18 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

CASAS LEGISLATIVAS VIRARAM TRIBUNAIS DE EXCEÇÃO

Ao livrar da cadeia três parlamanteres soterrados por evidências de corrupção, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro consolida um fenômeno ruinoso. Está entendido que o Congresso Nacional e os legislativos estaduais tornaram-se tribunais de exceção.

Elaborada nas pegadas da queda da ditadura militar, a Constituição de 88 cercou os parlamentares de imunidades que protegiam o exercício do mandato. Os autores do texto constitucional não poderiam supor que o antídoto da imunidade viraria no futuro o veneno da impunidade. O Supremo Tribunal Federal poderia colocar ordem na gafieira. Mas preferiu atravessar o samba ao omitir-se no caso de Aécio Neves. Uma maioria de cúmplices e de compadres devolveu ao senador tucano o mandato e a liberdade noturna que a 1ª Turma da Suprema Corte havia cerceado.

Estabeleceu-se a partir de Brasília uma atmosfera de vale-tudo que anula o movimento benfazejo inaugurado pela Lava Jato. Tinha-se a impressão de que o Brasil ingressara numa nova fase – uma etapa em que todos estariam submetidos às leis. Devagarinho, o país foi retomando a rotina de desfaçatez. Brasileiros com mandato continuam se comportando como se não devessem nada a ninguém, muito menos explicações.

Congelaram-se as investigações contra Michel Temer. Enfiaram-se no freezer também as denúncias contra os ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha. Enquanto Curitiba e Rio de Janeiro produzem condenações em escala industrial, a Suprema Corte não sentenciou um mísero réu da Lava Jato. Em vez disso, preferiu servir refresco a Aécio Neves, instalando nas Assembleias Legislativas um clima de liberou-geral que resulta em absurdos como o que se verifica no Rio.

Transformados em tribunais de exceção, os legislativos conspurcam a democracia. Neles, políticos desonestos livram-se de imputações criminais não pelo peso dos seus argumentos, mas pela força do corporativismo. Simultaneamente, a sociedade é condenada ao convívio perpétuo com a desonestidade impune. Fica-se com a impressão de que a turma do estancamento da sangria está muito perto de prevalecer.

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POLÍTICOS FUNDARAM O MFP, MOVIMENTO FORA POVO

18 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

“NÃO DESISTA DO BRASIL”, ROGA “LÍDER” DA LAVA JATO

“Não desista do Brasil”, escreveu o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa de Curitiba, em reação à decisão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que tirou da cadeia três caciques da facção parlamentar do PMDB fluminense. Diante do mutismo do asfalto, o procurador acrescentou: “Nós não podemos nos anestesiar, mas sim dar vazão à nossa indignação, de modo pacífico e democrático, por meio da participação popular.”

Debruçado na janela do Facebook, Dellagnol afirmou: “Os deputados da Assembleia do Rio deveriam ser os primeiros a endossar a atuação da Justiça e apurar a responsabilidade de seus líderes, mas o comportamento foi o oposto.” Mergulhado nos processos da Lava Jato desde 2014, o procurador conhece a podridão por dentro. Num instante em que os parlamentares, com a lama pelo nariz, apelam à cumplicidade e ao compadrio dos colegas para obter blindagem, Dallagnol soa como se enxergasse as urnas como um atalho ao Judiciário.

“Se Você não se envolver, eles ocuparão o seu espaço. Se hoje os políticos mostraram do que são capazes, em 2018 a sociedade brasileira precisa mostrar do que é capaz, nas urnas, agindo de modo organizado para eleger apenas políticos com ficha limpa, que expressem compromisso com a democracia e que apoiem propostas anticorrupção, com palavras, votos e atitudes.”

Dallagnol prosseguiu: “Há entidades respeitadas da sociedade civil trabalhando nesse sentido. Não esqueça do que aconteceu hoje e se una a elas em 2018, o ano que representa a grande chance brasileira contra a corrupção.”

O procurador trata o descalabro do Rio como prenúncio de desatinos maiores. “O que aconteceu no Rio de Janeiro hoje é uma amostra do que pode acontecer em Brasília e com a Lava Jato se em 2018 não virarmos o jogo contra a corrupção. Quando a punição bater na porta dos grandes líderes corruptos, eles perderão a vergonha de salvar a própria pele. A única solução é por meio da democracia e de uma política mais íntegra, e isso depende de você.”

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, outro conhecido membro da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, também despejou no Facebook sua indignação com o que se passou no legislativo fluminense. Ele direcionou suas baterias, no entanto, para o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Surpreendeu com a notícia de que o magistrado ficara perplexo com o comportamento dos parlamentares do Rio.

“Marco Aurélio está perplexo!?!?!?”, escreveu Carlos Fernando. “Perplexo estamos nós em ouvir isso, pois foi justamente o seu voto no caso de Aécio, incoerente com sua própria decisão de afastamento de Renan Calheiros, que permitiu esse descalabro que estamos vivendo. Marco Aurélio é responsável pela decisão que levou a este estado de coisas.”

17 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

PEDIDOS DE BLOQUEIO REALÇAM A FORTUNA DE LULA

15 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

SUPREMO PODE AVACALHAR A OPERAÇÃO LAVA JATO

Vêm aí mais duas boas oportunidades para o brasileiro conferir de que lado está o Supremo Tribunal Federal. A presidente Cármen Lúcia marcou para quinta-feira da semana que vem o julgamento que pode limitar a abrangência do foro privilegiado. Depois, em sessão a ser agendada, a Suprema Corte decidirá se mantém ou não a regra que abriu as portas das cadeias para os condenados na segunda instância. Uma combinação malandra de veredictos pode inaugurar uma pizzaria que servirá impunidade a larápios graúdos e avacalhará a Lava Jato.

Suponha que a maioria dos ministros do Supremo vote a favor da restrição do foro, nos termos propostos pelo relator Luís Roberto Barroso: permanecem no Supremo apenas os processos relativos a crimes cometidos por congressistas e ministros durante e em razão do exercício do mandato ou do cargo público. Nessa hipótese, desceriam do Éden Supremo do Judiciário para o mármore quente da primeira instância todos os processos relacionados à Lava Jato. A arquibancada soltaria fogos.

Agora imagine que, em julgamento posterior, a mesma Suprema Corte decida rever a jurisprudência que autorizou a prisão após a confirmação das sentenças por um tribunal de segunda instância. Neste caso, as senteças de juízes como Sergio Moro lançarão fachos de luz sobre as propinas e outras delinguências. Mas depois que o país enxegar a roubalheira, as luzes serão apagadas e os condenados recorrerão em liberdade à segunda, à terceira e até à quarta instância do Judiciário. Os processos se arrastarão por mais de dez anos. E muitos serão assados no forno da prescrição.

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, parecia sentir um cheiro de queimado quando falou sobre o tema numa entrevista ao blog, no mês passado. Ele lamentou a inexistência de punição de criminosos graúdos pilhados na maior investigação anticorrupção da história:

“Faltam os grandes chefes desse esquema criminoso, as pessoas mais responsáveis entre todas por ele, que foram os políticos poderosos que organizaram. Falta a responsabilização deles. E a responsabilização deles tramita exatamente no Supremo Tribunal Federal.” (reveja abaixo um trecho da entrevista do procurador)

No fundo, o Supremo Tribunal Federal julgará a si mesmo. Condenou-se à execração quando abriu o caminho, por 6 votos a 5, para o Senado anular as sanções cautelares impostas ao senador tucano Aécio Neves. A plateia tem agora mais um par de oportunidades para verificar se o Supremo utiliza sua supremacia para fazê-la de idiota.

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AOS POUCOS, ESCRACHO VIRA OUTRO NOME DE NORMAL

12 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

NOVO DIRETOR DA PF É CRÍTICO DO PODER INVESTIGATÓRIO DO MP

Após tomar posse nesta sexta-feira, o novo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, fez uma “visita de cortesia” à procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Considerando-se o histórico do escolhido de Michel Temer e da cúpula investigada do PMDB, tratou-se de uma tentativa de estreitar a inimizade, pois Segóvia é um velho crítico do Ministério Público. Para ele, o poder de investigação atribuído aos procuradores não encontra amparo na Constituição e nas leis. Pior: é exercido sem nenhum tipo de controle.

A posição de Segóvia pode ser conferida no vídeo acima. A peça foi gravada em 2013. Nela, o agora diretor-geral da PF enaltece uma proposta de emenda à Constituição que tramitava no Congresso sob o número 37. A PEC 37, como ficou conhecida, proibia o Ministério Público de realizar investigações, restringindo a atividade às polícias. Obteve a simpatia da maioria do Congresso, apinhado de investigados. Mas despertou a repulsa das ruas, que roncavam alto na ocasião. A reação do asfalto levou a Câmara a rejeitar a proposta por 430 votos a 9.

Frustraram-se as expectativas de Fernando Segóvia, que enaltecia a PEC 37 como uma tentativa de “delimitar qual seria esse poder de atuação dos ministérios públicos.” Para ele, nem a Constituição nem a legislação infraconstitucional conferem poderes a procuradores e promotores para realizar um trabalho típico da polícia. “O Ministério Público não tem esse poder de investigar”, dizia Segóvia na ocasião. O órgão realiza investigações “sem controle, através de procedimentos que estão inclusive sendo questionados no Supremo Tribunal Federal”, acrescentava.

Ironicamente, Segóvia chega à chefia da Polícia Federal num instante em o órgão trava nova queda de braço com o Ministério Público. Agora é a PF que reivindica o direito de realizar acordos de delação premiada – uma atribuição que o MPF considera ser de sua exclusiva responsabilidade. A encrenca está pendente de julgamento no Supremo Tribunal Federal.

Indicado pelo denunciado Michel Temer e apoiado por investigados como o chefe da Casa Civil Eliseu Padilha e o ex-senador José Sarney, Segóvia assume o comando da PF sob o signo da desconfiança. Suas palavras instilam suspeita até quando soam positivas.

”A Lava Jato, na realidade, é uma das operações de combate à corrupção no país”, disse Segóvia em sua posse. “O que a PF pretende é aumentar, ampliar o combate à corrupção. Então não será só uma ampliação, uma melhoria na Lava Jato, será em todas as que a PF já vem empreendendo. Bem como ampliar, criar novas operações.”

Em conversa com o blog, um dos procuradores da Lava Jato comentou: “Quem lida com uma estrutura sobrecarregada como a da PF e anuncia a intenção de abrir novas e indiscriminadas frentes de investigação parece fugir da evidência de que a Lava Jato clama por prioridade – uma prioridade que a PF já não se dispõe a prover. Quem tem inúmeras investigações acaba não tendo nenhuma.”

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TEMER VIRA MINIATURA COM ÀS VOLTAS DA MINIRREFORMAS

11 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

TUCANO REVIVE A FÁBULA DO SAPO E DO ESCORPIÃO

7 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

LUISLINDA: “COMO EU VOU COMER, BEBER E CALÇAR?”

Antes de desistir, nesta quinta-feira, de reivindicar o acúmulo de dois vencimentos que lhe renderiam R$ 61 mil por mês, a ministra tucana Luislinda Valois (Direitos Humanos) tentou justificar sua pretensão: “Como é que eu vou comer, como é que eu vou beber, como é que se vai calçar?”, ela perguntou, numa entrevista à Rádio Gaúcha. “Eu, como aposentada, podia vestir qualquer roupa, podia calçar uma sandália havaiana e sair pela rua. Mas como ministra de Estado eu não me permito andar dessa forma. Eu tenho uma representatividade”, acrescentou Luislinda noutro trecho da conversa. (Ouça a íntegra no rodapé do post)

Como desembargadora aposentada, Luislinda recebe R$ 30.471,10. Como ministra, seu contracheque seria de 30.934,70. Entretanto, a lei proíbe servidores públicos de receberem remuneração mais alta que a dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que é de R$ 33.700. Para não extrapolar o teto, o Tesouro abate do salário de Luislinda R$ 27.642,80, reduzindo sua remuneração de ministra a R$ 3.292. Ou R$ 2.700 líquidos, como prefere realçar a ministra. Assim, ela embolsa mensalmente ”apenas” R$ 33.700, equiparando-se aos magistrados da Suprema Corte.

Embora não lhe faltem recursos para encher a geladeira, fornir o guarda-roupa e forrar os pés com bons calçados, a ministra comparou-se a uma escrava. No documento em que requereu o acúmulo integral das duas remunerações, revelado pelo Estadão, Luislinda anotou: ”O trabalho executado sem a correspondente contrapartida, a que se denomina remuneração, sem sombra de dúvidas, se assemelha a trabalho escravo, o que também é rejeitado, peremptoriamente, pela legislação brasileira desde os idos de 1888 com a lei da Abolição da Escravatura…”

Perguntou-se à ministra se a referência à escravidão não seria um exagero. E Luislinda: “…Apenas citei, porque é um fato público e notório. Todo mundo sabe como foi que aconteceu a escravidão. Não se tinha salário, não se tinha comida, não se tinha nada. Então, eu fiz uma alusão ao fato histórico.”

Luislinda prosseguiu: “Se querem me condenar porque eu estou pedindo um vencimento que acho justo, meu Deus!, eu quero saber quem é que senta aqui em Brasília, para trabalhar como ministro e receber R$ 2.700. […] Então, não é justo que eu requeira? Eu requeri. Sua Excelência a autoridade julgadora vai deferir, se achar que convém.”

Ex-magistrada, Luislinda não ignora a legislação que lhe impõe um teto remuneratório. Indagou-se à ministra se ela não conhecia a regra do teto quando aceitou o convite para ser ministra de Michel Temer. “Ah, não vamos virar o caso, gente! Esse aí é um direito de peticionar”, reagiu a entrevistada. ”A autoridade é quem vai decidir. Se ela decidir, eu vou apoiar tranquilamente. Sou da paz, gente. Não sou de briga. Agora, eu achei que tenho o direito. Não é um dirieto liquido e certo. Então, eu poticionei como qualquer brasileiro. Antes de ser ministra, eu sou brasileira, cidadã, eu voto, pago imposto, sou sujeita a doenças, já nasci sujeita a morrer, como todos nós. Então, porque essa celeuma? Não sei porque a mídia criou essa celeuma toda.”

A tucana Luislinda dispõe de uma vacina capaz de imunizá-la contra a exploração a que vem sendo submetida pelo Estado-feitor. Trata-se de seguir a fórmula à disposição de qualquer trabalhador livre: o pedido de demissão. A ausência de Luislinda na Esplanada preencheria uma lacuna.

O contribuinte brasileiro não merece ser escravizado pelos privilégios de uma ministra dos Direitos Humanos que pega em lanças por um vencimento de R$ 61 mil, mas não consegue se contrapor à portaria baixada pelo governo para atrapalhar o combate ao trabalho escravo. O brasileiro em dia com o fisco precisa ser alforriado de Luislinda.

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3 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

RIO: CRIME ORGANIZADO X ESTADO ESCULHAMBADO

1 novembro 2017 JOSIAS DE SOUZA

FUNARO CHORA E LISTA DELATADOS: TEMER E ETC…

Apontado como operador do PMDB, o corretor de valores Lúcio Funaro afirmou em depoimento à Justiça Federal que o presidente Michel Temer (PMDB) tinha conhecimento do suposto esquema de propina na Caixa Econômica e disse já ter se encontrado com o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) mais de 700 vezes. Ao falar sobre a decisão de firmar um acordo de delação, Funaro chorou ao lembrar da relação com sua família. Temer e Cunha têm negado a participação em qualquer ato irregular.

30 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

NOSSA DEMOCRACIA ENGRAVIDOU DE UM DESASTRE

Pesquisa eleitoral é uma espécie de ultrassonografia que serve para antecipar o nome do herói que os eleitores xingarão um mês depois do parto. O silêncio do asfalto dava a impressão de que o brasileiro tolerava o sofrimento na expectativa de que 2018 traria algo novo. Engano! As pesquisas mais recentes indicam que a crise brasileira é uma crise de desilusão. Quando parece que uma novidade vem pela frente, pelo menos um equívoco diferente dos já cometidos, descobre-se que pode nascer das urnas um erro manjado. O eleitorado oscila entre um condenado por corrupção e um apologista da ditadura militar.

Confirmando uma tendência que já havia sido farejada pelo Datafolha, o Ibope informa: se a disputa presidencial ocorresse hoje, o condenado Lula disputaria o segundo turno com o ex-tenente do Exército Bolsonaro. Sim, é verdade. As opções oferecidas não são animadoras. Mas, que diabos, a situação está insustentável. Por isso, o brasileiro precisa tomar as precauções mais triviais. Por exemplo: se for abordado por um pesquisador na rua, antes de dar qualquer resposta, o sujeito precisa certifique-se de que não esqueceu a consciência em casa.

Tem gente que só acredita na gravidade quando uma maçã – ou um descalabro – lhe cai na cabeça. A pessoa bota a mão na testa, percebe que escorre um melado e constata: “Shiii, deve ser a tal gravidade!” Lula e Bolsonaro são sintomas de um país adoecido. Resultado da cruza da falta de ética com a inépcia, a roubalheira e o empregocídio engravidaram a democracia brasileira de um desastre. Por sorte, ainda há tempo para um aborto político.

Neste momento de pré-campanha eleitoral, período em que os loucos dispõem de licença para apresentar suas credenciais para dirigir o hospício, seria extraordinário se o eleitor utilizasse as pesquisas para informar que já não aceita qualquer maluquice. Na dúvida entre o inaceitável e o inadmissível, nunca deixe para amanhã o candidato que você pode deixar hoje. Faltam opções? Simples: dê uma de louco. Diga que prefere votar em ninguém. Quem sabe assim os partidos tomam juízo e apresentam alguém.

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SUPREMO VIVE SOB UM CLIMA DE CHURRASCO NA LAJE

30 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

NO ANIVERSÁRIO DE LULA, O “PARABÉNS” É UMA IRONIA

Lula fez aniversário nesta sexta-feira. Deveria ter presenteado a si mesmo com o silêncio. Mas percorre Minas Gerais em caravana. Faz comícios diários. Seus lábios não desgrudam do microfone. Assim, sem medo de ser patético, declarou: ”Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo para envergonhar milhões e milhões de pessoas que a vida inteira confiaram em mim”.

Lula discursou num comício na cidade de Montes Claros. Apresentou-se à plateia como um símbolo, seu papel predileto: ”Estão tentando me destruir desde que nasci. Tentem destruir o Lula, vocês nunca vão conseguir, porque o Lula não é o Lula, é uma síntese daquilo que são milhões e milhões de mulheres e homens. Lula é uma ideia criada por vocês.”

O pajé do PT, de fato, pode se dar ao luxo de falar como símbolo. Deixou de ser qualquer um quando virou líder sindical em plena ditadura. Perdeu eleições como símbolo, chegou ao Planalto como símbolo, invocou a condição de símbolo para sobreviver ao mensalão e como símbolo imaginou-se invulnerável no petrolão. Agora, responde pelo que passou a simbolizar.

Suprema ironia: coube ao companheiro Antonio Palocci formular a pergunta que explica por que muitos brasileiros deixaram de respeitar os cabelos brancos do símbolo: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?”, indagou Palloci na carta que enviou ao PT para se desfiliar da legenda.

Lula tornou-se um símbolo completo. Fez-se sozinho na vida. E se desconstrói sem a ajuda de ninguém. O símbolo discursa como se fosse uma estátua de si mesmo. E age como um pardal que suja sua própria testa de bronze. Costuma-se dizer que Lula virou um político como todos os outros. Bobagem. Aconteceu algo pior. Lula tornou-se um símbolo completamente diferente de si mesmo.

Certas frases – “Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo…” – passam a impressão de que o autor será símbolo do cinismo até o fim. No aniversário do símbolo, um simples “parabéns” soa como ironia.

30 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

HÁ DOIS PMDBs NA PRAÇA: O PRESO E O PREMIADO

A olho nu, é difícil distinguir uns dos outros. As semelhanças são gritantes: políticos, mais ou menos da mesma geração, filiados ao mesmo partido, todos muito amigos do presidente da República. Só uma coisa os diferencia: o foro privilegiado. Quem não tem está atrás das grades. Quem tem continua do lado de fora, vivendo no Brasil da impunidade.

Os brasileiros que quiserem enxergar o tamanho do prêmio que a Câmara concedeu a Michel Temer e aos ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha deve prestar atenção à rotina carcerária de Sergio Cabral, Geddel Vieira Lima, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves.

Cabral cutucou Marcelo Bretas com o pé para checar se é verdade que o juiz morde. Foi enviado para um presídio federal de segurança máxima no Mato Grosso do Sul. Geddel escondeu R$ 51 milhões num cafofo de Salvador. Puxa cadeia na Papuda.

Cunha ensaiou uma pose de delator. Acabou delatado pelo cúmplice e operador de propinas Lúcio Funaro. Henrique Alves quis brincar de esconde-esconde patrimonial. Complicou a existência de um ex-assessor, preso, e da mulher, cuja casa foi varejada por uma batida da Polícia Federal.

Enquanto a banda presa do PMDB se complica, a ala premiada da legenda ganhou da Câmara uma camada extra de proteção. Temer, Padilha e Moreira já dispunham do foro privilegiado. Ganharam da Câmara um escudo que impede o Supremo Tribunal Federal de tocar adiante as denúncias que lhes pesam sobre os ombros.

O PMDB preso é a antessala do Brasil do futuro. O PMDB premiado é o quartinho de despojos do Brasil do faturo.

26 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

LULA INSINUA QUE VENCERIA MORO E HUCK EM 2018

Depois de percorrer 25 cidades nordestinas, Lula visita municípios de Minas Gerais. Chama a iniciativa de “caravana”, um eufemismo para campanha eleitoral fora de época. Coisa ilegal. De passagem pelo município de Itaobim, o ex-presidente petista desafiou dois campeões de popularidade a medir forças com ele nas urnas presidenciais de 2018: o juiz Sergio Moro e o apresentador Luciano Huck.

Disse Lula em seu comício antecipado: “Se eles quiserem que eu não seja candidato e que eu não volte a ser presidente, eles só têm um jeito. Não é tentar evitar que eu seja candidato, é ter coragem – que coloque o Ministério Público, que coloque a Rede Globo, o Luciano Huck, que coloque o Moro, coloque quem eles quiserem para disputar as eleições. Quando a gente abrir a urna a gente vai ver o que vai acontecer depois.”

Condenado a 9 anos e meio de cadeia no caso do tríplex do Guarujá, Lula aguarda o julgamento do recurso que seus advogados ajuizaram no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sediado em Porto Alegre. Se a sentença de Sergio Moro for confirmada, o condenado virará um ficha-suja. E não poderá pedir votos em 2018. Alheio ao risco, Lula usa dinheiro público do fundo partidário para empinar sua candidatura sub judici.

Microfone em punho, o hipotético candidato, primeiro colocado nas pesquisas, faz pose de limpinho: “Até agora eles não conseguiram provar uma agulha na minha vida.” Sem medo de parecer ridículo, Lula insinua que a força tarefa de Curitiba é, por assim dizer, assassina. “Revistaram a minha casa, são responsáveis pela morte da minha mulher. […] Certamente, a razão para apressar a morte dela foi esse sofrimento dela.”

Afora os ataques à Lava Jato e seus protagonistas, Lula capricha nas críticas ao governo. Fala de desemprego e de arrocho fiscal como se esses fenômenos não tivessem as digitais de sua criatura Dilma Rousseff. Acusa Michel Temer de comprar votos na Câmara, sem se dar conta de que o PT era sócio do PMDB no matrimônio partidário que se transformou em patrimônio nos escândalos do mensalão e do petrolão.

26 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

TEMER JÁ NÃO DIRIGI OS FATOS, É DIRIGIDO POR ELES.

Admita-se que antes do enterro da segunda denúncia criminal contra Michel Temer na Câmara o presidente perseguia três objetivos: ampliar os 263 votos que garantiram o sepultamento da denúncia anterior, compensar o assanhamento do centrão com uma redução pela metade da dissidência de 21 votos do PSDB e retomar a pose de presidente reformista. No final do dia, Temer contabilizava 12 aliados a menos (251), dois dissidentes tucanos a mais (23), uma passagem pela emergência do Hospital das Forças Armadas e uma frase que destoava de sua condição política: “Tô inteiro”, disse, referindo-se à obstrução na uretra que o retirara de combate.

Virou fumaça a ideia de que Temer, livre do par de denúncias que a Câmara congelou, poderia voltar a dirigir os rumos do país nesta ou naquela direção. Nos próximos dias, o presidente se esforçará para demonstrar que ainda faz e acontece. Mas os fatos se encarregarão de revelar que, a despeito de ter permanecido no volante, Temer já não dita o rumo às forças contraditórias que gravitam ao seu redor. Em vez de governá-las, é governado por elas.

Numa entrevista concedida após o fechamento do caixão da segunda denúncia, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, soou como se enxergasse na debilidade de Temer uma oportunidade a ser aproveitada. Revelou a intenção de colocar em pé uma ambiciosa agenda legislativa. Nela, há tópicos que interessam a Temer, como uma versão lipoaspirada da reforma da Previdência. Mas há um lote de projetos que entrarão na pauta à revelia do Planalto. Tratam de temas tão diversos como segurança pública, planos de saúde e políticas sociais direcionadas à juventude.

Por trás da ambição legislativa de Maia esconde-se outro fenômeno que contribuirá para o estreitamento da margem de manobra de Temer: 2018. A um ano das eleições gerais, os atores da política tendem a ajustar seus atos aos humores do eleitorado. Significa dizer que Temer terá maiores dificuldades para aprovar as medidas fiscais impopulares que a Casa Civil da Presidência engavetara à espera do enterro da segunda denúncia.

Com o tucanato em pé de guerra, o Planalto ficará nas mãos do PMDB e das siglas do centrão: PR, PP, PTB e PSD. Se a votação desta quarta-feira demonstrou alguma coisa foi que os membros dessas legendas já não aceitam cheques pré-datados de Temer. Só operam na base do pagamento antecipado. E o presidente parece não ter muito mais a oferecer. O centrão opera como se fosse um estômago hipertrofiado. Insaciável, passará a cobrar de Temer parte dos quatro ministérios do PSDB.

Oficialmente, o Planalto nega que os líderes do centrão e o ministro tucano da coordenação política, Antonio Imbassahy, estejam em pé de guerra. Alega-se que eles não discutem. Na verdade, nem se falam. Desde que o centrão desligou Imbassahy da tomada, a interlocução do Planalto com o antigo grupo político de Eduardo Cunha foi assumida pelo ministro Eliseu Padilha (Casa Civil). Temer gostaria de empurrar para abril a troca de cúmplices nos ministérios. O centrão irá azucriná-lo para antecipar a dança de cadeiras.

Impopular e fraco, Temer talvez não reúna forças para deter o centrão. Com seus 251 apoiadores, o presidente carrega uma cesta de votos menor do que os 257 que compõem a maioria absoluta dos 513 deputados. E está a quilômetros de distância dos 308 votos necessários à aprovação de emendas constitucionais – como a da reforma da Previdência, por exemplo. Sem as reformas – ou com reformas de meia-tigela – Temer perderá gradativamente o nexo. E vai a 2018 na condição de sparring. Terá de encontrar uma frase diferente da que pronunciou ao deixar o hospital na noite desta quarta-feira. Poderá dizer muitas coisas, menos ”tô inteiro”.

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26 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

SALVO PELA 2ª VEZ, TEMER VIRA OCASO DE 432 DIAS

Michel Temer fez pose de pretendente ao trono pela primeira vez em agosto de 2015. Acumulava o cargo de vice-presidente da República com a função de coordenador político do governo Dilma Rousseff. Com as crises moral e econômica a pino, declarou aos jornalistas: “É preciso alguém que tenha a capacidade de reunificar a todos.” Conseguiu. Presidente mais impopular da história, com apenas 5% de aprovação segundo o Datafolha, Temer reunificou o país contra si mesmo.

Em sua pesquisa mais recente, divulgada no início do mês, o Datafolha constatou que nove em cada dez brasileiros (89%) são favoráveis a que a Câmara autorize a abertura de processo contra Temer por formação de organização criminosa e obstrução à Justiça. Entretanto, alheio à fome de limpeza que está no ar, Temer gastou recursos que o Tesouro Nacional não tem para impor sua Presidência aos brasileiros até 31 de dezembro de 2018.

Favorecido pela ausência de alternativas e pela anestesia das ruas, o presidente abusa da paciência dos brasileiros que gostariam que ele deixasse o Planalto, de preferência na semana que vem. Nesta quarta-feira, 25 de outubro de 2017, ao sepultar a segunda denúncia contra o primeiro presidente da história a ser alvejado por investigações criminais em pleno exercício do mandato, a Câmara inaugura uma contagem regressiva. Faltam 432 dias para a viagem de volta de Temer ao ostracismo, em São Paulo. Será um suplício acompanhar a decomposição diária de um presidente que fez da falta de recato o seu sacerdócio.

Ao presentear a bancada ruralista com a portaria que favoreceu o trabalho escravo, momentaneamente suspensa pelo STF, Temer mostrou até onde é capaz de chegar. Antes de ser gravado pelo delator Joesley Batista, prometia recolocar o Brasil nos trilhos. Agora, tende a virar maquinista de trem fantasma. Nas próximas semanas, o governo volatará a ameaçar a sociedade com o aumento de impostos. E levará às manchetes a alma penada do corte do abono salarial que assegura a quem recebe até dois salários mínimos por mês o pagamento de um salário extra por ano.

Depois de aprovar a emenda constitucional do teto de gastos, Temer não fez outra coisa além de gastar. Todas as medidas de austeridade anunciadas pelo governo —do adiamento de reajustes salariais de servidores ao cancelamento de benefícios tributários— encontram-se retidas no Planalto. A exemplo do que sucede com a reforma da Previdência, a chance de aprovação de medidas austeras diminui na proporção direta da aproximação do calendário eleitoral de 2018. Iniciativas que poderiam reforçar o caixa, como o programa de privatizações, vão subindo no telhado. Antes do Natal de 2018, o teto de gastos deve se revelar uma boa intenção subvertida pelos fatos num pesadelo a ser administrado pelo gestor de crises a ser eleito presidente na próxima sucessão.

Fraco e impopular, Temer assistirá a um estreitamento de sua margem de manobra. Voltará a fazer pose de reformador econômico. Mas terá de lidar com congressistas pouco afeitos à ideia de contrariar o eleitorado. O empresariado vai se revelando incapaz de acreditar na força política de Temer para impor suas reformas. E o presidente é incapaz de demonstrá-la.

Ainda que fosse o presidente que imagina ser, Temer teria de lidar com a aversão do brasileiro à roubalheira. Segundo o Datafolha, a maioria dos eleitores (62%) considera que a corrupção acarreta mais danos ao país do que a incompetência dos governos. Notáveis 80% concordam com a ideia de que ”a corrupção é inaceitável em qualquer circunstância”. Um contingente de 74% discorda da seguinte frase: “Se um governante administra bem o país, não importa se ele é corrupto ou não.” Quer dizer: o brasileiro já não digere o lema do rouba, mas faz.

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ESPERA POR UM BRASIL NOVO? PUXE UMA CADEIRA!

24 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

CABRAL TENTA IMITAR LULA E JUIZ RESPONDE À ALTURA

Alguma coisa subiu à cabeça de Sérgio Cabral. E não se parece com bom senso. Interrogado por Macelo Brettas, o presidiário achou que seria uma boa ideia repetir com o juiz da Lava Jato no Rio de Janeiro a tática de suspeição que Lula utiliza em âmbito nacional contra Sergio Moro. Cabral fez pose de injustiçado. Injetou a família do juiz na sua prosa de vítima. Foi como se bulisse em caixa de marimbondos. Saiu ferroado. O magistrado determinou sua transferência para um presídio federal.

Multiprocessado, Cabral foi levado à presença de Bretas para se defender no processo em que é acusado de lavar dinheiro de corrupção na compra de joias da H.Stern. O detento não nega a aquisição das peças. Mas sustenta que foram compradas para presentear sua mulher, não para lavar verbas sujas. O dinheiro não é de boa origem, Cabral admite. Entretanto, vem de sobras de campanhas eleitorais, não de propinas.

Lero vai, lero vem, Cabral decidiu dar uma aula para Bretras. “Não se lava dinheiro comprando joias.” Como se fosse pouco, o detento insinuou que sabe da vida do juiz mais do que ele poderia supor. “Vossa excelência tem um relativo conhecimento sobre o assunto, porque sua família mexe com bijuterias. Se eu não me engano, é a maior empresa de bijuterias do Estado.”

Cabral disse que seu governo não era uma quadrilha. Munido de autocritérios, declarou: “Trabalhei muito pelo Estado do Rio.” O magistrado aconselhou o depoente a responder às perguntas. “O senhor está querendo criar mais uma vez o discurso de injustiçado”, disse. Cabral não se deu por achado: “É meu direito dizer que sou injustiçado. O senhor está encontrando em mim uma possibilidade de gerar uma projeção pessoal e me fazendo um calvário.”

O juiz chamou o feito à ordem: “Não recebi com bons olhos o interesse manifestado pelo acusado de informar que minha família trabalha com bijuteria. Esse é o tipo de coisa que pode ser entendida como ameaça.” E Cabral: “Ameaça? Eu estou preso.” O tempo fechou. Nem a defesa do presidiário parecia entender aonde seu cliente queria chegar. A audiência foi suspensa por cinco minutos.

Ao final, o procurador Sérgio Pinel, que representava o Ministério Público, requereu a transferência do preso para um presídio federal. “A prisão não tem sido suficiente para afastar o réu de informações de fora da cadeia”, justificou. Brettas achou uma boa ideia: “É no mínimo suspeito que o acusado, que não só responde a este processo, mas a 16, podendo ser mais… É muito inusitado que venha trazer ao juízo informação de que acompanha, talvez, a rotina da família do magistrado. […] Tem acesso privilegiado a informações que talvez não devesse ter.”

Há quatro cadeias federais no país: Catanduvas (PR), Porto Velho (RO), Mossoró (RN) e Campo Grande (MS). Caberá ao Ministério da Justiça informar para onde Cabral será enviado. Longe do seu habitat natural, o preso talvez descubra o valor das qualidades qualidades iniciadas em ‘H’. A honestidade é como a virgindade. Não dá segunda safra. E Cabral parece mais interessado em mimetizar Lula do que em restaurar a probidade perdida. Mas a humildade é coisa muito democrática. Está ao alcance de todos.

24 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

ESTE COLUNISTA NÃO DISCUTIRÁ COM MORAES, UM ESPECIALISTA!

Os ministros do Supremo, como se sabe, estão sentados do lado direito de Deus. Neste domingo, entretanto, Alexandre de Moraes desceu ao purgatório do Twitter para responder a um post veiculado aqui. Com a supremacia em riste, Moraes desancou o repórter: “Ignorância, burrice, apoio ao tráfico, ou tudo junto, que soma mais de 40% das mortes no país. É fácil criticar sem conhecer a realidade.” Na sequência, Moraes foi apresentado à realidade das redes sociais. Descobriu da pior maneira que todos são iguais perante as leis da internet. Atacado impiedosamente, o ministro chegou a ordenar a um internauta: “Vá trabalhar!”

Tudo começou na sexta-feira. Horas antes da exibição do último capítulo de ‘A Força do Querer’, Moraes reclamou numa palestra da suposta glamorização da personagem Bibi Perigosa, vivida por Juliana Paes. Declarou que a novela de Glória Perez “mostra aqueles bailes funk, fuzil na mão, colarzão de ouro, mulheres fazendo fila para os líderes do tráfico, só alegria. Aí mostra a Bibi, que se regenerou, ela tentando procurar emprego e não conseguindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar. Enquanto você não larga, você tá na boa. É uma valorização. Aí podem dizer que essa é a realidade. Mas tá passando isso de uma forma glamorizada.”

O repórter sustentou que, no Supremo, a coisa é muito pior. Anotou que, não fosse uma senhora bem-posta, Glória Perez talvez dissesse a Moraes algo assim: a TV Justiça “mostra aquelas sessões plenárias do Supremo, Constituição na mão, toga sobre os ombros, poderosos fazendo fila à espera de sentenças que nunca chegam, só alegria. Aí mostra o Aécio, que se safou. A Primeira Turma tentando impor sanções e o plenário impedindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar o foro privilegiado. Enquanto você não larga, você tá na boa. Aí podem dizer que essa realidade precisa mudar. Mas sempre haverá um ministro no Supremo para pedir vista do processo e declarar, com glamour: ‘Tem que manter isso’!”

Ex-ministro da Justiça de Michel Temer, Moraes não se notabilizou pelo combate ao tráfico. Coordenou a elaboração de um plano nacional de segurança que a realidade vai convertendo em pó (com trocadilho!). No Supremo, porém, Moraes tornou-se notável rapidamente. Pediu vista do processo sobre a limitação do alcance do foro privilegiado. Com seu gesto, favoreceu ex-colegas de governo que respondem a inquéritos na Suprema Corte. Evitou, por exemplo, que ministros como Moreira Franco e Eliseu Padilha tivessem o mesmo destino do ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso preventivamente na Papuda.

Na resposta ao blog, Moraes enquadrou o repórter: “A ignorância de Josias de Souza é tão grande que não sabe que a vista do foro foi devolvida em setembro. Estude mais. Criticar é fácil.” Embora reconheça que precisa estudar muito para alcançar a genialidade de Moraes, o signatário do blog não ignora que o ministro já devolveu o processo à presidência do Supremo. O problema é que permanece pendente de julgamento uma encrenca que poderia ter sido julgada há 143 dias, não fosse o providencial pedido de vista. De resto, Moraes renderia homenagens à transparência se explicasse por que ficou sentado sobre o processo por mais de 100 dias.

Ex-secretário de Segurança do governo tucano de São Paulo, Moraes compôs no Supremo a maioria de 6 a 5 que transferiu para o Legislativo a palavra final sobre sanções cautelares impostas a parlamentares. Graças a esse recuo, o Senado pôde restituir a Aécio Neves o mandato que a Primeira Turma do Supremo suspendera. Sobre isso Moraes não se animou a escrever uma mísera palavra no Twitter. Aos internautas que o criticaram, o ministro respondeu com uma interrogação: “Vocês concordam com o glamour do tráfico de drogas, banhado a sangue, contra o trabalho sério do povo brasileiro?”

O repórter, por ignorante, não entendeu a analogia que o ministro tentou estabelecer. No encerramento de ‘A Força do Querer’, Bibi estava regenerada. Rubinho, seu marido-traficante foi passado nas armas pelo comparsa Sabiá, que recebeu voz de prisão de Jeiza, uma policial militar de mostruário. Salvo melhor juízo, Glória Perez quis realçar a tese segundo a qual o crime não compensa. E a plateia, a julgar pela audiência, foi trabalhar no dia seguinte embevecida com o sucesso da novela.

É compreensível que Moraes não tenha gostado do que viu. A realidade que a ficção exibe só existe porque autoridades como o ministro fracassam em suas tentativas de combater o crime. De resto, Moraes está habituado com uma realidade que ultrapassa qualquer ficção. Os últimos movimentos do Supremo ensinam que não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, ele muda de nome. Só não vê quem é ignorante e burro. Ou aliado do tráfico (de influência). O repórter, atento ao conselho supremo -“estude mais”-, não ousaria discordar de alguém que fala da ignorância e da burrice com tamanha supremacia. Trata-se, evidentemente, de um especialista.

23 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

MINISTRO CRITICA NOVELA, MAS NO STF É MUITO PIOR

Em palestra na Escola Paulista de Magistratura, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, criticou o modo como o crime é retratado na novela ‘A Força do Querer’. Para ele, há um quê de glamour nas cenas da personagem Bibi Perigosa, interpretada por Juliana Paz.

Eis o que disse Moraes: a novela “mostra aqueles bailes funk, fuzil na mão, colarzão de ouro, mulheres fazendo fila para os líderes do tráfico, só alegria. Aí mostra a Bibi, que se regenerou, ela tentando procurar emprego e não conseguindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar. Enquanto você não larga, você tá na boa. É uma valorização. Aí podem dizer que essa é a realidade. Mas tá passando isso de uma forma glamorizada.”

Ex-secretário de Segurança do governo tucano de São Paulo, ex-ministro da Justiça do governo do PMDB, Alexandre de Moraes chegou ao Supremo por indicação de Michel Temer. No julgamento sobre a limitação da abrangência do foro privilegiado, o doutor pediu vista do processo, retardando a definição – já lá se vão 142 dias. No caso das sanções cautelares contra parlamentares, Moraes votou a favor da tese que desaguou na restituição do mandato a Aécio Neves.

A sorte de Moraes é que Glória Perez é uma senhora bem-posta. Do contrário, a autora da novela ‘A Força do Querer’ poderia responder ao supremo crítico de sua ficção com uma observação ligeira sobre a programação da TV Justiça. Glória diria algo assim sobre a emissora oficial do Judiciário:

“Mostra aquelas sessões plenárias do Supremo, Constituição na mão, toga sobre os ombros, poderosos fazendo fila à espera de sentenças que nunca chegam, só alegria. Aí mostra o Aécio, que se safou. A Primeira Turma tentando impor sanções e o plenário impedindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar o foro privilegiado. Enquanto você não larga, você tá na boa. Aí podem dizer que essa realidade precisa mudar. Mas sempre haverá um ministro no Supremo para pedir vista do processo e declarar, com glamour: ‘Tem que manter isso’!”

22 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

ABRAÇADO AO GAMBÁ, PSDB FOGE DO MAU CHEIRO

Presidente interino do PSDB, o senador Tasso Jereissati passou a defender a saída de Aécio Neves do comando da legenda. “Eu acho que ele não tem mais condições, dentro das circunstâncias, de ficar na presidência do partido”, disse Tasso nesta quarta-feira. “Precisamos ter uma solução definitiva, e não provisória. Não tem mais condições.” Heimmmm?!?!?

Na véspera, Tasso e todos os tucanos presentes à sessão do Senado posicionaram-se a favor de Aécio na votação que devolveu ao correligionário o mandato que o Supremo Tribunal Federal havia congelado. Quer dizer: depois de impor aos brasileiros o retorno de Aécio à ribalta, o tucanato quer se livrar do companheiro tóxico, renunciando-o de uma presidência partidária da qual já está licenciado.

Submetido ao paradoxo, Tasso disse que a decisão do Senado foi “mal interpretada”. Hã?!? “No meu entender, é dar ao senador Aécio o que ele não teve até agora, que foi o direito de defesa.” Conversa fiada. Afastado do mandato, Aécio conservava intactos os direitos de investigado. O que lhe falta não é direito de defesa, mas a própria defesa. Os R$ 2 milhões recebidos da JBS em malas e mochilas transformaram o príncipe do tucanato num sapo indefeso.

“Agora, aqui, no próprio Senado, ele vai ter o Conselho de Ética. E, no Conselho de Ética, vai ter que se defender”, acrescentou Tasso. Lorota. Aécio já teve a chance de enfrentar de fronte alta um primeiro pedido de cassação do seu mandato. Preferiu a fuga. Aliou-se à fina flor do arcaísmo para obter o arquivamento da representação no Conselho de Ética. Acossado por uma segunda peça, nada faz supor que adotará comportamento distinto.

“Ao mesmo tempo, o julgamento no Supremo continua”, prosseguiu Tasso. “E, no Supremo também ele vai ter o direito de apresentar sua defesa.” Lero-lero. Se Tasso estivesse preocupado com os rumos do processo, teria votado não a favor de Aécio, mas da manutenção da decisão da Primeira Turma da Suprema Corte. O afastamento de Aécio não prejudicava a defesa. Ao contrário, era um estímulo para que o investigado priorizasse a busca de explicações que ainda não foi capaz de apresentar.

Devolvido ao Senado como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, Aécio ganha outra prioridade: conspirar contra qualquer iniciativa que se pareceça com um esforço anticorrupção. Vale a pena, a propósito, recordar um trecho do diálogo vadio que o senador tucano manteve com o delator Joesley Batista, da JBS:

– Aécio: Esses vazamentos, essa porra toda, é uma ilegalidade.

– Joesley: Não vai parar com essa merda?

– Aécio: Cara, nós tamos vendo (…) Primeiro temos dois caras frágeis pra caralho nessa história é o Eunício [Oliveira, presidente do Senado] e o Rodrigo [Maia, presidente da Câmara], o Rodrigo especialmente também, tinha que dar uma apertada nele que nós tamos vendo o texto (…) na terça-feira.

– Joesley: Texto do quê?

– Aécio: Não… São duas coisas, primeiro cortar o pra trás (…) de quem doa e de quem recebeu.

– Joesley: E de quem recebeu.

– Aécio: Tudo. Acabar com tudo esses crimes de falsidade ideológica, papapá, que é que na, na, na mão [dupla], texto pronto nãnã. O Eunício afirmando que tá com colhão pra votar, nós tamo (sic). Porque o negócio agora não dá para ser mais na surdina, tem que ser o seguinte: todo mundo assinar, o PSDB vai assinar, o PT vai assinar, o PMDB vai assinar, tá montada. A ideia é votar na… Porque o Rodrigo devolveu aquela tal das Dez Medidas, a gente vai votar naquelas dez… Naquela merda das Dez Medidas toda essa porra. O que eu tô sentindo? Trabalhando nisso igual um louco.

– Joesley: Lógico.

– Aécio: O Rodrigo enquanto não chega nele essa merda direto, né?

– Joesley: Todo mundo fica com essa. Não…

– Aécio: E, meio de lado, não, meio de leve, meio de raspão, né, não vou morrer. O cara, cê tinha que mandar um, um, cê tem ajudado esses caras pra caralho, tinha que mandar um recado pro Rodrigo, alguém seu, tem que votar essa merda de qualquer maneira, assustar um pouco, eu tô assustando ele, entendeu? Se falar coisa sua aí… forte. Não que isso? Resolvido isso tem que entrar no abuso de autoridade… O que esse Congresso tem que fazer. Agora tá uma zona por quê? O Eunício não é o Renan.

– Joesley: Já andaram batendo no Eunício aí, né? Já andaram batendo nas coisas do Eunício, negócio da empresa dele, não sei o quê.

– Aécio: Ontem até… Eu voltei com o Michel ontem, só eu e o Michel, pra saber também se o cara vai bancar, entendeu? Diz que banca, porque tem que sancionar essa merda, imagina bota cara.

– Joesley: E aí ele chega lá e amarela.

– Aécio: Aí o povo vai pra rua e ele amarela. Apesar que a turma no torno dele, o Moreira [Franco], esse povo, o próprio [Eliseu] Padilha não vai deixar escapulir. Então chegando finalmente a porra do texto, tá na mão do Eunício.

(…)

– Joesley: Esse é bom?

– Aécio: Tá na cadeira (…). O ministro [da Justiça] é um bosta de um caralho, que não dá um alô, peba, está passando mal de saúde pede pra sair. Michel tá doido. Veio só eu e ele ontem de São Paulo, mandou um cara lá no Osmar Serraglio, porque ele errou de novo de nomear essa porra desse (…). Porque aí mexia na PF. O que que vai acontecer agora? Vai vim um inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não (têm) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, 2.000 delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?, do Moreira, que interessa a ele vai pro João.

– Joesley: Pro João.

– Aécio: É. O Aécio vai pro Zé (…)

(…)

– Aécio: Tem que tirar esse cara.

– Joesley: É, pô. Esse cara já era. Tá doido.

– Aécio: E o motivo igual a esse?

– Joesley: Claro. Criou o clima.

– Aécio: É ele próprio já estava até preparado para sair.

– Joesley: Claro. Criou o clima.

***

Difícil saber o que é maior, se a desfaçatez ou a insensatez. Ao pregar a saída de Aécio da presidência do PSDB um dia depois de ter votado a favor do retorno dele ao Senado, Tasso Jereissati exagera no cinismo. Parece supor que a plateia é feita de bobos. Luta por um partido limpinho ao mesmo tempo que tenta zelar pelo conforto do companheiro enlameado. Ainda não se deu conta. Mas faz o papel do sujeito que tenta fugir do mau cheiro abraçado a um gambá.

* * *

SE AÉCIO SE CHAMASSE CUNHA, ESTARIA NA TRANCA

22 outubro 2017 JOSIAS DE SOUZA

MALUF DEFENDE A IDONEIDADE DE TEMER. ENTÃO TÁ!

A tramitação da segunda denúncia da Procuradoria contra Michel Temer transcorre anormalmente como uma novela repetida. Para acordar a plateia entorpecida, o acaso enfia no enredo cenas simbólicas que valem por uma epifania. Como o discurso proferido por Paulo Maluf na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em defesa da honestidade do presidente da República.

O país vive atrás do significado maior de qualquer coisa que resuma a época atual. No futuro, a historiografia talvez eleja a defesa apaixonada da honra de Temer por Maluf como um desses momentos que explicam o que se passou no Brasil quando o derretimento ético da política mudou o significado do vocábulo cidadão, que passou a ser definido nos dicionários assim: “Cidade muito grande, habitada por pessoas que, anestesiadas pela ruína moral, perderam o interesse pelo exercício da cidadania.”

Maluf vem de uma condenação na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal a 7 anos, 9 meses e 10 dias de prisão por lavar dinheiro desviado de obras em São Paulo. Alheio à própria ficha corrida, o orador disse que Temer é “honesto”. E tachou o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, que denunciou o presidente, de “terrorista”, um sujeito que difunde acusações “falsas” e “vazias” com o propósito deliberado de explodir a economia nacional.

Diante disso, não resta senão ecoar uma velha tese de Dostoiévski: se Deus não existe, tudo é permitido, dizia o gênio. Se Paulo Maluf é ‘advogado’ de Temer, extinguem-se sobre a Terra todas as dúvidas éticas e morais que rondam o presidente do Brasil. Suponha que uma alma distraída, que não está acompanhando a novela, lhe pergunte: “E aí, em que capítulo estamos?” Responda simplesmente: “O Maluf já passou pelo palco para informar que o Temer é honesto.” E seu interlocutor dirá, sem titubeios: “Ah, bom! Então, tá!”


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