TEODORO SOBRAL, O GIGANTE DA CULTURA PIAUIENSE

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Teodoro Ferreira Sobral Neto

Teodoro Sobral é único! Ao usar artigo definido para intitulá-lo como O Gigante da Cultura Piauiense, desejo determinar que, no meio empresarial do Piauí – quiçá do Brasil -, já não existe homem de tal porte, que dedique grande parte de seus lucros e de seu precioso tempo à divulgação de nossa cultura, de nossos valores, de nossa tradição, da vida de homens e mulheres que fizeram a pujança de nossa história.

Em passado um tanto distante, houve outro abnegado assim, Ranulpho Torres Ramoso, capitaneando o Almanaque da Parnaíba, alentada publicação anual de 350 páginas, que conseguiu manter-se em circulação de 1923 a 1980, ano em que teve sua edição interrompida, quem sabe devido a problemas financeiros. Nesse almanaque, aprendi, durantes os serões de Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãe, a ler os primeiros textos sérios de minha vida, em voz alta, interpretando-os depois, para os demais. Aqui, três capas dessa preciosidade.

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Hoje, a totalidade das crianças e dos adolescentes não sabe o que são almanaques e a alegria que eles traziam aos brasileiros de outrora, à disposição de qualquer um, grátis, nas farmácias e drogarias brasileiras. Valendo-me de minuciosa pesquisa do Teodoro, apresento-lhe a capa de alguns:

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O mais famoso deles, Almanaque Capivarol, trazia, na última página, uma Carta Enigmática, a cujos decifradores prometia brindes especiais. Prometiam e cumpriam!

Teodoro Sobral parece ter assimilado a sabedoria de Ranulpho, seus benfazejos eflúvios, bem como a tradição do almanaque. É o que se pode facilmente deduzir com leitura deste seu primeiro trabalho no campo editorial:

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Com 202 páginas, este compêndio, altamente iconográfico, contém informações sobre hotéis, bares e restaurantes, lojas, indústrias, prestação de serviços, teatro, museus, igrejas, escolas, casas de show, boates e danceterias, rádios, jornais e televisão, passeios ecológicos, políticos, juízes, times de futebol, clubes de serviços, cinquentenário da cidade, cinemas, blocos de Carnaval, associações de classe, misses, cabarés, hinos, principais ruas, curiosidades municipais, tipos populares, companhias aéreas, e muito mais, de hoje e de ontem, configurando-se, assim, em verdadeiro almanaque, nos moldes mais tradicionais.

Nele, é riquíssima a pesquisa de imagens. Como pequena amostra, disponibilizo a vocês duas de suas páginas, estampando propagandas comercias de antanho:

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Vejamos, agora, um pouco da biografia desse admirável sonhador, cuja amizade por demais nos honra.

Teodoro Ferreira Sobral Neto é florianense, nascido em 26.6.1951, filho único de Amilcar Sobral e Jaci Guimarães Sobral. Casado com Maria do Socorro Carvalho Sobral, tem 4 filhos: Valéria, Igor e as gêmeas Paula e Sofia.

Seu avô, Theodoro Ferreira Sobral, nascido em Amarante (PI), no dia 7.1.1891, e radicado em Floriano, fundou, em 1911, sua Empresa Farmacêutica, embrião do Laboratório Sobral, do qual falarei mais adiante. Seu pai, Amilcar Ferreira Sobral, nascido em Floriano em 13.10.1917, inicialmente militar, depois médico, deu continuidade aos negócios da família e agilizou as operações da empresa, que passou a se denominar Laboratório Sobral.

Com os estudos iniciados no Piauí, o jovem Teodoro bacharelou-se em Economia pelo Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, em 1973, vendeu um apartamento em Brasília, presente do pai e, com o dinheiro obtido, retornou a sua cidade natal, onde se entregou a dar novos rumos e modernizar o Laboratório Sobral. O sucesso não tardou – foi imediato. Hoje, é um empreendimento vitorioso, reconhecido e admirado nacionalmente.

O amor por Floriano fez de Teodoro um garimpeiro, pesquisando, ouvindo, anotando, juntando documentos, e dados que lhe dissessem respeito. Isso, mercê de seu espírito empreendedor e pertinaz, gerou maravilhosos frutos. Hoje, possui o maior e mais completo documentário fotográfico da região.

Nele, ressalto o museu iconográfico sobre as embarcações que singraram a Bacia do Parnaíba, transportando pessoas, mercadorias, o progresso, enfim, às cabeceiras de seus afluentes, do qual me vali, quando na elaboração de meu livro De Balsas para o Mundo.

Nossa amizade começou ali. Mas Teodoro não se ateve apenas a enviar-me imagens pela Internet. Mandou editar algumas e até compareceu a meu apartamento aqui em Brasília, por duas vezes, acompanhado de Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, fiel escudeiro, para trocarmos figurinhas e informações. Devo mencionar também Luiz Paulo de Oliveira Lopes e Rosenilta de Carvalho Attem como eficazes colaboradores no Estado-Maior desse Gigante.

Em 2011, comemorando o Primeiro Centenário do Laboratório Sobral, presenteia-nos ele com novo almanaque, contendo 208 páginas:

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Escolhi dele, aleatoriamente, algumas páginas, para que os leitores tenham pálida ideia das preciosidades que contêm, como propagandas dos produtos do Laboratório e sua foto:

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Teodoro Sobral se fez tão grande, que essa magnitude ultrapassou os limites de sua paróquia, fez-se presente por todo o Piauí, transformando cada coestaduano em amigo íntimo, empatia essa traduzida pelo nome como é conhecido por todos: Teodorinho. E é como Teodorinho que passo a chamá-lo agora.

Teodorinho distribui, anualmente, para sua clientela, um bonito calendário. Alguém pode argumentar que a Caixa Econômica Federal o faz também, mas eu rebato, citando que a Caixa é financiada por recursos públicos, o meu, o seu dinheiro, enquanto Teodorinho age por seus próprios meios. E não é só isso. Para facilitar a vida das esferas mais carentes de seus conterrâneos, Teodorinho produz medicamentos genéricos de indicações as mais variadas. Vejam as capas de alguns calendários e os genéricos do Laboratório Sobral:

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Teodorinho é incansável. Ele e seus colaboradores acima citados, com apoio da Fundação Floriano Clube, lançaram-se em novo empreendimento editorial. Com a denominação de Florianenses, o Volume 1, com 130 páginas, foi espécie de balão de ensaio, para testar sua aceitação. Com seu estrondoso sucesso, foi lançado o Volume 2, este com 320 páginas:

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No ano passado, Teodorinho me enviou mensagem solicitando os perfis de Seu Rosa Ribeiro, meu pai, e de Tio Cazuza Ribeiro, dois florianenses que, no início do século passado, ainda adolescentes, navegaram a Bacia do Parnaíba, rios acima, para fixarem-se em Balsas, onde foram pioneiros da colonização e onde construíram uma prole que hoje ultrapassa a casa dos 200 componentes.

Meu Tio Cazuza constará do Volume 4, a sair no próximo ano. Meu pai, mesmo em plagas longínquas, nunca parou de amar sua terra natal, deixando isso bem patente ao batizar-me com seu nome – Raimundo Floriano -, o que me fez também venerá-la com ardor. Seu perfil encontra-se no Volume 3, lançado inicialmente em Floriano, no dia 5 de julho, sábado passado, nas comemorações do aniversário da cidade, que ocorrerá amanhã, dia 8, como se vê no convite abaixo. Posteriormente, haverá mais dois lançamentos, um em Teresina, capital piauiense, e outro aqui em Brasília.

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Tudo isso é almanaque, tudo isso é Teodoro Sobral, o Teodorinho, o gigante, inexpugnável baluarte na defesa e preservação de nossos valores culturais!

Salve Teodorinho Sobral, orgulho da gente piauiense!

Salve Teodorinho Sobral, honra e glória da Filha do Sol do Equador!

NA COPA DE 1974, QUASE ME BORREI DE MEDO!

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Aconteceu no dia 3 de julho de 1974, data em que eu completava 38 anos! Naquele dia, o Brasil jogaria contra a Holanda, então conhecida como Laranja Mecânica!

A Seleção Brasileira já entrou na Copa/74 derrotada. Sem contar com os craques Carlos Alberto, Brito, Clodoaldo, Gerson, Tostão e Pelé, que nos maravilharam na conquista do Tri, em 1970, surgia uma geração de perdedores, que só levantaria a cabeça 24 anos depois, em 1994, com a genialidade de Romário e Bebeto, ao sagrarmo-nos Tetra. Em 1974, ficamos em 4º lugar.

Mesmo com o Brasil praticamente entrando em campo para cumprir tabela, a Banda da Capital Federal fez a festa do povão nos três primeiros jogos, porque nosso objetivo era a alegria das ruas, a presepada, a aprontação, a paquera, com nossas marchinhas, sambas e frevos, coisas das quais os brasileiros tanto gostam, não importando o resultado em campo.

Empatamos o primeiro jogo em 0x0 com a Iugoslávia; o segundo, também sem abrir o placar, com a Escócia; ganhamos do Zaire por 3×0, passando para a 2ª Fase. Nesta, ganhamos da Alemanha Ocidental por 1×0 e da Argentina por 2×1. Aí, tivemos de encarar a Holanda, que vinha comendo todo mundo pelas beiradas.

Aquele 3 de julho caiu numa quarta-feira. Como a partida terminaria já na boca da noite de um dia útil, combinamos que, na hipótese de sairmos vitoriosos, o desfile seria no Guará I, com a Banda se reunindo na QI 12, Conjunto U, daquela satélite, onde eu residia.

Desfilariam como Porta-Estandartes, naquela noite, Graça Souza, minha colega na UDF, e Edna Neves, filha do Sebastião, trombonista da Banda, de quem passarei a falar.

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Graça Souza e Edna Neves

Sebastião Francisco Neves tocava escaleta, sanfona e qualquer instrumento de bocal. Mineiro de Belo Horizonte, pertenceu, na graduação de 3º Sargento, às Bandas de Música da Polícia Militar de Minas Gerais, do 12º Regimento de Infantaria e do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial. Conhecemo-nos na caserna, ainda nos tempos pioneiros de Brasília.

Intelectual de vasta cultura, foi aprovado em todos os concursos que fez. Assim, no início dos Anos 1960, deixou o Exército, indo pertencer aos quadros da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, e, depois, do Itamaraty, como Oficial de Chancelaria. Bacharelando-se em Ciências Contábeis, passou no concurso para Fiscal de Tributos do Estado de Goiás, cargo no qual se aposentou.

Sebastião pertenceu ao efetivo permanente da Banda da Capital Federal desde sua fundação, em 1972, e, para todos os desfiles ou funções, levava suas três filhas, Edna, Vera e Vilma.

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Sebastião e seu trombone

Foi um grande amigo, e seu falecimento, a 23.8.2001, aos 70 anos de idade, vítima de câncer de pele – era muito branco e viveu muito exposto ao sol –, entristeceu não só a mim, mas a todos aqui em casa, porque pertencia a nosso círculo familiar. Meu abalo foi tamanho que, em seus funerais, no momento em que baixavam seu caixão ao túmulo, não me contive e pronunciei breve despedida, emocionando a todos, não conseguindo também eu conter as lágrimas.

Sebastião era pessoa com quem eu contava na certa para todos os movimentos musicais que bolava e, por isso mesmo, era acolhido por nós com muito calor humano. E era em nossa casa que ele se sentia bem. No Natal, por exemplo, após a ceia com sua família, era certa sua vinda para cá – morávamos em Quadras vizinhas -, com o trombone ou a escaleta, para continuarmos a festa até o raiar do dia. Assim era nos aniversários e nas demais datas festivas.

Nunca vi o Sebastião pronunciar uma palavra negativa a alguém! Sempre que começava qualquer frase, era com esta expressão: – Pois é!

Em certa noite, depois do Natal de 1980, quando eu ainda era solteiro, Sebastião e eu estávamos em minha garçoniere, na 416 Sul, combinando o que faríamos nas festividades vindouras, quando chegou meu sobrinho Pedro Ivo, que vinha despedir-se, pois estava saindo de viagem em seu fusca para o Maranhão onde ia se casar, e lamentando o fato de ter que enfrentar a estrada sozinho, sem companhia para conversar ou ajudá-lo durante o percurso. Perguntei ao Sebastião se ele topava acompanhá-lo, e ele aceitou no ato.

Combinamos, então, que ele iria e ficaria me esperando em Balsas, onde eu chegaria no dia 30, para tocar-mos no Réveillon.

Imediatamente, Sebastião foi a sua casa, apanhou o trombone e a escaleta, e os dois pegaram a estrada. Mas tão desligado era ele, que seguiu com a roupa do corpo, nem se lembrando de calçar os sapatos, de forma que, no casamento do Pedro Ivo, lá estava ele de chinelos.

Em Balsas, tocamos no Réveillon no CRB e, no dia seguinte, numa farra com amigos na Churrascaria Batatais. Vejam bem que, em ambos os momentos, ele está com a mesma roupa:

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Este flagrante foi colhido num aniversário de sua filha Edna:

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Zé do Bombo, Raimundo e Sebastião

Sebastião partiu desta vida em 2001, mas meu contato e minha amizade com sua família permanecem inalterados. No mês de julho de 2006, em meu Forrozão/70, dancei com 25 damas, dentre elas a Vera – companheira inseparável do pai aonde quer que ele fosse – e a Alice, filha desta e sua neta, como vemos a seguir:

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Falemos agora no grande susto que levei na Copa de 1974, chegando às raias de perder a dignidade. Mas, primeiro, quero esclarecer-lhes um pormenor. Das duas coisas que eu mais tenho medo no mundo, a segunda é cachorro. De tal modo que, quando chego à casa de qualquer pessoa que tem a fera, vou logo cantando este refrão da axé-music: – Segure o cão! Amarre o cão! Segure o cão, cão, cão, cão, cão A primeira é de alma do outro mundo. Nunca vi qualquer delas, mas tenho tal pavor que me pelo, pois que las hay, las hay!

Voltemos ao 3 de julho de 1974, dia do jogo do Brasil com a Holanda!

Era no tempo do calor humano na Câmara dos Deputados, quando havia congraçamento entre os funcionários. No Departamento de Administração, onde eu era lotado, comemoravam-se todos os aniversários. Naquela quarta-feira, levei para minha festa um panelão de vatapá, outro de marizabel, preparados por minha Comadre Maria Júlia, 5 frangos assados, comprado num galeto, e refrigerantes.

Mal começara o ágape, um dos colegas apareceu com uma garrafinha cheia de líquido que, segundo declarou, os passarinhos de sua casa não quiseram beber. Experimentei-o, era de meu agrado, e foi só o que tomei durante a congratulação.

A seu término, rumei para minha garçoniere, no Guará I, sentindo-me já um pouco baleado pela água que os passarinhos rejeitaram. Ao chegar, liguei a TV e, sozinho, assisti ao jogo, tomando lapadas de água ardente a cada gol que levávamos. Terminado o jogo, deitei-me, bem mareado, ali mesmo no sofá da sala, e peguei no sono. Sono profundo!

Mais ou menos às 9 da noite, bateram insistentemente em minha porta. Levantei-me um tanto estremunhado e, ao abri-la, dei de cara com o Sebastião e a Vera, que deveria ter em volta de 10 anos na época.

Recebi-os, como era de boa educação, mas pê da vida por terem me acordado. E a conversa fluía sem graça, cada qual sem assunto, eu querendo que eles se mandassem dali. De repente, outras pancadas na porta. Fui abrir e quase morro de susto: dei de cara com o Sebastião! Olhei para ele, que ria, olhei para o sofá, e lá estava ele, também rindo! Naquele momento, me arrupiei todo e pensei:

– É abantesma! É alma!

E fui amarelando, desfalecendo, quase me estatelava no chão, não fosse a rápida ação do Sebastião que me segurou e gritou, para acalmar-me:

– Aquele ali é o Geraldo, meu irmão gêmeo!

Durante quase 15 anos em que nos conhecíamos, ele jamais me falara que tinha esse irmão. Geraldo era Sargento na Banda de Música da PM Mineira e outro presepeiro de marca maior. Para se ter ideia, possuía um coreto em frente a sua casa no bairro belo-horizontino onde morava.

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Os dois irmãos engemados

Passado o susto, resolvemos esticar a noite, festejando o resto de meu aniversário. Saímos do Guará I e rumamos para o Plano Piloto, onde só deparamos com ruas desertas, o que nos fez dirigirmo-nos para o Centro Comercial Gilberto Salomão, point dos boêmios e da juventude naquela época.

Chegando àquele shopping, ocupamos mesa na calçada dum barzinho quase lotado, fizemos nossos pedidos e, sem solicitar permissão, iniciamos o show, com o Sebastião na escaleta, o Geraldo no violão e eu no cavaquinho, os dois últimos no vocal, auxiliados pela Vera e trovadores eventuais, entoando repertório totalmente voltado para canções seresteiras da Velha Guarda. Foi sucesso retumbante! Dali pra frente, os aplausos e pedidos de bis eram consagradores, sendo o hit mais reprisado – para o público novidade – a valsinha Seresta, de Alvarenga, Ranchinho e Newton Teixeira, composta em 1940.

Geraldo veio a falecer no ano passado, em Belo Horizonte, aos 82 anos de idade. Em homenagem a esses dois amigos e também para relembrar aquela belíssima noite em que, há 40 anos, conseguimos, com nossa música, levar alegria para grande número de brasilienses entristecidos pela derrota na Copa, aqui vai, na interpretação de Rolando Boldrin, a valsinha Seresta:

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ANDERSON BRAGA HORTA E A RIMA QUE EU PROCURAVA

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O gênio, no lançamento de Signo, em 4.8.2010, e este colunista

Minha formação literária teve início, na prosa, com Monteiro Lobato, Edgar Rice Burroughs, Alexandre Dumas e muita revista em quadrinho, tendo estas exercido tanta influência sobre mim que hoje não sei elaborar um texto sem imagens. A poesia foi-me apresentada por Gonçalves Dias, Catulo da Paixão Cearense, Castro Alves e folhetos de cordel. Assim, desde cedo, deduzi que a poesia devia ser rimada, o que não é regra geral, como verifiquei muito depois.

Dentre os cordelistas, os que mais me influenciaram foram João Martins de Athayde, Manoel Pereira Sobrinho, Leandro Gomes de Barros e Firmino Teixeira Amaral, com estes romances que até hoje guardo em minha coleção centre centenas de outros:

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E durante muito tempo, eu achava que também era poeta, fazendo versos e até vencendo desafios com a meninada de meu sertão sul-maranhense. Até hoje, trago a rima na massa do sangue, mas sem aquele convencimento de outrora. O que me fez acabar com a marra aconteceu na quarta série ginasial.

Certa vez, em Teresina, no Colégio Diocesano, o Professor Arimateia Tito, em aula de versificação e métrica, mandou que cada aluno compusesse uma estrofe, o que fizemos. Ao ler a minha o professor balançou a cabeça e falou:

– Aqui só tem rima pobre. Janela com canela; oração com coração…

E explicou-nos que rima pobre era esse tipo da minha, que não requeria muita imaginação. Mais ou menos como esta de Florbela Espanca, em Velhinha, que eu mostro agora para vocês:

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Como exemplo de rima rica, o Professor Arimateia apresentava-nos este trecho do poema Meus Oito Anos, de Casemiro de Abreu:

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Há muito tempo, procuro outra rima tão rica quanto essa. E a tarefa a cada dia que passa fica mais difícil, pois quase já não se faz poesia rimada. E também porque há rimas e rimas.

O Velho Faceta, cordelista de truz, vinha cantando os 25 bichos, numa boa, até que chegou o momento de encontrar rima para o tigre. Como aqui é diferente do jogo, não vale o que está escrito e sim a eufonia, ele deu uma guinada e se saiu com esta:

Eu ando devagarzinho
A mim ninguém persigue
Eu ando devagarzinho
A mim ninguém persigue
O 21 é touro
E o 22 é tigre

Dizem que não existe rima para a palavra mãe. Pesquisando no Google, encontrei como única rima para mãe a palavra Oçãe, nome de orixá cuja epifania são as folhas e as ervas medicinais litúrgicas usadas no candomblé. Consultei o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e lá esse termo não consta. Portanto, não existe em nosso idioma.

Quando eu estava na chefia do Gabinete da Deputada Ivete Vargas, então Líder do PTB, admirei-me com a correspondência dum eleitor que, ao cumprimentar a deputada pelo Dia das Mães, enaltecia o fato da maternidade ser tão importante, sublime, que não existia rima para a palavra mãe. Fazia, no entanto, uma ressalva, afirmando que os portugueses rimam-na com também, que eles pronunciam tambãe. Olha a eufonia aí de novo!

Pois bem, depois de ler a carta, caiu-me a ficha! Lembrei-me de um hino trazido para o Brasil pela Corte Portuguesa, Dá-nos a Bênção, cujo refrão diz:

Dá-nos a bênção, ó Virgem Mãe
Penhor seguro do sumo bem

Um de meus colegas de trabalho na Diretoria do Patrimônio, da Câmara dos Deputados, era o falecido cantador, poeta e improvisador Tira-Teima que, certo dia, me procurou, agoniado, querendo uma rima para Corinthians. Eu quase que lhe falei o nome duma amiga minha, a Cyntia, mas, com medo de levar uma vaia, saltei de banda, tirei o corpo fora, e a poesia não se fez.

Falta de cultura minha. Ou coragem. Aos poetas, por falarem com o coração e, por isso mesmo, serem inimputáveis, tudo é permitido, tudo lhes é justificado, dentro de sua lei maior, a licença poética. E isso eu aprendi lendo este importante trabalho, verdadeiro tratado poético, que recomendo a toda Comunidade Fubânica:

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Para não esquecer detalhe algum sobre a biografia do autor, aqui exibo as duas orelhas do livro:

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Com obra literária tão extensa, e sendo detentor de dezenas de prêmios, dentre eles o Jabuti, maior laurel da Literatura Brasileira, Anderson Braga Horta poderia deitar-se na cama e viver da fama. Mas não! De quando em vez, extasia-nos com novidades, como este Proclamações, lançado a 12.2.2014.

Sendo ele, na atualidade, o maior poeta vivo da Língua Portuguesa, a magnitude não lhe afetou a personalidade, o que constato ao vê-lo, com extrema benevolência, no autógrafo de seus livros, chamar-me de colega de trabalho e de letras.

Numa coisa, ele até que acerta. Somos colegas de trabalho. Anderson é filho de um casal de poetas, já falecidos, cujos lindos sonetos, tanto de seu pai quanto de sua mãe, vêm sendo publicado aqui no Jornal da Besta Fubana. Compõe uma prole de uma irmã e quatro irmãos. A irmã, Glória Braga Horta, focalizada em minha coluna no dia 16.6.14, na matéria Três Joelhos Musicais, é funcionária do Poder Executivo, escritora, poetisa, instrumentista e cantora, além de Madre Superiora diretamente subordinada a meu Cardinalato.

Os varões são meus colegas de serviço, todos funcionários da Câmara dos Deputados, nomeados mediante aprovação em concurso público de âmbito nacional: Flávio, que já se encontra junto ao Pai Celestial, Goiano, cujo trabalho consta de Três Joelhos, Arlyson, mais dedicado às atividades aeronáuticas, e Anderson, nosso Poeta Maior. A seguir, da família Braga Horta, em flagrante colhido no ano de 1942:

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Maria Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Arlyson, Goiano, Flávio, Glória e Anderson

Anderson domina todos os campos da Literatura. Nestes tempos de Copa do Mundo, podemos afirmar que, num time campeão, ele é o técnico e joga em qualquer das posições: poesia, conto, romance, biografia, ensaio, o que mais for. Adiante, capas de alguns de seus livros:

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Bom, desçamos do Olimpo! Voltemos à chapada, que é meu lugar, e de onde eu jamais deveria ter saído.

Chico Fogoió, meu amigo e Assessor para Assuntos Piauizeiros, metido a letrado e cordelista, vive me atormentando com uns versinhos de sua autoria, nos quais rima pai com papai, afora barbaridades várias. Eu dou-lhe broncas, dizendo-lhe que se esforce mais e não me venha com essas rimas paupérrimas, e sempre exemplifico o que é rima rica com esta quadrinha que decorei ainda nos Anos 1940, publicada no Almanaque Capivarol:

O padre da Abadia
Mandou comprar uma lâmpada
Para iluminar a estampa
Da Santa Virgem Maria

Aí ele rebate, dizendo que isso é verso de pé quebrado, são duas palavras que rimam apenas na eufonia. E nossa teima continua.

No dia 28 de maio passado, aconteceu minha vitória na pinimba! O Correio Braziliense, na Seção Tantas Palavras, dedicada aos poetas, vates, aedos e bardos, publicou esta joia de soneto, com riquíssima rima, da lavra da genialidade andersoniana:

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- E agora, Fogoió? Sai dessa!

TRÊS JOELHOS MUSICAIS

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Almira Castilho, a Musa do Forró

A olindense Almira Castilho foi rumbeira e radioatriz na Rádio Jornal do Commercio do Recife. Apareceu artisticamente em 1954, participando do coro na apresentação do rojão Sebastiana, primeiro sucesso de Jackson do Pandeiro, a quem alfabetizou e com quem se casou, “zero quilômetro”, com gostava de afirmar.

A partir de então, foi parceira do Rei do Ritmo em composições, em discos, no radio, no cinema, em circos e onde quer que os contratassem.

Compôs, só ou com parceiros, estes sucessos de Jackson: Babá de Babá, coco; Baião do Bambolê, baião; Forró Quentinho, rojão, Lá Vem Mulher, marchinha; Lá Vou Eu, samba; Mandaú, coco; Naquela Base, marchinha; O Velho Gagá, marchinha; Papel Crepom, marchinha; Praia do Janga, baião; Sanfona Braba, rancheira; Serenou, samba; Tililingo, rojão; Tipo Violão, arrasta-pé; e Vamos Chegar Pra Lá, arrasta-pé. No cinema, atuou, com Jackson, nestas chanchadas: Minha Sogra é da Polícia; O Batedor de Carteiras; Aí Vem a Alegria; O Viúvo Alegre; Pequeno por Fora; Cala a Boca, Etelvina; Bom Mesmo é Carnaval; e Rio à Noite.

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(Acervo Inaldo Soares)

Por ser dona desses belos joelhos, apresentava-se sempre com a barra das saias abaixo das canelas, devido ao grande ciúme de Jackson que, para preservar esse patrimônio de olhos cobiçosos, brigou, deu e levou porrada em circos mambembes, mas, até sua morte, jamais permitiu que fossem exibidos. O flagrante acima, bem como o de Almira com o embigo de fora, riqueza que Jackson permitia mostrar, de consta do livro A Musicalidade de Jackson do Pandeiro, de Inaldo Soares, com a Musa aos 81 anos de idade!

Depois do reinado de Almira, a MPB levou um bom tempo para coroar nova Musa, o que só veio a acontecer com o aparecimento da Bossa Nova, em 1957, quando Nara Leão fazia reuniões no apartamento de seus pais, localizado no edifício Champs-Elysées, em frente ao Posto 4, da Avenida Atlântica, em Copacabana, das quais participavam nomes que seriam consagrados no gênero, como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli.

A Bossa Nova, enquanto teve seus 15 minutos de fama, podia ser definida assim: um banquinho, um violão e os joelhos de Nara Leão:

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Nara Leão, na pose que a consagrou

Agora, permitam-me falar-lhes de uns joelhos que nada têm a ver com o jet-set internacional, nem das badalações televisivas ou radiofônicas, mas, em contrapartida, pertencentes a talentosa jovem, gente como a gente, que até hoje nos encanta com sua maviosas atuações. Comecemos pelo começo.

Em 1973, Meu Chefe me convidou para um sarau em seu apartamento, onde várias pessoas, quase todas conhecidas entre si, mostrariam suas virtuosidades, cantando, declamando, representando, tocando, enfim, fazendo suas graças.

Foi reunião das mais artísticas das mais completas, quando tive a chance de calorosamente aplaudir Meu Chefe, que se exibiu cantando sucessos brasileiros, americanos e latinos, e também de exibir-me com minha gaita de boca, surpresa para todos, que não me creditavam essa habilidade.

Em dado momento, com a sala na penumbra, como sói caracterizar-se um bom sarau, anunciaram a próxima atração, a Irmã de Meu Chefe, a qual eu não conhecia nem de nome, que cantaria, acompanhando-se ao violão. Quando a garota posicionou o instrumento, banquinho e cruzou a perna direita sobre a esquerda, a sala se iluminou, um clarão mágico dominou o ambiente, foi a glória! E aquele joelho ficou para sempre em minha lembrança, fazendo com que eu nunca, jamais, em momento algum, o esquecesse!

Passou-se o tempo. Em 2003, trinta anos depois, recebi convite para novo sarau, este no Espaço Cultural Café com Letra, onde se apresentariam Meu Chefe – já aposentado – e sua talentosa Irmã. Compareci, acompanhado de minha mulher, esta bem agraciada no item, para quem falei sobre as prendas da gloriosa: – Você vai ver que joelho mais fascinante!

Chegando ao local, tremenda decepção: a Irmã de Meu Chefe, em solo ou acompanhando-o, se apresentava atrás de um teclado, escondendo, inconscientemente, seus tão famosos atributos físicos!

Quando Luiz Berto criou o Jornal da Besta Fubana, e sendo eu um de seus primeiros colaboradores, cuidei logo de apresentá-lo a Meu Chefe que, além de aderir no ato, trouxe consigo a inesquecível irmã. Esta, desde então, quando lhe apetece, dá-nos sua canja, interpretando belas páginas de nosso cancioneiro e prometendo um CD que, capricho do destino, não tem jeito de sair. Minha esperança era de que, na capa do esperado álbum, os encantadores joelhos apareceriam.

Mesmo devendo-nos o CD, essa Musa foi ordenada Madre Superiora deste Cardinalato, pelo conjunto da obra. Para não ficar devendo aos leitores, aqui vai uma foto sua, entre dois de seus irmãos, no tempo dela pequetitinha, mas já mostrando a que veio:

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Em compensação, aqui vai um espetacular brinde musical para vocês, coisa que eu já deveria ter feito há muito tempo, e venho adiando, sem motivo e sem razão.

Trata-se deste importante trabalho fonográfico, a mim presenteado por Meu Chefe, que entronizei em minhas estantes no nicho seresteiro:

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A estas alturas, quando todos já sabem de quem se trata, passarei a mencionar o real nome de Meu Chefe e de Sua Irmã, uma de nossas Musas.

Goiano Braga Horta é o Cara! Filho de dois grandes escritores e poetas, vez em quando presentes aqui no JBF, nasceu em Goiás Velho, terra de Cora Coralina, tudo isso fazendo com que, desde tenra infância, respirasse os eflúvios da Arte e do Saber.

Cardeal de Igreja Sertaneja e colunista deste jornal, além de escritor, músico, compositor poeta e cantor, é irmão de outros dois grandes astros nossos confrades: a Madre Superiora Glória Braga Horta, acima citada, e Anderson Braga Horta, nosso poeta maior na atualidade brasileira, Prêmio Jabuti, para em pouco dizer tudo.

Neste CD, Goiano se esmerou. Primeiramente, pelo respeito ao Direito Autoral, dando os devidos e merecidos créditos aos criadores envolvidos na composição das faixa que interpreta.  Em segundo lugar, soube mesclar instrumentos eruditos, como o flughorn – taludo ancestral do pistom -, violinos, viola, violoncelo e piano, com seus irmãos populares: clarineta, trompete, trombone, bandolim, violão, baixo, bateria e percussão em geral, resultando disso um som de linda roupagem seresteira, o que me chamou a atenção logo no início de cada canção. E mais, em todas elas, os instrumentistas têm sua vez, mostram sua virtuosidade, com solos impecáveis, o que é difícil de se observar na modernidade que hoje campeia no cenário artístico nacional. Isso é coisa da antiga, como diziam Wilson Moreira e Nei Lopes, na voz de Clara Nunes. De meu tempo, digo eu!

Last, but not least, dominando tudo o que foi dito, há a maravilhosa interpretação vocal do Goiano, seresteiro de proa, que nos inebria em todo o repertório do disco, do qual escolhi, aleatoriamente, duas faixas como amostras de seu trabalho:

Molambo, samba-canção de Jayme Tomás Florence e Augusto Mesquita,

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e Segredo, samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto.

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AFONSO CELSO, O PERFORMÁTICO

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Afonso Celso aos 18 anos

Aconteceu bem no comecinho de Brasília. Ao amanhecer de belo dia ensolarado, um jipe da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, que fazia o percurso Taguatinga/Plano Piloto, capotou já na saída do Setor de Indústria. Imediatamente, juntou um monte de curiosos, que socorreu o motorista, levou-o para o Hospital Distrital – atual Hospital de Base –, onde ele foi devidamente atendido. Umas três horas depois, quando tomou consciência de si, ele perguntou:

- Cadê Seu Afonso?

Foi uma correria que nem te conto! Médicos enfermeiros, pressurosos, dirigiram-se ao local do acidente, encontrando-o desacordado, no meio de umas moitas de capim. Devido ao grande tempo em que fixou exposto aos raios solares, sua cabeça ficou toda inchada, a cara completamente deformada, parecendo um ET, mas com a agravante de que não se lhe viam os olhos. Mais ou menos assim:

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Na época, Afonso era Chefe de Pessoal na NOVACAP, quer dizer, o Homem da Caneta, que assinava a Carteira de Trabalho de tudo quanto era candango. Por isso, o Hospital ficou superlotado de pessoas querendo visitá-lo, do peão ao engenheiro, sendo necessário fazer uma escala para não tumultuar os serviços. Houve um peão, Seu Raimundo Paz, antigo magarefe em Balsas, para quem o Afonso arrumara um gancho, que se emocionou dum tanto ao ver o lastimável estado em que se encontrava o conterrâneo que, ao sair, deixou, na mesinha da sala de espera, uma nota de um cruzeiro! Nunca me esqueço desse lance!

Afonso era duro na queda. Aliás, queda era com ele mesmo!

Doutra feita, bem antes, ainda éramos meninos, eu ia saindo da escola, quando me disseram que ele caíra do pé de imbu de nosso quintal e quebrara o braço. Eu, no caminho de casa, ia imaginando onde colocariam os pedaços do braço, achando que a quebra era igual à de um prato de loiça ou dum copo de vidro. Ao chegar, já o encontrei com o braço direito entalado – não existia gesso por aquelas bandas – e, com a mão esquerda, tocando seu vialejo, como chamávamos a gaita de boca naquele em nosso sertão.

Outras quedas houve, a maior delas com ele perto dos 70, por demais traumática, mas da qual saiu numa boa.

Outra coisa em que ele era craque era exibir-se! Foi a única pessoa, além do Mudo do Salomão, que atravessava o Rio Balsas – largura de 60 metros – mergulhando, chegava à outra margem, dava um sinal com uma das mãos e voltava, isso de um fôlego só! Foi também a única pessoa que vi caminhar descalço sobre brasas avivadas nas fogueiras de São João!

Em Balsas, havia dois pés de eucalipto, um em nossa casa e outro no Egito, sítio distante cerca de meia légua, cujas folhas eram muito procuradas para chás com fins medicinais. Como ambos tinham caules finos, sem galhos, e copas muito altas, feito tetos de arranha-céus, era necessário alguém que subisse para colhê-las. Em Balsas, só o Afonso era capaz dessa proeza!

Afonso Celso de Albuquerque e Silva, meu irmão, nasceu em Balsas (MA), no dia 8 de junho de 1933. Filho de Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, era o sexto de uma prole de dez, da qual eu sou o sétimo. Ontem, se vivo fosse, faria 81 anos. Coincidentemente, seu aniversário caía no de outro irmão, o Carioquinha, nascido em 1928. Esta é a foto mais antiga que temos dele:

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Afonso é esse à esquerda, encostado no sofá – Eu sou o de macaquinho e cabelo cacheado

Este outro flagrante foi colhido também em nossa infância:

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Afonso Celso e Raimundo Floriano

Em 1947, concluído o Curso Primário, Afonso embarcou na carroceria dum caminhão com destino a Goiânia, onde morava nossa avó materna, para prosseguir nos estudos.

Ele sempre gostou de ter seu dinheirinho. Em Balsas, exercia a profissão de sineiro, cobrando 2 cruzeiros de cada comerciante para bater as horas de abrir e fechar as lojas, atividade que me repassou ao sair de lá. E de vestir-se com roupinhas mais ajeitadas, coisas que a minguada mesada paterna era incapaz de suprir, razão pela qual, desde que chegou à capital goiana, paralelamente aos estudos, trabalhou duro para concretizar seus desejos e vaidades.

Como emprego fixo, exerceu a função de repórter fotográfico na Foto HB, do armênio Haroutiun Berberiam. Naquele tempo, as fotos eram coloridas manualmente, no que o Afonso era perito. Como bico, foi hipnotizador, professor de jiu-jítsu, contrarregra radiofônico, ator teatral e gaitista, na Rádio Brasil Central e posteriormente, na Rádio Clube de Goiânia, compondo o elenco efetivo do Carrossel da Semana, badalado programa de auditório.

Em dezembro de 1957, o Carrossel da Semana veio apresentar-se aqui em Brasília, num espetáculo para Juscelino e a candangada, ocasião em que o Presidente o convidou a integrar a equipe da construção da Nova Capital. Convite aceito, Afonso, já com o Segundo Grau completo, foi admitido como Assistente Administrativo da Divisão de Pessoal da NOVACAP.

Dentro de pouco tempo, galgou ao cargo de Chefe de Pessoal e, com o decorrer do tempo, até aposentar-se, foi Diretor de Pessoal da DTUI – Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos e da COTELB – Companhia de Telefones de Brasília, depois TELEBRASÍLIA – Telecomunicações de Brasília.

Seresteiro, paquerador, romântico e apaixonado, casou-se, a 6 de novembro de 1963, com Lígia Magnólia Reis e Silva, que lhe deu três filhos: Luciene, Patrícia e Afonso Celso.

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Afonso e Lígia, no dia do enlace matrimonial

Em 1973, Afonso bacharelou-se em Ciências Jurídicas e, ao aposentar-se, montou seu Escritório de Advocacia, onde obteve magnífico êxito, não só na esfera trabalhista, sua maior especialidade, como em outras áreas. Teve como cliente, por exemplo, num processo de emigração, o designer austríaco Hans Donner que, juntamente com a Globeleza – essa vestida como nasceu –, posou com ele para uma foto, troféu exibido e guardado com muito carinho, mas que se perdeu, como muitos outros flagrantes de momentos análogos em que foi partícipe, depois que ele nos deixou.

Afonso curtia a vida. Foi um globetrotter: conhecia todo o Brasil, as 3 Américas – do Norte, do Sul e Central -, o Caribe, o Oriente Médio, e toda a Europa. Tendo uma filha residente em Munique, Alemanha, fez daquela cidade sua base para percorrer os países do Velho Continente.

Tudo o que usava era da melhor qualidade – óculos, relógio, tênis, carro, computador e periféricos -, e suas gaitas, as germânicas Hohner, 64 vozes, em várias afinações, eram compradas diretamente na fábrica. Ei-lo aqui com uma delas:

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Afonso e sua Hohner

Além da gaita, Afonso também tocava sanfona e escaleta. Na era do teclado, ele rapidamente se adaptou, incluindo esse instrumento em seu show musical, às vezes até com um solo na gaita, acompanhando-se no teclado, ou vice-versa. Eis o último que possuiu, com sua coleção de gaitas.

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Afonso Show, seu teclado e suas gaitas

Afonso era dotado de habilidades incontáveis, dentre elas a prestidigitação, a arte origami, a computação gráfica e o artesanato em madeira, papelão, metal, plástico, isopor e buriti.

Tudo na vida tem início, meio e fim. Embora Afonso Celso fosse duro na queda, havia algo que lhe vinha bagunçando o coreto há certo tempo: o coração! Vez em quando, pregava-nos sustos! E que sustos!

No dia 04.04.04 – repararam na data, não é performática? – um domingo, Afonso chegou de Palmas, onde mora uma de suas filhas, e, ao meio-dia, telefonou-me convidando para uma grande pescaria no mês de julho no Araguaia. Confirmada minha presença, saí para uma festinha de aniversário à qual estavam presentes muitos balsenses. Mais ou menos às 5 da tarde, recebi ligação comunicando-me que ela havia morrido. Foi difícil acreditar, pois eu, ao meio-dia, falara com ele!

Infelizmente, era verdade! Depois do almoço, deitou-se para um cochilo e nunca mais acordou. Caprichos do coração. Consola-nos saber que se foi mansamente, sem muito sofrer.

Esta foi a última foto que tiramos, com os dez irmãos juntos:

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Afonso, Raimundo, Bergonsil, José, Rosimar, Pedro, Maria Isaura, Maria dos Mares, Maria Alice e Maria Iris

A 8 de junho de 2003, curtindo as coisas boas da vida, como era de seu feitio, Afonso comemorara a chegada aos 70 em grande estilo, em ágape musical e dançante, com a presença da família, dos confrades do Rotary e de seus amigos leais.

Perpetuando sua memória musical, Afonso deixou-nos este CD, no qual apresenta solos na gaita e no teclado:

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Nestes dois flagrantes, vemo-lo em atuação:

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Foi o Afonso que me apresentou a gaita com chave e me ensinou a fazer os baixos com a língua, dando a impressão de que se ouvem dois instrumentos. Outra técnica especial dele, com o mesmo efeito, nunca fui capaz de assimilar: tocar oitavando, o que produz efeito de rara beleza sonora e também nos faz pensar em dois instrumentos a tocar.

Ontem, 8 de junho, foi seu aniversário. Como pequena amostra do talento desse querido e saudoso irmão, escolhi, de Ernesto Lecuona, a fantasia Malagueña, em solo de gaita:

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CUSPIDORES, CUIDADO COM A BRUZACÃ!

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A Bruzacã: metamorfose ambulante

Peraí! Mas o nome da bola não é Brazuca? – dirão vocês. E eu respondo: – Calma no Brasil! Até eu me enrolei, caçando um jeito de redigir esta matéria sem muita dispersão, eis que meu intuito é especular sobre a mania que têm os jogadores de futebol de cuspir a toda a hora.

Esse nome Brazuca, sempre me deixava muito perturbado, por não atinar eu com seu motivo ou significado. Alguns explicam que, assim como carinhosamente chamamos os portugueses de portugas, eles, em contrapartida, nos chamam de brasucas. Bom, neste caso, a grafia seria sem o “z” da Brazuca, como batizaram nossa bola. Eis que a derivação vem de Brasil.

E estava eu, raspsodo, cordelista, logogrifeiro, diascevasta, cruciverbista, parafrasta, calemburista, decifrador, enigmático, filósofo, profeta, Cavaleiro da Távola Sertaneja, Imperador da Bandeira do Divino, paladino das almocrevadas do sertão nordestino, enrolado com semelhante dilema, quando me deu uma estralada no coco cabeludo: todos esses títulos me foram conferidos – ou melhor, por mim usurpados – após a leitura do livro Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, no ano de 1971.

A ficha caiu! Está naquela obra-prima a solução desse grande mistério! A Pedra do Reino apresenta-nos um ser mitológico que habita o universo das crendices de todos os sertanejos que se prezam: a Besta Bruzacã.

Inconscientemente, mas inspirados pelos eflúvios astrosos de Ariano, os próceres da CBF e da Fifa nomearam nossa bola com o anagrama da entidade mitológica sertaneja: Brazuca. Isso porque a danada aparece com vários nomes, maneiras e figuras diferentes, conforme a exigência da ocasião requerente de sua presença.

A Bruzacã, com a denominação de Hipupriapa, ou Hipupiara, é uma diaba-fêmea do mar e do litoral, uma bicha horrorosa, mas que desempenhou papel importantíssimo na epopeia empreendida por Dom Pedro Dinis Quaderna, o herói do livro. Adiante, duas de suas ilustrações, uma de autoria do gravador xilógrafo Taparica, baseada em desenho de Frei Vicente do Salvador, e outra saída da imaginação do próprio artista sertanejo:

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No cenário futebolístico pós-Penta, a Bruzacã apareceu duas vezes, com nomes modificados: na Alemanha, em 2006, como Teamgeist, que significa “espírito de equipe”, e, na África do Sul, em 2010, como Jabulani, “trazendo alegria para todos”. Nelas, o Brasil se ferrou:

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A Bruzacã, travestida de Teamgeist e Jabulani

Agora, a Bruzacã surge-nos anagramada aqui no Brasil, levando-nos a fazer estas advertências aos jogadores, aprecatai-vos! Cuspidores futebolísticos, cuidado com Bruzacã!

Passemos, doravante e por conseguinte, ao item principal desta matéria, que é o cuspe no Futebol Mundial.

É deveras impressionante esse fenômeno, que se observa em todos os cantos da Terra, mostrado, às escâncaras, pelas câmeras da TV. Há muito tempo, a colunista Danuza Leão já se mostrava estarrecida com o as escarradas que os jogadores de futebol executam em campo.

Uma das explicações que encontrei na Internet é a de que a cusparada dos jogadores se constitui, num mecanismo de defesa do organismo para evitar irritação das mucosas associado a mudanças nas características normais da constituição da saliva. Se fosse assim, os jogadores de basquetebol, que se movimentam muito mais, estariam constantemente cuspindo, o que nunca acontece. O jogador de futebol é único atleta que cospe no campo onde exerce sua profissão.

Só para ilustrar, aí vão três imagens que garimpei na Internet. Respeitando a privacidade dos focalizados, coloquei-lhes uma venda, para que não sejam identificados:

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E não é só no terreno gramado não! Às vezes, o atleta utiliza-se da escarrada para atingir a cara do adversário. Houve um que foi mais além. Um certo Nico, se não me engano de nome, que ficou milionário no futebol, em determinado jogo, ao ser expulso de campo, para vingar-se do árbitro, cuspiu na bola, que tanta fama lhe trouxera no cenário internacional.

Acho, salvo melhor juízo, que o problema é falta de civilidade mesmo.

Quando eu estudada no Colégio Diocesano, em Teresina (PI), numa aula de boas maneiras, o preceptor expendeu seu juízo de que tudo que sai de nosso corpo é excremento. Assim, as pessoas jamais deviam cuspir em público, preservando-se do mesmo modo que procedem no ato de defecar ou no momento da micção.

Questionado sobre como devia proceder alguém que se visse possuído de insopitável desejo de cuspir, o preceptor respondeu que, nesse caso, a pessoa devia cuspir no lenço. Lembro bem da reação do Almir, um parnaibano, que o interpelou, achando que era nojento de mais guardar no bolso um lenço cuspido, ao que o preceptor matou a pau:

- E o que é que você faz com o lenço depois de assoar o nariz?

E terminou a aula dizendo que o correto mesmo seria a pessoa engolir o cuspe, mesmo nas ânsias de mulher parida.

Eu até que reconheço a impossibilidade de cada jogador ter um lenço à mão, sempre que lhe vem o irrefreável desejo. Mas eles devem se convencer de que estão num palco, diante de uma plateia que pagou caro para assistir ao espetáculo esportivo e não para vê-los expelir seus dejetos orgânicos. Ainda mais diante das câmeras, que transmite o ato, ao vivo e em cores, para os quatro cantos do Mundo.

No próximo dia 12, a bola começa a rolar neste Mundial, com o jogo Brasil x Croácia. Embora o resultado seja perfeitamente previsível, com goleada a nosso favor, não custa nada o alerta. Olho vivo com a Bruzacã!

Tem um jogador de fama internacional em nosso escrete, esperança da torcida brasileira, que, de tanto desabar no gramado, ganhou o apelido de cai-cai. Lembram-se dele?

Acho que é de tanto escorregar no cuspe!

MANEZINHO ARAÚJO, O REI DA EMBOLADA

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Manezinho Araújo, em charge de Nássara

Manuel Pereira de Araújo o Manezinho Araújo, nasceu em Cabo de Santo Agostinho (PE), a 7.09.1910, e faleceu e São Paulo (SP), a 23.05.1993. Cantor, compositor e artista plástico, era filho de José Brasilino de Araújo e Joventina Pereira de Araújo.

Funcionário da antiga Estrada de Ferro Great Western, desde a adolescência interessou-se por música, frequentando as rodas boêmias do bairro de Casa Amarela, no Recife, onde estudava. Numa delas, ficou conhecendo o cantor de emboladas Minona Carneiro, que o ensinou a cantá-las.

Com a Revolução de 1930, ingressou como soldado nas forças revolucionárias, mas, quando seu pelotão chegou à Bahia, o governo se havia rendido, e a tropa viajou para o Rio de Janeiro. Nessa época, Manezinho já cantava emboladas e chegou a se apresentar em cabarés do Rio.

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Manezinho, em ótima caricatura

Retornando de navio para Pernambuco, na Bahia embarcaram os artistas Carmen Miranda, Josué de Barros, Bentinho e Almirante, que vinham de uma temporada em Salvador e iam apresentar-se no Recife. Em uma roda musical a bordo, Manezinho, ainda na farda, como Sargento, agradou muito com suas emboladas. Carmen Miranda, então, aconselhou-o a ir para o Rio de Janeiro, e o violonista Josué de Barros prometeu lançá-lo no rádio.

Ao chegar em Pernambuco, já desligado da caserna, ficou por ali um tempo, mas, no início de 1933, se mudou para a capital carioca, hospedando-se com Josué, no Bairro de Santa Teresa, onde ficou ensaiando. Em abril do mesmo ano, Josué levou-o à Rádio Mayrink Veiga, onde Manezinho se apresentou, sendo escalado para voltar na semana seguinte. Na segunda apresentação, Ademar Casé, que comandava o Programa Casé, na Rádio Philips, ofereceu-lhe um contrato com exclusividade. Manezinho aceitou, participando duas vezes por semana no programa.

Ainda em 1933, foi levado por Josué à Odeon, gravando duas emboladas de sua autoria e assinando contrato com a gravadora. E, daí pra frente, sua carreira deslanchou.

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Flagrantes de Manezinho Araújo

Três anos depois, fez sua estreia no cinema, cantando duas emboladas no filme Maria Bonita. Atuou ainda em diversos outros filmes e participou de 22 cinejornais da Atlântida, em que aparecia na parte final cantando um verso de embolada ou contanto uma história.

De 1937 a 1940, gravou na Odeon algumas emboladas de sucesso, como Segura o Gato, Pra Onde Vai, Valente?, Quando eu Vejo a Margarida, Sá Turbina e Sordado Aburricido, todas de sua autoria.

Em 1941, deixou a Odeon, depois de gravar, além das emboladas, cocos, frevos, sambas, etc. Em 1945, obteve grande sucesso com a gravação de Dezessete e Setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima.

Manezinho foi um dos pioneiros na gravação de jingles no Brasil, tendo participado da campanha dos produtos Lifebuoy, e também o primeiro artista a ser contratado por uma fábrica, a do Óleo de Peroba, cantando duas vezes por semana, um na Rádio Nacional, e outra na Mayrink Veiga.

Durante sua carreira, apresentou-se em todas as regiões do País, cantou em diversas casas de espetáculos gravou dezenas de discos em diferentes gravadoras, quase sempre com enorme aceitação. A seguir, capas alguns discos que gravou, incluindo um CD, lançado pela Editora Revivendo, e elepês facilmente encontráveis em sebos virtuais:

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Em 1954, desgostoso com o meio artístico, que criava fãs-clubes para autopromoção, decidiu interromper sua carreira e realizou um espetáculo de despedida no Tijuca Tênis Clube, ao qual compareceram cerca de 15 mil pessoas. Com a renda obtida nesse show, inaugurou em Copacabana um restaurante típico, o Cabeça Chata, onde passou a cantar e contar causos.

No início da década de 1960, começou também a pintar.

Em 1962, fechou o restaurante e transferiu-se para São Paulo, abrindo outro Cabeça Chata.

Meses depois, deixou o negócio, dedicando-se exclusivamente à pintura, atividade em que também obteve enorme êxito.

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Dois quadros de Manezinho Araújo

Como amostra de seu trabalho, escolhi duas emboladas ambas de sua autoria:

Pra onde Vai, Valente?;

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e Cuma É o Nome Dele?

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PASTORIL DO VELHO FACETA

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Velho Faceta

O Velho Faceta já foi apresentado aqui, em outras oportunidades, pelo Editor deste jornal, por Geraldo Pereira e por mim mesmo. Mas nunca é demais reacendermos nos leitores a memória de nossos ídolos populares, trazendo-os à baila sempre que se possa.

Em meu caso especial, mais isso se justifica, pois falar do Velho do Pastoril é falar de mim mesmo. Frustrado em minha carreira circense, continuo a trazer dentro de mim o palhaço que não consegui ser para sempre, mas hoje, aonde quer chegue, alegro o ambiente com piadas, chistes, pegadinhas cançonetas e charadas.

Há uns 25 anos, ensaiei com minhas filhas o grito do palhaço na rua, e isso se transformou no maior sucesso em todas as festinhas a que comparecíamos. Eis aqui uma tomada, feita em julho de 1991 – Elba com 7 anos e Mara com 5 –, num quiosque à beira do Rio Maravilha, em Balsas, minha terra natal:

Isso posto, voltemo-nos para nosso homenageado.

Constantino Leite Moisakis, o Velho Faceta, nasceu em Carpina, Pernambuco, no dia 08.01.1925.

Seu pai queria que ele estudasse para formar-se em doutor, mas Constantino optou por ser Velho do Pastoril e, até à sua morte, em agosto de 1986, esforçou-se para conservar acesa essa brincadeira típica do Estado de Pernambuco.

Preservando a tradição, o Velho Faceta manteve sempre regras originais em seu pastoril. Nas apresentações, que começavam às oito da noite e terminavam só na madrugada, dividia o palco com as suas pastoras, dançando, dizendo piadas, fazendo charadas e entoando cançonetas. Sempre com um tom malicioso, apimentado, Faceta inebriava o público.

Não gostava de se apresentar nos centros mais evoluídos, preferindo os pequenos povoados, onde a miuçalha sabia melhor participar da folgança. Apresentava também seu Pastoril em folias interativas, quando a plateia pagava para ouvir piadas chulas ou impropérios contra outras pessoas, presentes ou ausentes.

As canções de seu repertório gravado foram amenizadas pela mídia, mas as rimas e a rica imaginação dos ouvintes funcionam como tradutores daquilo que ele realmente queria dizer.

Quase não ficaram registradas imagens do Velho Faceta. As poucas que existem na Internet, foram editadas das capas de seus elepês, como estas:

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(Abro parêntese, aproveitando, já que estou com a mão na massa, para comunicar a todos os leitores que acabo de assumir meu verdadeiro papel no mundo histriônico, bufão, incorporando duas personalidades virtuais, a do Palhaço Seu Mundinho e a do Velho Fulô. Espero, em 2016, publicar um livro com presepadas dos dois. Fecho parêntese):

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Seu Mundinho e Velho Fulô

Houve muitos Velhos de Pastoril no Nordeste: Cebola, Dengoso, Futrica, Rabeca, Xaveco, Balalaica, Xumbrega, Mangaba, Barroso, irmão do Velho Faceta.

O pastoril é um auto natalino muito difundido no Nordeste, geralmente realizado no período que vai do Natal ao Dia de Reis. Em suas origens européias, os pastoris – adjetivo substantivado de “autos pastoris” – eram dramas litúrgicos apresentados nas igrejas, nos quais se teciam loas aos personagens do Natal. Chegou ao Brasil trazido pelos jesuítas, havendo indícios de sua existência aqui já no Século XVI.

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Pastoril familiar

Os brasileiros logo os assimilaram, e de tal maneira que criaram outra espécie de espetáculo: o pastoril profano.

Sem as pastorinhas angelicais, entraram as escrachadas. Sem as ladainhas religiosas, chegaram as sátiras sociais.

O pastoril de ponta-de-rua é a dessacralização do presépio ou lapinha. Nele, as mocinhas dos cordões azul e encarnado foram substituídas por mulheres-da-vida, com um Velho ou Bedegueba. Com tal elenco, as funções já não se regulam pela moral vigente. O sexo é o carro-chefe. Neste, cabras muito safados fazem as vezes das pastoras:

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Pastoril profano, escabroso e esculachado

Outro pastoril famoso, é o do Velho Xaveco, apresentando lindas pastoras, escolhidas ‘a dedo” como ele gosta de dizer:

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Pastoril do Velho Xaveco

Atualmente, quem faz sucesso em todo o Nordeste é o Velho Mangaba, personagem criado e vivido pelo ator, músico, compositor, dançarino e palhaço Walmir Chagas, que também é ilustre membro da Comunidade Fubânica. Vejam-no aqui em ótima companhia:

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Velho Mangaba, cercado de belezuras

Podemos considerar Walmir Chagas um teimoso, um persistente e, por isso mesmo, um herói, porque hoje o pastoril profano está praticamente apagado na memória do povo, e os poucos ainda renitentes quase não mais despertam na assistência o mesmo interesse de outrora. É o progresso!

Voltemos ao Velho Faceta. Em 1970, pelas mãos de Hermilo Borba Filho, o Velho Faceta chegou à gravadora Bandeirantes, fazendo sucesso nacional com as músicas Nabo Seco, Dona Maçu, É Mais Embaixo, Bacorinha, e A Espiga. Chegou a lançar 3 elepês:

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E aqui está o mérito do Velho Faceta: consagrou no vinil um bocado de nossas tradições nordestinas para todo o sempre.

Como pequena amostra de seu trabalho, aí vão duas faixas, na gravação das quais participaram o sanfoneiro Edinaldo Castanha, o zabumbeiro Zeca, o pandeirista Jegue, o triangueiro Ivo e as pastoras Terezinha, Biuzinha, Genilda, Biazinha, Cleides e Séo:

Chamada do Velho Faceta, marcha, Boa-Noite do Velho Faceta, fala, e Amor de Criança, bolero;

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e Cuidado, Cantor, embolada.

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ARY LOBO, O HOMEM DO SPUTNIK

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 Ary Lobo: morador da Lua

Gabriel Eusébio dos Santos Lobo, o Ary Lobo, cantor e compositor, nasceu em Belém do Pará, a 14.08.1930, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, a 22 de agosto de 1980, aos 50 anos de idade.

Era soldado da Aeronáutica, quando se apresentou em programas de calouros da Rádio Clube do Pará. Por essa época, fez parte do conjunto Namorados Tropicais, quando conheceu o então compositor Pires Cavalcanti que, além de influenciar sua maneira de cantar, convenceu-o a mudar-se para o Rio de Janeiro.

Na capital fluminense, entrou em contato com o pianista e compositor Gadé, que o levou para a Rádio Mauá, onde começou sua carreira como cantor regional nordestino.

Lançado em disco pela dupla Gadé/Valfrido Silva, gravou na RCA Victor vários discos 78 RPM, e um LP intitulado Aqui Mora o Ritmo, com A Mulher Que Vendia Siri, de Severino Ramos e Alias Ramos e Garoto do Amendoim, de B. Lobo e Manoel Moraes, sendo as músicas mais tocadas:

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Em 1962, ainda na RCA, gravou o LP Ary Lobo, incluindo duas composições suas, Moça de Hoje, com Jacinto Silva e Eu Vou Pra Lua, com Luiz de França, que obteve estrondoso sucesso, dominando todas as paradas. No ano seguinte, lançou o LP Poeira de Ritmos, incluindo Quem Encosta em Deus Não Cai, de João do Vale, José Ferreira e Ary Monteiro, e Escada da Glória, de Adoniran Barbosa e Edmundo Cruz.

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Sempre na RCA Victor, lançou os LPs Ary Lobo e Seus Grandes Sucessos, em 1964, destacando Último Pau-de-arara, de Venâncio, Corumba e J. Guimarães, e Vendedor de Caranguejo, de Gordurinha; Zé Mané, em 1965, com Cheiro de Gasolina, de Severino Ramos e Barros de Oliveira, e Madame Paraíba, dele e Dílson Dória; Quem É o Campeão, em 1966, com a faixa-título dele e Luiz Boquinha; Ary Lobo e Seus Maiores Sucessos, em 1971, com Evolução, de J. Cavalcanti, Lino Reis e Aguiar Filho, e Paulo Afonso, de Gordurinha.

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Sua discografia contabiliza, além de fonogramas em 78 RPM, 9 LPs.

Meu acervo contém 121 faixas representativas do seu trabalho. Ele compôs mais de 600 títulos, gravados por ele e outros intérpretes, sempre defendendo ferrenhamente a música nordestina de raiz.

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De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, e voz parecida, cantando ritmos variados, como baião, xote, coco, samba, frevo, samba-canção, arrasta-pé e toada, teve sua época de ouro nos Anos 1950 e 1960, retratando sempre a vida e os costumes do Nordeste, às vezes em números divertidos, como Cheiro de Gasolina e Madame Paraíba.

Seus maiores sucesso, Eu Vou Pra Lua, Súplica Sertaneja, de Gordurinha, e o Último Pau-de-arara, permanecem dominando até os dias correntes, merecendo constantes regravações pelos mais importantes forrozeiros deste país.

Para mostrar-lhes um pouco de seu trabalho, escolhi os baiões Eu vou Pra Lua, dele e de Luiz de França, e o Último Pau-de-arara, Venâncio, Corumba e J. Guimarães:

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FORRÓ SANFONADO, A ALEGRIA DA LATADA

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Triângulo, sanfona e zabumba: ai, que saudade me dá!

No dia 31 de maio de 2008, eu iniciei minha coluna como segue.

Ontem, 30.05.2008, a TV Globo anunciou um Som Brasil em homenagem a Luiz Gonzaga, o Lua, o Gonzagão, o Rei do Baião, logo após o Programa do Jô. Estava previsto para começar à 01h25 da madrugada de hoje, com término às 02h25, ou seja, 50 minutos e duração que, descontados os comerciais, resultariam em 40 minutinhos dedicados à alma e ao coração da Cultura Musical Nordestina. Um gênio que nos legou 658 registros fonográficos – dos quais possuo a maioria –, todos considerados obras-primas da MPB, alijado nos socavões da noite, como se de propósito, para que pouca gente tomasse conhecimento do fato. Eu mesmo, atolado os quatro pneus pelo Forró, até que tentei me manter acordado, mas o sono foi superior à devoção. Por isso, não posso comentar o que se passou ali, apenas registro a ocorrência.

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Trio Siridó, em sua formação inicial Mocó, Torres do Rojão e Djaci

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Trio Siridó e Banda: Valdinei, Taciva, Torres, Cipó e Dico

Não é de se estranhar esse descaso. Há muito tempo, o Forró vem recebendo intensa agressão pela modernidade dos teclados e das guitarras, sendo atualmente quase impossível assistir-se na TV a programa em que os forrozeiros se apresentem na composição clássica: sanfoneiro, zabumbeiro e triangueiro. Com tristeza, vejo o Trio Siridó, que eu considerava o mais legítimo representante do Forró pé-de-serra aqui do Planalto Central, transformado em Trio Siridó e Banda, com parafernália eletrônica capaz de lotar a carroceria dum caminhão dos grandes. É a pertinácia do amigo Torres, seu líder, na luta pela sobrevivência.

Mas, afortunadamente, a pureza ainda existe. Meu amigo, minha amiga, vocês que estão lendo estas maltraçadas procurem aí em sua cidade e ainda encontrarão autênticos trios nordestinos – em outra oportunidade, direi da sua invenção – com repertório e competência para animar suas festas juninas e outras afins. Caso isso já não mais seja possível, apresento-lhes pequena amostra do trabalho desses abnegados, que tanto contribuíram para manter em nosso espírito a pureza e a simplicidade da infância e da adolescência.

São consagrados sanfoneiros, com ritmos juninos variados, a mostrar-nos um pouco de sua arte, como Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Severo, Zé Gonzaga, Abdias, Mário Gennari Filho, Mário Zan, Gérson Filho, Zé Calixto, Zé Piatã, Luiz Sérgio, Kariri, Manoel David, Negrão dos 8 Baixos, Zé Cupido, Sanfoneiro Guido, Zé Paraíba, Zé do Forró, Tony Martins, Raimundo Soldado, Hugo Cantarino e Severino Januário.

Bom, isso foi em 2008. Mas, depois disso, tive que dar a mão à palmatória no que se refere à Rede Globo, diante o tratamento que deu a Luiz Gonzaga, nosso ídolo maior, no ano passado, quando se comemorou o Centenário do Rei, tanto em sua central, quanto nas emissoras regionais. Está de parabéns à Globo!

Também minha visão relativamente ao Forró em seu todo foi modificada quando, a 27 de maio de 2009, fui empossado na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Musica Nordestina, no Recife, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho, que compareceu à solenidade e deu grátis um show de quase hora e meia.

Naquela noite, conheci uma Nação Forrozeira que me era estranha e ali acorreu para me homenagear. Astros como Flávio Leandro, Rogério Rangel, Eliezer Setton, Xico Bizerra, Terezinha do Acordeom, Júnior Vieira, Anchieta Dali, Luizinho Calixto, Cristina Amaral, Kelly Rosa, Hélio Donato e Conjunto Forroviário, Nena Queiroga, Bia Marinho, Josildo Sá, Targino Gondim, Cezzinha, Fábio Simões, Arimateia Ayres, Lourdinha Oliveira, Tostão Queiroga, Anjo Caldas, Gabriel Sá, João Cláudio Moreno, Gonzaga Leal, Valter Azevedo, Arluce Carvalho, Jeová da Gaita, Nilson Araújo, Ismael Gaião, Paulo Wanderley, Antônio Marinho, Greg Marinho, Paulo Carvalho, Zelito Nunes, Neide Santos e Júnior do Bode.

Infelizmente, nós aqui do quase-sul-maravilha desconhecemos a existência de pessoas tão talentosas e que agora, passadas as deferências a Gonzagão, se encontram no escaninho do esquecimento para a grande mídia.

Felizmente, temos, em contrapartida, o Jornal da Besta Fubana, maior movimento cultural hoje existente no Brasil, que postou diariamente, em 2013, uma composição diferente de Luiz Gonzaga e continua com o espaço aberto a todos os cronistas, compositores e intérpretes brasileiros. Em 2017, será a vez de homenagearmos diariamente Jackson do Pandeiro, em seu Centenário, postando músicas por ele compostas ou gravadas.

Meu propósito, hoje, é apresenta-lhes o trabalho de nossos sanfoneiros, em números instrumentais, executando os ritmos mais representativos do Forró, quais sejam o arrasta-pé, o baião, o xote, o rojão e, pra não dizer que não falei de flores, o choro e o samba, muito dançados em nossas festas de latada.

Como são inúmeros esses geniais sanfoneiros, foi difícil escolher, dentre todos, os seis abaixo, que nos deliciarão com suas virtuosidades:

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Luiz Gonzaga, Mário Gennari Filho e Zé Cupido

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Dominguinhos, Zé Calixto e Kariri

Vamos ouvi-los:

ARRASTA-PÉ: São João a Roça, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com Luiz Gonzaga;

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BAIÃO: Baião Caçula, de Mário Gennari Filho, com o autor;

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XOTE: Forró de Mané Vito, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com Zé Cupido;

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ROJÃO: Bigode de Arame, de Dominguinhos e Guadalupe, com Dominginhos;

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CHORO: Escadaria, de Pedro Raimundo, com Zé Calixto;

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e SAMBA: Nacional de Brasília, autor desconhecido, com Kariri.

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HINOS DO FUTEBOL BRASILEIRO

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Começou o Campeonato Brasileiro de Futebol! Desde o dia 20 de abril, o Brasileirão/2014 ta botando pra derreter!

E não tem escapatória, meus camaradinhas. Daqui até a primeira quinzena dezembro, um só assunto será dominante em todas as rodas e conversas, no boteco na esquina, no trabalho, em qualquer local onde se reúnam legítimos torcedores e outros não tanto: o Campeonato Brasileiro. E, como subproduto, a Copa do Brasil, Taça Libertadores da América e até o Mundial de Clubes, se nossos plantéis prosseguirem na jornada gloriosa rumo ao título máximo, o que tá muito difícil.

No meio de tudo isso, como subproduto, a Copa do Mundo, cujo resultado influirá, positiva ou negativamente, no resultado das Eleições Gerais, com 1º Turno em outubro e 2º Turno em novembro. É muita cana pra moer, muito assunto pra arder e encardir.

Comportamento perfeitamente compreensível num país detentor de inúmeras glórias futebolísticas, único Pentacapeão em todo o planeta, onde os governantes usam os chavões do esporte bretão pra justificar sua filosofia de governar, tais como em time que está ganhando, não se mexe; o jogo só acaba no final do segundo tempo; bola pra frente, e outros análogos.

Se futebol será o assunto de todo brasileiro, também me animo a dar minhas cacetadas nessa jurisdição tão árida para mim e na qual sou completamente ignorante.

Ignorante sim, pois não sei nem dizer o nome dos jogadores do time, o Vasco da Gama, para o qual torço desde 1949. O que sei mesmo é sair na rua com a Banda da Capital Federal, tocando para o povão, a cada título conquistado pela Seleção Brasileira. Aí, meus camaradas, eu fico feito uma besta quadrada, mas só em relação ao Escrete Nacional, pois há muito tempo meu time do coração teime e não me proporciona alegria alguma para merecer meus salamaleques.

Em Brasília, há muitos e muitos anos, meu carro é conhecido nas ruas pelas duas bandeiras do meu time que o ornamentam. Todos os flanelinhas do Distrito Federal, ao vê-lo de longe, já vão me apontando a vaga e pensando lá com seus botões: “tá chegando aquele vascaíno babaca, que sempre nos remunera a vigiada com moeda de um reais”. Era assim, tenho que declarar. De certo tempo pra cá, torcedores de outros times, suponho, deram para quebrar as bandeiras, fazendo com que eu desistisse, depois de umas vinte reposições, dessa marca tão característica de minha a pessoa. Agora, só um adesivo no vidro traseiro, para não ser tachado de infiel.

Como declarei acima, não sei a escalação do Vasco, que hoje joga ignoro com quem. Apenas posso dizer que tem goleiro, defesa, meio-de-campo e atacantes.

E ainda bem! Vocês, por acaso, viram o escudo do Vasco lá em cima? Não viram? Explico-lhes: este ano, fomos novamente rebaixados – contra Juiz, nem a pau! Como não há mal que não traga algo de bom, há a compensação de que não sofrerei todas as segundas e quintas-feiras, com as indefectíveis piadas e gozações dos impiedosos, que só se preocupam, felizmente para mim, com os times pica-grossa da Primeira Divisão.

Enquanto isso, nós, os coitadinhos, vamos remando, labutando para, pelo menos, não descermos para a Terceirona. Vejam a boa companhia em que nos encontramos:

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Mas o hino do Vascão eu sei cantar. E é para vocês, meus amigos, que talvez nem se amarrem muito nesse negócio de futebol, porém alimentam simpatia ou amor por um dos times que ora disputam o Brasileirão, na Primeira Divisão ou na Segundona, que pesquisei e consegui incorporar a meu acervo os hinos de todos esses valorosos esquadrões. Na hipótese de o leitor querer ouvir o de seu time, basta entrar em contato pessoal comigo neste endereço virtual: raimundofloriano@brturbo.com.br.

Há uns 5 anos, havia um site de busca, atualmente deletado, no qual eram disponibilizados todos os hinos oficiais do Futebol Brasileiro, com estatística das visitas. Para surpresa minha, o hino mais acessado era o do Santa Cruz, que recebia dez vezes mais downloads que o segundo colocado.

E é ele que disponibilizarei agora para vocês. Vamos ouvir, portanto, o Hino do Santa Cruz, composição de Capiba, com o Coral e Orquestra Musika.

Mas antes, deixem-me comentar um pouco a urucubaca que anda perseguindo a torcida vascaína. Não é chorar pele leite derramado não. Aceito placidamente todo o resultado do jogo jogado. Mas tudo tem limite. Vocês mesmos vão tira suas conclusões, vendo estas imagens:

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Gol do Vasco anulado e gol em impedimento validado

Com vocês, o Hino do Santa Cruz:

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BRASÍLIA, 54 ANOS: CAPITAL NACIONAL DOS SHOPPINGS

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Shopping Center em dia calmo

21 de Abril de 2014! Hoje, aos 54 anos, Brasília é o Paraíso dos Shopping Centers!

Daqui de minha cadeira, relaciono 33, com a maior facilidade: Park Shopping, Conjunto Nacional Brasília, Pátio Brasil, Brasília Shopping, Terraço Shopping, Iguatemi Brasília, Fashion Mall, Boulevard Shopping, Liberty Mall, Águas Claras Shopping, Alameda Shopping, JK Shopping, Casa Park, Píer 21, Shopping ID, Park Design, Shopping Quê, Gama Shopping, Florida Mall, Vitrinni Shopping, Flamingo Shopping, Serra Shopping, Riacho Mall, Top Mall, Santa Maria Shopping, Shopping Popular do Gama, Shopping Lazzat, Jardim Botânico Shopping, Deck Norte Shopping, Deck Brasil Shopping, Metrópole Shopping e Centro Comercial Gilberto Salomão.

A seguir, imagens de quatro dos mais badalados:

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Park Shopping e Pátio Brasil

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Iguatemi Shopping e Píer 21

E uma charge de Santiago, publicada no Jornal da Besta Fubana de 13.04.14

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Até novembro de 1971, não sabíamos o que era isso! A propósito, reproduzo episódio de meu livro Do Jumento ao Parlamento, lançado em agosto de 2003:

A INAUGURAÇÃO DO CONJUNTO NACIONAL BRASÍLIA

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Conjunto Nacional Brasília: nosso primeiro shopping

24 de novembro de 1971! Inauguração do Conjunto Nacional Brasília e suas duas âncoras principais: o Supermercado Pão de Açúcar, que ficaria mais conhecido pelo nome de Jumbo, e o Banco Econômico!

Os jornais da cidade – Correio Braziliense e Diário de Brasília – estampavam grandes anúncios e convidavam a população em geral para comparecer ao evento, que marcaria o início das operações do primeiro shopping da capital, com a presença de Pelé, já então considerado Rei do Futebol.

Aquele empreendimento ainda não tinha sido bem assimilado pelo povo candango, e muitas lojas, mesmo a preço de banana, permaneciam fechadas, por falta de interessados. A verdade é que não sabíamos bem o que era um shopping. Fazíamos nossas compras na W/3, ou no Núcleo Bandeirante, mais conhecido como Cidade Livre. Os supermercados de que dispúnhamos, mesmo os do Plano Piloto, não passavam de meras quitandas bem sortidas.

O Conjunto Nacional Brasília assinalou, portanto, a chegada da modernidade empresarial no Planalto Central Brasileiro.

Era uma manhã de quarta-feira. Eu trabalhava na Câmara dos Deputados e havia combinado com meu colega e amigo Luiz Berto que tomaríamos parte nos festejos até ao meio-dia, pois o expediente normal no Congresso só começava às 13h30. Esse Luiz Berto viria mais tarde a ser autor de várias obras premiadas, como O Romance da Besta Fubana, A Prisão de São Benedito e A Guerrilha de Palmares. E por que eu o cito aqui? Porque ele não me deixa mentir.

Estávamos vivendo o milagre econômico, e o ministro Delfim Netto – atualmente, deputado federal -, titular da Fazenda, era figura infalível nos noticiários noturnos das estações de TV. Eu, gordinho, com uma bela papada e óculos, me parecia um bocado com ele. Tanto que meus filhos, Zezinho e Floriano, de 6 e 5 anos, quando viam aquela autoridade na telinha, exclamavam:

- Olha o papai!

Devidamente enfatiotados para o turno vespertino – terno escuro e gravata -, eu e Luiz Berto chegamos ao Conjunto e, por não conhecermos nada ali, nem o protocolo da solenidade, nos encaminhamos diretamente ao Banco Econômico, onde era servido um lauto coquetel, como se podia notar através das paredes de vidro. Muita gente bonita e elegante enfeitava o ambiente. Ao chegarmos à porta, fomos barrados por um segurança que, educadamente, falou:

- Por favor, o convite!

- Não temos convite – respondi.

- Então, infelizmente, os senhores não podem entrar.

- Mas espere aí – disse eu -, os jornais convidaram todo o povo de Brasília para a inauguração!

- É, mas eles se referiam às outras lojas. Aqui, só mediante convite.

Já íamos nos retirar, quando um cidadão bem apessoado, que fazia parte da diretoria do Econômico, se dirigiu apressado ao segurança, falando rispidamente:

- O que é isso? Não vê que é o ministro?

E, virando-se para mim, franqueou-nos a entrada:

- Ministro, por gentileza!

Se calados estávamos, calados ficamos.

Aproveitamos o mais possível.

À noite, ao verem na TV as reportagens sobre o acontecimento, meus filhos, cheios de razão, orgulhosos apontavam:

- Olha o papai!

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Comparem: Raimundo Floriano e Ministro Delfim Netto

PESCARIA NO RIO BALSAS DE MINHA INFÂNCIA

(Ontem, 13 de abril, começou a Semana Santa! Para quem não sabe, a Quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Ramos. Assim, publico novamente esta matéria, agora revista e com novas ilustrações, a cargo do Juarez Leite, artista plástico que enriquece minhas ousadias literárias).

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Menino pescador

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu fico a lembrar meus tempos de infância balsense, quando a meninada alimentava de peixes a inteira população da cidade. Não havia supermercados ou qualquer outro tipo de comércio para suprimento do produto, mas toda casa tinha um menino que, naquela ocasião, se transformava em pescador. Por isso, o feriadão começava na quarta-feira, dando o tempo necessário para que, na Sexta-Feira da Paixão, o povo jejuasse de carne, como mandava a Santa Madre Igreja.

Os peixes mais comuns de escama eram o piau, a pacu – feminino para nós – e a piranha, os três considerados nobres e pegados durante o dia.

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Peixes de escama: piau, pacu e piranha

À noite, era a vez do mandi, do surubim e do mandubé, peixes de couro, os dois últimos alcançando grande porte.

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Peixes de couro: mandi, surubim e mandubé

As iscas mais usadas eram o angu de farinha e o milho verde ou cozido para o piau e a pacu, carne para a piranha, minhoca, tripa de galinha e piabas para os peixes de couro.

Até agora, eu nada disse que não fosse o costumeiro de como se pescava em qualquer rio sertanejo. O que nos fazia diferentes era nossa tralha de pesca.

O Rio Balsas, na época da Semana Santa, apresenta suas águas límpidas e cristalinas, transparentes como em qualquer piscina. Durante o dia, enxergávamos os peixes às pequenas profundidades e, consequentemente, os peixes nos enxergavam às margens do rio.

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Rio Balsas: águas verde-azuladas, puras, transparentes

No período noturno, não havia problema. Pescávamos com a linha zero, igual à que hoje se usa nas pipas, para os peixes miúdos, e com o cabinho, da grossura dum cadarço de tênis, para os graúdos, de couro.

De dia, esse material não funcionava, espantava os peixes. Aí é que se constata a criatividade do povo daquele tempo. Ainda não havia o náilon. Até o fim da Guerra, a gente se virava com as linhas fabricadas por nós mesmos, usando como matéria-prima crinas de rabo de cavalo.

O primeiro requisito era que o cavalo deveria ser branco ou de crinas claras, para que a linha ficasse invisível ao ser lançada na água.

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Cavalo de rabo branco: fornecedor involuntário de linha de pesca

Como em Balsas havia poucos cavalos, usávamos como provedores de crina os componente das tropas dos fazendeiros e agricultores rurais das cercanias que, periodicamente, se arranchavam na cidade, para vender sua produção e comprar sal e mercadorias industrializadas, numa espécie de escambo. Havia até hotéis – quintas com água e pasto – para as montarias e animais de carga. E era nessas quintas que, à noite, fazíamos a festa, arrancando as crinas, na base do coice. Tinha cavalo que, ao retornar para as fazendas, levava apenas um sabugo no lugar do rabo.

Com a colheita das crinas, partíamos para a fabricação da linha propriamente dita. Primeiramente, fazíamos os entrançados de dois ou três fios, cada um com a média de 30 cm de comprimento. Depois os emendávamos, até chegar ao tamanho desejado, de 6 a 10 metros. Havia os especialistas, como o Modesto, filho do Mestre Zacarias, que pescava com linha de um só fio e, quando ferrava um piau ou uma pacu, caía na água e nadava acompanhando o peixe até que este se cansasse. Verdadeira arte!

Fabricada a linha, partíamos par a obtenção do caniço. Por lá, não havia o bambu, e a taboca não se prestava para esse fim. Em compensação, a mata era fértil de pereira, arbusto cujos galhos eram muito apropriados para servirem de vara de pesca.

Outro item raro era o anzol, que fabricávamos com um alfinete do qual dobrávamos a ponta, dando-lhe um nome também conhecido pelos baianos, güé, eficientíssimo na pesca do piau e da pacu, os peixes mais apreciados pelos balsenses. Algumas lojas vendiam anzóis, de tamanhos variados, mas dinheiro no bolso da meninada era nenhum, por isso a gente se virava como podia, não necessitando de grana e usando apenas a imaginação criativa.

Faltava a chumbada. Para isso, derretíamos tubos vazios de pasta dentifrícia, que naqueles tempos ainda não eram feitos de plástico.

E pronto! Estávamos devidamente equipados para abarrotar a cidade com a imensa quantidade de peixes que levávamos daquele generoso rio.

Só em 1946, depois da Guerra, foi que começaram a chegar as linhas de náilon, como as que hoje existem, que nós chamávamos de linha americana. A pioneira da linha de náilon em Balsas foi a Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, também uma grande pescadora de peixe de couro que, naquele mesmo ano de 1946, presenteou meu irmão Bergonsil, o Chilim, com 10 metros daquela nova invenção. Chilim, que estudada em Floriano e se encontrava em Balsas de férias, ao retornar, deu-me sua linha americana de presente, uma das grandes preciosidades com que ele me agraciou na vida.

Com o advento da linha americana, tornaram-se triviais os anzóis – havia uns com a barbela enviesada, conhecidos como ferra-no-olho -, a vara de bambu ou de náilon e a chumbada manufaturada. Aí, a pesca balsense perdeu um tanto de sua graça, vez que, com o progresso, vieram também a devastação das margens do rio e o barulho, fazendo com que os peixes sumissem para bem longe da civilização.

E por que estou contando isso a vocês agora, tantos anos passados? Apenas para que não se perca na memória de meus conterrâneos a história dum tempo em que, mesmo carentes de tudo quanto era progresso, sabíamos aproveitar totalmente o que a Natureza, magnanimamente, nos legava.

Alguém há de indagar:

– E a traíra? Vocês não pescavam esse peixe?

E eu apresso-me em explicar.

Naquele sertão, de imensa fartura e riqueza natural, a traíra, também conhecida como pau-de-nêgo e cipó-de-viúva, animal da lama e das águas toldadas, assim como o sapo, a cobra, a minhoca, o jabuti, a lesma, o rato, o mambira, o morcego, o lapau, a mucura, o macaco e o camaleão, não era considerada alimento humano. Nem para isca era utilizada.

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Traíra, pau-de-nêgo ou cipó-de-viúva

Havia até um dito popular muito ouvido entre os pescadores: terra onde tromba de elefante é picolé, lamparina dá choque, galinha cisca pra frente, jumento é relógio, tostão é dinheiro e traíra é peixe, nessa terra eu não moro!

MEUS SUBTENENTES: UM DELES CHEGOU LÁ!

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Subtenente: Arte de Juarez Leite

(O assunto é palpitante! De repente, não mais que de repente, sobressai, no Cenário Internacional, um Subtenente! Motivo pelo qual, repito esta matéria, com o acréscimo pertinente).

As piadas da caserna se repetem a cada ano, podendo ser adaptadas a qualquer tempo, espaço, posto ou graduação. O que vou fazer aqui não é contar mais uma, e sim lembrar grandes amigos dos velhos tempos, de quem não tenho notícia há mais de quatro décadas, desde que fui licenciado.

O Subtenente é militar escolado, traquejado, disciplinado e competente, qualidades sem as quais jamais alcançaria a mais alta graduação no âmbito das praças. Se o Capitão Comandante de Subunidade representa o pai da dos recrutas, o Subtenente, por ser mais vivido e mais experiente, poderia ser o avô, aquele sujeito bacana, compreensivo, que quebra qualquer galho. Nos três anos em que atuei como Furriel, Sargento que cuida da folha de pagamento dos praças, exerci minhas funções na Reserva – sala de trabalho do Subtenente e Almoxarifado da Companhia, cujo material emprestado só sai dali mediante cautela, uma espécie de recibo -, onde convivi com três excepcionais chefes, todos mineiros.

Na Companhia de Petrechos Pesados – 1, do 12º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte, MG, comecei, recém-saído da EsSA, com o Subtenente Bertucci – só me recordo do seu nome de guerra -, um ex-combatente, que atuou no Teatro de Operações na Itália. Logo em seguida, após sua promoção a 2º Tenente e transferência para outra Unidade, veio o Subtenente Assis Dias Brasil, Saco B – militar que, convocado para a guerra, chegou até a embarcar, mas, antes de chegar a destino, o conflito acabou – que muito me ensinou para o bom desempenho de minhas atribuições profissionais e contribuiu sobremaneira na minha formação moral.    Vou contar um caso envolvendo o Subtenente Bertucci. Foi no ano de 1958, quando o 12º Regimento de Infantaria, o Doze de Ouro, passava do sistema hipomóvel para o motorizado.

Vocês não avaliam o rebu que tocou nas Reservas dos Subtenentes, em especial nas Companhias de Petrechos Pesados – CPP, cujos morteiros e metralhadoras eram transportados nos lombos dos muares.

Na Reserva da CPP-1, não tínhamos tempo para dizer arroz. Deveríamos recolher, em curto espaço de tempo, todo o material a substituir, como carroças, reboques, cozinhas portáteis, selas, cangalhas, brides, cabrestos, rédeas, focinheiras, antolhos e o escambau, além dos mencionados muares. Tudo isso registrado minuciosamente, no Livro-Carga, ficando toda a operação sob o comando e a responsabilidade do Subtenente da Companhia, ou seja, do Subtenente Bertucci.

Esse, assoberbado com tantos afazeres, era constantemente interrompido por algum dos envolvidos na operação, trazendo-lhe problemas os mais diversos. Por isso, tomou uma atitude assaz acertada. Toda a vez que lhe aparecia qualquer desses enrolados, ele sustinha sua lengalenga, dando-lhe a terrível ordem: “TRAGA ISSO POR ESCRITO!” Não falhava, o sujeito saía, encontrava uma solução para o caso e nunca mais voltava à Reserva com mais outro.    Mas essa tática não funcionou com o Cabo Rufino, que labutava com os muares lá nas baias. Certo dia, ele chegou nervoso na Reserva e começou um interminável blablablá, interminável não, porque o Sub o cortou com a ordem: “ESCREVA ISSO!” O Cabo Rufino retirou-se, mas não demorou. Em pouco tempo, estava ele de volta com seu relato:

“PARTICIPO-VOS QUE O BURRO 45, VULGO BONIFÁCIO, ENTROU ALOPRADO NO NOSSO DORMITÓRIO, LÁ NAS CAVALARIÇAS, ZURRANDO E ESCOICEANDO, O QUE RESULTOU NA QUEBRA DE UM POTE DE BARRO E DE UMA MORINGA DO REFERIDO METAL.”

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Pote e moringa

O Subtenente Brasil muito me orientou para o Exército e para a Vida. Era um estudioso da Língua Portuguesa, o que me fez também tomar gosto pela boa leitura e até a comprar o meu primeiro dicionário, um Aurélio, que me acompanhou de 1958 até janeiro de 1972, quando a Reforma Ortográfica acabou com o acento diferencial, tornando-o obsoleto.

A nossa Reserva era, portanto, uma sala de estudo, pois estávamos constantemente tirando as nossas dúvidas e as dos colegas que nos procuravam.  Dispúnhamos, para fornecimento ao pessoal escalado para serviço externo, de dois tipos de armas de cano curto: o revólver SMITH & WESSON e a pistola COLT, ambos de calibre 45.

Pois bem, eis que, senão quando, aparece-nos o Terceiro Sargento Baldomero, Ferrador, com esta preciosidade de cautela: “RESSEBÍ DA REZERVA DA CPP-1, PARA O SERVISSO DE PATRULHA NA ZBM, UM REVOLVER CIMITE OESSE, CALIBRE 45”.

Ao ler o documento, o Subtenente Brasil não conteve sua perplexidade e chamou o Sargento no saco:

- Sargento Baldomero, esta cautela está eivada de erros!

O Sargento tirou o corpo fora:

- Seu Sub, a culpa não é minha. Quem datilografou isso foi o Cabo Laurentino, eu só fiz assinar!

O Subtenente insistiu:

- Mas como é que você assina um documento sem ler antes? Os outros erros até que dão pra passar, mas este CIMITE está demais da conta!

Baldomero não se deu por achado:

- Pois é, Seu Sub, na hora eu até falei para o Laurentino: “Cabo Velho, esse CIMITE é com C cedilhado!”

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Revólver Smith & Wesson, calibre 45

O terceiro foi o Subtenente Haroldo Batista, já na Polícia do Exército de Brasília. Um espelho para todos nós. Natural de Patos de Minas, bem mais novo que os já citados, atualizado, culto e bem-humorado, participava – sem perder a autoridade, nem quebrar a liturgia do cargo – de todas as brincadeiras e jogos no Alojamento e no Cassino dos Sargentos, quando estávamos aquartelados, de prontidão – e isso, no início dos anos 60 era mais comum que o período de normalidade. Árduos tempos.

Como os que prestaram o serviço militar devem saber, todo Cabo é “Cabo Velho” e todo Subtenente é “Seu Sub”. Na Aeronáutica, por exemplo, os Suboficiais são assim nomeados: Sub Bessa, Sub Pereira, Sub Martins, etc. Pois bem, o Subtenente Haroldo, que topava qualquer parada, qualquer contratempo, jamais admitiu que o chamassem de Sub. Não tenho notícia de outro que assim procedesse. E a exceção era para todos, do Comandante ao Corneteiro.

Se um subordinado desatento o chamasse de Sub, imediatamente ele o enquadrava: “Tome a posição de sentido para falar comigo.” E, em seguida, dava-lhe uma mijada daquelas. Se fosse um superior seu, aí sim, ele é que tomava a posição de sentido, se apresentava e inquiria: “Sub o quê, Meu Senhor? Subsolo, submarino, sub-raça? Eu Sou é Subtenente do Exército, de acordo com a lei!”

Desarmava qualquer cristão!

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Submarino submerso

ACONTECEU NA EsSA

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Para os que não serviram, vai ser difícil captar a sutileza do lance que ora narro. Por isso, achei de bom alvitre dar uma pequena explicação, antes de enfiar a cara no sucedido.    De acordo com os regulamentos militares, a tropa também faz continência ao deslocar-se, olhando à direita ou à esquerda, conforme o local em que esteja o oficial, quer seja Tenente ou Marechal. Deu pra entender? Então, prossigamos.

Na EsSA – Escola de Sargentos das Armas, a quantidade de oficiais transitando por suas ruas – ruas sim, porque a Escola é uma pequena cidade – é deveras marcante. E o aluno tem que ficar atento para prestar as honras, sob o risco de ter uma anotação desabonadora na sua ficha ou, no mínimo, levar uma mijada.

Certa manhã primaveril, lá ia o Aluno Abdala, na função de Chefe da Turma B-8, conduzindo a mencionada para a sala de aula. De repente, não mais que de repente, surge-lhe um superioríssimo, caminhando em sentido contrário. Então, o nosso herói emitiu o comando:

- Turma, sentido! Olhar à esqueeeeeerdá!

E já ia levar a mão à pala – só o que comanda é que faz a continência -, quando percebe ser a autoridade apenas um Subtenente. Mas o Abdala era esperto, sabia se virar, não acusou o golpe. Daí, lascou em alta voz:

- Turma, ultima foooooorma! Subtenente não tem direeeeeeitô!

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Bom, tudo o que relatei até agora se refere a Subtenentes Combatentes que, na carreira militar, após conquistar e graduação de 3º Sargento e fazer o Curso de Aperfeiçoamento, pode esperar sentado, calmamente, que as outras promoções virão somo sem falta: Segundo Sargento, Primeiro Sargento e Subtenente. Para isso, basta ter comportamento. No Quadro de Músicos, o buraco é mais embaixo, como se diz, por isso, estou vibrando com a seguinte notícia publicada no Estadão:

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Pra começo de conversa, considero todo Músico um intelectual. Mais ainda, quando se trata de um Músico Militar, que precisa ralar muito, queimar as pestanas, estudar pra valer, visando a transpor cada degrau. De Soldado, estuda para sair Cabo; De Cabo, para 3º Sargento; de 3º Sargento, para 2º Sargento; de 2º Sargento, para 1º Sargento; de 1º Sargento, para Subtenente. Ao ser promovido a essa graduação – classificada como de Praça Especial –, o Música já é um Maestro perfeito e acabado, podendo reger orquestras em qualquer País do Globo Terrestre!

Sim, porque a Música é Linguagem Universal. Um Subtenente Musico brasileiro está apto a reger orquestra no Japão, Malásia ou Rússia, de primeira, sem conhecer os instrumentistas, que o obedecerão de imediato, se submeterão a sua regência, dada a Universalidade da Música.

Sem um poliglota, um multilíngue, nada mais apropriado que designar um Subtenente Músico para compor qualquer comissão internacional. No caso em exame, acho que o Subtenente epigrafado, era mais globe-trotter idiomático de toda a equipe. A Partitura, ou Notação Musical, é cosmopolita, e a Música é Arma Poderosa, que transpõe qualquer barreira, conquista o mais empederni coração, um Esperanto que deu certo, eis que, no Século XXI, é linguagem falada em todo o Planeta Terra.

Parabéns para esse valoroso Subtenente que, além de competente conquistador, mostrou garra, se esforçou, e ora vê recompensada toda sua dedicação ao estudo e ao saber!

CINQUENTANÁRIO DA REVOLUÇÃO DE 31.03. 1964

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Com a ilustração acima, foi publicada na Internet, no dia 15.03.14, esta matéria assinada:

“DILMA PROÍBE AS FORÇAS ARMADAS DE COMEMORAREM OS 50 ANOS DA REVOLUÇÃO DE 64

José Carlos Werneck

A presidente Dilma Rousseff determinou, sexta-feira, que não quer celebrações dos militares da ativa em comemoração aos 50 anos do Movimento Militar de 31 de março de 1964. Ela comunicou sua decisão ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que já conversou sobre o assunto, com os comandantes militares.

Os Chefes das Forças Armadas orientaram a tropa para que se evitem comemorações em 31 de março, interna ou externamente.

A maior preocupação é com os militares da reserva.

Os chefes militares já haviam aproveitado as reuniões, antes do Carnaval, de seus Altos Comandos, que trataram, também, das promoções do final do mês, para comunicar aos comandados que se abstivessem de qualquer tipo de polêmica sobre o assunto, para evitar choques com o Planalto. Os comandantes das forças já haviam comunicado a determinação aos seus subordinados a ordem de não serem feitas comemorações dentro e fora dos quartéis.

A data, no entanto, não será ignorada pelas Forças Armadas. No Exército, o tema será abordado com palestra e divulgação de informações para a tropa apenas para que “as novas gerações” não se esqueçam do que chamam de “fato histórico”, contextualizado à época da guerra fria.

O clima na ativa das Forças Armadas, até agora, é de total distensionamento. Não há movimentações para promover atos para exaltar a data, embora existam insatisfações em relação à condução dos trabalhos da Comissão da Verdade. Grande parte dos militares reconhece que houve avanços nos investimentos das Forças durante os governos Lula e Dilma.

Ainda há grande preocupação com o pessoal da reserva. Ainda não se sabe exatamente o que eles poderão promover para comemorar os 50 anos do Movimento de 31 de março. Para evitar problemas com os colegas que já estão fora dos quartéis, mas que, quando querem, fazem manifestações, os comandos das Forças Armadas fizeram contatos com os presidentes dos Clubes Militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica pedindo moderação nas manifestações. Mas vários militares que já estão reformados, porém, atuam de forma independente e não costumam atender às solicitações dos comandantes.

Quem está na Ativa não pode se manifestar, por força do Regulamento Militar. Os da Reserva não têm tantas restrições, mas, também, estão sujeitos a algumas regras e podem ser punidos, inclusive, com prisão por declarações que forem consideradas ofensivas à presidente da República.”

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Sem querer entrar no mérito de tão complexo assunto, restrinjo-me a reproduzir esta figura, também obtida na Internet:

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PEDRO SILVA, O MENESTREL DO SERTÃO SUL-MARANHENSE

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Pedro Silva e seu amigo violão

Pedro Albuquerque e Silva, o Pedro Silva, meu irmão, nasceu em Balsas (MA), no dia 13 de novembro de 1922. Filho de Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, é o primeiro varão e segundo de uma prole de dez, da qual eu sou sétimo.

Completando 92 anos em novembro próximo, pode-se afirmar que este sertanejo é, depois de tudo, um forte, eis que continua em plena atividade, fazendo tudo de que gosta, como se tantos anos não lhe pesassem nas costas. É nosso herói!

A seguir, a fotografia mais antiga da família, batida em 1929:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro Maria Isaura e Maria Alice

Passou toda sua infância em Balsas, levando vida sadia e cheia de peripécias e traquinagens, como de todo menino do sertão. Já nesse tempo, começou a aprender a “bater” o violão, ou seja, acompanhar-se cantando, Arte que o acompanha desde antes, agora e sempre.

Aprendeu as primeiras letras e concluiu o Curso Primário nas escolas da Dra. Maria Justina, Melquíades Moreira Ferraz, Dr. Domingos Tertuliano e Educandário Coelho Neto, do Professor Joca Rêgo. Em Teresina, foi aprovado no Exame de Admissão para o Liceu Piauiense, onde cursou o Ginasial, após o qual, naquele primeiro quarto do Século XX, se considerou preparado para o exercício de sua verdadeira vocação: a atividade comercial.

Voltando para Balsas, começou a trabalhar como caixeiro na loja de José de Sousa e Silva, nosso Tio Cazuza Ribeiro, atendendo os fregueses no balcão. Tio Cazuza, vendo sua habilidade e tino para o comércio, designou-o para viajar pela Região Tocantina, para comprar gêneros de exportação – couros, peles silvestres, produção agrícola – e vender sal a comerciantes e fazendeiros. Era responsabilidade imensa para um adolescente naquelas plagas.

Lembro-me bem de uma chegada dele de uma dessas viagens. Trouxe uma lata, tipo de leite em pó, cheia de moedas de valores diversos, chamou os irmãos mais novos, derramou o dinheiro na mesa de jantar e mandou que fôssemos pegando, um de cada vez, em rodízio. Eu, por exemplo, só escolhia os patacões. Já o Bergonsil traquejado, primeiro olhava o valor, para pegar as dele. Essas atitudes de bom irmão faziam com que nós, os menores, o chamássemos de padrinho – Padim Pêdo -, numa espécie de sadio puxa-saquismo familiar.

Depois de um certo tempo, trabalhou, por conta própria, nos garimpos cristal de rocha em Xambioá, Piaus e Dois Irmãos, região ainda goiana, onde contraiu impaludismo, difícil de ser curado. Com a ajuda de Deus venceu essa moléstia assaz ceifadora.

Em 1945, aos 23 anos de idade, abriu uma casa comercial em Miracema, em sociedade com o Tio Cazuza, vendendo produtos industrializados e comprando as matérias-primas produzidas na cidade e em suas imediações. Nas horas vagas, o violão e a seresta eram seu lazer.

Pedro tinha um dom inato, que nele aflorou desde o tempo de rapazinho. Para discorrer sobre isso, mostro-lhes duas fotografias dele na juventude:

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Pedro Silva no tempo de rapaz solteiro

Como viram, era um sertanejo comum, sem nada de especial a não ser o dom acima citado: um visgo para atrair o sexo feminino. Quem o conhecia ficava perplexo, abismado, já não digo invejoso. Onde quer que chegasse, as pequenas choviam-lhe em profusão. Nem precisava que ele se esforçasse. Galante e dançarino de primeira, era o preferido nos salões. Houve até um amigo seu que um dia lhe falou: – Pedro Silva, não sei o que há com minha namorada. Quando dança comigo, é toda durona, sem jeito, parece que engoliu uma alavanca. Mas quando tu tiras ela pra dançar, aí a coisa muda de figura! Fica toda mole, se requebrando, se rindo, parece até que tá no céu! Por que será?

Se eu estivesse por perto, na ocasião, teria explicado: – É o visgo, rapaz, é o visgo! -, porque Pedro Silva era o verdadeiro Porta-Estandarte do Amor.

Em termos de namoro, não precisava se mexer. Era como o Mar Oceano, para onde correm todos os rios. Era como o Sol, a atrair os astros em seu derredor. Com esse imenso poderio, colheu, um dia, a mais bela flor morena da sociedade miracemense: Naide Noleto, com quem se casou, no dia 7 de outubro de 1949, e com quem teve cinco filhos: Ceres, Pedro Silva Júnior – o Silva -, José Emídio, Luís Ernesto e Jânio.

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Pedro Silva e Naide: simpatia e elegância do jovem casal

Mudou-se para Carolina (MA), a 9 de fevereiro de 1951, iniciando suas atividades comerciais à Praça Goiás, nº 55, onde construiu esta confortável casa com linda vista para o majestoso Rio Tocantins, na qual até hoje reside:

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Em Carolina, sempre em sociedade com o Tio Cazuza, praticava o comércio de estivas em geral e gêneros exportáveis da região: couros bovinos, peles silvestres, crinas, penas de ema, arroz, babaçu, algodão e outros. Fez parte de diversas sociedades e empreendimentos vários até que passou a operar por conta própria, dedicando-se com mais afinco à pecuária. Paralelamente, foi nomeado Servidor da Prefeitura Municipal de Carolina, atuando no Setor de Finanças e no Departamento de Administração.

A Música, como sempre, era seu principal derivativo. Fundou a Escola de Samba Unidos de Carolina, que desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1963.

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Belinha, Porta-estandarte em 1977

Em outubro de 1975, inspirado no grupo musical que acompanhou Carmen Miranda para os Estados Unidos, Pedro criou o conjunto Bando da Lua, com o objetivo principal de divulgar e promover a MPB em nossa região. Sem aparelhagem eletrônica, contava com uma sanfona, pau, corda, percussão e as vozes de seus integrantes, no gogó. A seresta, então, viu-se revigorada naquele sertão. Mais tarde, incluíram-se teclado, guitarra, contrabaixo, metais, palhetas, bateria e aparelhagem, para que alguns integrantes provessem o ganha-pão. Adiante, o Bando da Lua em sua feição seresteira:

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Inácio, pandeiro; Djael, voz; Adelino, cavaquinho; Luzimar, sanfona; Pedro Silva, violão; e Sitônio, surdão

Pedro Silva tem também sua veia literária. Orador oficial da família, é cronista, articulista, compositor, escritor e cordelista. Adiante, a capa de seu livro Som e Ritmo da Terra, onde narra toda sua trajetória musical, com dados biográficos, e do cordel Navaiadas, elogiando políticos amigos e descendo o cacete nos adversários.

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Ao aposentar-se do Serviço Público, Pedro Silva continuou em plena atividade econômica, como dono de caminhões e jipes, de embarcações fluviais, do Sítio Tangará, fornecendo leite para o consumo da cidade, das Fazendas Santa Maria e Jacaracy, especializadas na criação de gado Nelore e mestiço. Nessa última, construiu, no alto dum morro, o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, de quem é devoto.

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Detalhes do Sítio Tangará e da Fazenda Santa Maria

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Santuário de Nossa Senhora da Conceição e Motor São Pedro de Alcântara

Nestes 75 anos de árdua labuta, Pedro Silva exerceu, além das já citadas, as seguintes atividades: Fundador da Companhia Industrial do Tocantins – CITOCAN, para extração de óleo de babaçu, 1ª Sociedade Anônima da região, sendo seu Diretor-Presidente por 9 anos; Fundador da Liga Esportiva Carolinense, sendo um dos construtores do Estádio Alto da Colina; Fundador da Associação Recreativa de Carolina – ARCA; Fundador e Primeiro Presidente da Associação Comercial e Industrial de Carolina; Fundador da Loja Maçônica Caridade e Justiça, ocupando cargo de direção; Fundador da primeira Loteria Esportiva em Carolina; Fundador e Primeiro Presidente Municipal da ARENA, partido político; Fundador da Empresa Telefônica de Carolina, que presidiu; Diretor-Presidente da Comissão de Implantação do Sistema de Televisão em Carolina; e Suplente de Juiz de Direito, nomeado em outubro de 1973.

Recentemente, analisando essa rica trajetória, ele comentou comigo: – Raimundo, durante todo esse tempo, eu nunca tirei um dia sequer de férias do trabalho! Ao que eu acrescento: Nem da Boemia Seresteira! Nem de Porta-Estandarte do Amor, pois em suas serestas muitos casamentos foram engatilhados! Isso explica a razão de sua longevidade, atestada nestas duas imagens, uma colhida em julho de 2006, na comemoração de meus 70 anos, e a outra, em novembro de 2012, na festinha de seus 90:

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Pedro Silva, aos 84, comigo, em meu Forrozão/70, e com sua Turma, ao festejar seus 90

Carolina, hoje, mantém dois movimentos culturais preservadores de suas legítimas tradições. Uma delas é o Clube das Onze.

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Clube das Onze: aguardando a chegada de seus membros

Situado na Praça Alípio Carvalho, em frente ao quiosque Lanche Bar, em área adredemente cimentada para tal fim, é o ponto de reunião da Velha Guarda Carolinense. De segunda-feira a sábado, às 10h30, Lindomar, dono do quiosque, onde se bebe a cerveja mais gelada, e a cachaça mais pé-de-serra, com tira-gosto do pastel mais saboroso e crocante da paróquia, dispõe mesas e cadeiras, conforme se vê na foto acima, à espera dos membros que, aos poucos, vão chegando. Quando a frequência é maior, cadeiras e mesas adicionais são disponibilizadas. Às onze horas em ponto, começam os trabalhos que, ao meio-dia, impreterivelmente, são encerrados, seguindo cada membro para sua residência. Fundadores como Luiz Braga, Achiles, Hermógenes, Paulo Noleto, Alfredo Maranhão. Genésio, Maninho, Agnelo Jácome, Raimundinho Caetano, Zé Biô, Ulisses Braga e Darwin Noleto já não comparecerão, sendo representados pela nova geração que os sucede. Por ser o decano, Pedro Silva é, tacitamente, considerado o Presidente do Clube.

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O outra é o Conjunto Ouro & Couro. Como o próprio nome insinua, é formado por instrumentos de cordas – o ouro – e percussão – o couro. Fundado por Pedro Silva, que atua no violão e no vocal, conta ainda com os artistas Inácio, no pandeiro; Maria do Amparo, no violão e no vocal; Adelino, no cavaquinho; e Mangueirinha, na percussão. Essa turma, que mantém a tradição seresteira carolinense, está também pronta, a qualquer hora do dia ou da noite, para levar animação a todo tipo de função musical, seja um simples aniversário infantil ou uma festa de arromba.

Pelo conjunto da obra, Pedro Silva foi agraciado, a 13.11.2002, pela Câmara Municipal de Carolina, como o título de Cidadão Carolinense.

O CD Cheiro de Mato, artesanal, sem grandes recursos técnicos, mostra um pouco do trabalho desses sonhadores. Escolhi para ilustrar esta matéria o samba-canção que lhe empresta o título, Cheiro de Mato, composição recente de Pedro Silva, que o interpreta como vocalista principal.

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PRETO, O QUÍPER CHAMPRADOR

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Já estamos na Quaresma, e o ano teima em não começar. Isso vai continuar assim até dezembro. Praticamente, podemos passar uma borracha no ano de 2014, pelo menos aqui no Brasil, considerando-o como se não tivesse existido.

Senão, vejamos. Passada a Quaresma, vem a Semana Santa; depois dela, a Copa do Mundo, que acabará em meados de julho; a seguir, a campanha eleitoral, as Eleições, com Primeiro Turno em outubro e Segundo Turno em novembro; aí, entra-se no clima de Natal, Réveillon, e pronto! Acabou-se o que não foi-se!

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E não sou só eu que pensa assim não. Vejam esta charge publicada dia 05/Mar/14, Quarta-feira de Cinzas, no Correio Braziliense:

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Por isso, respirando esse ar futebolístico, que perdurará, como foi dito, até meados de julho, começo contando-lhes um caso muito engraçado, chistoso, do qual vocês vão rir pra cadete.

Era no tempo do Réis!

Tempo em que a terminologia do esporte era bem diferente: o goleiro era chamado de quíper; na defesa, jogavam os beques; no meio de campo, os ralfes; no ataque, a linha, onde se destacavam o ponta-esquerda, o ponta direita e o centroavante, que era chamado de centerfor. O juiz ou árbitro era o rifiri; o impedimento era ofisaide; escanteio era córner; a falta era mão ou bruta: e pênalti era pênalti mesmo.

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Tempo em que a bola era fechada com cadarço e não tinha nome de batismo como as das últimas Copas. Eram chamadas de pelota, couro, pneu, ou, simplesmente, bola.

Estávamos no início da Década de 1940, quando ainda não fora mudado nosso padrão monetário para o Cruzeiro. Era, portanto, no tempo do Réis. O que nada tem a ver com o que aqui será narrado e serve apenas para situar o episódio nas calendas de antigamente.

Havia em Balsas um negro, chamado Preto, agregado do Tio Cazuza, de Seu Tarcísio Moreira, de Seu Elias Kury, de Seus Luiz Silva e de outros comerciantes, prestando muitos tipos de serviço, como varrer a loja, carregar fardos de mercadorias no lombo – trabalho de cangueiro, como era chamado o estivador por lá –, sendo também chofer e, nos finais de semana, quíper da Seleção Balsense.

O “estádio” não tinha grama, era um campo escalvado, chão duro e batido, onde cada queda resultava em ferida ou contusão grave. Não havia rede nas traves. Muitas vezes, o rifiri, devido a alguma tomada de decisão polêmica, voltava pra casa debaixo de taca. Num campo sem marcação de cal no meio, nas as laterais, na linha de fundo, ou definindo a grande e a pequena área, apitar era atividade intensamente heróica, arriscosa e insalubre por demais.

Imaginem o sacrifício, naquele tempo, do quíper, sem luvas, caneleiras, joelheiras e tornozeleiras, enfrentar a brutalidade dos atacantes adversários.

Mas o Preto a tudo enfrenta com bravura e de modo estiloso. Inventara uma jogada a que deu o nome de champrar. Quando a bola vinha na altura conveniente, ele a agarrava nesta posição que eu, por não dispor de bola no momento, demonstro com um melão:

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O estilo do Preto champrando a pelota

Isso fez escola.

No entanto, o que eu pretendo lhes contar nada tem a ver com o futebol.

Certa vez, o Tio Cazuza e alguns comerciantes amigos viajaram a São Paulo, no intuito de comprarem mercadorias e um caminhão, que as transportaria, levando o Preto como chofer.

As negociações demoraram, levaram dias, fazendo com que o Preto, em dado momento, chegasse para o Tio Cazuza e falasse:

– Seu Cazuza, eu quero ir simbora! Num aguento essa vida de Sun Palo!

Tio Cazuza até se espantou, pois o Preto estava recebendo o melhor tratamento possível, hospedado no mesmo hotel que os patrões e comendo nos mesmos restaurantes. Ao perguntar-lhe a causa de seu desassossego, o Preto respondeu:

– Seu Cazuza, neste mundo, só ficou um divertimento pra pobre como eu, que é f*der, mas já tô com quaje um mês aqui e ainda num dei nem uma bimbada! Vou simbora! Fico aqui mais não!

Diante do exposto, e com todas as pendências resolvidas, Tio Cazuza e seus companheiros encetaram a viagem de volta no dia seguinte.

Conta que, na estrada, confortavelmente na boleia do Chevrolet zerado, o Preto, macunaíma sul-maranhense, enquanto dirigia, cantava este refrão que, mais de 30 anos depois, virava tema de enredo de uma escola de samba carioca:

“Vou simbora, vou simbora
Eu aqui fico mais não
Vou voltar pras rapariga
Dos cabaré do sertão”

MARIA ALICE: 12 ANOS SEM ELA!

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Maria Alice, caricaturada por Juarez

Esta crônica deveria sair no último dia 3, mas como a data caiu na Segunda-feira Gorda, quando todos vocês estariam envolvidos, direta ou indiretamente, com a folia do Carnaval, dificilmente ela seria digna da atenção por mim almejada. Espero que agora, refeitas as forças, e abaixada a poeira momesca, vocês se dignem a relembrar comigo essa pessoa que foi um símbolo de alegria, da caridade e do amor ao próximo. Um paradigma de filha, irmã, esposa, mãe, e avó, além de amiga sincera e incondicional de todos que a conheceram.

Quero salientar, embora estejamos na Quaresma, que as lembranças mais nítidas que tenho dessa minha irmã são as marcadas pelas festas, principalmente o Carnaval, quando ela ensaiava com as amigas as canções lançadas no ano e, nos bailes, divertia-se a valer, naquela inocência das festividades carnavalescas do sertão de outrora. Na foto abaixo, ela, com primas e amigas, preparando-se para o ensaio do Carnaval de 1950. Queriam sorriso mais brejeiro, mais espontâneo, mais faceto, mais puro?

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Violeta, Maria Alice, Criseida, Flory, Iracy e Yolanda

Para abrir esta crônica, pedi ao Juarez Leite, meu ilustrador, que fizesse uma caricatura da Maria Alice, partindo de foto mais recente, batida há uns quinze anos, muito esmaecida. E ele, mesmo sem tê-la conhecido, captou, de forma brilhante, a jovial personalidade dessa irmã querida.

Maria Alice Albuquerque e Silva nasceu no dia 25 de junho de 1926, em Balsas (MA). Era filha de Rosa Ribeiro e Maria Bezerra, meus pais. Dez anos mais velha do que eu, era a terceira, numa prole de dez irmãos, da qual eu sou o sétimo.

Esta é sua foto mais antiga, batida quando estava com dois anos de idade:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro, Maria Isaura e Maria Alice

Estudou em Balsas até concluir o Primário, quando, em busca da realização do sonho de toda moça da época – ser professora – foi estudar em Teresina (PI), onde cursou a Escola Normal Estadual.

Faço questão de relatar um episódio daquela época, que ela me contou em 1991, quando festejávamos o Centenário de Rosa Ribeiro, nosso pai, in memoriam.

Ainda adolescente, ela se encontrava de férias escolares em Balsas, devendo retornar para Teresina numa balsa, a chamada “balsa dos estudantes” que sairia num domingo, em viagem que, ao sabor das águas, teria 15 dias de duração. Vejam bem como era sacrificada a vida dos estudantes da época, devendo interromper as férias duas semanas antes, para chegarem a tempo de pegar o início das aulas.

Sucedeu que, no mesmo dia em que se daria a partida da balsa, seria realizado em Balsas um grande piquenique, com muita música e animação, na Fazenda Maravilha, que a Maria Alice não queria perder de jeito e maneira. Por isso, na véspera da viagem, ela andava na maior tristeza, com a cara inchada de tanto chorar escondido pelos cantos lá de casa. Papai, notando isso e, cientificando-se do motivo, tomou uma providência inesperada. Sabendo que a balsa, que só viajava de sol a sol, pernoitaria na Fazenda Capim Branco, umas seis léguas rio abaixo, decidiu que Maria Alice iria ao piquenique e que, terminada a festa, ele a levaria até a dita fazenda. Assim se fez. Já no crepúsculo, montados em dois cavalos bons de sela, guiados pela lua e pelas estrelas, venceram o percurso, alcançando a balsa ao romper da aurora, antes de ela ser desamarrada para prosseguir viagem. Tal ação do velho Rosa Ribeiro me serviu de verdadeira lição para o modo de como me portar na condução da vida de minhas filhas.

Em Teresina, Maria Alice chamava a atenção pela beleza sertaneja. Essa rara formosura fez com que, em meados dos Anos 1940, fosse eleita Rainha dos Estudantes da Capital Piauiense.

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Rainha dos Estudantes

Conquistado o diploma de professora, retornou para Balsas, onde lecionou no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo até 1956.

Sempre que me recordo daquela época, vêm-me à lembrança as festas das quais ela participava e as músicas que ela cantava, principalmente no período carnavalesco. Sendo a mulata da família, minha imaginação infantil levava-me a crer que a marchinha A Mulata é a Tal – “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal, é a tal…” – de Ruy Rey, lançada em 1948, fora composta especialmente pensando nela.

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A mulata brejeira

Também ficou gravada em minhas recordações a imagem dela, de nossas primas Violeta e Iracy, as amigas Criseida e Yolanda e outras, fantasiadas de odaliscas, cada qual com um pandeiro árabe na mão direita, no Carnaval de 1947, em cordão que tinha como tema a marchinha Odalisca – “Vem, odalisca, pro meu harém…” – , gravação de Nélson Gonçalves. Como o Oriente Médio sempre foi rica fonte de inspiração para os compositores do passado, recordo-me, dela, novamente, fantasiada com seu grupinho de odalisca, no Carnaval de 1951, dentro do tema da marchinha Levanta o Véu – “Levanta o véu, iaiá, levanta o véu, iaiá, eu sei que o teu Alá há de te perdoar…” – gravação do desconhecido Ivan de Alencar. A seguir, duas odaliscas.

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Maria Alice e Yolanda

No dia 25 de fevereiro de 1956, Maria Alice casou-se com Raimundo de Sousa e Silva, nosso primo, filho de Cazuza Ribeiro e Ritinha Pereira, indo residir na vila de engenheiro Dolabela (MG), onde se localizava a Usina Malvina, uma das fábricas de açúcar e álcool do Grupo Matarazzo, da qual Raimundo era o Químico Industrial, situada em terras do Município de Bocaiúva. Seguiu com o casal a jovem Maria Júlia, que já vivia em nossa casa desde menina, sobrinha do Comandante Puçá e de Maria Rodrigues, de quem falarei em outra oportunidade.

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Em Minas, o casal teve dois filhos: Pedro Ivo, nascido em Bocaiúva, no ano de 1957, e Maria Isaura, nascida em Belo Horizonte, em 1958.

No início dos Anos 1960, o casal mudou-se para Brotas (SP), onde Raimundo recebera melhor proposta de trabalho em outra grande usina açucareira, pertencente àquele grupo empresarial. Ali permaneceu até 1963, quando veio a fixar residência em Anápolis (GO), onde Raimundo e outros empresários fundaram uma indústria no ramo de saboaria. Nessa cidade, em 1966, Maria Alice deu à luz Raimundinho, o filho caçula.

No ano de 1967, nova mudança, dessa vez em caráter definitivo. Com aposentadoria de Rosa Ribeiro, Maria Alice foi nomeada Tabeliã do Cartório do 2º Ofício de Balsas, sucedendo a papai, enquanto Raimundo assumia o cargo de Fiscal de Rendas do Estado. Eram as aves voltando ao ninho antigo. E a cidade muito ganhou com isso.

Inicialmente, porque, com eles, voltava a se instalar naquele meio um pouco da alegria do passado, um tanto perdida com o progresso vivido nos novos tempos. No sítio Bebedouro, distante cerca de légua e meia do centro da cidade, passaram a se realizar as mais animadas comemorações e os mais festivos encontros, com a participação de todos os familiares e demais amigos.

O sítio Bebedouro, oásis balsense de alegria e felicidade:

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A seguir, o casal em meio à juventude foliona, no Clube Recreativo Balsense:

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Maria Alice e Raimundo – Carnaval de 1975

Paralelamente ao trabalho e ao lazer, Maria Alice, com o total apoio e cooperação do Raimundo, deu continuidade ao trabalho de Maria Bezerra, nossa mãe, esmerando-se na assistência às pessoas carentes, na organização de festejos religiosos, na consolação dos aflitos, no aconselhamento aos transtornados, na visitação aos enfermos, na assistência aos agonizantes e na ajuda aos carentes, material ou espiritualmente. Com sua morte, passou-se a ouvir, novamente, 33 anos depois, no Município e em seus arredores, a mesma frase comum quando Maria Bezerra nos deixou: – Morreu a Mãe dos Pobres de Balsas!

Sua última viagem a Brasília foi realizada com um pretexto: comparecer à festa de aniversário dos filhos do Luís Fernando, nosso sobrinho, e à formatura, em Anápolis, de Reinaldo, filho da Maria Júlia, a garota que a acompanhou para Minas quando casou. O negão – clone do goleiro Dida -, meu afilhado, aos 21 anos de idade, graduava-se em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Goiás. Festa? Era com ela mesmo!

A solenidade se daria no dia 7 de março de 2002. No início do mês, já aqui em Brasília, Maria Alice, com problemas respiratórios – sofria de asma -, foi internada no HGO para os devidos cuidados médicos. A última vez em que a vi, foi na tarde do dia 2, quando ela, recuperada e rodeada de parentes, relembrava, cantando, sucessos carnavalescos do passado.

No dia seguinte, 3 de março, domingo, ela teve alta e foi para a casa do Afonso, nosso irmão, onde se hospedava. À tardinha, estando à mesa fazendo um lanche com ele, passou mal, perdeu os sentidos e nunca mais voltou. Partiu imediatamente, sem muito sofrer.

Hoje, sabemos que a vinda para festas era mais um pretexto por nós ignorado. Ela viera mesmo para despedir-se dos irmãos e do resto da família. E despedida mais alegre não poderia haver. No aniversário das crianças, estavam presentes cinco de seus irmãos e todos os descendentes e agregados das famílias de Rosa Ribeiro e Cazuza Ribeiro.

Maria Alice era Ministra da Eucaristia. Seu trabalho, juntamente com o Apostolado da Oração, mais conhecido como Grupo das Romeiras, em muito contribuiu para arraigar no coração de seus conterrâneos o sentimento da caridade e da fé católica.

Antes de exalar o último suspiro, nos braços de nosso irmão Afonso, ainda teve um átimo de lucidez e, ao ouvir a Lígia, nossa cunhada, telefonar pedindo uma ambulância, exclamou: – Não é preciso, gente, estou bem!

E estava mesmo! Naquele santo momento, ela já segurava na mão de Deus!

Neste 3 de março de 2014, doze anos passados, relembramos com muita saudade, sua pessoa, mas, ao mesmo tempo, trazemos à memória os alegres momentos que ela viveu, que com ela vivemos, podendo afirmar, com segurança, que ela se encontra junto ao Pai Celestial, velando por todos nós.

ARACY DE ALMEIDA E O CARNAVAL

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Hoje, dia 3 de fevereiro de 2014, segunda-feira gorda, o Carnaval deve estar pegando fogo por todo o Brasil, e eu dou por terminada esta série sobre grandes ídolos carnavalescos do passado trazendo-lhes o perfil de Aracy de Almeida, essa grande Musa da MPB, cujo repertório dominou os festejos momescos dos quais participei, primeiro como folião e, depois, como trombonista e Mestre da Banda da Capital Federal, nos bailes, vesperais e blocos de sujo deste país.

Aracy de Almeida – batizada Araci Teles de Almeida -, nasceu no dia 19.08.1914, no Bairro Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde veio a falecer no dia 20.06.1988, no Hospital dos Servidores do Estado, vítima de embolia pulmonar. Ficou conhecida como A Dama do Encantado, O Samba em Pessoa e A Dama da Central do Brasil. Em agosto deste ano, comemoraremos seu Centenário de Nascimento.

Cresceu no Encantado, juntamente com a família. Seu pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Estudou num colégio em Engenho de Dentro, onde foi colega do radialista Alziro Zarur e, depois, no Colégio Nacional, no Meyer. Garota pobre, ainda jovem Aracy cantava no coro da Igreja Batista da qual seu irmão Alcides era Pastor. Desde os tempos de criança, sonhava em ser cantora de rádio. Cantava samba, mas era apreciadora de música clássica e se interessava por leituras de psicanálise, além de ter em sua casa quadros de importantes pintores brasileiros como Aldemir Martins e Di Cavalcanti, com quem mantinha amizade.

Os que conviviam com ela, na intimidade ou profissionalmente, tinham-na como uma mulher lida e esclarecida. Tratada por amigos pelo apelido de Araca, Noel Rosa disse, em 1933, numa entrevista a Orestes Barbosa, para o jornal A Hora: “Aracy de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo”.

Começou a cantar profissionalmente na Rádio Educadora, em 1933, o que aconteceu a partir de seu conhecimento com o compositor Custódio Mesquita, para quem cantou o foxtrote Bom Dia, Meu Amor, de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano, tornando-se logo um dos nomes mais evidentes da fase de ouro do rádio. Por essa época, já conhecia Noel Rosa e, segundo o pesquisador Antônio Epaminondas, saía muito com o compositor, “ele de violão em punho, frequentando tudo o que era casa suspeita, botequins, nas imediações da Central do Brasil, na Taberna da Glória, etc., e ela ainda de menor”.

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Em 1934, gravou, para o Carnaval seu primeiro disco, na Columbia, interpretando as marchinhas Em plena Folia, de Julieta de Oliveira, e Golpe Errado, de um compositor conhecido apenas como Jaci. No final o mesmo ano, fez o seu primeiro registro de uma música de Noel Rosa, o samba Riso de Criança, ainda pela Columbia.

Em 1935, assinou, com a Rádio Cruzeiro do Sul, seu primeiro contrato e passou a integrar o elenco da gravadora Victor, participando de diversas gravações como integrante do Coro. No mesmo ano, realizou sua primeira gravação solo na Victor, interpretando os sambas Triste Cuíca, de Noel Rosa e Hervê Cordovil e Tenho Uma Rival, de Valfrido Silva. Ainda em 1935, gravou o samba Pedindo a São João, de Herivelto Martins e Darci de Oliveira, e a marchinha Santo Antônio, São Pedro, São João, de Herivelto Martins e Alcebíades Barcelos.

Seu talento para cantar sambas e músicas carnavalescas fez com que fosse chamada pelo locutor César Ladeira de O Samba em Pessoa. 

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Foi casada com o goleiro de futebol Rei – José Fontana -, que jogou pelo Vasco e pelo Bangu, entre as décadas de 1930 e 1940, mas o casamento durou pouco tempo.

Em 1936, gravou seus primeiros grandes sucessos, os samba Palpite Infeliz e O X do Problema, ambos de Noel Rosa. Palpite Infeliz foi muito cantado no Carnaval daquele ano, embora não originalmente destinado aos festejos de Momo. No mesmo período, assinou contrato com a  Rádio Tupi.

Em 1937, lançou, de Noel Rosa, os sambas Eu Sei Sofrer e O Maior Castigo Que Eu Te Dou. Também, no mesmo ano, fez bastante sucesso com o samba Tenha Pena de Mim, de Ciro de Souza e Babaú, e tranferiu-se para a Rádio Nacional.

Em 1938, lançou o samba-canção Último desejo, derradeira composição de Noel Rosa. No mesmo ano, gravou os sambas Século do Progresso e Rapaz Folgado, também de Noel. Em 1939 lançou, para o Carnaval de 1940, com grande êxito, o samba Camisa Amarela, de Ary Barroso, que se tornou um clássico da Música Popular Brasileira.

Além das rádios Educadora, que se tornaria mais tarde Rádio Tamoio, e Cruzeiro do Sul, atuou nas rádios Mayrink Veiga, Ipanema, Cajuti e Philips, onde, no Programa Casé, fez dupla com o cantor e compositor Sílvio Caldas.

Daí em diante, com a carreira completamente consolidada e reverenciada pelo público, lançou grandes nomes e grandes títulos da MPB, quer de Carnaval, quer de ano, com retumbante sucesso.

Em 1950, foi morar em São Paulo (SP), onde residiu até 1962, quando retornou para o Rio de Janeiro.

Como já foi dito aqui nos perfis de Linda e Dicinha Batista, os Anos 1960 forma cruéis para com os ídolos da Velha Guarda da MPB, com a força do Rock, da Jovem Guarda e da TV, cujo requisito principal era a aparência visual, sempre exigindo rostos novos e corpos com apelo sexual. Assim, Aracy de Almeida, como cantora, foi, aos poucos, caindo no esquecimento das novas gerações.

Em 1964, ela participou, juntamente com outros cantores, do show de despedida – o primeiro de uma série – do cantor Sílvio Caldas no Maracanãzinho, despedida que acabou não se concretizando. Em 1968, participou do programa de calouros Proibido Colar Cartazes, ao lado do homorista Pagano Sobrinho, apresentado pela TV Record, de São Paulo, e apresentou-se, com Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e Billy Blanco na boate Zum-Zum, do Rio de Janeiro.

Em 1965, fez vários shows no Rio de Janeiro: Samba Pede Passagem, no Teatro Opinião, Conversa de Botequim, dirigido por Miele e Boscoli, no Crepúsculo, e na boate Le Club, com o cantor Murilo de Almeida. Em Em 1969, apresentou-se na boate paulista Canto Terzo e participou do show Que Maravilha!, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola, no Teatro Cacilda Becker, em São Paulo.

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Nas Décadas de 1970 e 1980, ficou conhecida por grande parte do público como jurada de programas de calouros na TV, aparecendo como uma senhora rabugenta, sempre de óculos escuros e mau-humor. Na verdade, tratava-se de uma personagem criada pela cantora para atrair a atenção do telespectador de programas como A buzina do Chacrinha e Sílvio Santos.   

Em 1980, realizou show no Teatro Lira Paulistana, que acabou chegando ao disco, num lançamento póstumo da Continental, em 1988, intitulado Aracy de Almeida ao Vivo.

Após sua morte, a remasterização de antigas gravações e o relançamento em CD de antigos sucessos redimensionaram sua importância como intérprete. Em 1998, a cantora Olívia Byington lançou o CD A Dama do Encantado onde lhe prestou homenagem, reunindo 20 sucessos de seu repertório, e contando com participações especiais como as de Chico Buarque e direção musical de Maurício Carrilho. Em setembro do mesmo ano, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, patrocinou o musical Aracy de Almeida no País de Araca, com texto e direção de Eduardo Wotzick, baseado em sua vida. Essas regravações, assim como o disco de Olívia, são facilmente encontráveis em sebos virtuais. Eis algumas das capas:

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Possuo em meu acervo 290 títulos com que ela nos presenteou em sua carreira artística, sendo 94 dedicados ao Carnaval, destacando-se, dentre eles: A Mulher do Leiteiro, marcha, 1942; Cala a Boca, samba, 1949; Camisa Amarela, samba, 1940; Cansei de Pedir, samba, 1935; Caramuru, marcha, 1939; Chorou Madureira, samba, 1950; Com Razão ou sem Razão, samba, 1941; Eu e Você, samba; 1937; Fez Bobagem, samba, 1942; Furacão, marcha, 1941; Louco, samba, 1947; Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção, 1936; Miau, Miau, marcha, 1939; Não Me Diga Adeus, samba, 1948; Não Sou Manoel, marcha, 1945; Ninguém Ensaiou, samba, 1944; O Circo Vem Aí, marcha, 1949; O Maior Castigo Que Eu Te Dou, samba, 1937; O Passo da Girafa, marcha, 1949; O Passo do Canguru, marcha, 1941; Palpite Infeliz, samba, 1936; Passarinho do Relógio, marcha, 1940; Qual o Quê, samba, 1938; Que Passo É Esse, Adolfo, marcha, 1943; Quebrei a Jura, samba, 1938; Tenha Pena de Mim, samba, 1938; Vaca Amarela, marcha, 1938; e Veneza Americana, frevo-canção, 1938.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi três dessas faixas:

Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção de Capiba, do Carnaval de 1936;

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Passarinho do Relógio, marchinha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, do Carnaval de 1940;

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e Palpite Infeliz, samba Noel Rosa, do Carnaval de 1936.

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DIRCINHA BATISTA E O CARNAVAL

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Dando continuidade a minha postagem pré-carnavalesca, volto a relembrar outra grande artista do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. Na semana passada, dediquei-me a Linda, a mais velha das Irmãs Batista. Hoje, trago-lhes o perfil da mais nova, Dircinha, cujo repertório fonográfico de 222 títulos, que compõem meu acervo, contém 121 dedicados ao Carnaval.

Ela já teve seu perfil retratado aqui neste jornal, pelo colunista Bruno Negromonte, no dia 05.04.2012, com dois sambas-canções, Carro de Boi, de Capiba e Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria, ambos sucessos de meio de ano.

Dirce Grandino de Oliveira, a Dircinha Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 07.04.1922, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 18.06.1999. Filha do ventrículo e humorista Batista Júnior e de Emília Grandino de Oliveira, era irmã da também cantora Linda Batista.

Após seu nascimento, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Aos quatro anos de idade, Dircinha começou a ser alfabetizada num grupo escolar da Praça José de Alencar, cursando a seguir os Colégios Sion e São Marcelo.

Já aos seis anos de idade, em 1928, fez sua estreia artística cantando Morena Cor de Canela, de Ari Kerner, num show organizado por Raul Roulien, no Teatro Santana, em São Paulo, para o qual seu pai fora convidado. Ainda no mesmo ano, cantou com sucesso, no Cine Boulevard, em Vila Isabel. No ano seguinte, ingressou no colégio Divina Providência, onde concluiu o Curso Primário.

Em 1930, aos oito anos de idade, gravou seu primeiro disco, na Columbia, com o nome de Dircinha Oliveira, contendo as músicas Borboleta Azul e Dircinha, compostas pos seu pai. No ano seguinte, ingressou na Rádio Cajuti, depois Vera Cruz, participando do programa de Francisco Alves, e gravou, pela Odeon, seu segundo disco, cantando Órfã e Anjo Enfermo, de Cândido das Neves.

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Em 1935, quando cursava o ginásio no Ateneu São Luís, estreou no cinema, cantando Eu Vi Você no Posto Seis, de João de Barro, no filme Alô, Alô, Brasil. Em 1936, já com o nome de Dircinha Batista, cantou e dançou no filme Alô, Alô, Carnaval, as marchinhas Pirata e Muito Riso, Pouco Siso, ambas de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravadas na RCA Victor no mesmo ano, assim como as marchinhas Meu Sonho Foi Um Balão, de Alberto Ribeiro, e Meu Moreno, de Hervê Cordovil.

Seu primeiro sucesso no Carnaval aconteceu em 1938, com a marchinha Periquitinho Verde, de Nássara e Sá Róris. No mesmo ano, participou de três filmes: Bombonzinho, Banana da Terra e Futebol em Família.

Desde então, vieram outros títulos consagrados pelo público, como a marchinha Tirolesa, de Osvaldo Santiago, muito cantada em 1939, Upa, Upa (Meu Trolinho), de Ary Barroso, êxito que marcou sua presença no Carnaval de 1940.

Sua carreira foi marcada por contratos diversos com várias gravadoras e estações de rádio, além de atuação como atriz, como na novela Meu Amor, de Hélio Soveral. em 1951, gravou, com tremendo sucesso, o samba-canção Nunca, de Lupicínio Rodrigues, e fez parte do elenco da Companhia Teatral de Dercy Gonçalves, apresentando-se no Teatro Glória, no Rio de Janeiro.

No final de 1951, assinou contrato com as Rádios Nacional e Clube. Nesta última, fez o programa Recepção, escrito por Eugênio Lira e dirigido musicalmente pelo Maestro Alceu Bocchino. Quando a Rádio Clube fechou, Dircinha permaneceu no elenco da Nacional, onde fazia o programa Galeria Musical, escrito por Paulo Roberto e dirigido pelo Maestro Leo Peracchi.

O ano de 1953 marcou sua segunda experiência teatral, também no Teatro Glória, com a Companhia Barreto Pinto, quando gravou o samba-canção Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria. Nos seis anos seguintes, participou de sete filmes: Carnaval em Caxias, em 1954; Guerra ao Samba, em 1955; Tira a Mão Daí, e Depois Eu Conto, em 1956; Metido a Bacana, em 1957; É de Xuá, em 1958; e Mulheres à Vista, em 1959.

Em 1961, passou a trabalhar na TV Tupi, como repórter e animadora de programas. Para o Carnaval de 1963, estourou a banca com a marchinha O Último a Saber, de Klécius Caldas e Brasinha. Em 1964, outro grande sucesso, com a marchinha A Índia Vai Ter Neném, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira.

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A Década de 1960 foi cruel para com os grandes ídolos da Velha Guarda, e muito contribuíram para isso a força do Rock, da Bossa Nova e da Jovem Guarda, além da insensibilidade da TV, sempre mais voltada à aparência de seus astros e, na mais das vezes, desprezando o talento.

Assim, no início da década seguinte, Dircinha encerrou sua carreira, depois de mais de 40 anos de atividade artística, não sem arrebentar a boca do balão: em 1970, foi sucesso absoluto com a marcha-rancho O Primeiro Clarim, de Klécius Caldas e Ruthnaldo.

Turrona, enjeitou propostas vultosas para gravar programas especiais para a TV. Em 1978, quando o Programa Banco de Memória, da TV Globo, gravou, em seu apartamento, o depoimento da irmã Linda, entrevistada por Ricardo Cravo Albin, a equipe ficou esperando por Dircinha mais de três horas, sem qualquer resultado, pois ela recusava-se a sair de seu quarto. A depressão que já a acometia, piorando a partir daí.

Em 1985, Dircinha e as irmãs Linda e Odete foram encontradas no apartamento onde moravam, em Copacabana, em condições de completo abandono. Ela foi conduzida, em estado deplorável, pelo cantor José Ricardo, dois anos depois da morte de Linda, para viver numa cadeira de rodas no Hospital Dr. Eiras, onde faleceu em 1999. No mesmo ano, antes de seu falecimento, o espetáculo teatral Somos Irmãs, escrito por Sandra Werneck e interpretado por Sueli Franco e Nicete Bruno, contou as vidas de Dircinha e de sua irmã Linda nos palcos das principais cidades do Brasil, com enorme sucesso de público.

Dos 121 sucessos carnavalescos que nos deixou, estes ficaram para sempre na memória dos foliões e hoje fazem parte de coletâneas lançadas pelas gravadoras: A Coroa do Rei, samba, 1950; A Índia Vai Ter Neném, marcha, 1964; A Mulher Que É Mulher, samba, 1954; A Tirolesa, marcha, 1939; A Última Orquestra, marcha-rancho, 1971; Baile dos Casados, marcha, 1946; Barba Azul, marcha, 1940; E o Vento Levou, samba, 1941; Ela Foi Fundada, marcha, 1957; Forrobodó, marcha, 1941; Holandesa, marcha, 1941; Índio do Xingu, marcha, 1966; Juro, frevo-canção, 1940; Luar de Paquetá, marcha, 1940; Mamãe, Eu Levei Bomba, marcha, 1958; Máscara da Face, samba, 1953; Minha Terra Tem Palmeiras, marcha, 1959; Na Casa do Seu Tomaz, 1939; Não Se Sabe a Hora, samba, 1958; O Cachorrinho do Lalau, marcha, 1966; O Primeiro Clarim, marcha-rancho, 1970; O Último a Saber, marcha, 1963; Ó, Abre Alas, marcha-rancho; Oh! Suzana, marcha, 1943; Periquitinho Verde, marcha, 1938; Pirata, marcha, 1936; Se Eu Tivesse Um Milhão, samba, 1941; e Upa, Upa (Meu Trolinho) marcha, 1940.

Para relembrar um pouco essa grande Musa da MPB, escolhi dois de seus grandes Sucessos.

Máscara da Face, samba de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, lançado no Carnaval de 1953:

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O Primeiro Clarim, marcha-rancho de Klécius Caldas e Ruthnaldo, lançada no Carnaval de 1970:

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LINDA BATISTA E O CARNAVAL

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Chegando à temporada pré-carnavalesca, fico relembrando os grandes artistas do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. E logo me vem à lembrança a figura de Linda, a mais velha das Irmãs Batista, cujo repertório fonográfico de 162 títulos, que compõem meu acervo, contém 73 dedicados ao Carnaval.

Florinda Grandino de Oliveira, a Linda Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 14.06.1919, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 17.04.1988. Filha do ventríloquo e humorista Batista Júnior, e de Emilia de Grandino de Oliveira, era irmã da cantora Dircinha Batista.

Ainda criança, sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Linda fez o Curso Primário no Colégio Sion, época que a empregada costumava levá-la para ouvir música na Corbeille de Flores, gafieira pertinho de sua casa.

Aos dez anos, começou a aprender violão com o cantor Patrício Teixeira, chegando a compor uma canção intitulada Tão Sozinha. Aos 12, passou a frequentar programas de rádio, acompanhando a irmã Dircinha ao violão. Terminado o Ginásio, no Colégio São Marcelo, iniciou-se no curso de Contabilidade e Corte e Costura.

Em 1936, devido a um atraso de Dircinha, substituiu-a, estreou como cantora no programa de Francisco Alves, na Rádio Cajuti, interpretando o samba Malandro, de Claudionor Cruz. Com o sucesso obtido, foi convidada para outras apresentações na emissora. Em 1937, foi eleita Rainha do Rádio, num concurso promovido no Iate dos Laranjas, barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, título que manteve durante 11 anos consecutivos.

A 3l de março de 1937, casou-se com Paulo Bandeira, de quem se separou menos seis meses depois. Ainda no mesmo ano, trabalhou no filme Maridinho de Luxo, realizou uma excursão pelo Nordeste, tornou-se crooner da Orquestra Kolman, no Cassino da Urca, e, contratada pela Odeon, lançou um disco em que interpretava, em dupla com Francisco Alves, os rasqueados Chimarrão, de Djalma Esteves, e Churrasco, de Esteves e Augusto Garcez.

Em 1938, participou do filme Banana de Terra, fez uma temporada na Rádio Cultura de São Paulo e apresentou-se na inauguração do Cassino da Ilha Porchat, em são Vicente (SP), ali atuando por seis meses.

Retornando ao Rio de Janeiro, em 1939, continuou a trabalhar no Cassino da Urca, onde foi a atração principal até 1945. Nesse período, lançou vários sucessos, como Passei na Ponte, marcha-conga de Ary Barroso, Tudo É Brasil, samba de Vicente Paiva e Sá Róris, Batuque no Morro, samba de Russo do Pandeiro, Clube dos Barrigudos, marcha de Christóvão de Alencar e Haroldo Lobo, e No Boteco do José, marcha de Wilson Batista e Augusto Garcez.

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Na época, foi, assim com Carmen Miranda, uma das primeiras estrelas de grande popularidade em todo o Brasil. Em virtude desse renome, excursionou pela América do Sul, estrelou filmes e peças teatrais e se apresentou nas principais emissoras brasileira, além de fazer show musicais por todo o Território Nacional.

Em 1947, foi contratada pela Boate Vogue, onde permaneceu até 1952. Em 1948, gravou o samba Enlouqueci, de Luís Soberano, Valdomiro Pereira e João Sales. Para o Carnaval de 1950, gravou o samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, que obteve tanto sucesso ao ponto de se tornar nome rua no bairro paulistano do Jabaquara.

Em 1951, voltou à Rádio Nacional com o programa Coisinha Linda, atuou no filme Aguenta Firme, Isidoro, excursionou pela Europa, apresentando-se em Portugal, Paris e Roma, e lançou o samba-canção Vingança, de Lupicínio Rodrigues, o maior sucesso de sua carreira.

Em 1952, atuou nos filmes Tudo Azul, Está Com Tudo, e É Fogo na Roupa. Em 1954, participou dos filmes Carnaval em Caxias e O Petróleo É Nosso. em 1955, foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga e estrelou o filme Carnaval em Marte. Em 1956, transferiu-se para a Rádio tupi e atuou nos filmes Tira a Mão Daí e Depois Eu Conto.

Em 1957, trabalhou nos filmes Metido a Bacana e É de Xuá, e excursionou pelo Uruguai e Argentina. Após retornar, recebeu da UBC e da SBACEM, entidades arrecadadoras de Direitos Autorais, o Troféu Noel Rosa, por gravar exclusivamente música brasileira.

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A partir de 1960, passou a dedicar-se apenas ao repertório carnavalesco, inclusive com músicas de sua autoria, como a marchinha Olha a Italiana, de 1961 e participou de alguns programas especais da TV.

O tsunami avassalador do Anos 1960, formado pelo Rock, a Bossa Nova e a discriminação da TV quanto ao visual, levou Linda Batista de roldão, fazendo com que ela se retirasse da vida artística.

Mas ela o fez em grande estilo. Em 1962, foi campeã absoluta com Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, sátira aos fuzilamentos que estavam ocorrendo em Cuba, da qual falarei mais adiante.

Nos Anos 1980, Linda deixou completamente de participar da vida pública, recolhendo-se à companhia das irmãs, Dircinha e Odete, em seu apartamento no bairro carioca de Copacabana, o último bem imóvel que lhes restou. No fim da vida, elas passaram por dificuldades financeiras, tendo sido auxiliadas pelo cantor e fã José Ricardo.

Linda veio a falecer, a 17.04.1988, no Hospital Evangélico da Tijuca, vítima de infecção respiratória. Rainha do Rádio por mais de uma década, sofria também de depressão crônica, acentuada pelo esquecimento do público.

Em 1998, o musical intitulado Somos Irmãs, de Sandra Werneck, foi encenado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, revivendo a vida, o sucesso e a decadência das irmãs Batista. A montagem, dirigida por Ney Matogrosso e estrelada por Sueli Franco e Nicete Bruno, ainda percorreu o Brasil em várias apresentações, sempre com êxito de público e de crítica.

Dentre os grandes sucessos carnavalescos que nos legou, estes foram mais tocados nos salões e cantados pelo público nas ruas: A Cobra Está Fumando, marcha, 1945; Chico Viola, samba, 1953; Clube dos Barrigudos, marcha, 1944; Coitado do Edgar, samba, 1943; Cordão dos Magricelas, marcha, 1945; Criado com Vó, frevo-canção, 1945; Enchente da Maré, marcha, 1955; Enlouqueci, samba, 1948; Escocesa, marcha, 1944; General da Banda, samba, 1950; Levou Fermento, samba, 1957; Madalena, samba, 1951; Marcha da Penicilina, marcha, 1954; Marcha do Paredão; marcha. 1962; Me Deixe em Paz, samba, 1952; Nega Maluca, samba, 1950; No Boteco do José, marcha, 1946; Nova Capital, marcha, 1957; O Gemido da Saudade, samba, 1958; O Soro e os Velhinhos, marcha, 1950; Pente do Careca É a Mão, marcha, 1951; Quero Morrer no Carnaval, samba, 1961; e Se Me Der na Cabeça, samba; 1949.

Para mostrar-lhes um pouquinho de seu trabalho, escolhi 2 títulos desse lindo repertório. O primeiro é samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, gravado para o Carnaval de 1950, seu maior sucesso carnavalesco:

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O segundo é Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, campeã em 1962. Essa marchinha era premonitória. Previu o comportamento do brasileiro atual que, diante das condenações dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal, estão a absolvê-los, pagando as multas que lhes foram impostas e dando-lhes grande visibilidade ma mídia. Pra completar, menciona o nada-consta para quem roubar ou trem ou suicidar alguém:

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ASSIS MEDEIROS, UM BURRO TALENTOSÍSSIMO

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Foto garimpada no Google

É assim mesmo que Assis Antônio Medeiros autodenomina-se em seu endereço eletrônico: burrodecarga@etc.com.

Assis Medeiros é cantor, compositor, músico e arranjador, tocando primorosamente os seguintes instrumentos: violão de 6 cordas, violão de 7 cordas, violão de 12 cordas, viola de 10 cordas, cavaquinho, guitarra, berimbau e percussão. Pra não dizerem que é instrumentista só de pau e corda, é exímio também no piano, no teclado e no trompete, este de bocal.

Conheci-o na piscina da Academia Consciência Corporal, no Lago Sul, onde praticamos atividades hidroterápicas, sob o eficiente e gentil comando da Dra. Ayda Jamal, proprietária da Clínica Reabilit – Espaço Saúde.

O que me leva e escrever estas maltraçadas é apenas a admiração que tenho por esse jovem artista, e nada mais. O conflito de gerações – diferença de em torno de 40 anos – faz com que nossos assuntos em comum sejam nadica de nada. Além do que, ninguém conversa com velho, ninguém conversa com surdo. Avaliem, então, qual seria o diálogo comigo, idoso e mouco!

Assis é homem de poucas palavras, não é desses que jogam conversa fora. No entanto, há algo em comum entre nós dois, um profundo sentimento que nos domina e nos encaminhou aos cuidados da Dra. Ayda e sua dedicada equipe: a dor!

Aos poucos, quando a Dra. Hoa – pronuncia-se Roá -, chinesa, uma de nossas hidroterapeutas, a quem nomeei minha Assessora Memorial, Onomástica Auditiva, me traduz, aos gritos, os diálogos dos demais hidroterapatas, fico sabendo que o Assis nasceu no Recife (PE), a 29 de agosto de 1971, e morou grande parte de sua juventude em João Pessoa (PB). Pernambucano por nascimento, paraibano por adoção, é servidor da Câmara Alta do Congresso Nacional, lotado na TV Senado, sendo colega de Maurício Melo Junior, colunista fubânico e meu amigo desde sempre.

A garimpagem na Internet me faz saber que Burrodecarga é seu primeiro CD a ter distribuição comercial, uma mistura de rock, samba, reggae e funk, além da música regional e eletrônica. Em suma, o roteiro é qualificado pelo músico como “um sem estilo, um depravado musical”. Entre os instrumentos que compõem as 14 faixas, estão bateria, percussão, baixo, teclado, violão, guitarra, naipe de metais, cordas e loops eletrônicos. Além da faixa-título, Burro de Carga, o CD contém É Carnaval e Banzo Beleza, pela qual o artista confessou ter um carinho maior, pois a letra remete à época em que ele morou no Maranhão. Eis a capa do Burro:

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A ilustração deste disco é de autoria de Flora, sua filha de 11 anos. Talento e sapiência que de Assis transmite à prole.

Sua passagem pela Nação Timbira lhe deixou marcas indeléveis no coração. Ali, conheceu a Dra. Adriana, Arquiteta, com quem se casou. Ela, além de outros trabalhos de vulto, no Brasil e na Capital Federal, é autora do projeto da casa do Maurício Melo Junior, onde incrustou um salão medindo pra mais de 100 metros quadrados, no qual instalou a famosa Biblioteca Mauriciana, fazendo com que nós, leitores compulsivos, fiquemos a babar de inveja, por não termos onde guardar os compêndios que lemos:

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Detalhes da Biblioteca, com o Maurício e o Papa Berto, que me cedeu as fotos

Assis é formado em Jornalismo e chegou a exercer a profissão no jornal O Imparcial, integrante dos Diários Associados. Já na música, o artista conta que tocou em bares dos 16 aos 24 anos, para ganhar o dicumê. Hoje, graças ao Senado, conquistou a estabilidade, trabalhando naquilo de que gosta, atuando na área de produções especiais, editando exposições e shows.

Apaixonado pelo que faz, Assis Medeiros já criou várias trilhas sonoras para curtas-metragem e documentários, Cartas ao País dos Sonhos, lançado em novembro de 2007, escrito e dirigido por Renata de Paula. Anteriormente, produzira, de forma independente, dois CDs: um com músicas infantis, denominado Bandoleta, e outro feito em parceria com Hamilton Oliveira e Ana Areias, intitulado Pirata. Há poucos anos, Assis foi um dos 50 classificados no Projeto Rumos Itaú de Música 2008/2009, um dos mais importantes na área de música do país.

No dia 7 de dezembro de 2013, a TV Senado exibiu o documentário abaixo, homenagem a Orlando Tejo, grande amigo e guru meu e da Comunidade Fubânica, sob a direção do Maurício Melo Junior:

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A trilha sonora original é foi composta pelo Assis. Preciso dizer mais? Pois digo.

Da Internet, pincei estas informações, postadas, suponho, em 2013, dando conta da versatilidade desse fabuloso músico: “O projeto Rádio Pocket Show prossegue, em sua Terceira Edição, no dia 31 de maio, sexta-feira, a partir das 21h00, no bar e restaurante L`Apero – Praia de São Marcos, São Luís (MA). Nesta versão, o músico paraibano, radicado em Brasília, Assis Medeiros apresenta o show NUAR, acompanhado de Hamilton Oliveira, baixo, Guilherme Raposo, guitarra, e Hilton Oliveira, bateria, além da participação do poeta multimídia Celso Borges e da discotecagem mundana de Pedro Sobrinho em formato de uma programação de rádio.”

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Para isso, suponho novamente, ele deve deslocar-se todas as semanas para aquela cidade, em cumprimento de agenda cultural.

Há poucos dias, eu, que falo até pelos ouvidos, tagarelando na piscina, expus minha dificuldade em localizar elepês do início dos Anos 1980, para formar um acervo das músicas de duplo sentido que dominaram cenário forrozeiro naquela época, e o Assis, magnanimamente, se ofereceu para emprestar-me alguns, como de fato o fez. Sandro Becker, Zenilton, Marinalva, Antonio Barros e Cecéu foram os mais conhecidos. Dentro da sacola, sem qualquer aviso ou promessa, veio este CD duplo, do qual passarei a falar:

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Baiãozinho NUAR, é seu último trabalho discográfico. Contém arranjos eruditamente elaborados, mas assim mesmo agradáveis ao ouvinte. As faixas são todas de autoria do Assis, individualmente ou com parceiros, cantadas por ele, que também nelas atua como instrumentista – mágica das possibilidades tecnológicas.

O Volume 1 traz apenas baião, uns do tipo rojão e outros mais comportados – os baiãozinhos -, enquanto o Volume 2, no qual Assis abusa de sua capacidade de compositor, brinda-nos com baião e toada, às vezes passeando na área do foxe.

Ainda não posso dizer, qual de todas as músicas do CD a que mais me agradou. Tenho tempo para isso. Mas escolhi uma faixa representativa, apenas por Assis ter nela como parceiro nosso amigo Maurício Melo Junior.

Trata-se do baiãozinho Vento Geral, que vocês agora ouvirão na voz do Assis:

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DIA DO BOM VIZINHO

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Esta matéria deveria ter ido ao ar no dia 23 de dezembro passado, data consagrada na Folhinha como o Dia do Vizinho. Atropelada por outros assuntos mais prementes, como o Réveillon e Dia de Reis, só hoje é publicada, mas com a necessária explicação: na convivência social, todo o dia do ano é também o Dia do Bom Vizinho.

Isso posto, passemos aos fatos!

Em certa madrugada do mês de agosto de 2013, o morador do Ap. WWW, parede-e-meia com o nosso, o XXX, andou arrumando suas malas para uma viagem que aconteceria logo mais, e a movimentação, obviamente, provocou um pouco de barulho, mas nada que nos incomodasse do lado de cá.

No dia seguinte, fomos surpreendidos com esta Ocorrência registrada no Livro do Condomínio por inquilino, morador do Ap. YYY, embaixo do nosso:

“Senhora Síndica. Solicito sua intervenção junto aos moradores do Ap. XXX, no sentido de reduzirem seus barulhos intensos como derrubada muito ruidosa de objetos e arrastar de móveis. Isto ocorre principalmente nos fins de semana, a partir das 6h da manhã. Impossibilita descanso.”

Não satisfeita com isso a reclamante passou a interpelar-nos pessoalmente, dedo em riste, sem ao menos averiguar quem lhe causara tanto desconforto, o que me levou a registrar, no mesmo Livro, esta defesa:

“Brasília, DF, 17 de agosto de 2013.

Senhora Síndica,

- Deus te livre da praga do mau vizinho!

Esta era uma das rogativas do Cego Adriano, lá no sertão sul-maranhense, em meu tempo de menino, cada vez que recebia qualquer dádiva.

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Já se vão mais de setenta anos. Na época, a criançada, que morava em casas não geminadas, cujos pais conviviam na mais perfeita harmonia com os moradores das redondezas, socorrendo-se, ajudando-se e, às vezes, sofrendo mutuamente, não compreendia bem o sentido das palavras do cego. Mas ele, cantador e cordelista, homem estudado e viajado, explicava-nos:

- Quando Deus andou no mundo, estando um dia à sombra duma figueira, onde a caravana havia feito alto para o descanso dos apóstolos, e vendo Cefas Simão sentado numa grande pedra, teria exclamado: “Levanta-te daí, Cefas Simão, porque, há duzentos mil anos, sentou-se nessa mesma pedra um mau vizinho!”

A narração me impressionou por demais. E, quando entrei para o Catecismo, ao aprender quais eram os Dez Mandamentos da Lei de Deus, acrescentei o 11º: Ser bom vizinho! Sob pena de, ao deixar a existência, ir padecer no fogo do inferno!

E venho cumprindo à risca esse preceito. Nos dois blocos de apartamento em que morei, na 416 Sul e neste, fui aprovado em meu comportamento gregário, o que comprovam os convites recebidos para ser síndico, tanto lá, quanto aqui.

Resido neste Bloco, com minha família, há 18 anos. Aqui, criamos nossas filhas, demos-lhes educação para conviver com a sociedade, em geral, e com os vizinhos, em particular. Hoje, temos duas moças formadas, bem orientadas na vida, exemplo para todos os pais de família de nossa Comunidade.

Este prédio não possui isolamento acústico, fazendo com que uma festinha de aniversário no Ap. 101 seja ouvida até no Ap. 608. Aproximando-se um pouco mais, ouvem-se o bater duma porta, o fechar duma gaveta, a descarga dum vaso. À pequena distância, podem-se ouvir tapas e beijos e até gemidos e sussurros na hora do amor. 

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Os bons vizinhos – tais como nossa família – a tudo relevam, mesmo por empatia, pois o receptor de ruído de hoje pode ser o barulhento de amanhã. Isso é o que os americanos chamam de política da boa vizinhança.

A Moradora do Ap. YYY, em sua reclamação, motivo desta correspondência, poderia ter melhor averiguado a origem do barulho que a incomodou sem, açodadamente, identificar nosso apartamento como seu causador. Na verdade, o ruído foi originado em outra unidade, cujo número não vem ao caso, vez que seu morador estava arrumando as malas para viajar. E isso não durou por toda a noite. Daqui, ouvimos toda a operação, mas, adotando a empatia e a compassividade, ignoramos o fato, levando em conta, também, que tal morador é um dos mais silenciosos do prédio. 

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O desassossego da Moradora do Ap. YYY persiste, embora tenhamos adotado todas as providências para não incomodá-la. Agora, suas recriminações já não mais se limitam às páginas deste livro. São-nos dirigidas pessoalmente.

E isso faz com que nos transformemos todos em vítimas de cruel paranoia. De um lado, nós, do XXX, tomando todas as precauções no sentido de preservar o bem-estar da Reclamante, patrulhando-nos 24 horas por dia, pisando em ovos, como se diz. Enquanto isso, do outro lado, a Reclamante parece – repare bem, eu disse parece – estar a policiar-nos, atenta a qualquer som que provenha de nosso lar até mesmo o de um flato mais forte descuidadamente escapulido.

Isso pode levar qualquer um à instabilidade emocional! Deus, no entanto, é maior, é Pai, e nos ajudará!

No intuito de solucionar o problema, sugiro a criação de uma Comissão de Moradores que passe, sem avisar-nos, uma noite no Ap. YYY, observando nosso comportamento, para depois emitir um laudo com sugestões que acataremos, contanto que não seja mudarmo-nos para outro local.

Não há erro sem solução, não há solução sem defeito e não há defeito que não possa a qualquer tempo ser corrigido.

O Correio Braziliense de hoje traz, em seu caderno Cidades, página inteira intitulada Meu Vizinho, Meu Irmão, enfatizando que “a convivência com quem mora na casa ou no apartamento ao lado, por vezes, transforma-se em um laço duradouro”. E conta três histórias de pessoas que descobriram, bem pertinho, amigos para a vida inteira.

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Está em nós a possibilidade de sermos assim também!

Em nome da Boa Vizinhança, subscrevo-me,

Atenciosamente,   

Proprietário e Morador do Apartamento XXX.”

ANTÔNIO BARROS E CECÉU: CASAL NOTA DEZ DO FORRÓ

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Antonio Barros e Cecéu

O início dos Anos 1980 dava a entender, pelo menos para nós residentes neste quase-sul brasileiro, que o Forró perdera sua força criativa, estava carente de compositores novos que o revigorassem, que o tirassem do marasmo em que se encontrava. E foi aí que apareceu, para a felicidade de todos os forrozeiros, o casal Antonio Barros e Cecéu, cujas composições, desde então e até hoje, são disputadas por todos os astros da Música Nordestina.

É bem verdade que Antonio Barros já era conhecido por aqui na década anterior, com o xote Procurando Tu, em parceria com J. Luna e interpretado pelo Trio Nordestino, mas apenas pela letra de duplo sentido, um filão que também começava a surgir. O lançamento dos xotes Homem com H, de Antonio Barros, em 1981, Por Debaixo dos Panos, de Cecéu, em 1982, na voz de Ney Matogrosso, e Bate, Coração, de Cecéu, no mesmo ano, gravado por Elba Ramalho, balançou a estrutura do Forró e consagrou o nome desse inspiradíssimo casal de compositores no gosto de toda a população brasileira. São mais de 30 anos de intensa visibilidade na midiática.

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Faço minhas as palavras de Marcus Vinícius de Andrade, Diretor-Artístico da Gravadora CPC-UMES, extraídas do encarte do CD acima, Antonio Barros e Cecéu – Forró Número Um:

“Antonio Barros e Cecéu formam uma dupla de compositores que todo o Nordeste (melhor dizendo, todo o País) conhece, pelos inúmeros sucessos que já produziu. Gente simples e boa, cuja música fala o Português gostoso do Brasil – como diria o grande Manuel Bandeira –, eles são o exemplo mais perfeito de autores que sabem conciliar simplicidade e refinamento, picardia e criatividade linguagem popular e bom gosto. Paraibanos de raça, conseguem ser universais: não foi à toa que sua canção Bate, Coração, com o talento esfuziante de Elba Ramalho, causou o maior fuzuê em Montreaux, quando o Forró desmontou a cintura dura das suíças… Até em Israel, as canções de Antônio Barros e Cecéu são conhecidas, cantadas em Iídiche com o mais puro sotaque sertanejo.

“Autores de mais de 700 obras, das quais mais de 200 se tornaram sucesso, Antonio Barros e Cecéu conhecem a fundo a linguagem da canção, da boa e simples canção que atinge todos os segmentos do público, sendo assobiada nas ruas e cantada com naturalidade em choupanas e palácios, por gente de todas as idades e condições sociais. Esse domínio do artesanato da canção é fruto não apenas de seu talento, mas também de uma experiência de muitos anos, aprimorada junto a nomes como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, com quem eles trabalharam e de quem são alguns dos mais legítimos herdeiros.”

Vejamos um pouco de suas biografias.

ANTONIO BARROS

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Antônio Barros Silva, cantor, compositor e poeta, nasceu a 11.03.1930, em Queimadas, Região Metropolitana de Campina Grande, Paraíba, filho de Severino Barros da Silva e Luiza Rodrigues da Silva. Casado com a compositora e cantora Cecéu, fixou residência em São Paulo.

Estudou no Grupo Escolar José Tavares, e a maior parte de sua infância foi vivenciada na Zona Rural. Quando sobrava tempo para brincar, costumava pegar uma lata de querosene vazia de 20 litros, colocava a cabeça dentro, batia do lado de fora com as duas mãos, fazendo ritmo, enquanto cantava para ouvir sua própria voz com efeito reverberado.

Aos dezenove anos de idade, foi trabalhar como músico tocando pandeiro na Rádio Caturité, em Campina Grande. Por volta dos 20 anos, mudou-se para o Recife onde, na Rádio Tamandaré, deu continuidade a seu trabalho como pandeirista. Foi nessa mesma época que escreveu sua primeira música e conheceu Jackson do Pandeiro, o qual se tornou seu grande amigo, apoiando-o na vida profissional.

A partir daí, começou a gravar suas primeiras canções profissionalmente com Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Zito Borborema. Logo depois, foi para o Rio de Janeiro, conquistando ainda mais seu espaço no meio musical, onde passou a gravar com Marinês, Trio Nordestino e também tocando triângulo no Regional de Luiz Gonzaga, na casa de quem morou, na Ilha do Governador.

Trabalhou como contrabaixista no navio Ana Neri, que fazia cruzeiros turísticos pelo litoral brasileiro. Em 1970, numa dessas viagens compôs Procurando Tu, a partir de lembranças da infância, e entregou a música para gravação pelo Trio Nordestino. Aceitou a parceria de J. Luna disc-jóquei baiano, que o ajudou a divulgar a música no Nordeste, tornando-se um dos sucessos daquele ano e regravada por ele mesmo, Ivon Curi e Jackson do Pandeiro, entre muitos. Outros de seus sucessos gravados pelo Trio Nordestino foram, Corte o Bolo, Cuidado Com as Coisas, É Madrugada e Faz Tempo Não Lhe Vejo. Na maioria, letras de duplo sentido que se fizeram amplamente conhecidas, mas obnubilavam o nome do compositor.

Em 1974, teve a música Vou ver Luiza, parceria com Lindolfo Barbosa gravada por Bastinho Calixto pela EMI. Um dos muitos grupos que gravaram suas composições e obteve sucesso foi o trio Os Três do Nordeste, que alcançou as paradas de sucesso com É Proibido Cochilar, Forró do Poeirão, Forró de Tamanco e Homem com H.

Em 1981 teve a música Estrela de ouro, parceria com José Batista, gravada por Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e Quebra Pote, pelo Trio Mossoró. No mesmo ano, conheceu a consagração nacional com, Homem com H, composta anos antes para a novela O Bem Amado, quando Ney Matogrosso a regravou, conquistando o Primeiro Lugar na Parada de Sucessos daquele ano.

Desde então, sua carreira musical se consolidou, crescendo a cada ano que passa.

CECÉU

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Cecéu – Mary Maciel Ribeiro -, cantora e compositora, nasceu a 02.04.1950 na cidade de Campina Grande, na Paraíba, filha de Severino Lourenço Ribeiro e Maria Maciel Ribeiro. Morou 10 anos no Rio de Janeiro, radicando-se depois em São Paulo. É casada com o compositor Antônio Barros.

Quando menina, acompanhava o pai comerciante ao centro da cidade e lá fazia questão de comprar a Revista do Rádio. Desde muito pequena, era encantada pelo rádio. Uma das músicas que a marcaram nessa época foi o samba Iracema, gravado por Os Demônios da Garoa, ouvida na radiola de uma festinha infantil, que contava a triste história de uma moça que é atropelada a poucos dias do casamento. Aquilo a sensibilizou tanto, que não conseguiu aproveitar a festa com as outras crianças. Nessa época, tinha apenas sete anos, e fui profundamente influenciada pela música.

A característica marcante de Cecéu sempre foi a música romântica, que fala de sentimento, de coração. Apaixonada por programas de rádio, sua infância foi marcada por cantores que não combinavam com sua faixa etária como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Emilinha Borba e Anísio Silva o Rei do Bolero. Sua mãe até que tentava convencê-la de que aquelas não eram músicas para criança, mas isso de nada adiantava.

Conheceu Luiz Gonzaga nos Anos de 1970, quando fazia gravações na CBS com os Três do Nordeste e Marinês. Ficou amiga do Rei do Baião, e sempre que este ia a Campina Grande, costumava dividir com ela o mesmo palco.

Em 1982, o cantor Ney Matogrosso gravou com enorme sucesso o xote Por Debaixo dos Panos. No mesmo ano, a cantora Elba Ramalho obteve sucesso espetacular com o xote Bate Coração, gravado ao vivo no Festival de Montreux na Suíça.

Foi a consagração no Universo Forrozeiro, o que se prolongou até os dias atuais.

ANTONIO BARROS E CECÉU

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Dois paraibanos filhos de Severinos! Só podia dar no que deu! Antonio Barros e Cecéu encontraram-se em 1971, quando formaram uma parceria no trabalho musical e no amor. Passaram a compor juntos e se tornaram um casal de sucesso. Levantando a bandeira de forte expressão artística no companheirismo do dia-a-dia, essa dupla se transformou num paradigma da cultura popular brasileira, pois nesse decorrer são mais de setecentas obras gravadas pela maioria dos intérpretes brasileiros, alcançando popularidade até no exterior onde também suas músicas foram gravadas na Itália, Espanha, Portugal e Israel.

Homem Com H, Por Debaixo Dos Panos, Bate, Coração, como também as famosas Procurando Tu, Casamento de Maria, Sou o Estopim, Amor Com Café, Forró do Poeirão, Forró do Xenhenhém, Óia Eu Aqui de Novo são algumas das canções que fazem parte do acervo de músicas autorais dessa dupla e gravadas por expressivos nomes da MPB como Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Dominguinhos, Gilberto Gil, Alcione, Ivete Sangalo, Fagner, Gal Costa, MPB-4 e os saudosos Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês.

Esses consagrados artistas, que fazem parte da realidade e da história de nossa música, conseguiram romper a regionalidade sem perder o sotaque. Na capital paulista, onde reside desde 1995, o casal apresenta shows com classe e charme através de seus inúmeros sucessos. A história e a música de Antonio Barros e Cecéu se mantém sempre em atividade. Exemplo disso é encontrar regravações e releituras de suas músicas feitas por uma nova geração de intérpretes, não somente de ídolos regionais, mas, muitas vezes, de artistas pops e DJs de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que, constantemente, estão cultivando essa obra genial.

Estes elepês e cedês, bem como o acima estampado, são facilmente encontráveis em sebos virtuais:

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É tarefa impossível selecionar uma só faixa como amostra da colossal produção desse talentoso casal, principalmente para a nova geração, que conhece a maioria de suas músicas, mas desconhece o nome de quem as compôs. Por isso, encareço a benevolência dos editores do Jornal da Besta Fubana, no sentido de que relevem meu abuso com estas postagens:

PUPURRI COM ANTONIO BARROS E CECÉU:

01 – NÃO LHE SOLTO MAIS – Rojão (Cecéu), NA CAMA E NO CHÃO (Cecéu), BULI COM TU (Cecéu)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM ANTÔNIO BARROS:

02 – POR BAIXO DOS PANOS – Xote (Cecéu), HOMEM COM H (Antônio Barros), PROCURANDO TU (Antônio Barros e J. Luna)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM CECÉU:

03 – NAQUELE SÃO JOÃO – Arrasta-pé (Antonio Barros), BRINCADEIRA NA FOGUEIRA (Antônio Barros), JÁ É MADRUGADA (Antonio Barros)

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ANTONIO BARROS, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

04 – NA PALMA DA MÃO – Rojão (Antonio Barros e Cecéu)

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CECÉU, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

05 – BATE, CORAÇÃO – Xote (Cecéu)

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MARINALVA E SUA GENTE

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Marinalva no começo da carreira

No dia 07.05.12, quando lancei aqui no JBF o perfil de Marivalda, a Forrozeira da Amazônia, muitos estranharam, achando que eu me confundira, trocando o nome da Marinalva, de quem eu nunca ouvira. Só se convenceram diante das evidências comprobatórias, ou seja, das imagens de vários registros fonográficos de Marivalda. Houve um, o Augusto TM, que postara em seu blog Toque Musical matéria falando sobre uma, mas pensando que ela fosse a outra, com a única informação concreta: Marinalva era irmã de Marinês.

Depois disso, entrei em contato com alguns curtidores do Forró, e a maioria, ou também nunca ouvira falar de Marinalva, ou escutara o canto da cigarra não se sabia onde, e a informação era samba de uma nota só: Marinalva era irmã de Marinês.

Senti-me, então, desafiado a produzir algo que resgatasse a memória dessa forrozeira, postando aqui o resultado de minha pesquisa, à disposição de todos.

Raciocinando que Marinês nascera na cidade pernambucana de São Vicente Ferrer, procurei entrar em contato com o Cartório do Registro Civil daquela cidade, no intuito de conseguir qualquer documento referente a Marinalva: certidão de nascimento ou de óbito, caso ali existissem. Não foi fácil.

De cara, o número telefônico da referida repartição não consta da Telelista.net. Assim, apelei aos leitores do JBF, sendo orientado pala redação a dirigir-me ao número de um celular que obtivera não sei de que modo. Viva! Hip, hurra! Até enfim, consegui falar com alguém de lá, não sei se serventuário ou titular do órgão. Expus o problema e solicitei uma busca, mediante pagamento das custas, evidentemente. Mandaram que eu ligasse dali a uma semana.

No prazo estipulado, entrei em contato, mas o pessoal de lá havia se esquecido de minha solicitação. Alguém marcou para que eu ligasse na outra semana. O que fiz. Novamente, pediram mais prazo. Resumo da ópera: passado quase um mês, fui informado de que ali nada consta sobre Marinalva, nem sobre Marinês.

Abro aqui um parêntese para elogiar o Cartório do 2º Ofício de Balsas, Maranhão, minha cidade natal, e Maria do Socorro Ferreira Vieira, minha Assessora Cultural, que o informatizou. Seu Rosa Ribeiro, meu saudoso pai, foi o Tabelião até aposentar-se, passando a titularidade para Maria Alice, minha irmã, que admitiu a Socorro, em 1977, como escrevente. Em 1978, Socorro galgou, por seus méritos, a posição de Tabeliã Substituta. Com o falecimento de minha irmã, em 2002, Socorro assumiu o posto de Tabelião Titular e uma de suas primeiras providências foi a informatização do Cartório, onde qualquer busca, atualmente, é atendida no ato, com resposta em cima do laço.

Nessa minha mania de fuçar em Cartórios do Brasil para dar veracidade aos dados biográficos constantes dos trabalhos que lhes disponibilizo, posso dizer que são poucos, pouquíssimos mesmo, aqueles em todo o Território Nacional que dispõem dessa ferramenta, tão indispensável à correria que caracteriza o século atual.

Ironia do destino: no final de 2002, Socorro teve de entregar o Cartório, no qual empregou todos os recursos de modernização, a um Bacharel nomeado pelas autoridades da Capital, vez que ela não era concursada. Assim mesmo, com 32 anos de bons serviços, sem tchau nem bença! Fecho o parêntese.

Retomando o fio da meada, ocupemo-nos de Marinalva. Os dados biográficos de que disponho foram colhidos em duas fontes altamente confiáveis: Abílio Neto, Membro da Academia Passa Disco da Música Nordestina, pessoa altamente qualificada em assuntos pertinentes à Cultura Nacional; e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Maria Caetana de Oliveira, mais conhecida como Marinalva, nasceu em São Vicente Ferrer, Agreste de Pernambuco, em 1950. Era irmã da também da forrozeira Marinês, conhecida nacionalmente.

Durante sua carreira, Marinalva gravou 26 elepês, sempre tendo a música nordestina como temática. Outra característica em sua carreira foram canções de duplo sentido. A cantora veio a falecer em 11 de setembro de 2008, no Hospital da Restauração, no Recife, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

Alguns vinis que deixou ainda se encontram à venda em sebos virtuais:

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Na falta de textos relativos a Marinalva, transcrevo a apresentação constante do LP acima, De Rolha na Boca, de 1980, assinada por J. Garcia:

“O Nordeste, com seu povo sofrido, suas tradições imorredouras, seu fabuloso folclore, tem se constituído numa fonte inesgotável de inspiração poética.

Muitos são os que cantam o Nordeste, mas só aqueles – filhos da terra – íntimos de sua realidade, seus problemas e aspirações, podem fazê-lo com propriedade e autenticidade.

Seguindo as pegadas de sua famosa irmã Marinês, Marinalva vem se firmando, dia a dia, como grande intérprete que é, assumindo, com justiça, uma posição destacada dentro de nossa música.

Este é seu 7º LP. Nele, iremos encontrar somente músicas de compositores paraibanos, alguns veteranos famosos, como Luiz Ramalho e João Gonçalves, ao lado do estreante Calazans Sabury. As músicas escolhidas abrangem uma larga faixa da temática nordestina que vai, desde o picante Nena do Asfalto, até a religiosidade do sertanejo, tão bem retratada em Frei Damião, sem esquecer a tradicional e ingênua marchinha junina.”

Com tantos itens constantes de sua discografia, é incompreensível o fato de Marinalva ser completamente desconhecida no Nordeste, em particular, e no Brasil, em geral. O aspecto de ser irmã de Marinês, em meu entender, era mais um detalhe para dar-lhe visibilidade, como aconteceu com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga.

Como pequena amostra do talento de Marinalva, escolhi para vocês, pinçado do LP Marinalva e Sua Gente – Marinalva, Selo Polydisc, terceiro acima relacionado, o rojão Forró de Cabra Macho, composição de Cecéu. Vamos ouvi-lo:

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TOQUES DE CLARIM MILITAR

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No inicio de 2007, atendendo a insistentes pedidos, produzi, auxiliado por dois Cabos Corneteiros do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial, 218 toques de corneta que, somados aos 72 já existentes na Internet, atingiram o total de 290, os quais, a 24.04.2007, disponibilizei no site 4Shared: (Clique aqui para acessar)

O retorno foi mais que o esperado. Chamam a atenção os acessos aos dois toques mais baixados até agora: Alvorada, 1ª Parte, com 10.888 visitas, e Alarme Aéreo, o campeão, com 10.953.

Desde aquela época, os curtidores da Música Militar passaram a cobrar-me outros dois itens importantíssimos do setor: os exórdios e os toques de clarim.

Depois de muita procura, consegui com a Banda de Música do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília a gravação do exórdio básico. Após sua adaptação a cada nível de autoridade, e combinado com os toques de corneta já disponíveis, resultou neste repertório, postado no site 4Shared a 21.09.2010, sendo o de Marcha Batida de Comandante do Exército o mais acessado, com 963 visitas:

01 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DE HONRA – Todo o Hino Nacional.
02 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DO QUARTEL – Introdução do Hino Nacional mais a coda – final.
03 – TOQUE E EXÓRDIO DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
04 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DA DEFESA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
05 – TOQUE E EXÓRDIO DE PATRONO – Composição especial para o Patrono.
06 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
07 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA MARINHA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
08 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
09 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
10 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
11 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE DIVISÃO – Os 8 compassos da marcha grave General Barbosa.
12 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE BRIGADA – Os 4 compassos da marcha grave General Barbosa.
13 – TOQUE E EXÓRDIO DE OFICIAL SUPERIOR COMANDANTE DE OM – Marcha A Granadeira.
14 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Marcha Batida completa.
15 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
16 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DA DEFESA – 12 últimos compassos da marcha Batida
17 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – 12 últimos compassos da marcha Batida.
18 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA MARINHA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
19 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
20 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE EXÉRCITO – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
21 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
22 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE DIVISÃO – 8 primeiros compassos da Marcha Batida.
23 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE BRIGADA – 4 últimos compassos da Marcha Batida.

OBS.: Os exórdios e marchas batidas correspondentes a Oficiais Generais apresentados na gravação referem-se a militares sem comando. Para identificá-los, acrescenta-se o toque de comandante – mi-dó-SOL-dó-mi-dó-SOL – e o toque indicativo da OM comandada.

Ouçam-nos clicando aqui.

Restavam, para completar, os toques de clarim.

Em agosto de 2011, quando a Fanfarra do 1º RCG – Regimento de Cavalaria de Guarda, no ato em que fui nomeado Amigo da Fanfarra e recebi a gravação dos dobrados Tenente Raimundo Floriano, Padre Cícero e Três de Maio, recebi a promessa da gravação dos toques de clarim, dependo da disponibilidade de tempo. Ouçam os três dobrados clicando aqui.

Com a Fanfarra sempre assoberbada de serviço, nunca foi possível realizar o prometido. A 20 de setembro passado, no casamento de minha primogênita, vislumbrei a solução, quando a conduzia até o altar, ao som de dois clarins. Tão logo se encerrou a cerimônia, saí em campo buscando a contratação de dois clarinistas, contando para isso com os préstimos do amigo Jorge Rocha, meu Assessor para tudo quanto é de assunto pertinente a esta minha coluna, ou seja, som, imagem, etc. e coisa e tal. Com suas providências, os toques de clarim foram gravados, na interpretação destes dois excelentes músicos:

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Jonas Cerqueira Santos e Isaac Elias

Ouçam o produto final, postado no dia 12.10.2013, clicando aqui.

Os toques de corneta e clarim existem desde quando surgiu a primeira força armada no mundo – no início, com búzios, evidentemente. Constituem-se no modo mais rápido e eficaz de comunicação em todos os quartéis de tropa terrestre existente no Planeta Terra.

Atualmente, os toques de clarim são empregados apenas nas unidades de tropa montada e apenas em ocasiões especiais, mantendo uma tradição que veio com os colonizadores portugueses. Fora dos 21 abaixo relacionados, constantes do C 20-5 – Manual de Toques do Exército, e FA-M-13 – Manual de Toques, Marchas e Hinos das Forças Armadas, são executados os toques de corneta comuns no dia a dia da caserna. Estes são os toques que ainda persistem:

01 – A BANDEIRA
02 – A PODEROSA
03 – A VITÓRIA
04 – ALVORADA – 1ª PARTE
05 – ALVORADA – 2ª PARTE
06 – ALVORADA – 3ª PARTE
07 – ARTILHARIA A CAVALO
08 – AVANÇAR
09 – COMANDANTE DE ESQUADRÃO DE CAVALARIA
10 – COMANDANTE DE REGIMENTO DE CAVALARIA
11 – FORMATURA GERAL – 1ª PARTE (APRONTAR)
12 – FORMATURA GERAL – 2ª PARTE (FORMAR)
13 – MARCHA BATIDA
14 – MARCHA FÚNEBRE
15 – PARADA – 1ª PARTE (APRONTAR)
16 – PARADA – 2ª PARTE (FORMAR)
17 – REVISTA DO RECOLHER – 1ª PARTE
18 – REVISTA DO RECOLHER – 2ª PARTE
19 – REVISTA DO RECOLHER – 3ª PARTE
20 – SILÊNCIO
21 – VITÓRIA

Para facilitar a pesquisa, aqui vão as partituras desses 21 toques:

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Voltando aos exórdios, que são os toques executados nas honras de recepção e despedida de autoridade quando em visita ou inspeção a uma Organização Militar, ressalto o aspecto de que a postagem constante da relação do site 4Shared acima indicado se refere a oficiais generais ou alguém a eles superior. Na recepção às demais, após o toque indicativo do posto e/ou função da autoridade, dado pelo corneteiro ou clarinista, a Banda de Música ou Fanfarra executará os exórdios a seguir.

Para Oficiais Superiores, Comandantes de OM e Comandantes ou Diretores de Estabelecimentos Militares:

01 – Marcha A GRANADEIRA – Exército (para tropa a pé), Marinha e Aeronáutica;

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02 – Marcha A VITÓRIA – Exército (para tropa montada, motorizada, blindada ou aeroterrestre);

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03 – Marcha A PODEROSA – Exército (para Artilharia).

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Para finalizar, numa amostra do trabalho dos clarinistas, disponibilizo-lhes o maior dos toques de clarim constantes da relação e partituras acima, a Marcha Fúnebre:

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HOJE É DIA DE SANTO REIS

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Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os Três Magos do Oriente
Seguindo a Estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na Sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A santíssima Família
Jesus, Maria e José

O cantar do Santo Reis
É um cantar excelente
Acorda quem está dormindo
Consola quem está doente

Belchior veio da Pérsia
Da Etiópia, Baltazar
E Gaspar veio da Índia
Todos a Jesus saudar

Belchior portando ouro
Com mirra veio Gaspar
Baltazar trouxe o incenso
Pra Jesus presentear

Para vocês, Folia de Reis, adaptação folclórica, com Trio Parada Dura (Creonte, Barrerito e Mangabinha):

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RÉVEILLON 2013

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Amanhã, 31 de dezembro, é dia de festa! À meia-noite, estaremos celebrando a entrada do ano de 2014 e o término 2013, com essa dezena final muito positiva para os homens de vergonha na cara desta Nação: dos 38 mensaleiros processados pelo Supremo Tribunal Federal, 17 condenados já se encontram vendo o sol nascer quadrado. Derrota do 13, vitória do lado não apodrecido deste amado Brasil!

Invertendo o número 13, temos 31, o da sorte. Neste 31 de dezembro, minha filha caçula festeja mais um ano de sua bela existência. Portanto, as comemorações já têm início no coração de toda a família e extravasam, empolgando nossa Quadra, Brasília, o Brasil, o Universo, enfim.

O ano de 2013 deixa saldo extremamente significativo em minha vida. Com as bênçãos de Deus, consegui ultrapassá-lo sem submissão a qualquer tipo de cirurgia, li 92 livros, lancei um, mantive ininterrupta, semanalmente, A Coluna de Raimundo Floriano aqui no JBF, e nossa família, cheia saúde e alegria, juntamente com os parentes e demais amigos, celebrou o casamento de minha primogênita, em recepção/festa com jantar para 500 talheres. Eis-nos a entrar na Dom Bosco:

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Para que vocês conheçam um pouco da história de Elba e Fábio, cujo namoro começou em 2000, aos 16 anos dela, mostro-lhes, neste vídeo de 10 minutos, o início de tudo:

2014 será marcado por muitas comemorações, motivo pelo qual ouso afirmar que o ano começará mesmo só no segundo semestre, depois da Copa do Mundo. Sempre que ela acontece, relembro o balde de água fria jogada sobre todos nós, fervorosos torcedores, com esta carta publicada um dia após a derrota do Brasil diante da Itália, na Copa de 1982:

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Vejam bem o que ele diz no início do primeiro parágrafo: “O que falta ao Brasil é uma identidade nacional, pois o povo só se une em torno de um objetivo comum quando o motivo é futebol.” Essa afirmação se viu cabalmente comprovada durante a Copa das Confederações/2013, quando a turba ocupou as ruas de todo o País, mas, depois, com a Seleção Brasileira vitoriosa, amansou que nem as tranquilas águas da Lagoa do Abaeté.

Gosto muito de Copa do Mundo. Não pelo futebol em si, mas pela oportunidade de aprontar o maior furdunço, botando a Banda da Capital Federal na rua para alegrar o povão, a massa de torcedores. Foi assim em 2002, na conquista do Penta, quando na partida final, fechamos o trânsito na 215 Sul, começando a tocar às 8 horas da manhã, certos da vitória. Eis a composição da Banda naquele dia:

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Aliás, em matéria de previsão, quase nunca erro. Sempre que a Seleção Brasileira Masculina de Futebol vai ao Palácio do Planalto pedir a bênção do Presidente, é ferro na certa. Assim foi com o atual Partido no Poder, que já perdeu 2 Copas. Tomara que o Escrete Nacional desta vez não dê as caras por lá, arriscando-se a perder a terceira.

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Se, como diz o livro acima, a década foi perdida politicamente, também o foi futebolisticamente falando – refiro-me à Seleção Brasileira, ópio do povo.

Há uns dois meses, a Presidenta do Brasil, em visita a Minas Gerais, não titubeou em referir-se ao futebol, usando a expressão “Meu Galo!”. Deu no que deu!

Na recente visita à África do Sul, para assistir aos funerais de Mandela, novamente a Presidenta trouxe à baila o futebol. Em conversa com o Presidente francês, garantiu-lhe que o Brasil seria campeão em 2014, mas que a França ficaria bem classificada no torneio, ao que o outro, diplomaticamente, comentou: – Pode ser, mas na última decisão Brasil x França, não foi bem assim!

O Penta, apesar de inflar-nos os corações de orgulho tupiniquim, foi uma pedreira par aos cordelistas, eis que difícil encontrar rimas para o termo, restando-nos apenas o trivial: venta, jumenta, presidenta, aguenta, nojenta, pimenta, etc. Meu amigo Asclepíades Abreu, em inspiradíssima criação, exibiu em sua Quadra uma comprida faixa com estes dizeres: TODO MUNDO TENTA, MAS SÓ O BRASIL É PENTA! Perceberam?

Já o Hexa será a mão-na-roda para o pessoal do cordel. Vejam a quantidade de preciosas rimas: guexa, rexa, sexa, reflexa, anexa, caxexa, almadraquexa, aduzirhexa, carrexa, barexa, centenariohexa, amexa, alexa, campeonatohexa, brunirhexa, convexa, colexa, circunflexa, genuflexa, conexa… Difícil mesmo vai ser encaixar!

Volto às palavras de José Benedito Assunção, na carta Ufanismo do Louco, acima transcrita: “Concluo portanto que a única coisa que brasileiro leva a sério mesmo é festa.” Estamos quase empatados, digo eu. Falou em festa, é comigo mesmo!

Terminando, para alegrar o réveillon de todos nós, saudando o Ano Novo, esse 2014, que será praticamente só de festa, escolhi uma seleção de pupurris de marchinhas, sambas e frevos de rua que, tenho certeza, serão do agrado geral.

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Com Pixinguinha e sua Banda:

MARCHINHAS – 11 minutos: Tem Gato na Tuba, Deixa a Lua Sossegada, Pirolito, China Pau, Pirata e Touradas em Madrid, todas de João de Barro e Alberto Ribeiro.

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SAMBAS – 10 minutos: Nós Queremos Uma Valsa (Nássara e Frazão), O Que É que Você Quer Mais? (Nássara e Roberto Martins), Mundo de Zinco (Nássara e Wilson Batista), Me Queimei (Nássara e Walfrido Silva) e Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins).

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Com a Orquestra 1º de Novembro, a Pé da Cará, de Timbaúba (PE):

FREVOS DE RUA – 09 minutos: Brasil/Espanha (Paulo Silva), Cabelo de Fogo (Maestro José Nunes), e Toureiro (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira).

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CRÔNICA DE UMA SERESTA NATALINA BALSENSE

fin

Figura meramente ilustrativa

Aconteceu há exatos 53 anos, noite de 23 para 24 de dezembro de 1960, sexta-feira, antevéspera do Natal.

Numa cidade em que não havia televisão, e a iluminação pública apagava por volta das 22 horas, a opção noturna para o encontro da mocidade em férias se resumia nas festas dançantes que realizávamos no Clube Recreativo Balsense ou em alguma casa de família, com iluminação a petromax e música a cargo do conjunto de Martinho Mendes. A cota arrecadada entre os rapazes cobria todas as despesas.

Estávamos radiantes com a festa que realizaríamos no clube naquela noite, quando recebemos um balde de água fria: o bispo da Prelazia, Dom Diogo Parodi, proibira qualquer dança no período natalino, por ser uma época de recolhimento e orações, como afirmava. E não houve jeito de contornar o assunto. A presidência do clube caçou-nos a licença já concedida, o Martinho tirou o corpo fora, e nenhuma casa da família se atreveu a contrariar a ordem episcopal. Diante do impasse, resolvemos partir para uma serenata.

Marcamos o ponto de reunião no coreto – hoje inexistente – da Praça da Matriz – e, enquanto aguardávamos a lua sair e a chegada dos seresteiros, demos início ao consumo de bebidas quentes – licor Perobina, cachaça Jararaca, conhaque São João de Barra, Martini, quinado Cinzano e rum Bacardi -, ao mesmo tempo em que entoávamos cantigas em altos decibéis, para acordar o pessoal da Casa Paroquial, verdadeira pirraça em desagravo.

Um dos seresteiros era o preto velho Fuçura, guarda municipal e vigia dos jardins da praça. Dávamo-lhe boas doses de pinga e mandávamos que ele gritasse bem alto DOM DIOGO!, porém ele, respeitoso por demais, repetia: PÃO DE OURO! Outro companheiro a chegar foi o Thucydides Miranda, filho da Jeruza, entrado na adolescência mas todo metido a rapaz. Ele e o Fuçura ficaram responsáveis pelo transporte das garrafas sobressalentes – as cheias, evidentemente.

Pela meia-noite, a trupe estava completa: José Bernardino, Gonzaguinha, Antônio Pires, Pinto Pires, Cazuzinha, Luiz Pires, Aluisio Soares, Raimundo Chaves, José Coutinho, Angelino, Barbosa, Raimundo Solino, Arenaldo, Otaviano do Zé do Joca, Nonato do Souzinha, Moacir Coelho, Mestre Rubens, Pedro Correia e João Batista, seu irmão, Nonato Cacete, Luizão, Pedro Nilo, Fonsequinha, Ronaldo, Moizemar, João Emigdio, Zé Farias, que chegara de Brasília em teco-teco fretado, além mim no violão, meu irmão Afonso Celso na sanfona, Possidônio da flauta e Régis, novo morador balsense, no cavaquinho.

A casa escolhida para início da jornada foi a de Seu Araripe, na Rua Isaac Martins, por motivos óbvios: grande concentração de moças bonitas e dos sonhos de alguns. O próprio Araripe veio à porta, ofereceu-nos bebidas e, após nossos cânticos, ele e seu filho José, o Sampaio, incorporaram-se ao cortejo.

(É oportuno relembrar que a residência de Seu Araripe e Dona Tercília, sua mulher, era o ponto de reunião da juventude balsense em férias. Dançava-se à luz de candeeiros ou lamparinas, ao som dum rádio de pilha – foi ali que aprendi a dançar. Em noites de claridade lunar, dispunham-se, no terreiro em frente, num grande círculo, cadeiras arrecadadas na casa e na vizinhança, onde se realizavam diversas brincadeiras sertanejas, como a do anel, a da berlinda e a do amigo secreto, sempre sob a direção das filhas daquele querido e simpático casal cearense. Uma delas, por sinal, recém-nascida em 1960, participou, 18 anos mais tarde, do concurso Miss Brasil, representando o Estado do Ceará).

A seguir, cantamos na porta de Marica Rocha, Salomão Ahuad, Moisés Coelho, Chico Florentino, Doutor Gonzaga, Augusto Pires, Absalão da Maroca e, por solicitação de Seu Araripe, na de Dionel Souza, do Banco da Amazônia, grande cantor de modinhas, o qual também a nós se juntou. Seu ponto forte era a valsa Uma Grande Dor Não Se Esquece, de Ernani Campos e Antenógenes Silva, gravação de Carlos José e Gilberto Alves, que ele entoou uma porção de vezes durante o percurso, atendendo a pedidos:

Choro a lágrima fremente
O pranto cruciante
Que rola internamente
Choro a lágrima sentida
A lágrima dorida
Que verte o coração
Sinto o espinho da saudade
E sofro a realidade
Da grande ingratidão
E na imensidão da dor
Eu sofro só o meu amor

Menestrel apaixonado
Eu vivo desolado
Chorando a minha dor
Choro a lágrima dorida
A lágrima sentida
Que sai do coração
Sinto a dor que mora n’alma
A dor que não se acalma
A dor que eu não esqueço
Sofro, eu sofro e não mereço
A dura ingratidão
Que me devora o coração

Continuando a seresta, paramos na porta do Coronel Fonseca, Pedro Inácio, Odilon Botelho, Jocy Barbosa, Luiz Fonseca e Theodorico Fernandes, onde topamos com o Antônio José da Úrsula, munido de uma radiola a pilha, em seresta particular, com discos em que dominavam os nomes de Lindomar Castilhos, Agnaldo Timóteo e Waldick Soriano. Deixamo-lo no local, curtindo uma grande paixão, e seguimos até a próxima casa, a de Seu Silvério Sampaio, onde seus filhos Antônio e Edésio se juntaram ao corso.

Dali, seguimos para a casa de Dona Nemézia Pereira, que veio nos receber, abriu sua mercearia e nos abasteceu de bebidas quentes, cujo estoque estava quase a zero.

Nesse momento, baixou em Dionel a personalidade do Cabo Didi, ao qual passamos a obedecer, principalmente no que tangia ao consumo das quentes. Quando ele achava que era chegado o momento apropriado, cada um pegava sua garrafa e executava estas ordens sob seu comando:

– Atenção!

– Preparar! – Todos segurávamos a garrafa pelo gargalo.

– Apontar! – Encostávamos a boca garrafa nos lábios.

– Fogo! – Nem preciso dizer.

Da porta de Dona Nemézia, fomos até a de Dona Belinha, que nos serviu tira-gostos de queijo e cujo marido, Tenente Pedro Segundo, também se juntou a nós. Mas antes, a pedido de Dona Belinha, cantamos a toada Luar do Sertão, melodia de João Pernambuco e letra do maranhense Catulo da Paixão Cearense, a música mais repetida naquela noite.

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Noite enluarada no sertão brasileiro

Apenas quem mora em locais onde não há iluminação elétrica é que pode avaliar a beleza duma noite enluarada. E foi nessa pureza sem poluição tecnológica que Catulo se inspirou para fazer sua mais bela poesia. Luar do Sertão é o Hino da Seresta Maranhense. Eis a parte mais conhecida:

Oh, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia a nos nascer no coração

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir-se um galo triste, no sertão, se faz luar
Parece até que a alma da lua é que descanta
Escondida na garganta desse galo a soluçar

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina
Onde à tarde a sururina chora a sua viuvez

Faziam parte de nosso repertório Noite Cheias de Estrelas, de Cândido das Neves, A Volta do Boêmio, de Adelino Moreira, Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, Noite Feliz, de Franz Gruber, versão brasileira Mário Zan e Arlindo Pinto, Boas Festas, de Assis Valente, e outras canções no gênero consagradas.

Altas horas, próximo à porta de Justiniano Fonseca, onde íamos cantar, deparamos com o negro De Pau – assim era conhecido -, deitado numa calçada, dormindo de roncar e agarrado a seu violão, nessas alturas só com duas cordas. Era a terceira serenata daquela noite que, para o negão, se acabava ali.

Na mercearia de Zé Dué, reabastecemos o estoque de quentes.

Demais casas em cujas portas cantamos: Joaquim Coelho, Joca Rêgo, Tarcísio Moreira, Lourdes Pires, Constâncio Coelho, Omar Ribeiro, Salvador Coelho, Chico Valentim, Zefinha e Miriam Rocha, Rafael Sabonete, Antônio Sepúlveda, Luzia Félix, Parsondas Coelho, Emília Câmara, Santo Coelho, Edna Pires, Gesner Soares, Didácio Santos, Dolores Lima, Ritinha Pereira, Evísio Botelho, Iaiá Gomes, Naninha Bezerra, Alice Farias, Tonica Miranda, Mestre Carlos, Sinharinha Florentino, Maria Luíza Solino, Souzinha, Josefa Baúba, Homerico Gomes, Pedro Ivo e Zé Marques.

Em cada parada, o por todos ansiado comando do Cabo Didi: Atenção! Preparar! Apontar! Fogo! A certa altura, demos com a falta do Thucydides, ao notarmos que ele repassara ao Fuçura as bebidas sob sua guarda. Mandamos procurá-lo, sendo ele encontrado na Rua do Zé Bento, escornado na calçada do Major Lisboa. Aí, descobrimos que, invariavelmente, ao ser comandado, também o garotão fazia fogo. Reanimado a troco de água fria na cara, foi conduzido à casa da Jeruza, e a ela entregue, para especiais cuidados maternais.

Quase raiando o dia, chegamos à porta de Seu Rosa e Dona Maria Bezerra, meus saudosos pais onde, depois de cantarmos a Valsa da Despedida, Robert Burns, versão de Braguinha e Alberto Ribeiro, a turma se dispersou, finalizando a seresta.

Na maioria das residências onde paramos, as meninas-objeto de nosso romantismo vieram à janela para ouvir-nos, sorrir-nos e, em muitos dos casos, acenar-nos com venturosas esperanças.

No dia seguinte, para que a população balsense identificasse as ruas por onde a seresta passou, bastava seguir a trilha de garrafas vazias deixadas pelo caminho.

Os menestréis éramos quase todos nós. Meu carro-chefe seresteiro sempre foi a toada Rancho da Serra, de Herivelto Martins e Blecaute, gravada em 1956 pelo Trio de Ouro, aqui na interpretação de Rolando Boldrim:

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Como não poderia faltar, ouçamos também a toada Luar do Sertão, na voz de Inezita Barroso:

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LEITURAS DIVERSAS: DEL NERO E XICO BIZERRA

Noite de 20 para 21 de novembro de 2013. Na TV, o jogo entre Atlético do Paraná e Flamengo pela Copa do Brasil, no qual eu não tinha interesse algum, eis que vascaíno já eliminado. Enquanto a bola corria, aproveitei para ler este livro, de autoria do General Agnaldo Del Nero Augusto, formado em Ciências Econômicas, cuja última função na ativa foi a de Subsecretário de Economia e Finanças do Comando do Exército:

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Um pouco depois da virada da meia-noite, eu acabara de virar a última das 478 páginas desse tratado, que discorre sobre as três tentativas de tomada do poder pelos comunistas no Brasil.

A primeira, Intentona Comunista de 1935, encabeçada pelo chefe do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes, sob a inspiração dos ensinamentos recebidos em Moscou, quando militares brasileiros chegaram a assassinar, friamente, colegas de farda ainda dormindo: a Democracia venceu! A segunda, com desfecho em 1964, liderada pelo Presidente João Goulart e Leonel Brizola, seu cunhado, caracterizada pela sublevação nos quartéis, gerando a indisciplina e jogando sargentos, cabos e soldados contra os oficiais: a Democracia venceu! A terceira, a partir de 1964 até meados dos Anos 1970, configurada em ações de militantes treinados em Moscou, na China e em Cuba, notadamente com atos terroristas, assassinatos de adversários, de pessoas inocentes e justiçamentos de companheiros seus, guerrilhas, assaltos a quartéis, bancos, empresas e residências: a Democracia venceu!

O título do livro, A Grande Mentira, é justificado no epílogo pelo fato de que todos os autores derrotados nas citadas tentativas, desde há algum tempo, são considerados, Heróis da Pátria, recebendo homenagens, indenizações e nomeando monumentos oficiais.

Como o livro foi lançado em 2001, fui dormir com a curiosidade em saber como o autor classificaria o período a partir de então até os dias atuais, com a corrupção galopando adoidado, e culminando, neste final do ano de 2013, com a prisão dos denominados mensaleiros, recém-condenados pelo Supremo Tribunal Federal, após demorado processo, no qual lhes foi concedido o amplo exercício de defesa *.

Ao acordar no dia 21, recebo o Correio Braziliense, maior jornal da Capital da República, e sou surpreendido com a notícia de que o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília – PPCub prevê a criação do Memorial João Goulart, no Eixo Monumental, entre a Praça do Cruzeiro e a Catedral Rainha da Paz, análogo ao Memorial JK, erigido em homenagem ao fundador da Capital Federal. O que se vê confirmado na edição de 23.11.13, com esta nota na primeira página:

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Volto à manhã do dia 21. Ao sair para a habitual sessão de fisioterapia, recebo um pacote com este valioso presente a mim enviado pelo amigo Xico Bizerra:

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Levei o livro comigo. Enquanto a doutora realizava os procedimentos iniciais, comecei a leitura. Mais ou menos lá pela vigésima página, ela deu uma sacada no livro e me perguntou quem era Xico Bizerra. Aí eu falei tudo o que eu sabia do Xico, tudinho mesmo, e, para ilustrar, contei-lhe a historinha a seguir.

No batente da entrada do Banco do Brasil da 406 Sul, costuma arrecadar adjutórios de almas caridosas um cego com quem gosto de conversar quando vou por lá. E foi um custo da bixiga saber como era seu nome, pois sua dicção, prejudicada pela idade e pela ausência de muitos elementos mastigantes em sua arcada dentária fazia com que eu entendesse que ele se chama “A Mĩa Esquerda”. Por mais que ele repetisse, a surdez que me assola fazia com que não escutasse nada mais do que isso: A Mĩa Esquerda. Até que um dia, uma senhora que saía do banco se interessou em nosso diálogo, o que me fez solicitar-lhe a tradução do nome desse amigo. Ao ouvi-lo, ela falou: “Acho que é Aminstêran!” E aí, a ficha caiu para mim. O nome do moço é Amsterdam, que ele pronuncia Amstêrdam!

Pois bem – falei para a doutora -, na talentosa arte do Xico Bizerra, isso daria uma crônica recheada de amor, ternura, sensibilidade e muita saudade. Porque saudade é a tônica dominante desse comovente livro com que ora brinda nosso coração. Luiz Berto, em genial prefácio, também reconhece o quanto de saudade está impregnado nas 130 crônicas componentes do lindo Breviário Lírico desse poeta em prosa, que também esbanja extasiante capacidade de síntese, ao propiciar-nos crônicas as mais diversas contidas cada qual numa única página de reminiscências e profusão, repito, de muita saudade.

Saudade que me transportou ao Crato da infância do Xico e de minha mocidade em fevereiro de 1957, “quando eu vinha do sertão sul-maranhense para conquistar o mundo, trazendo a coragem e a cara, viajando num pau-de-arara”, e passei ali uma noite. Tempo bom aquele, da estrada piçarrada, mas cuja poeira me fez desejar tomar um banho e, mas na pensão do pernoite não havia água, para isso.

Acasos bem-vindos – pasmem-se vocês! – acontecem, podem crer. Estava eu sentado na calçada da pensão, agoniado de calor, pó até no olho do fiofó, quando ia passando o balsense Sebastião, meu amigo de infância, filho de Seu Salustiano Rodrigues, vulgo Lampião, e de Dona Rosalina. Ao reconhecê-lo, chamei-o, e foi muita alegria aquele reencontro. Disse-lhe da minha vontade de banhar-me, e ele me falou que uma de usas irmãs, a Maria da Glória – a Maria Lampião – compunha o elenco de garotas que alegravam a doce vida dos cratenses numa boate ali perto, onde havia um poço. Foi mão na roda! Tomei um banho caprichado, troquei de roupa e fiquei por lá, apreciando o movimento, de onde só saí de madrugada, na hora de embarcar no pau-de-arara.

A parte musical da boate ficava a cargo de um conjunto com pistom, saxofone, sanfona, banjo, pandeiro e bateria. Em dado momento, foi executado o frevo de rua Esquenta-Mulher – Isquenta-Muié -, de Nélson Ferreira, e aí quem esquentou foi o salão. Minto, pegou fogo!

Aquele frevo, lançado no ano de 1955, e que ali eu ouvia pela vez primeira, e a cidade do Crato ficaram arraigados em meu gosto musical, em minha memória nordestina, e todas as vezes que o ouço é do Crato que me lembro. E com razão. A introdução faz referência ao Juazeiro de Luiz Gonzaga e também ao Juazeiro do Padim Ciço e, em decorrência, aos cangaceiros de Lampião, ao Cariri, ao Crato de Xico Bizerra.

Agora, vocês hão de me perguntar: – E o que o Breviário Lírico, do Xico Bizerra, tem a ver com A Grande Mentira, de Agnaldo Del Nero? E eu respondo: – Muito, mas muito mesmo. Vejam esta nota publicada aqui em Brasília no Jornal da Comunidade, edição de 23/29.11.13:

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E leiam esta crônica de Xico Bizerra, publicada no Breviário, na qual ele remonta a um tempo nem tão distante, mas que também já virou saudade:

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Concordando com o Xico, só me resta exclamar:

- Reaje, Brasil!

* Estou aguardando a chegada nas livrarias do livro Década Perdida: Dez Anos de PT no Poder , de Marco Antonio Villa, já resenhado na Veja de 17.11.13. Vamos ver no que vai dar.

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FALCÃO, O ARQUITETO DO BOM HUMOR

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Amanhã, 10 de dezembro, é o Dia do Palhaço. Com muita alegria, presto homenagem a esse homem-show, para mim o ponto alto da Música Popular Brasileira no início da Década de 1990, quando vivíamos a estagnação criativa no cenário artístico nacional, um sangue novo surgido em meio ao marasmo. Para dizer o mínimo, Falcão foi o que tocou aqui em casa no réveillon 1991/1992. Sacana no mais alto grau, ele mesmo se qualifica: cantor, corno, apresentador e compositor brega, notadamente no estilo irreverente e cômico.

Marcondes Falcão Maia nasceu em Pereiro, interior do Ceará, no dia 16 de setembro de 1957, onde morou, até os 12 anos, numa casa simples. Por influência do pai, o farmacêutico da cidade e “o único lá em Pereiro que tinha radiola, com uma grande coleção de discos, de gosto muito eclético”, escutava música italiana e cantores como Waldick Soriano, Núbia Lafayete, Nelson Gonçalves, e Orlando Silva, d0nstuindo seu bom gosto musical.

Ocasionalmente, também captava, pelas ondas sonoras das emissoras radiofônicas cariocas, como a Globo, Nacional, e Tupi, as músicas dos Beatles e da Jovem Guarda. Em 1970, mudou-se de vez para Fortaleza, indo estudar no colégio Júlia Jorge, na Parquelândia. Na Capital cearense, Aprendeu a tocar violão e conheceu Tarcísio Matos, seu futuro parceiro musical.

Por gostar de desenhar, optou pela área de Arquitetura. Após se formar Técnico em Edificações, na Escola Técnica Federal do Ceará, em 1978, Falcão começou a trabalhar como desenhista, enquanto se preparava para o vestibular da Universidade Federal do Ceará, na qual entrou, em1981, no Curso de Arquitetura, depois de cinco tentativas.

Ao mesmo tempo, investia na carreira artística. Em 1980, fundou, juntamente com Tarcísio Matos, Flávio Paiva, Eugênia Nogueira e outros estudantes de Comunicação Social, a publicação Um Jornal Sem Regras, cujos integrantes também formaram um grupo musical, o Bufo-Bufo.

As composições eram irreverentes e revestidas de consciência política. Enquanto Tarcísio e Flávio queriam fazer uma coisa mais séria, pendendo para MPB, Falcão mudava as letras, para ficassem mais cômicas,

Sua primeira incursão musical foi ainda em 1988. Tarcísio Matos trabalhava no Banco do Brasil e, junto com Falcão, se inscreveu no Festival da Canção Bancária, realizado no BNB Clube. Em contraste às canções sérias do festival, apresentaram o bolero brega escrachado Canto Bregoriano II, com letras sobre Igreja, acompanhamento de coral, e Falcão usando a vestimenta colorida que se tornou sua marca registrada.

O público aplaudiu, mas a apresentação recebeu nota zero de todos os jurados. No Natal do mesmo ano, Falcão fez seu primeiro show solo, no bar Pirata, em Fortaleza. Em seguida, passou a apresentar-se aos fins de semana, sendo inclusive tachado como comediante, pelo fato de, na época, surgirem muitos humoristas do Ceará, como Tom Cavalcante.

Em 1990, lançou, de forma independente, o álbum Bonito, Lindo e Joiado, contendo o citado Canto Bregoriano II, que já era sucesso regional; I’m Not Dog No, versão em Inglês de Eu Não Sou Cachorro Não, de Waldick Soriano, “para que as rádios brasileiras desse atenção a nossa música”, já que a ascensão das rádios FM fez a maior parte das estações tocarem só música estrangeira; Vão-se os Cabaços, Ficam-se os Desgostos; Só É Corno Quem Quer; e outras 7 faixas de igual apelo homorístico.

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No ano de 1991, a gravadora Continental relançou Bonito, Lindo e Joiado, dando-lhe visibilidade nacional e levando o artista a ser entrevistado por emissora de TV de São Paulo. Era só o começo.

Por influência de Raimundo Fagner, que conseguiu a gravação em fita cassete de um show de Falcão, chamou a atenção da gravadora BMG. Enquanto I am Not Dog No virava seu primeiro sucesso de abrangência nacional, gravou, pela BMG, o disco O Dinheiro Não É Tudo, Mas É 100%, em 1994. Repetindo a fórmula anterior, o novo disco tinha a música Black People Car, traduzindo a letra de outro sucesso brega, Fuscão Preto, carro-chefe do sertanejo Almir Rogério. Seu álbum seguinte, A Besteira é a Base da Sabedoria, de 1995, tornou-se o mais vendido da carreira de Falcão, com 240 mil cópias, alçado pelo sucesso Hollyday Foi Muito.

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Ficou na BMG até 1998, gravando mais dois discos para o selo. Paralelamente, comandou um programa televisivo, Falcão na Contramão, exibido pela na Rede Bandeirantes.

Sua carreira, desde há muito, se consolidou, configurada numa agenda de espetáculos completamente lotada.

Em 2012, Falcão estreou um talk show, Leruaite, na TV Ceará, levando a cada sessão um convidado diferente do meio artístico, político ou empresarial. No programa, também atua o conjunto Num Tô Nem Vendo, formada por músicos com deficiência visual.

Ainda em 2012, Falcão foi considerado um dos 30 cearenses mais influentes do ano, de acordo com enquete realizada pela revista Fale!

Esta é sua discografia conhecida: Bonito, Lindo e Joiado, 1992; O Dinheiro não É Tudo, Mas É 100%, 1994; A Besteira É a Base da Sabedoria, 1995; A Um Passo da MPB, 1996; Quanto Pior, Melhor, 1997; 500 Anos de Chifre, 1999; Do Penico À Bomba Atômica, 2000; Maxximum: Falcão – Coletânea, 2005; e What Porra Is This?, 2006, toda ela facilmente à disposição em sebos virtuais.

Selecionei o Falcão para homenagear no Dia do Palhaço deste ano porque o considero a mistura de tudo que conheço no setor histriônico: comediante, humorista, palhaço, velho do pastoril.

Para botar música nesta minha conversa, escolhi o balanço Black People Car, composição de Atílio Versutti e Jeca Mineiro e versão de Falcão e Tarcísio Matos:

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GLORIA ESTEFAN, JOVEM LÍDER ANTIFIDEL

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, e, pra não dizer que não falei de flores, apresento-lhes agora esta jovem cantora, de prestígio internacional, que, embora vivendo no Exterior, guarda no sangue a tradição dos ritmos de sua Pátria: Gloria Estefan.

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Gloria Maria Milagrosa Fajardo, a Gloria Estefan, cantora cubana radicada nos Estados Unidos, nasceu em Havana, no dia 1º de setembro de 1957. Já vendeu mais de 100 milhões de discos no mundo todo e é um os cem artistas mais vendedores de todos os tempos.

De família humilde, Gloria, desde tenra idade amava de coração a música cubana e sempre ficava tocando, em seu violão, canções que sua avó lhe ensinava.

Com menos de dois anos de idade, sua família teve que se mudar para Miami, por discordar da ditadura comunista imposta em Cuba por Fidel Castro. Seu pai acaba se tornando militar nas Forças Armadas americanas, indo lutar na Guerra do Vietnã e vindo a falecer logo após o término do conflito, fazendo com que Gloria continuasse a enfrentar a dureza da vida, juntamente com a mãe e Rebeca, sua irmã.

Gloria participava como colaboradora de grupos estadunidenses que cantavam versões das músicas dos Beatles e dos Rolling Stones, mas foi na Universidade de Psicologia que conheceu o cubano Emilio Estefan, seu atual esposo, que na época já líder de um grupo musical chamado Miami Latin Boys.

Vendo Gloria cantar na igreja, Emilio não hesitou em convidá-la para entrar no grupo. De início, ela resistiu, mas acabou aceitando o convite, passando o conjunto a denominar-se Miami Sound Machine. Emilio e Gloria, com o transcorrer do tempo, começam a namorar e, em 1978, se casam. Um ano antes, em 1977, o grupo já fazia shows. Logo após, é lançado seu primeiro LP, denominado Renacer.

Outros álbuns se sucederam, como Miami Sound Machine, em1978, Imported, 1979, MSM Piano Album, 1980, Otra Vez, 1981, Rio, 1982 e A Toda Máquina, 1983. De 1977 a 1984, o grupo já mesclava Pop, Rock e sons latinos com canções, tanto em inglês, como em castelhano, e fazia excursões pelas América Central e do Sul. Foi nesta época que o Brasil recebeu a primeira visita de Gloria Estefan, mas como turista, e não em turnê com seu grupo.

Em 1980, nasce-lhe o primeiro filho, Nayib Estefan. Um ano depois, a CBS lhe oferece um contrato para shows e lançamentos de álbuns em toda América Latina. Em 1984, é lançado Eyes of Innocence, o primeiro álbum da banda Miami Sound Machine em Inglês, tendo Gloria como vocalista, que alcançou repercussão, não apenas nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra e na Austrália, onde o single Doctor Beat entrou nas paradas na categoria Hot Dance. A partir daí, iniciava-se a trajetória internacional daquela que viria a ser a Rainha do Pop Latino.

Depois do relativo êxito, é lançado, em 1985, Primitive Love, que traz Conga, o primeiro single de sucesso mundial do Miami Sound Machine. O álbum também gerou outros megassucesso, como Words Get In The Way e Bad Boy. Primitive Love vendeu mais de seis milhões de cópias, só nos Estados Unidos. O single Conga garantiu seu registro no Guiness Book of Records, como o único compacto na história a figurar, ao mesmo tempo, nas paradas Pop, Latina, Soul e Dance, da revista Billboard.

A partir de então, sua carreira teve ascensão estrondosa. Em 1993, foram lançados três álbuns: seu primeiro álbum solo em espanhol Mi Tierra, rico em sons latinos, que vendeu mais de 8,5 milhões de cópias em todo o mundo e lhe valeu o primeiro Grammy Award de sua carreira; sua primeira coletânea em Inglês, Greatest Hits, de repercussão mundial; e Christmas Through Your Eyes, álbum natalino de pouco destaque, que colocou o single tema do álbum como carro-chefe.

Possuo em meu acervo estes dois CDs de sua vastíssima discografia, sobre o segundo dos quais adiante passarei a falar:

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Dois anos depois do grande sucesso de Mi Tierra, é lançado Abriendo Puertas, álbum natalino em espanhol, que lhe deu segundo Grammy Award e foi um dos mais tocados em 1995. Destaque para Abriendo Puertas, Más Allá e Tres Deseos, todas classificada em 1º lugar na categoria Hot Latin Tracks da Latin Billboard. E os Grammys não pararam por aí.

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Um dos pontos altos de sua vitoriosa carreira foi em 1996, no encerramento das Olimpíadas de Atlanta, quanto cantou para mais de um bilhão de pessoas, além de ter a oportunidade de mostrar seu talento a Cuba, já que ali a viu quem tinha antena parabólica pois, desde há muito, Fidel proibira que suas músicas tocassem na Ilha. No mesmo ano, encerrou sua brilhante carreira nos palcos, eis que, cada vez mais, fazia menos espetáculos, em função da família, com quem queria estar mais presente, até porque acabara de nascer sua filha Emilly Estefan. A partir de então, passou a atuar apenas nos estúdios de gravação, com lançamentos que se sucedem e também com participação no cinema.

Atualmente, tem-se demonstrado uma das principais líderes internacionais do forte movimento de oposição ao regime comunista em Cuba. No dia 23 de março de 2010, decidiu, juntamente com o marido, convocar a população de Miami para grande marcha de protesto na famosa Calle Ocho. Dois dias depois, 200 mil pessoas compareceram, vestidas de branco, para prestar solidariedade ao movimento das “damas de blanco” e à família do prisioneiro político Orlando Zapata, que morrera, a 23 de fevereiro, fazendo greve de fome em Havana. A pressão parece ter funcionado: o Presidente Barack Obama viu-se obrigado a pedir um encontro pessoal com Gloria e Emilio, a fim de tratar do tema.

Depois disso, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas pela cantora.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição nos sites virtuais.

Gloria Estefan, confirmando a tradição e o sangue cubano nas veias,era uma perfeita rumbeira nos palcos, os quais eletrizava com sua esfuziante presença:

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Para mostrar-lhes pequena amostra de seu trabalho, escolhi o merengue Tres Deseos, do CD Abriendo Puertas, composição e arranjo de Kike Santander, que fala de como é bom termos no coração o amor por nossos semelhantes. Vamos ouvi-lo:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

ORQUESTRA LA SONORA MATANCERA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade à pesquisa focalizando, hoje, essa grande orquestra de renome internacional, La Sonora Matancera, a criadora da Salsa.

A Orquestra La Sonora Matancera, foi fundada no dia 12 de janeiro de 1924, na casa de Valentim Cane, tocador de três – instrumento de cordas afro-caribenho -, localizada no aprazível Bairro Ojo de Agua, na cidade de Matanzas, deleito musical cubano, capital da província do mesmo nome, região Centro-Oeste de Cuba, com o nome de Atuneiros Liberal. Participaram do ato Paul Vasquez Govin, o Buiu, baixo; Manuel Sanchez, o Jimaga, timbale; Ismael Governadores, pistom; Domingo Medina, guitarra; Julio Govin, guitarra; José Manuel Varela, guitarra; e Juan Bautista Llopis, guitarra.

No ano 1926, foram admitidos Carlos Manuel Diaz, o Caíto e Roglio Martinez Dias, El Galego que, no futuro, daria destaque internacional à orquestra. Reformulada, com a saída de alguns membros e a admissão de outros, o conjunto passou a denominar-se Sexteto Soprano. Em 12 de janeiro, três anos após sua fundação, com o nome de Sonora Matancera Estudiantina, mudou-se para Havana, no intuito de conquistar espaço no competitivo mercado musical cubano dominado por estas feras: Septeto Habanero, Septeto Bologna, National Septeto, Trio Matamoros, Septeto Matancero e Pinareño Septeto. Em novembro do mesmo ano, realizou, na RC Victor, suas duas primeiras gravações.

O início dos Anos 1930 é marcado pela expansão do rádio e momento propício para a consolidação da orquestra, que recebe sua denominação definitiva, La Sonora Matancera, apresentando-se em todas as estações de rádio do país.

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De 1932 a 1948, a orquestra incorporou vários músicos, adquirindo personalidade própria com ritmos dançantes e sendo imitada por outros grupos desde então, nesses 89 anos de existência ininterrupta.

La Sonora Matancera foi responsável pelo lançamento de muitos cantores aos píncaros da glória, os quais, após nela atuarem como crooners, alçaram voo em carreira individual, sendo os mais visíveis deles no Brasil Binvenido Granda, de meados dos anos 1940 até 1954, e Célia Cruz, que o substituiu.

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A união de todos instrumentos de corda, sopro e percussão com as vozes convergindo para o ritmo inconfundível e irresistível de La Sonora Matancera, deveu-se ao trabalho tenaz de arranjador Severino Ramos, o Refresquito. O apoio e colaboração ativa de Radio Progreso foram definitivos para a internacionalização da orquestra. A estação de rádio de ondas curtas, como um canhão, trovejou por toda a Bacia do Caribe.

O período entre 1950 e 1959, época de esplendor e fantasia, é considerado como a Idade de Ouro do showbiz cubano, com a força dada pela nova invenção tecnológica: a televisão.

Mas ai, desabou a tragédia sobre o cenário artístico-musical da então conhecida como a Pérola das Antilhas. Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

As ditaduras de Cuba e, posteriormente, da Venezuela, arrolharam a boca musical daqueles países, fazendo que com que o merengue praticamente desaparecesse do cenário mundial. Com isso surgiu um novo ritmo, que foi a música hoje chamada salsa, uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que o ritmo surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa. A palavra significa molho, e a mistura desses ingredientes resultou num sabor muito picante, fazendo com que os norte-americanos aprendessem a dançar da cintura para baixo.

A passagem do tempo é inexorável. Muitas estrelas do passado, com seu falecimento, vêm sendo substituídas por novos personagens, igualmente valorosos, o que contribui para o sucesso também sempre renovado de La Sonora Matancera que, nesses 89 anos de atuação, já se apresentou em palcos de todo o Planeta Terra.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição em sebos virtuais.

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi, do CD acima, a salsa de Sabrosito Asi, de José Reina. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

CELIA CRUZ, A RAINHA DA SALSA

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Celia Cruz

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, continuo hoje focalizando essa grande artista de renome internacional que foi Celia Cruz, a Rainha da Salsa.

Celia Cruz – Úrsula Hilaria Celia Caridad Cruz Alfonso – cantora cubana, nasceu em Havana, no dia 21 de outubro de 1925, e faleceu na cidade americana de Fort Lee, Nova Jersey, a 16 de julho de 2003, perto de completar 78 anos de idade.

Passou a juventude em Santos Suárez, bairro pobre de Havana, onde se viu influenciada pela diversidade musical e a riqueza dos ritmos cubanos. Ainda adolescente, ganhou o concurso “La hora del té” – A Hora do Chá -, o que deu impulso a sua carreira. Enquanto sua mãe a encorajava a participar de outros certames pelo País, seu pai, mais tradicional, tinha outros planos e a incentivou a tornar-se professora, ocupação comum para as mulheres cubanas de seu tempo.

Celia matriculou-se no Colégio Nacional de Professores, mas logo abandonou o curso, diante do sucesso que fazia nas apresentações em estações de rádio. Conciliando o crescimento de suas aspirações artísticas com os desejos do pai para que continuasse estudando, matriculou-se no Conservatório Musical Nacional em Havana. No entanto, em vez de encontrar razões para prosseguir na trilha acadêmica, um de seus professores convenceu-a de que ela deveria insistir em sua carreira de cantora em tempo integral, o que foi feito.

No ano de 1948, realizou sua primeira gravação. Em meados Anos 1950, Célia foi alavancada para o estrelato, quando começou a atuar como crooner da famosa Orquestra La Sonora Matancera.

Inicialmente, houve o temor de que Celia não faria o mesmo sucesso do crooner anterior, Bienvenido Granda, e a dúvida se uma voz feminina venderia discos como de costume. Mas Celia impeliu a Orquestra – e a Música Latina, em geral – para novas alturas, excursionando com La Sonora Matancera pelas Américas do Norte e Central, até quase o final da década.

Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

No ano de 1961, Celia Cruz tornou-se cidadã americana, e isso provocou a fúria de Fidel Castro que, em represália, proibiu sua entrada no país, assim como que ali fosse tocada qualquer de suas músicas.

Por algum tempo, a artista permaneceu relativamente desconhecida nos Estados Unidos, além de inicialmente refugada pela comunidade cubana ali residente, mas quando se juntou à Orquestra Tito Puente, em meado dos Anos 1960, ganhou visibilidade e o aplauso internacional. Puente era largamente conhecido em toda a América Latina e, com a nova formação do grupo, Celia transformou-se em seu foco central, angariando uma grande base de aficionados admiradores. No palco, Celia encantava a plateia, com seus trajes extravagantes e interação com o público – aspectos que engrandeceram e caracterizaram toda sua vida artística de 40 anos como crooner.

Alguns discos que nos deixou:

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Com sua maviosa voz aparentemente inalterada, Célia continuou gravando até além da Década de 1980, num total de 75 discos, inclusive 23 Discos de Ouro, recebendo vários Grammys e Latin Gramys, apareceu em diversos filmes, ganhou uma estrela na Hollywood’s Walk of Fame e foi condecorada pela National Endowment of the Arts com A American National Medal of the Arts.

Participou da novela mexicana, El Alma no Tiene Color, no ano de 1997, exibida no Brasil em 2001, pelo SBT, com o título A Alma não Tem Cor.

Foi casada durante 41 anos com o também cantor cubano Pedro Knight. Em 16 de julho de 2003, ela morreu de um tumor maligno no cérebro, em sua casa em Fort Lee, Nova Jersey, como dito acima. Seu corpo foi embalsamado e levado para Miami e Nova York, de tal maneira que todos lhe pudessem render homenagens.

Seu sepultamento reuniu mais de 150 mil pessoas, em Miami e em New York. O mundo inteiro lhe rendeu homenagens e a comunidade artística mundial reconheceu-a como um de seus mais altos expoentes. O enterro em Nova York constituiu-se num dos maiores que essa cidade recorda, superando, inclusive, o de Judy Garland, em 1969.

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Celia Cruz vibrando com o Grammy/2003

A música hoje chamada salsa é uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que a Salsa surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa.

E Celia Cruz, por ser a maior divulgadora da salsa, predominante em todo seu vastíssimo repertório, foi cognominada A Rainha da Salsa, recebendo, até, um Grammy por isso.

Recentemente, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas por Celia Cruz. Mas só agora?

Possuo em meu acerco dois CDs de salsa dessa grande artista:

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi a salsa de Victor Daniel, La Vida Es Um Carnaval, do CD Éxitos Eternos. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

XAVIER CUGAT, O REI DA RUMBA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Continuando com meu projeto de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, apresento-lhes hoje outro nome desse elenco cheio de estrelas internacionais: Xavier Cugat e Sua Orquestra.

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Xavier Cugat – Francisco de Asis Javier Cugat Mingall De Bru Y Deulofeo –, maestro e compositor catalão-cubano, nasceu na cidade catalã de Girona, Espanha, no dia 1º de janeiro de 1900, a cerca de 100 km de Barcelona, onde veio a falecer, no dia 27 de outubro de 1990, com quase 91 anos de idade.

Quando estava com 3 anos de idade, desembarcou com sua família em Havana, Capital cubana, onde se iniciou no estudo da chamada música clássica. Menino-podígio do violino, nos primeiros anos em Cuba foi impregnado pelos sons das maracas e dos bongôs, que pontuavam o frenesi de rumbas e congas, o que, mais tarde, alimentou seu sonho de concertista, tocando a música dos negros em casas noturnas.

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Compondo uma prole de quatro irmãos e uma irmã, apenas ele se dedicou à Música e, já aos 12 anos de idade, empunhava o violino nas orquestras da Ópera e da Sinfônica de Havana. Aprofundou seus estudos do instrumento em Berlin, Paris e Nova Iorque, quando chegou a acompanhar o tenor Caruso, que muito o estimulou.

Aos 18 anos, descobriu que não seria um grande concertistas, permanecendo nos estados Unidos por mais 5 anos, trabalhando como caricaturista, nas páginas do Los Angeles Times.

Em meados dos Anos 1920, retornou a Cuba, onde passou a desenhar sua própria imagem como bandleader de ritmos latino-americanos. Rumbas, cúmbias, boleros, guarachas, valsas mexicanas, congas, enfim, tudo que fosse das Caraíbas ao Sul do Rio Grande ficava sob sua batuta, recriado em arranjos e sons de sua maviosa orquestra. Foi ele o grande divulgador da Música Latina nos Estados Unidos e na Europa.

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O cinema foi o grande veículo para consolidar sua fama como nome internacional. Em 1936, já atuara em Amores de Uma Vida, da Paramount, com Mae West, mas foi nos anos 1940 que o colorido das telas o levou ao apogeu em sua carreira, com musicais como Escola de Sereias, Romance no México, Numa Ilha com Você, O Príncipe Encantado, com Carmen Miranda, e outros. Também no cinema, acompanhou grandes nomes do showbiz americano, dentre eles Bing Crosby, Frank Sinatra, Perry Como, Dean Martin. Foram 133 filmes no total, como ator ou dirigindo sua orquestra.

Xavier Cugat sempre se empenhou em transmitir ao público a ideia de boa-vida, de mulherengo, o que, para inveja de muitos, era a mais pura verdade. Casou-se com 4 de suas belas e sempre jovens cantoras. Abbe Lane, exuberante, foi a mais famosa delas. Outra paixão de sua vida, e marca registrada, era uma minúscula chihuahua, cachorrinha que agasalhava na palma de mão e carregava no bolso.

Em 1970, depois de várias voltas pelo Mundo, resolveu retornar para sua Espanha – Mi España, como diz o título de uma de suas famosas composições -, a fim de encerrar sua carreira de Maestro e dedicar-se à pintura. Não resistiria, porém, mais do que 5 anos e, em 1975, formou nova orquestra, com 16 figuras, para atuar num hotel de Cabo Salou, na Costa da Catalunha. E, na bela Barcelona, com quase 91 anos, finalmente partiu com sua batuta para reger outra orquestra no Plano Superior.

Grande parte destes dados biográficos é creditada à Editora Revivendo, da qual sou fiel cliente há mais de quatro décadas.

Sua discografia é extensa, e muito títulos são facilmente encontráveis em sites virtuais de busca.

O título de Rei da Rumba lhe foi atribuído pelo ritmo que o caracterizou em suas gravações, hoje imediatamente lembrado quando se fala em seu nome.

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E foi uma rumba, extraída do LP acima, que escolhi para dar-lhes pequena amostra de seu trabalho. Ouçamos, pois, com Xavier Cugat e Sua Orquestra, a rumba The Lady in Red, composição de Xavier, gravada em 1940:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

BIENVENIDO GRANDA, O BIGODE QUE CANTA

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Bienvenido Granda

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado*.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá -, cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade hoje, apresentando outro grande nome dessa constelação, cujos boleros embalaram os primeiros passos dançantes de minha adolescência: Bienvenido Granda.

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Bienvenido Rosendo Granda Aguilera, cantor e compositor cubano de grande popularidade em toda a América Latina, ao longo das Décadas de 1950 e 1960, nasceu em Havana, no dia 30 de agosto de 1915, e faleceu na Cidade do México, no dia 9 de julho de 1983, aos 68 anos de idade.

Órfão de pai aos seis anos de idade, desde criança mostrou afinidade com os ritmos cubanos e os tangos argentinos, que cantava nos ônibus, no intuito de ganhar minguados trocados que lhe garantissem a subsistência.

Aos poucos, foi consolidando sua carreira artística atuando nas emissoras de rádio nos Anos 1940 e 1950. Sua consagração definitiva aconteceu ao juntar-se à Orquestra La Sonora Matancera, em 1940, na qual permaneceu até 1954, quando iniciou sua carreira solo.

Apresentou-se em diversos países da América Latina e, no início da Década de 1960, inconformado ao o regime ditatorial que se apoderou de Cuba, mudou-se para o México, onde fixou residência definitiva. Nessa época, já era conhecido como “O Bigode Que Canta”.

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Sua discografia é extensa, e muitos títulos se encontram à disposição em sites virtuais de busca.

Bienvenido Granda imortalizou composições próprias e de outros autores, notadamente boleros, que ficaram para sempre gravadas em nossa memória: La Ultima Noche, Hipocrita, Tu Precio, Pecadora, Señora, Angustia, En la Orilla del Mar, Nuestra Realidad, Gracias, Soñar, Perfume de Gardenia, Oración Caribe, Soñando Contigo, Calla, Las Muchacas del Cha-Cha-Cha, P de Parada e Ba Bae.

Como pequena amostra desse trabalho, escolhi a primeira música com a qual tomei conhecimento da existência de Bienvenido Granda, o bolero No Toques Ese Disco, de sua autoria, acompanhado pela Orquestra La Sonora Matancera:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

PEREZ PRADO, SUA ORQUESTRA E O MAMBO

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Perez Prado, o Rei do Mambo

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, começo hoje apresentando o primeiro nome que conheci desse elenco e que muito influenciou meu gosto pelos ritmos e melodias tão vibrantes que produziam: Perez Prado e Sua Orquestra.

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Damaso Perez Prado, tecladista, maestro, arranjador e compositor, nasceu em Cuba, na cidade de Matanzas, no dia 11 de dezembro de 1916, e faleceu na Cidade do México, a 14 de setembro de 1989, aos 72 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral. Era filho de Pablo Perez, jornalista, e de Sara Prado, professora.

Estudou música clássica e piano em sua infância e, mais tarde, tocou órgão e piano em clubes locais. Por um tempo, foi o pianista e arranjador para a Orquestra La Sonora Matancera, então o mais conhecido grupo musical de Cuba. Também trabalhou como pianista na Orquestra Casino de La Playa, em Havana, durante a maior parte da década de 1940, quando tinha o apelido de “El Cara de Foca”.

O final dos Anos 1930 e o início dos Anos 1940 foram de dias excitantes para a música pop cubana: os metais adicionaram-se às bandas de “son” – ritmo nativo cubano – de forma vibrante, com influência do swing norte-americano, ganhando enorme popularidade nos clubes e salões de baile de Havana. Nesse período, Perez Prado já era um maestro experiente na forma em que se transformaria em sua marca registrada: o mambo, ritmo dançante quente e rápido, derivado da música africana, espécie de misturas do son com a rumba.

Em 1948, Perez mudou-se para México formando sua própria orquestra, especializadas em mambo, ritmo do qual fui o maior compositor e divulgador, sendo por isso mesmo, intitulado o Rei do Mambo. Jamais voltou a morar em Cuba.

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Em 1950, o arranjador norte-americano Sonny Burke ouviu uma de suas composições, Que Rico Mambo, levando-a para seu país, onde rebatizou-a com o título de Mambo Jambo, cujo single estourou nas paradas de sucesso mundiais, rendendo a Perez uma turnê pelos Estados Unidos, quando começou a gravar para a RCA Victor.

Em 1954, Perez Prado extasiou o mundo com a gravação da rumba de Loughy e Jacques Larue, Cherry Pink And Apple Blossom White, lançada no Brasil como Cerejeira Rosa. Em 1958, com a rumba Patricia, de sua autoria, conquistou o primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos, da Alemanha, da Grã Bretanha, do Brasil, do Mundo, enfim. Além disso, suas composições fizeram parte da trilha sonora de vários filmes e séries de sucesso internacional.

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Sua discografia compreende mais de 30 títulos, alguns ainda encontráveis à venda em mercados virtuais. Desde a instalação da Ditadura de Fidel, Perez Prado nunca mais pisou em Cuba.

Seu filho, Perez Prado Jr., continua a dirigir a Orquestra de Pérez Prado na Cidade do México até hoje.

Mambo Jambo foi a música que marcou a carreira de Perez Prado para sempre, lembrada até hoje pelos que conheceram os Anos Dourados da Música Cubana, ao som da qual o pessoal de minha faixa etária viveu felizes momentos nas festas dançantes de nossa juventude. Mas há uma outra criação desse grande músico que ficou para sempre indelével em minhas lembranças.

Trata-se do Mambo Espanha, que passei a curtir em 1955, quando o Circo Garcia cumpriu temporada em Teresina, capital piauiense, com grande orquestra de sopros e metais. Quando tocava desse mambo, um pistonista se levantava e executava um solo que fazia os camarotes e as arquibancadas tremerem de emoção.

Ouçamos, portanto, as duas joias musicais de Perez Prado e Sua Orquestra que me inebriaram para sempre:

Mambo Jambo:

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Mambo Espanha, com o famoso solo de pistom:

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COMPAY SEGUNDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Compay Segundo y Sus Muchachos

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês, e Omara Portuondo, no dia 14. Hoje, apresentarei um nome igualmente famoso, mas quase desconhecido no Brasil: Compay Segundo.

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Compay Segundo

Compay Segundo, pseudônimo de Maximo Francisco Repilado Muñoz, nasceu a 18 de Novembro de 1907, em Siboney, Cuba, e faleceu no dia 3 de Julho de 2003, em Havana. Foi um compositor, violonista, clarinetista, cantor e tresero – sendo o tres a fusão de três instrumentos de corda caribenhos: a guitarra, o tiple e a bandola.

Desde os cinco anos, acendia os puros – charutos – para a avó materna e, a partiu de então, adquiriu o hábito de fumar, que jamais abandonou, sendo o charuto sua marcante característica. Aos nove anos de idade, com o falecimento da avó, mudou-se com sua família para a cidade de Santiago de Cuba.

Em Santiago, Repilado, como era conhecido, começou a trabalhar no ofício de que se ocupava grande parte da população cubana: enrolador de charutos. Ao mesmo tempo, tomava aulas com a jovem Noemi Toro, que o introduziu nos segredos da pauta musical. Por sua influência, optou pela clarineta, com a qual fez sua primeira apresentação em Havana, integrando a Banda Municipal de Música, em 1929, na inauguração do Capitólio Nacional.

Em 1935, com o guaracheiro Ñico Saquito e Sua Banda Cuban Star, viajou novamente para a Capital cubana, desta feita, para lá residir definitivamente.

Autodidata do tres e do violão, mesclou os dois para criar um novo instrumento de corda, a que deu o nome de armónico. Muitas de suas composições musicais caracterizam-se por seu conteúdo imaginativo e grande senso de humor. Na Década de 1930, com Quarteto Hatuey, viajou ao México, onde participou em dois filmes, México Lindo e Tierra Brava.

Também foi no México que integrou, como clarinetista, o Grupo Matamoros e teve a oportunidade de trabalhar com o músico Benny Moré. Lá, também, fundou, em 1942, a Dupla Los Compadres, cantando com o cubano Lorenzo Hierrezuelo. Lorenzo era a primeira voz e tinha o apelido de Compay Primo – primeiro compadre -, enquanto Repilado era a segunda voz, o Compay Segundo, pseudônimo que o acompanhou até o fim de seus dias e pelo qual é reconhecido mundialmente.

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Com o tempo, houve um processo da subestimação da segunda voz na música, que passou a ser depreciada, mormente após as Décadas de 1940 e 1950. Sobre esse fenômeno, Compay Segundo declarou: – Os jovens não querem acompanhar nenhum cantor. Todos querem ser estrelas, do dia para a noite. Veja quantos anos eu tive de esperar, quantos caminhos tive de andar, em quantos eventos tive de participar. E cá estou começando, nunca acabando.

Sua carreira teve inúmeras mudanças. Integrou o Sexteto Los Seis Ases, o Cuarteto Cubanacán, e foi clarinetista da Banda Municipal de Santiago de Cuba. Em 1956 criou o Grupo Compay Segundo y Sus Muchachos, com quem trabalhou até sua morte.

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Detalhe de Compay Segundo y Sus Muchachos

Compay Segundo foi um artista único, na maneira como produzia o som que se ajustava ao modelo da Zona Oriental de Cuba, o que o fez reconhecido como um grande representante da cubanía – cubanidade. Os estilos em que transitava eram o son, a guaracha e o bolero, além de canções com acentuados matizes caribenhos. Sua voz, grave e redonda, acompanhou célebres cantores de fama internacional.

Com o Grupo Compay Segundo y Sus Muchahos, foi capaz de fazer bailar multidões de todos os continentes. Realizou turnês pela América Latina e Europa, particularmente Espanha, onde gravou seus últimos discos. Sobretudo, partir de 1992, criou-se, na Espanha, um ambiente favorável para a trova e o son tradicional, sendo convidados antigos e respeitados músicos desse estilo. Com isso, em 1995, Compay Segundo teve uma antologia organizada por Santiago Auserón, que foi o início de sua consagração internacional e a retomada de sua carreira artística.

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Compay Segundo participou ativamente do ambicioso projeto Buena Vista Social Club, um disco produzido por Ry Cooder, em 1996, em que se reuniram os grandes nomes da música cubana, do passado, e daquela década, com Barbarito Torres, promovendo o ressurgimento de fabuloso de músicos cubanos que, em alguns casos, estavam no ostracismo por mais de 10 anos. O é tema central do documentário homônimo, dirigido pelo alemão Wim Wenders.

No flagrante abaixo, é mostrado cena do documentário, onde aparecem veteranos como Eliades Ochoa, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo e o “novato” Barbarito Torres – Bárbaro Alberto Torres Delgado -, cantor e alaudista, nascido na cidade de Matanzas, em 1956, e especializado em ritmos afro-cubanos:

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Eliades – Ibrahim – Compay – Omara – Barbarito Torres

Aos 94 anos, Compay Segundo estreou nos palcos como ator, em uma peça intitulada Se Secó el Arroyto – algo como secou-se o riozinho -, baseada em uma de suas canções, que narra os amores frustrados de um casal de jovens nos anos anteriores à Revolução Cubana.

Dentre as canções mais conhecidas interpretadas por Compay Segundo, encontram-se: Sarandonga, Saludos, Compay, ¿Y Tú, Qué Has Hecho?, Amor de Loca Juventud, Juramento e Veinte Años. A mais famosa de todas é Chan Chan, composição sua, que abre o CD, interpretada por Eliades Ochoa, com acompanhamento do Buena Vista Social Club.

Compay Segundo faleceu em 2003, em Havana, cercado por sua família e com o respeito e a consideração de seus patrícios. Deixou cinco filhos. Nonagenário e muito bem-humorado, disse certa feita que ainda não havia se esquecido de como era o amor e que queria um sexto filho. Foi sepultado em Santiago de Cuba.

Sua discografia é extensa e facilmente encontrável em sites virtuais e busca.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi o blues de sua autoria Amor de Loca Juventud, com participação do Buena Vista Social Club. Vamos ouvi-lo:

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OMARA PORTUONDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Omara Portuondo, com o Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, Juntamente com o Buena Vista, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês. Hoje, apresentarei resumido perfil da cantora Omara Portuondo.

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Omara Portuondo

Omara Portuondo, cantora e dançarina cubana, nasceu em Havana, no dia 29 de outubro de 1930. Sua mãe, descendente de rica família espanhola, causou grande escândalo ao fugir para casar-se com um negro, jogador profissional de beisebol.

Esta dama da música cubana, de voz macia como veludo, iniciou sua caminhada artística aos 15 anos, quando era conhecida como a ‘noiva do feeling’ ou ‘filin’, estilo romântico que marcava o cenário de Cuba. Seu talento é inato, desenvolveu-se naturalmente, sem que ela precisasse dedicar-se à teoria no interior dos estabelecimentos de ensino musical. Sua verdadeira escola foi seu lar, seus mestres, os próprios pais, que cultivavam o hábito de cantar depois do almoço. Primogênita de três irmãos, já na infância ela improvisava duplas com o pai, fonte de muitas das músicas que ela posteriormente gravaria em seus discos.

Em sua casa, ela também encontrou a educação da alma, com o aprendizado da paz, da compreensão e do amor, sentimentos gerados no âmbito familiar, uma vez que, publicamente, a mãe espanhola e o pai negro tinham que simular ser dois estranhos, pois a família materna e a sociedade conservadora não aceitavam esse relacionamento. Omara foi criada nesse ambiente.

Ela deu seus primeiros passos no universo musical dançando no grupo Cabaret Tropicana, influenciada por sua irmã Haydee. Quando não estavam trabalhando, integravam um grupo jazzístico. Antes de optar pela carreira solo, ela participou do Cuarteto d’Aida, ao lado da irmã, de duas vocalistas e da pianista Aida Diestro, executando inclusive sucessos da bossa nova. No Cabaret, Omara teve contato com o cantor de jazz Nat King Cole e com a francesa Edith Piaf, a qual ela acompanharia em algumas turnês.

Omara também dançou no Mulatas de Fuego, no Teatro Radiocentro, e em outros grupos de dança. As duas irmãs também costumavam cantar para a família e amigos, e se apresentavam em clubes de Havana. Ela e Haydee, em 1947, juntaram-se ao Balanço Loquibambia, grupo formado pelo pianista cego Frank Emilio Flynn.

Sua carreira discografia teve início com o Amigas, lançado em 1950, juntamente com as cantoras Moraima Secadas e Elena Burke. Magia Negra foi seu primeiro álbum individual, lançado em 1959, com destemidas doses de música produzida na Ilha e jazz procedente dos Estados Unidos. Na época em que o governo norte-americano rompeu relações com Cuba, por conta da questão dos mísseis, as irmãs se encontravam em Miami. Enquanto Omara optou por retornar, Haydee preferiu refugiar-se na América do Norte. A seguir, os primeiros álbuns de Omara:

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Na Década de 1970, Omara cantou ao lado da Orquestra Aragon, com a qual excursionou por vários recantos do mundo. Nos anos que se seguiram, lançou diversos álbuns e prosseguiu com sua carreira na Ilha e fora dela, sempre atuando em parceria com renomados músicos internacionais, realizando uma fusão das populares canções cubanas herdadas dos pais com o jazz, a bossa nova, o bolero, a guajira e outras tantas cadências latinas.

Sua consagração internacional só veio acontecer ao aproximar-se dos 70 anos de idade, quando se tornou a única mulher a integrar o álbum e o documentário Buena Vista Social Club. Aqui, outros dos discos que lançou:

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No ano de 2008, Omara, ao lado de Maria Bethânia, realizou turnê histórica pelo Brasil, o que lhes rendeu a gravação de um CD, um DVD e o lançamento de um livro ricamente ilustrado com registros desse grande encontro. Adiante, a capa do CD com Bethânia:

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Omara parece ter sido cooptada. Tão logo a ditadura de Fidel Castro se instalou em Cuba, ela aderiu integralmente. Encontrando-se em Miami, retornou de imediato para a Ilha, enquanto sua irmã Haydee se refugiou nos Estados Unidos, como foi dito acima.

Isso faz-nos supor que, em assim agindo, ela conquistou o direito de poder circular livremente em excursões pelo Exterior, nos trevosos e árduos tempos ditatoriais que dominaram o cenário literomusical cubano desde então.

Hoje, Omara tem um apartamento em Cuba, com vista para o mar, localizado no Malecon, tradicional recanto cubano, onde desfruta de seus momentos de repouso. Sua discografia contabiliza 15 discos, ente LPs e CDs, além de 3 DVDS. De todos, escolhi, para apresentar-lhes pequena amostra de seu trabalho, uma faixa extraída deste álbum, gravado em 2004:

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Trata-se do bolero Habanera Ven, do compositor cubano Graciano Gómez. Vamos ouvi-lo:

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IBRAHIM FERRER E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Ibrahim Ferrrer à frente do Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades Ochoa, violonista e cantor, teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro. Hoje, apresentarei para vocês resumido perfil do cantor Ibrahim Ferrer.

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Ibrahim Ferrer

Ele nasceu num salão de baile de Santiago de Cuba, no dia 20 de fevereiro de 1927, e faleceu em Havana, no hospital CIMEQ, no dia 6 de agosto de 2005.

Filho de uma dançarina de clube noturno, Ibrahim ficou órfão aos 12 anos de idade, quando se viu obrigado a cantar nas ruas para sobreviver. Aos 13, formou par musical com um primo e, apresentando-se em festas particulares, conseguiu sustento para deixar as ruas. Ao longo dos anos, fez parte de diversos grupos musicais e, em 1953, juntou-se ao Conjunto de Pacho Alonso.

Em 1959, mudou-se de Santiago com o Conjunto para Havana, quando a formação musical foi rebatizada como Los Bocucos, dedicando-se principalmente a ritmos cubanos, como os registrados neste álbum:

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Tempos depois, Ibrahim trabalhou como vocalista do lendário Benny Moré e Sua Banda Gigante, nome este deveras apropriado, pois sua formação compreendia 21 instrumentos, aí compreendidos bocais, palhetas, cordas e percussão.

Ibrahim sempre manteve o desejo de gravar boleros, o que só veio a acontecer em sua adesão ao Buena Vista Social Club, lançando este álbum só de bolerões, último disco que gravou, à venda em sebos brasileiros:

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O filme Buena Vista Social Club, produzido por Ry Cooder, embora nos presenteie com a maravilhosa interpretação de seus astros, mostra-nos, nas poucas imagens de Havana, a pobreza habitacional e o atraso, sob todos os aspectos, em que vive o povo cubano.

Este outro álbum, importado, também se encontra disponível em sebos;

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Sua discografia contabiliza 14 títulos. A voz de Ibrahim Ferrer vinha sendo há muito tempo apreciada pelos músicos e entusiastas da ilha, mas só logrou o reconhecimento mundial a partir de sua apresentação no projeto coletivo Buena Vista Social Club. O disco abaixo, no qual é solista em todas as músicas, dá-nos uma perfeita ideia da força que ele representou na Música Latino-americana.

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E é dele que escolhi a faixa 1, Bruca Maniguá, afro-cubano – que eles denominam son, ritmo nativo de Cuba – de Arsenio Rodrigues, gravação do ano de 1999.

Vamos ouvi-la:

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