POR QUE PRECISAM PRENDER O LULA

1) Reduziu a inflação de 12,5% (2002) para 5,91% (2010) ao ano.

2) Aumentou o salário-mínimo para o seu maior patamar em 40 anos, com um aumento real de 74% entre 2003/2010.

3) Reduziu a relação dívida/PIB de 51,3% (2002) para 39% do PIB(2010).

4) Acumulou um superávit comercial de US$ 252 Bilhões (2003/2010).

5) Pagou toda a dívida com o FMI e com o Clube de Paris e o Brasil se tornou credor do FMI.

6) Reduziu o déficit público nominal de 4% do PIB (2002) para 2,6% do PIB (2010).

7) Aumentou as exportações de US$ 60 Bilhões/ano (2002) para US$ 201,916 bilhões/ano (2010) , recorde histórico.

8) Aumentou as reservas internacionais líquidas de US$ 16 Bilhões (2002) para US$ 285 Bilhões (Novembro de 2010).

9) Ampliou o Pronaf ( Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar que se destina a estimular a geração de renda e melhorar o uso da mão de obra familiar, por meio do financiamento de atividades e serviços rurais agropecuários e não agropecuários) de R$ 2,5 Bilhões/ano (2002) para R$ 16 Bilhões/ano (2010).

10) Gerou 15 milhões de empregos formais entre 2003/2010.

11) Reduziu o percentual da população brasileira que vive abaixo da linha de pobreza de 28% (2002) para 6,1% (2010), segundo o IPEA.

12) Elevou os gastos sociais públicos de 0,60 % em 2002 para 15,54% do PIB em 2010.

13) Incrementou a assistência social, com programas sociais inclusivos, como o Bolsa-Família, ProUni (Programa Universidade para Todos (ProUni) criado pelo governo federal em 2004, que oferece bolsas de estudos, integrais e parciais (50%), em instituições particulares de educação superior, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, a estudantes brasileiros sem diploma de nível superior ), Brasil Sorridente, Farmácia Popular, Luz Para Todos, entre outros, que beneficiaram aos pobres e miseráveis e contribuíram para melhorar a distribuição de renda.

14) Iniciou novas grandes obras de infraestrutura (rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas, etc) financiadas tanto com recursos públicos como privados. Exemplos: Usinas do Rio Madeira, Transnordestina, Ferrovia Norte-Sul, recuperação das rodovias federais, duplicação de milhares de quilômetros de rodovias.

15) Iniciou a construção de dezenas de Institutos Superiores de Educação Tecnológica (são 214 novas escolas técnicas federais construídas entre 2003/2010).

16) Criou o Reuni, que iniciou um novo processo de expansão das universidades públicas, aumentando consideravelmente o número de universidades, de campus e de vagas nas mesmas (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que tem como principal objetivo ampliar o acesso e a permanência na educação superior. Com o Reuni, o governo federal adotou uma série de medidas para retomar o crescimento do ensino superior público, criando condições para que as universidades federais promovam a expansão física, acadêmica e pedagógica da rede federal de educação superior. Os efeitos da iniciativa podem ser percebidos pelos expressivos números da expansão, iniciada em 2003.

17) Elevou o volume de crédito na economia brasileira de cerca de 23% do PIB, em 2002, para 46% do PIB, em 2010.

18) Criou o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em 2007.

19) Reduziu a taxa de desemprego de 10,5% (2002) para 6,7% (2010)

20)Transposição de águas do rio São Francisco:
“Uma das principais obras do PAC, o Projeto de Integração do Rio São Francisco tem o objetivo de assegurar a oferta de água para 12 milhões de habitantes de 390 municípios do Semiárido Nordestino, distribuídos entre os estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.O empreendimento é dividido em dois eixos – Leste e Norte – e conta com investimento de R$ 8,2 bilhões. São 470 km de canais, túneis, aquedutos e barragens. São ainda 38 ações socioambientais, como o resgate de bens arqueológicos e o monitoramento da fauna e flora, num investimento total de quase R$ 1 bilhão. A obra emprega 11 mil trabalhadores. : “O sertão nunca mais voltará a ser motivo de estudos sociais para medir a fome e a miséria. O sertão vai fazer parte do Brasil desenvolvido”, disse Lula.

21) PAC – 2007 a 2009: “Obras estruturantes na área de recursos hídricos – Somado à integração do São Francisco, são R$ 33 bilhões para obras que vão garantir a tão sonhada segurança hídrica no Nordeste.
Os investimentos do PAC na construção de adutoras, estações de tratamento e reservatórios de água são realizados em parceria com governos estaduais e municipais e setor privado. De 2007 a 2009, o programa contratou R$ 9,3 bilhões para executar 3.045 empreendimentos, para ampliar e melhorar os sistemas de abastecimento de água de 1.596 municípios de 26 estados e Distrito Federal.”

22) Lula trouxe a Copa do Mundo de Futebol 2014 para o Brasil.
Além do afluxo de turistas estrangeiros, trazendo divisas para o Brasil e aquecendo a indústria hoteleira, criando empregos temporários e incrementando o comércio em geral, o evento determinou a recuperação e construção de estádios e determinou a ampliação das obras da chamada “mobilidade urbana”, frutos dos quais muitos estão aí; e se nem todas foram concluídas deverão sê-lo e as que estão prontas já representaram uma melhora no setor para a população.

23) Ao trazer a Copa do Mundo de Futebol 2014 para o Brasil, Lula sabia que seria preciso ampliar a estrutura aeroportuária e não deu outra: aeroportos foram objeto de concessão para o setor privado e foram investidos de 2011 a 2014 onze bilhões e trezentos milhões de reais, aquecendo o setor de obras, criando empregos e ampliando em 70 milhões de passageiros por ano a capacidade dos aeroportos.

24) Lula trouxe as Olimpíadas de 2016 para o Brasil. Repete-se aquela conversa: construção da vila olímpica no Rio de Janeiro, incremento do setor de obras, criação de empregos, entrada de turistas estrangeiros, plena ocupação de hotéis, mais empregos para hotelaria e comércio, desenvolvimento do esporte nacional, utilização de estádios preparados para a Copa de 2014 pela Olimpíada… etc!

25) Lula e as concessões, que os opositores chamam de privatizações, confundindo institutos diferentes (é como confundir “calúnia” com “difamação” que se parecem mas não são):
O governo Lula concedeu à administração privada 2.600 quilômetros de rodovias federais.

26) Algumas privatizações na época do Lula:

1 – Banco do Estado do Ceará;
2 – Banco do Estado do Maranhão;
3 – Hidrelétrica Santo Antônio;
4 – Hidrelétrica Jirau;
5 – Linha de transmissão Porto Velho (RO)–Araraquara (SP);
6 – Alguns campos da bacia de petróleo do pré-sal descoberta em 2006, a exemplo do Campo de Libra.

27) Lula e o Índice de Gini (criado pelo matemático italiano Conrado Gini, é um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo).Ele aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.
No governo do Lula, ou melhor, de 2003 a 2011, a desigualdade, ou a concentração de renda, caiu 9,22%, resultado considerado muito bom.

28) No governo Lula o poder de compra de cestas básicas dobrou em 2010, alcançando o patamar de 2,17%, ou seja, cada cidadão já podia comprar duas cestas básicas com o mesmo rendimento.

29) “A Justiça Federal, que, em 2003, tinha cerca de 100 Varas em todo o País, chegou a 513 Varas, em 2010. Ou seja, 413 novas Varas da Justiça Federal, com um juiz titular e um substituto, foram criadas nesse período, no período do Governo Presidente Lula”.

30) Total das operações da Polícia Federal de 2003 até 2011, durante os oito anos de Lula: 1.273.
Isso ocorreu porque a Polícia Federal foi fortalecida nessa época.

31) Segundo o UOL, ao deixar o cargo de presidente dia 1º de janeiro de 2011, Luiz Inácio Lula da Silva legou, em oito anos de governo, avanços nos setores de economia e inclusão social, com índices históricos de crescimento econômico e redução da pobreza.
Isso anda meio esquecido agora, na fase da perseguição ao grande estadista.

32) É O GLOBO QUE DIZ: a taxa de mortalidade infantil caiu no Brasil, de 2003 a 2012, 47,6% (sendo que no Nordeste a diminuição foi de 50%).
Para saber mais: de 1990 a 2012 essa taxa caiu 75%.

33) A taxa de juros que já fora, anteriormente, entre 38% e 25%, comportou-se no governo do Lula da seguinte forma:

09/12/2010 – 19/01/2011 =10,75
10/12/2009 – 27/01/2010 = 8,75
11/12/2008 – 21/01/2009 =13,75
06/12/2007 – 23/01/2008 =11,25
30/11/2006 – 24/01/2007 =13,25
15/12/2005 – 18/01/2006 =18,00
16/12/2004 – 19/01/2005 =17,75
18/12/2003 – 21/01/2004 =16,50

34) O Brasil era a 15ª economia quando Lula assumiu o governo. Em 2010, quando ele deixou o governo, o Brasil era a 7ª Economia mundial.

35) evolução do PIB no governo do Lula:

PIB (nominal)e Tamanho do Crescimento (real) *

2010 – R$ 3,887 trilhões – 7,6%
2009 – R$ 3,328 trilhões – -0,2%
2008 – R$ 3,108 trilhões – 5,0%
2007 – R$ 2,718 trilhões – 6,0%
2006 – R$ 2,410 trilhões – 4,0%
2005 – R$ 2,172 trilhões – 3,1%
2004 – R$ 1,959 trilhão – 5,7%
2003 – R$ 1,720 trilhão – 1,2%

* Nota: Ao dividir o PIB de um ano pelo ano anterior não resulta o valor do crescimento. Isto se deve à diferença entre o PIB nominal e o PIB real que desconta a inflação. O tamanho do crescimento é medido pelo PIB real que desconta a inflação.

COISAS QUE A MENTE HUMANA AINDA NÃO É CAPAZ DE ENTENDER

A mente humana, assim como a desumana, não pode entender o infinito.

Por mais que se pense, e por mais que a Amanda Dutra afirme, em música que compôs e canta, que o Infinito é Aqui, quem sabe imaginando que tudo vem de lá para cá e aqui se acaba, ou coisa parecida, o nosso cérebro não compôs ainda uma idéia adequada disso.inf

Enquanto raciocinamos sobre essa coisa incompreensível, ficamos tentando entender por que é que o Otávio tenha desmentido que a saída do Raul Gil do SBT tenha intervenção dele, Otávio Mesquita.

Desculpem, houve um engano, não era sobre esse Otávio, era o outro!

De fato, a questão difícil de entrar no cérebro humano foi a de que o Otávio, não aquele, mas o empreiteiro Otávio Marques de Azevedo, disse que tinha dado um cheque de um milhão de propinas para a campanha da Dilma, mas quando foi provado que o cheque não foi dado para a Dilma, mas para o Temer, ele disse que era mentirinha e que o cheque não era de propina, nada a ver com fundo de gaiola de passarinho – era limpinho.cp

Tudo bem, mas o infinito aí está, continuando a nos assombrar enquanto o Cerveró vem agora e diz que não foi indicado para o cargo na Petrobras pelo Lula, afirma que nem conhecia o Lula naquela época, e garante que antes da nomeação não fez nenhum acordo de sacanagens para ser nomeado, embora em depoimento no dia 8 de novembro Cerveró tivesse dito que Lula o teria indicado ao cargo de diretor financeiro na estatal, em 2008, como agradecimento pela atuação dele pelo perdão de uma dívida de R$ 12 milhões do PT, junto ao banco Schahin, com recursos de um contrato da estatal.

Minha mente volta para o infinito, mas… outro mistério da existência me assombra! É comum afirmarem uns e outros que o juiz Sérgio Moro não erra, tanto assim que suas decisões em geral não são reformadas pelas instâncias superiores. Isso seria uma aberração no universo de acertos e erros, acertos e erros que parecem gerir a própria evolução da natureza! Isso seria uma garantia de que é melhor nem perder tempo com recursos, porque o recorrente não teria chance contra a infabilidade desse personagem. Mas o mistério da existência vai permanecer misterioso, porque o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) absolveu agorinha mesmo, dia 23 de novembro de 2016, dois executivos da empreiteira OAS condenados em primeira instância pelo juiz federal Sérgio Moro, na Operação Lava Jato, o Mateus Coutinho de Sá Oliveira, que havia sido condenado a 11 anos de prisão, e o Fernando Augusto Stremel Andrade a quatro anos em regime aberto, porque, segundo a decisão que os absolveu, restaram “dúvidas razoáveis sobre sua atuação no esquema”.cp2

Retorno ao infinito concentrando-me no fato de que Paulinho da Viola disse: – Quem sabe de tudo, não fale! Quem não sabe de nada, se cale!

Ele, Paulinho esse, não aquele outro, queria silêncio, pois naquele momento ele ia fazer um samba sobre o infinito. E fez.

Mas, então, aquele outro, o Paulo Roberto Costa, considerado o maior operador da corrupção na Petrobras, sabe e fala?! Ontem, 23 de novembro de 2016, ele prestou depoimento perante a Justiça Federal de Curitiba aquela, disse nunca ter tido nenhuma reunião sozinho com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, muito menos qualquer conversa a respeito de atividades fraudulentas, negou qualquer intimidade com Lula, negando inclusive ser chamado por Lula pelo apelido de “Paulinho” (como se publicava a torto e a direito por aí, tentando-se estabelecer uma amizade de infância entre eles).

Ora, direis ouvir treze estrelas? Ter-se-ia perguntado a Pedro Barusco, outro envolvido nas falcatruas da Petrobras, procurando-se visualizar uma relação entre os versos de Bilac e o PT com alguma falta de senso. Mas… Pedro Barusco, também não fez qualquer acusação pessoal contra Lula.

Não, não vou falar aqui de “power points” nem de ex-amigo que tenha ouvido dizer e que vende o peixe pelo preço que comprou.

Vou apenas começar a notar que, afinal, o infinito talvez seja ainda mais compreensível do que este texto e do que essas coisas, sô.

cp3

FAZENDO PARTE

Em anos anteriores, fiz campanha de Natal para a doação, em dinheiro, para entidade beneficente que atende a pessoas desamparadas, idosos, gestantes e, especialmente, crianças – a OASIS, que é uma obra de assistência social administrada por pessoas abnegadas que o fazem sem qualquer outra remuneração que não seja a satisfação de estar ajudando o próximo.

Agora a OASIS e outras duas entidades estão sendo objeto de uma campanha de solidariedade agrupadas em um único projeto, que já funcionou em exercícios anteriores.

Trata-se de realização séria, que oferece, passo a passo, a demonstração dos resultados e, ao final, apresenta a demonstração do apurado e comprova a entrega total do dinheiro às entidades destinatárias.

Por isso, uso este espaço no Jornal da Besta Fubana para pedir doações para a campanha NATAL SOLIDÁRIO. Não precisa ser muito; a soma de vários dez ou vinte reais resultará em alguns milhares de reais que farão toda a diferença para os necessitados.

O organizador dessa campanha é o jovem André; e os dados para o depósito bancário são:

Banco do Brasil (nº 001)
Agência: 5190-X
Conta Corrente: 27593-X
CPF: 536.870.191-87
Titular: André G S Assumpção

Desta vez o André criou uma página no Facebook, onde podem ser encontradas mais informações – (Clique aqui para acessar)

As organizações beneficentes e não governamentais que receberão a ajuda são a Casa da Vó Amparo, na Ceilândia, a Creche OASIS, de São Sebastião, e o Abrigo Dos Excepcionais de Ceilândia, todas no Distrito Federal.

Pode ter certeza: nossa ajuda faz toda a diferença.

fn

SOBRE O DIREITO DEMOCRÁTICO DE CRITICAR JUÍZES E SUAS DECISÕES SEM OFENDÊ-LOS

A par de ofensas graves, feitas por fanáticos, ou de descuidos verbais, como o produzido pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que constituem exceções, convém estarmos atentos à possibilidade de influências capazes de comprometerem o equilíbrio em determinadas ações – que envolvem investigações (por exemplo, pela Polícia Federal), que envolvem os desdobramentos dessas investigações, tais sejam as análises dos dados, fatos, provas e elaboração de denúncia (por exemplo, pelo Ministério Público) e que envolvem o próprio julgamento, consistente na avaliação dos elementos do processo judicial decorrente, o convencimento e a sentença (por exemplo, por um juiz federal) – e por isso cuidarmos de fazer críticas e observações pertinentes (e, até, impertinentes…).

Antes de mais nada, tenho que adiantar que, como observador desvinculado, diretamente, de determinados fatos, não disponho de legitimidade para praticar determinados atos em certos processos – o que elimina a possibilidade de neles agir como parte.

Assim, não poderia, por exemplo, entrar com algum recurso a respeito da ação da Polícia Federal no Senado, determinada por uma ordem judicial que, se inepta, deve invalidar o procedimento.sm

Entretanto, é de todos o direito de vir a público fazer críticas e, até, de declarar o convencimento, prévio a alguma decisão final superior, de que a medida feriu a Justiça (no caso da ação no Senado, decisão definitiva do STF, pelo andar da carruagem).

Nesse caso específico, do Senado, manifestei meu convencimento da inépcia da ordem ou autorização judicial; e se estava errado na avaliação, deverá estar equivocado também o ministro Teori, do STF, que… considerou, em decisão monocrática, ter havido usurpação de competência e, assim, suspendeu o processo e mandou que seja enviado para o Supremo.

Enfim, alguém nessa oportunidade pôde usar e usou recurso próprio, acionou a instância adequada e o ato do juiz foi impugnado, com as conseqüências disso.

Se recurso não tivesse ocorrido, muitos de nós teríamos gritado, reclamado, criticado, manifestado opinião contrária ao ato do juiz e de suas conseqüências, sem que houvesse nisso qualquer ofensa ao Meritíssimo, mas… as ações excessivas permaneceriam válidas!

Estou chegando lá onde pretendo chegar.

Em um clima diferente do atual universo social, político e judicial, deste nosso grave momento histórico, talvez o juiz não tivesse se sentido apto a dar tal ordem – aquela, de invadir o Senado.

Esta a filigrana que nós, que estamos de um lado da política, neste momento crucial, estamos considerando cuidadosamente, ao acompanharmos os processos que envolvem personalidades importantes da nossa política, como, por exemplo, o ex-presidente Lula, para apontar, quando parece surgir, a noção de que algo parece estar interferindo nas tendências gerais, quando da avaliação dos elementos que têm gerado processos judiciais, interferência que por vezes surge claramente desde os atos iniciais, como as operações policiais, passando pelas atividades do Ministério Público, podendo interferir, mesmo, na fase judiciária, seja pela forma como o processo chega ao juiz e aí se desenvolve, ou – ouso afirmar – pela interferência, que prefiro considerar seja em geral inconsciente, na avaliação e decisão do juiz.

Mais do que eu, qualquer juiz deve convir que tanto é possível julgar um mesmo processo de maneiras diametralmente opostas, que, por vezes – e não são poucas – processos idênticos obtêm sentenças diametralmente opostas em juízos diferentes, às vezes praticamente ao mesmo tempo (é mesmo para evitar a profusão desses casos que existe a uniformização forçada da jurisprudência, pelas súmulas vinculantes…).

Não é surpreendente que muitos – eu inclusive – mantenhamos, hoje, um grau de desconfiança na imparcialidade dos julgamentos que envolvem políticos, muito particularmente dos que têm estado acima de quaisquer suspeitas, mas que vêm sendo envolvidos de modo suspeito.

Se alguém protestar contra nossa desconfiança, logo haveremos de argüir o caso emblemático da conhecida “espetacularização” feita recentemente pelo Ministério Público Federal em denúncia envolvendo Lula, “espetacularização” que contém muito mais gravidade do que a simples acusação, no espetáculo, por crime que não constava da denúncia.

Há mais, muito, muito mais. Mas não devemos, neste momento, nos alongar em levantar e expor tantos elementos que alimentam nossas suspeitas, por desnecessário.

Quero garantir que em momento algum das nossas ponderadas e embasadas manifestações, queixas, críticas, gritas e revoltas pretendemos desrespeitar, agredir, ofender juízes e o judiciário, embora afirme que muito do que está ocorrendo nos processos – das origens mais remotas às delações, das denúncias até as decisões finais – pode, sim, estar sendo eventualmente contaminado por viezes que minam a segurança jurídica.

Como não temos ação, o que podemos fazer é continuar manifestando vigorosamente nossos pontos de vista, aqui e onde pudermos, sabedores de que temos o dever de, com nossas atitudes, colaborar na promoção da conscientização dos agentes envolvidos, para que fiquem atentos não só aos próprios atos, como aos daqueles produzidos nas escalas que lhes são anteriores.

Sabemos que não podemos recorrer nos processos, mas acreditamos que podemos influir beneficamente nesse sentido de promover a disposição à autocrítica e à revisão das crenças arraigadas e das escalas de valores enrijecidas.

Somos apenas meninos ocupando tribunais.

BRASÍLIA, A NOSSA LAS VEGAS

Pelos idos de 2007, Fausto Wolff (*), que foi um dos articulistas do Pasquim, escreveu uma matéria no caderno B do Jornal do Brasil de 28 de julho, intitulada “Dom Bosco fazia a sua fezinha?”, na qual voltava-se a propor uma idéia salvadora da política: – A volta da Capital da República para o Rio de Janeiro.

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Fausto Wolff 

Dizia ele:

– “Tempos atrás escrevi um artigo sobre a necessidade de transformar Brasília numa Las Vegas e transferir o Palácio do Planalto, a vice-presidência, o Senado, a Câmara e os ministérios para o Rio.

Seria mais difícil roubar, porque da Avenida Rio Branco ninguém escapa.

Os maus elementos teriam de tomar uísque no Lidador devidamente encapuzados e seriam rapidamente reconhecidos”.

Ao assim iniciar o texto, ele completa que, na época, recebeu muitas cartas e que uma chamou-lhe a atenção sobremaneira.

Fausto Wolff guardou-a num lugar secreto com um nome secreto no computador dele e é claro que quando ele quis publicá-la não encontrou nem o nome secreto, nem o lugar secreto, que ficaram secretos até para ele.vr

Ele continua – e é aí que eu entro:

– ”Ontem (ou seja, no dia 27 de julho de 2007), fazendo uma faxina neste monstro (o computador) que já me custou dez vezes o que paguei por ele, acabei encontrando a carta-crônica do leitor Goiano Braga Horta, de Petrópolis.

Eis o que ele diz:

(E a partir daí ele transcreveu a carta deste que vos fala)

“À parte o sadismo que parece – mas só parece – transparecer das conseqüências imagináveis de tal reconhecimento, a pergunta sobre a mudança da capital para o Rio reacende um interessante debate que aparecia, vez por outra, aqui e ali, na internet: acompanhei em algumas oportunidades a colocação dessa questão na rede. A proposta era exatamente essa, transformar Brasília em uma cidade-cassino e retornar a sede do Governo Federal para o Rio de Janeiro.

E as justificativas iam além dessa trazida por Fausto Wolff: dizia-se que o poder deve estar onde o povo está; alegava-se que os políticos vivem hoje em uma Ilha da Fantasia, de onde não vêem, não sentem e não reconhecem as necessidades, agruras e angústias do povo brasileiro.

Afirmava-se que, estando lá no Planalto Central, distantes de tudo e de todos, nossos homens públicos podem fazer o que for que a pressão popular não se faz sentir, ao contrário do que acontece em uma cidade como o Rio, ou São Paulo, onde qualquer deslize coloca dezenas ou centenas de milhares de cidadãos às suas portas.

Para arrematar tudo isso (e mais alguns argumentos contundentes), observava-se que Brasília já teria alcançado os objetivos para os quais fora construída. Especialmente o da interiorização, de ‘levar o progresso’ para o centro do País, e que de algum tempo para cá tornara-se auto-suficiente, não dependendo mais da presença dos órgãos federais – a cúpula dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e o que mais os acompanha, – podendo viver do seu comércio, da sua indústria, da sua economia própria.alv

Mas que, para promover o enriquecimento do País, através do turismo e do ingresso de turistas, deveria ser a única cidade desta nossa terra a explorar livremente os jogos de azar, pois Brasília é tão longe que para lá só se dirigiriam aqueles que dispusessem – e aqui o termo é empregado com absoluta adequação – de ‘cacife’.

Assim, a Capital Federal deveria voltar a ser o Rio, com o que se alcançariam outros objetivos, especialmente o de proporcionar aos políticos uma visão mais adequada da realidade brasileira e o de permitir ao povo o exercício da influência cidadã.Ou seja, pressão mesmo!

Bem, isso pode ser um anseio utópico, mas não deixa de ser instigante.

Entretanto, as discussões que vi a esse respeito – como bem convém ao brasileiro – começaram a ficar engraçadas, porque uns diziam que adeririam à idéia desde que a nova capital passasse a ser Niterói. Outros, se fosse São Paulo, e uns poucos se fosse Lajinha, uma cidade minúscula do interior de Minas Gerais. E assim por diante, cada qual defendendo ferrenhamente sua candidata.

Pois que seja! Divaguemos imaginando Brasília como uma Las Vegas à brasileira: alguns palácios da cidade dariam hotéis suntuosos; outros, cassinos e teatros de primeira, e se podem antever os luminosos, a agitação, o rebuliço, os shows internacionais, os reais, dólares, euros e ienes rolando.

Em 30 de agosto de 1883, Dom Bosco, santo italiano, nascido em 1815 e fundador da Ordem dos Salesianos, teve um inspirado sonho que se afirma ter servido para estabelecer a localização de Brasília, de cujo relato temos o seguinte excerto: ‘Entre os paralelos de 15º e 20º havia uma depressão bastante larga e comprida, partindo de um ponto onde se formava um lago. Então, repetidamente uma voz assim falou: … quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível…’

Não fica bem atribuir a um santo a previsão de uma cidade dedicada ao jogo e às diversões mundanas como sendo ‘a terra prometida’.

Mas que a ‘riqueza inconcebível’ e a ‘escavação das minas ocultas’ conferem com o ouro que jorra em uma cidade como Las Vegas, lá isso confere…”.

Pois bom, concluindo: Brasília continua onde sempre esteve, a roubalheira imperou e o povo ficou lá, só olhando, de longe.

(*) Em 1968 Fausto Wollf exilou-se na Europa, onde passou 10 anos, na Dinamarca e na Itália. Ainda no exílio, foi um dos editores do Pasquim, além de diretor de teatro e professor de literatura nas universidades de Copenhague e Nápoles. Faleceu no Rio de Janeiro em 5 de setembro de 2008, aos 68 anos.

DESENHANDO A “BABAQUICE DO GOLPE”

Há quem diga que o impeachment de Dilma Roussef não foi um golpe, mas o resultado de um processo constitucional, legalmente constituído, desenvolvido conforme os preceitos jurídicos, com direito a ampla defesa e tudo o mais.dg

Muitos fatos levam a contestar isso, mas à alegação de que é “babaquice” dizer que houve golpe temos a demonstração inequívoca de que houve, sim.

Não bastasse a expressa declaração de vários deputados e senadores de que votariam pelo impeachment por motivos outros que não a prática de crimes de responsabilidade, a própria votação no Senado, em si, comparando o resultado quanto ao impeachment e quanto à perda dos direitos políticos, deixa claro que que foi dado o golpe, pois se houve crime os direitos políticos tinham de ser também condenados e suspensos por quem votou a favor do impeachment.

Vejamos:

a) Eram necessários 54 votos para determinar o impeachment de Dilma Roussef.

b) Foram obtidos 61 votos dos senadores a favor do impeachment, razão pela qual ele foi decretado.

c) Portanto, houve 7 votos abundantes, isto é, houve sete votos além dos 54 necessários.

d) Isto quer dizer que 54 senadores, mais 7, julgaram, como juízes, que Dilma Roussef praticou crime de responsabilidade – pois é o crime de responsabilidade que pode determinar o impeachment.

e) Porém, dos 61 senadores que votaram contra o impeachment, 18 votaram a favor da manutenção dos direitos políticos e 3 se abstiveram; ou seja, a babaquice do golpe está cabalmente demonstrada: esses 21 (quem diria, Cristóvam Buarque…) votaram pelo impeachment, que decorreria do julgamento de que houve a prática de crime, mas votaram contra a perda dos direitos políticos, confessando que não acreditam que houve crime.

São eles:

CONTRA A PERDA DOS DIREITOS POLÍTICOS

1) Acir Gurgacz – PDT-RO
2) Antonio Carlos Valadares – PSB-SE
3) Cidinho Santos – PR-MT
4) Cristovam Buarque – PPS-DF
5) Edison Lobão – PMDB-MA
6) Eduardo Braga – PMDB-AM
7) Hélio José – PMDB-DF
8) Jader Barbalho – PMDB-PA
9) João Alberto Souza – PMDB-MA
10) Raimundo Lira – PMDB-PB
11) Randolfe Rodrigues – Rede-AP
12) Regina Sousa – PT-PI
13) Renan Calheiros – PMDB-AL
14) Roberto Rocha – PSB-MA
15) Rose de Freitas – PMDB-ES
16) Telmário Mota – PDT-RR
17) Vicentinho Alves – PR-TO
18) Wellington Fagundes – PR-MT

ABSTENÇÕES

19) Eunício Oliveira – PMDB-CE
20) Maria do Carmo Alves – DEM-SE
21) Valdir Raupp – PMDB-RO

f) 20 senadores votaram contra o impeachment.

g) Seria necessário o voto de 28 senadores para decidir contra o impeachment; desse modo, enquanto a favor do impeachment abundaram 7 votos, contra o impeachment desabundaram 8 votos.

h) Se esses 21 traidores da Constituição, da lei, da dignidade e da Pátria tivessem votado corretamente, de acordo com o que ia efetivamente em suas consciências, o resultado da votação a respeito do impeachment seria de 40 votos a favor do impeachment e 41 contra! Não haveria sequer maioria simples!

i) Isso deve bastar para que o Supremo Tribunal Federal, quando for decidir o mérito da ação que Dilma Roussef moveu contra a votação no Senado, dê provimento ao pedido e anule a condenação.

O FALSO E GOLPISTA DEVIDO PROCESSO LEGAL

Em comentário feito a um texto publicado na coluna É a Glória, do JBF – mas não só ao texto em si, como também ao conjunto de comentários feitos pela autora do texto e por inúmeros leitores – o colunista Marcos Mairton faz algumas observações interessantes e que levam a refletir; mas levam a refletir muito particularmente sobre algumas crenças que precisam ser, urgentemente, desmistificadas: – As de que as atuais atividades dos órgãos policiais, investigativos, judiciais e políticos estão-se dando, no presente momento histórico, de forma absolutamente isenta e segundo os preceitos constitucionais e legais em geral, inclusive os processualísticos; e que as apurações, denúncias e julgamentos se dão com absoluta isenção.

– Nada mais equivocado!

Seria excesso de ingenuidade ignorar o clima que o partidarismo imprimiu ao andamento dos procedimentos nas diversas áreas citadas, policial, investigativa, judicila e política.

Se é verdade que o espírito oposicionista se esforça por dar foros de legalidade às suas ações, é forçoso constatar que a aparente correção formal oculta – e como oculta! – os desvios que sob ela se cometem.

Os exemplos das irregularidades nas diversas fases dos processos contra o PT e contra personalidades a ele ligadas, desde Lula a Dilma, passando por figuras de relevo da política, pululam e ululam; mas nos fixaremos em alguns mais recentes, altamente reveladores do que estamos procurando demonstrar.

Assim, abandonando as tentativas de contestar a vitória de Dilma nas eleições, as tendenciosidades nas denúncias do chamado Mensalão, as de envolver o ex-presidente Lula em negócios escusos, a aceitação do pedido de impeachment por Cunha nas condições em que se deu, a pieguice inapropriada na votação do impeachment (impeach”mente”?) – e mais algumas coisinhas que vamos também deixar de lado para irmos direto e incontestavelmente ao ponto, – vejamos dois fatos:

1) O impeachment no Senado: foi sempre insistentemente declarada a obediência aos princípios legais para o julgamento “político” da presidenta Dilma, esforçava-se por alegar que não pode ser classificado de ilegal um julgamento onde são observadas as determinações constitucionais e os princípios legais que regem a matéria, notadamente o da ampla defesa, mas…:

a) grande parte dos julgadores declaravam, muito antes da fase de votação, que seu voto a favor do impeachment já estava decidido, fossem quais fossem os elementos e provas trazidos pela defesa, uma vez que, diziam, a responsabilidade da presidente já estava provada (!);

b) durante e após o julgamento, que decidiu pelo impeachment, senadores declararam – o que deveria determinar nulidade em um julgamento pautado pela constitucionalidade e juridicidade – que a condenação que aplicavam não estava ligada a crimes de responsabilidade, mas, digamos assim (como foi amplamente dito), pelo “conjunto da obra”; ou, trocando em miúdos, a votação pelo impeachment se devia à insatisfação de uma parte dos eleitores com o governo (na verdade, a uma insatisfação dos políticos com a “temporária perpetuação” do PT no poder.

2) Todo o mundo viu, mas foi preciso o Ministro Teori Zavaski puxar as orelhas do Ministério Público Federal para cair completamente a ficha de que Lula está sendo politicamente perseguido pelo MPF. Ao despachar um processo de interesse de Lula, no dia 4 de outubro de 2016, o Ministro criticou a “espetacularização” do MPF ao divulgar as bases da denúncia contra o ex-presidente, disse que ela não era compatível com a seriedade exigida do órgão E NEM COMPATÍVEL COM A DENÚNCIA! Ora, não bastaria essa constatação – a de que, por exemplo, Lula estava sendo classificado como o chefe de uma organização criminosa para, dentre outras alegações, basear a denúncia – para invalidar a denúncia? Contudo, o que se quer aqui destacar é como o “parti pris” está envolvendo policiais, acusadores e juízes no clima de perseguição política, que, apesar de todos os esforços para não deixar patente que isso ocorre, a História pinçará tudo isso, muito mais do que ora verificamos, para mostrar como foi cruel, ilegal e injusto o golpe que os poderosos deram contra a sociedade brasileira, descarrilhando o processo democrático.

Concluo por contestar o ilustre colega do Jornal da Besta Fubana não só quanto ao mérito “in abstrato” (legalidade e justiça dos atos comentados contra o PT, Lula, Dilma e companheiros), como também quanto à pretensa isenção e legalidade material (e até formal!) da denúncia contra o Lula e, mais, da possibilidade de “os prejudicados” terem segurança jurídica de que, sentindo-se prejudicados e recorrendo, obterão análise isenta e imparcial, no atual momento político.

Se o pouco que sabemos dos bastidores, somado ao que se deixa aqui e ali escapar, nos permite uma análise sociológica, política, psicológica e até jurídica da bem sucedida perseguição sistemática de que falamos, pode-se imaginar o quanto de encoberto existe – e suspeitar de quanta ignomínia tem sido praticada para que as oposições atinjam seu intento de alcançar o poder.

Em outras oportunidades, pudemos observar que, historicamente, o “devido processo legal” tem sido contaminado por interferências de ordem religiosa, política, ideológica, sociológica, vale dizer, por interesses do poder dominante ou ascendente, de modo a servir a tais interesses.

Estamos vendo isso acontecer hoje, aqui e agora. E muitos estão servindo, inconscientemente, a esses interesses, sem perceberem que rompem, subrepticiamente, com o Direito.

DILMA CASSADA, MAS NEM TANTO OU VÃO-SE OS DEDOS MAS FICAM OS ANÉIS

CC

Hoje vivemos um momento histórico: o Senado federal cassou o mandato da presidente Dilma Roussef.

61 SENADORES QUE VOTARAM “SIM”, A FAVOR DO IMPEACHMENT:

• Acir Gurgacz – PDT-RO
• Aloysio Nunes – PSDB-SP
• Alvaro Dias – PV-PR
• Ana Amélia – PP-RS
• Antonio Anastasia – PSDB-MG
• Antonio Carlos Valadares – PSB-SE
• Ataídes Oliveira – PSDB-TO
• Aécio Neves – PSDB-MG
• Benedito de Lira – PP-AL
• Cidinho Santos – PR-MT
• Ciro Nogueira – PP-PI
• Cristovam Buarque – PPS-DF
• Cássio Cunha Lima – PSDB-PB
• Dalirio Beber – PSDB-SC
• Davi Alcolumbre – DEM-AP
• Dário Berger – PMDB-SC
• Edison Lobão – PMDB-MA
• Eduardo Amorim – PSC-SE
• Eduardo Braga – PMDB-AM
• Eduardo Lopes – PRB-RJ
• Eunício Oliveira – PMDB-CE
• Fernando Bezerra Coelho – PSB-PE
• Fernando Collor – PTC-AL
• Flexa Ribeiro – PSDB-PA

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DILMA E O DEVIDO PROCESSO LEGAL

Seria cômico, se não fosse trágico, o argumento de que no processo de impeachment de Dilma Roussef não se esconde um golpe político, uma vez que, afirmam os golpistas, o processo está sendo feito de acordo com a Constituição, que – sublinham – prevê o impeachment.

Também alegam que está sendo cumprido o devido processo legal, com ampla defesa e todas as demais garantias legais.

No entanto, independente de acusação e defesa que se fizeram, se façam e se farão, o destino da presidente da república está definido: seu mandato será cassado.PLG

Os votos que o determinarão não se prendem a razões jurídicas e isso transpira das declarações à imprensa dos chamados “atores” desse drama, que declaram seu voto muito antes da fase de julgamento: eles “já sabem” que Dilma cometeu os crimes e por isso votarão a favor do impeachment.

Isso não é incrível? Imaginem um júri em que os jurados declarassem publicamente, antes de concluídas as fases de acusação e defesa, bem como da análise definitiva das provas, que votarão pela condenação do réu!

É claro que esse julgamento seria nulo, independente de o réu ser ou não culpado.

Processo legal? – Acho-te uma graça! Pela noção (até algo imprecisa) da Inquisição na Idade Média, somos informados de que havia, então, um devido processo legal, instituído pelo sistema jurídico da Igreja Católica Romana, mas daí a acreditar que esse era um procedimento isento equivale a crer que são isentos, neste momento político e social do Brasil, os nomes dos que comporão esse corpo de jurados, senadores (desinteressados?!) tais como Aécio Neves, Blairo Maggi, Cássio Cunha Lima, Garibaldi Alves Filho, Ivo Cassol, José Agripino, José Serra se votar fosse, Lúcia Vânia, Magno Malta, Raimundo Lira, Ronaldo Caiado, Tasso Gereissati, Antonio Anastasia, Aloysio Nunes Ferreira, Álvaro Dias e muitos outros, sendo que deixo de incluir nessa lista os nomes de alguns inocentes inúteis que votarão pela fogueira, como Romário e o incrível Cristovam Buarque, este, principalmente, considerado em geral reto e legalista, mas que no momento deixou-se levar pela onda, como um camarão que dorme.

Qualquer tribunal assim composto em um sistema jurídico válido seria imediatamente condenado, dissolvido, invalidado, anulado de pleno direito.

Mas, a hora não é de legalidade, a hora é de aproveitar a deixa, a oportunidade de ouro, para dar um golpe legal – mas ilegítimo.

Digam o que quiserem os que apóiam essa farsa, mas não que está sendo feito tudo dentro da lei, pois acreditar que esse é um processo legal é o mesmo que crer que as bruxas que a Inquisição queimou eram mesmo bruxas.

Da decisão do Senado não haverá recurso e estranham os incautos que dão sustentação ao golpe que a prejudicada tenha recorrido a uma instância internacional, sem se ater ao fato de que não há mais a quem recorrer de um processo nulo mas não anulável internamente.

Espera-se que essa vitória dos golpistas, da qual ninguém duvida, venha a ser uma Vitória de Pirro, mal comparando, que lançará à obscuridade, ao ostracismo, ao desaparecimento da vida política os deputados e senadores que fisiologicamente venderam sua alma.

Nisso serão arrastados, certamente, Michel Temer , Eliseu Padilha et caterva. A História não perdoa os covardes.

O LOBO E A OVELHA OU DILMA E OS LOBOS

Adaptação de uma fábula de Esopo, que não é sopa

Dilma estava bebendo água no rio quando Janaína Paschoal apareceu.

De dentes à mostra ela pôs-se a berrar:

– Sua Dilma porcalhona, vou devorá-la por ter assinado decretos de créditos suplementares sem autorização do Congresso!LO

– Como pode isso ser irregular agora, se em mais de quinze anos isso foi feito e ninguém comeu ninguém por causa disso? – disse Dilma.

– Está bem – disse Janaina, tratando de achar outra justificativa – então vou devorá-la porque soube que no ano passado você pedalou.

– Sim, pedalei, mas andar de bicicleta não é crime!

– Mas eu estou falando de pedaladas fiscais, disse Janaína.

– Porém, está atestado que essas pedaladas, que também foram feitas por alguns de meus antecessores, não constituem crime. O Ministério Público Federal, os peritos do Senado Federal e muitos outros técnicos concluíram que não houve crime! – alegou desesperadamente Dilma.

Janaína, impaciente, vendo que a conversa já ia longe demais pro seu gosto, berrou furiosa:

– Se não houve crime na assinatura dos decretos, nem houve crime nas pedaladas, isso não importa, já combinei com minha matilha que vamos devorá-la de qualquer jeito! Não gostamos de você, achamos você chata, feia e boba, está ocupando a cadeira que desejamos e não queremos perder esta oportunidade de jeito maneira. Prepare-se para ser comida!

MORAL DA HISTÓRIA. Quando as intenções não são boas, não há argumentos convincentes.

ALMANAQUE DO DR. GOYAMBÚ BIGEYES

FRASES DE HOMENS FAMOSOS:

“A crise está tão braba que tem gente cagando pouco para economizar cu.” (Dr. G.B.)

“Se pedalar fosse crime, todo ciclista estaria na cadeia!” (Vânia Russa)

“Duas coisas sem graça para comer: pão sem glútem e mulher sem glúteo” (Jair Boçaunaro)

“Quanto mais poder se tem, mais se perde” (Luzinaço da Cilva)

“O tamanho do pinto não importa para as mulheres, desde que seja grande e grosso” (Loura Mülher)

Não confunda o homem-morcego com o amor cego de um homem” (Robin)

“Todos os dias me oferecem produtos na Internet para eu aumentar o tamanho do meu pênis – e eu me pergunto: – Para que eu iria querer um pênis de mais de vinte centímetros e meio?” (G. Braga)

ADIVINHAÇÃO:

Papai Noel tem sete renas. Enquanto seis carregam o trenó para Papai Noel, voando pelos ares para que Santa Claus entregue os presentes de Natal para as crianças do mundo inteiro, uma rena cuida da contabilidade e por mais que refaça as contas não está conseguindo fechar a contabilidade. O trabalho se torna tão pesado que pelas tentativas da sétima rena de fazer as contas que ela acaba tendo se ser levada às pressas para o hospital. Pergunta-se: O que está ocorrendo para as contas não estarem sendo fechadas pela sétima rena a ponto de ela ter de ser hospitalizada?

Solução: A sétima rena estava com problema de cálculo renal! Felizmente foi operada e passa bem.

POESIA MODERNA PARA CACHORRO:

Eu não tenho um duplex no Guarujá
E nem comprei um sítio em Atibaia
Nunca plantei pé de maracujá
E nem fui de cair na gandaia
Mas se o juiz Sérgio Moro quiser
Dar para mim o que ninguém me deu
Eu aceito tudo o que ele me der
Pois eu não sou nenhum dum Zebedeu
Pode mandar passar a escritura
Que eu aceito de muito bom grado
Mas o juiz parece um gandula
Que quer favorecer no jogo só um lado
Em vez de dar pra mim ele vai dar para o Lula!
Esse juiz é mesmo um bom magistrado…

NÃO IMPORTA SE HOUVE CRIME DE RESPONSABILIDADE

O julgamento de um presidente da república com vistas ao impeachment deveria ater-se exclusivamente ao aspecto jurídico, isto é, de definir a existência, ou não, de crime (de responsabilidade).

O chamado “aspecto político”, que também vem sendo invocado como elemento da apuração, não pode existir como tal; o que se poderia avaliar como “aspecto político” seria somente o fato de tratar-se de um julgamento de um político feito por políticos, mas a lei não autoriza que se considere nada mais do que o crime de responsabilidade para a decisão negativa ou positiva.

O que estamos vendo é, pelo menos, a preponderância, da política: opositores do governo, acompanhados dos oportunistas, votam pelo impeachment, sendo para eles irrelevante analisar a questão jurídica fundamental. Os governistas votam contra o impeachment, e muitos provavelmente não fizeram a análise técnico-jurídica aprofundada dos elementos envolvidos nos decretos e nas “pedaladas”, mas corre a seu favor a regra do “in dubio, pro reu”, aliada ao fato de que o ônus da prova cabe aos acusadores.

A verdade é que, analisando ou não mais profundamente, as opiniões pela existência ou inexistência do crime se dividem, de tal modo que há inequívoca indefinição sobre a realização da tipicidade – dúvida que não poderia favorecer à condenação.

No entanto, Dilma sofrerá o impeachment (a Comissão do Senado hoje mesmo, 6 de maio de 2016, foi favorável ao prosseguimento do processo, o que deverá ocorrer também no Plenário, mesmo sabendo-se que a dúvida procede – ou seja: o julgamento é político, no sentido mais perverso desse termo).

Haja ou não, na substância, crime, isso sequer está sendo objeto de real avaliação por deputados e senadores, de modo que a imperfeição desse julgamento, até o presente, fatalmente passará para a História como uma farsa, um golpe, ou, melhor ainda, como um julgamento que se fez exclusivamente por critérios políticos. E isso não é bom. Pior, é inconstitucional, é injurídico.

E é assim que o argumento de que o impeachment está previsto na Constituição e na lei, as comparações com os processos que correm no poder judiciário, bem como as alegações de que o processo foi instaurado e segue regularmente conforme os procedimentos legais, não servem ao processo de impeachment que estamos presenciando.

Existe um alento, que é a possibilidade de que deputados e senadores, ao votarem na comissão, tenham dado prosseguimento ao processo apenas tomados pela dúvida da existência, ou não, de crime de responsabilidade, encaminhando ao Plenário do Senado a decisão final, considerando-o uma instância mais apurada e analítica, com prazo alargado para o exame detalhado de provas e para o pleno exercício da acusação e da defesa.

É uma esperança, remota, uma vez que as declarações de voto têm sido, em geral, marcadamente políticas, o que parece prenunciar a conclusão do processo.

GOLPE AGORA É BISCOITO

GB

Comenta o Dr. Mamed a respeito do golpe o seguinte:

“Golpe.

Assim como temos a palavra saudade, a jabuticaba, e a pororoca, únicas no Planeta e, quiçá, no Universo ou Multiverso, agora temos também um golpe sui generis.

Um golpe sem armas, sem quebra da Ordem, da Constituição, avalizado pela mais alta Corte, com amplo e irrestrito direito de defesa e contraditório (estranho o golpeado participar do processo de golpe e sair vivo!), com participação ampla da sociedade civil (a verdadeira, não ONGs pagas), das instituições republicanas, no mais absoluto império das leis.

Bom. A NASA precisa mesmo estudar os brasileiros, em especial os petistas, que chamam de golpe isso que estamos vendo.

No estudo da lógica jurídica, aprendi que chamar biscoito de vaca, em absolutamente nada altera a natureza do biscoito. Ele vai continuar com sua mesma composição de trigo, margarina vegetal etc… Jamais vai dar leite ou parir um bezerro.

Então, vão morrer chamando um instituto legal, jurídico, constitucional, de golpe, mas ele não vai produzir uma única ruptura da ordem, das leis, nenhum cadáver, nenhum prédio implodido, nenhum tanque na rua, nenhum preso político (talvez uns políticos presos, mas por crimes comuns), nenhum exilado, nenhum perseguido político, ninguém na clandestinidade).

Então, pode chamar de Golpe à vontade, mas ele não vai dar leite, nem parir bezerro.”

Assim, a partir dessas ponderadas considerações não diremos mais que vai ter golpe, diremos que “vai ter biscoito”. Ou exclamaremos que “vai ter vaca”!

Tanto faz : – É tudo golpe mesmo!

– Vai ter biscoito!

GB2GB3

ENXURRADA

ENXURRADA DE AÇÕES JUDICIAIS CONTRA GOVERNADORES, DEPUTADOS E SENADORES QUE PRATICARAM IRREGULARIDADES SEMELHANTES AOS ATOS UTILIZADOS PARA PEDIR O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEF PODE LEVAR AO APROFUNDAMENTO DA ANÁLISE DE QUESTÕES JURÍDICAS RELACIONADAS AO PROCESSO DA PRESIDENTE

Uma das questões levantadas pela defesa de Dilma Roussef é a de que as chamadas “pedaladas fiscais”, consistentes no atraso da reposição de valores aos bancos contratados para intermediarem pagamentos de despesas do governo, não constituem crime, por não se enquadrarem, tecnicamente, nas previsões da Lei 1079, de 1950, apelidada de “Lei do Impeachment”, uma vez que não constituem operações de crédito, mas adiantamento de pagamento de despesas contratuais.

A mesma defesa garante, também, que a edição de decretos para a abertura de créditos suplementares não determinou aumento de despesas e que, sendo assim, não houve irregularidade capaz de caracterizar crime de responsabilidade.pnc

Como reforço, nessa contestação feita às acusações referidas, insiste-se em que todas essas práticas vinham sendo comuns tanto no governo federal quanto nos governos estaduais, atuais e anteriores, sem que implicassem na rejeição das respectivas contas; e mais, que quando o Tribunal de Contas da União decidiu, recentemente, pôr reparos a certos procedimentos ora condenados, que vinha aceitando, o governo federal deixou de praticá-los.

E, embora certos fatos não tenham sido incluídos no processo de impeachment, é notório que os que defendem sua aplicação insistem em que os senadores levem em consideração conteúdos da “Operação Lava-Jato”, como afirmou, mesmo, a Dra. Janaína Paschoal, que assinou o pedido de impeachment.

Ao ampliar assim o leque de bases para o impeachment, indo além dos termos do pedido, demonstra-se o afã de condenar ainda que seja necessário, para tanto, basear-se em processos, inquéritos e investigações em andamento e, até mesmo, sabendo-se que neles inexiste o envolvimento da presidente da república que se quer retirar do cargo.

Mas, o que se pretende ora destacar é o seguinte: Digamos que Dilma Roussef sofra o impeachment pela prática de todos os atos relatados no pedido da Dra. Janaína, do Dr. Miguel Reale Júnior e do Dr. Hélio Bicudo e que eles mesmos, ou qualquer outro cidadão, decidam, a partir dessa vitória, ampliar ao infinito seu senso de justiça e abram processos de impeachment contra o vice-presidente Michel Temer e as outras autoridades que praticaram alguns desses atos, acompanhados de ações populares, denúncias, pedidos de perda de mandato parlamentar e seja lá mais o que for contra, dentre outros, os mesmos senadores que decretaram o afastamento da presidenta, pelas variadas irregularidades que pesam sobre suas cabeças.

Como se sabe, o senador Randolfe Rodrigues, na sessão de 18 de abril deste 2016, dedicada a ouvir os denunciantes, fez uma explanação apresentando a edição de decretos de créditos suplementares específicos e pediu, em seguida, a opinião da Dr. Janaína, que defendeu que os créditos suplementares sem a autorização do Congresso Nacional configuram crime de responsabilidade e devem ser punidos com o impeachment; ao que o senador respondeu ficar muito feliz com a opinião dela, porque ela acabava de concordar com o pedido de impeachment do vice-presidente Michel Temer. “Essas ações que eu li foram tomadas pelo vice”, Michel Temer, disse Randolfe (Apenas algumas horas antes ela havia dito que não havia indícios suficientes para pedir o impeachment de Temer…).

Descortina-se um panorama de pânico geral?

Chiiii…

PIEGUICE EXPLÍCITA

O processo de impeachment da presidente da república Dilma Roussef foi admitido e vai ao Senado.

“As ruas”, segundo os apoiadores da continuidade do processo, assim decidiram.

Assistindo à votação, ficou claro que além da decisão das ruas, o processo sobe à Câmara Alta por decisão, também, da maioria qualificada das esposas, dos filhos e dos netos dos parlamentares.

Grande parte deles abriu mão de sua competência, e de sua responsabilidade, transferindo-as para os entes queridos.sw

Além da sessão de pieguice explícita, onde muitos chegaram a declinar os nomes de esposa e prole, ou a cumprimentar a netinha, devidamente nomeada, pelo seu aniversário, ao melhor estilo de programas de auditório, falsearam-se bases ufanistas para mascarar a ausência de fundamento consciente para os votos por assim dizer condenatórios.

Jamais se fariam reparos às expressões que se referissem ao patriotismo, à honra, à ètica, à nonestidade, à defesa de valores e tantos outros predicados que caem bem nos encaminhamentos de voto que defendem ideais.

Mas não basta, em um julgamento de suma importância, tanto pela responsabilização da mais alta autoridade da república por crimes de responsabilidade, quanto pelas conseqüências drásticas do ato, que o voto seja fundamentado apenas no desejo de mudança do comando da Nação, na necessidade de moralização geral, na superação de uma crise econômica, na vontade de experimentar novos líderes: É indispensável que o voto tenha, no caso concreto, razões exclusivamente jurídicas, porque não se pode julgar um criminoso por motivos e intenções que não digam respeito ao crime cometido.

Tudo bem, que se rogue a Deus que derrame suas bênçãos sobre o Brasil e o povo no dia seguinte, em que se pretende que o mandatário do País esteja derrubado; que se invoquem valores, que se realce o relevo da família, que se afirme que a decisão é pelo eleitorado, pelos correligionários, pela região, pela safra agrícola, pela honra e pela Pátria, mas… nada disso poderá substituir a consciência e a certeza de que o que se decide funda-se na lei.

Durante todo o processo, desde a apreciação do parecer do relator na Comissão de Impeachment, até à votação, não houve quem se preocupasse em debater os argumentos da defesa – aqueles que afirmam que não houve operação de crédito nas chamadas pedaladas fiscais e os que asseveram que os decretos referentes a abertura de crédito suplementar foram baixados concorde à lei; sequer se ativeram aos importantíssimos argumentos da fundamentação dos atos em pareceres técnicos competentes e à questão da ausência de dolo.

Decorre disso o caráter puramente político para que fosse alcançada a votação necessária, de um terço da Casa, para o prosseguimento do impeachment de nossa presidente.

Poucos foram capazes, também, de reconhecer que a lealdade partidária e a subserviência ao “clamor populi” podem determinar, se contrárias à lei, um comprometimento definitivo capaz de contaminar negativa e definitivamente a sua vida pessoal e política.

Muitos descumpriram seu compromisso de votar com o governo e essa atitude só é considerada traição pela tibieza moral de quem descumpriu o compromisso – pois uma coisa é mudar de idéia por razões de ideais elevados e outra é fazê-lo para obter vantagens pessoais de qualquer espécie de valor.

Estas considerações não têm o caráter de queixa, de reclamação, de inconformismo, pois sabe-se que a decisão tomada no dia 17 de abril de 2016 pelo Plenário da Câmara dos Deputados é soberana e, certamente, irrecorrível. Quanto a ela, nada há a fazer que não acatá-la, aceitá-la, cumpri-la.

Visam, sim, a encaminhar a esperança pessoal de que o Senado Federal, ao julgar a presidente, ao invés de atender à parcela da população que tem ido às ruas para pedir o impeachment e no lugar de cada senador decidir pela queda da presidente em razão de ligações emocionais com a esposa, os filhos, os netinhos e o cachorro de estimação, apresente ao povo um resultado condizente, sem a menor dúvida, com as provas e sua relação com a lei – para que não se consuma, perante a História, um julgamento ignóbil.

DESISTO: VAI TER GOLPE

Até agora há pouco eu me envolvia em debates acalorados nas redes sociais e em blogues que freqüento, nos quais procuro defender o que creio ser a tese da legalidade, traduzida na frase: – Não vai ter golpe!

Nessas discussões, havia de tudo, de um lado e de outro – desde argumentações lógicas, sólidas, estudadas, baseadas em análises e amparadas em posicionamentos políticos e ideológicos, até à mais pura ingenuidade, passando pela arrogância, pelo ódio, pela desinformação.

Nesse vale-tudo, surgiram muitas informações importantes, inúmeros dados de relevo, uma série de idéias interessantes, ao lado das baboseiras de quem só se presta a atacar com palavras de ódio e xingamentos.

Valia a pena.

Deviam-se pesar os prós e contras e espremer para tirar um caldo, o qual, passado no filtro, podia deixar um resultado positivo, que reforçava umas posições, ou aniquilava algumas crenças.OC

Assim girava o mundo, dentro de um universo de extremas possibilidades. Nelas, tanto poderia ocorrer o “impeachment” da presidenta Dilma Roussef, quanto ser arquivado o processo.

Mas, aconteceram os debates na comissão da Câmara dos Deputados que aprovaria ou não o pedido de afastamento, onde se pôde assistir ao espetáculo da farsa sem máscaras: as posições pela derrubada do governo já estavam tomadas, de nada adiantavam os argumentos de natureza jurídica demonstrando a improcedência do relatório, o resultado haveria de ser, mesmo, puramente político – é hora de tomar o poder, de alijar o PT do comando; e como se sabe, de antemão, que não pode ser pelas urnas, que seja pela força, força disfarçada de legalidade, para não ferir os brios democráticos.

Pouco importavam o teor do relatório, as alegações a favor e contra o impedimento e a defesa do advogado da presidente da república: estávamos diante de um júri previamente decidido a condenar, pouco importando a demonstração da fragilidade das acusações.

Deu-se a votação e, por cerca de sessenta por cento de apoiadores do impeachment, o processo vai ao Plenário da Câmara dos Deputados, onde, por dois terços da composição da Casa Legislativa, poderá ser decidido que o processo prossegue; ou, por um terço mais um, se é arquivado.

Da ida do processo ao Plenário no domingo, 17 de abril de 2016, não restam mais dúvidas: o Supremo Tribunal Federal decidiu que inexistem inconstitucionalidades no curso dos trabalhos da Comissão de Impeachment.

Então, me pergunto: – Para que continuar insistindo na questão irrelevante para os golpistas de que não houve crime de responsabilidade, se isso não interessa para a decisão final?

Pelo andar da carruagem deverá haver golpe. A oportunidade para a política da elite é única. Para apear o governo, juntaram-se condições excelentes, que, embora alheias à hipótese de crime de responsabilidade, não podem ser perdidas. Unidos, os partidos de oposição, a fina flor da sociedade e a imprensa elitista, com o apoio da massa de manobra popular, emprenhada pela propaganda midiática, juntam seus esforços com tal força que parece, a cada dia, mais próxima a sua vitória.

Com isso, os políticos que se pretendem espertos correm para o lado dos que, de acordo com os prognósticos, deverão ser os vencedores. Se o barco está afundando, salve-se quem puder, é o lema.

Respondendo a mim mesmo de que de nada adiantará persistir no combate, resolvi: – Eu desisto!

Como conseqüência da desistência, apaguei todas as postagens políticas das redes sociais de que participo, não aceito mais provocações para discutir o assunto e continuarei deletando as publicações, sejam contra ou a favor. E quem me enviar mensagens pelo correio eletrônico sobre esse assunto já pode ficar sabendo que apagarei tudo e o destino é um só, a caixa de lixo da História.

Apoiado apenas na ridícula afirmação alardeada aos quatro ventos, para otários se convencerem, de que o “impeachment” da presidenta Dilma é legal porque “impeachment” está previsto na Constituição, nada mais é necessário e o resultado é evidente: – Vai ter golpe.

VEJA, É PIG

Em 24 de outubro de 2014 estava nas bancas a revista Veja, mostrando na capa as imagens de Dilma e Lula, com a chamada sensacional: “PETROLÃO – O doleiro Alberto Youssef, caixa do esquema de corrupção na Petrobras, revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público, na terça-feira passada, que Lula e Dilma Roussef tinham conhecimento das tenebrosas transações na estatal – ELES SABIAM DE TUDO.

No nariz de cera, a partir da página 58, a Veja justifica a razão de estar publicando a bombástica reportagem às vésperas da votação em segundo turno das eleições presidenciais, disputadas em 26 de outubro de 2014 entre Aécio Neves, do PSDB, e Dilma Roussef, do PT, para seu segundo mandato.

Veja considerou “um dever” publicar a reportagem, dizendo que seria uma temeridade não fazê-lo, mas esclareceu que “VEJA não publica reportagens com a intenção de diminuir ou aumentar as chances de vitória desse ou daquele candidato”.

Mas, ao mesmo tempo em que diz isso e informa que a reportagem transcreve fatos narrados por Youssef em sua delação premiada, Veja observa que só se poderia “ter certeza jurídica de que as pessoas acusadas são ou não culpadas” quando as provas fossem apresentadas pelo delator e consideradas conclusivas pelo Supremo Tribunal Federal.VP

Porém todavia, contudo, Veja tenta dar foro de certeza de que o conteúdo só pode ser absolutamente verdadeiro, alegando que se a delação for falsa o delator não só perde as vantagens da delação como pode, ainda, ter sua pena acrescida. É assim que Veja garante subrepiticiamente ao leitor (e eleitor!) que a delação é verdadeira. Deve ser verdadeira! Só pode ser verdadeira!

Assim encaminhando para os incautos leitores sua “reportagem”, em dado momento Veja diz que “faltava clarear o lado dos corruptores”, para, em seguida, sugerir que esses corruptores são Lula e Dilma: “Na terça-feira Youssef apresentou o ponto até agora mais “estarrecedor” – para usar uma expressão cara à presidente Dilma Roussef – de sua delação premiada. Perguntado sobre o nível de comprometimento de autoridades no esquema de corrupção na Petrobras, o doleiro foi taxativo:

– O Planalto sabia de tudo!

– Mas quem no Planalto? – perguntou o delegado.

– Lula e Dilma – respondeu o doleiro.”

Veja vai sublinhar, para influir nas eleições (embora diga que não tinha a intenção de fazer isso, mas publicando uma delação absolutamente até hoje sem provas contra Lula e Dilma há dois dias do segundo turno!) que “para conseguir os benefícios de um acordo de delação premiada, o criminoso atrai para si o ônus da prova. É de seu interesse, portanto, que não falsifique os fatos. Essa é a regra que Youssef aceitou. O doleiro não apresentou – e nem lhe foram pedidas – provas do que disse. Por enquanto, nesta fase do processo, o que mais interessa aos delegados é ter certeza de que o depoente atuou diretamente ou pelo menos presenciou ilegalidades”.

Esse era o “dever” da Veja, que ela diz ser o de informar e não influir, exclamando já na capa que naquele momento, há dois dias das eleições, o eleitor podia ficar sabendo que Lula e Dilma eram os corruptores do “Petrolão”, porque um criminoso acabava de “revelar” isso e esse criminoso não seria besta de falar o que não podia provar.

Para se ter uma perfeita, ampla e completa noção da ignomínia praticada por Veja, se o que ora destaco não fosse mais do que suficiente para isso, basta buscar a reportagem e lê-la na íntegra: nas circunstâncias, é um nojo.

Às vezes leio a Veja. É uma boa revista, seria ótima se deixasse de lado o partidarismo golpista (ela e suas ramificações por irascíveis e comprometidos comentaristas televisivos – que abusam do direito de informar, taxando de criminosos, ladrões e corruptos – como se fossem amigos enchendo a cara na mesa de bar – àqueles que odeiam). Como ela publica coisas interessantes nas páginas amarelas, resenhas e comentários de filmes, discos livros, dvds, além de boas reportagens sobre assuntos nacionais e internacionais nos quais sua tendência política não pode interferir, ela nos engana que é uma boa revista (inclusive porque ela consegue aparentar, em épocas menos cruciais, com algumas capas e matérias, ser imparcial e tanto bater lá como cá – mas sua ação em momentos decisivos, como foi o caso exemplar, demonstram seu poder para influir na opinião pública no sentido de seus interesses e convicções).

É hora de concluir para informar que o título do presente texto não chama a atenção para um porco – “pig”, em Inglês – mas para uma imprensa que em dados momentos pode ser porca, em um jogo de palavras com a língua inglesa, e que constitui aqui se convencionou chamar de Partido da Imprensa Golpista.

E o que foi dito aqui e agora, para mostrar o que aconteceu nas eleições de 2014, há de alertar para o que está acontecendo também aqui e agora, quando esse tipo de imprensa pretende derrubar a presidente da república e impedir o avanço de Lula.

Sem a vírgula: VEJA é PIG!

OPORTUNISMO E VIOLÊNCIA CONTRA DILMA E LULA

Ao defender as razões do pedido de “impeachment” da presidente Dilma Roussef perante a Comissão Especial , Miguel Reale Jr. reconhece, dentre outras coisas, que governos anteriores usaram o recurso pelo qual ele quer que Dilma seja defenestrada mas… segundo ele, foi pouquinho, não foi esse montão da Dilma.

Para o jurista, as penas da lei devem ser assim: Se a pessoa furtar mil reais, a pena será de advertência. Até dez mil reais, puxão de orelha. Até cem mil reais, uma semana sem ver televisão. Mais de cem mil reais, tudo bem, vai levar puxão de orelha, ficar duas semanas sem videogame e não me faça mais isso, senão vai ver. Mais de cem mil reais vai irritar o juiz. Se passar de um milhão já pode ser o caso de pegar até uns três dias de cadeia. Agora tem um problema, se o gatuno for do PT aí o bicho vai pegar, é prisão perpétua se o furto for grande, mas se for de outro partido tudo bem, ninguém tá ligando para merreca, desde que seja de um partido legal.

Assim é o fundamento do pedido atual de Miguel Reale Jr.: Pedalada de presidente da república do PSDB, não tô nem aí porque é pouquinho, tipo furtar um pão para comer. Mas se for pedalada da Dilma, eitcha, pedaladão! Impeachment nela!

Ou seja, Reale não entrou com ação para apear os outros presidentes do cavalo porque, naturalmente, não era o caso, então, de oportunismo.ob

Ora, se não se trata de oportunismo, então alguém me explique aí. Porque para mim é oportunismo, sim. O PT cansou o PMDB, o PSDB, o DEM e outros, porque é só fazer uma eleição e pronto! O PT vai lá e ganha! Dezesseis anos ganhando eleição é dose, ninguém agüenta, ainda mais se estiver parecendo que vão vir mais uns quatro de PT pela frente.

O que parece claro é que a oposição vai perpetrar uma violência e para isso conseguiu contaminar uma grande parte da sociedade com mentiras e mais mentiras a ponto de um juiz federal, embora sério e realizando um importante trabalho para a sociedade, deixar patente em suas explicações ao Supremo Tribunal que algumas de suas ações, impugnadas por um ministro da Suprema Corte, basearam-se em, menos que indícios, suposições, que não se sustentam em razões jurídicas, mas na pura prevenção (aqui no sentido comum do termo, é claro).

Chegamos ao ponto do Dr. Janot, Procurador Geral da República, ter opinado, segundo o Jornal Nacional, que Lula deve ser nomeado ministro de estado, por ser uma prerrogativa da presidente da república proceder à nomeação, mas… deve continuar sob a alçada do juiz federal acima citado, o Dr. Sérgio Moro!

Precisarei rever meus conhecimentos do Direito para entender isso… A pessoa ter foro privilegiado garantido constitucionalmente, mas essa garantia constitucional ser relativa, ou relativizada.

Falei de violência e afirmo: O que se quer fazer com Lula, com Dilma e com o PT no panorama atual da política brasileira é uma violência.
Porém, a violência não gera bons frutos.

Como disse Jean-Paul Sartre, o belo filósofo francês do Existencialismo, “a violência, seja qual for a forma pela qual se manifeste, sempre resulta em fracasso”.

A sociedade inteira colherá os frutos do mal que se praticará, caso as elites consigam dar o pretendido golpe.

FLAGRANTES DO MUNDO ANIMAL

Pelo Dr. Goyambú Bigeyes

O Sr. Zebra ia saindo de casa e a Srª Zebra avisou:

– Não esquece de levar a lista!

z

* * *

Nasceu um filhotinho de lula no fundo do mar. O pai lula pegou o filhotinho recém-nascido no colo e com os olhos marejados de lágrimas disse:

– Um dia, meu filhote, em um mundo mais justo, tu poderás até mesmo chegar à presidência da república!

* * *

A Internet expandiu-se tanto que até um jumento abriu uma conta na Internet. Qual não foi sua surpresa ao ver em sua caixa de entrada no e-mail a oferta: “Aumente o tamanho do seu pênis!”

tp

* * *

A Srª Hipopótamo disse para o marido que queria começar um regime, ao que o marido lhe falou carinhosamente: – Não precisa, querida, você já está bem gordinha.

hp

* * *

O elefante resolveu montar um negócio, e como sua tromba servia para jogar água longe e com força resolveu que o negócio seria uma loja para lavar carros. Mal começou o negócio, o elefante foi preso pelo Tarzan na Operação Lava-Jato selvagem.

* * *

O onça brigou com sua namorada, a onça, e devolveu para ela o quadro dela que ela tinha dado para ele, dizendo : – Eu não quero mais te ver nem pintada!

* * *

A girafa foi verificar o seu e-mail e lá estava, na caixa de spam, a mensagem irritante que se repetia quase todos os dias: – Aumente o tamanho do seu pescoço!

* * *

O peixe foi no consultório consultar o Freud e Freud lhe perguntou:

– Qual é o seu problema?

E o peixe respondeu:

– Eu estou me sentindo como um peixe fora dágua…

* * *

Um boi disse para o outro:

– Olha lá, o Malhado está sendo traído pela Mimosa!

– Como é que você sabe?

– Repara bem! Ele não tem chifre!

boi

O ORÁCULO GARANTE: VAI TER GOLPE

Na atual situação política do Brasil criou-se um panorama de “culpa formada”. Nesse clima, tudo já se sabe, todas as culpas estão evidenciadas, não há necessidade de provar-se nada.

Assim, neste momento basta dizer que “Lula não só sabia de tudo como participou das irregularidades” que nada mais precisa ser dito. A prova? Algo como “a verdade sabida”. Um reforço da prova? Quem o diz era líder do governo. Ponto final.

Assim, também, Dilma, presidente do Conselho da Petrobras, “sabia de tudo”, pois um líder do governo, acusado de tentativa de obstrução da justiça, delatou isso porque acredita que sim.

Existe, na apreciação dos fatos e das irregularidades, uma estranha adesão a uma distorcida “Teoria do Domínio do Fato”, que faz com que qualquer suposição a respeito deles dissipe qualquer dúvida sobre a autoria e participação nos ilícitos sob apuração.

Lula já ocupou alguns imóveis cedidos ao candidato Lula e ao Lula presidente da república, sem que jamais o fato de estar, nesses momentos, como o senhor deles, levasse à suspeita de que ele fosse o seu proprietário. No caso do Sítio de Atibaia e do apartamento no Edifício Solaris tem-se como certo que Lula é o real proprietário. Por quê? Por que não for não há como incriminá-lo como destinatário de propinas da Petrobras, dadas na forma disfarçada de serviços nesses imóveis por empreiteiras envolvidas no esquema com aquela estatal.

Para incriminar Lula, tudo é válido, como evidência, inclusive o fato de ele ocupar o sítio como se seu dono fosse. Como assim? Ora, as evidências não podiam ser mais claras: tem pedalinho no laguinho, Marisa comprou um bote para usar no laguinho, Lulas guardou coisas lá, no sítio há objetos pessoais dos dois, o filho do Lula “autorizou” o irmão do dono a levar ao sítio uma certa pessoa para um churrasco, no sítio tem uma reprodução do Cristo Redentor… valha-me Deus! Não há dúvida, Lula não tem o título de propriedade, que está em nome dos seus anfitriões, mas ele é o dono! Está provado! E sendo o dono, certas propinas, cujo caráter e existência também não foram provados, foram destinadas a ele!

O apartamento não é dele, mas… é dele. Ele tinha uma opção de compra de uma unidade no prédio, que dava direito a sua aquisição, ele vistoriou o imóvel, dona Marisa idem, ele desistiu da aquisição, mas o apartamento é dele! Porque se não for dele, supostas propinas envolvidas na melhoria do imóvel não são destinadas a ele, por isso o apartamento tem de ser dele!

Em um grampo telefônico, há duas versões, mas a da presidente da república, embora verossímil, é mentira. A presidente mente. Existe uma outra versão verossímil que compromete a presidente e o Lula? Pois esta é a verdadeira!

Mandado de segurança não é ação própria para certo fim, o ministro pensava assim, decidira assim em outra ação anteriormente, mas agora é preciso decidir rápido que agora vale, antes que alguém o faça em outro processo de modo diferente, portanto, a partir de hoje volta-se atrás e o que não era passa a ser.

Face a essa situação, pela qual todos já sabem de tudo, qualquer suspeita ou suposição é prova, qualquer delação fala por si, ouçamos o oráculo sobre o que irá acontecer a seguir.

– Fale, oráculo:

orc

– Vou falar. Atenção que direi tudo o que irá acontecer:

1) Lula, já está liminarmente decidido, vai para o foro de Curitiba.

2) Moro mandará prendê-lo depressa, acatando o pedido do Ministério Público.

3) O STF voltará do recesso da Semana Santa e confirmará a decisão do ministro Gilmar Mendes.

4) O ato de nomeação do Lula será invalidado.

5) O processo de impeachment correrá rapuidamente.

6) O PMDB abandonará o governo para assumi-lo completamente quando o impeachment for comprovado – sem que Michel Temer seja incluído em perda de mandato.

7) O impeachment será declarado e Dilma perderá o mandato de presidente da República.

8) Temer assumirá a presidência.

9) O PT será afastado de todos os cargos, porque, convenientemente, não tem mais aliança com o PMDB.

10) Lula, em decisão tomada rapidamente, de 1.298 páginas, será condenado por Moro a prisão e a multas, mas não levará nem o sítio, nem o apartamento.

11) Lula perderá os direitos políticos sendo afastado de disputas próximas ou futuras.

12) Em 2018, Aécio Neves, e não Marina Silva, será eleito presidente da república.

– Pronto. Falei.

REALIZAÇÕES DO GOVERNO LULA – 2003 A 2010

Aqui e ali pessoas me cobram o porquê de eu defender o Lula. Outros me chamam de lambe-botas, puxa-saco, vendido, calhorda, canalha e, até, de senhor e de bonito, dizendo que eu merecia estar na cadeia com ele. Eu sempre explico que defendo o governo desse petista safado, porque ele uniu a vontade política à execução dessa vontade, realizando, assim, muitas das coisas que eu esperava de um governo – especialmente as atividades de cunho social.

Eu queria que Lula fizesse, como fez, um governo voltado para o povo, para o pobre de qualquer cor, para o negro maginalizado ; um governo afastado do elitismo.

Eu esperava, ainda, que a economia não fosse prejudicada e, para minha satisfação, ele manteve, nos oito anos de sua administração, comércio, indústria, serviços e bancos em alta.cb

Pois bem, para quem quer saber, defendo o governo do Lula porque Lula, em seu governo, dentre outras coisas :

1) Reduziu a inflação de 12,5% (2002) para 5,91% (2010) ao ano.

2) Aumentou o salário mínimo para o seu maior patamar em 40 anos, com um aumento real de 74% entre 2003/2010.

3) Reduziu a relação dívida/PIB de 51,3% (2002) para 39% do PIB(2010).

4) Acumulou um superávit comercial de US$ 252 Bilhões (2003/2010).

5) Pagou toda a dívida com o FMI e com o Clube de Paris e o Brasil se tornou credor do FMI.

6) Reduziu o déficit público nominal de 4% do PIB (2002) para 2,6% do PIB (2010).

7) Aumentou as exportações de US$ 60 Bilhões/ano (2002) para US$ 201,916 bilhões/ano (2010) , recorde histórico.

8) Aumentou as reservas internacionais líquidas de US$ 16 Bilhões (2002) para US$ 285 Bilhões (Novembro de 2010).

9) Ampliou o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar que se destina a estimular a geração de renda e melhorar o uso da mão de obra familiar, por meio do financiamento de atividades e serviços rurais agropecuários e não agropecuários) de R$ 2,5 Bilhões/ano (2002) para R$ 16 Bilhões/ano (2010).

10) Gerou 15 milhões de empregos formais entre 2003/2010.

11) Reduziu o percentual da população brasileira que vive abaixo da linha de pobreza de 28% (2002) para 6,1% (2010), segundo o IPEA.

12) Elevou os gastos sociais públicos de 0,60 % em 2002 para 15,54% do PIB em 2010.

13) Incrementou a assistência social, com programas sociais inclusivos, como o Bolsa-Família, ProUni (Programa Universidade para Todos (ProUni) criado pelo governo federal em 2004, que oferece bolsas de estudos, integrais e parciais (50%), em instituições particulares de educação superior, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, a estudantes brasileiros sem diploma de nível superior ), Brasil Sorridente, Farmácia Popular, Luz Para Todos, entre outros, que beneficiaram aos pobres e miseráveis e contribuíram para melhorar a distribuição de renda.

14) Iniciou novas grandes obras de infraestrutura (rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas, etc) financiadas tanto com recursos públicos como privados. Exemplos: Usinas do Rio Madeira, Transnordestina, Ferrovia Norte-Sul, recuperação das rodovias federais, duplicação de milhares de quilômetros de rodovias.

15) Iniciou a construção de dezenas de Institutos Superiores de Educação Tecnológica (são 214 novas escolas técnicas federais construídas entre 2003/2010)

16) Criou o Reuni, que iniciou um novo processo de expansão das universidades públicas, aumentando consideravelmente o número de universidades, de campus e de vagas nas mesmas (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que tem como principal objetivo ampliar o acesso e a permanência na educação superior. Com o Reuni, o governo federal adotou uma série de medidas para retomar o crescimento do ensino superior público, criando condições para que as universidades federais promovam a expansão física, acadêmica e pedagógica da rede federal de educação superior. Os efeitos da iniciativa podem ser percebidos pelos expressivos números da expansão, iniciada em 2003.

17) Elevou o volume de crédito na economia brasileira de cerca de 23% do PIB, em 2002, para 46% do PIB, em 2010.

18) Criou o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em 2007.

19) Reduziu a taxa de desemprego de 10,5% (2002) para 6,7% (2010).

20) BOLSA FAMÍLIA – Lula não só « unificou o que já existia », ele criou o Programa Bolsa Família. E ao criá-lo incorporou o que já existia, especialmente os indicados no art. 1º da Lei 10.836, de 2004.
Mas não foi só unificar, como eu antecipei: o Programa Bolsa Família tem inovações e regras para a participação, diferentes das regras existentes, e, além do mais, ampliou bastante o universo de atendidos: em 2009 foram DOZE MILHÕES E NOVECENTAS MIL FAMÍLIAS ATENDIDAS! 12.900.000 multiplicados por três projeta um atendimento a TRINTA E OITO MILHÕES E SETECENTAS MIL PESSOAS! (se tomarmos a média de três pessoas por família).

21) TRANSPOSIÇÃO DE ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO:

“Uma das principais obras do PAC, o Projeto de Integração do Rio São Francisco tem o objetivo de assegurar a oferta de água para 12 milhões de habitantes de 390 municípios do Semiárido Nordestino, distribuídos entre os estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O empreendimento é dividido em dois eixos – Leste e Norte – e conta com investimento de R$ 8,2 bilhões. São 470 km de canais, túneis, aquedutos e barragens. São ainda 38 ações socioambientais, como o resgate de bens arqueológicos e o monitoramento da fauna e flora, num investimento total de quase R$ 1 bilhão. A obra emprega 11 mil trabalhadores. : “O sertão nunca mais voltará a ser motivo de estudos sociais para medir a fome e a miséria. O sertão vai fazer parte do Brasil desenvolvido”, disse Lula.

22) OUTROS RECURSOS HÍDRICOS:

Realizações do PAC na área de recursos hídricos (além da Transposição do rio São Francisco)durante o governo do Lula, que é o de que estamos tratando, de 2007 a 2009:

“Obras estruturantes na área de recursos hídricos – Somado à integração do São Francisco, são R$ 33 bilhões para obras que vão garantir a tão sonhada segurança hídrica no Nordeste.

Os investimentos do PAC na construção de adutoras, estações de tratamento e reservatórios de água são realizados em parceria com governos estaduais e municipais e setor privado. De 2007 a 2009, o programa contratou R$ 9,3 bilhões para executar 3.045 empreendimentos, para ampliar e melhorar os sistemas de abastecimento de água de 1.596 municípios de 26 estados e Distrito Federal.”

23) COPA DO MUNDO DE FUTEBOL 2014 NO BRASIL:

Além do afluxo de turistas estrangeiros, trazendo divisas para o Brasil e aquecendo a indústria hoteleira, criando empregos temporários e incrementando o comércio em geral, o evento determinou a recuperação e construção de estádios e determinou a ampliação das obras da chamada “mobilidade urbana”, frutos dos quais muitos estão aí; e se nem todas foram concluídas deverão sê-lo e as que estão prontas já representaram uma melhora no setor para a população.

24) CONCESSÃO DE AEROPORTOS:

Ao trazer a Copa do Mundo de Futebol 2014 para o Brasil, Lula sabia que seria preciso ampliar a estrutura aeroportuária e não deu outra: aeroportos foram objeto de concessão para o setor privado e foram investidos de 2011 a 2014 onze bilhões e trezentos milhões de reais, aquecendo o setor de obras, criando empregos e ampliando em 70 milhões de passageiros por ano a capacidade dos aeroportos.

25) OLIMPÍADAS DE 2016 NO BRASIL:

Olimpíadas de 2016 para o Brasil. Repete-se aquela conversa: construção da vila olímpica no Rio de Janeiro, incremento do setor de obras, criação de empregos, entrada de turistas estrangeiros, plena ocupação de hotéis, mais empregos para hotelaria e comércio, desenvolvimento do esporte nacional, utilização de estádios preparados para a Copa de 2014 pela Olimpíada.

26) CONCESSÕES NO GOVERNOLULA E PRIVATIZAÇÕES :
aSobre as concessões, que a oposição insiste em chamar de privatizações, confundindo institutos diferentes (é como confundir “calúnia” com “difamação” que se parecem mas não são) pode-se verificar o seguinte:
O governo Lula concedeu à administração privada 2.600 quilômetros de rodovias federais.

E já que falamos de privatizações, sejam elas concessão ou não, tivemos no governo Lula mais as seguintes, entre outras:

1 – Banco do Estado do Ceará;
2 – Banco do Estado do Maranhão;
3 – Hidrelétrica Santo Antônio;
4 – Hidrelétrica Jirau;
5 – Linha de transmissão Porto Velho (RO)–Araraquara (SP);
6 – Alguns campos da bacia de petróleo do pré-sal descoberta em 2006, a exemplo do Campo de Libra.

27) RISCO BRASIL:

Durante o governo Lula o Risco Brasil teve o mais baixo índice já visto na história do nosso País.

28) ÍNDICE GINI E A DESIGUALDADE SOCIAL:

O índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini, é um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo. Ele aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

No governo do Lula, ou melhor, de 2003 a 2011, a desigualdade, ou a concentração de renda, caiu 9,22%, resultado considerado muito bom.

29) PODER DE COMPRA DOS SALÁRIOS:

No governo Lula o poder de compra de cestas básicas dobrou em 2010, alcançando o patamar de 2,17%, ou seja, cada cidadão já podia comprar duas cestas básicas com o mesmo rendimento.

30) AMPLIAÇÃO DA JUSTIÇA FEDERAL:

A Justiça Federal, que, em 2003, tinha cerca de 100 Varas em todo o País, chegou a 513 Varas, em 2010. Ou seja, 413 novas Varas da Justiça Federal, com um juiz titular e um substituto, foram criadas nesse período, no período do Governo Presidente Lula.

31) FORTALECIMENTO DA POLÍCIA FEDERAL:

Total das operações da Polícia Federal de 2003 até 2011, durante os oito anos de Lula: 1.273.

Isso ocorreu porque a Polícia Federal foi fortalecida nessa época.

32) TAXA DE JUROS:

A taxa de juros que já fora, anteriormente, entre 38% e 25%, comportou-se no governo do Lula da seguinte forma:

09/12/2010 – 19/01/2011 =10,75
10/12/2009 – 27/01/2010 = 8,75
11/12/2008 – 21/01/2009 =13,75
06/12/2007 – 23/01/2008 =11,25
30/11/2006 – 24/01/2007 =13,25
15/12/2005 – 18/01/2006 =18,00
16/12/2004 – 19/01/2005 =17,75
18/12/2003 – 21/01/2004 =16,50

33) POSIÇÃO DO BRASIL NA ECONOMIA MUNDIAL:

Quando o Lula assumiu o governo o Brasil era a 15ª economia. Em 2010, quando ele deixou o gov erno, o Brasil era a 7ª Economia mundial.

34) CRESCIMENTO DO PIB:

PIB (nominal) e Tamanho do Crescimento (real) *
2010 – R$ 3,887 trilhões – 7,6%
2009 – R$ 3,328 trilhões – -0,2%
2008 – R$ 3,108 trilhões – 5,0%
2007 – R$ 2,718 trilhões – 6,0%
2006 – R$ 2,410 trilhões – 4,0%
2005 – R$ 2,172 trilhões – 3,1%
2004 – R$ 1,959 trilhão – 5,7%
2003 – R$ 1,720 trilhão – 1,2%

* Nota: Ao dividir o PIB de um ano pelo ano anterior não resulta o valor do crescimento. Isto se deve à diferença entre o PIB nominal
e o PIB real que desconta a inflação. O tamanho do crescimento é medido pelo PIB real que desconta a inflação.

LEGADO DOS GOVERNOS LULA:

Segundo o UOL, ao deixar o cargo de presidente dia 1º de janeiro de 2011, Luiz Inácio Lula da Silva legou, de oito anos de governo, avanços nos setores de economia e inclusão social, com índices históricos de crescimento econômico e redução da pobreza.

É o Globo que diz: a taxa de mortalidade infantil caiu no Brasil, de 2003 a 2012, 47,6% (sendo que no Nordeste a diminuição foi de 50%). Isso não vos comove?

Para saber mais: de 1990 a 2012 essa taxa caiu 75%.

Desse modo, espero estar explicado e, portanto, que parem de me cobrar justificativas, até porque tenho mais dezenas de itens selecionados.

EM TEMPO: Eu acabava de redigir esse texto (16/3/2016) quando o Jornal Nacional veio ao ar, completamente destrambelhado, na apresentação ( talvez pela pressa de organizá-lo e levá-lo ao ar) e no conteúdo (pela insistência vergonhosa de abraçar a interpretação de fatos banais como indícios de irregularidades que querem levar a crer que o Lula tenha praticado. A surpresa maior foi a mais nova ação política do Juiz Sérgio Moro, ao levantar, também apressadamente, o sigilo do processo que envolve o ex-presidente, para que pudessem ser divulgadas investigações antes que o foro privilegiado de Lula no STF se impusesse. Tal surpresa não aconteceu quanto ao pronunciamento carregado de partidarismo do Ministro Gilmar Mendes, por ser esse um mais que evidente e notório contra o Lula.

Eu, que cheguei a escrever para o Instituto Lula manifestando minha convicção, então, de que ele não deveria aceitar o ministério, convenci-me, hoje, de que a perseguição a ele, que poderia alcançá-lo nas instâncias atuais, é mais extensa do que eu poderia imaginar. Espero que seu ingresso institucional no governo, além de estratégico para a sua defesa contra a ignomínia que se vem praticando, sirva também para fortalecer o governo e beneficiar o País.

1964

cl

Ao passar por estes corredores sombrios, tenebrosos, os pulsos doídos, machucados, dias e dias algemados, o corpo curvado de tanta pancada, ainda penso em você, quase só penso em você, que na certa não sabe de mim, se vivo, se estou morto, o que terá acontecido a este pobre diabo. Tenho medo. Certamente vão jogar-me em um novo cubículo. Logo cuidam de transferir-me para novos algozes e recomeçam os interrogatórios, as mais inimagináveis torturas a que se possa ser submetido. Como se sobrevive a isto, por tanto tempo, sem perder completamente a razão? Como não perder de todo o equilíbrio, a coragem para, mesmo tendo pavor, preferir a morte a abrir a boca para estes insanos? Fraco como estou, alquebrado, semi-morto, não dou dois passos sem levar um safanão, uma porrada nos ossos, um tapa no pé-do-ouvido, um empurrão cheio de rancor. Acostumo-me a andar aos trancos, sentindo a dor nas costelas quebradas, nos músculos enrijecidos, na carne machucada, no corpo cheio de hematomas, inchaços, cortes, calombos e arranhões, como se tivesse sido jogado ribanceira abaixo, ralando-me nas pedras. Deixam-me na cela, já sei que o descanso é por pouco tempo. São espertos, logo virão arrastar-me, aos chutes, para alguma sala de bordoadas e eletrochoques, paus-de-arara e rodas dágua, queimaduras com pontas de cigarro e tapas na cara. Não se bate na cara de um homem! E quem é homem aqui! Me traz a vela! Acesa! Vamos ver quem é homem! Fala, seu cachorro! Mas eu não falo. Pode fazer o que quiser que eu não falo, não conto o que você quer saber. Você, sim! Porque senhor é só para quem se dá ao respeito, tem dignidade, honra as calças que veste! Com esta boca, com estes dentes quebrados, com este frio de gelo que me toma o corpo e a alma, com este sangue que me escorre dos lábios rachados, com esta língua grossa da sede e do sal com que me entopem a garganta, o que lhe digo é o que lhe digo, apanhe o que apanhar, sofra o que sofrer. Você quer saber? Pois eu lhe conto, não precisa ferir mais as suas mãos nos pedaços que restam do meu rosto, porque eu me lembro, eu me lembro muito bem. Era noite e estava muito escuro na entrada do prédio de apartamentos, mas ruídos vindos do lado de onde vinha o cheiro forte, de lixo, me chamam a atenção, porque penso ouvir vozes de crianças, quase uma algaravia, e é muito tarde. Acabo de chegar da festa gostosa, alegre, adolescente, já são horas de dormir, mas este barulho parece ter marcado encontro comigo esta noite. Estas vozinhas de criança não fazem sentido, tão tarde, noite tão escura e fria, quando todos dormem o sono tranqüilo e eu também ia dormir um sono repousante, sob um acolchoado macio e aconchegante, e sonhar com o calor dos seus lábios, meu amor. Mas alguma coisa não vai bem nesta noite sobressaltada em que sou arrastado para seguir este cheiro terrível de podridão, que me repugna e me arde as narinas, e estas vozes estranhas, sussurradas, que vêm com o cheiro que aumenta e me causa tanto asco ao ponto de quase vomitar. Nem por isso a noite deixa de ser bela e de impregnar-me de sentimentos vibrantes de felicidade, quase, meu amor, te sentindo nos meus braços, o calor maravilhoso do seu corpo junto ao meu, nesta dança colada, em que sentimos que fomos feitos um para o outro, querendo nunca mais nos separar. Eu fui correndo feito um louco, sem acreditar, meu amor, quando você me telefonou, chamando, que era verdade, que ia te ter novamente em meus braços e, quem sabe, desta vez lhe diria tudo, tudo! E você não pensaria mais em ninguém, seria minha namorada, só minha namorada. Quase piso nesta água escura que escorre pelo chão, vinda da lixeira; é um caldo preto, uma sopa de micróbios e de larvas, que pode me inutilizar definitivamente os sapatos reluzentes que eu mesmo engraxei para o nosso baile. Fiquei orgulhoso quando ela elogiou a minha estampa. Os panos do seu vestido enroscavam-se entre as minhas pernas ao som da música que nos enlevava e nos embriagava de emoção. Queria pôr a cabeça, agora, no travesseiro, e ficar no escuro do meu quarto olhando para o nada e vendo seu rosto sorridente e sentindo seus lábios chegando junto aos meus, quentes de paixão. Mas algo me tira do meu caminho. O vigia dormindo lá na ponta do prédio, sentado na cadeira recostada na parede, o quepe escondendo o rosto, como não cai? Não irá cair? Não escuta esse barulho, nem sente esse cheiro? Poderia eu imaginar que nunca mais te veria, que nunca mais deitaria na cama macia do meu quarto, por causa deste cheiro acre, destas vozes que me incomodam os ouvidos? Como, na calmaria desta noite, poderia eu saber? Quando der mais alguns passos, vou ver tudo, vou mergulhar no monte de lixo fétido e pegajoso, vou lambuzar-me e encher-me de bichos e de moscas, e meus cabelos ficarão pregados de gosma, minhas unhas ficarão cheias de sujeira preta, minhas roupas apodrecerão. E o que será dos meus sapatos reluzentes? O que será das minhas meias de seda? O que será do linho das minhas calças que ainda agora roçavam sinuosamente no meio das tuas pernas? O que será de mim com todas essas lembranças de um mundo bom e alegre, se enterrar-me no lixo até o pescoço? Olho-me bem. Ainda não estou sujo, nem fedorento, tenho os cabelos bem penteados, a barba bem feita, a camisa alva, cheirosa, impregnada do teu delicioso perfume que me enche de alegria, tanta alegria! Ela poderia até ver-se, como em um espelho, nos meus sapatos de bico fino, deslizante, reservados para dançar. Mas alguma coisa me atrai e eu percebo que é para sempre. São vozes. São vozinhas finas das crianças que revolvem o lixo com suas mãos encardidas, suas roupinhas em trapo, e comem aquelas nojeiras que jogamos fora pelos tubos das lixeiras dos apartamentos, que se misturaram, que acabaram de apodrecer e que viraram esta coisa malcheirosa, que lhes sacia o desespero da fome, caindo-me em cheio, como um tapa no rosto, como uma cusparada. O que será que me revolveu assim as entranhas, que me dissipou a alegria, que me puxou pelo braço para o sem-rumo da estrada de fuga e de medo? Que brutalidade é essa que agora me procura com violência? Eu, que dancei com você no baile, que te enlacei nos braços, que fui para casa para dormir satisfeito e sonhar nossos sonhos lindos para te amar para sempre, por quê fui arrastado para onde essas crianças comem lixo e adoecem de lixo e de miséria e vivem com as moscas, os vermes, os ratos e as baratas das lixeiras do abandono? Serão mesmo crianças esses seres pequeninos que disputam restos apodrecidos de comida com os animais? Queria estar deitando a cabeça no meu travesseiro, olhando para o escuro e vendo o teu rosto, mas o mundo entrou-me olhos a dentro e não sei se voltarei a sentir o veludo de tua pele e os anéis dos teus cabelos nas minhas faces ou se serei arrastado para o horror da lixeira onde as criancinhas devoram restos apodrecidos e nojentos de comida. Não deixe que eu seja arrastado. Não deixe que eu perca o contato macio do teu corpo, o embalo da dança sensual ouvindo esta música romântica que nos acalenta os sonhos e nos embriaga os sentidos. Suportarei a ausência dos seus beijos e dos panos de suas saias roçando em minhas pernas, meu amor, enquanto esse caldo do lixo se derrama sobre mim como uma onda negra de lama fétida e asquerosa, tornando-me repugnante aos seus sonhos e aos seus olhos? Agüentarei tudo, as ofensas e as agressões mais brutais, a desonra e a indignidade, aceitarei que me sangrem os lábios e me rompam os tímpanos, permitirei que me ponham no escuro e me deixem com as baratas no chão frio e molhado das latrinas, que me agridam e me façam gritar de dor e de terror, que me estraçalhem e me salguem as feridas e me quebrem os ossos e me dependurem as carnes e me violentem e me enlouqueçam de tanto ódio e tanta barbaridade, mas não posso deixar de sentir o frêmito do seu corpo junto ao meu peito, despencando-me neste abismo sem fundo e sem volta. Nem assim volto atrás. Não conto nada. Digo-lhes que olhem para dentro das lixeiras e vejam essas crianças comendo lixo com as carinhas sujas de anjinhos de dentes pretos de cáries e dedinhos inchados de bichos-de-pé, os cabelinhos emplastados, carregados de piolhos, tão magrinhos. Ninguém vê isso? Ninguém cuida? Ninguém faz nada? Ah! meu amor, não paro de pensar em você; é o que me dá alento. Acho que apaguei. Tenho um intervalo de sossego. Mas não lhes conto nada, só vou lhes falar de você, do meu amor por você, da minha saudade de você; vou lhes falar, lhes empurrar pelos ouvidos a dentro, vou lhes contar das criancinhas da lixeira, enquanto da minha garganta puder sair algum som, enquanto da minha boca machucada puder sair, com os tufos de sangue, um fio de voz. É só o que vou lhes contar e eles vão comentar que eu sou duro, macho mesmo, e vão me respeitar, vão ter de me matar para não ouvir mais o que lhes digo e espero que você venha a saber, meu amor, que foi tudo o que eles ouviram da minha boca e nunca se esqueça de mim, do nosso baile, quando dançamos colados como se nada jamais pudesse nos separar, o coração batendo forte, as saias roçando nas minhas pernas…

RESOLVIDO O MISTÉRIO DAS VIGAS, DO AIRBUS, DOS VAGÕES DE TREM E DO CHAVEIRINHO

Ao saber da história de uma mulher que disse ter avistado um disco-voador na zona rural aqui mesmo da minha cidade, procurei informar-se a respeito e corri ao sítio onde ela mora antes que a notícia se espalhasse e repórteres de todo o mundo chegassem a ela antes de mim.

Aproximei-me bem cedo do sítio e fui recebido na porteira pelo seu Onofre, marido de dona Zulmira, que me levou até à casa.

No caminho, perguntei-lhe se ele também tinha avistado o OVNI e ele me disse sei lá o que é isso e foi se afastando, enquanto dona Zulmira me mandava sentar no alpendre e me oferecia um cafezinho.

Já sentados, perguntei-lhe diretamente:

– Dona Zulmira, é verdade que a senhora viu um UFO?

– Ufa, meu fi, o que é isso?

– Ufa não, dona Zulmira, UFO – Unknow Flying Object.

– Qué isso, meu fi, palavrão aqui em casa nóis num adimete não.

– Não, dona Zulmira, é Inglês. Quer dizer disco-voador.

– Ah, então tá. Vou lhe contar. Eu estava sentada aqui mesmo, Onofre tava na roça, mei da tarde, de repente aquele negócio vei voando, grandão demais, parou na minha frente. Eu fiquei quetinha, não mexia um musco. Aí desceu uns home esquisito, disseram que vinham de outro praneta para fazer uma tar de pesquisa e queriam saber um montão de coisa, meu nome, idade, o que que a gente comia, se tinha televisão, rádio, enceradeira, máquina de lavar roupa, quantos fi, do que que a gente gosta de fazê, qual o time que troce e mais um montão de pregunta.

– Era muito grande, dona Zulmira?

– Enoooooorrrrmeee! Maió do que aquele campo de futebó que o senhor ta vendo ali na frente, umas duas veiz.

– E eles não quiseram levar a senhora com eles?

– Que nada! Eles queriam era deixar umas coisa guardada aqui no sítio.

– E deixaram?

– Deixaro, ta lá atrás. Disseram que era para ficar guardado uns tempo que adispois eles evinha buscá.

Nessa altura, fiquei muito curioso e pedi para ver. Quando cheguei lá no descampado atrás da casa quase caí para de costas!

Lá estavam, empilhadas, as seis vigas de quarenta metros de comprimento, pesando cada uma vinte toneladas, que sumiram da demolição da avenida Perimetral, no Rio de Janeiro há três anos e que ninguém viu serem retiradas do local.

Mas havia algo tão ou mais impressionante ainda, ao lado das vigas: – Um avião!

Mas não era um aviãozinho comum, tipo teto-teco, cesna, essas coisinhas; era um Airbus, enorme, desses que pesam cinqüenta toneladas e do tamanho de um edifício de treze andares. Logo me lembrei que, assim como as vigas desapareceram misteriosamente, sumiu também do Aeroporto de Cumbicas, em São Paulo, um avião desses, um Airbus, há poucos dias.

Só que o avião me atrapalhava a visão do que estava atrás dele! Cinqüenta e quatro vagões de trem! Aqueles que sumiram misteriosamente em 2014 no Rio de Janeiro!

Mal me recuperara do susto e dona Zulmira me chamou a atenção: – Ainda tem mais, seu moço!

Ela levou-me então para o galpão onde é estocado o milho e mostrou-me jogados em um canto vários sacos enormes cheios de dinheiro! Perguntei a ela o que era aquilo e ela explicou:

– Eles deixaram esses sacos lotadim de dinheiro, disseram que eram de uns amigos deles da Petrobras e que esses amigos deles viriam buscar assim que conseguissem “resolver uns probleminhas”. E aproveitaram para avisar que eles mesmos voltariam daqui a uns dias para deixar guardada comigo também uma tar de plataforma de petróleo que eles estavam pensando em pegar.

Resolvi me despedir de dona Zulmira, agradeci o cafezinho e fiz a pergunta final, se eles tinham deixado mais alguma coisa e ela me respondeu:

– Deixaram sim, seu moço, deixaram esse chaveirim do Vasco – mas esse, disseram que era presente para mim.

Agora todo o mundo já sabe onde estão essas coisas e se sumir uma plataforma de petróleo nem é preciso adivinhar quem foi que pegou.

E se alguém deu por falta de um chaveirinho do Vasco…

CHAVEIRO

PATA DE ELEFANTE

Era hora do almoço, ou do café da manhã, já nem me lembro mais. Só sei que estavam todos à mesa e que os talheres tilintavam. De repente, ele, ainda uma criança, levantou-se e passou a mão aberta pelo ar, agilmente, como quem pega um mosquito em pleno vôo. O punho fechado, chegou-o bem junto ao rosto. Aproximou a mão do ouvido e franziu o cenho, atentamente. Com o dedo indicador da outra mão puxou, cuidadosamente, o fura-bolo, com expressão muito séria; em seguida, puxou o pai-de-todos, mas não chegou a abri-lo completamente. Assustado, como que com medo de deixar escapar sua presa, fechou a mão de novo, rapidamente. Todos olhavam para ele, curiosos. Fez-se silêncio profundo. Alguém perguntou-lhe o que havia pegado e ele respondeu, gravemente:pde

– Um elefante!

Subiu as escadas correndo e trancou-se no seu quarto, no segundo andar, de onde, a partir daí, vinham barulhos estranhos – gritos, risos, arrastações. Ninguém podia entrar. Ele saía poucas vezes, quieto, não falava com ninguém, mas mantinha sempre um riso bonito e um brilho nos olhos, de quem guarda um segredo e detém um mistério exclusivo. De dia, subia com pacotes; de noite, descia com outros, sempre furtivamente. A porta sempre trancada a sete chaves. Conseguiram segurá-lo algumas vezes para que algum médico o examinasse, mas todos disseram que não tinha cura. Levado a bruxos, médiuns, videntes, passaram-lhe poções, dedicaram-lhe trabalhos e orações, mandaram que tratasse de desenvolver seus dons, mas nada conseguiam; ele desvencilhava-se rapidamente e voltava correndo para o seu quarto. Lá de dentro vinham barulhos cada vez mais pesados, como se tudo estivesse sendo destruído. Em baixo, diziam perceber o teto balançar; e que, às vezes, a lâmpada pendurada pelo fio oscilava como um pêndulo. Arregalavam os olhos para cima. Assustavam-se com o barulho da porta se abrindo. Às vezes descia sujo, despenteado. Outras vezes vinha de banho tomado, a barba feita. Ele trancava a porta, passava, como se não fosse deste mundo, voltava, trancava-se. Os barulhos recomeçavam. Soltava altas gargalhadas, entre ruídos de pulos, corridas e tombos, arrastar de coisas, pancadas de objetos caindo. Por vezes, o silêncio da noite era cortado por gritos selvagens de elefante, vindos do seu quarto. Os embrulhos com que entrava e saía aumentavam de tamanho. Vinha com braçadas de mato, capim, galhos e folhas; voltava à rua com sacos de estopa cheios, que retornavam para casa vazios. Tentou-se espionar pelo buraco da fechadura, sempre tampado, e pela alta janela, trancada e vedada. Essas tentativas foram desestimuladas por baldes de água suja e fedorenta lançados sobre algumas cabeças. O cheiro que vinha do quarto atingiu níveis insuportáveis, repugnantes. De manhã bem cedo, quando o sol nascia no horizonte, começava o tum-tum-tum pesado e compassado, indo e vindo, que não deixava ninguém dormir mais.

Um dia, finalmente, quando ninguém mais suportava a estranha situação, resolveu-se pela adoção de providências drásticas. Não era só por eles; era mais pelo bem dele mesmo, que, quem sabe, poderia um dia voltar a ser normal, viver uma vida decente, de gente.

Ao ser interceptado na saída, manteve o olhar sereno de quem adivinhava que um dia iria acontecer e que seria inútil reagir. Apenas levantou a cabeça, pregou os olhos na porta do quarto trancado e deixou-se levar, com a sensação de nunca mais, as mãos agarradas nos seus braços, conduzindo-o, o rosto banhado em lágrimas, a família atrás, seguindo-o, todos cabisbaixos, os mais velhos segurando a aba dos chapéus com as duas mãos, como quem acompanha um enterro.

Quando a família retornou para casa, deixando-o internado no hospício, traziam a mesma imagem de tristeza de quando saíram, no dia anterior, para levá-lo. Havia aquele silêncio profundo, sentia-se aquele vazio por dentro, aquela impressão de adeus para sempre. Não tinha cura mesmo, não iria voltar.

Abriram a porta da casa e entraram, de cabeça baixa. Espalharam-se pelos assentos, quietos, os olhares perdidos, os olhos vermelhos, parecendo um velório.

De repente, o silêncio foi quebrado. Do alto, veio o barulho descomunal, de destruição, de raiva, de ódio, de coisas pesadas batendo, se arrastando, pulando e caindo, como nunca.

Quando o barulho chegou a um nível insuportável, todos, cheios de horror, com os olhos espantados, voltados para cima, viram o teto arrebentar-se com estrondo bem no centro da sala e dele brotar, entre destroços e uma nuvem de poeira, a gigantesca, fantástica, extraordinária pata do elefante.

REFLEXÕES SOBRE A VIDA

Dr. Goyambú Bigeyes

Reflexão 1

Os anglofônicos costumam bater no peito que eles falam a língua de Shakespeare, para eles o maior escritor de todos os tempos, no que, ao dizer isso, menosprezam Paulo, Coelho & outros bichos. Acham que o Inglês é o máximo e que podem transmitir os mais completos pensamentos através de sua fala esquisita.

Pois bem, eu faço-lhes um desafio, senhores gargantas: Antigamente, em minha saudosa juventude, quando um cheiro catingava no ar logo alguém exclamava, se fazendo de engraçadinho!

– Alguém peidaram!

E um outro respondia na bucha, mais engraçadinho ainda:

– Eu não fomos!

Pois, digam isso em Inglês, meus lordes!

Reflexão 2

Se o mundo fosse um moinho, como alega Cartola, a farinha seria de graça. No entanto, vá comprar no supermercado, para ver se um sujeito decente pode se alimentar de farinha de pau. Esta reflexão me leva a concluir que não são só os políticos que mentem, os músicos também.

Reflexão 3

Se os petistas realmente são burros, como se explica que a China está querendo importar todos os anos, do Brasil, antro dos petistas, um milhão de jegues? Repito, nesta reflexão profunda: – Um milhão de asnos! Para quem ainda não entendeu reflito de novo que os comunistas, aquele bilhão de gente que come cachorro, quer que a gente mande para lá um milhão de burros por ano! Pergunto: – Vai sobrar petista para nós? Como elegeremos Lula em 2018? Alguém desconfia de quem é que pode estar por trás disso? Deixo em aberto a reflexão.

Reflexão 4

O erro mais craço do Universo são as palavras que foram adotadas para significar as coisas. Como a nossa reforma ortográfica ainda não está completamente em vigor, seria mesmo o caso de aprofundar-se-la, o que eu, com minha autoridade na língua, poderia ser encarregado de fazer. Por exemplo, veja o termo “estressado”. Um indivíduo com excesso de encargos e responsabilidades, no dizer do nosso mau Português fica “estressado”. Se ao invés de “estressado” a palavra fosse “relaxado”, toda vez que uma pessoa estivesse assoberbada de trabalho e muitas outras coisas para fazer diríamos que esse ser está “relaxado”. É outra coisa! Assim, a vida poderia ser modificada pelo uso das palavras! Usaríamos “alegre” no lugar de “triste”. Desse modo, a pessoa que fosse demitida do emprego pela crise estabelecida pelo PT estaria “alegre” com a demissão, de modo que quantas pessoas mais fossem demitidas maior seria a alegria geral. Pensem nisso!

Reflexão 5

Esta será a derradeira reflexão do dia, porque tenho de escovar os dentes e depois sair para comprar pão. Trata-se do seguinte, que guarda uma certa relação com outras reflexões. Como todos sabem, antes de o nosso País ser descoberto, os pampianos, seja lá que o que seja pampiano, ninguém sabe mesmo, chamavam esta terra de Pindorama. É claro que isso não nos representaria nos dias de hoje perante as Nações Unidas, que quando a Dilma fosse fazer um discurso fosse anunciada a representante de Pindorama! Logo algum engraçadinho iria dizer que “lá vem coisa”… por mais inteligente, clara e articulada que fosse sua fala as pessoas ficariam de gozação. Dizem que pensando nisso, resolveram que como aqui dava muito pau brasil o País se chamaria Brasil. É claro que essa versão não convence, porque aqui dava muita banana também e nem por isso deram o nome de Banânia. E, felizmente, temos muito coco mas ninguém pensou em chamar de Cocolândia. Eu acho que foi mais uma questão mesmo de sonância, alguém falou que tava na hora de mudar o nome do lugar, um sugeriu, “aqui faz um calor danado, quem sabe, Brazol?” O outro falou “ou então Brazal”. Um terceiro emendou, “acho que Brasil soa melhor e além disso é com “esse”! E assim ficou, porque “Caniculândia” já tinha sido descartado de início.

Reflexão 6

Ops, foi mal! A mulher disse que eu estou precisando mesmo de escovar os dentes. E de comprar o pão. Necessariamente nessa ordem, segundo ela. Vou nessa. Outro dia voltarei com mais reflexões, porque eu penso muito.

A CONSTRUÇÃO DO DESTINO

No início pensei que estivesse sonhando. Aquela sala, aquele laboratório de imagens, sons, cores, nomes, datas, estatísticas, formando uma bagunça infernal, controlada atabalhoadamente por um número imenso de pessoas se atropelando, se descabelando, parecendo enlouquecidas, como se jogassem um jogo onde cada lance fosse de vida ou de morte, os olhos esbugalhados nas telas, nas quais se movimentavam pessoas, seres, coisas, numa sucessão alucinante, apertando botões, virando manivelas, gritando e torcendo, não, não podia ser real.

Por outro lado, eu tinha plena consciência de estar são, lúcido e acordado.

Às vezes, sonhando, imaginamos estar vivendo um momento verdadeiro. Mas, quando isso acontece, não passa de uma impressão fugaz, que logo se desvanece pelo despertar ou pela simples apreensão de que aquilo é mesmo um sonho. Porém, aquele momento, eu podia sentir, sem dúvida, que estava presenciando uma cena concreta, que estava vivendo dentro dela, embora o seu absurdo.

A passagem para aquela realidade foi estranha. Eu dirigia meu carro pela estrada, durante horas e horas. Anoiteceu. O tempo estava fechado, úmido, e às vezes chovia um pouco. Andei ameaçando cochilar, mas conseguia vencer o sono, na esperança de encontrar algum lugar onde pudesse descansar. Em um dado momento, tive uma impressão fora do comum. Olhei para o foco dos faróis, iluminando fracamente a estrada, e tive a sensação de não me encontrar mais no mundo concreto. É difícil de explicar isto. A estrada era a estrada. As árvores que a ladeavam também eram árvores. O breu da noite era a escuridão do mundo, mesmo. Mas, por dentro, eu sentia que aquilo que via não pertencia à mesma dimensão onde estivera segundos atrás.

Finalmente, encontrei um posto para encher o tanque do carro, repousar um pouco, fazer um lanche. Não conseguia tirar de meu íntimo aquela impressão de que havia transpassado uma parede entre dois mundos, embora tudo o que visse não fosse em nada diferente do que sempre conhecera. Apenas o som parecia algo mais reverberante? Os movimentos escorriam mais lentos e o tempo parecia palpável, pastoso? Quem sabe… Talvez não devesse ter dado aquela carona. Mas, afinal de contas, eu mesmo a ofereci.

Quando entrei no bar para lanchar, sentei-me a uma mesa onde já havia alguém, pois todas as outras estavam também ocupadas com duas ou mais pessoas. Puxei conversa, fiquei sabendo que o homem ia para a mesma direção que eu e que aguardava alguma condução. Não titubeei em propor que fosse comigo. Quando saímos pela estrada, já era dia claro, o sol brilhava intensamente por entre restos de bruma. A estrada continuava me impressionando de um modo estranho, como se não fosse a lugar nenhum. Quando vi a indicação de “Destino” a dois quilômetros, por uma estrada secundária, senti ímpeto de entrar nela e o declarei ao companheiro de viagem, que sorriu condescendentemente… enigmaticamente, eu diria melhor, agora que o tempo passou e tudo aconteceu.dmt

Dois quilômetros depois, chegamos ao local anunciado. Era surpreendente! Uma edificação perdia-se de vista para ambos os lados, com uma enorme porta bem à nossa frente. O homem que viajava comigo tomou a frente, como se me conduzisse. Quando entramos, a surpresa foi ainda maior. Tratava-se de uma sala imensa, repleta de mesas, de aparelhos e de pessoas sentadas trabalhando. Era aquele lugar maluco de que eu lhe falava. Meu companheiro, que pouco dissera até então, começou a apontar-me as coisas e a dar explicações. Ali era onde os destinos das pessoas eram traçados, passo a passo. Os trabalhadores não eram mais do que projetistas da vida de cada um. Nas telas, as pessoas cujas sinas eles traçavam apareciam focalizadas no momento exato daquelas ações, “ao vivo”, como diríamos em uma programação para televisão. Pois as coisas que cada pessoa fazia em cada uma das telas focalizadas, assim como todas as circunstâncias que as envolviam naquele momento, eram as ditadas pelas emissões mentais dos controladores de destino. Era como se eles estivessem escrevendo a história de cada um, letra por letra, palavra por palavra. Passei por uma, duas, dezenas de mesas, acompanhando o trabalho daquelas pessoas e vendo-as conduzir a vida de cada um como se fossem participantes de um teatro de marionetes. Qualquer dos passos dos protagonistas daquela encenação era dirigido como se a pessoa que o fazia fosse aquela que estava do lado de cá da tela, não ela própria. As palavras eram postas na boca de cada um, como quem lê um texto de uma peça teatral. Não conseguia conter meu espanto. Lembro-me que, atônito, perguntei ao meu guia se nada do que as pessoas faziam era de seu próprio arbítrio. Fiquei menos chocado ao saber que sim, que havia atitudes que ficavam fora do controle daqueles agentes. Disse-me que cada controlador regulava o destino de dezenas de pessoas e, portanto, tinha que desfocalizar, a cada momento, todas as demais para controlar o destino de uma. Assim, ia alternando. Ora controlava o destino de uma pessoa, ora o de outra, e assim por diante. Deste modo, no tempo em que uma pessoa estava desfocalizada, suas ações corriam por sua própria conta. As conseqüências dessas ações autônomas seriam tão importantes na seqüência do destino de cada um quanto marcantes, graves e determinantes fosse o seu cunho. No mais das vezes, dizia-me o guia, as ações autônomas eram de pouca importância e não carregavam repercussões de monta, enquanto, por outro lado, os controladores estavam sempre atentos para imprimir ao destino de cada um atitudes de grande importância, que deveriam repercutir extensamente em suas vidas. Em alguns casos, por pura coincidência, uma determinada atitude tomada livremente por alguém faria com que o restante da vida daquela pessoa seguisse tal ou qual rumo, contra ou a seu favor. Certas pessoas, continuava dizendo, parece que têm a capacidade de intuir isso e, literalmente, acabam tomando as rédeas do seu destino, aproveitando-se dessas folgas para reverter tudo para o rumo que pretendem tomar, para o caminho que querem seguir.

O barulho, à medida que nos aprofundávamos no salão sem fim, tornava-se ensurdecedor, especialmente porque muitos dos controladores ditavam os movimentos dos seus controlados em voz alta, aos berros, exagerando os gestos e expressões que queriam que fossem feitos e gritando as palavras que queriam que fossem ditas.

Pensei em quanto aquilo tudo era terrível. Quer dizer que nossos destinos eram realmente predeterminados e que não aproveitávamos os espaços vazios deixados por esse controle para direcionarmos nossas vidas? Entendi que bastaria, para tomarmos os nossos destinos em nossas próprias mãos, observar o rumo que as coisas estivessem tomando, a cada momento, para, caso aquele não fosse o sentido que desejássemos, irmos tentando, insistentemente, adotar atitudes que mudassem aquele caminho para outro que julgássemos mais conveniente, até o conseguirmos, isto é, até que ocorresse aquela falha do controle do destino, que volta e meia aconteceria, para que nossa persistência tivesse efeito.

Minha vida, a partir daí, poderia ser outra. Eu não voltaria a ser vítima permanente da fatalidade, como acontecia desde que me entendia por gente. Não. A partir de agora observaria atentamente o correr da carruagem. Quando as coisas não estivessem me agradando, simplesmente usaria uma bateria de atitudes para mudar o passo da minha própria vida, virá-la para cá ou para lá, segundo me aprouvesse.

Queria sair. Peguei o guia pelo braço e falei-lhe do meu interesse em ir embora o mais rápido possível, interromper minha viagem, voltar à minha cidade, pôr em prática os novos conhecimentos.

O guia sorriu amigavelmente. Apontou-me uma escrivaninha com uma tela, papéis, manuais, livros e inúmeros aparelhos, como todas as outras, e disse-me:

– O seu destino já está traçado. Esta é a sua mesa.

MAIS DE UM BRASIL DE GLBT

Acabo de ler, sobre as estimativas do número de “gays no mundo”, que há um estudo de abril de 2011 divulgado pelo Instituto Williams, ligado à Universidade da Califórnia (UCLA), nos EUA, especializado em estudos de orientação sexual e identidade de gênero, o qual apresenta pesquisas realizadas em diferentes países a esse respeito:

How Many People are Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender?
(Gary J. Gates, Williams Distinguished Scholar , April 2011)

As informações incluem a análise dos dados de 5 pesquisas realizadas nos EUA entre 2005 e 2009, e de uma pesquisa em cada um dos seguintes países: Canadá (2005), Austrália (2005), Noruega (2010); e também no Reino Unido (2009-2010).btr

As análises das diferentes pesquisas para os EUA, resultam em: 3,5% dos adultos nos EUA identificam-se como gays, lésbicas e bissexuais, e 0,3% como transgêneros.

Nas outras pesquisas, a porcentagem de pessoas que se identificam como sendo gays, lésbicas e bissexuais, apresentaram os seguintes números: Canadá: 1,9%; Austrália: 2,1%; Noruega: 1,2% e para o Reino Unido: 1,5% .

Uma média aventureira, que somasse os resultados das pesquisas em cada um desses países, desconsiderasse que as pesquisas se referem a adultos (já que a projeção indicaria que as crianças que se tornassem adultos manteriam a proporção) e fizesse a divisão da soma pelos cinco países resultaria em uma média de 2,1 % homossexuais (gays, lésbicas e bissexuais) em cada população.

Se minhas contas estão certas, teremos por volta de 150 milhões de GLBT no mundo, três quartos da população do Brasil. Quem sabe fazer conta de cabeça, por favor, confira esses números.

E, como a população brasileira gira pelos duzentos milhões de pessoas, teremos aqui, salvo os muito enrustidos, uns quatro milhões e duzentos mil nesse grupo englobado como homossexuais.

Algo como duas Recifes e meia.

Poderia ser mais, se resolvêssemos tomar como parâmetro nossos irmãos norte-americanos, que chegaram ao resultado de 3,5% de desviados (desculpem o politicamente incorreto, mas não poderia perder a oportunidade de brincar com as palavras). Nesse caso teríamos no mundo duzentos e quarenta e cinco milhões de bibas.

Pense em um Brasil cuja população inteirinha fosse de mordedores de fronha e ainda sobrando quarenta e cinco milhões : dava (!) mais uma Argentina e um Uruguai juntos.

Podes imaginar, mas ao fazê-lo, por favor, me inclua fora disso: – Duzentos milhões menos um!

SIM, JOSÉ DIRCEU É INOCENTE

O instituto da “delação premiada” precisa ser tratado e conduzido com certos cuidados, dadas as circunstâncias que podem envolvê-lo e que têm sido objeto de debates e, até, de denúncias (estas, nos casos concretos, fundadas ou não, entretanto referindo-se a hipóteses possíveis de acontecer).

Uma, que a prévia publicidade dos fatos denunciados pode comprometer a honra de pessoas inocentes.

Outra, que pode envolver pessoas delatadas por criminosos com o fito, pura e simplesmente, de conturbar o processo e de conseguir algum proveito por meio de “chicanas”.

E já aqui cabe uma explicação: para quem não sabe, na linguagem jurídica chicana significa “dificuldade criada, no decorrer de um processo judicial, pela apresentação de um argumento com base em um detalhe ou ponto irrelevante; abuso dos recursos, sutilezas e formalidades da justiça; contestação feita de má-fé; manobra capciosa, trapaça, tramóia”.JD

Mais, que autoridade que promove a obtenção das delações deve cuidar para que ela não seja obtida irregularmente, a fórceps, como uma espécie de chantagem – como a manutenção do delator em cárcere irregular, acenando-lhe com a soltura se fizer uma (alguma, qualquer uma) delação.

Necessariamente, os envolvidos na obtenção das delações, bem como nas demais atividades do processo, precisam garantir-se um profundo exame de consciência, uma apurada autocrítica, para que suas tendências pessoais não tomem as rédeas dos procedimentos, ainda que de forma inconsciente.

Quando alguém pergunta, ou se pergunta, sobre o porquê de a maioria dos partidários manterem um voto de confiança em certas personalidades, como José Dirceu, a resposta está no conhecimento da vida política dessas pessoas, conhecimento aliado às suspeitas de contaminação nos inquéritos realizados, em procedimentos como o da delação premiada e, infelizmente, até mesmo na contaminação dos julgamentos.

Assim é que o próprio partido a que pertencem certos condenados resiste a excluí-los de seus quadros.

José Dirceu acaba de ser citado por ser um ícone, no sentido popular, nessa problemática.

Condenado no processo do chamado “Mensalão”, seus admiradores não conseguem acreditar em sua culpa (ou na extensão de sua culpa), nem naquele processo, nem nos demais nos quais foi incluído.

Parece, a muitos, que José Dirceu está sendo “aproveitado”, usado e abusado em chicanas por ser “a bola da vez” (que no jogo da sinuca é aquela que deve ser a perseguida, atacada e eliminada). Por sua posição no panorama político e por tudo que envolve esse panorama e a delicada situação do Partido dos Trabalhadores, ficou fácil sugerirem alguns e acreditarem outros que ele é o culpado de tudo – como na popular generalização de que, freudianamente, a mãe é a responsável pelos erros dos seus filhos.

Nem sempre na delação premiada serão expostos os seus furos, como agora acontece com o acordo feito pelo lobista Fernando Moura, delator que acaba de cair em seriíssimas contradições em seus depoimentos, a ponto de acusar em um momento José Dirceu de uma série de irregularidades para, em seguida, isentá-lo do que antes o acusara!

Muitos dos meios de comunicação passarão batido a respeito das notícias sobre essas contradições e sua repercussão penal, mas a Folha de São Paulo está aí para quem quiser ver e ler.

E quanto às inclinações de responsáveis por inquéritos e julgamentos, elas foram reveladas com freqüência em declarações públicas e publicadas, de juízes a promotores, como a do procurador que participa da Operação Zelotes, Dr. Frederico Paiva, que declarou ser muito difícil comprovar propinas a parlamentares na Operação Zelotes (“embora haja indícios de que elas ocorreram”, diz ele), e ao comentar declarações do ex-ministro Gilberto Carvalho de que tal Operação estava direcionada para prejudicar o ex-presidente Lula, o Dr. Frederico Paiva diz, descuidadamente, que “ele fala o que quer. Fala também que nos últimos oito anos tomaram todas as medidas para beneficiar a população. Deram todas certo, né, é só ver a crise que está aí”. Segundo a Folha o procurador disse isso em tom de ironia… Uma ironia que revela suas disposições internas, ao abordar uma situação político-econômica do País que nada tem a ver com o chamado “mérito da questão” de que se tratava.

Como já afirmei aqui, antes, por várias vezes, desconfio seriamente de que muitas das delações têm jeito de armação, aproveitando-se os delatores das circunstâncias do momento até mesmo para “lavar dinheiro” – alguns devolvem milhões de reais ao Estado ao mesmo tempo que afirmam que outros milhões foram dados para fulano e sicrano, milhões que podem, muito bem, estar enterrados no fundo de quintais.

Enquanto isso parte da população assume o papel de inocentes úteis, assimilando e repercutindo o discurso elitista, mesmo sem fazer parte das elites.

Enfim, a última notícia é de que “José Dirceu vai falar e preocupa o PT”. Será? Ou trata-se apenas mais um balão com que certos profissionais da imprensa enchem corações e mentes dos incautos?

Veremos.

O FIM DO MUNDO DE ZÉ DOS BODES

Nunca imaginei que um dia o homem pudesse viajar à velocidade da luz. Agora, que olho para a imensidão do universo, e que avanço como se afundasse num abismo sem fim, vejo-me na carroceria daquele caminhão, ainda menino, sentindo o vento frio no rosto, o turbilhão nos ouvidos, a estrada rolando para dentro dos meus olhos. Acho que neste mesmo dia estive assistindo gravações em vídeo de antigas reportagens mostrando o primeiro homem na lua e pensava quão pouco, em tantos anos, havia evoluído a aventura do ser humano no espaço. Muitos conhecimentos e progressos haviam sido obtidos – friamente, porém – através do lançamento de satélites e sondas-robôs que viajavam, por décadas e décadas, através do éter infinito, enviando sinais, sons e imagens, fazendo análises, perscrustando as profundezas do cosmos, sem emoção e, verdade seja dita, sem inteligência, porque essas máquinas, com toda a evolução, não se comparam à mente humana. Nada se pode comparar à apreensão dos nossos olhos, que agora vêem, assombrados, o sem-fim, o vazio, o nada, rolando vista a dentro como a estrada comprida, de terra batida, que também parecia levar a lugar nenhum.

Quem diria que um pobre velho, como eu, poderia estar aqui, agora, nesta aventura cósmica, varando o espaço infinito, invadindo a privacidade das estrelas e dos astros?

Lembro-me que, já lá se vão muitos anos, sequer conhecia avião; mas não estou falando de avião daqueles grandes, supersônicos, não; refiro-me aos teco-tecos mesmo, aos aviõezinhos de hélice, de um motor só, de que mal havíamos ouvido falar em Iporá.

Falando assim, hoje, muita gente pensa que é mentira. Mas ali, naquela cidadezinha isolada, no meio do século vinte, a maior parte das pessoas nem mesmo acreditava que fosse verdade que existissem aviões.

Seu Zé dos Bodes nunca havia sequer ouvido falar de avião. Vivia num sítio afastado da cidade, onde criava seus cabritos, quase sem contato com outras pessoas que não fossem a mulher e sua filharada. Não ia ao lugarejo nem para as compras do mês, já que obtinha mantimentos através de rudimentares operações de escambo, trocando porco por botina, por calça de brim e por vestido de chita, barganhando cabrito por sal, por café e por açúcar, negociando milho por foice e por enxada e assim por diante, no próprio sítio, onde era procurado pelos mascates e por comerciantes vizinhos. As obrigações religiosas eram cumpridas no paiol cedido pelo velho Mathias, na fazenda próxima, para as reuniões dominicais. E os filhos aprendiam as primeiras letras na escolinha rural, junto a mais meia dúzia de gatos-pingados, com a professorinha que mal sabia para si.zd

Eram tementes a Deus e cumpriam com fervor os ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Dizia-se por ali que o fim do mundo estava próximo e que Deus não tardaria a fazer cair sua ira dos céus sobre os homens, pecadores incorrigíveis, contumazes, empedernidos, impuros e inconseqüentes. O fim do mundo viria com fogo, enxofre, raios e trovões, para queimar os pecados do mundo e lançar às profundas dos infernos os pecadores.

Com esse prognóstico, todas as vezes que armava uma tempestade e começavam a agitar os ares as ventanias de chuva, acompanhadas de faíscas e trovoadas, seu Zé dos Bodes ajuntava seu rebanho de cabritos, seus porcos, seus cachorros e mais os animais que conseguisse e os reunia, com sua família, debaixo da casa do sítio, erguida do chão sobre grossas estacas de aroeira.

Ali ficavam a rezar fervorosamente, até que a chuva caísse e o fim do mundo, assim, abortasse. Não sabiam, seu Zé dos Bodes e familiares, se o cataclismo se adiava a cada vez pela fé de suas rezas ou se simplesmente ainda não era chegada a hora e o que se anunciara fora mesmo, apenas, uma tempestade.

Todos conheciam esse costume do Zé dos Bodes e dele se riam. Mas mais se riram no dia em que o primeiro aviãozinho se aproximou de Iporá. Sem lugar certo para pousar, ficou dando voltas em torno da cidade, de modo que de alguns lugares só se lhe ouvia o barulho, o ronco do motor. No sítio, seu Zé dos Bodes não conversou. Ao ouvir o estranho trovejar, em dia claro, de céu limpo, não teve dúvidas. Agora era, sim, o fim do mundo. Reuniu a família e os animais debaixo da casa e rezaram com uma circunspecção e fervor nunca vistos. Ao cessar o barulho, sem que o fim do mundo tivesse ocorrido, entoaram louvores aos céus até o anoitecer e foram deitar-se orgulhosos de poderem ter afastado da Terra, em favor dos justos e dos pecadores, o Juízo Final, para data incerta e não sabida.

Dizem que quando o barulho do avião começou nem foi preciso muito trabalho para juntar bodes, cabritos, patos, galinhas, porcos e cachorros que, de tão acostumados, assim que ouviram o ronco do motor começaram, por conta própria, a se reunir sob o costumeiro abrigo.

Enquanto isto, nós, na cidadezinha, víamos o aeroplano aproximar-se bem baixo, com pouca velocidade, quase parando no ar, para uma aterrissagem forçada no descampado que usávamos para nossas peladas com bolas de meia. Depois de verificar as redondezas, o piloto achou que ali era o melhor lugar para pousar. Conseguiu, mas ficou sem as duas asas, ao passar por dentro das balizas do gol.

Desde esse dia, junto com a lembrança engraçada da situação armada pelo seu Zé dos Bodes um encantamento pelo vôo tomou conta da minha alma, fazendo-me suspirar por ser, um dia, também, um piloto; e cruzar os céus azuis como um passarinho, viajando por esse mundo imenso sem fronteiras, livre como o vento!

Agora, aqui estou: à velocidade da luz! Vejo coisas que, de outro modo, não poderia ver. Vejo a luz. Não o seu reflexo sobre as coisas, sobre os objetos, mas a própria luz, caminhando ao meu lado! Vejo que a luz não viaja como se dizia, através de vibrações de moléculas, não. Ela flui por entre os átomos. Vejo-a escorrer pelos ralos da matéria infinitezimal, como a água se infiltra veloz por dentro da areia. E no espaço vazio, o tempo rola como se fosse um gigantesco meteoro e vai ficando para trás. Então o tempo é concreto? Ultrapasso o tempo, venço a barreira do tempo e o tempo pára, ou anda para trás. Ainda não sei ao certo. Penso: quanto tempo viajarei? chegarei ao infinito? com o tempo parado, avançarei eternamente e não chegarei a lugar algum, a não ser que o infinito seja o não-ser e eu, algum dia, me perca nele e me desfaça em nada.

Percebo que não posso saber há quanto tempo estou aqui, rolando através de sóis e estrelas, se o tempo parou na minha viagem. Percebo que não posso saber se foi hoje, se foi ontem, se foi antes ou depois do seu Zé dos Bodes. Percebo que o tempo está apenas em minhas lembranças, pois junto comigo o que corre é a inércia absoluta, o nada!

Tento lembrar como cheguei aqui, tento lembrar de novo como cheguei aqui, tento, a toda hora, recordar. Mas só me lembro do seu Zé dos Bodes, do fim do mundo e do avião descendo, entrando por dentro das balizas e perdendo as asas, como eu, voando sem asas por esta imensidão, livre como o vento, ágil como um pássaro, prisioneiro do espaço. Olho para as minhas mãos e não me vejo. Olho para o meu corpo e não existo.

Sou luz?

RESPONDENDO A MAMED

(Regulamentação da Mídia e Liberdade de Imprensa)

Em comentário ao texto GASTAÇÃO FOICE E MARTELO, publicado no Jornal da Besta Fubana de 11 de janeiro de 2016, o leitor Mamed interpela-me a respeito do debate estabelecido, assim :

“Goiano, você poderia pontar onde está na Constituição, democraticamente, a tal “regulação da mídia”?

Até onde eu sei, está escrito:

“Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.

§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”

A vedação ao monopólio e oligopólio tem outra natureza: se refere à outorga/concessão. O governo não pode conceder a apenas um ou poucos grupos.
Se há um canal, veículo, revista ou outro meio que detenha ampla liderança em razão de conteúdo, aí já são outros quinhentos.

Por favor, elucide o que é “regulação da mídia” e qual o fundamento constitucional.

Fiquei curioso, pois geralmente vindo de petistas inocentes, eu relevo, mas vindo de você, o questionamento é pertinente.»

É uma boa oportunidade para voltarmos ao tema « regulação da mídia versus « liberdade de imprensa”.jbf

RESPONDO A MAMED :

– A Constituição assegurou a mais ampla liberdade de manifestação do pensamento (arts. 5º, inciso IV e 220). No que tange especificamente à liberdade de imprensa, a Constituição é expressa: “nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, incisos IV, V, X, XIII e XIV” (art. 220, § 1º).

– Observemos o disposto no art. 5º da Constituição de 1988:

«Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

(…)

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

(…)

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

(…)

XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;»

– Agora, vejamos o que diz o art. 220 e parágrafos 1º e 2º da mesma Constituição:

«Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.

§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.»

– Não resta dúvida, a plena liberdade de imprensa está assegurada!»

– Por fim, o questionamento se fixa na questão da chamada «regulação da mídia», e logo teremos de afirmar que, sob essa denominação, ou qualquer outra, NADA SE PODERÁ INCLUIR EM QUALQUER LEI QUE CONTRARIE O DISPOSTO NOS ITENS CONSTITUCIONAIS ACIMA TRANSCRITOS, O QUE QUER DIZER QUE POR MAIS QUE ALGUÉM TENTE PRODUZIR UMA LEI QUE VIOLE A LIBERDADE DE IMPRENSA ESSA LEI NÃO PODERÁ VIGER, POR ABSOLUTA, TOTAL E FLAGRANTE INCONSTICUCIONALIDADE, QUE SE, POR ALGUMA ESTRANHA FORÇA, PASSAR PELAS COMISSÕES QUE AVALIAM A CONSTITUCIONALIDADE NO CONGRESSO NACIONAL, NÃO SUPORTARÁ O PODER DO CONTROLE CONSTITUCIONAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL!

– Então, o que poderá uma lei dispor, constitucionalmente, para «regular a mídia»?

– A resposta tem sido dada, exaustivamente, por analistas que tratam da matéria cientificamente, sem a contaminação de «teorias conspiratórias» : UMA LEI QUE VISE «REGULAR A MÍDIA» PODERÁ TRATAR DE TUDO QUE DIGA RESPEITO À IMPRENSA, MAS QUE NÃO CONTRARIE OS DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS RELATIVOS À LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

– Qual seria, então, a área de atuação possível para uma lei regulatória da mídia?

– Seria aquela que a própria Constituição reservou, compatível, assim com os seguintes dispositivos dela própria:

«Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.»

– Atenta a esses princípios, podemos especular que uma lei regulamentadora poderia, eventualmente, definir como se procederá, na prática, à «preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas» na programação das emissoras de rádio e televisão.

E estabelecer a forma pela qual se dará a promoção, por esses meios de difusão, da cultura nacional e regional; e dizer como se dará a regionalização da produção citada no inciso III ; E, MUITO PARTICULARMENTE, ESTABELECER REGRAS QUE GARANTAM O « RESPEITO AOS VALORES ÉTICOS E SOCIAIS DA PESSOA E DA FAMÍLIA», PARA QUE O DESRESPEITOPOSSA SER COIBIDO COM SANÇÕES ESTABELECIDAS EM LEI.

– Quanto à questão do monopólio, mas não só do monopólio, é hora de voltar ao art. 220, a partir do parágrafo 3º:

«§ 3º Compete à lei federal:

I – regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada;

II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.

§ 4º A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.

§ 5º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.

§ 6º A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de autoridade.»

– Ora, além de estabelecer esse dispositivo, competir à lei federal «regular» e «estabelecer» por meio de suas normas algumas coisas, vemos que a questão do monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação também está abrangida na questão da «competência de lei federal» prevista; logo, em uma possível «regulação da mídia» poderia caber o estabelecimento de quando se compreenderá que a situação proibida se dá, quais os meios de impedi-la, quais as sanções e formas de aplicá-las e tudo o mais que uma lei reguladora deve, desculpem-me a redundância, regular.

CONCLUSÃO: Não há motivo para terrorismo e paranóia a respeito de qualquer pretensão a uma «regulação da mídia» no Brasil, por ser impossível desrespeitar a perfeita disposição constitucional da liberdade de imprensa. Os únicos que podem ter motivo para temer alguma «regulação da mídia» são os que não queiram ajustar suas programações ao que manda a Constituição (conforme uma lei federal definiria) e, muito particularmente, os que não querem perder monopólios ou oligopólios porventura já formados e que poderiam ter de ser desfeitos por norma regulamentadora que acaso sobrevenha.

DEUS E A CERVEJA

Em minhas incursões pela Europa, regadas a vinhos e cervejas, sendo que estas são a minha preferência nacional, depois da bunda, aprendi que aquelas coisas horríveis que eles bebem e chamam de birra e de bière, com uma infinidade de odores, tonalidades e sabores, estes que vão do adocicado ao amargo, passando por nuanças inexplicáveis, do gosto de cravo a travo de azedo, deixando a boca com a sensação de que chupaste um peido resistente que ocupará a cavidade bucal por horas e horas, são, na verdade, as cervejas, e há de haver nelas qualquer coisa de ancestral, arcaica e intertemporal que os sentidos não explicam mas anseiam – e isso só será percebido muito mais tarde, quando elas, as cervejas pilsener, bock, stout, Weiss, münchem, ale e mais uma porrada de brancas e louras, pretas e vermelhas, em latas, em garrafas ou na pressão, estiverem fora do nosso alcance – e voltaremos à mesmice das nossas, suavinhas, que “eles” dizem parecerem água.dc

Enquanto nós, aqui, consumimos as de 3 a 5%, os malucos lá vão de strong a 14%, ou, se não são tão radicais, a 8 ou 10%, como a Faxe, por exemplo. E ainda tem doido para tomar uma alemã Schorschbock, a 40%, ou, se for mais pirado ainda, a Sink the Bismarck (Afunde o Bismarck), com 41 cacetadas na tua cabeça! Não foi por menos que o James Watt, proprietário da BrewDog que fabrica essa bomba, avisou: “É importante ter cuidado ao beber esta cerveja. É preciso respeitá-la”!

Na Europa, as coisas não param por aí, nem ficam nas excentricidades de cervejas misturadas com frutas e outras porcarias: temos, ainda, e não por último, uma cerveja que fica no meio do caminho entre cerveja e champanha, com destaque para a DeuS, que eu não pude deixar de degustar, apesar de custar a bagatela de vinte euros, no barato, em Bruxelas, e que se encontrares a menos de duzentos e trinta reais a garrafitcha de 750ml no Brasil podes comprar logo uma caixa e dar uma festa para os amigos: – Estranharás, à primeira golada, mas sentirás saudades dela, logo.

Esperavas que eu fosse dar uma panorâmica, ou uma aula de degustação, por ter tomado, em meus alguns anos de vida no Velho Continente, mais de duzentas cervas? Levedo engano! Nada posso dizer que não seja, a cada gole: gostei ou não gostei; sendo que a que apreciei hoje (uma Desperados com sabor artificial de tequila ou de cachaça) pode ser a mesma (Desperados) que despejarei no ralo amanhã, pensando por quê comprei aquela porcaria alsaciana!

O que posso, afinal, garantir é que nem só de vinho vive a Europa. Tem cervejas e queijos também, cada um mais fedorento que a outra. Todos divinos.

E por falar em divino, resta esclarecer, a respeito da cerveja DeuS, que apesar de ninguém saber a origem e significado desse nome, me garantiram não se tratar de um sacrilégio, pois, certamente, nem nos belgicismos a palavra “Deus” existe em Francês.

O SONO DAS ÁGUAS

Quando o velho me chamou para dizer que eu seria seu aprendiz, senti-me como uma criança. Tantos ansiavam por essa honraria e eu, que não me achava digno dela, estava sendo escolhido. Acabava de tornar-me um guerreiro e a preparação fora dura. Ele me disse que o novo caminho seria muito mais árduo e que as provações pareceriam não ter fim, até que eu estivesse pronto e fosse senhor dos domínios. A partir da escolha, tudo mudou. Minha família me tratava com tanto respeito e admiração que eu me sentia velho. Até os anciãos me davam especial deferência, tanta quanta a que dispensavam aos tolos. Sem saber corresponder, vi-me, na verdade, iniciando rapidamente, de modo muito brusco, a separação do mundo de que o velho me falava. Os companheiros não me podiam tocar, ferir, aborrecer ou magoar, nem preceder-me no que fosse. Proporcionalmente ao desconforto que essa situação acarretava, enchia-me de um inevitável mas secreto orgulho, acompanhado de um sentimento de superioridade que começava a alterar-me o modo de agir, de ser e de relacionar-me com as pessoas e com o mundo. O velho disse-me que era necessário que assim fosse, porque, na realidade, para participar das forças da natureza e do seu domínio eu não poderia mais compartilhar das coisas comuns; teria que passar a conviver com os espíritos, com as ilusões, a força mágica dos seres da floresta, da terra, das árvores, dos bichos, do fogo, da água e dos céus. Muito especialmente, com as folhas, com as ervas, com os caldos, os fumos, as cinzas e os ossos, com as cores e os sons. Fiquei, de logo, impressionado, e nem de longe ainda iniciara-me nos mistérios. A iniciação só começou de fato com a minha radical separação do mundo, após a fase de convivência diária quase muda, de simples acompanhamento dos passos do velho por onde ele andasse – e ele andava por lugares muito estranhos, ermos, sombrios – de observação de suas práticas rituais de preparação de caldos e feitiços, fumos, pós, tantas coisas desconcertantes, e, como ele fazia entender, de “auxiliar de forças” nas fatigantes sessões de cura, que duravam dias e dias insones, sem água e sem comida, à custa, apenas, de baforadas do cachimbo forte e de ingestão de caldos horripilantes, que, no entanto, nos sustentavam mais do que a caça mais fresca e nos davam uma sobre-humana energia ao espírito. A partir daí, tive que morar só, comer a pouquíssima comida que me era deixada, pescar, caçar e colher frutos da floresta sozinho, e utilizar todo o aprendizado da vida para fazer o que necessitasse, roupagens, pinturas e adornos, sem ajuda de ninguém, a não ser, em casos absolutamente indispensáveis, do velho.

Estamos entrando em uma cabana, onde um bravo ferido agoniza de profundos rasgos na carne feitos por uma magnífica onça, que evadiu-se ferida. Já sinto o início das forças, quando as palavras começam a ser pronunciadas ininterruptamente, acompanhadas de gestos incessantes e de cutucões com o cajado no doente, no meio de uma fumaçada que torna o ar quase irrespirável. Começo a compreender que as forças para o guerreiro ser curado estão agindo fortemente – sinto a energia do espírito – e que só desígnios dos deuses, que não podem ser contrariados, farão com que ele acaso não se levante mais. Mas ele se reerguerá e continuará sendo um dos mais fortes e ágeis caçadores, até que nada mais possa interferir no seu caminho para o encantado.

Quando começamos a sentar-nos para meditar e familiarizar-nos um com o outro, arrisquei satisfazer a curiosidade perguntando-lhe o que fizera a escolha recair sobre mim. Ele me respondeu que ele não escolhia, apenas sabia. E depois, quando eu lhe falei das vozes que ouvia com o vento e dos guerreiros que pareciam aparecer e desaparecer por entre as sombras dentro da cabana, na escuridão das folhagens e na espuma das cachoeiras dos regatos, dos presságios sentidos na audição dos pios de bichos noturnos e das imagens que o meu espírito me trazia não sei de onde, ele me disse: tivera então a confirmação clara de que a intuição não fora equivocada. Para outros eu de há muito já não contava mais nada disso, porque começavam a imaginar que eu estava ficando tonto e eu mesmo não sabia se sonhava acordado ou se endoidecia.

Ao pintar-me agora para a primeira cerimônia – secreta, misteriosa – da qual só nós dois podíamos participar, eu sentia a mágica nas tintas vermelhas, azuis, brancas e amarelas que me escorriam pelo rosto, pelo pescoço, pelo peito, pelas pernas, enquanto ele me lambuzava as costas de um óleo de cheiro forte, de bicho, para mais tarde pintá-las aparentemente a esmo, com figuras sem qualquer sentido e propósito. Para aquela noite eu arranjei muitas palhas, contas e flores, que me enfeitariam majestosamente, mas o mais especial que eu conseguira tinha sido uma belíssima arara, cujas penas coloridas me ornamentariam a cabeça e várias partes do corpo, deixando-me pronto para deslumbrar os espíritos e manter muito longe quaisquer eventuais inimigos em suas incursões nas partes mais embrenhadas da selva. Já havíamos dormido três noites no mato. O velho avisou-me de que não dormiríamos mais. Quando começasse a ser difícil enxergar nossos próprios pés, estaríamos chegando. Diminuímos a pressa dos nossos passos. Antes, corríamos como guerreiros, o tronco curvado para a frente, como se fugíssemos, ou como se perseguíssemos e vigiássemos a caça. Agora, ameaçávamos quase parar. Eu o imitava em um pisar tão suave que parecíamos espíritos caminhando entre galhos e cipós, sem barulho, sem mexê-los. Enquanto antes evitávamos as feras, agora não nos desviávamos de mais nada. Senti verdadeiro pavor na primeira vez em que cruzávamos com uma pantera negra enorme; preparei-me para o confronto. Mas o velho continuou andando mansamente, quase flutuando, como se ela não existisse, não estivesse ali, e eu o segui confiante, ao ver que o animal quase bocejava, como se nos indicasse que desconhecia nossa presença e, virando a cabeça para o lado, tomava outra direção, caminhando preguiçosamente no sentido oposto ao que trilhávamos na floresta. Logo vi que passávamos, já, a fazer parte da intimidade da selva. Todos os bichos ignoravam nossa existência. Podíamos passar-lhes a mão e até pegá-los, macacos, antas, cobras e pássaros, sem que se importassem, nem deixassem de lado seus rumos e seus misteres. A mágica que o velho anunciara já havia começado. O mundo estava enfeitiçado. Esse feitiço, segredara-me, seria para mim definitivo, quando as águas adormecessem.sa

Quando chegamos ao local sagrado, não precisei de aviso. A floresta abriu-se aos nossos olhos e a deusa dos céus, enorme, ó lua poderosa! derramou seu brilho e sua luminosidade por toda a clareira, inundando-a, trazendo para nossos corpos o seu frescor e a maciez do orvalho encantado!

Aqui, um rio largo, manso, quase um lago, ao pé da cachoeira borbulhante, espalhava-se por contornos de pedras redondas e areias morenas como os índios, marulhando um canto hipnótico nas ondulosidades lerdas que se desmanchavam suavemente nas margens. Uma correnteza serpenteante, cheia de redemoinhos, carregava lentamente, indo e vindo, folhas secas que pousavam nas águas como se as beijassem.

O velho fixou tudo demoradamente. Seus olhos tinham um brilho sereno e profundo, que transmitia paz e recolhimento. Muito devagar, abriu o manto sobre a esteira que acabara de desdobrar na areia limpa e acocorou-se. Quando também o fiz, sentou-se. Sentamo-nos. Ele começou a contar-me que o mistério, que poucos podem conhecer, está no meio da noite. Que é preciso encontrar essa hora exata, esse momento precioso, para enlaçar o espírito com os fluidos dos deuses, dos seres encantados e das coisas – terra e água, fogo e ar – e passar a, simplesmente, ser tudo isso também, planta e animal, seiva e alimento, tudo e nada. Naquela quietude, ele me contou que, no meio da noite, todas as águas adormecem. Adormecem e param. Completamente. No momento do sono das águas, tudo pára e o mundo mágico desabrocha, aparecendo para os nossos olhos; e que essa é a verdadeira essência do universo. Queríamos ver esse momento. Para isto estávamos ali, sentados no manto sobre a esteira de fibras macias, pintados e enfeitados de penas e flores, ossos e colares, palhas e resinas, meus cabelos com brilhos azulados de tão negros, acendendo nossos cachimbos na pequena fogueira, de paus finos e ralos, tomando na mesma cuia as grossas beberagens de nossas cumbucas, observando. Depois de algum tempo, o velho começou a falar, quase cantando, sons guturais embolados, bonitos, fazendo sinais com o cachimbo para as águas. Estava chegando a hora. Ele calou-se. Um silêncio pesado tomou conta de tudo. Ele me disse que olhasse as águas dormirem, que eu só me tornaria senhor dos domínios encantados quando pudesse fazer parte daquele acontecimento. Ficamos olhando o movimento das águas do rio. Parecia-me que elas deslizavam mais devagar agora, como se a vida estivesse parando. Quando a brisa cessa repentinamente e faz-se uma absoluta calmaria, temos a impressão de que a vida parou; e pegamo-nos surpresos, indagando ao mundo se chegaram os fins dos tempos. O velho falou, baixo, rouco, que o meio da noite estava chegando, muito próximo, e que era quase o momento do sono das águas. De repente, as águas estancaram, a cachoeira parou, os seus barulhos desapareceram. Eu vejo. E disse a ele que vejo. Ele balançou a cabeça olhando para o remanso, afirmativamente.

Não sei que mundo é este, agora, transparente, quase um sonho, mas estou acordado. Percebo que este é apenas um momento, magicamente eternizado. Olho o rio parado, a cachoeira em suspenso, e meus olhos não acreditam que isto seja real. O velho sussurra que esta é a hora da transição, pois no momento em que as águas adormecem abrem-se um para o outro os dois mundos, o da nossa realidade e o extraordinário, e que o espírito, participando deste acontecimento, descerra os olhos e os ouvidos e desperta para as suas energias próprias, antes amarrado que estava quase que exclusivamente aos sentidos do corpo, com raros lapsos de sintonia com o imaterial. Pergunto a ele quanto tempo durará o fenômeno e ele me responde que não é mais do que um piscar de olhos, pelos nossos sentidos, mas que enquanto o retivermos ele perdurará para os nossos espíritos. Assegura-me que o meu espírito já acordou para o mágico e que eu posso deixar o meu corpo ali, parado, contemplando, retendo o adormecer do rio, e viajar pelo real e pelo extraordinário. Experimento e saio com meus pensamentos, meus olhos e meus ouvidos para a aldeia. Chego lá instantaneamente. E vejo a vida passar sob os meus olhos, enquanto meu corpo dorme no tempo do rio parado. Retorno rápido à contemplação do rio, mas minha alma quer entrar nas águas paradas. Ao pôr os pés nelas, as águas não se movimentam e não me molho! Mas abre-se às minhas vistas o extraordinário. Vejo e sinto coisas que as palavras não sabem descrever e a memória não sabe lembrar. O velho me observa e me faz um leve sinal de que é hora de deixarmos as águas correrem. Não sei bem como fazê-lo, mas meu espírito sabe e retorna aos sentidos. O sono das águas, o momento, no meio da noite, em que todas as águas dormem e param exatamente como e onde estiverem, é rápido como o raio, a não ser que entremos nele e o façamos parar para nós. O rio acordou. As águas da cachoeira começam a mover-se tão devagar que mais parecem flutuar; e banhando-se nelas está a mais formosa índia que possa existir, que se possa imaginar, de longos cabelos, tendo no corpo apenas um enfeite de pequeninas plumas no tornozelo. Começa a cantar e o seu canto chama o meu espírito. Vejo guerreiros do outro lado olhando-nos, complacentes, com enfeites, cores, penas e flores mais bonitos que os nossos. As águas voltam a mover-se, mas os seres encantados não se vão embora. Pergunto ao velho. Ele me diz que não mais se irão, para mim, como há muito não se vão para ele, e que agora eu faço parte de suas forças, de sua mágica, do seu encantamento. Não precisarei de qualquer esforço para compreender as coisas, apenas as viverei. Saberei quais são as ervas, as cores, os pós, as cinzas, os cânticos e as palavras; e deles me valerei sempre que necessário; e os deuses virão; e conversarão comigo e eu não quererei mais nada a não ser estar junto deles. Não mais será necessário que eu venha ao local consagrado para ver as águas dormirem. Poderei vê-lo em qualquer lugar, no grande rio que margeamos na última mudança de nossa aldeia, ou no regato junto ao qual assentamos nossa atual morada. Basta-me sentar à sua margem, no meio da noite, e observar. No meio da noite todas as águas, por um breve momento, adormecem e param, em todos os lugares; e os predestinados que as vêem dormir a primeira vez podem vê-lo no meio da noite de todas as noites, porque a partir daí se tornam encantados. Foi assim que meu espírito abriu os olhos, tornou-se senhor de mim e fez desabrochar para os meus sentidos o invisível dos deuses e dos mortos.

Agora, quando os guerreiros correm compassadamente, enfileirados, empoeirados de tanto baterem os pés no chão desnudo da praça da aldeia, tirando sons ancestrais dos bambus fortemente assoprados, as mulheres com as mãos nos seus ombros, acompanhando seus movimentos rituais, as crianças seguindo alegremente atrás, imitando-os, e todos os demais homens, mulheres e crianças observando maravilhados a cena ritual, eu posso ver mais do que eles e a aldeia; eu posso ver os espíritos que os acompanham, na mesma dança, algo transparentes, e posso ver espíritos que tudo observam, e posso ver a deusa da cachoeira, linda, enfileirada com as mulheres que acompanham o cântico do bambu, e posso ver os guerreiros encantados que brincam de lutar no meio da poeira da praça da aldeia. Agora eu posso chamar os deuses com meus cânticos e trazê-los para junto do ferido, atrair seus olhares para o doente, suplicar a transferência de suas forças curadoras. Posso, também, preparar os homens para a boa caça, as mulheres para terem os filhos, os guerreiros para a vitória, envolvendo-os com as forças da natureza, e posso chamar as chuvas e os ventos, fazer crescerem os milharais e desabrocharem as espigas, e paralisar os peixes para a lança certeira. Posso tudo, porque os deuses me atendem; e me contam quando os desígnios não podem ser modificados. Sei que o mistério não é grande, nem pequeno. É apenas o mistério. Descobri-lo é mergulhar em suas profundezas no exato momento em que, no meio da noite, as águas dormem.

O ADEUS DE DORALES

No interior, onde vivíamos, costumava-se dizer que toda cidade tem o seu doido das ruas e toda família tem o seu maluco guardado no porão. Isso me parecia, mesmo, uma fatalidade e longe estava, ainda, de perceber que a loucura não é um mal em si, nem um bem, mas, apenas, uma das circunstâncias da vida. E que, loucos ou não, todos vivemos o drama da existência; e em certas situações extremas de sofrimento não é raro que preferíssemos estar fora do nosso juízo.

Assim é que, naquela vila alegre, onde tais divagações ainda não me assaltavam a mente e nem assombravam o espírito, menino despreocupado que era, radiante e feliz, solto em um mundo de vibração e energia, muitas vezes ouvi os adultos dizerem, orgulhosamente, que – para não faltar à regra – tínhamos, em nossa cidade, Dorales, o nosso louco da rua.

Dorales era um tipo bem diferente, que aparecia do nada, surgia na cidade vindo do meio do mato, muitas vezes atormentado por bandos de passarinhos voando e trinando em torno dele enquanto ele dava piruetas e agitava os braços para espantá-los. Às vezes Dorales parava repentinamente e, muito sério, falava com eles, apontava-lhes o dedo, zangado, e os mandava irem embora, indicando o rumo das montanhas distantes. Finalmente eles pareciam compreender e atendiam à ordem debandando em revoada.

Havia outras vezes em que Dorales, que em geral era carinhoso, terno e paciente com os animais que não o incomodassem exageradamente, permitia que o bando de passarinhos repousasse em seus ombros, em sua cabeça e, até, em cima dos seus pés, sendo carregados sobre os sapatos desgastados, até que decidissem partir em vôo agitado.

Um grave problema incomodava os adultos quanto às relações nossas, da meninada da cidade, com Dorales: Todos, sem exceção, admirávamos Dorales, queríamos ser como Dorales.

É que ele fazia coisas maravilhosas, que nos deslumbravam..

Rodeávamos Dolares, sempre manso com as crianças, e ele nos dizia coisas que nos pareciam profundamente filosóficas – diferentes do palavreado ininteligível que dirigia aos adultos, Aguardávamos ansiosos que ele fizesse alguma coisa espantosa e ele o fazia sempre, como meter a mão no bolso e tirar de lá algum dos inúmeros bichos que carregava. Sem cuidado, abria a mão bem devagar, mostrando aos nossos olhos fascinados, por exemplo, um escorpião… vivo!

Em outro bolso podia trazer uma enorme aranha caranguejeira, negra, peluda, que saindo de sua mão lhe subiria pelo braço.dr

E assim, carregava cobras e lagartos – literalmente! Nunca se soube que algum desses peçonhentos jamais o tivesse ferido.

Mas não era só. Dorales escalava altos coqueiros de costas, de cabeça para baixo e de tamancos. E da mesma forma descia, trazendo cocos para nós.

Algumas mulheres da cidade afirmavam que Dorales era meio feiticeiro e que já o haviam visto curando gatos e cachorros abandonados nas ruas, dando-lhes alguma coisa misteriosa.

Uma vez, invadimos sua humilde choupana, quando estava fora cortando lenha para alguém, o que ele fazia em troca de comida, e abrimos uma velha mala que ele tinha jogada a um canto. Logo tivemos a certeza de que ele era um mago. Que mágicas produziria, que elementos seria capaz de criar? Nem imaginávamos. Dorales era, sem dúvida, e além de tudo, um alquimista! A mala estava cheia de frascos de pós, líquidos e ungüentos das mais variadas densidades, cores e cheiros! Abrimos alguns. Uns eram perfumados. Outros cheiravam mal. Mas havia os que fediam tanto que assim que abrimos os seus recipientes tivemos de sair correndo do lugar.

Se Dorales era louco, não nos parecia. Quando nos contava histórias, falava-nos de um mundo maravilhoso que existia em sua cabeça, de locais esplendorosos, de mistérios e portais mágicos tão distantes, para muito além das montanhas que víamos ao longe, que nem ele, nem nenhum de nós, poderia ter como alcançar.

Um belo dia, uma coisa esquisita surgiu no ar.

Apareceu fazendo um barulho estranho, rateando, balançando-se desajeitadamente por cima das casinhas. Era o primeiro avião que já surgira por aquelas bandas. Desapareceu raspando telhas e árvores e fomos encontrá-lo pousado na grande várzea, na pista de barro duro amassado por carroças e carros de boi. O piloto, única pessoa que vinha nele, olhava desconsoladamente para os lados, até que, depois de inúmeras idas e vindas com alguns dos rudes homens do lugar, retornou com um recipiente cheio de um líquido vaporoso que foi colocado no tanque do avião. Dorales estava sempre junto, acompanhando, indo atrás, prestando a maior atenção. O homem explicou que ia experimentar. Se desse certo, se o líquido tivesse o poder de combustão necessário, a fagulha elétrica causaria explosões que movimentariam o motor, fazendo girarem as hélices, arrastando o avião pelos ares! Ficamos tensos, esperando. Sob suas instruções, Dorales fez rodar as hélices com um forte puxão – Dorales tinha o vigor, o porte e a força de um cavalo – e o motor funcionou. O avião levantou vôo, a custo, mas conseguiu partir, sumindo de nossas vistas em poucos minutos.

Desde esse dia, Dorales, que tinha uma capacidade inacreditável de observação, começou a construir o seu avião de pedaços de latas velhas, amassadas, enferrujadas, lonas meio apodrecidas e folhas de zinco, rodas de carroça e hélices improvisadas com velhos remos de madeira abandonados.

Um dia, a estranha engenhoca ficou pronta. Era uma construção grotesca, que imitava as formas do avião que se foi, como se um avião de verdade tivesse caído ao solo, se despedaçado, incendiado, sendo reconstruído com as mesmas partes amassadas, enegrecidas e quebradas. Nem por isso deixava de ser ter sua beleza. Para nós, meninos, parecia uma obra de uma mente superior e não podíamos entender como Dolares, que diziam ser analfabeto, tinha sido capaz de construir um avião.

Nenhum dos adultos havia, até então, se preocupado com a maluca construção de Dorales, mais uma de suas doideiras, quando alguém anunciou, sobressaltado, que ele fora visto indo em direção ao aparelho, carregando um recipiente cheio do mesmo líquido que servira de combustível para o avião de verdade e que levava na mão o velho isqueiro em formato de bala de revólver que usava para acender o pito de palha.

Corremos todos, afobados, gritando, ao ver de longe Dorales despejando o líquido inflamável no “tanque” que colocara no avião, imitando o verdadeiro, que não era nada mais do que um tambor metálico vazio que conseguira dentre as sucatas que recolhera.

Não deu tempo de pará-lo. Já estávamos bem perto quando Dorales, sentado em seu avião, acionou a roda do isqueiro de isca com a pele calejada, dura, grossa, de sua enorme mão, tirando fagulhas à boca do tanque, que explodiu num estrondo ensurdecedor, levantando chamas e uma espessa fumaça negra, de cheiro forte e marcante, que jamais me sairia das narinas.

O surpreendente é que, do meio dessa explosão, irrompeu o incrível avião, levantando vôo e partindo rápido pelos ares, subindo, subindo e subindo, suavemente, cada vez mais.

Dorales olhava para nós e nos acenava alegremente, enquanto acompanhávamos com os olhos fixos no céu, perplexos, boquiabertos, sua fantástica partida, indo em direção às montanhas, além das quais existiria um mundo encantado, que lhe enchia os sonhos e os pensamentos.

E assim Dorales se foi.

Nunca mais voltou.

A VOLTA DO CACHORRO

Por mais estranho que possa parecer, isto aconteceu de verdade.

O cara perdeu o cachorro. Melhor dizendo, o animal fugiu, ou ele achava que tinha fugido de noite. O dono saiu atrás pouco tempo depois do desaparecimento, bem na manhã seguinte, e testemunhas diziam ter visto o bicho passar, umas indicavam o rumo para um lado, outras para o outro, mas nada de encontrá-lo.

Percebeu que as pessoas deviam ter visto outro cachorro amarelo e não o dele.

Ele colou cartazes pelas ruas do bairro com a foto do cachorro; passaram-se duas semanas, vários trotes telefônicos faziam brincadeiras, davam falsas pistas e o cão continuava perdido.

Falaram-lhe de um vidente que descobria coisas sumidas, ele foi lá. Se desse certo estava baratinho demais o preço. Ele não acreditava naquilo, mas também não deixava de acreditar. Não há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia?cão

Marcou a consulta, na hora combinada entrou, sentou-se. Olhou para os lados, examinou tudo, o ambiente não inspirava transcendência. Tudo muito simples, poucos móveis surrados, paredes manchadas, cortina velha, cheiro de coisa antiga. O vidente recebeu o dinheiro, que pedia adiantado, e colocou-o de lado. Em seguida, segurou-lhe as duas mãos, respirou fundo e caiu no mais completo silêncio, entrando em transe. Com os olhos fechados e a cabeça abaixada, falou num sussurro:

– Seu cão não está mais neste mundo.

Bem que ele desconfiava que o cachorro tinha morrido. Alguém lhe falou que tinha visto um cachorro atropelado com aquela descrição, igual ao da foto dos cartazes.

– Não! – o vidente parecia ter-lhe adivinhado os pensamentos. Ainda em transe, disse : – O seu cachorro não está morto, está em outro mundo, em outro planeta.

Era demais! Outro planeta? Vai se catar! Tá maluco! Pensando assim, sem dizer uma palavra levantou-se e saiu batendo a porta com raiva e com força

O vidente saiu do transe com o o barulho da cadeira se arrastando e apenas olhou admirado para o cliente, vendo-o ir-se, sem compreender nada.

O tempo passou, o dono desistiu de procurar o cão. Um amigo presenteou-o com outro cachorro, um belo exemplar de raça pura, mas ele sentia saudade do seu vira-latas, com o qual tinha tido uns quatro ou cinco anos de boa camaradagem.

– Seis meses se passaram, pensou ele. Onde o meu vira-latas estiver nem se lembra mais de mim. Dizem que depois desse tempo os cães se esquecem completamente do dono.

Pois, hoje, alguém há de estranhar vendo o dono do cão perdido entrando no humilde consultório do vidente, de cabeça baixa, pedindo desculpas a ele.

O vidente não esperava por essa, o cara vinha trazer o dinheiro que tinha oferecido como recompensa a quem achasse seu cachorro. E ainda acrescentava mais algum, pelo seu arrependimento. Era mais dinheiro do que podia ganhar em uns dois ou três meses de consultas !

O cliente então contou-lhe a história surpreendente : Estava dormindo, seu novo cachorro começou a latir de madrugada, desesperadamente. Ele abriu a janela para ver o que era no momento em que o bicho, ganindo, escondeu-se amedrontado dentro de sua casinha.

É que uma estranha figura, que poderia ser descrita como um lobisomem, estava ao centro do quintal trazendo o cão desaparecido preso por uma corrente feita de raios de luz.

Ele continuou a contar que ficou apavorado. Não acreditava mais nas histórias de terror com as quais lhe faziam medo na infância, lobisomens não existem, talvez estivesse sonhando… mas, não estava, era tudo real, havia no seu quintal um monstro trazendo de volta o seu cachorro.

Nem teve tempo de desmaiar de medo, uma luz intensa veio do céu, a figura soltou o cachorro da corrente e foi sugada lentamente pelo jato luminoso, entrando no disco-voador, que desapareceu como um raio no espaço.

Foi quando ele desceu correndo e reencontrou o seu amiguinho canino, que o reconheceu e o recebeu com as festas que os cachorros fazem nos reencontros, especialmente depois de uma grande separação, latindo, chorando, balançando a cauda freneticamente.

Encerrando o relato do caso, ele pediu mais uma vez perdão ao vidente, encheu-lhe as mãos com um bolo de notas… e se foi tão rápido quanto entrou..

O vidente, ainda surpreso e boquiaberto, olhou para aquele monte de dinheiro, entre feliz e estarrecido, e murmurou com seus botões:

– Só dá maluco!

O BARQUINHO?

bq

UM CU DE BOI

Estando eu flanando pela Europa, alguns leitores do Jornal da Besta Fubana, um jornal escroto com o qual colaboro, querem saber por que sendo eu um esquerdista declarado, não vou, ao invés, para Cuba e Venezuela.

Estranham que eu prefira França à China e Itália à Coréia do Norte.

Tento explicar que esquerdista também é gente, garanto que não quero implantar o comunismo no Brasil e me ofereço para levar-lhes daqui vinho, óleo de oliva, cerveja da boa e champanha. Foie gras não, nem escargot e muito menos caviar, porque sou, além de vegetariano, defensor dos bichos – essa coisa de humanismo animal, típico de esquerdistas sensíveis.

Seja como for, fui enviado pelo dono, proprietário, diretor, redator, chefe e mandão do JBF para cobrir tudo o que acontecesse no correr de alguns meses em Paris, para o que seria regiamente pago.

Certo, mas errado. Chegando aqui os atrativos da vida mundana me desviaram completamente dos afazeres jornalísticos, além do que a grana prometida, quando chegava, mal dava para uma sessão do Lido, alguma ida ao show do Moulin Rouge e malemá para assistir a um concerto ou balé, que nem gosto tanto assim, no Palais Garnier, ou o Opéra de Paris.od

Mas o dever me chama, noblesse oblige, e resolvo que vou enviar algum material do velho mundo, ainda que mal remunerado.

Ia.

Como primeiro texto, falaria da Osteria Cu de Beu. É verdade que já fiz matéria a respeito dela há anos, de outra vez que passei por Savona, na Itália, mas um assunto sacana é sempre um prato feito.

Só que antes de começar a escrever vejo uma manchete que me chama a atenção: Jornalista que criticou a cobertura política da imprensa é demitido da GloboNews .

Ah, tenho de ver isso, porque essa não parece ser notícia que dê no jornal: um jornalista criticando a cobertura da própria imprensa.

Pois, está lá, dizendo que o âncora Sidney Rezende criticou a “má vontade” dos colegas de profissão com o governo Dilma Rousseff e, também, os comentaristas que consideram o impeachment da presidente Dilma Rousseff como a única saída para a crise econômica.

Tem mais! Ele escreveu em seu blogue que há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia; e que há uma obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, obsessão essa que está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo.

Pensei que ele já devia estar doidinho da silva quando li que ele afirmou que uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquecem do o dever principal dele e dos colegas, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser próprio desejo interior. E arrematou isso dizendo que essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também.

Aí, lembrei da expressão «vai ser um cu de boi pra conferir» e isso me remeteu ao nome da Osteria Cu de Beu, que deveria ser o tema do artigo de hoje, o que me leva a implorar: alguém aí tem idéia do prato que servem nessa taberna? Hoje come-se de um tudo!

Fiquei de fora, não entrei para conferir. Passei batido. Nada mais me surpreende ; e não me surpreenderá se andando pelas ruas deste oco de mundo me deparar com um Ristorante Buçanha de Vaca.

Ôxe !

O ELIXIR

Nada poderia ter sido inventado de mais valioso. O professor sabia disso e o coração queria sair-lhe pela boca. Chegou a pensar que tinha perdido a fórmula, mas aquela mistura que acabara de fazer reproduzia o invento original.

Durante muitos anos, a vida toda, podia-se dizer, trabalhara voltado quase que exclusivamente para o seu laboratório no porão, perseguindo a idéia que não lhe saía da cabeça. Tinha certeza de conseguir.

Gostava de dar aulas, mas quando as coisas começavam a lhe ocorrer e a fervilhar na mente em plena classe, inquietava-se, parecia ter bicho-carpinteiro, os pensamentos vagueavam, os alunos riam de sua tontice, falando sozinho, gesticulando, alheio a tudo, pegando suas coisas antes mesmo de soar a campainha e saindo em disparada pelos corredores, até chegar em casa e embrenhar-se no seu mundo de pipetas e cobaias.

Foi dando aula que a fórmula se perdera. Era complicadíssima, ocupava várias folhas, não imaginava onde poderia tê-la enfiado, talvez algum aluno, de brincadeira, a tivesse escondido.

Ele tinha uma porção preparada no laboratório, mas, por azar, o cachorro invadira o laboratório naqueles dias mesmo, derrubando o vasilhame e bebendo toda a mistura. O desgraçado do cão lambeu tudo, não deixou uma gota para análise que permitisse a recuperação da fórmula.

Por outro lado, esse próprio animal serviu de cobaia involuntária, dando-lhe certeza de que o preparado atingira os seus objetivos: ele havia descoberto a cura da calvície.

É que o cachorro era um animal bem velho, que soltava muitos pêlos, eles estavam ralos em seu corpo, e na maioria brancos, pouco saudáveis, opacos, ressecados.

Até então o professor ainda não havia testado a loção e já havia desistido de tentar refazê-la, mas após o acidente percebeu que os pêlos do bicho começaram a nascer em abundância, saudáveis, substituindo a pelagem feia e cobrindo todo o corpo do animal.

Feliz com a redescoberta da fórmula, o professor decidiu que ele seria o primeiro ser humano a testá-la. Nem pensaria em outra pessoa, pois começara a ficar calvo pelos seus dezoito anos. Para recuperar algum cabelo tentou xampus, medicamentos alopáticos, homeopáticos, simpatias, mezinhas, ervas, curandeirices – pelo amor de Deus, até excremento de galinha passou na cabeça! – e nada, nem um fio de cabelo.

Em poucos anos ostentava uma bola de bilhar sobre os ombros.

Foi quando começou sua luta para inventar um dos produtos mais cobiçados pelos homens, e até algumas mulheres, mas especialmente pelas indústrias do ramo, que ganhariam fortunas incalculáveis com uma poção dessas.DX

Agora, aos sessenta e sete anos de idade, seus esforços estavam sendo recompensados. Ficaria não só cabeludo como rico!

Chegou a hora de confirmar em si mesmo a eficiência do elixir. Sentou-se à mesa, com ar grave, chamou o cachorro para junto de si, acariciou-lhe os pêlos reluzentes e sorriu. Não, não ia tomar tudo de uma só vez, como fizera o animal irracional. Começaria com algumas gotas, iria aumentando ou diminuindo conforme os resultados, faria as anotações que competem a um pesquisador. Isso pensado, isso feito, tomou a primeira dose, o cachorro tinha razão de ter lambido tudo, era delicioso o xarope.

Se não nasceram cabelos imediatamente, o remédio provocou-lhe uma forte diarréia que o impediu de dar aulas, teve que telefonar e pedir que pusessem um substituto em seu lugar.

Dado o efeito indesejável, reduziu a dosagem, recuperou suas funções normais e em alguns dias observou que nascia em sua cabeça uma penugem fina.

Não podia ir trabalhar por enquanto. Voltou a telefonar para a faculdade e pediu férias, com a alegação de necessitar de se ausentar da cidade com urgência por certo período.

Já se via cabeludo, nadando em rios de dinheiro.

Mais alguns dias se passaram, ele regulava a dosagem segundo observava o aumento da penugem, quando surpreendeu-se no espelho observando que seu cavanhaque de dois dias já não era branco. A penugem da cabeça à medida que se tornava mais grossa também não era branca, estava ficando preta. Mas, o mais espantoso – e só agora reparava, ao examinar-se detidamente – é que suas rugas diminuíram sensivelmente, sua pele estava viçosa, os olhos tornaram-se brilhantes, e podia perceber, também, que vinha sentido uma disposição exuberante ultimamente, como se fosse um garotão! Estava mais jovem!

Tomou um susto. Observou o cachorro. Como não notara antes? O Duque remoçara sensivelmente.

Definitivamente, sua descoberta fora muito além das expectativas: havia criado, por acaso, o elixir da juventude!

Bem, a criação não fora tão por acaso assim. Afinal, o que é voltar a ter cabelos senão rejuvenescer?

Como bom cientista, começou a imaginar as conseqüências de sua descoberta: um laboratório compraria a invenção, certamente iriam estabelecer cláusula de assunto secreto, seriam produzidas porções limitadas, a serem vendidas a peso de ouro, comercializadas em segredo, só os ricos poderiam adquirir o elixir da juventude, a substância capaz de prolongar indefinidamente a vida.

Mais cedo ou mais tarde o segredo transpiraria, quando algum jornalista abelhudo começasse a investigar porque é que certos figurões parecem não envelhecer nunca.

Desvendado o mistério, aconteceria uma verdadeira revolução, todos querendo usufruir do formidável avanço científico, desenvolvendo-se guerras entre os laboratórios, picaretas fazendo falsificações, bandidos praticando o contrabando, até que, um dia, democratizar-se-ia o consumo: produção barata, juventude, vida longa para todos.

O que isso iria representar? As pessoas se manterão jovens, até quando? Qual a duração da vida? Eterna? E se ninguém morre, estaremos fadados a uma superpopulação incontrolável? Como arranjar casa e comida para tanta gente? A que situação caótica se chegaria? Certamente guerras seriam deflagradas para que o equilíbrio fosse restabelecido, seguidas de outras cada vez que o incremento populacional voltasse a assumir proporções comprometedoras.

Pensando nisso e em muitas outras conseqüências desastrosas, o professor anteviu que a descoberta mais espetacular de todos os tempos seria, ao mesmo tempo, a mais danosa para a humanidade. Seus pensamentos tomavam as rédeas e conduziam a visões cada vez mais aterradoras, descortinando-lhe o fim do mundo pela inexorável degradação do planeta.

Bem, nunca ninguém tomou conhecimento de nada disto que agora estamos comentando.

O que se sabe é que o professor desapareceu completamente.

Terminado o período de suas férias, como ele não retornasse para dar aulas, mandaram funcionários a sua casa e como ele não atendesse a polícia foi chamada e tratou de arrombar a porta. Entraram e encontraram a casa vazia, o laboratório completamente destruído, coisas derramadas, papéis queimados.

Feitas as investigações de praxe, apenas um vizinho declarou em seu depoimento ter visto alguma coisa: algumas semanas antes, bem cedinho, quase de madrugada, viu um rapazola saindo com um filhote de cachorro da casa do professor, entrando no carro dele, carregando um recipiente do tipo desses garrafões de dez litros de água mineral, cuja cor, de longe, lembrava gasolina.

O vizinho imaginou que fosse um mecânico levando o velho carro para algum conserto, mas a polícia não conseguiu descobrir o veículo em nenhuma oficina da cidade.

Do professor, nem sombra, nunca mais, mistério total, jamais solucionado.

O caso foi encerrado.
Ninguém nunca reconheceu alguém que tivesse a cara daquele senhor idoso, dos seus sessenta e sete anos, cujo retrato aparecia nos cartazes que anunciavam a procura de uma pessoa desaparecida.

Talvez, se tivessem colocado no cartaz uma foto do professor quando era jovenzinho, bem mais novo…

Nota: Graças a isso, o segredo da descoberta mais terrível de todos os tempos está definitivamente preservado, a não ser que alguém encontre, algum dia, dentro de um caderno de algum aluno travesso, uma folha contendo uma estranha e enorme fórmula e resolva aviar a receita.

QUINTA-FEIRA 5 E SEXTA-FEIRA 13, DIAS DE HORROR

Na sexta-feira 13 e novembro de 2015, dia fatídico dos atentados, eu deveria estar em Paris, pois era planejado ficar lá até 21 de novembro.

Questões particulares me retiraram da zona de perigo em 20 de outubro, quando parti para a Itália, e pela TV assisti dias depois, estarrecido, ao noticiário da tragédia.

Mas antes dos acontecimentos que enlutaram a França, entre um problema particular e outro eu preparava matéria sobre Savona, a pequena cidade da Itália onde passava uma temporada, para enviar para o Jornal da Besta Fubana.

O texto focaria sobre dois fenômenos sociais locais.

O primeiro, a constatação de que não há viados em Savona. Não vi um para remédio.dd

E o segundo, a incrível quantidade de cachorros de estimação. As ruas principais servem para o desfile de cães de raça e também para os sem raça. Umas famílias ostentam cachorros da mais alta estirpe, enquanto outras parecem apreciar os comuns, seguindo a crença de que os vira-latas são não só os mais inteligentes desses bichos, como, também, os mais resistentes, pegando menos doença, vivendo mais e comendo de tudo, sem serem dados a frescuras.

É muito cachorro, gente, vocês nem imaginam ! E eles têm acesso livre a cafés, bares, restaurantes, hotéis, supermercados… enfim, onde o dono for o cachorro também vai.

Falei sobre isso com a ragazza que faz a faxina no apartamento. Ela é sérvia, se não me engano, e respondeu : – Eles amam os animais. Mas não gostam de gente.

É uma opinião. Não posso contestar, nem endossar. Um mês de Itália e algumas rápidas passagens anteriores por aqui não me dão autoridade para opinar tão profudamente a respeito de um povo. Muito pelo contrário, minha experiência é diferente da dela, que vive aqui há cinco anos : tenho sido muito bem tratado pela gente italiana, acho-os simpáticos, barulhentos, bem parecidos com os brasileiros.

Mas não poderia tratar dessas banalidades a respeito de viados e animais de estimação estando na Europa em um momento tão dramático, quando apenas por acaso não estava eu no centro dos acontecimentos.

Resolvi então falar sobre o assunto dos atentados.

Mas eis que me defronto, na Internet, com um patrulhamento : Não devo falar de Paris antes de manifestar-me a respeito de Mariana.

É que uma semana antes dos atentados, no dia 5, rompera-se a barragem que deve ter tirado a vida a vinte e seis pessoas, eliminado inúmeros animais de criação, destruído plantações, desabrigado quase duzentas famílias e arrazado com o meio-ambiente da região, transformando o rio Doce em um mar de lama. Há perdas irreparáveis e não se sabe quanto tempo será necessário para recuperar a natureza devastada.

A meu ver, esse patrulhamento não tem sentido. A tragédia de Mariana nos afetou e emocionou profundamente a todos, estamos solidários com os irmãos das Minas Gerais que sofreram na pele os efeitos dela ; e não há um só brasileiro alheio às conseqüências, de olho nas notícias e à espera das providências necessárias,.

Alguns aspectos tornam as duas situações algo diferentes, enquanto outros as aproximam. O que mais difere uma da outra é o fato de que em Mariana sofremos no Brasil por causa da natureza e, possivelmente, pela falha humana – o que está sendo apurado ; enquanto em Paris ocorreram atrocidades planejadas e praticadas pela vontade louca e sanguinária dos homens, por fanáticos e psicopatas cometendo assassinatos que constituem crime contra toda a Humanidade e, assim, afetam diretamente o mundo inteiro – nada, nem ninguém, está a salvo dos atos de terrorismo, que podem explodir uma estação de metrô, jogar aeronaves sobre edifícios e explodir aviões no ar, dentre tantas as atrocidades que têm sido cometidas, inclusive metralhar pessoas inocentes dentro de um teatro, um bar ou um restaurante.

É por isso, e por outras, que o mundo, por lhe dizer respeito, se ergueu em reação aos atentados de Paris, enquanto pouco, sequer, o mesmo mundo ficou sabendo sobre o desastre de Mariana.

Foi por essas circunstâncias que brasileiros pintaram os rostos com as cores da bandeira francesa e não sentiram que fosse o caso de fazê-lo quanto às cores da bandeira do Brasil.

Algumas diferentes atitudes nossas, dos brasileiros, em relação aos dois acontecimentos não decorrem de impatriotismo, nem de redução da tragédia brasileira em relação à francesa, mas de sua desigual natureza.

O que interessa, mesmo, é que tanto quanto a um caso quanto ao outro sejamos capazes de encontrar as melhores soluções, para que tragédias sejam evitadas na medida do possível, aqui e lá, tanto desastres como o de Mariana, quanto atos de barbárie como os executados pelos terroristas em Paris.

ENCONTROS

Vidas que se cruzam, parece nome de filme, mas é o que, de verdade, acontece neste nosso mundo, o tempo todo, histórias se confundindo, enredos se entrelaçando, construindo o romance de uma era ligada a outra. Somos o que somos, o que vivemos, o que está acontecendo, mas não desligados do passado, mais remoto, que vem lançando os fios desta teia que se projeta para o futuro.

Daqui a dez mil anos, assim como nossos antepassados de cem séculos nos construíram, estaremos presentes nas células dos corpos de todos os seres que nos sucederem, do mesmo modo que na estrutura das plantas, nas águas dos rios e dos mares, na terra, no ar.

Somos tudo e não somos nada. Cada partícula que nos compõe esteve, há bilhões, trilhões – uma infinidade – de anos, perdida no funil de tempo e de espaço do Universo, vagando pelo Cosmo, separadas umas das outras por distâncias inimagináveis, compondo nebulosas, formando estrelas, que iluminaram mundos, explodiram, recomeçaram o seu interminável trabalho, quantas e quantas vezes?, e juntaram-se para constituir este corpo.

Assim Carminha olhou para o espelho e admirou sua imagem, a beleza morena, os lábios expressivos, olhos profundos. A juventude da pele deu-lhe uma sensação de vigor, um quê superior, que impelia para a vida lá fora.BC

Enquanto isto, Borges escrevia. Ele não pensava nessas coisas, nem no burburinho das ruas. Sentia-se solitário, enquanto tirava os olhos do papel e observava a claridade entrando pela vidraça. No fio da rede elérica, alguns passarinhos remexiam-se, nervosos, agitados, trinando. Uma pedra abateu um deles. Borges levantou-se e olhou pela janela. Um menino segurava uma atiradeira numa mão e na outra agasalhava o passarinho, barriguinha para cima, a cabeça pendida, balançando. Ele, o menino, não entendia aquilo. O passarinho estava morto. Pela primeira vez Borges e o menino compreendiam a morte. Os olhos de ambos marejavam de lágrimas. Borges voltou para sua escrivaninha e deixou a cena.

O que acontecerá com Borges e Carminha? Qual a distância que neste momento os separa?

A sirene do carro de patrulha agita os ares e as pessoas. Automóveis sobem na calçada para dar passagem ao insistente gemido. Dentro, Moacir agarra o fuzil com as duas mãos e cerra os dentes. Ele está apavorado, mas ninguém há de notar. Gostaria que o trânsito se tornasse impenetrável para que a patrulha tivesse de parar, mas os veículos à frente vão abrindo caminho para o terror, para a morte. À frente, um tiroteio na certa, com os traficantes muito mais numerosos e bem armados. Mas o Sargento Gracinha, como o chamam pelas costas, odeia covardes. Quer todo o mundo se apresentando, atirando, se oferecendo às balas. Carminha está passando quando é retirada de seus pensamentos pela balbúrdia. Gente se joga no chão, se esconde atrás de carros, de postes, do que for, para escapar do tiroteio. Moa passa correndo, esbarra nela, quase a derrubando. Ele sobe, com um grupo, pelas vielas da favela. Rostos surgem das esquinas, das janelas dos barracos e desaparecem rapidamente. Todas as portas se fecham, crianças choram, mães gritam desesperadas, as balas “comem”, granadas explodem. Moa está em um beco, ouve um tiro às suas costas, sente um calor no tórax, não compreende nada, seu peito mina um líquido grosso, quente, muito, muito vermelho. Vira-se. O cara continua apertando o gatilho, mas não sai mais nada. O cara está apavorado. Moa não pensa, só atira. Sempre odiei, pensa ele, enquanto entra em choque, ser chamado de Moa. Meu nome é Moacir! Moacir! Moacir, grita a sirene da ambulância, enquanto sua cabeça gira.

Talvez não tenha nada a ver com tudo isto o fato de um grupo de executivos estar almoçando num restaurante sofisticado quase à beira da Lagoa. Nem se pode dizer que tudo está acontecendo no mesmo momento, nem no mesmo lugar. As pastas pretas no chão, encostadas aos pés das cadeiras, estão abarrotadas de documentos, notas, projetos, sonhos de sucesso. Dentro delas, esquemas para derrubarem-se uns aos outros, atingirem metas, ganharem percentuais, garantirem o emprego, ganharem muito, muito, mas muito dinheiro mesmo, além de terem as contas pagas, o combustível e o telefone liberados, o cartão com um amplo crédito para os gastos diários. Coisa boa. Riem-se muito e apostam quem ficará com a Dany. Que está noiva e que ama Marino, que corresponde.

Marino toca na noite, acompanhando um casal que canta divinamente, mas que não consegue uma oportunidade de gravar. Nessa noite, não exatamente aquela, daquele dia, mas numa noite qualquer, enquanto Borges telefonava para pedir que lhe entregassem uma pizza, Moacir estava na unidade de terapia intensiva tentando sobreviver aos ferimentos. Carminha mancava, com a coxa ralada no muro chapiscado, pelo esbarrão. Num quarto escuro, um menino molhava o travesseiro por um passarinho morto. Acreditava, queria acreditar, que o espírito da avezinha voava alegremente nos céus do Paraíso.

Vejo as águas da cachoeira rolarem borbulhosamente pelas pedras, fazendo um chiado gostoso, frio, como parte deste mundo, deste Universo de nêutrons, prótons, elétrons, partículas atômicas sem fim, rolando pela imensidão numa bola de terra e água, azul, que vai para não se sabe onde, como se caísse num buraco imenso, num poço sem fundo, acompanhado de uma miríade de sóis e estrelas que ignoram para onde vão, tragados pelo tempo e pelo espaço.

Borboletas, pássaros, aves, minhocas, gatos, feras, peixes, bois, cachorros e cavalos, tudo misturado, cidades e florestas, campos e mares, montanhas e gelo, esperando que a história aconteça, que as pessoas se encontrem, que seus destinos se entrelacem, enquanto os astros se movem, as fábricas produzem seus gases poluentes, os carros lançam venenos nos ares, os esgotos estragam as águas e destroem toda a vida, escreve Borges. Onde iremos parar? E as gerações futuras? e Carminha? e Dany? e Marino? E Moacir? E – que ele não nos ouça – o Gracinha? e o garoto que Moa – droga, não me chame assim! – fuzilou no beco? e eu? E o menino que matou o passarinho e chora sem parar?

Os objetos e os acontecimentos realmente estão amarrados como o cenário e o enredo de uma novela, um novelo, uma corda enrolada. Nada é separado de nada, tudo tem conseqüência sobre todas as coisas, embora resulte em coisa alguma, pois, em dado momento, nada mais restará, daqui a anos, bilhões de anos, quando os diversos universos, que vagam pelo espaço, em rota inevitável de colisão uns com os outros, se encontrarem e explodirem. Aí, não tem Borges nem passarinho, apenas as cinzas.

A última coisa que se pôde ver foram os executivos saindo do restaurante, cada qual com sua pasta na mão, rindo, despedindo-se, pegando os carros, dando uma gorjeta para o manobrista e indo embora.

Não ficamos sabendo o nome deles, nem do manobrista. Como todos os demais, estarão com seus átomos, com suas partículas subatômicas, com os elétrons de suas pastas e de seus documentos, com a energia que restar da matéria das solas dos seus sapatos e do suor de suas meias, presentes naquela nebulosa que, um dia, será a poeira das estrelas.

MELCHÍADES E TELÉSFORO

Uma Crônica de Copacabana

Acabou parecendo uma brincadeira, uma seqüência de filme mudo, ou simplesmente uma palhaçada. Cada vez que Melchíades passava naquela esquina da avenida Nossa Senhora de Copacabana com a rua Bolívar, bem em frente a uma loja de discos que ali existia há muito tempo, bastava ele se distrair para se defrontar com aquele cara com um sorriso malicioso nos lábios distribuindo folhetos.

Lá estavam os dois, frente a frente, como num duelo, preparados para ver quem sacava primeiro. Era sempre o safado, com aquele troço já esticado na ponta dos dedos, empurrando o papel para dentro do seu peito: não tinha como escapar. Após um milésimo de segundo de hesitação, Melchíades, contrafeito, pegava o impresso, já nem lia, sabia de cor e salteado o que diziam todos, “não jogue fora, você um dia pode precisar”, “Madame Zulmira traz o seu homem em três dias”, “dinheiro na hora”, “compro ouro”, “pago pelo seu carro à vista”, “conserto a sua geladeira”, “temos artigos para todas as perversões, inclusive esporas”!cc

Melchíades ficava irado, sua educação não lhe permitia recusar a entrega do coitado que lhe estendia a mão. Procurava conformar-se dizendo para si mesmo que o chato do entregador precisava distribuir aquela tralha toda para ganhar seus suados trocados. Ao mesmo tempo, elevados princípios de cidadania o impediam de jogar papel no chão. Tinha que andar até encontrar uma das raras cestas de lixo, sempre abarrotadas de porcaria, ou dobrar bem dobradinho o papel e guardar, até os seus restos reaparecerem em forma de pasta de celulose pulverizada e grudada no bolso na volta da lavanderia.

Às vezes Melchíades se lembrava de fugir dele, pegava uma transversal, cortava pela Barata Ribeiro ou pela Domingos Ferreira, na subida para o posto seis, ou descia pela Aires Saldanha, incomodado de poder estar andando um trecho a mais talvez desnecessariamente, caso o propagandista nessa hora não estivesse lá no lugar de sempre.

Mas, naquele dia, resolveu correr o risco e passar pelo caminho usual e perigoso. Deu-se mal. Viu-o de longe. Pensou em escapar dele, mas também foi visto. O sinal fechou na rua Barão de Ipanema, os ônibus e os automóveis amontoaram-se, Melchíades enfiou-se entre uns e outros, fazendo ziguezagues, escapuliu no meio-fio, do outro lado da rua, misturado à multidão formada nos pontos de ônibus. Quando saiu do meio daquela gente toda, um braço esticado o esperava com o papelucho encostado em sua barriga. Tinha sido vencido! Revoltado, rrancou o papel bruscamente das incômodas mãos e fugiu dali apressadamente, com as faces pegando fogo.

Agora Melchíades estava preparado. Viu-o de longe e foi visto. Fingiu que atravessava a rua e voltou para a mesma calçada. O sujeito observou a manobra e voltou também. Ele ameaçou subir pela Barão de Ipanema, mas notou que o cara arregalou os olhos e correu para a Bolívar para cercá-lo na Barata Ribeiro. Ele percebeu o lance e voltou para a Nossa Senhora de Copacabana, certo de que havia se livrado. Que nada! Parecia um jogo de gato e rato: lá estava o cara de volta na esquina, com as mãos cheias. Ele não titubeou, atravessou correndo, com o sinal fechado, arriscando-se a ser atropelado, e voou em direção à praia, na Avenida Atlântica. Suado e ofegante, encostou-se numa palmeira, fechou os olhos, descansou alguns segundos, mas… quando deu fé, lá vinha o cara correndo em sua direção, alguns papeletes escapando das mãos, sendo levados pelo vento. Ora, a coisa agora era uma questão de honra, pensou Melchíades, não seria pego, não receberia a maldita imposição! Melchíades atravessou as duas pistas num esforço máximo, lançou-se na areia, perseguido cada vez mais de perto pelo maldito propagandista. Na beira do mar, foi alcançado, o entregador, mais ágil, projetou-se sobre ele, derrubou-o e rolaram na água, as ondas batiam sobre eles agitando-os e enchendo-os de areia. Por fim, exaustos, separaram-se e se levantaram encharcados, cobertos de espuma e de papéis agarrados aos corpos. Sentaram-se cansados, recuperando as forças, observando propagandas avermelhadas boiando no mar, espalhando-se entre as ondas, puxadas pela correnteza.

O entregador dos papéis lhe parecia agora menos ameaçador. Sentados ali, lado a lado, a água vez por outra lambendo-lhes os pés, entreolhavam-se, envergonhados, enfraquecidos, despidos do orgulho que os fizera envolverem-se na estranha disputa.

Finalmente, o entregador fitou-o de soslaio e timidamente perguntou o seu nome. Ele lhe respondeu: Melchíades, é com “ch” mas pronuncia-se Melquíades. Ah! Respondeu o rapaz. Muito prazer, acrescentou, estendendo-lhe a mão. Eu me chamo Telésforo, eles queriam pôr com “ph”, como o do meu avô, mas minha mãe bateu pé, firme, não deixou, “onde já se viu? dizia ela”.

Explodiram em gargalhadas, um ajudou o outro a se levantarem e voltaram para a rua arrastando os pés, chutando areia.

Nem queiram pensar que por isto as batalhas acabaram ali. Diariamente os dois estão se digladiando, naquele mesmo pedaço de Copacabana, um fugindo, o outro perseguindo. Virou um jogo. Melchíades não aceita mais pegar o papel, Telésforo se recusa a não completar o seu serviço. Cada um com o seu objetivo: o de Telésforo, entregar os maldito papeizinhos; o de Melchíades, fugir!

Às vezes, encontram-se fora da batalha no bairro onde moram e tomam um chope juntos. Algumas vezes, depois dessas “tréguas”, após o encontro no bar, Melchíades chega em casa e ao tirar a roupa encontra montes de panfletos enfiados em seu bolso, fazendo-o sofrer ataques da mais desvairada ira, enquanto, em algum outro ponto da cidade, Telésforo escangalha-se de rir.

Guerra é guerra.


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