ZÉ FIDÉLIS, O LUSITANO DA PAULICEIA

 

Zé Fidélis

Gino Cortopassi, o Zé Fidélis, o Craque das Paródias, nasceu a 23.09.1910, em São Paulo (SP), onde veio a falecer a 15.03.1985. Foi cantor, radialista, compositor, jornalista, escritor, humorista e um dos pioneiros do humor radiofônico brasileiro.

Zé Fidélis sempre se apresentava como “o inimigo número um da tristeza”. De fato, sua forma característica de fazer humor podia dar a ele o direito de conceber essa autoafirmação. Ele fazia humor como poucos, tendo por base as paródias de músicas de sucesso e as imitações irônicas e inocentes, o que despertava certa simpatia dos que eram atingidos por elas. O humor ingênuo e o modo como interpretava as piadas de português fizeram dele um humorista incomparável nesta arte.

Estreou no programa radiofônico Cascatinha do Genaro, de João Batista de Almeida, nos anos 1930. Foi nesse programa que Gino incorporaria o personagem Zé Fidélis, tornando-se muito famoso como “one-man-show” em palcos de projeção, como o Cassino da Urca e o Quitandinha. Os 42 discos gravados, entre 78 RPM e LPs, ajudaram a catapultar sua carreira. Em 1958, foi o pioneiro no Brasil em gravar um LP de 33 rotações somente com humorismo. A maioria de suas gravações era de sua autoria, ou em parcerias. Grande parte desses registros encontra-se ainda à venda em sebos virtuais.

Vinis de Zé Fidélis à venda em sebos virtuais

Fez composições para outros artistas, sem ser paródias, como os boleros Meu Castigo, gravado pelo Duo Guarujá, e Horas Felizes, gravado pela dupla Ouro e Prata. Em 1972, a famosa dupla Alvarenga e Ranchinho gravou, pela RCA, uma paródia de sua autoria intitulada Meu Boi, sobre o sucesso de Ronnie Von em 1966, Meu Bem, uma regravação da música Girl, dos Beatles.

Nos dias de hoje, seu admirável talento humorístico certamente o faria um artista rico. Porém, apesar de ser muito elogiado por vários críticos renomados, terminou seus dias numa clínica de repouso em São Paulo.

Sua extraordinária capacidade em fazer o público rir e, até mesmo, esbagaçar-se na gargalhada, também era transferida com talento para as páginas que deixou escritas. Em 1934, Zé Fidélis passou a assinar a coluna Sarravulho, no maior jornal humorístico do Brasil, O Interventor que, depois da Ditadura Vargas, passou a se chamar O Governador. Como Sarravulho era a última página do jornal, muitos, até hoje, acham que este era seu título principal. Ali, Zé Fidélis manteve-se, ininterruptamente, até 1959 – 25 anos!

Posteriormente, com 1.300 páginas contabilizadas, resolveu transformá-las em livro, lançando História do Mundo; Binho, Mulata e Vacalhau; Teatro Maluco; Meningite Aguda; Lira Arreventada; Sarravulho; Muito Sangue e Pouca Areia; Bersus a Gasugênio e A Ópera Pela Tripa.

Seleção Canalhinha, lançado no ano de 1968, com prefácio de Manezinho Araújo, é seu 10º livro, restando-lhe, segundo declara em sua apresentação, matéria para mais de outros 10, e o título nada tem a ver com a Seleção Brasileira de Futebol, esporte sobre o qual nada entende e se declara o “Zé ruim de bola”. Trata-se, portanto, de uma coletânea acanalhada de textos seus extraídos das velhas páginas de O Sarravulho.

Para que vocês tenham uma ideia de seu estilo escrachado e muito portuga-lusitano, escolhi duas páginas de Seleção Canalhinha. Na primeira, um pedaço do que ele denomina Anúncios Desclassificados e, na segunda, na parte dedicada aos versos, a poesia Voa Rusposta.

Como pequena amostra de seu alentado trabalho no campo das paródias, apresento-lhes a marchinha Casa da Tereza, de Artur Fonseca, Reinaldo Ferreira e Matos Ferreira, gravada por Zé Fidélis em 1954, e calcada sobre o fado Uma Casa Portuguesa, imortalizado pela cantora lusitana Amália Rodrigues.

MARIVALDA, A FORROZEIRA DA AMAZÔNIA

Em minha vida circense – fui, por seis meses, ajudante de palhaço no Circo Cometa do Norte – e na observação dos circos que frequentei desde a infância, aprendi muitos macetes e tiradas chistosas, além de cançonetas, pegadinhas, charadas e paródias que, na atualidade, me proporcionam sucesso garantido nas comunidades a que pertenço, a Malhação e a Hidroterapia, onde disponho de plateia cativa para o palhaço que continuo teimando em não deixar de ser.

Plateia sempre renovada, pois há os que desistem das atividades logo no começo, os que só as praticam enquanto a mensalidade é custeada pelo plano de saúde, os que nelas ficam durante o prazo determinado pelo médico, enfim, por vários motivos que me asseguram sempre caras novas para se divertirem com as besteiras que falo ou com as presepadas que apronto. Nestes 10 anos de Malhação e 7 de Hidroterapia, conheci mais de 500 pessoas diferentes nessas coletividades flutuantes, dentre os que vieram, os que foram e os que ficaram.

Adiante, darei um apequena amostra dos bordões mais apreciados de meu vastíssimo repertório.

Nas festinhas de fim de ano, declamo o poema a seguir, que me foi transmitido pelo Palhaço Garrafinha:

O CEGO TIMÓTEO

Pelas tortuosas ruas de Jerusalém
Seguia a procissão
Uma multidão de homes, mulheres e crianças
Acompanhava o andor
Na frente, ia o Cego Timóteo
Tocando seu flautim

De repente, num raio de luz
Apareceu um anjo, que perguntou:
– Quem de vós está tocando esse instrumento?
E o Cego respondeu:
– Sou eu, senhor, o Cego Timóteo
O mais humilde dos teus servos!
E o anjo, num gesto de piedade divina
Pousando a mão sobre a cabeça do Cego
Assim falou:
– És tu, Cego Timóteo
Que enxergar as belezas do mundo
Nunca conseguiu?

– Vai tocar ruim assim na puta que te pariu!

Com o Palhaço Zé Gaiola, aprendi esta paródia da marchinha Querido Adão, de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, gravação de Carmen Miranda para o Carnaval de 1936:

Adão, Adão, meu querido Adão
Que é que tu tens
Que andas bancando o inocente?
– Foi um lero-lero com a Eva
E quem pagou foi a coitada da serpente!

Adão no Paraíso, coitado, andava liso
Não tinha o que vestir
Adão no Paraíso andava bancando o coió
Não tinha calça e muito menos paletó
Eva de traiçoeira trepou na goiabeira
E Adão ficou debaixo esperando com a peneira
Mas foi tão grande a gulodice do Adão
Que Eva foi quem teve a indigestão

Veio o Anjo Vingador
Deu um chute no Adão
Pegou também a Eva
E mandou lamber sabão
– Eles não ficam aqui, Seu Noé
O Éden não cabaré!

Lá na Malhação, temos um colega alemão fogoió do olho azul, o Schiffer, casado com uma bela morena sergipana. Todos os anos, eles vão às terras natais do casal, primeiro Santa Catarina, depois Sergipe. Por isso, os aniversários, costumo largar esta quadrinha, que a todos muito diverte:

Schiffer vêi de Blumenau
Depois foi pra Aracaju
Tomar bãe de mar no Norte
Depois de tomar no Sul!

Essa eu adaptei do xote Viagem da Carmelita, gravado por Marivalda, minha personagem desta semana, cujo trabalho vim a conhecer no início dos Anos 1980, num desses programas culturais da TV que passam pela manhã, fazendo a Dança do Jumento. Imediatamente, me amarrei em seu visual, em sua atuação e em sua música, chegando a pensar assim: – Se eu fosse dono dum circo, Marivalda seria a estrela, a artista principal do espetáculo.

E com muita razão. Foi ela a primeira cantora a implantar o humor na música forrozeira, coisa que veio a se adequar perfeitamente com o que ela sabe fazer. Foi, também, a idealizadora da Banda e Bloco Jegue Elétrico, até hoje o maior sucesso no verão do Sul da Bahia.

E aí comecei a adquirir seus elepês, gamadão por sua música, que tem muito da Amazônia, do Nordeste, do Brasil e da vida circense.

Maria Valníria Pinheiro, a Marivalda, nasceu na Década de 1940 no sítio Milhã Velha, município de Milhã, região central do Ceará, filha de Joaquim Luiz Pinheiro e Geralda Lopes Pinheiro, integrando-se à numerosa família de 18 irmãos, oriundos de 3 casamentos de seu genitor. Perdendo sua mãe aos 3 anos de idade, Marivalda descobriu, desde a infância, sua propensão para a arte de cantar.

Aos 14 anos, iniciou-se no cenário artístico, cantando em sua cidade natal, em festejos de igrejas, cidades e sítios de sua região. Aos 15 anos, seu pai decidiu colocá-la num colégio interno na cidade do Recife (PE), espécie de orfanato do Juizado de Menores, temendo ele pelo futuro e pela liberdade de escolha de vida de sua filha.

E foi no Recife que Marivalda optou por ser uma forrozeira pé-de-serra. A 31.05.1957, na Festa de Coroação de Nossa Senhora do Carmelo, houve um grande evento em frente à igreja da Padroeira, e lá, numa apresentação das meninas do orfanato, com Marivalda, fazendo parte do grupo, conheceu ela naquele dia Jackson do Pandeiro, que a convidou para com ele dividir o palco, na interpretação do xote Moxotó e do rojão O Canto da Ema. Era o começo de sua carreira.

No princípio, não foi fácil. Depois de perambular por várias localidades à procura de apoio artístico, e não o encontrando, pensou que seu sonho já estivesse se acabando e partiu para seu primeiro casamento, aceitando a rotina de ser dona de casa e criar filhos.

Anos depois, em 1973, desfeito o casamento e com três crianças para sustentar, Marivalda arribou para São Paulo com seus filhos, disposta e exposta a tudo, com a firme determinação de lutar pelo sonho que havia deixado para trás. Em 1974, gravou seu primeiro disco, Você Pode Ficar Rico na Zoeira, uma produção de Pedro Sertanejo, pela gravadora Japoti. No estúdio de gravação, conheceu um gaúcho de Santa Maria, o produtor Zeca Costa, com quem até hoje está casada, e o Maestro Oscar Gomes, seu padrinho artístico, que a levou para a gravadora RGE/Fermata. Desde então, entre discos de vinil e CDs, já gravou 28 álbuns.

Em 1976, quando numa turnê pela Amazônia, conheceu Luiz Gonzaga, que também fazia temporada por lá. Juntando-se à caravana do Rei do Baião, fazia a abertura de seus shows. Gonzagão aconselhou-a a ficar naquela região, que era constituída por nordestinos e seus descendentes, público consumidor do gênero, o que seria muito proveitoso, tendo ela aceitado essa abalizada opinião.

Em 1983, no auge da febre dos garimpos da Amazônia, Marivalda gravou uma fita Demo de 12 faixas com as músicas Mulher de Garimpeiro, Toco Cru, Pintinho no Galinheiro, Faisquei e Peguei Fogo, Eu Quero É Mais, Xaxazando e Rezando, Festa na Farinhada, Gavião Calçudo, Papagaio Dudu, Paixão e Desejo, Lambada Lambida e Baião de Propriá. Tendo 4 dessas faixas censuradas, Marivalda agiu independentemente, lançando a fita por conta própria, que alcançou a marca de 80.000 cópias vendidas no mercado paralelo para os garimpeiros.

Diante desse fenômeno, a gravadora Copacabana agiu depressa e, através de seus representantes na Amazônia, contratou-a, lançando a fita Demo em elepê, que ultrapassou a marca de 100.000 cópias vendidas e tirou a cantora e compositora do anonimato.

Em 1984, em outro encontro com Luiz Gonzaga na Região Norte, ele declarou que o povo amazônida já conhecia Marivalda e o imenso valor de sua obra, e vaticinou que, um dia, a mídia nacional iria descobri-la, não importa a época, e revelaria essa grande artista, pois Marivalda, por sua garra e sua luta, merecia lugar de destaque na História da Música Brasileira.

Por várias vezes, em diversas localidades amazônicas, Marivalda dividiu o palco com Genival Lacerda, por quem tem grande respeito e admiração, João do Vale, Messias Holanda, Marinês e outros consagrados forrozeiros.

No fim da década de 1980, já na época em que o Forró tentava sobreviver ao sufoco que a mídia impôs à MPB, Marivalda viu-se compelida a valer-se de composições de duplo sentido e de arranjos mais modernos, lançando o LP Corrente de Força que, mesmo assim, tem músicas interessantes para se dançar. Este e outros produtos de sua lavra são facilmente encontrados nos sebos virtuais especializados. Basta pesquisar no Google. Do Corrente de Força, extraí o xote Viagem da Carmelita, de João Caetano e Sandro Becker, que vocês ouvirão a seguir.

LEILA SILVA

Três momentos de Leila Silva

A enxurrada avassaladora do rock, bossa nova e ie-iê-iê da Década de 1960 varreu do cenário artístico todos os grandes nomes da Velha Guarda da Música Popular Brasileira, assim acontecendo com Emilinha Borba, Marlene, Jorge Veiga, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo e muitos outros. Mas, vez em quando, ainda ouvíamos deles falarem. O caso de Leila Silva é impressionante. Desapareceu sem deixar rastros na mídia, perdurando somente na memória de seus fãs, como é meu caso.

Todos os anos, no período que vai de dezembro até fevereiro, tempo de férias, eu me lembro de minha fase de solteiro em Balsas (MA), na mesma época da enxurrada, quando saía com os amigos seresteiros, nas madrugadas, cantando na porta das garotas da cidade. No final de 1960, o que dominou nosso repertório foi o samba-canção Não Sabemos, de Rubens Caruso, gravação de Leila Silva, que dedicávamos a alguns de nossos ex-amores. Era o tema tapas e beijos dito de amena forma.

Leila Silva foi revelada ao grande público exatamente no início da década cruel para a MPB e, de imediato, conheceu estrondoso êxito, graças a sua voz maleável e extensa, de timbre inconfundível, e capacidade interpretativa. Configurava-se numa cantora para todos os gêneros e todas as músicas, além de sambista verdadeira, artigo que, mesmo no Brasil, berço do samba, não mais é muito encontrável. Alguém aí ainda se recorda dessa grande estrela?

Inezilda Nonato da Silva, a Leila Silva, filha de Seu Raimundo e de Dona Raimunda da Silva, nasceu a 07.06.1935, em Manaus (AM), na Rua Ajuricaba, Bairro da Cachoeirinha, onde foi criada. No início da Década de 1950, seu pai, que era telegrafista, resolveu buscar uma localidade que oferecesse melhores condições de vida para os 10 filhos, transferindo-se, então, para a cidade de Santos (SP) com a família.

Aos 15 anos de idade, Leila demonstrou grande tendência artística. Estudou piano durante seis anos além de receber aulas de violão.

Começou a cantar na Rádio Atlântica, de Santos, acompanhada pelos conjuntos regionais de Pascoal Melilo e de Maurício Moura, Mais tarde, ingressou na Rádio Clube, e Rádio Cacique, ambas de Santos. Na primeira, chegou a ter um programa exclusivo. Nessa época, ganhou o Troféu A Melhor Intérprete, do jornal A Tribuna, e foi coroada Rainha dos Músicos de Santos.

Também era crooner da Orquestra do Maestro J. Pinto, em bailes e no dancing Samba Danças, e também da orquestra Los Cubancheros, do Maestro Cabral, com repertório dominantemente de mambos, rumbas e outros ritmos latino-americanos.

A Capital Paulista, para onde se mudou em 1959, passou a ser sua meta natural. Naquele ano, foi contratada pela gravadora Califórnia e estreou em discos cantando os sambas-canções Resignação, de Plínio Metropolo, e Mentira, de Denis Brean e Osvaldo Guilherme. Nessa época, por sugestão de Denis, adotou o nome artístico de Leila Silva.

No mesmo ano, levada pelo compositor Diogo Mulero, o Palmeira, transferiu-se para a gravadora Chantecler, gravando o tango Mar Negro, de Leo Rodi e Palmeira, e o samba-canção Irmã da Saudade, de João Pacífico e Portinho.

Em 1960, gravou, com a Orquestra do Maestro Guerra Peixe, o tango Tango Triste, de Osvaldo de Souza e Haroldo José, e o samba-canção Sarjeta, de J. Luna e Clodoaldo Brito, o Codó. Em setembro daquele ano, teve bom êxito com a balada Perdão Para Dois, de Palmeira e Alfredo Corleto, e, em novembro, estourou no mercado fonográfico com o samba Não sabemos, maior sucessos de todos os tempos de sua carreira. Ainda no mesmo ano, lançou seu primeiro LP, Perdão Para Dois, com orquestras regidas pelos Maestros Élcio Alvarez e Guerra Peixe.

Em 1961, gravou os sambas Justiça de Deus, de Normindo Alves e Ruth Amaral e Nossa União, de Vicente Clair; o tango Promessa, de W. White, versão de Teixeira Filho; o rock-balada Adeus Amor, de Haroldo José e Eufrásio Boreli, e o bolero Na Solidão do Meu Quarto, de Rubens Machado. Ainda em 1961, lançou pela Chantecler o LP Quando a Saudade Apertar.

No ano de 1962, gravou, ainda na Chantecler, o bolero Vai Dar no Mesmo, de Edmundo Arias e Teixeira Filho; as baladas Mais Uma Vez, Adeus, de G. Auric e D. Langdon, versão de Teixeira Filho, e Meu Amor Pertence a Outra, com adaptação de Teixeira Filho, sobre tema de Beethoven, e o samba O Que É Que Eu Faço?, de Ribamar e Dolores Duran. Naquele ano, assinou contrato com a gravadora Continental embora ainda lançasse mais três discos pela Chantecler.

Em seu disco de estreia na nova gravadora, registrou a balada Deus, o Mundo e Você, de Palmeira e Alvares Filho, e o tango Desespero, de Umberto Silva, Luiz Mergulhão e Paulo Aguiar. Também em 1962, lançou pela Chantecler o LP Quando Canta Leila Silva.

Em 1963, gravou a balada Canção do Fim, de U. Mincci e R. Jaden, versão de Paulo Rogério, e os sambas Correio das Estrelas, de Denis Brean e Osvaldo Guilherme, Coração a Coração, de Arquimedes Messina e B. Barrela, e Não Diga a Ninguém, de José Messias. Nesse ano, lançou seu último disco pela Chantecler, o LP Novamente Ela.

Em 1964, gravou pela Continental os sambas Juca do Braz; Nó de Porco e Joguei Fora o Brilhante, de Haroldo José e Romeu Tonelo; e Favela do Vergueiro, de K-Ximbinho e Laércio Flores.

Ainda na Década de 1960, apresentou um programa na TV Record de São Paulo que ficou no ar durante três anos.

Sua carreira discográfica incluiu ainda as gravadoras RGE, RCA Victor, Bervely, Copacabana e Warner, contabilizando, até 1978, 27 compactos e 15 LPs. Teve também discos lançados na Itália, França, Japão, México, Argentina, Paraguai e Uruguai. Recebeu inúmeros prêmios ao longo de sua trajetória, sendo detentora de quatro Roquete Pinto, cinco Chico Viola e cinco Discos de Ouro. Em Curitiba, recebeu o Pinheiro de Prata. Além disso tudo, foi também coroada pela Revista do Rádio como Rainha do Samba. E, do compositor Palmeira, recebeu o título de A Estrela de São Paulo.

Em 2001, apresentou-se no programa da Saudade na TV, do cantor Francisco Petrônio, no canal Rede Vida. Em 2002, a Revivendo Músicas lançou o CD Leila Silva – O Mais Puro Amor, com 21 faixas, incluindo antigos sucessos, cuja capa e contracapa vocês aí estão:

Tanto esse LP, quanto outros títulos fonográficos lançados pela cantora, já se encontram fora de catálogo, mas são facilmente encontráveis em sebos virtuais.

Atualmente residindo em Santos, Leila Silva continua na ativa, apresentando-se por todo o Brasil, mas sem cobertura da mídia.

Para que vocês conheçam um pouquinho de seu trabalho, disponibilizo-lhes o samba-canção Não Sabemos, o inesquecível sucesso de sua brilhante carreira.

TEIXEIRINHA

Três momentos de Teixeirinha

Vítor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, cantor, músico e compositor, nasceu em Rolante (RS), a 03.03.1926, e faleceu em Porto Alegre (RS), a 04.12.1985, aos 59 anos de idade.

Filho de carreteiro, tinha 6 anos de idade quando seu pai morreu. Três anos depois, perdeu a mãe, vítima de um incêndio, e passou a sustentar-se como entregador e vendedor ambulante.

Lançou-se artisticamente em circos e emissoras gaúchas do interior, apresentando-se depois em Porto Alegre, onde começou a obter popularidade cantando em churrascarias e programas folclóricos, acompanhando-se ao violão. Fazendo programa na emissora de Passo Fundo, recebeu convite para gravar em São Paulo (SP), estreando na Chantecler, em 1959, como intérprete e autor de Xote Soledade e Briga de Batizado.

Seus primeiros discos não obtiveram repercussão mas, em 1961, Teixeirinha tornou-se sucesso nacional, com o lançamento, pela gravadora Copacabana, de Coração de Luto, toada em que narrava a morte da mãe.

Ainda em 1961, excursionando por cidades gaúchas, conheceu, em Bagé, a menina Mary Terezinha, nascida em Tupanciretã (RS), a 30.03.1948, acordeonista e cantora na rádio local, que se tornou sua acompanhante efetiva e parceira amorosa, numa carreira que durou por 22 anos.

Obtendo enorme popularidade como autor e intérprete de um gênero misto de regionalista e sertanejo dirigido a público bastante específico, passou a atuar no cinema, produzindo cinco filmes, dos quais foi também o argumentista e o ator principal. O primeiro foi o autobiográfico, Coração de Luto, de 1966, seguindo-se Motorista Sem Limites, de 1969, Ela Tornou-se Freira, de 1971, Teixeirinha a Sete Provas, de 1972, e Padre João, de 1974. Sua filmografia inclui participação em sete outras peças de diretores diversos.

Teixeirinha e Mazzaropi foram os maiores fenômenos populares do cinema sul-americano regional. No caso do cantor gaúcho, seus filmes chegaram a superar 1,5 milhões de espectadores, obtidos apenas nos três Estados sulistas: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Eram, em sua maioria, co-produzidos por distribuidores e exibidores locais, que lhes asseguravam a permanência em cartaz.

Com mais de 40 elepês gravados e autor de cerca de 700 músicas, comandou na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, os programas Teixeirinha Canta Para o Povo do Brasil e Teixeirinha Amanhece Cantando.

Teixeirinha ficou também conhecido como Rei do Disco, pelos recordes de vendas que conseguiu e consegue até hoje, mesmo já falecido. Com extensa discografia, muitas de suas gravações ainda podem ser encontradas nos sites virtuais do mercado fonográfico. Obteve ele um recorde de venda de discos, sendo que, até 1983, Lançou 70 elepês e vendeu 88 milhões de cópias. Estima-se que, até os dias atuais, tenha ultrapassado a marca de 120 milhões de cópias em todo o mundo.

Teixeirinha deixou 7 filhas e dois filhos: Sirley, Líria Luisa, Victor Filho, Margareth, Elizabeth, Fátima, Márcia Bernadeth, Alexandre, e Liane Ledurina.

Sendo ele um dos maiores músicos brasileiros, morreu precocemente no dia 4 de dezembro de 1985, vítima de câncer, e foi sepultado no Cemitério da Santa Casa em Porto Alegre.

Em reconhecimento por seu belo e profícuo trabalho em prol da MPB, especialmente da regional gaúcha, sua vida foi até transformada em histórias em quadrinhos.

Embora Coração de Luto tenha sido seu grande sucesso, disponibilizo aqui para vocês a polca Cobra Sucuri, de sua autoria, na qual demonstra o quanto era alegre a maioria das músicas com que nos brindou:

Eu às vezes tô me lembrando
De um bom compadre que eu tinha
Valente como um diabo
Pior que galo de rinha
Quando o compadre puxava
Sua faca da bainha
Até a própria polícia
Prometia mas não vinha.

Me contou um morador
Lá do Rio Gravataí
Que na costa desse rio
Ninguém mais pescava ali
Porque diz que aparecia
Uma cobra sucuri
E aquela cobra fazia
Todos pescador fugir.

Eu contei pro meu compadre
Ele garrou pegou a ri
Convidou pra nós ir lá
E eu já me arrependi
Pra ele não embrabecer
Eu fui obrigado a ir
Lá na costa desse rio
Ver a cobra sucuri.

Nós chegamos na barranca
Eu senti um arrepio
Mas quando eu vi a cobra
O meu compadre também viu
A água fez uma onda
Na onda a cobra sumiu
E ainda por desaforo
Deu uns quatro ou cinco pio.

Meu compadre vendo a cobra
Já foi largando as tamancas
Deu um jeitinho no corpo
E da sua faca arranca
A cobra veio piando
Veio subindo a barranca
E eu também já fui subindo
Num pé de figueira branca.

Lá de cima eu tava vendo
Como um homem se desdobra
Aí vi que o meu compadre
Tinha destreza de sobra
Ele foi dando um jeitinho
Foi fazendo uma manobra
Em vez da cobra comer ele
Ele é quem comeu a cobra.

Depois da cobra comida
Meu compadre embranqueceu
Olhou para mim e disse
Por que foi que tu correu?
Ora, ora meu compadre!
Tu bem sabe quem sou eu
Eu tava louco de medo
Da cobra que tu comeu!

BRASÍLIA, 52º ANIVERSÁRIO

Respeito à Faixa de Pedestre: em Brasília e alhures, lição de civilidade

Cheguei a Brasília para morar no dia 20 de dezembro de 1960. Antes, em 1958 e 1959, eu já andara por aqui, onde já residiam dois de meus irmãos, o Afonso, servidor da NOVACAP, e a Maria Isaura, exercendo o magistério, pois a cidade em construção ficava no meio do caminho entre Belo Horizonte (MG), minha morada na época, e, Balsas (MA), meu destino em gozo de férias. Posso afirmar que, com perto de 52 anos de vida brasiliense, sou um candango legítimo e muito envaidecido ao apregoar esta condição aos quatro ventos.

Tal ufanismo se prende ao fato de ter participado de seu crescimento e aqui ter fincado minhas amarras, constituído família, progredido na vida e constituído inestimável cabedal de amizades. O maior orgulho de todos os brasilienses, que nos aponta como exemplos para toda a Nação Brasileira, é o respeito devotamos às faixas de pedestres e, consequentemente, à vida de nossos semelhantes que por nelas transitam.

Recente pesquisa informa que 85% da população do Distrito Federal respeitam as faixas, bastando que o pedestre demonstre sua intenção de atravessá-la, acenando com a mão, dando o “sinal de vida”. A exceção dos 15% é composta por moradores recém-chegados, motoristas nefelibatas, políticos adventícios, lobistas fortuitos e condutores de transportes coletivos piratas como ônibus, micro-ônibus, vans e táxis, segundo se tem observado.

Sinais de vida

Para conquistarmos esse privilegiado status, tivemos que suar a camisa, mostras às autoridades governamentais nossa vontade de fazermos de Brasília uma capital de Primeiro Mundo, pelo menos no que respeita a seus perenes e definitivos habitantes.

No ano de 1996, aterrorizados com o grande número de óbitos de pedestres em nossas vias, demos início a uma vigorosa campanha denominada Paz no Trânsito, encabeçada pelo jornal Correio Braziliense, promovendo uma passeata pelas ruas da cidade, que contou com a participação de 25 mil pessoas. Era este o símbolo da campanha, criação da equipe gráfica do jornal:

A campanha tornou-se logo modelo para o Brasil inteiro. Toda a Capital Federal se envolveu no movimento pela Paz no Trânsito, que teve seu início no dia 1º de abril de 1997 – Dia da Mentira para muitos. Diante da repercussão positiva, o Governador do Distrito Federal resolveu entrar na dança: mandou instalar pardais – radares de velocidade eletrônicos –, ordenou à Polícia de Trânsito que arrochasse os infratores e iniciou um programa de respeito à faixa de pedestres.

O hilário da história foi que, no dia da largada do Paz no Trânsito, o Correio Brasiliense flagrou o Governador e seu staff atravessando a via fora da faixa, conforme documentou:

No domingo passado, 1º de abril – Domingo de Ramos e Dia da Verdade para nós –, o respeito à faixa de pedestres na Capital da República completou 15 anos. Por essa razão, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal – DETRAN e o Departamento de Estradas de Rodagem – DER promoveram, no estacionamento do Parque Ana Lídia, no Parque da Cidade, das 08h00 às 12h00, ações para conscientizar motoristas da importância do respeito à faixa, bem como fornecer informações aos pedestres sobre os cuidados para uma travessia segura.

Ao batermos no peito e dizermos que servimos de espelho para nossos patrícios, podemos até incorrermos em risco de erro. Mas as constatações estão aí, evidentes: nas últimas capitais brasileiras que visitei – Goiânia, João Pessoa, Natal, Recife Teresina e São Luís –, não se respeita a Faixa de Pedestre igualmente a nós.

Hoje, 21 de abril de 2012, Brasília comemora seu 52º Aniversário. As festas se realizam pra todo o lado, e o brasiliense demonstra sua alegria e felicidade por fazer parte desta maravilhosa Metrópole, Patrimônio Cultural da Humanidade.

Para que vocês conheçam um pouco do que foi Brasília em sua trajetória, disponibilizo-lhes um vídeo institucional gravado na segunda metade dos Anos 1960. Chamo a atenção para a serenidade do trânsito, com poucos veículos, a maioria ainda carrões americanos; para o comércio outrora vigoroso da Avenida W/3; e para o detalhe de todas as mulheres vestindo saia, demonstrando que, na época, ainda não se instalara por aqui o Império da Calça Jeans.

VERSOS SACÂNICOS

(Antologia das sextilhas ditadas do além, eletronicamente, pelo falecido menestrel Cego João Mandioca, esmoleiro itinerante, trovador fescenino, cordelista e improvisador, psicografadas pelo Receptor Chico Fogoió, em sua bola de cristal performática, e revisadas pelo Diascevasta Mundico Trazendowski)

FUMACÊ

Não conheço um só fumante
Que mantenha a todo instante
Perto de si um cinzeiro
Tem deles que até em casa
Usa pra apagar a brasa
Pires, prato e galheteiro

Vendo o tipo que fumando
As cinzas no chão jogando
E o cinzeiro ali de borco
Ninguém mais nem especula
Sobre o óbvio que ulula
Que todo fumante é porco

ARARIPE NO SAMBA

Em festa do interior
Araripe era um terror
No samba e na batucada
Todo matuto sabia
De sua grande mania:
Dançar com mulher casada.

E o pobre do marido
Com medo do enxerido
Do chifre sentindo o faro
Pedia pro sedutor:
– Araripe, por favor
Dance aqui mais no quilaro!

GENÉTICA

Nossa amiga Ana Triskina
Rainha em qualquer piscina
Tem beleza e formosura
Ela e suas quatro irmãs
Conquistam milhões de fãs
Na lindalvez e doçura

O pai dessas cinco filhas
Por gerar tais maravilhas
Gente em forma de tesouro
No sertão é conhecido
Pelo nome merecido:
Seu Zé, o Pic@ de Ouro!

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TRIO SIRIDÓ

Mocó, Torres do Rojão e Djaci

José da Silva Torres, o Torres do Rojão, vocalista, triangueiro e compositor, nasceu em Campina Grande (PB), no dia 14.06.1944.

Começou cantando em Caruaru (PE), onde fazia bicos para sobreviver. Ainda adolescente, mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), sempre perseguindo seu ideal de se firmar na carreira de cantor. Lá, empregou-se como operário na empresa CIB – Companhia de Carrocerias Brasileira e, nos finais de semana, cantava numa casa noturna chamada Flamenguinho, de onde tirava mirrado adjutório para seu sustento.

Bateu cabeça por São Paulo (SP) e, em 1962, aportou em Brasília (DF), de onde nunca mais saiu, trabalhando, inicialmente, na indústria gráfica.

No transcorrer da carreira, atuou com célebres nomes da música forrozeira: Jacinto Silva, Oswaldinho, Camarão, Téo do Baião, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Joci Batista, Marinês, Dominguinhos, Anastácia, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Abdias, Miudinho, Manoel Serafim, Elino Julião e tantos outros.

Nos anos de 1963 e 1964, aqui se engrenou com o Nino, vocalista e ritmista, líder de um conjunto famosíssimo na época, o Trio Paranoá, pioneiro do forró nordestino no Distrito Federal, não só pelo Trio, mas também pela casa noturna de sua propriedade, o Forró do Nino, na cidade-satélite de Taguatinga. O Trio Paranoá também mantinha um programa da Rádio Nacional de Brasília, nas manhãs de domingo, o Brasília Canta Para o Brasil. Torres dava canja por lá.

A 12 de junho de 1972, Torres fundou o Trio Siridó. E já se vão quase 40 anos! Era esta a formação inicial, que foi a mais duradoura: Torres do Rojão, vocalista e triangueiro, Mocó, zabumbeiro, e Djaci, sanfoneiro. É o conjunto que domina a maioria dos arraiais forrozeiros no Planalto Central durante o período junino. No restante do ano, vira-se como pode. Apresenta-se em bares, boates, restaurantes, churrascarias e em shows de artistas de fora que visitam Brasília. Como, aliás, aconteceu em 5 de julho de 1982, no último espetáculo de Jackson do Pandeiro que, vítima de enfarte no dia seguinte, já no Aeroporto para retornar ao Rio de Janeiro, faleceu no Hospital Santa Lúcia no dia 10. Podemos afirmar, sem medo de erro, que este conjunto é filhote do Trio Paranoá e seu sucessor na Capital da República, sem rival que se lhe emparelhe.

No tempo do vinil, o Trio Siridó gravou 7 elepês, todos com boa vendagem nas casas do ramo: Progresso da Mandioca, Que Nem Sapo na Lagoa, Até o dia Amainsá, Eu Sou de Lá, Flor Mulher, Forró em Maceió e Quero Te Balançar. Na era do CD, a coisa se complicou. Seus discos passaram a produção independente, e a gravação de cada álbum é um parto com muita dor, só possível com a colaboração de seus amigos mais chegados, que nos quotizamos em vaquinha para a consecução da empreitada. Em meu acervo, possuo todo o repertório desses elepês.

Luiz Berto em muito contribuiu para essa história da sobrevivência do Trio. Em 1984, empresariou show dançante a que deu o título de Forró Pisa na Fulô, onde, semanalmente, se apresentava uma atração forrozeira nacional e global, com o Trio Siridó fazendo a prata da casa e carregando o piano.

Ainda nos Anos 1980, Luiz Berto, como Diretor Social da ASCADE – Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados, deu uma sacudida naquele então vetusto clube, promovendo forrós semanais com a animação do Trio Siridó. Foram noites memoráveis, que se acabaram tão logo Luiz Berto deixou o cargo. Fez história e deixou saudades!

Em 1992, no quintal de Luiz Berto, na Asa Norte, num dos nossos domingos forrozeiros, que duravam por todo o dia, o Torres, a toda hora, mencionava bela senhorita, chamada Socorro, ali presente, que lhe dera a mão e outras coisinhas mais, em momento de muita atribulação financeira. Surgiu, então, o desafio de que fosse composta uma música, no ato, com o seguinte tema: Na hora da precisão, Socorro me socorreu. Foi trabalho a 8 mãos. Quase entrei na parceria, mas não me pediram a revisão gramatical. Nem precisava. No final, saiu o excelente xote Anjo da Guarda, destes inspirados gênios: Torres, Luiz Berto, Giba e Kalango.

Dois vinis do Trio Siridó à venda em mercados virtuais

A história da autoria de Anjo da Guarda já foi melhor contada por um de seus protagonistas, o Papa Berto I, a seu modo, em duas ocasiões: no dia 05.11.08, sob o título De Como Me Tornei Compositor, e no dia 08.03.09, sob o título Conversa de Domingo, desta vez com o Trio Siridó interpretando-a.

O conjunto não se ateve só às glórias do passado. Soube adaptar-se aos novos tempos, à tecnologia, enfim, ao Século XXI. Com o atual esquema Trio Siridó e Banda, imprimiu nova roupagem ao som e à cozinha rítmica, sem, no entanto, perder a autenticidade, a pureza e a fidelidade às suas raízes nordestinas, ao legítimo forró pé-de-serra. Esta é sua composição atual: Torres do Rojão, Dico na Sanfona, Cipó na zabumba e Taciva e Valdinei nos vocais, além de outros no teclado, nas cordas e na percussão.

Detalhe do Trio Siridó e Banda

Para vocês, Lembrando o Nordeste, de Torres do Rojão, Mocó e Djaci, com o Trio Siridó em sua formação original.

NILO AMARO E SEUS CANTORES DE ÉBANO

Minha estante de cedês é um baú de preciosidades musicais, tesouro que contém as criações de grandes artistas da MPB, músicos, compositores e intérpretes. Essa riqueza está, aos poucos, caindo no esquecimento das novas gerações brasileiras, e chegará um dia que em nela não mais se falará.

Com exceção da Música Militar, que diariamente é executada nos quartéis, do Frevo, ainda animando o Carnaval Brasileiro, e o Forró, a cada dia revelando novos talentos, há quase 30 anos nada acontece digno de nota em nosso cenário musical.

Dentro de duas gerações futuras, com o desaparecimento dos saudosistas atuais e com a extinção do livro impresso, nada restará para relembrar os grandes artistas que construíram nossa história.

Não estou aqui para elogiar o norte-americano não. Mas, nos Estados Unidos, preserva-se a MPB muito mais do que aqui. A última vez em que estive em Orlando Downtown, isso em 2001, fui levado a uma grande discoteca, a Virgin, onde encontrei vários cedês gravados por brasileiros, itens que aqui no Brasil eu já não conseguia adquirir. A peso de ouro, claro, mas consegui. Não só de meus patrícios, mas de muitos outros latino-americanos de minha curtição.

Trago-lhes como triste exemplo o conjunto Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano que, nos Anos 1960, nos encantou com seus maravilhosos arranjos para as toadas que até hoje cantamos em nossas saudosas serestas. Sim, porque isso ainda existe. Nos 80 anos de meu irmão José, o Carioquinha, contratei dois grandes seresteiros de Brasília e, reunindo imenso grupo de parentes e demais amigos, fomos, na madrugada de seu aniversário, bater à porta de sua casa, na Quadra 714 Sul, quando entoamos as músicas de nosso passado e de seu repertório, sendo ele também um apaixonado trovador. E toda a vizinhança acorreu para também tomar parte naquela bonita festa.

Pois bem, voltando a Nilo Amaro, quase nada encontrei, na Internet, em livros ou em contracapas de disco que me fornecesse informações completas sobre sua vida e sua obra. O pouquinho que aqui lhes estou disponibilizando é o que há!

Nilo Amaro, pseudônimo de Moisés Cardoso Neves, nasceu no ano de 1928, em dia, mês e cidade indeterminados, e faleceu em Goiânia (GO), a 18 de abril de 2004, aos 76 anos de idade.

Nos anos 1950/1960, quando a Velha Guarda Brasileira conhecia seu ocaso, ele teve a brilhante ideia de formar um conjunto vocal a que deu o nome de Nino Amaro e Seus Cantores de Ébano, reunindo em torno de si um coro de vozes negras femininas e masculinas – um soprano, um meio-soprano, um contralto, dois baixos um tenor e três barítonos, além de Noriel Vilela, o baixo que se destacava no grupo.

O conjunto fez muito sucesso na Década de 1960. Seu repertório era composto de clássicos da música popular brasileira – toadas, sambas e sambas-canções – de peças do folclore, e de versões para o Idioma Português de spirituals dos negros norte-americanos, sendo considerado o precursor da música gospel no Brasil. Seus maiores sucessos foram as toadas Leva Eu, Sodade, de Tito Neiva e Alventino Cavalcanti, e Uirapuru, de Jacobina e Murillo Latini.

Noriel Vilela participou dos Cantores e Ébano e também fez carreira solo. Seu sucesso mais conhecido foi Dezesseis Toneladas, versão para o Português de um clássico norte-americano do pop-country-folk dos anos 1940, Sixteen Tons, de Ernie Ford e Merle Travis. Faleceu em 1974, devido a uma reação alérgica a anestesia aplicada por seu dentista. Com sua morte, os Cantores de Ébano fizeram uma parada temporária até encontrar um substituto à altura. Retomando mais tarde a carreira, já não alcançou o sucesso obtido no passado.

Da discografia de Noriel, resta ainda à venda em sebos virtuais o elepê abaixo:

Voltando ao conjunto Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, encontra-se ainda nos sites de venda virtual este cedê:

Não é bairrismo deste Cardeal, é mesmo a saudade que me bate no coração todas as vezes em que ouço a toada Uirapuru, porque me traz à lembrança a linda poesia do mesmo nome, sublime inspiração poética de meu conterrâneo Humberto de Campos:

Dizem que o uirapuru, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranquilo.
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata,
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá susta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.

O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta.

Para que vocês, caladinhos, se deleitem com Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, aí vai a toada Uirapuru.

ADEMILDE FONSECA, A RAINHA DO CHORO

Ademilde Fonseca – 04/Mar/1921 – 27/Mar/2012

Faleceu ontem, 27 de março, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, esta grande cantora, inesquecível ídolo da MPB, vítima de mal súbito. Em sua honra, republico matéria que foi ao ar no dia 04/Abr/2011.

Sempre que possível, comemorarei aqui em minha coluna os aniversários de vultos da MPB perfazendo décadas. No dia 19/Mar/2011, homenageei o compositor Assis Valente, na passagem de seu centenário. Hoje, faço mesmo com a Rainha do Choro, que completou 90 anos de alegre musicalidade.

Ademilde Fonseca Delfim nasceu em Vitória do Santo Antão (PE), no distrito de Pirituba, e foi criada em Natal (RN), para onde a família se mudou quando tinha ela quatro anos.

Ainda muito jovem, ligou-se a um dos conjuntos de seresteiros locais, do qual participava Laudimar Gedeão Delfim, com quem mais tarde se casaria, passando a assinar-se Ademilde Fonseca Delfim. Anos mais tarde, ao separar-se, voltou adotou o nome artístico de Ademilde Fonseca.

Em 1941, já casada, transferiu-se para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, depois de um teste na Rádio Clube do Brasil, apresentou-se no programa de calouros Papel Carbono, de Renato Murce. Ainda em 1942, atuou com o regional de Benedito Lacerda numa festa e obteve enorme sucesso cantando o choro Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, cuja letra, atribuída a Eurico Barreiros e ainda inédita em gravações, conhecia desde menina.

Levada por Benedito Lacerda aos estúdios da Colúmbia, na época sob a direção musical de João de Barro, o Braguinha, Ademilde estreou gravando Tico-tico no Fubá e o samba Volte Pro Morro, de Benedito e Darcy de Oliveira, disco lançado em julho de 1942, com grande êxito. A partir de 1943, com o lançamento dos choros de Apanhei-te, Cavaquinho, de Ernesto Nazareth, com letra de João de Barro, e Urubu Malandro, adaptação de Lourival de Carvalho, tornou-se conhecida como cantora de prestígio, sendo procurada por diversos compositores.

Em 1944, levada pelo cantor Déo, integrou o elenco da Rádio Tupy, do Rio de Janeiro, apresentando-se com o regional de Rogério Guimarães e Claudionor Cruz. No ano seguinte, sua interpretação da polca Rato, Rato, de Claudionor Costa, gravada em ritmo de choro, com letra de Casimiro Rocha, consagrou-se como a maior intérprete do choro cantado. Nessa gravação, pela primeira vez, não foi acompanhada por Benedito Lacerda, tendo participado do disco o conjunto Bossa Clube, liderado pelo violonista Garoto. Por sua marcante característica, recebeu de Benedito o título de RAINHA DO CHORO!

Em fins da Década de 1940, com a moda do samba-canção e do baião, o prestígio da cantora diminuiu, mas, em junho de 1950, retornou às paradas de sucesso com as gravações de Brasileirinho, e Waldir Azevedo e Benedito Costa, e Teco-teco, de Pereira da Cruz e Milton Vilela, nas quais foi acompanhada pelo regional de Waldir.

No ano de 1952, excursionou por Paris, com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, apresentando-se com outros artistas em show patrocinados por Assis Chateaubriand. De 1950 a 1955, gravou vários sucessos na Todamérica. A partir de 1954, na Rádio Nacional, atuou com os regionais de Canhoto, Jacob do Bandolim e Pixinguinha, entre outros, além das orquestras de Radamés e Gnatalli e do Maestro Chiquinho.. Em 1964, ao lado do cantor Jamelão, excursionou pela Espanha e Portugal, exibindo-se por seis meses em Lisboa. No Brasil, em 1967, participou do II FIC – Festival Internacional da Canção, da TV Globo, do Rio de Janeiro, interpretando o choro Fala Baixinho, de Pixinguinha, com letra de Hermínio Bello de Carvalho. Na Década de 1970, suas apresentações no Teatro Opinião, do Rio de Janeiro, alcançaram grande repercussão, levando, em 1975, ao relançamento da cantora em LP da gravadora Top Tape. (Dados extraídos de Enciclopédia da Música Brasileira, da Art Editora Ltda.)

No ano de 2001, em seu octogésimo aniversário, Ademilde foi recebida na Rua do Choro, em São Paulo, quando aconteceu um recital com a participação dos chorões paulistanos. No mesmo ano, em Pirituba, onde nasceu, uma praça foi batizada com seu nome, com sua presença. Aproveitando a viagem a sua terra, abriu o Projeto Seis e Meia em Natal, no Teatro Alberto Maranhão.

Não tendo se aposentado totalmente, vez em quando participa de shows, espetáculos e entrevista, levando a vida assim numa boa, relembrando os momentos marcantes de sua preciosa contribuição para a Música Popular Brasileira. (Dados colhidos na Wikipédia.)

O agradabilíssimo repertório de Ademilde Fonseca é variado, extenso e conhecido de todos os brasileiros, uns mais, outros menos. No meu acervo, tenho a felicidade de possuir, além dos títulos acima citados, estas maravilhas musicais por ela gravadas:

Acariciando, choro, Adeus, Vou-me Embora, samba, Amor Sem Preconceito, choro, Arrasta-pé, baião, Baião em Cuba, baião, Choro Chorão, choro, Choro do Adeus, choro, Coração Trapaceiro, choro, Delicado, baião, Derrubando Violões, choro, Dinorá, choro, Doce Melodia, choro, É de Amargar, choro, Estava Quase Adormecendo, samba, Fogueira, toada, Galo Garnisé, choro Gato, Gato, choro, História Difícil, choro, João Paulino, marchinha, Lamento, choro, Liberdade, marchinha, Mar Sereno, choro, Meu Cariri, baião, Meu Senhor, samba, Meu Sonho, choro, Molengo, choro, Não Acredito, samba, No Tempo do Onça, choro, O Que Vier, Eu Traço, choro, Papel Queimado, samba-canção, Paraquedista, choro, Pedacinhos do Céu, choro, Pinicadinho, polca, Qué Procê?, baião, Rio Antigo, maxixe, Saliente, choro, Sapatinhos, choro, Saudades do Rio, choro, Se Amar É Bom, toada, Se Deus Quiser, samba, Sentenciado, samba, Só Você, samba-canção, Sonhando, choro, Sonoroso, choro, Teco-teco, choro, Tem 20 Centavos Aí?, baião, Títulos de Nobreza, choro, Uma Casa Brasileira, marchinha, Vaidoso, choro, e Vou Me Acabar, choro.

Para meus queridos leitores, selecionei o choro O Que Vier, Eu Traço, de Alvaiade e Zé Maria.

 

CARLOS GONZAGA

Três momentos de Carlos Gonzaga

Carlos Gonzaga nasceu em Paraisópolis (MG), a 10 de fevereiro de 1926, aos 17 anos mudou-se para Campos do Jordão (SP) e hoje reside na cidade paulista de Santo André.

Iniciou-se na carreira de cantor em meados da década de 1940. Demonstrando extrema versatilidade, gravava em seus discos os estilos mais variados: bolero, marchinha, samba, calipso, tango foxtrotes, o que viesse.

O final dos Anos 1950 foi cruel para quase toda a Velha Guarda da MPB, com as novidades da bossa nova, do rock, do chá-chá-chá, do tuíste, do iê-iê-iê. Eu disse quase, pois Carlos Gonzaga foi uma das raras exceções.

Naquela época, Fred Jorge, compositor brasileiro completamente desconhecido aproveitou-se da onda avassaladora que invadia o mundo e começou a fazer versões de tudo que era sucesso vindo do exterior, principalmente americano, encontrando em Carlos Gonzaga seu ideal intérprete.

Assim, vieram Diana, de Paul Anka; Crazy Love/Louco Por Amor, de Paul Anka; The Diary/O Diário, de Neil Sedaka e Howard Greenfield; Oh! Carol, de Neil Sedaka e Howard Greenfield; I Can’t Stop Lovin’ You/Não Posso Te Esquecer, de Gibson; Put Your Head on My Shoulder/Cabecinha no Meu Ombro, de Paul Anka; You Are My Destiny/Você É Meu Destino, de Paul Anka; Let’s Twist Again/Tuíste Outra Vez, de Mann e Appell; Yellow Bird/Canário, de Luboff, Keith e Bergman; Adan And Eve/Adão e Eva, de Paul Anka; e Something Has Changed Me/Foi o Teu Beijo, de Paul Anka.

Surfando na mesma onda, Carlos Gonzaga lançou versões de outros compositores brasileiros: Just Walking in The Rain/Passeando na Chuva, de Bragg, Riley e Gióia Júnior; Bat Masterson, de B. Corwin, H. Wray e Edson Borges; Little Devil/Diabinho, de Neil Sedaka, Paul Greenfield e Ramalho Neto; Riders in the Sky/Cavaleiros do Céu, de Stan Jones e Haroldo Barbosa; Deep in the Texas Heart/No Coração do Texas, de D. Swander, J. Hershey e Ramalho Neto; The Great Pretender/O Meu Fingimento, de Buck Ram e Haroldo Barbosa; e S. Francisco- Be Shure to Wear in/São Francisco, de J. Phillips e Gilberto Lima.

Diana foi seu maior sucesso em todos os tempos. Ao lançá-lo, em 1958, Carlos Gonzaga tornou-se conhecido nacionalmente, pois sua gravação era tocada ininterruptamente no rádio, nas lojas de disco e nas amplificadoras, onde estas ainda existiam. Paralelamente, no mesmo ano, emplacava o samba-canção Regresso, de Adelino Moreira, que dominou o repertório seresteiro (Trago os meus cabelos grisalhos tingidos pelo orvalho das noites frias sem lua…). Oh! Carol, em 1960, e Bat Masterson, em 1961, também ajudaram a consolidar sua carreira de cantor.

Carlos Gonzaga também gravou para o Carnaval. Constam com ele em meu acervo as seguintes faixas carnavalescas: Brasil Maravilha, marchinha de Bobby Hilton, Jotagê e D. Teixeira – 1974; Coração de Jacaré, marchinha de J. Nunes e Dom Jorge – 1967; Praia do Flamengo, samba de Luiz Vanderley e Fausto Guimarães – 1960; e Tira a Mão do Bolso, marchinha de Santos Garcia – 1960.

Carlos Gonzaga fez shows por todo o Brasil e principais países da América Latina. No cinema, atuou na chanchada Virou Bagunça, de Watson Macedo, em 1960.  Participou do Programa Cidade Nota 10, da TV Bandeirantes, representando a cidade de Santos André, e o fez tão condignamente que foi agraciado com o título de Cidadão Andreense. Atualmente, encontra-se retirado da vida artística.

Esta é sua discografia em vinil:

The Best Seller – Carlos Gonzaga – RCA Victor – LP
Carlos Gonzaga – Meu Eterno Querer – Polydisc – LP
Os Grandes Sucessos de Carlos Gonzaga – RCA Camden – LP
Carlos Gonzaga – Rapaz Solitário – RCA Camden – LP
Meu Coração Canta – RCA Victor – LP

Na era do CD, chegou a merecer alguns lançamentos, todos eles com sucessos do passado. Para quem quiser conhecer o trabalho desse grande artista, ainda se encontra em catálogo nas discotecas virtuais a coletânea abaixo:

01- Passeando na Chuva
02- Diana
03- Louco Amor
04- O Diário
05- Oh! Carol
06- Eu Canto Assim
07- Bat Masterson
08- Diabinho
09- Cavaleiros dos Céu
10- No Coração do Texas
11- Não Posso te Esquecer
12- Cabecinha no Ombro
13- Você é meu Destino
14- Hava Nagila
15- O Tuíste
16- Tuíste Outra Vez
17- Canário
18- Uma Guitarra e um Copo de Vinho
19- Adão e Eva
20- Calipso do Amor
21- O Meu Fingimento
22- Sereno
23- Regresso
24- Anahi
25- São Francisco
26- Foi teu Beijo
27- Rock do Broto

Esta matéria encontra-se finalizada desde dezembro último, aguardando seu momento de acontecer. Na sexta-feira passada, dia 16, nosso confrade e amigo, Cardeal Cícero Cavalcanti, postou aqui no JBF excelente crônica sobre Diana, citando, inclusive, Carlos Gonzaga e, ao final, cantando que ele próprio, o Cícero, a versão que gravou, com elogiável talento. Quase deixei de lado este perfil que agora vocês leem. Mas, raciocinando bem, não posso privá-los da audição com Carlos Gonzaga, que muito me impressionou, em 1958, e marcou o início de minha vida como discófilo.

Para vocês portando, sua magistral interpretação do calipso Diana, que suplantou, no Brasil, em minha avaliação, a de Paul Anka, seu criador.

BALSAS QUERIDA – 94 ANOS DE RESISTÊNCIA

Balsas – Vista aérea

22 de março de 2012! 94º Aniversário de nossa querida cidade de Santo Antônio de Balsas!

Encravada no Sul do Maranhão, a mais de 800 quilômetros da Capital, São Luís, Balsas é um recanto esquecido naquele sertão, completamente desprezado pelos governantes, como veremos: sem linha aérea regular – que existia há 40 anos –, sem estradas dignas desse nome – que existiam há 25 anos – e sem a navegação fluvial – extinta há 50 anos, com a construção da Barragem de Boa Esperança sem eclusas –, os poderes públicos dão-nos a impressão de que inexistimos. Não aparecem por lá nem pra pedir o voto. Fazem-no pela TV, pela Internet ou por intermédio de cabos eleitorais. É o descaso total.

Quando saí de Balsas para estudar fora, a 5 de fevereiro de 1949, a população urbana girava em torno de 3.500 habitantes. Hoje, ultrapassa a casa dos 70 mil. A população urbana, disse eu.

Balsas resistiu e cresceu graças ao dinamismo e ao trabalho de seu povo – tanto os ali nascidos como os que lá chegaram atraídos pelas perspectivas de um futuro melhor acenado pela prodigalidade do fértil solo que é abrangido pelos limites do município.

Ponte suspensa: cartão postal da cidade

Há seis décadas, Balsas possuía apenas escolar do Primeiro Grau. Hoje, mais de meia dúzia de instituições de Ensino Superior proporciona a formação universitária à população balsense, não se fazendo mais necessária a busca de outros centros mais avançados, como outrora.

A produção agrícola de grãos em geral transformou nossa região no centro econômico e financeiro do Estado. Paralelamente, a agropecuária tornou-se grande força geradora de riquezas e de emprego. Prova disso é a Missa do Vaqueiro, celebrada todos os anos, no dia 12 de Junho, superlotada por bem-tratadas montarias cavalgadas por cavaleiros e amazonas das inúmeras fazendas que circundam a cidade.

Balsas – Domínio do verde

O crescimento urbano de Balsas deu-se horizontalmente, não lhe retirando as características sertanejas de que sempre nos orgulharam: cada casa, um quintal; cada quintal, um pomar.

Em homenagem a minha terra natal, produzi este vídeo, com o apoio técnico da Mara, minha caçula, no qual procuro ressaltar os valores que bem mostram o que é a Natureza e o povo amado daquele rincão.

ANASTÁCIA, O XODÓ DO BRASIL

Dois momentos de Anastácia

Anastácia, batizada Lucinete Ferreira, nasceu no Recife, PE, a 30.05.1941. O pseudônimo foi-lhe dado pelo sertanejo Palmeira, da dupla Palmeira & Biá.

Começou a interessar-se por música aos sete anos, quando costumava acompanhar um cantador de coco do bairro de Macaxeira, onde morava.

Já como profissional de, 1954 a 1960, cantou na Rádio Jornal do Comércio de Pernambuco, indo depois para São Paulo.

Participou de shows no interior paulista, primeiro com a Caravana do Peru Que Fala, chefiada por Silvio Santos, e, em seguida, com Venâncio e Corumba.

Contratada pela Chantecler, em 1960, gravou seu primeiro compacto duplo com as músicas Noivado Longo, de Max Nunes, Chuleado, A Dica do Deca e Forrofiá, estas de Venâncio e Corumba. Sua primeira composição gravada foi Conselho de Amigo, parceria com Italúcia, interpretada pelo cantor Noite Ilustrada, em 1963.

Nos anos seguintes, gravou 4 elepês pela Continental, com boa aceitação no Nordeste.

Em 1968, ao participar do programa Noite Impecável, de Luiz Gonzaga, na TV Continental, do Rio de Janeiro, conheceu o sanfoneiro Dominguinhos, com quem formou parceria musical e amorosa. Inicialmente, com Um Canto de Amor, concorreram ao Festival de Música Regional Nordestina, em 1969, promovido pela TV Bandeirantes, de São Paulo, e ainda De Amor Não Morrerei, que tirou o segundo lugar, ambas interpretadas por Marinês.

O maior sucesso da dupla foi Eu Só Quero Um Xodó que, executado e cantado em ritmo de marchinha, estourou no Carnaval de 1973, consagrando-se nos seguintes. Gravado em ritmo de toada por inúmeros cantores, dominou as paradas e se tornou item obrigatório em qualquer antologia forrozeira. Também merecem destaque suas composições com Liane, a mais recente e constante parceira.

Anastácia continua cantando, gravando e fazendo shows por todo o Brasil, com agenda lotada, e seus discos podem ser encontrados nas lojas do ramo ou nos sites de venda na Internet, como ameriacanas.com, submarino.com e videolar.com.

No ano passado, lançou, em parceria com a escritora Leda Dias (leda65@hotmail.com), o livro Eu Sou Anastácia, precioso documento sobre sua vida e o cenário forrozeiro em que vive. Ilustrado, com 376 páginas, é item imprescindível na estante de qualquer pesquisador da MPB.

Para vocês, a melhor versão, em meu entender, de Eu Só Quero Um Xodó, na interpretação de Anastácia e Gilberto Gil.

WALTER BAUTISTA, MEU AMIGO CIENTISTA

José Walter Bautista Vidal

Dois de março de 2012! Dia de festa na Hidroterapia! Por dois motivos.

Hoje, 2 de março, quando estas maltraçadas lhes escrevo, faz 7 anos que me iniciei na atividade hidroterápica, à qual, por motivos ortopédicos e males da idade, me incorporei por todo o decorrer do restante de minha vida e por isso tenho que dela tirar o máximo de prazer, transformando todas as sessões em motivo de alegria e satisfação. E ontem, 01.03, foi aniversário da oriental Dra. Ayda Jamal, a Hidroterapeuta-chefe, mais uma razão para comemorarmos em grande estilo a data e demonstramos nosso contentamento em tê-la como zelosa cuidadora de todos nós, os hidroterapatas – neologismo que criei –, assegurando-nos o bem-estar físico e moral.

Dra. Ayda, a Favorita do Sultão

A Dra, Ayda comanda uma grande equipe de fisioterapeutas, que nos atende em sua clinica particular, a REABILIT – ESPAÇO SAÚDE, na 910 Sul, em todos os fundamentos de sua especialidade – Fisioterapia, Pilates, Acupuntura, Massagem, RPG, Nutrição, Saúde do Idoso – e nas piscinas, onde praticamos os exercícios e alongamentos necessários a nossa recuperação. Sem falar nas massagens, que, às vezes, quando acertam nos nódulos, se assemelham a ferroadas de maribondos enlouquecidos. Mas depois, que alívio! Que celestial sensação de bem-estar!

Há 7 anos, quando me via impedido de caminhar, devido à imobilidade de minha perna esquerda, fui encaminhado a essa maravilhosa equipe, sob a proteção da qual me encontro até o presente momento e, acho, por toda a vida, eis que agora enfrentando os supraditos males da idade, para a cura dos quais ainda não foram descobertos medicamentos eficazes.

Quando cheguei à Hidroterapia, fui recebido pela Dra. Karina Ribeiro e pela Dra. Bárbara Priscila. Sendo Karina loura e Bárbara morena, passei a chamá-las de Feiticeira e Tiazinha. Essa dupla foi reforçada com a inclusão da asiática Luciana Kato.

Dras. Karina, a Feiticeira, Bárbara, a Tiazinha, e Luciana, a Tia Japinha

No início, as sessões eram realizadas na Academia BOCA, na 906 Sul. Como esta entrou em reforma mudamo-nos, em novembro do ano passado, para a Academia Consciência Corporal, situada na EQL 06/08 do Lago Sul, ao lado da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Dra. Ayda fotografou: nossa piscina em dia de pouco movimento, comigo de touca vermelha

Nesses benéficos 7 anos, fiz conhecimento com centenas de colegas, incluindo os que vieram, os que ficaram por pouco ou muito tempo, e os que até hoje permanecem na atividade hidroterápica. Um dos mais antigos é o Walter Bautista, meu protagonista desta matéria.

Quando chegou, com seu roupão atoalhado e a touca marrom, fui batendo o olho nele e achando-o perecidíssimo com Papa João Paulo II, vivo na época. Por isso, dei-lhe logo o cognome de Papa Walter, com o qual até hoje o trato.

A Wikipédia diz pouco de sua biografia: “é um físico brasileiro, ex-professor da Universidade de Brasília que, juntamente com Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), foi o idealizador do motor a álcool”. Na Internet, o que mais se encontram são entrevistas e palestras que ele deu em ocasiões diversas, no Brasil e no Exterior.

Em nossas conversas, descobri que ele nasceu em Salvador (BA), a 12.12.1934. É, portanto o primeiro baiano fogoió que vim a conhecer.

Mas ele não gosta de falar de si próprio. Fica difícil, assim, traçar um seu perfil completo. Por este trecho extraído da Internet, obtém-se um pouco mais de sua história: “Foi Secretário de Desenvolvimento de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio dos Governos Geisel (1974-1978) e Sarney (1985-1988), sendo o responsável pela implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

Papa Walter retém na memória todos os fatos do passado, mas rapidamente, se esquece das coisas do presente. Gosto de brincar com ele, ensinando-lhe os nomes dos Cabras de Lampião. Às vezes, eu o vejo sorrindo e pergunto o motivo, ele responde que estava lembrando o nome dos cabras, mas só consegue falar o de Zé Maria. Aí, eu volto a ensinar: Zé do Cá, Zé do Ké, Zé o Ki, Zé do Có e Zé Maria. Com isso, ele sai repetindo os nomes, para não mais os esquecer. Por ora.

Mesmo assim é com os nomes das mulheres do Bando de Lampião: Maria Pata, Maria Peta, Paria Pita, Maria Pota e Maria Xuxa. Outro motivo de descontração para o amigo Papa Walter.

Embora desligadão da atualidade, brinda-nos com práticas de sua juventude, como a natação. Pratica-a em todos os gêneros olímpicos, demonstrando-nos que, em seu tempo de rapaz, foi um verdadeiro campeão. E isso também se lhe constitui em excelente terapia.

Ao focalizar a pessoa do amigo cientista Walter Bautista Vidal, presto sincera homenagem a todos os colegas hidroterapatas que continuam persistindo nessa atividade e agradeço a todas as hidroterapeutas que se esmeram na minoração do problema maior que nos reúne naquele quadrilátero aquático: a dor!

Detalhe de nossa Confraternização Natalina/2011

ALVARENGA E RANCHINHO

 

Alvarenga e Ranchinho

Dupla sertaneja formada por Murilo Alvarenga, o ALVARENGA (Itaúna (MG), 22.05.1912 – 18.01.1978), e Diésis dos Anjos Gaia, o RANCHINHO (Jacareí (SP), 23.05.1913 – 05.07.1991), elenco original que, apesar dos percalços, encontros e desencontros, acertos e desacertos, dissoluções e retornos, foi o mais conhecido, famoso e duradouro.

Murilo, conhecido desde cedo pelo sobrenome, trabalhava em circos como trapezista, malabarista e cantor de tangos. Diésis atuava como cantor na Rádio Clube de Santos, apresentando repertório romântico do qual o samba-canção No Rancho Fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo, era uma de suas músicas prediletas, daí se originando o apelido RANCHO. Conhecido também como BAIXINHO, em função do seu porte físico, aproveitou o apelido e o colocou no diminutivo – Ranchinho.

Em 1928, numa seresta na cidade de Santos, Murilo e Diésis resolveram cantar juntos. De início, atuaram em circos, apresentando repertório variado, com valsas, modinhas, tangos, chorinhos e calangos, entremeando uma música e outra com causos e piadas, dos quais o público achava muita graça, aplaudindo-os em aprovação.

No ano de 1933, a dupla teve início efetivo, cantando no Circo Pinheiro, em Santos, e, logo depois, em São Paulo, na Companhia Bataclã. No ano seguinte, passou a fazer parte do elenco da Rádio São Paulo. Estava consolidada no cenário artístico nacional.

Em 1935, conheceu o compositor e humorista Silvino Neto, pai do ator global Paulo Silvino, com quem formou um trio, Os Mosqueteiros da Garoa, de curtíssima duração.

Refeita a dupla, passou ela a atuar em filmes, nas mais famosas estações de rádio do país e em casas de espetáculos até do exterior, assim como a gravar seus sucessos, incluindo-se neles vários carnavalescos, como Seu Condutor, de Alvarenga e Ranchinho, em 1938, e A Charanga do Flamengo, de Felisberto Martins e Fernando Martins, em 1947

Durante sua existência, a dupla teve outros componentes, em substituição a Ranchinho, que sempre voltava, pois não havia outro com talento igual para seu lugar.

Em 1936, fazendo parte do elenco do Cassino da Urca, começou a fazer sátiras políticas, que se tornaram um dos seus pontos fortes, o que lhe acarretou sérios problemas com a censura oficial.

Mas em 1939, Alzira Vargas, filha do Presidente Getúlio Vargas, ditador na época, convidou a dupla para tocar no Palácio das Laranjeiras para seu pai. Getúlio, depois de ouvir todas as músicas e sátiras, algumas referentes a ele, deu ordem para que suas composições fossem liberadas em todo o território nacional.

Alvarenga e Ranchinho não alisavam os lombos dos poderosos, descendo-lhes, com suas sátiras, vigorosas cipoadas, com exceção de um, porque apoiavam seu governo: Juscelino Kubitscheck.

Na segunda metade dos Anos 80, Ranchinho fez parte do elenco fixo do programa Som Brasil, nas manhãs de domingo, apresentado inicialmente por Rolando Boldrin e depois por Lima Duarte.

Eis o que possuo de Alvarenga e Ranchinho no meu acervo

ALVARENGA E RANCHINHO NO CARNAVAL

01. A Charanga do Flamengo – Marcha (Felisberto Martins e Fernando Martins) 1947
02. Abaixo o Chope – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1943
03. Alvorada – Marcha (Péricles)1949
04. Bebé – Marcha (Murilo Alvarenga) 1949
05. Cheiro Bom – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1947
06. Cordão Japonês – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1953
07. Ferdinando – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1940
08. Linda Veneza – Marcha (Plínio Breas e Silvino Neto) 1938
09. Meu Presente – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1941
10. Pode Ser, Ou Tá Difícil? – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1941
11. Quem Quer Meu Papagaio? – Marcha (Oswaldo Santiago e Roberto Roberti) 1940
12. Sapateia – Samba (Alvarenga e Ranchinho) 1942
13. Seu Condutor – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1938
14. Suzana – Marcha (Alvarenga e Ranchinho) 1940
15. Tenório – Marcha (Murilo Alvarenga)1952

ALVARENGA E RANCHINHO NO SERTÃO E NO HUMOR

16. A Muié Pra Cada Um – Moda (Alvarenga e Ranchinho) REVIVENDO
17. Adeus, Mariazinha – Rancheira (Fausto Vasconcellos) RAÍZES
18. Apelido dos Jogadores – Moda (Raul Torres e Palmeira) REVIVENDO
19. Aquela Flor – Valsa (Alvarenga e Ranchinho) RAÍZES
20. As Invenções – Moda (Alvarenga e Ranchinho) MEU
21. Ave Maria – Valsa (Erothildes de Campos e Jonas Neves) REVIVENDO
22. Boi Amarelinho – Moda (Raul Torres) REVIVENDO
23. Carrero Bão – Toada (Alvarenga e Ranchinho) REVIVENDO
24. Cumpadre, Como É Que Tá Tu? – Calango (Alvarenga e Ranchinho) RAÍZES
25. Desafio de Perguntas – Baião (Alvarenga e Ranchinho) MEU
26. Drama de Angélica – Valsa (M. G. Barreto) RAÍZES
27. Eh! São Paulo – Calango (Alvarenga) RAÍZES
28. Fogo no Canaviar – Calango (Alvarenga e Ranchinho) RAÍZES
29. Gabriela – Rancheira (Péricles) RAÍZES
30. Gaúcho de Lei – Rancheira (Alvarenga, Ranchinho e José Bernardes) REVIVENDO
31. História de Um Soldado – Baião (Alvarenga) RAÍZES
32. Horóscopo – Baião (Alvarenga e Ranchinho) MEU
33. Jogo da Dobradinha – Baião (Alvarenga e Ranchinho) MEU
34. Liga dos Bichos – Moda (Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado) RAÍZES
35. Mister Eco – Toada (Bill, Belinda Putman, e Murilo Alvarenga) RAÍZES
36. Moda do Beijo – Moda (Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado) REVIVENDO
37. Moda do Casamento – Moda (Alvarenga e Chiquinho Salles) REVIVENDO
38. O Lubisome – Moda (Alvarenga e Ranchinho) MEU
39. Romance de Uma Caveira – Valsa (Alvarenga, Ranchinho e Flávio Salles) RAÍZES
40. Seresta – Valsa (Alvarenga, Ranchinho e Newton Teixeira) REVIVENDO
41. Sinhá Rita – Toada (Pedro Paraguaçu e Heitor Silva) REVIVENDO
42. Tico-tico no Fubá – Choro (Zequinha de Abreu) RAÍZES
43. Tudo Tá Subindo – Calango (Alvarenga e Ranchinho) RAÍZES
44. Vamos Arrastá o Pé – Arrasta-pé (Alvarenga e Chiquinho Salles) RAÍZES
45. Você Já Viu o Cruzeiro? – Calango (Capitão Furtado, Palmeira e Piracy) RAÍZES

Ainda sob os efeitos da curtição carnavalesca, convido-os para conhecerem uma pequena amostra do trabalho dessa genial dupla no Carnaval, no Sertão e no Humor, ouvindo a marchinha Bebé, de Alvarenga, sucesso de 1949.

PERY RIBEIRO

Um filho de gênios da MPB

Pery de Oliveira Martins, nasceu a 27.10.1937, no Rio de Janeiro (RJ), onde veio a falecer hoje, 24.02.2012, aos 74 anos de idade, vítima de infarto agudo do miocárdio.

Era filho do compositor Herivelto Martins e da cantora Dalva de Oliveira, ícones sagrados da Música Popular Brasileira

Sua vocação musical manifestou-se cedo. Aos três anos de idade, gravava canções e vozes para personagens dos filmes de Walt Disney – Bambi, Coelho Tambor e Anão Feliz, de Branca de Neve –, traduzidos por João de Barro, o Braguinha. Aos quatro anos, apresentou-se no Teatro Nacional do Rio de Janeiro. Aos sete, participou do filme Berlim na Batucada, de Luís de Barros.

Em 1959, trabalhava como camera-man na TV Tupi do Rio de Janeiro, quando foi apresentado no vídeo, cantando, por Jacy Campos. Ouvido por Paulo Gracindo, foi convidado a tomar parte em seu programa na Rádio Nacional. Essas atuações chamaram a atenção de César de Alencar, que o tomou como afilhado, batizando-o Pery Ribeiro.

Em 1960, fez sua primeira composição, Não Devo Insistir, com Dora Lopes, gravada por Dalva, na Odeon. Seu primeiro disco, em 78 rpm, foi Manhã de Carnaval, e Samba do Orfeu, ambos de Antônio Maria e Luiz Bonfá, pela Odeon, em 1961.

No ano seguinte, também pela Odeon, gravou vários outras músicas em 78 rpm, como Lamento da Lavadeira, de Monsueto, Nilo Chagas e João Violão, Barquinho, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal e Inteirinha, de Luiz Vieira. Seu primeiro LP foi Pery Ribeiro e Seu Mundo de Canções Românticas, pela Odeon, em 1963, acompanhado pelo violonista Luiz Bonfá. Nesse mesmo ano, lançou Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Depois disso, sua carreira se consolidou no âmbito da MPB.

Em 1965, formou, com Leny Andrade e o Conjunto Bossa Três, o Grupo Gemini, apresentando-se na boate Porão 73 e no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Do sucesso grupo, surgiu o convite para se apresentarem na boate El Señorial, na Cidade do México, onde permaneceram por seis meses. Em seguida, formou outro conjunto, dessa vez com músicos mexicanos, apresentando-se na capital mexicana e em Acapulco.

Em 1966, Pery foi para os Estados Unidos, onde mais tarde formou com Sérgio Mendes o conjunto Bossa Rio, composto por, além dos dois, Ronnie, Osmar Milito, Otávio Vailly Jr., Manfredo Fest e Gracinha Leporace. O conjunto excursionou por várias cidades norte-americanas, apresentando-se em shows, boates, teatros e universidades.

De volta ao Rui de Janeiro, em 1971, Pery participou do espetáculo Fica Combinado Assim, com Pedrinho Mattar e Agildo Ribeiro.

Em 1975, gravou o LP Herança, na Odeon, homenageando Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Eliseth Cardoso, Antônio Carlos e Jocafi.

Desde então, vinha trabalhando em vários shows e apresentações na TV, tanto no Brasil, como no exterior. Participou, também, de vários filmes do cinema nacional.

Entre os prêmios conquistados em sua carreira, destacam-se o Troféu Roquette Pinto, e o Troféu Imprensa.

Como pequena amostra de seu trabalho, apresento-lhes a marcha-rancho Dalva, Rainha dos Ranchos, de Elzo Augusto, que ele gravou par ao Carnaval de 1977.

BLECAUTE, O GENERAL DA BANDA

Foto inédita do General da Banda

Otávio Henrique de Oliveira, o Blecaute, nasceu Pinhal (SP), a 05.12.1919, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 09.02.1983, aos 63 anos de idade.

Órfão de pai e mãe, aos seis anos foi levado para São Paulo, onde trabalhou como engraxate e entregador de jornais. Aos 14 anos, estreou como cantor no programa de calouros A Estrela de Ouro, da Rádio Tupi e, oito anos mais tarde, começou a atuar na Rádio Difusora, adotando, por sugestão do Capitão Furtado, o nome Blecaute, aportuguesado do Inglês black-out, que significa preto por fora.

Se fosse nos tempos atuais da patrulha politicamente correta, esse pseudônimo seria imediatamente execrado. Na época do cantor, ele foi aceito de forma pacífica e natural. Em 1955, vi-o, em Teresina (PI) definir seu cognome: “Preto por fora, mas branco por dentro. Sou um preto de alma branca.” E sorria com aquela boca de 360 incisivos e caninos.

Entre 1942 e 1943, foi para o Rio de Janeiro, contratado pela Rádio Tamoio, atuando também nas Radio Nacional e Mauá. Em 1944, participou, como cantor, do filme Tristezas Não Pagam Dívidas, direção de José Carlos Burle e J. Ruy. Seu primeiro sucesso em disco veio com a marchinha Pedreiro Valdemar, de Wilson Batista e Roberto Martins, para o Carnaval de 1949.

O maior êxito de sua carreira, que estourou a banca no Carnaval de 1950, foi o samba General da Banda, de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva. O sucesso foi tão estrondoso, que Blecaute o incorporou a seu visual, passando a apresentar-se, a partir de então com uniforme estilizado, conforme vocês viram na foto inédita acima.

Blecaute participou de várias chanchadas da Atlântida e, como compositor, deixou-nos um sucesso inesquecível, a valsinha Natal das Crianças, que ele mesmo gravou em 1955, com regravações por diversos cantores, até hoje muito tocada no período natalino.

Possuo em meu acervo 59 peças de seu trabalho musical, seja como cantor ou como compositor. Vou relacionar aqui apenas os sucessos carnavalescos que o consagraram e que até hoje são contados nos bailes da saudade e nos blocos de sujo:

A Bolsinha do Waldemar, marchinha de João Roberto Kelly, 1973; Chora, Doutor, samba de J. Piedade, O. Gazzeneo e J. Campos, 1959; Dona Cegonha, marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, 1953; General da Banda, samba de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, 1950; Mamãe, Eu Quero, marchinha de Jararaca e Vicente Paiva, 1937; Marcha das Fãs, marchinha de Wilson Batista e Jorge de Castro, 1956; Marcha do Gago, marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, 1950; Maria Candelária, marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, 1952; Maria Escandalosa, marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, 1955; O Direito de Nascer, marchinha de Blecaute e Brasinha, 1966; O Pé de Anjo, marchinha de Sinhô, 1920; Papai Adão, marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti 1951; Pedreiro Valdemar, marchinha de Wilson Batista e Roberto Martins, 1949; Piada de Salão, marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, 1954; Que Samba Bom!, samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1949; Rei Zulu, marchinha de Nássara e Antônio Almeida, 1950; Soldado de Israel, marchinha de Luiz Antônio, 1968; e Vôte, Que Mulher Bonita, marchinha de João de Barro e Antônio Almeida, 1949.

Blecaute, como todos os grandes astros da Velha Guarda, conheceu o ocaso no final dos Anos 1950, embora depois disso, vez em quando, emplacasse um sucesso carnavalesco, como O Direito de Nascer, em 1966, e Soldado de Israel, em 1968.

Todos os anos, quando se aproxima o período de concursos de músicas para o Carnaval, recebo pedidos de vários compositores para que avalie seus trabalhos, antes de os submeterem ao crivo da Comissão Julgadora. E eu sempre lhes dou o mesmo conselho: na Música, como na vida, a simplicidade é tudo. Quanto mais elaborada, mais a composição é rejeitada pelo público. Como exemplo, cito a singeleza do samba General da Banda, que se tornou sucesso inesquecível desde 1950:

Chegou general da banda
Ê! Ê!
Chegou general da banda
Ê! Á!

Mourão! Mourão!
Vara madura que não cai
Mourão! Mourão!
Oi, catuca por baixo
Que ele vai
(Obá!)

Edigar de Alencar, em O Carnaval Carioca Através da Música, registra: “Uma batucada com todas as características de ponto de macumba se ouve pelas ruas, mormente nos ensaios pré-carnavalescos dos blocos avulsos. A melodia já era conhecida em alguns lugares do Estado do Rio, como saudação a Ogum.”

Era o General da Banda, que agora vocês relembrarão na voz de Blecaute.

ARACY COSTA

Aracy Costa

Aracy Cortes Costa de Almeida nasceu no Rio de Janeiro (RJ) a 03.12.1932, onde faleceu a 19.10. 1976, aos incompletos 44 anos de idade.

Neste dia 20 de fevereiro, segunda-feira de Carnaval, segunda-feira gorda, presto homenagem a essa grande cantora de minha juventude, que teve lugar de destaque nos festejos carnavalescos e na MPB daquele tempo, mas ficou completamente esquecida, isso devido a seu desaparecimento prematuro, há 35 anos.

Aracy Costa iniciou-se na carreira artística desde criança, começando pelo circo. Em 1948, aos 16 anos, inscreveu-se no concurso À Procura de Uma Lady Crooner, promovido pela Rádio Clube do Brasil, para a Orquestra de Napoleão Tavares, com quem passou a trabalhar. Meses depois, venceu o programa de calouros Papel Carbono, de Renato Murce, obtendo contrato com a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, de onde saiu, em 1949, para integrar o quadro da Rádio Guanabara. Decorrido algum tempo, foi levada pelo compositor Haroldo Barbosa para a Rádio Tupi carioca.

Gravou seu primeiro disco em 1950, pela Todamérica, com os baiões Obalalá, de Xerém e Guará, e Rio Vermelho, de Guará e José Batista. Um de seus maiores sucessos foi a marchinha Papai Me Disse, de Peterpan e José Batista, para o Carnaval de 1951.

Excursionou pela Argentina e pelo Uruguai, com a Orquestra do Maestro Carioca, e, depois, pelos Estados Unidos da América, com a Orquestra de Ary Barroso.

Em 1955, foi eleita A Melhor Cantora das Associadas. Em 1960, com o samba Favela Amarela, de Jota Júnior e Oldemar Magalhães, foi eleita Rainha do Carnaval, época em que experimentou seu apogeu artístico. Aliás, o início dos Anos 1960 foi cruel para a Velha Guarda, diante da força com que apareciam a Bossa Nova, o Rock e a Jovem Guarda, com a Televisão para difundi-los.

Nos bancos de dados virtuais e impressos, nada encontrei que indicasse o motivo de seu desaparecimento, em 1976, no vigor de sua mocidade.

Em 1959, Aracy Costa participou da chanchada da Atlântida Entrei de Gaiato, dirigida por J. B. Tanko, espécie de pré-estreia do Carnaval de 1960, cantando a marchinha Carnaval na Lua, de João de Barro. O elenco principal era formado por Zé Trindade, Dercy Gonçalves, Costinha, Chico Anysio, Roberto Duval, Marina Marcel, Evelyn Rios, Hamilton Ferreira e Procopinho.

Nesse filme, Moacyr Franco interpreta a marchinha Me Dá Um Dinheiro Aí, dos irmãos Glauco, Homero e Ivan Ferreira, que o lançou para o estrelato e até hoje é das mais tocadas nos salões e blocos de sujo. Outros sucessos carnavalescos ficaram a cargo de Grande Otelo, Linda Batista, Carlos Galhardo, Blecaute, Joel de Almeida e Emilinha Borba, além dos próprios atores, Dercy e Zé Trindade, este com a marchinha Cobra Que Não Anda, dele e Walter Levita.

Tenho em meu acervo, as seguintes preciosidades do repertório de Aracy Costa: A Mulher do Fu-Man-Chu, marchinha de João de Barro e Alberto Ribeiro; Abre a Porta, samba de Arlindo Marques Júnior e José Batista; Alice, baião de Victor Simon e Neco; Baile das Caveiras, marchinha de Milton de Oliveira e Ruthnaldo; Botão de Laranjeira, marchinha de Ruthnaldo Brasinha e Jorge Gonçalves; Brotinho Bossa Nova, samba de João Roberto Kelly; Carnaval na Lua, marchinha de João de Barro; Consolo de Otário, samba de João Roberto Kelly; Depois das Sete e Quarenta, foxtrote de Carlos César e Fernando César; Dim-dim-dim, samba de Peterpan e José Batista; Eu Sou Assim; samba de Peterpan e Amadeu Veloso; Favela Amarela, samba de Jota Júnior e Oldemar Magalhães; Iaiá da Bahia, baião-macumba de Clodoaldo Brito e João Melo; Kanimambo, foxtrote da A. Fonseca, R. Ferreira e M. Sequeira; Luz da Mangueira, samba de P. Menezes, D. Furtado e E. Rocha; Lá no Irajá, marchinha de Paquito e Romeu Gentil; Maxixe do Beijo, maxixe de Roberto Martins e Ary Monteiro; Mustafá Bossa Nova, chá-chá-chá de Mustapha, Bob Azzam, Ed Barclay e Luiz Mergulhão; Samba do Teleco-teco, samba de João Robeto Kelly; Se Você Me Adora, samba de Roberto Martins e Ary Monteiro; Também Vou na Jogada, samba de José Batista e João da Silva; Tequila, mambo-rock de Chuck Rio e Paulão Rogério; Zum-zum-zum, marchinha de Haroldo Lobo e Brasinha; Na Beira-mar, baião de Zé Dantas: e Obalalá, baião de Xerém e Guará.

Para vocês, a marchinha Carnaval na Lua, que Aracy cantou no filme:

 

(Quando eu digo que, lá em Balsas (MA), eu tocava Carnaval coadjuvado pelo sanfoneiro Edwaldo, tem gente que até acha graça! Trombone e sanfona! Quem é que fazia a introdução em Evocação nº 1, de Nélson Ferreira ou  a parte das palhetas em Zé Carioca no Frevo, de Geraldo Mederios? Pois sim!)

Também disponibilizo-lhes, na íntegra, também com Aracy Costa, a gravação original de Carnaval na Lua:

WANDO, O REI DA LINGERIE

Dois momentos de Wando

Morreu hoje um grande cantor da MPB, brega de primeira linha, compositor e intérprete de bonitas canções que embalaram o cenário romântico de nosso povo.

Wanderley Alves do Reis, o Wando, nasceu em Cajuri (MG), a 10.10.1945, e faleceu em Nova Lima (MG), a 08.02.2012.

O apelido Wando foi-lhe dado por sua avó. Ainda pequeno, mudou-se para Juiz de Fora (MG), onde se formou em violão erudito, começando a lidar com música por volta dos 20 anos. Nessa época, já participava de conjuntos e se apresentava em bailes na região. Mais tarde, mudou-se para Volta Redonda (RJ), onde trabalhou como caminhoneiro e feirante.

Sua carreira de cantor iniciou-se em 1969, mas o sucesso só veio mesmo em 1973. Coincidência ou não, aconteceu algo no começo de seu estrelato que marcou para sempre sua personalidade artística, levando-me a deduzir que fui seu mestre no assunto.

No ano de 1972, eu, solteiro cobiçado e recém-lançado no mercado paquerador, incrementei uma coleção de calcinhas usadas, que me eram ofertadas pelas visitantes de meu cafofo, recebendo elas uma peça zeradinha em retribuição. A fama dessa coleção ultrapassou as fronteiras brasilienses, tendo chegado, portanto, suponho eu, aos ouvidos de Wando que, bom aluno, tratou logo firmar-se nesse prazeroso metiê.

E com uma vantagem: enquanto eu tinha de comprar as calcinhas para a troca, ele as recebia de graça, nos palcos da vida, atiradas por suas fãs, que voltavam para casa sem elas, desprevenidamente.

Wando, além de intérprete, também compôs para outros medalhões da MPB. São dele Vá, Mas Volte, lançamento de Ângela Maria, em 1975 e A Menina e o Poeta, que Roberto Carlos incluiu em seu álbum de 1976.

Moça, Fogo e Paixão e Chora Coração constituem criações de Wando que permanecerão para sempre em nossa lembrança, trazendo-o ao presente, pois contêm sua inconfundível marca registrada.

Duas de suas composições fizeram sucesso estrondoso no Carnaval e até hoje são cantadas nos blocos de sujos e nos salões e incluídas em qualquer pupurri carnavalesco: os sambas O Importante É Ser Fevereiro, em parceria com Nilo Amaro e gravado por Jair Rodrigues em 1972, e Se Deus Quiser, em parceira com Jair Rodrigues, que o gravou em 1973.

A 27 de janeiro de 2012, o cantor foi internado na CTI de um hospital em Belo Horizonte, com problemas cardíacos graves. Submetendo-se a uma angioplastia de emergência, passou a respirar com o auxílio de aparelhos.  Hoje pela manhã, hospitalizado em Nova Lima, uma parada cardíaca o levou para sempre.

Para que vocês curtam a saudade desse grande intérprete e de sua voz, aí vai a toada Moça, sua mais bela composição.

GERMANO MATHIAS, O MALANDRO PAULISTANO

Gemano e sua ginga no asfalto

Germano Mathias foi primeiro o malandro genuinamente paulista que incorporei a meu acervo musical, no ano de 1958, quando mergulhei de cabeça na curtição MPB. Com o perfil desse grande sambista, presto mais uma homenagem a sua cidade natal, que a 25 de janeiro passado aniversariou.

Nascido em São Paulo (SP), a 02.06.1934, no bairro do Alto do Pari, frequentava, desde rapaz, as rodas de samba promovidas por Clóvis Bevilacqua e João Mendes, como ele engraxates da Praça da Sé. Entrou para Escola de Samba Rosas Negras, em 1951, integrando, depois, a Lavapés.

Em 1955, apresentou-se num quadro para calouros denominado À Procura de Um Astro, no programa Caravana de Alegria, da Rádio Tupi de São Paulo, cantando um samba sincopado, gênero que marcaria para sempre sua carreira.  A 26 de outubro, foi contratado e recebeu sua Carteira de Artista com a inscrição “cantor e executante de instrumentos exóticos”, porque marcava o ritmo numa tampa de lata de graxa.

Com a lata de graxa e encarando o telespectador

Em 1956, gravou, pela Polydor, seu primeiro registro fonográfico, Minha Nêga na Janela, composição dele em parceria com Doca, samba que logo se tornou sucesso nacional, num tempo em que o rock já começava a invadir a mídia brasileira. Eis a letra:

Não sou de briga
Mas estou com a razão,
Ainda ontem bateram na janela
Do meu barracão.
Saltei de banda
Peguei da navalha, disse:
– Pula, moleque abusado,
Deixa de alegria pro meu lado!

Minha nega na janela
Diz que está tirando linha
– Êita nega tu é feia
Que parece macaquinha!
Olhei pra ela, disse:
– Vai já pra cozinha!
Dei um murro nela
E joguei ela dentro da pia.
(Breque)
Quem foi que disse
Que essa nega não cabia?

Pela mesma etiqueta, em 1957, lançou os sambas A Situação do Escurinho, de Padeirinho da Mangueira e Aldacir Louro e Falso Rebolado, de Venâncio d Jorge Costa. No mesmo ano, gravou, na Polydor, seu primeiro LP, Germano Mathias, o, Sambista Diferente, recebendo por esse trabalho os prêmios Roquete Pinto e Guarani.

O lançamento seguinte, em 1958, deu-se na RGE, com seu samba de parceria com Sereno Guarde a Sandália Dela, de sucesso arrebatador, mais tarde regravado por Elis Regina e Jair Rodrigues. Em 1959, lançou pela mesma RGE o samba Malandro de Araque, de Príncipe Hindu e Rafael Gentil, sátira aos playboys caboclos e à moda das lambretas recém-surgida. Daí pra frente, sua carreira galgou os degraus da fama, para nunca mais descer.

Na malandragem, gingando no palco e imitando trombone com a boca

Além de inspirado compositor, Germano Mathias é um homem-show. No palco, ele canta, dança, faz piruetas, acompanha-se com a lata e graça e imita o trombone de vara, tocando com a boca e fazendo os gestos característicos.

Quando estive no Recife, para tomar posse na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho, fiquei abismado com a quantidade de forrozeiros que compareceram à solenidade, gente que hoje domina todo o cenário musical do Nordeste, mas que é completamente desconhecida no resto do País. Bem assim acontece com Germano Mathias. Do lado de cima do Mapa do Brasil, quase ninguém o conhece. Mas é só ir a São Paulo, a Capital Mais Nordestina desta Nação, para constatar o quanto ele é, ali, popular, conhecido e atual.

Guardo em meu acervo estas preciosidades que ele gravou:

A Situação do Escurinho, de Aldacir Louro e Padeirinho; Amélia Grã-fina, de Germano Mathias e Oswaldo França; Amor Sociedade Anônima, de Jorge Costa e Durum-dum-dum; Audiência ao Prefeito, de Tóbis e Orlando Líbero; Baiano Capoeira, de Jorge Costa e Geraldo Filme; Baile do Risca-Faca, de Jorge Costa e Durum-dum-dum; Bonitona do Primeiro Andar, de Jorge Costa e Durum-dum-dum; Braço a Torcer, de Alceu Menezes e Antoninho Lopes; Bronca de Marilu, de Jorge Costa e Américo de Campos; Chavecada na Pavuna, de Gariba e Basílio Alves; Derrocada no Salgueiro, de Germano Mathias e Jorge da Silva; Desigualdade, de Germano Mathias; Esculacho na Bonifácia, de Jorge Costa e Durum-dum-dum; Falso Rebolado, de Venâncio e Jorge Costa; Feitiço Fracassado, de Germano Mathias e Wivio Sá; Força do Perdão, de José Ramos e Jorge Costa; Figurão, de Germano Mathias e Doca; Guarde a Sandália Dela, de Germano Mathias e Sereno; Juca do Paulistano, de Henricão e Conde; Lar Sem Pão, de Venâncio e Jorge Costa; Lata de Graxa, de Mário Vieira e Geraldo Blota; Malvadeza Durão, de Zé Kétty; Maria Antonieta, de Germano Mathias e Wivio Sá; Maria Espingardina, de Jorge Costa e Zé da Glória; Mexi Com Ela, de Zé Kétty; Minha Nêga na Janela, de Germano Mathias e Doca; Minha Pretinha, de Jair Gonçalves e Edison Borges; Mulher Por Acaso, de Venâncio e Jorge Costa; Não Aumenta, de J. Santos e Carneiro Filho; Não Volto Pra Casa, de Denis Brean e O. Guilherme; O Mandamento do Amor, de Elzo Augusto; O Presidente Jurou, de Germano Mathias e Sereno; Paraíso da Tereza, de Antoninho Lopes e Benedito Augusto; Pedra Dura, de Antoninho Lopes e Benedito Augusto; Recordando Confusão, de Tóbis; Requebrado Diferente, de Jorge Costa e Luiz Walderley; Romeu e Julieta, de Tânio Jairo e Tião Mendes; Rua, de Jair Gonçalves; Sabão na Panela, de Germano Mathias e Antoninho Lopes; Senhor Delegado, de Ernani Silva e Antoninho Lopes; Sinfonia da Goteira, de Oswaldo França e Antoninho Lopes; Tem Que Ter Mulata, de Túlio Paiva; Vaidosa, de Herivelto Martins e Arthur Morais; e Vigarista no Terreiro, de Zé Kétty e Álvaro Xavier.

Com vocês, Minha Nêga na Janela, sua primeira gravação.

DOIS FILHOS DE ASCENDINO

  

Ascendino Pinto de Aragão

(Necessário intróito para explicar-lhes meu parentesco com o ilustre clã Pinto de Aragão. No tempo a que agora me reporto, a ideia de família era muito abrangente, e mais valiam os laços afetivos que os sanguíneos. José da Silva Albuquerque, nascido em 1885, filho de Manoel Raimundo de Albuquerque, e Izidória Leão da Silva, irmão de minha avó materna, Ana de Albuquerque Bezerra, casou-se, em Balsas (MA), a 07.12.1911, com Eulina Correia de Castro, nascida em 1896, filha de Joaquim Correia Sobrinho e de Maria Correia de Castro, com quem teve duas filhas: Aline Correia de Albuquerque, nascida a 15.05.1913, e Maria Albuquerque Barbosa – nome de casada –, a Donamaria, nascida a 12.08.1914. Eulina enviuvou a 05.07.1915 e, a 29.02.1916, casou-se, em Balsas, com Ascendino Pinto de Aragão, também viúvo e pai de três filhos, adiante nomeados, passando a assinar-se Eulina Correia Pinto. Tanto os filhos de Eulina, quanto os de Ascendino, pelos laços afetivos com os quais foram criados e educados, são considerados como legítimos integrantes do clã Albuquerque, e vive-versa, o que muito nos orgulha.)

Ascendino Pinto de Aragão, filho de Franklin Pinto de Aragão e Constância Maria de Aragão, nasceu em Sousa (PB), a 03.10.1887, e faleceu em Goiânia (GO), a 01.07.1969.

Nesses quase 82 anos de vida, foi um pouco de tudo e muito mais. Arguto e de inteligência fértil, era detentor de vasta cultura e formação intelectual prática. Autodidata, teve na Escola da Vida a diplomação necessária para desempenhar várias atividades que exigiriam curso universitário: foi advogado provisionado, contador, jornalista, engenheiro prático e, em cidades que não dispunham de médico, como em Balsas, desempenhou esse papel com muita propriedade. Além disso, foi comerciante, Comandante de vapor na Bacia do Rio Parnaíba, Major da Guarda Nacional, Prefeito em Balsas e em São Raimundo Nonato (PI) e servidor público, tendo se aposentado como Diretor da Mesa de Rendas de Parnaíba (PI).

Era um homem de conversa fluente e agradável, que interessava a todos os circunstantes, como foi meu caso, um jovem estudante de 14 anos de idade, ao conhecê-lo em Teresina (PI). Desde então, passei a admirá-lo, até por ter sido ele grande amigo de Seu Rosa Ribeiro e de Dona Maria Bezerra, meus queridos e saudosos pais.

Hoje, Ascendino Pinto afigura-se-me como verdadeiro cavaleiro andante, cigano ou aventuroso marinheiro, que deixava um amor em cada porto!

Sua vida romântica é riquíssima e daria um livro, caso fossem acessíveis os dados biográficos pertinentes a todos os lugares por onde passou. Não dispondo eu de documentos verídicos, vou ater-me aqui aos que consegui mediante certidões fornecidas pelos diversos Cartórios que se dispuseram a comigo cooperar, além de informações fornecidas por descendentes seus, como o Guto, seu neto, amigos, como o Aroldo Braga, de São Paulo e em outras colhidas em textos confiáveis de escribas diversos.

Lucíola Marques Pinto – parente sua –, professora e historiadora, paraibana de Sousa, escreveu num de seus livros, Roteiro de Uma Cidade Perdida na História – Souza, o texto que adiante transcrevo:

“Adele, uma das mais belas mulheres sousense, era artista. Tocava muito bem órgão e violão, que aprendeu com o musicólogo Galdino Formiga, o Mestre que também ensinava Francês e Latim. Para a época, Adele era uma pessoa que se destacava pela cultura e sensibilidade artística, mas teve seu destino marcado pelas grandes desventuras, amorosas. Seu primeiro amor, seu primo Ascendino Pinto de Aragão, emigrou para o Amazonas, depois de acabar o casamento com ela, quando corriam os proclamas, por ter sido descoberto que os noivos eram irmãos. Nesse tempo, os segredos de família eram guardados a sete chaves.”

Desiludido com esse pungente desfecho em seu primeiro caso de amor, Ascendino foi dar com os costados em Belém do Pará, onde se estabeleceu no comercio e se iniciou no exercício do jornalismo, inicialmente domo repórter de A Província do Pará. Curado de seu recente desengano amoroso, ali conheceu a jovem Antônia Pimentel, com quem se casou teve os três filhos: Jurandir Pinto, Antônio Pojucan Pinto de Aragão e Uacy de Aragão Macedo.

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HEBE CAMARGO, A MORENINHA DO SAMBA

Três momentos de Hebe Camargo nos Anos 1950

Em janeiro passado, resolvi homenagear a cidade de São Paulo, em seu 457º Aniversário, ocorrido no dia 25. Qui-lo e fi-lo, mas com um dia de atraso, devido aos apertos de costura neste Cardinalato, conforme vocês podem constatar neste Jornal da Besta Fubana, edição de 25.01.11.

Naquela postagem, disponibilizei o samba Isto É São Paulo, de Kazinho, com o conjunto Os Demônios da Garoa, que é a cara de São Paulo, em Carrara esculpida.

Doravante, este Cardinalato não deixará em branco a passagem dessa efeméride, consignando justíssimo preito à Capital mais nordestina do Brasil.

Na próxima quarta-feira, dia 25, comemoraremos o 458º Aniversário da Pauliceia, brindando-os com uma artista que também é sua cara, sem tirar nem pôr: Hebe Camargo, outrora A Moreninha do Samba, desde então uma gracinha.

Hebe Maria Monteiro de Camargo Ravagnani – nome de casada – filha de Ester e Sigesfredo Monteiro de Camargo, nasceu em Taubaté (SP), a 08.03.1929. Seu nome foi inspirado na mitológica deusa da juventude, o que repercutiu sobre sua personalidade, pois permanece até hoje esbanjando alegria e extrema jovialidade.

Seu pai, conhecido como Fego, era violonista e tocava trilha sonoras de filmes, no tempo do cinema mudo. Em sua infância, Hebe chegou a morar num porão, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Jovem ainda, ajudava nas despesas de sua família, prestando serviços domésticos na casa de uma tia. Abandonando os estudos no 4º Ano do Ensino Fundamental, Hebe enveredou pela carreira artística, influenciada pelo virtuosismo do pai.

Aos 13 anos de idade, Hebe formou, juntamente com a irmã Stella e duas primas o Quarteto Dó-Ré-MI, inspirado no grupo vocal norte-americano Andrews Sisters, com o qual se apresentou na Rádio Tupi. Com o casamento de uma das primas, o quarteto virou o trio As Três Américas. Desistindo a última prima da carreira artística, Hebe formou com a irmã a dupla Rosalinda e Florisbela. Depois, partiu para a carreira solo. Devido a seu repertório sambista, ganhou, aos 15 anos, o cognome de A Moreninha do Samba.

Hebe participou da comitiva que foi ao Porto de Santos receber os equipamentos para transmitir sinais televisivos no Brasil. No dia da estréia da Rede Tupi, Hebe estava escalada para cantar o Hino da Televisão, mas alegou motivos de saúde e foi substituída por Lolita Rodrigues. Muitos anos depois, ela revelou que sua ausência naquele momento histórico deveu-se ao fato de ter comparecido a show que um seu namorado fazia noutro local. Isso, porém, não empanou sem brilho de sua estrela. Hebe firmou-se no palco do vídeo e é hoje considerada, com muita justiça, a Grande Dama da Televisão Brasileira.

Hebe é morena. Em 1957, aos 28 anos, tingiu os cabelos de loiro, e isso foi definitivo, para sempre. Neste pequeno fragmento de sua biografia, quero focalizar apenas sua fase musical morena, que vai até meados dos Anos 1950.

Tenho em meu acervo as seguintes preciosidades por ela registradas no acetato: Quem Foi que Disse?, baião de Valadares Lago e Gabriel de Aguiar – 1950; Oh! José, samba de Esmeraldino Sales e Ribeiro Filho – 1950; Baião Caçula, baião de Mário Gennari Filho e Felipe Tedesco – 1952; Testemunha, samba-canção de J. Piedade e Alfredo Godinho – 1952; Eu Vou de Touca, marcha de Blota Júnior e Denis Brean – 1952; Pauliceia em Festa, marcha de Avaré, 1953; Cansada de Sofrer, samba de José Roy e Doca – 1954; e Madalena, samba de Blecaute e Oswaldo Ferreira – 1954.

O ano de 1953 foi muito especial, pois transcorreu todinho num clima de preparação, de expectativa, isso envolvendo minha pessoa, em particular, e todo o Brasil, dum modo geral. No ano seguinte, 1954, eu viria a completar 18 anos de idade, conquistando o direito de assistir a filmes impróprios para menores, e o primeiro foi Arroz Amargo, com Vittorio Gassman e Silvana Mangano, no qual esta interpretava a canção e dança erótica Baião de Ana. Também em 1953, toda a Nação Brasileira se preparava para a grande festa do Quarto Centenário de São Paulo, a transcorrer no ano seguinte.

Diversas composições foram lançadas para as comemorações. A cada ano, irei disponibilizando aqui as existentes em meu acervo. A mais importante de todas, que agora vocês ouvirão, é São Paulo Quatrocentão, dobrado de Avaré, Chiquinho e Garoto, com Hebe Camargo e acompanhamento de Altamiro Carrilho e sua Bandinha. Essa música não só divulgou o Quarto Centenário de São Paulo, como fez Altamiro conhecido por todos os brasileiros. Eis a letra:

Oh, São Paulo! Oh, meu São Paulo!
São Paulo Quatrocentão.
Oh, São Paulo! Oh, meu São Paulo!
Você é o meu torrão.
Oh, São Paulo! Oh, meu São Paulo!
São Paulo das tradições.
Oh, São Paulo!O seu nome
Vive em todos os corações
(Bis)

Você é lindo, é!
É a terra do melhor café!
Seu grande centro industrial
Representa o esteio nacional.
Você é varonil
Orgulho deste meu Brasil!
Oh, meu São Paulo!
Você é forte, é colossal!
(Bis)

Quem é que não vai visitar meu São Paulo
No Quarto Centenário?
Quem é que não vai lhe enviar Parabéns
Pelo seu aniversário?
Quem é que não sente emoção
Ao saber que também vai participar
Da festa do meu São Paulo
Que pra sempre hei de adorar?
(Bis)

Cliquem aqui para ouvi-lo:

PARTITURAS CARNAVALESCAS – 2012

No ano de 2011, consegui amealhar um alentado acervo de partituras carnavalescas, praticamente quase arregimentando tudo que existe impresso no assunto. Grande parte dessa riqueza me foi proporcionada pelo amigo Maestro Antônio Gomes Sales, de Caraúbas (RN), que, além de me emprestar todo o arquivo musical de seu falecido pai, também colocou na pauta algumas preciosidades inéditas até então.

De posse de tanta riqueza, montei o CD denominado CARNAVAL – PARTITURAS JPEG, com 502 partituras de marchinhas e sambas carnavalescos para trombone e sax alto, e 502 dos mesmos ritmos para pistom, sax tenor e clarineta, peças musicais bem conhecidas pelo folião médio brasileiros.

Dentro desse elenco, selecionei 100 partituras das marchinhas e 100 dos sambas carnavalescos mais tocados e cantados de todos os tempos e coloquei-as à disposição de todos os internautas. Para baixá-las, copiá-las e imprimi-las, basta acessar meu ÁLBUM DE FOTOS NO ORKUT, onde serão encontradas também varias partituras de outros gêneros.

No final de 2011, quando eu pensei que esgotara o filão de minhas pesquisas, eis que o amigo compositor Bráulio de Castro me presenteia com o tesouro abaixo, contendo arranjos para orquestra de 120 frevos, sendo 70 frevos de rua, 34 frevos-canções e 16 frevos de bloco, conforme relação constante da figura a seguir:

Não custa repetir: as 100 partituras de marchinhas e sambas carnavalescos mais tocados e cantados de todos os tempos encontram-se à disposição de todos em meu álbum de fotos do Orkut. As demais, inclusive os arranjos para orquestra dos 120 frevos podem ser a mim solicitadas, individualmente, pelo e-mail abaixo:

raimundofloriano@brturbo.com.br

Por ser extensa a lista – 502 peças, deixo de nominá-las, mas pense numa marchinha ou num samba carnavalesco que você conhece, e certamente comigo os encontrará.

O ADIVINHADOR

O expediente matinal ainda não começara. Estávamos assinando o Ponto, quando resolvi contar um caso verídico acontecido com meu amigo Chico Fogoió – atual Assessor deste Cardinalato para Assuntos Piauizeiros. Ao terminar meu relato, todos os circunstantes, uns vinte colegas, caíram em estrondosas gargalhadas. Dona Itajacy, que estava um pouco distante, mas com as oiças ligadonas, viu-se acometida de convulsivas risadas, culminando em se mijar de tanto riso, segundo depois me revelou Dona Maria Laíza, sua confidente. Foi no início dos Anos 1970.

Eu jamais esperara tal reação, principalmente por se tratar de fato real. Goiano Braga Horta foi o que mais apreciou o desfecho e aproveitou para me aconselhar:

– Raimundo, manda essa piada para o Pasquim, que ela, com certeza, será publicada na Antologia Mundial de Anedotas de Salão! Vai ser o maior sucesso!

Argumentei com o Goiano que aquilo não era piada, era apenas um flagrante da vida do Chico, mas ele continuou insistindo para que eu tentasse a publicação. Nunca o fiz, principalmente porque, naquele tempo, eu tinha o maior acanhamento de pôr minha cara – ou a bunda – na janela. Medo de que o pessoal do Pasquim me desse, como era seu costume, uma cruel espinafrada na Seção de Cartas.

Essa timidez, quase 40 anos depois, se encontra superada, graças ao Jornal da Besta Fubana, que publica tudo que se lhe remete, bom ou ruim. O julgamento fica a cargo do leitor. Em sendo assim, dispo-me agora de todo o acanhamento que me caracteriza, ofertando para vocês a oportunidade de conhecerem a saia-justa em que se viu envolvido meu fraterno piauiense.

Aconteceu em 1956. Chico Fogoió resolveu mandar-se de Teresina e cavar a melhora da vida em São Paulo. Para isso, pediu as contas no emprego, onde ganhava salário mínimo, vendeu a rede, a bicicleta velha caindo aos pedaços, um canário cantador, juntou o apurado e embarcou no pau de arara rumo à conquista do Mundo.

Na Pauliceia, a coisa não estava fácil. Hospedou-se ele numa pensão cabeça de porco em longínquo subúrbio e, todos os dias, dirigia-se para as portas de fábricas e de casas comerciais, na tentativa de arrumar emprego. Qualquer tipo de ocupação. E nada! O dinheirinho que levara encurtava, minguava, estava chegando a seu final.

Certa manhã, nas imediações da Praça da Sé, restando-lhe apenas uns cem cruzeiros no bolso, deu de cara com grande tabuleta pendente duma janela, com a seguinte inscrição:

ENSINA-SE A ADIVINHAR EM APENAS UMA AULA
PREÇO DO CURSO: 50 CRUZEIROS
PAGAMENTO ADIANTADO

Chico Fogoió exultou! Pensou: “Pronto, estou salvo. Pago 50 cruzeiros do curso, depois jogo 50 cruzeiros no Bicho, com o dinheiro ganho invisto mais no jogo e, em pouco tempo, poderei voltar ao Piauí com a mala cheia da grana e conta milionária no Banco do Brasil!”

Subiu a escada que dava acesso ao Curso. Havia imensa fila. Chico entrou nela. Ao chegar sua vez, uma Secretária recebeu o pagamento adiantado, como previsto, e o encaminhou para a Sala de Aula.

O Professor de Adivinhação o aguardava. Mandou que ele tirasse a roupa e ficasse de quatro. Chico Fogoió estranhou aquele tipo de aula e quis insurgir-se contra a ficar nu e, mais ainda, na incômoda posição de quatro. Mas o Mestre foi incisivo:

– O senhor quer aprender a adivinhar? Então é assim! Caso não concorde, pode pegar seu dinheiro e desaparecer daqui, pois tenho outros alunos para diplomar.

Chico Fogoió resignou-se. Tirou a roupa, ficou pelado e pôs-se na posição recomendada.

O Mestre, então, destampou uma lata de vaselina sólida, tirou uma dedada e besuntou o fiofó o Chico. Depois disso, manuseou seu enorme pingolão até ficar bem rijo, untou-o também com vaselina, após o que aproximou-o em riste no rumo do bumbum do Chico, em vista do que este se virou pro Mestre e gritou:

– Peraí! Peraí! Desse jeito, tá parecendo que o senhor vai mesmo é me enrabar!!!

Ao que o Mestre respondeu:

– Pronto! Já está adivinhando! Acabou-se a aula! O próximo!!!

MÔNICA SILVA, SANGUE BALSENSE NA PATINAÇÃO MUNDIAL

 

Mônica em foto promocional

Mônica é bisneta de Seu Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e de Dona Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, balsenses, meus queridos e saudosos pais. Nasceu em Brasília, a 30.11.1967, onde morou até conquistar o Mundo, conforme adiante lhes contarei.

Seu esporte preferido sempre foi a patinação no gelo. Desde a tenra adolescência, começou a praticá-la  aqui em Brasília, na Divertilândia, um rinque instalado no ParkShopping. Aos 19 anos, teve de afastar-se temporariamente desse lazer, devido a sua participação em intercâmbio cultural na cidade de North Platte, Nebrasca, EUA, onde não existia pista de gelo. Aliás, patinou apenas uma vez naquele país, quando foi a passeio a Colorado Springs, onde comprou o primeiro par de patins profissional. Um ano depois, retornou a Brasília.

 Em 1987, o show Holiday on Ice, em parceria com a Joal Espetáculos Internacionais, abriu audições – testes – para uma turnê à parte denominada Carnaval no Gelo. Mônica, então com 20 anos, candidatou-se, sendo imediatamente classificada e contratada, excursionando, primeiramente, por três meses pelo interior de São Paulo. Ao término da temporada brasileira, foi convidada a participar do Holiday on Ice no ano seguinte. Iniciava-se, aí, sua carreira como Patinadora Internacional, com estreia em Milão, Itália.

Mônica no Corpo de Baile do Holiday on Ice e com a alemã Alexandra Ziegler (E)

Logo no início dessa excursão, protagonizou verdadeiro conto de fadas: o húngaro Lászlo Vadja, astro principal do Holiday on Ince, por ela se apaixonou, a atração foi mútua, e os dois se casaram na Europa.

Mônica em duas cenas – Com o marido Lászlo Vadja – Notícias do casamento

Sua permanência no Holiday on Ice durou até 1995, num total de 7 anos, viajando por toda a Europa, América do Sul e México. Retornando ao Brasil, terminado o contrato,  conflitos profissionais determinaram também o fim desse glamouroso casamento.

Grandes momentos de Mônica no Holiday on Ice

Em junho de 1996, quando pensava que sua carreira de patinadora havia-se encerrado, foi contratada pela Disney on Ice para compor o elenco do show Aladin na Turnê da América do Sul. No ano de 1997, seguiu com o espetáculo para a Ásia – Japão, Indonésia e Taiwan. Em terras japonesas, conheceu o empresário canadense Wesley Salter – estranho ao metiê artístico –, com quem contraiu novas núpcias.

Outros belos momentos internacionais de Mônica

No final de 1997, Mônica retornou à América do Sul, com o show Beauty and the Beast – A Bela e a Fera –, da Disney, quando teve a satisfação de, finalmente, apresentar-se em Brasília, sua terra natal, em novembro, no Ginásio Nílson Nélson.

Em 1998, após turnê pela Rússia, Mônica encerrou, após 10 anos de atuação, sua carreira de Patinadora Internacional, indo residir com o marido no Canadá.

Ao longo de 10 anos, apresentou-se nos 26 seguintes países: Brasil, Itália, França, Alemanha, Áustria, Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Rússia, Japão, Indonésia, Taiwan, México, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Venezuela, Polônia, e a antiga Checoslováquia.

Hoje, Mônica trocou o cosmopolitismo pelo prazer de estar de volta ao Brasil, desfrutando a tranquilidade da vida perto da Natureza, em companhia de um grande amor e da alegria de pintar.

Com extrema facilidade para assimilar línguas estrangeiras, o Ensino de Idiomas – Inglês, Francês e Húngaro –, tornou-se, após a Patinação Internacional, sua profissão definitiva.
  
É isso aí! Sangue balsense ornamentando o showbizz! De Balsas para o Mundo!

Para vocês, Mônica no primeiro teste classificatório de sua carreira:

HOJE É DIA DE SANTOS REIS

Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os três magos do oriente
Seguindo a estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A Santíssima Família
Jesus, Maria e José

Para vocês, A Festa do Santo Reis, de Márcio Leonardo, na voz de Tim Maia.

VASSOURINHA, O ETERNO ADOLESCENTE SAMBISTA

Vassourinha aos 12 anos

Mário Ramos de Oliveira, o Vassourinha, nasceu em São Paulo (SP), no dia 16 de maio de 1923.

Já era assim conhecido quando, em 1935, aos 12 anos, foi registrado como contínuo – para driblar a legislação trabalhista de então – na Rádio Record, onde iniciou a carreira de cantor, atuando também no horário noturno.

Começou cantando com o nome de JURACY, porque se tratava de uma nomenclatura neutra. Sua voz tendia para timbres agudos, infantis, daí a ideia de dar-lhe um nome que tanto servia para homem como para mulher.

Vale aqui relembrar a origem do pseudônimo. Havia em São Paulo, no Largo do Paysandu, um motorista de praça negro, muito alegre, apelidado de VASSOURA, pelo fato de, altas madrugadas, levar para casa os últimos freqüentadores do Ponto Chic, reduto preferido dos artistas e da grã-finagem da cidade. Quer dizer, “varria” os retardatários. Figura muito popular na capital paulista seria imediatamente lembrado ao se precisar de eficiente nome artístico para o pretinho Mário. Por analogia, gaiatice, ou seja lá o que for, passaram a inventar que o menino era “filho” do Vassoura, e assim nasceu o VASSOURINHA.

Ainda aos 12 anos, participou do filme Fazendo Fita, dirigido por Vittorio Capellaro. Na Rádio Record, formou dupla com a cantora Isaurinha Garcia, apresentando-se em shows e circos.

Em 1941, foi para o Rio de Janeiro, onde gravou na Colúmbia e atuou na Rádio Clube do Brasil. Nos anos de 1941 e 1942, gravou os seis únicos discos – bolachões, de cera de carnaúba – que deixou. O primeiro, com os sambas Juracy e Seu Libório, fez grande sucesso e o projetou nacionalmente como genuíno herdeiro do consagrado sambista Luís Barbosa.

Entre as demais músicas, destacam-se Emília, que ratificou seu êxito inicial, Amanhã tem Baile, Olga e Volta Pra Casa, Emília. Aliás, todo o seu repertório é até hoje cantado pelos curtidores da Velha Guarda.

A 03 de agosto de 1942, com apenas 19 anos, veio a falecer, em São Paulo, vítima, ao que parece, de uma osteomielite, deixando em sua diminuta discografia o suficiente para consagrar-se como um dos maiores sambistas brasileiros.

Vassourinha aos 19 anos

Na época de sua morte, era grande o elenco de famosos artistas no cenário radiofônico nacional. Astros como Gilberto Alves, Ciro Monteiro, Risadinha, Luís Barbosa, Moreira da Silva, Nélson Gonçalves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Ataulfo, Alves, Déo, Francisco Alves, Nuno Roland e Roberto Paiva, atuando com o mesmo gênero ou absorvendo seu repertório, fizeram com que o nome do adolescente Vassourinha fosse rapidamente relegado ao esquecimento.

Estas são as 12 músicas que ele deixou gravadas:

01. Seu Libório – Samba (João de Barro e Alberto Ribeiro) 1941
02. Juracy – Samba (Antônio Almeida e Cyro de Souza) 1941
03. Emília – Samba (Haroldo Lobo e Wilson Batista) 1941
04. Ela Vai à Feira – Samba (Roberto Roberti e Almanyr Greco) 1941
05. Chick, Chick, Bum – Marcha (Antônio Almeida) 1941
06. Apaga a Vela – Marcha (João de Barro) 1941
07. Olga – Samba (Alberto Ribeiro e Satyro de Mello) 1941
08. Tá Gostoso – Marcha (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 1941
09. E o Juiz Apitou – Samba (Antônio Almeida e Wilson. Batista) 1942
10. Amanhã Eu Volto – Samba (Antônio Almeida e Roberto Martins) 1942
11. Amanhã Tem Baile – Samba (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira) 1942
12. Volta Pra Casa, Emília – Samba (Antônio Almeida e J. Batista) 1942

Aproveitando ainda os eflúvios futebolísticos do último Brasileirão, no qual o Vasco da Gama gloriosamente conquistou o Vice-Campeonato, ofereço-lhes o samba E o Juiz Apitou, de Wilson Batista e Antônio Almeida, gravado a 15.04.1942.

Quequié? Vice e nada é a mesma coisa? Só mesmo neste Brasilzão querido, onde grandes valores são desprezados apenas pelo simples fatos de não terem alcançado o ápice. Relembre você, meu dileto leitor, seus tempos de colegial, quando tirar o segundo lugar em sua Turma lhe dava o maior cartaz com seus familiares e, principalmente, com as mocinhas de sua laia. Ou quando você se classificou em segundo lugar num concurso público de âmbito nacional. Pois então?

A referência ao patrão vascaíno merece que E o Juiz Apitou, composto por flamenguistas, em sadia gozação, chegue agora, decorridos 70 anos, ao conhecimento da Comunidade Fubânica.

RÉVEILLON/2011

 

31 de dezembro!!! Viva!!! Viva!!!

Chegamos ao final do ano de 2011!!! Atravessamos o 11.11.11 e nada de ruim nos aconteceu!!! Vencemos!!!

Pois o ano de 2012 será muito melhor. Ultrapassaremos o 12.12.12 numa boa, e as previsões de fim do mundo só acontecerão para os que resolverem a não mais nos acompanhar nessa jornada, arriscosa mas muito prazenteira, que é a vida.

Hoje é dia de festa aqui em casa. Além de assinalar o aniversário de minha caçula, comemoramos mais um ano de nossas vidas, esperando que, com o avanço da ciência, isso se repita para sempre.

Portanto, para incrementar nosso Réveillon e o de toda a Comunidade Fubânica, aí vão 4 pupurris das mais quentes melodias carnavalescas de todos os tempos.

Pupurri 01 – Marchinhas – 8 minutos

Pupurri 02 – Sambas – 9 minutos

Pupurri 03 – Marchas-ranchos e frevos – 9 minutos

Pupurri 04 – Frevos – 3 minutos e meio

VELHOS CAMARADAS

Karl Teike, compositor alemão

Quando eu era menino pequeno – sim, porque hoje sou um menino grande, cresci apenas no tamanho –, era proibido a toda a criançada balsense cantar a marchinha Lá Vem o Trem, que abaixo transcrevo:

Lá trem, pi-pi, lá vem o trem
Mandei buscar minha mulher lá em Belém
Lá vem o trem, pi-pi, lá vem o trem
O diabo é que a minha sogra vem também

Minha mulher é camarada
Mas minha sogra é desgraçada
Eu vou fugir com minha mulher
E minha sogra com quem quiser

A censura não era motivada pela avacalhação da sogra, mas pelo vocábulo camarada que, naquele longínquo sertão, tinha o significado de amigada, concubina, amancebada, mulher teúda e manteúda.

O tempo encarrega-se de modificar todas as coisas, principalmente os costumes. A partir dos oito anos de idade, quando vivíamos os tempos da Guerra, entoávamos todos os dias, no Grupo Escolar Professor Luiz Rego, vários cânticos patrióticos, sendo um dos mais bonitos o Avante, Camaradas, música de Antônio Manuel do Espírito Santo e letra de autor desconhecido, cuja primeira parte aqui reproduzo:

Avante, camaradas,
Ao tremular do nosso pendão,
Vençamos as invernadas
Com fé suprema no coração.
Avante, sem receio,
Que em todos nós a Pátria confia,
Marchemos com alegria, avante!
Marchemos sem receio.

Foi quando percebi que a palavra camarada trazia em si um sentido muito benéfico. Camarada era eu, camaradas eram meus coleguinhas, camaradas eram os pracinhas que sacrificavam suas vidas no front europeu, em defesa da Pátria Brasileira.

Esse sentimento se arraigou em meu coração desde que me incorporei ao Exército Brasileiro, onde servi durante onze anos. Foi na caserna que conheci o verdadeiro sentido da camaradagem, talvez por se viver ali um dia a dia de convivência íntima e agradável, participando do mesmo alojamento, da mesma comida, da mesma instrução, da mesma formação cívica, das mesmas difíceis missões, compartilhando a barraca nos acampamentos com colegas que se tornaram quase irmãos. Por isso, essa fraternidade recebe o nome de camaradagem.

Prestando o Juramento do Sargento, na EsSA – Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações (MG), constatei que tal sentimento é uma das mais fortes características da vida militar, conforme adiante se vê:

“Ao receber o Diploma da Escola de Sargentos das Armas, confirmo meu compromisso à Bandeira Nacional e, pela minha honra, prometo ainda exercer com dignidade e zelo as funções de Sargento do Exército, ligando-me ao oficial pela lealdade, afetividade e respeito, ao soldado pelo exemplo, aptidão, firmeza de atitude e amizade, e aos meus companheiros pela sã camaradagem, tudo fazendo pela eficiência e grandeza do Exército Brasileiro, na paz e na guerra!”

No domingo retrasado, dia 18.12, participei duma confraternização familiar com veteranos da EsSA – três deles fazendo parte comigo do embrião pioneiro do futuro BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília –, a exemplo do que vimos fazendo uma vez por mês, no decorrer de todos os anos. O sentimento de amizade e empatia que nos une, transcorridas mais de cinco décadas que nos conhecemos, só pode ser expresso por esta mágica palavra: camaradagem. Leve-se em conta que eu, na reserva 44 anos, continuo com o espírito de um jovem recruta, sempre que usufruo da ventura de reunir-me a esses velhos camaradas, grupo inspiradamente autodenominado Amigos Para Sempre.

A camaradagem é atributo intrínseco do labutar castrense em qualquer parte do mundo. Dele imbuído, foi que o músico militar alemão Karl Teike compôs, em 1889, o dobrado Alte Kamerden/Velhos Camaradas. É das mais belas marchas militares já conhecidas, tocada e gravada por todas as Bandas de Música deste Planeta. E que aqui o disponibilizo com a Banda de Música da 10ª Região Militar.

Nos últimos três meses, começou a chegar-me, quase que semanalmente, um bem elaborado vídeo gravado pela Orquestra do Maestro André Rieu, com o dobrado Alte Kameraden.

No final do vídeo, o Maestro André Rieu dá uma explicação de que, no alemão macarrônico falado aqui neste Cardinalato, se traduziu como tendo ele convocado músicos de sopro da cidade para participarem da peça, imaginando que apareceriam uns 50, surpreendentemente, se apresentaram 400.

 André Rieu, maestro e violinista holandês

Como este belo vídeo ainda não foi publicado aqui no Jornal da Besta Fubana, tomo a liberdade agora de aqui apresentá-lo, na esperança de que ele seja do agrado de todos, assim como soeu comigo acontecer:

FREVO – PARTITURAS COM ARRANJOS

Marrapaz!!!

Esse Bráulio de Castro gosta de dar pracaramba!!! É um dadeiro de primeira qualidade!!! E quando abre seu dador, é pra mesmo pra valer!!! No bom sentido, claro!!!

Começo tomando ousadia com esse grande compositor pernambucano, para dizer-lhe o quanto ficou enriquecido meu currículo por incluir, dentre as mais preciosas amizades virtuais que ultimamente angariei, as pessoas de Bráulio de Castro e Fátima, sua mulher. Amizade que espero um dia ter a chance de torná-las efetivas, reais, dependendo da oportunidade que se nos apresente.

Conheço Bráulio, de nome, há muito tempo, pois meu acervo musical possui algumas de suas invenções. Através do Jornal da Besta Fubana, engrenamos um contato internético que se fez para ambos muito proveitoso, eis que, desde então, viemos trocando figurinhas, intercambiando nossos guardados fonográficos.

No mês passado, também aqui no JBF, tomei conhecimento do lançamento de No Tempo da Pândega e do Deboche, de Bráulio, entrando em contato consigo para adquirir meu exemplar, como venho fazendo com os criadores que aqui anunciam seus novos rebentos. Sobre o mencionado livro, falarei mais tarde, quando o momento se fizer azado.

Bráulio não se restringiu a apenas enviar-me o livro. Fez mais, muito mais. Ele nem avalia o tanto que me agradou, o tanto que fez em prol da divulgação da MPB e em prol dos Músicos de Carnaval. Eu mesmo, por mais que me esforce, não conseguirei dizer-lhe a extensão desse bem causado a minha pessoa. Se agradecimento diz tudo, aí vai: – Cara, muito obrigado!!!

No pacote, fui surpreendido pela graciosa inclusão de 8 (eu disse oito) CDs zerados: Pastoril do Veio Mangaba; Concurso de Música Carnavalesca Pernambucana, com uma faixa de Bráulio e Fátima; Fátima de Castro – Eu Quero Mais Olinda; Cordão Carnavalesco Satírico, Etílico e Libidinoso Bacia D’Água; Bloco Eu Quero Mais – É Tempo de Bloco, com músicas do casal; Pernambucaneando, também com musicas do casal. E dois acondicionados em envelope: A Batuta e o Pincel, com apenas uma música, esta de autoria de Bráulio e interpretada por Fátima, e Salvaguarda do Frevo – Acervo de Partituras, cuja capa encabeça esta matéria, do qual falarei de modo especial.

Minha primeira providência foi acondicionar os envelopados em caixas plásticas tradicionais, para que sejam inseridos em minhas estantes. Principiei com o mais volumoso, o Salvaguarda do Frevo, e quase caí pra trás de espanto. Só aí, percebi o real valor daquela maravilha. Não se trata apenas de partituras simples. O CD brinda-nos com 120 conjuntos de arranjos, sendo 70 de frevos de rua, 34 de frevos-canções e 16 de frevos de bloco. No total, são mais de 1.500 partituras. Eis a relação:

Para cada frevo de rua, as partituras, num total de 12, englobam, basicamente, grade para regência, e partes para 4 saxofones, 3 pistons, 2 trombones, 1 tuba e 1 baixo. Para os frevos-canções, partes para os instrumentos já citados, menos o baixo, e parte para a voz. Para os frevos de bloco, além da parte para regência, outras para 2 saxofones, 1 tuba, 1 flauta, 1 clarineta, 2 violinos, 1 viola, 1 percussão, 1 para cordas e 1 para voz.

Não sou de fazer elogios rasgados a quem não merece, principalmente em se tratando de órgãos oficiais. Todo mundo sabe que não sou lagoa para refrescar c* de pato. Mas a verdade tem que ser dita. A edição desse primoroso acervo agora posto à disposição dos Músicos de Carnaval só foi possível devido à iniciativa dos homens que comandam os seguintes órgãos patrocinadores:

Prefeitura do Recife, Vice-Prefeitura, Secretaria de Comunicação, Secretaria de Cultura e Fundação de Cultura Cidade do Recife; Coordenação Executiva do Carnaval Multicultural 2010; Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural; Gerência de Preservação do Patrimônio Cultural e Imaterial; Gerência Operacional do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval; e IPHAN. Dentre os nomes de muitas pessoas que concretizaram o projeto, ressalto o do Maestro Edson Carlos Rodrigues, por sua assessoria técnica.

A todos eles tiro meu chapéu e dou a nota máxima: dez! Nota dez!

E deixo aqui minha sugestão para que esse valioso trabalho resgatador de nossa memória cultural tenha continuidade, com a edição das partituras dos 120 sucessos mais conhecidos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Sei que a edição do CD Salvaguarda do Frevo – Acervo de Partituras foi limitada, e poucos serão os aquinhoados, como eu, que tive a felicidade de contar com a magnanimidade do coração do amigo Bráulio de Castro. A maioria dos Músicos de Carnaval Brasileiros nem tomou conhecimento de sua existência. Quer dizer, até agora, pois o Jornal da Besta Fubana se encarrega de escancará-lo aos que quiserem desse vastíssimo repertório frevedor usufruir.

Já fiz a digitalização total dos itens. Para recebê-los, basta que entrem em contato comigo neste endereço virtual: raimundofloriano@brturbo.com.br.

Fiz questão de publicar esta matéria hoje, dois meses antes do Carnaval, na intenção de que ela seja de utilidade para os curtidores dessa grande festa do Povo Brasileiro.

JOÃOSINHO TRINTA – UM DIGNO MARANHENSE

Joãosinho Trinta

Morreu o carnavalesco, coreógrafo bailarino e artista plástico Joãosinho Trinta! Imensa tristeza para quem curte o Carnaval, a Grande Festa do Povo Brasileiro!

João Clemente Jorge Trinta nasceu em São Luís (MA), a 23.11. 1933, onde veio a falecer hoje, 17.12.2911, aos 78 anos de idade, em decorrência de insuficiência respiratória e renal..

De família pobre, viveu em São Luís até aos 18 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro (RJ). Ainda em sua terra natal, pertencia a um grupo de amigos intelectuais que reunia Ferreira Gullar e outros.

Trabalhou como escriturário em São Luís até 1951, ano em que conseguiu na empresa uma transferência para o Rio de Janeiro, onde estudou balé na Academia de Eduardo Sena, e, em 1956 ingressou, através de concurso público, no Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com o qual participou de inúmeras montagens de óperas e balés.

Por essa época, conheceu os cenógrafos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, que, além de trabalharem nas cenografias do teatro, ainda decoravam os bailes e as ruas da cidade para o Carnaval. Dividiu apartamento no Catete com o poeta Ferreira Gullar e o cronista José Carlos de Oliveira. Anos mais tarde, no Teatro Municipal, montou diversas óperas, entre elas, Aida, Tosca e O Guarani.

Em 1963, Arlindo Rodrigues o convidou para auxiliá-lo na criação e nas alegorias para o desfile da Escola de Samba Acadêmico do Salgueiro que, naquele ano, apresentou o enredo Xica da Silva, com samba-enredo de Anescarzinho do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira, sagrando-se campeã.

Em 1974, fez o primeiro desfile como carnavalesco titular para a Acadêmico do Salgueiro, com o enredo Rei de França na Ilha da Assombração, com o qual a Escola foi Campeã do Grupo 1. Nos anos posteriores, passou pelas seguintes escolas, obtendo estas classificações:

1975 – Salgueiro – Campeã do Grupo 1;
1976 – Beija-Flor – Campeã do Grupo 1;
1977 – Beija-Flor – Campeã do Grupo 1;
1978 – Beija-Flor – Campeã do Grupo 1;
1979 – Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo 1-A;
1980 – Beija-Flor – Campeã do Grupo 1-A;
1981- Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo 1-A;
1982 – Beija-Flor – 6º Lugar do Grupo 1-A;
1983 – Beija-Flor – Campeã do Grupo 1-A;
1984 – Beija-Flor – 3º Lugar do Grupo 1-A;
1985 – Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo 1-A;
1986 – Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo 1-A;
1987 – Beija-Flor – 4º Lugar do Grupo 1-A;
1988 – Beija-Flor – 3º Lugar do Grupo 1-A;
1989 – Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo 1-A;
1989 – Unidos do Peruche (SP) – Vice-Campeã do Grupo Especial;
1989 – Rocinha (RJ) – Campeã do Grupo 1-D;
1990 – Beija-Flor – Vice-Campeã do Grupo Especial;
1990 – Unidos do Peruche (SP) – Vice-Campeã do Grupo Especial;
1990 – Rocinha (RJ) – Campeã do Grupo 1-C;
1991 – Beija-Flor- 4º Lugar do Grupo Especial;
1991 – Rocinha (RJ) – Campeã do Grupo 1-B;
1992 – Beija-Flor – 7º Lugar do Grupo Especial;
1994 – Viradouro – 3º Lugar do Grupo Especial;
1995 – Viradouro – 8º Lugar Grupo Especial;
1996 – Viradouro – 3º Lugar do Grupo Especial;
1997 – Viradouro – Campeã do Grupo Especial;
1998 – Viradouro – 5º Lugar do Grupo Especial;
1999 – Viradouro – 3º Lugar do Grupo Especial;
2000 – Viradouro – 3º Lugar do Grupo Especial;
2001 – Grande Rio – 6º Lugar do Grupo Especial;
2002 – Grande Rio – 7º Lugar do Grupo Especial;
2003 – Grande Rio – 3º Lugar do Grupo Especial;
2004 – Grande Rio – 10º Lugar do Grupo Especial; e
2005 – Vila Isabel – 10º Lugar do Grupo Especial.

Um dos ícones do Carnaval Carioca, Joãosinho, com sua criatividade, sempre trouxe mudanças radicais. Uma delas foi a criação de grandes carros alegóricos. Na época, acusado de descaracterizar as raízes do Carnaval, declarou: “Eu não mexi nas raízes, apenas arrumei vasos mais bonitos para elas”. Outra frase de sua autoria e causadora de grande impacto foi: “Quem gosta de miséria é intelectual”, em resposta aos ricos carros alegóricos criados para a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis.

Em 1993 sofreu uma isquemia recuperando-se parcialmente nos ano seguinte.

Tendo viajado por vários lugares do mundo levando grupos de show de Escolas de Samba, foi também palestrante em várias empresas e universidade sobre o universo do Carnaval.

Em 2003 foi o primeiro carnavalesco a aceitar o merchandising e o patrocínio de grandes empresas para uma Escola de Samba. Com o enredo O Nosso Brasil Que Vale, obteve o patrocínio da Vale do Rio Doce.

Entre as inúmeras vezes que em foi homenageado como enredo de Escola de Samba, destaca-se, em 2004, o da Acadêmicos da Rocinha, da qual foi o primeiro carnavalesco.

Em 11 de julho de 2006, após sofrer dois AVCs, foi internado no Rio de Janeiro e, vinte dias depois, transferido para o Hospital Sarah Kubitschek, de Brasília, de onde teve alta em 19 de outubro.

Ainda em 2006 transferiu-s definitivamente para o Distrito Federal onde foi agraciado com o título de Cidadão Honorário de Brasília, e, em 2010, concorreu à Câmara Legislativa, não conseguindo eleger-se.

Para vocês, o primeiro enredo de sua carreira, com o qual foi campeão pelo Salgueiro em 1974, Rei de França na Ilha da Assombração, samba de Zé Di e Malandro, na voz do salgueirense Laíla.

CACARECO, O PALHAÇO CANDANGO

 

Palhaço Cacareco

10 de dezembro: Dia do Palhaço!

O objetivo desta matéria é homenagear o Palhaço Cacareco, alegria da criançada brasiliense até o início de 1992, ano de seu falecimento. Mas começo aproveitando a oportunidade para dar-lhes pequena aula de Sintaxe Consuetudinária, necessária para o prosseguimento daquilo a que me proponho.

Eu fico tiririca – no bom sentido –, abespinhado mesmo, quando órgãos governamentais teimam na mania de enfiar-nos goela adentro certos estrangeirismos e modismos que não nos soam bem, agridem nossas oiças. Recentemente, lançaram aqui o Projeto Limpa Brasília – Let’s Do It e, há algum tempo, teimam em impingir-nos as expressões de Ceilândia, em Ceilândia, ao referirem-se àquela simpática Cidade Satélite da Capital Federal.

Ora, nós, os que estamos aqui desde primórdios da colonização, chegamos a conhecer a Sapolândia – acampamento perto duma lagoa, que abrigava muitos sapos seresteiros –, a Sacolânia – acampamento cujos barracos de madeira eram cobertos por sacos de cimento –, e a Candangolândia, que hoje é também uma Satélite de Brasília. O sufixo lândia, com o significando terra de, complementando o substantivo que o antecede. A propósito, minha amada mulher, índia pretinha baiana, nasceu na Brejolândia.

Falemos um pouco da História do Distrito Federal.

Em 1967, foi iniciada a construção da Cidade Satélite do Guará, para absorver o contingente populacional oriundo de várias invasões e núcleos habitacionais provisórios. As primeiras residências foram construídas, através do sistema de mutirão, pelos funcionários da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, que nelas iriam morar. A inauguração se deu a 21 de abril de 1969, ano em que a NOVACAP e a SHIS – Secretaria de Habitação de Interesse Social prosseguiram com a urbanização, do segundo trecho, o Guará II, inaugurado a 2 de março de 1972, para abrigar funcionários do Governo Federal. Em pouco tempo, o Guará transformou-se num bairro preferido pela classe média alta.

Paralelamente ao Guará e perto dali, confrontando com a Candangolândia e com a Cidade Livre – atual Núcleo Bandeirante –, crescia em ritmo geométrico e desordenadamente a invasão denominada Morro do Urubu. Carente de qualquer tipo de saneamento básico, e sem luz elétrica, o Morro era preferido por traficantes e desordeiros, para ali se esconderem, perturbando a vida da maioria de seus moradores, pessoas pacatas e de boa índole. Nas madrugadas, era comum ouvirem-se tiroteios, e balas perdidas zuniam dali pra todo lado. Por isso, o Governo do Distrito resolveu urbanizar uma nova área para transferir toda aquela população, dando-lhe dignas condições de moradia e desarraigando, de vez, a sofrida invasão.

Para isso, foi criada, em 27 de março de 1971, a CEI – Campanha de Erradicação de Invasões. O local, para onde a população do Morro do Urubu foi trasladada, distante quase 30 quilômetros do Plano Piloto, foi logo denominada Ceilândia, ou seja, terra da CEI. Ao reportarem-se ao novo local de suas residências, seus habitantes diziam: moro na Ceilândia, vim da Ceilândia, vou para a Ceilândia, etc., etc. Não sei por que cargas-dágua, as autoridades adventícias vêm agora com essa novidade: em Ceilândia, de Ceilândia, para Ceilândia, e o escambau. Mas está virando moda! Em crônica publicada na Revista do Correio de 20.11.11, a atriz-escritora Maria Paula diz: “foi o lançamento do meu livro Liberdade Crônica, na Feira Literária Internacional de Pernambuco, em Recife.” É no Recife, Dona Paula, é no Recife!

Embora a Ceilândia fosse provida de todo o saneamento básico, luz elétrica, ruas asfaltadas e coisa e tal, os novos moradores, no início, reagiram negativamente à mudança, e isso por um motivo à vista de todos: enquanto a Ceilândia era muito distante, o Morro do Urubu, ao lado do Guará, ficava bem pertinho do Plano Piloto.  Tal sentimento foi muito bem exposto pelo Palhaço Cacareco, na marchinha Sei Lá – alusão a CEI-lá ou Ceilândia –, de Alfredo Ribeiro e Nestor Cavalcante, composta em 1972 e lançada no Carnaval de 1973:

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PEARL HARBOR – 70 ANOS

Base americana de Pearl Harbor, no Havaí, antes e durante o ataque

Na quarta-feira próxima, 7 de dezembro, faz 70 anos que a base americana de Pearl Harbor, na Ilha de Oahu, no Havaí, foi traiçoeiramente atacada pela Marinha Imperial Japonesa, em investida aérea que danificou 11 navios e 188 aviões, produziu grande prejuízo material, causou a morte de 2.403 militares americanos e 68 civis e determinou a entrada dos Estados Unidos da América do Norte na Segunda Guerra Mundial.

Naquele dia, eu tinha 5 anos meio de idade.

Hoje, quando me perguntam o motivo pelo qual a Música Militar é uma de minhas predileções, eu encontro a explicação nos fatos históricos de âmbito mundial desde o dia em que vim ao mundo, fatos esses narrados pelas ondas radiofônicas e ouvidos todas as noites pela população de minha terra, nas varandas das residências que possuíam um aparelho de radio.

Todas essas transmissões eram precedidas, entremeadas e finalizadas pelos dobrados nacionais e estrangeiros, que davam o aspecto marcial às notícias bélicas que nos chegavam naquele longínquo sertão sul-maranhense.

No ano de 1936, quando nasci, toda a atenção mundial se concentrava na sangrenta Guerra Civil Espanhola, que durou até 1939, ano em que, a 1º de setembro, a Alemanha Nazista invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial, com a entrada, com o já foi dito, dos Estados Unidos, em 7 de dezembro de 1941, e do Brasil – tendo em vista o afundamento 14 navios da Marinha Mercante Brasileira por submarinos alemães –, em 31 de agosto de 1942, conflito que se estendeu até o dia 8 de maio de 1945, consagrado como o Dia da Vitória.
  
O Brasil lutava do lado bem, o dos Aliados, sob o comando dos Estados Unidos. Cada vitória nossa era comemora naquele sertão com passeatas, sessões solenes e peças teatrais nas quais eram narrados os feitos de nossos soldados nos campos de batalha.

Hinos, canções, sambas patrióticos e marchinhas carnavalescas enalteciam os feitos de nossos pracinhas e forjavam na população um sentimento de brasilidade, de amor à Pária, de confiança, fé e esperança no futuro Brasileira Nação. Um dos símbolos a incrementarem esse sentimento foi a série filatélica lançada em 1943, relativa à FEB – Força Expedicionária Brasileira e ao 5º Exército Americano, no qual se engajara nossa tropa.

Série que iniciou minha coleção de selos

A cobra fumando era o símbolo dos pracinhas, significando que o pau cantava pro lago do inimigo toda a vez que os brasileiros os enfrentavam com suas metralhas, com seus fuzis. Verdadeiro pega pra capar!

Ouvindo, à noite, as notícias do front, e comentando, durante o dia todos os assuntos da conflagração, assombrado com o risco de Balsas ser envolvia em batalhas – até um meu primo, Pedro de Alcântara, combateu na Itália –, posso afirmar que já nasci ouvindo dobrados e canções patrióticas, que já nasci embrulhado com a Bandeira do Brasil.

Muito tempo depois, já vivendo em outras cidades, assisti a grandes e memoráveis filmes que nos mostraram na tela, com relativa precisão, as imagens que criáramos em nossa imaginação. Os mais importantes deles foi From Here to Enternity – A Um Passo da Eternidade , de 1953, com a visão americana de ataque a Pearl Harbor, e Tora!Tora! Tora!, de 1970, dirigido por americanos e japoneses, dando-nos a real dimensão do que foi aquele fatídico episódio.

Um dos dobrados que mais se ouviam naquele tempo era o National Emblem – Emblema Nacional, composto em 1906 por Edwin Eugene Bagley – Craftsbury, Vermont, 29.05.1867 – Keene, New Hampshire, 29.02.1922 –, que até hoje é dos mais executados no Brasil e no exterior e dos mais pedidos na Internet.

National Emblem – Emblema Nacional foi tocado, dentre muitos outros, nos filmes americanos The Dirty Dozen – Os Doze Condenados, de 1967, que, vez em quando, passa no Canal 91, assim como Tora! Tora! Tora!, e Moon Over Parador – Luar Sobre Parador, este com a brasileira Sônia Braga como protagonista.

E é ele que vocês agora ouvirão, com a Banda de Música da 10ª Região Militar.

PELAGENS EQUÍDEAS

Pernell Roberts, Michael Landon, Dan Blocker e Lorne Greene

A BBC Londrina, Maior Potência Radiofônica, Transmite Tudo Verdadeiro. Deu pra entender? Não? Mais adiante, explicarei.

Nos anos 1960, eu era viciado em assistir ao seriado Bonanza, na TV, curtição a que agora me entrego, com suas reprises no Canal 91, de segunda a sexta, às 9 da noite, prestando atenção num detalhe: a qualidade dos cavalos que ali aparecem, cada qual mais bonito, possante e bem tratado.

E, a cada episódio, me alembro de meu Período de Adaptação na EsSA – Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações (MG), no ano de 1957, antes de ser designado para a Arma de Infantaria, quando me vi lotado no Esquadrão de Cavalaria, onde ocorreu o lance que a seguir lhes conto.

Íamos receber as primeiras noções de Hipologia, ou seja, fazer a limpeza do cavalo, começando pela ponta da orelha até a extremidade do rabo, passando pelo fiofó e pelo pingolim. A aula estava a cargo do Cabo Traquéia – pronuncia-se trakéia –, gaúcho da fronteira.

(Abro aqui este parêntese para dar-lhes uma pequena aula de Ortografia e Ortofonia. Conforme o Novo Acordo Ortográfico, traqueia – tubo condutor goela a dentro – não tem mais acento. Acontece que existe a palavra traqueia – pronuncia-se trakêia –, 3ª pessoa do indicativo do verbo traquear, o mesmo que traquejar. Portanto, se eu falar “O Cabo Traqueia traqueia o cavalo”, não fica esquisito?)

Éramos um pelotão de 30 alunos recrutas, e o Cabo Traquéia falou para o grupo:

– Cara qual escolhe um cavalo, pra começar a instrução!

Eu, que já fora cabo no 25º Batalhão de Caçadores, em Teresina (PI), tentei fazer tomar chegada:

– Cabo Velho…

– Cabo Velho é a porra! Meu nome é Cabo Traquéia, tá entendendo? Traquéia! – Gritou o cabo, cavalarianamente. Voltei a falar:

– Seu Cabo Traquéia, eu posso começar com aquele pampo?

Outro esporro:

– Pampo é o cacete! Aquele cavalo e tobiano, arataca beiçudo!

Depois, percebendo ele a ignorância de todos, ensinou-nos as cores, ou pelagens, dos cavalos, e deu-nos um macete para as sabermos na ordem de numeração. Para isso, fez-nos decorar a frase que encabeça este relato, que se constitui num processo mnemônico – fortalecedor da memória – muito eficiente, avisando-nos que, durante o curso, isso seria constantemente cobrado, além de ser matéria de prova.

Usando-se as iniciais de cada palavra acima, ficava fácil enunciar as cores: 1 – alazão; 2 – baio; 3 – branco; 4 – castanho; 5- lobuno; 6 – mouro; 7 – preto; 8 – rosilho; 9 – tobiano; 10 – tordilho; 11 – vermelho.

Aí vão as imagens para que vocês percebam as diferenças, às vezes muito sutis:

1 – Alazão – cor de canela, amarelo-amermelhada

2 – Baio – castanho-amarelo tirante a castanho

 3 – Branco – literalmente, da cor branca

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ZOLA TAYLOR

The Platters – Formação original

Nesta minha vida de colecionador de discos, tenho conservado imensa afeição, atávica, umbilical mesmo, pelos intérpretes das primeiras gravações que adquiri, a partir de fevereiro de 1958, quando comecei a ganhar meu dinheirinho fixo. Era no tempo do vinil.

Por isso, The Platters continuam em minhas prateleiras ombreando-se com os grandes nomes internacionais e da MPB daquele tempo. Ainda em Três Corações, cursando a Escola de Sargentos das Armas – EsSA, em 1957, eu já ouvia suas lindas canções, como The Great Pretender e Only You, não somente pelas ondas do rádio, como também entoadas por vários colegas de farda metidos a cantor.

Para um estudante mediano de Inglês como eu, foi satisfação imensa ouvir um conjunto americano cujas palavras eram entendidas sem dificuldade. A califonia – maneira de bem entoar –, a califasia – perfeita dicção, aliadas ao ritmo lento faziam com que seus foxes nos extasiassem e nos incitavam a imitá-los, cantando naquele Inglês-moleza.

(Pequena aula de Cultura Musical. Fox, em Inglês, significa raposa. Daí o nome do ritmo. A raposa, quando se aproxima do galinheiro, vai silenciosa, matreira, pé ante pé. Assim o foxe é dançado. Como em Only You. Mas se o dono do galinheiro chega e dá-lhe um grito, a raposa sai em desabalada carreira, gingando os quartos prum lado e pro outro. É o foxtrot, ou trote da raposa. Como em Rock Around the Clock. Esta música, ao surgir, foi classificada pela gravadora Decca Records como foxtrot, pois o nome rock, como ritmo, ainda não se consagrara. Rock Around the Clock, por conseguinte, foi o foxtrot que mais vendeu em todos os tempos.)

E havia algo mais de precioso no conjunto americano: a presença da exuberante Zola Taylor, lindo exemplar creole a enfeitar o magnífico quinteto colored.

Zoletta Lynn Taylor nasceu a 17.03.1938, em Los Angeles (EUA), onde faleceu a 30.04.2007. Integrou o conjunto de 1954 a 1961, tendo sido seu membro feminino original.

Minha experiência como Ajudante de Palhaço no Circo Cometa do Norte, em Teresina (PI), fazia-me avaliá-la como uma daquelas componentes de trupes de malabaristas, mágicos e domadores, que só apareciam no picadeiro seminuas e funcionavam apenas como partners, enfeitando os números, fazendo reverências para o público e, à noite, dormindo com os artistas.

Aliás, minha opinião mudou pouco desde então. Até hoje assistimos a programas televisivos cheios de mulheres sumariamente vestidas, cujo papel é rebolar e, vez em quando, ficar de costas para as câmeras, exibindo seus talentos de retaguarda. Há apresentadoras e cantoras que trabalham quase de lado, chamando mais a atenção pela anatomia calipígia, muitas delas fabricadas a troco de silicone ou bisturi. A essas, o falecido Deputado Clodovil Hernandes, em sua irreverência, assim deu antológica classificação: dançam e cantam com a bunda!

Pois igualmente desse modo eu avaliava de Zola Taylor. Tony Williams era o tenor e a voz principal do conjunto. Os outros estavam ali apenas para lhe fazerem o contracanto e lhe enfeitarem o solo. Algumas vezes, era dada pequena chance de Herb Reed aparecer, com seus graves, como em You”ll Never Know.

E assim continuei pensando até adquirir o LP The Flying Platters - Ao Redor do Mundo, quando minha opinião sofreu um retorno de 180 graus. Nele, Herb Reed exibe todo seu potencial de baixo em Sleepy Time Gal, e Zola Taylor, como solista, mostra a que veio, na maravilhosa interpretação de My Old Flame, de Arthur Johnston e Sam Coslow, que ora disponibilizo para meus queridos leitores.

 

DIA DA BANDEIRA

Bandeira do Brasil

Hoje, dia 19 de novembro, este Cardinalato e alguns saudosistas brasileiros comemoram o Dia da Bandeira. Também é, para este Cardeal, data muito significativa, pois assinala a o aniversário da falecida Doutora Atyr Emília de Azevedo Lucci, minha primeira Diretora na Câmara dos Deputados.

A atual Bandeira Nacional foi adotada pelo Decreto n.° 4, de 19 de novembro de 1889, quatro dias após a Proclamação da República, a 15 de novembro de 1889. Sua elaboração foi realizada por Miguel Lemos, Diretor do Apostolado Positivista do Brasil, Raimundo Teixeira Mendes, positivista, Manuel Pereira Reis, astrônomo, e Décio Vilares, pintor.

Nossa Bandeira é formada por um retângulo verde, no qual está inserido um losango amarelo, cujo centro possui um círculo azul com estrelas brancas – atualmente, 27 – e com uma faixa branca, que contém a frase: Ordem e Progresso.

Cada elemento da bandeira possui um significado: o verde simboliza a pujança das matas brasileiras; o amarelo: representa as riquezas minerais do solo; azul, o céu; o branco: a paz; as estrelas brancas, cada Estado Brasileiro e o Distrito Federal; a frase Ordem e Progresso, a influência de Augusto Comte, filósofo francês fundador do Positivismo.

As estrelas na Bandeira Nacional estão distribuídas conforme o céu, na cidade do Rio de Janeiro, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889, no qual a Constelação do Cruzeiro do Sul se apresentava verticalmente em relação ao horizonte da cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, Raimundo Teixeira Mendes elaborou um desenho contrariando alguns aspectos da astronomia, priorizando a disposição estética das estrelas, e não a perfeição sideral.

A primeira versão da bandeira era composta por 21 estrelas, que representavam os seguintes Estados: Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba do Norte – atual Paraíba –, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Município da Corte – que seria o Distrito Federal.

Posteriormente, foram inseridas novas estrelas, através das modificações da Lei n° 5.443, de 28 de maio de 1968, que permite atualizações no número de estrelas na Bandeira sempre que ocorrer a criação ou a extinção de algum Estado. Nesse sentido, seis estrelas foram inseridas para representar os Estados do Acre, Mato Grosso do Sul, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins. Essas foram as únicas alterações na Bandeira do Brasil desde que ela foi adotada.

A Bandeira Nacional é um dos símbolos mais importantes do País, devendo ser hasteada em todos os órgãos públicos, escolas, Secretarias de Governo, e outros. Seu hasteamento deve ser feito pela manhã, e a arriação, no fim da tarde. A bandeira não pode ficar exposta durante a noite, a não ser que bastante iluminada.

Durante toda sua história, o Brasil teve várias Bandeiras até que se concretizasse a atual. Confiram algumas delas:

Reino Unido (1826/1821 – Imperial (1822/1889) – Republicana (1889)

Para vocês, o Hino à Bandeira Nacional, de Olavo Bilac, letra, e Francisco Braga, melodia, com, letra, partitura e áudio, este a cargo da Banda de Música do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília.

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito varonil
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser!

Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!

(Dados extraídos da Wikipédia)

PARTITURA CONSTANTE DE MEU ACERVO:

DIA DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Óleo alusivo à Proclamação da República

Alegoria da República e Deodoro, o Proclamador

Hoje, 15 de novembro de novembro de 2011, comemora-se o 122º Aniversário da Proclamação da República Brasileira, que determinou o fim da Monarquia e início de um governo em que o representante seja um presidente eleito pelo povo.

No fim de 1880, o Brasil vivia em um sistema monárquico e estava sob comando de Dom Pedro II. As mudanças que estavam ocorrendo não condiziam com o sistema vigente: a Corte Portuguesa não se entendia com Dom Pedro II, que não se entendia com a Igreja Católica. Militares, imprensa, classe média e formadores de opinião andavam insatisfeitos com o Governo, e proprietários rurais queriam mais poder. Era mesmo o momento de romper com aquele sistema enfraquecido.
  
O Marechal Deodoro da Fonseca chefiou o movimento revolucionário pela República. Em 15 de novembro de 1889, foi dado o golpe de estado, com a ocupação do Quartel General do Rio de Janeiro e do Ministério da Guerra, onde todo o Gabinete foi deposto, assim como o Presidente do Ministério, Visconde de Ouro Preto. Era o início da República do Brasil. (Dados copiados da Wikipédia)

Nos tempos de minha infância, esta data era comemorada nos colégios com sessões cívicas, horas de arte e peças teatrais – os dramas – alusivas ao fato histórico. No corrente ano, é apenas mais um motivo para novo feriadão, que começou na sexta-feira e só acabará amanhã, quarta-feira, já bem perto do sábado.

Para os que desejem relembrar ou até conhecer o Hino da Proclamação da República, composto por Medeiros e Albuquerque e Leopoldo Miguez, aí vai ele, com letra, partitura e áudio, este a cargo da Banda do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial.

 

Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus.
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra, nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

SINHÁ, A MEMÓRIA VIVA DO FORRÓ

Maria Auxiliadora de Lima, a Sinhá, nasceu em Viçosa (MG), no dia 25.04.1937, e passou a residir aqui em Brasília desde o final de 1959, acompanhando o marido, o percursionista Miudinho, pertencente ao elenco da Rádio Nacional, que para cá se transferira do Rio de Janeiro.

Miudinho – zabumba – foi, juntamente com Dominguinhos – sanfona e voz – e Zito Borborema – triângulo e voz –, o fundador do primeiro Trio Nordestino que se conhece, isso no começo de 1957, denominação dada por Luiz Gonzaga, inspirado por Helena, sua mulher.  Na esteira deles, logo surgiram outros, como os trios Baiano, formado por Lindu Cobrinha e Coroné, e Paulista, formado por Xavier, Heleno e Toninho. O pioneirismo frutificou. Hoje, há centenas de conjuntos nordestinos com esta clássica formação: sanfona, zabumba, triângulo e voz.

Conheci o casal em 2004, um ano antes da morte de Miudinho, a 24.03.2005, aos 74 anos de idade, vítima de enfarte. Desfazia-se, um enlace harmonioso que durou quase 51 anos. Miudinho, então aposentado do Senado Federal, era um sujeito tranquilo, de bem com a vida, residia em bela casa no Guará II, carro zerado na garagem. Seu falecimento chocou a classe artística brasileira e foi matéria de página inteira no Correio Braziliense.

Durante o tempo em que o casal morou no Rio de Janeiro e também aqui em Brasília, sua residência vivia cheia de artistas, não só os famosos, como também os que procuravam um lugar ao sol no cenário forrozeiro. E tudo eles registraram em fotos. Marinês, Anastácia, Luiz Gonzaga, Zito Borborema, Sivuca, só pra citar alguns deles. Dominguinhos, por exemplo, quando vem a Brasília, não deixa de ir ao Guará II, para que Dona Sinhá o abençoe.

Primeiro Trio Nordestino – Conjunto de Zé Gonzaga

Depois da morte de Miudinho, comecei a dar o golpe no baú de Dona Sinhá. Todas as fotos inéditas que já postei em minhas matérias aqui no JBF saíram de lá. Como a do Primeiro Trio Nordestino e a do Conjunto de Zé Gonzaga, com o triangueiro Passinho, quando Miudinho ainda era conhecido como Zé Minhoca, conforme acima vocês viram

Dona Sinhá sabe de tudo e de todos do Forró. Desde seu nascedouro e crescimento até o estagio atual, fases muito bem documentadas com preciosas imagens e sua privilegiada memória. E está à disposição de quem quer a procure, muito fácil de ser localizada: é a Maria Auxiliadora no Orkut. Para saberem seu e-mail, é só entrarem em contato comigo.

No passado, aos 73 anos, Dona Sinhá foi um botão que desabrochou, resultando nessa bela flor no canteiro da poesia. Quando muitos pensam em parar, ela está apenas começando.

Dona Sinhá casou-se muito cedo, logo se tornou mãe de muitos filhos, por isso, na mocidade, nenhum tempo lhe restou para perceber seu espírito cheio de inspiração poética – mercê de Deus, acredita ela, pessoa muito religiosa e cumpridora do deveres para com sua Igreja.

Pétalas do Céu é o primeiro trabalho literário de Dona Sinhá, de outros já prometidos. Uma das pétalas, que foi antecipadamente retirada dessa flor, mas pétala do bem-me-quer, é o saudoso Miudinho, a quem são dedicados vários poemas de amor, especialmente os denominados A Partida e Homenagem.

O livro contém muito de amor, sensibilidade, carinho e preito à amizade, como em O Grande Amigo, no qual patenteia a ternura por uma de suas queridas crias, o já citado Dominguinhos.

E é Dominguinhos quem aqui comparece, com seu Chorinho Pro Miudinho, delicada melodia lançada em 1979, no LP Apôs Tá Certo.

OUTRAS INÉDITAS PRECIOSIDADES DO BAÚ DE DONA SINHÁ:

Miudinho tocando para a dança de Ademilde, Elizeth e Jamelão – Com Zé Gonzaga

Zito Borborema, Miudinho e Gonzagão – Zito, Miudinho, Gonzagão, Wilson e Manga-Rosa

Marinês, Zito, Abdias, Gonzagão, Miudinho e Manga-Rosa – Marinês e Miudinho

Sinhá e Miudinho – Foto de 2005

 

Chorinho pro Miudinho – Dominguinhos

HOTEL BARBOSA, A MORTE DUM PIONEIRO

Hotel Barbosa, pioneiro na hotelaria candanga

No início dos Anos 1960, quem desejasse hospedar-se no Plano Piloto da Capital Federal, recém-inaugurada, só tinha estas opções: o Brasília Palace Hotel, de bancado pelo governo, e o Hotel Nacional, gerido pela iniciativa privada.

Era no Nacional que se hospedavam reis, rainhas, princesas, artistas de renome internacional, grandes empresários, enfim, gente de alto poder aquisitivo, que pagava os olhos da cara por uma diária com direito apenas ao café da manhã. E foi lá, certo dia, que apareceu um fazendeiro, Seu Barbosa, aparentemente simples goiano do pé-rachado. Assim é contado pela tradição oral de quem viveu na cidade naquela época.

Devido a suas vestes comuns ao homem do campo, e suas bagagens nada ostentando a riqueza dos que procuravam aquele luxuoso hotel, de preços proibitivos, o fazendeiro não foi aceito, sendo humilhantemente recomendado a procurar uma pensão qualquer na Cidade Livre, como era chamado o atual Núcleo Bandeirante.

Seu Barbosa, desprezado, porém não vencido, tomou suas imediatas providências. Comprou um caríssimo terreno no início da Avenida W/3 Sul e ali mandou construir um hotel para concorrer com aquele que o humilhada, dando-lhe o próprio nome: Hotel Barbosa.

A desforra de Seu Barbosa, em parte durou pouco. Autoridades governamentais segundo contam, não assimilaram aquela denominação para um estabelecimento hoteleiro de tamanho porte, que não condizia com a nomenclatura adotada para todos os logradouros e prédios públicos brasilienses. Daí a mudança do nome para Hotel das Nações.

Hotel Barbosa, fundos, sob nova denominação

Adquirido, mais tarde, pela empresa JC Gontijo, o antigo Hotel Barbosa sobreviveu até este ano de 2011. Mas ontem, 03.11, Dia de Finados, premido pelas circunstâncias, principalmente pela proximidade de outros edifícios com nova fachada e detalhes arquitetônicos revolucionários, o velho Hotel Barbosa veio abaixo, com 12 andares e 130 apartamentos, para dar lugar a novo projeto de 17 andares e 264 apartamentos. Com ele também sumiu do mapa o Alvorada Hotel, seu vizinho, construído 10 anos depois.

É um pouco de nossa história candanga que se vai, quase toda ela narrada de boca em boca, como esta do Hotel Barbosa, jamais escrita e que só agora vai a conhecimento do grande público, eis que contada nas páginas do Jornal da Best Fubana e, ato contínuo, absorvida pelo Google, que a disponibilizará para todos os navegantes internautas.

Alguns amigos meus hospedaram-se no velho hotel. No ano passado, esteve lá o Padre Valter Azevedo, recifense e clérigo deste meu Cardinalato, em desobriga na Capital da República.

O velho Hotel Barbosa virando escombros

É a modernidade, são os novos tempos. Dentro em breve, ao passarmos por ali em companhia de algum turista que visitam Brasília pela primeira vez, não mais nos virá à lembrança a história desse marco de nossa cidade.

Dizem que, no local dos dois velhos hotéis implodidos, surgirão novos edifícios para atender a demanda de turistas durante a Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo, em 2014. É o futebol comandando os novos empreendimentos imobiliários.

Muitos apostavam que a dupla implosão redundaria em malogro total, com ocorreu este ano, também em Brasília, na do Estádio Mané Garricha, desafortunadamente renomeado como Estádio Nacional. Foi, igualmente, a demolição, dum grande ídolo brasileiro, do qual, daqui apouco tempo, já ninguém se lembrará.

No Mané Garrincha, detonaram a primeira implosão, e nada! Botaram mais dinamite e sapecaram a segunda, e o Mané nem se mexeu! As autoridades governamentais, então, resolveram levar a demolição a efeito a troco de picareta – não sei se 300! Já o Hotel Barbosa, por seu turno, veio ao chão em 10 segundos!

E sabem por que, no primeiro caso, a implosão foi estrondoso fracasso, e, no segundo, estrondoso sucesso? Porque, no Mané Garricha, a verba era governamental, e, no Hotel Barbosa, o dinheiro provinha da iniciativa privada.

É o que se deduz!

NA FLÓRIDA, BOTEI GRINGO PRA CORRER

Boeings DC 10 e 747-100 da Varig: competentes arrochadores esfincterianos

É batata! Não falha! Não sei se o fenômeno é biológico ou psicológico! Toda a vez em que eu entro num avião, meus intestinos – delgado e grosso – param de funcionar! No momento da decolagem, baixa em mim o espírito do Caboco Tranca-bunda!

Essa aflição perdura por vários dias. Em vista disso, procuro fazer viagens curtas, retornando o mais rápido possível, com o objetivo de desarrochar o fiofó em casa. Nas mais recentes que fiz, ao Recife, a Balsas e a São Luís, demorei, no máximo, três dias. Para estadias mais longas, procuro acautelar-me, levando na bagagem vários vidros de laxante.

Assim aconteceu na última viagem que fiz aos Estados Unidos, mais precisamente para Orlando, aos Parques da Disney, em 2001, presente para minha filha mais nova, que completava 15 anos.

Quando entrei o DC-10 da Varig, de Brasília para São Paulo, senti o tranco no bucho. Não foi novidade. De São Paulo para Miami, num 747-100 também da Varig, eu só conseguia expelir alguma coisa por vias urinárias. Durante o voo, quase todo sobre o Oceano Atlântico, e até desembarcar em Miami, fui logo preparando-me para o suplício estomacal, tomando umas 3 lapadas de Agarol, o mais eficiente laxante que conheço.

Em Miami, deram-nos a notícia de que seguiríamos em aviões diversos até Orlando. Minha família embarcou num jatinho, e eu fui encaminhado para uma velha aeronave, de hélice, Modelo ATR-14, como aí vocês veem:

O ATR-14 americano

Já gostei da mudança. Avião de hélice, em especial o bimotor, dificilmente cai. Para minha tranquilidade, antes do embarque, vi as tampas dos motores abertas e dois sujeitos com chaves de fenda e almotolias apertando parafusos e lubrificando engrenagens, o que me tirou, por completo, o medo da viagem.

ATR-14 era antigo mesmo, com a pintura meio descascada, bancos puídos, mas o ronco era de respeito. Que saudades de meus tempos de DC-3 da Cruzeiro do Sul! A aeromoça era uma creole americana, bem-nutrida, de seus 60 anos.

Tentei pegar no sono, mas não consegui. Apanhei uma revista, mas, quando comecei a folheá-la, dei uma olhada lá pra baixo, querendo apreciar a paisagem, e espantei-me a ver que voávamos sobre o mar. Se assim fosse, o piloto errara o caminho, estávamos era voltando para o Brasil. Resolvi interpelar a negona. Quando ela passou por mim, com um litrão de Coca-Cola e copos de plástico, apontei para o aguaceiro abaixo e, no melhor do meu Inglês, interroguei-a:

– The book is on the table? – Ela me encarou, com jeito de aborrecida e apenas falou:

– What? – Voltei a apontar para o mar abaixo e repetir a pergunta:

– The book is on the table? – Aí, a negona respondeu-me, com ar de desprezo:

– Ocaxôubi! – Só mais tarde, vim a saber que o tal oceano que sobrevoáramos se tratava do Lago Okeechobee!

Lá em Orlando, reunida a família, começam os a visitar os Parques programados no pacote turístico, meu povo se divertindo a valer, e eu, desesperadamente, a mandar pra dentro 4 doses diárias de Agarol.

Com uma semana, a atração era o Parque Wet’n Wild, que fica numa avenida muito maior que o Eixão de Brasília, denominada International Drive.


 
Parque Wet’n Wild

Passaríamos o dia inteirinho lá. Enquanto meu pessoal se deleitava nos diversos brinquedos e atrações, aproveitei para fazer as compras da extensa lista de encomendas de parentes e amigos. E no propósito de conseguir, para minha caçula, uma versão gigante do boneco Piu-Piu, que lá eles chamam de Tweety.

Ao sairmos do hotel, para precaver-me contra a ausência de alimentos para diabéticos em todo lugar do mundo, peguei duas maçãs e uma salsicha de frango e enfiei na pochete fornecida pela companhia turística.

Piu Piu, ou Tweety

Fui às compras a pé. No calorão da Florida, todas as lojas permanecem com suas portas fechadas, mas lá dentro o ar condicionado funciona no mais alto grau, tornando o ambiente completamente gelado. De fora, você vê aquele avenidão deserto, numa segunda-feira, parecendo com qualquer comercial brasileira em dia de domingo, mas, quando entra nas lojas, elas estão apinhadas de gente.

Eu já tinha comprado um aparelho de Fax, cordas pra violão, bocal de saxofone e outras miudezas e ia caminhando cabisbaixo no calçadão, sopesando aquelas quinquilharias, quando quase abalroei uma jovem família de americanos, o pai carregando no ombro um boneco gigante do Piu-Piu. Do tamanho que eu procurava. Não contive meu júbilo. Olhei para o gringo, apontei para o boneco e perguntei:

– The book is on the table? – Esse cara me pareceu mais inteligente que a aeromoça, pois me entendeu sem pestanejar. Botou o indicador em direção duma loja amarelona e me informou:
– Over There!

Nem agradeci! Rumei apressadamente para a loja, porém, ao entrar, grande decepção: a fila era extensa, e o estoque de bonecos estava se acabando na prateleira. Além do mais, com americano é assim, se você estiver numa fila, na boca do caixa, e chegar um americano, ele passa em sua frente numa boa. Contei as pessoas na fila, os bonecos, calculei que, com imensa sorte, ainda conseguiria o meu, e resolvi encarar a empreitada. Prestes a ser atendido, entrou porta adentro uma turminha de americanos, meninada barulhenta, que foi logo se postando na frente de todo brasileiro que via. Pensei: dei com os burros n’água! Para consolar-me, e como estava com fome, resolvi almoçar ali mesmo. Peguei a salsicha de frango que trouxera na pochete, começando a comê-la. E foi aí que se deu a desgraceira!

No que o primeiro naco bateu lá dentro, meu estômago, que não funcionava há uma semana, resolveu agir, atender aos apelos do poderoso laxante! Formou-se dentro de mim um bolo de gases que subia, descia, ia prum lado, ia pro outro, até que tomou o rumo certo e se transformou numa prolongada mas silenciosa bufa. Fedorenta, podre, quase mortal, durando cerca de um minuto, impregnando, no ambiente gelado, tudo e todos os que se encontravam no interior da loja.

Foi uma parada pra desmantelo! Espirrou gringo pelas portas da loja, como o diabo fugindo da cruz, todos eles tapando as ventas e gritando oh me, oh my! . Só ficaram lá dentro os empregados e alguns brasileiros que também queriam o boneco e não estavam nem aí para a bufa. Fiquei sendo o primeirão da fila.

Quando a vendedora falou next!, apontei-lhe o boneco e perguntei:

– The book is on the table? – A americana entendeu logo o que eu queria, pois me respondeu na lata, sem respirar:
– Fifty dollars! But if you go away now, immediately, it’ll be free of charge to you! Do you go? Please?

Minha cara avermelhou! Como que a gringuinha descobrira ter sido eu o bufador? Naquela circunstância, restava-me, apenas, assentir, o que fiz com esta bem elaborada frase:
– Oh, yes, I do!

Saí de lá com o Piu-Piu sem gastar um puto e pensando assim:

– Eita povo bom da mulesta!

ELINO JULIÃO

Elino Julião
(13.11.1936 – 20.05.2006)

(Republico esta matéria, postada anteriormente e deletada por motivos operacionais)

Hoje, 20 de maio de 2007, está fazendo um ano que Elino Julião tomou suas últimas providências. Desarmou a rede, arrumou a trouxa, emalou a sanfona, jogou tudo na carroceria do caminhão, entrou na boléia, ligou a ignição e deu início à última jornada, à viagem sem volta, à viagem sem frito. No caminho, outros forrozeiros da década de 50 foram pegando carona. Caso de Manoel Serafim, há dois meses, e Marinês, no dia 14 último. Trio nordestino de calibre esse daí!

Lá, na outra dimensão, foram realizar majestoso festival, comandados pelos grandes criadores do Forró, essa música que incorpora e interpreta toda a alma e todo o sentimento do povo do nordeste brasileiro: Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo.

Você, meu camarada, que vê televisão todos os dias, assistiu a algum noticiário em qualquer emissora dando conta da partida para a eternidade desses três personagens? Não assistiu? Nem o Penca, nem o Lenca! Para tentar amenizar tanto descaso, para reavivar suas memórias, aqui está o Jornal da Besta Fubana, que lhes dirá algo deles e mostrará pequena parcela do seu trabalho.

Já lhes falei de Manoel Serafim e de Marinês. Agora, chegou a vez de Elino Julião.

A grande mídia sempre passou batida para Elino. Compositor com peças gravadas pelos principais forrozeiros pés-de-serra do Brasil, a começar por Gonzagão e Jackson, passando por Elba Ramalho e outros jovens cantores, nunca teve suas obras relacionadas à sua pessoa, mas sim ao nome dos intérpretes.

Mulher de Verdade, é a meu ver, é verdadeiro hino de amor da mulher que sabe perdoar seu homem. Madre Superiora Neide, da Igreja Sertaneja, adoooora este rojão:

Minha mulher gostava quando eu lhe batia
E quanto mais ela apanhava, mais ela dizia

Bata nêgo, pode bater
Bata com força, que eu não sinto doer

Pode bater com as duas mãos nessa nêga que é sua
Começa dentro de casa e termina no meio da rua
Se alguém vier reclamar não dê atenção
Bata com força, nêgo do meu coração

Bata nêgo, pode bater
Bata com força que eu não sinto doer

Não se incomode que a vizinha lhe chame de biriteiro
E que você não dá dinheiro pra comprar o pão
Tenho satisfação, sou mulher de verdade
Nêgo, por caridade, deixe de bater não

Aquela bendita rede deu o que falar. Namorador inveterado, não podia ver um rabo-de-saia, que ficava peneirando no ar e caindo em cima feito gavião faminto. Mas sua rede exigia respeito. Era a garota trastejar, e ele sentenciava:

– Na minha rede, não! Arranje outra rede, ou vá dormir no chão!

Seu hipotético caminhão servia-lhe apenas de pretexto à paquera:

– Não há quem resista, ser motorista sem ter um amor. Me falte gasolina, mas não me falte uma menina, que eu morro de dor!

Pelo visto, lá um dia, achou a forma do pé:

– O pai da Grabriela tem razão. Eu vou casar com ela, é minha obrigação!

Tomei conhecimento de Elino Julião em 1976, ao ouvir pela primeira vez Rabo do Jumento, xote que me transportou imediatamente a meu sertão. Sei que todos já o ouviram, mas sei também que é bom recordar.

Para vocês, Rabo do Jumento, com a participação especial de Lenine.

 


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