21 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

LEGIÃO QUE “PERSEGUE” LULA NÃO PARA DE CRESCER

Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, alistou mais um personagem no pelotão dos “agentes públicos que perseguem Lula”: o delegado Marlon Cajado, da Polícia Federal. Em nota oficial, Zanin escreveu que “é desprovida de qualquer fundamento jurídico” a conclusão de Cajado segundo a qual Lula e Dilma devem responder a inquérito pelo crime de “obstrução de Justiça”. Para o advogado, não há dúvida de que o delegado faz “uso indevido da lei e dos procedimentos jurídicos” para hostilizar Lula.

O doutor Zanin e todo o petismo sustentam que Lula, por imaculado, é inimputável. Investigá-lo é quase um crime de lesa pátria. Asseguram que há um complô da Polícia Federal, de juízes federais de Curitiba e de Brasília, da imprensa nacional e de meia dúzia de delatores vagabundos contra o ex-presidente petista. O exército de detratores de Lula não para de crescer.

Embora seja inacreditável, a versão do complô é a que mais convém ao país. Lula já é protagonista de cinco processos judiciais. A essa altura, é mais reconfortante enxergá-lo como vítima de um complô de delegados, procuradores, juízes, jornalistas e delatores para converter um personagem modelo em político desonesto do que ter que admitir que tudo o que está na cara não pode ser uma conspiração da lei das probabilidades contra um sujeito inocente.

20 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

POR COERÊNCIA, PT DEVE LANÇAR DILMA AO PLANALTO

Em entrevista à AFP, Dilma Rousseff tranquilizou seus críticos: “Eu não serei candidata a presidente da República.” Deixou entreabertas outras portas: “Eu não afasto a possibilidade de eu me candidatar para esse tipo de cargo: senadora, deputada, esses cargos.”

Ai, ai, ai… Por que Senado ou Câmara? Não faz sentido! Se Lula diz que sua supergerente sofreu um golpe, se o PT sustenta que Dilma na Presidência seria a condição para o Brasil ser feliz, por que aprisionar a felicidade no Legislativo? O petismo não tem o direito de sacrificar o interesse maior da nação.

Qualquer coisa diferente da candidatura presidencial de Dilma soaria como uma admissão de que algo deu errado. E Dilma, como se sabe, deu certo. Só não foi mais longe porque os golpistas não deixaram. Dêem mais quatro anos para essa mulher e ela mostrará o que é sucesso. Dêem mais oito anos e aí sim todos verão o que é prosperidade. Lula não pode privar o Brasil de votar de novo na perfeição.

O PT já não dispõe de João Santana, engolfado pela lama da Lava Jato. Mas a plataforma de Dilma dispensa marqueteiros. Está pronta. Basta que a candidata trombeteie o seu legado de leniência com a corrupção, ruína fiscal e desemprego. Com tantos dedos nos olhos, o eleitor ficará cego. E pode apertar a tecla de Dilma na urna eletrônica.

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20 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

FLAGRADO HÁ UMA DÉCADA EM CORRUPÇÃO, MAGISTRADO DO STJ PERMANECE NA FOLHA

Pilhado em 2007 num esquema de venda de sentenças judiciais em benefício de donos de caça-níqueis e de bicheiros, o ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), permanece na folha salarial do tribunal. Afora os penduricalhos, recebe do contribuinte algo como R$ 30 mil por mês. Aposentado compulsoriamente, embolsa o dinheiro sem trabalhar. Na esfera criminal, graças a sucessivas protelações provocadas pelo chamado privilégio de foro, Medina permanece impune. Há quatro dias, seu processo desceu do STJ para a primeira instância do Judiciário, no Rio de Janeiro. Segue a trilha da prescrição.

Em 3 agosto de 2010, três anos depois de ter sido investigado pela operação Furacão, da Policia Federal, Medina sofreu uma condenação com gosto de premiação. O Conselho Nacional de Justiça condenou-o ao pijama perpétuo. A decisão só foi publicada no Diário Oficial sete meses depois, em 28 de fevereiro de 2011. Medina migrou, então, para a folha de inativos do STJ, com vencimentos integrais. Ele só perderia o salário se fosse condenado em ação penal.

Como ministro do STJ, Medina dispunha de foro privilegiado. Só podia ser processado no Supremo Tribunal Federal. Formulada pela Procuradoria-geral da Repúlica, a denúncia contra ele foi aceita pela Suprema Corte em 26 novembro de 2008. Mas o acórdão (resumo da decisão) só foi publicado um ano e quatro meses depois, em março de 2009. Quer dizer: quando o ministro foi aposentado compulsoriamente pelo CNJ, já estava no banco dos réus, enviado pelo STF. Ainda assim, manteve o salário. Não havia condenação.

Junto com Medina, foram içados para o processo do Supremo outros personagens acusados de participar da quadrilha de venda de sentenças: o desembargador José Eduardo Carreira Alvim, ex-vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, no Rio; o juiz Ernesto da Luz Pinto Dória, do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, em Campinas; o procurador regional da República do Rio de Janeiro João Sérgio Leal Pereira; e o advogado Virgílio Medina, irmão do ministro do STJ. Outro acusado, o desembargador José Ricardo de Siqueira Regueira, morreu em julho de 2008.

Com a aposentadoria forçada, Medina perdeu a prerrogativa de foro. No entanto, um dos réus, o procurador regional da República do Rio João Sérgio Leal Pereira também dispunha do privilégio de foro —teria de ser processado no STJ, não no STF. O processo só migrou de um tribunal para o outro em 2012. João Sérgio arrastou consigo todos os outros réus, inclusive Medina. Os advogados do acomodaram o ferro sobre os autos e esperaram o tempo passar.

De repente, a defesa de João Sérgio peticionou ao STJ para recordar que é de oito anos o prazo de prescrição do único crime de que o procurador era acusado: formação de quadrilha. Ou seja: como a denúncia fora convertida em ação penal na data de 26 de novembro de 2008, o crime atribuído ao procurador estava prescrito desde o final de 2016.

Confrontada com a evidência, a Procuradoria-Geral da República deu o braço a torcer. Reconheceu a extinção de qualquer pretensão de punir o procurador João Sérgio. Como nenhum outro réu dispunha de foro privilegiado, dois processos relacionados à Operação Furacão foram remetidos, há quatro dias, à primeira instância da Justiça Federal do Rio, onde os outros réus terão de ser julgados. A decisão foi tomada pela Corte Especial do STJ. Entre os processos que desceram está o que envolve Paulo Medina.

A defesa de Medina ainda tentou uma última cartada. Requereu a extinção do processo sob a alegação de que Medina sofre de insanidade mental. Teria sido acometido, de resto, do Mal de Parkinson. Seus colegas de tribunal decidiram que caberá ao juiz que for cuidar do caso no primeiro grau deliberar sobre o tema. Generalizou-se no STJ a impressão de que também os crimes atribuídos a Medina tendem a prescrever.

A prescrição é um fenômeno cada vez menos incomum nos tribunais superiores. Políticos enrolados na Lava Jato celebram o fato de serem processados no Supremo Tribunal Federal. No curto prazo, enxergam no escudo do foro especial uma proteção contra a agilidade de juízes como Sergio Moro. No longo prazo, sonham com a prescrição, que é um outro nome para impunidade.

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19 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

SAIBA PORQUE ENCRENCADOS NA LAVA JATO ENXERGAM O STF COMO UM ÓTIMO REFÚGIO

18 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

SE PRISÃO DÁ INDENIZAÇÃO, QUE DIZER DE HOSPITAL?

O Supremo Tribunal Federal decidiu, em julgamento encerrado nesta quinta-feira, que qualquer brasileiro preso em cadeias degradantes faz jus a indenização do Estado. Justo, muito justo, justíssimo. De todos os imutáveis flagelos brasileiros o flagelo do sistema penitenciário é um dos mais nefastos. Mas não é o único. Se a Suprema Corte avalia que presos maltratados merecem reparação, o que dizer dos brasileiros submetidos a padecimentos hediondos nas filas e nas macas de hospitais públicos?

No caso das penitenciárias, o Supremo julgou o processo de um preso do Mato Grosso do Sul. A sentença terá de ser seguida pelas instâncias inferiores do Judiciário. Houve unanimidade quanto à necessidade de reparação aos presos submetidos a condições degradantes. Mas os ministros se dividiram em relação à forma de pagamento. Três votaram por uma compensação por meio do abatimento de dias na pena. Prevaleceram os sete que determinaram que o dano deve ser reparado em dinheiro.

Considerando-se que o Estado brasileiro faliu, a reparação medida em dias de pena talvez fosse mais efetiva. Mas seja como for, a Suprema Corte abriu uma porteira perigosa. Parece razoável que os patrícios submetidos ao risco de morrer de fila ou de maca nos hospitais públicos também batam às portas dos tribunais em busca de indenizações. Que não serão honradas mesmo que reconhecidas pelo Judiciário. Há Estados que não conseguem pagar nem os salários dos seus servidores em dia. Que dirá indenizações!

Ouvido pelo blog, um dos ministros que participaram do julgamento disse acreditar que eventuais pedidos de indenização de pacientes do SUS talvez não recebam o mesmo tratamento que o Supremo deu aos presos. Por quê? “A pessoa que vai presa é encarcerada por ordem do Estado, no local que a autoridade determina. Não tem alternativa. Um doente, ao menos em tese, teria a opção de procurar outro hospital público ou privado. Não haveria a compulsoriedade.”

O raciocínio é lógico. Resta saber se os julgadores, quando submetidos aos casos concretos, terão a coragem de sonegar a brasileiros miseráveis destratados nos hospitais os mesmos direitos assegurados aos criminosos.

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16 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

SÓ PADILHA NÃO VÊ AS MÃOS GRANDES DOS LOBÕES

Na definição de Eliseu Padilha, o chefão da Casa Civil de Michel Temer, a participação dos partidos nos governos não é normal. “É mais do que normal, é absolutamente normal.” Num dia em que os conceitos de Padilha ainda crepitam no noticiário como faíscas de ontem, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a deflagração da Operação Leviatã. A novidade potencializa a impressão de que algo de muito anormal precisa acontecer no país para subverter a doce normalidade do Brasil de Padilha.

Entre os alvos da nova operação está Márcio Lobão, da mesma alcateia de Edison Lobão. Apura-se, entre muitas outras coisas, a suspeita de que o filho recebeu em nome do pai propinas do consórcio de empresas responsável pelas obras de Belo Monte. Propinas que eram rachadas o PT e com outros pajés da tribo do PMDB, a saber: Romero Jucá, Renan Calheiros, Jader Barbalho e Cia.

Presidente do PMDB, o senador Romero Jucá apressou-se em divulgar uma nota: “O PMDB apoia todas as investigações e vê como positiva qualquer medida do STF que possa tornar célere a conclusão dos processos.” Tudo normal. Ou, por outra, tudo “mais do que normal”, tudo “absolutamente normal.”

Este novo surto de normalidade ocorre nas pegadas da ascensão de Edison Lobão ao posto de presidente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Tudo conforme planejado por Jucá, o ‘Caju’ da lista da Odebrecht; por Renan Calheiros, o ‘Justiça’; e pelo domador de lobões José Sarney. Todos ilustres representantes do PMDB de Padilha e Temer.

Ao justificar a normalidade que vigora no Brasil, Padilha, com modéstia, declarou: “O PMDB sozinho não iria governar. Aliás, a história política brasileira depois da reabertura democrática, tem mostrado que o presidencialismo é de coalizão. Vários partidos sempre vão apoiar o governo. E com isso eles têm participação no governo, o que é mais do que normal, absolutamente normal.”

Se a história política brasileira mostra alguma coisa, é que depois da reabertura democrática, tudo muda no país, menos o PMDB, que está sempre nas proximidades dos principais cofres. Enquanto houver padilhas dispostos a fazer o papel de uma Chapeuzinho Vermelho ingênua, o Tesouro Nacional continuará sendo mastigado junto com a vovozinha. Falta ao enredo alguém que se anime a perguntar para os lobões do PMDB: “Por que essas mãos tão grandes?”

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14 fevereiro 2017 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

TEMER E PMDB OUVIRÃO DE NOVO O RONCO DA RUA

O período pré-carnavalesco não fez bem a Michel Temer. Seu governo entoa um samba com dois puxadores: Henrique Meirelles e a caciquia do PMDB. O enredo ficou confuso. A ala da economia não orna com a da política. O carro alegórico das reformas não combina com uma comissão de frente que desfila fantasias parecidas com aquelas que levaram Dilma e o PT ao rebaixamento.

As contradições reacenderam o ceticismo da plateia. Que começa a programar seu próprio desfile. Nesta segunda-feira (13), os movimentos que organizavam atos pró-impeachment se juntaram para preparar nova manifestação. Será no último domingo de março, dia 26. A pauta prestigia o samba de Meirelles, defendendo as reformas previdenciária e trabalhista. E rosna para o baticum do PMDB, em eterna conspiração contra a Lava Jato.

Ainda não se viu nenhum líder de movimento de rua enrolado na bandeira do ‘Fora, Temer.” Mas convém não cutucar a rua com o pé. Em comunicado conjunto, os movimerntos anotaram: “Nosso mote será: Brasil sem partido, pois não queremos um STF que se dobre às vontades deste ou de qualquer outro governo, agindo com lentidão para salvar os que têm foro privilegiado, utilizando-se dele para escapar da Justiça.”

Também nesta segunda-feira, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, divulgou despacho que fez acender uma luz amarela no painel de (des)controle do Planalto. Relator da ação que pede a cassação da chapa Dilma –Temer, Benjamin indeferiu pedido da defesa da ex-presidente petista para que fossem realizadas novas diligências. Sustentou que esse tipo de providência pode estender o processo “ao infinito, sem possibilidades concretas de conclusão.”

Lendo-se a justificativa de Benjamin de trás para a frente, fica claro que o ministro quer encerrar a encrenca, submetendo seu voto à consideração do plenário do Supremo. Os autos estão fornidos. Realizaram-se perícias no papelório de gráficas que simularam prestação de serviço à campanha de Dilma, quebraram-se sigilos bancários e fiscais, ouviram-se 42 testemunhas.

Se quiser, o relator Herman Benjamin pode votar a favor da lâmina, contra a permanência de Temer no Planalto. Não lhe faltam independência nem matéria-prima. Suponha que um voto aziago de Benjamin venha à luz até o final de março. Dependendo de como Temer e seus correligionários do PMDB se comportarem até lá, as ruas, que já pararam de abanar o rabo para o govenro, podem acabar mordendo.

NA POLÍTICA DE BRASÍLIA, A UNIÃO FAZ A FARSA

MANOBRA PRÓ-MOREIRA REBAIXA O TETO DO GOVERNO

MICHEL TEMER DISPÕE DE UM LATIFÚNDIO LEGISLATIVO

SUPREMO SERVE REFRESCO PARA RENAN NOVAMENTE

Já virou novela o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, da ação que pede a proibição da presença de réus nos cargos que estão na linha de sucessão da Presidência da República. Esses cargos são, pela ordem: presidente da Câmara, do Senado e do próprio Supremo.

O tema voltou ao plenário do Supremo na primeira sessão do Judiciário neste ano de 2017. Dependendo do resultado, o réu Renan Calheiros teria de deixar o comando do Senado poucas horas antes da eleição do seu sucessor, Eunício Oliveira. De repente, surgiu um pedido de vista redentor do ministro Gilmar Mendes. E a plateia foi privada novamente de assistir ao Super-Renan enfrentando um constrangimento.

Foi a segunda vez que o Supremo serviu refresco para Renan nessa matéria. Em dezembro de 2016, às vésperas do início do recesso parlamentar, o poderoso senador desrespeitou uma ordem judicial do ministro Marco Aurélio Mello, que ordenara sua saída do comando do Senado. E o plenário do Supremo passou a mão nos cabelos implantados do senador, desautorizou Marco Aurélio e inventou uma saída sui generis: réu não pode assumir a Presidência da República, mas nada impede que continue na Presidência do Senado. Um acinte.

Hoje, havia cinco votos a favor do entendimento segundo o qual réus não podem permanecer na linha de sucessão do Planalto. Faltava um voto para que a tese saísse vitoriosa, o que empurraria Renan para fora do cargo pouco antes da substuituição natural. Além de Gilmar Mendes, votaria Cármen Lúcia, a presidente do Supremo. O suspense foi mantido num instante em que assumem o comando no Senado e na Câmara políticos delatados por executivos da Odebrecht. Vai começar tudo de novo.

ESCOLHIDO DE TEMER FICARÁ DISTANTE DA LAVA JATO

Em articulação meticulosa, a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, afastou o ministro a ser indicado por Michel Temer dos processos relacionados à Lava Jato. Ela cuidou de fechar as portas da Segunda Turma, o colegiado que cuida do petrolão, empurrando o futuro ministro para a Primeira Turma, que nada tem a ver com o escândalo da Petrobras.

Há no Supremo 11 ministros. Além dos julgamentos em que atuam juntos, no plenário, os magistrados se dividem em duas turmas: a primeira e a segunda. Cada turma tem cinco membros. Cármen Lúcia, como presidente da Corte, não participa de nenhuma delas. Com a morte de Teori Zavascki, há duas semanas, abriu-se uma vaga na Segunda Turma, aquela que é responsável pela Lava Jato.

Pelo regimento interno do Supremo, a poltrona de Teori deveria ser ocupada pelo futuro indicado de Temer, que herdaria todos os processos do ministro morto. Em sábia decisão, Temer avisara que só anunciaria o nome do seu escolhido depois que o Supremo apontasse um substituto para Teori na relatoria Lava Jato. Com isso, o presidente da República evitou que o acusassem de tentar interferir num processo em que ele, seus auxiliares e aliados são protagonistas de delações.

Sem alarde, Cármen Lúcia estimulou o colega Edson Fachin a migrar da Primeira para a Segunda Turma do Supremo. Nesta terça-feira, véspera o fim das férias do Judiciário, Fachin formalizou o desejo de consumar a transferência. Ele será acomodado na poltrona que era de Teori Zavascki. E participará do sorteio que definirá o novo relator da Lava Jato junto com os outros quatro membros do colegiado: Celso de Mello, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Dias Tofoli.

Consumada a articulação, não restará ao futuro indicado de Temer senão contentar-se com uma vaga na Primeira Turma, longe da Lava Jato. A exclusão só não foi integral porque os processos do petrolão que envolvam chefes de Poderes terão de ser obrigatoriamente submetidos ao plenário do Supremo, não à Segunda Turma. Assim foi feito, por exemplo, nos processos que demandavam providências contra Eduardo Cunha na época em que ele era presidente da Câmara.

TRÊS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

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LULA TEM QUATRO DIAS PARA SE LIVRAR DE UM FIASCO

PSL

O festejado roteirista de cinema Billy Wilder enumerou 11 mandamentos que devem ser seguidos por quem deseja se dar bem no ofício. Diz o 6º mandamento: “Se você está tendo problemas com o terceiro ato, o verdadeiro problema está no primeiro ato.”

A quatro dias da fatídica votação do impeachment no plenário da Câmara, Lula, autoconvertido em heroi da resistência, tropeçou no terceiro ato. Hoje, sua presença em cena leva mais votos para o cesto da oposição.

Se Wilder estiver certo, o real problema está no primeiro ato, aquele em que Dilma telefonou para Lula e avisou: “Eu tô mandando o ‘Bessias’, junto com um papel, pra gente ter ele. E só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse.”

Tomados em seu conjunto, os grampos que Sérgio Moro jogou no ventilador escancararam a manobra: Lula queria o foro privilegiado do STF, não a poltrona de ministro. Preocupava-se com o próprio pescoço, não com a pele de Dilma.

Lula tomou posse cercado pela claque do “não vai ter golpe”. Antes que pudesse sentar na cadeira, o ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu sua nomeação. Desde então, exerce a atribuição de ministro-chefe do quarto de hotel.

Recebe os políticos no escurinho da suíte. Com medo de grampos, exige que os celulares fiquem do lado de fora. Em tenebrosas transações, oferece mundos e, sobretudo, fundos a interlocutores de qualificação precária.

Lula não entrega a recompensa a vista. Emite metafóricos cheques pré-datados. Ministérios? Emendas orçamentárias? Só depois da votação, quando o governo poderá jogar ao mar ministros do PMDB sem correr o risco de perder as duas dúzias de votos que imagina possuir no partido do “conspirador” Michel Temer.

O sujeito saía dos encontros clandestinos interrogando seus botões: se Lula não consegue garantir nem a própria posse na Casa Civil, como acreditar que entregará o que promete?

A desconfiança potencializou-se depois que o procurador-geral Rodrigo Janot recomendou ao STF que torne definitiva a liminar que proibiu Lula de tomar posse. Como se fosse pouco, o chefe do Ministério Público Federal insinuou que pode processar Dilma por criar embaraços à Lava Jato ao fornecer a Lula o escudo do STF.

O 11º mandamento de Billy Wilder anota: ‘That’s it. Don’t hang around’. Em tradução livre: ‘Pronto. Dê o fora’. No caso de Lula, dependendo do resultado de domingo, pode significar algo assim: “Absorva o fiasco, convença-se de que você é um ex-Lula e vá brincar com os netos em São Bernardo. No mais, reze para estar solto em 2018.”

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OPOSIÇÃO ENCAÇAPOU DONA DA MESA E DOS TACOS

ComissaoImpeachment

A derrota sofrida por Dilma na comissão do impeachment desafia a lógica elementar de um torneio de sinuca. A oposição prevaleceu por 38 a 27 num jogo contra a dona da mesa, com as regras e os tacos da casa – e com o governo comprando quem pudesse lhe causar problemas.

Num golpemício realizado no Rio de Janeiro, Lula discursou: “A comissão acabou de derrotar a gente. Mas isso não quer dizer nada. A comissão foi montada pelo Cunha. É o time dele. A nossa luta vai ser no plenário. Domingo é que temos que ter clareza. Sabemos que temos que conversar com os deputados.”

Não é bem assim. Eduardo Cunha de fato tentou compor uma comissão com as suas digitais. Mas o STF, acionado pelo protogovernista PCdoB, redefiniu as regras, anulou os atos de Cunha e mandou refazer o processo. Em vez de chapa avulsa, os nomes foram indicados pelos líderes partidários, como queria o Planalto. A votação secreta tornou-se aberta. E o plenário apenas referendou os nomes dos líderes, elegendo um colegiado de maioria governista.

À medida que o torneio foi avançando, desapareceram na caçapa das ilusões o poder de sedução de Lula e o comando dos líderes dinheiristas sobre suas bancadas. De resto, percebeu-se que, sob a ruína produzida por Dilma, maiorias irresistíveis viram minorias especializadas em sobrevivência.

Nem nas suas contas mais pessimistas o Planalto imaginou que pudesse ser derrotado na comissão por uma diferença de 11 votos. A certa altura, sonhou com a vitória. Depois, imaginou que perderia por 33 a 32. Nas suas contas mais pessimistas, imaginou que faria 30 votos, contra 35 da turma do ‘Fora, Dilma’.

Num ponto, Lula tem razão: o governo terá de conver$ar muito com os deputados até a final de domingo. Se for encaçapada novamente no plenário da Câmara, Dilma chegará ao Senado em frangalhos.

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LULA TEM TODA RAZÃO: ESTÃO “CRIMINALIZANDO” O PT

LulaGlennGreenwaldDivulgacao

Em meio a críticas à imprensa, ao Congresso e à Lava Jato, Lula disse o seguinte ao jornalista americano Gleen Greenwald: “…Neste momento histórico, o que existe é a tentativa de criminalizar o PT, de tirar a Dilma e de tentar evitar qualquer possibilidade do Lula voltar a ser candidato a presidente neste país”,

Lula está coberto de razão. As cadeias de Curitiba encontram-se apinhadas de criminosos pilhados em obscuros negócios político-empresariais que resultaram em assalto à Petrobras e a outros cofres do Estado. Alguns já foram condenados. Outros confessaram seus crimes.

O PT enfiou a mão nesta cumbuca. Fez isso porque quis. Estão atrás das grades o tesoureiro João Vaccari Neto e o reincidente José Dirceu. Está preso também o sujeito que exercia em nome do PT a vice-presidência da Câmara, André Vargas. Vários cleptoaliados do PT são investigados no STF. O próprio Lula é alvo de inquéritos. Ou seja, o PT se autocriminalizou.

De fato, o Congresso tenta tirar Dilma da poltrona de presidente. O PT sabe do que se trata, já que pediu o impeachment de todos os presidentes da fase pós-redemocratização. Do bunker que instalou numa elegante hospedaria de Brasília, Lula guerreia para evitar a queda de sua ex-gerentona. Ele faz o diabo para enterrar o processo na Câmara. Se conseguir evitar que a tese do impedimento seduza 342 votos, o jogo estará jogado. Do contrário, a bola rolará para o Senado.

Quanto à “possibilidade de Lula voltar a ser candidato a presidente”, basta que cumpra os requisitos legais. Se ainda tiver condições de exibir a ficha limpa, ninguém poderá evitar. O PT não ousaria negar ao seu melhor representante a oportunidade de se defender na propaganda eleitoral.

DOIS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

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JUSTIÇA BARRA TRÊS MINISTROS DE DILMA EM 34 DIAS 

Dilma

É dura a vida de uma presidente fraca. Dilma Rousseff já não consegue nem nomear ministros em paz. Em 9 de março, o plenário do STF tachou de inconstitucional a nomeação de Wellington Lima e Silva para a pasta da Justiça. Procurador na Bahia, ele não poderia exercer outro cargo público, salvo de professor. Nesta terça-feira (12), a Justiça de Brasília enquadrou na mesma proibição Eugênio Aragão, um procurador da República que Dilma acomodara no lugar de Wellington.

Entre um veto e outro, o ministro Gilmar Mendes, do STF, atravessou na traqueia de Dilma uma liminar suspendendo a posse de Lula na Casa Civil da Presidência da República. Levantou-se a suspeita de que Lula tornara-se ministro de sua ex-subordinada apenas para obstruir a caneta do doutor Sérgio Moro, juiz da Lava Jato. O caso chegará ao plenário do Supremo na quarta-feira (20) da semana que vem.

Chegou-se à seguinte situação: no curtíssimo intervalo de 34 dias, o Judiciário comprou briga com a caneta da presidente da República uma, duas, três vezes. É um sinal dos tempos. Ou falta assessoria jurídica ao Planalto, ou sobra vontade de proteger os amigos ou o governo virou uma sucursal da Casa da Mãe Joana, que qualquer juiz se sente autorizado a esculachar.

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OPOSIÇÃO PEDE A CUNHA QUE FALTOSOS DO IMPEACHMENT PASSEM POR JUNTA MÉDICA

Camara 

A cinco dias da votação do pedido de impeachment, a oposição encontrou uma forma de dificultar a fuga de deputados governistas. Os rivais de Dilma Rousseff vão requerer ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o cumprimento do código de ética da Casa, que classifica como falta grave qualquer tentativa de fraude às votações. Deve-se a iniciativa ao líder do bloco oposicionista, Mendonça Filho (DEM-PE). Apoiam o requerimento todos os partidos da oposição: PSDB, DEM, PPS e Solidariedade.

Para aceitar o pedido de impeachment, remetendo-o ao Senado, os antagonistas da presidente precisam arrebanhar dois terços dos votos dos 513 deputados com assento na Câmara. Isso corresponde a 342 votos. Tudo o que o governo precisa fazer é evitar que esse placar seja atingido. Pode-se alcançar o objetivo de três maneiras: votando contra, abstendo-se de votar ou simplesmente ausentando-se do plenário. O Planalto aposta na terceira alternativa. Daí a reação dos oposicionistas.

“Qualquer deputado tem o direito de se ausentar. Mas terá de fazê-lo às claras, assumindo as consequências do seu ato”, disse Mendonça Filho. “Não vamos aceitar a apresentação de atestados médicos de ocasião. Se houver alegação de doença, terá de ser confirmada por junta do Departamento Médico da Câmara.”

No requerimento a Eduardo Cunha, chamado tecnicamente de “questão de ordem”, a oposição cita dois incicos do artigo 4º do Código de Ética da Câmara. Um deles sujeita a punição o deputado que “fraudar, por qualquer meio ou forma, o regular andamento dos trabalhos legislativos para alterar o resultado de deliberação”. Outro, enquadra quem “praticar irregularidades graves no desempenho do mandato ou de encargos decorrentes, que afetem a dignidade da representação popular.”

DOIS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

 Josias-de-Souza5

DILMA ODEIA VAZAMENTOS! E QUANTO AO ESGOTO?

Quando os petrolarápios começaram a suar o dedo na Lava Jato, Dilma apressou-se em declarar: “Não respeito delatores”. Pegou mal, já que madame havia sancionado a lei que deu à Lava Jato a ferramenta da colaboração premiada. Quando as vozes dos delatores começaram a ecoar segredos das arcas de 2014, Dilma se insurgiu contra os “vazamentos”. Nesta quinta-feira, acossada pela revelação dos segredos da Andrade Gutierrez, ela voltou a estrilar.

Em novo ‘golpemício’ realizado no salão de solenidades do Palácio do Planalto, a presidente queixou-se do “vazamento premeditado e direcionado”. Enxergou no noticiário a intenção de criar um “ambiente propício ao golpe”. E avisou à plateia-companheira: nos próximos dias, podem surgir novos “vazamentos oportunistas e seletivos.”

Espantosa época a nossa. Executivos de uma das maiores construtoras do país informam em depoimentos oficiais que derramaram dinheiro sujo nas arcas da campanha à reeleição de Dilma. Submetida à atmosfera malcheirosa, a presidente acha que pode adotar um discurso hidráulico e seguir em frente. Como se nada tivesse sido descoberto sobre o esgoto aberto na contabilidade do seu comitê.

Dilma se queixa da seletividade dos vazamentos. Mas seletiva mesmo são as suas reações. A presidente só reclama quando os jatos de lama lhe sujam os sapatos. Adora quando a goteira cai sobre a cabeça de personagens como Aécio Neves e Eduardo Cunha. Dilma talvez não tenha se dado conta. Mas no caso da Andrade Gutierrez, o lodo respingou no PT e também no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Golpe? Ora, francamente! Melhor trocar o lero-lero por meio quilo de explicações.

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ATÉ COLLOR FAZ POSE DE ÉTICO NO OCASO DE DILMA

CollorDilma

Antigamente, políticos e intelectuais gostavam de dizer que era preciso “pensar o Brasil ”. Hoje, qualquer pensamento sobre o Brasil corre o risco de ficar velho em dois minutos. Ou em uma delação. Se o PT no poder ensinou alguma coisa ao país foi que o inimaginável existe. Tudo o que veio antes parece nada perto do muito que está por vir.

Em menos de 48 horas, dois aliados notórios do governo se escandalizaram com o espírito de bazar que se apossou do governo Dilma. Primeiro foi Paulo Maluf, que se disse “enojado” com a troca de cargos e verbas por votos contra o impeachment. Agora é Fernando Collor quem se espanta com as transações:

“No meu governo, em nenhum instante houve qualquer tipo de negociação subalterna”, disse Collor num encontro promovido pela Confederação Nacional da Indústria.

“Em nenhum momento essa barganha foi feita”, prosseguiu Collor. “Em nenhum momento, nenhum dos meus ministros se mobilizaram no sentido de terem conversas menos republicanas com quem quer que seja.”

Collor tem uma relação atribulada com a verdade. Quando guerreava contra o impeachment, em 1992, seu governo também abriu o balcão. Operava-o, entre outros, um trator chamado Ricardo Fiúza, do antigo PFL. Foi ministro da Ação Social e da Casa Civil.

Mas é preciso reconhecer: perto do que sucede hoje, o governo Collor foi um convento. Vale a pena recuar o relógio para recordar uma página da história. Com a corda no pescoço, Collor tentou atrair o PSDB para o governo. Ofereceu o Itamaraty para FHC e a Infraestrutura para Tasso Jereissati, então presidente do partido.

O tucanato hesitou. Esteve na bica de embarcar. Livrou-se do fiasco graças sobretudo a barricadas erguidas por Mario Covas. A coreografia da recusa envolveu uma nota inusitada. Foi redigida pelo economista Edmar Bacha.

Levado a Collor por FHC e Tasso, o texto fazia referência à corrupção. No trecho mais duro, anotava que funcionários públicos deveriam ser proibidos de receber presentes ou doações. As palavras estavam endereçadas ao ministro Ricardo Fiúza, que admitira ter recebido um jet-ski de presente da empreiteira OAS.

Sabendo que Collor não poderia prescindir do PFL, os tucanos insinuaram que não aceitariam participar de um governo apoiado pelo arcaísmo. O tempo passou. E Collor foi escorraçado do Planalto pela via do impeachment.

O tempo passou mais um pouco. E FHC virou presidente com o apoio resoluto do PFL de Antonio Carlos Magalhães. O tempo continuou passando. E Lula, já acomodado na cadeira de presidente da República, incorporou Collor ao seu rol de apoiadores, entregando-lhe pedaços da Petrobras.

Pilhado pela Operação Lava Jato plantando bananeira nos cofres da BR Distribuidora, Collor recebeu em julho de 2015 a visita da Polícia Federal. Na sua residência brasiliense, os investigadores encontraram mimos que fazem do jet-ski de Fiúza um brinquedo de criança.

Collor guardava na garagem uma frota de carros de luxo, entre eles uma Ferrari vermelha (R$ 1,95 milhão), um Porsche preto (R$ 999 mil) e uma Lamborghini prata (R$ 3,9 milhões).

Ricardo Fiúza morreu de câncer em dezembro de 2005, meses depois da explosão do mensalão. Nessa época, era deputado federal pelo PP. O mesmo PP que hoje frequenta o noticiário numa condição paradoxal —com 32 filiados sob investigação na Lava Jato, o partido é assediado por Lula, que oferece mundos e, sobretudo, fundos ao PP em troca de votos contra o impeachment de Dilma.

Na reunião da confederação das indústrias, Collor recusou-se a dizer como pretende votar se o impeachment de Dilma chegar ao Senado. Invocou sua “condição ímpar” de presidente impedido para justificar o mistério. Foi explícito apenas ao tornar público seu espanto com o atual surto de fisiologismo.

De fato, é tudo muito espantoso. O brasileiro imaginava que o impeachment de Collor e a posse de Itamar Franco – o Michel Temer da época – entrariam para a história como marcos redentores. A promiscuidade de um PC Farias comercializando sua influência no governo e dividindo os lucros com o presidente pareciam ótimas oportunidades para o país tomar jeito. Mas deu chabu. Um escândalo produziu outro, e outro, e mais outro… Até desaguar na lama do mensalão. Que escorreu para o bueiro do petrolão.

Golpeado por Collor abaixo da linha da cintura na campanha presidencial de 1989, Lula guerreou pelo impeachment de 1992. Nessa ocasião, chamava Collor de “ladrão”. Presidente da República, Lula incorporou o “larápio” à sua base de apoiadores. Em 2009, Lula premiou o neocompanheiro com duas diretorias da BR Distribuidora, a poderosa subsidiária da Petrobras. Dilma manteve o descalabro.

Considerando-se os padrões morais que Collor imagina encarnar – “No meu governo, em nenhum instante houve qualquer tipo de negociação subalterna” -, Collor tem razões de sobra para se escandalizar. Quem poderia imaginar que, em plena era petista, Collor seria assentado na vizinhança de cofres públicos? Mais: quem poderia supor que Collor faria pose de ético ao lado de Dilma? O inimaginável, não resta dúvida, existe.

DOIS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

RUI FALCÃO DESEJA QUE O GOVERNO TOME PROVIDÊNCIAS CONTRA EMISSORAS DE TV

RuiFalcao

Em texto intitulado ‘Contra o golpe, petista não foge à luta’, o presidente do PT, Rui Falcão insinuou que o governo deveria adotar providências contra emissoras de rádio e TV que, segundo ele, divulgam e organizam o que chama de “golpe”. Falcão acomodou tais ações no mesmo patamar dos ajustes na economia.

“…O nosso governo precisa ter iniciativas no plano econômico e ações políticas para romper o cerco em torno dele”, escreveu Falcão no texto, que foi veiculado no site do PT e nas redes sociais. “Afinal, não é possível que emissoras de rádio e TV, concessões de serviço público, continuem, à margem da lei, propagando e organizando o golpe.”

Falcão não deu nome às emissoras que considera passíveis de sanção. Mas suas observações chegam quatro dias depois da posse de Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Nessa solenidade, a claque de sindicalistas e militantes de movimentos sociais que o PT levou ao Planalto entoou um dos bordões preferidos do partido: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

O coro foi reproduzido à noite, em reportagem do Jornal Nacional. Na sequência, o apresentador William Bonner leu manifestação da Globo: “…Na posse do ministro Lula houve palavras de ordem contra a Rede Globo. Entende-se o estado de espírito dos militantes e políticos ligados ao PT, principalmente depois da revelação oficial dos grampos autorizados pela Justiça. Mas nós repetimos mais uma vez: a imprensa não produz grampos, nem conduz investigações da polícia e da Justiça. A imprensa cumpre o dever de informar sobre elas sem restrições, como assegura a Constituição. E continuará assim.”

O texto de Rui Falcão ecoa um antigo sonho do PT de impor controles à mídia, especialmente a eletrônica. Ao realçar que as emissoras são “concessões de serviço público”, o presidente do PT insinua que o governo talvez devesse cassar tais concessões. Trata-se de uma bravata muito repetida pelos petistas em privado. Mas nem Lula nem Dilma ousaram convertê-la em ações práticas nos 13 anos de governos do PT.

Rui Falcão enalteceu as manifestações promovidas na sexta-feira por entidades sindicais e movimentos sociais a favor de Lula e do governo Dilma. Referiu-se a elas como atos “em defesa da democracia, da legalidade, contra o golpe jurídico-politico-midiático em andamento.” E criticou os analistas que atribuem maior importância às manifestações anti-Dilma, que tomaram as ruas no domingo anterior, 13 de março.

“Os comentaristas do quanto pior melhor preferem valorizar a marcha do dia 13, uma manifestação contra tudo e todos, que agrediu inclusive muitos que patrocinaram e participaram do evento”, anotou Rui Falcão. “O que se viu e ouviu naquele dia foi uma repulsa aos políticos e, pior ainda, à própria política, um movimento assemelhado ao fascismo.” Assim o presidente do PT definiu os protestos do dia 13, de dimensões históricas: um movimento de inspiração fascista.

De novo, o presidente do PT queixou-se da imprensa eletrônica: “…a multidão foi insuflada pela mídia monopolizada, que instiga a intolerância, o ódio e a violência – como registrou a ampla cobertura [do dia 13], em contraste com o ato da sexta-feira, quando o discurso do Lula foi boicotado nas transmissões de TVs. A ofensiva golpista não hesita em criar o caos no país para alcançar seu grande objetivo: depor a presidenta Dilma e assumir o governo sem eleições.”

Embora Falcão sonegue novamente o nome do alvo, sua crítica é claramente dirigida à GloboNews. O canal de notícias da Globo dedicou ampla cobertura às manifestações de sexta-feira. Mas não exibiu o discurso de Lula, transmitido por outras emissoras. Argumentou que houve “falta de segurança” para que suas equipes realizassem o trabalho. Profissionais da Globo e de outras tevês têm sido hostilizados em atos públicos por simpatizantes do govenro e militante do PT.

Rui Falcão traçou uma analogia entre os defensores do impeachment e os apoiadores da ditadura militar. “Diferentemente de outros períodos, em que os militares derrubaram governos populares, a tática atual, coordenada em todo o Continente, é o chamado golpe ‘constitucional’, em sintonia com setores do aparelho de Estado e apoiado pela grande mídia.”

Para o dirigente petista o que “garante a estabilidade e pode retomar o crescimento da economia é o governo Dilma.” Ele atribui importância capital a Lula: “Foi este o sentido da nomeação do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa Civil, para ajudar a presidenta e o país.”

A posse de Lula foi suspensa pelo ministro Gilmar Mendes, do STF. Mas Falcão anotou em seu texto que a conversão de Lula em ministro “não pode ser barrada por chicanas jurídicas e grampos ilegais.”

Os grampos a que se refere Falcão são, em verdade, interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal por ordem do juiz Sérgio Moro. O conteúdo dos diálogos escalou as manchetes porque o juiz da Lava Jato levantou o sigilo do processo.

* * *

DATAFOLHA: DILMA DÁ ABRAÇO DE AFOGADO EM LULA

DilmaLulaAbraco

Mesmo quem não entende nada de política é capaz de enxergar uma politicagem. É o que indica pesquisa Datafolha divulgada neste sábado. Nada menos que 73% dos entrevistados disseram que Dilma agiu mal ao converter Lula em ministro. Para 68% das pessoas ouvidas, Lula só aceitou o cargo para fugir dos rigores da caneta do juiz Sérgio Moro, escondendo-se atrás do foro privilegiado de ministro.

Tomados pelos números do instituto, Dilma e Lula protagonizaram um clássico abraço de afogados. A taxa de reprovação de Dilma bateu em 69%, roçando os 71% anotados em agosto de 2015, o mais alto já captado pelo Datafolha em 27 anos. O índice de rejeição de Lula atingiu 57%, um recorde – a pior marca havia sido registrada em setembro de 1994, quando 40% do eleitorado dizia que jamais votaria no morubixaba do PT.

Ao associar sua presidência às investigações que rondam Lula, Dilma deu as costas para o asfalto. No domingo passado, as ruas roncaram pelo impeachment, pela prisão de Lula e pela canonização do juiz da Lava Jato. Em resposta, Dilma trancou-se em seus rancores, trouxe o investigado para dentro do Planalto e declarou guerra ao magistrado da “República de Curitiba”. Quer dizer: comprou briga com o meio-fio.

O Datafolha inventariou os prejuízos: desde fevereiro, o apoio ao impeachment de Dilma cresceu oito pontos percentuais —foi de 60% para 68%. Subiu sete pontos, de 58% para 65%, a quantidade de brasileiros favoráveis à renúncia de Dilma.

Suspensa pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil ainda depende de um julgamento que ocorrerá no plenário da Suprema Corte. A essa altura, porém, o veredicto pouco importa. Dilma já associou sua combalida imagem às suspeitas que rondam Lula. No imaginário da plateia, restou a convicção de que, em política, nada se perde e nada se transforma. Tudo se corrompe.

27 fevereiro 2016 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

DOIS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

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VELHO AOS 36 ANOS, O PT VIROU UM PARTIDO GAGÁ

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O PT tornou-se um partido velho aos 36 anos de idade. Sofre com os percalços da velhice. Com deficiência neurológica, tem dificuldades para compreender sua própria realidade. Acorrentou-se à fábula da perseguição. O partido não se vê como um problema. O universo é que é o problema do PT.

Na véspera da grande festa de aniversário do PT, o diretório nacional da legenda divulgou mais uma de suas resoluções. No texto, denuncia a “ameaça à legalidade democrática” embutida na Lava Jato. Nessa versão, democracia é o PT se transformar em máquina coletora de dinheiro. E ditadura é o juiz Sérgio Moro e Cia. punirem o roubo.

O PT se refere a Lula como vítima de campanha “vil e asquerosa”. Querem impedi-lo de disputar a Presidência em 2018 – um “impeachment preventivo”. Injusto, já que Lula, por inimputável, dispõe de presunção vitalícia de inocência. O mito está casado com a honestidade. Até que a Odebrecht ou a OAS os separe.

O PT chama de golpe os processos que esquadrinham as arcas da campanha de Dilma. Natural. Depois que a defesa da presidente sustentou no TSE que o comitê não pode ser responsabilizado por eventuais verbas sujas doadas à campanha, todo mundo ficou desobrigado de fazer sentido no Brasil.

O documento do PT pede à militância partidária que fique em estado de “mobilização permanente”, para defender Dilma. Simultaneamente, o partido prepara um ataque à presidente. Elabora um programa econômico que propõe o avesso de tudo o que Dilma considera vital para superar a crise. Auto-oposição! Coisa de tantã.

O PT enxerga-se como uma família. Vivia às turras, mas se gabava de ser limpinha. Como toda família, o partido também está sujeito a apodrecer. Um dia aparece um primo escroque, dois ou três tios corruptos, um pai aproveitador, uma mãe maluca… Quando tudo ocorre ao mesmo tempo, ou o partido enlouquece ou se faz de gagá.

* * *

PT ATACA DILMA POR RUÍNA QUE AJUDOU A PRODUZIR

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Tornou-se muito fácil identificar um petista numa roda de políticos. Ele será sempre o que estiver falando mal de Dilma com maior estridência. Reunido no Rio de Janeiro, o diretório nacional do PT caprichou no oportunismo. Criticou duramente a ruína em que se encontra assentada a administração Dilma. E pregou a ressurreição da política econômica de Lula. Esqueceu dois detalhes:

1) foi Lula quem tirou a gênia da garrafa. É um pouco tarde para obrigá-la a entrar de novo;

2) o PT ajudou a produzir os escombros. O partido fez o pior o melhor que pôde.

O petismo tem saudades da era Lula porque foi no reinado dele que o PT tornou-se uma máquina coletora de dinheiro público. Foi uma fase em que o velho lema do ‘rouba mas faz’, piscando num letreiro invisível ao fundo, fornecia a imunidade preventiva para um sistema de conveniências em que o suposto proveito substituía a ética. Hoje, a roubalheira exposta pela Lava Jato fulminou a ética. E a estagflação fez sumir a falsa noção de proveito.

É nesse contexto que o PT traz à luz o seu Plano Nacional de Emergência, um programa econômico desconectado da realidade. Aprovado sob aplausos generalizados, o texto sugere que os juros sejam reduzidos na marra, propõe o escancaramento das arcas já faliadas e prega o uso das reservas cambiais para financiar obras públicas.

Desde que abandonou a noção de responsabilidade fiscal, Dilma vem tocando as coisas na base do vai ou racha. O PT informa que, neste ano de eleições municipais, a coisa terá que ir mesmo rachada. Com o apoio de Lula, o partido critica o ajuste fiscal que não deixou Joaquim Levy executar. E ignora que Lula inaugurou o seu reinado, em 2003, produzindo superávits de caixa de dar inveja nos liberais tucanos. Coisas do passado.

Hoje, reduzido à condição de organização partidária com fins lucrativos, o Partido dos Trabalhadores, 100% financiado pelo déficit público, virou a principal evidência de que o poder longevo pode levar qualquer agremiação a atingir a perfeição da ineficiência impudente. Com os ideais dissolvidos em corrupção, o PT dedica-se a desfazer o que ele mesmo fez. É um caso raro de autodissolução.

23 fevereiro 2016 A COLUNA DE JOSIAS DE SOUZA

DOIS TEXTOS DE JOSIAS DE SOUZA

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CAMPANHA DE DILMA VAI À CADEIA COM SANTANA

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A ordem de prisão expedida pelo juiz Sérgio Moro contra o marqueteiro João Santana faz cintilar nos autos da Lava Jato uma pérola encontrada pelos investigadores no celular de Marcelo Odebrecht, preso em junho de 2015. Em mensagem endereçada a um executivo de sua empreiteira, Odebrecht anotou: “Dizer do risco cta [conta] suíça chegar na campanha dela.

O “risco” insinuado no texto de Odebrecht é óbvio: parte dos serviços de marketing prestados à campanha de Dilma Rousseff pode ter sido liquidada com dinheiro roubado da Petrobras. Mais: os recursos de origem espúria foram enviados ilegalmente para o estrangeiro. Essa combinação de fatores como que arrasta para o centro do palco a Justiça Eleitoral.

A força-tarefa da Lava Jato informa que não investiga crimes eleitorais. Ocupa-se de delitos como corrupção e lavagem de dinheiro. Nesse contexto, João Santana desce à fogueira em posição análoga à de João Vaccari Neto, o ex-tesoureiro petista. Ou seja: recebeu verba roubada da Petrobras por conta dos vínculos com o PT. O que fazia Santana para o partido? Campanhas eleitorais, entre elas a presidencial.

Correm no Tribunal Superior Eleitoral processos que, em algum momento, podem resultar na perda dos mandatos de Dilma e do vice Michel Temer. Hipótese que levaria à convocação de novas eleições. Numa das ações alega-se que a chapa presidencial deve ser cassada porque foi eleita em campanha bancada com verba suja. Os ministros do TSE farão papel de idiotas se não examinarem o tema a sério.

De acordo com os investigadores, a Operação Acarajé, como foi batizada essa nova fase da Lava Jato, está escorada numa fartura de provas documentais. Em meio aos papéis, há uma carta da mulher e sócia de João Santana, Mônica Moura, cuja prisão também foi determinada por Moro. A missiva foi endereçada a Zwi Skornicki, apontado como operador de petropropinas.

Na carta, a mulher de Santana indica duas contas bancárias. Uma aberta em Nova York. Outra, em Londres. A Polícia Federal informa que ambas estão associadas a uma terceira conta, mantida na Suíça. Junto com as contas, Mônica enviou cópia de um contrato celebrado anteriormente com offshore vinculada à Odebrecht. Deveria ser usado como modelo para as remessas do operador Zwi.

Guiando-se pelos indícios, a turma da Lava Jato identificou repasses milionários ao casal da marquetagem. Com a ajuda da Receita Federal, farejou-se até a aquisição por João Santana de um apartamento de luxo em São Paulo com verba entesourada no exterior. Sérgio Moro já determionou o bloqueio do imóvel. Servirá para ressarcir o Estado em caso de eventual condenação.

Numa entrevista que concedeu em 2013, nas pegadas do ronco do asfalto, o mago do marketing do PT disse que “os protestos não podiam ser em relação a Dilma.” Nessa tentativa de interpretar a voz das ruas, Santana disse que madame estava a salvo da revolta porque seria “honesta”, teria “comando” e estaria “gerindo bem” o governo.

Nessa mesma conversa, conduzida pelo repórter Luiz Maklouf Carvalho, João Santana sapecou: “A Dilma vai ganhar no primeiro turno, em 2014, porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer, lá embaixo, e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo.”

A vitória de Dilma foi apertada. Sem vocação para antropófagos, os “anões” Aécio Neves e Marina Silva aliaram-se no segundo turno. E o tucano bateu com o bico na trave. Dilma prevaleceu graças ao enredo ficcional que Santana criou na propaganda eleitoral. Junto com as urnas, abriram-se as barragens da fábula. Escorreram indicadores tóxicos: inflação, estagnação, desemprego e mais corrupção. Muita corrupção.

Já está claro que o discurso de João Santana – ela “é honesta”, “tem comando” e “está gerindo bem” – virou pó. A honestidade de Dilma, responsável legal pelas arcas de sua campanha, está sub judice no TSE. Seu comando revelou-se inexistente. E sua capacidade gerencial é do tamanho da cabeça de um alfinete. Resta saber o que será feito do mandato de Dilma. A campanha vitoriosa de 2014 receberá voz de prisão junto com o marqueteiro João Santana.

* * *

DEPOIS DO “NÃO SABIA”, DESPONTA O “NADA A VER”

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A campanha de Dilma Rousseff não tem nada a ver com os depósitos feitos por baixo da mesa em contas do marqueteiro João Santano no exterior, como não teve nada a ver com as doações eleitorais que empreiteiras fizeram com dinheiro roubado da Petrobras.

Hoje, as suspeitas são reforçadas por um inédito volume de evidências documentais, incluindo uma carta da mulher de Santana, Mônica Moura, dirigida a um operador de petropropinas, e uma mensagem em que Marcelo Odecrecht recorda a um executivo de sua construtora que o melado escorreria até “a campanha dela.” Anteontem, Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, dissera que borrifou R$ 7,5 milhões no comitê reeleitoral. Mas a campanha de Dilma não tem nada a ver com isso.

Depois que a ordem de prisão do primeiro-casal do marketing escalou as manchetes, Dilma reuniu-se com os ministros que lhe são mais próximos. Em declarações vazadas pelo Planalto, a presidente se disse “tranquila”. Heim?!?!? “Não tem nada a ver com a minha campanha”. Hã, hã…

O presidente do PT, Rui Falcão, informa que o partido também não tem nada a ver com os depósitos clandestinos em favor de João Santana, como não teve nada a ver com a conversão de verbas subtraídas dos cofres da Petrobras em doações registradas na Justiça Eleitoral como se fossem limpinhas. Hoje, a Polícia Federal realça que Santana fez fortuna tocando campanhas do PT. Anteontem, o tesoureiro petista João Vaccari Neto descera até o xadrez por receber pixulecos em nome do partido. Mas o PT não tem nada a ver com isso.

Já meio cansado da tese do “eu não sabia”, o brasileiro precisa acreditar que o comitê eleitoral de Dilma e o PT não têm nada a ver com os pagamentos suspeitos porque a tese é muito coerente. Dilma, Rui Falcão e todos os petistas graduados deveriam mandar tatuar na testa a expressão “nada a ver”. Isso os pouparia de falar e desobrigaria os repórteres de perguntar. Ora, personagens que não tiveram nada a ver com nada durante 13 anos, por que teriam agora?

Há um único problema: se a Lava Jato já provou alguma coisa, foi que, no Brasil dirigido pelo petismo com o auxílio dos seus cleptoaliados, ‘nada’ é uma palavra que ultrapassa tudo.

NO TITANIC DO PT, LULA É O MAESTRO DA ORQUESTRA

Josias de Souza

titanic

A Lava Jato instilou no PT um ambiente de salve-se quem puder. Quem não está preso no porão de Curitiba foge para os barcos salva-vidas. Ouve-se ao longe a orquestra tocando enquando desliza pelo salão. O naufrágio do PT imita o afundamento do Titanic. Lula segura sua orquestra no salão.

Ao convocar o maestro do petismo e a mulher dele, Marisa Letícia, para prestar depoimento sobre o triplex do Guarujá, o Ministério Público de São Paulo injetou dramaticidade na cena. Há nove dias, com água pelo pescoço, com as caldeiras explodindo e tubarões entrando pelas escotilhas, Lula esforçava-se para manter a pose.

“Não sou investigado”, jactava-se a um grupo de blogueiros. “Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tem, nesse país, uma viva alma mais honesta do que eu”, autovangloriava-se. Era como se ensinasse aos seus músicos: “Toquem com brio, nem uma nota fora do lugar!”

As palavras de Lula dão um significado – ou pelo menos um fundo musical – ao grande desastre do partido que já foi considerado o transatlântico da ética. O maestro e a ex-primeira dama serão inquiridos como “investigados”, informa o Ministério Público. E o maestro, esgrimindo a batuta: “Com brio, companheiros, com brio!”

Sem se dar conta do desnível acentuado do chão e da água que começa a invadir o trombone e os trompetes, o PT prepara para a segunda quinzena de fevereiro sua festa de aniversário. Incluirá na celebração uma homenagem a Lula. A data ainda não foi fixada. Uma boa sugestão seria 17 de fevereiro, dia do depoimento do maestro. Ajustando-se o repertório, a orquestra petista passaria a executar hinos religiosos. Até o fundo.

BURROS SECOS

Josias de Souza

Alguém deveria dar um conselho ao líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE). Algo assim: “Caro líder, traga sempre suas opiniões na coleira.”

Nesta segunda, após reunião em que Dilma pediu o apoio dos aliados para o orçamento de 2016, deficitário em R$ 30,5 bilhões, Guimarães sapecou:

“Eu não estou vendo grandes dificuldades na discussão e aprovação deste orçamento. Ele é real, é transparente, ele não está maquiado, ele reflete a realidade do Brasil.”

Real e transparente: ainda não tinham sido inventados nomes mais bonitos para falência e desfaçatez.

Guimarães confia piamente nas previsões anotadas pelo governo na peça deficitária:

“No próximo ano, a inflação vai cair para 5,4%. Isso é um sinal da recuperação da economia brasileira. A coisa está pegando o ritmo. Nós temos que botar o pé no acelerador.”

De duas, uma: ou Guimarães ouviu as explicações de Dilma e tirou suas próprias confusões ou a presidente da República se guia pela máxima segundo a qual um governo que está dando com os burros n’água deve se apoiar nos burros mais secos.

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LAVA JATO TESTA VONTADE DO BRASIL DE VIRAR SÉRIO

Josias de Souza

Odebrecht

Se a história do Brasil ensina alguma coisa é que, acima de um certo nível de poder e de renda, ninguém é culpado pelo que fez ou deixou de fazer. Episódios como o impeachment de Collor e as condenações do mensalão seriam meros pontos fora da curva. A reiteração dos escândalos cuidou de restabelecer o respeito à tradição. Nesse contexto, a operação Lava Jato representa um teste.

A prisão dos presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, apenas elevou o grau de complexidade do teste. Até ontem, a dupla era interlocutora de presidentes da República e frequentadora de cerimônias de premiações de empresários do ano. Hoje, ambos serão apresentados aos colchonetes da carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

Todo mundo sabe que as empreiteiras têm sido parte do poder de fato no Brasil. Ninguém ignora que a mistura de eleições e dinheiro produziu um meio-ambiente apodrecido.

O que há de diferente agora é que a força-tarefa da Lava Jato diz ter provas que permitem dissecar as relações do dinheiro com o poder como nunca antes na história desse país. São evidências documentais e testemunhais da tácita aliança da promiscuidade empresarial com o amoralismo político. Uma coligação que deu em coisas como a pilhagem da Petrobras.

No Brasil tradicional, os crimes cometidos acima de um certo patamar social são como cachorros que correm atrás dos carros. Eles perseguem quem os cometeu por algum tempo, dão a impressão de que vão estraçalhá-los, mas logo desistem.

A Lava Jato tornou um mais difícil a tarefa de deixar tudo pra lá, de fingir que nada está acontecendo. Mas, como sucedeu com outras investigações, essa operação é apenas mais um teste. Testa-se até onde vai a vontade do Brasil de se tornar um país sério. Ou menos esculhambado.

TAPANDO O NARIZ NA PODRIDÃO DO VIZINHO

Josias de Souza

O governo da Venezuela se recusa a autorizar a aterrissagem de um avião da FAB que levaria uma comitiva de senadores brasileiros a Caracas na quinta-feira. Pense nisso sem pensar no resto. Esqueça a precariedade da situação política venezuelana. Pense só nisso. O apoio incondicional do Brasil a um regime que silencia seus opositores encarcerando-os já era esquisito. Agora, visto assim, isoladamente, sem explicações, o veto à viagem dos parlamentares torna esse apoio um escárnio.

Dilma Rousseff pegou em lanças pelo colega venezuelano Nicolás Maduro na visita que fez a Bruxelas na semana passada.

Discursando para seis dezenas de chefes de Estado na cúpula de países da Europa e da América Latina, a presidente do Brasil, língua em riste, sapecou: “Rechaçamos a adoção de quaisquer tipos de sanções contra a Venezuela.”

Decorridos seis dias, o petista Jaques Wagner, ministro da Defesa de Dilma, repassou ao presidente do Senado, Renan Calheiros, a constrangedora informação de que o governo companheiro da Venezuela não quer deixar pousar o avião da FAB que levaria a Caracas, na quinta-feira, uma comitiva de senadores brasileiros. Procede assim porque sabe que os passageiros da aeronave vão falar de democracia e pedir a libertação dos opositores que Maduro mandou encarcerar.dilma-y-maduro

No discurso de Bruxelas, Dilma não se manifestou apenas em nome dos brasileiros. Soou como se tivesse procuração de um pedaço do globo: “Nós, países latino-americanos e caribenhos, não admitimos medidas unilaterais, golpistas e políticas de isolamento”, disse ela. Suprema ironia: mantido o veto à visita dos senadores, ficará entendido que a Venezuela não precisa de ajuda externa para se isolar.

Auto-proclamada líder regional, Dilma afirmou que a Unasul “trabalha arduamente” para restabelecer o diálogo político na Venezuela. Diálogo? Ora, para um governo que mantém atrás das grades seus antagonistas o melhor diálogo é aquele em que o outro é obrigado a calar a boca. Ex-presa política, a presidente brasileira sabe como essa engrenagem roda.

Dilma referiu-se à América Latina como uma “zona de paz”, na qual “estão consolidados a democracia e o Estado de Direito”.

Preso por agentes da “Inteligência” venezuelana sem um mandado judicial, o prefeito da área metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma, decerto enxerga em seu país outro tipo de Estado – um Estado de exceção. Em greve de fome há 22 dias, Leopoldo Lópes, outro oposicionista enjaulado por Maduro, não precisaria torturar as próprias tripas se os venezuelanos respirassem ares democráticos.

Quando o Paraguai acionou sua Constituição contra o presidente Fernando Lugo, impedindo-o por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado, o governo brasileiro surtou. Não havia tropas nas ruas de Assunção, a imprensa paraguaia trabalhava normalmente, o destituído aceitou a destituição… Tanta normalidade levou o Brasil a comandar a articulação que enxotou o Paraguai do Mercosul a pontapés. Na mesma época, a Venezuela foi admitida no grupo. Desde então, o Paraguai teve de ser adulado para retornar ao clube, e o odor que vem da Venezuela tornou-se lancinante.

Já estava claro que Dilma não tem a intenção de respeitar as cláusulas democráticas do tratado que rege o funcionamento do Mercosul. Mas a presidente brasileira poderia ter um pouco mais de apreço por sua própria biografia.

Maduro apodrece aceleradamente. Tapar o nariz já não resolve. A deterioração exige de Dilma algo mais. Nem que seja uma cara de nojo.

O NIRVANA AUTOCONGRATULATÓRIO

Josias de Souza

Foi ao ar na madrugada deste sábado (13) uma conversa afável de Dilma Rousseff com Jô Soares. A presidente se divertiu muito. Brincou com os problemas nacionais como quem brinca de roleta russa, com a certeza de que as críticas que seus antagonistas manuseiam estão completamente descarregadas de fundamento.

Descobriu-se, finalmente, por que a presidente não faz uma autocrítica. Dilma se autoconcedeu uma isenção para exercer seu ineditismo na Presidência, para ser a solução natural de todos os problemas que ela não admite ter criado.

Dilma alcançou a fase do pós-cinismo. Passou a acreditar piamente em todas as presunções que construiu a seu próprio respeito. Isso inclui aceitar a tese segundo a qual tem uma missão no mundo divina e, portanto, inquestionável. Não deve contas senão à sua própria noção de superioridade.

Instada a comentar a crítica da oposição de que descumpriu suas promessas, Dilma como que apagou da memória os quatro anos do seu primeiro mandato. “Como eu estou no quinto mês, estou entrando no sexto mês de mandato, é muito difícil dizer que eu não cumpri minhas promessas de campanha”, disse. “Eu tenho um mandato para cumpri-las.”ttj

Não é o cinismo de Dilma que assusta. O cinismo é usual na política. A presidente poderia dizer que aderiu ao programa dos tucanos como um aceno ao diálogo. Ou que escolheu o Joaquim Levy para a Fazenda porque ele era um espião disfarçado do PT na diretoria do Bradesco. Qualquer coisa seria aceitável. O que assusta mesmo é a percepção de que Dilma não está sendo cínica. Ela acredita que sua missão especial no planeta lhe dá o direito de desafiar a lógica.

O Brasil precisa de um ajuste, mas “não passa por uma situação em que ele é estruturalmente doente”, disse Dilma. “Pelo contrário, ele está momentaneamente com problemas e dificuldades. Por isso, é importante fazer logo o ajuste para a gente sair mais rápido da situação.”

Quando terminam as razões cínicas, sobra a licença que Dilma deu a si mesma para não explicar por que deixou de fazer o ajuste em 2011, quando tomou posse pela primeira vez. O país teria desativado a armadilha da economia criativa bem mais rapidamente. E com um custo social muito menor.

A inflação alta não lhe dá agonia? “Eu fico bastante agoniada, Jô. É das coisas que mais me preocupam. Eu sei que é passageiro, mas eu sei também que, mesmo sendo passageiro, afeta o dia a dia das pessoas. Fico preocupada porque eu acho que nós vamos ter que fazer um imenso esforço. Nós iremos fazer o possível e o impossível para o Brasil voltar a ter uma inflação bem estável, dentro da meta.”

Quando termina a lógica, sobra o direito que Dilma julga ter de apagar da memória os anos em que tolerou índices de inflação bem acima da meta de 4,5%. Chamou de normais taxas que roçavam o teto da meta, de 6,5%. Hoje, cavalgando uma taxa anualizada de 8,47%, Dilma crê que ela desceu de Marte.

Todo ser humano cultiva um desejo oculto de ser excepcional. Mas poucas pessoas chegam ao estágio em que se encontra Dilma. No Programa do Jô, a presidente atingiu uma espécie de nirvana autocongratulatório.

Perto do final da conversa, Dilma lamentou: “No Brasil tem uma coisa que eu não vejo em outros países. Nós somos mais críticos conosco do que nós merecemos. […] Um povo que não tem esperança também não constrói o futuro. Nós precisamos de esperança, precisamos da confiança do povo em si mesmo.”

É mais fácil cultivar a esperança quando se tem carro com motorista na porta, avião no hangar, um palácio como moradia e toda a mordomia que o dinheiro público é capaz de pagar. A coisa fica mais difícil no instante em que começa a sobrar mês no fim do salário. Piora um pouco mais quando a principal responsável pelo oco na geladeira acha que não deve nada para ninguém. Muito menos um pedido de desculpas.

AINDA ESTÁ NO POÇO, MAS PAROU DE CAVAR

Josias de Souza

“Investimentos” foi a palavra que Dilma Rousseff mais pronunciou no discurso de lançamento do seu plano de concessões (pode me chamar de privatizações). Soou 30 vezes. Somando-se todas as variações – ”investindo”, “investe”, “investir” e “investidores” -, chega-se a 37 repetições. Os verbo “crescer” e o substantivo “desenvolvimento” mereceram cinco menções cada.

No discurso de Dilma, os termos de conotação otimista prevaleceram com sobras sobre os vocábulos que que exalam pessimismo. A oradora falou sete vezes em “dificuldades”. Citou “ajustes” duas vezes. E referiu-se à “crise” uma mísera vez. Ela estava decidida a demarcar o início de “uma progressiva virada de página, gradual e realista.”AUTO_marcoaur1

Virada de página? Só se for para trás. Os desdobramentos da Operação Lava Jato e a estagflação que conspurca 2015 avisam que Dilma é, por ora, apenas um passado lamentável para fazer você desconfiar do presente e desacreditar do futuro. Porém…

Já é possível afirmar que o segundo mandato de Dilma vive um momento diferente. A presidente continua no fundo do poço. Mas ela já parou de cavar. No plano de concessões à iniciativa privada, por exemplo, Dilma escondeu a pá ao ressuscitar o modelo adotado sob FHC, que sempre refugara.

Dilma depende de um grande, de um enorme, de um extraordinário esforço conjunto para alcançar a beirada do poço. Porém, a conjuntura já não rosna para o seu governo com a mesma intensidade.

As panelas silenciaram momentaneamente. As ruas não saíram mais de casa. E a oposição mudou de assunto. Não fala mais em impeachment. Reunida nesta terça-feira, em Brasília, a cúpula do PSDB preferiu tratar da estratégia a ser adotada na votação da proposta de redução da maioridade penal.

Os aliados da onça Renan Calheiros e Eduardo Cunha também demonstraram que, nas matérias que realmente importam no Congresso, Dilma não perde por esperar. Ganha. À custa de muita distribuição de cargos, o Planalto prevaleceu nas votações relacionadas ao ajuste fiscal.

Os presidentes do Senado e da Câmara ainda poderiam criar problemas com o projeto que reduz as desonerações da folha de 56 setores da economia, pendente de votação. Mas Cunha parece ter enxergado na proposta uma oportunidade a ser aproveitada. E Renan mostrou que dispõe mais de gogó do que de infantaria.

Auxiliares de Dilma constatam que a dieta, os passeios de bicicleta e a queda do pedestal a transformaram num ser mais amistoso. Ela trata o articulador político Michel Temer e o ministro Joaquim Levy com rara deferência. Procede assim a despeito do nariz torcido do petista Aloizio Mercadante para ambos. No mais, há tempos que Dilma não passa carraspanas em seus interlocutores mais frágeis. Nas palavras de um observador, “as dificuldades humanizaram a presidente.”

Ironicamente, a principal ameaça ao bom humor de Dilma é o partido dela. Mas Lula e os dirigentes do grupo majoritário do PT agem para colocar num cercadinho os radicais do Congresso Nacional do partido, que começa nesta quinta-feira (11), em Salvador.

De resto, os petistas com alguma capacidade de reflexão já se deram conta de que não haverá Lula em 2018 sem Dilma. E ela, por enquanto, não é senão uma presidência por fazer. A popularidade é miúda. Os problemas, graúdos. A inflação faz sobrar mês no fim do Bolsa Família. O PIB em frangalhos mastiga o emprego. E os serviços públicos nunca estiveram tão próximos de se tornar algo inteiramente novo. Caos não falta.

DilmaBet

TERCEIRIZAR O BRASIL

Josias de Souza

No dia 13 de agosto de 2013, Dilma Rousseff sancionou a Lei Anticorrupção. Trombeteou-se na época a versão segundo a qual haveria uma onda de probidade no país. Isso porque, nos casos de assalto aos cofres públicos, a nova lei permitiria a punição também das empresas corruptoras, não apenas dos seus executivos. O cerco da Lava Jato às empreiteiras silenciou as trombetas. Entoa-se agora um coro de inspiração ecológica: “antes das baleias, salvem as empreiteiras.”sacosDinheiro

O governo negocia acordos de leniência que livrem as empreiteiras da proibição de firmar novos contratos com o Estado. E um grupo de deputados trama modificar a lei para impedir que empresas corruptas sejam declaradas inidôneas e excluídas dos negócios estatais. Alega-se que as empresas são grandes e importantes demais para quebrar. Se é assim, haveria uma forma mais eficaz de resolver o problema: em vez de ser comprado pelas empreiteiras, o governo seria administrado por elas, mediante terceirização.

Um governo do cartel das empreiteiras substituiria o governo constitucional com muitas vantagens. Todos as obras públicas seriam, naturalmente, tocadas pelo cartel. O que eliminaria as licitações e a roubalheira que elas ensejam. Congressistas e servidores públicos passariam a receber salários do cartel. Além de não poder mais se vender, teriam de bater ponto.

Não haveria riscos à democracia. A cada quatro anos, o povo seria chamado a eleger uma das empreiteiras do cartel para assumir o comando do país. Camargo Corrêa, Odebrecht, Engevix, OAS, Galvão Engenharia, UTC, Toyo Setal… A abundância de alternativas propiciaria uma sensação de alternância no poder. Com uma vantagem: ninguém poderia acusar as empreiteiras de receber dinheiro delas mesmas para fazer um caixa dois de campanha.

FESTEJANDO A PRISÃO DE “GENTE IMPORTANTE”

Josias de Souza

O Partido dos Trabalhadores exibe em rede nacional de rádio e tevê mais duas inserções comerciais do lote a que tem direito neste primeiro semestre de 2015. Começaram a ser veiculadas neste sábado (6) e voltarão ao ar na próxima terça-feira (9). Numa das peças, o partido se jacta de ter ajudado a “reescrever a história do Brasil”. Ao enumerar as realizações dos seus 12 anos de poder, o partido que carregou o mensalão e o petrolão para o verbete da enciclopédia celebrou: “Mais gente importante pôde ser investigada e presa por corrupção do que em outros governos.”

Pelo que se observa no país do lado de fora do comercial do PT, o partido executou seu papel com tal empenho que forneceu até os condenados e os supeitos importantes que passaram ou ainda se encontram no xilindró. Pela penitenciária da Papuda passou toda a ex-cúpula do PT: José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha… Pelos colchonetes da carceragem da PF no Paraná já passaram o tesoureiro João Vaccari Neto, diretores da Petrobras nomeados sob Lula e empreiteiros que lavaram propinas na caixa registradora do PT.

No segundo comercial, o PT se autoelogia por ter lutado sempre “do lado certo”. A começar pela luta contra a ditadura. A peça termina assim: “Agora, o PT está na luta contra a terceirização, que fere os direitos do trabalhador. E vai lutar até o fim, porque o PT continua do lado certo, ao lado do Brasil e dos que mais precisam.” O partido se absteve de esclarecer de que lado está nas restrições que Dilma Rousseff impõe aos trabalhadores na obtenção de direitos trabalhistas como o seguro desemprego e abono salarial.

Por tudo o que trombeteia em seus comerciais, o PT talvez devesse ampliar o pedaço do seu orçamento dedicado ao marketing. Depois de tantos anos no poder, a propaganda é o melhor que o partido consegue fazer. Nos comerciais do PT, a realidade está cada dia mais inacreditável.

E OS RESPONSÁVEIS???

Josias de Souza

O Banco Central elevou a taxa de juros pela sexta vez consecutiva – foi de 13,25% para 13,75%. O índice ajuda a compor um quadro infernal. Mistura-se ao desemprego em alta, à inflação resistente e ao PIB no freezer.

A CUT apressou-se em soltar uma nota para maldizer a novidade. Braço sindical do PT, a central disse coisas definitivas sem definir muito bem as coisas. Bateu no pecado sem dar nome aos pecadores.

O texto anota:

“Para a CUT, a medida é ineficaz no combate à inflação, encarece o crédito para consumo e para investimentos, causa mais desemprego, queda de renda, piora o cenário de recessão da economia e ainda contribui para diminuir a arrecadação do governo, que está atrelada ao nível de atividade econômica. E mais: concentra cada vez mais renda nas mãos de banqueiros e especuladores financeiros.”

Noutros tempos, sob governos tucanos, a CUT reagia à crise econômica abrindo uma faixa na qual se lia: “Fora, FHC.”

fora fhc

Hoje, a entidade poupa Dilma Rousseff.

Absteve-se de citar até mesmo o nome do ministro Joaquim Levy (Fazenda).

Pode-se imaginar o que a CUT faria se o inquilino do Planalto fosse Aécio Neves.

Dilma tem reclamado muito da falta de solidariedade dos aliados. Deveria acender uma vela para louvar a indulgência da Central Única dos Trabalhadores.

A PRESIDÊNCIA ACIDENTAL DE LEVY

Josias de Souza

Levy

Quando Dilma Rousseff anunciou que um eleitor de Aécio Neves cuidaria da chave do cofre, a plateia ficou com todo o direito de suspeitar que o poder tinha mudado de mãos e que o verdadeiro chefe do Estado brasileiro passaria a despachar no Ministério da Fazenda. O supercorte orçamentário de R$ 69,9 bilhões anunciado nesta sexta-feira funciona como uma posse informal da Presidência da República pelo ministro Joaquim Levy, mesmo que temporariamente. Levy queria mai$. Dilma brinca com o perigo ao desagradá-lo.

Algumas pessoas avaliam que a ascensão de Levy coloca as coisas finalmente nos seus devidos lugares. Enquanto os petistas fazem cara de nojo, Christine Lagarde, a diretora-gerente do FMI, avalia que o ajuste fiscal —pode me chamar de sorvo de gigante— e a alta de juros colocam o Brasil “claramente no caminho certo”. Lagarde espera mais do governo Levy: uma reforma tributária que barateia os negócios e um plano de concessões à iniciativa privada que melhore a infraestrutura.

Quem ouve as palavras de madame Lagarde fica com a impressão de que a turma da CUT está sendo injusta ao criticar Levy, suas boas intenções e seu aperfeiçoamento em Chicago. Este ainda é um governo do PT. Mas a economia derrete, o PMDB se assanha e o Lula virou crítico número um da Dilma. Alguém tinha de cuidar do expediente. Depois de tudo o que disse na campanha eleitoral, Dilma se desmoralizaria se aparecesse na tevê defendendo o aperto no seguro-desemprego. O papel de marionete constrange menos que o de mentirosa.

A duração da presidência acidental de Joaquim Levy depende da capacidade que o ego de Dilma terá de convencer a presidente das vantagens de manter a ilusão de que é ela quem manda. Um governo Levy breve seria um alento para a conta bancária dele, que voltaria a receber o salário de diretor do Bradesco. Para Dilma 2, a saída do presidente informal antes do fechamento do buraco aberto por Dilma 1 empurraria o Planalto para o insondável.

TV CÂMARA EXIBIU UMA DIVERTIDA PROGRAMAÇÃO

Josias de Souza

CamaraGalerias

Normalmente, o plenário da Câmara costuma produzir cenas de televisão que, quando as pessoas ligam, não conseguem mais desligar – dormem instantaneamente. Porém, sucedeu algo diferente nesta terça-feira. Transmitido pela TV Câmara, o debate sobre o ajuste fiscal de Dilma Rousseff, também conhecido como arrocho trabalhista, resultou numa divertida programação. Houve um pouco de tudo – de manifestantes mudos da CUT a brigas típicas de pátio de colégio. Para arrematar, um panelaço.

Houve também uma chuva de dólares cenográficos sobre a bancada de deputados petistas. Sindicalistas da Força Sindical lançaram sobre o plenário centenas de notas falsas do que chamaram de “PTro Dollar“. No centro das cédulas, fotos de Lula, Dilma e João Vaccari Neto, o ex-tesoureiro do PT, preso em Curitiba. O papelório foi despejado depois que um discurso do líder tucano Carlos Sampaio incendiou as galerias, despertando uma fagulha que ardia desde o início da sessão.

Sampaio espicaçou os petistas, obrigados a se alinhar à supressão de benefícios trabalhistas. As galerias pegaram fogo depois que o líder tucano chamou os companheiros de Dilma de “caras de pau” e “corruptos”. Reunida pelo deputado Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, a infataria da Força Sindical soltou a língua. Entre outras coisas, gritou: “Ô Dilma, vai se fodeeeeeer, o Brasil não precisa de vocêêêêê…”

Submetido aos impropérios e ao temporal que insinuava a presença de deputados vendidos em plenário, o presidente da sessão, Eduardo Cunha, viu-se compelido a mandar esvaziar as galerias. Junto com as dezenas de ruidosos representantes da “Força”, determinou que saíssem também meia dúzia de gatos pingados da CUT, braço sindical do PT. Por solidariedade aos petistas, estavam mudos. Limitavam-se a empunhar em silêncio cartolinas com inscrições contrárias ao arrocho de Dilma.

Houve tumulto. E a sessão foi suspensa por 20 minutos. Tempo para que os telespectadores fossem estourar uma pipoca. O mais inusitado estava por vir. O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), ex-ministro dos Esportes, varrido da Esplanada na pseudofaxina ética do primeiro mandato de Dilma, foi ao microfone para pedir providências a Eduardo Cunha.

Orlando Silva sugeriu ao presidente da Câmara que requisitasse as imagens do circuito interno, para identificar os sindicalistas que fizeram chover “dólares” no plenário. Presidente do PPS, Roberto Freire também foi ao microfone. Recordou uma cena ocorrida há 15 dias, durante a votação do projeto da terceirização. Disse que manifestantes da CUT, então barulhentos, agrediram o deputado Lincoln Portela (PR-MG). Freire lamentou que nenhum petista ou comunista do ‘B’ tenha se animado a cobrar providências contra os agressores de Lincoln.

Orlando abespinhou-se. De costas para Freire, disse que o apoio do colega aos abusos das galerias envergonham a Câmara. Cutucando o ombro do interlocutor por trás, Freire tentou argumentar. “Não encosta a mão em mim”, reagiu Orlando, injetando ares adolescentes na cena. “Olha a minha integridade física”. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) tomou as dores do colega, interpelando Freire. Depois, reclamou no microfone que fora tocada por ele no braço.

Nesse ponto, o deputado Alberto Fraga (DEM-DF), um dos líderes da bancada da bala, saiu em defesa de Freire. Súbito, pronunciou a seguinte frase: “Na política, mulher que bate duro como homem tem que apanhar como homem.” Jandira esperou alguns segundos pela reação de Eduardo Cunha. E nada. “Vai permitir isso?”, ela indagou. E Cunha: “Não posso censurar nenhum deputado.” Sobreveio um rififi típico de pátio de colégio.

Língua em riste, o deputado Glauber Braga (PSB-RJ) insinuou que processaria Fraga. “A ameaça de qualquer parlamentar não vai me intimidar em 0,01% nas ações contra esse tipo de medida machista, violenta e retrógada. A fama dele no Distrito Federal de matador não vai me intimidar.” Fraga refugou a pecha. E bateu: “O que não aceito é a cretinice, a hipocrisia de se fazer de vítima. O povo me elegeu como mais votado por ser firme. E não vai ser um guri que vai me calar.”CamaraPanelaco

Seguiu-se um coro de rima pobre, entoado pela bancada feminina da Câmara: “A violência contra a mulher não é o Brasil que a gente quer!” A expressão foi repetida uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes. Vários parlamentares sugeriram a Eduardo Cunha que suspendesse a sessão. Não foram atendidos. Jandira Feghali ainda subiria à tribuna para afirmar que o comentário de Fraga não ficará impune. Seu desafeto chamou-a de “atriz”.

Pouco antes, os telespectadores da TV Câmara foram brindados com uma cena de comédia-pastelão. Líder do governo, o deputado José Guimarães (PT-CE) foi cochichar com Eduardo Cunha. Ao debruçar-se sobre a mesa da presidência, esbarrou no copo d’água, quebrando-o. À distância, Chico Alencar (PSOL-RJ) gritou: “Agressão, agressão, agressão.” E Cunha, entre risos: “O governo fez um estrago na mesa, quer inundar o Parlamento.” Guimarães, meio sem graça, inventou uma simpatia: “Copo quebrado é sinal de vitória.”

De fato, o governo prevaleceria pouco depois sobre a oposição. O texto-base da primeira medida provisória do pacote fiscal de Dilma foi aprovado. Parodiando um famoso samba, a oposição puxou um coro: “PT pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão…” Minutos depois, materializaram-se no plenário várias panelas. E os oposicionistas promoveram um panelaço no plenário. Batendo no ritmo do samba, retomaram a cantoria: “PT pagou com traição a quem…” Nenhuma emissora ofereceu à audiência programação tão divertida. Tornou-se impossível concorrer com a TV Câmara.

SE FOSSE UMA EMPRESA, DECRETARIA FALÊNCIA

Josias de Souza

Partido abre falência? Partido fecha as portas? Pode-se penhorar a geladeira de um partido? O programa que o PT exibe na noite desta terça-feira – dez minutos em rede nacional de rádio e tevê – é o mais suscinto e eficiente roteiro de uma ruína partidária. Como tantos outros, o PT tornou-se um partido com fins lucrativos. É 100% financiado pelo déficit público. Mas como não tem a configuração formal de uma empresa, a legenda não abre falência, não fecha as portas.mentiroso

Nada mais sintomático do que a ausência de Dilma Rousseff no programa do PT. É como se a presidente da República, com a imagem no chão, temesse levar o seu prestígio ao subsolo. Nada mais elucidativo do que o papel que Lula decidiu desempenhar na peça. Com tantos temas relevantes a tratar – crise econômica, ajuste fiscal, roubalheira na Petrobras… – o morubixaba petista optou por tratar de terceirização, como se esse fosse o grande problema da República.

Sem Dilma e com esse Lula autolimitado, o que mais chamou a atenção no programa do PT foi uma piada. O partido fez pose de paladino do combate à corrupção. E comprometeu-se a expulsar dos seus quadros os filiados que forem condenados. Ora, ora, ora… Fala sééério! É verdade que João Vaccari Neto tornou-se uma condenação esperando para acontecer. Mas e quanto ao Dirceu? E o Genoino? E o Delúbio? E o João Paulo?

No tempo em que era apenas uma organização partidária, o PT tinha na ética o seu principal capital. Desde que passou a se confundir com uma organização criminosa, o partido tem no cinismo o seu grande patrimônio. No programa desta terça, o PT sustenta que não é a única agremiação a ter filiados pilhados com a mão na cumbuca. Até a oposição está enrolada, realçou o PT no programa. O mais dramático é que, nesse ponto, o partido está coberto de razão. O sistema político-partidário do Brasil apodreceu. E já não há um PT capaz de exigir a separação entre as coisas nossas e a cosa nostra.

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?

Josias de Souza

O PT e Dilma tornaram-se sócios de um empreendimento crivado de ironias. Por um desses caprichos do destino, o partido exibe um programa de dez minutos em rede nacional nesta terça-feira, mesmo dia em que a Câmara começa a votar o ajuste fiscal do governo.DilmaPT

Em vez de apoiar enfaticamente a iniciativa, a legenda sobe no telhado. Enquanto o Planalto mobiliza sua infataria para restringir a concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários, o PT se dirige ao planeta Marte, pregando um ajuste que proteja os mais pobres e preserve os direitos dos trabalhadores.

Dilma, por sua vez, preferiu não participar da propaganda petista. É a primeira vez que ela se ausenta de um programa do gênero desde que virou presidente. Achou melhor não roçar sua já arranhada imagem nas manchas de óleo queimado que sujam a logomarca do PT.

É como se o petismo e a presidente se olhassem no espelho e tivessem sobressaltos. Ambos perguntam a si mesmos: o que você está fazendo aí? Ou: por que você anda em tão má companhia?

Os petistas não estavam preparados para Dilma 2, a caída em si. No propinoduto da Petrobras, os companheiros atingiram o ápice do cinismo capitalista. Mas no ajuste fiscal comportam-se como ingênuos socialistas distraídos sendo usados por um governo terceirizado ao Bradesco. Pela corrupção, abandonaram seus ideais. Por Joaquim Levy, teriam de aderir ao inimigo.

Dilma encontrou a solução na semântica. Chama a rendição de amadurecimento. O PT, porém, ainda se preocupa com o que a posteridade falará dele quando puder se manifestar. A posteridade pode mesmo ser traiçoeira.

Mas sem algum tipo de ajuste, o flagrante do PT que ficará fixado para a posteridade já está escolhido. No futuro, quando for necessário identificar a legenda para os mais jovens – Bolsa Família?, Fome Zero?, Pronatec? – bastará lembrar a conjunção da falta de ética com a ruína econômica e o problema estará resolvido.

“Ah, aquele era o PT?”

UM TEXTO DE JOSIAS DE SOUZA

PF apura no caso Camargo Corrêa desvio de R$ 71 mi

Uma parte da operação Castelo de Areia, deflagrada nesta quarta (24), trata da investigação de supostos desvios de verbas destinadas a obras públicas.

O miolo do inquérito inclui a suspeita de corrupção numa obra financiada pela Petrobras: a Refinaria Abreu e Lima, também chamada de Refinaria do Nordeste.

Está sendo erigida no município de Ipojuca, na região metropolitana do Recife (PE). Prevê-se que será inaugurada em 2011.

Vai produzir nafta, gás e óleo diesel.

A obra consta do PPA (Plano Plurianual) do governo. O documento estima-se que, entre 2008 e 2011, serão despejados no canteiro da Abreu e Lima R$ 10,1 bilhões.

O Orçamento da União do ano passado destinou à refinaria, menina dos olhos do pernambucano Lula, R$ 389,7 milhões.

A PF suspeita que a obra converteu-se num foco de desvios de verbas públicas. O prejuízo da Viúva é estimado em R$ 71,9 milhões.

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UM TEXTO DE JOSIAS DE SOUZA

PT VIRA UM JÓQUEI CEGO MONTADO NA MULA-SEM-CABEÇA

Onde está o PT? A legenda sumiu do Congresso depois que Lula a abandonou. O presidente deixou de prestigiar o seu partido.

Alega que já não vale a pena ser visto com o PT nos salões de Brasília. Tem medo de que o partido não saiba se comportar e o embarace na frente do PMDB.

O desaparecimento do PT levou muita gente no Congresso a imaginar que a legenda tivesse morrido. Mas tudo leva a crer que não é verdade.

O PT teria apenas abdicado da vida legislativa. Não aguentava mais apanhar. Um assessor do Planalto conta que Lula vinha aplicando surras frequentes no PT.

Segundo uma testemunha tucana, as coças do presidente eram diárias. Um senador do consórcio governista afirma que Dilma ajudava a bater.

Outro congressista “aliado” acrescenta que, quando não estava apanhando de Lula e de Dilma, o PT era obrigado a ajoelhar no milho, sob açoites do Renan.

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