua família.  Disse tudo com detalhes impressionantes, desde Ade, passando por Adeyemi, chegando a seu pai e sua mãe e alcançando a criança que agora tinha no colo.

Reinaldo, de olhos arregalados, ouviu a declaração final de que tudo aquilo desaguava nele: Reinaldo era um Rei Nagô!

Muitos anos se passaram, sem que um dia sequer Reinaldo se esquecesse de sua realeza. E isso, embora ele mal tenha cursado os primeiros anos escolares, lhe dava um ar de superioridade indisfarçável, que impunha respeito não só dentro de sua comunidade quanto entre a população branca e mulata.

Um dia, terminada a gira semanal, depois de um dia estafante de trabalho braçal, Reinaldo se deitou mais cedo e não conseguia dormir, de tão cansado.

Foi quando uma figura de preto-velho surgiu na sua frente e lhe disse: – Reinaldo,  assume o teu reino, tu és o Rei do Brasil! Para cá veio grande parte da tua nação e o sangue do teu povo corre nas veias da gente desta terra!

Reinaldo não sabia se sonhava, mas tinha certeza de que não dormia! Por fim, teve certeza de que o preto-velho confirmara o que Vovó Morena lhe havia dito, estendendo seu reinado à nova pátria.

Contou tudo para seu primo, advogado recém-formado, que se entusiasmou, gravou o depoimento da Vovó Morena, transcreveu-o e registrou-o em cartório, juntou todos os papéis que pôde – certidões, cartas, recortes de jornais, fotografias, enfim, um maço considerável de provas, e como patrono de Reinaldo entrou com o requerimento na  justiça.

Por mais estranho que pareça, a despeito dos veementes protestos do governo, das alegações quanto à constitucionalidade e legalidade (o Brasil é uma república democrática, não é um reinado…), bem como de todos os elementos trazidos nas contestações, o juiz decidiu que, dada a linhagem real de Reinaldo e tendo em vista a transferência de seu povo para cá, tratava-se não de uma questão jurídica, mas da constatação de uma realidade: Reinaldo era um Rei Nagô.

E considerou que, por via de conseqüência, tendo seu povo sido  trazido da África à força e aqui crescido e multiplicado; e misturado seu sangue de maneira difusa por todo o território brasileiro, de modo que praticamente todos nós temos um pouco de europeu, um pouco de índio e bastante de negro, o pedido tinha procedência.

E deu a sentença declaratória:  Reinaldo Alcebíades dos Santos é Rei do Brasil!

E concluiu: É o  Nosso Rei! Saravá!

P.R.I.C.

Há quem diga que o juiz é do candomblé.

Seja como for, a sentença está valendo, aguarda-se trânsito em julgado enquanto não vem recurso de quem de direito.

Até lá, instalou-se a realeza no Brasil.

Temos rei.

Nagô.

O IMPORTANTE É VENCER

(Conselhos do Dr. Goy aos jovens)

Desde cedo aprendi que o importante não é vencer, mas competir.

Pura falácia.

Melhor dizendo: imprecisão.

Acontece quando se pretende reduzir a verdade a uma frase.

É que o importante é vencer.

Para isso  competimos.

Porém, precisaremos conviver com a derrota.

E por isso não devemos parar de competir porque perdemos.

Porque se o fizermos estaremos abandonando outras coisas que são tão importantes quanto vencer e tão importantes quanto competir, que são “praticar” e “seguir vivendo”.

Na verdade, praticamos para vencer e para vencer é preciso competir.

Até aqui, pensávamos em esporte, mas podemos levar o raciocínio para os demais setores da vida.

Talvez não haja nada mais frustrante do que perder. Perder o jogo, ser derrotado na luta, perder a namorada, deixar de conseguir a vaga.

Se não aceitarmos sermos vencidos, deixaremos de tentar e não nos prepararemos mais para coisa alguma.

Só por isso aceitaremos a máxima de que o importante é competir, sabendo que é uma aceitação conveniente de uma absoluta falsidade.

Minha vontade, quando jogava e perdia uma partida de futebol, era ir em casa, pegar o revólver e descarregar seis tiros na bola. À queima-couro! (dependendo da bola, podia ser à queima-borracha ou à queima-pano).

Felizmente, nunca tive revólver.

Por isso, crianças, lembrem-se sempre de repetir aquela frase – o importante é competir… -  para si mesmos, como um remendo psicológico para a própria inferioridade; e também de dizê-la para os outros como uma afirmação de orgulho ante uma auto-estima ferida e estraçalhada, de modo que a derrota não seja vista como um fracasso total. Assim, dirão: -  Ele perdeu mas está de pé!

Por outro lado, preparem-se para a vitória, nunca para a derrota. Treinem, estudem, pratiquem. Se o alvo é uma conquista amorosa, não se percam em confidências ao próprio travesseiro, vão à luta, procurem aprender a arte da conquista e da sedução.

Quando tratar-se de um jogo ou de um esporte, pratiquem arduamente para ganhar: ninguém se lembra de quem foi o segundo colocado!

Nos estudos, estudem para alcançar o topo, para ser o melhor! Só assim conseguirão as melhores vagas, nas melhores empresas, com os melhores salários.

E assim por diante.

Quando não conseguirem, chorem.

Chorem escondidos.

E jurem que nunca mais serão derrotados.

Afirmem com voz firme e alta, peito inflado: o importante é competir. Enquanto engolem em pensamentos: – Uma ova!

Nunca, nunca mais mesmo, percam, porque sabem:

- O importante é vencer!

Agora que já sabe disso, vá em frente, campeão.

Não me envergonhe!

UARS E OS SATÉLITES PREMIADOS

Há alguns dias esperávamos,  temerosos, a queda sobre nossas cabeças de um pedaço do satélite norte-americano UARS, sigla de “Upper Atmosphere Research”, do tamanho de um ônibus, pesando seis toneladas, que a NASA dizia não causar preocupação, porque a possibilidade de atingir alguém é de uma em três mil e duzentas.

Isso é algo como dizer para mim que eu não me preocupe, porque um satélite, ou um pedaço dele, só me atingirá quando o “três milésimo duocentésimo” satélite cair: esse virá direitinho em cima de mim!

É preciso lembrar a esses cavalheiros que a possibilidade de acertar sozinho na Mega-Sena é de uma em cinqüenta milhões… e tem gente que acerta!

Por esse cálculo de probabilidades, visto “do ponto de vista do satélite”, a loteria dele – isto é, para que ele, o satélite, ganhe o prêmio – é mais favorável para ele acertar alguém do que se ele tivesse preenchido um volante da Mega-Sena, porque ele está jogando um bilhete contra, apenas, três mil e duzentas possibilidades.

Como, dizem, há seis mil quinhentos e quarenta e dois satélites desativados e perdidos, dos nove mil duzentos e vinte e sete que se diz terem sido lançados ao espaço, as chances dos satélites de acertarem a gente são ainda maiores.

Ainda há um agravante a respeito do perigo de pedaços caírem sobre cidades: a velocidade de uma bala de revólver é de mil quilômetros por hora, que é, também, a velocidade aproximada de aviões comerciais a jato. Pense, então, em um ônibus (ou os seus pedaços) caindo na Terra a um terço disso, ou à velocidade de um carro de corrida da Fórmula Um: “Are you kidding me NASA”?

Imagine você, leitor, em uma viagem de avião, sabendo que há milhares de outros no ar, um pedaço de ferro vindo justamente contra a sua aeronave à velocidade de um carro de Fórmula Um…

Penso que o mínimo que a NASA e demais lançadores de satélites artificiais poderiam fazer seria colocar explosivos à prova de impacto nesses artefatos para pulverizá-los antes da queda.

Hoje, quando escrevo, o UARS já caiu, ninguém sabe ao certo onde seus pedaços foram parar.  Em “alguns pontos” do Oceano Pacífico é algo incerto, ainda não foram, felizmente, recebidos chamados de “mayday”.

Estamos certos apenas, você e eu, caro leitor, de que escapamos dessa, assim como saímos ilesos da queda da estação espacial russa Mir, de 135 toneladas, que caiu na Terra em 2001, e do norte-americano Skylab, de 100 toneladas, que caiu em 1979. Os restos da Mir caíram no Sul do Oceano Pacífico, enquanto os pedaços do Skylab se espalharam do Oceano Índico a áreas despovoadas da Austrália.

Sim, mas… e aquele canguru que encontraram todo arrebentado e até hoje ninguém sabe o que foi que  aconteceu com ele?


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa