DR. ARMANDO

Em 1962, o Brasil foi campeão no Chile pelas pernas tornas de Garrincha. Os militares conspiravam o Golpe de 64. Jânio Quadros era um doido se preparando para perder a Presidência da República. E, na televisão, começava a campanha para o Governo de Pernambuco. Foi quando ouvi, pela primeira vez, o nome de Armando Monteiro Filho. Meu pai, com aquela cara fechada que sempre usava para dizer coisas sérias, apontou para a tela e disse: “É um homem de bem”. Menino ainda, perguntei algo como: “Então, por que vai perder a eleição?” Ele respondeu: “Política tem disso, meu filho”. Sendo o velho enormemente rigoroso no plano dos comportamentos, nunca duvidei daquelas palavras. E esse conceito, de ser Dr. Armando um “homem de bem”, o tempo só fez confirmar. Sem um único arranhão, ao longo de toda sua trajetória.

Dois anos mais Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, tentou declarar vaga a Presidência da República. Numa conspiração em que seria, ele mesmo, eleito por seus pares para esse cargo. Dr. Armando recebeu convite para ser Ministro da Justiça. E recusou. Com uma frase simples: “O Presidente é João Goulart”. Em respeito à Constituição. Pergunto quantos Deputados, hoje, recusariam um Ministério? Algum deles recusaria? E quantos estariam dispostos a por de lado seus interesses, políticos e/ou econômicos, em respeito a uma lei? São novos tempos, senhores. E outros homens, diferentes de Dr. Armando.

No governo Jango, foi Ministro da Agricultura. E fez o primeiro projeto de Reforma Agrária que o Brasil conheceu. Baseado no aumento progressivo dos tributos sobre terras improdutivas. Reproduzindo modelo exitoso posto em prática pela Itália. Lamento, hoje, não ter sido implementado, quando China, Rússia, México (a partir de 1920) e outros países emergentes faziam suas reformas agrárias. Teria sido um grande avanço social. Fernando Pessoa (em Padrão, de Mensagem) disse que “o homem e a hora são um só”. Não todos. Que Dr. Armando estava bem além do seu tempo.

Na Ditadura Militar, contra seus interesses econômicos, não se alinhou ao partido que apoiava o sistema. Como tantos que depois se proclamaram democratas. Depois. Foi para a oposição. Por acreditar na democracia. Naqueles negros anos, quando havia eleição, inevitavelmente o Governo reagia de maneira subalterna. O SNI, por exemplo, dizia estar apurando denúncias. Sem sucesso. E a Receita Federal lavrava, contra ele, Autos de Infração. Fiz sua defesa nos últimos desses autos, quando já formado em Direito. E ganhamos sempre. Longe de ações respeitáveis, era só tentativa de intimidação. Inúteis, que nunca se curvou. Compreendendo que política se faz com ideias, e também com homens, sabia ser amigo dos amigos. Como Tancredo, Francisco Julião, Brizola, Lula. E os apoiou, quando poucos empresários aceitavam fazê-lo. Era, com certeza, um homem de gestos.

Na intervenção do Banco Mercantil, meu pai deixou na minha mesa um texto de Rui Barbosa que remeteu a Dr. Armando. Dizia assim: “A experiência vai mostrando incessantemente a ineficácia da detracção contra os honestos. Deixae escrever contra vós o que quiserem. Cedo ou tarde irromperá o vosso triumpho sobre a calumnia”. Agora chegou sua hora. E exercito, aqui, o privilégio de dar esse testemunho. Porque Dr. Armando ensinou, a todos e cada um, que se pode ser homem público sem ter cargos públicos. E que se pode viver toda uma vida, inclusive na política, com honra. O homem se foi. Mas ficou seu exemplo. A missa de amanhã, segunda-feira, em louvor de sua alma, celebra saudades e esse exemplo.

BILL GATES E ZÉ CLÁUDIO

Lisboa. Vésperas de novo ano, vênia para tratar de temas amenos. Em razão disso, e meio por acaso, lembro William Henry Gates III. Nasceu em Seattle (Estados Unidos) e é o principal acionista da Microsoft. Fundada quando tinha 19 anos. Hoje, tem 61. E, desde os 40, passou a ser o homem mais rico do mundo. Em 2006, criou a Bill & Melinda Gates Foundation. Lá, pôs 30 bilhões de dólares. Sem contar que também conta com a grana de amigos. Como Warren Buffet. Tudo a partir de uma pergunta simples: Qual problema sou capaz de resolver com a quantidade de dinheiro que tenho? A regra deveria valer também para o Brasil. Resultado, está erradicando numerosas doenças pelo mundo. Inclusive desenvolvendo aqui, na região do Amazonas, uma vacina contra malária.

Já o pintor José Cláudio nasceu mais perto. Em Ipojuca (Pernambuco). Para ser hoje, talvez, o maior pintor do Brasil. Quando completou 71 anos, um jornalista perguntou como se sentia. Ele respondeu, na hora: 71 é desgraça. A pior coisa do mundo. Achei graça porque, sem querer, são duas frases com 7 sílabas. Na métrica das cantorias. Completei a caneta, no mesmo papel do jornal, e lhe mandei essa décima: 71 é desgraça/ A pior coisa do mundo/ Nosso corpo vagabundo/ Se arreia em qualquer praça./ Mas Zé Cláudio sua graça/ Atente ao que vou dizer/ Se alternativa é morrer/ Ir para lugar nenhum/ Pior que 71/ Na verdade é nem fazer. Ele nunca disse que recebeu. Mas recebeu.

Bill Gates mora em Seattle. Numa casa com 60 seguranças. Enquanto Zé Cláudio, desde os anos 1960, vive em Olinda. Pendurado no Alto da Nação. Quem quiser chegar onde fica, explica o caminho de maneira simples: Minha casa fica por trás da de Abel. Quem será esse Abel?, só Deus sabe. Nas suas andanças pelo mundo, fez de (quase) tudo. E virou amigo íntimo de gente importante: Caribé, Décio Pignatari, Di Cavalcanti, Jorge Amado, Paulo Vanzolini, Pedroso D’Horta, Rebolo, os Matarazzo. Até do poeta Yevtushenko – que, na parede de sua sala recém pintada, escreveu com carvão a frase La felicidad es el sufrimiento que se cansó. Em espanhol culto, deveria ter sido que se ha cansado. Fazer o que? O russo aprendeu essa língua nas ruas quando viveu na Ilha, em 1964, redigindo o roteiro de um filme de propaganda – Soy Cuba. E fala a língua errada do povo, palavras de Bandeira (“Evocação do Recife”).

Lembro dos dois a partir de Fernando Pessoa (Bernardo Soares, no “Desassossego”). Referindo-se a Henry Ford – para ele, O milionário supremo do mundo. Como Pessoa se considerava o Super-Camões, o americano seria o Super-Rockefeller. Comparado, no texto, com o caixeiro da Praça do Ferreiro. Tudo quanto o milionário teve, este homem teve; em menor grau, é certo, mas para a sua estatura… Não há ninguém no mundo que não conheça o nome do milionário americano; mas não há ninguém na praça de Lisboa que não conheça o nome do homem que está ali almoçando. Estes homens, afinal, obtiveram tudo quanto a mão pode atingir, estendendo o braço. Variava neles o comprimento do braço; no resto eram iguais.

Dinheiro, como Bill Gates, Zé Cláudio não tem. Nem vai ter, nunca. Mas dinheiro não é tudo. Tanto que Bill Gates não sabe pintar. Elas por elas. Só que, pelo menos em uma coisa, são iguais. Dentro de casa. Que, ali, nenhum deles usa sapato. Nem camisa. Só um calção indecentemente largo. E não trocam de traje para nada. Nem para receber visitas. Ou à mesa, nas refeições. Bem visto, considerando suas realidades, são mesmo muito parecidos. E têm tudo que seus braços, mesmo variando no tamanho, podem alcançar. Qual dos dois é mais feliz? Sei não. Talvez os dois. Talvez nenhum. Mas, se tiver que escolher, aposto em Zé Cláudio.

P.S. Bom novo ano, para todos. Agora, para descanso e alívio dos leitores, volto a escrever depois do carnaval. Se Deus permitir, é claro.

A MORTE E A MORTE DE JK

Juscelino Kubitschek, ex-presidente da República (1956/1961), teve seus direitos políticos cassados pelo Regime Militar. Em 1966, articulou uma Frente Ampla de oposição. Junto com o presidente deposto, João Goulart. E o ex-governador do Rio, Carlos Lacerda. Os dois também cassados. E os três mortos, por sinistra coincidência, no espaço de nove meses. As Comissões da Verdade de São Paulo e Minas sugerem que JK foi, ou pode ter sido, assassinado. Mas terá sido mesmo?, eis a questão.

Em 22/8/1976, por volta das 18:30 horas, JK vinha pela rodovia Presidente Dutra. No sentido São Paulo-Rio. Estava já em Rezende (RJ). Em um Chevrolet Opala dirigido por seu motorista, Geraldo Ribeiro. Estima-se que trafegavam por volta dos 90/100 kms/p/hora. Segundo Daniel Bezerra de Albuquerque Filho, 16 anos na época, que viajava com o tio em caminhão ultrapassado pelo veículo de JK, por eles passou um Opala a mil… Esse Opala saiu da faixa direita para a da esquerda, na tentativa de ultrapassar dois caminhões à sua frente. Pouco depois, a lateral esquerda do Opala colidiu com a lateral direita de um ônibus da Viação Cometa. Derivou para a esquerda, num ângulo de 30 graus em relação ao eixo longitudinal da pista. E invadiu a pista, no sentido contrário. O fato foi confirmado por Paulo Oliver e mais dois outros passageiros desse ônibus.

Geraldo Ribeiro ainda efetuou conversão à direita, na tentativa de ajustar o veículo. Sem sucesso. E abalroou um caminhão Scania Vabis laranja, na altura do Km 165. O motorista desse caminhão, Ladislau Borges, declarou: Fiz o possível para desviar… joguei a carreta para a direita e percebi que o motorista tentava controlar o carro para entrar entre o caminhão e o canteiro. Esse motorista prestou socorro às vítimas. Geraldo ainda suspirava. Mas já era tarde.

A Comissão Nacional da Verdade realizou amplíssimo estudo sobre o tema. Recuperou depoimentos dos envolvidos. Tomou numerosos outros testemunhos. Estudou imagens dos laudos oficiais e 257 negativos fotográficos. Também outros negativos, de fotos feitas no local do acidente e em exames periciais subsequentes. E considerou as perícias até então realizadas: Processo Criminal 2.629/1977, de Resende (RJ); Inquérito Policial 273/1996 na 89º DP, também de Resende; Relatório da Comissão Externa da Câmara dos Deputados, instituída em 4/6/2000. Todos com a mesma conclusão. De que se tratou só de um acidente.

Bom lembrar que o terreno em que tudo se deu era plano. Em ambos os lados da rodovia. Fosse um atentado e certamente o local escolhido seria outro. Algum despenhadeiro, para onde o carro fosse projetado. Depois de tocar o ônibus, e caso permanecesse em sua rota saindo da pista, pior que poderia ocorrer com o Opala seria ir em frente e furar algum pneu. A colisão se deu porque o motorista de JK tentou voltar à pista. E o veículo causador do acidente não era sem placa, que não permitisse identificação de proprietário. Nem rápido. Mas um ônibus comum. Cheio de passageiros. Não tendo sido localizadas marcas de explosão ou nenhum outro material estranho ao veículo.

Instigante é a lenda de que teria sido localizada bala no crânio do motorista Geraldo Ribeiro. Prova do atentado, para muitos. Ocorre que as fotos tiradas ainda no acidente e, posteriormente, apenas do crânio do motorista (poucos meses depois), mostram a calota intacta. Em 1976. As fotos do laudo do IML de Minas, já em 1996, revelam essa calota em amarelo escuro, por força do tempo; e um espaço vazio, no meio, com bordas quebradas que tinham margens bem mais claras. Prova de fratura recente. Ocorrida no transporte do material, imagina-se, desde o cemitério até o IML. Foi nesta última perícia localizado, no interior da calota craniana, um pequeno objeto metálico. Feito com uma liga de ferro doce. Bem distante do chumbo com que são feitas as balas. Sem vestígios de outro material, no local. Tratava-se de um cravo, enferrujado, desses utilizados na fixação dos forros dos caixões funerários. E que provavelmente caiu ali, por acaso, no transporte para o exame.

Em síntese não há, pelos estudos se viu, nada que sugira tenha sido JK e seu motorista assassinados. Sendo correta a conclusão de nosso Relatório Final, na Comissão Nacional da Verdade, que apontou um acidente. Claro que a Ditadura desejaria ver JK morto. Desejaria muito. Talvez tenha mesmo chegado a projetar algo assim. Mas o destino, esse Deus sem nome, agiu antes. E correspondeu aos desejos do Regime Militar. Um acidente, apenas. Foi isso.

SAUDADES DE GALEANO

O tempo anda ligeiro. George Bernard Shaw até dizia que Não são as horas que são preciosas. São os minutos. E o pior, nesse tempo que não para, é a procissão de mortos que nos deixa como herança. Fazer o quê? Hoje, peço permissão para lembrar um amigo querido que também se foi. Eduardo Galeano era quase 10 anos mais velho. O que não quer dizer muita coisa. Quem intermediou essa relação foi Fernando Pessoa. De alguma forma, éramos irmãos em Pessoa. A amizade com Hugale, assim se assinava, era diferente das outras. Nos falávamos quase toda semana. Mas só por e-mails. Não foi caso único, em minha vida. O mesmo se deu com (Norberto) Bobbio, talvez maior filósofo do século XX. Ainda estudante, fui seu primeiro tradutor para o português. Em numerosos artigos aqui publicados. Trocamos longa correspondência, pela vida. Talvez um dia publique essas cartas – não havia e-mails, naquela época. E nunca nos encontramos, fisicamente.

Eduardo Galeano (1940-2015)

Voltando a Galeano, quase não nos víamos. Uma vez aqui, outra ali, pelo mundo. A última em Brasilia. Prometeu vir, no próximo verão, à praia. Não virá. É pena. Deixou-nos uma bela coleção de frases com seu rosto. Escolho algumas, em sua memória: 1. Viver cada dia como se fosse o primeiro, e viver cada noite como se fosse a última. 2. O ar seja limpo de todo veneno que não provenha dos medos humanos e das humanas paixões. 3. “As Loucas da Praça de Maio” serão um exemplo de saúde mental. Porque elas se negaram a esquecer, nos tempos de amnésia obrigatória. 4. Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados. Porque eles se desesperaram de tanto esperar e eles se perderam de muito, muito procurar.

Em 2012, decidiu escrever um livro diferente, “Os filhos dos dias”. Em que sempre, ao acordar, escrevia uma pequena história. Para lembrar amigos. Por cima de cada relato, apenas a data em que foi escrito e pequeno título. Em um ano, estava pronto o tal livro. Logo mandado às livrarias. Em homenagem a ele, segue um desses textos. Aquele com data “dezembro 11”. Quase acerta na data; que nosso primeiro neto homem, José, nasceu dois dias antes, no sábado passado. Segue o texto:

Dezembro 11. O poeta que era uma multidão. Pelo que se acreditava, Fernando Pessoa, o poeta de Portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas. No final de 2010, o escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti concluiu sua pesquisa de muitos anos sobre alguém que sonhou ser tantos. Cavalcanti descobriu que Pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte e sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo. Seus cento e vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros… Alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas Pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.

Neste Natal, ele não estará mais conosco. É pena. O mundo chora por ter perdido um grande pensador. Comprometido com nosso rosto latino-americano, que corria em suas veias abertas. Estamos precisando de mais pessoas como ele. Sobretudo em nosso tão complicado Brasil. Especialmente agora, quando a desesperança campeia. Apesar de tudo, de tantas perdas, mas também com ilusões que se renovam, segue a vida. Saudades de Hugale.

SOMENOS DE PORTUGAL

1. Na terrinha, tudo é diferente. Os 3 Patetas, por lá, são “Os 3 Estarolas”. O Gordo e o Mago, “Bucha e Estica”. Robin Hood, “Robin dos Bosques”. Também a língua é complicada. Nem sempre diz o que pensamos que diz. Como “autoclismo da retrete”, que é nossa descarga de banheiro. E maior palavra não é, como quase todos pensam, “Anticonstitucionalissimamente”. Com só 29 letras. Mas “Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, com 46. Uma doença provocada por aspiração de cinzas vulcânicas.

2. Por falar na língua, continuam as reações lusas contra o último acordo ortográfico, celebrado com o Brasil, que eliminou os acentos diferenciais. Isso vem desde 1938, quando foi firmado acordo semelhante. Que não funcionou. O poeta pernambucano Manuel Bandeira saiu furioso de reunião na Academia Brasileira de Letra. Era contra o acordo. E foi voto vencido. Quando os jornalistas perguntaram sua opinião ele, maldoso, respondeu: Por mim, tudo bem. Que, para o poeta, a forma é fôrma. Depois riu e completou: Agora escrevam isso aí sem o acento diferencial.

3. Fernando Pessoa, que acreditava ser o “Super-Camões”, se rebelou no fim da vida contra o autoritarismo de Salazar. Entre outros poemas de protesto escreveu “Liberdade”. Aquele que começa dizendo Ai que prazer não cumprir um dever. Um verso que todos recitam como brincadeira. Quando é crítica a discurso de Salazar, ordenando que os escritores portugueses deveriam seguir as diretrizes do Estado Novo. Se assim for, então, o prazer será não cumprir um dever. O de ler essas porcarias de Salazar, como que diz. Adiante, Pessoa declara que Jesus Cristo… não sabia nada de finanças. É que Salazar, antes professor de Economia e Finanças, em Coimbra, passou depois (1928) a ser Ministro das Finanças em Portugal. Só que, para Pessoa, um mero Seminarista (assim era conhecido) jamais poderia se comparar ao próprio Cristo. O poema, de 16/3/1935, acabou censurado. Com toda razão. E foi publicado só em 2/9/1937, depois de sua morte. Abaixo do título, há uma indicação entre parênteses: Falta uma citação de Sêneca. Talvez fosse, da Epistola 74, Os verdadeiros bens, sólidos e eternos, são aqueles da razão.

4. O poeta português Ary dos Santos inicia seu poema “O objeto”, dizendo: Há que dizer-se das coisas/ O somenos (de menor importância) que elas são/ Se for um copo é um copo/ Se for um cão é um cão. Esses versos passaram a ser mais conhecidos quando, em dezembro 1968, Vinicius de Moraes andou por lá. Perseguido pela ditadura militar. Numa recepção dada pela fadista Amália Rodrigues, foram recitados pelo autor. Parte prato sape gato/ Vai-te vate foge cão. Para encantamento de nosso poeta. Mas essa é outra história. Está na hora de recitar isso também por aqui. Em Brasília, se possível. Só que, caso fossemos dizer como as coisas são mesmo no Planalto, então seria um foge cão dos demônios.

5. Para terminar, vale a pena lembrar “Os Lusíadas”, do grande Camões. Em versos do Canto décimo, Estrofe 145, que parecem ter sido escritos pensando no Brasil de hoje: Cantar a gente surda e endurecida./ O favor com que mais se acende o engenho/ Não no dá a pátria, não, que está metida/ No gosto da cobiça e na rudeza/ Duma austera, apagada e vil tristeza.

SANGUE, METAL E LÁGRIMAS

Em seu “Primeiro Fausto”, Fernando Pessoa escreveu: Bebe-me, bebe-me, bom bebedor/ A vida é um dia e a morte um horror. O acidente da Rosa e Silva, neste fim de semana, é a melhor prova de que tinha razão. A morte é mesmo um horror. Mas o enredo, no mundo real, não teve nenhuma poesia. E foi injusto. Que o bom bebedor saiu andando, calmamente, como se nada tivesse acontecido. Sem nem se preocupar com as marcas da tragédia que deixou no chão. Restos de vidro, sangue, metal e lágrimas. Atrapalhando o tráfego.

Em toda parte, há diferenças nas penas aplicáveis a esse tipo de acidente. Quando se trate de “homicídio involuntário” ou “negligente”; e, mais grave, “homicídio por imprudência” ou “negligência grave”. As terminologias são quase sempre as mesmas, nos outros países. Há, também, fatores agravantes: a) Nível da imprudência; b) Estado do veículo; c) Ingestão de álcool pelo condutor; d) Se o veículo foi roubado. No primeiro caso, só uma pequena amostra, temos penas de até 4 meses de prisão (Dinamarca), até 3 anos (França, Bélgica, Holanda), até 5 anos (Alemanha, Espanha, Itália), até 10 anos (Estados Unidos, Inglaterra). Além de multa, de 5.000 euros até 500.000 dólares. No outro, penas bem mais pesadas.

Por aqui, seguimos essa tendência nos casos mais simples. Considerados “homicídio culposo”. E que estão, não no Código Penal, mas no Código Brasileiro de Trânsito. Com penas de 2 a 4 anos. Aumentadas de 1/3 quando não haja prestação de socorro. Já dirigir embriagado é crime autônomo, com pena de 6 meses a 3 anos. Penas só restritivas de direitos, bom lembrar. Como prestação de serviços comunitários. Ou cestas básicas. Longe da prisão.

E o que vai acontecer, neste caso, com o causador de tantas mortes?, eis a questão. É cedo para saber. Primeira hipótese é nada. Como se trata de um dependente químico, o argumento óbvio, a ser alegado pela defesa, é que se trata de um inimputável. Se der certo, com algum tempo voltará ao volante do seu carro. Deus nos proteja. A menos que o Poder Judiciário o tenha como plenamente capaz. Então será condenado. Naquelas penas do Código de Trânsito.

Mas também pode se considerar haver, no caso, dolo eventual. Afinal, o veículo das vítimas estava em baixa velocidade. E com sinal aberto, para ele. Enquanto o causador do acidente vinha em velocidade alucinada. E nem freou. Sem contar que Rivotril, maconha e álcool (segundo a imprensa) é um casamento ruim. Convertendo o caso em homicídio doloso. As penas, então, iriam de 6 a 20 anos. Multiplicado pelo número de mortos. Até agora, 4. Sim, o nascituro (feto) conta como um morto. No total, pois, 24 a 80 anos. Nessa hipótese mais gravosa, o responsável iria a júri popular. Fosse hoje, o julgamento, e o responsável sofreria pena máxima. Mas os anos passam. E melhor advogado, sabem os do ramo, é o dr. Tempo. Os jurados acabam ficando com dó. E essas penas podem ser baixas. Melhor esperar para ver.

Por fim, impossível não pensar nas tantas vidas destruídas em vão. Caminhos interrompidos. Ilusões perdidas. Sonhos desfeitos. Em seu “Rubáiyat”, Omar Kháyyám disse: Bebe um pouco de vinho/ Porque dormirás muito tempo/ Debaixo da terra. Agora, vimos que o mundo real anda longe da poesia. Que nele, e diferentemente do que pensava Kháyyám, quem vai dormir embaixo da terra, antes de sua hora, não é quem bebe. São as vítimas de quem bebe. O que é diferente. Muito diferente.

“SE”

Se és capaz… Assim o indu-britânico Rudyard Kipling, Nobel de Literatura em 1907, começa o seu mais famoso poema (“Se”): Se és capaz de manter tua calma…, De crer em ti…, De esperar sem te desesperares…, De não mentir ao mentiroso… E finda com És um Homem, meu filho! Conselhos a seu único filho, John, então com 12 anos. Seis anos depois, o pequeno John seria morto. Na Primeira Grande Guerra. A aranha do destino, palavras de Pessoa (num poema sem título de 1932), lhe negou a chance de por em prática recomendações dadas pelo velho pai. Mas essa é outra história.

Na linha do “Se” de Kipling, pergunto “se” o governo Temer é mesmo tão ruim quanto se diz. Para que não haja dúvidas, o considero tão lamentável quanto o de Dilma. Ruim por ruim. Muito ruins, os dois. A rigor, é o mesmo governo. Com os mesmos atores. E a mesma matriz de corrupção. Condenados, réus e indiciados por todos os lados. Quando todos nós, indeterminados cidadãos comuns, queríamos algo diferente. Grandes nomes. Pessoas limpas. Por exemplo, um grande médico no Ministério da Saúde. Em vez do “Tesoureiro Geral” do PP – investigado, no inquérito 4.157, por corrupção e peculato. Esse governo, como seu antecessor, se resume a um loteamento vergonhoso na busca do poder. E da grana. Muita grana. Com poucas exceções. Entre elas, a Petrobrás – mesmo sendo acusada, por xenófobos, de estar vendendo nossa soberania. E a equipe da Economia, graças ao bom Deus.

Mas há sempre uma candeia/ Em meio a tanta desgraça, escreveu Manuel Alegre (em “Trova do vento que passa”). Há também, em meio a tanta ruindade, um detalhe que vem escapando à mídia. Em favor de Temer. É que, pensasse apenas em si, e poderia estar em situação bem mais cômoda. Bastaria tirar de pauta esses projetos polêmicos todos. Simples assim. A começar pela reforma da Previdência. Nesse caso, políticos que pensam mais neles (ou nas eleições), que no país, perderiam a chance de falar mal dos projetos. E do presidente. Daria, também, aumento salarial para todas as categorias do serviço público. Seria o Temerzinho paz e amor. A história se repetiria, pois. Com o Brasil ainda mais quebrado. E o próximo presidente ganharia de presente todos esses problemas, coitado. Aumentados. Muito.

Teria também, o pobre do Temer, a vantagem de não ficar tão refém de sua “base”, do “é dando que se recebe”, desse estágio vergonhoso que marca nossas elites políticas de agora. Como já não precisaria mais de votos para aprovar projeto nenhum, então poderia negar cargos e verbas. Ou parte. A rigor, ele está sendo criticado pela única coisa boa de seu governo lamentável. O de aceitar essa impopularidade pantagruélica para tentar aprovar reformas em favor do Brasil.

Resumindo, e voltando ao “Se” de Kipling, Temer não poderá recitar alguns versos do poema. Como Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes… Ou E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes. Mas poderá pelo menos dizer, como ele, Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas/ Em armadilhas as verdades que disseste. Pensando bem, e isso é quase uma ironia, seu governo poderia sofrer bem menos críticas. Já falta pouco, até as próximas eleições. E com certeza iria, sem maiores problemas, até o fim. Problema, só, é que seria muito pior para o Brasil.

“COISA DE PRETO”

Arun Gandhi, neto do Mahatma (Mohandas Karamchand) Gandhi, conta em seu livro “O Dom da Ira” (ainda não publicado no Brasil) que na África do Sul, durante uma tempestade, ficaram encharcados todos que estavam no último vagão de um trem – destinado aos de sua cor. Decidiram ir ao dos brancos, para se proteger da chuva. E de lá foram expulsos pelo maquinista. Um homem preto. Cumpria seu trabalho, é certo. Mas o preconceito, naquele tempo, estava entranhando em todas as almas.

Hoje, por sobre uma consciência mais difusa dos males desse preconceito, há também o peso das novas mídias. Sem qualquer controle. Avassaladoras. Brutais. E, com elas, tudo muda. Em todo lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, se alguém se referir a outro como nigro (em vez de black), está perdido. Em palavras de Fernando Pessoa (“Lusitâna, Europa e Orpheu”), A hora da raça chegou, enfim.

Meu velho pai dizia sempre que Para construir um muro, são necessários 30 anos. Tijolo por tijolo, um por ano. Para derrubar, só um segundo. Não se referia, claro, a muros reais. Feitos com tijolos e cimento. Mas às reputações. Todo esforço de construir vidas retas se perde em um silêncio, um gesto, uma frase. Tinha toda razão. Como sentiu agora na própria pele, e da pior forma, o jornalista William Waack. Ao dizer baixinho, no intervalo de uma entrevista, Não vou nem falar porque eu sei quem é. É preto. É coisa de preto.

De um ponto de vista conceitual, esse linchamento moral que sofre não faz nenhum sentido. Porque principal liberdade, pilar de todas as outras, é a da consciência. Só homens conscientes podem se considerar verdadeiramente livres. O que tem duas consequências. Uma retrospectiva, que é não se poder aceitar censura. Outra prospectiva, que é o direito de podermos dizer o que quisermos. Até barbaridades. Como aquelas palavras do jornalista. Fora disso, não há sentido em ser livre. De que nos adiantaria?, se ficarmos presos a convenções. Entre elas, a praga do Politicamente Correto.

Problema, senhores, é que somos todos imperfeitos. Quantos de nós podem se gabar de não haver cometido algum deslize?, nesta vasta e insensata vida. Quantos não atravessaram nunca um sinal vermelho. Ou não deram bola a guardas de trânsito. Ou não omitiram algum dinheiro, ao declarar o Imposto de Renda. Ou falaram palavras erradas. Sem contar pecados piores. Sobretudo, não há proporção nessas condenações. Fico só num caso. Para lembrar o número grandioso de políticos que se apropriam de recursos públicos, para fins partidários ou pessoais. Muitos deles são réus. Outros já estão condenados. Por corrupção. E têm a petulância de se considerar perseguidos políticos. Pior mesmo é haver os que acreditam nisto, só mesmo rindo. Em uma espécie de sagração do lema deletério de Ademar de Barros, Rouba mas faz. Isso perdoam. Roubar, tudo bem. Mas frase dita brincando, por pessoa que não rouba, é algo imperdoável. Difícil entender.

Voltando ao neto de Gandhi, ele também diz que seu avô Não nasceu santo. Nasceu uma pessoa comum. Era um ladrão, roubava dinheiro, mentia aos pais. Tinha todas as fraquezas que nós temos. Só depois compreendeu a grandeza das virtudes. E se transformou. Em resumo, assim penso, não é justo julgar (e condenar) Gandhi, ou Waack, ou qualquer indeterminado cidadão por suas fraquezas. O homem deve ser entendido no seu conjunto. E na sua trajetória. Somos seres feitos de equívocos e virtudes. Sanchos e Quixotes. Barros e estrelas. E merecemos ser julgados, por quem está do nosso lado, considerando tudo isso. Nas democracias é assim. Deveria ser.

CONTROLE DA MÍDIA???

O símbolo do herói moderno, para o filósofo italiano Umberto Galimberti (“Il Gioco delle Opinioni”), deveria ser Ulisses. Rei de Ítaca. Por sua invenção do cavalo de Troia. Em cujo ventre, acreditando no que aprendemos na escola, se esconderam soldados que os troianos puseram dentro dos muros e, à noite, abriram as portas da cidade. Porque Ulisses seria portador dos valores básicos que se exigiria de uma sociedade moderna – mentira e astúcia. Retraduzindo essas palavras, para dar-lhes mínimos de dignidade, “astúcia” passaria a ser a capacidade de encontrar o ponto de equilíbrio entre forças contrárias. Enquanto “mentir” significaria habitar a distância que separa aparência e realidade. Com Ulisses, inaugura-se a dupla consciência da realidade e sua máscara.

Em certo sentido, é o que se passa hoje com nossas elites políticas. Agem como se fossem novos Ulisses. Usando, sem constrangimento, astúcia e mentiras. Para todos os fins. Inclusive enriquecimento privado com recursos públicos. Mas o TSE não parece muito preocupado com isso. Nem em como baratear as eleições. Nem com a indecência que é o financiamento público das eleições. Nem com o Caixa 2, que vai continuar imperando nas próximas eleições. E prefere apontar sua metralhadora para apoiar o discurso de Lula, em favor do “Controle da Mídia”. Deus nos proteja. Tanto que, segundo a jornalista Mônica Bergamo (Folha de SP), decidiu “convocar audiência pública” para discutir “a influência da mídia (rádio e TV) no processo eleitoral”. Já propondo a criação de “um órgão estatal de controle nas programações”. Deus tenha pena de nós. Com essa volta da censura, em grande estilo.

Pior é que faz isso mesmo sabendo que o Supremo já se pronunciou contra. Quando julgou regra do Estatuto da Criança (art. 247, § 2º) que autorizaria uma “suspensão da programação” das emissoras de rádio e TV. Contra ela foi proposta ADIN (869-2). E o Supremo, afinal, declarou (em 4/8/1999) sua inconstitucionalidade. Por entender que isso importaria “restaurar, por forma oblíqua, a censura banida pela Carta Magna de 1988”. É o que pretende, agora, o TSE. Valha-nos Deus.

Algo assim seria impossível em qualquer país democrático. Nos Estados Unidos, como no Brasil (art. 220, § 2o), existe também vedação constitucional a qualquer tipo de censura. A regra está na primeira emenda do Bill of Rigths (nome coletivo que só dá as dez primeiras emendas à Constituição Norte-Americana), a saber: Congress shall make no law… abridging the freedon of speech, or the press…. Verdade que a Suprema Corte passou a permitir, desde 1919, limites pontuais à livre expressão. Com a doutrina do Clear and Present Danger¸ sagrada no case Schenck x United States. Confirmada, posteriormente, com as doutrinas do Gravity on the Evil (1924) e Free Speech (1945). Princípios esses renovados, e alargados, em 1982. Com a doutrina, hoje dominante, da Unprotected Speech, estabelecida no case New York x Ferber. Mas isso se dá só em três casos: Pornografia, Dados Secretos do Governo e Segredos das Empresas. Sem qualquer relação com eleições, pois.

Ao lado das mídias tradicionais (rádio e TV), há também o mundo digital. Sobre o tema, silêncio. Vai ser tudo controlado? Teremos, afinal, o grande irmão previsto por George Orwell (em “1984”)? É desalentador, leitor amigo. No Brasil, parece, o progresso consiste em andar para trás. Em proveito de quem?, eis a questão. Não da democracia, com certeza. Em seu comovente painel da eterna luta entre o indivíduo e a sociedade, que é “Servidão Humana”, escreveu Somerset Maugham: O poder é a lei, a consciência e a opinião pública. Deveríamos seguir essa lição. Que eleições livres exigem eleitores livres. Consciências livres. E opinião pública em que onde todos possam se expressar livremente.

A UNIVERSIDADE DAS AFLIÇÕES

Olavo de Carvalho fez parte da Tariga, ordem mística mulçumana do Islã; mas, com o tempo, acabou católico convicto. Na Ditadura Militar, era membro do Partido Comunista Brasileiro (1966 a 1968); e, depois, foi ser ideólogo da Nova Direita. Mudou muito. Hoje, é professor de filosofia na universidade de Richmond (Virgínia, Estados Unidos). Não é pouca coisa. Seus pensamentos filosóficos, nos textos acadêmicos, seriam fundamentados na defesa dos princípios metafísicos das antigas civilizações e no combate à perda do sentido histórico do universo. Não gosto de suas ideias. O que não tem nenhuma importância. Posto que tem o direito de ser ouvido. No tanto em que principal liberdade, fundamento de todas as outras na democracia, é a da consciência. E uma consciência livre, para ser formada, requer ausência de qualquer censura.

O filósofo é odiado por parte de nossas esquerdas. Desde quando sugeriu andarem na busca da Vitória Perfeita. Para não entendidos, seria aquela obtida sem lutar, pela entrega do adversário – palavras de Lenin. Declarando mais que, para conseguir isso, adotaram a estratégia de Antonio Gramsci. Essa teoria do filósofo italiano é conhecida como a da Hegemonia Cultural. Que seria o exercício das funções de direção, intelectual e moral, para controle do poder político. Mais simplesmente, a estratégia consiste em controlar, primeiramente, o pensamento da mídia, dos sindicatos, da cultura, das universidades. E, só mais tarde, conquistar o poder. Fazer a revolução cultural, antes da revolução política.

Não há ninguém mais perseguido, hoje, por aqui. No CinePE deste ano, cineastas ditos democráticos assinaram Manifesto (15/5/2017) protestando contra a exibição de um filme sobre a vida de Olavo, “O Jardim das Aflições”. E retiraram seus filmes da competição, gritando Fora Temer. Na ditadura militar, caso fosse proibida a exibição de filme sobre um intelectual de esquerda, diriam todos que seria censura. Inclusive esses mesmos cineastas/revolucionários do festival, imagino. A contradição é gritante. Antes, era censura. Agora, só um gesto democrático. O festival, apesar de tudo, foi realizado em seguida. E acabaram, as Aflições de Olavo, recebendo prêmio de “Melhor Filme”. Uma ironia.

Na última sexta-feira, o vandalismo se transferiu para o auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco. Onde foi exibido esse filme sobre Olavo. Em 1969, impedido de estudar no Brasil pela Ditadura Militar, acabei ganhando bolsa para Harvard. Fui embora, claro. E lá, todos as noites, eram exibidos filmes censurados pela Motion Pictures. De cineastas marxistas, maoístas, do Viet-Nam, de todas as matrizes. Quem não gostava, não ia. Tudo bem democrático.

Para (Benjamin) Disraeli, Universidade é lugar de estudo, liberdade e luz. Deveria ser. Porque militantes do Partido da Causa Operária, e da União da Juventude Socialista, prepararam uma espécie de emboscada. No corredor por onde sairiam os espectadores do filme. E começaram as agressões. A palavra de ordem é que o filme não vai mais passar. Em lugar nenhum. No pasarán!, como às tropas franquistas dizia, na Guerra Civil Espanhola, Isidora Dolores Ibárruri Gómez – La Pasionaria.

A Universidade Federal se limitou a uma simples nota, no dia seguinte. Dizendo que a intolerância deve ser firmemente rechaçada. Sem abrir inquérito. Nem tendo interesse em identificar os agressores. O que seria fácil, a partir dos rostos que aparecerem nos vídeos. Sequer desejou saber se os agressores seriam alunos. Ou baderneiros profissionais, remunerados, infiltrados em seu campus a serviço de partidos políticos e movimentos sociais. No fundo, com essa omissão, incentivando que agressões assim voltem a acontecer. É pouco. Esperávamos bem mais da Universidade. Mais democracia. Mais liberdade. Mais luz.

LEX POSTERIOR DEROGAT PRIORI

A CLT (de 1940) foi reformada com a Lei 13.467/2017. Mas parte dos juízes do Trabalho não se conforma. E praticam uma espécie de vingança. Assim como o Supremo Senado Federal se concedeu o direito de interpretar a Constituição, em lugar do STF, agora, como se fosse um troco, é o judiciário que não quer aplicar essa Lei. Numa como que sagração das ideologias. Ruim. Porque Direito é ciência. Com regras estáveis. O argumento mais recorrente, usado por esses juízes insubmissos, é o de que dita Lei é incompatível com tratados internacionais anteriormente subscritos pelo Brasil. Não é bem assim, meus senhores.

No Direito brasileiro, por muito tempo, vigorou o entendimento de que tratados e convenções internacionais tinham status de Lei Ordinária. Incorporando-se, a nosso ordenamento jurídico, como uma Lei Ordinária. Assim foi até o hoje clássico RE 80.004-SE (relator, min. Cunha Peixoto), de 01/06/1970. Que passou a sagrar, formalmente, esse entendimento. A partir daí, o Supremo, e, mais tarde, a própria Constituição (EC 45/2004, par. 3º do art. 5º), fazem distinção relevante. Separando aqueles tratados que refiram Direitos Humanos, tidos como se Emendas Constitucionais fossem. Dos demais tratados, simples Leis Ordinárias.

Exemplos recentes mais importantes no campo dos Direitos Humanos, entre nós, são o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ONU, 1966); e a Convenção Americana de Direitos Humanos (San José, 1969). Ambas em vigor desde 1992, quando foram referendados por nosso Congresso. Com nível constitucional, resultam diferentes dos demais tratados. Apenas Leis Ordinárias, esses outros. Razão pela qual se aplica, em casos assim, a regra da Lex Posterior Derogat Priori. A Lei posterior, no tempo, derroga a anterior. Essa nova Lei revoga, pois, no que disponha diversamente, a antiga CLT. Como revoga todos os tratados internacionais que não refiram Direitos Humanos. Assim se deu, por exemplo, na ADIN 1.480-3/DE (relator, min. Celso de Mello) – que alterou a Convenção 158, da OIT, considerada simples Lei Ordinária.

O caso mais citado, por nossos juízes, é o das horas extras. Que permite até “12 horas (trabalhadas), por 36 de descanso” – na nova Lei, arts. 58-A e 59-A. Violação dos Direitos Humanos, dizem os críticos. Não é um argumento sério, perdão. Primeiro, porque essas poucas horas a mais, consentidas pelo trabalhador e bem pagas, não parece ofensa a qualquer Direito Humano. E segundo porque essa prática já existe, no Brasil, desde muito. Sob silêncio cúmplice de todos. Médicos dão jornadas de 24 horas, nos hospitais. Policiais também (contra 48,72 ou 96 horas de descanso, conforme o caso). São 24 horas seguidas, senhores. Sem que nenhum procurador do TRT tenha jamais autuado nenhum empregador, por isso. Nem juiz nenhum tenha proibido a prática. Cumprindo, a esses que contestam a nova Lei, indicar quais regras específicas, de quais tratados específicos de Direitos Humanos, são violadas.

Li a Lei, com atenção, e não encontrei qualquer incompatibilidade. Embora se possa dizer sempre, e com razão, que não sou especialista em Direito do Trabalho. Mas, ainda quando houvesse uma ou outra, as demais regras valeriam. Todas. Entre elas, aquela que mais incomoda os sindicatos – o fim da contribuição sindical compulsória. Algo sem similar em qualquer outro país do planeta. Em resumo, senhores, talvez seja hora de produzir debates mais sensatos. Técnicos. E longe das ideologias. Respeitando a Lei. Que a Lei, senhores, é o espaço em que se fundam todas as boas democracias. Essa mesma Lei que, para Píndaro (em “Fragmento”), é rainha do mundo, dos homens e dos deuses.

SÓCRATES, LULA E DIRCEU

Eça de Queiroz (em “As Farpas”) escreveu: Nós estamos num estado correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública. Contra esse vaticínio de Eça, o ex-primeiro ministro José Sócrates acaba de virar réu, em Portugal. Por corrupção passiva. Acusação 122/13.8 TELSB, com 3.908 páginas. Trata-se da operação “Marquês”. Prefiro nossos nomes – “Juízo Final”, “Dolce Vita”, “Erga Omnes”. Agora, vai sofrer nas mãos do jovem juiz Carlos Alexandre. O Sérgio Moro de lá. Curioso é que tudo, nesse processo, faz lembrar nossa terra que tem palmeiras (ou tinha), onde cantam (ou cantavam) os sabiás. É só conferir.

Em 2006, chegando ao poder, Sócrates logo teria montado esquema junto a grandes grupos econômicos – entre outros Lena, Octapharma, Espírito Santo, PT (Portugal Telecom). Com pagamentos em dinheiro vivo, todos, essa era a regra. Fazendo negócios até longe, com parceiros amigos. Entre eles a Venezuela. E sempre tendo por trás o governo. Sem esquecer a grana que veio de um banco público, a Caixa Geral de Depósitos. Não podendo faltar, dando toque romântico à trama, um sítio. Para lazer nos fins da semana. No caso de Sócrates, o “Monte das Margaridas”, em Montemor-o-Novo. Tudo mostrando que tinha razão Camões (em “Os Lusíadas”), ao falar nos cristãos atrevimentos que se veria depois: Mas entanto que cegos e sedentos/ Andais de vosso sangue, ó gente insana,/ Não faltarão cristãos atrevimentos/ Nesta pequena casa lusitana.

Bem visto, é tudo muito parecido com o que aconteceu por aqui. Nem deveria estranhar, que Lula é íntimo de Sócrates. Tanto que fez prefácio para um livro dele, “A confiança no mundo”. Fosse pouco e o jornal “O Público” anuncia que haveria um plano de fuga para Sócrates. Em que passaria a “viver confortavelmente em um país da América do Sul”. Sublinhando que haveria referências ao Brasil, nos documentos apreendidos. Não estranha portanto que, nesse processo, dois brasileiros ilustres sejam citados. O ex-presidente Lula, em 9 itens. E o ex-ministro José Dirceu, em 15.

Lula, Dirceu e Sócrates

Com relação a Lula, temos só relatos de encontros que buscavam permitir investimentos da PT por aqui. Especificamente, na aquisição da TELEMAR. Com gestões para obter financiamentos do BNDES. Sendo necessário, mais, que o governo brasileiro providenciasse alterações na Lei do Plano Geral de Outorgas. O que aliás fez, com o Decreto 6.654/2008. Quanto a Dirceu, sobretudo em depoimentos de Henrique Granadeiro (da Portugal Telecom) e Ricardo Salgado (ex-presidente do Banco Espírito Santo), há referência aos serviços prestados. Indicando os depoentes que seriam nomeados outros, diferentes, nas notas fiscais apresentadas por ele como pessoa física e por sua empresa (LSF). Para não despertar suspeitas. E já foram comprovados pagamentos de “pelo menos, 618.410 euros” (item 2.786 do processo). Cerca de 2,5 milhões de reais.

Em resumo, fica só a curiosidade em ver brasileiros no maior processo de corrupção da história de Portugal. Como coadjuvantes, é certo. E sem que se possa, nem deva, tirar conclusões a respeito. Por enquanto, ao menos. Nem penais. Nem morais. Todos beneficiados com a presunção de inocência, pois, como na boa regra das democracias. Faltando, agora, só esperar tempos melhores. No Brasil e em Portugal. Fora disso, nos restaria seguir Manuel Bandeira (em “Pneumotorax”) e tocar um tango argentino. Ou, na terrinha, lembrar a deusa Sophia de Mello Breyner Andresen (em “Exilio”): Quando a pátria que temos não a temos/ Perdida por silêncio e por renúncia/ Até a voz do mar se torna exílio/ E a luz que nos rodeia é como grades.

LAS VEGAS E JANAÚBA

Segundo Eça de Queiroz (Últimas Páginas), “Portugal é um país traduzido do francês”. Adaptando a frase, para os dias de hoje, se poderia dizer que o Brasil é traduzido do inglês. Mais propriamente, daquele falado nos Estados Unidos. Como agora se vê nessas duas tragédias. A tentação é dizer serem diferentes. Nas aparências. A começar por onde tudo se deu. A grande Las Vegas, pujante centro de turismo e jogatina, tem 1,9 milhões de habitantes. Enquanto a pequena Janaúba, sobrevivendo basicamente do Bolsa Família, somente 67 mil.

Nos Estados Unidos, foram 59 mortos. Por enquanto. Honrando a tradição de chacinas grandiosas, bem comuns por lá. E o atirador não conhecia ninguém. Enquanto, em Minas Gerais, foram 8 crianças com só 4 anos. Mais outra, com 5. Além de uma professora, 43. Gente amiga, com quem o vigia conversava todos os dias. Difícil entender. Lá, os tiros vieram do luxuoso Resort Mandalay Bay. Já por aqui, tudo se deu no Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente. Como se esse nome definisse as vítimas no próprio local de suas mortes, Gente Inocente.

O americano usou 19 espingardas adaptadas para funcionar como metralhadoras. Enquanto o mineiro, pobre de doer, escolheu álcool. Barato. Comprado num posto de gasolina. Mais conhecido por “Dão do Picolé”, gêmeo que como tantos outros tem um irmão chamado Cosme, Damião Soares dos Santos marca, na própria carteira de identidade, o destino de suas vítimas. Que hoje são dos Santos, como ele, vagando por céus imprecisos e distantes. Semelhantes, os dois algozes, só em serem enterrados sem amigos ou familiares que os velassem. Ou chorassem por eles. Na tristeza da solidão derradeira que os espera.

Ocorre que, no fundo, são duas tragédias iguais. A tragédia da natureza humana. Cabendo só especular sobre as razões que levam pessoas comuns a praticar gestos extremos. Em tentativa de explicação, imagino que, vivendo vidas comuns, em algum momento, já próximo do fim, os autores não vissem mais sentido nas suas trajetórias. Como se quisessem marcar, com um ato definitivo, suas vidas. Como se quisessem dizer ao mundo, utilizando título da autobiografia de Paulo Neruda, “Confesso que vivi”. Mesmo sabendo que não receberão homenagens, pelo que fizeram. Importa pouco. Vale é que serão lembrados. Bem diferentes de tantos, à sua volta, com vidas parecidas. Quase vegetais. Sem que fique marcado um traço, sequer, de suas passagens terrenas. Sem que ninguém se lembre, depois, das suas existências.

O Esteves, da Tabacaria, era um vizinho de Fernando Pessoa. Joaquim Esteves. Mais um, como tantos, que vivem à nossa volta e depois desaparecem. Pessoa até diz isso. Para ele, era só o “Esteves sem metafísica”. A ironia é que esse Esteves foi o declarante no atestado de óbito do poeta. Seja como for, Esteves será lembrado, até a eternidade, por aqueles versos. E tantos outros, não. É como se, em casos assim, o homem se rebelasse. Guerra Junqueiro, em A Velhice do Padre Eterno, põe Judas enfrentando Jesus na cruz: “E vou provar-te agora,/ Oh pobre Cristo nu,/ Que sou maior do que Deus/ Mais justo do que tu/ Pois um justo que é justo não perdoa”. Judas, fazendo o que fez, entrou para a história. Da pior maneira. Traindo um amigo. Mas entrou.

Os dois assassinos de agora, em síntese, talvez tenham querido apenas marcar suas existências com um ato extremo. Não há como ter certeza. Fora disso, sobra só o imponderável. Que se revela na falta de explicação de por que homens se realizam, numa espécie de catarse, ao matar inocentes. Na razão de gestos assim, desprovidos de qualquer sentido. No suicídio que praticaram, depois do êxtase de tirar a vida de tantas pessoas. Tudo confirmando velha sentença do Corão, “Ninguém pode saber o que nos reserva o destino”.

MACONHA NO URUGUAI

A legalização da maconha, no Uruguai, excita imaginações. Como se fosse uma revolução. Quando, na verdade, é só tentativa de resolver um grave problema de saúde pública. Porque morre-se muito em razão da manipulação criminosa das drogas. A ideia é substituir uma ruim, por outra – menos letal, mais barata, legalizada. Seja como for, a decisão deve ser vista como natural. Tendo em conta o que ocorria por lá. Estima-se que 160 mil, dos 3,5 milhões de habitantes do país, a consumiam regularmente. E muitos grupos de auto-cultivadores já tinham, inclusive, autorização para plantar cannabis nas suas casas. Agora, pacotes com 5 gramas de flores de maconha passam a ser vendidos nas farmácias de Montevideo. Por 4 reais, a grama. Cada adulto pode comprar até 40 gramas por mês. Pena que apenas 4, em 380 farmácias da capital, aderiram ao programa. E uma já se retirou, a Pitágoras (do bairro de Malvin). Por ter o Banco Santander ameaçado cancelar sua conta. Dado não admitir, entre seus clientes, quem esteja no ramo da maconha. Tudo está muito ainda no início.

Essa legislação não é novidade uruguaia. Em verdade, trata-se de uma tendência mais ampla. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais estados que permitem do que proíbem o uso da maconha. E na Europa, mesmo sem lei, essa liberação já ocorre. A Suíça inclusive lançou, com grande sucesso comercial (esse mercado já vale, hoje, 320 milhões de reais anuais), um cigarro de maconha. Com menos de 1% de THC (tetraidrocannabinol, componente psicoativo da planta). Marca Heimat. Vendido em supermercados, ou pela internet, a quem tenha mais que 18 anos. Ao preço de 65 reais, cada maço – com 4 gramas de THC e 80% de tabaco. Apesar disso, hotéis e restaurantes têm restringindo seu uso. Algumas regiões do país, como Ticino, retiraram o produto das prateleiras. E países vizinhos, como Alemanha e Áustria, não permitem sua entrada. É complicado.

Ocorre que algo mudou, no quadro teórico sobre o tema. Todos sabiam que maconha era usada, sobretudo, para controlar uma angústia difusa. No fundo, tentativa de auto-regulação selvagem para inquietações interiores. E sem maiores riscos, assim se pensava. Novidade é não ser tão inocente, à saúde. Para tanto, basta conferir conclusões de estudo (fevereiro de 2015) sob responsabilidade da prestigiada instituição Open Acess. Financiado, inclusive, pelo King’s College de Londres. Segundo ele, consumidores de cannabis tem 25% mais de chances para desenvolver esquizofrenia. Em sua conclusão (interpretation), vemos que “a associação entre uso da cannabis e o desenvolvimento da esquizofrenia foi confirmada sob uma perspectiva epidemiológica”. Atingindo, sobretudo, as pessoas mais frágeis. Física e mentalmente.

Outro estudo, agora do GREA (Groupement Romand D’Études des Addictions, maio.2017), vai na mesma linha. Com grandes elogios à maconha terapêutica – relatando efeitos positivos sobre aids, câncer, doenças inflamatórias, epilepsia, esclerose, parkinson e dores em geral. Mas reconhecendo ser inquestionável que também contribui para deflagrar doenças mentais preexistentes. E, mesmo, que certas disposições genéticas afloram com o consumo da cannabis. Maconha não seria propriamente a causa, é certo. Mas um fator que vai permitir a emergência da esquizofrenia e outros males. Resumindo, não se trata de algo só para divertir. A droga é, também, perigosa.

Agora, o tema começa a ser debatido no Brasil. A Anvisa, inclusive, acaba de anunciar que vai regulamentar o plantio da maconha. Até meios de 2018. Nada contra. No tanto em que a liberação legal da droga parece constituir tendência mundial. Mas penso que isso deve acontecer, antes, nos países do primeiro mundo. Não devemos ser cobaias deles, esse o ponto. Tudo sugerindo que melhor ter cautela, antes de fazer conclusões apressadas. Ou de querer apressadamente copiar algo assim, por aqui.

A ARTE DE CONVIVER

Lisboa. De longe, tudo parece mais claro. Vivemos, hoje, uma crise de relações. Um curto circuito ético, jurídico e político. O esgotamento de certas práticas sociais. A ética da amizade. O compadrio. Sempre existiram conflitos, entre nós. Mas eram atenuados, antes. E isso, parece, está findando. Ruim, muito ruim, sobretudo porque a polaridade nas posições reduz a coesão social. Só para lembrar, no conto “O Alienista”, Machado de Assis relata que Simão Bacarmate internou 4/5 da população de Itaguaí em seu hospital psiquiátrico. Até que ele próprio ficou preso, por lá. Não queremos isso.

Intransigentes com os diferentes, nos últimos tempos somos generosos só com quem pensa como nós. Nesses, perdoamos tudo. Até apropriação do patrimônio público. Corrupção. Com todas as letras. Já não é possível esconder o grau assustador de saque ao Estado. Para fins eleitorais e, também, privados. Odebrecht, OAS, Friboi, por aí. Todos sabem disso. Embora nem todos deem a mesma importância ao fato. Alguns até acham isso Pop. Agem como se fossem parte de seitas – aproveitando a frase da carta de Palocci, nessa terça. Há os que se comportam como se ideologia fosse mais relevante. Sinto gana de acompanhar Jorge Amado e dizer que A ideologia é uma merda. Mas não vou tão longe. Certo é que esses perdoam tanta corrupção, docemente, como se fosse algo natural a nosso modelo político. E não é. Ou não deveria ser.

O jornalista Artur Xexéo (em O Globo) desabafa: Gente que dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimigo. Ou sou eu o inimigo? O radicalismo se espraia. Pessoas que deveriam ser consideradas acima do bem e do mal são desqualificadas. Irmãos. Conhecidos. Ídolos do passado. Cada um de nós é capaz de contar, recentemente, quantos amigos perdeu? E só por terem opiniões diferentes das nossas. Já não se consegue argumentar. É como se algum consenso prévio, em relação a crenças ou mitos, não permitisse isso. Uma espécie de catarse. De lavagem cerebral.

Num pequeno poema (“Em nome da amizade”), Marcelo Mário de Melo descreve a situação que o país agora vive. Lamentando ver Em caminhos contrários/ Antigos companheiros/ De jornadas comuns/ Em sonho e sangue. E Chico de Assis, outro antigo companheiro na luta pela reconstrução da democracia, em livro escrito quando cumpria pena (“Cárceres da Memória”), ensina que Construir pontes/ É abrir passagem/ Entre o momento/ E o tempo.

Em artigo na revista portuguesa Visão, daqui de Portugal, Miguel de Souza Tavares chama atenção para o fato de que o Estado de Direito é uma contrariedade contra a ditadura populista disfarçada de democracia. Há um rio que separa os brasileiros. Esse rio passou em nossas vidas e suas margens não unem mais. Agora separam. Há dois Brasis que não se falam. Passamos a odiar quem pensa diferente de nós. É de ódio que falo, meus senhores. Tudo hoje se dissolve, como gelatina. Misturado em um discurso de rancores. Quase todas as nossas ilusões de antes se revelaram vãs ou perdidas. Por tudo, então, é preciso remar ao contrário desse rio. Logo. Antes que percamos nossas almas.

RECORDAR É VIVER

LISBOA. Cada povo tem o furacão que merece. Nos Estados Unidos, é o IRMA. No Brasil, o PALOCCI. Só não se sabe, ainda, qual dos dois fará mais vítimas.

Nessa terça, Lula foi novamente ouvido por Moro. Agora, no processo do Sítio de Atibaia. As coisas vão se complicar, para ele. Ainda mais. Que Palocci já confessou ter sido um regalo da Odebrecht. Aproveito para lembrar passagens da sentença do caso Triplex – que condenou Lula por corrupção passiva. Como teremos em breve, nova sentença do Sítio (e, depois, ainda mais 4), vejamos se a história, como queria Maquiavel (em “O Príncipe”), se repete mesmo. Ou se a razão estaria com Marx (“18 Brumário”), para quem se repete só como farsa.

IRONIA. Antes de tudo, reconhecer haver uma certa ironia, nesses processos. Que a Vara em Curitiba, que condenou Lula, é a 13.

LIÇÕES POR CORRUPÇÃO PASSIVA. Na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Araucária, PR), a Camargo Correia e a Promon ofereceram propostas acima do máximo permitido pela Petrobrás. E, na Abreu e Lima (aqui em Suape), o mesmo aconteceu com Camargo Correia, Mendes Júnior e Consórcio Techint/AG. Sem razão para que o fizessem. Por já saber que seriam desclassificados. A menos, claro, que fosse uma licitação desde seu início viciada. Para proteger, nos dois casos, OAS/Odebrecht. Empreiteiras são sempre, entre si, boas amigas. As licitações foram conduzidas por Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Renato Duque. É preciso dizer mais? Agora, nesse novo processo, vamos ter novas lições. Quem viver, verá.

DEMITIDO. José Afonso Pinheiro, zelador do Condomínio Solaris, prestou declarações muito convincentes: “Todos sabiam lá que o apartamento pertencia ao ex-presidente Lula… Os corretores mesmo faziam propaganda… Dona Marisa Letícia se portava como proprietária”. O engenheiro Igor Pontes Ramos, da OAS, mandou que silenciasse. Mas o zelador obedeceu a sua consciência. Falou. E acabou demitido. Pobre José Afonso. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco. Coitados, também, dos caseiros daquele Sítio.

ESTATÍSTICAS. Quem quiser apostar sobre como se posicionará o TRF de Porto Alegre, considere seus percentuais nos julgamentos da Lava Jato em sentenças de Moro (Fonte “El Pais”, 13.07). Em 360 pedidos de Habeas Corpus, só 4 concedidos (1%). Em 48 condenações, apenas 5 réus absolvidos (10%). Penas foram aumentadas em 16 casos (30%). E a boa vontade, com o réu de agora, não parece grande. Tanto que já negou o desbloqueio de seus bens. E, sexta passada, também negou pedido para adiamento do interrogatório.

PROVAS. A decisão do TRF de Porto Alegre é relevante, para o futuro. Porque nela se discutirá, pela derradeira vez, as provas nesse processo. Posto que tanto o STJ (Súmula 7), quanto o Supremo (Súmula 279), não admitem “reexame e revalorização de prova”. Se discutirá, nessas outras instâncias, apenas vícios formais. O que quer dizer que, ausentes esses vícios, a Sentença de Porto Alegre (qualquer que seja) deve ser mantida.

E O POVO JULGA? A frase do ex-presidente Lula, “Só o povo tem direito de me julgar”, não parece fazer sentido. Assim fosse e um traficante, candidato a vereador, poderia usar esse mesmo raciocínio. Quando a comunidade o eleger, como se poderia cogitar prendê-lo por vender drogas? Nas democracias, senhores, voto e crime não se misturam. Eleitos ocupam seus cargos, por decisão do Povo. E criminosos vão para a cadeia, por decisão da Justiça.

AO PADRE NOSSO QUE ESTÁ NO CÉU

Padre Edwaldo Gomes. O “Padre Nosso”, como era conhecido. Na Paróquia de Casa Forte et orbi, assim se diz nas benções do Papa. Hoje, estaria fazendo aniversário. Lembro dele em palavras de Fernando Pessoa (Bernardo Soares, no “Livro do Desassossego”): Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os viram e amaram; outros ficam na memória da nação que os teve… Mas a todos cerca o abismo do tempo, que por fim os some. É o destino. Do Padre Nosso e de todos nós.

Dois anos faz, me mandou foto na festa da Vitória Régia. Com um amigo, junto, já tocado pelos efeitos do álcool. Nisso éramos diferentes. Que nunca bebi. Respondi assim, pensando já no futuro: Para o pastor/ Meu professor/ Fotografia/ Da alegria/ De um cachaceiro/ Bom companheiro/ E eu no missal/ Tendo afinal/ Alguma chance/ De que Deus canse/ Me deixe ao léu/ Confesso réu/ Nessa festança/ Da esperança/ De entrar no céu.

Em crise anterior de saúde, já escrevi sobre isso, estava no hospital. Entrei no quarto e disse, para lhe animar: Maravilha, pastor. Você, que passou a vida inteira se dedicando ao Pai, vai se encontrar com ele muito em breve. Deve estar feliz. E padre Edwaldo, fingindo estar revoltado: Vade retro, José. Gosto muito dele mas penso que não quer me ver agora. Silêncio. Após o que completou: Nem eu estou com nenhuma pressa de chegar por lá tão cedo. E ficamos rindo. Chegou sua vez, afinal. O Pai estava já impaciente, querendo conversar com ele.

Ao velho amigo que se foi há tão pouco tempo, como abraço de parabéns, ou como homenagem, ou apenas como uma lembrança, dedico esses pobres versos que escrevi chorando. Em seu louvor. Inspirados na oração do Pai Nosso, de Mateus (6:9-13). Só prova de bem querer:

Pai nosso
Que estás no sal da terra, no coração do fogo, na doçura das águas e na incerteza dos ventos nos céus
Santificadas sejam nossas vidas e Vosso exemplo
Venha o Vosso Reino aos homens bons
Seja feita a Vossa piedade, para além da Vossa vontade,
Na terra, mais que no Céu.

A paz nossa de cada dia nos dai hoje e sempre
Perdoai as nossas ofensas, se forem injustas
Porque não perdoaremos as injustiças que nos fizerem
Se a tentação acontecer, nos mostre outros caminhos
E livrai-nos do peso da vida, por fim, quando a hora vier
Amém.

MAIS UM CONFISCO

Cristovam Buarque, no seu “A Conspiração Próspero 1984”, disse que Uma conspiração perfeita é uma conspiração em que a própria descoberta da conspiração faça parte da conspiração. Não é o caso dessa de agora, em Pernambuco. Não tão sutil. Dura. Envergonhada. Uma conspiração apenas para transferir, ao caixa do governo, recursos de terceiros. Privados. Apropriação indébita, sem dúvida. Conduta mais própria do Código Penal.

Por essa conspiração, até 75% de recursos financeiros depositados no Tribunal de Justiça, decorrentes de ações em que Estado e agregados sejam parte; e até 20% de depósitos privados (litígio de José contra João, por exemplo), vão passar às mãos do Estado. Para pagar precatórios, é o que se diz. Será mesmo, no mundo real? Só Deus sabe.

Por que particulares, em vez de pagar valores questionados pelos poderes públicos, preferem depositá-los em juízo? Por uma razão evidente. É que não confiam no Estado. E com toda razão. Se perdem a ação, esses recursos vão afinal para os cofres públicos. Só que, ganhando, os levam de volta para casa. Sem mais esperas. Nem riscos. E não se trata só desses recursos. Os que o Estado deposita para pagar desapropriação, e afins, também. Finda essas ações, as partes recebem os recursos. E se, depois dessa tunga, já não houver grana para pagar? Como ficamos?

Tanto mais grave é que, um a um, nossos Estados estão quebrando. Pernambuco também, algum dia, talvez. Se faltarem esses recursos, quem vai garantir o contribuinte? Justificativa é que os recursos estão parados. Sem uso. Só mesmo rindo. Que o dinheiro não é do Estado. Se o argumento valer, também não têm uso boa parte dos depósitos bancários à vista da população. Em pouco, vão querer apropriá-los. Se não o Governo daqui, será o de Brasília. Sob a mesma desculpa. Caso necessário, o Estado repõe. Mas e se não houver recursos para isso?

Mais grave é que o Supremo já se pronunciou sobre essa questão. Em favor dos contribuintes. E contra os Estados. Por considerar se tratar de modalidade de empréstimo compulsório. Qualificável, na prática, como confisco. É só consultar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) números 5.072, 5.353, 5.365 e 5.392. Com decisões já tomadas, nesse sentido, pelos Ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Rosa Weber e Teori Zavascki.

Em resumo, então, melhor seria resistir à tentação de promover confiscos desse tipo. Melhor fazer uma conspiração do bem. Que é cumprir a lei. Bem mais sensato. E mais democrático.

CHESF. A CHESF já foi desmontada. Emagrecida. Transferida à Eletrobrás. E perdeu qualquer chance de manter seu papel de protagonista, no desenvolvimento. Nem incentivos à Cultura se faz mais por aqui. O que é ruim para o Nordeste. Muito ruim. Péssimo. Só que isso tudo se deu não agora, mas no governo Dilma (MP 579/2012). Que destruiu todo o sistema elétrico nacional. Sob o silêncio cúmplice de (quase) todos os que hoje fazem Frentes, e discursam, e protestam ruidosamente contra sua privatização. Às vésperas das eleições de 2018. Vai ver é só coincidência. Deveriam ter protestado antes. Mas preferiram calar. O que uma eleição não faz… É engraçado.

MINHA TERRA TINHA PALMEIRAS

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá”.

São versos de (Antônio) Gonçalves Dias, na sua Canção do Exílio. Implorou aos céus, o poeta, “Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá”. Deus permitiu. Doente, ao perceber que não teria cura, voltou da Europa. Com só 41 anos. No navio Ville de Boulogne. Chegou a ver, em 3/11/1864, as costas do seu Maranhão. Só que o navio naufragou. E o poeta, já muito frágil, não conseguiu escapar de sua cabine. Morreu afogado. Mas essa é outra história.

Na última sexta-feira, a Caravana Rolidei de Lula programou grande ato a ser realizado na Praça (Nossa Senhora) do Carmo. Padroeira do Recife. Ocorre que o caminhão do som encontrou problemas para estacionar, no local determinado pelos dirigentes do PT. No meio do caminho tinha uma palmeira, como as do verso. Tinha uma palmeira no meio do caminho do caminhão de Lula.

Era uma palmeira imperial já bem grande, com mais de 20 anos, que teimava em não sair do lugar em que foi plantada. Por ser neo-liberal, talvez. Solução mais simples teria sido afastar o caminhão, por 5 ou 10 metros. Mas Lula ia falar. E toda impertinência, contra o grande mestre, deve ser punida severamente. Conclusão, cortaram e retalharam a tal palmeira. Bem feito, para ela. Quem mandou ficar no meio do caminho?

Ao saber da notícia, não acreditei. Fui conferir. Encontrei, no local, três vendedoras com uniforme do “Pernambuco dá Sorte”. Em seus carrinhos de trabalho. Estavam indignadas. Disseram haver pedido que a pobre árvore não fosse cortada. Em vão. Nos mostraram o local, agora coberto por cimento. Junto de monumento ao “Herói da resistência negra do Quilombo dos Palmares”. Em meio ao calçadão de pedras portuguesas, agora está uma bola de cimento. Como um marco à insensatez. Estátua plana para comemorar o feito heroico de abater uma palmeira viçosa. Cheguei a pensar em pedir o nome das tais vendedoras, para pôr nesse texto. Melhor não. Temi pela segurança delas. Quem mata palmeiras inocentes é capaz de tudo.

O que espanta, em ações assim, é a prepotência. É a demonstração de que se consideram acima da Lei. Como se fossem deuses. Como se o discurso em favor dos mais pobres perdoasse tudo. Só a sensação de impunidade absoluta faz com que possam ter coragem de cortar uma árvore. Bem visto, a mesma que permitiu assaltar as estatais. E cobrir o malfeito. Ou tentar. É a marca dessa gente. No caso das estatais, escondendo a corrupção com dinheiro fora do país e doações eleitorais que dizem ter sido “legítimas”. No caso da palmeira, cimento.

Há incongruências graves no discurso de PT e agregados. “Se trago as mãos distantes do meu peito/ É que há distância entre intenção e gesto”, palavras do português Ruy Guerra (em Calabar). Nos discursos, todos se dizem a favor da democracia. Enquanto apoiam a ditadura sanguinária do “companheiro Maduro”, palavras de Lula.

Nos discursos, são a favor de uma política mais limpa. Enquanto seu Presidente de Honra já foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A 9 anos e 6 meses de cadeia. Sendo réu em mais 5 processos. A Presidente do Partido também é ré, no Supremo. Ela e seu marido. Todas as figuras importantes, em volta deles, foram já condenados. Ou são réus, em processos por corrupção. Ministros, governadores, deputados. E, nos discursos, ainda têm a coragem de se dizer contra a corrupção. Só mesmo rindo.

São também, nos discursos, a favor da natureza. Enquanto matam palmeiras imperiais. Tenho ganas de vomitar. E nem é só esse caso. Também um belo e imponente pé de coração de nego foi abatido, no Marco Zero. Porque impedia o palanque do PT, vitorioso na Prefeitura do Recife. Pobre dele. E tudo sob o silêncio cumplice de todos os simpatizantes do PT e cercanias. Ecologistas, amantes do verde, funcionários de órgãos de preservação da natureza. Todos eles. Calados. Lembro Drummond (no Caso do Vestido), “boca não disse palavra”.

A parceria entre PSB e PT já começa, também, a dar seus primeiros frutos. Quem é do time deles pode fazer o que desejem. Cortar as árvores que quiser. Onde quiser. Quando quiser. Fosse um de nós que aparecesse no Carmo, com um serrote, e seria preso. Nós, presos. Os de PT e PSB, problema nenhum. E nem desculpas pediram. Não está certo.

Iguais também, nos seus destinos, Gonçalves Dias e aquela palmeira. Que o corpo do poeta jamais seria encontrado. Suspeita-se que foi pasto dos tubarões. Enquanto a pobre palmeira, depois de retalhada, vai se decompor em algum terreno baldio. O poeta diz, nos seus versos, “As aves que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá”. Sobre as árvores. Problema é que, por aqui, nossas aves terão agora uma palmeira a menos onde pousar.

Local onde foi cortada a palmeia imperial virou estacionamento

JERRY LEWIS

Houston (Estados Unidos). O elevador abre a porta e aparece Jerry Lewis. Velho, gordo, alto, calculei metro e noventa. Ombros caídos. Como se os anos, ou remorsos tardios, lhe pesassem. Ao perceber que olhava fixamente para ele, deu um sorriso. Mas nada, naquele rosto, lembrava seus antigos filmes. Agora, mais parecia uma careta. Deixei descer o elevador. Não tinha pressa. Foi se afastando devagar, num andar lento, até que se perdeu no fim do corredor. Como se fosse miragem. As imagens de antes já não eram reais. Nada, naquele homem cansado, evocava quem foi. Lembrei de Pessoa (em “O Marinheiro”), Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena… Maria Lectícia chegou e me viu parado, olhando para o corredor. Perguntou quem era. Respondi, apenas, um fantasma do passado.

Cambridge (Estados Unidos). Lembro também 1969. Proibido de estudar no Brasil, pelo Governo Militar, acabei em Harvard. Graças a uma bolsa-de-estudos. Lá, fiquei num dos muitos edifícios que a Universidade reserva para estudantes. Aquele se chamava Whintrop House. Bons tempos. Depois, muitos anos depois, voltei à Universidade. Agora para dar aulas. Por conta da UNESCO. Aproveitei e fui à dita Whintrop House. Maior diferença eram as árvores que haviam crescido, no entorno. E uma portaria nova. Estranhamente vazia. Subi ao primeiro andar e comecei a procurar o quarto em que vivi. Um guarda enorme surgiu do nada. Olhou severamente para mim, talvez por não gostar de ter subido as escadas sem sua autorização. Perguntou se estava procurando alguém. Sim, respondi. Quem? Completei, Me (eu). Num primeiro momento, foi como se não entendesse. Depois, riu e disse Espero que encontre. Nos dois casos, trata-se da mesma relação entre passado e presente.

Brasil. Jerry Lewis parecia em paz. Como alguém que não se arrependeu de nada. O comparo a tantos, no Brasil de hoje. Tão diferentes dele. Personagens que começaram suas biografias de forma gloriosa e não conseguiram completa-las decentemente. Que despertaram em todos nós sonhos, esperanças, ilusões. De um país melhor. Mais justo. Mais limpo. Que tiveram a chance concreta de mudar a realidade. E jogaram tudo isso fora. Só por interesses menores de poder. Ou vaidade. Ou grana. Envolvidos, todos, em corrupção. Numa cumplicidade envergonhada que uniu poderosos empresários, onipotentes e castos, com atores políticos encantados pelas benesses dos seus cargos. E que cederam à tentação de enriquecer.

A vida pune. Alguns estão presos. Outros serão. Outros mais, com sorte, e mesmo processados, talvez escapem. Mas todos estarão condenados a vagar, pelos corredores do destino, como Jerry Lewis. Como se fossem fantasmas. Ou portadores de alguma doença infecciosa. Quem os convidaria para ser padrinho de seus filhos? Quem daria emprego a qualquer deles? Quem teria pena, ou lhes diria palavras de conforto? Faltando só lembrar os que desejam, a todo custo, reviver o passado. Confiando na frágil memória de seus concidadãos. Não vai dar certo. Terão dificuldades até nas pequenas coisas do dia-a-dia. Como, por exemplo, frequentar restaurantes. Ou ficar nas filas dos aeroportos. Ou andar nas ruas. Pensando bem, há uma diferença grande entre eles. Que Jerry Lewis queria ser lembrado por tudo que fez. Enquanto esses, hoje, querem só que a gente se esqueça do que fizeram. The End.


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