MARIA ALICE: 12 ANOS SEM ELA!

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Maria Alice, caricaturada por Juarez

Esta crônica deveria sair no último dia 3, mas como a data caiu na Segunda-feira Gorda, quando todos vocês estariam envolvidos, direta ou indiretamente, com a folia do Carnaval, dificilmente ela seria digna da atenção por mim almejada. Espero que agora, refeitas as forças, e abaixada a poeira momesca, vocês se dignem a relembrar comigo essa pessoa que foi um símbolo de alegria, da caridade e do amor ao próximo. Um paradigma de filha, irmã, esposa, mãe, e avó, além de amiga sincera e incondicional de todos que a conheceram.

Quero salientar, embora estejamos na Quaresma, que as lembranças mais nítidas que tenho dessa minha irmã são as marcadas pelas festas, principalmente o Carnaval, quando ela ensaiava com as amigas as canções lançadas no ano e, nos bailes, divertia-se a valer, naquela inocência das festividades carnavalescas do sertão de outrora. Na foto abaixo, ela, com primas e amigas, preparando-se para o ensaio do Carnaval de 1950. Queriam sorriso mais brejeiro, mais espontâneo, mais faceto, mais puro?

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Violeta, Maria Alice, Criseida, Flory, Iracy e Yolanda

Para abrir esta crônica, pedi ao Juarez Leite, meu ilustrador, que fizesse uma caricatura da Maria Alice, partindo de foto mais recente, batida há uns quinze anos, muito esmaecida. E ele, mesmo sem tê-la conhecido, captou, de forma brilhante, a jovial personalidade dessa irmã querida.

Maria Alice Albuquerque e Silva nasceu no dia 25 de junho de 1926, em Balsas (MA). Era filha de Rosa Ribeiro e Maria Bezerra, meus pais. Dez anos mais velha do que eu, era a terceira, numa prole de dez irmãos, da qual eu sou o sétimo.

Esta é sua foto mais antiga, batida quando estava com dois anos de idade:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro, Maria Isaura e Maria Alice

Estudou em Balsas até concluir o Primário, quando, em busca da realização do sonho de toda moça da época – ser professora – foi estudar em Teresina (PI), onde cursou a Escola Normal Estadual.

Faço questão de relatar um episódio daquela época, que ela me contou em 1991, quando festejávamos o Centenário de Rosa Ribeiro, nosso pai, in memoriam.

Ainda adolescente, ela se encontrava de férias escolares em Balsas, devendo retornar para Teresina numa balsa, a chamada “balsa dos estudantes” que sairia num domingo, em viagem que, ao sabor das águas, teria 15 dias de duração. Vejam bem como era sacrificada a vida dos estudantes da época, devendo interromper as férias duas semanas antes, para chegarem a tempo de pegar o início das aulas.

Sucedeu que, no mesmo dia em que se daria a partida da balsa, seria realizado em Balsas um grande piquenique, com muita música e animação, na Fazenda Maravilha, que a Maria Alice não queria perder de jeito e maneira. Por isso, na véspera da viagem, ela andava na maior tristeza, com a cara inchada de tanto chorar escondido pelos cantos lá de casa. Papai, notando isso e, cientificando-se do motivo, tomou uma providência inesperada. Sabendo que a balsa, que só viajava de sol a sol, pernoitaria na Fazenda Capim Branco, umas seis léguas rio abaixo, decidiu que Maria Alice iria ao piquenique e que, terminada a festa, ele a levaria até a dita fazenda. Assim se fez. Já no crepúsculo, montados em dois cavalos bons de sela, guiados pela lua e pelas estrelas, venceram o percurso, alcançando a balsa ao romper da aurora, antes de ela ser desamarrada para prosseguir viagem. Tal ação do velho Rosa Ribeiro me serviu de verdadeira lição para o modo de como me portar na condução da vida de minhas filhas.

Em Teresina, Maria Alice chamava a atenção pela beleza sertaneja. Essa rara formosura fez com que, em meados dos Anos 1940, fosse eleita Rainha dos Estudantes da Capital Piauiense.

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Rainha dos Estudantes

Conquistado o diploma de professora, retornou para Balsas, onde lecionou no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo até 1956.

Sempre que me recordo daquela época, vêm-me à lembrança as festas das quais ela participava e as músicas que ela cantava, principalmente no período carnavalesco. Sendo a mulata da família, minha imaginação infantil levava-me a crer que a marchinha A Mulata é a Tal – “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal, é a tal…” – de Ruy Rey, lançada em 1948, fora composta especialmente pensando nela.

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A mulata brejeira

Também ficou gravada em minhas recordações a imagem dela, de nossas primas Violeta e Iracy, as amigas Criseida e Yolanda e outras, fantasiadas de odaliscas, cada qual com um pandeiro árabe na mão direita, no Carnaval de 1947, em cordão que tinha como tema a marchinha Odalisca – “Vem, odalisca, pro meu harém…” – , gravação de Nélson Gonçalves. Como o Oriente Médio sempre foi rica fonte de inspiração para os compositores do passado, recordo-me, dela, novamente, fantasiada com seu grupinho de odalisca, no Carnaval de 1951, dentro do tema da marchinha Levanta o Véu – “Levanta o véu, iaiá, levanta o véu, iaiá, eu sei que o teu Alá há de te perdoar…” – gravação do desconhecido Ivan de Alencar. A seguir, duas odaliscas.

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Maria Alice e Yolanda

No dia 25 de fevereiro de 1956, Maria Alice casou-se com Raimundo de Sousa e Silva, nosso primo, filho de Cazuza Ribeiro e Ritinha Pereira, indo residir na vila de engenheiro Dolabela (MG), onde se localizava a Usina Malvina, uma das fábricas de açúcar e álcool do Grupo Matarazzo, da qual Raimundo era o Químico Industrial, situada em terras do Município de Bocaiúva. Seguiu com o casal a jovem Maria Júlia, que já vivia em nossa casa desde menina, sobrinha do Comandante Puçá e de Maria Rodrigues, de quem falarei em outra oportunidade.

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Em Minas, o casal teve dois filhos: Pedro Ivo, nascido em Bocaiúva, no ano de 1957, e Maria Isaura, nascida em Belo Horizonte, em 1958.

No início dos Anos 1960, o casal mudou-se para Brotas (SP), onde Raimundo recebera melhor proposta de trabalho em outra grande usina açucareira, pertencente àquele grupo empresarial. Ali permaneceu até 1963, quando veio a fixar residência em Anápolis (GO), onde Raimundo e outros empresários fundaram uma indústria no ramo de saboaria. Nessa cidade, em 1966, Maria Alice deu à luz Raimundinho, o filho caçula.

No ano de 1967, nova mudança, dessa vez em caráter definitivo. Com aposentadoria de Rosa Ribeiro, Maria Alice foi nomeada Tabeliã do Cartório do 2º Ofício de Balsas, sucedendo a papai, enquanto Raimundo assumia o cargo de Fiscal de Rendas do Estado. Eram as aves voltando ao ninho antigo. E a cidade muito ganhou com isso.

Inicialmente, porque, com eles, voltava a se instalar naquele meio um pouco da alegria do passado, um tanto perdida com o progresso vivido nos novos tempos. No sítio Bebedouro, distante cerca de légua e meia do centro da cidade, passaram a se realizar as mais animadas comemorações e os mais festivos encontros, com a participação de todos os familiares e demais amigos.

O sítio Bebedouro, oásis balsense de alegria e felicidade:

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A seguir, o casal em meio à juventude foliona, no Clube Recreativo Balsense:

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Maria Alice e Raimundo – Carnaval de 1975

Paralelamente ao trabalho e ao lazer, Maria Alice, com o total apoio e cooperação do Raimundo, deu continuidade ao trabalho de Maria Bezerra, nossa mãe, esmerando-se na assistência às pessoas carentes, na organização de festejos religiosos, na consolação dos aflitos, no aconselhamento aos transtornados, na visitação aos enfermos, na assistência aos agonizantes e na ajuda aos carentes, material ou espiritualmente. Com sua morte, passou-se a ouvir, novamente, 33 anos depois, no Município e em seus arredores, a mesma frase comum quando Maria Bezerra nos deixou: – Morreu a Mãe dos Pobres de Balsas!

Sua última viagem a Brasília foi realizada com um pretexto: comparecer à festa de aniversário dos filhos do Luís Fernando, nosso sobrinho, e à formatura, em Anápolis, de Reinaldo, filho da Maria Júlia, a garota que a acompanhou para Minas quando casou. O negão – clone do goleiro Dida -, meu afilhado, aos 21 anos de idade, graduava-se em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Goiás. Festa? Era com ela mesmo!

A solenidade se daria no dia 7 de março de 2002. No início do mês, já aqui em Brasília, Maria Alice, com problemas respiratórios – sofria de asma -, foi internada no HGO para os devidos cuidados médicos. A última vez em que a vi, foi na tarde do dia 2, quando ela, recuperada e rodeada de parentes, relembrava, cantando, sucessos carnavalescos do passado.

No dia seguinte, 3 de março, domingo, ela teve alta e foi para a casa do Afonso, nosso irmão, onde se hospedava. À tardinha, estando à mesa fazendo um lanche com ele, passou mal, perdeu os sentidos e nunca mais voltou. Partiu imediatamente, sem muito sofrer.

Hoje, sabemos que a vinda para festas era mais um pretexto por nós ignorado. Ela viera mesmo para despedir-se dos irmãos e do resto da família. E despedida mais alegre não poderia haver. No aniversário das crianças, estavam presentes cinco de seus irmãos e todos os descendentes e agregados das famílias de Rosa Ribeiro e Cazuza Ribeiro.

Maria Alice era Ministra da Eucaristia. Seu trabalho, juntamente com o Apostolado da Oração, mais conhecido como Grupo das Romeiras, em muito contribuiu para arraigar no coração de seus conterrâneos o sentimento da caridade e da fé católica.

Antes de exalar o último suspiro, nos braços de nosso irmão Afonso, ainda teve um átimo de lucidez e, ao ouvir a Lígia, nossa cunhada, telefonar pedindo uma ambulância, exclamou: – Não é preciso, gente, estou bem!

E estava mesmo! Naquele santo momento, ela já segurava na mão de Deus!

Neste 3 de março de 2014, doze anos passados, relembramos com muita saudade, sua pessoa, mas, ao mesmo tempo, trazemos à memória os alegres momentos que ela viveu, que com ela vivemos, podendo afirmar, com segurança, que ela se encontra junto ao Pai Celestial, velando por todos nós.

ARACY DE ALMEIDA E O CARNAVAL

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Hoje, dia 3 de fevereiro de 2014, segunda-feira gorda, o Carnaval deve estar pegando fogo por todo o Brasil, e eu dou por terminada esta série sobre grandes ídolos carnavalescos do passado trazendo-lhes o perfil de Aracy de Almeida, essa grande Musa da MPB, cujo repertório dominou os festejos momescos dos quais participei, primeiro como folião e, depois, como trombonista e Mestre da Banda da Capital Federal, nos bailes, vesperais e blocos de sujo deste país.

Aracy de Almeida – batizada Araci Teles de Almeida -, nasceu no dia 19.08.1914, no Bairro Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde veio a falecer no dia 20.06.1988, no Hospital dos Servidores do Estado, vítima de embolia pulmonar. Ficou conhecida como A Dama do Encantado, O Samba em Pessoa e A Dama da Central do Brasil. Em agosto deste ano, comemoraremos seu Centenário de Nascimento.

Cresceu no Encantado, juntamente com a família. Seu pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Estudou num colégio em Engenho de Dentro, onde foi colega do radialista Alziro Zarur e, depois, no Colégio Nacional, no Meyer. Garota pobre, ainda jovem Aracy cantava no coro da Igreja Batista da qual seu irmão Alcides era Pastor. Desde os tempos de criança, sonhava em ser cantora de rádio. Cantava samba, mas era apreciadora de música clássica e se interessava por leituras de psicanálise, além de ter em sua casa quadros de importantes pintores brasileiros como Aldemir Martins e Di Cavalcanti, com quem mantinha amizade.

Os que conviviam com ela, na intimidade ou profissionalmente, tinham-na como uma mulher lida e esclarecida. Tratada por amigos pelo apelido de Araca, Noel Rosa disse, em 1933, numa entrevista a Orestes Barbosa, para o jornal A Hora: “Aracy de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo”.

Começou a cantar profissionalmente na Rádio Educadora, em 1933, o que aconteceu a partir de seu conhecimento com o compositor Custódio Mesquita, para quem cantou o foxtrote Bom Dia, Meu Amor, de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano, tornando-se logo um dos nomes mais evidentes da fase de ouro do rádio. Por essa época, já conhecia Noel Rosa e, segundo o pesquisador Antônio Epaminondas, saía muito com o compositor, “ele de violão em punho, frequentando tudo o que era casa suspeita, botequins, nas imediações da Central do Brasil, na Taberna da Glória, etc., e ela ainda de menor”.

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Em 1934, gravou, para o Carnaval seu primeiro disco, na Columbia, interpretando as marchinhas Em plena Folia, de Julieta de Oliveira, e Golpe Errado, de um compositor conhecido apenas como Jaci. No final o mesmo ano, fez o seu primeiro registro de uma música de Noel Rosa, o samba Riso de Criança, ainda pela Columbia.

Em 1935, assinou, com a Rádio Cruzeiro do Sul, seu primeiro contrato e passou a integrar o elenco da gravadora Victor, participando de diversas gravações como integrante do Coro. No mesmo ano, realizou sua primeira gravação solo na Victor, interpretando os sambas Triste Cuíca, de Noel Rosa e Hervê Cordovil e Tenho Uma Rival, de Valfrido Silva. Ainda em 1935, gravou o samba Pedindo a São João, de Herivelto Martins e Darci de Oliveira, e a marchinha Santo Antônio, São Pedro, São João, de Herivelto Martins e Alcebíades Barcelos.

Seu talento para cantar sambas e músicas carnavalescas fez com que fosse chamada pelo locutor César Ladeira de O Samba em Pessoa. 

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Foi casada com o goleiro de futebol Rei – José Fontana -, que jogou pelo Vasco e pelo Bangu, entre as décadas de 1930 e 1940, mas o casamento durou pouco tempo.

Em 1936, gravou seus primeiros grandes sucessos, os samba Palpite Infeliz e O X do Problema, ambos de Noel Rosa. Palpite Infeliz foi muito cantado no Carnaval daquele ano, embora não originalmente destinado aos festejos de Momo. No mesmo período, assinou contrato com a  Rádio Tupi.

Em 1937, lançou, de Noel Rosa, os sambas Eu Sei Sofrer e O Maior Castigo Que Eu Te Dou. Também, no mesmo ano, fez bastante sucesso com o samba Tenha Pena de Mim, de Ciro de Souza e Babaú, e tranferiu-se para a Rádio Nacional.

Em 1938, lançou o samba-canção Último desejo, derradeira composição de Noel Rosa. No mesmo ano, gravou os sambas Século do Progresso e Rapaz Folgado, também de Noel. Em 1939 lançou, para o Carnaval de 1940, com grande êxito, o samba Camisa Amarela, de Ary Barroso, que se tornou um clássico da Música Popular Brasileira.

Além das rádios Educadora, que se tornaria mais tarde Rádio Tamoio, e Cruzeiro do Sul, atuou nas rádios Mayrink Veiga, Ipanema, Cajuti e Philips, onde, no Programa Casé, fez dupla com o cantor e compositor Sílvio Caldas.

Daí em diante, com a carreira completamente consolidada e reverenciada pelo público, lançou grandes nomes e grandes títulos da MPB, quer de Carnaval, quer de ano, com retumbante sucesso.

Em 1950, foi morar em São Paulo (SP), onde residiu até 1962, quando retornou para o Rio de Janeiro.

Como já foi dito aqui nos perfis de Linda e Dicinha Batista, os Anos 1960 forma cruéis para com os ídolos da Velha Guarda da MPB, com a força do Rock, da Jovem Guarda e da TV, cujo requisito principal era a aparência visual, sempre exigindo rostos novos e corpos com apelo sexual. Assim, Aracy de Almeida, como cantora, foi, aos poucos, caindo no esquecimento das novas gerações.

Em 1964, ela participou, juntamente com outros cantores, do show de despedida – o primeiro de uma série – do cantor Sílvio Caldas no Maracanãzinho, despedida que acabou não se concretizando. Em 1968, participou do programa de calouros Proibido Colar Cartazes, ao lado do homorista Pagano Sobrinho, apresentado pela TV Record, de São Paulo, e apresentou-se, com Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e Billy Blanco na boate Zum-Zum, do Rio de Janeiro.

Em 1965, fez vários shows no Rio de Janeiro: Samba Pede Passagem, no Teatro Opinião, Conversa de Botequim, dirigido por Miele e Boscoli, no Crepúsculo, e na boate Le Club, com o cantor Murilo de Almeida. Em Em 1969, apresentou-se na boate paulista Canto Terzo e participou do show Que Maravilha!, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola, no Teatro Cacilda Becker, em São Paulo.

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Nas Décadas de 1970 e 1980, ficou conhecida por grande parte do público como jurada de programas de calouros na TV, aparecendo como uma senhora rabugenta, sempre de óculos escuros e mau-humor. Na verdade, tratava-se de uma personagem criada pela cantora para atrair a atenção do telespectador de programas como A buzina do Chacrinha e Sílvio Santos.   

Em 1980, realizou show no Teatro Lira Paulistana, que acabou chegando ao disco, num lançamento póstumo da Continental, em 1988, intitulado Aracy de Almeida ao Vivo.

Após sua morte, a remasterização de antigas gravações e o relançamento em CD de antigos sucessos redimensionaram sua importância como intérprete. Em 1998, a cantora Olívia Byington lançou o CD A Dama do Encantado onde lhe prestou homenagem, reunindo 20 sucessos de seu repertório, e contando com participações especiais como as de Chico Buarque e direção musical de Maurício Carrilho. Em setembro do mesmo ano, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, patrocinou o musical Aracy de Almeida no País de Araca, com texto e direção de Eduardo Wotzick, baseado em sua vida. Essas regravações, assim como o disco de Olívia, são facilmente encontráveis em sebos virtuais. Eis algumas das capas:

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Possuo em meu acervo 290 títulos com que ela nos presenteou em sua carreira artística, sendo 94 dedicados ao Carnaval, destacando-se, dentre eles: A Mulher do Leiteiro, marcha, 1942; Cala a Boca, samba, 1949; Camisa Amarela, samba, 1940; Cansei de Pedir, samba, 1935; Caramuru, marcha, 1939; Chorou Madureira, samba, 1950; Com Razão ou sem Razão, samba, 1941; Eu e Você, samba; 1937; Fez Bobagem, samba, 1942; Furacão, marcha, 1941; Louco, samba, 1947; Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção, 1936; Miau, Miau, marcha, 1939; Não Me Diga Adeus, samba, 1948; Não Sou Manoel, marcha, 1945; Ninguém Ensaiou, samba, 1944; O Circo Vem Aí, marcha, 1949; O Maior Castigo Que Eu Te Dou, samba, 1937; O Passo da Girafa, marcha, 1949; O Passo do Canguru, marcha, 1941; Palpite Infeliz, samba, 1936; Passarinho do Relógio, marcha, 1940; Qual o Quê, samba, 1938; Que Passo É Esse, Adolfo, marcha, 1943; Quebrei a Jura, samba, 1938; Tenha Pena de Mim, samba, 1938; Vaca Amarela, marcha, 1938; e Veneza Americana, frevo-canção, 1938.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi três dessas faixas:

Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção de Capiba, do Carnaval de 1936;

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Passarinho do Relógio, marchinha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, do Carnaval de 1940;

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e Palpite Infeliz, samba Noel Rosa, do Carnaval de 1936.

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DIRCINHA BATISTA E O CARNAVAL

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Dando continuidade a minha postagem pré-carnavalesca, volto a relembrar outra grande artista do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. Na semana passada, dediquei-me a Linda, a mais velha das Irmãs Batista. Hoje, trago-lhes o perfil da mais nova, Dircinha, cujo repertório fonográfico de 222 títulos, que compõem meu acervo, contém 121 dedicados ao Carnaval.

Ela já teve seu perfil retratado aqui neste jornal, pelo colunista Bruno Negromonte, no dia 05.04.2012, com dois sambas-canções, Carro de Boi, de Capiba e Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria, ambos sucessos de meio de ano.

Dirce Grandino de Oliveira, a Dircinha Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 07.04.1922, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 18.06.1999. Filha do ventrículo e humorista Batista Júnior e de Emília Grandino de Oliveira, era irmã da também cantora Linda Batista.

Após seu nascimento, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Aos quatro anos de idade, Dircinha começou a ser alfabetizada num grupo escolar da Praça José de Alencar, cursando a seguir os Colégios Sion e São Marcelo.

Já aos seis anos de idade, em 1928, fez sua estreia artística cantando Morena Cor de Canela, de Ari Kerner, num show organizado por Raul Roulien, no Teatro Santana, em São Paulo, para o qual seu pai fora convidado. Ainda no mesmo ano, cantou com sucesso, no Cine Boulevard, em Vila Isabel. No ano seguinte, ingressou no colégio Divina Providência, onde concluiu o Curso Primário.

Em 1930, aos oito anos de idade, gravou seu primeiro disco, na Columbia, com o nome de Dircinha Oliveira, contendo as músicas Borboleta Azul e Dircinha, compostas pos seu pai. No ano seguinte, ingressou na Rádio Cajuti, depois Vera Cruz, participando do programa de Francisco Alves, e gravou, pela Odeon, seu segundo disco, cantando Órfã e Anjo Enfermo, de Cândido das Neves.

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Em 1935, quando cursava o ginásio no Ateneu São Luís, estreou no cinema, cantando Eu Vi Você no Posto Seis, de João de Barro, no filme Alô, Alô, Brasil. Em 1936, já com o nome de Dircinha Batista, cantou e dançou no filme Alô, Alô, Carnaval, as marchinhas Pirata e Muito Riso, Pouco Siso, ambas de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravadas na RCA Victor no mesmo ano, assim como as marchinhas Meu Sonho Foi Um Balão, de Alberto Ribeiro, e Meu Moreno, de Hervê Cordovil.

Seu primeiro sucesso no Carnaval aconteceu em 1938, com a marchinha Periquitinho Verde, de Nássara e Sá Róris. No mesmo ano, participou de três filmes: Bombonzinho, Banana da Terra e Futebol em Família.

Desde então, vieram outros títulos consagrados pelo público, como a marchinha Tirolesa, de Osvaldo Santiago, muito cantada em 1939, Upa, Upa (Meu Trolinho), de Ary Barroso, êxito que marcou sua presença no Carnaval de 1940.

Sua carreira foi marcada por contratos diversos com várias gravadoras e estações de rádio, além de atuação como atriz, como na novela Meu Amor, de Hélio Soveral. em 1951, gravou, com tremendo sucesso, o samba-canção Nunca, de Lupicínio Rodrigues, e fez parte do elenco da Companhia Teatral de Dercy Gonçalves, apresentando-se no Teatro Glória, no Rio de Janeiro.

No final de 1951, assinou contrato com as Rádios Nacional e Clube. Nesta última, fez o programa Recepção, escrito por Eugênio Lira e dirigido musicalmente pelo Maestro Alceu Bocchino. Quando a Rádio Clube fechou, Dircinha permaneceu no elenco da Nacional, onde fazia o programa Galeria Musical, escrito por Paulo Roberto e dirigido pelo Maestro Leo Peracchi.

O ano de 1953 marcou sua segunda experiência teatral, também no Teatro Glória, com a Companhia Barreto Pinto, quando gravou o samba-canção Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria. Nos seis anos seguintes, participou de sete filmes: Carnaval em Caxias, em 1954; Guerra ao Samba, em 1955; Tira a Mão Daí, e Depois Eu Conto, em 1956; Metido a Bacana, em 1957; É de Xuá, em 1958; e Mulheres à Vista, em 1959.

Em 1961, passou a trabalhar na TV Tupi, como repórter e animadora de programas. Para o Carnaval de 1963, estourou a banca com a marchinha O Último a Saber, de Klécius Caldas e Brasinha. Em 1964, outro grande sucesso, com a marchinha A Índia Vai Ter Neném, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira.

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A Década de 1960 foi cruel para com os grandes ídolos da Velha Guarda, e muito contribuíram para isso a força do Rock, da Bossa Nova e da Jovem Guarda, além da insensibilidade da TV, sempre mais voltada à aparência de seus astros e, na mais das vezes, desprezando o talento.

Assim, no início da década seguinte, Dircinha encerrou sua carreira, depois de mais de 40 anos de atividade artística, não sem arrebentar a boca do balão: em 1970, foi sucesso absoluto com a marcha-rancho O Primeiro Clarim, de Klécius Caldas e Ruthnaldo.

Turrona, enjeitou propostas vultosas para gravar programas especiais para a TV. Em 1978, quando o Programa Banco de Memória, da TV Globo, gravou, em seu apartamento, o depoimento da irmã Linda, entrevistada por Ricardo Cravo Albin, a equipe ficou esperando por Dircinha mais de três horas, sem qualquer resultado, pois ela recusava-se a sair de seu quarto. A depressão que já a acometia, piorando a partir daí.

Em 1985, Dircinha e as irmãs Linda e Odete foram encontradas no apartamento onde moravam, em Copacabana, em condições de completo abandono. Ela foi conduzida, em estado deplorável, pelo cantor José Ricardo, dois anos depois da morte de Linda, para viver numa cadeira de rodas no Hospital Dr. Eiras, onde faleceu em 1999. No mesmo ano, antes de seu falecimento, o espetáculo teatral Somos Irmãs, escrito por Sandra Werneck e interpretado por Sueli Franco e Nicete Bruno, contou as vidas de Dircinha e de sua irmã Linda nos palcos das principais cidades do Brasil, com enorme sucesso de público.

Dos 121 sucessos carnavalescos que nos deixou, estes ficaram para sempre na memória dos foliões e hoje fazem parte de coletâneas lançadas pelas gravadoras: A Coroa do Rei, samba, 1950; A Índia Vai Ter Neném, marcha, 1964; A Mulher Que É Mulher, samba, 1954; A Tirolesa, marcha, 1939; A Última Orquestra, marcha-rancho, 1971; Baile dos Casados, marcha, 1946; Barba Azul, marcha, 1940; E o Vento Levou, samba, 1941; Ela Foi Fundada, marcha, 1957; Forrobodó, marcha, 1941; Holandesa, marcha, 1941; Índio do Xingu, marcha, 1966; Juro, frevo-canção, 1940; Luar de Paquetá, marcha, 1940; Mamãe, Eu Levei Bomba, marcha, 1958; Máscara da Face, samba, 1953; Minha Terra Tem Palmeiras, marcha, 1959; Na Casa do Seu Tomaz, 1939; Não Se Sabe a Hora, samba, 1958; O Cachorrinho do Lalau, marcha, 1966; O Primeiro Clarim, marcha-rancho, 1970; O Último a Saber, marcha, 1963; Ó, Abre Alas, marcha-rancho; Oh! Suzana, marcha, 1943; Periquitinho Verde, marcha, 1938; Pirata, marcha, 1936; Se Eu Tivesse Um Milhão, samba, 1941; e Upa, Upa (Meu Trolinho) marcha, 1940.

Para relembrar um pouco essa grande Musa da MPB, escolhi dois de seus grandes Sucessos.

Máscara da Face, samba de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, lançado no Carnaval de 1953:

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O Primeiro Clarim, marcha-rancho de Klécius Caldas e Ruthnaldo, lançada no Carnaval de 1970:

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LINDA BATISTA E O CARNAVAL

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Chegando à temporada pré-carnavalesca, fico relembrando os grandes artistas do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. E logo me vem à lembrança a figura de Linda, a mais velha das Irmãs Batista, cujo repertório fonográfico de 162 títulos, que compõem meu acervo, contém 73 dedicados ao Carnaval.

Florinda Grandino de Oliveira, a Linda Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 14.06.1919, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 17.04.1988. Filha do ventríloquo e humorista Batista Júnior, e de Emilia de Grandino de Oliveira, era irmã da cantora Dircinha Batista.

Ainda criança, sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Linda fez o Curso Primário no Colégio Sion, época que a empregada costumava levá-la para ouvir música na Corbeille de Flores, gafieira pertinho de sua casa.

Aos dez anos, começou a aprender violão com o cantor Patrício Teixeira, chegando a compor uma canção intitulada Tão Sozinha. Aos 12, passou a frequentar programas de rádio, acompanhando a irmã Dircinha ao violão. Terminado o Ginásio, no Colégio São Marcelo, iniciou-se no curso de Contabilidade e Corte e Costura.

Em 1936, devido a um atraso de Dircinha, substituiu-a, estreou como cantora no programa de Francisco Alves, na Rádio Cajuti, interpretando o samba Malandro, de Claudionor Cruz. Com o sucesso obtido, foi convidada para outras apresentações na emissora. Em 1937, foi eleita Rainha do Rádio, num concurso promovido no Iate dos Laranjas, barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, título que manteve durante 11 anos consecutivos.

A 3l de março de 1937, casou-se com Paulo Bandeira, de quem se separou menos seis meses depois. Ainda no mesmo ano, trabalhou no filme Maridinho de Luxo, realizou uma excursão pelo Nordeste, tornou-se crooner da Orquestra Kolman, no Cassino da Urca, e, contratada pela Odeon, lançou um disco em que interpretava, em dupla com Francisco Alves, os rasqueados Chimarrão, de Djalma Esteves, e Churrasco, de Esteves e Augusto Garcez.

Em 1938, participou do filme Banana de Terra, fez uma temporada na Rádio Cultura de São Paulo e apresentou-se na inauguração do Cassino da Ilha Porchat, em são Vicente (SP), ali atuando por seis meses.

Retornando ao Rio de Janeiro, em 1939, continuou a trabalhar no Cassino da Urca, onde foi a atração principal até 1945. Nesse período, lançou vários sucessos, como Passei na Ponte, marcha-conga de Ary Barroso, Tudo É Brasil, samba de Vicente Paiva e Sá Róris, Batuque no Morro, samba de Russo do Pandeiro, Clube dos Barrigudos, marcha de Christóvão de Alencar e Haroldo Lobo, e No Boteco do José, marcha de Wilson Batista e Augusto Garcez.

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Na época, foi, assim com Carmen Miranda, uma das primeiras estrelas de grande popularidade em todo o Brasil. Em virtude desse renome, excursionou pela América do Sul, estrelou filmes e peças teatrais e se apresentou nas principais emissoras brasileira, além de fazer show musicais por todo o Território Nacional.

Em 1947, foi contratada pela Boate Vogue, onde permaneceu até 1952. Em 1948, gravou o samba Enlouqueci, de Luís Soberano, Valdomiro Pereira e João Sales. Para o Carnaval de 1950, gravou o samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, que obteve tanto sucesso ao ponto de se tornar nome rua no bairro paulistano do Jabaquara.

Em 1951, voltou à Rádio Nacional com o programa Coisinha Linda, atuou no filme Aguenta Firme, Isidoro, excursionou pela Europa, apresentando-se em Portugal, Paris e Roma, e lançou o samba-canção Vingança, de Lupicínio Rodrigues, o maior sucesso de sua carreira.

Em 1952, atuou nos filmes Tudo Azul, Está Com Tudo, e É Fogo na Roupa. Em 1954, participou dos filmes Carnaval em Caxias e O Petróleo É Nosso. em 1955, foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga e estrelou o filme Carnaval em Marte. Em 1956, transferiu-se para a Rádio tupi e atuou nos filmes Tira a Mão Daí e Depois Eu Conto.

Em 1957, trabalhou nos filmes Metido a Bacana e É de Xuá, e excursionou pelo Uruguai e Argentina. Após retornar, recebeu da UBC e da SBACEM, entidades arrecadadoras de Direitos Autorais, o Troféu Noel Rosa, por gravar exclusivamente música brasileira.

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A partir de 1960, passou a dedicar-se apenas ao repertório carnavalesco, inclusive com músicas de sua autoria, como a marchinha Olha a Italiana, de 1961 e participou de alguns programas especais da TV.

O tsunami avassalador do Anos 1960, formado pelo Rock, a Bossa Nova e a discriminação da TV quanto ao visual, levou Linda Batista de roldão, fazendo com que ela se retirasse da vida artística.

Mas ela o fez em grande estilo. Em 1962, foi campeã absoluta com Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, sátira aos fuzilamentos que estavam ocorrendo em Cuba, da qual falarei mais adiante.

Nos Anos 1980, Linda deixou completamente de participar da vida pública, recolhendo-se à companhia das irmãs, Dircinha e Odete, em seu apartamento no bairro carioca de Copacabana, o último bem imóvel que lhes restou. No fim da vida, elas passaram por dificuldades financeiras, tendo sido auxiliadas pelo cantor e fã José Ricardo.

Linda veio a falecer, a 17.04.1988, no Hospital Evangélico da Tijuca, vítima de infecção respiratória. Rainha do Rádio por mais de uma década, sofria também de depressão crônica, acentuada pelo esquecimento do público.

Em 1998, o musical intitulado Somos Irmãs, de Sandra Werneck, foi encenado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, revivendo a vida, o sucesso e a decadência das irmãs Batista. A montagem, dirigida por Ney Matogrosso e estrelada por Sueli Franco e Nicete Bruno, ainda percorreu o Brasil em várias apresentações, sempre com êxito de público e de crítica.

Dentre os grandes sucessos carnavalescos que nos legou, estes foram mais tocados nos salões e cantados pelo público nas ruas: A Cobra Está Fumando, marcha, 1945; Chico Viola, samba, 1953; Clube dos Barrigudos, marcha, 1944; Coitado do Edgar, samba, 1943; Cordão dos Magricelas, marcha, 1945; Criado com Vó, frevo-canção, 1945; Enchente da Maré, marcha, 1955; Enlouqueci, samba, 1948; Escocesa, marcha, 1944; General da Banda, samba, 1950; Levou Fermento, samba, 1957; Madalena, samba, 1951; Marcha da Penicilina, marcha, 1954; Marcha do Paredão; marcha. 1962; Me Deixe em Paz, samba, 1952; Nega Maluca, samba, 1950; No Boteco do José, marcha, 1946; Nova Capital, marcha, 1957; O Gemido da Saudade, samba, 1958; O Soro e os Velhinhos, marcha, 1950; Pente do Careca É a Mão, marcha, 1951; Quero Morrer no Carnaval, samba, 1961; e Se Me Der na Cabeça, samba; 1949.

Para mostrar-lhes um pouquinho de seu trabalho, escolhi 2 títulos desse lindo repertório. O primeiro é samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, gravado para o Carnaval de 1950, seu maior sucesso carnavalesco:

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O segundo é Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, campeã em 1962. Essa marchinha era premonitória. Previu o comportamento do brasileiro atual que, diante das condenações dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal, estão a absolvê-los, pagando as multas que lhes foram impostas e dando-lhes grande visibilidade ma mídia. Pra completar, menciona o nada-consta para quem roubar ou trem ou suicidar alguém:

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ASSIS MEDEIROS, UM BURRO TALENTOSÍSSIMO

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Foto garimpada no Google

É assim mesmo que Assis Antônio Medeiros autodenomina-se em seu endereço eletrônico: burrodecarga@etc.com.

Assis Medeiros é cantor, compositor, músico e arranjador, tocando primorosamente os seguintes instrumentos: violão de 6 cordas, violão de 7 cordas, violão de 12 cordas, viola de 10 cordas, cavaquinho, guitarra, berimbau e percussão. Pra não dizerem que é instrumentista só de pau e corda, é exímio também no piano, no teclado e no trompete, este de bocal.

Conheci-o na piscina da Academia Consciência Corporal, no Lago Sul, onde praticamos atividades hidroterápicas, sob o eficiente e gentil comando da Dra. Ayda Jamal, proprietária da Clínica Reabilit – Espaço Saúde.

O que me leva e escrever estas maltraçadas é apenas a admiração que tenho por esse jovem artista, e nada mais. O conflito de gerações – diferença de em torno de 40 anos – faz com que nossos assuntos em comum sejam nadica de nada. Além do que, ninguém conversa com velho, ninguém conversa com surdo. Avaliem, então, qual seria o diálogo comigo, idoso e mouco!

Assis é homem de poucas palavras, não é desses que jogam conversa fora. No entanto, há algo em comum entre nós dois, um profundo sentimento que nos domina e nos encaminhou aos cuidados da Dra. Ayda e sua dedicada equipe: a dor!

Aos poucos, quando a Dra. Hoa – pronuncia-se Roá -, chinesa, uma de nossas hidroterapeutas, a quem nomeei minha Assessora Memorial, Onomástica Auditiva, me traduz, aos gritos, os diálogos dos demais hidroterapatas, fico sabendo que o Assis nasceu no Recife (PE), a 29 de agosto de 1971, e morou grande parte de sua juventude em João Pessoa (PB). Pernambucano por nascimento, paraibano por adoção, é servidor da Câmara Alta do Congresso Nacional, lotado na TV Senado, sendo colega de Maurício Melo Junior, colunista fubânico e meu amigo desde sempre.

A garimpagem na Internet me faz saber que Burrodecarga é seu primeiro CD a ter distribuição comercial, uma mistura de rock, samba, reggae e funk, além da música regional e eletrônica. Em suma, o roteiro é qualificado pelo músico como “um sem estilo, um depravado musical”. Entre os instrumentos que compõem as 14 faixas, estão bateria, percussão, baixo, teclado, violão, guitarra, naipe de metais, cordas e loops eletrônicos. Além da faixa-título, Burro de Carga, o CD contém É Carnaval e Banzo Beleza, pela qual o artista confessou ter um carinho maior, pois a letra remete à época em que ele morou no Maranhão. Eis a capa do Burro:

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A ilustração deste disco é de autoria de Flora, sua filha de 11 anos. Talento e sapiência que de Assis transmite à prole.

Sua passagem pela Nação Timbira lhe deixou marcas indeléveis no coração. Ali, conheceu a Dra. Adriana, Arquiteta, com quem se casou. Ela, além de outros trabalhos de vulto, no Brasil e na Capital Federal, é autora do projeto da casa do Maurício Melo Junior, onde incrustou um salão medindo pra mais de 100 metros quadrados, no qual instalou a famosa Biblioteca Mauriciana, fazendo com que nós, leitores compulsivos, fiquemos a babar de inveja, por não termos onde guardar os compêndios que lemos:

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Detalhes da Biblioteca, com o Maurício e o Papa Berto, que me cedeu as fotos

Assis é formado em Jornalismo e chegou a exercer a profissão no jornal O Imparcial, integrante dos Diários Associados. Já na música, o artista conta que tocou em bares dos 16 aos 24 anos, para ganhar o dicumê. Hoje, graças ao Senado, conquistou a estabilidade, trabalhando naquilo de que gosta, atuando na área de produções especiais, editando exposições e shows.

Apaixonado pelo que faz, Assis Medeiros já criou várias trilhas sonoras para curtas-metragem e documentários, Cartas ao País dos Sonhos, lançado em novembro de 2007, escrito e dirigido por Renata de Paula. Anteriormente, produzira, de forma independente, dois CDs: um com músicas infantis, denominado Bandoleta, e outro feito em parceria com Hamilton Oliveira e Ana Areias, intitulado Pirata. Há poucos anos, Assis foi um dos 50 classificados no Projeto Rumos Itaú de Música 2008/2009, um dos mais importantes na área de música do país.

No dia 7 de dezembro de 2013, a TV Senado exibiu o documentário abaixo, homenagem a Orlando Tejo, grande amigo e guru meu e da Comunidade Fubânica, sob a direção do Maurício Melo Junior:

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A trilha sonora original é foi composta pelo Assis. Preciso dizer mais? Pois digo.

Da Internet, pincei estas informações, postadas, suponho, em 2013, dando conta da versatilidade desse fabuloso músico: “O projeto Rádio Pocket Show prossegue, em sua Terceira Edição, no dia 31 de maio, sexta-feira, a partir das 21h00, no bar e restaurante L`Apero – Praia de São Marcos, São Luís (MA). Nesta versão, o músico paraibano, radicado em Brasília, Assis Medeiros apresenta o show NUAR, acompanhado de Hamilton Oliveira, baixo, Guilherme Raposo, guitarra, e Hilton Oliveira, bateria, além da participação do poeta multimídia Celso Borges e da discotecagem mundana de Pedro Sobrinho em formato de uma programação de rádio.”

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Para isso, suponho novamente, ele deve deslocar-se todas as semanas para aquela cidade, em cumprimento de agenda cultural.

Há poucos dias, eu, que falo até pelos ouvidos, tagarelando na piscina, expus minha dificuldade em localizar elepês do início dos Anos 1980, para formar um acervo das músicas de duplo sentido que dominaram cenário forrozeiro naquela época, e o Assis, magnanimamente, se ofereceu para emprestar-me alguns, como de fato o fez. Sandro Becker, Zenilton, Marinalva, Antonio Barros e Cecéu foram os mais conhecidos. Dentro da sacola, sem qualquer aviso ou promessa, veio este CD duplo, do qual passarei a falar:

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Baiãozinho NUAR, é seu último trabalho discográfico. Contém arranjos eruditamente elaborados, mas assim mesmo agradáveis ao ouvinte. As faixas são todas de autoria do Assis, individualmente ou com parceiros, cantadas por ele, que também nelas atua como instrumentista – mágica das possibilidades tecnológicas.

O Volume 1 traz apenas baião, uns do tipo rojão e outros mais comportados – os baiãozinhos -, enquanto o Volume 2, no qual Assis abusa de sua capacidade de compositor, brinda-nos com baião e toada, às vezes passeando na área do foxe.

Ainda não posso dizer, qual de todas as músicas do CD a que mais me agradou. Tenho tempo para isso. Mas escolhi uma faixa representativa, apenas por Assis ter nela como parceiro nosso amigo Maurício Melo Junior.

Trata-se do baiãozinho Vento Geral, que vocês agora ouvirão na voz do Assis:

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DIA DO BOM VIZINHO

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Esta matéria deveria ter ido ao ar no dia 23 de dezembro passado, data consagrada na Folhinha como o Dia do Vizinho. Atropelada por outros assuntos mais prementes, como o Réveillon e Dia de Reis, só hoje é publicada, mas com a necessária explicação: na convivência social, todo o dia do ano é também o Dia do Bom Vizinho.

Isso posto, passemos aos fatos!

Em certa madrugada do mês de agosto de 2013, o morador do Ap. WWW, parede-e-meia com o nosso, o XXX, andou arrumando suas malas para uma viagem que aconteceria logo mais, e a movimentação, obviamente, provocou um pouco de barulho, mas nada que nos incomodasse do lado de cá.

No dia seguinte, fomos surpreendidos com esta Ocorrência registrada no Livro do Condomínio por inquilino, morador do Ap. YYY, embaixo do nosso:

“Senhora Síndica. Solicito sua intervenção junto aos moradores do Ap. XXX, no sentido de reduzirem seus barulhos intensos como derrubada muito ruidosa de objetos e arrastar de móveis. Isto ocorre principalmente nos fins de semana, a partir das 6h da manhã. Impossibilita descanso.”

Não satisfeita com isso a reclamante passou a interpelar-nos pessoalmente, dedo em riste, sem ao menos averiguar quem lhe causara tanto desconforto, o que me levou a registrar, no mesmo Livro, esta defesa:

“Brasília, DF, 17 de agosto de 2013.

Senhora Síndica,

- Deus te livre da praga do mau vizinho!

Esta era uma das rogativas do Cego Adriano, lá no sertão sul-maranhense, em meu tempo de menino, cada vez que recebia qualquer dádiva.

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Já se vão mais de setenta anos. Na época, a criançada, que morava em casas não geminadas, cujos pais conviviam na mais perfeita harmonia com os moradores das redondezas, socorrendo-se, ajudando-se e, às vezes, sofrendo mutuamente, não compreendia bem o sentido das palavras do cego. Mas ele, cantador e cordelista, homem estudado e viajado, explicava-nos:

- Quando Deus andou no mundo, estando um dia à sombra duma figueira, onde a caravana havia feito alto para o descanso dos apóstolos, e vendo Cefas Simão sentado numa grande pedra, teria exclamado: “Levanta-te daí, Cefas Simão, porque, há duzentos mil anos, sentou-se nessa mesma pedra um mau vizinho!”

A narração me impressionou por demais. E, quando entrei para o Catecismo, ao aprender quais eram os Dez Mandamentos da Lei de Deus, acrescentei o 11º: Ser bom vizinho! Sob pena de, ao deixar a existência, ir padecer no fogo do inferno!

E venho cumprindo à risca esse preceito. Nos dois blocos de apartamento em que morei, na 416 Sul e neste, fui aprovado em meu comportamento gregário, o que comprovam os convites recebidos para ser síndico, tanto lá, quanto aqui.

Resido neste Bloco, com minha família, há 18 anos. Aqui, criamos nossas filhas, demos-lhes educação para conviver com a sociedade, em geral, e com os vizinhos, em particular. Hoje, temos duas moças formadas, bem orientadas na vida, exemplo para todos os pais de família de nossa Comunidade.

Este prédio não possui isolamento acústico, fazendo com que uma festinha de aniversário no Ap. 101 seja ouvida até no Ap. 608. Aproximando-se um pouco mais, ouvem-se o bater duma porta, o fechar duma gaveta, a descarga dum vaso. À pequena distância, podem-se ouvir tapas e beijos e até gemidos e sussurros na hora do amor. 

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Os bons vizinhos – tais como nossa família – a tudo relevam, mesmo por empatia, pois o receptor de ruído de hoje pode ser o barulhento de amanhã. Isso é o que os americanos chamam de política da boa vizinhança.

A Moradora do Ap. YYY, em sua reclamação, motivo desta correspondência, poderia ter melhor averiguado a origem do barulho que a incomodou sem, açodadamente, identificar nosso apartamento como seu causador. Na verdade, o ruído foi originado em outra unidade, cujo número não vem ao caso, vez que seu morador estava arrumando as malas para viajar. E isso não durou por toda a noite. Daqui, ouvimos toda a operação, mas, adotando a empatia e a compassividade, ignoramos o fato, levando em conta, também, que tal morador é um dos mais silenciosos do prédio. 

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O desassossego da Moradora do Ap. YYY persiste, embora tenhamos adotado todas as providências para não incomodá-la. Agora, suas recriminações já não mais se limitam às páginas deste livro. São-nos dirigidas pessoalmente.

E isso faz com que nos transformemos todos em vítimas de cruel paranoia. De um lado, nós, do XXX, tomando todas as precauções no sentido de preservar o bem-estar da Reclamante, patrulhando-nos 24 horas por dia, pisando em ovos, como se diz. Enquanto isso, do outro lado, a Reclamante parece – repare bem, eu disse parece – estar a policiar-nos, atenta a qualquer som que provenha de nosso lar até mesmo o de um flato mais forte descuidadamente escapulido.

Isso pode levar qualquer um à instabilidade emocional! Deus, no entanto, é maior, é Pai, e nos ajudará!

No intuito de solucionar o problema, sugiro a criação de uma Comissão de Moradores que passe, sem avisar-nos, uma noite no Ap. YYY, observando nosso comportamento, para depois emitir um laudo com sugestões que acataremos, contanto que não seja mudarmo-nos para outro local.

Não há erro sem solução, não há solução sem defeito e não há defeito que não possa a qualquer tempo ser corrigido.

O Correio Braziliense de hoje traz, em seu caderno Cidades, página inteira intitulada Meu Vizinho, Meu Irmão, enfatizando que “a convivência com quem mora na casa ou no apartamento ao lado, por vezes, transforma-se em um laço duradouro”. E conta três histórias de pessoas que descobriram, bem pertinho, amigos para a vida inteira.

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Está em nós a possibilidade de sermos assim também!

Em nome da Boa Vizinhança, subscrevo-me,

Atenciosamente,   

Proprietário e Morador do Apartamento XXX.”

ANTÔNIO BARROS E CECÉU: CASAL NOTA DEZ DO FORRÓ

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Antonio Barros e Cecéu

O início dos Anos 1980 dava a entender, pelo menos para nós residentes neste quase-sul brasileiro, que o Forró perdera sua força criativa, estava carente de compositores novos que o revigorassem, que o tirassem do marasmo em que se encontrava. E foi aí que apareceu, para a felicidade de todos os forrozeiros, o casal Antonio Barros e Cecéu, cujas composições, desde então e até hoje, são disputadas por todos os astros da Música Nordestina.

É bem verdade que Antonio Barros já era conhecido por aqui na década anterior, com o xote Procurando Tu, em parceria com J. Luna e interpretado pelo Trio Nordestino, mas apenas pela letra de duplo sentido, um filão que também começava a surgir. O lançamento dos xotes Homem com H, de Antonio Barros, em 1981, Por Debaixo dos Panos, de Cecéu, em 1982, na voz de Ney Matogrosso, e Bate, Coração, de Cecéu, no mesmo ano, gravado por Elba Ramalho, balançou a estrutura do Forró e consagrou o nome desse inspiradíssimo casal de compositores no gosto de toda a população brasileira. São mais de 30 anos de intensa visibilidade na midiática.

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Faço minhas as palavras de Marcus Vinícius de Andrade, Diretor-Artístico da Gravadora CPC-UMES, extraídas do encarte do CD acima, Antonio Barros e Cecéu – Forró Número Um:

“Antonio Barros e Cecéu formam uma dupla de compositores que todo o Nordeste (melhor dizendo, todo o País) conhece, pelos inúmeros sucessos que já produziu. Gente simples e boa, cuja música fala o Português gostoso do Brasil – como diria o grande Manuel Bandeira –, eles são o exemplo mais perfeito de autores que sabem conciliar simplicidade e refinamento, picardia e criatividade linguagem popular e bom gosto. Paraibanos de raça, conseguem ser universais: não foi à toa que sua canção Bate, Coração, com o talento esfuziante de Elba Ramalho, causou o maior fuzuê em Montreaux, quando o Forró desmontou a cintura dura das suíças… Até em Israel, as canções de Antônio Barros e Cecéu são conhecidas, cantadas em Iídiche com o mais puro sotaque sertanejo.

“Autores de mais de 700 obras, das quais mais de 200 se tornaram sucesso, Antonio Barros e Cecéu conhecem a fundo a linguagem da canção, da boa e simples canção que atinge todos os segmentos do público, sendo assobiada nas ruas e cantada com naturalidade em choupanas e palácios, por gente de todas as idades e condições sociais. Esse domínio do artesanato da canção é fruto não apenas de seu talento, mas também de uma experiência de muitos anos, aprimorada junto a nomes como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, com quem eles trabalharam e de quem são alguns dos mais legítimos herdeiros.”

Vejamos um pouco de suas biografias.

ANTONIO BARROS

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Antônio Barros Silva, cantor, compositor e poeta, nasceu a 11.03.1930, em Queimadas, Região Metropolitana de Campina Grande, Paraíba, filho de Severino Barros da Silva e Luiza Rodrigues da Silva. Casado com a compositora e cantora Cecéu, fixou residência em São Paulo.

Estudou no Grupo Escolar José Tavares, e a maior parte de sua infância foi vivenciada na Zona Rural. Quando sobrava tempo para brincar, costumava pegar uma lata de querosene vazia de 20 litros, colocava a cabeça dentro, batia do lado de fora com as duas mãos, fazendo ritmo, enquanto cantava para ouvir sua própria voz com efeito reverberado.

Aos dezenove anos de idade, foi trabalhar como músico tocando pandeiro na Rádio Caturité, em Campina Grande. Por volta dos 20 anos, mudou-se para o Recife onde, na Rádio Tamandaré, deu continuidade a seu trabalho como pandeirista. Foi nessa mesma época que escreveu sua primeira música e conheceu Jackson do Pandeiro, o qual se tornou seu grande amigo, apoiando-o na vida profissional.

A partir daí, começou a gravar suas primeiras canções profissionalmente com Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Zito Borborema. Logo depois, foi para o Rio de Janeiro, conquistando ainda mais seu espaço no meio musical, onde passou a gravar com Marinês, Trio Nordestino e também tocando triângulo no Regional de Luiz Gonzaga, na casa de quem morou, na Ilha do Governador.

Trabalhou como contrabaixista no navio Ana Neri, que fazia cruzeiros turísticos pelo litoral brasileiro. Em 1970, numa dessas viagens compôs Procurando Tu, a partir de lembranças da infância, e entregou a música para gravação pelo Trio Nordestino. Aceitou a parceria de J. Luna disc-jóquei baiano, que o ajudou a divulgar a música no Nordeste, tornando-se um dos sucessos daquele ano e regravada por ele mesmo, Ivon Curi e Jackson do Pandeiro, entre muitos. Outros de seus sucessos gravados pelo Trio Nordestino foram, Corte o Bolo, Cuidado Com as Coisas, É Madrugada e Faz Tempo Não Lhe Vejo. Na maioria, letras de duplo sentido que se fizeram amplamente conhecidas, mas obnubilavam o nome do compositor.

Em 1974, teve a música Vou ver Luiza, parceria com Lindolfo Barbosa gravada por Bastinho Calixto pela EMI. Um dos muitos grupos que gravaram suas composições e obteve sucesso foi o trio Os Três do Nordeste, que alcançou as paradas de sucesso com É Proibido Cochilar, Forró do Poeirão, Forró de Tamanco e Homem com H.

Em 1981 teve a música Estrela de ouro, parceria com José Batista, gravada por Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e Quebra Pote, pelo Trio Mossoró. No mesmo ano, conheceu a consagração nacional com, Homem com H, composta anos antes para a novela O Bem Amado, quando Ney Matogrosso a regravou, conquistando o Primeiro Lugar na Parada de Sucessos daquele ano.

Desde então, sua carreira musical se consolidou, crescendo a cada ano que passa.

CECÉU

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Cecéu – Mary Maciel Ribeiro -, cantora e compositora, nasceu a 02.04.1950 na cidade de Campina Grande, na Paraíba, filha de Severino Lourenço Ribeiro e Maria Maciel Ribeiro. Morou 10 anos no Rio de Janeiro, radicando-se depois em São Paulo. É casada com o compositor Antônio Barros.

Quando menina, acompanhava o pai comerciante ao centro da cidade e lá fazia questão de comprar a Revista do Rádio. Desde muito pequena, era encantada pelo rádio. Uma das músicas que a marcaram nessa época foi o samba Iracema, gravado por Os Demônios da Garoa, ouvida na radiola de uma festinha infantil, que contava a triste história de uma moça que é atropelada a poucos dias do casamento. Aquilo a sensibilizou tanto, que não conseguiu aproveitar a festa com as outras crianças. Nessa época, tinha apenas sete anos, e fui profundamente influenciada pela música.

A característica marcante de Cecéu sempre foi a música romântica, que fala de sentimento, de coração. Apaixonada por programas de rádio, sua infância foi marcada por cantores que não combinavam com sua faixa etária como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Emilinha Borba e Anísio Silva o Rei do Bolero. Sua mãe até que tentava convencê-la de que aquelas não eram músicas para criança, mas isso de nada adiantava.

Conheceu Luiz Gonzaga nos Anos de 1970, quando fazia gravações na CBS com os Três do Nordeste e Marinês. Ficou amiga do Rei do Baião, e sempre que este ia a Campina Grande, costumava dividir com ela o mesmo palco.

Em 1982, o cantor Ney Matogrosso gravou com enorme sucesso o xote Por Debaixo dos Panos. No mesmo ano, a cantora Elba Ramalho obteve sucesso espetacular com o xote Bate Coração, gravado ao vivo no Festival de Montreux na Suíça.

Foi a consagração no Universo Forrozeiro, o que se prolongou até os dias atuais.

ANTONIO BARROS E CECÉU

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Dois paraibanos filhos de Severinos! Só podia dar no que deu! Antonio Barros e Cecéu encontraram-se em 1971, quando formaram uma parceria no trabalho musical e no amor. Passaram a compor juntos e se tornaram um casal de sucesso. Levantando a bandeira de forte expressão artística no companheirismo do dia-a-dia, essa dupla se transformou num paradigma da cultura popular brasileira, pois nesse decorrer são mais de setecentas obras gravadas pela maioria dos intérpretes brasileiros, alcançando popularidade até no exterior onde também suas músicas foram gravadas na Itália, Espanha, Portugal e Israel.

Homem Com H, Por Debaixo Dos Panos, Bate, Coração, como também as famosas Procurando Tu, Casamento de Maria, Sou o Estopim, Amor Com Café, Forró do Poeirão, Forró do Xenhenhém, Óia Eu Aqui de Novo são algumas das canções que fazem parte do acervo de músicas autorais dessa dupla e gravadas por expressivos nomes da MPB como Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Dominguinhos, Gilberto Gil, Alcione, Ivete Sangalo, Fagner, Gal Costa, MPB-4 e os saudosos Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês.

Esses consagrados artistas, que fazem parte da realidade e da história de nossa música, conseguiram romper a regionalidade sem perder o sotaque. Na capital paulista, onde reside desde 1995, o casal apresenta shows com classe e charme através de seus inúmeros sucessos. A história e a música de Antonio Barros e Cecéu se mantém sempre em atividade. Exemplo disso é encontrar regravações e releituras de suas músicas feitas por uma nova geração de intérpretes, não somente de ídolos regionais, mas, muitas vezes, de artistas pops e DJs de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que, constantemente, estão cultivando essa obra genial.

Estes elepês e cedês, bem como o acima estampado, são facilmente encontráveis em sebos virtuais:

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É tarefa impossível selecionar uma só faixa como amostra da colossal produção desse talentoso casal, principalmente para a nova geração, que conhece a maioria de suas músicas, mas desconhece o nome de quem as compôs. Por isso, encareço a benevolência dos editores do Jornal da Besta Fubana, no sentido de que relevem meu abuso com estas postagens:

PUPURRI COM ANTONIO BARROS E CECÉU:

01 – NÃO LHE SOLTO MAIS – Rojão (Cecéu), NA CAMA E NO CHÃO (Cecéu), BULI COM TU (Cecéu)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM ANTÔNIO BARROS:

02 – POR BAIXO DOS PANOS – Xote (Cecéu), HOMEM COM H (Antônio Barros), PROCURANDO TU (Antônio Barros e J. Luna)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM CECÉU:

03 – NAQUELE SÃO JOÃO – Arrasta-pé (Antonio Barros), BRINCADEIRA NA FOGUEIRA (Antônio Barros), JÁ É MADRUGADA (Antonio Barros)

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ANTONIO BARROS, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

04 – NA PALMA DA MÃO – Rojão (Antonio Barros e Cecéu)

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CECÉU, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

05 – BATE, CORAÇÃO – Xote (Cecéu)

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MARINALVA E SUA GENTE

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Marinalva no começo da carreira

No dia 07.05.12, quando lancei aqui no JBF o perfil de Marivalda, a Forrozeira da Amazônia, muitos estranharam, achando que eu me confundira, trocando o nome da Marinalva, de quem eu nunca ouvira. Só se convenceram diante das evidências comprobatórias, ou seja, das imagens de vários registros fonográficos de Marivalda. Houve um, o Augusto TM, que postara em seu blog Toque Musical matéria falando sobre uma, mas pensando que ela fosse a outra, com a única informação concreta: Marinalva era irmã de Marinês.

Depois disso, entrei em contato com alguns curtidores do Forró, e a maioria, ou também nunca ouvira falar de Marinalva, ou escutara o canto da cigarra não se sabia onde, e a informação era samba de uma nota só: Marinalva era irmã de Marinês.

Senti-me, então, desafiado a produzir algo que resgatasse a memória dessa forrozeira, postando aqui o resultado de minha pesquisa, à disposição de todos.

Raciocinando que Marinês nascera na cidade pernambucana de São Vicente Ferrer, procurei entrar em contato com o Cartório do Registro Civil daquela cidade, no intuito de conseguir qualquer documento referente a Marinalva: certidão de nascimento ou de óbito, caso ali existissem. Não foi fácil.

De cara, o número telefônico da referida repartição não consta da Telelista.net. Assim, apelei aos leitores do JBF, sendo orientado pala redação a dirigir-me ao número de um celular que obtivera não sei de que modo. Viva! Hip, hurra! Até enfim, consegui falar com alguém de lá, não sei se serventuário ou titular do órgão. Expus o problema e solicitei uma busca, mediante pagamento das custas, evidentemente. Mandaram que eu ligasse dali a uma semana.

No prazo estipulado, entrei em contato, mas o pessoal de lá havia se esquecido de minha solicitação. Alguém marcou para que eu ligasse na outra semana. O que fiz. Novamente, pediram mais prazo. Resumo da ópera: passado quase um mês, fui informado de que ali nada consta sobre Marinalva, nem sobre Marinês.

Abro aqui um parêntese para elogiar o Cartório do 2º Ofício de Balsas, Maranhão, minha cidade natal, e Maria do Socorro Ferreira Vieira, minha Assessora Cultural, que o informatizou. Seu Rosa Ribeiro, meu saudoso pai, foi o Tabelião até aposentar-se, passando a titularidade para Maria Alice, minha irmã, que admitiu a Socorro, em 1977, como escrevente. Em 1978, Socorro galgou, por seus méritos, a posição de Tabeliã Substituta. Com o falecimento de minha irmã, em 2002, Socorro assumiu o posto de Tabelião Titular e uma de suas primeiras providências foi a informatização do Cartório, onde qualquer busca, atualmente, é atendida no ato, com resposta em cima do laço.

Nessa minha mania de fuçar em Cartórios do Brasil para dar veracidade aos dados biográficos constantes dos trabalhos que lhes disponibilizo, posso dizer que são poucos, pouquíssimos mesmo, aqueles em todo o Território Nacional que dispõem dessa ferramenta, tão indispensável à correria que caracteriza o século atual.

Ironia do destino: no final de 2002, Socorro teve de entregar o Cartório, no qual empregou todos os recursos de modernização, a um Bacharel nomeado pelas autoridades da Capital, vez que ela não era concursada. Assim mesmo, com 32 anos de bons serviços, sem tchau nem bença! Fecho o parêntese.

Retomando o fio da meada, ocupemo-nos de Marinalva. Os dados biográficos de que disponho foram colhidos em duas fontes altamente confiáveis: Abílio Neto, Membro da Academia Passa Disco da Música Nordestina, pessoa altamente qualificada em assuntos pertinentes à Cultura Nacional; e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Maria Caetana de Oliveira, mais conhecida como Marinalva, nasceu em São Vicente Ferrer, Agreste de Pernambuco, em 1950. Era irmã da também da forrozeira Marinês, conhecida nacionalmente.

Durante sua carreira, Marinalva gravou 26 elepês, sempre tendo a música nordestina como temática. Outra característica em sua carreira foram canções de duplo sentido. A cantora veio a falecer em 11 de setembro de 2008, no Hospital da Restauração, no Recife, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

Alguns vinis que deixou ainda se encontram à venda em sebos virtuais:

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Na falta de textos relativos a Marinalva, transcrevo a apresentação constante do LP acima, De Rolha na Boca, de 1980, assinada por J. Garcia:

“O Nordeste, com seu povo sofrido, suas tradições imorredouras, seu fabuloso folclore, tem se constituído numa fonte inesgotável de inspiração poética.

Muitos são os que cantam o Nordeste, mas só aqueles – filhos da terra – íntimos de sua realidade, seus problemas e aspirações, podem fazê-lo com propriedade e autenticidade.

Seguindo as pegadas de sua famosa irmã Marinês, Marinalva vem se firmando, dia a dia, como grande intérprete que é, assumindo, com justiça, uma posição destacada dentro de nossa música.

Este é seu 7º LP. Nele, iremos encontrar somente músicas de compositores paraibanos, alguns veteranos famosos, como Luiz Ramalho e João Gonçalves, ao lado do estreante Calazans Sabury. As músicas escolhidas abrangem uma larga faixa da temática nordestina que vai, desde o picante Nena do Asfalto, até a religiosidade do sertanejo, tão bem retratada em Frei Damião, sem esquecer a tradicional e ingênua marchinha junina.”

Com tantos itens constantes de sua discografia, é incompreensível o fato de Marinalva ser completamente desconhecida no Nordeste, em particular, e no Brasil, em geral. O aspecto de ser irmã de Marinês, em meu entender, era mais um detalhe para dar-lhe visibilidade, como aconteceu com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga.

Como pequena amostra do talento de Marinalva, escolhi para vocês, pinçado do LP Marinalva e Sua Gente – Marinalva, Selo Polydisc, terceiro acima relacionado, o rojão Forró de Cabra Macho, composição de Cecéu. Vamos ouvi-lo:

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TOQUES DE CLARIM MILITAR

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No inicio de 2007, atendendo a insistentes pedidos, produzi, auxiliado por dois Cabos Corneteiros do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial, 218 toques de corneta que, somados aos 72 já existentes na Internet, atingiram o total de 290, os quais, a 24.04.2007, disponibilizei no site 4Shared: (Clique aqui para acessar)

O retorno foi mais que o esperado. Chamam a atenção os acessos aos dois toques mais baixados até agora: Alvorada, 1ª Parte, com 10.888 visitas, e Alarme Aéreo, o campeão, com 10.953.

Desde aquela época, os curtidores da Música Militar passaram a cobrar-me outros dois itens importantíssimos do setor: os exórdios e os toques de clarim.

Depois de muita procura, consegui com a Banda de Música do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília a gravação do exórdio básico. Após sua adaptação a cada nível de autoridade, e combinado com os toques de corneta já disponíveis, resultou neste repertório, postado no site 4Shared a 21.09.2010, sendo o de Marcha Batida de Comandante do Exército o mais acessado, com 963 visitas:

01 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DE HONRA – Todo o Hino Nacional.
02 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DO QUARTEL – Introdução do Hino Nacional mais a coda – final.
03 – TOQUE E EXÓRDIO DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
04 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DA DEFESA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
05 – TOQUE E EXÓRDIO DE PATRONO – Composição especial para o Patrono.
06 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
07 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA MARINHA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
08 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
09 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
10 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
11 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE DIVISÃO – Os 8 compassos da marcha grave General Barbosa.
12 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE BRIGADA – Os 4 compassos da marcha grave General Barbosa.
13 – TOQUE E EXÓRDIO DE OFICIAL SUPERIOR COMANDANTE DE OM – Marcha A Granadeira.
14 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Marcha Batida completa.
15 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
16 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DA DEFESA – 12 últimos compassos da marcha Batida
17 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – 12 últimos compassos da marcha Batida.
18 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA MARINHA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
19 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
20 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE EXÉRCITO – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
21 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
22 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE DIVISÃO – 8 primeiros compassos da Marcha Batida.
23 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE BRIGADA – 4 últimos compassos da Marcha Batida.

OBS.: Os exórdios e marchas batidas correspondentes a Oficiais Generais apresentados na gravação referem-se a militares sem comando. Para identificá-los, acrescenta-se o toque de comandante – mi-dó-SOL-dó-mi-dó-SOL – e o toque indicativo da OM comandada.

Ouçam-nos clicando aqui.

Restavam, para completar, os toques de clarim.

Em agosto de 2011, quando a Fanfarra do 1º RCG – Regimento de Cavalaria de Guarda, no ato em que fui nomeado Amigo da Fanfarra e recebi a gravação dos dobrados Tenente Raimundo Floriano, Padre Cícero e Três de Maio, recebi a promessa da gravação dos toques de clarim, dependo da disponibilidade de tempo. Ouçam os três dobrados clicando aqui.

Com a Fanfarra sempre assoberbada de serviço, nunca foi possível realizar o prometido. A 20 de setembro passado, no casamento de minha primogênita, vislumbrei a solução, quando a conduzia até o altar, ao som de dois clarins. Tão logo se encerrou a cerimônia, saí em campo buscando a contratação de dois clarinistas, contando para isso com os préstimos do amigo Jorge Rocha, meu Assessor para tudo quanto é de assunto pertinente a esta minha coluna, ou seja, som, imagem, etc. e coisa e tal. Com suas providências, os toques de clarim foram gravados, na interpretação destes dois excelentes músicos:

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Jonas Cerqueira Santos e Isaac Elias

Ouçam o produto final, postado no dia 12.10.2013, clicando aqui.

Os toques de corneta e clarim existem desde quando surgiu a primeira força armada no mundo – no início, com búzios, evidentemente. Constituem-se no modo mais rápido e eficaz de comunicação em todos os quartéis de tropa terrestre existente no Planeta Terra.

Atualmente, os toques de clarim são empregados apenas nas unidades de tropa montada e apenas em ocasiões especiais, mantendo uma tradição que veio com os colonizadores portugueses. Fora dos 21 abaixo relacionados, constantes do C 20-5 – Manual de Toques do Exército, e FA-M-13 – Manual de Toques, Marchas e Hinos das Forças Armadas, são executados os toques de corneta comuns no dia a dia da caserna. Estes são os toques que ainda persistem:

01 – A BANDEIRA
02 – A PODEROSA
03 – A VITÓRIA
04 – ALVORADA – 1ª PARTE
05 – ALVORADA – 2ª PARTE
06 – ALVORADA – 3ª PARTE
07 – ARTILHARIA A CAVALO
08 – AVANÇAR
09 – COMANDANTE DE ESQUADRÃO DE CAVALARIA
10 – COMANDANTE DE REGIMENTO DE CAVALARIA
11 – FORMATURA GERAL – 1ª PARTE (APRONTAR)
12 – FORMATURA GERAL – 2ª PARTE (FORMAR)
13 – MARCHA BATIDA
14 – MARCHA FÚNEBRE
15 – PARADA – 1ª PARTE (APRONTAR)
16 – PARADA – 2ª PARTE (FORMAR)
17 – REVISTA DO RECOLHER – 1ª PARTE
18 – REVISTA DO RECOLHER – 2ª PARTE
19 – REVISTA DO RECOLHER – 3ª PARTE
20 – SILÊNCIO
21 – VITÓRIA

Para facilitar a pesquisa, aqui vão as partituras desses 21 toques:

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Voltando aos exórdios, que são os toques executados nas honras de recepção e despedida de autoridade quando em visita ou inspeção a uma Organização Militar, ressalto o aspecto de que a postagem constante da relação do site 4Shared acima indicado se refere a oficiais generais ou alguém a eles superior. Na recepção às demais, após o toque indicativo do posto e/ou função da autoridade, dado pelo corneteiro ou clarinista, a Banda de Música ou Fanfarra executará os exórdios a seguir.

Para Oficiais Superiores, Comandantes de OM e Comandantes ou Diretores de Estabelecimentos Militares:

01 – Marcha A GRANADEIRA – Exército (para tropa a pé), Marinha e Aeronáutica;

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02 – Marcha A VITÓRIA – Exército (para tropa montada, motorizada, blindada ou aeroterrestre);

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03 – Marcha A PODEROSA – Exército (para Artilharia).

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Para finalizar, numa amostra do trabalho dos clarinistas, disponibilizo-lhes o maior dos toques de clarim constantes da relação e partituras acima, a Marcha Fúnebre:

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HOJE É DIA DE SANTO REIS

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Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os Três Magos do Oriente
Seguindo a Estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na Sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A santíssima Família
Jesus, Maria e José

O cantar do Santo Reis
É um cantar excelente
Acorda quem está dormindo
Consola quem está doente

Belchior veio da Pérsia
Da Etiópia, Baltazar
E Gaspar veio da Índia
Todos a Jesus saudar

Belchior portando ouro
Com mirra veio Gaspar
Baltazar trouxe o incenso
Pra Jesus presentear

Para vocês, Folia de Reis, adaptação folclórica, com Trio Parada Dura (Creonte, Barrerito e Mangabinha):

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RÉVEILLON 2013

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Amanhã, 31 de dezembro, é dia de festa! À meia-noite, estaremos celebrando a entrada do ano de 2014 e o término 2013, com essa dezena final muito positiva para os homens de vergonha na cara desta Nação: dos 38 mensaleiros processados pelo Supremo Tribunal Federal, 17 condenados já se encontram vendo o sol nascer quadrado. Derrota do 13, vitória do lado não apodrecido deste amado Brasil!

Invertendo o número 13, temos 31, o da sorte. Neste 31 de dezembro, minha filha caçula festeja mais um ano de sua bela existência. Portanto, as comemorações já têm início no coração de toda a família e extravasam, empolgando nossa Quadra, Brasília, o Brasil, o Universo, enfim.

O ano de 2013 deixa saldo extremamente significativo em minha vida. Com as bênçãos de Deus, consegui ultrapassá-lo sem submissão a qualquer tipo de cirurgia, li 92 livros, lancei um, mantive ininterrupta, semanalmente, A Coluna de Raimundo Floriano aqui no JBF, e nossa família, cheia saúde e alegria, juntamente com os parentes e demais amigos, celebrou o casamento de minha primogênita, em recepção/festa com jantar para 500 talheres. Eis-nos a entrar na Dom Bosco:

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Para que vocês conheçam um pouco da história de Elba e Fábio, cujo namoro começou em 2000, aos 16 anos dela, mostro-lhes, neste vídeo de 10 minutos, o início de tudo:

2014 será marcado por muitas comemorações, motivo pelo qual ouso afirmar que o ano começará mesmo só no segundo semestre, depois da Copa do Mundo. Sempre que ela acontece, relembro o balde de água fria jogada sobre todos nós, fervorosos torcedores, com esta carta publicada um dia após a derrota do Brasil diante da Itália, na Copa de 1982:

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Vejam bem o que ele diz no início do primeiro parágrafo: “O que falta ao Brasil é uma identidade nacional, pois o povo só se une em torno de um objetivo comum quando o motivo é futebol.” Essa afirmação se viu cabalmente comprovada durante a Copa das Confederações/2013, quando a turba ocupou as ruas de todo o País, mas, depois, com a Seleção Brasileira vitoriosa, amansou que nem as tranquilas águas da Lagoa do Abaeté.

Gosto muito de Copa do Mundo. Não pelo futebol em si, mas pela oportunidade de aprontar o maior furdunço, botando a Banda da Capital Federal na rua para alegrar o povão, a massa de torcedores. Foi assim em 2002, na conquista do Penta, quando na partida final, fechamos o trânsito na 215 Sul, começando a tocar às 8 horas da manhã, certos da vitória. Eis a composição da Banda naquele dia:

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Aliás, em matéria de previsão, quase nunca erro. Sempre que a Seleção Brasileira Masculina de Futebol vai ao Palácio do Planalto pedir a bênção do Presidente, é ferro na certa. Assim foi com o atual Partido no Poder, que já perdeu 2 Copas. Tomara que o Escrete Nacional desta vez não dê as caras por lá, arriscando-se a perder a terceira.

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Se, como diz o livro acima, a década foi perdida politicamente, também o foi futebolisticamente falando – refiro-me à Seleção Brasileira, ópio do povo.

Há uns dois meses, a Presidenta do Brasil, em visita a Minas Gerais, não titubeou em referir-se ao futebol, usando a expressão “Meu Galo!”. Deu no que deu!

Na recente visita à África do Sul, para assistir aos funerais de Mandela, novamente a Presidenta trouxe à baila o futebol. Em conversa com o Presidente francês, garantiu-lhe que o Brasil seria campeão em 2014, mas que a França ficaria bem classificada no torneio, ao que o outro, diplomaticamente, comentou: – Pode ser, mas na última decisão Brasil x França, não foi bem assim!

O Penta, apesar de inflar-nos os corações de orgulho tupiniquim, foi uma pedreira par aos cordelistas, eis que difícil encontrar rimas para o termo, restando-nos apenas o trivial: venta, jumenta, presidenta, aguenta, nojenta, pimenta, etc. Meu amigo Asclepíades Abreu, em inspiradíssima criação, exibiu em sua Quadra uma comprida faixa com estes dizeres: TODO MUNDO TENTA, MAS SÓ O BRASIL É PENTA! Perceberam?

Já o Hexa será a mão-na-roda para o pessoal do cordel. Vejam a quantidade de preciosas rimas: guexa, rexa, sexa, reflexa, anexa, caxexa, almadraquexa, aduzirhexa, carrexa, barexa, centenariohexa, amexa, alexa, campeonatohexa, brunirhexa, convexa, colexa, circunflexa, genuflexa, conexa… Difícil mesmo vai ser encaixar!

Volto às palavras de José Benedito Assunção, na carta Ufanismo do Louco, acima transcrita: “Concluo portanto que a única coisa que brasileiro leva a sério mesmo é festa.” Estamos quase empatados, digo eu. Falou em festa, é comigo mesmo!

Terminando, para alegrar o réveillon de todos nós, saudando o Ano Novo, esse 2014, que será praticamente só de festa, escolhi uma seleção de pupurris de marchinhas, sambas e frevos de rua que, tenho certeza, serão do agrado geral.

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Com Pixinguinha e sua Banda:

MARCHINHAS – 11 minutos: Tem Gato na Tuba, Deixa a Lua Sossegada, Pirolito, China Pau, Pirata e Touradas em Madrid, todas de João de Barro e Alberto Ribeiro.

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SAMBAS – 10 minutos: Nós Queremos Uma Valsa (Nássara e Frazão), O Que É que Você Quer Mais? (Nássara e Roberto Martins), Mundo de Zinco (Nássara e Wilson Batista), Me Queimei (Nássara e Walfrido Silva) e Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins).

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Com a Orquestra 1º de Novembro, a Pé da Cará, de Timbaúba (PE):

FREVOS DE RUA – 09 minutos: Brasil/Espanha (Paulo Silva), Cabelo de Fogo (Maestro José Nunes), e Toureiro (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira).

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CRÔNICA DE UMA SERESTA NATALINA BALSENSE

fin

Figura meramente ilustrativa

Aconteceu há exatos 53 anos, noite de 23 para 24 de dezembro de 1960, sexta-feira, antevéspera do Natal.

Numa cidade em que não havia televisão, e a iluminação pública apagava por volta das 22 horas, a opção noturna para o encontro da mocidade em férias se resumia nas festas dançantes que realizávamos no Clube Recreativo Balsense ou em alguma casa de família, com iluminação a petromax e música a cargo do conjunto de Martinho Mendes. A cota arrecadada entre os rapazes cobria todas as despesas.

Estávamos radiantes com a festa que realizaríamos no clube naquela noite, quando recebemos um balde de água fria: o bispo da Prelazia, Dom Diogo Parodi, proibira qualquer dança no período natalino, por ser uma época de recolhimento e orações, como afirmava. E não houve jeito de contornar o assunto. A presidência do clube caçou-nos a licença já concedida, o Martinho tirou o corpo fora, e nenhuma casa da família se atreveu a contrariar a ordem episcopal. Diante do impasse, resolvemos partir para uma serenata.

Marcamos o ponto de reunião no coreto – hoje inexistente – da Praça da Matriz – e, enquanto aguardávamos a lua sair e a chegada dos seresteiros, demos início ao consumo de bebidas quentes – licor Perobina, cachaça Jararaca, conhaque São João de Barra, Martini, quinado Cinzano e rum Bacardi -, ao mesmo tempo em que entoávamos cantigas em altos decibéis, para acordar o pessoal da Casa Paroquial, verdadeira pirraça em desagravo.

Um dos seresteiros era o preto velho Fuçura, guarda municipal e vigia dos jardins da praça. Dávamo-lhe boas doses de pinga e mandávamos que ele gritasse bem alto DOM DIOGO!, porém ele, respeitoso por demais, repetia: PÃO DE OURO! Outro companheiro a chegar foi o Thucydides Miranda, filho da Jeruza, entrado na adolescência mas todo metido a rapaz. Ele e o Fuçura ficaram responsáveis pelo transporte das garrafas sobressalentes – as cheias, evidentemente.

Pela meia-noite, a trupe estava completa: José Bernardino, Gonzaguinha, Antônio Pires, Pinto Pires, Cazuzinha, Luiz Pires, Aluisio Soares, Raimundo Chaves, José Coutinho, Angelino, Barbosa, Raimundo Solino, Arenaldo, Otaviano do Zé do Joca, Nonato do Souzinha, Moacir Coelho, Mestre Rubens, Pedro Correia e João Batista, seu irmão, Nonato Cacete, Luizão, Pedro Nilo, Fonsequinha, Ronaldo, Moizemar, João Emigdio, Zé Farias, que chegara de Brasília em teco-teco fretado, além mim no violão, meu irmão Afonso Celso na sanfona, Possidônio da flauta e Régis, novo morador balsense, no cavaquinho.

A casa escolhida para início da jornada foi a de Seu Araripe, na Rua Isaac Martins, por motivos óbvios: grande concentração de moças bonitas e dos sonhos de alguns. O próprio Araripe veio à porta, ofereceu-nos bebidas e, após nossos cânticos, ele e seu filho José, o Sampaio, incorporaram-se ao cortejo.

(É oportuno relembrar que a residência de Seu Araripe e Dona Tercília, sua mulher, era o ponto de reunião da juventude balsense em férias. Dançava-se à luz de candeeiros ou lamparinas, ao som dum rádio de pilha – foi ali que aprendi a dançar. Em noites de claridade lunar, dispunham-se, no terreiro em frente, num grande círculo, cadeiras arrecadadas na casa e na vizinhança, onde se realizavam diversas brincadeiras sertanejas, como a do anel, a da berlinda e a do amigo secreto, sempre sob a direção das filhas daquele querido e simpático casal cearense. Uma delas, por sinal, recém-nascida em 1960, participou, 18 anos mais tarde, do concurso Miss Brasil, representando o Estado do Ceará).

A seguir, cantamos na porta de Marica Rocha, Salomão Ahuad, Moisés Coelho, Chico Florentino, Doutor Gonzaga, Augusto Pires, Absalão da Maroca e, por solicitação de Seu Araripe, na de Dionel Souza, do Banco da Amazônia, grande cantor de modinhas, o qual também a nós se juntou. Seu ponto forte era a valsa Uma Grande Dor Não Se Esquece, de Ernani Campos e Antenógenes Silva, gravação de Carlos José e Gilberto Alves, que ele entoou uma porção de vezes durante o percurso, atendendo a pedidos:

Choro a lágrima fremente
O pranto cruciante
Que rola internamente
Choro a lágrima sentida
A lágrima dorida
Que verte o coração
Sinto o espinho da saudade
E sofro a realidade
Da grande ingratidão
E na imensidão da dor
Eu sofro só o meu amor

Menestrel apaixonado
Eu vivo desolado
Chorando a minha dor
Choro a lágrima dorida
A lágrima sentida
Que sai do coração
Sinto a dor que mora n’alma
A dor que não se acalma
A dor que eu não esqueço
Sofro, eu sofro e não mereço
A dura ingratidão
Que me devora o coração

Continuando a seresta, paramos na porta do Coronel Fonseca, Pedro Inácio, Odilon Botelho, Jocy Barbosa, Luiz Fonseca e Theodorico Fernandes, onde topamos com o Antônio José da Úrsula, munido de uma radiola a pilha, em seresta particular, com discos em que dominavam os nomes de Lindomar Castilhos, Agnaldo Timóteo e Waldick Soriano. Deixamo-lo no local, curtindo uma grande paixão, e seguimos até a próxima casa, a de Seu Silvério Sampaio, onde seus filhos Antônio e Edésio se juntaram ao corso.

Dali, seguimos para a casa de Dona Nemézia Pereira, que veio nos receber, abriu sua mercearia e nos abasteceu de bebidas quentes, cujo estoque estava quase a zero.

Nesse momento, baixou em Dionel a personalidade do Cabo Didi, ao qual passamos a obedecer, principalmente no que tangia ao consumo das quentes. Quando ele achava que era chegado o momento apropriado, cada um pegava sua garrafa e executava estas ordens sob seu comando:

– Atenção!

– Preparar! – Todos segurávamos a garrafa pelo gargalo.

– Apontar! – Encostávamos a boca garrafa nos lábios.

– Fogo! – Nem preciso dizer.

Da porta de Dona Nemézia, fomos até a de Dona Belinha, que nos serviu tira-gostos de queijo e cujo marido, Tenente Pedro Segundo, também se juntou a nós. Mas antes, a pedido de Dona Belinha, cantamos a toada Luar do Sertão, melodia de João Pernambuco e letra do maranhense Catulo da Paixão Cearense, a música mais repetida naquela noite.

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Noite enluarada no sertão brasileiro

Apenas quem mora em locais onde não há iluminação elétrica é que pode avaliar a beleza duma noite enluarada. E foi nessa pureza sem poluição tecnológica que Catulo se inspirou para fazer sua mais bela poesia. Luar do Sertão é o Hino da Seresta Maranhense. Eis a parte mais conhecida:

Oh, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia a nos nascer no coração

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir-se um galo triste, no sertão, se faz luar
Parece até que a alma da lua é que descanta
Escondida na garganta desse galo a soluçar

Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!
Não há, oh gente, oh não,
Luar como este do sertão!

Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina
Onde à tarde a sururina chora a sua viuvez

Faziam parte de nosso repertório Noite Cheias de Estrelas, de Cândido das Neves, A Volta do Boêmio, de Adelino Moreira, Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, Noite Feliz, de Franz Gruber, versão brasileira Mário Zan e Arlindo Pinto, Boas Festas, de Assis Valente, e outras canções no gênero consagradas.

Altas horas, próximo à porta de Justiniano Fonseca, onde íamos cantar, deparamos com o negro De Pau – assim era conhecido -, deitado numa calçada, dormindo de roncar e agarrado a seu violão, nessas alturas só com duas cordas. Era a terceira serenata daquela noite que, para o negão, se acabava ali.

Na mercearia de Zé Dué, reabastecemos o estoque de quentes.

Demais casas em cujas portas cantamos: Joaquim Coelho, Joca Rêgo, Tarcísio Moreira, Lourdes Pires, Constâncio Coelho, Omar Ribeiro, Salvador Coelho, Chico Valentim, Zefinha e Miriam Rocha, Rafael Sabonete, Antônio Sepúlveda, Luzia Félix, Parsondas Coelho, Emília Câmara, Santo Coelho, Edna Pires, Gesner Soares, Didácio Santos, Dolores Lima, Ritinha Pereira, Evísio Botelho, Iaiá Gomes, Naninha Bezerra, Alice Farias, Tonica Miranda, Mestre Carlos, Sinharinha Florentino, Maria Luíza Solino, Souzinha, Josefa Baúba, Homerico Gomes, Pedro Ivo e Zé Marques.

Em cada parada, o por todos ansiado comando do Cabo Didi: Atenção! Preparar! Apontar! Fogo! A certa altura, demos com a falta do Thucydides, ao notarmos que ele repassara ao Fuçura as bebidas sob sua guarda. Mandamos procurá-lo, sendo ele encontrado na Rua do Zé Bento, escornado na calçada do Major Lisboa. Aí, descobrimos que, invariavelmente, ao ser comandado, também o garotão fazia fogo. Reanimado a troco de água fria na cara, foi conduzido à casa da Jeruza, e a ela entregue, para especiais cuidados maternais.

Quase raiando o dia, chegamos à porta de Seu Rosa e Dona Maria Bezerra, meus saudosos pais onde, depois de cantarmos a Valsa da Despedida, Robert Burns, versão de Braguinha e Alberto Ribeiro, a turma se dispersou, finalizando a seresta.

Na maioria das residências onde paramos, as meninas-objeto de nosso romantismo vieram à janela para ouvir-nos, sorrir-nos e, em muitos dos casos, acenar-nos com venturosas esperanças.

No dia seguinte, para que a população balsense identificasse as ruas por onde a seresta passou, bastava seguir a trilha de garrafas vazias deixadas pelo caminho.

Os menestréis éramos quase todos nós. Meu carro-chefe seresteiro sempre foi a toada Rancho da Serra, de Herivelto Martins e Blecaute, gravada em 1956 pelo Trio de Ouro, aqui na interpretação de Rolando Boldrim:

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Como não poderia faltar, ouçamos também a toada Luar do Sertão, na voz de Inezita Barroso:

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LEITURAS DIVERSAS: DEL NERO E XICO BIZERRA

Noite de 20 para 21 de novembro de 2013. Na TV, o jogo entre Atlético do Paraná e Flamengo pela Copa do Brasil, no qual eu não tinha interesse algum, eis que vascaíno já eliminado. Enquanto a bola corria, aproveitei para ler este livro, de autoria do General Agnaldo Del Nero Augusto, formado em Ciências Econômicas, cuja última função na ativa foi a de Subsecretário de Economia e Finanças do Comando do Exército:

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Um pouco depois da virada da meia-noite, eu acabara de virar a última das 478 páginas desse tratado, que discorre sobre as três tentativas de tomada do poder pelos comunistas no Brasil.

A primeira, Intentona Comunista de 1935, encabeçada pelo chefe do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes, sob a inspiração dos ensinamentos recebidos em Moscou, quando militares brasileiros chegaram a assassinar, friamente, colegas de farda ainda dormindo: a Democracia venceu! A segunda, com desfecho em 1964, liderada pelo Presidente João Goulart e Leonel Brizola, seu cunhado, caracterizada pela sublevação nos quartéis, gerando a indisciplina e jogando sargentos, cabos e soldados contra os oficiais: a Democracia venceu! A terceira, a partir de 1964 até meados dos Anos 1970, configurada em ações de militantes treinados em Moscou, na China e em Cuba, notadamente com atos terroristas, assassinatos de adversários, de pessoas inocentes e justiçamentos de companheiros seus, guerrilhas, assaltos a quartéis, bancos, empresas e residências: a Democracia venceu!

O título do livro, A Grande Mentira, é justificado no epílogo pelo fato de que todos os autores derrotados nas citadas tentativas, desde há algum tempo, são considerados, Heróis da Pátria, recebendo homenagens, indenizações e nomeando monumentos oficiais.

Como o livro foi lançado em 2001, fui dormir com a curiosidade em saber como o autor classificaria o período a partir de então até os dias atuais, com a corrupção galopando adoidado, e culminando, neste final do ano de 2013, com a prisão dos denominados mensaleiros, recém-condenados pelo Supremo Tribunal Federal, após demorado processo, no qual lhes foi concedido o amplo exercício de defesa *.

Ao acordar no dia 21, recebo o Correio Braziliense, maior jornal da Capital da República, e sou surpreendido com a notícia de que o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília – PPCub prevê a criação do Memorial João Goulart, no Eixo Monumental, entre a Praça do Cruzeiro e a Catedral Rainha da Paz, análogo ao Memorial JK, erigido em homenagem ao fundador da Capital Federal. O que se vê confirmado na edição de 23.11.13, com esta nota na primeira página:

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Volto à manhã do dia 21. Ao sair para a habitual sessão de fisioterapia, recebo um pacote com este valioso presente a mim enviado pelo amigo Xico Bizerra:

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Levei o livro comigo. Enquanto a doutora realizava os procedimentos iniciais, comecei a leitura. Mais ou menos lá pela vigésima página, ela deu uma sacada no livro e me perguntou quem era Xico Bizerra. Aí eu falei tudo o que eu sabia do Xico, tudinho mesmo, e, para ilustrar, contei-lhe a historinha a seguir.

No batente da entrada do Banco do Brasil da 406 Sul, costuma arrecadar adjutórios de almas caridosas um cego com quem gosto de conversar quando vou por lá. E foi um custo da bixiga saber como era seu nome, pois sua dicção, prejudicada pela idade e pela ausência de muitos elementos mastigantes em sua arcada dentária fazia com que eu entendesse que ele se chama “A Mĩa Esquerda”. Por mais que ele repetisse, a surdez que me assola fazia com que não escutasse nada mais do que isso: A Mĩa Esquerda. Até que um dia, uma senhora que saía do banco se interessou em nosso diálogo, o que me fez solicitar-lhe a tradução do nome desse amigo. Ao ouvi-lo, ela falou: “Acho que é Aminstêran!” E aí, a ficha caiu para mim. O nome do moço é Amsterdam, que ele pronuncia Amstêrdam!

Pois bem – falei para a doutora -, na talentosa arte do Xico Bizerra, isso daria uma crônica recheada de amor, ternura, sensibilidade e muita saudade. Porque saudade é a tônica dominante desse comovente livro com que ora brinda nosso coração. Luiz Berto, em genial prefácio, também reconhece o quanto de saudade está impregnado nas 130 crônicas componentes do lindo Breviário Lírico desse poeta em prosa, que também esbanja extasiante capacidade de síntese, ao propiciar-nos crônicas as mais diversas contidas cada qual numa única página de reminiscências e profusão, repito, de muita saudade.

Saudade que me transportou ao Crato da infância do Xico e de minha mocidade em fevereiro de 1957, “quando eu vinha do sertão sul-maranhense para conquistar o mundo, trazendo a coragem e a cara, viajando num pau-de-arara”, e passei ali uma noite. Tempo bom aquele, da estrada piçarrada, mas cuja poeira me fez desejar tomar um banho e, mas na pensão do pernoite não havia água, para isso.

Acasos bem-vindos – pasmem-se vocês! – acontecem, podem crer. Estava eu sentado na calçada da pensão, agoniado de calor, pó até no olho do fiofó, quando ia passando o balsense Sebastião, meu amigo de infância, filho de Seu Salustiano Rodrigues, vulgo Lampião, e de Dona Rosalina. Ao reconhecê-lo, chamei-o, e foi muita alegria aquele reencontro. Disse-lhe da minha vontade de banhar-me, e ele me falou que uma de usas irmãs, a Maria da Glória – a Maria Lampião – compunha o elenco de garotas que alegravam a doce vida dos cratenses numa boate ali perto, onde havia um poço. Foi mão na roda! Tomei um banho caprichado, troquei de roupa e fiquei por lá, apreciando o movimento, de onde só saí de madrugada, na hora de embarcar no pau-de-arara.

A parte musical da boate ficava a cargo de um conjunto com pistom, saxofone, sanfona, banjo, pandeiro e bateria. Em dado momento, foi executado o frevo de rua Esquenta-Mulher – Isquenta-Muié -, de Nélson Ferreira, e aí quem esquentou foi o salão. Minto, pegou fogo!

Aquele frevo, lançado no ano de 1955, e que ali eu ouvia pela vez primeira, e a cidade do Crato ficaram arraigados em meu gosto musical, em minha memória nordestina, e todas as vezes que o ouço é do Crato que me lembro. E com razão. A introdução faz referência ao Juazeiro de Luiz Gonzaga e também ao Juazeiro do Padim Ciço e, em decorrência, aos cangaceiros de Lampião, ao Cariri, ao Crato de Xico Bizerra.

Agora, vocês hão de me perguntar: – E o que o Breviário Lírico, do Xico Bizerra, tem a ver com A Grande Mentira, de Agnaldo Del Nero? E eu respondo: – Muito, mas muito mesmo. Vejam esta nota publicada aqui em Brasília no Jornal da Comunidade, edição de 23/29.11.13:

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E leiam esta crônica de Xico Bizerra, publicada no Breviário, na qual ele remonta a um tempo nem tão distante, mas que também já virou saudade:

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Concordando com o Xico, só me resta exclamar:

- Reaje, Brasil!

* Estou aguardando a chegada nas livrarias do livro Década Perdida: Dez Anos de PT no Poder , de Marco Antonio Villa, já resenhado na Veja de 17.11.13. Vamos ver no que vai dar.

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FALCÃO, O ARQUITETO DO BOM HUMOR

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Amanhã, 10 de dezembro, é o Dia do Palhaço. Com muita alegria, presto homenagem a esse homem-show, para mim o ponto alto da Música Popular Brasileira no início da Década de 1990, quando vivíamos a estagnação criativa no cenário artístico nacional, um sangue novo surgido em meio ao marasmo. Para dizer o mínimo, Falcão foi o que tocou aqui em casa no réveillon 1991/1992. Sacana no mais alto grau, ele mesmo se qualifica: cantor, corno, apresentador e compositor brega, notadamente no estilo irreverente e cômico.

Marcondes Falcão Maia nasceu em Pereiro, interior do Ceará, no dia 16 de setembro de 1957, onde morou, até os 12 anos, numa casa simples. Por influência do pai, o farmacêutico da cidade e “o único lá em Pereiro que tinha radiola, com uma grande coleção de discos, de gosto muito eclético”, escutava música italiana e cantores como Waldick Soriano, Núbia Lafayete, Nelson Gonçalves, e Orlando Silva, d0nstuindo seu bom gosto musical.

Ocasionalmente, também captava, pelas ondas sonoras das emissoras radiofônicas cariocas, como a Globo, Nacional, e Tupi, as músicas dos Beatles e da Jovem Guarda. Em 1970, mudou-se de vez para Fortaleza, indo estudar no colégio Júlia Jorge, na Parquelândia. Na Capital cearense, Aprendeu a tocar violão e conheceu Tarcísio Matos, seu futuro parceiro musical.

Por gostar de desenhar, optou pela área de Arquitetura. Após se formar Técnico em Edificações, na Escola Técnica Federal do Ceará, em 1978, Falcão começou a trabalhar como desenhista, enquanto se preparava para o vestibular da Universidade Federal do Ceará, na qual entrou, em1981, no Curso de Arquitetura, depois de cinco tentativas.

Ao mesmo tempo, investia na carreira artística. Em 1980, fundou, juntamente com Tarcísio Matos, Flávio Paiva, Eugênia Nogueira e outros estudantes de Comunicação Social, a publicação Um Jornal Sem Regras, cujos integrantes também formaram um grupo musical, o Bufo-Bufo.

As composições eram irreverentes e revestidas de consciência política. Enquanto Tarcísio e Flávio queriam fazer uma coisa mais séria, pendendo para MPB, Falcão mudava as letras, para ficassem mais cômicas,

Sua primeira incursão musical foi ainda em 1988. Tarcísio Matos trabalhava no Banco do Brasil e, junto com Falcão, se inscreveu no Festival da Canção Bancária, realizado no BNB Clube. Em contraste às canções sérias do festival, apresentaram o bolero brega escrachado Canto Bregoriano II, com letras sobre Igreja, acompanhamento de coral, e Falcão usando a vestimenta colorida que se tornou sua marca registrada.

O público aplaudiu, mas a apresentação recebeu nota zero de todos os jurados. No Natal do mesmo ano, Falcão fez seu primeiro show solo, no bar Pirata, em Fortaleza. Em seguida, passou a apresentar-se aos fins de semana, sendo inclusive tachado como comediante, pelo fato de, na época, surgirem muitos humoristas do Ceará, como Tom Cavalcante.

Em 1990, lançou, de forma independente, o álbum Bonito, Lindo e Joiado, contendo o citado Canto Bregoriano II, que já era sucesso regional; I’m Not Dog No, versão em Inglês de Eu Não Sou Cachorro Não, de Waldick Soriano, “para que as rádios brasileiras desse atenção a nossa música”, já que a ascensão das rádios FM fez a maior parte das estações tocarem só música estrangeira; Vão-se os Cabaços, Ficam-se os Desgostos; Só É Corno Quem Quer; e outras 7 faixas de igual apelo homorístico.

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No ano de 1991, a gravadora Continental relançou Bonito, Lindo e Joiado, dando-lhe visibilidade nacional e levando o artista a ser entrevistado por emissora de TV de São Paulo. Era só o começo.

Por influência de Raimundo Fagner, que conseguiu a gravação em fita cassete de um show de Falcão, chamou a atenção da gravadora BMG. Enquanto I am Not Dog No virava seu primeiro sucesso de abrangência nacional, gravou, pela BMG, o disco O Dinheiro Não É Tudo, Mas É 100%, em 1994. Repetindo a fórmula anterior, o novo disco tinha a música Black People Car, traduzindo a letra de outro sucesso brega, Fuscão Preto, carro-chefe do sertanejo Almir Rogério. Seu álbum seguinte, A Besteira é a Base da Sabedoria, de 1995, tornou-se o mais vendido da carreira de Falcão, com 240 mil cópias, alçado pelo sucesso Hollyday Foi Muito.

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Ficou na BMG até 1998, gravando mais dois discos para o selo. Paralelamente, comandou um programa televisivo, Falcão na Contramão, exibido pela na Rede Bandeirantes.

Sua carreira, desde há muito, se consolidou, configurada numa agenda de espetáculos completamente lotada.

Em 2012, Falcão estreou um talk show, Leruaite, na TV Ceará, levando a cada sessão um convidado diferente do meio artístico, político ou empresarial. No programa, também atua o conjunto Num Tô Nem Vendo, formada por músicos com deficiência visual.

Ainda em 2012, Falcão foi considerado um dos 30 cearenses mais influentes do ano, de acordo com enquete realizada pela revista Fale!

Esta é sua discografia conhecida: Bonito, Lindo e Joiado, 1992; O Dinheiro não É Tudo, Mas É 100%, 1994; A Besteira É a Base da Sabedoria, 1995; A Um Passo da MPB, 1996; Quanto Pior, Melhor, 1997; 500 Anos de Chifre, 1999; Do Penico À Bomba Atômica, 2000; Maxximum: Falcão – Coletânea, 2005; e What Porra Is This?, 2006, toda ela facilmente à disposição em sebos virtuais.

Selecionei o Falcão para homenagear no Dia do Palhaço deste ano porque o considero a mistura de tudo que conheço no setor histriônico: comediante, humorista, palhaço, velho do pastoril.

Para botar música nesta minha conversa, escolhi o balanço Black People Car, composição de Atílio Versutti e Jeca Mineiro e versão de Falcão e Tarcísio Matos:

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GLORIA ESTEFAN, JOVEM LÍDER ANTIFIDEL

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, e, pra não dizer que não falei de flores, apresento-lhes agora esta jovem cantora, de prestígio internacional, que, embora vivendo no Exterior, guarda no sangue a tradição dos ritmos de sua Pátria: Gloria Estefan.

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Gloria Maria Milagrosa Fajardo, a Gloria Estefan, cantora cubana radicada nos Estados Unidos, nasceu em Havana, no dia 1º de setembro de 1957. Já vendeu mais de 100 milhões de discos no mundo todo e é um os cem artistas mais vendedores de todos os tempos.

De família humilde, Gloria, desde tenra idade amava de coração a música cubana e sempre ficava tocando, em seu violão, canções que sua avó lhe ensinava.

Com menos de dois anos de idade, sua família teve que se mudar para Miami, por discordar da ditadura comunista imposta em Cuba por Fidel Castro. Seu pai acaba se tornando militar nas Forças Armadas americanas, indo lutar na Guerra do Vietnã e vindo a falecer logo após o término do conflito, fazendo com que Gloria continuasse a enfrentar a dureza da vida, juntamente com a mãe e Rebeca, sua irmã.

Gloria participava como colaboradora de grupos estadunidenses que cantavam versões das músicas dos Beatles e dos Rolling Stones, mas foi na Universidade de Psicologia que conheceu o cubano Emilio Estefan, seu atual esposo, que na época já líder de um grupo musical chamado Miami Latin Boys.

Vendo Gloria cantar na igreja, Emilio não hesitou em convidá-la para entrar no grupo. De início, ela resistiu, mas acabou aceitando o convite, passando o conjunto a denominar-se Miami Sound Machine. Emilio e Gloria, com o transcorrer do tempo, começam a namorar e, em 1978, se casam. Um ano antes, em 1977, o grupo já fazia shows. Logo após, é lançado seu primeiro LP, denominado Renacer.

Outros álbuns se sucederam, como Miami Sound Machine, em1978, Imported, 1979, MSM Piano Album, 1980, Otra Vez, 1981, Rio, 1982 e A Toda Máquina, 1983. De 1977 a 1984, o grupo já mesclava Pop, Rock e sons latinos com canções, tanto em inglês, como em castelhano, e fazia excursões pelas América Central e do Sul. Foi nesta época que o Brasil recebeu a primeira visita de Gloria Estefan, mas como turista, e não em turnê com seu grupo.

Em 1980, nasce-lhe o primeiro filho, Nayib Estefan. Um ano depois, a CBS lhe oferece um contrato para shows e lançamentos de álbuns em toda América Latina. Em 1984, é lançado Eyes of Innocence, o primeiro álbum da banda Miami Sound Machine em Inglês, tendo Gloria como vocalista, que alcançou repercussão, não apenas nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra e na Austrália, onde o single Doctor Beat entrou nas paradas na categoria Hot Dance. A partir daí, iniciava-se a trajetória internacional daquela que viria a ser a Rainha do Pop Latino.

Depois do relativo êxito, é lançado, em 1985, Primitive Love, que traz Conga, o primeiro single de sucesso mundial do Miami Sound Machine. O álbum também gerou outros megassucesso, como Words Get In The Way e Bad Boy. Primitive Love vendeu mais de seis milhões de cópias, só nos Estados Unidos. O single Conga garantiu seu registro no Guiness Book of Records, como o único compacto na história a figurar, ao mesmo tempo, nas paradas Pop, Latina, Soul e Dance, da revista Billboard.

A partir de então, sua carreira teve ascensão estrondosa. Em 1993, foram lançados três álbuns: seu primeiro álbum solo em espanhol Mi Tierra, rico em sons latinos, que vendeu mais de 8,5 milhões de cópias em todo o mundo e lhe valeu o primeiro Grammy Award de sua carreira; sua primeira coletânea em Inglês, Greatest Hits, de repercussão mundial; e Christmas Through Your Eyes, álbum natalino de pouco destaque, que colocou o single tema do álbum como carro-chefe.

Possuo em meu acervo estes dois CDs de sua vastíssima discografia, sobre o segundo dos quais adiante passarei a falar:

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Dois anos depois do grande sucesso de Mi Tierra, é lançado Abriendo Puertas, álbum natalino em espanhol, que lhe deu segundo Grammy Award e foi um dos mais tocados em 1995. Destaque para Abriendo Puertas, Más Allá e Tres Deseos, todas classificada em 1º lugar na categoria Hot Latin Tracks da Latin Billboard. E os Grammys não pararam por aí.

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Um dos pontos altos de sua vitoriosa carreira foi em 1996, no encerramento das Olimpíadas de Atlanta, quanto cantou para mais de um bilhão de pessoas, além de ter a oportunidade de mostrar seu talento a Cuba, já que ali a viu quem tinha antena parabólica pois, desde há muito, Fidel proibira que suas músicas tocassem na Ilha. No mesmo ano, encerrou sua brilhante carreira nos palcos, eis que, cada vez mais, fazia menos espetáculos, em função da família, com quem queria estar mais presente, até porque acabara de nascer sua filha Emilly Estefan. A partir de então, passou a atuar apenas nos estúdios de gravação, com lançamentos que se sucedem e também com participação no cinema.

Atualmente, tem-se demonstrado uma das principais líderes internacionais do forte movimento de oposição ao regime comunista em Cuba. No dia 23 de março de 2010, decidiu, juntamente com o marido, convocar a população de Miami para grande marcha de protesto na famosa Calle Ocho. Dois dias depois, 200 mil pessoas compareceram, vestidas de branco, para prestar solidariedade ao movimento das “damas de blanco” e à família do prisioneiro político Orlando Zapata, que morrera, a 23 de fevereiro, fazendo greve de fome em Havana. A pressão parece ter funcionado: o Presidente Barack Obama viu-se obrigado a pedir um encontro pessoal com Gloria e Emilio, a fim de tratar do tema.

Depois disso, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas pela cantora.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição nos sites virtuais.

Gloria Estefan, confirmando a tradição e o sangue cubano nas veias,era uma perfeita rumbeira nos palcos, os quais eletrizava com sua esfuziante presença:

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Para mostrar-lhes pequena amostra de seu trabalho, escolhi o merengue Tres Deseos, do CD Abriendo Puertas, composição e arranjo de Kike Santander, que fala de como é bom termos no coração o amor por nossos semelhantes. Vamos ouvi-lo:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

ORQUESTRA LA SONORA MATANCERA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade à pesquisa focalizando, hoje, essa grande orquestra de renome internacional, La Sonora Matancera, a criadora da Salsa.

A Orquestra La Sonora Matancera, foi fundada no dia 12 de janeiro de 1924, na casa de Valentim Cane, tocador de três – instrumento de cordas afro-caribenho -, localizada no aprazível Bairro Ojo de Agua, na cidade de Matanzas, deleito musical cubano, capital da província do mesmo nome, região Centro-Oeste de Cuba, com o nome de Atuneiros Liberal. Participaram do ato Paul Vasquez Govin, o Buiu, baixo; Manuel Sanchez, o Jimaga, timbale; Ismael Governadores, pistom; Domingo Medina, guitarra; Julio Govin, guitarra; José Manuel Varela, guitarra; e Juan Bautista Llopis, guitarra.

No ano 1926, foram admitidos Carlos Manuel Diaz, o Caíto e Roglio Martinez Dias, El Galego que, no futuro, daria destaque internacional à orquestra. Reformulada, com a saída de alguns membros e a admissão de outros, o conjunto passou a denominar-se Sexteto Soprano. Em 12 de janeiro, três anos após sua fundação, com o nome de Sonora Matancera Estudiantina, mudou-se para Havana, no intuito de conquistar espaço no competitivo mercado musical cubano dominado por estas feras: Septeto Habanero, Septeto Bologna, National Septeto, Trio Matamoros, Septeto Matancero e Pinareño Septeto. Em novembro do mesmo ano, realizou, na RC Victor, suas duas primeiras gravações.

O início dos Anos 1930 é marcado pela expansão do rádio e momento propício para a consolidação da orquestra, que recebe sua denominação definitiva, La Sonora Matancera, apresentando-se em todas as estações de rádio do país.

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De 1932 a 1948, a orquestra incorporou vários músicos, adquirindo personalidade própria com ritmos dançantes e sendo imitada por outros grupos desde então, nesses 89 anos de existência ininterrupta.

La Sonora Matancera foi responsável pelo lançamento de muitos cantores aos píncaros da glória, os quais, após nela atuarem como crooners, alçaram voo em carreira individual, sendo os mais visíveis deles no Brasil Binvenido Granda, de meados dos anos 1940 até 1954, e Célia Cruz, que o substituiu.

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A união de todos instrumentos de corda, sopro e percussão com as vozes convergindo para o ritmo inconfundível e irresistível de La Sonora Matancera, deveu-se ao trabalho tenaz de arranjador Severino Ramos, o Refresquito. O apoio e colaboração ativa de Radio Progreso foram definitivos para a internacionalização da orquestra. A estação de rádio de ondas curtas, como um canhão, trovejou por toda a Bacia do Caribe.

O período entre 1950 e 1959, época de esplendor e fantasia, é considerado como a Idade de Ouro do showbiz cubano, com a força dada pela nova invenção tecnológica: a televisão.

Mas ai, desabou a tragédia sobre o cenário artístico-musical da então conhecida como a Pérola das Antilhas. Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

As ditaduras de Cuba e, posteriormente, da Venezuela, arrolharam a boca musical daqueles países, fazendo que com que o merengue praticamente desaparecesse do cenário mundial. Com isso surgiu um novo ritmo, que foi a música hoje chamada salsa, uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que o ritmo surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa. A palavra significa molho, e a mistura desses ingredientes resultou num sabor muito picante, fazendo com que os norte-americanos aprendessem a dançar da cintura para baixo.

A passagem do tempo é inexorável. Muitas estrelas do passado, com seu falecimento, vêm sendo substituídas por novos personagens, igualmente valorosos, o que contribui para o sucesso também sempre renovado de La Sonora Matancera que, nesses 89 anos de atuação, já se apresentou em palcos de todo o Planeta Terra.

Seus discos são facilmente encontráveis à disposição em sebos virtuais.

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi, do CD acima, a salsa de Sabrosito Asi, de José Reina. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

CELIA CRUZ, A RAINHA DA SALSA

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Celia Cruz

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, continuo hoje focalizando essa grande artista de renome internacional que foi Celia Cruz, a Rainha da Salsa.

Celia Cruz – Úrsula Hilaria Celia Caridad Cruz Alfonso – cantora cubana, nasceu em Havana, no dia 21 de outubro de 1925, e faleceu na cidade americana de Fort Lee, Nova Jersey, a 16 de julho de 2003, perto de completar 78 anos de idade.

Passou a juventude em Santos Suárez, bairro pobre de Havana, onde se viu influenciada pela diversidade musical e a riqueza dos ritmos cubanos. Ainda adolescente, ganhou o concurso “La hora del té” – A Hora do Chá -, o que deu impulso a sua carreira. Enquanto sua mãe a encorajava a participar de outros certames pelo País, seu pai, mais tradicional, tinha outros planos e a incentivou a tornar-se professora, ocupação comum para as mulheres cubanas de seu tempo.

Celia matriculou-se no Colégio Nacional de Professores, mas logo abandonou o curso, diante do sucesso que fazia nas apresentações em estações de rádio. Conciliando o crescimento de suas aspirações artísticas com os desejos do pai para que continuasse estudando, matriculou-se no Conservatório Musical Nacional em Havana. No entanto, em vez de encontrar razões para prosseguir na trilha acadêmica, um de seus professores convenceu-a de que ela deveria insistir em sua carreira de cantora em tempo integral, o que foi feito.

No ano de 1948, realizou sua primeira gravação. Em meados Anos 1950, Célia foi alavancada para o estrelato, quando começou a atuar como crooner da famosa Orquestra La Sonora Matancera.

Inicialmente, houve o temor de que Celia não faria o mesmo sucesso do crooner anterior, Bienvenido Granda, e a dúvida se uma voz feminina venderia discos como de costume. Mas Celia impeliu a Orquestra – e a Música Latina, em geral – para novas alturas, excursionando com La Sonora Matancera pelas Américas do Norte e Central, até quase o final da década.

Em 1959, La Sonora Matancera fazia uma temporada pelo México, quando o regime comunista de Fidel Castro se apossou do poder em Cuba, o que fez a Orquestra decidir, em definitivo, não mais retornar para a Ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América.

No ano de 1961, Celia Cruz tornou-se cidadã americana, e isso provocou a fúria de Fidel Castro que, em represália, proibiu sua entrada no país, assim como que ali fosse tocada qualquer de suas músicas.

Por algum tempo, a artista permaneceu relativamente desconhecida nos Estados Unidos, além de inicialmente refugada pela comunidade cubana ali residente, mas quando se juntou à Orquestra Tito Puente, em meado dos Anos 1960, ganhou visibilidade e o aplauso internacional. Puente era largamente conhecido em toda a América Latina e, com a nova formação do grupo, Celia transformou-se em seu foco central, angariando uma grande base de aficionados admiradores. No palco, Celia encantava a plateia, com seus trajes extravagantes e interação com o público – aspectos que engrandeceram e caracterizaram toda sua vida artística de 40 anos como crooner.

Alguns discos que nos deixou:

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Com sua maviosa voz aparentemente inalterada, Célia continuou gravando até além da Década de 1980, num total de 75 discos, inclusive 23 Discos de Ouro, recebendo vários Grammys e Latin Gramys, apareceu em diversos filmes, ganhou uma estrela na Hollywood’s Walk of Fame e foi condecorada pela National Endowment of the Arts com A American National Medal of the Arts.

Participou da novela mexicana, El Alma no Tiene Color, no ano de 1997, exibida no Brasil em 2001, pelo SBT, com o título A Alma não Tem Cor.

Foi casada durante 41 anos com o também cantor cubano Pedro Knight. Em 16 de julho de 2003, ela morreu de um tumor maligno no cérebro, em sua casa em Fort Lee, Nova Jersey, como dito acima. Seu corpo foi embalsamado e levado para Miami e Nova York, de tal maneira que todos lhe pudessem render homenagens.

Seu sepultamento reuniu mais de 150 mil pessoas, em Miami e em New York. O mundo inteiro lhe rendeu homenagens e a comunidade artística mundial reconheceu-a como um de seus mais altos expoentes. O enterro em Nova York constituiu-se num dos maiores que essa cidade recorda, superando, inclusive, o de Judy Garland, em 1969.

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Celia Cruz vibrando com o Grammy/2003

A música hoje chamada salsa é uma mescla de ritmos afro-americanos, tais como o son, o mambo, chá-chá-chá, e a rumba cubanos. Fontes dizem que a salsa nasceu nos bairros de Nova Iorque por volta dos 1971. Mas a verdade é que a Salsa surgiu depois que a Orquestra La Sonora Matancera saiu de Cuba, durante a revolução cubana, e se instalou no México, criando essa nova denominação – salsa.

E Celia Cruz, por ser a maior divulgadora da salsa, predominante em todo seu vastíssimo repertório, foi cognominada A Rainha da Salsa, recebendo, até, um Grammy por isso.

Recentemente, num arroubo de magnanimidade, o regime de Fidel Castro declarou permitido tocar em Cuba as músicas gravadas por Celia Cruz. Mas só agora?

Possuo em meu acerco dois CDs de salsa dessa grande artista:

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Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi a salsa de Victor Daniel, La Vida Es Um Carnaval, do CD Éxitos Eternos. Vamos ouvi-la:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

XAVIER CUGAT, O REI DA RUMBA

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Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Continuando com meu projeto de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, apresento-lhes hoje outro nome desse elenco cheio de estrelas internacionais: Xavier Cugat e Sua Orquestra.

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Xavier Cugat – Francisco de Asis Javier Cugat Mingall De Bru Y Deulofeo –, maestro e compositor catalão-cubano, nasceu na cidade catalã de Girona, Espanha, no dia 1º de janeiro de 1900, a cerca de 100 km de Barcelona, onde veio a falecer, no dia 27 de outubro de 1990, com quase 91 anos de idade.

Quando estava com 3 anos de idade, desembarcou com sua família em Havana, Capital cubana, onde se iniciou no estudo da chamada música clássica. Menino-podígio do violino, nos primeiros anos em Cuba foi impregnado pelos sons das maracas e dos bongôs, que pontuavam o frenesi de rumbas e congas, o que, mais tarde, alimentou seu sonho de concertista, tocando a música dos negros em casas noturnas.

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Compondo uma prole de quatro irmãos e uma irmã, apenas ele se dedicou à Música e, já aos 12 anos de idade, empunhava o violino nas orquestras da Ópera e da Sinfônica de Havana. Aprofundou seus estudos do instrumento em Berlin, Paris e Nova Iorque, quando chegou a acompanhar o tenor Caruso, que muito o estimulou.

Aos 18 anos, descobriu que não seria um grande concertistas, permanecendo nos estados Unidos por mais 5 anos, trabalhando como caricaturista, nas páginas do Los Angeles Times.

Em meados dos Anos 1920, retornou a Cuba, onde passou a desenhar sua própria imagem como bandleader de ritmos latino-americanos. Rumbas, cúmbias, boleros, guarachas, valsas mexicanas, congas, enfim, tudo que fosse das Caraíbas ao Sul do Rio Grande ficava sob sua batuta, recriado em arranjos e sons de sua maviosa orquestra. Foi ele o grande divulgador da Música Latina nos Estados Unidos e na Europa.

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O cinema foi o grande veículo para consolidar sua fama como nome internacional. Em 1936, já atuara em Amores de Uma Vida, da Paramount, com Mae West, mas foi nos anos 1940 que o colorido das telas o levou ao apogeu em sua carreira, com musicais como Escola de Sereias, Romance no México, Numa Ilha com Você, O Príncipe Encantado, com Carmen Miranda, e outros. Também no cinema, acompanhou grandes nomes do showbiz americano, dentre eles Bing Crosby, Frank Sinatra, Perry Como, Dean Martin. Foram 133 filmes no total, como ator ou dirigindo sua orquestra.

Xavier Cugat sempre se empenhou em transmitir ao público a ideia de boa-vida, de mulherengo, o que, para inveja de muitos, era a mais pura verdade. Casou-se com 4 de suas belas e sempre jovens cantoras. Abbe Lane, exuberante, foi a mais famosa delas. Outra paixão de sua vida, e marca registrada, era uma minúscula chihuahua, cachorrinha que agasalhava na palma de mão e carregava no bolso.

Em 1970, depois de várias voltas pelo Mundo, resolveu retornar para sua Espanha – Mi España, como diz o título de uma de suas famosas composições -, a fim de encerrar sua carreira de Maestro e dedicar-se à pintura. Não resistiria, porém, mais do que 5 anos e, em 1975, formou nova orquestra, com 16 figuras, para atuar num hotel de Cabo Salou, na Costa da Catalunha. E, na bela Barcelona, com quase 91 anos, finalmente partiu com sua batuta para reger outra orquestra no Plano Superior.

Grande parte destes dados biográficos é creditada à Editora Revivendo, da qual sou fiel cliente há mais de quatro décadas.

Sua discografia é extensa, e muito títulos são facilmente encontráveis em sites virtuais de busca.

O título de Rei da Rumba lhe foi atribuído pelo ritmo que o caracterizou em suas gravações, hoje imediatamente lembrado quando se fala em seu nome.

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E foi uma rumba, extraída do LP acima, que escolhi para dar-lhes pequena amostra de seu trabalho. Ouçamos, pois, com Xavier Cugat e Sua Orquestra, a rumba The Lady in Red, composição de Xavier, gravada em 1940:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

BIENVENIDO GRANDA, O BIGODE QUE CANTA

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Bienvenido Granda

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado*.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá -, cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, dou continuidade hoje, apresentando outro grande nome dessa constelação, cujos boleros embalaram os primeiros passos dançantes de minha adolescência: Bienvenido Granda.

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Bienvenido Rosendo Granda Aguilera, cantor e compositor cubano de grande popularidade em toda a América Latina, ao longo das Décadas de 1950 e 1960, nasceu em Havana, no dia 30 de agosto de 1915, e faleceu na Cidade do México, no dia 9 de julho de 1983, aos 68 anos de idade.

Órfão de pai aos seis anos de idade, desde criança mostrou afinidade com os ritmos cubanos e os tangos argentinos, que cantava nos ônibus, no intuito de ganhar minguados trocados que lhe garantissem a subsistência.

Aos poucos, foi consolidando sua carreira artística atuando nas emissoras de rádio nos Anos 1940 e 1950. Sua consagração definitiva aconteceu ao juntar-se à Orquestra La Sonora Matancera, em 1940, na qual permaneceu até 1954, quando iniciou sua carreira solo.

Apresentou-se em diversos países da América Latina e, no início da Década de 1960, inconformado ao o regime ditatorial que se apoderou de Cuba, mudou-se para o México, onde fixou residência definitiva. Nessa época, já era conhecido como “O Bigode Que Canta”.

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Sua discografia é extensa, e muitos títulos se encontram à disposição em sites virtuais de busca.

Bienvenido Granda imortalizou composições próprias e de outros autores, notadamente boleros, que ficaram para sempre gravadas em nossa memória: La Ultima Noche, Hipocrita, Tu Precio, Pecadora, Señora, Angustia, En la Orilla del Mar, Nuestra Realidad, Gracias, Soñar, Perfume de Gardenia, Oración Caribe, Soñando Contigo, Calla, Las Muchacas del Cha-Cha-Cha, P de Parada e Ba Bae.

Como pequena amostra desse trabalho, escolhi a primeira música com a qual tomei conhecimento da existência de Bienvenido Granda, o bolero No Toques Ese Disco, de sua autoria, acompanhado pela Orquestra La Sonora Matancera:

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* Desculpem-me a insistência em mostrar-lhes no que transformaram aquele povo outrora tão risonho e feliz. A revista Veja de 06.11.13, em ampla reportagem especial intitulada Cuba, afirma: “o dinheiro dos brasileiros ajuda a sustentar o regime dos irmãos Castro, em que só existem dois tipos de pessoas: os dirigentes e os indigentes”.

PEREZ PRADO, SUA ORQUESTRA E O MAMBO

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Perez Prado, o Rei do Mambo

Quando eu falo que Cuba entristeceu a partir dos Anos 1960, estou coberto de razão. Além dos argumentos que expenderei mais adiante, algo pode se constatar observando os semblantes dos médicos cubanos recém chegados ao Brasil: fisionomias soturnas, denotativas de um povo que perdeu o bom humor, servil, domesticado.

A lavagem cerebral, que se impõe desde a infância dos cubanos, se observa em todos os setores culturais, sendo emblemáticos seus efeitos sobre esta jovem artista, atualmente de maior visibilidade na Ilha:

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Patricia Blanco, a Patry White

Enquanto aqui no Brasil cogita-se a mudança do nome da Ponte Costa e Silva e da Fundação Getúlio Vargas, por homenagearem presidentes que governaram ditatorialmente, essa bonita show-woman – espécie de Gretchen de lá – cujo primeiro single de sucesso é Chupi Chupi, se autodenomina A Ditadora! Vocês já ouviram falar nela?

Em meu tempo de rapaz, até o final da década de 1950, nomes de artistas cubanos como Perez Prado e Sua Orquestra, Bienvenido Granda, Xavier Cugat e Sua Orquestra, Célia Cruz e Orquestra La Sonora Matancera eram tão comuns em nossas festas dançantes quanto os de Severino Araújo e Sua Orquestra Tabajara, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Ciro Monteiro, Emilinha Borba, e outros.

Não é que a musicalidade cubana tenha se acabado por completo. Ainda existe, mas com a boca completamente arrolhada para o resto do mundo. Observem esta nota publicada na revista Veja, de 08.05.13, na Seção Música – Cinema – Arte:

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No corpo da matéria, a revista brinda-nos com a relação de nomes que dominam o atual cenário musical cubano: a já vista acima, Patricia Blanco, vulgo Patry White, cantora, reggaeton, ritmo importado de Porto Rico; Carlos Alfonso, vulgo X Alfonso, baixista e cantor de ritmos afro-cubanos, rock, música clássica e hip-hop; Yoandys González, vulgo Baby Lores, cantor de reggaeton e músicas em louvor a Fidel; Yssy García, baterista; Etian Arnau Lizaire, vulgo Brebaje Man, cantor de rap e hip-hop. Vocês já ouviram falar neles? Pois É!

E vejam que alienação! Com todas as adversidades políticas que nós, os brasileiros, enfrentamos desde o início dos Anos 1960, ainda vemos e curtimos adoidado talentos emergentes patrícios fazendo sucesso com baião, coco, samba, xote, frevo nos três gêneros, marchinha, samba-canção, toada, valsa, arrasta-pé, modinha caipira, rojão, etc.

Dentro de meu propósito de mostrar um pouco do que foi a pujança da música caribenha do passado, em particular a cubana, começo hoje apresentando o primeiro nome que conheci desse elenco e que muito influenciou meu gosto pelos ritmos e melodias tão vibrantes que produziam: Perez Prado e Sua Orquestra.

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Damaso Perez Prado, tecladista, maestro, arranjador e compositor, nasceu em Cuba, na cidade de Matanzas, no dia 11 de dezembro de 1916, e faleceu na Cidade do México, a 14 de setembro de 1989, aos 72 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral. Era filho de Pablo Perez, jornalista, e de Sara Prado, professora.

Estudou música clássica e piano em sua infância e, mais tarde, tocou órgão e piano em clubes locais. Por um tempo, foi o pianista e arranjador para a Orquestra La Sonora Matancera, então o mais conhecido grupo musical de Cuba. Também trabalhou como pianista na Orquestra Casino de La Playa, em Havana, durante a maior parte da década de 1940, quando tinha o apelido de “El Cara de Foca”.

O final dos Anos 1930 e o início dos Anos 1940 foram de dias excitantes para a música pop cubana: os metais adicionaram-se às bandas de “son” – ritmo nativo cubano – de forma vibrante, com influência do swing norte-americano, ganhando enorme popularidade nos clubes e salões de baile de Havana. Nesse período, Perez Prado já era um maestro experiente na forma em que se transformaria em sua marca registrada: o mambo, ritmo dançante quente e rápido, derivado da música africana, espécie de misturas do son com a rumba.

Em 1948, Perez mudou-se para México formando sua própria orquestra, especializadas em mambo, ritmo do qual fui o maior compositor e divulgador, sendo por isso mesmo, intitulado o Rei do Mambo. Jamais voltou a morar em Cuba.

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Em 1950, o arranjador norte-americano Sonny Burke ouviu uma de suas composições, Que Rico Mambo, levando-a para seu país, onde rebatizou-a com o título de Mambo Jambo, cujo single estourou nas paradas de sucesso mundiais, rendendo a Perez uma turnê pelos Estados Unidos, quando começou a gravar para a RCA Victor.

Em 1954, Perez Prado extasiou o mundo com a gravação da rumba de Loughy e Jacques Larue, Cherry Pink And Apple Blossom White, lançada no Brasil como Cerejeira Rosa. Em 1958, com a rumba Patricia, de sua autoria, conquistou o primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos, da Alemanha, da Grã Bretanha, do Brasil, do Mundo, enfim. Além disso, suas composições fizeram parte da trilha sonora de vários filmes e séries de sucesso internacional.

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Sua discografia compreende mais de 30 títulos, alguns ainda encontráveis à venda em mercados virtuais. Desde a instalação da Ditadura de Fidel, Perez Prado nunca mais pisou em Cuba.

Seu filho, Perez Prado Jr., continua a dirigir a Orquestra de Pérez Prado na Cidade do México até hoje.

Mambo Jambo foi a música que marcou a carreira de Perez Prado para sempre, lembrada até hoje pelos que conheceram os Anos Dourados da Música Cubana, ao som da qual o pessoal de minha faixa etária viveu felizes momentos nas festas dançantes de nossa juventude. Mas há uma outra criação desse grande músico que ficou para sempre indelével em minhas lembranças.

Trata-se do Mambo Espanha, que passei a curtir em 1955, quando o Circo Garcia cumpriu temporada em Teresina, capital piauiense, com grande orquestra de sopros e metais. Quando tocava desse mambo, um pistonista se levantava e executava um solo que fazia os camarotes e as arquibancadas tremerem de emoção.

Ouçamos, portanto, as duas joias musicais de Perez Prado e Sua Orquestra que me inebriaram para sempre:

Mambo Jambo:

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Mambo Espanha, com o famoso solo de pistom:

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COMPAY SEGUNDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Compay Segundo y Sus Muchachos

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês, e Omara Portuondo, no dia 14. Hoje, apresentarei um nome igualmente famoso, mas quase desconhecido no Brasil: Compay Segundo.

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Compay Segundo

Compay Segundo, pseudônimo de Maximo Francisco Repilado Muñoz, nasceu a 18 de Novembro de 1907, em Siboney, Cuba, e faleceu no dia 3 de Julho de 2003, em Havana. Foi um compositor, violonista, clarinetista, cantor e tresero – sendo o tres a fusão de três instrumentos de corda caribenhos: a guitarra, o tiple e a bandola.

Desde os cinco anos, acendia os puros – charutos – para a avó materna e, a partiu de então, adquiriu o hábito de fumar, que jamais abandonou, sendo o charuto sua marcante característica. Aos nove anos de idade, com o falecimento da avó, mudou-se com sua família para a cidade de Santiago de Cuba.

Em Santiago, Repilado, como era conhecido, começou a trabalhar no ofício de que se ocupava grande parte da população cubana: enrolador de charutos. Ao mesmo tempo, tomava aulas com a jovem Noemi Toro, que o introduziu nos segredos da pauta musical. Por sua influência, optou pela clarineta, com a qual fez sua primeira apresentação em Havana, integrando a Banda Municipal de Música, em 1929, na inauguração do Capitólio Nacional.

Em 1935, com o guaracheiro Ñico Saquito e Sua Banda Cuban Star, viajou novamente para a Capital cubana, desta feita, para lá residir definitivamente.

Autodidata do tres e do violão, mesclou os dois para criar um novo instrumento de corda, a que deu o nome de armónico. Muitas de suas composições musicais caracterizam-se por seu conteúdo imaginativo e grande senso de humor. Na Década de 1930, com Quarteto Hatuey, viajou ao México, onde participou em dois filmes, México Lindo e Tierra Brava.

Também foi no México que integrou, como clarinetista, o Grupo Matamoros e teve a oportunidade de trabalhar com o músico Benny Moré. Lá, também, fundou, em 1942, a Dupla Los Compadres, cantando com o cubano Lorenzo Hierrezuelo. Lorenzo era a primeira voz e tinha o apelido de Compay Primo – primeiro compadre -, enquanto Repilado era a segunda voz, o Compay Segundo, pseudônimo que o acompanhou até o fim de seus dias e pelo qual é reconhecido mundialmente.

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Com o tempo, houve um processo da subestimação da segunda voz na música, que passou a ser depreciada, mormente após as Décadas de 1940 e 1950. Sobre esse fenômeno, Compay Segundo declarou: – Os jovens não querem acompanhar nenhum cantor. Todos querem ser estrelas, do dia para a noite. Veja quantos anos eu tive de esperar, quantos caminhos tive de andar, em quantos eventos tive de participar. E cá estou começando, nunca acabando.

Sua carreira teve inúmeras mudanças. Integrou o Sexteto Los Seis Ases, o Cuarteto Cubanacán, e foi clarinetista da Banda Municipal de Santiago de Cuba. Em 1956 criou o Grupo Compay Segundo y Sus Muchachos, com quem trabalhou até sua morte.

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Detalhe de Compay Segundo y Sus Muchachos

Compay Segundo foi um artista único, na maneira como produzia o som que se ajustava ao modelo da Zona Oriental de Cuba, o que o fez reconhecido como um grande representante da cubanía – cubanidade. Os estilos em que transitava eram o son, a guaracha e o bolero, além de canções com acentuados matizes caribenhos. Sua voz, grave e redonda, acompanhou célebres cantores de fama internacional.

Com o Grupo Compay Segundo y Sus Muchahos, foi capaz de fazer bailar multidões de todos os continentes. Realizou turnês pela América Latina e Europa, particularmente Espanha, onde gravou seus últimos discos. Sobretudo, partir de 1992, criou-se, na Espanha, um ambiente favorável para a trova e o son tradicional, sendo convidados antigos e respeitados músicos desse estilo. Com isso, em 1995, Compay Segundo teve uma antologia organizada por Santiago Auserón, que foi o início de sua consagração internacional e a retomada de sua carreira artística.

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Compay Segundo participou ativamente do ambicioso projeto Buena Vista Social Club, um disco produzido por Ry Cooder, em 1996, em que se reuniram os grandes nomes da música cubana, do passado, e daquela década, com Barbarito Torres, promovendo o ressurgimento de fabuloso de músicos cubanos que, em alguns casos, estavam no ostracismo por mais de 10 anos. O é tema central do documentário homônimo, dirigido pelo alemão Wim Wenders.

No flagrante abaixo, é mostrado cena do documentário, onde aparecem veteranos como Eliades Ochoa, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo e o “novato” Barbarito Torres – Bárbaro Alberto Torres Delgado -, cantor e alaudista, nascido na cidade de Matanzas, em 1956, e especializado em ritmos afro-cubanos:

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Eliades – Ibrahim – Compay – Omara – Barbarito Torres

Aos 94 anos, Compay Segundo estreou nos palcos como ator, em uma peça intitulada Se Secó el Arroyto – algo como secou-se o riozinho -, baseada em uma de suas canções, que narra os amores frustrados de um casal de jovens nos anos anteriores à Revolução Cubana.

Dentre as canções mais conhecidas interpretadas por Compay Segundo, encontram-se: Sarandonga, Saludos, Compay, ¿Y Tú, Qué Has Hecho?, Amor de Loca Juventud, Juramento e Veinte Años. A mais famosa de todas é Chan Chan, composição sua, que abre o CD, interpretada por Eliades Ochoa, com acompanhamento do Buena Vista Social Club.

Compay Segundo faleceu em 2003, em Havana, cercado por sua família e com o respeito e a consideração de seus patrícios. Deixou cinco filhos. Nonagenário e muito bem-humorado, disse certa feita que ainda não havia se esquecido de como era o amor e que queria um sexto filho. Foi sepultado em Santiago de Cuba.

Sua discografia é extensa e facilmente encontrável em sites virtuais e busca.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi o blues de sua autoria Amor de Loca Juventud, com participação do Buena Vista Social Club. Vamos ouvi-lo:

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OMARA PORTUONDO E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Omara Portuondo, com o Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro passado, Juntamente com o Buena Vista, assim como Ibrahim Ferrer, no dia 7 deste mês. Hoje, apresentarei resumido perfil da cantora Omara Portuondo.

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Omara Portuondo

Omara Portuondo, cantora e dançarina cubana, nasceu em Havana, no dia 29 de outubro de 1930. Sua mãe, descendente de rica família espanhola, causou grande escândalo ao fugir para casar-se com um negro, jogador profissional de beisebol.

Esta dama da música cubana, de voz macia como veludo, iniciou sua caminhada artística aos 15 anos, quando era conhecida como a ‘noiva do feeling’ ou ‘filin’, estilo romântico que marcava o cenário de Cuba. Seu talento é inato, desenvolveu-se naturalmente, sem que ela precisasse dedicar-se à teoria no interior dos estabelecimentos de ensino musical. Sua verdadeira escola foi seu lar, seus mestres, os próprios pais, que cultivavam o hábito de cantar depois do almoço. Primogênita de três irmãos, já na infância ela improvisava duplas com o pai, fonte de muitas das músicas que ela posteriormente gravaria em seus discos.

Em sua casa, ela também encontrou a educação da alma, com o aprendizado da paz, da compreensão e do amor, sentimentos gerados no âmbito familiar, uma vez que, publicamente, a mãe espanhola e o pai negro tinham que simular ser dois estranhos, pois a família materna e a sociedade conservadora não aceitavam esse relacionamento. Omara foi criada nesse ambiente.

Ela deu seus primeiros passos no universo musical dançando no grupo Cabaret Tropicana, influenciada por sua irmã Haydee. Quando não estavam trabalhando, integravam um grupo jazzístico. Antes de optar pela carreira solo, ela participou do Cuarteto d’Aida, ao lado da irmã, de duas vocalistas e da pianista Aida Diestro, executando inclusive sucessos da bossa nova. No Cabaret, Omara teve contato com o cantor de jazz Nat King Cole e com a francesa Edith Piaf, a qual ela acompanharia em algumas turnês.

Omara também dançou no Mulatas de Fuego, no Teatro Radiocentro, e em outros grupos de dança. As duas irmãs também costumavam cantar para a família e amigos, e se apresentavam em clubes de Havana. Ela e Haydee, em 1947, juntaram-se ao Balanço Loquibambia, grupo formado pelo pianista cego Frank Emilio Flynn.

Sua carreira discografia teve início com o Amigas, lançado em 1950, juntamente com as cantoras Moraima Secadas e Elena Burke. Magia Negra foi seu primeiro álbum individual, lançado em 1959, com destemidas doses de música produzida na Ilha e jazz procedente dos Estados Unidos. Na época em que o governo norte-americano rompeu relações com Cuba, por conta da questão dos mísseis, as irmãs se encontravam em Miami. Enquanto Omara optou por retornar, Haydee preferiu refugiar-se na América do Norte. A seguir, os primeiros álbuns de Omara:

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Na Década de 1970, Omara cantou ao lado da Orquestra Aragon, com a qual excursionou por vários recantos do mundo. Nos anos que se seguiram, lançou diversos álbuns e prosseguiu com sua carreira na Ilha e fora dela, sempre atuando em parceria com renomados músicos internacionais, realizando uma fusão das populares canções cubanas herdadas dos pais com o jazz, a bossa nova, o bolero, a guajira e outras tantas cadências latinas.

Sua consagração internacional só veio acontecer ao aproximar-se dos 70 anos de idade, quando se tornou a única mulher a integrar o álbum e o documentário Buena Vista Social Club. Aqui, outros dos discos que lançou:

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No ano de 2008, Omara, ao lado de Maria Bethânia, realizou turnê histórica pelo Brasil, o que lhes rendeu a gravação de um CD, um DVD e o lançamento de um livro ricamente ilustrado com registros desse grande encontro. Adiante, a capa do CD com Bethânia:

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Omara parece ter sido cooptada. Tão logo a ditadura de Fidel Castro se instalou em Cuba, ela aderiu integralmente. Encontrando-se em Miami, retornou de imediato para a Ilha, enquanto sua irmã Haydee se refugiou nos Estados Unidos, como foi dito acima.

Isso faz-nos supor que, em assim agindo, ela conquistou o direito de poder circular livremente em excursões pelo Exterior, nos trevosos e árduos tempos ditatoriais que dominaram o cenário literomusical cubano desde então.

Hoje, Omara tem um apartamento em Cuba, com vista para o mar, localizado no Malecon, tradicional recanto cubano, onde desfruta de seus momentos de repouso. Sua discografia contabiliza 15 discos, ente LPs e CDs, além de 3 DVDS. De todos, escolhi, para apresentar-lhes pequena amostra de seu trabalho, uma faixa extraída deste álbum, gravado em 2004:

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Trata-se do bolero Habanera Ven, do compositor cubano Graciano Gómez. Vamos ouvi-lo:

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IBRAHIM FERRER E O BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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Ibrahim Ferrrer à frente do Buena Vista Social Club

Para quem não leu minha coluna aqui no JBF, dia 30 de setembro passado, informo que o Buena Vista Social Club foi um clube de dança e atividades musicais de Havana, local onde os astros cubanos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo. No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Cuba um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado. Na Década de 1990, foi lançado um filme e gravado um CD com o mesmo nome, dando ao Buena Vista notoriedade mundial. Dentre os veteranos que atuaram em ambos, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Eliades Ochoa eram mais conhecidos no Brasil.

Eliades Ochoa, violonista e cantor, teve pequena amostra de seu trabalho aqui apresentado no dia 30 de setembro. Hoje, apresentarei para vocês resumido perfil do cantor Ibrahim Ferrer.

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Ibrahim Ferrer

Ele nasceu num salão de baile de Santiago de Cuba, no dia 20 de fevereiro de 1927, e faleceu em Havana, no hospital CIMEQ, no dia 6 de agosto de 2005.

Filho de uma dançarina de clube noturno, Ibrahim ficou órfão aos 12 anos de idade, quando se viu obrigado a cantar nas ruas para sobreviver. Aos 13, formou par musical com um primo e, apresentando-se em festas particulares, conseguiu sustento para deixar as ruas. Ao longo dos anos, fez parte de diversos grupos musicais e, em 1953, juntou-se ao Conjunto de Pacho Alonso.

Em 1959, mudou-se de Santiago com o Conjunto para Havana, quando a formação musical foi rebatizada como Los Bocucos, dedicando-se principalmente a ritmos cubanos, como os registrados neste álbum:

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Tempos depois, Ibrahim trabalhou como vocalista do lendário Benny Moré e Sua Banda Gigante, nome este deveras apropriado, pois sua formação compreendia 21 instrumentos, aí compreendidos bocais, palhetas, cordas e percussão.

Ibrahim sempre manteve o desejo de gravar boleros, o que só veio a acontecer em sua adesão ao Buena Vista Social Club, lançando este álbum só de bolerões, último disco que gravou, à venda em sebos brasileiros:

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O filme Buena Vista Social Club, produzido por Ry Cooder, embora nos presenteie com a maravilhosa interpretação de seus astros, mostra-nos, nas poucas imagens de Havana, a pobreza habitacional e o atraso, sob todos os aspectos, em que vive o povo cubano.

Este outro álbum, importado, também se encontra disponível em sebos;

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Sua discografia contabiliza 14 títulos. A voz de Ibrahim Ferrer vinha sendo há muito tempo apreciada pelos músicos e entusiastas da ilha, mas só logrou o reconhecimento mundial a partir de sua apresentação no projeto coletivo Buena Vista Social Club. O disco abaixo, no qual é solista em todas as músicas, dá-nos uma perfeita ideia da força que ele representou na Música Latino-americana.

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E é dele que escolhi a faixa 1, Bruca Maniguá, afro-cubano – que eles denominam son, ritmo nativo de Cuba – de Arsenio Rodrigues, gravação do ano de 1999.

Vamos ouvi-la:

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BUENA VISTA SOCIAL CLUB

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O seleto grupo de músicos cubanos

No ano passado, dia 26 de novembro, ao postar matéria denominada O Merengue e a Música do Caribe, prometi voltar ao tema, focalizando os grandes artistas e orquestras que fizeram a pujança musical de toda aquela região compreendida no mar-oceano entre as duas Grandes Américas, musicalidade essa infelizmente sucumbida em passado muito recente. Começo a cumprir minha palavra, trazendo até vocês um pouco do mais conhecido movimento musical cubano.

O Buena Vista Social Club era um clube de dança e atividades musicais de Havana, onde os músicos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel “Puntillita” Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. No decorrer do tempo, novos membros entraram para o grupo.

No final da Década de 1950, o Clube fechou, e nunca mais se viu em Havana um lugar como aquele, deixando, assim, seus músicos órfãos. A maioria mudou de carreira para poder sustentar-se, e muitos passaram anos sem tocar instrumento algum, definitivamente abandonados e sem esperança de um dia voltarem a viver de suas potencialidades artísticas. Foi a tristeza musical que se apossou da ilha, na fechadura imposta pelo regime ditatorial ali instalado.

Em 1996, mais de 40 anos depois do fechamento do Clube, o músico e produtor americano Ry Cooder foi até Havana na tentativa de reencontrar essas lendas da música cubana. Seu interesse surgiu depois de Cooder ter ouvido algumas gravações desses artistas.

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Ry Coorder conseguiu reunir muitos deles: Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa, Faustino Oramas e Rubén Gonzáles. Junto com esses e outros musicos, Ry Cooder produziu um disco fantástico, que foi aclamado mundialmente: Buena Vista Social Club, cujas capa e contracapa vocês viram logo acima.

Desse encontro, além da gravação do disco, surgiu o documentário homônimo, que mostra todas as etapas, desde as primeiras entrevistas, com os músicos em Havana, até o que seria o ápice para eles: a apresentação no Carnegie Hall em Nova York. Não esquecendo ainda que, antes da atuação em Nova York, eles estrelaram fantástica performance em Amsterdã, capital holandesa.

O filme foi aclamado pela crítica, sendo indicado ao Oscar na categoria Melhor Documentário e ganhando o prêmio de Melhor Documentário no European Film Awards. O disco, por seu turno, ganhou, em 1998, o Grammy Award for Best Tropical Latin Performance.

Além da fantástica música, o mais interessante desse projeto é a satisfação dos artistas cubanos e o reconhecimento de seus trabalhos. É possível perceber no documentário a alegria desses músicos, que mostraram seus talentos e que foram aplaudidos em todo o mundo. Até porque muitos deles passavam por necessidades e lutavam para sustentar suas famílias. Fama e glória mais do que merecidas.

Participaram da gravação do disco e do documentário: Ibrahim Ferrer, Juan de Marcos González, Rubén González, Compay Segundo, Ry Cooder, Joachim Cooder, Manuel “Puntillita” Licea, Orlando “Cachaito” López, Manuel “Guajiro” Mirabal, Eliades Ochoa, Omara Portuondo, Barbarito Torres, Amadito “Tito” Valdés e Leyva.

Em 2006, foi lançado Rhythms del Mundo, um álbum com as estrelas do Buena Vista e da música cubana Ibrahim Ferrer – sua última gravação antes de morrer em 2005 – e Omara Portuondo, com participação de astros como U2, Coldplay, Sting, Jack Johnson, Maroon 5, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e Kaiser Chiefs, dentre outros:

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De todos os nomes acima citados, três foram mais visíveis no Brasil: Eliades Ochoa, Ibrahim Ibrahim Ferrer e Omara Portundo, cujos trabalhos passarão a constar de minha grade de matérias, e serão comentados quando a oportunidade se fizer propícia, começando hoje com o primeiro, o menos famoso do trio.

Eliades Ochoa, violonista e cantor, nasceu em Santiago de Cuba a 22 de junho e 1946, oriundo de uma família toda ela composta de músicos e vocalista, e começou a tocar violão aos 6 anos de idade.

Ainda jovem, era figurinha carimbada tocando e cantando pelos bordéis e bares de Santiago onde, por volta de 1970, já se apresentava regularmente na Casa de la Trova, consagrado clube musical da cidade.

Em 1978, foi convidado para se juntar ao Cuarteto Patria, grupo fundado em 1939, como seu líder, papel que ele só concordou em assumir se fosse autorizado a incluir novos elementos ao repertório, mantendo-se fiel a suas raízes musicais, e continuasse usando o que é considerada sua marca registrada: o chapéu de caubói:

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Eliades Ochoa

Seu envolvimento com o Buena Vista Social Club e a participação no filme do mesmo nome concederam-lhe a fama e o reconhecimento mundiais.

Em 1998, gravou o álbum Cub Africa, com Manu Dijango; em 1999, o álbum Sublime Ilusión; e, em 2004, a canção Hemingway com o conjunto holandês Blof, constituindo parte do álbum Umoja. Sua discografia contabiliza mais de 15 trabalhos.

A música que escolhi como amostra de sua arte é uma guajira, espécie de lamento cubano, estilo tão popular em Cuba quanto na África Ocidental. Também conhecida como “blues cubano”, a guajira deriva-se da tradição espanhola muito forte naquela ilha.

Eliades Ochoa é um intérprete profundamente imerso na tradição, e o uso do chapéu de caubói tem a finalidade de identificá-lo como guajiro – camponês –, vaqueiro, caipira, como o classificaríamos por aqui.

Para vocês, então, a guajira El Carretero, de Guillermo Portables, que consta do famoso CD, na interpretação de Eliades Ochoa, coadjuvado pelo Buena Vista Social Club.

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JOÃO RIBEIRO DA SILVA, UM PIONEIRO

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João Ribeiro da Silva

João Ribeiro da Silva, o Tio João Ribeiro, filho de meu avô, Capitão Pedro José da Silva e de sua mulher em primeiras núpcias, Dona Otília Raimundina Ribeiro Soares da Silva, nasceu em Jerumenha (PI), no dia 30 de março de 1879, e faleceu em Balsas, no dia 17 de dezembro de 1930, aos 51 anos de idade. Era irmão de meu pai, Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e de José de Sousa e Silva, o Tio Cazuza Ribeiro, dentre outros.

Os dois filhos de meu avô com Dona Otília Raimundina deixaram seus nomes em todas as gerações seguintes do clã. Raimundo, o primeiro, foi nominado em homenagem à mãe; João, o último, nasceu num 30 de março, dia de São João Clímaco. Como naquele sertão as palavras proparoxítonas, esdrúxulas, na antiga classificação gramatical, eram de difícil pronúncia, ficou apenas João. Vinte e quatro anos depois, em 1903, novamente no dia 30 de março, nasceu outro varão na família, este o último filho de meu avô em segundas núpcias com

Dona Isaura Maria de Sousa e Silva que, sem qualquer trava-língua, lhe deu o nome de João Clímaco.

Tio João Ribeiro passou sua infância na Fazenda Brejo e, ainda muito novo, mudou-se para Floriano. onde, juntamente com o irmão Raimundo, ingressou na atividade comercial, tornando-se, em pouco tempo, num rapaz bem situado financeiramente na vida.

A 25 de setembro de 1909, casou-se, naquela cidade, com Maria Pereira da Silva, depois Maria Ribeiro da Silva, a Tia Marica, nascida no Loreto (MA), a 25 de maio de 1893, filha do Coronel Antônio Pereira da Silva e de Dona Hermelinda Pires Ferreira.

Tia Marica veio a falecer em Fortaleza no dia 23 de julho de 1986. Eram seus irmãos: Luís Aurélio Pereira da Silva; João Batista Pereira da Silva, casado com Nemézia Santiago Pereira; Rita Pereira da Silva, a Madrinha Ritinha, casada com José de Sousa e Silva, o Tio Cazuza Ribeiro; Corina Pereira da Silva, casada com Luís da Costa e Silva; Albertina Pereira da Silva, casada com Joaquim Evelim, o Seu Quinô; e Maria de Lourdes Pereira da Silva, casada com o farmacêutico Luiz Gonzaga da Silva, o Doutor Gonzaga.

Tio João Ribeiro permaneceu residindo em Floriano até 1910. Após o nascimento do primeiro filho do casal, Antônio Pereira da Silva Neto, o Ribeirinho, a 1º de julho daquele ano, mudou-se com a família definitivamente para Vila de Santo Antônio de Balsas, onde se tornou um dos mais prósperos negociantes.

Em sua esteira e sob sua proteção, para Balsas também vieram os irmãos Cazuza Ribeiro, em 1912, Rosa Ribeiro, meu pai, em 1916, e Evarista de Sousa e Silva, casada com Manoel Maranhense Costa, o Né Costa, estes moradores da Tresidela.

Sua residência era a mais bonita da cidade e se localizava na Praça da Matriz, ocupando três quartos do quarteirão entre as Ruas 11 de Julho e Isaac Martins. À esquerda, a Casa João Ribeiro, em sociedade com Tio Cazuza, uma das mais sortidas do sertão sul-marahense; à direita, a moradia, hoje um tanto modificada, mas que ainda nos pode dar uma ideia de seu passado:

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Casa do Tio João Ribeiro: ainda guardando muito do que foi

Naqueles primórdios, não havia estabelecimentos bancários em nosso rincão – nem assaltantes ou ladrões de cofre -, fazendo com que os comerciantes passassem um bom período amealhando o produto de suas vendas em dinheiro para, com a bolsa fornida, embarcar numa balsa de talos de buriti carregada de gêneros agropecuários e seguir rumo aos centros comerciais adiantados, onde quitariam compromissos anteriormente assumidos e adquiririam novo estoque de produtos industrializados.

No final do ano de 1926, período das enchentes, Tio João Ribeiro descia com uma grande balsa, rumo a Teresina, carregada de couros de boi, coco babaçu, passageiros e, em sua bagagem, pequena maleta contendo 30 contos de réis, considerável fortuna para a época. Já no Rio Parnaíba, chegando ao perigoso Remanso do Surubim, num dos rebojos das águas, a embarcação foi arremessada contra pontiagudo rochedo, espatifando-se por completo. Os passageiros, todos bons nadadores, conseguiram alcançar as margens. Um deles, agarrado a alguns talos, conseguiu segurar a maleta do dinheiro, que passava boiando a seu alcance, e levou-a intacta ao dono, o qual ficou três dias na casa de um morador à beira do rio, esperando as cédulas secarem ao sol. Como eu disse, por ali não havia assaltantes. Era no tempo em que homens tinham vergonha na cara.

O pioneirismo de Tio João Ribeiro se faz notar não só pelo fato de haver chegado a Balsas 9 anos antes de sua emancipação, o que se deu em 1918, mas também pelo progresso que trouxe para a região.

Em uma de suas viagens a Floriano, ao conhecer um gasômetro a carbureto, desenhou-o e, chegando a Balsas, produziu, com a arte do funileiro José Santiago, um igual, o que fez de sua casa a primeira com iluminação a gás na cidade. Mais tarde, adquiriu moderno aparelho similar de fabricação alemã, com o qual iluminou sua casa e também parte da Praça da Matriz, instalando alguns bicos de luz em sua esquina.

Trouxe para Balsas a primeira máquina de escrever, uma Underwood 1913 americana, em cujos manuais Tio Cazuza logo aprendeu a escrever, tornando-se o primeiro datilógrafo da cidade e causando verdadeiro encantamento nos matuto, abismados ao verem aquelas letrinhas saindo toda certinhas, alinhadas no papel.

Em 1930, comprou, em sociedade com Tio Cazuza, o primeiro automóvel da cidade, um Ford, Modelo 1929, praticamente do ano, transportando do Oceano Atlântico numa barca a reboque do vapor Joaquim Cruz. No mesmo ano, o Coronel Antônio Fonseca, outro grande Patriarca balsense, faria o mesmo, trazendo um Chevrolet zerado. Como esses dois veículos tiveram que furar estradas para todos as paragens daquele sertão, seu tempo de duração foi curto, deles restando apenas fotos esmaecidas.

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Ford 1929: o primeiro automóvel em Balsas

No dia 17 de dezembro daquele ano, Tio João Ribeiro veio a falecer, vítima de enfermidade que o levou, com apenas 51 anos de idade, quando se encontrava no auge de suas realizações.

Tio João Robeiro e Tia Marica tiveram 14 filhos, cinco dos quais pereceram em tenra idade – ainda não fora descoberta a penicilina -, e adotaram um, o Augusto, filho dos cunhados Quinô e Albertina. Abaixo a foto dos remanescentes, batida em 1940:

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Raimundo, Aluísio, José, João, Augusto, Antônio, Pedro, Alberto, Zenóbia e Maria de Lourdes

Nome completo dos filhos: Raimundo Ribeiro da Silva, o Titina; Aluísio Ribeiro da Silva; José Ribeiro da Silva; João Ribeiro da Silva Filho; Augusto Pereira Evelim; Antônio Pereira da Silva Neto, o Ribeirinho; Pedro José da Silva Neto; Alberto Ribeiro da Silva; Zenóbia Ribeiro da Silva; e Maria de Lourdes Ribeiro da Silva.

Tia Marica, praticamente, não teve juventude. Casou-se aos16 anos e, aos 37, enviuvou, recaindo-lhe sobre os ombros o peso de dar continuidade aos negócios do marido e a tarefa de educar os 10 filhos, este seu sonho maior. Assim, no ano de 1936, com dois deles já formados, Ribeirinho, Farmacêutico, e Zenóbia, Professora, mudou-se com toda a família para Teresina, transferindo sua parte da sociedade na Casa João Ribeiro para meu Tio Cazuza. Depois disso, residiu em São José dos Campos (SP) e, mais tarde, em Fortaleza, onde veio a falecer.

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Tia Marica em 1978

Tia Marica ficou conhecida pela intransigência com qualquer pessoa que se acercasse de seus filhos com o propósito de namoro. Pequena parte disse é creditada à responsabilidade que ela assumiu, sozinha, para educar a prole. Grande parte, no entanto, deve-se ao fato que ela era possuidora de um gênio forte, de difícil convivência, osso duro de roer.

Isso descontado, pode-se dizer que foi mulher de extrema coragem, jamais esmorecendo diante das adversidades. Superou-as com galhardia e soube manter a dignidade da família, guiando-a por seus passos na vida, fazendo de cada filho um vencedor.

Um deles, o Pedro José da Silva Neto, criou uma estirpe que até perpetuou o nome do clã. Coronel do Exército, os quatro filhos varões seguiram a carreira militar. Um deles, o Pedro Augusto, alcançou a alta patente de General de Exército – 4 estrelas. Hoje, os netos e bisnetos militares do Tio João Ribeiro espalham-se por este Brasil afora, onde não há quartel de Infantaria que não conheça um Silva Neto, nome de guerra de todos.

Tia Marica lia muito, o que lhe brindou com uma cultura geral razoável. Sua conversa era agradável, tanto pelo timbre de voz, quanto pelas citações que apreendera dos livros. E também tinha as próprias sentenças, baseadas nas experiências vividas.

Se estava aborrecida com alguém, dizia: – Eu só quero quem me quer!; ou: – Minha gente, eu sempre ouvi dizer que a ingratidão tira a afeição! Referindo-se a pessoa orgulhosa: – É preciso ter cuidado, porque o orgulho se abate! Quando alcançava um objetivo: – Triste da coisa que eu botar o cavalo em cima! Ao atravessar grande perigo: – Estamos com Deus e com a Santa Cruz, salvai a nós todos, Jesus! E, também: Nas horas de Deus e da Virgem Maria!   

Muito religiosa, quando qualquer dos filhos viajava, mandava-o primeiro beijar os Santos. Para isso tinha em casa um pequeno oratório, com imagens de todos os Santos de sua devoção. Era Zeladora do Sagrado Coração de Jesus, entidade religiosa muito antiga, à qual pertenciam quase todas as senhoras de nossa terra.

Já no fim da vida, dizia ser agradecida a Deus por ter vivido muito, para poder arrepender-se de seus pecados. Portadora de fé inquebrantável, e Tia Marica soube conservá-la até seus últimos segundos na Terra.

LULU RABELO: O BAMBA MARAJOARA

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Joaquim Rabelo Júnior, o Lulu

Joaquim Rabelo Júnior, o Lulu Rabelo, filho de Joaquim Lourenço Rabelo e Dona Margarida da Silva Rabelo, nasceu no dia 9 de janeiro de 1912, em Cachoeira, Ilha do Marajó, Estado do Pará.

Conheceu “muita gente, de toda espécie, branca e preta, pobre e rica; ali tudo era farto, tanto de fruta como de comida; peixe, então, nem se fala, de todas as espécies e a toda hora; se tivesse boa disposição, a pessoa se dirigia até a beira do rio, com seu caniço ou tarrafa e defendia o seu almoço, sem problema algum. Carne de gado, porco e outras carnes como de aves eram de abundância no Mercado Municipal; pirarucu, tambaqui, jacaré, marreca, jaburu, jabuti tinha demais, e na rua não faltavam pessoas com cambadas cheias de peixes. Nada faltava, com a graça de Deus, Jesus Cristo e dos Santos.”

Vivendo nesse Paraíso Terrestre, Lulu Rabelo tinha todas as ferramentas para ser um preguiçoso, um indolente e, se vivesse nos dias de hoje, sério candidato à Bolsa Família e outras esmolas eleitoreiras distribuídas pelos atuais governantes.

Mas não! Com Lulu Rabelo, o buraco era mais embaixo. Durante seus 71 trepidantes anos de vida, transcorridos entre a Ilha de Marajó, a cidade de Belém e rios da Bacia Amazônica, ele foi pau pra toda obra, provendo seus meios de subsistência no exercício destas profissões: cortador de lenha; apanhador de frutas no mato; pescador; cavador de poço; canoeiro; vendedor de galinhas, porcos e patos; soldado do Exército; jogador de futebol; santeiro, encarnador de santo; fotógrafo, sapateiro; agente de Polícia; piloto de embarcação; mestre de obras; carpinteiro; pintor de paredes; estilista de moda; capinador de rua; tarrafeador; dentista prático; pintor de tecidos; fazendeiro; segurança; senhorio; caixeiro de farmácia; agente de fiscalização de Rios e Portos; pedreiro; empreiteiro de obras; capataz de turma; vigilante; mergulhador; enfermeiro; eletricista; soldador; manipulador de farmácia; marreteiro; encanador; fabricante de farinha; colhedor de açaí…

Com todo esse currículo, Lulu Rabelo nunca se descuidou do lazer, dum furdunço, duma patuscada. Paquerador juramentado, era tido como o melhor sambador da Ilha: tinha festa em que as moças só queriam dançar com ele. Além do mais, era o melhor organizador e brincante de cordões e blocos de mascarados, bumba-meu-boi, etc.

A seguir, flagrantes de sua passagem pelo Cachoeirense Sport Club, time que chegou a ganhar do Paysandu por 2×0, em jogo amistoso:

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Lulu casou-se no dia 30 de junho de 1938, aos 26 anos de idade, com Maria Edwiges Paraense, “morena clara, pobre igual a mim; muito bem educada e Professora, muito prendada, que não era de muita camaradagem e de ser muito namoradeira, com amizade da alta sociedade e Diretora da Irmandade Santa Maria de Belém, lá de Cachoeira.”

Esse casamento durou apenas 5 anos. Maria Edwiges veio a falecer de parto no dia 28.08.1943, ao dar à luz, em gravidez de sete meses, o prematuro João Batista, que nasceu morto. Deixou-lhe dois filhos, Francisco de Paula Paraense Rabelo, nascido a 02.04.1939, e Maria Margarida Paraense Rabelo, nascida a 01.09.1942, que viria a falecer no dia 27.11.1950, aos 8 anos de idade. Sobreviveu-lhe, portando um único filho, do qual agora passo a falar.

Francisco, órfão de mãe aos 4 anos de idade e com o pai se virando em múltiplas atividades para ganhar o sustento de sua gente, foi criado por sua tia Dalila Paraense. Naquele sertão bravio, as condições eram de que ficasse por ali, sem ocupação definida, não fosse a educação esmerada recebida de Dalila – a Tia Didi, como ele a chamava – que, o alfabetizou.

Cursou o Grupo Escolar Estadual Professor Francisco Delgado Leão, onde concluiu o Primário, em 1952. Em seguida, ingressou na Escola Industrial de Belém, depois, no Colégio Estadual Paes de Carvalho e, mais tarde, no Instituto Paraense – Escola Técnica de Comércio. Paralelamente, preparava-se, à noite, com colegas, para o concurso de admissão à EsSA – Escola de Sargentos das Armas, no qual foi aprovado em 1956. Foi lá, no ano de 1957, em Três Corações (MG), na Arma de Infantaria, que fizemos esta bela amizade, duradoura desde então.

Promovido a 3º Sargento, Francisco serviu em várias Unidades do Exército, formou-se em Contabilidade e Administração, conquistou o posto de Primeiro Tenente e, em 1983, lotado como Adido na Embaixada do Brasil em Montevidéu, Uruguai, recebeu a notícia de seu pai agonizava no Hospital São Marcos, em Belém do Pará, não resistindo a uma cirurgia na próstata.

Imediatamente, Francisco embarcou num avião para Porto Alegre, onde tomou outro para o Rio de Janeiro e, finalmente, mais um para Belém, chegando a tempo de assistir aos últimos momentos do pai.

Lulu Rabelo e meu pai, Seu Rosa Ribeiro, tinham muitas afinidades: ambos estudaram apenas o necessário para ler, escrever e fazer conta, orgulhavam-se de terem um filho Sargento do Exército e, em segredo, nas poucas horas vagas, molhando o bico da pena no tinteiro, deixaram contadas suas experiências na Terra.

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Lulu Rabelo com Francisco ainda jovem – Francisco em 2007

Assim, foi para grande surpresa de Francisco que Lulu Rabelo, antes de exalar o derradeiro suspiro, a 27.08.1983, ainda teve ânimo para lhe recomendar: – Não se esqueça do meu livro!

Só então, Francisco tomou conhecimento da existência dos manuscritos do pai. E, posteriormente, atendendo a seu último desejo, providenciou a edição desta preciosidade, com 234 páginas e ilustrações, do qual extraí os trechos acima aspeados:

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Para ser fiel ao estilo de Lulu Rabelo, transcreverei passagens hilariantes desse livro da forma como ele as deixou.

RABELO SAPATEIRO

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“Quando vêm se aproximando as festas em Cachoeira, é movimento por toda a parte, gente chegando de todos os lados, vem de Belém, Abaetetuba, Ponta de Pedras, Santana, Santa Isabel, Pau Cu, Gurupá, Mutá, Retiro Grande, Urubuguará, Santa Maria, Jenipapo, Santa Cruz, Anajás-Mirim, Anajás-Grande, Camará, afinal, de muitos lugares.

Eu ficava muito feliz, porque tinha muitos fregueses, tanto de santos, como de sapatos; tinha muita encomenda, como sapatos velhos, santos quebrados, sem dente, sem olhos, tudo para entrega no fim das festas; sapatos para consertar, pintar, mudar de cor.

Recebia muitos presentes que ‘davam da cara’: linguiças, carne de sol, carne fresca, leite, muçuãs, frangos, pintos, perus, patos, peixes. Em casa, era uma fartura, porém eu não sossegava um só momento, nem de dia, nem de noite. Era santo com face do outro, com face pra trás, sapato trocado ou pintado com fumaça de lamparina, gente saindo satisfeita, outros chorando de raiva, outros aborrecidos, outros dançando de alegria, outros descontentes por não levarem o que buscavam.

Certa noite, após terminada a transladação do Círio, chegou lá em casa um vaqueiro da Fazenda do Lobato Miranda, por nome Otávio, que foi me dizendo:

- Olá, Seu Rabelo, aqui está um saco com carne e umas linguiças que eu trouxe pro senhor. E se o senhor tiver um par de sapatos que queira me vender ou alugar por esta noite para eu ir dar uma dançada no Três A, eu quero.

Dei uma olhada nos pés do amigo e mandei que se sentasse, que eu ia engraxar um par. Peguei um lado do sapato de Seu Ramos, que estava lá dando sopa, era quarenta e oito o lado que estava bom, peguei um outro do Ramiro e passei a escová-los às pressas. Depois levei-os, calcei-os nos pés do vaqueiro, tudo no escuro mesmo, para que ele nada notasse. Dei-lhe umas lapadas de cachaça e disse assim: – Pode mandar brasa, mano, que a festa já está começando! Olhe o som da música!

Aí, ele se animou, perguntou quanto custava o aluguel, eu disse que não era nada, que fosse brincar, mas, mesmo assim ele, já meio vesgo de cana, me deu Cr$5,00, muito dinheiro naquela época.

No outro dia, por volta das seis da manhã, lá vinha o vaqueiro Otávio descalço, com os sapatos na mão. Estava tão banzeiro de cana que me entregou os calçados, me agradeceu, disse até logo e foi-se embora, sem perceber que os sapatos eram ambos do pé esquerdo e, além de tudo, um preto e o outro marrom!”

RABELO SANTEIRO

“Outra vez, me aparece ame casa o Capitão Cândido, da Fazenda Caratateu, trazendo debaixo do braço um embrulho de palha de sororoca e, dentro de um paneiro, uma galinha. Após presentear-me com a galinha, abriu o embrulho e me exibiu um santo, dizendo:

- Seu Rabelo, este santo de minha mulher é para o senhor consertar e pintar. É o São Raimundo. Ela fez promessa quando estava grávida e agora quer mandar fazer uma ladainha. Quando posso vir buscá-lo?

Atendi-o com a maior presteza e, três dias depois, entreguei-lhe a encomenda, que ele pagou, muito satisfeito com meus serviços.

Quando vai se aproximando o mês de junho, lá vem de novo o amigo Cândido, trazendo uma caixinha e, dentro dela, enrolado numa toalha, o São Raimundo, com essa proposta:

- Será que o senhor poderia transformar este São Raimundo em Santo Antônio? É que nós queríamos rezar no dia 12 de junho e dar uma festinha em casa. Depois, eu volto e o senhor faz ele virar São Raimundo de novo. Eu disse que sim e lancei mãos à obra. Mudei a pintura do santo, fiz-lhe uma careca e coloquei o Menino em seus braços.

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Santeiro e sua arte

E assim, por vários anos, eu ia ganhando, em cada festa, minhas pratinhas, leitões, galinhas, pedaços de porco salgado, até que um dia a casa caiu: a família armou a maior briga, ao descobrir o troca-troca dos santos só para o Capitão Cândido fazer as festas, razão pela qual o santo não quis mais fazer milagres.

Daí, nosso amigo parou de festejar, e Seu Rabelo deixou de ganhar aquela gaitinha certa.”

RABELO DENTISTA

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“Quando eu e o Comissário Moura trabalhávamos para a Polícia, encontramos numa casa abandonada uma caixa com diversos objetos dentro, inclusive umas dentaduras. Guardamos, pois pensávamos que pertenciam a algum dentista que ali as havia esquecido.

Uma noite, dando ronda pela cidade, vimos um Guarda Noturno, por nome Raimundão, que falava fanhoso, por não ter dentes e não poder compra uma dentadura. Disse-lhe, então, que ele tinha sorte, pois eu dispunha de umas dentaduras que um amigo meu dentista me dera para negociar em prestações e, se alguma dela lhe servisse, o problema estava resolvido. Mais que depressa, o Raimundão não deixou nem que eu terminasse e foi logo dizendo:

- Traz logo amanhã, às 9 horas da noite, que eu te espero aqui mesmo!

Na noite seguinte, levei a dentuda, e não é que deu certo na boca do Raimundão?! – Galhos quebrados! – disse ele. Ficamos certos de receber no final do mês vinte cruzeiros, sendo dez para mim e dez para o Comissário Mourito.”

RABELO COBAIA PARA A CIÊNCIA

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“Houve uma época em que eu estava adoentado de impaludismo, e meu amigo Joaquim Leão, vendo o meu estado de doença, quis me ajudar a ficar bom e deu-me uns comprimidos de Atebrina, para eu tomar dois por dia. Acontece que eu confundi e tomei dois comprimidos de duas em duas horas; resultado, eu ia ficando doido. Tive de viajar para Belém com minha mulher, à procura de um médico, com uma carta de recomendação do meu cunhado Adaltino Paraense.

Após examinado por duas vezes, o médico admirou-se de eu não ter ficado completamente doido, mas disse que se eu fosse feliz de encontrar os medicamentos que ele passou, tinha certeza de que eu iria ficar bom, e assim aconteceu. Comprei todos os remédios e quase fiquei bom. De acordo com o tempo, voltava a aparecer o mal em minha cabeça.

Tempos depois, contei sobre meu sofrimento ao meu amigo Dr. Olavo e, num certo dia, quando o tal mal voltara, fui procurá-lo. Ele, imediatamente, se comunicou, por telefone, com o Dr. Guaraciaba Quaresma Gama, da Santa Casa de Belém, que me mandou dirigir-me para aquele nosocômio.

Lá chegando, o Dr. Guaraciaba deu-me alguns remédios, que melhorei. Mais tarde, tive que voltar lá para fazer tratamentos. Tirei várias chapas da cabeça, mas nunca tive o resultado, pois o médico que me atendeu viajou para São Paulo, e o laudo nunca ficava pronto.

Eu fui me aborrecendo e não fiz mais procuração, até que o Dr. Olavo, conversando com o Dr. Guaraciaba, este me disse para eu não me ausentar de Belém, pois meu cadáver já estava vendido para a Medicina.”

Lulu Rabelo viveu mais de 30 anos depois disso!

A CASA DO DOUTOR DIDÁCIO

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Casa do Doutor Didácio: baluarte contra as inovações

Quando saí de Balsas para estudar em Floriano, em fevereiro de 1949, sua população urbana era de três mil e quinhentos habitantes; hoje, decorridos 64 anos, esse número já ultrapassa a marca dos oitenta mil!

Sempre retornei ali, em férias escolares ou profissionais. Até o início dos Anos 1970, minha terra natal permanecia quase que intocada, com suas casas sempre de portas abertas, seus quintais, verdadeiros pomares, a paquera na Praça Getúlio Vargas, também conhecida como Praça da Matriz, os portos de banho separadamente para homens e mulheres.

Mas aí chegaram a televisão, o asfalto, a água encanada, o fogão a gás, a iluminação elétrica e o item predominante em sua transformação: a explosão agrícola, que atraiu gente de todas as partes do Brasil e até do Exterior, mais comprometida com o resultado econômico de seus negócios do que com a manutenção do patrimônio cultural da urbe.

Balsas esparramou-se horizontalmente. E o progresso foi inevitável. Ao mesmo tempo em que proporcionou, a olhos vistos, benefícios em todos os ramos de atividade, não se limitou às novas áreas de expansão comercial e populacional. Aos poucos, foi agredindo também o coração da cidade, seu centro histórico, que ainda é a Praça da Matriz.

No dia 22 de março de 2018, Balsas comemorará seu Primeiro Centenário. Embora ainda muito nova, não dou mais 50 anos para que seja uma cidade sem memória, sem cara, sem emoções.

Com novos habitantes e novos costumes, chegamos ao ponto de qualquer um de nós, ali nascidos e fora de lá há mais de 40 anos, sejamos tidos, ao voltarmos a nossas origens, como ilustres desconhecidos.

Hoje, observando-se a Praça da Matriz, aquela onde a maioria de nós aprendeu as primeiras letras e também a engatar os primeiros namoros, onde havia um grupo escolar, mais tarde um ginásio, um coreto, onde a casa do Tio Cazuza funcionava como o clube social da cidade, onde se localizaram grandes estabelecimentos comerciais, como as lojas de Alexandre Pires, Augusto Pires, Antônio Fonseca, Hermes Fonseca e do próprio Tio Cazuza, a mercearia de Madrinha Ritinha Pereira, a sorveteria de Seu Lima e o Hotel 4 de Setembro, eu dizia, observando-se a Praça, tirante a Igreja Matriz, resta-nos apenas um monumento – o único – resistindo a todo o processo de inovação e dando-nos conta de um passado nem tão distante: a casa do Doutor Didácio.

Para que nos reste apenas essa referência histórica, devemos que agradecer, sempre, ao clã Fonseca Santos, que tem mantido incólume este solar, contador de muito de nosso passado, de nossa vida, de nossa história. Por isso, temos de render um preito de homenagem ao homem que soube incutir em sua família o amor pela terra, por suas raízes, pela tradição balsense. Falemos um pouco desse grande vulto de nossa história, o Doutor Didácio.

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Didácio Coelho dos Santos

A tarefa não é fácil, diante da quase total ausência de dados para orientá-la e também da inconfiabilidade dos existentes, como se pode atestar no quadro abaixo, publicado na Revista Viva, editada pela Prefeitura Municipal de Balsas, no final do ano passado, com o Balanço Administrativo do período 2005/2012:

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Minha memória do que vivi leva-me a constatar estas incongruências: Paulo Ramos foi Interventor – Governador – do Maranhão de 1936 a 1945, nomeado pelo Getúlio Vargas; Didácio Coelho dos Santos foi Prefeito de Balsas, nomeado pelo Interventor, de 1931 a outubro de 1945, quando caiu o Estado Novo; Roosevelt Moreira Kury, o Doutor Rosy, foi Prefeito de 1º de janeiro de 1956 a 31 de dezembro de 1960; Alexandre Pires – assisti à posse –, de 1º de janeiro de 1961 a 31 de dezembro de 1965; Didácio Coelho dos Santos, de 1º de janeiro de 1966 a 31 de dezembro de 1970 Foi ele quem comandou a belíssima festa do Cinquentenário de Balsas, em março de 1968. As discrepâncias continuam: Lauro Maranhão era Ayres e não dos Reis; José Bernardino faleceu em abril de 1984, quando exercia o mandato de Prefeito…

Baseando-me, porém, em anotações esparsas e em dados cartoriais, tentarei aqui traçar o perfil desse grande Patriarca.

Didácio Coelho dos Santos nasceu no Riachão, a 09.01.1906, filho de Felipe José dos Santos e Ignácia Coelho dos Santos, sendo seus avós paternos Félix José dos Santos e Francisca Ribeiro dos Santos, e maternos, Cosme Coelho de Sousa e Emília de Araújo Coelho.

Fez o Curso Primário em sua terra natal, o Curso Preparatório no Instituto Viveiros, em São Luís, ingressando, em seguida, na antiga Escola de Farmácia e Odontologia do Maranhão, na qual se diplomou Farmacêutico a 9.11.1929.

Ao lado de sua formação universitária, Didácio Coelho dos Santos respirava Política dia e noite.

Na Capital, trabalhou como funcionário da Secretaria de Justiça do Maranhão sendo, posteriormente, designado para compor a Comissão Reorganizadora da Biblioteca Pública do Estado.

Em 1929, abraçou também a atividade partidária, na campanha da aliança Liberal a favor das candidaturas de Getúlio Vargas e João Pessoa para Presidente e Vice-Presidente da República.

No início de 1930, fixou residência definitiva em Balsas, onde inaugurou a Farmácia Santos, numa época em que Balsas não dispunha de um médico sequer, tornando-se ele uma das pessoas mais queridas e influentes da cidade que escolhera para viver.

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Dona Milu: imagem de 1991

No dia 08.03.1930, casou-se com Emiliana Fonseca Santos, a Dona Milu, natural da Vila de Grajaú (MA), nascida a 09.04.1910 e filha do Coronel Antônio Fonseca Santos e Genuveva Solino da Fonseca.

No ano de 1931, o Interventor Paulo Ramos nomeou-o Prefeito de Balsas, cargo no qual permaneceu até 1945, ano em que conquistou, pelo voto direto, seu primeiro mandato de Deputado Estadual, reelegendo-se para mais três Legislaturas.

Na Política, o Doutor Didácio foi um vitorioso. Abraçando-a após a obsolescência dos regimes dos coronéis, jamais perdeu uma eleição em que foi candidato, tornando-se o grande chefe político de Balsas, acatado tanto pelos correligionários, quanto pelos adversários.

Assim é que, em 1965, novamente pelo voto direto, se elegeu Prefeito, como dito acima, realizando a maior festa de todos os tempos em Balsas, qual seja a comemoração de seu Cinquentenário, quando milhares de balsenses residentes em outras cidades compareceram para rever seu berço e seu povo.

Em cidade pequena como a nossa, era muito natural que as famílias se entrelaçassem por meio de liames diversos. Assim aconteceu com a minha: o Doutor Didácio foi meu Padrinho de Batismo, por procuração; Dona Milu era Madrinha de Crisma de Maria Alice, minha irmã; e uma das filhas do casal contraiu matrimônio com um de meus primos.

Dona Milu formou com o Doutor Didácio um casal perfeito e exemplar para todas as famílias balsenses. Ela, sem descuidar da educação esmerada que deu a todos os filhos, era o braço direito na farmácia, onde desempenhava a delicada tarefa de manipulação de receitas. A seguir, cena tomada na Farmácia Santos, em 1987, com Doutor Didácio já afastado das lides legislativas:

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Doutor Didácio e Dona Milu: Farmácia Santos em dia comum

Depois que meu Tio Cazuza faleceu, a casa do Doutor Didácio passou a se constituir num endereço certo para nossas festas, sempre franqueada aos pedidos da juventude. Aliás, nesse aspecto, devo igualmente mencionar também as residências de Seu Augusto Pires e Seu Gesner Soares. Esses três chefes de família jamais disseram não a nossas solicitações.

O Doutor Didácio e Dona Milu tiveram sete filhos, constituindo admirável prole, hoje configurada em numerosos descendentes que sempre honram a história de seus ancestrais e têm nossa Balsas Querida como ponto de referência em suas vidas.

No dia 20 de julho de 1991, nossa família comemorou o Centenário de Rosa Ribeiro, meu pai, ocorrido a 17 de fevereiro daquele ano, com Missa na Igreja Matriz, à qual o Doutor Didácio e Dona Milu compareceram. Foi a última vez que o vi. Dez dias após, a 30.07, ele viria a falecer, vítima de enfarte do miocárdio. Sete anos depois, a 26.07.1998, faleceria Dona Milu.

O Doutor Didácio foi o Farmacêutico que por mais tempo desenvolveu sua atividade no Brasil, pois a Farmácia Santos permaneceu sob sua direção por 61 anos, período que vai de 1930 ano da fundação, a 1991, quando ele deixou a vida terrena.

Eis a Casa! Eis o Patriarca! Eis sua descendência! Traduzindo a opinião que tenho sobre esse grande homem público, maior vulto político balsense de todos os tempos, externarei em seletos adjetivos os predicados inerentes a sua personalidade: honrado, calmo, honesto, inteligente, erudito, simpático, eficiente, bem-humorado, elegante, compreensivo, complacente, pacificador!

RECEITA PARA EMAGRECER

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O Gordo e o Magro: sucesso no cinema

Atividade! Atividade Sempre! Este foi o lema que me foi transmitido pelo saudoso amigo cearense Deputado Januário Feitosa: – Meu caro, não deixo passar em branco o tempo que Deus está me concedendo!

Seguindo sua trilha, desde 26.02.1991, quando fui aposentado, ingressei em nova etapa de minha vida, para a qual há muito tempo eu viera me preparando, qual seja, organizar meu acervo fonográfico e escrever sobre toda a experiência alcançada até ali. Dez anos depois, atendendo a imposição médica, passei a malhar em academia, três vezes por semana, nas tardes das segundas, quartas e sextas-feiras. Mesmo assim, ainda me sobrava tempo ocioso, o que passei a preencher com pescarias, nas tardes das terças, quintas e sábados.

Diferentemente da maioria dos pescadores aposentados, que fazem expedições homéricas para locais extremamente piscosos como a Serra da Mesa e o Araguaia, mas retornam com peixes todos carimbados com códigos de barras, minhas pescarias eram aqui mesmo pertinho de casa, na ASBAC – Associação dos Servidores do Banco Central, a cujo quadro social pertenço, mercê de afinidade com um funcionário daquela estatal.

Localizada às margens do Lago Paranoá, cuja população de peixes cada vez aumenta mais, sua ribanceira é apropriada para a diversão pesqueira. Os peixes mais comuns pegados ali são a tilápia, a carpa e o tucunaré, este exigindo técnica especial para capturá-los. Com isca, usam-se carne, minhocas, angu de farinha, miolo de pão, piabas e, a mais apreciada, o boró, tipo de larva encontrada nas casas especializadas, vendidas como ração para aves.

O equipamento mais usado é simples: vara de mão e molinete. Em meu caso particular, empregava, na vara de mão, linha de cinco metros, com três anzóis encastoados, o que possibilitava pegar até três tilápias de cada vez, em dia de fartura. E também alguns molinetes com linha de cerca de 30 metros, que deixava fincados na espera.

A história que lhes vou contar, por ser conversa de pescador, poderia merecer até 90% de desconto. Eu digo poderia, porque é verídica, passada diante de testemunhas oculares, amigos que a presenciaram quando aconteceu: Hipérides Leandro Farias, Henry Cooper da Rocha e Luciana, sua mulher, falecido Hernandes Grillo, o Azulinho, e outros.

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ASBAC – Vistas aéreas

Praticamente dentro da selva de pedra, como se pode ver nas fotos acima, e pegando peixe adoidado, era muito difícil para nós apreciarmos as maravilhas que a Natureza realizava em nosso derredor, principalmente com diversos pescadores zoológicos que lá se esforçavam na luta pela sobrevivência, ao contrário de nos outros, que o fazíamos apenas por farra, por diversão, para matar o tempo. Tanto que, em meu caso, os pescados eram distribuídos com as costureiras, cabeleireiras e manicures de minha Quadra, jamais os levando para casa. Até que um dia!

É meu costume, desde os tempos de menino, ao recolher qualquer linha para trocar a isca, dar uma ferra – puxão firme –, na esperança de surpreender algum peixe comendo de furto ou dando sopa no trajeto do anzol. Certo dia, ao recolher um molinete e executar a ferra, senti a barra pesar no fundo do lago. Cada vez eu girava a roldana, mais a presa se debatia. Os colegas ali por perto deixaram suas varas de lado para apreciar o tamanho peixe. Mas, oh! decepção!: tratava-se apenas de um pato! Depois de libertado, ele bateu asas e voltou para sua vidinha.

E foi quando passamos a dar atenção aos fenômenos naturais desencadeando-se a olhos vistos, sem que os percebêssemos. Os companheiros alados que exerciam os meios de prover sua subsistência, sem que até então os notássemos, eram de várias espécies: martins-pescadores, socós, garças, marrecos, gansos, patos pescadores, estes objeto de nossa observação mais acurada a partir de então.

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Socó abicanhando a presa na vertical

O pato pescador, em bandos, passa o dia inteirinho na faina de conseguir alimento, afastados uns 20 metros ou mais da margem do lago. Cada mergulho dura, no máximo 25 segundos. Quando consegue abicanhar a presa, na horizontal, leva-a para a superfície, a fim de degluti-la, conforme já explanei aqui, dia 19.08.13, no episódio O Socó e o Muçum – Lenda Balsense, como visto na figura acima.

Em seguida, o pato maneja para abicanhá-la pela cabeça, nesta conformidade:

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Pato pescador no segundo passo do manejo

Isso feito, joga -a para cima de forma que ela lhe caia de ponta-cabeça diretamente na goela. Tudo muito rápido pois, do contrário, vem uma garça e lhe arrebata o pitéu. Caso isso não ocorra, e com a presa no bucho, ele volta a mergulhar, caçando como se morto de fome estivesse.

O aguapé é uma planta aquática flutuante cultivada no Lago Paranoá para combater a poluição. Como emigra de um lado para o outro, formando imensas ilhas vegetais, ao sabor do vento, às vezes chega determinar que se suspendam as atividades, quando aportam na área de um pesqueiro.

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Aguapés: a saúde do Lago Paranoá

Pois foi uma dessas ilhas que, em bela tarde ensolarada, vimos aproximar-se de nós. Alguém gritou: – Tem um pato se afogando naqueles aguapés!

Na verdade, dava para se ver o coitado do pato semimergulhado, com cabeça enganchada numa touceira, e o bumbum a agitar-se ao vento.

Outro costume que trago desde menino é o de mergulhar para desenganchar meus anzóis, quando preciso, com peixe ou não. Por isso, sempre estou vestido de sunga, e naquele dia não foi diferente. Sem pestanejar, caí n’água, nadei até os aguapés, resgatei o pato e arremessei-o na ribanceira, julgando morto, eis que, àquela altura, completamente inerte.

Imediatamente o Rocha – Henry Cooper – falou: – Vou levar ele para casa e fazer um bom guisado!

Eu até quis argumentar dizendo: – Porra, cara, esse pato só tem pena e osso, você já pegou duas carpas enormes hoje, será que vale que compensa perder tempo em cozinhá-lo?

Mas o Rocha fincou pé, e aí eu resolvi pesar o bicho com nossa balança de mola: um quilo e trezentos gramas! Só! Isso com as penas molhadas!

Irredutível, o Rocha arranjou uma cordinha e amarrou o cadáver do pato num pé de pau, temendo que alguém o carregasse, e se retirou para bem longe, no rumo do Píer 21, onde sempre pega grandes peixes, não sei com qual feitiço.

E nós, os colegas de pescaria, continuamos em nossa rotina de sempre. Passada uma boa hora, escutamos, repentinamente, um qüém-qüém!

Olhamos para onde vinha a zoada, e vimos o pato amarrado ciscando de um lado para outro, agitando as asas, debatendo-se para se libertar. Gritamos o Rocha, que veio na carreira. Aí, diante da surpresa de todos, baixou em mim o espírito de um de meus alter egos, o Doutor Mundico Trazendowski, quando usei da palavra:

- Amigo Rocha, a coisa agora mudou de figura. Eu salvei o pato do afogamento, julgava-o falecido, mas agora, diante de sua ressurreição, avoco para mim o direito de libertá-lo.

A nobreza de minha proposição foi aceita pelo Rocha, por Luciana, sua Mulher, pelo Hipérides, pelo Azulinho e outros ali presentes. Cumprindo o deliberado, o Rocha desamarrou o prisioneiro que, gritando qüém-qüem, saiu voando, dirigindo-se para a mesma área de onde fora resgatado, agora sem aguapés, e continuou na mesma vidinha, mergulhando e caçando, completamente esquecido da arriscosa aventura que acabara de protagonizar.

O tempo passa, o tempo voa, mas nossa requintada gastronomia está sempre numa boa! Um dia, aqui em casa, resolvemos convidar parentes e amigos para comer um pato no tucupi. Ficou a meu cargo a tarefa de comprar a ave.

Lá no Carrefour, deveras foi meu espanto ao conferir o tamanho dos patos à venda. O menor que encontrei, já depenado, pesava 2 quilos e quinhentos gramas.

Lembrei-me, então, do pato pescador de outrora, de como ele, alimentando-se somente de peixe, era magro, lépido e faceiro, voando como qualquer passarinho, diferentemente do pato de granja, criado com ração balanceada e, por isso mesmo, pesadão preguiçoso, incapaz de conseguir, por si, o próprio alimento, pregado ao chão, aguardando apenas a hora de servir de repasto em banquetes, tipo o que estávamos planejando.

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Pato pescador e pato de granja: trabalho versus doce vida

Concluindo, aí vai meu conselho, justificativo do título desta matéria:

- Comam peixe! Peixe não engorda!

E, como exemplo de persistência, de força de vontade, apresento-lhes uma jovem assaz vencedora que, em 1975, conseguiu seu intento de emagrecer, não sei se com a dieta do pato, mas com muita determinação:

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Ludmilla Amaral: 20 quilos a menos, com dieta e exercícios físicos

DELEGADO NO ARRAIAL

VitalRecor/2013

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Aconteceu na Academia VitalRecor, em Brasília, DF, especializada em reabilitação cardíaca e qualidade de vida para os terceiridosos, onde dou um duro lascado para manter-me nesta linda forma que vocês estão cansos de elogiar e de também invejar, em cujo Arraial sou Delegado Vitalício.

A organização do Arraial ficou a cargo da Doutora Cristina Calegaro cada vez mais brejeira do que nunca, Presidente do CREFI, proprietária da Academia e Santa Protetora nossa aqui na Terra. No Céu, é Nossa Senhora Aparecida.

Este ano, houve duas novidades. A primeira, minha nova espingarda, linda e artisticamente confeccionada pelo casal de amigos Jorge e Mércia. A segunda, as porradas que o noivo levou na cara com um buquê de plástico, quando a noiva, já embuchada, descobriu que ele é o maior raparigueiro da paróquia. O cabra apanhou que nem galinha pra largar do chôco.

Não vou lhes tomar o tempo descrevendo uma festa junina. Todos vocês sabem muito bem como transcorre ela, em seus mínimos pormenores. As imagens abaixo darão a exata noção do desenrolar dos acontecimentos.

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A Rainha do Arraial e suas Princesas

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As Autoridades Eclesiásticas do Arraial

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Entrada das Daminhas

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O Delegado e sua nova espingarda

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O SOCÓ E O MUÇUM – LENDA BALSENSE

O Correio Braziliense, maior jornal da Capital da República, estampou, no domingo passado, dia 11.08.13, esta matéria:

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Diante desse combate renhido que o Ministro Joaquim Barbosa, nosso herói, vem travando contra a corrupção, e das chicanas que se antepõem à vitória da Justiça, veio-me à lembrança a época de minha venturosa infância em Balsas, sertão sul-maranhense.

Era no tempo do Rei, da Rainha, da Feiticeira, do Príncipe, da Princesa, da Fada-madrinha, do Lobisomem, do Cabeça de Cuia, do Vaqueiro, do Cantador, da Bruxa, da História de trancoso e da carochinha, do Mundo Encantado que povoava nossa imaginação infantil, no qual éramos introduzidos pela tradição oral do Velho Sinésio.

Em Balsas, onde não havia cinema e só duas ou três casas possuíam aparelhos de rádio, o Velho Sinésio exercia a mais bela profissão que conheci desde que me entendo por gente, a de contador de história, praticada de porta em porta, a chamado dos respectivos pais de família, ocasião em que toda a meninada da vizinhança ali se ajuntava para ouvi-lo. A televisão ainda não fora inventada.

Eu e meus irmãos mais velhos tivemos a sorte participar dessa maravilhada plateia. Na esquina de nossa casa, no meio da rua, havia frondoso pé de manga, embaixo do qual, à boca da noite, acendíamos uma fogueira, sentávamo-nos e éramos transportados para o mundo fantástico do Velho Sinésio, sempre que papai, Seu Rosa Ribeiro, o contratava.

Seu repertório abrangia, não só as tradicionais histórias infantis, como também as lendas simples do sertão, quando ele abusava de sua capacidade criativa para contar-nos algumas com personagens por todos nós conhecidas, muitas delas inventadas, como esta do Socó e do Muçum. Para auxiliar a compreensão dos leitores, vou definir cada um dos personagens.

Socó – Design. comum a várias aves ciconiiformes, ger. paludícolas, da fam. dos ardeídeos, esp. dos gên. Tigrisoma, Butorides e Botaurus, de ampla distribuição, hábitos diurnos, crepusculares ou noturnos, sendo encontradas isoladas ou aos pares. Entenderam? Não? Nem eu. Por isso, aí vai a imagem:

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 Socó abicanhando a presa

O socó, o martim-pescador e outros pássaros piscívoros têm um especial manejo para engolir a presa, verdadeiro malabarismo. Pescam-na como visto na figura acima. Em seguida, jogam-na para o alto, fazendo com que ela lhe caia de ponta-cabeça diretamente na goela. Jamais a engolem pelo rabo, pois até os bichos sabem que quem engole pelo rabo, enrabado será.

Muçum – Peixe teleósteo simbranquiforme, da fam. dos simbranquídeos (Synbranchus marmoratus), encontrado em rios, lagos e açudes da América do Sul; é desprovido de escamas, nadadeiras pares e bexiga natatória; a pele, amarelada nos adultos, secreta grande quantidade de muco. Em períodos de seca, vive durante meses enterrado em túneis; possui capacidade de sofrer reversão sexual. Não entenderam? De novo? Empataram comigo. Eis a figura:

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 Muçum presepeiro

O muçum é o maior bagunçador de um pesqueiro. Além de não ser comestível, o fisgado enrola-se na linha, embaraçando-a toda. Isso dentro d’água. Fora, dana-se a pular e enrodilhar-se, dando o maior trabalho para tirar-lhe o anzol da boca, visto que é mais liso do que quiabo ensaboado e não morre com porrada. Para matá-lo, só mesmo com fogo. É o peixe mais resistente de todos o que já pesquei.

Isto feito, passemos à lenda contada pelo Velho Sinésio.

Na Lagoa do Maravilha, distante uma légua de Balsas, um socó tentava capturar seu almoço, mas os peixes andavam vasqueiros, não aparecia umzinho para matar-lhe a fome, até que ele viu um muçum dando sopa ali perto. Já quase morto de fome, pensou: – Vai esse mesmo! E engoliu o muça. Pela cabeça, é claro, que ele não era besta de correr o risco acima referido.

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O socó deglutindo seu repasto

Acontece que o muçum, esperto pra caramba, não se deu por vencido: entrou pelo bico e saiu pelo fiofó. O socó, ao vê-lo dando sopa, e pensando que se tratasse de outro indivíduo muçunático, engoliu-o novamente. E outra vez o muçum saiu-lhe pelo furico. A operação ficou a repetir-se indefinidamente, isso porque socó, por nunca encher a barriga, continuava com mesma fome lascada que o trouxera à lagoa.

Depois de umas horas, vendo tanta fartura, o socó deteve-se um pouquinho em sua comelança e exclamou?

- Eita lagoa da peste para ter muçum que não acaba mais! Tô feito!

Resumo da ópera: adaptando-se a lenda para os tempos atuais, a socó seria a Justiça, e o muçum, os embargos infringentes, declaratórios, procrastinatórios, chicanatórios, eternizatórios, etc. e coisa e tal.

GABY DE SABOYA, SANGUE BALSENSE NO TEATRO BRASILEIRO

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A atriz à direita é Gaby de Saboya, neta de minha Tia Alice, estrelando, juntamente com Marcelle Sampaio, a peça Musas, em excursão por todo o Brasil. A montagem promove um encontro ficcional entre a pintora Frida Kahlo e a poetisa Sylvia Plath, papel desempenhado por Gaby.

A trupe tem agenda lotada, com apresentações em Brasília, nos dias 9, 10 e 11 de agosto, no Teatro Brasil 21; em Salvador, nos dias 16 e 17, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho; e em Goiânia, nos dias 7 e 8 de setembro, no Teatro Sesi, dentre outros compromissos.

“A pintora mexicana Frida Kahlo (1907/1954) viveu num país quente. Sua tragédia pessoal sempre foi com a parte sul de seu corpo: além da poliomielite na infância, que a deixou manca, sofreu grave acidente, que a obrigou a ficar acamada boa parte de sua vida. Usando colete para a coluna, teve amputados uma perna e dedos dos pés. Foi casada com Diego Rivera, que já era um pintor reconhecido, por quem foi traída muitas vezes, inclusive com própria irmã. Nunca conseguiu ter filhos. Adorava fotografia, era incomparável na maneira de se trajar, pintava para expressar sua dor e sua visão do mundo e, nas horas vagas, escrevia em seus diários. Apesar de todos os reveses, Frida pulsava vida, era generosa, exuberante, sensual, combateu as traições do marido e teve vários amantes, homens e mulheres. Os espelhos ajudaram-na a afirmar sua autoestima. Faleceu precocemente, aos 47 sete anos de idade.

“A poetisa norte-americana Sylvia Plath (1932/1963) viveu em regiões frias. Seu drama sempre foi com a parte norte de seu corpo. As crises de sanidade levaram-na aos eletrochoques e aos calmantes. Tinha obsessão pela figura masculina, primeiro o pai, depois o marido. Casada com Ted Hughes, escritor renomado, foi traída por ele, ao que se sabe com uma única mulher, adultério e ausência que não suportou, suicidando-se por asfixia, ao colocar a cabeça dentro do forno a gás, isso aos 30 anos, em plena mocidade. Teve dois filhos, mas a maternidade não lhe deu força suficiente para evitar esse ato, deixando-os órfãos, ainda crianças. Odiava ser fotografada, era discreta, introspectiva, tendendo à depressão. Pouco confiante, escrevia para expressar-se e manter-se viva. Nas horas vagas, fazia desenhos em seus cadernos. Era frágil como cristal e viveu num a redoma de vidro. Sua obsessão era a morte.

“Uma pintora mexicana e uma poetisa norte-americana, que nunca se encontraram na vida, dividem a cena de Musas, de Nestor Caballero. A peça desse venezuelano, inédita no Brasil, não é biográfica, não relata detalhadamente fatos da vida das duas artistas, mas oferece um mosaico de sensações, perdas, desejos, sinais de desespero, encontros surreais, breves momentos de felicidade.

“Inicialmente, perguntamo-nos que semelhanças ligaram essas duas mulheres, aparentemente tão distintas, para que o autor as reunisse no palco. Ambas foram casadas com intelectuais expressivos, ambas foram traídas, ambas tiveram uma vida conturbada, mas a maneira como lidaram com seus dramas pessoais parece quase divergente. Talvez estivesse aí a chave para compreensão do autor.

“O título que Caballero dá a sua peça é revelador: por que duas artistas tão expressivas, confessionais, contundentes, com traços tão pessoais, são chamadas de Musas? Há nessa qualificação referência ao fato de elas terem vivido ofuscadas pelo marido? Faz parte de um mundo machista e misógino restringir a função de ‘musa inspiradora’ à mulher?

“Elas foram musas, tanto para Diego Rivera e Ted Hughes, quanto para diversos outros artistas e admiradores. Mas foram, também, mais que musas. Ser musa é uma função menor? Quem nos pode afirmar que já serviu de inspiração para a arte ou a vida de alguém? Como transfiguramos o que recebemos? Por quanto tempo conseguimos manter-nos de pé e com a cabeça erguida?

“A montagem da peça é dedicada a todos os que honraram a terra em que pisaram e que renovaram o mundo com suas maravilhosas cabeças.” (Texto extraído do prospecto da peça)

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Marcelle Sampaio e Gaby Saboya: em cena

Falemos agora do sangue balsense abrilhantando o Teatro Brasileiro. Depois da sobrinha Mônica Silva, neta de minha irmã Maria Isaura, aqui retratada no dia 09.01.11, sob o título “Mônica Silva, Sangue Balsense na Patinação Mundial”, mostrando sua trajetória nas pistas do Holiday on Ice e da Disney on Ice, ora é a vez dessa outra, a Gaby, extasiar o Brasil e, praza a Deus, o Exterior com sua dramaturgia. O que vem a justificar plenamente o título de meu penúltimo livro: De Balsas para o Mundo.

Alice Albuquerque Bezerra, a Tia Alice, irmã de minha mãe, Maria Bezerra, nasceu em Balsas, no ano de 1907, coincidentemente o mesmo de Frida Kahlo. Era filha de José Bezerra de Farias e Ana de Albuquerque Bezerra. Em 1917, a família mudou-se para Goiás Velho, ficando em Balsas apenas minha mãe, que já estava de casamento engrenado com meu pai, Seu Rosa Ribeiro.

Em Goiás velho, Tia Alice casou-se com José Garibaldi Fonseca, com quem teve cinco filhos, sendo três rapazes e duas moças, uma das quais, a Maria Alice, veio a casar-se com José Luiz Saboya. Estes dois, residentes no Rio de Janeiro, são pais da talentosa Gaby, atriz que infla de orgulho o peito de todo o clã Albuquerque.    Você, meu querido leitor, que me acompanhou nestas maltraçadas linhas até aqui, é um privilegiado: quando o espetáculo passar em sua cidade, já ira sabendo de tudo sobre a personalidade das musas nele homenageadas.

Sábado, dia 10, eu estive lá, não só para conferir, como também abraçar a Gaby, sobrinha que não via há uns dez anos.

Não sendo crítico especializado, mas apenas curtidor da arte teatral, ouso externar meu parecer sobre a apresentação a que assisti. A parte técnica deixou um pouco a desejar. Acho que deveria haver microfones individuais, para que as atrizes fossem mais bem ouvidas por toda a plateia. Quanto ao desempenho das duas e ao valor da peça, em escala um a dez, minha nota é: dez! Nota dez!

Como testemunha ocular da história, eis minha participação na trama:

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NOSSA SENHORA DO COCO DA APARECIDA, SEU FESTEJO E SEU HINO

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Imagem entronizada no Santuário

Loreto é tranquila, simpática e acolhedora cidade do sertão sul-maranhense, localizada à margem esquerda do Rio Balsas, a 720 km de São Luís, a capital, com população urbana em torno de 7.500 habitantes. Sendo a terra natal de Dona Maria Bezerra, minha saudosa santa mãezinha, considero-a uma extensão de Balsas.

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Paisagens de Loreto: Igreja Matriz e detalhe do Balneário Santa Fé

Na história de sua fundação, há registro de disputa entre o Padre Lopes, que desejava a localização às margens do Rio Balsas, com navegação até o Oceano Atlântico, e a família Pereira, vencedora, que iniciou a construção das casas às margens do Riacho Teles, distante 3 km do rio. Afastado da única via de transporte e de escoamento da produção, só o marasmo poderia sobrevir-lhe. Loreto foi elevada a cidade no dia 29 de março de 1938, mas, com o passar dos anos, decresceu de importância, eis que isolada de outras artérias principais de comunicação com a capital e com os demais municípios em derredor.

Hoje, com o crescimento horizontal das edificações urbanas, a cidade alcançou as margens rio, onde se localiza o bairro Balneário Santa Fé e onde foi construída um ponte suspensa de madeira, para pedestres, e instalado um pontão, para passagem de veículos automotores.

A atração maior do município é o tradicional Festejo de Nossa Senhora, de 6 a 15 de agosto, na localidade denominada Coco da Aparecida, à margem direita do Rio Balsas, mata adentro, distante 73 km da sede e 14 km da cidade piauiense de Ribeiro Gonçalves. Depois de Festejo balsense de Santo Antônio, é a maior atração religiosa daquele sertão.

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Detalhes do Santuário do Coco da Aparecida

Durante sua realização, acorrem para o Coco romeiros, não só das cidades próximas, como também de todo o país. Cerca de 15 mil pessoas fazem com que a população flutuante do arraial seja o dobro da urbana loretense.

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Coco da Aparecida: detalhes da romaria

Há um esquema itinerante composto de camelôs, marreteiros, vendedores de bijuterias, quinquilharias, discos e aparelhos eletrônicos de toda a espécie, que se desloca da Bahia, passando por todas as festas religiosas sertanejas e atingindo até as comunidades paraenses. Tal esquema está presente, com toda sua pujança, no Festejo do Coco da Aparecida, dando-lhe colorido especial.   

Como em todo o Interior Nordestino, a Alvorada marca o início do Festejo, seguindo-se Missas matinais, Terço nas novenas, retretas e Procissão no último dia. A Quermesse completa o cenário, com barraquinhas a cargo dos habitantes do lugar, nas quais não faltam as comidas típicas da terra, bebidas e a animação por conta dos trios nordestinos e bandas que para ali se dirigem em busca do garantido faturamento.

A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, editada pelo IBGE, informa-nos que, em passado remoto, o ponto pitoresco dos festejos loretenses constituía-se nas danças ao ar livre, ao som de sanfona e outros instrumentos, assim descritas: “um dos cavalheiros saca de sua arma, dando vários tiros para cima, provocando, desse modo, um tiroteio entre os próprios dançantes, de vez que estes acompanham a atitude do primeiro. Com todo esse movimento, os festejos prosseguem normalmente, ficando eles com uma das mãos sobre o ombro das damas, enquanto a outra permanece com a arma.”

A história da devoção é narrada por tradição oral. Os moradores antigos do Arraial do Coco contam que, há mais de 200 anos, num dia 15 de agosto, a imagem de Nossa Senhora apareceu ali para duas meninas, no meio de uma rocha, lugar onde foi construída uma capela. As meninas videntes, ao falecerem, foram sepultadas ao pé da escadaria do santuário. Romeiros que participam dos Festejos ou em caravanas de devotos garantem que vários milagres já foram realizados pela Santa, que ficou conhecida como Nossa Senhora do Coco de Aparecida

A partir de 1992, após a chegada do Padre Ugo Montagner – pároco de Loreto até pouco tempo e do Coco da Aparecida até hoje -, a festa ficou melhor organizada, com a construção de uma capelinha em forma de asa delta, conforme se vê nas fotos acima, e com a chegada de água encanada e luz elétrica à região.

Meu amigo Dom Enemésio Lazzaris, Bispo Diocesano de Balsas, a quem está subordinada a Paróquia de Loreto, acha que é preciso fazer-se um projeto para expandir a romaria, visando, em primeiro lugar, a preservação do meio ambiente. Devido à ausência de moradias em volta da capela, os romeiros improvisam acampamentos, devastando a área. Nas proximidades do local, chama a atenção um grande desmatamento provocado por várias carvoarias.

Acredita o Bispo que, por seu tamanho e importância, o Governo do Estado deveria apoiar a festa e colocá-la no calendário turístico do Maranhão. A esse respeito, o Padre Ugo Montagner já fez várias solicitações aos governantes maranhense, não obtendo resposta alguma.

É do Padre Ugo Montagner a inspirada Oração de Nossa Senhora do Coco da Aparecida, que adiante transcrevo:

“Mãe querida, Nossa Senhora do Coco da Aparecida, como é bom estar aqui junto a teus pés, te louvando, te agradecendo, te amando, te implorando, pedindo tua proteção, tua graça, tua misericórdia, teu perdão, tua bondade, teu amor, tua paz, tua justiça, tua bênção, tua mão eterna, para encontrar a eterna felicidade junto com teu filho Jesus. Amém!”

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Padre Ugo Montagner com catequizandos de Loreto

A seguir, o Hino de Nossa Senhora do Coco da Aparecida, composição do Padre Ugo Montagner e partitura da Professora Silvana Teixeira, de Brasília:

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Desejando, de todo o coração, que Loreto, agora ligada por asfalto às principais rodovias brasileiras, venha a conhecer o progresso e a prosperidade, anseio de toda aquela boa gente loretense, disponibilizo-lhes este vídeo com o bonito Hino, na voz de Mário Cardoso, artista de nosso sertão:

BOM JESUS DA LAPA, SEU FESTEJO BALSENSE E SEU HINO

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Atual imagem de Bom Jesus da Lapa

Quando saí de Balsas para estudar e conquistar o Mundo, em fevereiro de 1949, a cidade, com população em torno de 3.500 habitantes, era bem provida de 3 templos católicos. No centro, a Igreja Matriz de Santo Antônio, cuja festa se encontra narrada em meu último livro, De Balsas Para o Mundo, no episódio Moreninha, a Rainha Santa do Festejo; ao norte, na hoje Praça Dr. Roosevelt Kury, a Igreja de São Sebastião, de cujo Festejo já lhes falei; e, ao sul, a Capela de Bom Jesus da Lapa, localizada na esquina das hoje Ruas Bom Jesus e Edísio Silva, tema central deste episódio que ora lhes escrevo.

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Capela de Bom Jesus da Lapa, depois da reconstrução

A Capela fora erigida por dona Inês Maria de Jesus, Sua fervorosa devota, mulher de Severino Lira, no grande quintal de sua casa. Dona Inês era proprietária de sortida quitanda, com os rendimentos da qual mantinha a Capela, contando também com o apurado no Festejo, que ia de 28 de julho a 6 de agosto.

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Dona Inês Maria de Jesus

A festa transcorria em ambiente genuinamente sertanejo, à noite, quando se rezavam o Terço, benditos e ladainhas, e se cantavam hinos sacros, sendo o mais importante deles o Hino de Bom Jesus da Lapa, de autor desconhecido, cuja letra e melodia me foram resgatadas pelas devotas Ana Lúcia Leite Castro e Maria de Jesus Pereira Reis, como adiante se vê, com partitura elaborada pela Professora Silvana Teixeira, daqui de Brasília:

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Cantava-se também o Ofício de Nossa Senhora. Lembro-me ainda da voz que mais se destacava, a de Dona Josefa da Berada, ao entoar: “…Agora, lábios meus, dizei e anunciai/Os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus…”

Na frente da Capela, eram vendidas comidas típicas, tais como maria-isabel, frito de galinha ou carne de porco, panelada, rabada, chambaril, farofa de torresmo, café, beiju, bolo de arroz, cacete, rosca, peta, brevidade, bolo de puba, orelha-de-macaco, rapadura batida, alfenins, tijolos de laranja e mamão e outras iguarias, além de um tipo de bebida que eu só conheci naquele Festejo: a gengibirra, feita de frutos fermentados. Em pequenas bancas eram vendidas bebidas quentes, não faltando o conhaque e uma boa cachacinha. Tudo iluminado a lamparina de um, dois e até três bicos.

Quando falo sobre essa festa para meus contemporâneos, todos se lembram imediatamente dos suspiros – chamado merengues em outras paragens – feitos por Dona Inês, acondicionados em artísticos invólucros recortados de papel de seda e vendidos pelo Zé da Inês, um de seus filhos de criação, mulato também conhecido por Zé Quebra-coco, irmão do Pedro, criado pelo Odilon Botelho. Esse apelido, segundo dizem, devia-se à perícia e prática com que o Zé rachava um coco-da-baía utilizando-se apenas de cabeçadas.

Todas as noites, havia leilão, com joias ofertadas por pessoas das redondezas: capões cheios, leitoas assadas, bolos diversos, doces em compota e em pasta, e até produtos artesanais ou manufaturados. Luz elétrica não havia. A mesa do leilão e seu derredor eram iluminadas por petromax, tipo de candeeiro possante, a querosene e camisa, esta fazendo as vezes de lâmpada.

A parte musical ficava a cargo de Mestre Pedro Novais – o Pedro Rabequeiro – na rabeca, Velho Cego no bombo e Domingos Bolor no reco-reco. Às vezes, apareciam por lá o Olavo e o Velho, pai do Mestre Riba, ambos com seus foles de oito baixos.

Domingos Bolor era outro filho de criação de Dona Inês. Sarará invocado, gostava de fazer ginásticas e acrobacias dependurando-se nos galhos dos pés de pau. Um dia, incorporou-se a pequeno circo que passou em Balsas, como trapezista e ajudante de palhaço, e nunca mais dele se teve notícia.

A Procissão, no último dia do Festejo, era somente em volta do quarteirão da Capela. Missa? Nem pensar! Padre Clóvis, vigário da freguesia, não celebrava ali, devido a Dona Inês e Seu Severino serem casados apenas civilmente. No início dos Anos 1950, com a vinda dos Missionários Combonianos para Balsas, essa restrição se acabou, e até a Capela foi reconstruída e ampliada, como na foto se vê na foto acima. Nessa reconstrução, muito valeram os esforços de Dona Perolina Coelho, de sua filha Socorrinha e de meu Primo João Ribeiro, de quem adiante falarei.

Delzenir Cavalcante, também filha de criação de Dona Inês, gentilmente me forneceu as duas fotos de sua mãe que ilustram este episódio. Disse-me que ela, contando os de pouca e os de longa duração, criou mais de 20 filhos.

Para demonstrar a força da devoção de Dona Inês a Bom Jesus da Lapa, quero contar-lhes importante fato ocorrido em minha família.

Meu avô, o Capitão Pedro José da Silva, nasceu com um pé torto, e essa herança genética se transmitiu para alguns netos e até bisnetos. Meu primo João Ribeiro da Silva Sobrinho – o João Ribeiro –, filho do meu Tio Cazuza e Madrinha Ritinha, por exemplo, nasceu com os dois pés tortos. Dona Inês, muito apegada a ele, era sua Madrinha de Batismo por procuração. A titular era sua tia, Lourdes Pereira. João Ribeiro considerava a duas como Madrinhas, sem distinção, mas nutria por Dona Inês um amor quase filial.

Naquele longínquo sertão, sem médico ou recurso algum no âmbito da Ortopedia, meus tios envidaram todos os esforços e recursos para que o menino se visse curado da citada anomalia. Praticamente, toda a semana era confeccionado um novo par de sapatos, por sapateiros dali mesmo, na esperança de, aos poucos, corrigir a imperfeição.

Muitas promessas foram feitas, como uma viagem a pé à cidade de Riachão, distante 72 quilômetros, em comitiva que contou com a participação de Tio Cazuza, Madrinha Ritinha, Seu Rosa Ribeiro, meu saudoso pai, e Dona Inês, que não se desgarrava do afilhado. “Faze tua parte, que eu te ajudarei”, diz a Sabedoria Popular.

Em 1942, quando João Ribeiro estava com 9 anos, Dona Inês jogou sua cartada maior. Comunicou a meus tios que fizera uma promessa para levá-lo a Bom Jesus da Lapa, na Bahia, distante 1.500 quilômetros, e solicitou-lhes permissão para que a viagem fosse feita. Nessas alturas, Dona Inês já era uma pessoa da família.

Meus tios concordaram com o pagamento da promessa e organizaram a comitiva, provida de uma tropa de cavalos e burros de carga para transporte do pessoal, redes, alimentos não perecíveis, lenha e utensílios de cozinha. Dentre as pessoas que fizeram parte dessa romaria, é lembrado Seu Francisco Oliveira, o Chico Banha que, depois de alguns dias, abandonou-a, por achar que a viagem estava muito devagar, seguindo sozinho a cavalo.

João Ribeiro viajou montado num burro. Dona Inês cumpriu todo o percurso a pé, três meses de ida e volta.

O resultado disso é que o menino ficou completamente curado. É claro que teve de usar ainda muito calçado ortopédico: “Faze tua parte…”. A graça foi alcançada!

João Ribeiro, hoje, aos 79 anos de idade, já não sofre de qualquer imperfeição nos pés, é vitorioso na vida profissional, com uma família bem constituída, cheio de filhos e netos, feliz, enfim, com as bênçãos de Deus!

A imagem de Bom Jesus da Lapa que Dona Inês segura na foto abaixo foi-lhe presenteada por meus Tios Cazuza e Madrinha Ritinha, quando tudo começou, e foi substituída há bem pouco tempo por outra maior, a que se vê acima, depois da reconstrução da Capela.

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Dona Inês com a imagem tradicional

Dona Inês nasceu em Babilônia (MA), a 7 de fevereiro de 1909, e muito cedo mudou-se para Balsas. Nem bem chegara, ao assistir a uma Missa em louvor do Padroeiro Santo Antônio, com a igreja repleta de romeiros, ambiente muito abafado e calorento, sentiu-se mal, sendo levada por Madrinha Ritinha para receber socorro em sua casa, que ficava na Praça da Matriz. Daí surgiu uma forte amizade entre as duas, no que resultou essa bonita história que acabo de contar.

A 6 de novembro de 1989, com 80 anos de idade, a maioria deles devotada ao Bom Jesus da Lapa, Dona Inês descansou em paz!

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Ana Lúcia e Maria de Jesus: resgate da letra e da melodia

No ano de 2012, contratei o Estúdio Verbo Vivo, de Brasília, para os serviços de gravação do Hino de Bom Jesus da Lapa, o que foi feito na voz das cantoras Mércia Rocha e Renata Vasconcelos.

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Mércia Rocha e Renata Vasconcelos: gravando no estúdio

De posse da melodia, foi montado um youtube, que vocês verão a seguir:

PROFESSOR LUIZ RÊGO, O PLANTADOR DE ESCOLAS

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Luiz de Moraes Rêgo

Estudei todo o Curso Primário no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo, estabelecimento público estadual, em Balsas, sertão sul-maranhense, tendo como Diretoras, primeiro, Dona Rute Rocha, a seguir Dona Laíse Freire e, depois, Maria Isaura, minha irmã; e como Preceptoras as Mestras Jesus Fonseca, Maria Alice, também minha irmã, Jesus Pires, Nazaré Borba e, por último, Hamedy Kury, concluindo, no final de 1948, o 5º Ano Primário. Estava apto a seguir meu caminho, qual seja, montar no lombo dum burro ou embarcar numa balsa, num motor, na carroceria dum caminhão e partir rumo à busca de mais saber, no intuito de conquistar o sul-maravilha, a independência financeira, do Mundo, enfim.

O Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo funcionou, desde sua fundação, até o final do ano de 1944, no prédio hoje ocupado pelo Clube Recreativo Balsense, à Praça Eloy Coelho. A foto a seguir é do início do ano de 1940, batida no patamar da Igreja Matriz:

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Nela vemos, ladeando o Corpo Discente, Dona Rute Rocha, à esquerda, e minha irmã Maria Isaura à direita, recém-formada e já lecionando no Grupo. À frente, no centro, esse menino de uniforme diferente e cabelo cacheado sou eu, Raimundo Floriano que, com menos de 4 anos, era levado para a escola apenas para comer merenda e brincar, o que resultou em minha alfabetização espontânea, muito antes das outras crianças da mesma idade..

Em 1944, o Grupo mudou-se para a Praça Getúlio Vargas, ou da Matriz, passando a ocupar um prédio especialmente construído para seu funcionamento, que hoje o progresso acabou por modificar, restando dele apenas esta foto para testemunhar seus tempos de glória:

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Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo como era em 1949

Assim como o Educandário Coelho Neto, o Luiz Rêgo também oferecia excelente qualidade de ensino e contabilizou em seu crédito a formação fundamental de alunos que saíram de Balsas para sobressaírem-se em todos os ramos de atividade profissional, dentre eles até um Presidente da República, o Zé do Sarney, como já foi dito no perfil do Professor Joca Rêgo. Alguns deles hão de se reconhecer ao ver a foto de 1940.

Mas… quem foi Luiz Rêgo? Essa é uma pergunta que se faz a qualquer balsense de hoje, e nenhum sabe responder. No intuito de preencher tão grande lacuna, resolvi registrar em livro a perfil desse grande educador.

Luiz de Moraes Rêgo nasceu no dia 28 de outubro de 1906, em São Luís, onde veio a falecer no dia 9 de janeiro de 1987, aos 80 anos de idade. Era filho de João Maia de Moraes Rêgo e de Dona Custódia Veloso de Moraes Rêgo. Durante toda sua existência, empenhou-se, primeiramente, em amealhar conhecimentos, a fortalecer-se intelectualmente, para depois dedicar todo o patrimônio de sapiência apreendido em prol da educação e da cultura do povo maranhense.

Iniciou seus estudos na Escola Modelo Benedito Leite, onde concluiu o Curso Primário, ingressando, a seguir, na Escola Normal, após o que se diplomou no Curso Superior de Farmácia, com especialização em Química. Fez Pós-Graduação em Planejamento de Administração em Educação em San Diego, Califórnia, EUA, obtendo o grau de Mestre.

Durante toda a fase estudantil, foi excelente jogador de futebol, ponta-canhota de petardos indefensáveis, podendo jogar em qualquer grande time do Brasil, atividade que abandonou ao preferir dedicar-se inteiramente ao Magistério.

Seu currículo magisterial, a que se entregou de corpo e alma em todas as horas de sua vida, é riquíssimo e intenso.

Foi Diretor da Escola Normal, de 1932 a 1936. Em 1934, fundou o Colégio de São Luiz, do qual foi Diretor até 1977, ano de sua desativação. Nele, tudo era novo e moderno: laboratórios de ciências físicas, químicas e naturais, instrumentos musicais, aparelhos de ginástica, máquinas e equipamentos para trabalhos manuais, confortável auditório com palco para teatrinho e música, e um grêmio cultural que editava jornal, realizava sessões de cinema e concursos literários.

De agosto de 1936 a março de 1945, o Maranhão conheceu o melhor governo de todos os tempos, na pessoa do Doutor Paulo Martins de Souza Ramos, nomeado Interventor pelo Presidente Getúlio Vargas. Paulo Ramos foi o Governador do Maranhão com maior número de realizações, destacando-se: criação do Banco do Estado, em 1938, como entidade proporcionadora de recursos para financiamento de projetos que se revestiram no desenvolvimento maranhense, o qual, mais tarde, sob a denominação de Banco do Estado do Maranhão, foi vendido para o Bradesco; criação do Departamento de Estradas e Rodagens, que foi extinto na Gestão Roseana Sarney; moralização administrativa, sendo o único governador, até março de 1945, que exerceu o cargo sem suspeita alguma de irregularidades, pois não constituiu fortuna duvidosa nem distribuiu favores a seus amigos, o que era comum no Maranhão naquela época; saneamento das contas públicas, eis que, ao deixar o Poder, entregou o governo para o Dr. Clodomir Cardoso, jurista, advogado e escritor, sem qualquer dívida do Estado.

Mas foi no setor da Educação que Paulo Ramos produziu sua tacada magistral: Nomeou o Professor Luiz Rêgo como Diretor de Instrução Pública do Estado. Com essa missão plenipotenciária, Luiz Rêgo empenhou-se no mister de plantar Grupos Escolares Estaduais em todas as cidades maranhenses onde elas só existiam nas esferas municipal ou particular. Assim, nasceu em Balsas aquele que, mais tarde, seria denominado Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo.

Em seu magnífico e invejável histórico de homem público, constam estes créditos: Secretário de Educação, de 1941 a 1945, e de 1971 a 1972; Presidente do Rotary Clube de São Luís, de 1940 a 1941, e de 1944 a 1945; Governador do Rotary Clube Internacional, de 1949 a 1950; Membro da Academia Maranhense de Letras, a qual presidiu por 20 anos.

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Acadêmicos Luiz Rêgo, Virgílio Domingues, Domingos Vieira e Cônego Ribamar Carvalho – Foto de 1969

Em sua bibliografia, constam estes títulos: Meu Desejo de Ser Útil (1932), Questões de Educação (1934), Educação e Ensino (1935) e Cultura e Educação (1938).

O Professor Luiz Rêgo foi casado por duas vezes. Do primeiro casamento, com Inah Araújo Moraes Rêgo, teve os filhos Maria Júlia, Luiz Carlos, Luiz Fernando, Luiz Augusto, Luiz Rodolfo e Luiz Henrique, todos com o sobrenome Moraes Rêgo; do segundo, com Valdéfia Souza de Moraes Rêgo, teve a filha Alessandra Souza de Moraes Rêgo.

No início de 1951, o Luiz Rêgo deixou o prédio da Praça Getúlio Vargas – mais tarde ocupado pelo Ginásio Balsense – e mudou-se para a Praça Gonçalves Dias, a mesma do Educandário Coelho Neto. As novas instalações eram providas de um teatrinho com palco e de residência para a Diretora, na época minha irmã Maria Isaura, que promoveu ali inesquecíveis “dramas”, assim chamados naquele sertão os espetáculos literomusicais e artísticos, com a participação da juventude local.

Devido a modificações impostas pela modernidade do ensino, o Grupo transformou-se e expandiu-se, recebendo a denominação de Unidade Integrada Professor Luiz Rêgo, como adiante se vê:

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Prédio do Grupo Escolar a Professor Luiz Rêgo: início de 1951

Possuo em meu acervo o Álbum dos Municípios do Interior do Maranhão, organizado pelo Jornalista Miécio de Miranda Jorge, membro da Sociedade de Cultura Artística do Maranhão, editado no ano de 1950, trazendo fotos de Grupos Escolares existentes em diversas cidades maranhenses, cujos prédios seguiram a mesma arquitetura, o mesmo layout do Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo balsense, onde cursei o Primário.

Estranhamente, só Balsas, minha querida cidade natal, homenageou esse grande benfeitor, dando seu nome ao Grupo Escolar por ele criado!

PROFESSOR JOCA RÊGO, O TELÚRICO

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Professor Joca Rêgo – Acervo Sakura

Mestre e disciplinador!

João Joca Rêgo Costa Junior, o Professor Joca, filho de João Joca Costa e Ana Joaquina Rêgo, a Santaninha, nasceu em Conceição do Araguaia (PA), no dia 11.01.1908, e faleceu em Balsas (MA), no dia 27.09.1992. Eram seus avós: paternos, Abílio Ayres Costa e Luzia Ayres Costa; e maternos, Torquato Augusto Pereira Rêgo e Archângela Angélica Silva Rêgo.

Não conheceu o pai, que era fazendeiro na região e, em setembro de 1907, foi traiçoeiramente assassinado em decorrência de disputa de terras com seringueiros e comerciantes, deixando a esposa grávida de cinco meses. Sua mãe, que já tinha três filhos, contraiu novas núpcias duas vezes, dando à luz mais três, e veio a falecer em São Luís (MA), no ano de 1941.

Joca Rêgo iniciou os estudos em sua terra natal. Ao concluir o Curso Primário, em 1922, foi estudar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro (RJ), onde se destacou pela inteligência e aplicação, recebendo uma medalha de ouro de Honra ao Mérito, da qual muito se orgulhava. Ao final do curso, foi graduado como Bacharel em Letras, transferindo-se para a cidade de Carolina (MA), na qual sua mãe fixara residência e onde passou ele a exercer o Magistério.

Sua fama como educador logo ultrapassou as fronteiras carolinenses, atingindo os municípios em derredor, e impressionou fortemente a numerosa colônia de sírio-libaneses – os carcamanos – que se formara em Balsas e ali prosperara no ramo comercial. Preocupados com a educação de seus filhos, os carcamanos, em 1928, mandaram buscar o Professor Joca em Carolina, para que ministrasse a seus descendentes os rudimentos necessários a capacitá-los a ler, escrever e fazer conta.

Assim, com apenas 20 anos de idade, o Professor Joca assumiu a direção do Colégio Sírio Brasileiro, fundado a 5 de agosto de 1928 e localizado à Praça Gonçalves Dias, passando a lecionar não só para os filhos dos carcamanos, como para todos os que buscassem seus ensinamentos. Em pouco tempo, o Sírio Brasileiro era procurado pelos habitantes de localidades adjacentes, e também por alunos vindos do Pará, do Piauí, de Goiás e até da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro. A partir de 1933, o Sírio Brasileiro passou a denominar-se Educandário Coelho Neto, com internato, semi-internato, externato e currículo escolar que ia da Carta de ABC à conclusão do Curso Primário.

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Prédio do antigo Educandário – Acervo Sakura

Tudo o que até aqui foi dito encontra-se escrito em várias fontes de consulta que subsidiaram esta matéria com suas preciosas informações. Se algum dia este livro for publicado, darei o merecido crédito a todas elas.

O que me impressiona sobremaneira é o fato de o Professor Joca ser detentor de um histórico respeitável, ter estudado no Rio de Janeiro e exercido o Magistério em Carolina e em Balsas, sem possuir documento civil algum, pois apenas foi registrado em Cartório no ano de 1934, aos 26 anos de idade, como se vê nesta Certidão:

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Tenho em mãos a Certidão verbum ad verbum do registro feito, por meu pai, Emigdio Rosa e Silva, Seu Rosa Ribeiro, Tabelião do 2º Ofício na época, ocorrido no dia 17.08.1934. Na averbação, consta que o ato obedeceu ao Decreto nº 19.710, de 18.01.1931, e modificações, que obrigava ao registro, sem multa, dos nascimentos havidos no Território Nacional, desde 1º de janeiro de 1889 até 27 de junho de 1934.

Deixo ao talante dos leitores as conclusões que lhes convierem.

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PLEBISCITO – ARTHUR AZEVEDO

Raimundo Floriano, pela cópia

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Arthur Azevedo

Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão, a 07 de julho de 1855, e falecido no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908, dramaturgo, contista, poeta comediógrafo e jornalista, irmão mais velho de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço e O Mulato, é uma das grandes figuras da Literatura Brasileira, em cuja obra campeia um fino e gracioso humorismo.

Seguiu para o Rio de Janeiro em 1873, aos 18 anos de idade, onde foi tradutor de folhetins e revisor de A Reforma, tornando-se conhecido por seus versos humorísticos. Escrevendo para o teatro, alcançou enorme sucesso com as peças Véspera de Reis e A Capital Federal, esta musical.

Dentre seus trabalhos, destacam-se Contos Possíveis, Contos Efêmeros, Contos Fora de Moda, Contos em Verso, Contos Cariocas e Vida Alheia. Espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem O Dote, A Almanjarra, O Oráculo, Vida e Morte, Entre a Missa e o Almoço, Entre o Vermute e a Sopa, Retrato a Óleo e O, Amor por Anexins. Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.

Foi Fundador da Academia Brasileira de Letras e titular da Cadeira número 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono.

No final dos Anos 1960, foi apresentada aqui em Brasília a peça musical de sua autoria, A Capital Federal, com produção de Cleyde Yaconis e grande elenco de 27 artistas, dentre os quais Etty Fraser, Suely Franco, Neuza Borges, Tamara Taxman e Carlos Alberto Riccelli, além de excelente orquestra, que considero o melhor espetáculo musical a que assisti em toda minha vida. A peça causou tal impressão em mim que, ao fundar a primeira banda carnavalesca brasiliense, em 1972, dei-lhe o nome de Banda da Capital Federal.

O texto a seguir foi extraído do livro Contos Fora da Moda, encontrável hoje em sebos virtuais, assim como diversas itens de sua vasta produção literária.

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PLEBISCITO

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio!

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

- Papai, que é plebiscito?

O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

- Papai?

Pausa!

- Papai?

Dona Bernardina intervém:

- Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O Senhor Rodrigues não tem remédio, senão abrir os olhos.

- Que é? Que desejam vocês?

- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

- Se soubesse, não perguntava.

O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…

- A senhora o que quer é enfezar-me!

- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

- Proletário – acudiu o Senhor Rodrigues – é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

- Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

- Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: – Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho!

O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

- Mas se eu sei!

- Pois se sabe, diga!

- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto, havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…

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A menina toma a palavra:

- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

- Não fosse tolo – observa Dona Bernardina – e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

- Pois sim – acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

- Sim! Sim! façam as pazes! – diz a menina em tom meigo e suplicante. – Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

- Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

- É boa! – brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio – é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

- Plebiscito…

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

- Ah! – suspiram todos, aliviados.

- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!…

CÍCERO NOVO FORNARI, UM HOMEM DE BRIO

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Cícero Novo Fornari: em 1981 e em 2013

Na sala de espera da maternidade, dois macróbios, cabelos grisalhos, ansiosos ante o limiar de um grande acontecimento em suas vidas. Eu, 77 anos, na expectativa do nascimento de meu quinto filho; ele, cinco anos mais velho, aguardando o primeiro. Unidos pelos mesmos sentimentos paternais, acabamos fazendo conhecimento, quiçá amizade, e prometendo presentear-nos mutuamente com um clone de nossos rebentos, tão logo nos fossem entregues.

Explico: a maternidade era a Thesaurus Editora, nos preparativos finais da edição dos livros que acabáramos de escrever: Pétala do Rosa, o meu, e Apresentar Armas, o dele, sobre o qual discorrerei mais adiante. Apenas quem já passou por essa experiência, pode avaliar a emoção que se sente ao ver sua produção literária sair do prelo, fresquinha, pronta a enfrentar o julgamento dos leitores, as cacetadas dos críticos e, também, a partir dali, enriquecer o currículo de seu autor.

Minhas recentes leituras têm-me proporcionado a ocasião de conhecer variados textos de veteranos do Exército Brasileiro contando suas experiências durante o serviço ativo:

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Pequena Grande Unidade, do Sargento Amador Arimathéa, relata-nos, com ilustrações e a legislação pertinente, todo o desenrolar das operações que culminaram com a instalação da primeira tropa verde-oliva em Brasília, a 21 de maio de 1958; Cavando Trincheiras, de Paulo Irineu Barreto Fernandes, Conscrito de 1985/1986 no BPEB, brinda-nos com episódios vividos pelo autor na caserna durante aquele período; Memórias do Soldado Rodrigues, de Luiz Alberto Rodrigues, Conscrito de 1969/1970, também no BPEB, dá-nos uma ideia do que foi uma dura fase daqueles tempos de combate aos assaltantes de bancos, à ladroagem, aos corruptos, aos guerrilheiros e terroristas; Terceiro Batalhão – O Lapa Azul, de Agostinho José Rodrigues, contém a experiência do autor no front, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesses quatro livros, afloram o amor ao Brasil e a reafirmação do juramento feito diante de Bandeira Brasileira, ao prometerem dedicarem-se inteiramente ao Serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderiam com o sacrifício da própria vida.

Cícero Novo Fornari, o autor de Apresentar Armas, é Coronel da Reserva do Exército Brasileiro. Durante os 40 anos de atividade, serviu nas seguintes Organizações Militares: Escola Preparatória de São Paulo; AMAM; 1º Batalhão de Polícia do Exército; 1º Batalhão de Fronteira; 1º Batalhão de Carros de Combate Leves; AMAM, como Instrutor, 12º Regimento de Infantaria; Escola Preparatória de Campinas; EsAO; 4º Regimento de Infantaria; Escola de Comando e Estado-Maior do Exército; QG do Comando Militar da Amazônia; Centro de Operações na Selva; Estado-Maior do Exército; Gabinete do Ministro do Exército; Escola Nacional de Informação; 28º Batalhão de Infantaria Blindado, como Comandante; Escola Preparatória de Cadetes do Exército, como Subcomandante; Colégio Militar de Curitiba, como Comandante; e Adido Militar junto à Embaixada do Brasil na Venezuela.

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PEDRO MARANHENSE, MEU PRIMO GUABIRABA

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Pedro Maranhense: no alto, à direita, a Fazenda Santa Rosa

O cavaleiro montado nesse tobiano – ou pampo – raceado é meu primo Pedro Maranhense, homem do campo, das matas, dos rios, das lagoas, dos riachos, dos pastos, dos currais, do gado, de tudo que é ligado à Natureza silvestre, enfim, um telúrico.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, disse Jesus Cristo a São Pedro, o pescador de almas. E esse meu primo já nasceu consinado, como se diz no sertão. Com a sina de ser Pedro e pedra lapidada, pedra-alicerce de toda uma família que ajudou nos difíceis momentos da vida. Ajuda material e, mais que isso, suporte espiritual.

Nosso avô, Capitão Pedro José da Silva, com prole de 17 filhos, criou-a na Fazenda Brejo, sertão piauiense, onde lhe ensinou o duro labutar na lavoura e na pecuária, tirando da terra as dádivas necessárias à subsistência e à aquisição de bens industrializados, estes, nas mais das vezes, obtidos na base do escambo.

Naquela fazenda, nasceu Tia Evarista. A maioria dos filhos nominou também os seus em honra ao Patriarca. Assim, tivemos Pedro Apóstolo, do Tio Mundico; Pedro Silva Neto, do Tio João Ribeiro; Pedro Del Pretes, do Tio Fructo; Pedro Carvalho, da Tia Ondina; Pedro Silva, do Rosa Ribeiro, meu pai; Pedro Ivo, do Tio Cazuza; e Pedro Maranhense, da Tia Evarista, com um detalhe: nasceu no dia 29 de junho, Dia de São Pedro. Não fugindo à tentação de fazer um trocadilho, ouso afirmar que esse nosso primo já nasceu pedrestinado.

Sua ascendência é inteiramente sertaneja: bisavós paternos, Raimundo Alves Costa e Anna Alves Ferreira Sant’Iago, Belchior de Souza Britto e Maria Bandeira de Mello, do sertão sul-maranhense; e maternos, Fructuoso José Messias da Silva e Evarista Messias da Silva, Honorato José de Souza e Lucialina Maria de Freitas Sousa, do sertão piauiense. Avós paternos, Luiz Alves Costa e Albertina de Souza Britto Costa, do sertão sul-maranhense, e maternos, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva, do sertão piauiense.

Pedro Maranhense Costa nasceu em Balsas (MA), no Bairro Tresidela, a 29 de junho de 1925, e faleceu em Brasília (DF) no dia 10 de dezembro de 2012. Era filho de Manoel Maranhense Costa, o Né Costa, nascido em Pastos Bons (MA), a 5 de julho de 1898, e falecido em Caxias (MA), no ano de 1932, e de Evarista de Sousa e Silva, nascida em Floriano (PI), na Fazenda Brejo, no dia 20 de abril de 1896, e falecida na mesma cidade, no dia 25 de abril de 1928.

Pedro Maranhense era, portanto, guabiraba, termo com que são carinhosamente chamados, no Maranhão, os nascidos na Tresidela, bairro de cidades ribeirinhas, na margem oposta do rio.

Tio Né Costa levava uma vida nômade, como se deduz pelas datas de nascimento dos filhos: Maria Albertina da Silva Costa nasceu em Pedro Afonso (GO), hoje Tocantins, a 18.09.1923; Pedro, em Balsas, a 29.06.1925; e Maria Flory, em Floriano, a 27.10.1926.

Tia Evarista sofria de problemas pulmonares. No começo do ano de 1928, sentindo aproximar-se o fim de seus dias, e prevendo que Tio Né Costa, com seu espírito cigano, não teria condições de arcar com as três crianças que deixava, entregou-as para seus pais e meus avós, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva. Falecendo ele em 1933, Albertina e Pedro passaram à tutela de Tia Maria Isaura de Sousa e Silva, que os criou como filhos. Flory, por sua vez, foi entregue à Tia Ondina de Sousa e Silva. Isso aconteceu em 1928, ano em que o inglês Sir Alexander Fleming descobria a penicilina, o santo medicamento para debelar o mal de que ela sofria.

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Pedro José da Silva, Isaura Maria e Maria Isaura, seus pais de criação

Tia Maria Isaura, alta funcionária dos Correios e Telegráficos, nunca se casou e foi um esteio em nossa família, ajudando nos estudos da maioria dos sobrinhos sertanejos, assim como eu, que se hospedaram em sua casa para cursar o ginásio. Moravam com Tia Maria Isaura sua irmã Júlia de Sousa e Silva, a Tia Julinha, e seus três filhos, Antônio Luiz, Magnólia e Nílton, que foram para o Pedro verdadeiros irmãos de criação.

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Antônio Luiz, Magnólia e Nílton

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ROSA RIBEIRO E SEUS QUINZE MINUTOS DE FAMA

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Estão vendo essa linda Pétala Negra, sorriso radiante, dentes ebúrneos, lábios grossos e sensuais, parecendo próprios para serem beijados, como de fato o são, como de fato ela o deseja, anel de brilhante, brincos de ouro e pérolas?

Essa joia preciosa é a Cleneide Maria Ramos dos Santos, mais conhecida no meio forrozeiro como Neide, a Madre Superiora Neide do Convento da Igreja Sertaneja do Recife, nomeada diretamente pelo Papa Berto, em cujo Palácio Pontifício exerce sua missão clerical.

Madre Neide é a maior agitadora cultural pernambucana e está entrosada com os grandes astros nordestinos no âmbito literomusical, fazendo-se presente em todos os acontecimentos artísticos por eles estrelados, com os quais registra o momento para a posteridade:

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Com Júnior Vieira, Santanna, O Cantador, Chico César e Irah Caldeira

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Com Jessier Quirino, Maciel Melo, Xico Bizerra e Dominguinhos

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Com Elba Ramalho, Fábio Passa Disco, Papa Berto e Capa da revista Cabras

O que mais caracteriza a Neide é esse sorriso esfuziante e avassalador, aliado a uma simpatia conquistadora de corações e mentes.

Conheci-a na festa de minha posse na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, no Recife, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho que, no ato, deu show grátis de hora e meia. A mim apresentada pelo amigo escritor Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana, que hoje preside a Academia, Neide logo se familiarizou comigo, Veroni, minha mulher, e Mara, nossa caçula, auxiliando no desencadear da solenidade e pondo-nos em contato com os muitos artistas, músicos e compositores que enriqueceram aquela inesquecível noite.

Essa amizade com a Neide só trouxe proveitos para mim. Desde então, tenho-me valido dela para completar minha coleção discográfica de Forró, principalmente no que se refere aos inúmeros cantores que conheci em minha posse. Ela os procura pessoalmente, pede, compra, copia, enfim, faz de tudo para atender-me, jamais me cobrando um centavo sequer.

Pois agora, essa Pétala Negra de primeira grandeza, apeia-se de seu altíssimo pedestal, produz-se com esmero e posta sua fotografia com as Pétalas do Rosa no Facebook, em divulgação espontânea, isso tudo sem me pedir a remuneração, o cachê pelo serviço prestado! Não é a glória para Seu Rosa Ribeiro, meu pai? Seus 15 minutos de fama?

O livrinho, com 104 páginas, e fartamente ilustrado, nasceu de uma vontade minha de homenagear meu pai nos 40 anos de seu falecimento, ocorrido a 28 de maio de 1973. Antes de fixar a quantidade de exemplares da edição, procurei contabilizar a reduzida clientela para a qual se destinaria, eis que seu assunto não era de interesse geral, como em meus trabalhos anteriores.

Fiz um lançamento diferente, indo, sem aviso prévio, à casa de cada leitor escolhido. Primeiramente, selecionei, dentre entre os 850 endereços que tenho cadastrados, 353, todos de parentes, demais amigos, 24 confrades fubânicos e pessoas bem chegadas a nosso círculo familiar, quase esgotando a edição, que estabeleci em 400 unidades.

Aos escritores e artistas que sempre me agraciaram com seus trabalhos, os exemplares seguiram como cortesia. Aos fiéis leitores que, ao longo do tempo, me vêm prestigiando em minhas ousadias literárias, e a meus familiares, solicitei pequena ajuda para recuperar os gastos de produção, conforme papeleta anexada ao livro, fixando o quantum e indicando meus dados bancários para depósito.

Do total despendido com a gráfica a remessa, R$7.500,00, salvei R$3.600,00. Houve prejuízo? – alguns perguntarão. E eu respondo que não. A diferença a menor de R$3.900,00 compensa minha satisfação de ter mais um livro em meu currículo. E só quem já experimentou a sensação de lançar um livro pode avaliar a extensão de sua magnitude.

No domingo passado, fui convidado por membro ANE – Diretoria da Associação Nacional de Escritores a nela filiar-me. Se, com 5 livros publicados, sou reconhecido como merecedor de pertencer àquela coletividade, meus amigos, parentes e conterrâneos poderão, agora, enfunar o peito e dizer: – O Raimundo Floriano é um escritor brasileiro!

A experiência também teve seus réditos, ao orientar-me no lançamento dos próximos, Memorial Balsense, Caindo na Gandaia e Albuquerques do Sul do Maranhão, no quais estou trabalhando com afinco, devendo sair o primeiro, com a Graça de Deus, dentro de, no máximo, dois anos, quando você se cansarem das Pétalas.

Mas deixemos de leriado e voltemos a falar em nossa Pétala Negra, que tanto cartaz deu a meu livrinho, proporcionando a meu pai, Seu Rosa Ribeiro, os decantados 15 minutos de fama, e isso pelas ondas internáuticas.

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A Pétala Negra em relaxamento

Como se viu na foto acima, Madre Neide é mais ela! É autêntica! É íntegra! Há poucos dias, um facebookiano a chamou de morena. Pra quê? Ela quase soltou os cachorros em cima dele: – Dobre a língua, sou negra! Que papo é esse?

Também no Facebook, de brincadeira, Fábio Passa Disco afirmou que, se ficasse algum dia sem mulher, se amigaria com a Neide. Imediatamente, eu rebati informando-lhe: – Essa nêga já tem dono! E ela retrucou, na lata: – Dono, não! Sou escrava de vários “Senhores”.

Pronto! Eis a chave do mistério! Disse pouco e disse tudo! Sua afirmação tem o significado de que vários senhores cativaram seu coração. Essa cabroeira, constituída por todos nós, colunistas, leitores e comentarista fubânicos, tem, igualmente, seus corações cativados por nossa querida Musa.

Prova disso é que eu, não muito desinteressadamente, já me atrelei a tão rara preciosidade de ser humano, o que se comprova nestes dois mais belos sorrisos de toda a Nação Nordestina e Forrozeira:

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Cardeal Raimundo Floriano e Madre Superiora Neide

Como diziam os comediantes de antigamente, vamos botar música na conversa. Em homenagem a essa joia lapidada, aqui vai o samba Ninguém Tasca (O Gavião), de Mário Pereira e João Quadrado, gravação de Marinho da Muda para o Carnaval de 1973.

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WALTER BAUTISTA, MEU AMIGO CIENTISTA QUE SE FOI

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José Walter Bautista Vidal

Dois de março de 2012! Dia de festa na Hidroterapia! Por dois motivos.

Hoje, 2 de março, quando estas maltraçadas lhes escrevo, faz 7 anos que me iniciei na atividade hidroterápica, à qual, por motivos ortopédicos e males da idade, me incorporei por todo o decorrer do restante de minha vida e por isso tenho que dela tirar o máximo de prazer, transformando todas as sessões em motivo de alegria e satisfação. E ontem, 01.03, foi aniversário da oriental Dra. Ayda Jamal Daud, a Hidroterapeuta-chefe, mais uma razão para comemorarmos em grande estilo a data e demonstramos nosso contentamento em tê-la como zelosa cuidadora de todos nós, os hidroterapatas – neologismo que criei –, assegurando-nos o bem-estar físico e moral.

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Dra. Ayda, a Favorita do Sultão

A Dra, Ayda comanda uma grande equipe de fisioterapeutas, que nos atende em sua clinica particular, a REABILIT – ESPAÇO SAÚDE, na 910 Sul, em todos os fundamentos de sua especialidade – Fisioterapia, Pilates, Acupuntura, Massagem, RPG, Nutrição, Saúde do Idoso – e nas piscinas, onde praticamos os exercícios e alongamentos necessários a nossa recuperação. Sem falar nas massagens, que, às vezes, quando acertam nos nódulos, se assemelham a ferroadas de maribondos enlouquecidos. Mas depois, que alívio! Que celestial sensação de bem-estar!

Há 7 anos, quando me via impedido de caminhar, devido à imobilidade de minha perna esquerda, fui encaminhado a essa maravilhosa equipe, sob a proteção da qual me encontro até o presente momento e, acho, por toda a vida, eis que agora enfrentando os supraditos males da idade, para a cura dos quais ainda não foram descobertos medicamentos eficazes.

Quando cheguei à Hidroterapia, fui recebido pela Dra. Karina Ribeiro e pela Dra. Bárbara Priscila. Sendo Karina loura e Bárbara morena, passei a chamá-las de Feiticeira e Tiazinha. Essa dupla foi reforçada com a inclusão da japinha Luciana Kato e da chinesinha Hoa (pronuncia-se Roá).

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Dras. Karina, a Feiticeira, Bárbara, a Tiazinha, Luciana, a japinha, e a chinesinha Hoa

No início, as sessões eram realizadas na Academia BOCA, na 906 Sul. Como esta entrou em reforma, mudamo-nos, em novembro do ano passado, para a Academia Consciência Corporal, situada na EQL 06/08 do Lago Sul, ao lado da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

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Dra. Ayda fotografou: nossa piscina em dia de pouco movimento, comigo de touca vermelha

Nesses benéficos 7 anos, fiz conhecimento com centenas de colegas, incluindo os que vieram, os que ficaram por pouco ou muito tempo, e os que até hoje permanecem na atividade hidroterápica. Um dos mais antigos é o Walter Bautista – José Walter Bautista Vidal –, meu protagonista desta matéria.

Quando chegou, com seu roupão atoalhado e a touca marrom, fui batendo o olho nele e achando-o perecidíssimo com Papa João Paulo II, vivo na época. Por isso, dei-lhe logo o cognome de Papa Walter, com o qual até hoje o trato.

A Wikipédia diz pouco de sua biografia: “é um físico brasileiro, ex-professor da Universidade de Brasília que, juntamente com Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), foi o idealizador do motor a álcool”. Na Internet, o que mais se encontram são entrevistas e palestras que ele deu em ocasiões diversas, no Brasil e no Exterior.

Em nossas conversas, descobri que ele nasceu em Salvador (BA), a 12.12.1934. É, portanto o primeiro baiano fogoió que vim a conhecer.

Mas ele não gosta de falar de si próprio. Fica difícil, assim, traçar um seu perfil completo. Por este trecho extraído da Internet, obtém-se um pouco mais de sua história: “Foi Secretário de Desenvolvimento de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio dos Governos Geisel (1974-1978) e Sarney (1985-1988), sendo o responsável pela implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

Papa Walter retém na memória todos os fatos do passado, mas rapidamente, se esquece das coisas do presente. Gosto de brincar com ele, ensinando-lhe os nomes dos Cabras de Lampião. Às vezes, eu o vejo sorrindo e pergunto o motivo, ele responde que estava lembrando o nome dos cabras, mas só consegue falar o de Zé Maria. Aí, eu volto a ensinar: Zé do Cá, Zé do Ké, Zé o Ki, Zé do Có e Zé Maria. Com isso, ele sai repetindo os nomes, para não mais os esquecer. Por ora.

Mesmo assim é com os nomes das mulheres do Bando de Lampião: Maria Pata, Maria Peta, Paria Pita, Maria Pota e Maria Xuxa. Outro motivo de descontração para o amigo Papa Walter.

Embora desligadão da atualidade – Alzheimer na área –, brinda-nos com práticas de sua juventude, como a natação, em todos os gêneros olímpicos, demonstrando-nos que, em seu tempo de rapaz, foi um verdadeiro campeão. E isso também se lhe constitui em excelente terapia.

Ao focalizar a pessoa do amigo cientista Walter Bautista Vidal, presto sincera homenagem a todos os colegas hidroterapatas que continuam persistindo nessa atividade e agradeço a todas as hidroterapeutas que se esmeram na minoração do problema maior que nos reúne naquele quadrilátero aquático: a dor!

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Detalhe de nossa Confraternização Natalina/2011

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Esta matéria foi publicada aqui no Jornal da Besta Fubana no dia 5 de março de 2012. A partir de então, várias entidades de classe, como Clubes de Engenharia, sociedades científicas, universidades e pesquisadores individuais passaram a tê-la como ponto de partida, dirigindo-se a seu Editor, que a mim repassava todas as mensagens recebidas. A todos orientei, informando os contatos telefônico e internáutico de uma das filhas do cientista.

Há coisa de um ano, o amigo Walter começou a definhar fisicamente, o que nos privou de sua companhia na piscina. Desde então, passou receber atendimento fisioterápico individual em casa, contando com a gentil dedicação da Dra. Ayda, que sempre nos dava notícias dele, ultimamente muito desanimadoras.

Sábado último, 01.06.2013, eu estava aqui no computador quando minha filha Elba saiu de seu quarto e me falou: – Pai, aquele seu amigo faleceu. Aquele que criou o carro a álcool. Acaba de dar no Jornal Nacional!

Como o noticiário já estava em outro bloco de assunto, entrei mais tarde no Google e pesquisei. Era mesmo o Walter Bautista, a quem a TV Globo dedicara 19 preciosos segundos. E só!

No dia seguinte, domingo, ao receber o Correio Braziliense, do qual sou assinante, nada encontrei sobre o cientista, a não ser esta matéria paga:

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Dezenove segundos na Globo e sequer uma linha no Correio Braziliense! Agora, imaginem vocês a hipótese de o impasse ter ocorrido com outro importante vulto nacional, tipo Michel Teló! Já pensaram no pampeiro que a mídia faria?

Aliás, tem-se escamoteado tudo de bom que os governos passados fizeram em prol do Brasil, país que começou a existir a partir de 2003, quando o petismo se instalou no Palácio do Planalto. Vocês tiveram notícia de algum telegrama da Presidenta lamentando essa grande perda?

Também, pudera! Eu até justifico esse olvido! No domingo, a prioridade era bem outra e envolvia quase todos os corações e metes da Brasileira Nação: o jogo da Seleção Canarinha e, logo após, a partida de Neymar para Barcelona. Era desmantelo demais para um dia só!

Como sei que os pesquisadores continuarão a buscar informações sobre o agora saudoso amigo Walter Bautista, republico esta matéria, com os devidos acréscimos, fornecendo mais dados para essa preciosa fonte de consulta em que se está transformando o Jornal da Besta Fubana.

Amigo Walter, segure na mão de Deus e vá!


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