EU E EU MESMA
Tenho andado especialmente triste. Não me diagnostiquem como depressiva. Primeiro, porque vocês não são médicos, mas artistas. E dos bons. Segundo, porque sou alguém que cuida da saúde e que já teve essa maldita doença quando me foram rompidos alguns laços afetivos. Se você disser que é a crise dos 40 e poucos, talvez eu acredite. Meu corpo passa por mudanças e, mesmo que eu as aceite, gostaria, sim, que ele fosse mais jovem. Vejo celulites, gorduras sobrando, cabelos embranquecendo, rugas e muito pouca firmeza na pele. Mas isso não é o mais grave. Passaria por isso sem problemas se eu tivesse mais certezas na vida. Os talvezes me consomem.
Sei que a graça da vida são as incertezas, mas muitas vezes eu me olho no espelho e vejo que o destino bem poderia ser mais gentil comigo. Imagino que muitos que me leem me analisam e se questionam se tive problemas na infância ou na adolescência. Sim, tive tudo isso e acho que muita gente os teve também. Não é mérito, nem demérito. Muitas vezes nem sei se quando escrevo sou apenas uma personagem ou se meu outro ego (o que sente) é que é a invenção. Quem será a inventada? A que sente ou a que escreve? Quem faz o papel de quem? Às vezes sou-me muitas e posso ser pouca coisa também. Sinto-me simples, mas para mim se voltam todas as complexidades da vida.
As tristezas que senti e sobretudo o sofrimento que vejo em alguns pacientes, especialmente as crianças, meus não me permitem acreditar em deus. Não me recomendem, portanto, nenhuma oração. Um ser superior que tudo sabe, tudo vê e que está em todos os lugares não permitiria que uma menina de cinco anos fosse violentada pelo próprio pai. Sou ateísta e nem a esquizofrenia de Chico Xavier me fará mudar isso.
Nunca permiti que as sacanagens do destino me deixassem esmorecer. Sonhei desde criança em ser médica. E eis-me aqui olhando com orgulho para meu diploma, relembrando os muitos cursos, as especializações que fiz, pois jamais admitiria ter sido pouco. Sempre me quis grande. Jarra cheia para os terapeutas, eu fui traída, traí e nunca deixei de acreditar em amor para a vida toda. Ou, sendo mais modesta nos sonhos, em um amor de extremo respeito enquanto existirem os bons sentimentos.
Semana passada, li uma pesquisa que dizia que um novo amor separa dois amigos íntimos. Pode procurar no Google que está lá. Acho que foi esse novo amor (ou que eu julguei que fosse amor) que me separou de meus mais íntimos amigos, os de todos mais importantes: o teclado, as letras, as frases, o parágrafo, o pensamento, a ideia, a lágrima, o riso. É escrevendo que consigo expurgar minha melancolia. Não me vejo escritora, apesar de ter a pretensão de um dia aprender alguma coisa, mas acho que procedi tal qual já assisti em alguns filmes: travei, travei e não conseguia escrever mais uma linha. O novo amor, o trabalho e a família, consumiam-me o tempo que deveria ser partilhado com aqueles amigos íntimos.
Foi tudo culpa minha. Sem meus textos, senti saudades do papa, da papisa, de Goiano, de Leo Lion, Gaião, de Neide, Jorge Filó, Zelito, Joãozinho Veiga, Cícero, Abílio, Zé Irlando e até do Zé Mané do Maçaroca. Por onde andará Lux mãe de 2? Nunca mais li nada. E vi que a única coisa que me aproximava dessas pessoas era a escrita de meus sentimentos.
Não atribuo culpa ao meu noivo. Eu é que quis, mais uma vez, tentar. E vocês não podem imaginar o quanto penei. Quem é acostumado a ver a Hellen dona de seu nariz e mandando os idiotas dirigirem-se ao orifício central talvez não possa conceber uma mulher romântica, que gosta de receber flores e que passou por um verdadeiro périplo para ter este noivo. Briguei com amigos, enfrentei família preconceituosa, uma cunhada não comida, pus-me a ser artificialmente paciente com pessoas mimadas, vesti-me de forma diferente, sacrifiquei meu trabalho, fui a lugares que não queria, jantei com quem não tinha vontade… Fiz, enfim, tudo que uma mulher apaixonada faz, mas que eu já houvera estabelecido que nunca mais o faria.
Errei? Vocês vão me consolar dizendo que não. A paixão cegou meus olhos, ensinou um amigo meu, citando Maiakovski. Apenas o amei mais do que ele a mim. Fiz poemas açucarados, compus músicas com rimas pobres, escrevi longos e-mails com declarações clichês, comprei-lhe presentes mais caros do que meu salário poderia pagar, passei o dia inteiro preparando jantares, cortei o cabelo, tirei sobras de mim com uma lipoaspiração, aumentei os peitos com silicone, passei a gostar de jazz e blues, quando minhas preferências eram MPB e forró. Alguém aí achou uma identidade? Meu nome completo é Hellen Quirino dos Santos. Podem me devolver a mim mesma?
Hoje, eu me arrumei inteira para sair. Comprei roupas novas e fiz uma maquiagem especial. Aguardei um telefonema que nunca chegou. Telefonei e meu noivo nãos atendeu. Fui ao computador e lá estava um e-mail dele dizendo que apesar de gostar muito de mim, as minhas circunstâncias impediam o nosso relacionamento. E o blábláblá segue como em qualquer fim de caso. Tudo igual… Logo imaginei o que poderia ter sido as tais “circunstâncias”. Será que é porque não posso ter filhos? Ou porque não abro mão de meu trabalho? Será que é porque engordei três quilos? É tudo isso e não é nada disso. Ele acabou simplesmente porque não quis mais. Só isso. E eu não vou ficar insistindo. Para ficar com ele, a pena é muito pesada. E talvez ele não a valha. Acabou.
Todo sofrimento é um aprendizado, pois o que não nos mata, certamente nos ensina a viver. E o que posso lhes dizer com estes olhos molhados como vocês nunca viram é que o maior amor que devemos ter é o amor-próprio. E mais: os amores passam e as amizades ficam!
Minha pressão é 12/8; meu colesterol bom é elevadíssimo, uma raridade; o ruim é normal; não tenho problemas cardíacos; a glicose sempre esteve em ordem; não tenho alergia à farinha e nem a bode; tenho tudo no lugar. Estou pronta para recomeçar.
Estou de volta.
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