TOQUES DE CLARIM MILITAR

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No inicio de 2007, atendendo a insistentes pedidos, produzi, auxiliado por dois Cabos Corneteiros do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial, 218 toques de corneta que, somados aos 72 já existentes na Internet, atingiram o total de 290, os quais, a 24.04.2007, disponibilizei no site 4Shared: (Clique aqui para acessar)

O retorno foi mais que o esperado. Chamam a atenção os acessos aos dois toques mais baixados até agora: Alvorada, 1ª Parte, com 10.888 visitas, e Alarme Aéreo, o campeão, com 10.953.

Desde aquela época, os curtidores da Música Militar passaram a cobrar-me outros dois itens importantíssimos do setor: os exórdios e os toques de clarim.

Depois de muita procura, consegui com a Banda de Música do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília a gravação do exórdio básico. Após sua adaptação a cada nível de autoridade, e combinado com os toques de corneta já disponíveis, resultou neste repertório, postado no site 4Shared a 21.09.2010, sendo o de Marcha Batida de Comandante do Exército o mais acessado, com 963 visitas:

01 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DE HONRA – Todo o Hino Nacional.
02 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DO QUARTEL – Introdução do Hino Nacional mais a coda – final.
03 – TOQUE E EXÓRDIO DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
04 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DA DEFESA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
05 – TOQUE E EXÓRDIO DE PATRONO – Composição especial para o Patrono.
06 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
07 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA MARINHA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
08 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
09 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
10 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
11 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE DIVISÃO – Os 8 compassos da marcha grave General Barbosa.
12 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE BRIGADA – Os 4 compassos da marcha grave General Barbosa.
13 – TOQUE E EXÓRDIO DE OFICIAL SUPERIOR COMANDANTE DE OM – Marcha A Granadeira.
14 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Marcha Batida completa.
15 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
16 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DA DEFESA – 12 últimos compassos da marcha Batida
17 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – 12 últimos compassos da marcha Batida.
18 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA MARINHA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
19 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
20 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE EXÉRCITO – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
21 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
22 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE DIVISÃO – 8 primeiros compassos da Marcha Batida.
23 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE BRIGADA – 4 últimos compassos da Marcha Batida.

OBS.: Os exórdios e marchas batidas correspondentes a Oficiais Generais apresentados na gravação referem-se a militares sem comando. Para identificá-los, acrescenta-se o toque de comandante – mi-dó-SOL-dó-mi-dó-SOL – e o toque indicativo da OM comandada.

Ouçam-nos clicando aqui.

Restavam, para completar, os toques de clarim.

Em agosto de 2011, quando a Fanfarra do 1º RCG – Regimento de Cavalaria de Guarda, no ato em que fui nomeado Amigo da Fanfarra e recebi a gravação dos dobrados Tenente Raimundo Floriano, Padre Cícero e Três de Maio, recebi a promessa da gravação dos toques de clarim, dependo da disponibilidade de tempo. Ouçam os três dobrados clicando aqui.

Com a Fanfarra sempre assoberbada de serviço, nunca foi possível realizar o prometido. A 20 de setembro passado, no casamento de minha primogênita, vislumbrei a solução, quando a conduzia até o altar, ao som de dois clarins. Tão logo se encerrou a cerimônia, saí em campo buscando a contratação de dois clarinistas, contando para isso com os préstimos do amigo Jorge Rocha, meu Assessor para tudo quanto é de assunto pertinente a esta minha coluna, ou seja, som, imagem, etc. e coisa e tal. Com suas providências, os toques de clarim foram gravados, na interpretação destes dois excelentes músicos:

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Jonas Cerqueira Santos e Isaac Elias

Ouçam o produto final, postado no dia 12.10.2013, clicando aqui.

Os toques de corneta e clarim existem desde quando surgiu a primeira força armada no mundo – no início, com búzios, evidentemente. Constituem-se no modo mais rápido e eficaz de comunicação em todos os quartéis de tropa terrestre existente no Planeta Terra.

Atualmente, os toques de clarim são empregados apenas nas unidades de tropa montada e apenas em ocasiões especiais, mantendo uma tradição que veio com os colonizadores portugueses. Fora dos 21 abaixo relacionados, constantes do C 20-5 – Manual de Toques do Exército, e FA-M-13 – Manual de Toques, Marchas e Hinos das Forças Armadas, são executados os toques de corneta comuns no dia a dia da caserna. Estes são os toques que ainda persistem:

01 – A BANDEIRA
02 – A PODEROSA
03 – A VITÓRIA
04 – ALVORADA – 1ª PARTE
05 – ALVORADA – 2ª PARTE
06 – ALVORADA – 3ª PARTE
07 – ARTILHARIA A CAVALO
08 – AVANÇAR
09 – COMANDANTE DE ESQUADRÃO DE CAVALARIA
10 – COMANDANTE DE REGIMENTO DE CAVALARIA
11 – FORMATURA GERAL – 1ª PARTE (APRONTAR)
12 – FORMATURA GERAL – 2ª PARTE (FORMAR)
13 – MARCHA BATIDA
14 – MARCHA FÚNEBRE
15 – PARADA – 1ª PARTE (APRONTAR)
16 – PARADA – 2ª PARTE (FORMAR)
17 – REVISTA DO RECOLHER – 1ª PARTE
18 – REVISTA DO RECOLHER – 2ª PARTE
19 – REVISTA DO RECOLHER – 3ª PARTE
20 – SILÊNCIO
21 – VITÓRIA

Para facilitar a pesquisa, aqui vão as partituras desses 21 toques:

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Voltando aos exórdios, que são os toques executados nas honras de recepção e despedida de autoridade quando em visita ou inspeção a uma Organização Militar, ressalto o aspecto de que a postagem constante da relação do site 4Shared acima indicado se refere a oficiais generais ou alguém a eles superior. Na recepção às demais, após o toque indicativo do posto e/ou função da autoridade, dado pelo corneteiro ou clarinista, a Banda de Música ou Fanfarra executará os exórdios a seguir.

Para Oficiais Superiores, Comandantes de OM e Comandantes ou Diretores de Estabelecimentos Militares:

01 – Marcha A GRANADEIRA – Exército (para tropa a pé), Marinha e Aeronáutica;

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02 – Marcha A VITÓRIA – Exército (para tropa montada, motorizada, blindada ou aeroterrestre);

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03 – Marcha A PODEROSA – Exército (para Artilharia).

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Para finalizar, numa amostra do trabalho dos clarinistas, disponibilizo-lhes o maior dos toques de clarim constantes da relação e partituras acima, a Marcha Fúnebre:

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HOJE É DIA DE SANTO REIS

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Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os Três Magos do Oriente
Seguindo a Estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na Sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A santíssima Família
Jesus, Maria e José

O cantar do Santo Reis
É um cantar excelente
Acorda quem está dormindo
Consola quem está doente

Belchior veio da Pérsia
Da Etiópia, Baltazar
E Gaspar veio da Índia
Todos a Jesus saudar

Belchior portando ouro
Com mirra veio Gaspar
Baltazar trouxe o incenso
Pra Jesus presentear

Para vocês, Folia de Reis, adaptação folclórica, com Trio Parada Dura (Creonte, Barrerito e Mangabinha):

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RÉVEILLON 2013

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Amanhã, 31 de dezembro, é dia de festa! À meia-noite, estaremos celebrando a entrada do ano de 2014 e o término 2013, com essa dezena final muito positiva para os homens de vergonha na cara desta Nação: dos 38 mensaleiros processados pelo Supremo Tribunal Federal, 17 condenados já se encontram vendo o sol nascer quadrado. Derrota do 13, vitória do lado não apodrecido deste amado Brasil!

Invertendo o número 13, temos 31, o da sorte. Neste 31 de dezembro, minha filha caçula festeja mais um ano de sua bela existência. Portanto, as comemorações já têm início no coração de toda a família e extravasam, empolgando nossa Quadra, Brasília, o Brasil, o Universo, enfim.

O ano de 2013 deixa saldo extremamente significativo em minha vida. Com as bênçãos de Deus, consegui ultrapassá-lo sem submissão a qualquer tipo de cirurgia, li 92 livros, lancei um, mantive ininterrupta, semanalmente, A Coluna de Raimundo Floriano aqui no JBF, e nossa família, cheia saúde e alegria, juntamente com os parentes e demais amigos, celebrou o casamento de minha primogênita, em recepção/festa com jantar para 500 talheres. Eis-nos a entrar na Dom Bosco:

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Para que vocês conheçam um pouco da história de Elba e Fábio, cujo namoro começou em 2000, aos 16 anos dela, mostro-lhes, neste vídeo de 10 minutos, o início de tudo:

2014 será marcado por muitas comemorações, motivo pelo qual ouso afirmar que o ano começará mesmo só no segundo semestre, depois da Copa do Mundo. Sempre que ela acontece, relembro o balde de água fria jogada sobre todos nós, fervorosos torcedores, com esta carta publicada um dia após a derrota do Brasil diante da Itália, na Copa de 1982:

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Vejam bem o que ele diz no início do primeiro parágrafo: “O que falta ao Brasil é uma identidade nacional, pois o povo só se une em torno de um objetivo comum quando o motivo é futebol.” Essa afirmação se viu cabalmente comprovada durante a Copa das Confederações/2013, quando a turba ocupou as ruas de todo o País, mas, depois, com a Seleção Brasileira vitoriosa, amansou que nem as tranquilas águas da Lagoa do Abaeté.

Gosto muito de Copa do Mundo. Não pelo futebol em si, mas pela oportunidade de aprontar o maior furdunço, botando a Banda da Capital Federal na rua para alegrar o povão, a massa de torcedores. Foi assim em 2002, na conquista do Penta, quando na partida final, fechamos o trânsito na 215 Sul, começando a tocar às 8 horas da manhã, certos da vitória. Eis a composição da Banda naquele dia:

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Aliás, em matéria de previsão, quase nunca erro. Sempre que a Seleção Brasileira Masculina de Futebol vai ao Palácio do Planalto pedir a bênção do Presidente, é ferro na certa. Assim foi com o atual Partido no Poder, que já perdeu 2 Copas. Tomara que o Escrete Nacional desta vez não dê as caras por lá, arriscando-se a perder a terceira.

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Se, como diz o livro acima, a década foi perdida politicamente, também o foi futebolisticamente falando – refiro-me à Seleção Brasileira, ópio do povo.

Há uns dois meses, a Presidenta do Brasil, em visita a Minas Gerais, não titubeou em referir-se ao futebol, usando a expressão “Meu Galo!”. Deu no que deu!

Na recente visita à África do Sul, para assistir aos funerais de Mandela, novamente a Presidenta trouxe à baila o futebol. Em conversa com o Presidente francês, garantiu-lhe que o Brasil seria campeão em 2014, mas que a França ficaria bem classificada no torneio, ao que o outro, diplomaticamente, comentou: – Pode ser, mas na última decisão Brasil x França, não foi bem assim!

O Penta, apesar de inflar-nos os corações de orgulho tupiniquim, foi uma pedreira par aos cordelistas, eis que difícil encontrar rimas para o termo, restando-nos apenas o trivial: venta, jumenta, presidenta, aguenta, nojenta, pimenta, etc. Meu amigo Asclepíades Abreu, em inspiradíssima criação, exibiu em sua Quadra uma comprida faixa com estes dizeres: TODO MUNDO TENTA, MAS SÓ O BRASIL É PENTA! Perceberam?

Já o Hexa será a mão-na-roda para o pessoal do cordel. Vejam a quantidade de preciosas rimas: guexa, rexa, sexa, reflexa, anexa, caxexa, almadraquexa, aduzirhexa, carrexa, barexa, centenariohexa, amexa, alexa, campeonatohexa, brunirhexa, convexa, colexa, circunflexa, genuflexa, conexa… Difícil mesmo vai ser encaixar!

Volto às palavras de José Benedito Assunção, na carta Ufanismo do Louco, acima transcrita: “Concluo portanto que a única coisa que brasileiro leva a sério mesmo é festa.” Estamos quase empatados, digo eu. Falou em festa, é comigo mesmo!

Terminando, para alegrar o réveillon de todos nós, saudando o Ano Novo, esse 2014, que será praticamente só de festa, escolhi uma seleção de pupurris de marchinhas, sambas e frevos de rua que, tenho certeza, serão do agrado geral.

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Com Pixinguinha e sua Banda:

MARCHINHAS – 11 minutos: Tem Gato na Tuba, Deixa a Lua Sossegada, Pirolito, China Pau, Pirata e Touradas em Madrid, todas de João de Barro e Alberto Ribeiro.

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SAMBAS – 10 minutos: Nós Queremos Uma Valsa (Nássara e Frazão), O Que É que Você Quer Mais? (Nássara e Roberto Martins), Mundo de Zinco (Nássara e Wilson Batista), Me Queimei (Nássara e Walfrido Silva) e Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins).

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Com a Orquestra 1º de Novembro, a Pé da Cará, de Timbaúba (PE):

FREVOS DE RUA – 09 minutos: Brasil/Espanha (Paulo Silva), Cabelo de Fogo (Maestro José Nunes), e Toureiro (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira).

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CRÔNICA DE UMA SERESTA NATALINA BALSENSE

fin

Figura meramente ilustrativa

Aconteceu há exatos 53 anos, noite de 23 para 24 de dezembro de 1960, sexta-feira, antevéspera do Natal.

Numa cidade em que não havia televisão, e a iluminação pública apagava por volta das 22 horas, a opção noturna para o encontro da mocidade em férias se resumia nas festas dançantes que realizávamos no Clube Recreativo Balsense ou em alguma casa de família, com iluminação a petromax e música a cargo do conjunto de Martinho Mendes. A cota arrecadada entre os rapazes cobria todas as despesas.

Estávamos radiantes com a festa que realizaríamos no clube naquela noite, quando recebemos um balde de água fria: o bispo da Prelazia, Dom Diogo Parodi, proibira qualquer dança no período natalino, por ser uma época de recolhimento e orações, como afirmava. E não houve jeito de contornar o assunto. A presidência do clube caçou-nos a licença já concedida, o Martinho tirou o corpo fora, e nenhuma casa da família se atreveu a contrariar a ordem episcopal. Diante do impasse, resolvemos partir para uma serenata.

Marcamos o ponto de reunião no coreto – hoje inexistente – da Praça da Matriz – e, enquanto aguardávamos a lua sair e a chegada dos seresteiros, demos início ao consumo de bebidas quentes – licor Perobina, cachaça Jararaca, conhaque São João de Barra, Martini, quinado Cinzano e rum Bacardi -, ao mesmo tempo em que entoávamos cantigas em altos decibéis, para acordar o pessoal da Casa Paroquial, verdadeira pirraça em desagravo.

Um dos seresteiros era o preto velho Fuçura, guarda municipal e vigia dos jardins da praça. Dávamo-lhe boas doses de pinga e mandávamos que ele gritasse bem alto DOM DIOGO!, porém ele, respeitoso por demais, repetia: PÃO DE OURO! Outro companheiro a chegar foi o Thucydides Miranda, filho da Jeruza, entrado na adolescência mas todo metido a rapaz. Ele e o Fuçura ficaram responsáveis pelo transporte das garrafas sobressalentes – as cheias, evidentemente.

Pela meia-noite, a trupe estava completa: José Bernardino, Gonzaguinha, Antônio Pires, Pinto Pires, Cazuzinha, Luiz Pires, Aluisio Soares, Raimundo Chaves, José Coutinho, Angelino, Barbosa, Raimundo Solino, Arenaldo, Otaviano do Zé do Joca, Nonato do Souzinha, Moacir Coelho, Mestre Rubens, Pedro Correia e João Batista, seu irmão, Nonato Cacete, Luizão, Pedro Nilo, Fonsequinha, Ronaldo, Moizemar, João Emigdio, Zé Farias, que chegara de Brasília em teco-teco fretado, além mim no violão, meu irmão Afonso Celso na sanfona, Possidônio da flauta e Régis, novo morador balsense, no cavaquinho.

A casa escolhida para início da jornada foi a de Seu Araripe, na Rua Isaac Martins, por motivos óbvios: grande concentração de moças bonitas e dos sonhos de alguns. O próprio Araripe veio à porta, ofereceu-nos bebidas e, após nossos cânticos, ele e seu filho José, o Sampaio, incorporaram-se ao cortejo.

(É oportuno relembrar que a residência de Seu Araripe e Dona Tercília, sua mulher, era o ponto de reunião da juventude balsense em férias. Dançava-se à luz de candeeiros ou lamparinas, ao som dum rádio de pilha – foi ali que aprendi a dançar. Em noites de claridade lunar, dispunham-se, no terreiro em frente, num grande círculo, cadeiras arrecadadas na casa e na vizinhança, onde se realizavam diversas brincadeiras sertanejas, como a do anel, a da berlinda e a do amigo secreto, sempre sob a direção das filhas daquele querido e simpático casal cearense. Uma delas, por sinal, recém-nascida em 1960, participou, 18 anos mais tarde, do concurso Miss Brasil, representando o Estado do Ceará).

A seguir, cantamos na porta de Marica Rocha, Salomão Ahuad, Moisés Coelho, Chico Florentino, Doutor Gonzaga, Augusto Pires, Absalão da Maroca e, por solicitação de Seu Araripe, na de Dionel Souza, do Banco da Amazônia, grande cantor de modinhas, o qual também a nós se juntou. Seu ponto forte era a valsa Uma Grande Dor Não Se Esquece, de Ernani Campos e Antenógenes Silva, gravação de Carlos José e Gilberto Alves, que ele entoou uma porção de vezes durante o percurso, atendendo a pedidos:

Choro a lágrima fremente
O pranto cruciante
Que rola internamente
Choro a lágrima sentida
A lágrima dorida
Que verte o coração
Sinto o espinho da saudade
E sofro a realidade
Da grande ingratidão
E na imensidão da dor
Eu sofro só o meu amor

Menestrel apaixonado
Eu vivo desolado
Chorando a minha dor
Choro a lágrima dorida
A lágrima sentida
Que sai do coração
Sinto a dor que mora n’alma
A dor que não se acalma
A dor que eu não esqueço
Sofro, eu sofro e não mereço
A dura ingratidão
Que me devora o coração

Continuando a seresta, paramos na porta do Coronel Fonseca, Pedro Inácio, Odilon Botelho, Jocy Barbosa, Luiz Fonseca e Theodorico Fernandes, onde topamos com o Antônio José da Úrsula, munido de uma radiola a pilha, em seresta particular, com discos em que dominavam os nomes de Lindomar Castilhos, Agnaldo Timóteo e Waldick Soriano. Deixamo-lo no local, curtindo uma grande paixão, e seguimos até a próxima casa, a de Seu Silvério Sampaio, onde seus filhos Antônio e Edésio se juntaram ao corso.

Dali, seguimos para a casa de Dona Nemézia Pereira, que veio nos receber, abriu sua mercearia e nos abasteceu de bebidas quentes, cujo estoque estava quase a zero.

Nesse momento, baixou em Dionel a personalidade do Cabo Didi, ao qual passamos a obedecer, principalmente no que tangia ao consumo das quentes. Quando ele achava que era chegado o momento apropriado, cada um pegava sua garrafa e executava estas ordens sob seu comando:

– Atenção!

– Preparar! – Todos segurávamos a garrafa pelo gargalo.

– Apontar! – Encostávamos a boca garrafa nos lábios.

– Fogo! – Nem preciso dizer.

Da porta de Dona Nemézia, fomos até a de Dona Belinha, que nos serviu tira-gostos de queijo e cujo marido, Tenente Pedro Segundo, também se juntou a nós. Mas antes, a pedido de Dona Belinha, cantamos a toada Luar do Sertão, melodia de João Pernambuco e letra do maranhense Catulo da Paixão Cearense, a música mais repetida naquela noite.

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Noite enluarada no sertão brasileiro

Apenas quem mora em locais onde não há iluminação elétrica é que pode avaliar a beleza duma noite enluarada. E foi nessa pureza sem poluição tecnológica que Catulo se inspirou para fazer sua mais bela poesia. Luar do Sertão é o Hino da Seresta Maranhense. Eis a parte mais conhecida:

Oh, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia a nos nascer no coração

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir-se um galo triste, no sertão, se faz luar
Parece até que a alma da lua é que descanta
Escondida na garganta desse galo a soluçar

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina
Onde à tarde a sururina chora a sua viuvez

Faziam parte de nosso repertório Noite Cheias de Estrelas, de Cândido das Neves, A Volta do Boêmio, de Adelino Moreira, Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, Noite Feliz, de Franz Gruber, versão brasileira Mário Zan e Arlindo Pinto, Boas Festas, de Assis Valente, e outras canções no gênero consagradas.

Altas horas, próximo à porta de Justiniano Fonseca, onde íamos cantar, deparamos com o negro De Pau – assim era conhecido -, deitado numa calçada, dormindo de roncar e agarrado a seu violão, nessas alturas só com duas cordas. Era a terceira serenata daquela noite que, para o negão, se acabava ali.

Na mercearia de Zé Dué, reabastecemos o estoque de quentes.

Demais casas em cujas portas cantamos: Joaquim Coelho, Joca Rêgo, Tarcísio Moreira, Lourdes Pires, Constâncio Coelho, Omar Ribeiro, Salvador Coelho, Chico Valentim, Zefinha e Miriam Rocha, Rafael Sabonete, Antônio Sepúlveda, Luzia Félix, Parsondas Coelho, Emília Câmara, Santo Coelho, Edna Pires, Gesner Soares, Didácio Santos, Dolores Lima, Ritinha Pereira, Evísio Botelho, Iaiá Gomes, Naninha Bezerra, Alice Farias, Tonica Miranda, Mestre Carlos, Sinharinha Florentino, Maria Luíza Solino, Souzinha, Josefa Baúba, Homerico Gomes, Pedro Ivo e Zé Marques.

Em cada parada, o por todos ansiado comando do Cabo Didi: Atenção! Preparar! Apontar! Fogo! A certa altura, demos com a falta do Thucydides, ao notarmos que ele repassara ao Fuçura as bebidas sob sua guarda. Mandamos procurá-lo, sendo ele encontrado na Rua do Zé Bento, escornado na calçada do Major Lisboa. Aí, descobrimos que, invariavelmente, ao ser comandado, também o garotão fazia fogo. Reanimado a troco de água fria na cara, foi conduzido à casa da Jeruza, e a ela entregue, para especiais cuidados maternais.

Quase raiando o dia, chegamos à porta de Seu Rosa e Dona Maria Bezerra, meus saudosos pais onde, depois de cantarmos a Valsa da Despedida, Robert Burns, versão de Braguinha e Alberto Ribeiro, a turma se dispersou, finalizando a seresta.

Na maioria das residências onde paramos, as meninas-objeto de nosso romantismo vieram à janela para ouvir-nos, sorrir-nos e, em muitos dos casos, acenar-nos com venturosas esperanças.

No dia seguinte, para que a população balsense identificasse as ruas por onde a seresta passou, bastava seguir a trilha de garrafas vazias deixadas pelo caminho.

Os menestréis éramos quase todos nós. Meu carro-chefe seresteiro sempre foi a toada Rancho da Serra, de Herivelto Martins e Blecaute, gravada em 1956 pelo Trio de Ouro, aqui na interpretação de Rolando Boldrim:

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Como não poderia faltar, ouçamos também a toada Luar do Sertão, na voz de Inezita Barroso:

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LEITURAS DIVERSAS: DEL NERO E XICO BIZERRA

Noite de 20 para 21 de novembro de 2013. Na TV, o jogo entre Atlético do Paraná e Flamengo pela Copa do Brasil, no qual eu não tinha interesse algum, eis que vascaíno já eliminado. Enquanto a bola corria, aproveitei para ler este livro, de autoria do General Agnaldo Del Nero Augusto, formado em Ciências Econômicas, cuja última função na ativa foi a de Subsecretário de Economia e Finanças do Comando do Exército:

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Um pouco depois da virada da meia-noite, eu acabara de virar a última das 478 páginas desse tratado, que discorre sobre as três tentativas de tomada do poder pelos comunistas no Brasil.

A primeira, Intentona Comunista de 1935, encabeçada pelo chefe do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes, sob a inspiração dos ensinamentos recebidos em Moscou, quando militares brasileiros chegaram a assassinar, friamente, colegas de farda ainda dormindo: a Democracia venceu! A segunda, com desfecho em 1964, liderada pelo Presidente João Goulart e Leonel Brizola, seu cunhado, caracterizada pela sublevação nos quartéis, gerando a indisciplina e jogando sargentos, cabos e soldados contra os oficiais: a Democracia venceu! A terceira, a partir de 1964 até meados dos Anos 1970, configurada em ações de militantes treinados em Moscou, na China e em Cuba, notadamente com atos terroristas, assassinatos de adversários, de pessoas inocentes e justiçamentos de companheiros seus, guerrilhas, assaltos a quartéis, bancos, empresas e residências: a Democracia venceu!

O título do livro, A Grande Mentira, é justificado no epílogo pelo fato de que todos os autores derrotados nas citadas tentativas, desde há algum tempo, são considerados, Heróis da Pátria, recebendo homenagens, indenizações e nomeando monumentos oficiais.

Como o livro foi lançado em 2001, fui dormir com a curiosidade em saber como o autor classificaria o período a partir de então até os dias atuais, com a corrupção galopando adoidado, e culminando, neste final do ano de 2013, com a prisão dos denominados mensaleiros, recém-condenados pelo Supremo Tribunal Federal, após demorado processo, no qual lhes foi concedido o amplo exercício de defesa *.

Ao acordar no dia 21, recebo o Correio Braziliense, maior jornal da Capital da República, e sou surpreendido com a notícia de que o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília – PPCub prevê a criação do Memorial João Goulart, no Eixo Monumental, entre a Praça do Cruzeiro e a Catedral Rainha da Paz, análogo ao Memorial JK, erigido em homenagem ao fundador da Capital Federal. O que se vê confirmado na edição de 23.11.13, com esta nota na primeira página:

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Volto à manhã do dia 21. Ao sair para a habitual sessão de fisioterapia, recebo um pacote com este valioso presente a mim enviado pelo amigo Xico Bizerra:

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Levei o livro comigo. Enquanto a doutora realizava os procedimentos iniciais, comecei a leitura. Mais ou menos lá pela vigésima página, ela deu uma sacada no livro e me perguntou quem era Xico Bizerra. Aí eu falei tudo o que eu sabia do Xico, tudinho mesmo, e, para ilustrar, contei-lhe a historinha a seguir.

No batente da entrada do Banco do Brasil da 406 Sul, costuma arrecadar adjutórios de almas caridosas um cego com quem gosto de conversar quando vou por lá. E foi um custo da bixiga saber como era seu nome, pois sua dicção, prejudicada pela idade e pela ausência de muitos elementos mastigantes em sua arcada dentária fazia com que eu entendesse que ele se chama “A Mĩa Esquerda”. Por mais que ele repetisse, a surdez que me assola fazia com que não escutasse nada mais do que isso: A Mĩa Esquerda. Até que um dia, uma senhora que saía do banco se interessou em nosso diálogo, o que me fez solicitar-lhe a tradução do nome desse amigo. Ao ouvi-lo, ela falou: “Acho que é Aminstêran!” E aí, a ficha caiu para mim. O nome do moço é Amsterdam, que ele pronuncia Amstêrdam!

Pois bem – falei para a doutora -, na talentosa arte do Xico Bizerra, isso daria uma crônica recheada de amor, ternura, sensibilidade e muita saudade. Porque saudade é a tônica dominante desse comovente livro com que ora brinda nosso coração. Luiz Berto, em genial prefácio, também reconhece o quanto de saudade está impregnado nas 130 crônicas componentes do lindo Breviário Lírico desse poeta em prosa, que também esbanja extasiante capacidade de síntese, ao propiciar-nos crônicas as mais diversas contidas cada qual numa única página de reminiscências e profusão, repito, de muita saudade.

Saudade que me transportou ao Crato da infância do Xico e de minha mocidade em fevereiro de 1957, “quando eu vinha do sertão sul-maranhense para conquistar o mundo, trazendo a coragem e a cara, viajando num pau-de-arara”, e passei ali uma noite. Tempo bom aquele, da estrada piçarrada, mas cuja poeira me fez desejar tomar um banho e, mas na pensão do pernoite não havia água, para isso.

Acasos bem-vindos – pasmem-se vocês! – acontecem, podem crer. Estava eu sentado na calçada da pensão, agoniado de calor, pó até no olho do fiofó, quando ia passando o balsense Sebastião, meu amigo de infância, filho de Seu Salustiano Rodrigues, vulgo Lampião, e de Dona Rosalina. Ao reconhecê-lo, chamei-o, e foi muita alegria aquele reencontro. Disse-lhe da minha vontade de banhar-me, e ele me falou que uma de usas irmãs, a Maria da Glória – a Maria Lampião – compunha o elenco de garotas que alegravam a doce vida dos cratenses numa boate ali perto, onde havia um poço. Foi mão na roda! Tomei um banho caprichado, troquei de roupa e fiquei por lá, apreciando o movimento, de onde só saí de madrugada, na hora de embarcar no pau-de-arara.

A parte musical da boate ficava a cargo de um conjunto com pistom, saxofone, sanfona, banjo, pandeiro e bateria. Em dado momento, foi executado o frevo de rua Esquenta-Mulher – Isquenta-Muié -, de Nélson Ferreira, e aí quem esquentou foi o salão. Minto, pegou fogo!

Aquele frevo, lançado no ano de 1955, e que ali eu ouvia pela vez primeira, e a cidade do Crato ficaram arraigados em meu gosto musical, em minha memória nordestina, e todas as vezes que o ouço é do Crato que me lembro. E com razão. A introdução faz referência ao Juazeiro de Luiz Gonzaga e também ao Juazeiro do Padim Ciço e, em decorrência, aos cangaceiros de Lampião, ao Cariri, ao Crato de Xico Bizerra.

Agora, vocês hão de me perguntar: – E o que o Breviário Lírico, do Xico Bizerra, tem a ver com A Grande Mentira, de Agnaldo Del Nero? E eu respondo: – Muito, mas muito mesmo. Vejam esta nota publicada aqui em Brasília no Jornal da Comunidade, edição de 23/29.11.13:

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E leiam esta crônica de Xico Bizerra, publicada no Breviário, na qual ele remonta a um tempo nem tão distante, mas que também já virou saudade:

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Concordando com o Xico, só me resta exclamar:

- Reaje, Brasil!

* Estou aguardando a chegada nas livrarias do livro Década Perdida: Dez Anos de PT no Poder , de Marco Antonio Villa, já resenhado na Veja de 17.11.13. Vamos ver no que vai dar.

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FALCÃO, O ARQUITETO DO BOM HUMOR

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Amanhã, 10 de dezembro, é o Dia do Palhaço. Com muita alegria, presto homenagem a esse homem-show, para mim o ponto alto da Música Popular Brasileira no início da Década de 1990, quando vivíamos a estagnação criativa no cenário artístico nacional, um sangue novo surgido em meio ao marasmo. Para dizer o mínimo, Falcão foi o que tocou aqui em casa no réveillon 1991/1992. Sacana no mais alto grau, ele mesmo se qualifica: cantor, corno, apresentador e compositor brega, notadamente no estilo irreverente e cômico.

Marcondes Falcão Maia nasceu em Pereiro, interior do Ceará, no dia 16 de setembro de 1957, onde morou, até os 12 anos, numa casa simples. Por influência do pai, o farmacêutico da cidade e “o único lá em Pereiro que tinha radiola, com uma grande coleção de discos, de gosto muito eclético”, escutava música italiana e cantores como Waldick Soriano, Núbia Lafayete, Nelson Gonçalves, e Orlando Silva, d0nstuindo seu bom gosto musical.

Ocasionalmente, também captava, pelas ondas sonoras das emissoras radiofônicas cariocas, como a Globo, Nacional, e Tupi, as músicas dos Beatles e da Jovem Guarda. Em 1970, mudou-se de vez para Fortaleza, indo estudar no colégio Júlia Jorge, na Parquelândia. Na Capital cearense, Aprendeu a tocar violão e conheceu Tarcísio Matos, seu futuro parceiro musical.

Por gostar de desenhar, optou pela área de Arquitetura. Após se formar Técnico em Edificações, na Escola Técnica Federal do Ceará, em 1978, Falcão começou a trabalhar como desenhista, enquanto se preparava para o vestibular da Universidade Federal do Ceará, na qual entrou, em1981, no Curso de Arquitetura, depois de cinco tentativas.

Ao mesmo tempo, investia na carreira artística. Em 1980, fundou, juntamente com Tarcísio Matos, Flávio Paiva, Eugênia Nogueira e outros estudantes de Comunicação Social, a publicação Um Jornal Sem Regras, cujos integrantes também formaram um grupo musical, o Bufo-Bufo.

As composições eram irreverentes e revestidas de consciência política. Enquanto Tarcísio e Flávio queriam fazer uma coisa mais séria, pendendo para MPB, Falcão mudava as letras, para ficassem mais cômicas,

Sua primeira incursão musical foi ainda em 1988. Tarcísio Matos trabalhava no Banco do Brasil e, junto com Falcão, se inscreveu no Festival da Canção Bancária, realizado no BNB Clube. Em contraste às canções sérias do festival, apresentaram o bolero brega escrachado Canto Bregoriano II, com letras sobre Igreja, acompanhamento de coral, e Falcão usando a vestimenta colorida que se tornou sua marca registrada.

O público aplaudiu, mas a apresentação recebeu nota zero de todos os jurados. No Natal do mesmo ano, Falcão fez seu primeiro show solo, no bar Pirata, em Fortaleza. Em seguida, passou a apresentar-se aos fins de semana, sendo inclusive tachado como comediante, pelo fato de, na época, surgirem muitos humoristas do Ceará, como Tom Cavalcante.

Em 1990, lançou, de forma independente, o álbum Bonito, Lindo e Joiado, contendo o citado Canto Bregoriano II, que já era sucesso regional; I’m Not Dog No, versão em Inglês de Eu Não Sou Cachorro Não, de Waldick Soriano, “para que as rádios brasileiras desse atenção a nossa música”, já que a ascensão das rádios FM fez a maior parte das estações tocarem só música estrangeira; Vão-se os Cabaços, Ficam-se os Desgostos; Só É Corno Quem Quer; e outras 7 faixas de igual apelo homorístico.

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No ano de 1991, a gravadora Continental relançou Bonito, Lindo e Joiado, dando-lhe visibilidade nacional e levando o artista a ser entrevistado por emissora de TV de São Paulo. Era só o começo.

Por influência de Raimundo Fagner, que conseguiu a gravação em fita cassete de um show de Falcão, chamou a atenção da gravadora BMG. Enquanto I am Not Dog No virava seu primeiro sucesso de abrangência nacional, gravou, pela BMG, o disco O Dinheiro Não É Tudo, Mas É 100%, em 1994. Repetindo a fórmula anterior, o novo disco tinha a música Black People Car, traduzindo a letra de outro sucesso brega, Fuscão Preto, carro-chefe do sertanejo Almir Rogério. Seu álbum seguinte, A Besteira é a Base da Sabedoria, de 1995, tornou-se o mais vendido da carreira de Falcão, com 240 mil cópias, alçado pelo sucesso Hollyday Foi Muito.

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Ficou na BMG até 1998, gravando mais dois discos para o selo. Paralelamente, comandou um programa televisivo, Falcão na Contramão, exibido pela na Rede Bandeirantes.

Sua carreira, desde há muito, se consolidou, configurada numa agenda de espetáculos completamente lotada.

Em 2012, Falcão estreou um talk show, Leruaite, na TV Ceará, levando a cada sessão um convidado diferente do meio artístico, político ou empresarial. No programa, também atua o conjunto Num Tô Nem Vendo, formada por músicos com deficiência visual.

Ainda em 2012, Falcão foi considerado um dos 30 cearenses mais influentes do ano, de acordo com enquete realizada pela revista Fale!

Esta é sua discografia conhecida: Bonito, Lindo e Joiado, 1992; O Dinheiro não É Tudo, Mas É 100%, 1994; A Besteira É a Base da Sabedoria, 1995; A Um Passo da MPB, 1996; Quanto Pior, Melhor, 1997; 500 Anos de Chifre, 1999; Do Penico À Bomba Atômica, 2000; Maxximum: Falcão – Coletânea, 2005; e What Porra Is This?, 2006, toda ela facilmente à disposição em sebos virtuais.

Selecionei o Falcão para homenagear no Dia do Palhaço deste ano porque o considero a mistura de tudo que conheço no setor histriônico: comediante, humorista, palhaço, velho do pastoril.

Para botar música nesta minha conversa, escolhi o balanço Black People Car, composição de Atílio Versutti e Jeca Mineiro e versão de Falcão e Tarcísio Matos:

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GLORIA ESTEFAN, JOVEM LÍDER ANTIFIDEL

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, e, pra não dizer que não falei de flores, apresento-lhes agora esta jovem cantora, de prestígio internacional, que, embora vivendo no Exterior, guarda no sangue a tradição dos ritmos de sua Pátria: Gloria Estefan.

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Gloria Maria Milagrosa Fajardo, a Gloria Estefan, cantora cubana radicada nos Estados Unidos, nasceu em Havana, no dia 1º de setembro de 1957. Já vendeu mais de 100 milhões de discos no mundo todo e é um os cem artistas mais vendedores de todos os tempos.

De família humilde, Gloria, desde tenra idade amava de coração a música cubana e sempre ficava tocando, em seu violão, canções que sua avó lhe ensinava.

Com menos de dois anos de idade, sua família teve que se mudar para Miami, por discordar da ditadura comunista imposta em Cuba por Fidel Castro. Seu pai acaba se tornando militar nas Forças Armadas americanas, indo lutar na Guerra do Vietnã e vindo a falecer logo após o término do conflito, fazendo com que Gloria continuasse a enfrentar a dureza da vida, juntamente com a mãe e Rebeca, sua irmã.

Gloria participava como colaboradora de grupos estadunidenses que cantavam versões das músicas dos Beatles e dos Rolling Stones, mas foi na Universidade de Psicologia que conheceu o cubano Emilio Estefan, seu atual esposo, que na época já líder de um grupo musical chamado Miami Latin Boys.

Vendo Gloria cantar na igreja, Emilio não hesitou em convidá-la para entrar no grupo. De início, ela resistiu, mas acabou aceitando o convite, passando o conjunto a denominar-se Miami Sound Machine. Emilio e Gloria, com o transcorrer do tempo, começam a namorar e, em 1978, se casam. Um ano antes, em 1977, o grupo já fazia shows. Logo após, é lançado seu primeiro LP, denominado Renacer.

Outros álbuns se sucederam, como Miami Sound Machine, em1978, Imported, 1979, MSM Piano Album, 1980, Otra Vez, 1981, Rio, 1982 e A Toda Máquina, 1983. De 1977 a 1984, o grupo já mesclava Pop, Rock e sons latinos com canções, tanto em inglês, como em castelhano, e fazia excursões pelas América Central e do Sul. Foi nesta época que o Brasil recebeu a primeira visita de Gloria Estefan, mas como turista, e não em turnê com seu grupo.

Em 1980, nasce-lhe o primeiro filho, Nayib Estefan. Um ano depois, a CBS lhe oferece um contrato para shows e lançamentos de álbuns em toda América Latina. Em 1984, é lançado Eyes of Innocence, o primeiro álbum da banda Miami Sound Machine em Inglês, tendo Gloria como vocalista, que alcançou repercussão, não apenas nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra e na Austrália, onde o single Doctor Beat entrou nas paradas na categoria Hot Dance. A partir daí, iniciava-se a trajetória internacional daquela que viria a ser a Rainha do Pop Latino.

Depois do relativo êxito, é lançado, em 1985, Primitive Love, que traz Conga, o primeiro single de sucesso mundial do Miami Sound Machine. O álbum também gerou outros megassucesso, como Words Get In The Way e Bad Boy. Primitive Love vendeu mais de seis milhões de cópias, só nos Estados Unidos. O single Conga garantiu seu registro no Guiness Book of Records, como o único compacto na história a figurar, ao mesmo tempo, nas paradas Pop, Latina, Soul e Dance, da revista Billboard.

A partir de então, sua carreira teve ascensão estrondosa. Em 1993, foram lançados três álbuns: seu primeiro álbum solo em espanhol Mi Tierra, rico em sons latinos, que vendeu mais de 8,5 milhões de cópias em todo o mundo e lhe valeu o primeiro Grammy Award de sua carreira; sua primeira coletânea em Inglês, Greatest Hits, de repercussão mundial; e Christmas Through Your Eyes, álbum natalino de pouco destaque, que colocou o single tema do álbum como carro-chefe.

Possuo em meu acervo estes dois CDs de sua vastíssima discografia, sobre o segundo dos quais adiante passarei a falar:

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Dois anos depois do grande sucesso de Mi Tierra, é lançado Abriendo Puertas, álbum natalino em espanhol, que lhe deu segundo Grammy Award e foi um dos mais tocados em 1995. Destaque para Abriendo Puertas, Más Allá e Tres Deseos, todas classificada em 1º lugar na categoria Hot Latin Tracks da Latin Billboard. E os Grammys não pararam por aí.

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Um dos pontos altos de sua vitoriosa carreira foi em 1996, no encerramento das Olimpíadas de Atlanta, quanto cantou para mais de um bilhão de pessoas, além de ter a oportunidade de mostrar seu talento a Cuba, já que ali a viu quem tinha antena parabólica pois, desde há muito, Fidel proibira que suas músicas tocassem na Ilha. No mesmo ano, encerrou sua brilhante carreira nos palcos, eis que, cada vez mais, fazia menos espetáculos, em função da família, com quem queria estar mais presente, até porque acabara de nascer sua filha Emilly Estefan. A partir de então, passou a atuar apenas nos estúdios de gravação, com lançamentos que se sucedem e também com participação no cinema.

Atualmente, tem-se demonstrado uma das principais líderes internacionais do forte movimento de oposição ao regime comunista em Cuba. No dia 23 de março de 2010, decidiu, juntamente com o marido, convocar a população de Miami para grande marcha de protesto na famosa Calle Ocho. Dois dias depois, 200 mil pessoas compareceram, vestidas de branco, para prestar solidariedade ao movimento das “damas de blanco” e à família do prisioneiro político Orlando Zapata, que morrera, a 23 de fevereiro, fazendo greve de fome em Havana. A pressão parece ter funcionado: o Presidente Barack Obama viu-se obrigado a pedir um encontro pessoal com Gloria e Emilio, a fim de tratar do tema.

Depois disso, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas pela cantora.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição nos sites virtuais.

Gloria Estefan, confirmando a tradição e o sangue cubano nas veias,era uma perfeita rumbeira nos palcos, os quais eletrizava com sua esfuziante presença:

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Para mostrar-lhes pequena amostra de seu trabalho, escolhi o merengue Tres Deseos, do CD Abriendo Puertas, composição e arranjo de Kike Santander, que fala de como é bom termos no coração o amor por nossos semelhantes. Vamos ouvi-lo:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

ORQUESTRA LA SONORA MATANCERA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade à pesquisa focalizando, hoje, essa grande orquestra de renome internacional, La Sonora Matancera, a criadora da Salsa.

A Orquestra La Sonora Matancera, foi fundada no dia 12 de janeiro de 1924, na casa de Valentim Cane, tocador de três – instrumento de cordas afro-caribenho -, localizada no aprazível Bairro Ojo de Agua, na cidade de Matanzas, deleito musical cubano, capital da província do mesmo nome, região Centro-Oeste de Cuba, com o nome de Atuneiros Liberal. Participaram do ato Paul Vasquez Govin, o Buiu, baixo; Manuel Sanchez, o Jimaga, timbale; Ismael Governadores, pistom; Domingo Medina, guitarra; Julio Govin, guitarra; José Manuel Varela, guitarra; e Juan Bautista Llopis, guitarra.

No ano 1926, foram admitidos Carlos Manuel Diaz, o Caíto e Roglio Martinez Dias, El Galego que, no futuro, daria destaque internacional à orquestra. Reformulada, com a saída de alguns membros e a admissão de outros, o conjunto passou a denominar-se Sexteto Soprano. Em 12 de janeiro, três anos após sua fundação, com o nome de Sonora Matancera Estudiantina, mudou-se para Havana, no intuito de conquistar espaço no competitivo mercado musical cubano dominado por estas feras: Septeto Habanero, Septeto Bologna, National Septeto, Trio Matamoros, Septeto Matancero e Pinareño Septeto. Em novembro do mesmo ano, realizou, na RC Victor, suas duas primeiras gravações.

O início dos Anos 1930 é marcado pela expansão do rádio e momento propício para a consolidação da orquestra, que recebe sua denominação definitiva, La Sonora Matancera, apresentando-se em todas as estações de rádio do país.

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De 1932 a 1948, a orquestra incorporou vários músicos, adquirindo personalidade própria com ritmos dançantes e sendo imitada por outros grupos desde então, nesses 89 anos de existência ininterrupta.

La Sonora Matancera foi responsável pelo lançamento de muitos cantores aos píncaros da glória, os quais, após nela atuarem como crooners, alçaram voo em carreira individual, sendo os mais visíveis deles no Brasil Binvenido Granda, de meados dos anos 1940 até 1954, e Célia Cruz, que o substituiu.

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A união de todos instrumentos de corda, sopro e percussão com as vozes convergindo para o ritmo inconfundível e irresistível de La Sonora Matancera, deveu-se ao trabalho tenaz de arranjador Severino Ramos, o Refresquito. O apoio e colaboração ativa de Radio Progreso foram definitivos para a internacionalização da orquestra. A estação de rádio de ondas curtas, como um canhão, trovejou por toda a Bacia do Caribe.

O período entre 1950 e 1959, época de esplendor e fantasia, é considerado como a Idade de Ouro do showbiz cubano, com a força dada pela nova invenção tecnológica: a televisão.

Mas ai, desabou a tragédia sobre o cenário artístico-musical da então conhecida como a Pérola das Antilhas. Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

As ditaduras de Cuba e, posteriormente, da Venezuela, arrolharam a boca musical daqueles países, fazendo que com que o merengue praticamente desaparecesse do cenário mundial. Com isso surgiu um novo ritmo, que foi a música hoje chamada salsa, uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que o ritmo surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa. A palavra significa molho, e a mistura desses ingredientes resultou num sabor muito picante, fazendo com que os norte-americanos aprendessem a dançar da cintura para baixo.

A passagem do tempo é inexorável. Muitas estrelas do passado, com seu falecimento, vêm sendo substituídas por novos personagens, igualmente valorosos, o que contribui para o sucesso também sempre renovado de La Sonora Matancera que, nesses 89 anos de atuação, já se apresentou em palcos de todo o Planeta Terra.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição em sebos virtuais.

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi, do CD acima, a salsa de Sabrosito Asi, de José Reina. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

CELIA CRUZ, A RAINHA DA SALSA

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Celia Cruz

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, continuo hoje focalizando essa grande artista de renome internacional que foi Celia Cruz, a Rainha da Salsa.

Celia Cruz – Úrsula Hilaria Celia Caridad Cruz Alfonso – cantora cubana, nasceu em Havana, no dia 21 de outubro de 1925, e faleceu na cidade americana de Fort Lee, Nova Jersey, a 16 de julho de 2003, perto de completar 78 anos de idade.

Passou a juventude em Santos Suárez, bairro pobre de Havana, onde se viu influenciada pela diversidade musical e a riqueza dos ritmos cubanos. Ainda adolescente, ganhou o concurso “La hora del té” – A Hora do Chá -, o que deu impulso a sua carreira. Enquanto sua mãe a encorajava a participar de outros certames pelo País, seu pai, mais tradicional, tinha outros planos e a incentivou a tornar-se professora, ocupação comum para as mulheres cubanas de seu tempo.

Celia matriculou-se no Colégio Nacional de Professores, mas logo abandonou o curso, diante do sucesso que fazia nas apresentações em estações de rádio. Conciliando o crescimento de suas aspirações artísticas com os desejos do pai para que continuasse estudando, matriculou-se no Conservatório Musical Nacional em Havana. No entanto, em vez de encontrar razões para prosseguir na trilha acadêmica, um de seus professores convenceu-a de que ela deveria insistir em sua carreira de cantora em tempo integral, o que foi feito.

No ano de 1948, realizou sua primeira gravação. Em meados Anos 1950, Célia foi alavancada para o estrelato, quando começou a atuar como crooner da famosa Orquestra La Sonora Matancera.

Inicialmente, houve o temor de que Celia não faria o mesmo sucesso do crooner anterior, Bienvenido Granda, e a dúvida se uma voz feminina venderia discos como de costume. Mas Celia impeliu a Orquestra – e a Música Latina, em geral – para novas alturas, excursionando com La Sonora Matancera pelas Américas do Norte e Central, até quase o final da década.

Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

No ano de 1961, Celia Cruz tornou-se cidadã americana, e isso provocou a fúria de Fidel Castro que, em represália, proibiu sua entrada no país, assim como que ali fosse tocada qualquer de suas músicas.

Por algum tempo, a artista permaneceu relativamente desconhecida nos Estados Unidos, além de inicialmente refugada pela comunidade cubana ali residente, mas quando se juntou à Orquestra Tito Puente, em meado dos Anos 1960, ganhou visibilidade e o aplauso internacional. Puente era largamente conhecido em toda a América Latina e, com a nova formação do grupo, Celia transformou-se em seu foco central, angariando uma grande base de aficionados admiradores. No palco, Celia encantava a plateia, com seus trajes extravagantes e interação com o público – aspectos que engrandeceram e caracterizaram toda sua vida artística de 40 anos como crooner.

Alguns discos que nos deixou:

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Com sua maviosa voz aparentemente inalterada, Célia continuou gravando até além da Década de 1980, num total de 75 discos, inclusive 23 Discos de Ouro, recebendo vários Grammys e Latin Gramys, apareceu em diversos filmes, ganhou uma estrela na Hollywood’s Walk of Fame e foi condecorada pela National Endowment of the Arts com A American National Medal of the Arts.

Participou da novela mexicana, El Alma no Tiene Color, no ano de 1997, exibida no Brasil em 2001, pelo SBT, com o título A Alma não Tem Cor.

Foi casada durante 41 anos com o também cantor cubano Pedro Knight. Em 16 de julho de 2003, ela morreu de um tumor maligno no cérebro, em sua casa em Fort Lee, Nova Jersey, como dito acima. Seu corpo foi embalsamado e levado para Miami e Nova York, de tal maneira que todos lhe pudessem render homenagens.

Seu sepultamento reuniu mais de 150 mil pessoas, em Miami e em New York. O mundo inteiro lhe rendeu homenagens e a comunidade artística mundial reconheceu-a como um de seus mais altos expoentes. O enterro em Nova York constituiu-se num dos maiores que essa cidade recorda, superando, inclusive, o de Judy Garland, em 1969.

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Celia Cruz vibrando com o Grammy/2003

A música hoje chamada salsa é uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que a Salsa surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa.

E Celia Cruz, por ser a maior divulgadora da salsa, predominante em todo seu vastíssimo repertório, foi cognominada A Rainha da Salsa, recebendo, até, um Grammy por isso.

Recentemente, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas por Celia Cruz. Mas só agora?

Possuo em meu acerco dois CDs de salsa dessa grande artista:

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi a salsa de Victor Daniel, La Vida Es Um Carnaval, do CD Éxitos Eternos. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

XAVIER CUGAT, O REI DA RUMBA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Continuando com meu projeto de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, apresento-lhes hoje outro nome desse elenco cheio de estrelas internacionais: Xavier Cugat e Sua Orquestra.

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Xavier Cugat – Francisco de Asis Javier Cugat Mingall De Bru Y Deulofeo –, maestro e compositor catalão-cubano, nasceu na cidade catalã de Girona, Espanha, no dia 1º de janeiro de 1900, a cerca de 100 km de Barcelona, onde veio a falecer, no dia 27 de outubro de 1990, com quase 91 anos de idade.

Quando estava com 3 anos de idade, desembarcou com sua família em Havana, Capital cubana, onde se iniciou no estudo da chamada música clássica. Menino-podígio do violino, nos primeiros anos em Cuba foi impregnado pelos sons das maracas e dos bongôs, que pontuavam o frenesi de rumbas e congas, o que, mais tarde, alimentou seu sonho de concertista, tocando a música dos negros em casas noturnas.

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Compondo uma prole de quatro irmãos e uma irmã, apenas ele se dedicou à Música e, já aos 12 anos de idade, empunhava o violino nas orquestras da Ópera e da Sinfônica de Havana. Aprofundou seus estudos do instrumento em Berlin, Paris e Nova Iorque, quando chegou a acompanhar o tenor Caruso, que muito o estimulou.

Aos 18 anos, descobriu que não seria um grande concertistas, permanecendo nos estados Unidos por mais 5 anos, trabalhando como caricaturista, nas páginas do Los Angeles Times.

Em meados dos Anos 1920, retornou a Cuba, onde passou a desenhar sua própria imagem como bandleader de ritmos latino-americanos. Rumbas, cúmbias, boleros, guarachas, valsas mexicanas, congas, enfim, tudo que fosse das Caraíbas ao Sul do Rio Grande ficava sob sua batuta, recriado em arranjos e sons de sua maviosa orquestra. Foi ele o grande divulgador da Música Latina nos Estados Unidos e na Europa.

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O cinema foi o grande veículo para consolidar sua fama como nome internacional. Em 1936, já atuara em Amores de Uma Vida, da Paramount, com Mae West, mas foi nos anos 1940 que o colorido das telas o levou ao apogeu em sua carreira, com musicais como Escola de Sereias, Romance no México, Numa Ilha com Você, O Príncipe Encantado, com Carmen Miranda, e outros. Também no cinema, acompanhou grandes nomes do showbiz americano, dentre eles Bing Crosby, Frank Sinatra, Perry Como, Dean Martin. Foram 133 filmes no total, como ator ou dirigindo sua orquestra.

Xavier Cugat sempre se empenhou em transmitir ao público a ideia de boa-vida, de mulherengo, o que, para inveja de muitos, era a mais pura verdade. Casou-se com 4 de suas belas e sempre jovens cantoras. Abbe Lane, exuberante, foi a mais famosa delas. Outra paixão de sua vida, e marca registrada, era uma minúscula chihuahua, cachorrinha que agasalhava na palma de mão e carregava no bolso.

Em 1970, depois de várias voltas pelo Mundo, resolveu retornar para sua Espanha – Mi España, como diz o título de uma de suas famosas composições -, a fim de encerrar sua carreira de Maestro e dedicar-se à pintura. Não resistiria, porém, mais do que 5 anos e, em 1975, formou nova orquestra, com 16 figuras, para atuar num hotel de Cabo Salou, na Costa da Catalunha. E, na bela Barcelona, com quase 91 anos, finalmente partiu com sua batuta para reger outra orquestra no Plano Superior.

Grande parte destes dados biográficos é creditada à Editora Revivendo, da qual sou fiel cliente há mais de quatro décadas.

Sua discografia é extensa, e muito títulos são facilmente encontráveis em sites virtuais de busca.

O título de Rei da Rumba lhe foi atribuído pelo ritmo que o caracterizou em suas gravações, hoje imediatamente lembrado quando se fala em seu nome.

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E foi uma rumba, extraída do LP acima, que escolhi para dar-lhes pequena amostra de seu trabalho. Ouçamos, pois, com Xavier Cugat e Sua Orquestra, a rumba The Lady in Red, composição de Xavier, gravada em 1940:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

BIENVENIDO GRANDA, O BIGODE QUE CANTA

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Bienvenido Granda

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado*.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá -, cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade hoje, apresentando outro grande nome dessa constelação, cujos boleros embalaram os primeiros passos dançantes de minha adolescência: Bienvenido Granda.

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Bienvenido Rosendo Granda Aguilera, cantor e compositor cubano de grande popularidade em toda a América Latina, ao longo das Décadas de 1950 e 1960, nasceu em Havana, no dia 30 de agosto de 1915, e faleceu na Cidade do México, no dia 9 de julho de 1983, aos 68 anos de idade.

Órfão de pai aos seis anos de idade, desde criança mostrou afinidade com os ritmos cubanos e os tangos argentinos, que cantava nos ônibus, no intuito de ganhar minguados trocados que lhe garantissem a subsistência.

Aos poucos, foi consolidando sua carreira artística atuando nas emissoras de rádio nos Anos 1940 e 1950. Sua consagração definitiva aconteceu ao juntar-se à Orquestra La Sonora Matancera, em 1940, na qual permaneceu até 1954, quando iniciou sua carreira solo.

Apresentou-se em diversos países da América Latina e, no início da Década de 1960, inconformado ao o regime ditatorial que se apoderou de Cuba, mudou-se para o México, onde fixou residência definitiva. Nessa época, já era conhecido como “O Bigode Que Canta”.

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Sua discografia é extensa, e muitos títulos se encontram à disposição em sites virtuais de busca.

Bienvenido Granda imortalizou composições próprias e de outros autores, notadamente boleros, que ficaram para sempre gravadas em nossa memória: La Ultima Noche, Hipocrita, Tu Precio, Pecadora, Señora, Angustia, En la Orilla del Mar, Nuestra Realidad, Gracias, Soñar, Perfume de Gardenia, Oración Caribe, Soñando Contigo, Calla, Las Muchacas del Cha-Cha-Cha, P de Parada e Ba Bae.

Como pequena amostra desse trabalho, escolhi a primeira música com a qual tomei conhecimento da existência de Bienvenido Granda, o bolero No Toques Ese Disco, de sua autoria, acompanhado pela Orquestra La Sonora Matancera:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

PEREZ PRADO, SUA ORQUESTRA E O MAMBO

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Perez Prado, o Rei do Mambo

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, começo hoje apresentando o primeiro nome que conheci desse elenco e que muito influenciou meu gosto pelos ritmos e melodias tão vibrantes que produziam: Perez Prado e Sua Orquestra.

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Damaso Perez Prado, tecladista, maestro, arranjador e compositor, nasceu em Cuba, na cidade de Matanzas, no dia 11 de dezembro de 1916, e faleceu na Cidade do México, a 14 de setembro de 1989, aos 72 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral. Era filho de Pablo Perez, jornalista, e de Sara Prado, professora.

Estudou música clássica e piano em sua infância e, mais tarde, tocou órgão e piano em clubes locais. Por um tempo, foi o pianista e arranjador para a Orquestra La Sonora Matancera, então o mais conhecido grupo musical de Cuba. Também trabalhou como pianista na Orquestra Casino de La Playa, em Havana, durante a maior parte da década de 1940, quando tinha o apelido de “El Cara de Foca”.

O final dos Anos 1930 e o início dos Anos 1940 foram de dias excitantes para a música pop cubana: os metais adicionaram-se às bandas de “son” – ritmo nativo cubano – de forma vibrante, com influência do swing norte-americano, ganhando enorme popularidade nos clubes e salões de baile de Havana. Nesse período, Perez Prado já era um maestro experiente na forma em que se transformaria em sua marca registrada: o mambo, ritmo dançante quente e rápido, derivado da música africana, espécie de misturas do son com a rumba.

Em 1948, Perez mudou-se para México formando sua própria orquestra, especializadas em mambo, ritmo do qual fui o maior compositor e divulgador, sendo por isso mesmo, intitulado o Rei do Mambo. Jamais voltou a morar em Cuba.

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Em 1950, o arranjador norte-americano Sonny Burke ouviu uma de suas composições, Que Rico Mambo, levando-a para seu país, onde rebatizou-a com o título de Mambo Jambo, cujo single estourou nas paradas de sucesso mundiais, rendendo a Perez uma turnê pelos Estados Unidos, quando começou a gravar para a RCA Victor.

Em 1954, Perez Prado extasiou o mundo com a gravação da rumba de Loughy e Jacques Larue, Cherry Pink And Apple Blossom White, lançada no Brasil como Cerejeira Rosa. Em 1958, com a rumba Patricia, de sua autoria, conquistou o primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos, da Alemanha, da Grã Bretanha, do Brasil, do Mundo, enfim. Além disso, suas composições fizeram parte da trilha sonora de vários filmes e séries de sucesso internacional.

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Sua discografia compreende mais de 30 títulos, alguns ainda encontráveis à venda em mercados virtuais. Desde a instalação da Ditadura de Fidel, Perez Prado nunca mais pisou em Cuba.

Seu filho, Perez Prado Jr., continua a dirigir a Orquestra de Pérez Prado na Cidade do México até hoje.

Mambo Jambo foi a música que marcou a carreira de Perez Prado para sempre, lembrada até hoje pelos que conheceram os Anos Dourados da Música Cubana, ao som da qual o pessoal de minha faixa etária viveu felizes momentos nas festas dançantes de nossa juventude. Mas há uma outra criação desse grande músico que ficou para sempre indelével em minhas lembranças.

Trata-se do Mambo Espanha, que passei a curtir em 1955, quando o Circo Garcia cumpriu temporada em Teresina, capital piauiense, com grande orquestra de sopros e metais. Quando tocava desse mambo, um pistonista se levantava e executava um solo que fazia os camarotes e as arquibancadas tremerem de emoção.

Ouçamos, portanto, as duas joias musicais de Perez Prado e Sua Orquestra que me inebriaram para sempre:

Mambo Jambo:

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Mambo Espanha, com o famoso solo de pistom:

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COMPAY SEGUNDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Compay Segundo y Sus Muchachos

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês, e Omara Portuondo, no dia 14. Hoje, apresentarei um nome igualmente famoso, mas quase desconhecido no Brasil: Compay Segundo.

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Compay Segundo

Compay Segundo, pseudônimo de Maximo Francisco Repilado Muñoz, nasceu a 18 de Novembro de 1907, em Siboney, Cuba, e faleceu no dia 3 de Julho de 2003, em Havana. Foi um compositor, violonista, clarinetista, cantor e tresero – sendo o tres a fusão de três instrumentos de corda caribenhos: a guitarra, o tiple e a bandola.

Desde os cinco anos, acendia os puros – charutos – para a avó materna e, a partiu de então, adquiriu o hábito de fumar, que jamais abandonou, sendo o charuto sua marcante característica. Aos nove anos de idade, com o falecimento da avó, mudou-se com sua família para a cidade de Santiago de Cuba.

Em Santiago, Repilado, como era conhecido, começou a trabalhar no ofício de que se ocupava grande parte da população cubana: enrolador de charutos. Ao mesmo tempo, tomava aulas com a jovem Noemi Toro, que o introduziu nos segredos da pauta musical. Por sua influência, optou pela clarineta, com a qual fez sua primeira apresentação em Havana, integrando a Banda Municipal de Música, em 1929, na inauguração do Capitólio Nacional.

Em 1935, com o guaracheiro Ñico Saquito e Sua Banda Cuban Star, viajou novamente para a Capital cubana, desta feita, para lá residir definitivamente.

Autodidata do tres e do violão, mesclou os dois para criar um novo instrumento de corda, a que deu o nome de armónico. Muitas de suas composições musicais caracterizam-se por seu conteúdo imaginativo e grande senso de humor. Na Década de 1930, com Quarteto Hatuey, viajou ao México, onde participou em dois filmes, México Lindo e Tierra Brava.

Também foi no México que integrou, como clarinetista, o Grupo Matamoros e teve a oportunidade de trabalhar com o músico Benny Moré. Lá, também, fundou, em 1942, a Dupla Los Compadres, cantando com o cubano Lorenzo Hierrezuelo. Lorenzo era a primeira voz e tinha o apelido de Compay Primo – primeiro compadre -, enquanto Repilado era a segunda voz, o Compay Segundo, pseudônimo que o acompanhou até o fim de seus dias e pelo qual é reconhecido mundialmente.

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Com o tempo, houve um processo da subestimação da segunda voz na música, que passou a ser depreciada, mormente após as Décadas de 1940 e 1950. Sobre esse fenômeno, Compay Segundo declarou: – Os jovens não querem acompanhar nenhum cantor. Todos querem ser estrelas, do dia para a noite. Veja quantos anos eu tive de esperar, quantos caminhos tive de andar, em quantos eventos tive de participar. E cá estou começando, nunca acabando.

Sua carreira teve inúmeras mudanças. Integrou o Sexteto Los Seis Ases, o Cuarteto Cubanacán, e foi clarinetista da Banda Municipal de Santiago de Cuba. Em 1956 criou o Grupo Compay Segundo y Sus Muchachos, com quem trabalhou até sua morte.

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Detalhe de Compay Segundo y Sus Muchachos

Compay Segundo foi um artista único, na maneira como produzia o som que se ajustava ao modelo da Zona Oriental de Cuba, o que o fez reconhecido como um grande representante da cubanía – cubanidade. Os estilos em que transitava eram o son, a guaracha e o bolero, além de canções com acentuados matizes caribenhos. Sua voz, grave e redonda, acompanhou célebres cantores de fama internacional.

Com o Grupo Compay Segundo y Sus Muchahos, foi capaz de fazer bailar multidões de todos os continentes. Realizou turnês pela América Latina e Europa, particularmente Espanha, onde gravou seus últimos discos. Sobretudo, partir de 1992, criou-se, na Espanha, um ambiente favorável para a trova e o son tradicional, sendo convidados antigos e respeitados músicos desse estilo. Com isso, em 1995, Compay Segundo teve uma antologia organizada por Santiago Auserón, que foi o início de sua consagração internacional e a retomada de sua carreira artística.

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Compay Segundo participou ativamente do ambicioso projeto Buena Vista Social Club, um disco produzido por Ry Cooder, em 1996, em que se reuniram os grandes nomes da música cubana, do passado, e daquela década, com Barbarito Torres, promovendo o ressurgimento de fabuloso de músicos cubanos que, em alguns casos, estavam no ostracismo por mais de 10 anos. O é tema central do documentário homônimo, dirigido pelo alemão Wim Wenders.

No flagrante abaixo, é mostrado cena do documentário, onde aparecem veteranos como Eliades Ochoa, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo e o “novato” Barbarito Torres – Bárbaro Alberto Torres Delgado -, cantor e alaudista, nascido na cidade de Matanzas, em 1956, e especializado em ritmos afro-cubanos:

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Eliades – Ibrahim – Compay – Omara – Barbarito Torres

Aos 94 anos, Compay Segundo estreou nos palcos como ator, em uma peça intitulada Se Secó el Arroyto – algo como secou-se o riozinho -, baseada em uma de suas canções, que narra os amores frustrados de um casal de jovens nos anos anteriores à Revolução Cubana.

Dentre as canções mais conhecidas interpretadas por Compay Segundo, encontram-se: Sarandonga, Saludos, Compay, ¿Y Tú, Qué Has Hecho?, Amor de Loca Juventud, Juramento e Veinte Años. A mais famosa de todas é Chan Chan, composição sua, que abre o CD, interpretada por Eliades Ochoa, com acompanhamento do Buena Vista Social Club.

Compay Segundo faleceu em 2003, em Havana, cercado por sua família e com o respeito e a consideração de seus patrícios. Deixou cinco filhos. Nonagenário e muito bem-humorado, disse certa feita que ainda não havia se esquecido de como era o amor e que queria um sexto filho. Foi sepultado em Santiago de Cuba.

Sua discografia é extensa e facilmente encontrável em sites virtuais e busca.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi o blues de sua autoria Amor de Loca Juventud, com participação do Buena Vista Social Club. Vamos ouvi-lo:

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OMARA PORTUONDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Omara Portuondo, com o Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, Juntamente com o Buena Vista, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês. Hoje, apresentarei resumido perfil da cantora Omara Portuondo.

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Omara Portuondo

Omara Portuondo, cantora e dançarina cubana, nasceu em Havana, no dia 29 de outubro de 1930. Sua mãe, descendente de rica família espanhola, causou grande escândalo ao fugir para casar-se com um negro, jogador profissional de beisebol.

Esta dama da música cubana, de voz macia como veludo, iniciou sua caminhada artística aos 15 anos, quando era conhecida como a ‘noiva do feeling’ ou ‘filin’, estilo romântico que marcava o cenário de Cuba. Seu talento é inato, desenvolveu-se naturalmente, sem que ela precisasse dedicar-se à teoria no interior dos estabelecimentos de ensino musical. Sua verdadeira escola foi seu lar, seus mestres, os próprios pais, que cultivavam o hábito de cantar depois do almoço. Primogênita de três irmãos, já na infância ela improvisava duplas com o pai, fonte de muitas das músicas que ela posteriormente gravaria em seus discos.

Em sua casa, ela também encontrou a educação da alma, com o aprendizado da paz, da compreensão e do amor, sentimentos gerados no âmbito familiar, uma vez que, publicamente, a mãe espanhola e o pai negro tinham que simular ser dois estranhos, pois a família materna e a sociedade conservadora não aceitavam esse relacionamento. Omara foi criada nesse ambiente.

Ela deu seus primeiros passos no universo musical dançando no grupo Cabaret Tropicana, influenciada por sua irmã Haydee. Quando não estavam trabalhando, integravam um grupo jazzístico. Antes de optar pela carreira solo, ela participou do Cuarteto d’Aida, ao lado da irmã, de duas vocalistas e da pianista Aida Diestro, executando inclusive sucessos da bossa nova. No Cabaret, Omara teve contato com o cantor de jazz Nat King Cole e com a francesa Edith Piaf, a qual ela acompanharia em algumas turnês.

Omara também dançou no Mulatas de Fuego, no Teatro Radiocentro, e em outros grupos de dança. As duas irmãs também costumavam cantar para a família e amigos, e se apresentavam em clubes de Havana. Ela e Haydee, em 1947, juntaram-se ao Balanço Loquibambia, grupo formado pelo pianista cego Frank Emilio Flynn.

Sua carreira discografia teve início com o Amigas, lançado em 1950, juntamente com as cantoras Moraima Secadas e Elena Burke. Magia Negra foi seu primeiro álbum individual, lançado em 1959, com destemidas doses de música produzida na Ilha e jazz procedente dos Estados Unidos. Na época em que o governo norte-americano rompeu relações com Cuba, por conta da questão dos mísseis, as irmãs se encontravam em Miami. Enquanto Omara optou por retornar, Haydee preferiu refugiar-se na América do Norte. A seguir, os primeiros álbuns de Omara:

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Na Década de 1970, Omara cantou ao lado da Orquestra Aragon, com a qual excursionou por vários recantos do mundo. Nos anos que se seguiram, lançou diversos álbuns e prosseguiu com sua carreira na Ilha e fora dela, sempre atuando em parceria com renomados músicos internacionais, realizando uma fusão das populares canções cubanas herdadas dos pais com o jazz, a bossa nova, o bolero, a guajira e outras tantas cadências latinas.

Sua consagração internacional só veio acontecer ao aproximar-se dos 70 anos de idade, quando se tornou a única mulher a integrar o álbum e o documentário Buena Vista Social Club. Aqui, outros dos discos que lançou:

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No ano de 2008, Omara, ao lado de Maria Bethânia, realizou turnê histórica pelo Brasil, o que lhes rendeu a gravação de um CD, um DVD e o lançamento de um livro ricamente ilustrado com registros desse grande encontro. Adiante, a capa do CD com Bethânia:

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Omara parece ter sido cooptada. Tão logo a ditadura de Fidel Castro se instalou em Cuba, ela aderiu integralmente. Encontrando-se em Miami, retornou de imediato para a Ilha, enquanto sua irmã Haydee se refugiou nos Estados Unidos, como foi dito acima.

Isso faz-nos supor que, em assim agindo, ela conquistou o direito de poder circular livremente em excursões pelo Exterior, nos trevosos e árduos tempos ditatoriais que dominaram o cenário literomusical cubano desde então.

Hoje, Omara tem um apartamento em Cuba, com vista para o mar, localizado no Malecon, tradicional recanto cubano, onde desfruta de seus momentos de repouso. Sua discografia contabiliza 15 discos, ente LPs e CDs, além de 3 DVDS. De todos, escolhi, para apresentar-lhes pequena amostra de seu trabalho, uma faixa extraída deste álbum, gravado em 2004:

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Trata-se do bolero Habanera Ven, do compositor cubano Graciano Gómez. Vamos ouvi-lo:

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IBRAHIM FERRER E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Ibrahim Ferrrer à frente do Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades Ochoa, violonista e cantor, teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro. Hoje, apresentarei para vocês resumido perfil do cantor Ibrahim Ferrer.

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Ibrahim Ferrer

Ele nasceu num salão de baile de Santiago de Cuba, no dia 20 de fevereiro de 1927, e faleceu em Havana, no hospital CIMEQ, no dia 6 de agosto de 2005.

Filho de uma dançarina de clube noturno, Ibrahim ficou órfão aos 12 anos de idade, quando se viu obrigado a cantar nas ruas para sobreviver. Aos 13, formou par musical com um primo e, apresentando-se em festas particulares, conseguiu sustento para deixar as ruas. Ao longo dos anos, fez parte de diversos grupos musicais e, em 1953, juntou-se ao Conjunto de Pacho Alonso.

Em 1959, mudou-se de Santiago com o Conjunto para Havana, quando a formação musical foi rebatizada como Los Bocucos, dedicando-se principalmente a ritmos cubanos, como os registrados neste álbum:

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Tempos depois, Ibrahim trabalhou como vocalista do lendário Benny Moré e Sua Banda Gigante, nome este deveras apropriado, pois sua formação compreendia 21 instrumentos, aí compreendidos bocais, palhetas, cordas e percussão.

Ibrahim sempre manteve o desejo de gravar boleros, o que só veio a acontecer em sua adesão ao Buena Vista Social Club, lançando este álbum só de bolerões, último disco que gravou, à venda em sebos brasileiros:

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O filme Buena Vista Social Club, produzido por Ry Cooder, embora nos presenteie com a maravilhosa interpretação de seus astros, mostra-nos, nas poucas imagens de Havana, a pobreza habitacional e o atraso, sob todos os aspectos, em que vive o povo cubano.

Este outro álbum, importado, também se encontra disponível em sebos;

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Sua discografia contabiliza 14 títulos. A voz de Ibrahim Ferrer vinha sendo há muito tempo apreciada pelos músicos e entusiastas da ilha, mas só logrou o reconhecimento mundial a partir de sua apresentação no projeto coletivo Buena Vista Social Club. O disco abaixo, no qual é solista em todas as músicas, dá-nos uma perfeita ideia da força que ele representou na Música Latino-americana.

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E é dele que escolhi a faixa 1, Bruca Maniguá, afro-cubano – que eles denominam son, ritmo nativo de Cuba – de Arsenio Rodrigues, gravação do ano de 1999.

Vamos ouvi-la:

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BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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O seleto grupo de músicos cubanos

No ano passado, dia 26 de novembro, ao postar matéria denominada O Merengue e a Música do Caribe, prometi voltar ao tema, focalizando os grandes artistas e orquestras que fizeram a pujança musical de toda aquela região compreendida no mar-oceano entre as duas Grandes Américas, musicalidade essa infelizmente sucumbida em passado muito recente. Começo a cumprir minha palavra, trazendo até vocês um pouco do mais conhecido movimento musical cubano.

O Buena Vista Social Club era um clube de dança e atividades musicais de Havana, onde os músicos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo.

No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Havana um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. A maioria mudou de carreira para poder sustentar-se, e muitos passaram anos sem tocar instrumento algum, definitivamente abandonados e sem esperança de um dia voltarem a viver de suas potencialidades artísticas. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado.

Em 1996, mais de 40 anos depois do fechamento do Clube, o músico e produtor americano Ry Cooder foi até Havana na tentativa de reencontrar essas lendas da música cubana. Seu interesse surgiu depois de Cooder ter ouvido algumas gravações desses artistas.

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Ry Coorder conseguiu reunir muitos deles: Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa, Faustino Oramas e Rubén Gonzáles. Junto com esses e outros musicos, Ry Cooder produziu um disco fantástico, que foi aclamado mundialmente: Buena Vista Social Club, cujas capa e contracapa vocês viram logo acima.

Desse encontro, além da gravação do disco, surgiu o documentário homônimo, que mostra todas as etapas, desde as primeiras entrevistas, com os músicos em Havana, até o que seria o ápice para eles: a apresentação no Carnegie Hall em Nova York. Não esquecendo ainda que, antes da atuação em Nova York, eles estrelaram fantástica performance em Amsterdã, capital holandesa.

O filme foi aclamado pela crítica, sendo indicado ao Oscar na categoria Melhor Documentário e ganhando o prêmio de Melhor Documentário no European Film Awards. O disco, por seu turno, ganhou, em 1998, o Grammy Award for Best Tropical Latin Performance.

Além da fantástica música, o mais interessante desse projeto é a satisfação dos artistas cubanos e o reconhecimento de seus trabalhos. É possível perceber no documentário a alegria desses músicos, que mostraram seus talentos e que foram aplaudidos em todo o mundo. Até porque muitos deles passavam por necessidades e lutavam para sustentar suas famílias. Fama e glória mais do que merecidas.

Participaram da gravação do disco e do documentário: Ibrahim Ferrer, Juan de Marcos González, Rubén González, Compay Segundo, Ry Cooder, Joachim Cooder, Manuel “Puntillita” Licea, Orlando “Cachaito” López, Manuel “Guajiro” Mirabal, Eliades Ochoa, Omara Portuondo, Barbarito Torres, Amadito “Tito” Valdés e Leyva.

Em 2006, foi lançado Rhythms del Mundo, um álbum com as estrelas do Buena Vista e da música cubana Ibrahim Ferrer – sua última gravação antes de morrer em 2005 – e Omara Portuondo, com participação de astros como U2, Coldplay, Sting, Jack Johnson, Maroon 5, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e Kaiser Chiefs, dentre outros:

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De todos os nomes acima citados, três foram mais visíveis no Brasil: Eliades Ochoa, Ibrahim Ibrahim Ferrer e Omara Portundo, cujos trabalhos passarão a constar de minha grade de matérias, e serão comentados quando a oportunidade se fizer propícia, começando hoje com o primeiro, o menos famoso do trio.

Eliades Ochoa, violonista e cantor, nasceu em Santiago de Cuba a 22 de junho e 1946, oriundo de uma família toda ela composta de músicos e vocalista, e começou a tocar violão aos 6 anos de idade.

Ainda jovem, era figurinha carimbada tocando e cantando pelos bordéis e bares de Santiago onde, por volta de 1970, já se apresentava regularmente na Casa de la Trova, consagrado clube musical da cidade.

Em 1978, foi convidado para se juntar ao Cuarteto Patria, grupo fundado em 1939, como seu líder, papel que ele só concordou em assumir se fosse autorizado a incluir novos elementos ao repertório, mantendo-se fiel a suas raízes musicais, e continuasse usando o que é considerada sua marca registrada: o chapéu de caubói:

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Eliades Ochoa

Seu envolvimento com o Buena Vista Social Club e a participação no filme do mesmo nome concederam-lhe a fama e o reconhecimento mundiais.

Em 1998, gravou o álbum Cub Africa, com Manu Dijango; em 1999, o álbum Sublime Ilusión; e, em 2004, a canção Hemingway com o conjunto holandês Blof, constituindo parte do álbum Umoja. Sua discografia contabiliza mais de 15 trabalhos.

A música que escolhi como amostra de sua arte é uma guajira, espécie de lamento cubano, estilo tão popular em Cuba quanto na África Ocidental. Também conhecida como “blues cubano”, a guajira deriva-se da tradição espanhola muito forte naquela ilha.

Eliades Ochoa é um intérprete profundamente imerso na tradição, e o uso do chapéu de caubói tem a finalidade de identificá-lo como guajiro – camponês –, vaqueiro, caipira, como o classificaríamos por aqui.

Para vocês, então, a guajira El Carretero, de Guillermo Portables, que consta do famoso CD, na interpretação de Eliades Ochoa, coadjuvado pelo Buena Vista Social Club.

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JOÃO RIBEIRO DA SILVA, UM PIONEIRO

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João Ribeiro da Silva

João Ribeiro da Silva, o Tio João Ribeiro, filho de meu avô, Capitão Pedro José da Silva e de sua mulher em primeiras núpcias, Dona Otília Raimundina Ribeiro Soares da Silva, nasceu em Jerumenha (PI), no dia 30 de março de 1879, e faleceu em Balsas, no dia 17 de dezembro de 1930, aos 51 anos de idade. Era irmão de meu pai, Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e de José de Sousa e Silva, o Tio Cazuza Ribeiro, dentre outros.

Os dois filhos de meu avô com Dona Otília Raimundina deixaram seus nomes em todas as gerações seguintes do clã. Raimundo, o primeiro, foi nominado em homenagem à mãe; João, o último, nasceu num 30 de março, dia de São João Clímaco. Como naquele sertão as palavras proparoxítonas, esdrúxulas, na antiga classificação gramatical, eram de difícil pronúncia, ficou apenas João. Vinte e quatro anos depois, em 1903, novamente no dia 30 de março, nasceu outro varão na família, este o último filho de meu avô em segundas núpcias com

Dona Isaura Maria de Sousa e Silva que, sem qualquer trava-língua, lhe deu o nome de João Clímaco.

Tio João Ribeiro passou sua infância na Fazenda Brejo e, ainda muito novo, mudou-se para Floriano. onde, juntamente com o irmão Raimundo, ingressou na atividade comercial, tornando-se, em pouco tempo, num rapaz bem situado financeiramente na vida.

A 25 de setembro de 1909, casou-se, naquela cidade, com Maria Pereira da Silva, depois Maria Ribeiro da Silva, a Tia Marica, nascida no Loreto (MA), a 25 de maio de 1893, filha do Coronel Antônio Pereira da Silva e de Dona Hermelinda Pires Ferreira.

Tia Marica veio a falecer em Fortaleza no dia 23 de julho de 1986. Eram seus irmãos: Luís Aurélio Pereira da Silva; João Batista Pereira da Silva, casado com Nemézia Santiago Pereira; Rita Pereira da Silva, a Madrinha Ritinha, casada com José de Sousa e Silva, o Tio Cazuza Ribeiro; Corina Pereira da Silva, casada com Luís da Costa e Silva; Albertina Pereira da Silva, casada com Joaquim Evelim, o Seu Quinô; e Maria de Lourdes Pereira da Silva, casada com o farmacêutico Luiz Gonzaga da Silva, o Doutor Gonzaga.

Tio João Ribeiro permaneceu residindo em Floriano até 1910. Após o nascimento do primeiro filho do casal, Antônio Pereira da Silva Neto, o Ribeirinho, a 1º de julho daquele ano, mudou-se com a família definitivamente para Vila de Santo Antônio de Balsas, onde se tornou um dos mais prósperos negociantes.

Em sua esteira e sob sua proteção, para Balsas também vieram os irmãos Cazuza Ribeiro, em 1912, Rosa Ribeiro, meu pai, em 1916, e Evarista de Sousa e Silva, casada com Manoel Maranhense Costa, o Né Costa, estes moradores da Tresidela.

Sua residência era a mais bonita da cidade e se localizava na Praça da Matriz, ocupando três quartos do quarteirão entre as Ruas 11 de Julho e Isaac Martins. À esquerda, a Casa João Ribeiro, em sociedade com Tio Cazuza, uma das mais sortidas do sertão sul-marahense; à direita, a moradia, hoje um tanto modificada, mas que ainda nos pode dar uma ideia de seu passado:

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Casa do Tio João Ribeiro: ainda guardando muito do que foi

Naqueles primórdios, não havia estabelecimentos bancários em nosso rincão – nem assaltantes ou ladrões de cofre -, fazendo com que os comerciantes passassem um bom período amealhando o produto de suas vendas em dinheiro para, com a bolsa fornida, embarcar numa balsa de talos de buriti carregada de gêneros agropecuários e seguir rumo aos centros comerciais adiantados, onde quitariam compromissos anteriormente assumidos e adquiririam novo estoque de produtos industrializados.

No final do ano de 1926, período das enchentes, Tio João Ribeiro descia com uma grande balsa, rumo a Teresina, carregada de couros de boi, coco babaçu, passageiros e, em sua bagagem, pequena maleta contendo 30 contos de réis, considerável fortuna para a época. Já no Rio Parnaíba, chegando ao perigoso Remanso do Surubim, num dos rebojos das águas, a embarcação foi arremessada contra pontiagudo rochedo, espatifando-se por completo. Os passageiros, todos bons nadadores, conseguiram alcançar as margens. Um deles, agarrado a alguns talos, conseguiu segurar a maleta do dinheiro, que passava boiando a seu alcance, e levou-a intacta ao dono, o qual ficou três dias na casa de um morador à beira do rio, esperando as cédulas secarem ao sol. Como eu disse, por ali não havia assaltantes. Era no tempo em que homens tinham vergonha na cara.

O pioneirismo de Tio João Ribeiro se faz notar não só pelo fato de haver chegado a Balsas 9 anos antes de sua emancipação, o que se deu em 1918, mas também pelo progresso que trouxe para a região.

Em uma de suas viagens a Floriano, ao conhecer um gasômetro a carbureto, desenhou-o e, chegando a Balsas, produziu, com a arte do funileiro José Santiago, um igual, o que fez de sua casa a primeira com iluminação a gás na cidade. Mais tarde, adquiriu moderno aparelho similar de fabricação alemã, com o qual iluminou sua casa e também parte da Praça da Matriz, instalando alguns bicos de luz em sua esquina.

Trouxe para Balsas a primeira máquina de escrever, uma Underwood 1913 americana, em cujos manuais Tio Cazuza logo aprendeu a escrever, tornando-se o primeiro datilógrafo da cidade e causando verdadeiro encantamento nos matuto, abismados ao verem aquelas letrinhas saindo toda certinhas, alinhadas no papel.

Em 1930, comprou, em sociedade com Tio Cazuza, o primeiro automóvel da cidade, um Ford, Modelo 1929, praticamente do ano, transportando do Oceano Atlântico numa barca a reboque do vapor Joaquim Cruz. No mesmo ano, o Coronel Antônio Fonseca, outro grande Patriarca balsense, faria o mesmo, trazendo um Chevrolet zerado. Como esses dois veículos tiveram que furar estradas para todos as paragens daquele sertão, seu tempo de duração foi curto, deles restando apenas fotos esmaecidas.

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Ford 1929: o primeiro automóvel em Balsas

No dia 17 de dezembro daquele ano, Tio João Ribeiro veio a falecer, vítima de enfermidade que o levou, com apenas 51 anos de idade, quando se encontrava no auge de suas realizações.

Tio João Robeiro e Tia Marica tiveram 14 filhos, cinco dos quais pereceram em tenra idade – ainda não fora descoberta a penicilina -, e adotaram um, o Augusto, filho dos cunhados Quinô e Albertina. Abaixo a foto dos remanescentes, batida em 1940:

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Raimundo, Aluísio, José, João, Augusto, Antônio, Pedro, Alberto, Zenóbia e Maria de Lourdes

Nome completo dos filhos: Raimundo Ribeiro da Silva, o Titina; Aluísio Ribeiro da Silva; José Ribeiro da Silva; João Ribeiro da Silva Filho; Augusto Pereira Evelim; Antônio Pereira da Silva Neto, o Ribeirinho; Pedro José da Silva Neto; Alberto Ribeiro da Silva; Zenóbia Ribeiro da Silva; e Maria de Lourdes Ribeiro da Silva.

Tia Marica, praticamente, não teve juventude. Casou-se aos16 anos e, aos 37, enviuvou, recaindo-lhe sobre os ombros o peso de dar continuidade aos negócios do marido e a tarefa de educar os 10 filhos, este seu sonho maior. Assim, no ano de 1936, com dois deles já formados, Ribeirinho, Farmacêutico, e Zenóbia, Professora, mudou-se com toda a família para Teresina, transferindo sua parte da sociedade na Casa João Ribeiro para meu Tio Cazuza. Depois disso, residiu em São José dos Campos (SP) e, mais tarde, em Fortaleza, onde veio a falecer.

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Tia Marica em 1978

Tia Marica ficou conhecida pela intransigência com qualquer pessoa que se acercasse de seus filhos com o propósito de namoro. Pequena parte disse é creditada à responsabilidade que ela assumiu, sozinha, para educar a prole. Grande parte, no entanto, deve-se ao fato que ela era possuidora de um gênio forte, de difícil convivência, osso duro de roer.

Isso descontado, pode-se dizer que foi mulher de extrema coragem, jamais esmorecendo diante das adversidades. Superou-as com galhardia e soube manter a dignidade da família, guiando-a por seus passos na vida, fazendo de cada filho um vencedor.

Um deles, o Pedro José da Silva Neto, criou uma estirpe que até perpetuou o nome do clã. Coronel do Exército, os quatro filhos varões seguiram a carreira militar. Um deles, o Pedro Augusto, alcançou a alta patente de General de Exército – 4 estrelas. Hoje, os netos e bisnetos militares do Tio João Ribeiro espalham-se por este Brasil afora, onde não há quartel de Infantaria que não conheça um Silva Neto, nome de guerra de todos.

Tia Marica lia muito, o que lhe brindou com uma cultura geral razoável. Sua conversa era agradável, tanto pelo timbre de voz, quanto pelas citações que apreendera dos livros. E também tinha as próprias sentenças, baseadas nas experiências vividas.

Se estava aborrecida com alguém, dizia: – Eu só quero quem me quer!; ou: – Minha gente, eu sempre ouvi dizer que a ingratidão tira a afeição! Referindo-se a pessoa orgulhosa: – É preciso ter cuidado, porque o orgulho se abate! Quando alcançava um objetivo: – Triste da coisa que eu botar o cavalo em cima! Ao atravessar grande perigo: – Estamos com Deus e com a Santa Cruz, salvai a nós todos, Jesus! E, também: Nas horas de Deus e da Virgem Maria!   

Muito religiosa, quando qualquer dos filhos viajava, mandava-o primeiro beijar os Santos. Para isso tinha em casa um pequeno oratório, com imagens de todos os Santos de sua devoção. Era Zeladora do Sagrado Coração de Jesus, entidade religiosa muito antiga, à qual pertenciam quase todas as senhoras de nossa terra.

Já no fim da vida, dizia ser agradecida a Deus por ter vivido muito, para poder arrepender-se de seus pecados. Portadora de fé inquebrantável, e Tia Marica soube conservá-la até seus últimos segundos na Terra.

LULU RABELO: O BAMBA MARAJOARA

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Joaquim Rabelo Júnior, o Lulu

Joaquim Rabelo Júnior, o Lulu Rabelo, filho de Joaquim Lourenço Rabelo e Dona Margarida da Silva Rabelo, nasceu no dia 9 de janeiro de 1912, em Cachoeira, Ilha do Marajó, Estado do Pará.

Conheceu “muita gente, de toda espécie, branca e preta, pobre e rica; ali tudo era farto, tanto de fruta como de comida; peixe, então, nem se fala, de todas as espécies e a toda hora; se tivesse boa disposição, a pessoa se dirigia até a beira do rio, com seu caniço ou tarrafa e defendia o seu almoço, sem problema algum. Carne de gado, porco e outras carnes como de aves eram de abundância no Mercado Municipal; pirarucu, tambaqui, jacaré, marreca, jaburu, jabuti tinha demais, e na rua não faltavam pessoas com cambadas cheias de peixes. Nada faltava, com a graça de Deus, Jesus Cristo e dos Santos.”

Vivendo nesse Paraíso Terrestre, Lulu Rabelo tinha todas as ferramentas para ser um preguiçoso, um indolente e, se vivesse nos dias de hoje, sério candidato à Bolsa Família e outras esmolas eleitoreiras distribuídas pelos atuais governantes.

Mas não! Com Lulu Rabelo, o buraco era mais embaixo. Durante seus 71 trepidantes anos de vida, transcorridos entre a Ilha de Marajó, a cidade de Belém e rios da Bacia Amazônica, ele foi pau pra toda obra, provendo seus meios de subsistência no exercício destas profissões: cortador de lenha; apanhador de frutas no mato; pescador; cavador de poço; canoeiro; vendedor de galinhas, porcos e patos; soldado do Exército; jogador de futebol; santeiro, encarnador de santo; fotógrafo, sapateiro; agente de Polícia; piloto de embarcação; mestre de obras; carpinteiro; pintor de paredes; estilista de moda; capinador de rua; tarrafeador; dentista prático; pintor de tecidos; fazendeiro; segurança; senhorio; caixeiro de farmácia; agente de fiscalização de Rios e Portos; pedreiro; empreiteiro de obras; capataz de turma; vigilante; mergulhador; enfermeiro; eletricista; soldador; manipulador de farmácia; marreteiro; encanador; fabricante de farinha; colhedor de açaí…

Com todo esse currículo, Lulu Rabelo nunca se descuidou do lazer, dum furdunço, duma patuscada. Paquerador juramentado, era tido como o melhor sambador da Ilha: tinha festa em que as moças só queriam dançar com ele. Além do mais, era o melhor organizador e brincante de cordões e blocos de mascarados, bumba-meu-boi, etc.

A seguir, flagrantes de sua passagem pelo Cachoeirense Sport Club, time que chegou a ganhar do Paysandu por 2×0, em jogo amistoso:

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Lulu casou-se no dia 30 de junho de 1938, aos 26 anos de idade, com Maria Edwiges Paraense, “morena clara, pobre igual a mim; muito bem educada e Professora, muito prendada, que não era de muita camaradagem e de ser muito namoradeira, com amizade da alta sociedade e Diretora da Irmandade Santa Maria de Belém, lá de Cachoeira.”

Esse casamento durou apenas 5 anos. Maria Edwiges veio a falecer de parto no dia 28.08.1943, ao dar à luz, em gravidez de sete meses, o prematuro João Batista, que nasceu morto. Deixou-lhe dois filhos, Francisco de Paula Paraense Rabelo, nascido a 02.04.1939, e Maria Margarida Paraense Rabelo, nascida a 01.09.1942, que viria a falecer no dia 27.11.1950, aos 8 anos de idade. Sobreviveu-lhe, portando um único filho, do qual agora passo a falar.

Francisco, órfão de mãe aos 4 anos de idade e com o pai se virando em múltiplas atividades para ganhar o sustento de sua gente, foi criado por sua tia Dalila Paraense. Naquele sertão bravio, as condições eram de que ficasse por ali, sem ocupação definida, não fosse a educação esmerada recebida de Dalila – a Tia Didi, como ele a chamava – que, o alfabetizou.

Cursou o Grupo Escolar Estadual Professor Francisco Delgado Leão, onde concluiu o Primário, em 1952. Em seguida, ingressou na Escola Industrial de Belém, depois, no Colégio Estadual Paes de Carvalho e, mais tarde, no Instituto Paraense – Escola Técnica de Comércio. Paralelamente, preparava-se, à noite, com colegas, para o concurso de admissão à EsSA – Escola de Sargentos das Armas, no qual foi aprovado em 1956. Foi lá, no ano de 1957, em Três Corações (MG), na Arma de Infantaria, que fizemos esta bela amizade, duradoura desde então.

Promovido a 3º Sargento, Francisco serviu em várias Unidades do Exército, formou-se em Contabilidade e Administração, conquistou o posto de Primeiro Tenente e, em 1983, lotado como Adido na Embaixada do Brasil em Montevidéu, Uruguai, recebeu a notícia de seu pai agonizava no Hospital São Marcos, em Belém do Pará, não resistindo a uma cirurgia na próstata.

Imediatamente, Francisco embarcou num avião para Porto Alegre, onde tomou outro para o Rio de Janeiro e, finalmente, mais um para Belém, chegando a tempo de assistir aos últimos momentos do pai.

Lulu Rabelo e meu pai, Seu Rosa Ribeiro, tinham muitas afinidades: ambos estudaram apenas o necessário para ler, escrever e fazer conta, orgulhavam-se de terem um filho Sargento do Exército e, em segredo, nas poucas horas vagas, molhando o bico da pena no tinteiro, deixaram contadas suas experiências na Terra.

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Lulu Rabelo com Francisco ainda jovem – Francisco em 2007

Assim, foi para grande surpresa de Francisco que Lulu Rabelo, antes de exalar o derradeiro suspiro, a 27.08.1983, ainda teve ânimo para lhe recomendar: – Não se esqueça do meu livro!

Só então, Francisco tomou conhecimento da existência dos manuscritos do pai. E, posteriormente, atendendo a seu último desejo, providenciou a edição desta preciosidade, com 234 páginas e ilustrações, do qual extraí os trechos acima aspeados:

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Para ser fiel ao estilo de Lulu Rabelo, transcreverei passagens hilariantes desse livro da forma como ele as deixou.

RABELO SAPATEIRO

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“Quando vêm se aproximando as festas em Cachoeira, é movimento por toda a parte, gente chegando de todos os lados, vem de Belém, Abaetetuba, Ponta de Pedras, Santana, Santa Isabel, Pau Cu, Gurupá, Mutá, Retiro Grande, Urubuguará, Santa Maria, Jenipapo, Santa Cruz, Anajás-Mirim, Anajás-Grande, Camará, afinal, de muitos lugares.

Eu ficava muito feliz, porque tinha muitos fregueses, tanto de santos, como de sapatos; tinha muita encomenda, como sapatos velhos, santos quebrados, sem dente, sem olhos, tudo para entrega no fim das festas; sapatos para consertar, pintar, mudar de cor.

Recebia muitos presentes que ‘davam da cara’: linguiças, carne de sol, carne fresca, leite, muçuãs, frangos, pintos, perus, patos, peixes. Em casa, era uma fartura, porém eu não sossegava um só momento, nem de dia, nem de noite. Era santo com face do outro, com face pra trás, sapato trocado ou pintado com fumaça de lamparina, gente saindo satisfeita, outros chorando de raiva, outros aborrecidos, outros dançando de alegria, outros descontentes por não levarem o que buscavam.

Certa noite, após terminada a transladação do Círio, chegou lá em casa um vaqueiro da Fazenda do Lobato Miranda, por nome Otávio, que foi me dizendo:

- Olá, Seu Rabelo, aqui está um saco com carne e umas linguiças que eu trouxe pro senhor. E se o senhor tiver um par de sapatos que queira me vender ou alugar por esta noite para eu ir dar uma dançada no Três A, eu quero.

Dei uma olhada nos pés do amigo e mandei que se sentasse, que eu ia engraxar um par. Peguei um lado do sapato de Seu Ramos, que estava lá dando sopa, era quarenta e oito o lado que estava bom, peguei um outro do Ramiro e passei a escová-los às pressas. Depois levei-os, calcei-os nos pés do vaqueiro, tudo no escuro mesmo, para que ele nada notasse. Dei-lhe umas lapadas de cachaça e disse assim: – Pode mandar brasa, mano, que a festa já está começando! Olhe o som da música!

Aí, ele se animou, perguntou quanto custava o aluguel, eu disse que não era nada, que fosse brincar, mas, mesmo assim ele, já meio vesgo de cana, me deu Cr$5,00, muito dinheiro naquela época.

No outro dia, por volta das seis da manhã, lá vinha o vaqueiro Otávio descalço, com os sapatos na mão. Estava tão banzeiro de cana que me entregou os calçados, me agradeceu, disse até logo e foi-se embora, sem perceber que os sapatos eram ambos do pé esquerdo e, além de tudo, um preto e o outro marrom!”

RABELO SANTEIRO

“Outra vez, me aparece ame casa o Capitão Cândido, da Fazenda Caratateu, trazendo debaixo do braço um embrulho de palha de sororoca e, dentro de um paneiro, uma galinha. Após presentear-me com a galinha, abriu o embrulho e me exibiu um santo, dizendo:

- Seu Rabelo, este santo de minha mulher é para o senhor consertar e pintar. É o São Raimundo. Ela fez promessa quando estava grávida e agora quer mandar fazer uma ladainha. Quando posso vir buscá-lo?

Atendi-o com a maior presteza e, três dias depois, entreguei-lhe a encomenda, que ele pagou, muito satisfeito com meus serviços.

Quando vai se aproximando o mês de junho, lá vem de novo o amigo Cândido, trazendo uma caixinha e, dentro dela, enrolado numa toalha, o São Raimundo, com essa proposta:

- Será que o senhor poderia transformar este São Raimundo em Santo Antônio? É que nós queríamos rezar no dia 12 de junho e dar uma festinha em casa. Depois, eu volto e o senhor faz ele virar São Raimundo de novo. Eu disse que sim e lancei mãos à obra. Mudei a pintura do santo, fiz-lhe uma careca e coloquei o Menino em seus braços.

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Santeiro e sua arte

E assim, por vários anos, eu ia ganhando, em cada festa, minhas pratinhas, leitões, galinhas, pedaços de porco salgado, até que um dia a casa caiu: a família armou a maior briga, ao descobrir o troca-troca dos santos só para o Capitão Cândido fazer as festas, razão pela qual o santo não quis mais fazer milagres.

Daí, nosso amigo parou de festejar, e Seu Rabelo deixou de ganhar aquela gaitinha certa.”

RABELO DENTISTA

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“Quando eu e o Comissário Moura trabalhávamos para a Polícia, encontramos numa casa abandonada uma caixa com diversos objetos dentro, inclusive umas dentaduras. Guardamos, pois pensávamos que pertenciam a algum dentista que ali as havia esquecido.

Uma noite, dando ronda pela cidade, vimos um Guarda Noturno, por nome Raimundão, que falava fanhoso, por não ter dentes e não poder compra uma dentadura. Disse-lhe, então, que ele tinha sorte, pois eu dispunha de umas dentaduras que um amigo meu dentista me dera para negociar em prestações e, se alguma dela lhe servisse, o problema estava resolvido. Mais que depressa, o Raimundão não deixou nem que eu terminasse e foi logo dizendo:

- Traz logo amanhã, às 9 horas da noite, que eu te espero aqui mesmo!

Na noite seguinte, levei a dentuda, e não é que deu certo na boca do Raimundão?! – Galhos quebrados! – disse ele. Ficamos certos de receber no final do mês vinte cruzeiros, sendo dez para mim e dez para o Comissário Mourito.”

RABELO COBAIA PARA A CIÊNCIA

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“Houve uma época em que eu estava adoentado de impaludismo, e meu amigo Joaquim Leão, vendo o meu estado de doença, quis me ajudar a ficar bom e deu-me uns comprimidos de Atebrina, para eu tomar dois por dia. Acontece que eu confundi e tomei dois comprimidos de duas em duas horas; resultado, eu ia ficando doido. Tive de viajar para Belém com minha mulher, à procura de um médico, com uma carta de recomendação do meu cunhado Adaltino Paraense.

Após examinado por duas vezes, o médico admirou-se de eu não ter ficado completamente doido, mas disse que se eu fosse feliz de encontrar os medicamentos que ele passou, tinha certeza de que eu iria ficar bom, e assim aconteceu. Comprei todos os remédios e quase fiquei bom. De acordo com o tempo, voltava a aparecer o mal em minha cabeça.

Tempos depois, contei sobre meu sofrimento ao meu amigo Dr. Olavo e, num certo dia, quando o tal mal voltara, fui procurá-lo. Ele, imediatamente, se comunicou, por telefone, com o Dr. Guaraciaba Quaresma Gama, da Santa Casa de Belém, que me mandou dirigir-me para aquele nosocômio.

Lá chegando, o Dr. Guaraciaba deu-me alguns remédios, que melhorei. Mais tarde, tive que voltar lá para fazer tratamentos. Tirei várias chapas da cabeça, mas nunca tive o resultado, pois o médico que me atendeu viajou para São Paulo, e o laudo nunca ficava pronto.

Eu fui me aborrecendo e não fiz mais procuração, até que o Dr. Olavo, conversando com o Dr. Guaraciaba, este me disse para eu não me ausentar de Belém, pois meu cadáver já estava vendido para a Medicina.”

Lulu Rabelo viveu mais de 30 anos depois disso!

A CASA DO DOUTOR DIDÁCIO

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Casa do Doutor Didácio: baluarte contra as inovações

Quando saí de Balsas para estudar em Floriano, em fevereiro de 1949, sua população urbana era de três mil e quinhentos habitantes; hoje, decorridos 64 anos, esse número já ultrapassa a marca dos oitenta mil!

Sempre retornei ali, em férias escolares ou profissionais. Até o início dos Anos 1970, minha terra natal permanecia quase que intocada, com suas casas sempre de portas abertas, seus quintais, verdadeiros pomares, a paquera na Praça Getúlio Vargas, também conhecida como Praça da Matriz, os portos de banho separadamente para homens e mulheres.

Mas aí chegaram a televisão, o asfalto, a água encanada, o fogão a gás, a iluminação elétrica e o item predominante em sua transformação: a explosão agrícola, que atraiu gente de todas as partes do Brasil e até do Exterior, mais comprometida com o resultado econômico de seus negócios do que com a manutenção do patrimônio cultural da urbe.

Balsas esparramou-se horizontalmente. E o progresso foi inevitável. Ao mesmo tempo em que proporcionou, a olhos vistos, benefícios em todos os ramos de atividade, não se limitou às novas áreas de expansão comercial e populacional. Aos poucos, foi agredindo também o coração da cidade, seu centro histórico, que ainda é a Praça da Matriz.

No dia 22 de março de 2018, Balsas comemorará seu Primeiro Centenário. Embora ainda muito nova, não dou mais 50 anos para que seja uma cidade sem memória, sem cara, sem emoções.

Com novos habitantes e novos costumes, chegamos ao ponto de qualquer um de nós, ali nascidos e fora de lá há mais de 40 anos, sejamos tidos, ao voltarmos a nossas origens, como ilustres desconhecidos.

Hoje, observando-se a Praça da Matriz, aquela onde a maioria de nós aprendeu as primeiras letras e também a engatar os primeiros namoros, onde havia um grupo escolar, mais tarde um ginásio, um coreto, onde a casa do Tio Cazuza funcionava como o clube social da cidade, onde se localizaram grandes estabelecimentos comerciais, como as lojas de Alexandre Pires, Augusto Pires, Antônio Fonseca, Hermes Fonseca e do próprio Tio Cazuza, a mercearia de Madrinha Ritinha Pereira, a sorveteria de Seu Lima e o Hotel 4 de Setembro, eu dizia, observando-se a Praça, tirante a Igreja Matriz, resta-nos apenas um monumento – o único – resistindo a todo o processo de inovação e dando-nos conta de um passado nem tão distante: a casa do Doutor Didácio.

Para que nos reste apenas essa referência histórica, devemos que agradecer, sempre, ao clã Fonseca Santos, que tem mantido incólume este solar, contador de muito de nosso passado, de nossa vida, de nossa história. Por isso, temos de render um preito de homenagem ao homem que soube incutir em sua família o amor pela terra, por suas raízes, pela tradição balsense. Falemos um pouco desse grande vulto de nossa história, o Doutor Didácio.

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Didácio Coelho dos Santos

A tarefa não é fácil, diante da quase total ausência de dados para orientá-la e também da inconfiabilidade dos existentes, como se pode atestar no quadro abaixo, publicado na Revista Viva, editada pela Prefeitura Municipal de Balsas, no final do ano passado, com o Balanço Administrativo do período 2005/2012:

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Minha memória do que vivi leva-me a constatar estas incongruências: Paulo Ramos foi Interventor – Governador – do Maranhão de 1936 a 1945, nomeado pelo Getúlio Vargas; Didácio Coelho dos Santos foi Prefeito de Balsas, nomeado pelo Interventor, de 1931 a outubro de 1945, quando caiu o Estado Novo; Roosevelt Moreira Kury, o Doutor Rosy, foi Prefeito de 1º de janeiro de 1956 a 31 de dezembro de 1960; Alexandre Pires – assisti à posse –, de 1º de janeiro de 1961 a 31 de dezembro de 1965; Didácio Coelho dos Santos, de 1º de janeiro de 1966 a 31 de dezembro de 1970 Foi ele quem comandou a belíssima festa do Cinquentenário de Balsas, em março de 1968. As discrepâncias continuam: Lauro Maranhão era Ayres e não dos Reis; José Bernardino faleceu em abril de 1984, quando exercia o mandato de Prefeito…

Baseando-me, porém, em anotações esparsas e em dados cartoriais, tentarei aqui traçar o perfil desse grande Patriarca.

Didácio Coelho dos Santos nasceu no Riachão, a 09.01.1906, filho de Felipe José dos Santos e Ignácia Coelho dos Santos, sendo seus avós paternos Félix José dos Santos e Francisca Ribeiro dos Santos, e maternos, Cosme Coelho de Sousa e Emília de Araújo Coelho.

Fez o Curso Primário em sua terra natal, o Curso Preparatório no Instituto Viveiros, em São Luís, ingressando, em seguida, na antiga Escola de Farmácia e Odontologia do Maranhão, na qual se diplomou Farmacêutico a 9.11.1929.

Ao lado de sua formação universitária, Didácio Coelho dos Santos respirava Política dia e noite.

Na Capital, trabalhou como funcionário da Secretaria de Justiça do Maranhão sendo, posteriormente, designado para compor a Comissão Reorganizadora da Biblioteca Pública do Estado.

Em 1929, abraçou também a atividade partidária, na campanha da aliança Liberal a favor das candidaturas de Getúlio Vargas e João Pessoa para Presidente e Vice-Presidente da República.

No início de 1930, fixou residência definitiva em Balsas, onde inaugurou a Farmácia Santos, numa época em que Balsas não dispunha de um médico sequer, tornando-se ele uma das pessoas mais queridas e influentes da cidade que escolhera para viver.

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Dona Milu: imagem de 1991

No dia 08.03.1930, casou-se com Emiliana Fonseca Santos, a Dona Milu, natural da Vila de Grajaú (MA), nascida a 09.04.1910 e filha do Coronel Antônio Fonseca Santos e Genuveva Solino da Fonseca.

No ano de 1931, o Interventor Paulo Ramos nomeou-o Prefeito de Balsas, cargo no qual permaneceu até 1945, ano em que conquistou, pelo voto direto, seu primeiro mandato de Deputado Estadual, reelegendo-se para mais três Legislaturas.

Na Política, o Doutor Didácio foi um vitorioso. Abraçando-a após a obsolescência dos regimes dos coronéis, jamais perdeu uma eleição em que foi candidato, tornando-se o grande chefe político de Balsas, acatado tanto pelos correligionários, quanto pelos adversários.

Assim é que, em 1965, novamente pelo voto direto, se elegeu Prefeito, como dito acima, realizando a maior festa de todos os tempos em Balsas, qual seja a comemoração de seu Cinquentenário, quando milhares de balsenses residentes em outras cidades compareceram para rever seu berço e seu povo.

Em cidade pequena como a nossa, era muito natural que as famílias se entrelaçassem por meio de liames diversos. Assim aconteceu com a minha: o Doutor Didácio foi meu Padrinho de Batismo, por procuração; Dona Milu era Madrinha de Crisma de Maria Alice, minha irmã; e uma das filhas do casal contraiu matrimônio com um de meus primos.

Dona Milu formou com o Doutor Didácio um casal perfeito e exemplar para todas as famílias balsenses. Ela, sem descuidar da educação esmerada que deu a todos os filhos, era o braço direito na farmácia, onde desempenhava a delicada tarefa de manipulação de receitas. A seguir, cena tomada na Farmácia Santos, em 1987, com Doutor Didácio já afastado das lides legislativas:

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Doutor Didácio e Dona Milu: Farmácia Santos em dia comum

Depois que meu Tio Cazuza faleceu, a casa do Doutor Didácio passou a se constituir num endereço certo para nossas festas, sempre franqueada aos pedidos da juventude. Aliás, nesse aspecto, devo igualmente mencionar também as residências de Seu Augusto Pires e Seu Gesner Soares. Esses três chefes de família jamais disseram não a nossas solicitações.

O Doutor Didácio e Dona Milu tiveram sete filhos, constituindo admirável prole, hoje configurada em numerosos descendentes que sempre honram a história de seus ancestrais e têm nossa Balsas Querida como ponto de referência em suas vidas.

No dia 20 de julho de 1991, nossa família comemorou o Centenário de Rosa Ribeiro, meu pai, ocorrido a 17 de fevereiro daquele ano, com Missa na Igreja Matriz, à qual o Doutor Didácio e Dona Milu compareceram. Foi a última vez que o vi. Dez dias após, a 30.07, ele viria a falecer, vítima de enfarte do miocárdio. Sete anos depois, a 26.07.1998, faleceria Dona Milu.

O Doutor Didácio foi o Farmacêutico que por mais tempo desenvolveu sua atividade no Brasil, pois a Farmácia Santos permaneceu sob sua direção por 61 anos, período que vai de 1930 ano da fundação, a 1991, quando ele deixou a vida terrena.

Eis a Casa! Eis o Patriarca! Eis sua descendência! Traduzindo a opinião que tenho sobre esse grande homem público, maior vulto político balsense de todos os tempos, externarei em seletos adjetivos os predicados inerentes a sua personalidade: honrado, calmo, honesto, inteligente, erudito, simpático, eficiente, bem-humorado, elegante, compreensivo, complacente, pacificador!

RECEITA PARA EMAGRECER

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O Gordo e o Magro: sucesso no cinema

Atividade! Atividade Sempre! Este foi o lema que me foi transmitido pelo saudoso amigo cearense Deputado Januário Feitosa: – Meu caro, não deixo passar em branco o tempo que Deus está me concedendo!

Seguindo sua trilha, desde 26.02.1991, quando fui aposentado, ingressei em nova etapa de minha vida, para a qual há muito tempo eu viera me preparando, qual seja, organizar meu acervo fonográfico e escrever sobre toda a experiência alcançada até ali. Dez anos depois, atendendo a imposição médica, passei a malhar em academia, três vezes por semana, nas tardes das segundas, quartas e sextas-feiras. Mesmo assim, ainda me sobrava tempo ocioso, o que passei a preencher com pescarias, nas tardes das terças, quintas e sábados.

Diferentemente da maioria dos pescadores aposentados, que fazem expedições homéricas para locais extremamente piscosos como a Serra da Mesa e o Araguaia, mas retornam com peixes todos carimbados com códigos de barras, minhas pescarias eram aqui mesmo pertinho de casa, na ASBAC – Associação dos Servidores do Banco Central, a cujo quadro social pertenço, mercê de afinidade com um funcionário daquela estatal.

Localizada às margens do Lago Paranoá, cuja população de peixes cada vez aumenta mais, sua ribanceira é apropriada para a diversão pesqueira. Os peixes mais comuns pegados ali são a tilápia, a carpa e o tucunaré, este exigindo técnica especial para capturá-los. Com isca, usam-se carne, minhocas, angu de farinha, miolo de pão, piabas e, a mais apreciada, o boró, tipo de larva encontrada nas casas especializadas, vendidas como ração para aves.

O equipamento mais usado é simples: vara de mão e molinete. Em meu caso particular, empregava, na vara de mão, linha de cinco metros, com três anzóis encastoados, o que possibilitava pegar até três tilápias de cada vez, em dia de fartura. E também alguns molinetes com linha de cerca de 30 metros, que deixava fincados na espera.

A história que lhes vou contar, por ser conversa de pescador, poderia merecer até 90% de desconto. Eu digo poderia, porque é verídica, passada diante de testemunhas oculares, amigos que a presenciaram quando aconteceu: Hipérides Leandro Farias, Henry Cooper da Rocha e Luciana, sua mulher, falecido Hernandes Grillo, o Azulinho, e outros.

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ASBAC – Vistas aéreas

Praticamente dentro da selva de pedra, como se pode ver nas fotos acima, e pegando peixe adoidado, era muito difícil para nós apreciarmos as maravilhas que a Natureza realizava em nosso derredor, principalmente com diversos pescadores zoológicos que lá se esforçavam na luta pela sobrevivência, ao contrário de nos outros, que o fazíamos apenas por farra, por diversão, para matar o tempo. Tanto que, em meu caso, os pescados eram distribuídos com as costureiras, cabeleireiras e manicures de minha Quadra, jamais os levando para casa. Até que um dia!

É meu costume, desde os tempos de menino, ao recolher qualquer linha para trocar a isca, dar uma ferra – puxão firme –, na esperança de surpreender algum peixe comendo de furto ou dando sopa no trajeto do anzol. Certo dia, ao recolher um molinete e executar a ferra, senti a barra pesar no fundo do lago. Cada vez eu girava a roldana, mais a presa se debatia. Os colegas ali por perto deixaram suas varas de lado para apreciar o tamanho peixe. Mas, oh! decepção!: tratava-se apenas de um pato! Depois de libertado, ele bateu asas e voltou para sua vidinha.

E foi quando passamos a dar atenção aos fenômenos naturais desencadeando-se a olhos vistos, sem que os percebêssemos. Os companheiros alados que exerciam os meios de prover sua subsistência, sem que até então os notássemos, eram de várias espécies: martins-pescadores, socós, garças, marrecos, gansos, patos pescadores, estes objeto de nossa observação mais acurada a partir de então.

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Socó abicanhando a presa na vertical

O pato pescador, em bandos, passa o dia inteirinho na faina de conseguir alimento, afastados uns 20 metros ou mais da margem do lago. Cada mergulho dura, no máximo 25 segundos. Quando consegue abicanhar a presa, na horizontal, leva-a para a superfície, a fim de degluti-la, conforme já explanei aqui, dia 19.08.13, no episódio O Socó e o Muçum – Lenda Balsense, como visto na figura acima.

Em seguida, o pato maneja para abicanhá-la pela cabeça, nesta conformidade:

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Pato pescador no segundo passo do manejo

Isso feito, joga -a para cima de forma que ela lhe caia de ponta-cabeça diretamente na goela. Tudo muito rápido pois, do contrário, vem uma garça e lhe arrebata o pitéu. Caso isso não ocorra, e com a presa no bucho, ele volta a mergulhar, caçando como se morto de fome estivesse.

O aguapé é uma planta aquática flutuante cultivada no Lago Paranoá para combater a poluição. Como emigra de um lado para o outro, formando imensas ilhas vegetais, ao sabor do vento, às vezes chega determinar que se suspendam as atividades, quando aportam na área de um pesqueiro.

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Aguapés: a saúde do Lago Paranoá

Pois foi uma dessas ilhas que, em bela tarde ensolarada, vimos aproximar-se de nós. Alguém gritou: – Tem um pato se afogando naqueles aguapés!

Na verdade, dava para se ver o coitado do pato semimergulhado, com cabeça enganchada numa touceira, e o bumbum a agitar-se ao vento.

Outro costume que trago desde menino é o de mergulhar para desenganchar meus anzóis, quando preciso, com peixe ou não. Por isso, sempre estou vestido de sunga, e naquele dia não foi diferente. Sem pestanejar, caí n’água, nadei até os aguapés, resgatei o pato e arremessei-o na ribanceira, julgando morto, eis que, àquela altura, completamente inerte.

Imediatamente o Rocha – Henry Cooper – falou: – Vou levar ele para casa e fazer um bom guisado!

Eu até quis argumentar dizendo: – Porra, cara, esse pato só tem pena e osso, você já pegou duas carpas enormes hoje, será que vale que compensa perder tempo em cozinhá-lo?

Mas o Rocha fincou pé, e aí eu resolvi pesar o bicho com nossa balança de mola: um quilo e trezentos gramas! Só! Isso com as penas molhadas!

Irredutível, o Rocha arranjou uma cordinha e amarrou o cadáver do pato num pé de pau, temendo que alguém o carregasse, e se retirou para bem longe, no rumo do Píer 21, onde sempre pega grandes peixes, não sei com qual feitiço.

E nós, os colegas de pescaria, continuamos em nossa rotina de sempre. Passada uma boa hora, escutamos, repentinamente, um qüém-qüém!

Olhamos para onde vinha a zoada, e vimos o pato amarrado ciscando de um lado para outro, agitando as asas, debatendo-se para se libertar. Gritamos o Rocha, que veio na carreira. Aí, diante da surpresa de todos, baixou em mim o espírito de um de meus alter egos, o Doutor Mundico Trazendowski, quando usei da palavra:

- Amigo Rocha, a coisa agora mudou de figura. Eu salvei o pato do afogamento, julgava-o falecido, mas agora, diante de sua ressurreição, avoco para mim o direito de libertá-lo.

A nobreza de minha proposição foi aceita pelo Rocha, por Luciana, sua Mulher, pelo Hipérides, pelo Azulinho e outros ali presentes. Cumprindo o deliberado, o Rocha desamarrou o prisioneiro que, gritando qüém-qüem, saiu voando, dirigindo-se para a mesma área de onde fora resgatado, agora sem aguapés, e continuou na mesma vidinha, mergulhando e caçando, completamente esquecido da arriscosa aventura que acabara de protagonizar.

O tempo passa, o tempo voa, mas nossa requintada gastronomia está sempre numa boa! Um dia, aqui em casa, resolvemos convidar parentes e amigos para comer um pato no tucupi. Ficou a meu cargo a tarefa de comprar a ave.

Lá no Carrefour, deveras foi meu espanto ao conferir o tamanho dos patos à venda. O menor que encontrei, já depenado, pesava 2 quilos e quinhentos gramas.

Lembrei-me, então, do pato pescador de outrora, de como ele, alimentando-se somente de peixe, era magro, lépido e faceiro, voando como qualquer passarinho, diferentemente do pato de granja, criado com ração balanceada e, por isso mesmo, pesadão preguiçoso, incapaz de conseguir, por si, o próprio alimento, pregado ao chão, aguardando apenas a hora de servir de repasto em banquetes, tipo o que estávamos planejando.

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Pato pescador e pato de granja: trabalho versus doce vida

Concluindo, aí vai meu conselho, justificativo do título desta matéria:

- Comam peixe! Peixe não engorda!

E, como exemplo de persistência, de força de vontade, apresento-lhes uma jovem assaz vencedora que, em 1975, conseguiu seu intento de emagrecer, não sei se com a dieta do pato, mas com muita determinação:

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Ludmilla Amaral: 20 quilos a menos, com dieta e exercícios físicos

DELEGADO NO ARRAIAL

VitalRecor/2013

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Aconteceu na Academia VitalRecor, em Brasília, DF, especializada em reabilitação cardíaca e qualidade de vida para os terceiridosos, onde dou um duro lascado para manter-me nesta linda forma que vocês estão cansos de elogiar e de também invejar, em cujo Arraial sou Delegado Vitalício.

A organização do Arraial ficou a cargo da Doutora Cristina Calegaro cada vez mais brejeira do que nunca, Presidente do CREFI, proprietária da Academia e Santa Protetora nossa aqui na Terra. No Céu, é Nossa Senhora Aparecida.

Este ano, houve duas novidades. A primeira, minha nova espingarda, linda e artisticamente confeccionada pelo casal de amigos Jorge e Mércia. A segunda, as porradas que o noivo levou na cara com um buquê de plástico, quando a noiva, já embuchada, descobriu que ele é o maior raparigueiro da paróquia. O cabra apanhou que nem galinha pra largar do chôco.

Não vou lhes tomar o tempo descrevendo uma festa junina. Todos vocês sabem muito bem como transcorre ela, em seus mínimos pormenores. As imagens abaixo darão a exata noção do desenrolar dos acontecimentos.

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A Rainha do Arraial e suas Princesas

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As Autoridades Eclesiásticas do Arraial

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Entrada das Daminhas

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O Delegado e sua nova espingarda

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O SOCÓ E O MUÇUM – LENDA BALSENSE

O Correio Braziliense, maior jornal da Capital da República, estampou, no domingo passado, dia 11.08.13, esta matéria:

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Diante desse combate renhido que o Ministro Joaquim Barbosa, nosso herói, vem travando contra a corrupção, e das chicanas que se antepõem à vitória da Justiça, veio-me à lembrança a época de minha venturosa infância em Balsas, sertão sul-maranhense.

Era no tempo do Rei, da Rainha, da Feiticeira, do Príncipe, da Princesa, da Fada-madrinha, do Lobisomem, do Cabeça de Cuia, do Vaqueiro, do Cantador, da Bruxa, da História de trancoso e da carochinha, do Mundo Encantado que povoava nossa imaginação infantil, no qual éramos introduzidos pela tradição oral do Velho Sinésio.

Em Balsas, onde não havia cinema e só duas ou três casas possuíam aparelhos de rádio, o Velho Sinésio exercia a mais bela profissão que conheci desde que me entendo por gente, a de contador de história, praticada de porta em porta, a chamado dos respectivos pais de família, ocasião em que toda a meninada da vizinhança ali se ajuntava para ouvi-lo. A televisão ainda não fora inventada.

Eu e meus irmãos mais velhos tivemos a sorte participar dessa maravilhada plateia. Na esquina de nossa casa, no meio da rua, havia frondoso pé de manga, embaixo do qual, à boca da noite, acendíamos uma fogueira, sentávamo-nos e éramos transportados para o mundo fantástico do Velho Sinésio, sempre que papai, Seu Rosa Ribeiro, o contratava.

Seu repertório abrangia, não só as tradicionais histórias infantis, como também as lendas simples do sertão, quando ele abusava de sua capacidade criativa para contar-nos algumas com personagens por todos nós conhecidas, muitas delas inventadas, como esta do Socó e do Muçum. Para auxiliar a compreensão dos leitores, vou definir cada um dos personagens.

Socó – Design. comum a várias aves ciconiiformes, ger. paludícolas, da fam. dos ardeídeos, esp. dos gên. Tigrisoma, Butorides e Botaurus, de ampla distribuição, hábitos diurnos, crepusculares ou noturnos, sendo encontradas isoladas ou aos pares. Entenderam? Não? Nem eu. Por isso, aí vai a imagem:

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 Socó abicanhando a presa

O socó, o martim-pescador e outros pássaros piscívoros têm um especial manejo para engolir a presa, verdadeiro malabarismo. Pescam-na como visto na figura acima. Em seguida, jogam-na para o alto, fazendo com que ela lhe caia de ponta-cabeça diretamente na goela. Jamais a engolem pelo rabo, pois até os bichos sabem que quem engole pelo rabo, enrabado será.

Muçum – Peixe teleósteo simbranquiforme, da fam. dos simbranquídeos (Synbranchus marmoratus), encontrado em rios, lagos e açudes da América do Sul; é desprovido de escamas, nadadeiras pares e bexiga natatória; a pele, amarelada nos adultos, secreta grande quantidade de muco. Em períodos de seca, vive durante meses enterrado em túneis; possui capacidade de sofrer reversão sexual. Não entenderam? De novo? Empataram comigo. Eis a figura:

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 Muçum presepeiro

O muçum é o maior bagunçador de um pesqueiro. Além de não ser comestível, o fisgado enrola-se na linha, embaraçando-a toda. Isso dentro d’água. Fora, dana-se a pular e enrodilhar-se, dando o maior trabalho para tirar-lhe o anzol da boca, visto que é mais liso do que quiabo ensaboado e não morre com porrada. Para matá-lo, só mesmo com fogo. É o peixe mais resistente de todos o que já pesquei.

Isto feito, passemos à lenda contada pelo Velho Sinésio.

Na Lagoa do Maravilha, distante uma légua de Balsas, um socó tentava capturar seu almoço, mas os peixes andavam vasqueiros, não aparecia umzinho para matar-lhe a fome, até que ele viu um muçum dando sopa ali perto. Já quase morto de fome, pensou: – Vai esse mesmo! E engoliu o muça. Pela cabeça, é claro, que ele não era besta de correr o risco acima referido.

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O socó deglutindo seu repasto

Acontece que o muçum, esperto pra caramba, não se deu por vencido: entrou pelo bico e saiu pelo fiofó. O socó, ao vê-lo dando sopa, e pensando que se tratasse de outro indivíduo muçunático, engoliu-o novamente. E outra vez o muçum saiu-lhe pelo furico. A operação ficou a repetir-se indefinidamente, isso porque socó, por nunca encher a barriga, continuava com mesma fome lascada que o trouxera à lagoa.

Depois de umas horas, vendo tanta fartura, o socó deteve-se um pouquinho em sua comelança e exclamou?

- Eita lagoa da peste para ter muçum que não acaba mais! Tô feito!

Resumo da ópera: adaptando-se a lenda para os tempos atuais, a socó seria a Justiça, e o muçum, os embargos infringentes, declaratórios, procrastinatórios, chicanatórios, eternizatórios, etc. e coisa e tal.

GABY DE SABOYA, SANGUE BALSENSE NO TEATRO BRASILEIRO

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A atriz à direita é Gaby de Saboya, neta de minha Tia Alice, estrelando, juntamente com Marcelle Sampaio, a peça Musas, em excursão por todo o Brasil. A montagem promove um encontro ficcional entre a pintora Frida Kahlo e a poetisa Sylvia Plath, papel desempenhado por Gaby.

A trupe tem agenda lotada, com apresentações em Brasília, nos dias 9, 10 e 11 de agosto, no Teatro Brasil 21; em Salvador, nos dias 16 e 17, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho; e em Goiânia, nos dias 7 e 8 de setembro, no Teatro Sesi, dentre outros compromissos.

“A pintora mexicana Frida Kahlo (1907/1954) viveu num país quente. Sua tragédia pessoal sempre foi com a parte sul de seu corpo: além da poliomielite na infância, que a deixou manca, sofreu grave acidente, que a obrigou a ficar acamada boa parte de sua vida. Usando colete para a coluna, teve amputados uma perna e dedos dos pés. Foi casada com Diego Rivera, que já era um pintor reconhecido, por quem foi traída muitas vezes, inclusive com própria irmã. Nunca conseguiu ter filhos. Adorava fotografia, era incomparável na maneira de se trajar, pintava para expressar sua dor e sua visão do mundo e, nas horas vagas, escrevia em seus diários. Apesar de todos os reveses, Frida pulsava vida, era generosa, exuberante, sensual, combateu as traições do marido e teve vários amantes, homens e mulheres. Os espelhos ajudaram-na a afirmar sua autoestima. Faleceu precocemente, aos 47 sete anos de idade.

“A poetisa norte-americana Sylvia Plath (1932/1963) viveu em regiões frias. Seu drama sempre foi com a parte norte de seu corpo. As crises de sanidade levaram-na aos eletrochoques e aos calmantes. Tinha obsessão pela figura masculina, primeiro o pai, depois o marido. Casada com Ted Hughes, escritor renomado, foi traída por ele, ao que se sabe com uma única mulher, adultério e ausência que não suportou, suicidando-se por asfixia, ao colocar a cabeça dentro do forno a gás, isso aos 30 anos, em plena mocidade. Teve dois filhos, mas a maternidade não lhe deu força suficiente para evitar esse ato, deixando-os órfãos, ainda crianças. Odiava ser fotografada, era discreta, introspectiva, tendendo à depressão. Pouco confiante, escrevia para expressar-se e manter-se viva. Nas horas vagas, fazia desenhos em seus cadernos. Era frágil como cristal e viveu num a redoma de vidro. Sua obsessão era a morte.

“Uma pintora mexicana e uma poetisa norte-americana, que nunca se encontraram na vida, dividem a cena de Musas, de Nestor Caballero. A peça desse venezuelano, inédita no Brasil, não é biográfica, não relata detalhadamente fatos da vida das duas artistas, mas oferece um mosaico de sensações, perdas, desejos, sinais de desespero, encontros surreais, breves momentos de felicidade.

“Inicialmente, perguntamo-nos que semelhanças ligaram essas duas mulheres, aparentemente tão distintas, para que o autor as reunisse no palco. Ambas foram casadas com intelectuais expressivos, ambas foram traídas, ambas tiveram uma vida conturbada, mas a maneira como lidaram com seus dramas pessoais parece quase divergente. Talvez estivesse aí a chave para compreensão do autor.

“O título que Caballero dá a sua peça é revelador: por que duas artistas tão expressivas, confessionais, contundentes, com traços tão pessoais, são chamadas de Musas? Há nessa qualificação referência ao fato de elas terem vivido ofuscadas pelo marido? Faz parte de um mundo machista e misógino restringir a função de ‘musa inspiradora’ à mulher?

“Elas foram musas, tanto para Diego Rivera e Ted Hughes, quanto para diversos outros artistas e admiradores. Mas foram, também, mais que musas. Ser musa é uma função menor? Quem nos pode afirmar que já serviu de inspiração para a arte ou a vida de alguém? Como transfiguramos o que recebemos? Por quanto tempo conseguimos manter-nos de pé e com a cabeça erguida?

“A montagem da peça é dedicada a todos os que honraram a terra em que pisaram e que renovaram o mundo com suas maravilhosas cabeças.” (Texto extraído do prospecto da peça)

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Marcelle Sampaio e Gaby Saboya: em cena

Falemos agora do sangue balsense abrilhantando o Teatro Brasileiro. Depois da sobrinha Mônica Silva, neta de minha irmã Maria Isaura, aqui retratada no dia 09.01.11, sob o título “Mônica Silva, Sangue Balsense na Patinação Mundial”, mostrando sua trajetória nas pistas do Holiday on Ice e da Disney on Ice, ora é a vez dessa outra, a Gaby, extasiar o Brasil e, praza a Deus, o Exterior com sua dramaturgia. O que vem a justificar plenamente o título de meu penúltimo livro: De Balsas para o Mundo.

Alice Albuquerque Bezerra, a Tia Alice, irmã de minha mãe, Maria Bezerra, nasceu em Balsas, no ano de 1907, coincidentemente o mesmo de Frida Kahlo. Era filha de José Bezerra de Farias e Ana de Albuquerque Bezerra. Em 1917, a família mudou-se para Goiás Velho, ficando em Balsas apenas minha mãe, que já estava de casamento engrenado com meu pai, Seu Rosa Ribeiro.

Em Goiás velho, Tia Alice casou-se com José Garibaldi Fonseca, com quem teve cinco filhos, sendo três rapazes e duas moças, uma das quais, a Maria Alice, veio a casar-se com José Luiz Saboya. Estes dois, residentes no Rio de Janeiro, são pais da talentosa Gaby, atriz que infla de orgulho o peito de todo o clã Albuquerque.    Você, meu querido leitor, que me acompanhou nestas maltraçadas linhas até aqui, é um privilegiado: quando o espetáculo passar em sua cidade, já ira sabendo de tudo sobre a personalidade das musas nele homenageadas.

Sábado, dia 10, eu estive lá, não só para conferir, como também abraçar a Gaby, sobrinha que não via há uns dez anos.

Não sendo crítico especializado, mas apenas curtidor da arte teatral, ouso externar meu parecer sobre a apresentação a que assisti. A parte técnica deixou um pouco a desejar. Acho que deveria haver microfones individuais, para que as atrizes fossem mais bem ouvidas por toda a plateia. Quanto ao desempenho das duas e ao valor da peça, em escala um a dez, minha nota é: dez! Nota dez!

Como testemunha ocular da história, eis minha participação na trama:

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NOSSA SENHORA DO COCO DA APARECIDA, SEU FESTEJO E SEU HINO

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Imagem entronizada no Santuário

Loreto é tranquila, simpática e acolhedora cidade do sertão sul-maranhense, localizada à margem esquerda do Rio Balsas, a 720 km de São Luís, a capital, com população urbana em torno de 7.500 habitantes. Sendo a terra natal de Dona Maria Bezerra, minha saudosa santa mãezinha, considero-a uma extensão de Balsas.

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Paisagens de Loreto: Igreja Matriz e detalhe do Balneário Santa Fé

Na história de sua fundação, há registro de disputa entre o Padre Lopes, que desejava a localização às margens do Rio Balsas, com navegação até o Oceano Atlântico, e a família Pereira, vencedora, que iniciou a construção das casas às margens do Riacho Teles, distante 3 km do rio. Afastado da única via de transporte e de escoamento da produção, só o marasmo poderia sobrevir-lhe. Loreto foi elevada a cidade no dia 29 de março de 1938, mas, com o passar dos anos, decresceu de importância, eis que isolada de outras artérias principais de comunicação com a capital e com os demais municípios em derredor.

Hoje, com o crescimento horizontal das edificações urbanas, a cidade alcançou as margens rio, onde se localiza o bairro Balneário Santa Fé e onde foi construída um ponte suspensa de madeira, para pedestres, e instalado um pontão, para passagem de veículos automotores.

A atração maior do município é o tradicional Festejo de Nossa Senhora, de 6 a 15 de agosto, na localidade denominada Coco da Aparecida, à margem direita do Rio Balsas, mata adentro, distante 73 km da sede e 14 km da cidade piauiense de Ribeiro Gonçalves. Depois de Festejo balsense de Santo Antônio, é a maior atração religiosa daquele sertão.

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Detalhes do Santuário do Coco da Aparecida

Durante sua realização, acorrem para o Coco romeiros, não só das cidades próximas, como também de todo o país. Cerca de 15 mil pessoas fazem com que a população flutuante do arraial seja o dobro da urbana loretense.

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Coco da Aparecida: detalhes da romaria

Há um esquema itinerante composto de camelôs, marreteiros, vendedores de bijuterias, quinquilharias, discos e aparelhos eletrônicos de toda a espécie, que se desloca da Bahia, passando por todas as festas religiosas sertanejas e atingindo até as comunidades paraenses. Tal esquema está presente, com toda sua pujança, no Festejo do Coco da Aparecida, dando-lhe colorido especial.   

Como em todo o Interior Nordestino, a Alvorada marca o início do Festejo, seguindo-se Missas matinais, Terço nas novenas, retretas e Procissão no último dia. A Quermesse completa o cenário, com barraquinhas a cargo dos habitantes do lugar, nas quais não faltam as comidas típicas da terra, bebidas e a animação por conta dos trios nordestinos e bandas que para ali se dirigem em busca do garantido faturamento.

A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, editada pelo IBGE, informa-nos que, em passado remoto, o ponto pitoresco dos festejos loretenses constituía-se nas danças ao ar livre, ao som de sanfona e outros instrumentos, assim descritas: “um dos cavalheiros saca de sua arma, dando vários tiros para cima, provocando, desse modo, um tiroteio entre os próprios dançantes, de vez que estes acompanham a atitude do primeiro. Com todo esse movimento, os festejos prosseguem normalmente, ficando eles com uma das mãos sobre o ombro das damas, enquanto a outra permanece com a arma.”

A história da devoção é narrada por tradição oral. Os moradores antigos do Arraial do Coco contam que, há mais de 200 anos, num dia 15 de agosto, a imagem de Nossa Senhora apareceu ali para duas meninas, no meio de uma rocha, lugar onde foi construída uma capela. As meninas videntes, ao falecerem, foram sepultadas ao pé da escadaria do santuário. Romeiros que participam dos Festejos ou em caravanas de devotos garantem que vários milagres já foram realizados pela Santa, que ficou conhecida como Nossa Senhora do Coco de Aparecida

A partir de 1992, após a chegada do Padre Ugo Montagner – pároco de Loreto até pouco tempo e do Coco da Aparecida até hoje -, a festa ficou melhor organizada, com a construção de uma capelinha em forma de asa delta, conforme se vê nas fotos acima, e com a chegada de água encanada e luz elétrica à região.

Meu amigo Dom Enemésio Lazzaris, Bispo Diocesano de Balsas, a quem está subordinada a Paróquia de Loreto, acha que é preciso fazer-se um projeto para expandir a romaria, visando, em primeiro lugar, a preservação do meio ambiente. Devido à ausência de moradias em volta da capela, os romeiros improvisam acampamentos, devastando a área. Nas proximidades do local, chama a atenção um grande desmatamento provocado por várias carvoarias.

Acredita o Bispo que, por seu tamanho e importância, o Governo do Estado deveria apoiar a festa e colocá-la no calendário turístico do Maranhão. A esse respeito, o Padre Ugo Montagner já fez várias solicitações aos governantes maranhense, não obtendo resposta alguma.

É do Padre Ugo Montagner a inspirada Oração de Nossa Senhora do Coco da Aparecida, que adiante transcrevo:

“Mãe querida, Nossa Senhora do Coco da Aparecida, como é bom estar aqui junto a teus pés, te louvando, te agradecendo, te amando, te implorando, pedindo tua proteção, tua graça, tua misericórdia, teu perdão, tua bondade, teu amor, tua paz, tua justiça, tua bênção, tua mão eterna, para encontrar a eterna felicidade junto com teu filho Jesus. Amém!”

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Padre Ugo Montagner com catequizandos de Loreto

A seguir, o Hino de Nossa Senhora do Coco da Aparecida, composição do Padre Ugo Montagner e partitura da Professora Silvana Teixeira, de Brasília:

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Desejando, de todo o coração, que Loreto, agora ligada por asfalto às principais rodovias brasileiras, venha a conhecer o progresso e a prosperidade, anseio de toda aquela boa gente loretense, disponibilizo-lhes este vídeo com o bonito Hino, na voz de Mário Cardoso, artista de nosso sertão:

BOM JESUS DA LAPA, SEU FESTEJO BALSENSE E SEU HINO

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Atual imagem de Bom Jesus da Lapa

Quando saí de Balsas para estudar e conquistar o Mundo, em fevereiro de 1949, a cidade, com população em torno de 3.500 habitantes, era bem provida de 3 templos católicos. No centro, a Igreja Matriz de Santo Antônio, cuja festa se encontra narrada em meu último livro, De Balsas Para o Mundo, no episódio Moreninha, a Rainha Santa do Festejo; ao norte, na hoje Praça Dr. Roosevelt Kury, a Igreja de São Sebastião, de cujo Festejo já lhes falei; e, ao sul, a Capela de Bom Jesus da Lapa, localizada na esquina das hoje Ruas Bom Jesus e Edísio Silva, tema central deste episódio que ora lhes escrevo.

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Capela de Bom Jesus da Lapa, depois da reconstrução

A Capela fora erigida por dona Inês Maria de Jesus, Sua fervorosa devota, mulher de Severino Lira, no grande quintal de sua casa. Dona Inês era proprietária de sortida quitanda, com os rendimentos da qual mantinha a Capela, contando também com o apurado no Festejo, que ia de 28 de julho a 6 de agosto.

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Dona Inês Maria de Jesus

A festa transcorria em ambiente genuinamente sertanejo, à noite, quando se rezavam o Terço, benditos e ladainhas, e se cantavam hinos sacros, sendo o mais importante deles o Hino de Bom Jesus da Lapa, de autor desconhecido, cuja letra e melodia me foram resgatadas pelas devotas Ana Lúcia Leite Castro e Maria de Jesus Pereira Reis, como adiante se vê, com partitura elaborada pela Professora Silvana Teixeira, daqui de Brasília:

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Cantava-se também o Ofício de Nossa Senhora. Lembro-me ainda da voz que mais se destacava, a de Dona Josefa da Berada, ao entoar: “…Agora, lábios meus, dizei e anunciai/Os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus…”

Na frente da Capela, eram vendidas comidas típicas, tais como maria-isabel, frito de galinha ou carne de porco, panelada, rabada, chambaril, farofa de torresmo, café, beiju, bolo de arroz, cacete, rosca, peta, brevidade, bolo de puba, orelha-de-macaco, rapadura batida, alfenins, tijolos de laranja e mamão e outras iguarias, além de um tipo de bebida que eu só conheci naquele Festejo: a gengibirra, feita de frutos fermentados. Em pequenas bancas eram vendidas bebidas quentes, não faltando o conhaque e uma boa cachacinha. Tudo iluminado a lamparina de um, dois e até três bicos.

Quando falo sobre essa festa para meus contemporâneos, todos se lembram imediatamente dos suspiros – chamado merengues em outras paragens – feitos por Dona Inês, acondicionados em artísticos invólucros recortados de papel de seda e vendidos pelo Zé da Inês, um de seus filhos de criação, mulato também conhecido por Zé Quebra-coco, irmão do Pedro, criado pelo Odilon Botelho. Esse apelido, segundo dizem, devia-se à perícia e prática com que o Zé rachava um coco-da-baía utilizando-se apenas de cabeçadas.

Todas as noites, havia leilão, com joias ofertadas por pessoas das redondezas: capões cheios, leitoas assadas, bolos diversos, doces em compota e em pasta, e até produtos artesanais ou manufaturados. Luz elétrica não havia. A mesa do leilão e seu derredor eram iluminadas por petromax, tipo de candeeiro possante, a querosene e camisa, esta fazendo as vezes de lâmpada.

A parte musical ficava a cargo de Mestre Pedro Novais – o Pedro Rabequeiro – na rabeca, Velho Cego no bombo e Domingos Bolor no reco-reco. Às vezes, apareciam por lá o Olavo e o Velho, pai do Mestre Riba, ambos com seus foles de oito baixos.

Domingos Bolor era outro filho de criação de Dona Inês. Sarará invocado, gostava de fazer ginásticas e acrobacias dependurando-se nos galhos dos pés de pau. Um dia, incorporou-se a pequeno circo que passou em Balsas, como trapezista e ajudante de palhaço, e nunca mais dele se teve notícia.

A Procissão, no último dia do Festejo, era somente em volta do quarteirão da Capela. Missa? Nem pensar! Padre Clóvis, vigário da freguesia, não celebrava ali, devido a Dona Inês e Seu Severino serem casados apenas civilmente. No início dos Anos 1950, com a vinda dos Missionários Combonianos para Balsas, essa restrição se acabou, e até a Capela foi reconstruída e ampliada, como na foto se vê na foto acima. Nessa reconstrução, muito valeram os esforços de Dona Perolina Coelho, de sua filha Socorrinha e de meu Primo João Ribeiro, de quem adiante falarei.

Delzenir Cavalcante, também filha de criação de Dona Inês, gentilmente me forneceu as duas fotos de sua mãe que ilustram este episódio. Disse-me que ela, contando os de pouca e os de longa duração, criou mais de 20 filhos.

Para demonstrar a força da devoção de Dona Inês a Bom Jesus da Lapa, quero contar-lhes importante fato ocorrido em minha família.

Meu avô, o Capitão Pedro José da Silva, nasceu com um pé torto, e essa herança genética se transmitiu para alguns netos e até bisnetos. Meu primo João Ribeiro da Silva Sobrinho – o João Ribeiro –, filho do meu Tio Cazuza e Madrinha Ritinha, por exemplo, nasceu com os dois pés tortos. Dona Inês, muito apegada a ele, era sua Madrinha de Batismo por procuração. A titular era sua tia, Lourdes Pereira. João Ribeiro considerava a duas como Madrinhas, sem distinção, mas nutria por Dona Inês um amor quase filial.

Naquele longínquo sertão, sem médico ou recurso algum no âmbito da Ortopedia, meus tios envidaram todos os esforços e recursos para que o menino se visse curado da citada anomalia. Praticamente, toda a semana era confeccionado um novo par de sapatos, por sapateiros dali mesmo, na esperança de, aos poucos, corrigir a imperfeição.

Muitas promessas foram feitas, como uma viagem a pé à cidade de Riachão, distante 72 quilômetros, em comitiva que contou com a participação de Tio Cazuza, Madrinha Ritinha, Seu Rosa Ribeiro, meu saudoso pai, e Dona Inês, que não se desgarrava do afilhado. “Faze tua parte, que eu te ajudarei”, diz a Sabedoria Popular.

Em 1942, quando João Ribeiro estava com 9 anos, Dona Inês jogou sua cartada maior. Comunicou a meus tios que fizera uma promessa para levá-lo a Bom Jesus da Lapa, na Bahia, distante 1.500 quilômetros, e solicitou-lhes permissão para que a viagem fosse feita. Nessas alturas, Dona Inês já era uma pessoa da família.

Meus tios concordaram com o pagamento da promessa e organizaram a comitiva, provida de uma tropa de cavalos e burros de carga para transporte do pessoal, redes, alimentos não perecíveis, lenha e utensílios de cozinha. Dentre as pessoas que fizeram parte dessa romaria, é lembrado Seu Francisco Oliveira, o Chico Banha que, depois de alguns dias, abandonou-a, por achar que a viagem estava muito devagar, seguindo sozinho a cavalo.

João Ribeiro viajou montado num burro. Dona Inês cumpriu todo o percurso a pé, três meses de ida e volta.

O resultado disso é que o menino ficou completamente curado. É claro que teve de usar ainda muito calçado ortopédico: “Faze tua parte…”. A graça foi alcançada!

João Ribeiro, hoje, aos 79 anos de idade, já não sofre de qualquer imperfeição nos pés, é vitorioso na vida profissional, com uma família bem constituída, cheio de filhos e netos, feliz, enfim, com as bênçãos de Deus!

A imagem de Bom Jesus da Lapa que Dona Inês segura na foto abaixo foi-lhe presenteada por meus Tios Cazuza e Madrinha Ritinha, quando tudo começou, e foi substituída há bem pouco tempo por outra maior, a que se vê acima, depois da reconstrução da Capela.

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Dona Inês com a imagem tradicional

Dona Inês nasceu em Babilônia (MA), a 7 de fevereiro de 1909, e muito cedo mudou-se para Balsas. Nem bem chegara, ao assistir a uma Missa em louvor do Padroeiro Santo Antônio, com a igreja repleta de romeiros, ambiente muito abafado e calorento, sentiu-se mal, sendo levada por Madrinha Ritinha para receber socorro em sua casa, que ficava na Praça da Matriz. Daí surgiu uma forte amizade entre as duas, no que resultou essa bonita história que acabo de contar.

A 6 de novembro de 1989, com 80 anos de idade, a maioria deles devotada ao Bom Jesus da Lapa, Dona Inês descansou em paz!

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Ana Lúcia e Maria de Jesus: resgate da letra e da melodia

No ano de 2012, contratei o Estúdio Verbo Vivo, de Brasília, para os serviços de gravação do Hino de Bom Jesus da Lapa, o que foi feito na voz das cantoras Mércia Rocha e Renata Vasconcelos.

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Mércia Rocha e Renata Vasconcelos: gravando no estúdio

De posse da melodia, foi montado um youtube, que vocês verão a seguir:

PROFESSOR LUIZ RÊGO, O PLANTADOR DE ESCOLAS

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Luiz de Moraes Rêgo

Estudei todo o Curso Primário no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo, estabelecimento público estadual, em Balsas, sertão sul-maranhense, tendo como Diretoras, primeiro, Dona Rute Rocha, a seguir Dona Laíse Freire e, depois, Maria Isaura, minha irmã; e como Preceptoras as Mestras Jesus Fonseca, Maria Alice, também minha irmã, Jesus Pires, Nazaré Borba e, por último, Hamedy Kury, concluindo, no final de 1948, o 5º Ano Primário. Estava apto a seguir meu caminho, qual seja, montar no lombo dum burro ou embarcar numa balsa, num motor, na carroceria dum caminhão e partir rumo à busca de mais saber, no intuito de conquistar o sul-maravilha, a independência financeira, do Mundo, enfim.

O Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo funcionou, desde sua fundação, até o final do ano de 1944, no prédio hoje ocupado pelo Clube Recreativo Balsense, à Praça Eloy Coelho. A foto a seguir é do início do ano de 1940, batida no patamar da Igreja Matriz:

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Nela vemos, ladeando o Corpo Discente, Dona Rute Rocha, à esquerda, e minha irmã Maria Isaura à direita, recém-formada e já lecionando no Grupo. À frente, no centro, esse menino de uniforme diferente e cabelo cacheado sou eu, Raimundo Floriano que, com menos de 4 anos, era levado para a escola apenas para comer merenda e brincar, o que resultou em minha alfabetização espontânea, muito antes das outras crianças da mesma idade..

Em 1944, o Grupo mudou-se para a Praça Getúlio Vargas, ou da Matriz, passando a ocupar um prédio especialmente construído para seu funcionamento, que hoje o progresso acabou por modificar, restando dele apenas esta foto para testemunhar seus tempos de glória:

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Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo como era em 1949

Assim como o Educandário Coelho Neto, o Luiz Rêgo também oferecia excelente qualidade de ensino e contabilizou em seu crédito a formação fundamental de alunos que saíram de Balsas para sobressaírem-se em todos os ramos de atividade profissional, dentre eles até um Presidente da República, o Zé do Sarney, como já foi dito no perfil do Professor Joca Rêgo. Alguns deles hão de se reconhecer ao ver a foto de 1940.

Mas… quem foi Luiz Rêgo? Essa é uma pergunta que se faz a qualquer balsense de hoje, e nenhum sabe responder. No intuito de preencher tão grande lacuna, resolvi registrar em livro a perfil desse grande educador.

Luiz de Moraes Rêgo nasceu no dia 28 de outubro de 1906, em São Luís, onde veio a falecer no dia 9 de janeiro de 1987, aos 80 anos de idade. Era filho de João Maia de Moraes Rêgo e de Dona Custódia Veloso de Moraes Rêgo. Durante toda sua existência, empenhou-se, primeiramente, em amealhar conhecimentos, a fortalecer-se intelectualmente, para depois dedicar todo o patrimônio de sapiência apreendido em prol da educação e da cultura do povo maranhense.

Iniciou seus estudos na Escola Modelo Benedito Leite, onde concluiu o Curso Primário, ingressando, a seguir, na Escola Normal, após o que se diplomou no Curso Superior de Farmácia, com especialização em Química. Fez Pós-Graduação em Planejamento de Administração em Educação em San Diego, Califórnia, EUA, obtendo o grau de Mestre.

Durante toda a fase estudantil, foi excelente jogador de futebol, ponta-canhota de petardos indefensáveis, podendo jogar em qualquer grande time do Brasil, atividade que abandonou ao preferir dedicar-se inteiramente ao Magistério.

Seu currículo magisterial, a que se entregou de corpo e alma em todas as horas de sua vida, é riquíssimo e intenso.

Foi Diretor da Escola Normal, de 1932 a 1936. Em 1934, fundou o Colégio de São Luiz, do qual foi Diretor até 1977, ano de sua desativação. Nele, tudo era novo e moderno: laboratórios de ciências físicas, químicas e naturais, instrumentos musicais, aparelhos de ginástica, máquinas e equipamentos para trabalhos manuais, confortável auditório com palco para teatrinho e música, e um grêmio cultural que editava jornal, realizava sessões de cinema e concursos literários.

De agosto de 1936 a março de 1945, o Maranhão conheceu o melhor governo de todos os tempos, na pessoa do Doutor Paulo Martins de Souza Ramos, nomeado Interventor pelo Presidente Getúlio Vargas. Paulo Ramos foi o Governador do Maranhão com maior número de realizações, destacando-se: criação do Banco do Estado, em 1938, como entidade proporcionadora de recursos para financiamento de projetos que se revestiram no desenvolvimento maranhense, o qual, mais tarde, sob a denominação de Banco do Estado do Maranhão, foi vendido para o Bradesco; criação do Departamento de Estradas e Rodagens, que foi extinto na Gestão Roseana Sarney; moralização administrativa, sendo o único governador, até março de 1945, que exerceu o cargo sem suspeita alguma de irregularidades, pois não constituiu fortuna duvidosa nem distribuiu favores a seus amigos, o que era comum no Maranhão naquela época; saneamento das contas públicas, eis que, ao deixar o Poder, entregou o governo para o Dr. Clodomir Cardoso, jurista, advogado e escritor, sem qualquer dívida do Estado.

Mas foi no setor da Educação que Paulo Ramos produziu sua tacada magistral: Nomeou o Professor Luiz Rêgo como Diretor de Instrução Pública do Estado. Com essa missão plenipotenciária, Luiz Rêgo empenhou-se no mister de plantar Grupos Escolares Estaduais em todas as cidades maranhenses onde elas só existiam nas esferas municipal ou particular. Assim, nasceu em Balsas aquele que, mais tarde, seria denominado Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo.

Em seu magnífico e invejável histórico de homem público, constam estes créditos: Secretário de Educação, de 1941 a 1945, e de 1971 a 1972; Presidente do Rotary Clube de São Luís, de 1940 a 1941, e de 1944 a 1945; Governador do Rotary Clube Internacional, de 1949 a 1950; Membro da Academia Maranhense de Letras, a qual presidiu por 20 anos.

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Acadêmicos Luiz Rêgo, Virgílio Domingues, Domingos Vieira e Cônego Ribamar Carvalho – Foto de 1969

Em sua bibliografia, constam estes títulos: Meu Desejo de Ser Útil (1932), Questões de Educação (1934), Educação e Ensino (1935) e Cultura e Educação (1938).

O Professor Luiz Rêgo foi casado por duas vezes. Do primeiro casamento, com Inah Araújo Moraes Rêgo, teve os filhos Maria Júlia, Luiz Carlos, Luiz Fernando, Luiz Augusto, Luiz Rodolfo e Luiz Henrique, todos com o sobrenome Moraes Rêgo; do segundo, com Valdéfia Souza de Moraes Rêgo, teve a filha Alessandra Souza de Moraes Rêgo.

No início de 1951, o Luiz Rêgo deixou o prédio da Praça Getúlio Vargas – mais tarde ocupado pelo Ginásio Balsense – e mudou-se para a Praça Gonçalves Dias, a mesma do Educandário Coelho Neto. As novas instalações eram providas de um teatrinho com palco e de residência para a Diretora, na época minha irmã Maria Isaura, que promoveu ali inesquecíveis “dramas”, assim chamados naquele sertão os espetáculos literomusicais e artísticos, com a participação da juventude local.

Devido a modificações impostas pela modernidade do ensino, o Grupo transformou-se e expandiu-se, recebendo a denominação de Unidade Integrada Professor Luiz Rêgo, como adiante se vê:

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Prédio do Grupo Escolar a Professor Luiz Rêgo: início de 1951

Possuo em meu acervo o Álbum dos Municípios do Interior do Maranhão, organizado pelo Jornalista Miécio de Miranda Jorge, membro da Sociedade de Cultura Artística do Maranhão, editado no ano de 1950, trazendo fotos de Grupos Escolares existentes em diversas cidades maranhenses, cujos prédios seguiram a mesma arquitetura, o mesmo layout do Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo balsense, onde cursei o Primário.

Estranhamente, só Balsas, minha querida cidade natal, homenageou esse grande benfeitor, dando seu nome ao Grupo Escolar por ele criado!

PROFESSOR JOCA RÊGO, O TELÚRICO

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Professor Joca Rêgo – Acervo Sakura

Mestre e disciplinador!

João Joca Rêgo Costa Junior, o Professor Joca, filho de João Joca Costa e Ana Joaquina Rêgo, a Santaninha, nasceu em Conceição do Araguaia (PA), no dia 11.01.1908, e faleceu em Balsas (MA), no dia 27.09.1992. Eram seus avós: paternos, Abílio Ayres Costa e Luzia Ayres Costa; e maternos, Torquato Augusto Pereira Rêgo e Archângela Angélica Silva Rêgo.

Não conheceu o pai, que era fazendeiro na região e, em setembro de 1907, foi traiçoeiramente assassinado em decorrência de disputa de terras com seringueiros e comerciantes, deixando a esposa grávida de cinco meses. Sua mãe, que já tinha três filhos, contraiu novas núpcias duas vezes, dando à luz mais três, e veio a falecer em São Luís (MA), no ano de 1941.

Joca Rêgo iniciou os estudos em sua terra natal. Ao concluir o Curso Primário, em 1922, foi estudar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro (RJ), onde se destacou pela inteligência e aplicação, recebendo uma medalha de ouro de Honra ao Mérito, da qual muito se orgulhava. Ao final do curso, foi graduado como Bacharel em Letras, transferindo-se para a cidade de Carolina (MA), na qual sua mãe fixara residência e onde passou ele a exercer o Magistério.

Sua fama como educador logo ultrapassou as fronteiras carolinenses, atingindo os municípios em derredor, e impressionou fortemente a numerosa colônia de sírio-libaneses – os carcamanos – que se formara em Balsas e ali prosperara no ramo comercial. Preocupados com a educação de seus filhos, os carcamanos, em 1928, mandaram buscar o Professor Joca em Carolina, para que ministrasse a seus descendentes os rudimentos necessários a capacitá-los a ler, escrever e fazer conta.

Assim, com apenas 20 anos de idade, o Professor Joca assumiu a direção do Colégio Sírio Brasileiro, fundado a 5 de agosto de 1928 e localizado à Praça Gonçalves Dias, passando a lecionar não só para os filhos dos carcamanos, como para todos os que buscassem seus ensinamentos. Em pouco tempo, o Sírio Brasileiro era procurado pelos habitantes de localidades adjacentes, e também por alunos vindos do Pará, do Piauí, de Goiás e até da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro. A partir de 1933, o Sírio Brasileiro passou a denominar-se Educandário Coelho Neto, com internato, semi-internato, externato e currículo escolar que ia da Carta de ABC à conclusão do Curso Primário.

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Prédio do antigo Educandário – Acervo Sakura

Tudo o que até aqui foi dito encontra-se escrito em várias fontes de consulta que subsidiaram esta matéria com suas preciosas informações. Se algum dia este livro for publicado, darei o merecido crédito a todas elas.

O que me impressiona sobremaneira é o fato de o Professor Joca ser detentor de um histórico respeitável, ter estudado no Rio de Janeiro e exercido o Magistério em Carolina e em Balsas, sem possuir documento civil algum, pois apenas foi registrado em Cartório no ano de 1934, aos 26 anos de idade, como se vê nesta Certidão:

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Tenho em mãos a Certidão verbum ad verbum do registro feito, por meu pai, Emigdio Rosa e Silva, Seu Rosa Ribeiro, Tabelião do 2º Ofício na época, ocorrido no dia 17.08.1934. Na averbação, consta que o ato obedeceu ao Decreto nº 19.710, de 18.01.1931, e modificações, que obrigava ao registro, sem multa, dos nascimentos havidos no Território Nacional, desde 1º de janeiro de 1889 até 27 de junho de 1934.

Deixo ao talante dos leitores as conclusões que lhes convierem.

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PLEBISCITO – ARTHUR AZEVEDO

Raimundo Floriano, pela cópia

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Arthur Azevedo

Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão, a 07 de julho de 1855, e falecido no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908, dramaturgo, contista, poeta comediógrafo e jornalista, irmão mais velho de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço e O Mulato, é uma das grandes figuras da Literatura Brasileira, em cuja obra campeia um fino e gracioso humorismo.

Seguiu para o Rio de Janeiro em 1873, aos 18 anos de idade, onde foi tradutor de folhetins e revisor de A Reforma, tornando-se conhecido por seus versos humorísticos. Escrevendo para o teatro, alcançou enorme sucesso com as peças Véspera de Reis e A Capital Federal, esta musical.

Dentre seus trabalhos, destacam-se Contos Possíveis, Contos Efêmeros, Contos Fora de Moda, Contos em Verso, Contos Cariocas e Vida Alheia. Espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem O Dote, A Almanjarra, O Oráculo, Vida e Morte, Entre a Missa e o Almoço, Entre o Vermute e a Sopa, Retrato a Óleo e O, Amor por Anexins. Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.

Foi Fundador da Academia Brasileira de Letras e titular da Cadeira número 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono.

No final dos Anos 1960, foi apresentada aqui em Brasília a peça musical de sua autoria, A Capital Federal, com produção de Cleyde Yaconis e grande elenco de 27 artistas, dentre os quais Etty Fraser, Suely Franco, Neuza Borges, Tamara Taxman e Carlos Alberto Riccelli, além de excelente orquestra, que considero o melhor espetáculo musical a que assisti em toda minha vida. A peça causou tal impressão em mim que, ao fundar a primeira banda carnavalesca brasiliense, em 1972, dei-lhe o nome de Banda da Capital Federal.

O texto a seguir foi extraído do livro Contos Fora da Moda, encontrável hoje em sebos virtuais, assim como diversas itens de sua vasta produção literária.

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PLEBISCITO

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio!

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

- Papai, que é plebiscito?

O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

- Papai?

Pausa!

- Papai?

Dona Bernardina intervém:

- Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O Senhor Rodrigues não tem remédio, senão abrir os olhos.

- Que é? Que desejam vocês?

- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

- Se soubesse, não perguntava.

O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…

- A senhora o que quer é enfezar-me!

- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

- Proletário – acudiu o Senhor Rodrigues – é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

- Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

- Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: – Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho!

O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

- Mas se eu sei!

- Pois se sabe, diga!

- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto, havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…

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A menina toma a palavra:

- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

- Não fosse tolo – observa Dona Bernardina – e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

- Pois sim – acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

- Sim! Sim! façam as pazes! – diz a menina em tom meigo e suplicante. – Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

- Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

- É boa! – brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio – é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

- Plebiscito…

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

- Ah! – suspiram todos, aliviados.

- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!…

CÍCERO NOVO FORNARI, UM HOMEM DE BRIO

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Cícero Novo Fornari: em 1981 e em 2013

Na sala de espera da maternidade, dois macróbios, cabelos grisalhos, ansiosos ante o limiar de um grande acontecimento em suas vidas. Eu, 77 anos, na expectativa do nascimento de meu quinto filho; ele, cinco anos mais velho, aguardando o primeiro. Unidos pelos mesmos sentimentos paternais, acabamos fazendo conhecimento, quiçá amizade, e prometendo presentear-nos mutuamente com um clone de nossos rebentos, tão logo nos fossem entregues.

Explico: a maternidade era a Thesaurus Editora, nos preparativos finais da edição dos livros que acabáramos de escrever: Pétala do Rosa, o meu, e Apresentar Armas, o dele, sobre o qual discorrerei mais adiante. Apenas quem já passou por essa experiência, pode avaliar a emoção que se sente ao ver sua produção literária sair do prelo, fresquinha, pronta a enfrentar o julgamento dos leitores, as cacetadas dos críticos e, também, a partir dali, enriquecer o currículo de seu autor.

Minhas recentes leituras têm-me proporcionado a ocasião de conhecer variados textos de veteranos do Exército Brasileiro contando suas experiências durante o serviço ativo:

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Pequena Grande Unidade, do Sargento Amador Arimathéa, relata-nos, com ilustrações e a legislação pertinente, todo o desenrolar das operações que culminaram com a instalação da primeira tropa verde-oliva em Brasília, a 21 de maio de 1958; Cavando Trincheiras, de Paulo Irineu Barreto Fernandes, Conscrito de 1985/1986 no BPEB, brinda-nos com episódios vividos pelo autor na caserna durante aquele período; Memórias do Soldado Rodrigues, de Luiz Alberto Rodrigues, Conscrito de 1969/1970, também no BPEB, dá-nos uma ideia do que foi uma dura fase daqueles tempos de combate aos assaltantes de bancos, à ladroagem, aos corruptos, aos guerrilheiros e terroristas; Terceiro Batalhão – O Lapa Azul, de Agostinho José Rodrigues, contém a experiência do autor no front, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesses quatro livros, afloram o amor ao Brasil e a reafirmação do juramento feito diante de Bandeira Brasileira, ao prometerem dedicarem-se inteiramente ao Serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderiam com o sacrifício da própria vida.

Cícero Novo Fornari, o autor de Apresentar Armas, é Coronel da Reserva do Exército Brasileiro. Durante os 40 anos de atividade, serviu nas seguintes Organizações Militares: Escola Preparatória de São Paulo; AMAM; 1º Batalhão de Polícia do Exército; 1º Batalhão de Fronteira; 1º Batalhão de Carros de Combate Leves; AMAM, como Instrutor, 12º Regimento de Infantaria; Escola Preparatória de Campinas; EsAO; 4º Regimento de Infantaria; Escola de Comando e Estado-Maior do Exército; QG do Comando Militar da Amazônia; Centro de Operações na Selva; Estado-Maior do Exército; Gabinete do Ministro do Exército; Escola Nacional de Informação; 28º Batalhão de Infantaria Blindado, como Comandante; Escola Preparatória de Cadetes do Exército, como Subcomandante; Colégio Militar de Curitiba, como Comandante; e Adido Militar junto à Embaixada do Brasil na Venezuela.

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PEDRO MARANHENSE, MEU PRIMO GUABIRABA

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Pedro Maranhense: no alto, à direita, a Fazenda Santa Rosa

O cavaleiro montado nesse tobiano – ou pampo – raceado é meu primo Pedro Maranhense, homem do campo, das matas, dos rios, das lagoas, dos riachos, dos pastos, dos currais, do gado, de tudo que é ligado à Natureza silvestre, enfim, um telúrico.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, disse Jesus Cristo a São Pedro, o pescador de almas. E esse meu primo já nasceu consinado, como se diz no sertão. Com a sina de ser Pedro e pedra lapidada, pedra-alicerce de toda uma família que ajudou nos difíceis momentos da vida. Ajuda material e, mais que isso, suporte espiritual.

Nosso avô, Capitão Pedro José da Silva, com prole de 17 filhos, criou-a na Fazenda Brejo, sertão piauiense, onde lhe ensinou o duro labutar na lavoura e na pecuária, tirando da terra as dádivas necessárias à subsistência e à aquisição de bens industrializados, estes, nas mais das vezes, obtidos na base do escambo.

Naquela fazenda, nasceu Tia Evarista. A maioria dos filhos nominou também os seus em honra ao Patriarca. Assim, tivemos Pedro Apóstolo, do Tio Mundico; Pedro Silva Neto, do Tio João Ribeiro; Pedro Del Pretes, do Tio Fructo; Pedro Carvalho, da Tia Ondina; Pedro Silva, do Rosa Ribeiro, meu pai; Pedro Ivo, do Tio Cazuza; e Pedro Maranhense, da Tia Evarista, com um detalhe: nasceu no dia 29 de junho, Dia de São Pedro. Não fugindo à tentação de fazer um trocadilho, ouso afirmar que esse nosso primo já nasceu pedrestinado.

Sua ascendência é inteiramente sertaneja: bisavós paternos, Raimundo Alves Costa e Anna Alves Ferreira Sant’Iago, Belchior de Souza Britto e Maria Bandeira de Mello, do sertão sul-maranhense; e maternos, Fructuoso José Messias da Silva e Evarista Messias da Silva, Honorato José de Souza e Lucialina Maria de Freitas Sousa, do sertão piauiense. Avós paternos, Luiz Alves Costa e Albertina de Souza Britto Costa, do sertão sul-maranhense, e maternos, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva, do sertão piauiense.

Pedro Maranhense Costa nasceu em Balsas (MA), no Bairro Tresidela, a 29 de junho de 1925, e faleceu em Brasília (DF) no dia 10 de dezembro de 2012. Era filho de Manoel Maranhense Costa, o Né Costa, nascido em Pastos Bons (MA), a 5 de julho de 1898, e falecido em Caxias (MA), no ano de 1932, e de Evarista de Sousa e Silva, nascida em Floriano (PI), na Fazenda Brejo, no dia 20 de abril de 1896, e falecida na mesma cidade, no dia 25 de abril de 1928.

Pedro Maranhense era, portanto, guabiraba, termo com que são carinhosamente chamados, no Maranhão, os nascidos na Tresidela, bairro de cidades ribeirinhas, na margem oposta do rio.

Tio Né Costa levava uma vida nômade, como se deduz pelas datas de nascimento dos filhos: Maria Albertina da Silva Costa nasceu em Pedro Afonso (GO), hoje Tocantins, a 18.09.1923; Pedro, em Balsas, a 29.06.1925; e Maria Flory, em Floriano, a 27.10.1926.

Tia Evarista sofria de problemas pulmonares. No começo do ano de 1928, sentindo aproximar-se o fim de seus dias, e prevendo que Tio Né Costa, com seu espírito cigano, não teria condições de arcar com as três crianças que deixava, entregou-as para seus pais e meus avós, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva. Falecendo ele em 1933, Albertina e Pedro passaram à tutela de Tia Maria Isaura de Sousa e Silva, que os criou como filhos. Flory, por sua vez, foi entregue à Tia Ondina de Sousa e Silva. Isso aconteceu em 1928, ano em que o inglês Sir Alexander Fleming descobria a penicilina, o santo medicamento para debelar o mal de que ela sofria.

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Pedro José da Silva, Isaura Maria e Maria Isaura, seus pais de criação

Tia Maria Isaura, alta funcionária dos Correios e Telegráficos, nunca se casou e foi um esteio em nossa família, ajudando nos estudos da maioria dos sobrinhos sertanejos, assim como eu, que se hospedaram em sua casa para cursar o ginásio. Moravam com Tia Maria Isaura sua irmã Júlia de Sousa e Silva, a Tia Julinha, e seus três filhos, Antônio Luiz, Magnólia e Nílton, que foram para o Pedro verdadeiros irmãos de criação.

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Antônio Luiz, Magnólia e Nílton

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ROSA RIBEIRO E SEUS QUINZE MINUTOS DE FAMA

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Estão vendo essa linda Pétala Negra, sorriso radiante, dentes ebúrneos, lábios grossos e sensuais, parecendo próprios para serem beijados, como de fato o são, como de fato ela o deseja, anel de brilhante, brincos de ouro e pérolas?

Essa joia preciosa é a Cleneide Maria Ramos dos Santos, mais conhecida no meio forrozeiro como Neide, a Madre Superiora Neide do Convento da Igreja Sertaneja do Recife, nomeada diretamente pelo Papa Berto, em cujo Palácio Pontifício exerce sua missão clerical.

Madre Neide é a maior agitadora cultural pernambucana e está entrosada com os grandes astros nordestinos no âmbito literomusical, fazendo-se presente em todos os acontecimentos artísticos por eles estrelados, com os quais registra o momento para a posteridade:

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Com Júnior Vieira, Santanna, O Cantador, Chico César e Irah Caldeira

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Com Jessier Quirino, Maciel Melo, Xico Bizerra e Dominguinhos

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Com Elba Ramalho, Fábio Passa Disco, Papa Berto e Capa da revista Cabras

O que mais caracteriza a Neide é esse sorriso esfuziante e avassalador, aliado a uma simpatia conquistadora de corações e mentes.

Conheci-a na festa de minha posse na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, no Recife, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho que, no ato, deu show grátis de hora e meia. A mim apresentada pelo amigo escritor Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana, que hoje preside a Academia, Neide logo se familiarizou comigo, Veroni, minha mulher, e Mara, nossa caçula, auxiliando no desencadear da solenidade e pondo-nos em contato com os muitos artistas, músicos e compositores que enriqueceram aquela inesquecível noite.

Essa amizade com a Neide só trouxe proveitos para mim. Desde então, tenho-me valido dela para completar minha coleção discográfica de Forró, principalmente no que se refere aos inúmeros cantores que conheci em minha posse. Ela os procura pessoalmente, pede, compra, copia, enfim, faz de tudo para atender-me, jamais me cobrando um centavo sequer.

Pois agora, essa Pétala Negra de primeira grandeza, apeia-se de seu altíssimo pedestal, produz-se com esmero e posta sua fotografia com as Pétalas do Rosa no Facebook, em divulgação espontânea, isso tudo sem me pedir a remuneração, o cachê pelo serviço prestado! Não é a glória para Seu Rosa Ribeiro, meu pai? Seus 15 minutos de fama?

O livrinho, com 104 páginas, e fartamente ilustrado, nasceu de uma vontade minha de homenagear meu pai nos 40 anos de seu falecimento, ocorrido a 28 de maio de 1973. Antes de fixar a quantidade de exemplares da edição, procurei contabilizar a reduzida clientela para a qual se destinaria, eis que seu assunto não era de interesse geral, como em meus trabalhos anteriores.

Fiz um lançamento diferente, indo, sem aviso prévio, à casa de cada leitor escolhido. Primeiramente, selecionei, dentre entre os 850 endereços que tenho cadastrados, 353, todos de parentes, demais amigos, 24 confrades fubânicos e pessoas bem chegadas a nosso círculo familiar, quase esgotando a edição, que estabeleci em 400 unidades.

Aos escritores e artistas que sempre me agraciaram com seus trabalhos, os exemplares seguiram como cortesia. Aos fiéis leitores que, ao longo do tempo, me vêm prestigiando em minhas ousadias literárias, e a meus familiares, solicitei pequena ajuda para recuperar os gastos de produção, conforme papeleta anexada ao livro, fixando o quantum e indicando meus dados bancários para depósito.

Do total despendido com a gráfica a remessa, R$7.500,00, salvei R$3.600,00. Houve prejuízo? – alguns perguntarão. E eu respondo que não. A diferença a menor de R$3.900,00 compensa minha satisfação de ter mais um livro em meu currículo. E só quem já experimentou a sensação de lançar um livro pode avaliar a extensão de sua magnitude.

No domingo passado, fui convidado por membro ANE – Diretoria da Associação Nacional de Escritores a nela filiar-me. Se, com 5 livros publicados, sou reconhecido como merecedor de pertencer àquela coletividade, meus amigos, parentes e conterrâneos poderão, agora, enfunar o peito e dizer: – O Raimundo Floriano é um escritor brasileiro!

A experiência também teve seus réditos, ao orientar-me no lançamento dos próximos, Memorial Balsense, Caindo na Gandaia e Albuquerques do Sul do Maranhão, no quais estou trabalhando com afinco, devendo sair o primeiro, com a Graça de Deus, dentro de, no máximo, dois anos, quando você se cansarem das Pétalas.

Mas deixemos de leriado e voltemos a falar em nossa Pétala Negra, que tanto cartaz deu a meu livrinho, proporcionando a meu pai, Seu Rosa Ribeiro, os decantados 15 minutos de fama, e isso pelas ondas internáuticas.

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A Pétala Negra em relaxamento

Como se viu na foto acima, Madre Neide é mais ela! É autêntica! É íntegra! Há poucos dias, um facebookiano a chamou de morena. Pra quê? Ela quase soltou os cachorros em cima dele: – Dobre a língua, sou negra! Que papo é esse?

Também no Facebook, de brincadeira, Fábio Passa Disco afirmou que, se ficasse algum dia sem mulher, se amigaria com a Neide. Imediatamente, eu rebati informando-lhe: – Essa nêga já tem dono! E ela retrucou, na lata: – Dono, não! Sou escrava de vários “Senhores”.

Pronto! Eis a chave do mistério! Disse pouco e disse tudo! Sua afirmação tem o significado de que vários senhores cativaram seu coração. Essa cabroeira, constituída por todos nós, colunistas, leitores e comentarista fubânicos, tem, igualmente, seus corações cativados por nossa querida Musa.

Prova disso é que eu, não muito desinteressadamente, já me atrelei a tão rara preciosidade de ser humano, o que se comprova nestes dois mais belos sorrisos de toda a Nação Nordestina e Forrozeira:

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Cardeal Raimundo Floriano e Madre Superiora Neide

Como diziam os comediantes de antigamente, vamos botar música na conversa. Em homenagem a essa joia lapidada, aqui vai o samba Ninguém Tasca (O Gavião), de Mário Pereira e João Quadrado, gravação de Marinho da Muda para o Carnaval de 1973.

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WALTER BAUTISTA, MEU AMIGO CIENTISTA QUE SE FOI

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José Walter Bautista Vidal

Dois de março de 2012! Dia de festa na Hidroterapia! Por dois motivos.

Hoje, 2 de março, quando estas maltraçadas lhes escrevo, faz 7 anos que me iniciei na atividade hidroterápica, à qual, por motivos ortopédicos e males da idade, me incorporei por todo o decorrer do restante de minha vida e por isso tenho que dela tirar o máximo de prazer, transformando todas as sessões em motivo de alegria e satisfação. E ontem, 01.03, foi aniversário da oriental Dra. Ayda Jamal Daud, a Hidroterapeuta-chefe, mais uma razão para comemorarmos em grande estilo a data e demonstramos nosso contentamento em tê-la como zelosa cuidadora de todos nós, os hidroterapatas – neologismo que criei –, assegurando-nos o bem-estar físico e moral.

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Dra. Ayda, a Favorita do Sultão

A Dra, Ayda comanda uma grande equipe de fisioterapeutas, que nos atende em sua clinica particular, a REABILIT – ESPAÇO SAÚDE, na 910 Sul, em todos os fundamentos de sua especialidade – Fisioterapia, Pilates, Acupuntura, Massagem, RPG, Nutrição, Saúde do Idoso – e nas piscinas, onde praticamos os exercícios e alongamentos necessários a nossa recuperação. Sem falar nas massagens, que, às vezes, quando acertam nos nódulos, se assemelham a ferroadas de maribondos enlouquecidos. Mas depois, que alívio! Que celestial sensação de bem-estar!

Há 7 anos, quando me via impedido de caminhar, devido à imobilidade de minha perna esquerda, fui encaminhado a essa maravilhosa equipe, sob a proteção da qual me encontro até o presente momento e, acho, por toda a vida, eis que agora enfrentando os supraditos males da idade, para a cura dos quais ainda não foram descobertos medicamentos eficazes.

Quando cheguei à Hidroterapia, fui recebido pela Dra. Karina Ribeiro e pela Dra. Bárbara Priscila. Sendo Karina loura e Bárbara morena, passei a chamá-las de Feiticeira e Tiazinha. Essa dupla foi reforçada com a inclusão da japinha Luciana Kato e da chinesinha Hoa (pronuncia-se Roá).

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Dras. Karina, a Feiticeira, Bárbara, a Tiazinha, Luciana, a japinha, e a chinesinha Hoa

No início, as sessões eram realizadas na Academia BOCA, na 906 Sul. Como esta entrou em reforma, mudamo-nos, em novembro do ano passado, para a Academia Consciência Corporal, situada na EQL 06/08 do Lago Sul, ao lado da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

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Dra. Ayda fotografou: nossa piscina em dia de pouco movimento, comigo de touca vermelha

Nesses benéficos 7 anos, fiz conhecimento com centenas de colegas, incluindo os que vieram, os que ficaram por pouco ou muito tempo, e os que até hoje permanecem na atividade hidroterápica. Um dos mais antigos é o Walter Bautista – José Walter Bautista Vidal –, meu protagonista desta matéria.

Quando chegou, com seu roupão atoalhado e a touca marrom, fui batendo o olho nele e achando-o perecidíssimo com Papa João Paulo II, vivo na época. Por isso, dei-lhe logo o cognome de Papa Walter, com o qual até hoje o trato.

A Wikipédia diz pouco de sua biografia: “é um físico brasileiro, ex-professor da Universidade de Brasília que, juntamente com Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), foi o idealizador do motor a álcool”. Na Internet, o que mais se encontram são entrevistas e palestras que ele deu em ocasiões diversas, no Brasil e no Exterior.

Em nossas conversas, descobri que ele nasceu em Salvador (BA), a 12.12.1934. É, portanto o primeiro baiano fogoió que vim a conhecer.

Mas ele não gosta de falar de si próprio. Fica difícil, assim, traçar um seu perfil completo. Por este trecho extraído da Internet, obtém-se um pouco mais de sua história: “Foi Secretário de Desenvolvimento de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio dos Governos Geisel (1974-1978) e Sarney (1985-1988), sendo o responsável pela implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

Papa Walter retém na memória todos os fatos do passado, mas rapidamente, se esquece das coisas do presente. Gosto de brincar com ele, ensinando-lhe os nomes dos Cabras de Lampião. Às vezes, eu o vejo sorrindo e pergunto o motivo, ele responde que estava lembrando o nome dos cabras, mas só consegue falar o de Zé Maria. Aí, eu volto a ensinar: Zé do Cá, Zé do Ké, Zé o Ki, Zé do Có e Zé Maria. Com isso, ele sai repetindo os nomes, para não mais os esquecer. Por ora.

Mesmo assim é com os nomes das mulheres do Bando de Lampião: Maria Pata, Maria Peta, Paria Pita, Maria Pota e Maria Xuxa. Outro motivo de descontração para o amigo Papa Walter.

Embora desligadão da atualidade – Alzheimer na área –, brinda-nos com práticas de sua juventude, como a natação, em todos os gêneros olímpicos, demonstrando-nos que, em seu tempo de rapaz, foi um verdadeiro campeão. E isso também se lhe constitui em excelente terapia.

Ao focalizar a pessoa do amigo cientista Walter Bautista Vidal, presto sincera homenagem a todos os colegas hidroterapatas que continuam persistindo nessa atividade e agradeço a todas as hidroterapeutas que se esmeram na minoração do problema maior que nos reúne naquele quadrilátero aquático: a dor!

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Detalhe de nossa Confraternização Natalina/2011

* * *

Esta matéria foi publicada aqui no Jornal da Besta Fubana no dia 5 de março de 2012. A partir de então, várias entidades de classe, como Clubes de Engenharia, sociedades científicas, universidades e pesquisadores individuais passaram a tê-la como ponto de partida, dirigindo-se a seu Editor, que a mim repassava todas as mensagens recebidas. A todos orientei, informando os contatos telefônico e internáutico de uma das filhas do cientista.

Há coisa de um ano, o amigo Walter começou a definhar fisicamente, o que nos privou de sua companhia na piscina. Desde então, passou receber atendimento fisioterápico individual em casa, contando com a gentil dedicação da Dra. Ayda, que sempre nos dava notícias dele, ultimamente muito desanimadoras.

Sábado último, 01.06.2013, eu estava aqui no computador quando minha filha Elba saiu de seu quarto e me falou: – Pai, aquele seu amigo faleceu. Aquele que criou o carro a álcool. Acaba de dar no Jornal Nacional!

Como o noticiário já estava em outro bloco de assunto, entrei mais tarde no Google e pesquisei. Era mesmo o Walter Bautista, a quem a TV Globo dedicara 19 preciosos segundos. E só!

No dia seguinte, domingo, ao receber o Correio Braziliense, do qual sou assinante, nada encontrei sobre o cientista, a não ser esta matéria paga:

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Dezenove segundos na Globo e sequer uma linha no Correio Braziliense! Agora, imaginem vocês a hipótese de o impasse ter ocorrido com outro importante vulto nacional, tipo Michel Teló! Já pensaram no pampeiro que a mídia faria?

Aliás, tem-se escamoteado tudo de bom que os governos passados fizeram em prol do Brasil, país que começou a existir a partir de 2003, quando o petismo se instalou no Palácio do Planalto. Vocês tiveram notícia de algum telegrama da Presidenta lamentando essa grande perda?

Também, pudera! Eu até justifico esse olvido! No domingo, a prioridade era bem outra e envolvia quase todos os corações e metes da Brasileira Nação: o jogo da Seleção Canarinha e, logo após, a partida de Neymar para Barcelona. Era desmantelo demais para um dia só!

Como sei que os pesquisadores continuarão a buscar informações sobre o agora saudoso amigo Walter Bautista, republico esta matéria, com os devidos acréscimos, fornecendo mais dados para essa preciosa fonte de consulta em que se está transformando o Jornal da Besta Fubana.

Amigo Walter, segure na mão de Deus e vá!

SARGENTOS CASTELLO BRANCO E AGAPENOR

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Pelotão da Saudade/2013: Acervo veterano Paulo Irineu

A foto acima registra o Pelotão da Saudade, formado por veteranos do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília, do qual sou um dos fundadores, nas comemorações de seu 53º Aniversário, ocorrido a 13 de maio, com a festa antecipada para as 20h00 do dia 9.

Compareceram veteranos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Triângulo Mineiro, além dos residentes aqui em Brasília e entorno. Formamos um contingente de aproximadamente 150 elementos, oriundos de turmas diferentes, mas irmanados todos no sentimento que nos une, como se todos nos conhecêssemos uns aos outros, dentro do espírito que nos norteia desde quando pela vez primeira pusemos o pé no pátio daquele quartel: Uma vez PE, sempre PE.

Nas reminiscências, duas figuras notáveis se faziam presentes nas lembranças da maioria, os Sargentos Castello Branco e Agapenor, que não é de meu tempo. Deve ter incorporado ou vindo de outra unidade após minha baixa, ocorrida em 1967. Já o Castello é meu velho conhecido, veio transferido da PE do Rio de Janeiro e hoje faz parte de meu círculo de amizades, não só pessoal, como no Orkut e no Facebook.

Desde 1967, eu perdera o contato com o Castello Branco, e só a maravilha da Internet nos colocou novamente em sintonia.

No ano de 2010, quando o Batalhão comemorou o 50º Aniversário, consegui formar um Pelotão de cerca de 50 amigos veteranos, vindos de diversas partes do Brasil, no meio deles, acompanhado de uma filha, o Castello, residente na cidade paraense de Itaituba. E foi então que pude avaliar sua personalidade, pois mal nos cruzávamos no serviço ativo, ele numa Companhia de Polícia, e eu na Companhia de Comando e Serviços.

É um prefeito cavalheiro, de educação esmerada, fino no trato, uma moça, como se costuma dizer ao elogiarem-se as lhanas qualidades de alguém. Mostrou que, no cumprimento do dever, seguia os regulamentos disciplinares e cumpria as atribuições pertinentes a sua graduação de Sargento do Exército Brasileiro. Por outro lado, como cidadão, exibe no presente a formação que recebeu de seus pais, confirmando aquilo que aprendemos no labutar com os recrutas ao se incorporarem ao Exército Brasileiro: o bom filho sempre será um bom soldado!

No dia 20 de maio, publiquei aqui em minha coluna a matéria Veteranos da 6ª Companhia de Guarda, quando fiz menção a três livros escritos alguns deles, dentre os quais este, que volto a focalizar:

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Seu autor, Luiz Alberto Rodrigues, goiano de Morrinhos, serviu no BPEB na Incorporação 1969/1970, concluiu o ginasial durante o serviço ativo, foi Cabo e, após a baixa, formou-se em Engenharia, pela Universidade Federal de Uberlândia. Entre as diversas funções públicas e cargos eletivos que exerceu, foi Deputado Federal Constituinte, eleito em 1986. Além disso tudo, traz o BPEB, o Exército e a Nação Brasileira bem incrustados no fundo do coração.

Nesse livro, além de fazer-nos relembrar os primeiros tempos da rotina da caserna, ele traça dois irretocáveis perfis dos militares que mais povoam as lembranças da maioria dos veteranos, ambos acima citados. Com sua autorização e também a do Castello – não consegui comunicar-me com o Agapenor -, aqui vou transcrevê-los, considerando os textos um primor de homenagem a esses velhos camaradas.

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Castello Branco: Acervo Facebook

SARGENTO CASTELLO BRANCO

O Sargento Castello Branco, segundo ele proveniente de tronco genealógico diferente dos Casello Branco do general-presidente, era branco, pele alva, cabelos lisos pretos, penteados com apoio de brilhantina. No visual, demonstrava dificuldade para manter o peso. Tinha cintura arredondada e o corpo volumetricamente desproporcional às pernas, que eram voltadas para dentro, daquelas cujos joelhos se roçam quando a pessoa caminha. Era especialmente vaidoso e andava sempre bem arrumado e janotinha. Apresentava elegância formal de pessoa bem-educada… Falavam na Companhia que ele era especialista em explosivos.

Conversava em voz baixa, em diálogos com interlocutor próximo e, para comandar, elevava a forçava o tom de voz, destacando, então, a clara dificuldade que ele tinha de pronunciar as consoantes, por ser portador de asafia acentuada. Seu comando para o Pelotão assumir a clássica posição de sentido soava exatamente assim: – Elotão… entiiidooo! O comando de meia-volta volver! saía como se segue: – Elotão… eia olllltaaa… ollveerr…

Era, deliberadamente, mau, dentro das regras do jogo, e não alisava ninguém. Nunca perdia a chance de fazer ironia com quem marcava bobeira. Tinha agudo senso de observação, sabendo notar quem estava viajando nos fins de semana sem a indispensável Guia de Licença, o documento oficial assinado pelo Comandante do Batalhão, fixando o período e autorizando a viagem. O Sargento Castello cobrava pessoalmente informações desses soldados espertos e, diante de contradições, avisava:

- Superior não erra. Superior eventualmente se engana. Tome muito cuidado, soldado, pois estou de olho em você!

Com o Pelotão em forma, na sua maneira característica de emitir os fonemas, dava instruções de como usar o chuveiro, onde os soldados tomavam banho em grupo:

- Eu filho, e o abonete air no anheiro, uidado ara egar ele no chão. Agacha com a unda unto da arede, se não a truta oadora ode aparecer e… né?

Nas noites em que estava de Sargento de Dia, gostava de jogar xadrez. Era jogador de nível apenas razoável. O melhor jogador da Companhia, com quem eu de vez em quando disputava e perdia partidas, era o Soldado Godoy, que era muito magro, tinha o rosto levemente encovado, queixo proeminente e apresentava rugas precoces na face. Seu apelido era “Velho”.

Godoy fez o CFC – Curso de Formação de Cabos -, tendo sido aprovado e, por ser conhecida sua inteligência e habilidade no jogo de xadrez, era convidado como voluntário para jogar com o Sargento Castello Branco. Lembro-me de certa vez em que eu estava assistindo a uma partida entre os dois, na sala do Sargenteante, pouco antes do Pernoite. Godoy, brilhantemente, montou uma situação para dar o xeque-mate, momento a partir do qual começou a mover as peças de maneira bisonha. O Sargento, que tinha percebido a própria dificuldade anterior, não se fez de rogado, ganhando as posições gentilmente oferecidas pelo Godoy, enquanto dizia:

- Ão é a elhor ogada! As e ocê er assim… udo bem!

Terminado o jogo, longe, do Sargento, perguntei ao Godoy por que ele tinha entregado a partida. Ele respondeu sorrido:

- Rodrigues, eu conheço o Sargento Castello Branco. Se eu ganhasse esse jogo, ele ia arranjar uma maneira de me sacanear. E eu não sou bobo. Ele me convida para jogar é para eu perder!

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Agapenor: Arte de Juarez Leite

A FERA: SARGENTO AGAPENOR

Na Primeira Companhia de Polícia, o Sargento Agapenor era personalidade marcante e, a seu modo, carismática. Era pardavasco, tinha cabelos crespos e bigode grande descendo pelos lados da boca, quase tipo mexicano, mas aparado embaixo. Sua altura era em torno de um metro e noventa centímetros. Era muito forte. Tinha braços e peitorais estruturados, embora não possuísse corpo modelado de atleta. Estava um pouco para gordo, mas nas instruções demonstrava ótimo preparo físico. Tinha ombros largos, barriga forçando um pouco a jaqueta da farda, levemente alta por inteiro, administrada à custa de muita ginástica abdominal, por um lado, e de vodca com peppermint e ração de tira-gosto por outro. Adorava comer bem e muito. Era exigente com os companheiros de cozinha e garçons. Em operações militares pela Cia Tar no Norte do País, sugeria cardápios aos responsáveis pelo fornecimento da refeição para a Tropa, além de comparecer ao local reservado onde era servida a melhor cachaça disponível em Araguaína, da qual ele bebia dose generosa antes de “avançar rancho”.

Quando no início da incorporação, na apresentação inicial dos Sargentos feita pelo Capitão aos conscritos, o Sargento Agapenor foi indicado sobriamente como um bom instrutor. Assim que o Capitão lhe passou o comando e se retirou, iniciamos o Período de Adaptação, com a fala introdutória feita no seu vozeirão de barítono, que ecoava longe e impunha respeito. Iniciou sua autoapresentação com uma definição pessoal que foi comprovada ao longo do ano inteiro que se seguiu. Eis o que disse, começando a conversa:

- Eu sou a fera… Sargento Agapenor! E continuou: – Podem perguntar a meu respeito para aqueles Soldados que ajudei a formar. Eu sou inesquecível!

O Sargento Agapenor não só era forte: parecia muito forte. Quando comandava Patrulha em Brasília, era uma figura aterradora para os soldados alterados. Parecia ter três metros de altura por dois de largura. Vestia-se no modelo alinhado da PE. Farda bem passada e cortada justa, perna da calça virada acima do coturno, pistola Colt 45, que usava no estilo caubói, deixando o coldre descer ao lado da perna, por colocar o cinto meio folgado, em posição diagonal na cintura, mais alto do lado esquerdo do corpo e mais baixo do lado direito. Na parte final do coldre, duas tiras de couro fino amarravam-no à perna, logo acima do joelho.

Parecia pronto para um duelo cinematográfico no estilo Velho Oeste norte-americano e usava o capacete com o emblema da PE na testa, seguro justo no queixo pela barbela, dando destaque para o seu olhar de homem mau. Nessas situações, caminhava com os braços meio abertos, levemente afastados do corpo, posição natural das pessoas que fazem muito exercício físico e ficam com as asas das costas bastante definidas, como os halterofilistas. Presenciá-lo liderando uma Patrulha urbana era um acontecimento único; estar com ele numa dessas tarefas, um risco permanente.

Devo dizer, no entanto, que, com esse jeito meio fanfarrão e ameaçadoramente truculento, o Sargento Agapenor ia aos poucos conquistando a simpatia de alguns soldados, enquanto provocava fúria em outros. Na contagem final, porém, havia mais adeptos que opositores.

Ele era valente e contava prosa. Instrutor duro, fazia questão de mostrar isso todo dia. Não tinha perdão: exercício comandado por ele era de lascar. Adorava puxar treinamento simulando ataque ao inimigo, com os soldados sendo obrigados a correr pequena distância e em seguida dar um mergulho no chão, independentemente do tipo de vegetação do campo. Chamava esse treino de corre-e-deita. O avanço do treinamento seguia com a repetição do exercício e o Sargento Agapenor comandando:

- Soldados, de pé, avançar… Deitados, rastejando, rápido… De pé, correndo… Deitados, rastejando, cabeça baixa, bem junto ao chão… De pé, correndo, correndo… Deitados, rastejando…

Se algum soldado tentava embromar, não se deitando e rastejando direito, logo o Sargento estava por perto e, sem mais nem menos, pisava nos costas do enrolador, colocando no pisão todo o peso do seu corpanzil e gritando:

- Eu estou dizendo deitadoooo! Assim bem junto ao chão! Tá vendo! Não é agachado, não! É deitadoooo e rastejando… Se for preciso, eu venho te ensinar outra vez! Entendido?

Quando aplicava o corre-e-deita, o Sargento Agapenor, sem saber, recebia insultos extensivos à Senhora Sua Mãe. Era xingado em voz baixa, muito baixa, quase num sussurro, evidentemente.

Ao referir-me aqui às mães dos sargentos, quero esclarecer que nós, soldados da PE, sempre consideramos os sargentos idênticos aos juízes de futebol, quando em campo: têm duas progenitoras, a primeira, a santa e respeitável mãe verdadeira, e a outra, uma “mãe de reserva”, para ser xingada. Portanto, não havia nenhuma intenção de ofensa pessoal nos xingamentos, que eram, digamos, institucionais e silenciosos.

O Soldado Righi, natural de Belo Horizonte, era magro e legítimo descendente de italianos no nome, no tipo físico e no temperamento irritadiço. Bom companheiro, Righi ficava revoltado com esse tipo de treinamento e, como gostava de xingar para desabafar, o fazia entre dentes, sussurrando e cuspindo raiva. Quando eu estava rastejando a seu lado, não conseguia deixar de rir das referências ao Sargento. Certa vez, Agapenor percebeu minha alegria e perguntou alto:

- Ô Rodrigues, tá rindo de quê? Tem algum palhaço por aqui? Tá achando pouco?

Fiquei sério e respondi, para não piorar a situação:

- É que nós caímos de mau jeito, e achei graça, sargento!

Nas Patrulhas rotineiras, era utilizado o cassetete antidistúrbio, um porrete de setenta e oito centímetros de comprimento e cinco de diâmetro, confeccionado com o cerne maciço da popular madeira de lei chamada jacarandá. O cassetete tinha excelente empunhadura e um laço de corda fina para envolver o pulso e evitar sua queda, aumentando o alcance quando necessário. O giro em velocidade ara feito soltando o cassetete preso ao pulso pela alça e batendo no oponente em fuga. Servia para caçar soldados desordeiros. Nas incertas, o Sargento Agapenor dizia:

- Cassetete não é santo, mas faz milagres! Se for preciso, senta o jacarandá neles!

* * *

Esta matéria será lida por muitos veteranos, o que me leva postar aqui o escudo do BPEB e sua canção. Inicialmente, o escudo:

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A Canção do BPEB foi composta pelo então Tenente Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, hoje General da Reserva, que participou da Festa do 53º Aniversário, aqui interpretada pela Banda de Música daquele Batalhão: 

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SANTO ANTÔNIO, SEU FESTEJO E SEU HINO

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Santo Antônio, Padroeiro de Balsas, minha terra natal, sertão sul-maranhense, tem seu Festejo no período que vai de 1º a 13 de junho. É ele o Santo mais popular do Brasil, venerado como Padroeiro dos Pobres e Santo Casamenteiro, com seu nome sempre invocado para se achar objetos perdidos.

Fernando Bulhões – nome de batismo – nasceu em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto de 1195, numa família de muitas posses, e veio a falecer na cidade italiana de Pádua, no dia 13 de junho de 1231. Conhecido Como Antônio de Pádua, pela morte, e Antônio de Lisboa, pelo nascimento, seria mais apropriado chamá-lo apenas de Antônio de Lisboa, assim como a cidade de Assis, na Itália, deu nome para São Francisco.

Aos 15 anos, entrou para um convento agostiniano, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, onde se ordenou. Em 1220, trocou o nome para Antônio, ao ingressar na Ordem Franciscana, esperando, a exemplo dos mártires, pregar aos sarracenos no Marrocos.

Após um ano de catequese em Marrocos, teve de deixá-lo, devido a uma enfermidade, e seguiu para a Itália. Indicado Professor de Teologia pelo próprio São Francisco de Assis, lecionou nas Universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-en-Velay e Pádua, adquirindo grande renome como orador sacro em Portugal, no Sul da França e na Itália.

Ficaram célebres os sermões que proferiu em Forli, Provença, Languedoc e Paris. Em todos esses lugares, suas prédicas encontravam forte eco popular, pois lhe eram atribuídos feitos prodigiosos e milagres, o que contribuía para o crescimento de sua fama de santidade.

A saúde sempre precária levou-o a recolher-se ao convento de Arcella, perto de Pádua, onde escreveu uma série de sermões para domingos e dias santificados, alguns dos quais seriam reunidos e publicados entre 1895 e 1913.

Antônio faleceu, como foi dito, a 13 de junho de 1231, vítima de uma crise de hidropisia – acúmulo patológico de líquido seroso no tecido celular ou em cavidades do corpo. A 13 de maio de 1232, apenas 11 meses depois de sua morte, foi canonizado pelo Papa Gregório IX.

Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a Basílica a ele dedicada.

A profundidade de seus textos doutrinários fez com que, em 1946, o Papa Pio XII o declarasse Doutor da Igreja. Mesmo com esse pomposo título, o monge franciscano conhecido como Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa tem sido, ao longo dos séculos, objeto de grande devoção popular. Sua veneração é muito difundida nos países latinos, principalmente em Portugal e no Brasil.

Sua instituição como Padroeiro de Balsas deu-se com a chegada naquela região do baiano Antônio Jacobina, no final do Século XIX, considerado o verdadeiro fundador da cidade, que, por ser devoto de Santo Antônio, ali construiu sua primeira capela, dando início aos festejos anuais, ao qual acorriam moradores das redondezas, surgindo daí o povoamento com o nome de Vila Nova, depois mais conhecido como Santo Antônio de Balsas.

Muito se tem escrito sobre as festas religiosas de nosso sertão. Escolhi um poema do saudoso conterrâneo Sileimann Kalil Botelho, falecido a 24.04.13, aos 86 anos de idade, em Sobradinho (DF), como símbolo dessa nossa literatura:

FESTAS DE JUNHO

Na minha terra, tempo de menino,
Junho era festa pelo mês inteiro.
Sem importar se noite ou sol a pino,
Trezena a Santo Antonio vindo primeiro.

Treze dias de festa ao peregrino
E milagroso Santo Padroeiro;
Moças solteiras, quase em desatino,
Pedindo noivos ao casamenteiro.

Depois vinha o São João das bandeirolas:
Multicores balões subiam ao espaço
Simbolizando sonhos e esperanças.
E enamorados jovens e moçoilas
Saltavam fogos com desembaraço,
Iam às quadrilhas, se entreter nas danças.

Depois vinha o São João dos Caipiras,
Das fogueiras brilhantes, das Quadrilhas
Onde todos dançavam com fervor,
As tradições das gentes dos Timbiras,
Os doces, os petiscos-maravilhas,
Incontrastáveis relações de amor.

A TRADIÇÃO DO FESTEJO DE SANTO ANTÔNIO

Saí de Balsas no dia 5 de fevereiro de 1949, para estudar em Floriano, aos 12 anos de idade, e as lembranças do Festejo de Santo Antônio, que guardo ainda bem vivas, indeléveis no coração, remontam-se, hoje, ao período de minha venturosa infância balsense.

Padre Clóvis era o Vigário da Paróquia e, no Festejo, era auxiliado pelas mãos laboriosas de senhoras mães de família, algumas delas que ora menciono: Naninha Soares, Febrônia Tourinho, Zefinha Rocha, Naninha Cansanção, Ceci Florentino, Laura Rocha, Luzia Félix, Sindá Borba, Eva Solino, Milu Fonseca, Dolores Lima, Esperança Souza, Maria Luísa Solino, Petronilha Matos, Jesus Reis, Munduca Noleto, Alzira Barbosa, Emília Câmara. Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, sempre provia a mesa dos leilões com pratos de sua refinada culinária. Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãe, entregava-se de corpo e alma à operosidade da festa, fazendo guloseimas, angariando joias e donativos, isto é, trabalhando dia e noite sem descanso. Esse fervor e essa dedicação transmitiram-se, mais, tarde, para a Maria Alice, minha irmã, e, posteriormente, para a Isaurinha, sua filha.

O Festejo de nosso Padroeiro era esperado por toda a população urbana e rural, e os sertanejos de fora aproveitavam-no para trazerem seus produtos, ansiosamente esperados, destacando-se frutas raras na cidade, como abacate, jaca e tangerina. Havia também as delícias vindas dos engenhos: garapa, rapadura, batida, tijolo, alfenim.

Os botequins, todos de palha, armados em frente à Igreja Matriz, exibiam, além das frutas da época, miudezas em geral, como cintos, linhas de pesca, sapatos, chapéus, utensílios domésticos, lanternas, bijuterias, espelhos e bugigangas diversas.

Em adição aos itens já citados, os botequineiros vendiam comidas e bebidas, destacando-se a gengibirra – produto regional –, conhaque e cachaça, muita cachaça. Cerveja, só nos raros botequins que possuíam geladeira a querosene. Não fazia diferença se a bebida fosse quente ou fria. No Festejo, Balsas transformava-se no maior exportador brasileiro de garrafas vazias.

Também havia vários tipos de jogo, como o do bicho, na roleta, e o do caipira, este bancado pelo Cadete, simpático e popular cidadão conterrâneo, que apregoava:

– Olha o jogo do caipira, quem mais bota, menos tira!

Na barba-de-são-severino, certo tipo de pescaria, com um molhe de linhas, cada qual amarrada a objetos de pequeno valor, mas, no meio deles, um grande prêmio. O jogador pagava e escolhia a ponta da linha para puxar. Ganhava aquilo que tivesse a sina de arrastar. O marreteiro anunciava:

- Aqui é a barba-de-são-severino, jogam homens, mulheres e meninos e o povo aviciado. O homem que apanha da mulher, não vai dar parte ao delegado!

Ladeando a Matriz de Santo Antônio, as duas barracas da Paróquia, de madeira e tecido, nas quais eram oferecidas comidas típicas, saladas de fruta, café, chocolate, bolos da região, cerveja, refrigerante e refresco, que nós chamávamos de “gelado”. A renda maior, toda revertida para a Matriz, provinha dos leilões e da venda de votos para a Rainha da Festa. Luiz da Iaiá era o mais competente leiloeiro, apregoando as joias na força do gogó.

Nas madrugadas do primeiro e do último dia do Festejo, eram realizadas, no patamar da Matriz, as alvoradas festivas, com muito foguete, tendo a música a cargo do Martinho Mendes e Seu Conjunto. No mesmo molde, diariamente, ao meio-dia, realizava-se a retreta.

A Missa era celebrada apenas no dia 1º, aos domingos e no dia 13 de junho, Dia do Padroeiro, e final do Festejo, quando a população se esmerava no trajar, para louvar em grande estilo o Santo de sua devoção. Ao cair da noite do dia 13, saía a Procissão pelas ruas da cidade, com o andor do Padroeiro seguido à frente, ladeado por duas colunas: à direita, os homens; à esquerda, as mulheres. A seguir, rezava-se a última trezena, depois da qual se dava a última quermesse, com a coroação da Rainha do Festejo.

Em 1999, decorridos 50 anos, voltei a assistir ao Festejo de Santo Antônio. Quanta coisa mudara!

A barraca era uma só. Acabara-se a disputa para ver qual a mais rendosa e também qual elegeria a Rainha. Os botecos, à frente da Matriz, agora num espaço denominado Iraque, esmeravam-se apenas na venda de cerveja e refrigerantes. As tendas dos camelôs substituíram os botequins com produtos sertanejos. O leilão e toda a animação da quermesse estavam sob a batuta do criativo Likuta, com seu serviço de som, preferido por sua habilidade no trato, versatilidade e simpatia. Eram os sinais evidentes do progresso, marcado pelas novidades advindas com o passar do tempo.

Algo não mudou. A religiosidade do povo balsense permanece forte, decidida, incondicional. E isso pode ser confirmado na Procissão do dia 13. Na última vez em que dela participei, calculei uma multidão de devotos que ultrapassava a casa dos dez mil!

E outro aspecto permanece igualmente imutável: a retreta ao meio-dia, na hora do Terço. A cargo do Mestre Riba e sua turma, essa retreta me leva como num passe de mágica a minha infância distante, o que me faz dela participar todos os dias, quando por lá me encontro. Em que pese a insensibilidade dos tempos modernos, é uma tradição que não pode se acabar.

Tenho praticado minha devoção a Santo Antônio com pequenos gestos, no intuito de cada vez mais divulgar seu santo nome sempre que me surge a oportunidade. Em frente à Igreja Matriz, lancei os dois mis conhecidos de meus livros: Do Jumento ao Parlamento, na noite de 12 de junho de 2003, e De Balsas Para o Mundo, na noite de 12 de junho de 2010.

A gravação do Hino de Santo Antônio, composição e Eleutério Rezende, a duas vozes, acompanhadas por instrumentos de sopro e bateria, num andamento vibrante, como deve ser todo o hino de louvor, era um sonho que acalentei por muitos anos e só em 2013 consegui realizar. Eis a letra e a partitura, esta elaborada pela Professora Silvana Teixeira, residente em Brasília:

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Aqui, a letra em sua íntegra:

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A gravação ficou a cargo dos cantores brasilienses Mércia Cairis e Felipe Rodrigues, do Estúdio Verbo Vivo:

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Mércia Cairis e Felipe Rodrigues

E fechando com chave de ouro esse preito a Santo Antônio, produzi também um vídeo, que será posta do na Internet, especialmente no Jornal da Besta Fubana e no Facebook, ao qual vocês poderão assistir agora:

VETERANOS DA 6ª COMPANHIA DE GUARDA

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Brasão da 6ª de Guarda

Amanhã, dia 21 de maio de 2013, comemora-se o 55ª Aniversário da 6ª Companhia de Guarda, primeira Tropa Militar a instalar-se em Brasília, instituída pelo Decreto nº 42.269, de 17 de setembro de 1957, para efetuar a segurança do Presidente da República, bem como das repartições presidenciais já existentes na Nova Capital ainda em construção.

O ponto de concentração de seu pessoal fora estabelecido em Goiânia, a partir de 15 de fevereiro de 1958, compondo-se ele de militares oriundos de várias Unidades Território Nacional, a maioria do 6º Batalhão de Caçadores, ali sediado, no que se refere a cabos e soldados.

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Quartel da 6ª de Guarda: acervo Coronel Jannuzzi

No dia 21 de maio de 1958, a Unidade ocupou os barracos de madeira das antigas instalações da Companhia Pacheco Fernandes, às margens do Lago Paronoá, próximo ao Palácio da Alvorada, dando inicio ao serviço de guarda e segurança para os quais fora criada, sendo o embrião do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial e do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília, o Batalhão Brasília, ao efetivo do qual pertenci de 17 de dezembro de 1960 a 28 de maio de 1967.

O primeiro desfile oficial da Companhia aconteceu no dia 30 de junho de 1958, prestando honras ao Presidente Juscelino Kubitscheck, na inauguração do Palácio da Alvorada.

Os livros que tratam dos pioneiros de Brasília deixaram de mencionar os nomes de todos esses militares que compunham o efetivo da 6ª Companhia de Guarda no dia 30.06.58, quando ela, para todos e efeitos, passou a existir no Cenário Militar Brasileiro. O compêndio mais completo, Os Pioneiros da Construção de Brasília, de Adirson Vasconcelos, 2 volumes, 1.034 páginas, até mesmo ao relacionar os oficiais, deixa de fora os Tenentes Barbosa, Caetano, Jannuzzi e Paulo Ney. Quanto às praças, de menor visibilidade, nada a declarar.

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PÉTALAS DO ROSA LIVRO – HOMENAGEM A MEU PAI

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  Capa do livro – 104 páginas

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  Orelhas 1 e 2

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Contracapa

APRESENTAÇÃO

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Rosa Ribeiro

Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, meu pai, nasceu na Fazenda Brejo, Município de Floriano (PI), no dia 17 de fevereiro de 1891.

Filho do Capitão Pedro José da Silva e de Dona Isaura Maria de Sousa e Silva, compunha prole de dezessete irmãos. Os dois mais velhos, Raimundo Ribeiro e João Ribeiro, provinham de casamento paterno anterior, deles derivando-se o sobrenome com que os demais ficaram para sempre conhecidos.

Ainda em sua infância em Floriano, para onde a família transferiu a residência, frequentou o Curso Primário. Na adolescência, trabalhou como empregado em várias casas comerciais daquela cidade.

Organizado, meticuloso e metódico, iniciou, em 1909, a anotação numa caderneta dos fatos significativos que viveu ou presenciou, fonte agora que se revela utilíssima e imprescindível na elaboração deste trabalho. Era o prenúncio do futuro tabelião.

O ano de 1916 foi particularmente marcante em sua existência. Em meados de junho, incorporou-se a uma tropa de 350 patriotas que, sob o comando do Major Carlindo Nunes, se integrou a uma força de 1.500 guerreiros liderados pelo Coronel Constâncio Carvalho, deslocando-se para Teresina (PI), Capital do Estado, onde, a 1º de julho, vencidos os adversários, adeptos da facção denominada miguelistas, deram posse ao legítimo Governador, Doutor Eurípedes de Aguiar. A 1º de agosto, seguiu de mudança para a Vila de Santo Antônio de Balsas (MA), aonde chegou no dia 14, às seis horas da tarde, trabalhando, inicialmente, como negociante.

Referindo-se àquele período, assim se expressa Eloy Coelho Netto, no livro História do Sul do Maranhão: “Numerosos chefes de família desta época entraram definitivamente para a História de Balsas e foram elementos em prol na sua vida política, social e econômica… como os irmãos João Ribeiro da Silva, José de Sousa e Silva e Emigdio Rosa e Silva, que desenvolveram, com trabalho e inteligência, o comércio e legaram às suas famílias e ao lugar exemplos de tenacidade dos que chegam para a conquista da vida e constroem o amanhã, transmitindo a seus descendentes precioso legado moral”.

Circunspecto, tímido e extremamente reservado, dono de afiado espírito crítico e verve aguçada, divertia-se intimamente diante do açodamento daqueles que não se acanhavam na prática do disse-me-disse, na revelação de segredos e na exposição a público de assuntos pessoais. Via, ouvia e calava. Esta prudência fez escola. O nome Rosa Ribeiro virou sinônimo de discrição.

Depois da elevação, em 1918, da Vila de Santo Antônio de Balsas à categoria de Município, Rosa Ribeiro retirou-se da atividade comercial e ingressou no Serviço Público, tendo exercido os cargos de Escrivão Policial, Delegado de Polícia, Escrivão Eleitoral e Tabelião do 2º Ofício, no qual permaneceu até aposentar-se, alcançado pela Compulsória.

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Maria Bezerra

Casou-se, a 20 de dezembro de 1919, com Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, então com dezessete anos, nascida no Loreto (MA), no dia 05 de janeiro de 1902, filha de José Bezerra de Farias e Ana de Albuquerque Bezerra.

Maria Bezerra, durante toda sua vida, esmerou-se na assistência às pessoas carentes, na organização e operosidade de festejos religiosos e na transmissão de conhecimentos práticos. Perita em corte e costura, bordado, tecelagem, artesanato em tecido, massa, papel, metal e algodão, confeitaria e culinária, ministrava essas prendas domésticas a mocinhas de famílias menos abastadas. Era a Madrinha Maria de todas.

Seu salão de trabalho constituía-se numa verdadeira Escola de Arte. Consolava os aflitos, aconselhava os transtornados, visitava os enfermos, assistia aos agonizantes, e a todos ajudava espiritualmente. Ao falecer, com 67 anos, no dia 17 de fevereiro, aniversário de Rosa Ribeiro, em 1969, ano em que seriam comemoradas suas Bodas de Ouro, era comum ouvir-se na cidade e em seus arredores: “Morreu a Mãe dos Pobres de Balsas!”.

Rosa Ribeiro e Maria Bezerra tiveram 10 filhos: Maria Isaura, professora e bandolinista; Pedro, funcionário público, agropecuarista, escritor, orador e violonista; Maria Alice, tabeliã, professora e florista; José, bancário, poeta e cantor; Bergonsil, químico industrial e artífice; Afonso Celso, funcionário público, advogado, gaitista, sanfoneiro e tecladista; Raimundo Floriano, funcionário público, contador, cordelista, escritor e trombomista; Maria Iris, professora e calígrafa; Rosimar, médico e cirurgião; e Maria das Dores, recentemente renomeada Maria dos Mares, assistente social, pintora, xilógrafa e escultora. Vinte e nove netos e trinta e sete bisnetos completam sua descendência.

A 28 de maio de 1973, Rosa Ribeiro deixou a vida terrena, com a idade de 82 anos.

Em 1982, durante a Administração do Prefeito Jorge Moreira Kury, a Câmara Municipal de Balsas homenageou Rosa Ribeiro e Maria Bezerra, dando seus nomes a duas ruas da cidade.

O dia 17 de fevereiro de 1991 assinalou o Centenário de Rosa Ribeiro, e 5 de janeiro de 2002, o de Maria Bezerra.

Maria Isaura, Maria Alice e Afonso Celso já não continuam conosco.

No dia 28 de maio de 2013, portanto, faz exatamente 40 anos que papai nos deixou. Para marcar essa data, tomei a difícil resolução de editar este livreto, no intuito de, assim, prestar-lhe singela homenagem, pois conheço muito bem o quanto é difícil a arte de escrever.

Procuro publicar tudo o que escrevo. E é com esse pensamento que espero cumprir o desejo não expresso de papai, qual seja o de ter seus escritos, de 1909 a 1971, levados ao conhecimento, pelo menos, de seus filhos sobreviventes, eis que apenas três os conhecem parcialmente: Bergonsil, em posse do qual se encontra a caderneta supramencionada, Rosimar, detentor de algumas crônicas manuscritas, e eu, que tudo transcrevi.

O título deste livreto é bem apropriado: Pétalas do Rosa. Como toda rosa tem espinhos, aqui se encontram alguns, miudinhos, do ano de 1960, que não pude evitar, pois transcrevi fielmente todos os textos, sem interferir no conteúdo, restringindo-me à atualização ortográfica, divisão dos assuntos em capítulos e, em certos casos, acréscimo de datas, para melhor compreensão, e imagens, visando a amenizar a monotonia da leitura.

Com o Bergonsil, ficaram as pétalas. E, com o Rosimar, os espinhos, que papai encaminhou num antigo envelope de votação, pedindo até que os rasgasse, conforme adiante se vê:

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O conteúdo deste livreto tem caráter muito restrito, apenas interessando a historiadores, a nosso círculo familiar, demais amigos e, especialmente, aos filhos de Rosa Ribeiro e Maria Bezerra ainda vivos:

Pedro Albuquerque e Silva
José Albuquerque e Silva
Bergonsil de Albuquerque e Silva
Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva
Maria Iris Albuquerque e Silva
Rosimar Albuquerque e Silva
Maria dos Mares Albuquerque Silva e Silva

O que se lerá nas 104 páginas do livro é fruto do senso de organização de papai, assim como de sua verve criativa. São pétalas de uma rosa bem nossa.

Além de tudo isso, papai deixou-nos suas pétalas mais valiosas, configuradas na linda família que construiu, cujos membros se orgulham de sua origem e prosseguem na maravilhosa missão de ornamentar a Terra.

Brasília, maio de 2013. Raimundo Floriano

MODERNIDADE NA CASA NOVA DO TIO TRUTO

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Nova casa do Tio Truto, e a sentina modernosa

Aconteceu no ano de 1956. A notícia explodiu em Floriano como bomba atômica, de efeito avassalador:

- A casa nova que Seu Truto – meu tio – acabou de construir em Teresina tem uma sentina dentro dela!

Naquele tempo, ainda não existia apartamento no Piauí, e todas as residências tinham no quintal uma casinha ou um cercado de madeira ou de talos de buriti, a dita sentina, na qual os moradores satisfaziam suas necessidades mais urgentes e inadiáveis.

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Sentinas dos quintais sertanejos: faltou sabugo

Sob a administração da Tia Loura, mulher do Tio Truto, e com financiamento da Caixa Econômica Federal, que exigiu planta assinada por arquiteto ou engenheiro, a casa fora apetrechada de instalações sanitárias condizentes com o progresso que começava a chegar nas terras piauienses.

Tia Marinaura, irmã de papai e do Tio Truto – solteirona, que não tolerava ser chamada de tia –, alta funcionária dos Correios e Telégrafos em Floriano, esteio dos irmãos, que ajudara quase todos os sobrinhos nos estudos e na formação – inclusive eu -, convocou uma reunião familiar para debater o assunto, motivo de censura para todos os parentes, em particular, e para o povo da cidade, em geral. Ficou deliberado que o Comandante João Bínaco – Tio João Binho -, o caçula, em suas viagens pelo Rio Parnaíba com o Motor João Ferrão, ao dar a passadinha de sempre na casa do Tio Truto, de quem era afilhado, para tomar-lhe a bênção, averiguasse o boato e, na volta, fizesse um relatório circunstanciado, confirmando ou desmentindo tamanho despautério.

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Sucata do Motor João Ferrão: a sentina era todo o Rio Parnaíba

Com o retorno do Tio João Binho, Tia Marinaura convocou nova reunião, sob sua presidência, para ouvir a explanação do Comandante, da qual participaram os seguintes membros: Tia Juliana, Tia Olivinha, Tia Onedina e Pedro Barbalho, seu filho, além do Relator. Este iniciou sua exposição narrando o que testemunhara in loco, ou seja, confirmando tudo e causando verdadeiro espanto em todos os presentes, que externaram suas dúvidas: como ficaria a convivência com o odor natural de qualquer sentina?; qual seria a reação dos demais moradores se um incontido flato de maior sonoridade escapulisse daquela dependência?; como seria feita a limpeza após o uso, vez que nos quintais florianenses a faxina ficava a cargo das galinhas e dos porcos, para isso criados à solta?; usava-se o costumeiro sabugo para a limpeza corporal?

O Relator nada esclareceu, alegando que apenas averiguara o fato, mas não tivera a coragem de aliviar-se “naquilo”. Um dos presentes indagou se tal dependência também seria usada para as pessoas se banharem. A resposta positiva do Relator só fez mesmo foi aumentar o escândalo e a perplexidade que afligiam todo o clã.

Diante da cruel realidade, Tia Marinaura, não contendo sua irreprimível indignação, deu por finda a assembleia, dissolvendo-a com esta exclamação:

- Isso só pode ser invenção da Loura, pois o Truto não seria capar de fazer tamanha besteira!

(Episódio narrado por um dos filhos do Relator, o primo Mairton, que, escondido atrás duma porta, a tudo testemunhou.)

Charge extraída do Jornal da Besta Fubana em 22.03.1913:

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No Brasil, é quase assim também

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Sertão brasileiro: sentina de posto de gasolina

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Sertão africano: desentupidor flatônico de sentina

FRED MONTEIRO, O OSGÁFILO

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Fred Monteiro: talento multifacetado

Em minha idade – 77 chegando em julho próximo –, é muito difícil engatar novas amizades, motivo pelo qual esforço-me ao máximo para conservar as que amealhei em todo esse tempo, principalmente diante fato de ser eu pessoa de não fácil coexistência. Para mantê-las, faço de tudo: engulo cobras, sapos e lagartos, finjo-me de mais mouco que o natural, relevo, perdoo quando perdão não me é solicitado, na certeza de que o tempo aplainará todas as asperezas e arestas deixadas em momentos de cabeça quente ou diálogo exaltado.

Como eu falava, fazer novas amizades é para mim barreira quase intransponível. Quer dizer, era, pois isso se modificou desde o surgimento do Jornal da Besta Fubana, do qual sou colunista desde a primeira hora em que ele se transformou com blog.

O JBF teve o condão de lançar-me no cenário internáutico, publicando meus textos e comentários, e fazer-me conhecido numa coletividade de intelectuais que hoje representa a nata da Cultura Brasileira. Com 255 matérias semanais postadas ininterruptamente, incorporei-me, até pela assiduidade e persistência, aos homens que hoje, na Literatura Nordestina e na Música Regional, com seus textos e composições, resgatam nossas mais legítimas tradições culturais.

Dentre eles, o escritor, poeta, compositor, músico e produtor alagoano Fred Monteiro. Começamos tirando nossa dúvidas, trocando figurinhas, complementando nossos acervos e, quando menos percebemos, já estávamos com a amizade sedimentada, mais grudada que nem catarro na parede, da qual só venho lucrando, como vocês verão a seguir.

Com minha postagem de Música Militar na Internet, Fred revelou-me ser autor do Dobrado General Lima Verde, no que foi contestado na hora, pois de há muito eu sei que o autor da peça é Paulo Roberto Pacífico. Fred, do outro lado, teimou, fincou pé, e eu lhe pedi que mandasse o áudio de sua autoria. No que ele não se fez de rogado, até mesmo para esfregar-me sua verdade na cara, enviando-me o CD No Tempo dos Coretos:

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O CD não só tirou minha dúvida, pois o dobrado de Paulo Roberto Pacífico é General Júlio Lima Verde, como também me revelou um compositor nordestino de peso, até então desconhecido para mim. Depois de ouvi-lo, só me restou a manifestação de um desejo: quero mais!

E Fred satisfez esse irrefreável anseio de colecionador, enviando-me sua obra completa neste CD, Formato MP3, sob o título Memória Musical – As Músicas de Fred Monteiro:

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Com 71 faixas, o disco traz-nos amostra geral dos gêneros musicais que mais apreciamos: xote, arrasta-pé, baião, frevo-canção, frevo de bloco, frevo de rua, maracatu, ciranda, marcha de la ursa, maxixe, bolero, acalanto, choro, valsa, ragtime, balada, marcha americana, dobrado e, até, uma sinfonia. Madeira de dar em doido!

Fred Monteiro, desde cedo, inseriu-se na qualidade requerida de qualquer bom colecionador fubânico: o compartilhamento. Prova disso foi sua generosidade ao presentear-me com o livro Vida de Viajante, A Saga de Luiz Gonzaga, autografado pela autora, Domique Dreyfus, que veio, com sua magnitude, enriquecer minas estantes literomusicais:

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Ditas estantes que, no ano passado, já se achavam sobremaneira valorizadas com as excelentes crônicas de Fred, enfeixadas no livro Caçador de Lagartixas:

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São lembranças de infância, vividas por um menino presepeiro e aprontador. Mas quem não o foi? No capítulo-título do livro, Caçador de Lagartixas, ele conta como as capturava: usando laços com o talo de folha de coqueiro, da qual era retirada a parte verde, sobrando apenas o talo central, em cuja ponta afinada fazia o laço. Mas Fred não matava as osguinhas. Laçava-as somente no intuito de com elas dialogar: – Lagartixa, você é uma bobona? E ela balançava a cabeça pra baixo e pra cima, em assentimento. Depois de obter todo o currículo da prisioneira, Fred a libertava, fazendo dela uma amiga, que talvez por ali aparecesse novamente para novo bate-papo.

Fred Monteiro não está só em sua osgafilia, conforme se depreende desta nota, publicada na Revista Veja de 13.03.13, na Seção Veja Esta:

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Para terminar esta merecida chaleirada, e para confirmar a versatilidade deste grande amigo virtual, apresento-lhes o dobrado General Lima Verde, de sua autoria, com a Banda F. Studio. É um dobrado perfeito, três minutos e meio de duração, dentro do esquadro requerido, com primeira e segunda parte altamente marciais, um trio comovente e coda deslumbrante, fazendo-nos vibrar de emoção.

Vamos ouvi-lo e degustá-lo:

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BRASÍLIA, 53º ANIVERSÁRIO

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Avenida W/3, sentido Sul – Norte

Ontem, 21 de abril de 2013, 53º Aniversário de Brasília, eu garrei a imaginar num tempo bem feliz, num passado que foi venturoso e não volta mais.

A foto acima é de 1962, a partir da Quadra 508 Sul, quando ainda não tínhamos shopping – o primeiro foi o Conjunto Nacional, inaugurado em novembro de 1971. O ponto badalado de Brasília se concentrava a partir dessa quadra, razão pela qual se veem muitos automóveis estacionados à direita, em frente às lojas, e um trânsito bem comportado à esquerda, encabeçado por 3 viaturas importadas. Era dia de movimento, como se constata pelo número de transeuntes na calçada.

A Asa Norte praticamente não existia no cenário comercial. O grosso das compras ainda era feito a Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. O coração pulsante brasiliense localizava-se na Avenida W/3, centrado na 508 Sul. No lado direito da foto, funcionava a Lavanderia Ouro Fino; a seguir, o bar-sorveteria Caravelle; logo após, a loja Bibabô, magazine chique, com os últimos artigos da moda masculina e feminina; depois dela, um restaurante, a agência dos Correios e Telégrafos, e, na esquina, a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP.

Mais adiante, na esquina da 507, ficava o Cine Cultura; logo após, o Banco do Brasil; em sequência, um bar, a Loja Paranoá, especializada em vestuário fino para homens, outros bares e, na esquina o Banco Lowndes. Entre a 507 e a 506, o frequentadíssimo Restaurante do GTB.

À noite, o Conjunto 507/508 funcionava como verdadeira parcinha do interior, com os rapazes encostados nas paredes, apreciando o ir e vir das moças, em frente aos bares e ao cinema, a paquera estabelecida a mil.

Quase todo mundo se conhecia pelo primeiro nome. Ainda não havia, segundo me consta, o DPC – Departamento de Proteção ao Crédito e o Serasa – Serviço de Consultas a Pendências e Protestos, para atestar se o cidadão era ou não honesto. Valiam a palavra dada, o fio do bigode ou da barba, o holerite – atual contracheque –, a Carteira de Trabalho assinada.

Uma grande loja de móveis e utilidades domésticas daquele tempo, a Móveis Planalto, mais conhecida pela sigla MOPLAN, além e sortear, todos os sábados, pela TV, um fusca para quem pagasse seus carnês em dia, distribuiu aos fregueses cumpridores de suas obrigações contratuais o Cartão de Cliente Padrão, credencial que servia para que seu portador gozasse de crédito ilimitado no comercio do Distrito Federal e entorno, Goiânia e Anápolis inclusive:

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Credencial do homem de vergonha na cara

A cidade cresceu, expandiu-se, esparramou-se, extravasou e, com esse crescimento, vieram as eleições para escolher seus governantes trazendo nela atrelados os partidos políticos. Como todos sabem, Política é a ciência do possível, o que hoje é, amanhã não é mais; o que hoje não vale, amanhã vale pra danar.

Tal qual Parintins, onde os bois Caprichoso, azul, e Garantido, vermelho, dominam as festividades juninas naquela cidade amazonense, aqui, também, dois partidos preponderaram sobre os demais: o Azul e o Vermelho.

No princípio, o Azul aboletou-se no poder. E por muitos anos, tranquilão, sem aperreios. E, para deixar seu nome para sempre marcado nos Anais da História do Distrito Federal, deu, no ano de 1922, o pontapé inicial para a tão sonhada construção do Metrô de Brasília. Tarefa que se revelou indigesta, com as renitentes impugnações do Vermelho, que cresceu muito no período, culminando com sua assunção ao Poder em 1995.

Tão logo ocupou o Palácio do Buriti, o Vermelho mandou pintar com sua cor os tapumes das obras do Metrô, do início ao final do Eixão Sul, marcando território. E as obras se arrastaram mansamente, vagarosamente, pois o Vermelho não tinha pressa. Achava que conquistara o DF para todo o sempre. E tome a colorir de vermelhão tudo que era obra oficial.

Tão descuidado ficou que nem se preocupou em fazer campanha pesada para as eleições seguintes. E o castigo veio a cavalo, ou melhor, de metrô: em 1999, o Azul retomou as rédeas do Distrito Federal. Como seria de se esperar, mandou apagar toda a vermelhidão oficial e repintá-la na cor azul, começando pelas lixeiras, milhares delas espalhadas por toda a Capital Federal.

No que se deu mal, pois logo o Vermelho criou caso, e o Azul teve, compulsoriamente, de repintá-las em cor com a qual não se fizesse lembrado. E adeus cor azul em qualquer tapume ou obra oficial! Mesmo assim, o Metrô teve inaugurado seu primeiro trecho em 2001, embora não tenha se configurado como marca registrada do Azul, pois vários outros trechos foram concluídos em governos de tonalidades diferentes.

A obra que marcou para sempre o nome do Azul no Distrito Federal e no Brasil foi a Ponte JK, inaugurada em dezembro de 2002, hoje um dos mais belos cartões postais brasilienses e orgulho da Engenharia Nacional:

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Ponte JK: pedra quicando n’água

Mas a Política é, como já dito, a ciência do possível. O que ontem não valia, hoje está pra mais que validado. Em 2011, o Vermelho reconquistou o Poder. E qual foi a imediata providência tomada para marcar sua presença? Acertaram! Mandou instalar lixeiras e placas onde predominam sua coloração:

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Lixeira da 215 Sul e placa na 208: Vermelhos no domínio o pedaço

Para demonstrar o quanto em Política o comportamento e a atitude são volúveis e voláteis, eis pequena amostra de protesto realizado pelos vermelhos há bem pouco:

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Vermelhos protestando contra si próprios

Mas, aos trancos e barrancos, nossa Brasília vai. Aos empurrões e solavancos, é bem verdade, nossa Brasília vai. Ora se vai!

Com todo o mimetismo que a Política tem praticado por aqui, o Vermelho acaba de concluir o monumento que também o deixará para sempre visível aos olhos de todos brasilienses, de todos os brasileiros e, quiçá, de toda a comunidade internacional, o Estádio Mané Garrincha:

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Estádio Mané Garrincha: bola quicando no gramado

E, se não lhe faltar vontade, poderá fazer muito mais em prol de nossa felicidade, pois dinheiro há. Informantes bem posicionados no Palácio do Buriti dão-nos conta de que esse mausoleuzinho futebolístico daí já consumiu 1 bilhão e 400 milhões de reais dos cofres públicos, ou seja, dinheiro saído dos bolsos de todos nós, pacatos contribuintes brasileiros.

(O Mané Garrincha tinha inauguração marcada para ontem, 21.04, mas ela foi adiada para 18 de maio, devido às chuvas que prejudicaram a instalação do gramado de forma “irresistível”, segundo o Correio Braziliense.)

Brasília, no entanto, é maior que tudo isso!

Para relembrar famosos pioneiros, aqui vai a marchinha Brasília, Cidade Céu, de Cid Magalhães, que foi por muito tempo considerada nosso hino, gravação de Glória Maria, saudosa candanga, falecida a 7 de outubro de 2008.

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HOMOGAMIA: RENDA PER CAPITA NAS ALTURAS

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PIB grandão, renda per capita sideral

Renda per capita como todos sabemos, é o resultado da divisão do PIB – Produto Interno Bruto pelo número de habitantes de um país. Quando maior o bolo, maior é a fatia de cada cabeça. Mesmo com um pibinho igual ao nosso, havendo menos participantes, maior será o quinhão. O gaúcho, em seu jeito gozador de simplificar as conjugações verbais, explica-nos isso muito bem: quanto menos semos, melhor passemos!

Os governantes descobriram essa realidade desde os tempos imemoriais. Assim, quando a produção de um país se encontrava estagnada, inventavam uma guerra, para que a população diminuísse, incrementando, em consequência, a renda individual de seu povo.

O Governo Paraguaio, depois da Guerra contra o Brasil, contabilizou a diminuição de metade de sua população, resultando do conflito o crescimento dobrado de sua renda per capita. Hitler, para aumentá-la na Alemanha, decretou o Holocausto e, pensando que dominaria todo o Mundo, invadiu o resto da Europa, generalizando a matança, com o mesmo propósito.

Eu sempre ouvi falar que os americanos perderam a Guerra do Vietnam. Se morreram cerca de 58 mil americanos e 1 milhão de vietnamitas, quem, na realidade foi derrotado? Só muito depois, ao compreender os resultados econômicos, foi que atinei com a explicação: as perdas dos Estados Unidos foram ínfimas, diante da divisão do PIB; enquanto isso, o Vietnam conheceu magnífica renda per capita jamais vivida em seus anais. Daí a vitória.

Felizmente, as guerras deixaram de ser travadas nos campos de batalha, onde morria muita gente, e passaram a acontecer o âmbito diplomático, onde se gasta muita conversa, ouvem-se ameaças e bravatas, vide Coreia do Norte, mas não se dá um tiro sequer. Felizmente para nós, o povão, não para os economistas. Para resolver esse impasse, os governantes criaram os feriadões.

Aqui no Brasil, em cada um deles, a população se vê diminuída de uns 500 membros. E nosso pibinho, consequentemente, é dividido por menos participantes. Para que isso tenha eficácia, descobriram os economistas ser necessário o não nascimento de novos habitantes. Daí, a instituição do casamento homogâmico.

Estas imagens, publicada no Correio Brazilense de 04.04.13, e na revista Veja de 10.04.13, dizem muito da nova ordem social:

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Casamentos homogâmicos brasileiros

Homogamia, no sentido de casamento entre si de duas pessoas do mesmo sexo, é neologismo, ainda não existe nos dicionários. Foi criado por mim e usado pela primeira vez na Língua Portuguesa aqui o Jornal da Besta Fubana, no dia 21.06.10, em minha coluna, na matéria Caim Navegou na Maionese, quando eu criticava o escritor José Saramago, que escrevera o livro Caim apenas para falar mal de Deus. Eis o que ali consta:

“A palavra homogamia ainda não foi catalogada, pelo inusitado da nova realidade, como o enlace matrimonial entre duas pessoas do mesmo sexo, nem nos Tratados de Direito, nem nos mais modernos dicionários. Mas não demora muito. Em Portugal, a 17.05.10, o Presidente Cavaco Silva sancionou essa união. O termo casamento homogâmico, na minha pobre opinião, é muito mais deferente – respeitoso – do que o corriqueiro casal gay. E, se ele ainda não existe, acabei de inventá-lo! Crédito para mim, pois!”

Hoje, decorridos quase 3 anos, continuo considerando os termos casal gay e casamento gay de certo modo impróprios, galhofeiros, escarnecedores, revelando pobreza vocabular, mesmo em se tratando da Veja e do Correio. Casal homogâmico e casamento homogâmico são expressões polidas, reverentes e gentis.

Perdi-me um pouco nessa pequena aula de Etimologia, mas retomo o fio da meada, voltando o foco desta crônica para o fator econômico da homogamia.

No ano passado, ao apresentar suas credencias no Palácio do Planalto, o Embaixador da Bélgica fez-se acompanhar do esposo, com quem está casado há oito anos. Como em seu país este é um fato socioeconômico corriqueiro, pode-se deduzir que, por lá, não tem acontecido intensamente o nascimento de novos belgicaninhos, como diriam certos apedeutas. E, em assim sendo, a renda per capita belga cada vez aumenta mais.

A nova ordem econômica mundial está cheia de adesões jurídicas a esse novo tipo de enlace matrimonial, motivo por que a Literatura não lhe fica atrás. Os três últimos livros dos 25 que já li este ano, todos recomendados pela Veja, trazem como tema central este novo fato social, ou seja, a homofilia, primeiro passo para a homogamia.

No primeiro, O Pacifista, de John Boyne, autor do comovente O Menino de Pijama Listrada, o protagonista narra, na primeira pessoa, seu caso de amor por um amigo, ambos ingleses, com quem, entre carinhos e beijos, vai servir no Exército durante a Primeira Guerra Mundial e, ao vê-lo condenado à Pena de Morte, injustamente acusado de traição, covardemente participa como voluntário, movido por ciúme, do Pelotão e Fuzilamento.

No segundo, O Baile, de Danielle Steel, é narrado os percalços de jovem mãe de duas filhas gêmeas nos preparativos que antecedem o Baile de Debutante das meninas. Sua maior preocupação da com o filho varão, mais velhos, que vem demonstrando estado de espírito inquietante, e seu alívio só vem a acontecer nas páginas finais do romance, no dia do baile, quando ele se achega a ela e faz-lhe a grande revelação, após criar um clima de suspense: – Eu sou gay!

No terceiro, Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo na História do Brasil, de Mary del Priore, a autora exerce de extrema coragem ao estampar, pela vez primeira, uma cena masculina homogâmica. Até então, e até hoje, a Imprensa tem publicado flagrantes femininos, como visto acima. O livro é apresentado por Moacir Scliar, premiadíssimo escritor brasileiro, nestes termos:

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Aqui, a inovadora cena a que me referi, a qual tive o cuidado de tarjar, diminuindo-lhe, providencialmente, o impacto:

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Já no Velho Testamento, há exemplos de homogamia comprovada. Na Bíblia, o Livro de Gênesis relata a destruição de duas cidades: Sodoma e Gomorra. A palavra Sodoma deu como derivado o substantivo sodomia, que é a conjunção sexual anal entre homossexuais masculinos, ou entre homem e mulher.

Pois bem, os machos de Sodoma e Gomorra vinham, há muito tempo, praticando apenas esse ato sexual mutuamente, desconhecendo o heterossexualismo, fazendo com que o Senhor, para castigá-los, mandasse que dois anjos descessem à Terra com o objetivo de destruir as duas cidades.

Os sodomitas, sem o saberem, elevavam suas rendas per capita ao cume da Curva Econômica, porém os anjos, sem tomarem em conta esse mérito, mas considerando apenas suas vidas pregressas, os eliminaram da face da Terra.

Hoje, pelo andar da carruagem, a coisa vai nesse mesmo rumo. E nem precisaremos de anjos para exterminar-nos. Nós mesmos cuidaremos disso.

Dentro de poucos séculos, a Raça Humana, diante da morte de seus idosos e do não nascimento de novos seres para compensar a perda, conhecerá, nesta ordem, o apogeu da renda per capita, a quebradeira da Previdência Social e, por fim, sem mais remédio que lhe dê cura, nada mais havendo a tratar, a autodestruição.

Quem viver, verá!


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