2 Janeiro 2018 JOSIAS DE SOUZA

LULA SERÁ CONDENADO NOVAMENTE NA 1ª INSTÂNCIA

Segundo a superstição petista, Lula é um presidenciável favorito alvejado por uma conspiração de delegados, procuradores, magistrados e jornalistas para impedi-lo de retornar ao Planalto. Ele já foi condenado a nove anos e meio de cadeia pelo juiz Sergio Moro. E teme amargar a confirmação da sentença em segunda instância no dia 24 de janeiro. Mas seu drama terá novos capítulos. O Ministério Público Federal estima que Lula sofrerá novas condenações na primeira instância. Dá-se de barato que pelo menos uma delas, a ser prolatada em Brasília, ganhará as manchetes antes das convenções partidárias que confirmarão os nomes dos candidatos à Presidência.

Quer dizer: além da sentença do TRF-4, que pode tornar Lula candidato favorito a uma vaga no sistema prisional de Curitiba, empurrando-o para a inelegibilidade, o pajé do PT terá os pés de barro iluminados por um novo veredicto de primeiro grau. Um membro do diretório nacional do PT disse ao blog que nada irá alterar a decisão do partido de levar a candidatura de Lula às últimas consequências. “A estratégia não será modificada por uma, duas ou três novas sentenças”, disse o dirigente petista. “Já estamos roucos de tanto repetir que não existe Plano B.”

Tomando-se as certezas do PT ao pé da letra, o STJ concederia uma liminar para manter Lula longe do xadrez e o debate sobre uma hipotética impugnação da candidatura só seria travado no TSE em agosto. Lula cavalga seu sentimento de invulnerabilidade sem se dar conta de que, mantido o enredo, será um candidato precário, condenado a manter uma campanha incerta, que o obrigará a cruzar um terreno minado por temas radioativos: mensalão, petrolão, apartamento de praia, sítio de veraneio, contas milionárias, tráfico de influência e palestras de fancaria. Um candidato assim, com uma pauta tão envenenada, dispensa conspirações.

* * *

PARTIDOS CORROMPEM ATÉ O SIGNIFICADO DAS LETRAS

31 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

LULA EXIBE MÚSCULOS: “MAIS FORTE DO QUE NUNCA!”

A debilidade penal de Lula contrasta com seu vigor físico. Septuagenário, o pajé do PT decidiu demonstrar na vitrine da internet que exercita outros músculos além da língua. A 26 dias do julgamento que pode torná-lo ficha-suja e até presidiário, o personagem exibiu o bíceps numa mensagem de otimismo para sua plateia no Facebook. “Não desista de suas metas e planos para o ano que vem”, diz o texto.

Alheia à evidência de que a Lava Jato virou uma espécie de criptonita de Lula, a assessoria do candidato eterno do petismo continua vendendo-o como superhomem. “Lula já venceu um câncer, e hoje se exercita toda manhã com disciplina e foco”, alardeia a mensagem. “O resultado é que sua saúde está cada dia melhor. Lula está mais forte do que nunca.”

Os apologistas de Lula ofereceram aos internautas uma receita de êxito: “O principal ingrediente do sucesso é a persistência. Cair, levantar, continuar, até vencer. Todos os vencedores têm em comum um histórico de luta. Todos.”

Nas suas ”caravanas”, eufemismo para campanha eleitoral fora de época, Lula gosta de repetir que se sente como um “garotão” nos sapatos de um ancião de 72 anos. “Faço duas horas de ginástica por dia. Levanto às cinco da manhã. Estou quase ficando bombado. Faço 7 km todo dia, além da musculação”, ele se vangloria, antes de se autodefinir como “um velhinho com tesão por esse país.”

É uma pena que o ex-presidente petista não demonstre a mesma vitalidade na produção de explicações capazes de desmontar as evidências de que parte dos seus confortos foram bancados com verbas de má origem. Mas não há de ser nada. Na melhor das hipóteses, Lula voltará a ter acesso à academia de ginástica do Alvorada. Na pior das hipóteses, sempre poderá exercitar-se no pátio do presídio, durante o banho de Sol. O importante é não perder a “disciplina” e o “foco”.

* * *

NA LARGADA, SUCESSÃO É UM MUSEU DE NOVIDADES

28 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

INDULTO SE TORNA INSULTO NA PASÁRGADA DE TEMER

Quando escreveu sobre seu sonho de ir embora para Pasárgada, onde era amigo do rei, Manoel Bandeira imaginou que traduzia o desejo de toda a gente. Não poderia supor que, sob Michel Temer, todos os atrativos da terra desejada – ginástica, bicicleta, burro brabo, pau-de-sebo, banho de mar, beira de rio e até a mulher desejada na cama escolhida – seriam trocados por um único benefício: o indulto natalino do rei.

A Pasárgada de Temer é uma monarquia sui generis. Nela, reina a corrupção. Os amigos do monarca se dividem em dois grupos: os presos e os que aguardam na fila, escondidos atrás do escudo do foro privilegiado. Não desfrutam apenas da amizade do rei. Integram a sua corte. Observam o caos ao redor como se olhassem para outro país, no qual não vivem. O indulto natalino do rei transformou este Brasil alternativo numa Pasárgada turbinada, muito além da sonhada.

Antes, os indultos natalinos colocavam em liberdade os condenados a menos de 12 anos de cadeia por crimes não violentos —corrupção e lavagem de dinheiro, por exemplo— desde que tivessem cumprido um terço da pena. Em 2016, Temer reduziu o tempo de cana para um quarto (25%). Neste ano de 2017, a temporada atrás das grades caiu para um quinto (20%). Mais: foi para o beleléu a barreira que impedia o perdão de condenados a mais de 12 anos. Pior: anistiaram-se também as multas.

Nesta quarta-feira, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, protocolou no Supremo Tribunal Federal uma ação contra o decreto de indulto natalino editado por Temer. A doutora anotou na peça que a generosidade do rei levará à “impunidade de crimes graves, como aqueles no âmbito da Lava Jato e de outras operações contra a corrupção”.

Dodge acrescentou: ”O chefe do Poder Executivo não tem poder ilimitado de conceder induto. Se o tivesse, aniquilaria as condenações criminais, subordinaria o Poder Judiciário, restabeleceria o arbítrio e extinguiria os mais basilares princípios que constituem a República Constitucional Brasileira.”

O que Raquel Dodge escreveu, com outras palavas, foi que o indulto de Temer é um insulto. Mantido o decreto, a Pasárgada hipertrofiada será um lugar onde os amigos do rei integrarão uma confraria dentro da minoria. Na terra dos confrades, o poder, além de se corromper e ser corrompido, ameniza as penas.

De plantão no Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia pode restaurar a República por meio de uma liminar que suspenda o descalabro. Do contrário, a Suprema Corte também irá para Pasárgada, um país onde os amigos do rei sempre terão a impunidade desejada no decreto escolhido.

* * *

MARUN É A CARA DO GOVERNO TEMER SEM MÁSCARA

22 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

NO ANO NOVO, ELEITOR FARÁ O PAPEL DE JUIZ

* * *

PRISÃO DE MALUF DEMOROU 20 ANOS

19 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

ALICE NO PAÍS DOS ESPELHOS

A história do apartamento de São Bernardo, vizinho à cobertura da família Silva, ocupado por Lula desde 2011, é feita de uma sequência de fatos extraordinários vividos por personagens ordinários. Na versão da Lava Jato, o apartamento foi presenteado a Lula pela Odebrecht. O amigo José Carlos Bumlai arranjou um laranja, Glauco Costamarques, para encenar o papel de proprietário. E a ex-primeira dama Marisa Letícia entrou em cena como hipotética locatária do imóvel.

Costamarques, o proprietário de fancaria, diz que, por cinco anos, não recebeu um níquel de aluguel. Os investigadores atestaram que não há vestígio dos pagamentos. A defesa de Lula alegou que, entre 2011 e 2015, Marisa, que já está morta, pagou o aluguel em dinheiro vivo. Nessa versão, em plena era das transações bancárias eletrônicas, madame teria movimentado R$ 189 mil em grana viva. Ai, ai, ai…

Só no final de 2015, com a Lava Jato a pino, o aluguel começou a ser pago, contou Costamarques em depoimento. No leito hospitalar, o ”laranja” assinou os recibos de um ano num dia. A defesa de Lula diz que os recibos existem e que as assinaturas são reais. A força tarefa de Curitiba dispensou, por desnecessária, a perícia. O problema não é a autenticidade do papelório. A questão é que eles contam uma história que faria mais nexo se fosse contada por Alice no país dos espelhos.

18 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

DILMA COGITA DISPUTAR VAGA NO SENADO PELO PIAUÍ

Sem alarde, Dilma Rousseff discute com amigos um novo projeto: a reinvenção de sua carreira política. Numa conversa recente, admitiu candidatar-se ao Senado em 2018. Só não soube dizer por qual Estado. Mora no Rio Grande do Sul e nasceu em Minas Gerais. Mas discutiu a sério a hipótese de disputar a vaga de senadora pelo Piauí, Estado governado pelo petista Wellington Dias.

Não foi a primeira vez que o Piauí entrou no radar de Dilma. A cogitação nascera há coisa de cinco meses. Causara certo desassossego no petismo piauiense, forçando o governador a negar que estivesse negociando com Dilma a transferência do domicílio eleitoral dela de Porto Alegre para Teresina. A novidade é que a ex-presidente voltou a falar sobre o assunto.

No Rio Grande do Sul, Dilma foi ignorada pelo seu partido. Ali, o PT já escolheu o senador Paulo Paim como candidato à reeleição para o Senado. Confirmando-se a intenção da presidente deposta de retornar às urnas, será uma pena se ela for pedir votos à clientela do Bolsa Família no Piauí. O país perderá a chance de assistir a um novo embate de madame com Aécio Neves, pois o senador tucano revela-se disposto a pleitear junto ao eleitorado mineiro a renovação do mandato.

Em 2012, quando Dilma participou da mal sucedida campanha do petista Patrus Ananias à prefeitura de Belo Horizonte, Aécio fustigou-a. Disse que os eleitores mineiros conheciam melhor a sua capital do que “qualquer estrangeiro.” Tratada como forasteira, Dilma reagiu. Caprichando na ironia, sapecou:

”Nasci aqui em Belo Horizonte, no hospital São Lucas. Saí daqui para lutar contra a ditadura, e não para ir à praia. (…) Aqui na minha veia corre o sangue de Minas Gerais, por isso sou presidente de todos os brasileiros.” A alusão à “praia” não foi gratuita. O mineiro Aécio é conhecido pelo apreço que devota ao Rio de Janeiro.

Num novo enfrentamento, Dilma e Aécio poderiam trocar de assunto: em vez do debate sobre certidões de nascimento, discutiriam o prontuário um do outro. Ela tornou-se um inquérito esperando na fila da Lava Jato para acontecer. Ele virou um colecionador de processos criminais. Por ora, soma nove.

Uma eventual fuga para o Piauí não faria jus à fama de valentona de Dilma. Mal comparando, a intrépida presidente deposta ficaria muito parecida com José Sarney. Oligarca do Maranhão, Sarney elegeu-se senador pelo Amapá depois que deixou a Presidência da República.

* * *

CANDIDATO CONDENADO NÃO EXISTIRIA SEM LEITOR

16 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

CANDIDATO CONDENADO NÃO EXISTIRIA SEM O ELEITOR

15 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

NUM GOVERNO LÓGICO, LUISLINDA RECEBERIA ALFORRIA

Luislinda Valois tornou-se ministra de Direitos Humanos de Michel Temer por ser negra, mulher e tucana. Já havia anulado os efeitos de sua feminina negritude ao requerer o direito de acumular uma aposentadoria de desembargadora com o contracheque de ministra. Imaginou-se que permanecia no cargo graças à sua filiação ao PSDB. Mas foi renegada pelo tucanato. Nesta quinta, desfiliou-se da legenda. E anunciou a pretensão de permanecer na Esplanada dos Ministérios.

O apego ao cargo causa espanto. Sobretudo quando se recorda que, sob a alegação de que sua situação, “sem sombra de dúvida, se assemelha ao trabalho escravo”, madame Valois tentou embolsar, noves fora “atrasados” de cerca de R$ 300 mil, uma remuneração mensal de R$ 61,4 mil. Açoitada nas manchetes, a doutora recuou. Deu-se por satisfeita com a maior remuneração permitida por lei na administração pública: o teto de R$ 33,7 mil.

Antes de dar meia volta, a ministra soara assim numa entrevista: “Como é que eu vou comer, como é que eu vou beber, como é que se vai calçar? Eu, como aposentada, podia vestir qualquer roupa, podia calçar uma sandália havaiana e sair pela rua. Mas como ministra de Estado eu não me permito andar dessa forma. Eu tenho uma representatividade.”

Num governo lógico, Luislinda teria sido enviada ao olho da rua no instante em que evocou a escravidão para beliscar um privilégio. Tendo sobrevivido ao inacreditável, teria sido demitida diante da retórica em que se misturaram num caldeirão de desfaçatez a dieta, o guarda-roupa e as havaianas. Tendo resistido ao impensável seria exonerada pela contradição de afeiçoar-se ao cargo que a escravizava.

Um governo lógico já teria dado a Luislinda uma carta de alforria. A ex-tucana continua ministra porque não pode ser lógico o governo presidido por um denunciado criminal, por onde já passaram Geddel Vieira Lima e Romero Jucá e que ainda abriga Eliseu Padilha e Moreira Franco. Num governo assim, Luislinda escravizará o contribuinte pelo tempo que desejar.

15 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

GOVERNO TEMER ENTRA NA FASE DA CARNAVALIZAÇAO

Michel Temer e seus aliados devem à plateia uma explicação. Precisam informar por que insistem em prometer o que não vão entregar. O governo não dispunha de votos para aprovar a reforma da Previdência há seis meses. Continua sem votos para prevalecer no plenário da Câmara antes do Natal, como pretendia. Mas jura que os votos cairão do céu até o Carnaval de 2018. Chegou-se ao impensável: conseguiram carnavalizar a mãe de todas as reformas. Por quê?, eis a pergunta que o presidente deveria responder a si mesmo.

A reforma enviada por Temer ao Congresso era ambiciosa. Coisa incompatível com sua impopularidade. Aconselhado a restringir a proposta ao tema quase consensual da idade mínima para a aposentadoria, o presidente deu de ombros. Alegou que sua base congressual era sólida. Enrolado na bandeira da austeridade, armou um campo de batalha, aprovou uma emenda constitucional instituindo um teto de gastos e seguiu em frente. Súbito, explodiu o grampo do Jaburu. E o governo perdeu o nexo.

Temer desperdiçou cinco meses do seu governo-tampão para obter o congelamento das denúncias criminais que a Procuradoria atravessou no seu caminho. Nesse intervalo, trocou a austeridade pela promiscuidade, pois teve de comprar a solidariedade dos deputados. Mandou para o beleléu uma obviedade: o que contém os gastos é o ato de não gastar. Espetou no déficit público o custo do fisiologismo que levou as investigações ao freezer.

Além da reforma da Previdência, naufragaram os planos do governo de aprovar neste ano um pacote de medidas fiscais que garantiriam a meta de 2018, que prevê uma cratera nas contas pública de R$ 159 bilhões. E o mesmo governo que dizia que a omissão do Congresso levaria ao Apocalipse agora considera plausível elevar sua previsão de crescimento econômico para o ano que vem. Em vez de 2%, o PIB crescerá 3%, informou o ministro Henrique Meirelles (Fazenda). Prestaria melhor serviço à coletividade se explicasse como fará para fechar as contas e impedir que o teto de gastos suba no telhado.

O economista Mário Henrique Simonsen, muito admirado por Meirelles, gostava de dizer que os brasileiros costumam ser otimistas entre o Natal e o Carnaval. Mas o governo, sob Michel Temer, exagera. Prepara-se para entrar na avenida de 2018 sem samba-enredo. Na comissão de frente, há um denunciado se fingindo de presidente e um presidenciável fantasiado de ministro da Fazenda. Atrás deles, desfila uma ala hipertrofiada da Lava Jato. Skindô-skindô.

15 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

“CHAMOU DE LADRÃO, TEM QUE RESPONDER…”

Reunido com a bancada de deputados e senadores do PT, Lula deu um aviso e alguns conselhos à tropa. “Vou brigar até as últimas consequências”, avisou, a propósito do julgamento que pode torná-lo inelegível em janeiro. “Sei que o objetivo é tentar evitar que o PT volte ao governo”, declarou, antes de aconselhar:

“Nesse momento, acho que só temos uma saída: enfrentar a situação de cabeça erguida, com muita coragem. Nós temos que utilizar a tribuna todo dia. O cara chamou a gente de ladrão, tem que responder na hora. Não tem que deixar para depois. Não adianta o cara xingar a gente e depois chamar de Vossa Excelência. Vossa Excelência é a puta que o pariu! Com bandido não tem meia conversa.”

Lula insinuou que a reação é uma questão de sobrevivência. “Quem achar que vai sobreviver ficando quieto e dizendo ‘eu não tô aí, eu não tenho nada a ver com isso’, quem pensar assim pode ficar certo que não vai sobreviver. Só tem um jeito de sobreviver. É vocês levantarem a cabeça.”

Abstendo-se de recordar que o PMDB entrou no Planalto porque ele enfiou Michel Temer dentro da chapa da pupila Dilma Rousseff, Lula emendou: “Com todos os defeitos individuais que a gente pode ter, nós somos infinitamente melhores do que essa turma que está governado o país hoje. É só olhar para a cara deles e olhar para a cara dos nossos.”

* * *

LULA QUER VOLTA À NORMALIDADE! E O QUE É NORMAL?

14 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

E O QUE É NORMAL?

13 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PRINCIPAIS PARTIDOS SÃO PRESIDIDOS POR INVESTIGADOS, DENUNCIADOS E UM PRESO

É como se no sétimo dia, quando Deus descansou, tivessem surgido sobre a terra os partidos políticos brasileiros. Em consequência, uma característica fundamental da dificuldade do eleitor é ter que ouvir os presidentes dos partidos durante vários anos para chegar à conclusão de que eles não têm nada a ensinar sobre ética, exceto que se trata de uma virtude facilmente contornável.

No momento, os principais partidos do país são comandados por investigados, denunciados e até um preso. Em maior ou menos extensão, enfrentam enroscos criminais, entre outros, os presidentes do PMDB, PSDB, PT, DEM, PP, PR, PRB, PSD e SD. Todos negam participação em desvios.

Nesta terça-feira, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal converteu em réu o senador Agripino Maia (RN), presidente DEM. Ele responderá pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. É acusado de receber propina da OAS. Coisa de R$ 654,2 mil entre 2012 e 2014. Declara-se inocente.

Presidente do PMDB, o senador Romero Jucá (RR) responde a 14 inquéritos no Supremo. Já foi denunciado num deles, que apura fraudes no Carf, o órgão que julga recursos contra autuações da Receita Federal. Costuma dizer que ser processado não é um problema. O que não se admite é a condenação.

O PSDB mudou de patamar. Deixou o comando da legenda o senador Aécio Neves (MG), que coleciona nove inquéritos criminais na Suprema Corte. Entrou no lugar dele o governador de São Paulo e presidenciável Geraldo Alckmin, que aguarda na fila pelo julgamento de um pedido de abertura de inquérito na Lava Jato em tramitação no Superior Tribunal de Justiça.

Delatores da Odebrecht disseram em depoimentos que Alckmin utilizou um cunhado, Adhemar César Ribeiro, para apanhar R$ 10,7 milhões em verbas oriundas das arcas do departamento de propinas da Odebrechet.

A senadora Gleisi Hoffman (RS), presidente que Lula consentiu para o PT, guerreia no Supremo contra uma ação penal na qual a Procuradoria a acusa de receber R$ 1 milhão em verbas desviadas da Petrobras para sua campanha ao Senado, em 2010.

Em petição submetida ao julgamento da Prmeira Turma do Supremo, a Procuradoria pede, além da condenação criminal de Gleisi e seus cúmplices, o pagamento de uma indenização de $ 4 milhões ao Estado, a título de indenização por danos morais e materiais.

O senador Ciro Nogueira (PI) preside o partido com o maior número de encrencados na Java Jato, o PP. Ele próprio responde a dois processos. Num, foi acusado por delatores da Odebrecht de receber R$ 1,3 milhão por baixo da mesa, para financiar suas campanhas em 2010 e 2014. Noutro, já convertido pela Procuradoria em denúncia, o senador responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no montante de R$ 1,5 milhão. Verba que a empreiteira UTC diz ser produto de roubo.

Ex-ministro dos Transportes de Dilma Rousseff, Antônio Carlos Rodrigues preside o PR desde a cadeia. Ele foi detido preventivamente. Acusam-no de corrupção passiva, extorsão, participação em organização criminosa e falsidade ideológica no mesmo processo que levou para trás das grades os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha, sua mulher.

Ministro da Indústria e Comércio de Michel Temer, o pastor licenciado Marcos Pereira, da Igreja Universal, preside o PRB. Responde a dois inquéritos. No mais antigo, emergiu da delação da Odebrecht como beneficiário de R$ 7 milhões no caixa dois. No mais recente, foi acusado por Joesley Batista, o delator da JBS, de morder propinas de R$ 6 milhões.

Outro ministro de Temer, Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia), presidente licenciado do PSD, também responde a um par de inquéritos. No primeiro, é acusado de financiar sua campanha ao Senado, em 2014, com verbas de má origem. No segundo, é apresentado como beneficiário de propinas extraídas de obras viárias feitas em São Paulo no tempo em que foi prefeito da cidade.

O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, preside o SD, sigla de Solidariedade. Entre outros processos, ele é protagonista de uma denúncia na qual a Procuradoria o acusa de ter se beneficiado de esquema que desviou verbas do BNDES. Responde por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.

Deus, como se sabe, existe. Mas quem repara no cenário de terra arrasada que domina o sistema político brasileiro fica tentado a acreditar que Ele não merece existir. Fica evidente que o Todo-Poderoso criou a política sem a menor atenção e, ao retornar do descanso, percebendo o tamanho da encrenca, terceirizou a administração dos partidos políticos ao diabo.

* * *

TEMER ACOMODA EX-MULHER DE GILMAR EM ITAIPU

De acordo com o IBGE, há no Brasil 208 milhões de habitantes. Entre todos, Michel Temer selecionou a advogada Samantha Ribeiro Meyer para ocupar, até maio de 2020, uma poltrona no Conselho de Administração da estatal binacional Itaipu. Coisa fina, com remuneração superior a R$ 20 mil. Samantha é ex-mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, amigo e conselheiro de Temer.

O assento de Itaipu é cobiçado em todos os governos. Nas administrações petistas, um personagem controverso tinha assento cativo no conselho da estatal: João Vaccari Neto. Ex-gestor das arcas do PT, Vaccari hoje é um presidiário em Curitiba.

13 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

AO JULGAR LULA, TRF-4 DEPURA O PROCESSO ELEITORAL

O grande problema do Brasil é a distância entre o crime e a Justiça. O crime é perto. E a Justiça mora muito longe. Ao encurtar a distância entre a condenação de Lula à pena de nove anos e meio de cadeia e o julgamento do recurso do ex-presidente contra a sentença de Sergio Moro, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região presta à sociedade brasileira o inestimável serviço de depurar o processo eleitoral de 2018.

Lula frequenta as pesquisas como líder. De acordo com o Datafolha, ele oscila entre 34% e 37%, dependendo do cenário. Está bem à frente do segundo colocado, Jair Bolsonaro, que trafega na faixa entre 17% e 19%. A despeito da aparente consolidação de uma disputa entre extremos opostos, a situação penal de Lula transforma o eleitor em coadjuvante. Ao proferir o veredicto, em 24 de janeiro, o TRF-4 abdicará do papel de protagonista, devolvendo o eleitor ao centro do palco.

Se condenarem Lula, os desembargadores farão do favorito do PT um corrupto inelegível, sujeito a tornar-se hóspede do sistema carcerário. Se o líder petista for absolvido, o pedaço do eleitorado que gosta dele poderá pressionar o número 13 na urna eletrônica sem ser assaltado (ops!) pela incômoda sensação de votar num ficha-suja.

De antemão, o PT avisa que recorrerá a instâncias superiores em caso de condenação. No Supremo Tribunal Federal, alegará cerceamento de defesa e perseguição política. No Tribunal Superior Eleitoral, guerreará pela manutenção da candidatura em pé. Ao marcar para janeiro o seu julgamento, o TRF-4 oferece aos outros tribunais tempo de sobra para que se juntem ao esforço para higienizar o processo eleitoral.

A defesa de Lula reclama da eficiência do tribunal federal. É como se os advogados não confiassem na inocência do cliente. Prefeririam uma Justiça que, além de cega, tivesse a balança desregulada e a espada sem fio. Em verdade, o TRF-4 faz com Lula o que o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça deveriam fazer com as duas centenas de políticos que aguardam na fila por um veredicto.

São tantos os investigados, denunciados e réus que não restará ao eleitor senão praguejar ao pé da urna: “Livrai-me da Justiça, que dos corruptos me livro eu.”

9 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PARA LULA, JUSTIÇA BOA É JUSTIÇA LENTA, LENTÍSSIMA

* * *
GILMAR CRITICA PRISÃO QUANDO LULA ROÇA AS GRADES

9 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

ELEITO COMO PALHAÇO, TIRIRICA VIROU SER AMESTRADO

O deputado Tiririca estava errado. Ficou provado: pior, fica. Na campanha de 2010, Tiririca pediu votos assim: “O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim, que eu te conto.” Desgostoso com a política, ele subiu à tribuna da Câmara para anunciar a intenção de abandonar o circo parlamentar. Fez cara de nojo. Mas tranquilizou os colegas: ”Jamais vou falar mal de vocês em qualquer canto que eu chegar. E não vou falar tudo o que eu vi, tudo o que eu vivi aqui. Mas eu seria hipócrita se eu saísse daqui e não falasse realmente que tô decepcionado com a política brasileira, com muitos de vocês. Muitos!”

Tiririca passou dois mandatos testemunhando números do elenco do Legislativo. Conviveu em silenciosa harmonia com engolidores de verbas, ilusionistas orçamentários, trapezistas morais e malabaristas ideológicos. Em meio a tanta diversidade, reciclou-se. Era apenas um palhaço. Tornou-se um ser amestrado. Seu domador foi o ex-presidiário Valdemar Costa Neto, que integrou a bancada da Papuda no escândalo do mensalão. Trata-se de um político do tipo que, quando o circo pega fogo, corre para a bilheteria.

Idealizador da candidatura de Tiririca, Valdemar não enxergava um palhaço na cara de sua cria. Ele via cifrões. Com a montanha de votos que recebeu, Tiririca arrastou para a Câmara mais três deputados. Vitaminando a bancada, fez crescer a fatia do PR no rateio da verba do Fundo Partidário. E quem cuida da caixa registradora é Valdemar. Num ambiente assim, tão mercantil, o palhaço amestrado tem milhões de razões para descumprir a promessa de contar aos seus eleitores o que fazem os deputados. Seu depoimento poderia soar como uma autodelação. Sem prêmio.

”Estou saindo triste pra caramba, muito chateado com a política e o nosso Parlamento”, discursou Tiririca. ”É uma vergonha muito grande.” O orador disse que anda de “cabeça erguida”. Munido de autocritérios, acha que cumpriu com as suas obrigações. Jactou-se de ser um dos deputados mais assíduos da Câmara. Lamentou que um deputado tenha que trabalhar muito, para produzir pouco.

Vivo, Sérgio Porto acomodaria nos lábios de Stanislaw Ponte Preta, o colunista genial criado por ele, um comentário sobre a assiduidade e a produtividade de Tiririca. Algo assim: “A função de certos parlamentares é a de acordar mais cedo para passar mais tempo sem fazer nada.” Quem acreditou piamente não pode piar. Recomenda-se um nariz vermelho, um colarinho folgado, sapatos grandes e lágrimas de esguicho.

6 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

DIANTE DE TEMER, MORO EXECUTA SHOW DE HUMOR

Agraciado pela revista IstoÉ com o prêmio Brasileiro do Ano, Sergio Moro dividiu o palco com Michel Temer e outros personagens em litígio com a lei. O juiz da Lava Jato tinha duas alternativas: ou encarava o inusitado com um sentido de absurdo ou enxergava tudo sob a ótica do deboche. Preferiu encarar a situação como uma piada. Ao discursar, o juiz da Lava Jato revelou-se um humorista insuspeitado.

Moro falou sobre providências que precisam ser adotadas ou evitadas para combater a “corrupção sistêmica” que assola o país. Reiterou, por exemplo, a defesa da regra que abriu as portas das celas para os condenados na segunda instância. Injetou uma certa ponderabilidade cômica na cena ao pedir ajuda a Temer.

Com duas denúncias criminais no freezer, Temer terá de acertar contas com a Justiça depois que deixar a Presidência. Num instante em que seus aliados tramam aprovar um mecanismo qualquer que mantenha ex-presidentes fora do alcance de ordens de prisão de juízes como Moro, o comediante sugeriu a Temer que se enrole na bandeira da prisão em segundo grau:

”Mais do que uma questão de justiça, é questão de política de Estado”, disse Moro. Ele pediu a Temer que “utilize o seu poder” para influenciar o Supremo Tribunal Federal, de modo a desestimular a mudança da regra. “O governo federal tem um grande poder e grande influência. E pode utilizar isso. Se houver mudança, será um grave retrocesso.”

Um detalhe potencializou o teor humorístico do pedido que Moro dirigiu a Temer: o ministro Gilmar Mendes, amigo e conselheiro do presidente, é o maior defensor da política de celas vazias no Supremo.

Gilmar compôs a maioria de 6 a 5 que autorizou a prisão de condenados em tribunais de segundo grau. Mas já deixou claro que pretende mudar o seu voto quando a questão retornar ao plenário da Suprema Corte. Foi como se Moro sugerisse a Temer dizer algo assim para Gilmar: “Tem que manter isso, viu?”

Como em todo bom espetáculo de stand-up comedy, Moro falou como se extraísse da plateia motes para suas anedotas. Defendeu o fim do foro privilegiado diante de Moreira Franco, o amigo a quem Temer fez questão de presentear com o escudo. Concedeu-lhe o título de ministro e o consequente direito de ser julgado no Supremo depois que o companheiro virou o “Gato Angorá” das planilhas do Departamento de Propinas da Odebrecht.

O foro concede ”privilégios às pessoas mais poderosas”, declarou Moro, arrancando efusivos aplausos da audiência. ”Seria relevante eliminar completamente o foro ou trazer uma restrição ao foro.” Como juiz, Moro também dispõe de foro especial. ”Não quero esse privilégio para mim”, refugou, sob aclamação.

Temer e Moreira abstiveram-se de aplaudir Moro. Outros acompanhantes do presidente também sonegaram ao juiz a concessão de uma salva de palmas. Entre eles o presidente do Senado, Eunício Oliveira, o “Índio” da planilhas da Odebrecht.

Como que decidido a borrifar graça na atmosfera, Moro sugeriu ao ministro da Fazenda, também presente à premiação, que seja mais generoso com a Polícia Federal: “Pedindo vênia ao ministro Henrique Meirelles, que faz um magnifico trabalho na economia, me parece que alguns investimentos são necessários para o refortalecimento da Polícia Federal. O investimento na atuação do Estado contra a corrupção traz seus frutos.”

Temer discursou depois de Moro. Mas não disse palavra sobre Lava Jato ou o combate à corrupção. Preferiu bater bumbo pela reforma da Previdência.

Destoando do resto dos presentes, o presidente e seus acompanhantes não ficaram em pé quando Moro subiu ao palco para receber o seu prêmio. Durante o discurso do juiz, exibiam cenhos crispados. Tratados como reformadores morais, as piadas não acharam graça de si mesmas. Por sorte, o humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende coisa nenhuma.

* * *

QUANDO POLÍTICA VIRA ESCÁRNIO, SÓ A URNA RESOLVE

5 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

O LÍDER PODE VIRAR FICHA SUJA

5 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PT FAZ A CAMPANHA DE LULA ESCONDENDO DILMA

A forma como a presidente do PT celebra o resultado do Datafolha levanta a suspeita de que a companheira esteja com a febre dos políticos picados pelo mosquito que faz sumir a memória. A senadora Gleisi Hoffmann atribuiu a liderança de Lula na pesquisa “aos resultados do seu governo.” Ela emendou: “As pessoas analisam o que elas já viveram e comparam. Elas tinham renda e emprego. Hoje, voltou a pobreza e a miséria.” A amnésia apagou da análise de Gleisi a companheira Dilma Rousseff.

A gestão de Michel Temer revela-se perversa. Mas a ruína econômica não deriva da malignidade intrínseca do governo do PMDB. A recessão que espalhou desemprego e desesperança é uma consequência direta do desastre gerencial que foi o governo de Dilma, ao qual Gleisi serviu como uma cultuada chefe da Casa Civil. A febre do esquecimento afetou também a memória da senadora sobre os “resultados” da passagem de Lula pelo poder.

Na formulação da presidente do PT, o governo Lula é um borrão cor-de-rosa. Foram para o armário do esquecimento todas as mazelas que tingiram a estrela vermelha de cinza. As máculas trazem impressas as digitais de Lula. Por exemplo: a criação do mito da gerentona; a cumplicidade cega com o mensalão e as petrorroubalheiras que vieram à luz na sua gestão; a transformação do presidencialismo de coalização num eufemismo para organização criminosa.

O PT e Lula só lembram de Dilma quando querem fazer pose de vítimas de um ”golpe”. O diabo é que madame foi deposta por seus aliados, sob regras constitucionais, numa sessão presidida pelo amigo Ricardo Lewandowski, que representava a Suprema Corte. No limite, Lula é responsável também pela perversão do governo Temer, pois foi nos seus mandatos que o PMDB tornou-se sócio do PT na fábrica de fazer propinas.

Hoje, os acionistas da massa falida que tem PT e PMDB como sócios majoritários dividem-se em dois grupos. Os que dispõem de mandato desfrutam das imunidades do cargo e do privilégio do foro do Supremo Tribunal Federal. Essa ala inclui Temer e os ministros palacianos Eliseu Padilha e Moreira Franco. Mas também inclui gente como a ré Gleisi Hoffmann.

Os que não têm mandato se encontram na cadeia ou na fila de espera. Integram esse contingente barões do PMDB como Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves. Mas também estão em cana marqueses petistas do porte de Antonio Palocci e João Vaccari Neto. José Dirceu, arrasta uma tornozeleira em Brasília à espera da ordem de retorno para o xadrez. E Lula, já condenado a 9 anos e meio de cana, costeia as grades à espera da confirmação da sentença no TRF-4.

Gleisi celebra o favoritismo de Lula sem levar em conta dois detalhes:

1) para quem desceu a rampa do Planalto cavalgando uma popularidade de 84%, os 37% de intenção de votos detectados pelo Datafolha revelam que a divindade do PT também está sujeita à condição humana;

2) Para que as urnas confirmem o favoritismo de Lula, o Poder Judiciário terá de contrair a mesma febre que transforma parte da memória de Gleisi em vapor.

Na hipótese de a candidatura de Lula ficar em pé, Gleisi e o petismo talvez descubram que esconder pedaços do passado pode custar caro. Os presidenciáveis do PSDB especializaram-se em esconder Fernando Henrique Cardoso. Ocultaram até o que deveriam exibir. Isso transformou os tucanos em candidatos favoritos a fazer de seus adversários os novos presidentes da República. Esconder a gestão de Dilma, com todas as digitais de Lula, é algo tão difícil como acomodar uma baleia numa banheira jacuzi.

1 dezembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PROPAGANDA SOBRE PREVIDÊNCIA É UM DESPERDÍCIO

O governo criou um outro nome para desperdício de dinheiro público ao batizar de campanha publicitária os vídeos que trombeteiam a reforma da Previdência em rede nacional de televisão. Nesta quinta-feira, a juíza Rosimayre Gonçalves de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, suspendeu a exibição. Por mal dos pecados, tomou a decisão certa pela razão errada.

A juíza vetou a campanha a pedido de guildas sindicais que representam servidores públicos. Entre eles auditores fiscais da Receita Federal. Alegam que a publicidade é ofensiva. Bobagem. As peças atacam não os servidores, mas os privilégios concedidos a eles e sonegados aos trabalhadores da iniciativa privada. Por exemplo: integralidade, eufemismo para pensão igual ao último salário; e paridade, sinônimo de reajustes iguais aos concedidos aos servidores ativos.

Não é o conteúdo que faz da campanha uma variante da velha prática de jogar dinheiro público pela janela. O desperdício decorre da inutilidade da iniciativa. Na prática, o governo torra milhões para informar ao povo, composto de ignorantes criaturas, sobre as vantagens de uma reforma que o Planalto sabe que não sairá do papel.

Temer se jacta de presidir um governo semiparlamentarista. Mas não dispõe de 308 votos para prevalecer no plenário da Câmara. É certo que o Planalto comunica-se porcamente. Mas o que impede a decolagem da reforma previdenciária é a falta de votos no Congresso, não o déficit de comunicação. Para livar-se de denúncias criminais, Temer comprou a lealdade de congressistas com emendas e cargos. Para salvar o país da ruína previdenciária, faltam-se argumento$. Nessa hora, o presidente mais impopular da história se lembra de que a sociedade existe.

* * *

PREVIDÊNCIA DÁ A TEMER A APARÊNCIA DE ESTORVO

25 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PGR PEDE QUE GLEISI DEVOLVA R$ 4 MI NO PETROLÃO

Encontra-se em fase decisiva a ação penal em que a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), é acusada de receber R$ 1 milhão em verbas sujas desviadas da Petrobras. Nesta sexta-feira, a procuradora-geral da República Raquel Dodge protocolou no Supremo Tribunal Federal suas alegações finais (íntegra aqui). No documento, pede a condenação por corrupção e lavagem de dinheiro de Gleisi, do ex-ministro Paulo Bernardo, marido da senadora, e do empresário Ernesto Rodrigues. Pede também que os réus sejam sentenciados a pagar indenização pelos danos materiais e morais que causaram ao Estado. Coisa de R$ 4 milhões, o equivalente a quatro vezes o montante desviado.

A denúncia que envolve Gleise foi protocolada no Supremo quando Rodrigo Janot ainda era o procurador-geral da República. Virou ação penal em fevereiro. Na sua manifestação, endereçada ao relator da Lava Jato no Supremo, Edson Fachin, a sucessora de Janot reitera que a propina de R$ 1 milhão foi borrifada na caixa registradora da campanha de Gleisi ao Senado, em 2010. A verba foi obtida em trambiques realizados na Petrobras. Coisa urdida e confessada por Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal. Gleisi e os outros envolvidos negam.

Em delação premiada, Paulo Roberto Costa disse que o dinheiro foi provido por empresas que superfaturaram contratos na Petrobras. Transitou em espécie, longe do sistema bancário. Foi às mãos do doleiro Alberto Yousseff, que o repassou parceladamente ao empresário Ernesto Rodrigues, a quem cabia transportar a verba de São Paulo para Curitiba, cidade de Gleisi.

Segundo Dodge, os réus tinham plena ciência da má origem do dinheiro. “Paulo Roberto Costa afirmou que Paulo Bernardo era um dos poucos ministros que sabiam que Alberto Youssef era seu operador, ou seja, que o dinheiro vinha de ilícitos da Petrobras”, anotou a procuradora-geral. Segundo ela, as investigações comprovaram o recebimento do dinheiro, que não foi registrado na prestação de contas da campanha de Gleisi à Justiça Eleitoral.

Raquel Dodge sustenta no texto enviado a Fachin que as penas a serem impostas a Gleisi e Paulo Bernardo devem ser “agravadas”. Por quê? “Mais do que corrupção de um mero agente público, houve corrupção em série, de titulares de cargos dos mais relevantes da República, cuja responsabilidade faz agravar sua culpa na mesma proporção”, escreveu a procuradora-geral.

Além da condenação pesada e da indenização salgada, Dodge pede ao Supremo que puna os réus com perda dos cargos públicos que eventualmente estejam ocupando quando vier a sentença.

* * *


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa