RECORDAR É VIVER

LISBOA. Cada povo tem o furacão que merece. Nos Estados Unidos, é o IRMA. No Brasil, o PALOCCI. Só não se sabe, ainda, qual dos dois fará mais vítimas.

Nessa terça, Lula foi novamente ouvido por Moro. Agora, no processo do Sítio de Atibaia. As coisas vão se complicar, para ele. Ainda mais. Que Palocci já confessou ter sido um regalo da Odebrecht. Aproveito para lembrar passagens da sentença do caso Triplex – que condenou Lula por corrupção passiva. Como teremos em breve, nova sentença do Sítio (e, depois, ainda mais 4), vejamos se a história, como queria Maquiavel (em “O Príncipe”), se repete mesmo. Ou se a razão estaria com Marx (“18 Brumário”), para quem se repete só como farsa.

IRONIA. Antes de tudo, reconhecer haver uma certa ironia, nesses processos. Que a Vara em Curitiba, que condenou Lula, é a 13.

LIÇÕES POR CORRUPÇÃO PASSIVA. Na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Araucária, PR), a Camargo Correia e a Promon ofereceram propostas acima do máximo permitido pela Petrobrás. E, na Abreu e Lima (aqui em Suape), o mesmo aconteceu com Camargo Correia, Mendes Júnior e Consórcio Techint/AG. Sem razão para que o fizessem. Por já saber que seriam desclassificados. A menos, claro, que fosse uma licitação desde seu início viciada. Para proteger, nos dois casos, OAS/Odebrecht. Empreiteiras são sempre, entre si, boas amigas. As licitações foram conduzidas por Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Renato Duque. É preciso dizer mais? Agora, nesse novo processo, vamos ter novas lições. Quem viver, verá.

DEMITIDO. José Afonso Pinheiro, zelador do Condomínio Solaris, prestou declarações muito convincentes: “Todos sabiam lá que o apartamento pertencia ao ex-presidente Lula… Os corretores mesmo faziam propaganda… Dona Marisa Letícia se portava como proprietária”. O engenheiro Igor Pontes Ramos, da OAS, mandou que silenciasse. Mas o zelador obedeceu a sua consciência. Falou. E acabou demitido. Pobre José Afonso. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco. Coitados, também, dos caseiros daquele Sítio.

ESTATÍSTICAS. Quem quiser apostar sobre como se posicionará o TRF de Porto Alegre, considere seus percentuais nos julgamentos da Lava Jato em sentenças de Moro (Fonte “El Pais”, 13.07). Em 360 pedidos de Habeas Corpus, só 4 concedidos (1%). Em 48 condenações, apenas 5 réus absolvidos (10%). Penas foram aumentadas em 16 casos (30%). E a boa vontade, com o réu de agora, não parece grande. Tanto que já negou o desbloqueio de seus bens. E, sexta passada, também negou pedido para adiamento do interrogatório.

PROVAS. A decisão do TRF de Porto Alegre é relevante, para o futuro. Porque nela se discutirá, pela derradeira vez, as provas nesse processo. Posto que tanto o STJ (Súmula 7), quanto o Supremo (Súmula 279), não admitem “reexame e revalorização de prova”. Se discutirá, nessas outras instâncias, apenas vícios formais. O que quer dizer que, ausentes esses vícios, a Sentença de Porto Alegre (qualquer que seja) deve ser mantida.

E O POVO JULGA? A frase do ex-presidente Lula, “Só o povo tem direito de me julgar”, não parece fazer sentido. Assim fosse e um traficante, candidato a vereador, poderia usar esse mesmo raciocínio. Quando a comunidade o eleger, como se poderia cogitar prendê-lo por vender drogas? Nas democracias, senhores, voto e crime não se misturam. Eleitos ocupam seus cargos, por decisão do Povo. E criminosos vão para a cadeia, por decisão da Justiça.

AO PADRE NOSSO QUE ESTÁ NO CÉU

Padre Edwaldo Gomes. O “Padre Nosso”, como era conhecido. Na Paróquia de Casa Forte et orbi, assim se diz nas benções do Papa. Hoje, estaria fazendo aniversário. Lembro dele em palavras de Fernando Pessoa (Bernardo Soares, no “Livro do Desassossego”): Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os viram e amaram; outros ficam na memória da nação que os teve… Mas a todos cerca o abismo do tempo, que por fim os some. É o destino. Do Padre Nosso e de todos nós.

Dois anos faz, me mandou foto na festa da Vitória Régia. Com um amigo, junto, já tocado pelos efeitos do álcool. Nisso éramos diferentes. Que nunca bebi. Respondi assim, pensando já no futuro: Para o pastor/ Meu professor/ Fotografia/ Da alegria/ De um cachaceiro/ Bom companheiro/ E eu no missal/ Tendo afinal/ Alguma chance/ De que Deus canse/ Me deixe ao léu/ Confesso réu/ Nessa festança/ Da esperança/ De entrar no céu.

Em crise anterior de saúde, já escrevi sobre isso, estava no hospital. Entrei no quarto e disse, para lhe animar: Maravilha, pastor. Você, que passou a vida inteira se dedicando ao Pai, vai se encontrar com ele muito em breve. Deve estar feliz. E padre Edwaldo, fingindo estar revoltado: Vade retro, José. Gosto muito dele mas penso que não quer me ver agora. Silêncio. Após o que completou: Nem eu estou com nenhuma pressa de chegar por lá tão cedo. E ficamos rindo. Chegou sua vez, afinal. O Pai estava já impaciente, querendo conversar com ele.

Ao velho amigo que se foi há tão pouco tempo, como abraço de parabéns, ou como homenagem, ou apenas como uma lembrança, dedico esses pobres versos que escrevi chorando. Em seu louvor. Inspirados na oração do Pai Nosso, de Mateus (6:9-13). Só prova de bem querer:

Pai nosso
Que estás no sal da terra, no coração do fogo, na doçura das águas e na incerteza dos ventos nos céus
Santificadas sejam nossas vidas e Vosso exemplo
Venha o Vosso Reino aos homens bons
Seja feita a Vossa piedade, para além da Vossa vontade,
Na terra, mais que no Céu.

A paz nossa de cada dia nos dai hoje e sempre
Perdoai as nossas ofensas, se forem injustas
Porque não perdoaremos as injustiças que nos fizerem
Se a tentação acontecer, nos mostre outros caminhos
E livrai-nos do peso da vida, por fim, quando a hora vier
Amém.

MAIS UM CONFISCO

Cristovam Buarque, no seu “A Conspiração Próspero 1984”, disse que Uma conspiração perfeita é uma conspiração em que a própria descoberta da conspiração faça parte da conspiração. Não é o caso dessa de agora, em Pernambuco. Não tão sutil. Dura. Envergonhada. Uma conspiração apenas para transferir, ao caixa do governo, recursos de terceiros. Privados. Apropriação indébita, sem dúvida. Conduta mais própria do Código Penal.

Por essa conspiração, até 75% de recursos financeiros depositados no Tribunal de Justiça, decorrentes de ações em que Estado e agregados sejam parte; e até 20% de depósitos privados (litígio de José contra João, por exemplo), vão passar às mãos do Estado. Para pagar precatórios, é o que se diz. Será mesmo, no mundo real? Só Deus sabe.

Por que particulares, em vez de pagar valores questionados pelos poderes públicos, preferem depositá-los em juízo? Por uma razão evidente. É que não confiam no Estado. E com toda razão. Se perdem a ação, esses recursos vão afinal para os cofres públicos. Só que, ganhando, os levam de volta para casa. Sem mais esperas. Nem riscos. E não se trata só desses recursos. Os que o Estado deposita para pagar desapropriação, e afins, também. Finda essas ações, as partes recebem os recursos. E se, depois dessa tunga, já não houver grana para pagar? Como ficamos?

Tanto mais grave é que, um a um, nossos Estados estão quebrando. Pernambuco também, algum dia, talvez. Se faltarem esses recursos, quem vai garantir o contribuinte? Justificativa é que os recursos estão parados. Sem uso. Só mesmo rindo. Que o dinheiro não é do Estado. Se o argumento valer, também não têm uso boa parte dos depósitos bancários à vista da população. Em pouco, vão querer apropriá-los. Se não o Governo daqui, será o de Brasília. Sob a mesma desculpa. Caso necessário, o Estado repõe. Mas e se não houver recursos para isso?

Mais grave é que o Supremo já se pronunciou sobre essa questão. Em favor dos contribuintes. E contra os Estados. Por considerar se tratar de modalidade de empréstimo compulsório. Qualificável, na prática, como confisco. É só consultar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) números 5.072, 5.353, 5.365 e 5.392. Com decisões já tomadas, nesse sentido, pelos Ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Rosa Weber e Teori Zavascki.

Em resumo, então, melhor seria resistir à tentação de promover confiscos desse tipo. Melhor fazer uma conspiração do bem. Que é cumprir a lei. Bem mais sensato. E mais democrático.

CHESF. A CHESF já foi desmontada. Emagrecida. Transferida à Eletrobrás. E perdeu qualquer chance de manter seu papel de protagonista, no desenvolvimento. Nem incentivos à Cultura se faz mais por aqui. O que é ruim para o Nordeste. Muito ruim. Péssimo. Só que isso tudo se deu não agora, mas no governo Dilma (MP 579/2012). Que destruiu todo o sistema elétrico nacional. Sob o silêncio cúmplice de (quase) todos os que hoje fazem Frentes, e discursam, e protestam ruidosamente contra sua privatização. Às vésperas das eleições de 2018. Vai ver é só coincidência. Deveriam ter protestado antes. Mas preferiram calar. O que uma eleição não faz… É engraçado.

MINHA TERRA TINHA PALMEIRAS

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá”.

São versos de (Antônio) Gonçalves Dias, na sua Canção do Exílio. Implorou aos céus, o poeta, “Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá”. Deus permitiu. Doente, ao perceber que não teria cura, voltou da Europa. Com só 41 anos. No navio Ville de Boulogne. Chegou a ver, em 3/11/1864, as costas do seu Maranhão. Só que o navio naufragou. E o poeta, já muito frágil, não conseguiu escapar de sua cabine. Morreu afogado. Mas essa é outra história.

Na última sexta-feira, a Caravana Rolidei de Lula programou grande ato a ser realizado na Praça (Nossa Senhora) do Carmo. Padroeira do Recife. Ocorre que o caminhão do som encontrou problemas para estacionar, no local determinado pelos dirigentes do PT. No meio do caminho tinha uma palmeira, como as do verso. Tinha uma palmeira no meio do caminho do caminhão de Lula.

Era uma palmeira imperial já bem grande, com mais de 20 anos, que teimava em não sair do lugar em que foi plantada. Por ser neo-liberal, talvez. Solução mais simples teria sido afastar o caminhão, por 5 ou 10 metros. Mas Lula ia falar. E toda impertinência, contra o grande mestre, deve ser punida severamente. Conclusão, cortaram e retalharam a tal palmeira. Bem feito, para ela. Quem mandou ficar no meio do caminho?

Ao saber da notícia, não acreditei. Fui conferir. Encontrei, no local, três vendedoras com uniforme do “Pernambuco dá Sorte”. Em seus carrinhos de trabalho. Estavam indignadas. Disseram haver pedido que a pobre árvore não fosse cortada. Em vão. Nos mostraram o local, agora coberto por cimento. Junto de monumento ao “Herói da resistência negra do Quilombo dos Palmares”. Em meio ao calçadão de pedras portuguesas, agora está uma bola de cimento. Como um marco à insensatez. Estátua plana para comemorar o feito heroico de abater uma palmeira viçosa. Cheguei a pensar em pedir o nome das tais vendedoras, para pôr nesse texto. Melhor não. Temi pela segurança delas. Quem mata palmeiras inocentes é capaz de tudo.

O que espanta, em ações assim, é a prepotência. É a demonstração de que se consideram acima da Lei. Como se fossem deuses. Como se o discurso em favor dos mais pobres perdoasse tudo. Só a sensação de impunidade absoluta faz com que possam ter coragem de cortar uma árvore. Bem visto, a mesma que permitiu assaltar as estatais. E cobrir o malfeito. Ou tentar. É a marca dessa gente. No caso das estatais, escondendo a corrupção com dinheiro fora do país e doações eleitorais que dizem ter sido “legítimas”. No caso da palmeira, cimento.

Há incongruências graves no discurso de PT e agregados. “Se trago as mãos distantes do meu peito/ É que há distância entre intenção e gesto”, palavras do português Ruy Guerra (em Calabar). Nos discursos, todos se dizem a favor da democracia. Enquanto apoiam a ditadura sanguinária do “companheiro Maduro”, palavras de Lula.

Nos discursos, são a favor de uma política mais limpa. Enquanto seu Presidente de Honra já foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A 9 anos e 6 meses de cadeia. Sendo réu em mais 5 processos. A Presidente do Partido também é ré, no Supremo. Ela e seu marido. Todas as figuras importantes, em volta deles, foram já condenados. Ou são réus, em processos por corrupção. Ministros, governadores, deputados. E, nos discursos, ainda têm a coragem de se dizer contra a corrupção. Só mesmo rindo.

São também, nos discursos, a favor da natureza. Enquanto matam palmeiras imperiais. Tenho ganas de vomitar. E nem é só esse caso. Também um belo e imponente pé de coração de nego foi abatido, no Marco Zero. Porque impedia o palanque do PT, vitorioso na Prefeitura do Recife. Pobre dele. E tudo sob o silêncio cumplice de todos os simpatizantes do PT e cercanias. Ecologistas, amantes do verde, funcionários de órgãos de preservação da natureza. Todos eles. Calados. Lembro Drummond (no Caso do Vestido), “boca não disse palavra”.

A parceria entre PSB e PT já começa, também, a dar seus primeiros frutos. Quem é do time deles pode fazer o que desejem. Cortar as árvores que quiser. Onde quiser. Quando quiser. Fosse um de nós que aparecesse no Carmo, com um serrote, e seria preso. Nós, presos. Os de PT e PSB, problema nenhum. E nem desculpas pediram. Não está certo.

Iguais também, nos seus destinos, Gonçalves Dias e aquela palmeira. Que o corpo do poeta jamais seria encontrado. Suspeita-se que foi pasto dos tubarões. Enquanto a pobre palmeira, depois de retalhada, vai se decompor em algum terreno baldio. O poeta diz, nos seus versos, “As aves que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá”. Sobre as árvores. Problema é que, por aqui, nossas aves terão agora uma palmeira a menos onde pousar.

Local onde foi cortada a palmeia imperial virou estacionamento

JERRY LEWIS

Houston (Estados Unidos). O elevador abre a porta e aparece Jerry Lewis. Velho, gordo, alto, calculei metro e noventa. Ombros caídos. Como se os anos, ou remorsos tardios, lhe pesassem. Ao perceber que olhava fixamente para ele, deu um sorriso. Mas nada, naquele rosto, lembrava seus antigos filmes. Agora, mais parecia uma careta. Deixei descer o elevador. Não tinha pressa. Foi se afastando devagar, num andar lento, até que se perdeu no fim do corredor. Como se fosse miragem. As imagens de antes já não eram reais. Nada, naquele homem cansado, evocava quem foi. Lembrei de Pessoa (em “O Marinheiro”), Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena… Maria Lectícia chegou e me viu parado, olhando para o corredor. Perguntou quem era. Respondi, apenas, um fantasma do passado.

Cambridge (Estados Unidos). Lembro também 1969. Proibido de estudar no Brasil, pelo Governo Militar, acabei em Harvard. Graças a uma bolsa-de-estudos. Lá, fiquei num dos muitos edifícios que a Universidade reserva para estudantes. Aquele se chamava Whintrop House. Bons tempos. Depois, muitos anos depois, voltei à Universidade. Agora para dar aulas. Por conta da UNESCO. Aproveitei e fui à dita Whintrop House. Maior diferença eram as árvores que haviam crescido, no entorno. E uma portaria nova. Estranhamente vazia. Subi ao primeiro andar e comecei a procurar o quarto em que vivi. Um guarda enorme surgiu do nada. Olhou severamente para mim, talvez por não gostar de ter subido as escadas sem sua autorização. Perguntou se estava procurando alguém. Sim, respondi. Quem? Completei, Me (eu). Num primeiro momento, foi como se não entendesse. Depois, riu e disse Espero que encontre. Nos dois casos, trata-se da mesma relação entre passado e presente.

Brasil. Jerry Lewis parecia em paz. Como alguém que não se arrependeu de nada. O comparo a tantos, no Brasil de hoje. Tão diferentes dele. Personagens que começaram suas biografias de forma gloriosa e não conseguiram completa-las decentemente. Que despertaram em todos nós sonhos, esperanças, ilusões. De um país melhor. Mais justo. Mais limpo. Que tiveram a chance concreta de mudar a realidade. E jogaram tudo isso fora. Só por interesses menores de poder. Ou vaidade. Ou grana. Envolvidos, todos, em corrupção. Numa cumplicidade envergonhada que uniu poderosos empresários, onipotentes e castos, com atores políticos encantados pelas benesses dos seus cargos. E que cederam à tentação de enriquecer.

A vida pune. Alguns estão presos. Outros serão. Outros mais, com sorte, e mesmo processados, talvez escapem. Mas todos estarão condenados a vagar, pelos corredores do destino, como Jerry Lewis. Como se fossem fantasmas. Ou portadores de alguma doença infecciosa. Quem os convidaria para ser padrinho de seus filhos? Quem daria emprego a qualquer deles? Quem teria pena, ou lhes diria palavras de conforto? Faltando só lembrar os que desejam, a todo custo, reviver o passado. Confiando na frágil memória de seus concidadãos. Não vai dar certo. Terão dificuldades até nas pequenas coisas do dia-a-dia. Como, por exemplo, frequentar restaurantes. Ou ficar nas filas dos aeroportos. Ou andar nas ruas. Pensando bem, há uma diferença grande entre eles. Que Jerry Lewis queria ser lembrado por tudo que fez. Enquanto esses, hoje, querem só que a gente se esqueça do que fizeram. The End.

FINANCIAMENTO PÚBLICO?, VADE RETRO

A Câmara dos Deputados corre o risco de aprovar um Fundo de Financiamento para a Democracia – FFD, proposto pelo dep. Vicente Cândido. Do PT. Não é de estranhar. O lema, por lá, é só gastar e gastar. Como se dinheiro público nascesse em árvores. Inconstitucional, por não ter fonte de recursos – como já provou mestre Carvalhosa. Serão, no próximo ano, 3,6 bilhões de reais. Mais 819 milhões do Fundo Partidário. Mais cerca de 1,8 bilhões (estranhamente, a Receita Federal nunca informou o número exato) do Horário Eleitoral Gratuito – cálculo de Carlos Brickmann. No total, quase 8 bilhões. E o montante ainda vai crescer, nos próximos anos. Que será calculado a partir de 0,5 da Receita Corrente Líquida do governo. Sob a desculpa de que isso iria produzir eleições limpas. Só mesmo rindo.

A corrupção brasileira, senhores meus, vem de longe. É uma herança colonial, portuguesa, entranhada em nossas vísceras. Na nossa pele. No desejo mais íntimo de tantos. Que resiste a tudo. E não vai acabar com esse assalto a nossos bolsos. Ou com a Lavajato. Infelizmente. Como a Mani Pulite (mãos limpas) também não acabou com ela. Apesar das 6.059 pessoas investigadas e dos 3.292 presos – 1978 administradores locais (equivalentes, no Brasil, a Prefeitos), 872 empresários, 438 parlamentares, 4 ex-Primeiros Ministros. Foi com a intenção de evitar o caixa 2 que a Itália chegou a instituir um modelo de Finanziamento Pubblico, nas eleições Mas, com o fim da Mani Pulite (em 1996), logo se viu que ela continuou. Impávido colosso. Era dinheiro jogado fora. Sendo esse modelo, afinal, revogado pelo Decreto Legge 149/2013.

Na França, a partir de leis recentes (de 11.03.1988, 15.01.1990, 19.01.1995 e 11.04.2003), o financiamento público também é limitado. São pouco mais que 200 milhões de reais anuais para os partidos. Em 2014, 260 milhões. Em 2015, 240. Aos partidos que tenham tido, pelo menos, 5% dos votos. Além de até 28 mil reais, por pessoa física. E todas as eleições têm um teto. Para cada Deputado, por exemplo, 180 mil reais. Para Presidente, no total, são 65 milhões no primeiro turno; e 85, no segundo. Não sobra grana, por lá. Tanto que o PS, até agora no poder com Hollande, vai ter que vender sua sede – na Rua Solférino, em um quartier très chic de Paris. Para pagar dívidas. No relatório Cândido, em um país acostumado a malas de dinheiro, contribuições em espécie são aceitas até 10 mil reais. Na França, apenas 500. Calma, Vicente Cândido. Calma.

Nos Estados Unidos, a partir da Lei McCaim-Feingold (2002), pessoas físicas podem doar só até 8.500 reais. E o financiamento público, em limites modestíssimos, exige alguns requisitos prévios. Quase nenhum candidato aceita. Por ter que renunciar a contribuições privadas. Na Inglaterra, menos de 5% das campanhas vêm de financiamento público. Na Russia, o montante anual à disposição dos partidos é 90 milhões. Na Alemanha, a Parteingesetz (1967) garante 3,20 reais por voto, até 4 milhões. A partir daí, 2,65. E tudo pago, sempre, depois das eleições. Nenhum desses países chega perto dos 300 milhões de reais. Aqui, serão 8 bilhões. É muita cara de pau.

No Brasil, nossos homens públicos não pensam em reduzir o custo das eleições. Isso não. Só para ficar em um exemplo, o do Guia Eleitoral. Ele representa mais que metade nos custos de uma campanha. Bastaria que o governo pusesse televisões públicas (Cultura, Educativa, Universitária) à disposição dos partidos. Para gravação dos guias. Mantendo o atual sistema de distribuição das imagens. Equilibrando as campanhas. E reduzindo o custo desse item a 0,00 (zero reais).

Para essa gente, torrar dinheiro público em campanhas é a coisa mais natural do mundo. E têm coragem de ficar repetindo um mantra sem sentido, de que Democracia tem preço. Mesmo vendo nossa gente simples sofrer com falta de recursos para tudo. O estomago embrulha só ao ler notícias como essas, nos jornais. Sonho parlamentar da grana fácil. Usado na compra de votos. Pesadelo grande, para nós. Uma indecência. Não se trata de uma avaliação política. Não pode ser. Trata-se, basicamente, de valores. Esse financiamento público, com todas as letras, vai além de todos os limites éticos. É um escárnio. É uma Proposta Indecente.

O CASO DOS 3 CANIBAIS

Era só mais um caso de uso irregular de cartões de crédito. As câmaras da Chico Bijuterias revelaram Jorge Beltrão como principal suspeito. Numa compra de cinco reais. Em 11 de abril de 2012, o delegado Wesley Fernandes de Oliveira dirigiu-se à casa dele com um mandado de busca e apreensão. Chegou lá e encontrou, no pequeno terraço da frente, apenas uma menina que nem seis anos tinha. Disse “bom dia”. Silêncio. Foi até mais perto. Alisou aqueles cabelos mal penteados e perguntou onde estava seu pai. “Saiu”. O delegado mostrou foto de mulher, a dona do cartão, e perguntou se conhecia. “Painho mandou ela pro inferno”. Agora foi ele quem ficou mudo. A criança continuou: “Você quer ver a cabeça dela?”. Disse isso, pôs a boneca de lado e foi até o quintal. Nos fundos da casa. E apontou, com o dedinho, onde foi enterrada: “Está aqui”.

A cena se passou em Garanhuns, agreste meridional de Pernambuco. A 230 quilômetros do Recife. A cidade foi palco das três maiores tragédias já ocorridas no estado. Como se fosse maldição. O primeiro caso se deu há 100 anos, em 14 de janeiro de 1917. É conhecido, nos livros de História, como “A Hecatombe de Garanhuns”. Informada que seu marido – e prefeito eleito de Garanhuns -, Júlio Brasileiro, havia sido assassinado no Recife, a viúva, Ana Duperron, avisou que não receberia pêsames. E disse palavras ainda hoje lembradas: “Não derramarei nenhuma lágrima, se as outras não derramarem. E só vestirei luto depois que as outras vestirem”. Prenunciando mais viúvas que, por mãos dela, em breve seriam suas companheiras de infortúnio. […] Inimigos políticos na cidade, 18, acabaram mortos na cadeia pública. […] Nessa noite, a viúva Duperron se vestiu de preto. Fez o velório de seu marido. E chorou por muitos dias.

O segundo caso começou há 70 anos. Quando o bispo de Garanhuns, dom Francisco Expedito Lopes, deu ordens a um padre namorador de sua jurisdição, Hosana de Siqueira e Silva. Para desalojar, de sua casa, uma prima – ou sobrinha, ou protegida, ou lá o que fosse – por ele sustentada, Maria José Martins. Manda quem pode. O padre fez o que lhe mandaram. Obedece quem tem juízo. Muito contrariado. […] Em 16 de junho de 1957, Hosana dirigiu-se ao Colégio Santa Sofia. Onde morava dom Expedito. Para tomar satisfações. Depois de rápido bate-boca, mudou de ideia e deu-lhe três tiros na barriga. […] Depois de ter sido excomungado, e de cumprir pena, Hosana construiu pequena capela. Onde rezava missas diárias. Sem o prazer de ver um único fiel nas suas pregações. E sem notícias de se o Senhor, por conta de tão poucas rezas, terá perdoado tão grave crime. Em 7 de novembro de 1997, com 85 anos, também Hosana foi assassinado. A golpes de porrete na cabeça. Não se sabe por quem. Nem a polícia jamais teve qualquer interesse em descobrir.

Mas nenhum desses casos teve o impacto, nem despertou tanto interesse, nem provocou tanta indignação, como o caso dos 3 canibais. Que matavam mulheres e, para se purificar, comiam suas carnes – coxas, nádegas, braços. Os restos servindo como recheios para empadas e coxinhas de galinha, vendidas nas ruas.

NOTA. Início de conto que está no livro “Grandes Crimes”, da editora Três Estrelas (Folha/SP). Lançado agora na FLIP, em Paraty.

TEMER FICA

Na matemática, a ordem dos fatores não altera o produto. Segundo Pessoa (Bernardo Soares, no “Desassossego”), trata-se de ciência que vive na clausura de suas próprias regras e leis. Já na língua, mais viva, altera. Em palavras de Mistral (“Les iles d’or”), ela é um mistério e um velho tesouro. Temer Fica não é a mesma coisa que Fica, Temer. Numa situação, a gente aceita. Contrariado. Por não ter outro jeito. No outro, a gente quer. Pede, quase. Não é o caso. Ficou, como se viu nessa quarta. Aproveito para dar opinião sobre os atores, em mais um episódio triste da nossa história.

TEMER. Disse as palavras erradas. Deveria ter pedido, a Rocha Loures, que indicasse quem seria o proprietário daqueles 500 mil. Porque, fora disso, todos continuarão acreditando que o dinheiro era mesmo dele. Menos os 7% da comissão, 35 mil, para o intermediário. Ao dizer que confiava na lealdade do amigo, pediu foi que silenciasse. Adeus Temer. Pode até escapar, na votação. Mas, moralmente, já foi julgado por todos nós.

JANOT. Sabe que a jurisprudência do Supremo é pacífica no sentido de só aceitar gravações, como prova de acusação, quando autorizadas por Juiz. Essa regra, vigente para telefones, vale também para gravadores (art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil). Deveria ter recomendado, à Friboi, que requeresse dita autorização. Não fez. Por que? Difícil saber. Para piorar, ainda liberou a fita, para a Globo, sem sequer ter providenciado sua perícia. E apresentou denúncia equivocada. Ao Supremo, quando deveria ter sido à Câmara (art. 86 da Constituição). A menos que tenha sido de propósito. Para tumultuar o processo. O que é ainda pior. Fica a sensação de que usa seu cargo para uma briga de rua. Pensando em passar à história, talvez. Não passará.

VOTOS CONTRA A DENÚNCIA. Boa parte votou em troca de benesses. O fim. Boa parte como defesa, porque poderão também ser vítimas de denúncias semelhantes. O fim, também. Mas boa parte votou apenas por entender que o país não suportaria trocar novamente de presidente. Em favor da estabilidade, pois. O que é até compreensível. Seria bom separar esses grupos, antes de criticar.

VOTOS EM DEFESA DA DEMOCRACIA. Assim justificam seus votos, alguns deputados, pela aceitação da denúncia. Poucos são sinceros. O PT, por exemplo, apoia Maduro. E não pode usar esse discurso falso, de defesa da democracia no Brasil, enquanto apoia ditaduras como a da Venezuela.

VOTOS EM DEFESA DA ÉTICA. Outra justificativa. Insincera, para muitos. É preciso tirar, desse grupo, os que defendem Lula presidente. No discurso, defesa da ética. Na prática, apoio a um condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E réu, também, em mais 5 ações. Assim não dá.

FALSO VIDENTE. Este pobre coitado que vos fala. Em 22 de abril passado, escrevi: Quem será o semi-Deus que voltará dos céus, flamejante, para redimir os trabalhadores do Brasil? Lula, claro. Ele viajará de ônibus, por nossos interiores, numa espécie de “Caravana Rolidei”. Prometendo o céu na terra. Que os bons dias (de antes) vão voltar. Semeando esperanças (duvidosas). E agora ele anuncia que, a partir do dia 17, vai sair em caravana de ônibus. Por 28 cidades do Nordeste. Não há méritos, na previsão. Estava na cara.

NÓS, POVO. Continuaremos a fazer nosso papel de sempre. De inocentes. De trouxas. De quem (quase) perdeu todas as esperanças.

BASTA !

O professor Arthur Laffer (Chicago), ao estudar a Hawley-Smoot Tariff Bill (1930), enunciou tese que acabou conhecida como “Curva de Laffer”. Para ele, a tributação pode ser aumentada só até certo limite. Após o que, a cada novo tributo, a arrecadação diminui. Ocorre que, ao enunciar sua Curva, Laffer imaginava que dito limite se daria por volta de 70% do PIB. Estava enganado.

Posteriormente (1984), os professores Cristina e David Sobel (Berkeley) estudaram melhor sua planilha. E chegaram a novo patamar, hoje consensualmente aceito pelos economistas, de 33%. A partir daí, a sociedade recusa-se a pagar mais. E começa a se proteger. Por vias lícitas ou ilícitas, esse é o mundo real. Sendo bom lembrar que, no Brasil, andamos perto dos 40%. Já não dá para aumentar tributos. Mas o governo, impávido colosso, é insaciável. E quer sempre mais tributos.

Racionalizar serviços?, nem pensar. Demitir funcionários sobrando?, esqueçam. Escolher bons gestores ou limitar salários?, Deus me livre. Preocupação com austeridade?, nenhuma. Nossas elites sonham sempre com mais dinheiro. Agora, querem até que suas eleições sejam bancadas por grana dos impostos. O que é indecente, num país com educação e saúde indigentes como o nosso. Em troca de apoio parlamentar, por cargos e ministérios, estão sempre dispostos a fazer qualquer negócio. Sobretudo quando há gordos recursos à disposição. Como se fossem corsários à espera de repartir um butim.

O festival de gastos públicos é monumental. O Ministério Público, com salários nominais de até 33,7 mil reais (afora penduricalhos como auxílio moradia et caterva), esta semana se concedeu aumento de 16,7%. Num país com inflação por volta dos 4% anuais. E salário mínimo inferior a mil reais. O penhor de nossa igualdade não vale tanto. 13 milhões para escolas de samba?, claro. Dinheiro para emendas parlamentares?, sem dúvida. A farra não tem fim. Ao contrário de países sérios que viveram crises parecidas com a nossa.

Em Portugal, o governo cortou 20% de todos os salários públicos. Aposentados, inclusive. Ficaram sem aumentos por cinco anos. Nos Estados Unidos, país que sabidamente não é pobre, presos pagam por suas estadias nas prisões. Eles ou seus familiares. Presos federais custam 1.434 dólares/mês. No Brasil, que sabidamente não é rico, as famílias dos criminosos, em vez de pagar por seus presos, recebem subvenções. O governo é mãe gentil. Na última crise, Obama cortou 10% de todos os salários públicos. E proibiu aumentos por três anos. Esses países escaparam de suas crises. E nós, não.

Por aqui, as corporações não aceitam ficar sem esses reajustes. Fazem greve por aumentos, sempre, acima da inflação. Todos os anos. O governo, fraco, aceita. E recebem seus salários, como se tivessem trabalhado, todo fim do mês. Deitado eternamente em berço esplêndido, somos o único país do mundo em que isso acontece.

O governo de hoje é tão ruim quanto o anterior, eis a questão. Os vícios são os mesmos. As pessoas que o compõem, quase todas as mesmas. A falta de esperança, a mesma. Fernando Pessoa disse, premonitoriamente (em “O Interregno”), que Sem força, não se pode governar. E sem opinião, não se pode durar. Força o governo já não tem. E opinião pública do seu lado, nem pensar. A conclusão, segundo nosso poeta, é que não pode mesmo durar. Basta! Ó pátria amada, idolatrada, Salve! Salve!

VIVA PADRE EDWALDO

Padre Edwaldo Gomes, da paróquia de Casa Forte. Foi o mais importante representante na sua época, em Pernambuco, do pensamento de uma igreja mais comprometida com o social. Com dom Helder aposentado, coube a ele comandar as resistências ao conservadorismo que se espraiava. Nessa luta, foi alvo da ira do então arcebispo dom José Cardoso. Sofreu perseguições. E chegou a ser suspenso de suas atividades pastorais. No caso, uma condecoração. A forma tradicional de lembrar amigo tão querido seria falar de como foi uma boa pessoa, ou indicar algumas de suas tantas ações, ou dizer que fará falta. Por aí. Os jornais de encarregarão disso. Prefiro acompanhar o poeta Marcelo Mário de Melo, que recomenda lembrar nossos mortos por seus jeitos de rir. E faço isso pedindo vênia para contar algumas histórias suas.

1. Vésperas de seu aniversário. Pergunto se gostaria de receber uma Bíblia nova. Algo assim. Pedi sugestão. Ele disse preferir presentes líquidos e certos. Vermelho ou preto?, quis saber. Falou da escravatura. Dos negros que sofriam. Entendi. E, dia seguinte, cheguei lá com um Johnnie Walker black. O pastor gostou. Muito.

2. Conversa em frente à sua casa, numa festa da Vitória Régia. Minha filha Luciana, ainda pequena, e fascinada por sua conversa, disse: “Arretado, padre”. A repreendi: “Lulu, palavras como essas não podem ser ditas a um pastor”. E Luciana, inocente, perguntou a ele: “Arretado pode?, padre Edwaldo”. O pastor coçou a cabeça, pensou um pouco e respondeu: “Pode arretado, merda, bosta, porra e puta que o pariu”. Após o que completou, rindo: “Mas só pode isso, ouviu. Se passar daí, minha filha, é pecado”.

3. Com frequência almoçávamos, domingo, no restaurante Nez. Praça de Casa Forte, quase vizinho à sua casa. Junto com o padre João Pubben, da Igrejinha das Fronteiras. Hoje na Holanda. Abraços, Joãozinho. Conversávamos sobre a convivência entre visões de mundo diferentes, na Igreja. Intimistas, preocupados com uma diocese mais voltada para o espírito. E aqueles da teologia da libertação, mais atentos às carências sociais do seu rebanho. O garçom veio à mesa. Apontei os pratos e perguntei a padre Edwaldo: “O senhor é carne ou peixe”. O pastor, percebendo a malícia nas palavras, respondeu: “Os dois, José (assim me chamava). Os dois”. Após o que deu aquele riso gostoso.

4. No meio de uma conversa, perguntei a padre Edwaldo se existe algum “Santo Edwaldo” na Igreja Católica. Ele respondeu protocolarmente, sem atentar na homenagem por trás das palavras, apenas que “Não”. Depois, pensou melhor e completou: “Ainda não, José. Ainda não”. Risos gerais.

5. Em crise anterior de saúde, estava no hospital. Entrei no quarto e disse, para lhe animar: “Maravilha, pastor. Você, que passou a vida inteira se dedicando ao Pai, vai afinal se encontrar com ele muito em breve. Deve estar feliz”. E padre Edwaldo, fingindo estar revoltado: “Vade retro, José. Gosto muito dele mas penso que não quer me ver agora”. Silêncio. Após o que completou: “Nem eu estou com nenhuma pressa de chegar por lá tão cedo”. E ficamos rindo.

Chegou sua hora, enfim, nessa quarta. Lembro curioso diálogo de Pessoa (“O Marinheiro”): Primeira Veladora: Por que é que se morre? Segunda Veladora: Talvez por não se sonhar o bastante. Bons sonhos, amigo, junto ao Pai. Vai ser um belo encontro, imagino. Saudades do padre Edwaldo.

“INTERVENÇÃO MILITAR JÁ”

Domingo passado, bem cedinho, dois carros de som atrapalharam o sono das vizinhanças do Primeiro Jardim. Com gravações de antigas canções da caserna. Sobretudo o Hino da Independência (Já podeis, da Pátria filhos). Bem na frente, a faixa “Intervenção Militar Já”. Outras, “Pátria e Família”, “SOS Forças Armadas”, “Não à Lei de Imigração”. E “Quem Concorda Buzina”. Quase ninguém buzinou, graças ao bom Deus. Protegendo a trupe de quase 50 cidadãos, alguns carros da Polícia Militar. Não foram necessários, ainda bem. Porque ninguém foi lá protestar. Por não valer a pena, talvez.

Parte desse grupo, sobretudo aqueles mais jovens, não tem ciência do que aconteceu verdadeiramente nos 20 anos de chumbo inaugurados em 1964. Corrupção, por exemplo, naquele tempo foi farta. O que levou o governo, em 1968, a editar o Decreto-Lei 359. Criando uma CGI para promover o confisco dos bens adquiridos de maneira ilícita. Por militares e agregados. Não foi suficiente. A farra continuou. Tanto que, em 1970, o major Waldyr Coelho, Coordenador da OBAN (braço clandestino da repressão), propôs, ao Comando do II Exército, uma OBAN específica contra essa corrupção (documento ACE 16.645-70, AN). A diferença para hoje é que não se sabia dos submundos, então. Por conta da censura.

Mortos e desaparecidos foram 434. Todos minunciosamente descritos, vidas e mortes, no Relatório da Comissão Nacional da Verdade – da qual fiz parte. De Abelardo Rausch de Alcântara até Zuleika Angel Jones. Houve tortura, também. Convertida em política de Estado. Nossas polícias, acostumadas a ser violentas apenas com traficantes e ladrões de carro, tiveram que recorrer a especialistas estrangeiros. Da França, vieram veteranos de guerra da Argélia. Da Inglaterra, das lutas contra o IRA. De lá, veio a novidade das torturas psicológicas. Com as “Five Techniques”. Alternando: 1. Manter a pessoa de pé, por muitas horas, em frente a uma parede; 2. Encapuzar; 3. Sujeitar a grandes barulhos; 4. Impedir o sono; 5. Oferecer pouca comida e água.

Dos Estados Unidos, também. Militares brasileiros foram treinados no Latin American Training Center: Ground Division, que os States mantinham no Panamá. Quem quiser ver seus nomes basta ir ao Arquivo CNV 00092.003322/2014-32. O Coronel Paulo Malhães, em depoimento que nos deu, justificou. Sem denotar constrangimentos. Ou arrependimentos. “A tortura é um meio. O senhor tem que me apertar para eu contar. Então, a tortura é válida”.

Há provas de que pelo menos 1.843 pessoas (o número real é bem maior) foram submetidas a sevícias. Parte delas não sobreviveu. Entre as modalidades de torturas físicas estavam Afogamento – derramar água com querosene, amoníaco ou outro líquido no nariz da vítima, já pendurada de cabeça para baixo. Animais – lançados sobre o torturado ou introduzidos em alguma parte do seu corpo. Choque Elétrico – numa das máquinas usadas constava inscrição Donated by the people of United States. Pau de Arara – a vítima ficava suspensa por um travessão, com braços e pés atados, sofrendo afogamento, choques elétricos e sevícias sexuais. Produtos químicos – para fazer o torturado confessar, ao produzir alterações na consciência. Telefone – mãos em concha nos dois ouvidos, ao mesmo tempo, até a perda dos sentidos, em muitos casos com rompimento dos tímpanos e surdez permanente.

Ainda Cadeira do Dragão. Churrasquinho. Coroa de Cristo. Corredor Polonês. Crucificação. Enforcamento. Éter. Geladeira. Palmatória. Poço de Petróleo. Soro da verdade. Sufocamento. E outros. Essas técnicas estão descritas com detalhes nas páginas 366/375 de nosso Relatório. É bom que os jovens de hoje saibam, antes de pedir a volta do antigo regime. Porque esse passado foi duro demais, sujo demais, vergonhoso demais e indigno demais para ser esquecido tão cedo.

NÃO AO POLITICAMENTE CORRETO

Em gravação no WhatsApp, se pode ver discurso com importante homem público dizendo: No meu governo a Petrobrás não é uma caixa preta. É uma caixa branca. E transparente. Após o que completou, rindo, como se fosse algo engraçado: Não tanto assim. Mas transparente. Em frente a esse homem público estava a ministra da Igualdade Racial. Calada. E militantes de movimentos negros. Calados. A fala dizia, claramente, que preto era algo ruim. E branco, ao contrário, uma imagem do bem. Calados estavam. E calados se mantiveram. Em silêncio constrangedor. Cúmplice. Até palmas bateram.

Talvez devêssemos questionar se a fidelidade partidária, ou ideológica, deve ser prevalente em relação a princípios. Tenho dúvidas se esses personagens se manteriam inertes, impávidos, fosse outro a fazer aquelas comparações. E meu sentimento, perdão, é que não. Os direitos das minorias acabam, com essa atitude subserviente dos que aplaudem, reduzidos na sua significação. E no seu valor. Tudo a depender de quem fale. Se um adversário?, cão danado, todos a ele. Se alguém do mesmo credo, do mesmo lado, palmas. Assim é, meus senhores. Mas peço vênia para tratar, aqui, não desse alinhamento automático e tão pouco enobrecedor. E, sim, da praga do politicamente correto.

Para Pondé, se trata de uma forma de mau-caratismo. Não vou tão longe. Mas, simplesmente, não consigo acreditar que a tese do politicamente correto possa fazer sentido a quem pense com amplidão. Escusas por expor essa visão – talvez, para muitos, politicamente incorreta. É que vejo, como primeiro valor de uma democracia, a liberdade de consciência. O que traz algumas limitações óbvias. Uma retrospectiva. Que é não se poder aceitar censura. Nenhuma consciência livre se forma num ambiente de censura. E, outra, prospectiva. Que é o direito de se poder dizer tudo que se quiser. Quando e onde se quiser. Mesmo se ética ou politicamente incorreto.

Fora disso, temos só um puritanismo repaginado. Uma nova inquisição, a serviço de certas convenções sociais cômodas. Quando a questão central, assim considero, é outra. É saber até onde vai o direito de pensar livremente. Qual seria o sentido de ser assim, livre, se não pudermos exprimir, sem limites, essa liberdade de consciência?

Em 1987, o Congresso Norte Americano recusou aprovar uma Nova Lei de Imprensa (Libel Reform Act), elaborada pelo Annemberg Institute, que distinguia opinião de notícia. Indicando que notícias falsas, dadas por jornais e outros meios de comunicação social, trariam condenações – civis (indenizações) e penais (restrições à liberdade). Enquanto poderíamos dizer, à vontade, o que quiséssemos. Nesses mesmos jornais e outros meios. Protegendo, como estava na proposta, opiniões, charges e fotos opinativas. Mesmo quando politicamente incorretos.

Penso que, dentro de 100 anos, todas as leis de imprensa do mundo serão assim. Poderemos, então, dizer o que nos der na veneta. O que quisermos. Tudo o que pensarmos. Até mesmo aquilo, hoje, considerado politicamente incorreto. Pena que só no futuro. Por não ser ainda tempo de exercer, sem limites, essa liberdade. As resistências permanecem grandes. Mas penso que essa mudança será inevitável. Por ser importante, para a democracia. E vai mudar porque é preciso mudar.

A PRINCESA E O INFANTE

Conta a lenda que dormia/ Uma Princesa encantada. São os primeiros versos de um dos mais instigantes poemas de Fernando Pessoa, “Eros e Psique”. Publicado, na revista Presença, em maio de 1934. Como epígrafe, palavras de um Ritual dos Templários (“Assim vêdes, meus irmãos…”). Nada a estranhar. Que Pessoa era dado ao misticismo. Ele mesmo confessou, em carta a sua tia Anica (24/6/1916), ter começado a ser médium. Era capaz de prever o futuro. O suicídio do amigo Sá Carneiro, em Paris. O fim de Salazar. E sua própria morte. Não se poderia esperar é que fosse também capaz de, naquele tempo, saber o que se passa hoje no Brasil.

A Princesa encantada dos versos penso que é Dilma. Dando-se que dita Princesa encontra Um Infante que viria/ De além do muro da estrada (todas as citações são do poema). E esse Infante penso é Temer. Que veio de De além do muro (do PMDB). Só que dito Infante tentava deixar O caminho errado/ Por que à Princesa vem. Nenhuma novidade. Que até bilhetinhos queixosos mandou, para ela. Enfim O Infante, esforçado/ Rompe o caminho fadado. Com o impeachment. E acabaram se afastando. A partir daí, Ele dela é ignorado/ Ela para ele é ninguém. Sugerindo, Pessoa, que Cada um cumpre o Destino. Mas qual será tal Destino?, eis a questão.

A Princesa Dilma parece não ter ânimo para novas aventuras eleitorais. Devolveu a seu mentor, e criador, o comando. Não será suficiente. Lula jamais a perdoará por não lhe ter cedido lugar antes, em 2014. Tanto que já publicamente atribui, às medidas desastrosas tomadas pela Princesa, a crise do PT. Sem piedade. E aposta todas as fichas em um improvável “Diretas Já”. Que teria que vir antes de ficar inelegível, por conta da Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010).

Enquanto isso o Infante Temer, depois da denúncia de Janot (nesta segunda), já não parece ter condições para governar. Tornou-se um espantalho. “Uomo de paglia”, como dizem os italianos. Era carne, hoje é só palha seca. Rocha Loures, amigo íntimo que amava passear com malas endinheiradas, está preso. O Infante diz “duvidar de sua delação” (Folha SP, 3/6). Rezando pelo silêncio do assessor. Palavras erradas, senhores meus. Deveria pedir é que dissesse tudo. Quem seria o desconhecido beneficiário dessa propina. Porque, fora disso, acaba sendo legítimo acreditar fosse o próprio Infante.

Resumindo, hoje, dito Infante quer só permanecer no cargo. As reformas vão sendo desfiguradas, em busca de apoios. O fim do imposto sindical, por exemplo, já foi trocado por uma certa condescendência das centrais sindicais. E familiares têm seus imóveis restaurados com grana suja. Tudo como já vimos, antes, com outros.

Seu governo, a cada dia, fica melancolicamente mais parecido com o daquela Princesa que sucedeu. Semana passada, chamou o rei da Noruega de rei da Suécia. Frase digna da própria Dilma. Até ministros e assessores são os mesmos. E a gula por grana é a mesma. Só a equipe econômica se salva, graças ao bom Deus. Se o Infante aceitar conselhos, talvez pudesse ouvir o de Pablo Neruda (na sua “Canção Desesperada”): “É hora de partir. Oh Abandonado”.

O final do poema de Pessoa é profético. Ele imagina o Infante olhando para sua Princesa. Com A cabeça em maresia, ainda pensa que seus destinos poderiam ser diferentes. Embora saiba, no íntimo, que vão ser iguais. Todos sabemos. Afinal, como anunciado por Pessoa nos versos finais do poema, o Infante Ergue a mão, e encontra hera,/ E vê que ele mesmo era/ A Princesa que dormia.

A MUSA DA CENSURA

O 21º CinePE, que aconteceria entre 23 e 29 de maio, foi adiado. Por conta de cineastas que protestaram pela inclusão, na programação, de dois filmes: um, sobre o filósofo Olavo de Carvalho (“O Jardim das Aflições”); outro, sobre o Real (“O plano por trás da história”). Retiraram seus filmes da mostra gritando “Fora Temer!”. E se dizem defensores da democracia. Perdão, senhores, mas vão ter que escolher. Uma coisa ou outra. Censores ou democratas.

Não ficaram sozinhos, nesse gesto heróico. Logo outros, que se intitularam críticos de cinema, assinaram Manifesto (15/5/2017) concordando com o direito legítimo de não compactuar com a formação de uma tribuna para o pensamento ultraconservador que ora se vê encorajado pelo governo Temer. Para esses, mais importantes que os filmes em si, a liberdade de pensar e dizer, ou a própria democracia, é gritar “Fora Temer!”. A chacun son temps, como no provérbio francês.

A intolerância não tem pátria. Em Cannes, este ano, os filmes “Okja” e “The Meyerowitz Stories” acabaram boicotados. Por virem de duas empresas imperialistas, Netflix e Amazon. E por serem destinados a outras telas. Não foram considerados filmes. E acabaram fora das premiações. O presidente da HBO ponderou – Um filme é um filme, não importa se exibido em cinema, televisão, computador ou celular. Com toda razão. Menos para os cineastas bolivarianos que se deliciavam na bela riviera francesa.

Nos tempos de Hitler, um filme que falasse bem dos judeus jamais seria exibido nos cinemas alemães. Caberia então perguntar, aos cineastas/revolucionários de agora, se diriam lá o que dizem aqui – Vida e cinema não se distinguem. Caso em que apoiariam o Kaiser.

Na ditadura militar, caso fosse proibida a exibição de filme sobre um intelectual de esquerda, diriam todos que seria censura. Inclusive esses mesmos cineastas/revolucionários de agora, imagino. Já filme sobre um intelectual conservador, eles protestam. Antes, era censura. Agora, só um gesto democrático. Pungente e glorioso. Escusas, senhores, mas prefiro ficar com o poeta Fernando Pessoa (Ricardo Reis, “Odes”, 30/7/1914), Só na ilusão de liberdade/ A liberdade existe.

Não espanta que cineastas/militantes explicitem suas ideologias. Em prática aberta de censura. O espantoso é que, agindo assim, também se intitulem democratas. Democracia é algo diferente, senhores. É coisa séria. É a arte de conviver. Inclusive com pessoas que não pensam como a gente. Que não dizem o que gostaríamos de ouvir. Que fazem filmes, quaisquer de que sejam, diferentes do que preferimos ver. O que esses corajosos cineastas fizeram foi, digamos com todas as letras, censura. A mais clara. A mais intolerante. A mais insensata.

A direção da CinePE respondeu educadamente. Mais do que talvez devesse. Declarando respeito aos valores básicos da liberdade, quais sejam o direito de expressão, o respeito à pluralidade e o combate ao instrumento de censura. Mas, alvíssaras, tudo foi agora refeito. E o festival, afinal, será realizado. Entre 27/6 e 3/7. A partir da próxima terça, pois. Ainda bem. Em 1985, depois de 20 anos de chumbo, iniciamos, no Ministério da Justiça, o movimento Censura Nunca Mais. É lamentável que, 32 anos depois, ainda seja necessário dizer Abaixo a Censura.

A LOURA E O MORENO

A semana foi marcada por dois fatos envolvendo jornalistas corretos. Vênia para breves comentários.

A LOURA. É Mirian Leitão. Agredida, em um avião da Avianca, por guerreiros da democracia. Não preciso dar testemunho sobre o profissionalismo da jornalista. Todos o conhecem. O que torna injusto, e incompreensível, que seja confrontada como foi. Por uma turba com cerca de 20 marmanjos vestidos, todos, com camisetas vermelhas. Voltando de mais um “Fora Temer”, em Brasilia. Protesto caro. Sem que se saiba quem pagou hotéis, restaurantes e passagens de avião. Em meio a fortes agressões verbais, ao passar por ela (que estava na fileira do corredor), também davam-lhe encontrões violentos.

Lamento não ter havido reação de qualquer dos passageiros. Jamais concordariam com peleja tão desigual, claro – 20 homens contra uma frágil mulher de 60 quilos. Mais provável é que estivessem com medo. É natural. Também não reagiu o comandante do avião. O que não tem nada de natural. Posto que deveria seguir o procedimento recomendado para distúrbios como esse. Chamar a polícia e prender todos. Mas preferiu ficar inerte. Quem sabe por pensar como eles. As ideologias por cima dos deveres. Em terra como no ar.

Dia seguinte, em outro aeroporto, chamaram o jornalista Alexandre Garcia de golpista. Com ameaças de que poderia ser mimimirianlizado. Esses episódios não devem espantar. Os valentões são do mesmo partido político da ex-governadora do Rio, e ex-ministra de Lula, Benedita da Silva – que, em vídeo viralizado, prega uma revolução com sangue para solução dos problemas do Brasil. E não está sozinha, nessa proposta. Penso que essa gente vai ter que escolher. Ou democracia, com voto. Ou revolução, com espingarda. Ou ainda acreditam em eleições, e nesse caso continuam com essa pregação das “Diretas Já”. Ou preferem uma revolução, e terão que dizer isso claramente. O povo brasileiro vai então escolher qual caminho prefere. O voto. Ou a bala.

O MORENO. É Jorge Bastos Moreno. Grande figura. Desde bem jovem, acompanhava sempre doutor Ulisses.Tinha mesa cativa do Piantela. Quem quisesse encontrar com ele, bastava ir lá. Moreno era uma unanimidade. Todos gostavam dele. O poeta Marcelo Mário de Melo recomenda lembrar nossos mortos por seus jeitos de rir. Sendo assim, lembro do amigo contando essa historinha passada, por terceiro, à época – jurando ser mesmo, Moreno, o personagem.

A redação de O Globo mandou Moreno fazer entrevista com o doutor Roberto Marinho. Bem cedo. Mais do que seria recomendável. Ou desejável. Para doutor Roberto, que ainda estava no quarto. E para Moreno, que quase saiu de uma farra direto para essa entrevista. A empregada pediu que esperasse no terraço. Moreno, com seus quase 150 quilos, desabou na poltrona. Cansado. Ouviu um ruído estranho e nem deu por isso. Ficou naquele cochilo restaurador até quando a mesma empregada passou por ele, aperreada, perguntando pelo pequenez de dona Lili. Como era um cão miúdo, talvez estivesse escondido em algum canto do terraço. Nada.

Quando ela se foi, Moreno começou a ter maus presságios. Lembrou daquele som estranho, de antes. Levantou e encontrou, embaixo de onde estava sentado, o tal pequenez de dona Lili. Preocupado em não ser apontado como assassino de cães, segurou seus restos mortais pela cauda e jogou dentro de um jarro de plantas. Acabou descoberto só dias mais tarde. Pelo cheiro ruim, presume-se. E ninguém sequer lembrou que o culpado poderia ser ele. Ainda bem. Tanto que não foi demitido. Graças ao bom Deus. Depois da entrevista, se mandou e nunca mais pôs os pés naquela casa.

Imagino Moreno, ao entrar no céu, se encontrando com aquele cão. O que dirão?, um ao outro. Se é que há céu. E se cães também forem admitidos no lugar. Sobre Moreno, tenho dúvidas não. Se houver dito céu, com certeza vai estar por lá. E bem. Saudades dele.

A TATUAGEM E O VOTO

Para muitos, maior jurista do século XX foi o austríaco Hans Kelsen. Principal nome da Escola Normativista. Por sua Teoria Pura do Direito (Reine Rechtslehre) – que abstraiu, do conceito do Direito, a ideia de Justiça. Perseguido por Hitler, dado ser judeu, perdeu suas cátedras. Fugiu da Alemanha com a colaboração de nazistas que o admiravam. E acabou professor na Universidade da Califórnia. Em Berkeley. Onde morreu (1973). Sua posição a favor do julgamento de Nuremberg rendeu-lhe numerosos detratores. E a defesa daquele voto o acompanhou, como um fantasma, por toda a vida. Talvez aconteça o mesmo com os quatro votos de sexta feira, no TSE.

Mas, para muita gente mais, jurista maior terá sido o italiano Francesco Carnelutti. Fundador da União dos Juristas Católicos. E principal inspirador do Código Civil italiano de 1940. Algumas frases suas, sobre julgamentos, evocam também os quatro votos de sexta. Cito apenas: 1. A lei é igual para todos. Também a chuva molha todos, mas quem tem guarda-chuva abriga-se. 2. As pessoas creem que o processo penal termina com a condenação, o que não é verdade. As pessoas pensam que a pena termina com a saída do cárcere, o que tampouco é verdade. Nove em cada dez vezes a pena jamais termina. Quem pecou está perdido. Cristo perdoa, os homens não. Inclusive quem viu aquele julgamento pela TV.

Lembro Carnelutti porque, dez anos antes de morrer (em Milão, 1965), escreveu artigo monumental para a Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile – La Crise del Diritto. Em que sustentava fosse, ideal do Direito, não só Justiça. Também Segurança e Paz. E foi inspirado nesses dois ideais que, no julgamento do TSE, quatro ministros abandonaram as provas abundantíssimas do processo. Por considerar que seria muito ruim, para o país, perder outro presidente. Sobretudo quando já vamos ter, no começo do próximo ano, eleições diretas. Em palavras do ministro Gilmar Mendes, A cassação lançaria o país em quadro de incógnita. Respeito quem pense assim. Entendo as razões por trás dos votos. Problema, para esses que votaram, foi a fartura de provas sobre tanta corrupção. E é duro fazer de conta que nada disso existiu.

Em certa passagem, o ministro Admar Gonzaga dirigiu-se ao relator, ministro Herman Benjamim, e disse: O senhor não vai me constranger. Resposta: O que vai constranger os senhores serão seus votos. No plural. Palavras que valem para todos os que votaram pela absolvição. Imagino, ao dormir, como se lembrarão dos votos que deram. E das rezas, que devem ter rezado, para que todos se esqueçam do que fizeram. É o preço, meus senhores. Tudo tem seu preço.

Também nesta sexta, um jovem de 17 anos foi detido por populares ao furtar uma bicicleta. Era usuário de drogas. E se defendeu com palavras que bem poderiam ser utilizadas por quase toda nossa elite política: Nem sabia o que estava fazendo. Seja como for, tatuaram na sua testa, para que assim ficasse ao longo da vida, Eu sou ladrão e vacilão.

Para sua sorte, a prefeitura de São Bernardo do Campo já providenciou operação médica para corrigir isso. Bem visto essa tatuagem, para o criminoso, foi um mal menor que aqueles quatro votos, para os eminentes ministros. Porque tatuagens podem ser apagadas. E votos ninguém esquece.

O ANEL DE GYGES

Capelinha de Nossa Senhora dos Aflitos. Na Rosa e Silva, quase chegando ao Náutico (perdão por lembrar, amigo leitor, mas Hexa ainda é Luxo). Todo mundo conhece. Ou deveria. É a mais bela de Pernambuco. Para este pobre coitado que aqui escreve, e seus irmãos, tem um sentido especial. É que lá casaram nossos pais. Foi uma cerimônia curiosa. Sexta-feira, comecinho da tarde. Problema é que um juiz marcou audiência, no Forum, para pouco depois. E não aceitou remarcar. Consequência, dr. José Paulo casou com aquele terno branco de linho que usava normalmente para trabalhar. Igual ao de boa parte dos advogados, à época. E explicou antes, à quase esposa, que tinha o dever de ir à tal audiência. Findo o casamento, levou dona Maria Lia até um táxi. Carro era luxo que não cabia nos seus orçamentos. E foi à tal audiência. Ela teve que aceitar. Contrariada. Até hoje continua. Já nos seus 91 anos – embora pense, viva e ria como quem tem só 18. Mas advertiu: Se não chegar em casa antes das 6 da tarde, nunca mais vai me ver. Deu tudo certo, graças ao bom Deus.

Pois foi em tal capelinha, na homilia de sábado passado, que padre Sergio Absalão falou na lenda de Gyges. A mesma referida por Platão em sua “República”. Resumo. Gyges era pastor na Lídia. Depois de tempestade, abriu-se uma cratera em sua frente. Desceu lá e, junto a um cavalo de bronze, encontrou o cadáver de um gigante. Com anel de ouro em um dos dedos. Colocou esse anel no seu próprio dedo. Mais tarde, casualmente, deu nele uma volta para a esquerda. E ficou invisível. Girou novamente o anel, agora para a direita. E voltou a poder ser visto. Segundo a lenda Gyges, aproveitando-se desse poder, seduziu a mulher do soberano e o matou. Assumindo seu reino.

Para além da mitologia, trata-se de uma parábola sobre o bem e o mal. Até que ponto um homem virtuoso será capaz de resistir à tentação de proceder sempre retamente? Faria o mesmo caso soubesse que poderia agir como quisesse e, ainda assim, ficar impune? Qual o limite da virtude? Poucos dias faz vimos, em Palmares, pessoas humildes se preparando para invadir um supermercado. Era errado mas o fariam. A polícia é que não deixou. Em Olinda, numa greve da PM, o supermercado da Arcomix foi assaltado por uma pequena multidão. Inclusive fiéis que iam, todos os dias, a missas e cultos evangélicos. Não é uma questão simples.

Mas penso que nosso grande padre Sérgio não pensava propriamente em questões íntimas, quando se referiu a essa lenda. Talvez estivesse apenas sugerindo que, em Brasília, nossas elites políticas agem como se estivessem acima do bem e do mal. Carlos Pena Filho, poeta do azul, começa um soneto (“A Solidão e sua Porta”) dizendo: Quando mais nada existir que valha/ A pena de viver e a dor de amar. Pois naquelas bandas, amigos, vale a pena, a dor e sobretudo a grana. Eles topam tudo por dinheiro. Sem nenhuma poesia. Como se todos usassem, nos dedos, o tal anel de Gyges.

Para sorte nossa, por aqui, parece que tais anéis nem sempre funcionam bem. Por conta de algum defeito de mecanismo. Razão pela qual muita coisa finda por aparecer. Não tanto, é pena. Mas aparece. Penso em Gyges nascendo no Brasil. Onde estaria ele, hoje, com seu anel? Talvez fosse Presidente da República – conversando escondido coisas escondidas, noite alta, com quem deve e não deve. Ou talvez se apresentasse às massas, com lágrimas falsas nos olhos, como se fosse o Salvador da Pátria. Ou talvez, para seu azar, estivesse preso em Curitiba. Pensando em fazer delação premiada. Tudo é possível. O Brasil é muito mais complicado que a Grécia de Platão.

A ARTE DE SER CAMALEÃO

Os capitéis dos templos romanos eram povoados por figuras animais que vieram das páginas do Apocalipse. Expressando-se nessas figuras receios, remorsos, virtudes, o mel e o fel que habitam o indeterminado cidadão comum. Avançamos no tempo. Até (Friedrich) Nietzsche. Que fez seu bestiário baseando, na moral, a busca de poder que eleva o Übermensch (em tradução livre, o Novo Homem).

Inspirado nesses capitéis, representava esse homem com figuras animais. O camelo, com a moral pesada do eu devo. O menino, com a moral simples do eu sou. E o leão, com a moral onipotente do eu quero. Nesse zoológico de símbolos, será legítimo perguntar qual animal deveria representar a imprensa. Mais amplamente, os meios de comunicação. E, se assim for, talvez devêssemos escolher o camaleão. Por sua infinita capacidade para mudar sempre. Com a moral ambígua do eu me adapto.

Isso vem de longe. Nos livros de jornalismo, por exemplo, sempre se proclama que tudo começou com (Johannes) Gutenberg (1398-1468). Só que não é bem assim. Os tipos móveis não foram inventados por ele. Já sendo usados, na China e na Coréia, milhares de anos antes. Feitos em porcelana, madeira e metal. O título de Pai da Imprensa, que lhe é atribuído, se deve ao fato de que teria editado o primeiro livro. A Bíblia de Gutenberg, assim se diz. Problema é que essa Bíblia de Gutenberg nunca existiu. Trata-se de uma história inventada. Como tantas outras.

Para pagar dois empréstimos de 800 florins, cada, o coitado foi obrigado a entregar, em 1455, ao banqueiro Johannes Fust, materiais e obras em preparação. Entre elas, o projeto de uma Bíblia de 42 linhas. Apenas projeto. Que acabou depois realizado, inteiramente, por Peter Schöffer. Quando veio a público a Bíblia de Shöffer e Fust, em 1456, já Gutenberg havia voltado ao anonimato em que sempre viveu. Sem que se conheça um único livro impresso por ele. Nem havendo sequer um retrato seu. Nada. Ficou apenas o anúncio, alardeado por ele nos bons tempos, de que estaria fazendo uma Bíblia. Que nunca fez, mais uma vez se diga. Apesar disso, e por força das repetições, continuamos a falar na Bíblia de Gutenberg. Um caso claro em que a adaptação camaleônica de uma mentira, e sua repetição continuada, finda por se converter em verdade.

Escrever, adaptando bem conhecida sentença de Graciliano, é muito perigoso. Se partirmos da ideia de que o fundamento de todas as liberdades é a da consciência, vamos ter que reconhecer duas exigências básicas. Uma antes, que é não ter censura. Nenhuma consciência livre se forma sob o peso da censura. E outra depois, que é poder dizer tudo que se quiser. Fora isso, de que valeria ter uma consciência livre? Só que não é assim. Ao menos por enquanto. Para muito além dos símbolos, e dando à arte de escrever alguma dignidade, ela deve se fazer a partir de alguns compromissos básicos – com sua consciência, com sua circunstância e com seu tempo. Ao menos deveria ser assim.

*Início de prefácio para o livro “Histórias de um repórter”, do jornalista Magno Martins.

FALTA UMA ASSINATURA?

Lula é réu, a partir desta segunda, pela sexta vez. Hexa não é mais luxo. Agora, por conta do Sítio de Atibaia. Sua defesa, como no caso do Triplex, é que os imóveis não são dele. Nada assinou. Nenhuma promessa de compra e venda. Nenhuma escritura. Um argumento que faz lembrar David Irving, ao sustentar não haver provas da existência das câmaras de gás. Do próprio Holocausto. E das responsabilidades de Hitler, nesses episódios. A historiadora Americana Deborah Lipstadt disse que o britânico usava dados falsos. Irving processou Lipstadt. E perdeu. Acaba de ser lançado, em Paris, “Le Procès du Siècle”. Contando a história desse processo. Um filme de Mick Jackson, inspirado no livro de Lipstadt “My Day in Court with a Holocaust Denier”.

Em essência Irving, como outros historiadores, sustenta não se poder provar seja Hitler responsável pelo que aconteceu aos judeus. Dado por não haver memorandos, nem testemunhas, confirmando isso. Sobretudo, porque jamais assinou qualquer papel com autorização para tantas mortes. Segundo ele, sem assinatura não há prova. Lá, como cá. Naquele tempo, como hoje.

Principal operador na execução dessa política de extermínio foi Adolf Eichmann. Na Gestapo, era diretor de “Assuntos referentes aos Judeus”. Segundo os defensores dessa tese, teria agido sem conhecimento do Führer. Em livro autobiográfico (“Ich: Adolf Eichmann”), Eichmann confessa: Me disseram, em conversa, que o Führer (Hitler) havia ordenado a destruição física do oponente judeu. O escritor Willem Sassen confirma isso: Eichmann não pediu ordem escrita. O desejo de Hitler, expresso através de Himmler (“Comandante militar das SS”) e Heydrich (“Chefe do Gabinete Central de Segurança do Reich”), era bom o suficiente para ele.

Mais tarde, quando a derrota lhe parecia inevitável, Hitler começou a eliminar provas, ou mesmo indícios, que o ligassem ao genocídio. Obstrução da Justiça, hoje se diria. Assim ocorreu quando os SS abandonaram Auschwitz–Birkenau. Destruindo não apenas documentos, como o próprio edifício em que funcionavam as câmaras de gás. Destruíram, igualmente, os campos de extermínio de Treblinka, Sobibór, Belzec e Chelmmo. Como, também, tentaram eliminar evidências físicas de seus crimes. Cem mil corpos foram retirados de valas comuns por tratores, após o que acabaram esmagados e queimados; sendo, já reduzidos a cinzas, devolvidos à terra em fazendas rurais.

Resumindo. A pergunta é se a ausência de um documento, assinado por Hitler, seria suficiente para negar ter sido ele responsável pelo Holocausto. No fundo, ignorando o fato de que processos penais quase nunca exigem provas tão evidentes como fotos, vídeos, assinaturas. No caso dos campos de concentração, por sorte, alguns documentos surgiram depois. Mas, basicamente, temos depoimentos dos sobreviventes. Sem nada em comum, entre eles. Como nas delações premiadas de agora. O que nos leva à questão básica de saber se, ausente uma assinatura, depoimentos ou documentos assim valeriam, como prova, para condenar alguém.

Seria cômodo, para Hitler, reduzir o problema a só uma questão de assinaturas. Problema, contra ele, é não ser crível que algo assim tão enorme pudesse ter ocorrido longe de seus olhos. Ou de seu comando. Sem conhecimento, e consentimento, da autoridade maior. Do chefe. Coincidências… Por isso, perante o julgamento da história, só resta negar. Por a culpa em outros, se possível mortos. E dizer não.

E AGORA?

Canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece. Palavras de Rubem Braga (em “Ai de ti Copacabana”). E é mesmo tarde. Para lamentar o que poderia ter sido. Os pecados foram graves demais para serem perdoados. Por mais rezas que sejam encomendadas.

Agora, o que pode acontecer? Duas coisas. Ou o governo continua. Ou acaba. Só continua se for capaz de dar uma explicação razoável para o que aconteceu. O suficiente para permitir alguma sobrevida. Fora disso, melhor esquecer. Se acabar, isso pode ocorrer de três maneiras. Uma é Temer renunciar. Como não tem vice, haveria vacância no cargo. Nesse caso eleição, pelo congresso, em até 30 dias (Constituição, art. 81). Mais provavelmente, elegendo alguém de fora dele. Outra hipótese é um impeachment. Só que, depois da regulamentação definida pelo Supremo, isso vai consumir quase um ano. E o país não aguenta. Ou o TSE poderá declarar inidônea a chapa Dilma/Temer. E também dá-se a vacância. Eleição indireta, já vimos. Só lembrando que, para ser presidente, o cidadão precisa ser brasileiro nato (Const. art. 12). E ter mais de 35 anos (Const. art. 14).

Na verdade, temos dois lados muito parecidos. Os Ministros, hoje, são quase os mesmos de ontem. E não por suas qualidades. A esse novo governo faltou corresponder ao que esperava, dele, o indeterminado cidadão comum do povo. Queríamos que fosse diferente. Não era pedir muito. Sem o pessoal da Lavajato ocupando posições importantes. Como antes. Um grande médico na Saúde – e não um deputado qualquer, indicado por partido político. Pena, só, que iríamos ter reformas importantes para o país. Aceitamos tudo em nome dessas reformas. As mesmas que o recém-eleito presidente Macron, da França, está propondo. É que são realidades parecidas. Apenas isso. A economia tem regras próprias. Agora, tudo isso foi para o espaço.

É bom preparar o estômago para um festival de hipocrisia. Com voz de sensatez, muito defendem a governabilidade. E pedem que Temer renuncie. São os mesmos que, sabendo desde o início ser o impeachment de Dilma inevitável, tudo fizeram para arrastá-lo no tempo. Retardando votações. E recorrendo, ao Supremo, por qualquer coisa banal. Governabilidade, na boca desses, é algo falso. Uma palavra de ordem.

Ou sustentam que Temer deveria sair em nome da ética. E completam, sua pregação interesseira, defendendo eleições diretas. Nada contra. Basta que aceitem não poder ser candidato quem seja réu em processo penal. Se em nome da ética falam, espera-se que não desejem eleger um quase presidiário. A menos que se preocupem apenas em recuperar suas boquinhas.

Agora, só nos cabe esperar. Ou rezar, como queria Rubem Braga. Com dois sentimentos possíveis, no coração. Um, o da desesperança. Como está em Bandeira (“Pneumotorax”), A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Mas o Brasil é maior que suas elites. Mais amplo que qualquer crise. Por isso prefiro o segundo sentimento, de otimismo, que expresso em palavras redentoras de Manuel Alegre (“É preciso um país”): É preciso voltar a ter uma raiz/ Um chão para lavrar/ Um chão para florir./ É preciso um país./ É preciso voltar ao ponto de partida/ É preciso ficar e descobrir/ A pátria onde foi traída/ Não só a independência/ Mas a vida.

MORO E LULA, O ENCONTRO

As estratégias estavam, desde muito, já definidas. Lula não quer ser julgado. Simples assim. Ao menos, antes das próximas eleições. É réu em 5 ações penais. Acusado pelos crimes de lavagem de dinheiro (211 vezes), corrupção (17 vezes), tráfico de influência (4 vezes) e obstrução à justiça (1 vez). Um amigo alvi-rubro, ao saber que são só 5 ações, gritou cheio de orgulho Hexa é luxo!

Lula sabe que, se for condenado agora, corre o risco de ter a sentença confirmada pelo TRT da 4ª Região. Na Lava Jato isso demora, em média, 13 meses. Mas pode ser menos. E ficaria inelegível, pela Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010). Caso consiga retardar os processos, poderia ser candidato no próximo ano. Se tiver sucesso, como acredita, os processos iriam para o Supremo. Onde a chance de prescrição é bem maior. Faz o possível, para que passe o tempo ligeiro. Usa todos os recursos. E todas as chicanas.

No processo de agora, tinha direito a 16 testemunhas – 8 para cada crime pelo qual é acusado. Indicou 87. Moro poderia recusar. Mas aceitou. Não quer se diga que dificultou a defesa do ex-presidente. A expectativa dos advogados era arrastar o processo por meses. Ou anos. Deu errado. Moro já decidiu ouvir 15 delas por dia. Vai ser necessário só uma semana. Não deu certo. Fazer o que?

Lula se diz, agora, vítima de um julgamento político. Mesmo sendo acusado só por delitos de patrimônio. Desses que enchem nossas delegacias, todos os dias, com meliantes de todos os tipos. E já se lançou candidato a Presidente. Nunca se viu isso. Faltando quase 2 anos. Algo sem sintonia com o tempo eleitoral. Como se não tivesse outra opção. O que faz lembrar mestre Jobim – É pau, é pedra, é o fim de caminho.

Moro, por seu turno, sabe que a Lava Jato tem prazo para acabar. Conhece o precedente da Mani Polite (Mãos Limpas), na Itália. Em que, depois de 5 anos, ninguém mais queria saber da operação. E trabalha para que os processos estejam encerrados, todos, até o próximo ano. Uma análise isenta mostra que tem se comportado bem. Até agora. O Ministro Carlos Ayres Brito pediu a gente sua, no Supremo, para conferir o percentual de suas decisões que foram mantidas – no TRF-4, no STJ e no Supremo. Deu 94% (jornais chegaram, mais tarde, a 96%). E constatou não haver um único Juiz, no Brasil, com estatísticas de êxito sequer parecidas. Para desespero de Lula.

O depoimento dessa quarta-feira foi civilizado. Sem aumentos no tom da voz. Moro o chamou, sempre, de senhor ex-presidente. E, Lula, de dr. Moro. As perguntas, foram, todas, feitas a partir dos autos. As respostas, àquelas sugeridas por seus advogados. Não sei. Foi dona Marisa. Tudo era com dona Marisa. Nada a reclamar. Que acusados, em processo assim, têm direito de ficar em silêncio. Ou mentir.

Agora será só esperar o julgamento do dr. Moro. Se for considerado inocente, menos um processo para se preocupar. Se culpado, e a sentença for mantida pelo TRF-4, ficará inelegível. Nesse caso, adeus Lula. Teremos caras novas, no próximo ano. Sem rabos presos com a Lava Jato. Lembro Fernando Pessoa quando escreveu (“Últimas Palavras”), profeticamente, O amanhã pode ser apenas noite/ Ou pode ser uma aurora. Quem viver verá.

O FIM DO EMPREGO

Meu pai tinha devoção por Vitória. Uma escrevente do Tabelião Galba Pragana. Por sua enorme capacidade em transcrever longas minutas, nos livros. Com boa letra. Ligeiro. E errando pouco. Apesar de velhinha. A chamava, por isso, de Rainha Vitória. Só que não há mais rainhas assim, no mercado. Substituídas que foram por computadores. Minutas são enviadas, pelos escritórios de advocacia, diretamente aos Cartórios. Lá, são só formatadas. Por outras vitórias, terceirizadas, que nada escrevem. Já não há, nos Cartórios de hoje, livros físicos. Nem escreventes. A profissão desapareceu. Mais uma, entre tantas.

A Ernst Young (Estados Unidos) acaba de tornar público estudo segundo o qual, em 2025, 1 em cada 3 empregos vai ser substituído por tecnologias inteligentes. E a Universidade de Oxford (Inglaterra) outro, similar, revelando que 47% dos empregos que hoje conhecemos vão desaparecer até 2040. Nada a estranhar. O físico Stephen Hawking antevê que “a ascensão da inteligência artificial irá provavelmente levar à destruição massiva dos postos de trabalho, sobretudo na classe média”. Será isso bom ou ruim? Provavelmente bom e ruim. Ganha-se em eficiência na produção, qualidade nos produtos e custos. Perde-se em postos de trabalho.

Entre as profissões que mais rapidamente desaparecerão, segundo esses estudos, estão: Agricultor – O processo produtivo, no campo, será crescentemente automatizado. Caixas – A Amazon já abriu sua primeira loja em que não há funcionários. Clientes que têm um App Amazon go entram nas lojas, fazem as compras e vão embora. Essa experiência tende a se alastrar. Bancários – Cada vez mais seus lugares serão substituídos por home bankings. Operadores de telemarketing – As máquinas vão entender o que usuários dizem e aprenderão a responder. Carteiros – As comunicações serão cada vez mais eletrônicas. Agentes de viagem – O processo tenderá a ser crescentemente automatizado. Contabilistas – Serão substituídos por máquinas.

Mesmo profissões tradicionais, como médicos e advogados, vão sofrer. Nos Estados Unidos, um robot-advogado (chamado Ross) vem sendo já usado em várias firmas. Com sucesso. E médicos correm o risco de ser substituídos por máquinas que farão exames e prescreverão receitas, na maioria dos casos. Em resumo, todas as profissões que possam ser sistematizadas correm risco.

O futuro é já presente/ Na visão de quem sabe ler, disse Fernando Pessoa (“Quinto Império”). E ele é razoavelmente óbvio. Empregados com menor qualificação serão substituídos por mais qualificados. A robotização é inevitável. Não só porque robots não movem processos trabalhistas. É que, no longo prazo, custam menos. Também porque são mais precisos. E não erram. Só a fábrica da FIAT, em Goiana (PE), tem 700 robots. E cada robot substitui, em média, 5 trabalhadores. A FIAT, hoje, tem lá 3.000 empregados. Mas, sem os robots, ela teria 0 (zero). Que nem haveria essa fábrica. Impossível recusar o progresso.

Enquanto isso, no Brasil, um grupo bloqueia estradas e vai às ruas, enfurecido, na defesa só do passado – uma lei de 1943. Se batendo contra outro que defende só o presente. Para permitir redução de custos e mais previsibilidade nas relações de trabalho, agora. Ninguém se preocupa em estabelecer as bases do emprego, no futuro. Importante porque, dado os avanços da ciência, as pessoas estão vivendo mais. E tenderão a trabalhar por mais tempo. O que quer dizer ainda menos postos disponíveis, para todos. Está desenhada uma crise. A mais grave da humanidade. A crise do fim do emprego.

NOTÍCIAS DA SEMANA

1. MULHERES DA ARÁBIA. Domingo, a Arábia Saudita foi eleita para a Comissão de Direitos das Mulheres (na ONU). É algo estranho. Segundo a legislação do país, apenas com supervisão de um guardião (wali) do sexo masculino mulheres podem estudar, casar, divorciar, trabalhar, abrir contas em banco, se internar em hospitais ou viajar (nesse caso, se tiverem menos de 45 anos). Nenhuma dirige automóvel. E a Assembleia Consultiva (Shura) concorda. Porque, atrás do volante, estariam expostas ao mal. Em algumas regiões, ainda são obrigadas a cobrir o rosto. A partir de 2015, passaram a poder votar e ser candidatas (em eleições locais). Mas só podem fazer discursos caso se escondam por trás de biombos. Os edifícios públicos têm entradas diferentes, para homens e mulheres. Nas lojas, não podem provar roupas. Compram as peças tentando adivinhar, com os olhos, seus tamanhos. Agora, a Arábia Saudita vai legislar. Na ONU. Sobre os direitos da mulher. Dispensáveis quaisquer comentários sobre essa inconsequência. Seria como falar de forca na casa de um enforcado.

2. JERRY ADRIANI. Fim de missa da mulher de um famoso cantor das Emoções. Esperando que a multidão se dispersasse, o puseram em uma pequena sala. Para fazer companhia ao viúvo. Depois viriam buscá-los. Foi quando tal cantor, O Cara, deu-lhe as costas, virou-se para um jarro de flores e começou a conversar: “Plantinha querida, vou lhe contar a história de minha vida. Eu nasci em…” Passados 15 minutos Jerry, por sentir não ter o que fazer ali, saiu discretamente. E comentou: Depois, dizem que o doido sou eu. Agora, domingo, saiu da vida. É pena. Vai-se o homem, ficam suas histórias.

3. ELEIÇÕES FRANCESAS. O primeiro colocado (23,9%) nas eleições de domingo, Emmanuel Macron, não é filiado a nenhum partido. Foi candidato pelo movimento En Marche. Mesma situação do terceiro (19,2%), Jean-Luc Mélanchon. Candidato pelo também movimento La France Insoumise. A segunda (21,7%), Marine Le Pen, é de partido, o Front National, com só 2 entre 577 Deputados da Assembleia Nacional. O Partido Socialista, até então maior da França, teve só 7% dos votos. Em toda parte, o eleitor quer algo novo. Desencantado com o que conhece, prefere o risco. Será isso bom ou ruim?, é cedo para saber.

4. LEI DE ABUSO DE AUTORIDADE. Foi aprovado quarta, por unanimidade, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, projeto de lei feito para intimidar Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário. Após alterações sensíveis no texto, ainda bem. Autor do Projeto (85/2017), era mesmo de esperar, foi Renan Calheiros. Relator, Roberto Requião. E agradou a muitos réus. Tanto que recebeu entusiástico apoio do ex-presidente Lula – A gente não pode deixar de votar esse projeto. Está explicado. Prefiro as palavras do Senador Cristovam Buarque: Privilegiados brasileiros sempre cometeram abuso de poder. Agora que se começa a chegar a eles, querem uma lei para se proteger. Só faltam colocar, no último artigo, “essa lei entra em vigor no início da operação Lava Jato”. Mais grave é que tudo se passa quando estão em vias de ir, à cadeia, velhos expoentes de uma forma deletéria de fazer política. Provérbio latino ensinava que Ex digito gigas. Pelo dedo (se conhece) o gigante. Saramago, ao receber o prêmio Cidade de Lisboa (em 1982), lembrou dele. E comentou: Por pequenas coisas se pode adivinhar os homens de bem. E também os ladrões, está implícito.

PRECISA-SE DE UM HERÓI

No bem conhecido diálogo de sua peça “Galileu Galilei”, (Eugen) Bertolt (Friedrich) – que adotou o sobrenome literário de Brecht – põe Andreas, um discípulo, se dirigindo a seu mestre: Infeliz do povo que não tem herói! Galileu o repreende: Infeliz do povo que precisa de heróis! Diferente deles, penso que verdadeiramente infeliz é o povo que precisa e não tem heróis! Como, hoje, o povo brasileiro.

Na Grécia antiga, em Atenas, Diógenes de Sinope andava pelas ruas, durante o dia, com uma lanterna acesa. À procura de um Homem Honesto. Depois da delação devastadora da Odebrecht, quem anda procurando esse Homem Honesto somos nós.

O cenário que temos é razoavelmente previsível. Temer irá com seu governo até o final. Em 2018. Porque ninguém deseja que ele acabe antes. Nem mesmo aqueles que hoje gritam, pelas ruas, Fora Temer. Já no próximo ano vamos ter campanhas presidenciais. Estão próximas demais. Sem contar que a economia só agora começa a se recuperar. Se sair Temer (ou Meireles), antes disso, vamos nos converter em algo próximo à Venezuela.

Único consenso, hoje, é que nossas elites são muito ruins. Velhas. Praticantes de uma pornopolítica (a expressão é do mestre Roberto Damatta). Não obstante eleitas por brasileiros, em absoluta falta de sintonia com eles. Com seus valores. Com suas expectativas. Com suas esperanças.

O futuro desejável pode vir de algum tipo de consenso social. Entre cidadãos. A partir do reconhecimento da prevalência do interesse coletivo sobre o individual. Esse é o cenário que todos desejamos. Talvez inviável, nos dias que correm. Alternativa seria, então, a adesão dos eleitores a um herói. Um salvador da pátria. Em linguagem mais simples, caso as mudanças não venham de baixo, como seria desejável, elas virão de cima.

É comum se dizer que isso iria ser ruim, para o país. E cita-se, invariavelmente, (Silvio) Berlusconi. Não é uma comparação justa. Berlusconi foi herói só no seu primeiro governo, em 1994/1995. Que, logo depois, acabou derrotado por Romano Prodi. Democracia é coisa boa. Os heróis passam. Depois, trocou seu partido – de Força Italia para Povo da Liberdade. Sendo notórias suas relações com a máfia calabresa (‘Ndrangheta) e os muitos processos que respondeu por corrupção e fraude. Mas já não era, então, herói de nada. E ainda assim, como um político tradicional, ganhou eleições em 2004/2005, 2005/2006 e 2008/2011. Eleições tem disso.

Berlusconi é só um exemplo ruim. Mas poderíamos lembrar de um bom. Como o Papa Francisco. Que veio redimir a Igreja Católica, em meio a uma crise devastadora – decorrente de sua incapacidade em se modernizar. Sofrendo perdas de fiéis para igrejas evangélicas ou messiânicas. Até que veio do fim do mundo. Da América Latina. Para fazer reformas modernizantes. Francisco, para a Igreja, foi uma benção.

A sensação, hoje, é que nomes tradicionais não sobreviverão até o próximo ano. Uns porque serão atingidos pela Lei da Ficha Limpa. Outros porque não terão coragem para subir em palanques, depois de tantos processos. Outros, mais, porque seus discursos perderam atualidade. Envelheceram. Há um herói em gestação, entre nós. Só não vê quem não quer. Ou for cego. Será ruim ou bom?, para o Brasil. É cedo para dizer.

NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Numa semana marcada pela devastação da Odebrecht declaro, a quem interessar possa, estar enojado com tanta lama. Com Brasília. Com a maneira torta de fazer política, por lá. E, nesse dia santo de sexta-feira, decidi tirar férias do Brasil. Para falar do português falado em Portugal. Diferente do nosso. Só num exemplo, com palavras, pois sim lá é sim. E pois não, é não. O contrário de nós, pois. Diferentes nos personagens, também. Como Os 3 Patetas, que são Os 3 Estarolas. Ou O Gordo e O Magro, que são Bucha e Estica. Até nos filmes. Bastardos inglórios, em Portugal é Sacanas sem lei. Um corpo que cai é A mulher que viveu duas vezes. Quando explodem as paixões é Aguenta-te canalha. A Noviça rebelde é Música no coração. Clamor do sexo é Esplendor na relva. Duro de matar é Assalto ao arranha-céus. Sem contar ser difícil, para brasileiros, ler jornais portugueses. Não por estarem errados, os textos. Apenas se dando que, por vezes, não os conseguimos compreender. Alguns exemplos de manchetes recentes:

• “O oceano é um sítio de muitos animais escalafobéticos”.

• “É por isso que tenho esta carantonha”.

• “Os chumaços estão de volta”.

• “Por que há pens a sair das paredes?”

• Primeiro a marca e depois a bejeca.

• Ataca pais com golpes de catana.

• O joelho de Orelhas na vida de Canelas.

• Os piratões da TV à borla.

• Rabo vira boia.

• “A Antiga Casa Faz Frio lá escapou”.

• “Homem acusado de assédio sexual depois de ter dito à mulher, quando começou a chover – não somos nada perante a força da natureza”.

• “Para praticar remo, na doca de Santo Amaro, leva-se o barco às costas”.

• “Marinha envia 50 fuzileiros para o golfo da Guiné. Por contenção de custos, ficam todos estacionados na Lagoa de Santo André”.

• “Comissão Europeia decide criminalizar estúpidos hábitos dos casais, no supermercado, em que um fica na fila e o outro vai trazendo as compras”.

• “New York considera o buraco da Avenida de Ceuta o mais lindo da Europa”.

• “Estamos convictos de que não se elimina o sofrimento com a morte”.

• “A felicidade consiste em ter boa saúde e má memória” (entrevista de Eurico Lafer).

• “Cavaco (Silva, ex-presidente da República) diz que (José) Socrates (ex-primeiro ministro) usou um micro-ondas para espioná-lo”.

• “Mesmo aquilo que é mais improvável, como sejam as vacas voarem, também isso pode não ser verdade”. António Costa, primeiro ministro.

• “Estou a procurar Augusto M. Seabra e Vasco Valente para salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também” (João Soares, Ministro da Cultura).

• “Sérgio Moro num país tropical”.

YEVTUSHENKO EM OLINDA

Yevgeny (Aleksandrovich Gangnus) Yevtushenko nasceu (18.07.1932) em uma pequena cidade, Zima, da Sibéria (Russia). E morreu, sábado passado (01.04.2017), longe de casa. Nos Estados Unidos. Onde lecionava, na Universidade de Tulsa (Oklahoma) e no Queens College (Nova York). Filho de modesta família camponesa, acabou sendo um poeta do mundo.

Em fins dos anos 1980, passou pelo Recife. A convite do Partido Comunista, deu recital na lendária Livro 7 de Tarcísio Pereira. Apresentado pelo famigerado Jommard Muniz de Brito. Numa noite, levado por Naíde Teodosio, foi parar em Olinda. Na casa do pintor José Cláudio – que pensava encontrar um homem baixinho, branquelo e de barriga proeminente. Só que bateu na sua porta um sujeito enorme, com corpo de atleta, vestindo bermuda e camiseta brancas.

Conversaram em espanhol. Lembrança dos tempos em que viveu na Ilha, em 1964, redigindo o roteiro de um filme de propaganda, Soy Cuba. Era próximo de compañeros como Allende, Neruda e Che Guevara.

No fim da visita, perguntou se poderia escrever algo na parede. Nada a estranhar, tratando-se de um poeta. Quando redigi uma biografia de Fernando Pessoa, estive na Biblarte – Miradouro de São Pedro de Alcântara, Lisboa. E lá, bem no fim da loja, o alfarrabista Ernesto Martins mostrou um pequeno quarto. Onde Pessoa dormia todo fim de tarde. Para curar dos quilos de álcool consumidos. E se preparar para noitadas com os amigos. Só depois da morte de Pessoa (em 1935), Martins (que nunca lá ia) percebeu que as paredes estavam todas rabiscadas. Com versos imortais. Perdidos, para sempre, depois de uma reforma. Ninguém se preocupou em preservar o local. Talvez porque, naquele tempo, ainda Pessoa não fosse Pessoa.

Lembro, a propósito, conto de Julio Cortázar (“Grafito”) que fala na história de homem e mulher que se apaixonam, durante a ditadura, e se comunicam por frases escritas nos muros de Buenos Aires. Até que, um dia, ele escreveu “también me duele a mi” (também me dói). E nunca mais se soube dos dois. Como disse Victor Hugo, “palavras são passagens para os mistérios da alma”.

Voltando a Olinda, Leo foi logo buscar um carvão. Desses que pintores usam para fazer rascunhos nas telas. Yevtushenko pegou nele e escreveu, na parede bem branca da sala de jantar, “La felicidad es el sufrimiento que se ha cansado” (A felicidade é o sofrimento que se cansou). E assinou, por baixo. Despediram-se. Zé Cláudio pensou em pintar uma moldura, em volta, como se aquela frase fosse um quadro. Para mostrar aos visitantes. Mas era tarde, estava cansado e foi dormir.

Dando-se que no dia seguinte, bem cedinho, Mané Pé-de-Pano entrou em ação. Contrariado por terem sujado, com palavras estranhas, aquela parede que com tanto zelo havia pintado na véspera. E passou tinta branca por cima. Deixando nela, sem razões para explicar isso, apenas a assinatura do poeta (que ainda hoje lá está) – começando por algo que se parece com a letra E. Mais o resto do nome, em cirílico.

Agora se foi Yevtushenko. Em palavras de Pessoa “Quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivante misteriosa a razão de haver estrelas e gente”. É pena. Quando perdemos um poeta, o mundo fica menor. Uma estrela se apaga, no céu. E todos nós ficamos um pouco mais tristes.

A REPÚBLICA DOS CARIMBOS

Há um detalhe, nessa “crise da carne”, que deve ser visto com atenção. O desastre da burocracia excessiva. Que dá poder, a quem tem o carimbo. E potencializa a corrupção, também. Lembro caso que vi de perto, com as penitenciárias. Para quem (sobre)vive nelas, são as oficinas do diabo. Por consumir suas carnes e suas almas. Muito ruins, todas, no Brasil de hoje. E com superlotação, todas. Por isso há tantas rebeliões. Ernani Lemos, antigo diretor da antiga Aníbal Bruno (hoje, Complexo Prisional do Curado), dizia: “O inacreditável não é que haja rebeliões. O inacreditável é que não haja uma rebelião por dia”. Sabia do que estava falando. E nada mudou, desde então. Ao contrário. Saudades dele, que era um amigo dos baobás.

Essa degradação, agravada nos últimos anos por aumento no número de presos e falta de construção de novos presídios, ocorre, entre outras razões, pelo excesso de burocracia. Nas prisões e em todo canto. Dinheiro há, para construir. Na Caixa Econômica Federal. Projetos há. E nada vem acontecendo. É que os recursos simplesmente não conseguem chegar aos estados. Faz tempo.

Quando estivemos no Ministério da Justiça, já os projetos não andavam. Perguntei, ao DEPEN, quantos carimbos a Caixa exigia para cada aprovação. Eram 68. Recebi esse estudo em meio a uma entrevista com o Embaixador do Japão. E comentei, desolado, que era demais. Ele aproveitou e disse: “O senhor sabe quantos carimbos esses projetos recebem no meu país?”. Respondi que não, claro. Ele: “Um primeiro, para dizer se o projeto é bom. Tecnicamente correto. Um segundo, para dizer se os custos estão corretos. Sem superfaturamento. E um terceiro, para dizer que é socialmente importante. Se haveria mesmo necessidade dessas obras”. Fiquei perplexo. Sem atinar como tantos carimbos mais, além desses três, foram inventados por aqui.

Dia seguinte, procurei o Presidente da Caixa. Contei essa história. E perguntei por que não implantava o sistema japonês na instituição que dirigia. Prometeu fazer isso. E pediu 30 dias. Ao fim do prazo, mostrou nova planilha. Orgulhoso, porque reduziu o número de carimbos – de 68 para 25. E completou dizendo que, caso suprimisse mais um único carimbo, e haveria rebelião na instituição que dirigia. Não sei a quantas anda, hoje, esse problema. Mas tenho a sensação de que voltaram quase todos os ditos carimbos, suprimidos lá atrás. É a cara do Brasil.

Não se trata de caso isolado. Anos depois, no Conselho do CNPQ (do Ministério da Ciência e Tecnologia), técnicos disseram que 2/3 dos projetos a serem analisados estavam parados. Por falta de analistas. Queriam mais técnicos. E mais dinheiro. Lembrando aquela história do passado, perguntei quantos carimbos cada projeto recebia. Resposta foi 24. Então sugeri escolher as 8 questões mais relevantes. E esquecer as outras. Era suficiente. Assim fosse, e não seriam necessários mais técnicos. Nem recursos. Com todos os projetos sendo analisados a tempo. Sem sucesso. Viva a burocracia. Sílvio Meira, companheiro nesse Conselho, é testemunha. Por essas e outras o geneticista francês Hugo Aguilaiu declarou que “o pior da pesquisa científica brasileira é a burocracia”.

Considerando tudo, então, reformas nos presídios (como em tantos outros setores do Estado, inclusive carnes) supõe, também, uma reforma na burocracia. Mais amplamente, reforma do próprio país. Muito difícil, aqui para nós. E cada vez mais, no andar da carruagem, daqui para frente. Como dizia Paul Valéry, o futuro já não é o que era.

E O GOLEIRO BRUNO?

Volto ao assunto, mesmo sabendo que a “carne” já o tornou passado. E começo por explicar o caso a quem não é do ramo. Primeiro foi decretada uma prisão preventiva do goleiro Bruno. Vigente até hoje. Depois, em 2012, ele foi condenado pelo Tribunal do Júri de Contagem (MG). A 22 anos e 3 meses de prisão. Pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver. Esta sentença do Júri deverá ser mantida pelo Tribunal de Justiça de Minas. Mas ainda não foi. E só com a decisão do tribunal é que vai começar a cumprir pena. Está preso, portanto, não porque foi condenado. Mas por conta da preventiva. Que, em tese, deve sempre se dar por tempo limitado.

Ocorre que já está preso há 6 anos e 7 meses. E, em no máximo 6 meses, terá direito à progressão de regime. Trabalhando durante o dia e dormindo na prisão. Porque o tempo da preventiva conta como cumprimento de pena. Isso caso tenha tido bom comportamento, o que não sei. Se tiver exercido alguns direitos que reduzem a pena – como 1 dia a menos de pena, para cada 2 dias trabalhados; ou lido livros (1 dia, por 12 horas de leitura) – talvez até já possa ter essa progressão. Como tantos que vimos na Lavajato. Não sendo irrazoável crer que um Juiz o deixará jogar partidas noturnas, voltando nesses casos mais tarde à prisão. Ou mesmo viajar, no exercício de sua profissão. Isso veremos depois.

Parêntese para dizer que a comparação feita, entre Bruno e Pimenta Neves, não é justa. O velho jornalista matou por amor. Dando-se que, segundo psiquiatras, quando alguém ama com obsessão, transfere parte de si para o outro. Por isso, não admite deixar partir o objeto amado. E, por isso, mata. Ante a impossibilidade de perder parte de si. Ninguém defende quem faz isso, era só o que faltava. Trata-se de um crime sem perdão. Mas observo não haver um único caso, na literatura criminal, em que um assassino por amor volte a matar. Está preso como resposta social a uma conduta inaceitável. E não por ameaçar quem passa pelas ruas. Como autores de latrocínios e crimes semelhantes. Problema é que, à toda evidência, o caso de Bruno é diferente. Não matou por amor. Foi só por interesse.

Para complicar, tudo nesse caso é provisório. O Ministro Marco Aurélio decidiu monocraticamente sua libertação. O pleno do Supremo pode anular, a qualquer tempo, essa decisão. Como o Tribunal de Minas pode, também, julgar a apelação do goleiro. Ocorrendo qualquer dessas hipóteses, ele voltará à prisão. Mas vai requerer progressão de pena. Agora, se já tiver direito. Ou em muito pouco tempo, quando terá.

A opinião pública está dividida. Pesquisa realizada pelo Diário de Pernambuco mostrou que os presidentes dos clubes de Pernambuco são contra essa contratação do goleiro. Enquanto 23, de 32 jogadores do futebol local, defendem que ele possa voltar a exercer sua profissão. Os patrocinadores do time que o contratou cancelaram seus contratos. Enquanto pelo menos metade dos habitantes da cidade está a favor dela.

No fundo, problema é que a maioria (ou boa parte) dos brasileiros se sente insultada por ver o goleiro nas ruas. Não estão nem aí para a ideia de ressocialização. Nesse caso específico, ao menos. E não aceita que esteja solto, tão pouco tempo depois daquela morte bárbara. Talvez até fechasse os olhos caso fosse outro emprego. Mais discreto. Ou mais modesto. Ocorre que ele só sabe fazer isso. Jogar bola. E, caso não possa exercer sua profissão de goleiro, como vai se ressocializar?

Em resumo, devemos aproveitar esse caso para refletir se autores de alguns crimes devem merecer a chance de ter progressão em suas penas, antes do cumprimento da pena total. Em todos os crimes ou só alguns? Ou nenhum? Caso sim, como se dará isso? Em quanto tempo? Como? Com que limitações? É um tema difícil.

AS DUAS LISTAS

Um trecho da Lista de Schindler

São duas listas famosas. A de Oskar Schindler – que salvou judeus, na Segunda Guerra, evitando que morressem nos campos de concentração. E a do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot – que terça-feira entregou, ao Supremo, relação dos nomes citados por 78 delatores da Odebrecht. Impossível resistir à tentação de comparar as duas.

• A Lista de Schindler é de 1944. A Lista de Janot é de 2017.

• A de Schindler tinha 13 páginas. A de Janot está em 10 caixas de papelão.

• A de Schindler tinha 1.200 nomes. A de Janot 294.

• Os judeus de Schindler estavam em suas fábricas das atuais Polônia e República Checa. Os nomes de Janot estão, quase todos, em Brasília.

• A de Schindler queria salvar vidas. A de Janot quer por ladrões na cadeia.

• Os judeus de Schindler iriam para os Campos de Concentração de Auschwitz-Birkenau, Belzec, Gross, Plaszow. Os nomes de Janot correm o risco de ir para prisões comuns de Curitiba e Brasilia.

• Schindler chamava seus judeus pelo nome. Enquanto aqueles da lista de Janot têm, quase todos, codinomes – como bandidos rasteiros de subúrbio, desses fichados todos os dias pela polícia.

• A lista de Schindler funcionou porque ele vivia corrompendo oficiais da Schutzstaffel (SS) e da Wehrmacht – Bankier, Göth, Höb. Já na de Janot, o nome disso era Caixa 2.

• Os salários dos judeus de Schindler lhe custavam pouco. Os subornados, na lista de Janot, cobravam os olhos da cara.

• Salvaram-se, na lista de Schindler, apenas judeus. Na de Janot, estão tentando se salvar tantos que são, ou que foram, deputados e senadores (muitos), ministros (5), ex-governadores (10), ex-presidentes (2), intermediários e grandes empresários (também muitos). Sem contar que, até fins de 2016, havia já 357 inquéritos autorizados, e 103 ações penais, contra políticos com mandato.

• Os nomes de Schindler sabiam que podiam morrer a qualquer momento. Os de Janot se consideram super-homens, acima do bem e do mal.

• Schindler e sua mulher, Emile Pelzl, em 1949 foram morar na Argentina. Alguém sabe onde vão se esconder os nomes de Janot, depois que deixarem as prisões?.

• Voltando à Alemanha, em 1963, Schindler foi a falência. Irão à falência algumas das empreiteiras nomeadas na lista de Janot?

• Schindler viveu seu fim de vida sustentado pelos Schindlerjuden (judeus de Schindler). Quem sustenta, hoje, alguns dos nomes da lista de Janot?. E quem vai sustenta-los?, depois.

• A lista de Schindler acabou indo, em 2009, para a Biblioteca Estatal de Nova Gales do Sul (Austrália). A de Janot fez viagem bem menor – da Procuradoria Geral da República até o Supremo. Menos de um quilômetro.

O poeta português Ary dos Santos começa poema (“O objeto”), dizendo: Há que dizer-se das coisas/ O somenos (de menor importância) que elas são/ Se for um copo é um copo/ Se for um cão é um cão. Nessa linha, há que dizer-se que os nomes da Lista de Schindler são pessoas que merecem, de todos nós, homenagem e respeito. Os da Lista de Janot, não.

VOLTANDO DE FÉRIAS – PRIMEIRA DAMA E CENSURA

A primeira-dama obteve, na justiça, direito de não ser tornada pública uma chantagem que sofreu. Os jornais reclamaram. Censura, berraram. Mas terá sido mesmo?, eis a questão. Vale a pena olhar com mais calma, sobre o tema. A ideia de uma liberdade de informar sem nenhum limite é, nas sociedades maduras, somente lenda. Não vigora nem mesmo nos Estados Unidos. Onde a Primeira Emenda (1791) do Bill of Rights – nome coletivo das dez primeiras emendas à Constituição – proíbe, ao Congresso, votar leis limitando a liberdade de imprensa. Definindo, a Suprema Corte, “não ser absoluta essa liberdade, comportando seu exercício limites”.

Esse princípio de controles consensuais e democráticos à informação está presente em teoria hoje dominante na Suprema Corte, das Unprotected Speech (caso New York x Ferber, 1982). Sem esquecer que, com as teorias do Gravity on Evil (1924) e sobretudo das Free Speech (1945), a mesma Corte já confirmara que “a liberdade de expressão não é um direito absoluto, confrontando-se com outros direitos constitucionais”. Como a “privacy, que a tradição americana dotou de uma amplitude tentacular” – palavras de Hubert Gordon. Essa mesma privacidade que, em 1873, foi definida pelo justice britânico Cooley como “o direito de ser deixado só” (the right to be let alone).

Para além dos preconceitos, parece indiscutível que democracia é informar. Problema é que é, também, não informar. Dependendo das circunstâncias. Desde 1936, por exemplo, ações de família (como reconhecimento de paternidade) correm em segredo de justiça. Também, hoje, notícias que digam respeito a menores – por conta do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sem falar dos sigilos profissionais. Ninguém admitiria, por exemplo, que padres mencionassem, nas missas dominicais, a relação das confissões da semana. Os pecadores e seus pecados. Dona Maria, mulher do barbeiro José, confessou que trai o marido com o jardineiro Severino. Por aí. O mesmo se dando com médicos e advogados. Claro que não se trata, nesses casos, de censura.

Critério básico, para definir se uma informação deve ou não ser publicada, é o interesse coletivo. Em princípio, prevalente sobre a privacidade. Mas não em todos os casos. Até por haver diferentes graus, nesse direito à privacidade. A do indeterminado cidadão comum, por exemplo, é quase absoluta. Mas vai caindo, à medida em que aumenta o nível de exposição do interessado – governador, senador, ministro. Quanto mais alto, o cargo, menor a privacidade. Até chegar a presidentes da República, em que é quase nenhuma.

Problema é quem decide, em casos específicos, o que deve ser ou não publicado. Para donos de TVs e jornais, seriam eles. Enquanto, nas democracias, é o Poder Judiciário. No caso da primeira-dama, o Judiciário proibiu a divulgação. Não houve censura. Foi só uma decisão judicial. Dando prevalência ao direito da privacidade. Os jornais recorreram. E o Judiciário atendeu esse recurso. Talvez por conta de pressão da mídia. Um erro, na minha modesta opinião. Afinal, tratava-se de um crime. E o responsável está preso. Mas assim foi. A chantagem, bem ou mal, acabou publicada. Cumpriu-se a lei. Paciência. Bom nisso tudo é que, se continuarmos nesse caminho, e como dizia Millor, “nós vamos acabar caindo em uma democracia”.

SAFRA CAJUS COMEÇANDO

O melhor, nessa delação da Odebrecht, são os apelidos. Ou codinomes, se preferirem. Cada político tinha o seu, na hora de receber grana suja. Mesada, se preferirem. Alguns são curiosos: Angorá, Bobão, Boca Mole, Casa de Doido, Duvidoso, Encostado, Feia, Kibe, Muito Feia, Nervosinho, Ovo, Passivo, Todo Feio, Viagra. O Chefão, em outras delações, já foi Brahma, Brazilian Official 1, LL Barbudo e Comandante da ORCRIM. Agora é só Amigo (Friend). Virou íntimo. Só mesmo rindo.

Curioso é que, ao ouvi-los, a memória lembra histórias do passado. Não é grande coisa, bem sei. Quando era criança/ Vivi, sem saber,/ Só para hoje ter/ Aquela lembrança, disse Pessoa (em poema, sem título, de 2/10/1933). São só lembranças. Por exemplo, tome-se o apelido do senador Romero Jucá. Que é caju. Meio óbvio. Mas um bom trocadilho – Ju-cá, Ca-ju. Volto no tempo.

Sílvio Caldas era, então, o maior sucesso do rádio brasileiro. Acabara de assinar um contrato monumental (para os padrões da época) com a Rádio Nacional. E veio visitar amigos no Recife. Problema é que a cachaça, por aqui, era quente. Os tira-gostos, de outro mundo. Entre eles caju, claro. E a conversa, boa demais. Resumo da ópera, foi ficando. Na véspera da estreia de seu programa, nada de Sílvio Caldas no Rio. Os diretores da rádio, desesperados, ligaram para Esmaragdo Marroquin. Editor do Jornal do Commercio. Pedindo ajuda. Para localizar o cantor.

Esmaragdo determinou, a todos os jornalistas disponíveis na redação, que procurassem nos bares. Onde, imaginava, estaria o seresteiro. Cria fama e deita-te na cama. Um deles foi Amélio (com esse nome foi batizado) Cabral. O homem de verdade, sempre assim o chamava – lembrando a Amélia de Mário Lago e Ataulfo Alves, que era a mulher de verdade. Para fins artísticos, acabou Rui Cabral. Acontece.

Rui foi designado para ir ao Maxime. No Pina. E, naquele bar, afinal encontrou Sílvio Caldas. Mais pra-lá do que pra-cá. Deu seu recado, a Rádio Nacional o estava convocando. Ele precisaria viajar. Sílvio Caldas pegou um guardanapo de papel, escreveu algo nele, deu dinheiro a Rui (muito mais do que seria razoável) e pediu que passasse um telegrama.

No papel, endereçado aos diretores da rádio, Rui leu: Impossível partir. Safra cajus começando. Cajus, como os de Romero Jucá. Mas diferentes deles, pela inocência. Voltou para a redação e entregou dito guardanapo a Esmaragdo. Uma equipe foi mobilizada para conduzir, gentilmente (nem tanto), o cantor até o aeroporto. O puseram num avião Constelation da Panair (ai de mim, que a meninada de hoje nem sabe o que é isso). Chegou ao Rio dormindo, embalado por quilos de álcool. E foi facilmente conduzido, por funcionários da rádio, para sua casa. Dia seguinte estreou. Sucesso retumbante. Com saudades dos cajus daqui, claro.

O ano de 2016 foi duro. Para todos nós, brasileiros. O que dá pra rir/ Dá pra chorar, palavras de Billy Blanco (“Canto Chorado”). Problema é que, nesse ano que passou, quase não deu para rir. Esperamos, então, que tudo melhore a partir de agora. Que haja cajus para todos. E alegria também, pelo menos um pouco. Assim, preferi começar o novo ano com uma historinha leve. Para contribuir no otimismo geral. E já dou, ao leitor amigo, boa informação. A de que vai ter férias desse pobre escrevinhador. Até depois do Carnaval. Se Deus quiser, claro. Bons anos para todos.

DUAS HISTÓRIAS DE NATAL

A vida não é uma estrada reta, previsível, em que se olha sempre em frente. Já sabendo como findará. Ela é mais como um cordão sem ponta em que, a partir de algum momento impreciso dessa trajetória, começamos a buscar nossas raízes. Entre um ponto e outro, entre o passado que passou e o futuro que fascina, estão nossos passos. Quem somos. Fernando Pessoa escreveu, em um poema sem título (de 7/4/1917), que “Nada em nós resta do que é nossa história/ Salvo a memória inútil da memória”. Mesmo com o risco de serem só memórias inúteis, quem sabe?, aqui vão duas histórias reais que vivi. Duas histórias de Natal. Duas histórias que, mais uma vez, revelam os abismos da alma humana.

* * *

O MENINO E OS PEIXES

Maria, uma velha amiga, foi ao escritório do doutor. Em busca de dinheiro para o Natal. Ela e um filho de 12 anos. O doutor perguntou quanto seria. Maria disse. E recebeu aquilo que pediu. Vendo seu menino, o doutor lhe deu mais 50 reais, advertindo: “Esse dinheiro é seu. Para comprar uma bola. Não dê à sua mãe, não”. O menino respondeu: “Gosto de jogar futebol, doutor, mas vou é comprar peixe”.

O doutor não entendeu. Maria explicou que vive de revender peixes ornamentais. Compra no atacado, cada um, por 2 reais. Na feira de Casa Amarela. E revende, em pequenas sacolas com água, por 4 ou 5 reais cada. Na feira do Cabo. O filho completou sua fala: “Quero ser gente doutor. E, agora, tenho capital para começar meu negócio”. 50 reais, pensou o doutor. Quase nada. Lamentou, por compreender que não teria infância. Mas gostou de ver o brilho especial nos olhos daquele menino. Kaúan, é como está registrado. Não dá para esquecer um nome escrito assim.

Depois que se despediram, tentou imaginar como estará ele daqui a 40/50 anos. Talvez, como seus irmãos, (sobre) viverá na lama. Ou talvez, como tantos, nem chegue à maioridade. Mas, talvez, sua sina seja outra. Quem sabe será alguém importante. Um dos muitos que vieram de baixo e venceram na vida. Temperança tem, para isso. No fim daquela tarde, o doutor comprou uma bola de couro, número 5, a mais cara da loja, e mandou entregar ao filho de Maria. Feliz Natal, pobre criança.

* * *

O CASO DA BICICLETA

Era 24 de dezembro. Começo da tarde. O doutor voltava para casa pensando já nas festas da noite. Parou para comprar milho assado, na esquina de sempre. João, encostado no muro, chorava sem parar. O doutor perguntou a sua mulher Joana, perto do fogareiro, “O que aconteceu?”. Joana e João, como se o destino desde muito soubesse que acabariam juntos.

A mulher explicou. É que ele prometera dar, ao filho menor, uma bicicleta. Acertou a compra de uma, usada. E foi buscar, no Recife. Só que, ao pagar, percebeu que um ladrão levou seu dinheiro nos apertos do ônibus. Voltou para Boa Viagem a pé. Sem um tostão no bolso. E sem a bicicleta, claro. Chorava por não saber como explicar isso ao filho.

O doutor comparou sua própria vida à daqueles dois amigos. E percebeu, na pele, o quanto ela é injusta. É mel e é fel. Percebeu também que o caso não estava de acordo com o espírito natalino. Era um Natal ao contrário. Um Natal com final infeliz. Um anti-Natal. Então, abriu a porta do carro e disse: “Entre aqui, João”. Logo chegaram à loja que o doutor procurava. Saltaram. “Como era a bicicleta que ia dar ao menino?, João”. O amigo apontou para uma enfeitada, na vitrine: “É do tamanho daquela”. O doutor mandou João tirar de lá, subir nela e ir embora. E João foi mesmo. Pedalando a tal bicicleta embandeirada e colorida. Feliz. Tudo sob olhares assustados dos funcionários da loja. O doutor disse “tenham calma”, pagou a conta e foi embora.

Chegou em casa contente, dava para ver no rosto. A mulher perguntou a razão de tanta alegria. O doutor respondeu que acabara de ganhar um belo presente. Não disse o que aconteceu. Nem que deu aquele presente, como seria mais natural (considerando ter pago pela bicicleta). Disse apenas que recebeu. E foi mesmo. O melhor presente de Natal que recebeu nesta vida. No começo da noite, olhou para o céu em busca da primeira estrela que eu vejo. E viu Vesper, a estrela da tarde, brilhando intensamente. Bem no alto.

P.S. Bons anos a todos.

A DEUS, MALAFAIA

O pastor Silas Malafaia, de igreja denominada “Vitória em Cristo”, foi sexta passada conduzido à força para depor numa delegacia. Suspeito, pela Polícia Federal, de ter lavado dinheiro ilícito em operação denominada “Timóteo”. Assim apareceu, com estardalhaço, em todos os meios de comunicação. Confiou a Deus seu futuro. Mas ele, hoje, é incerto. Pelas múltiplas implicações de fatos como esse, que vem se sucedendo, vale a pena refletir com calma sobre a dimensão de espetáculo que, cada vez mais, cerca operações assim. Por suas implicações na opinião pública.

Primeiro autor a se preocupar com essa opinião pública, de forma sistematizada, foi, provavelmente, Maurice Duverger (em “Tratado de Ciência Política”). Antes dele, Maquiavel (n’ “O Príncipe”) chegou a tentar estabelecer essas relações. Mas era, então, algo ainda embrionário. Até por não haver sequer jornais, como hoje os conhecemos. Nem internet e outras mídias. Duverger inclusive definiu as relações entre opinião pública e expressão parlamentar. Compreendendo que se moldavam, reciprocamente, com relativo grau de incoincidência.

Mas só em fins do século XX dita opinião pública passou a ocupar um papel relevante para o Direito Penal. Com julgamento da Corte de Justiça da República, na França. Réus foram o ex-Primeiro Ministro, Laurent Fabius; a ex-Ministra da Administração, Georgina Dufoix; e o ex-Ministro da Saúde, Edmond Hervè. Considerados responsáveis por homicídios involuntários – mais de 400 mortos em razão de não terem sido instituídos testes de aids, entre março e junho de 1985, nas transfusões de sangue por hemofílicos. O processo foi definido como sacrificial, pela imprensa da época. Vergés, advogado das vítimas, fazia happenings ao fim de cada audiência, com militantes portando cartazes onde se lia assassinos.

Algumas questões levantadas pela defesa não foram consideradas. Como a de que o conhecimento da doença (descoberta só dois anos antes) era, então, mínimo. Ou a de que os médicos franceses, à época, sustentavam que soropositivos não poderiam transmitir essa doença por transfusões. A Justiça, pedia-se, deveria considerar esses fatos com os valores de seu tempo. O consagrado jornalista Jean Daniel, fundador da Nouvel Observateur, chegou mesmo a dizer: Há uma grande diferença entre saber e ignorar. E há uma diferença, maior ainda, entre saber e ter certeza. Mas foi tudo em vão.

A decisão da Corte (em março de 1999) acabou sendo inocentar Fabius e Dufoix. E condenar apenas Hervè. Mas nenhuma pena lhe foi atribuída. Levando o tribunal em conta o fato de já haver sofrido o suficiente, nas mãos da opinião pública. No fundo compreendendo, pela primeira vez na história jurídica, que os meios de comunicação acabaram se convertendo, hoje, em tribunais tortos. Escolhendo culpados e distribuindo punições.

Volto a nosso Brasil tentando imaginar o que acontecerá com alguns daqueles que foram atingidos por essas medidas judiciais. Sobretudo se forem inocentes. Por exemplo quem, agora, iria confiar sua fé, e seu destino, a um investigado por possíveis crimes. E que andou num camburão da Polícia Federal. Se o pastor Malafaia for mesmo culpado, que seja condenado e cumpra sua pena. Democracia é isso. Cadeia é para gente humilde e presidentes da República – iguais, todos, ante o império da lei. Mas e se for inocente? É correto? É justo?

Vivemos novos tempos. Com o indeterminado cidadão comum assumindo seu papel de fiscal dos (maus) usos e costumes de nossas elites. Razão pela qual é preciso definir práticas que protejam, Malafaia ou qualquer outro, quem for inocente. Se forem mesmo. Digo isso constrangido. Por saber que essas palavras poderão ser usadas por quem quer só impedir a continuação da Lavajato. Ou proteger corruptos notórios. Especialmente empresários e políticos. Nesse caso, seriam palavras certas em bocas tortas. Mas é preciso sejam ditas. Que, como nos versos de Fernando Pessoa (no “Quinto Império”), O futuro é já presente/ Na visão de quem sabe ver.

P.S. Bom Natal para todos.

GRACILIANO E ODEBRECHT

Graciliano Ramos nasceu em 1892. Na (hoje) Praça Getúlio Vargas, em Quebrangulo. Prefeito eleito de uma cidade vizinha, Palmeira dos Índios, escreveu quatro relatórios ao Governador de Alagoas. Primeiro deles publicado, na Imprensa Oficial, em 1929. Com a graça e a especial compreensão do mundo a partir da província. Num tempo em que a política não era só o “venha a nós” constrangedor de agora. E onde seus instrumentos de trabalho não estavam reduzidos, como hoje, a pouco mais que artifício, simulação, farsa, vergonha de menos e gula de mais.

São relatórios muito especiais: Porque se derrubou a Bastilha, um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua, um telegrama; porque o Deputado F. esticou as canelas, um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que, em 1559, D. Pero Sardinha foi comido pelos Caetés. Temos, ali, um mosaico que se vai formando aos poucos – a geografia física e a geografia humana. O rosto de um tempo. A iluminação que temos, pérfida, dissimula nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro. Ou O caminho que vai a Quebrangulo tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e por lagartixa.

O prazo de 3 meses para levar um tiro – dado, pelo populacho, para que batesse as botas –, como assinalado no primeiro dos relatórios, estava errado. A monotonia não foi turbada por nenhuma espingarda. Graciliano viveu o bastante para ser reconhecido como grande escritor. E a calma continuou a mandar naquela cidadezinha do interior.

Esses relatórios se ocupam, também, de corrupção. Falam dos funcionários da administração anterior, que faziam política ou não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Como falam de valores minuciosamente anotados: 724$000 foram-se para uniformizar as medidas pertencentes ao município: os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas, fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos políticos; 2.886$180 foram gastos com instrução, mas não creio que os alunos aprendam ali grande coisa; obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos.

Na semana passada, tivemos outro relatório. O primeiro da Odebrecht, na “Delação Premiada” da Lavajato. Outros virão, o que é muito bom. Alvíssaras. Mas bem diferente dos alagoanos. Primeiro, porque Graciliano sabia escrever. Segundo, porque seus relatórios tinham graça, não eram apenas o rude toma lá, dá cá da política mais recente. Terceiro, e sobretudo, porque, comparado com os montantes de hoje, a gatunagem de Palmeira dos Índios era quase nada. Esmola. Coisa de iniciantes. De trombadinhas.

Mas a maior diferença está dentro de nós. Ao ler os relatórios de Graciliano, somos ainda capazes de rir. Os novos produzem só desalento. É o mundo inteiro, agora se vê. Todos empenhados, sofregamente, numa corrupção desenfreada. Tout le monde et son père, como dizia La Fontaine (na fábula “O moleiro, o seu filho e o burro”). Não sobra ninguém. Fosse pouco e, na semana passada, o Supremo se encarregou de sepultar nossas derradeiras esperanças. Num acordo triste. Elevando Renan a santo de altar. Cândido e puro. Está difícil. Ainda bem que virá, por aí, o Natal. E um novo ano. Para, talvez, retemperar esperanças despedaçadas. Boa chance, também, para Deus provar que é mesmo brasileiro.

AUDÁCIA!

Na tribuna, (Georges Jacques) Danton. Do “Comitê de Salvação Pública” da Revolução Francesa. A pergunta foi feita: O que é preciso para vencer os inimigos da República? O orador respondeu, sem hesitar: Audácia, ainda audácia, sempre audácia! Vejo Renan como um velho Danton, no Brasil de hoje. Não por estar combatendo os inimigos da República. Longe disso. Muito longe. Nem por ter as reconhecidas qualidades do francês. Também longe disso. Apenas pelo exercício da tal audácia. Mais preocupado com a pele que com sua biografia. A democracia não merece afastar o presidente do Senado por decisão monocrática, sentenciou nosso Danton amorenado. Já eu, penso é que a democracia não merece um presidente de poder que seja réu.renan-rindo

Para dar certo, seu plano inacreditável, precisaria ter o apoio de oito homens fracos. Teve. Difícil acreditar que nem mesmo um único e solitário membro da mesa do Senado (inclusive dois suplentes) tenha tido a sensatez, ou a coragem, de ponderar não ser adequado afrontar o Poder Judiciário. Que correto, formalmente, seria receber a notificação do oficial de justiça e recorrer da decisão. Mas, todos correndo riscos na Lava Jato e outras operações, preferiram o corporativismo. Contra o interesse coletivo. Em grave desrespeito às regras da Democracia. Como se olhassem para Renan e dissessem para eles mesmos, envergonhados, Eu sou você amanhã.

Imagino Lula sendo preso – caso provadas suas responsabilidades na ação em que é réu. Nesta e em outras que provavelmente virão, posto já ser indiciado em muitas. E dizendo que não aceita o julgamento. Ou não o acha justo. Vai ser uma festa. O assunto irá findar na ONU. Ou imagino a polícia, por qualquer razão, se recusando a cumprir um mandado – de prisão, de despejo, outro. Ou qualquer de nós deixando de pagar impostos por considerar que o governo os aplica mal. Não é assim que as democracias funcionam.

Nessa quarta, reuniu-se o pleno do Supremo. E decidiu evitar uma crise entre os poderes. Ontem, o oficial de justiça esperou em vão para cumprir suas obrigações. Há um homem, no Brasil, acima dele. E da justiça. Que pode escolher ser ou não citado. Hoje, revogou-se a liminar, trocaram-se os votos dados, entre mortos e feridos salvaram-se todos. E tudo voltou a ser como antes. Não foi, digamos com franqueza, um final à altura das tradições da casa. Mas segue a vida.

Danton – como Robespierre, Saint-Just e tantos mais -, acabou na guilhotina. Enquanto Renan escapou, rindo, vendo recompensada regiamente sua audácia. O que deve nos levar a reavaliar a comparação. Renan, pelo visto, não é Danton. É muito mais esperto. Muitíssimo. É (Joseph) Fouché, duque de Oranto.

A SEGUNDA MORTE DE FIDEL

Velha regra da cavalaria manda que cesse a peleja quando o combatente não pode mais lutar. Por essa razão nossos mortos são preservados, sempre. Dado não poderem se defender. Cabe à história julgá-los. Em palavras de Álvaro de Campos (“Ode Triunfal”), com Todo o passado dentro do presente/ E todo o futuro já dentro de nós. Seja como for, há hoje dois Fideis à espera de sepultura.gfd

O primeiro é o da Revolução. Ele e Che Guevara eram como a vida real e o sonho. Andando sempre juntos. Com o Che no papel de Quixote. Diferente do companheiro, findou seus dias na Bolívia. Em 1967. Abandonado e só. Tentando reproduzir a Sierra Maestra de Cuba. Ainda hoje permanecem nas nossas retinas aquela foto de jornal, corpo vazado por balas e olhos negros abertos. Como quem procura o horizonte inatingível. Enquanto Fidel parecia mais um Sancho Pança. Só que, diferente do espanhol, era também capaz de sonhar sonhos grandiosos.

Esse primeiro Fidel foi o que derrotou Batista. O que deu rosto aos desejos de independência da sua gente. O que foi fiel a suas crenças sociais. O que sobreviveu a um embargo comercial insensato dos Estados Unidos. Sua trajetória se confunde, por tudo, com a luta libertária dos povos da América Latina. Esse Fidel morreu faz tempo. O comandante e seu sonho. Foi sua primeira morte.

O segundo Fidel é aquele que não compreendeu bem os limites do seu papel. Convertendo-se em verdugo do seu próprio povo. E sem conseguir, ou querer, transformar a Revolução em um arremedo de democracia. Não há ditaduras de esquerda ou de direita, meus senhores. Existem apenas ditadores. Como ele foi. Pouco antes de transferir o poder a seu irmão Raul, fiquemos só num exemplo, ele puniu 78 intelectuais com penas de até 28 anos de prisão. Por delitos de opinião. E outros 3 condenou à morte. Fuzilados como Guevara. Sacco e Vanzetti caribenhos. Pobres cubanos que apenas queriam escapar da ilha. Escapar de Fidel. E pagaram esse desejo compreensível com suas próprias vidas.

Beethoven dedicou a Napoleão, então preso em Alba, sua 3ª Sinfonia – dita “Heroica”. Depois, o corso voltou ao poder e tornou-se um sanguinário. A dedicatória foi riscada. E, em seu lugar, o músico escreveu: Composta para celebrar a memória de um grande homem. Para celebrar um homem que morreu e agora vive só na minha memória. Palavras que bem poderiam ser usadas hoje, trocando só o destinatário.

Qual dos dois Fideis vai sobreviver?, eis a questão. É cedo para saber. Hitler recuperou uma Alemanha despedaçada; mas ficou, apenas, como um assassino frio de judeus. Enquanto Getúlio Vargas, que ascendeu ao poder numa espiral autoritária, permaneceu pelos compromissos com os trabalhadores. E por ser responsável pelas bases econômicas de um Brasil moderno.

Guevara e Fidel foram mitos de várias gerações. Inclusive da minha. Guevara morreu, por balas alheias, levando com ele sonhos juvenis de todos nós. Fidel talvez tenha morrido, em seguida, por suas próprias balas. Agora, cumpre só prantear sua segunda e definitiva morte. Com a sensação de que vai ficando, como disse Beethoven, apenas a memória de um grande homem. Difícil saber para qual lado a história penderá. Um dia, no futuro, se verá. Não hoje. É cedo. No futuro.

VALENTÕES E CORRUPÇÕES

Em Brasilia, a Câmara dos Deputados foi invadida por jovens que protestavam contra a corrupção. E pediam a volta dos militares. Já, nas ruas do Rio, outros jovens agrediam, fisicamente, jornalistas que estavam exercendo suas profissões. Inclusive ferindo o repórter Caco Bercellos, da Globo. Para a deputada Jandira Feghali (dilmista do PC do B), os de Brasilia seriam “intolerantes e fascistas”. Só esqueceu de dizer o mesmo daqueles do Rio. Sua terra, gente sua. Estes, para ela, estariam só praticando um protesto legítimo. Que nada, minha senhora. São é dois grupos muitos parecidos. Um à direita, outro à esquerda. Filhos, ambos, da mesma intolerância. Do mesmo passado. Do mesmo autoritarismo travestido em democracia.

A graça no caso de Brasilia, se isso for graça, é que a crença daqueles valentões se funda numa lenda falsa. De que o Golpe Militar de 1964 era imune à corrupção. Os fatos provam o contrário. Já em 1968, ainda tenra nossa tão feia ditadura, tivemos uma Comissão Geral de Investigações – CGI (Decreto-Lei 359) criada, precisamente, para promover o confisco dos bens adquiridos, de maneira ilícita, no exercício de função pública. Foram tantos casos, envolvendo militares e gente ligada a eles, que era mesmo necessário fazer algo.

Esta CGI tinha poderes (art. 38) para apurar quaisquer atos de corrupção. Sem que se conheça, hoje, as investigações realizadas. Por terem sido incineradas (é o que se diz). Pena. Mas foram muitas. Até porque, caso diferente fosse, e nem razão haveria para criar uma CGI assim. Aqui mesmo, no Recife, acabou famoso um general, diretor de banco do governo, que enriqueceu apostando com um empresário que seus empréstimos seriam liberados. A juros simbólicos. Eram sempre. E ligeiro. Caixinha, obrigado.

A evidencia de corrupção ampla, nesse período, não para por aí. No início de 1969, começava a nascer a Operação Bandeirantes – OBAN. Pensada para ser o braço clandestino dos órgãos de segurança. E responsável por boa parte das torturas e desaparecimentos forçados que se deram, na época. O ato (informal) que celebrou sua criação deu-se em 01/7/69. Contando, inclusive, com a presença de figuras importantes das elites políticas e empresários de São Paulo.

Tanto foi o sucesso (na versão das forças de repressão) desse empreendimento que, em fevereiro de 1970, o major Waldyr Coelho (chefe de Coordenação de Execução da Central de Operações da OBAN) sugeriu, ao Comando do II Exército, a criação de uma OBAN específica contra a corrupção (documento ACE 16.645-70, Arquivo Nacional). Sem sucesso. Tudo como circunstanciamos no Relatório Final que fizemos, na Comissão Nacional da Verdade.

Naquele tempo, a ideia de combater a corrupção se limitava a punir só os que recebiam grana. Sem atingir empreiteiros ou militares que lhes davam cobertura. Talvez porque fossem, todos, velhos companheiros da Ditadura. Hoje é diferente. Nossas prisões, já era hora, passaram a ser frequentadas, também, por donos de construtoras e agentes políticos – que substituíram, na periferia do poder, aqueles militares. Inclusive ministros e governadores. Por enquanto.

Corrupção havia, sim. Muita. Praticada, indistintamente, por civis e militares. No fundo, e infelizmente, por ser um desvio da própria natureza humana. Só que, nos negros anos, não se sabia dos submundos do poder. Porque havia censura. Completa (quase). Enquanto, hoje , temos imprensa livre. Essa é a maior diferença. E ainda bem.

RENAN PRESIDENTE? VADE RETRO

O Supremo discutiu, semana passada, uma ação de nome complicado – Arguição de Descumprimento do Preceito Fundamental. A ADPF 402. Decidindo se pode exercer a presidência da República, mesmo temporariamente, quem seja Réu. Votaram contra cinco Ministros. E Celso de Melo, decano que vota por último, abriu mão desse privilégio. Para acompanhar os demais. São já 6 votos, pois. Em 11 possíveis. Assunto encerrado. Só por amor ao debate, refira-se haver três maneiras de entender, juridicamente, essa ADPF.

1. No sentido de olhar a Constituição “alheios à esfera moral e política” (palavras de um dos advogados a favor da tese). Fazendo prevalecer a presunção da inocência. Inclusive para ser coerente com a Lei da Ficha Limpa, que impede candidaturas só depois da condenação. Havendo, no caso, “apenas” réus (o “apenas” vai por conta desse advogado).rt

2. O presidente da Câmara, do Senado ou do Supremo continuaria exercendo suas funções em cada casa. Mas obedecendo a tese de que réu não pode exercer a presidência da República. Por conta de regra expressa da Constituição, art. 86. Uma tese até aceitável, tecnicamente. Mas difícil de engolir, em tempos da Lava Jato.

3. Presidente de poder, se for réu em algum processo, obrigatoriamente deixa de exercer essa presidência para que foi eleito. Por não poder ser presidente da República. Ainda quando interino. Conforme exige o dito art. 86. Assim ocorreu no caso de Dilma. Que, mesmo antes de ser considerada culpada, e por ser réu, teve que abandonar a presidência. Em favor do vice. Temer…

O mesmo se deu, antes, com Eduardo Cunha. E, agora, pode se dar com Renan Calheiros. Foi pensando em Renan, é só uma suposição, que o Supremo se inclinou pela terceira hipótese. Afinal, ele responde a 12 processos perante o Supremo. E o risco de passar a ser réu, qualquer hora dessas, é grande. O Supremo, neste placar de 6 a 0, já indicou sua posição de não aceitar que ele seja presidente da República. Ou continue presidindo o Senado. E fez muito bem. Estabelecendo mínimos de moralidade em um Congresso que se esforça por não merecer isso. Como se vê, agora, nessas emendas à lei da repatriação, beneficiando familiares de Deputados e Senadores.

Ocorre que Tofolli pediu vistas. Faltando só explicar, ao leitor que não entende como nossos tribunais funcionam, o sentido dessas vistas. Com ela, e até que Tofolli apresente seu voto, o julgamento fica suspenso. Para ser completado, em seguida, com os votos dos ministros restantes. Se ninguém mais pedir vistas, claro. Só que o resultado, nesse caso, não mudará. Está já 6 x 0. Mas, então, por que pediu ele vistas?, eis a questão. Simples. É que, caso Renan vier a ser réu por estes dias, e então teria o Senado que eleger outro Presidente. Uma confusão danada. Paralisando todas as votações da casa. O que não interessa a ninguém. Salvo, talvez, PT e cercanias.

Se o amigo leitor aceitar um palpite, digo que vai acontecer o seguinte. Tofolli devolverá o processo, ao Supremo, pouco antes de 20 de dezembro. É que, nesse dia, começam as férias do judiciário. Sendo retomados, os trabalhos, só em 1º de fevereiro. Dia em que Renan transferirá a presidência do Senado a quem for eleito para esse cargo. As vistas portanto, permitirão que Renan cumpra seu mandato até o fim. Mesmo se for convertido em réu. Aposto nisso. Quem viver, verá.

9/11

Em 9 de Novembro aconteceram coisas importantes. Em 1799, o 18 de Brumário de Napoleão – na Revolução Francesa. Em 1888, Jack, O Estripador, fez sua quarta vítima – Mary Jane Kelly. Em 1919, estreou no cinema o personagem Gato Felix. Nesse dia nasceram, em 1888, o pintor Jean Monnet. Em 1934, o astrônomo Carl Sagam. No Brasil, em 1911, a escritora Diná Silveira de Queiroz. Em 1919, a atriz Eva Todor. Em 1944, o poeta Torquato Neto – em honra de quem, depois de seu suicídio, Caetano escreveu “Cajuína”, se perguntando Existirmos, a que será que se destina? Morreram também nesse dia, em 1918, o escritor Guillaume Apollinaire. Em 1970, o general Charles de Gaulle. E, em 1964, a divina Cecília Meireles, Fiz uma canção para dar-te;/ Porém tu já estavas morrendo (“Canção póstuma”).a9n

Dois acontecimentos se distinguem, nesse conjunto de eventos. Por serem começo de ciclos. O primeiro, em 1989, foi a queda no muro de Berlim. Com jovens levando para casa, como lembrança, pedaços de muro que foi responsável por 138 mortes. Um momento de diástole. De abertura. E não se tratou de evento apenas alemão, mas do mundo inteiro. A guerra fria findava ali. Um momento simbólico e icônico em que a globalização parecia definitiva, eterna e bela. O Século XXI começou naquele dia.

O outro momento foi a eleição de Donald John Trump. Ao contrário do 9/11 anterior, a globalização sofreu agora enorme golpe. Um momento de sístole. De contração. A voz da classe média americana gritando que não quer ser solidária com o resto do mundo. Que prefere viver para dentro de suas fronteiras. Com menos estrangeiros à sua volta. Especialmente latino-americanos e do Oriente Médio. Pior é que nem foi algo isolado. Antes dele tivemos o Brexit, com a Inglaterra saindo da Comunidade Europeia. Ou a derrota de Angela Merkel, na Alemanha. São manifestações similares.

Volto os olhos para nosso Brasil. E me pergunto se essas eleições de outubro teriam (ou não?) seguido na mesma trilha. As explicações mais óbvias, para a derrota do PT, atribuem o fato a uma espécie de fadiga de material. No movimento pendular da política, e depois de 16 anos, chegou a hora do poder trocar de mãos. Sem contar ser também reação ética, contra uma corrupção que comprometeu todos os personagens importantes do partido. Todos. Alguns, porque enriqueceram. Outros, por serem operadores. Sem contar os que, mesmo não tendo posto grana em seus bolsos, sabiam de tudo. Concordavam com tudo. E eram peças, de alguma forma, nessa corrupção amplíssima.

A dúvida é se foi só isso. Porque talvez seja parte de uma conspiração que teve, em Trump, seu melhor exemplo. Talvez, no Brasil, tenha sido também um basta aos protestos que fecham ruas e estradas, atrapalhando a vida de quem precisa trabalhar. De tantas greves insuportáveis, para todos nós contribuintes, embora cômodas para funcionários públicos que não aparecem nas repartições mas continuam com seus salários intocados. Ou essas ocupações nas escolas, por razões as mais disparatadas, infernizando a vida dos que desejam estudar. E que têm, como efeito prático, apenas deteriorar, ainda mais, a educação brasileira. Talvez tenha sido, também, um silencioso basta a esse conjunto de práticas. É cedo para ter certeza. Faltando lembrar que em um 9/11, de 1889, Ruy Barbosa publicou seu célebre artigo “Plano contra a Pátria”, em que disse: Há quase sempre alguma coisa impalpável e misteriosa no seio dos acontecimentos, que conspira contra as conspirações.

“VOU ABANDONAR A POLÍTICA”

Por que uma decisão tão extrema? “Pela ingratidão do povo para com os políticos”. Apesar disso, vocês querem sempre estar por cima. “Todos os políticos saem mal do poder”. Mas a luta continua, dizem todos. “Afinal, lutamos por que? Para conquistar o poder? E depois o fim é sempre o mesmo, saímos do poder vilipendiados”. Como se sente hoje, tendo mandado no país? “Estou numa fase contemplativa”. Isso quer dizer o que? “Vou abandonar a política”. Mas não é o que parece. De suas andanças nas ruas. Dos seus discursos. E o entrevistado, rindo: “É assim a política… Diz-se o que convém no momento”.

O jornalista que fez essa entrevista conclui: “Na época, eu conhecia mal o entrevistado. Se conhecesse melhor, saberia que nele não há qualquer distinção entre a verdade e a mentira. Diz, em cada momento, aquilo que lhe convém dizer”. E, encerrando: “Nunca ninguém me mentira de forma tão descarada, desavergonhada mesmo”.

Esse entrevistador, imagino que alguns leitores já perceberam, é José António Saraiva. As frases aspeadas estão no seu mais recente livro, Eu e os Políticos (págs. 162 a 170). E o entrevistado, antes que se vá mais longe em conclusões precipitadas, é o ex-primeiro-ministro de Portugal José Sócrates.

Trata-se de um amigo próximo do ex-presidente Lula. Tanto que o brasileiro fez prefácio para seu A Confiança no Mundo. E declarou “Estar honrado em fazer esse prefácio”. Os dois têm mais, em comum, ser íntimos da construtora Odebrecht. A mesma que, inclusive, custeou a viagem de Lula a Lisboa. Em outubro de 2013. Para o lançamento do livro. Essa e outras 5, para outros fins. Segundo a revista Visão (a Veja lusitana), um livro que teria sido em verdade escrito pelo jornalista Domingos Farinho. Ao preço de 100 mil euros. Mas essa é outra história.

As suspeitas que pesam sobre Sócrates são graves. Na compra da TVI pela Portugal Telecom, por exemplo, especula-se que teria usado “verbas de empresas públicas em benefício do PS”. O seu partido. Para “controlar os meios de comunicação social” (Correio da Manhã). Lá, como cá, são os mesmos vícios.

Já na operação Marquês, Sócrates e Lula estão novamente juntos. Mais os dois sócios da JD Assessoria e Consultoria – os irmãos Luiz Eduardo e José Dirceu. Tendo, por trás, a mesma Odebrecht. E sempre usando terceiros, laranjas, para esconder patrimônio. Inclusive um famoso apartamento de luxo. Não em Guarujá, mas em Paris. Comprado por amigo que nunca o usou. E oferecido, graciosamente, para uso de Sócrates. O mesmo que também lhe emprestou milhões de euros. Sempre em dinheiro vivo. Que Sócrates “não confiava no sistema bancário”. E viva “A maravilhosa beleza das corrupções políticas”, se divertia Fernando Pessoa (em Opiário).

Curioso, nessa operação, é que nela tudo lembra a Lava Jato. Até pelo perfil duro do Juiz Carlos Alexandre. Similar a Sérgio Moro. Tanto que Sócrates foi preso, em novembro de 2014. Passou 11 meses em uma penitenciária. E dali saiu com tornozeleira eletrônica. Saraiva completa: “Quando se tornou patente o número de negócios duvidosos em que estava envolvido, vaticinei que ele seria preso depois de deixar o cargo. Acertei em cheio”.

P.S. Maquiavel (em “O Príncipe”) dizia que a história se repete. Enquanto Marx (em “O 18 de Brumário”) sugeria que somente como farsa. Estou desconfiado que mais razão tem o italiano…


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