PROFESSOR JOCA RÊGO, O TELÚRICO

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Professor Joca Rêgo – Acervo Sakura

Mestre e disciplinador!

João Joca Rêgo Costa Junior, o Professor Joca, filho de João Joca Costa e Ana Joaquina Rêgo, a Santaninha, nasceu em Conceição do Araguaia (PA), no dia 11.01.1908, e faleceu em Balsas (MA), no dia 27.09.1992. Eram seus avós: paternos, Abílio Ayres Costa e Luzia Ayres Costa; e maternos, Torquato Augusto Pereira Rêgo e Archângela Angélica Silva Rêgo.

Não conheceu o pai, que era fazendeiro na região e, em setembro de 1907, foi traiçoeiramente assassinado em decorrência de disputa de terras com seringueiros e comerciantes, deixando a esposa grávida de cinco meses. Sua mãe, que já tinha três filhos, contraiu novas núpcias duas vezes, dando à luz mais três, e veio a falecer em São Luís (MA), no ano de 1941.

Joca Rêgo iniciou os estudos em sua terra natal. Ao concluir o Curso Primário, em 1922, foi estudar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro (RJ), onde se destacou pela inteligência e aplicação, recebendo uma medalha de ouro de Honra ao Mérito, da qual muito se orgulhava. Ao final do curso, foi graduado como Bacharel em Letras, transferindo-se para a cidade de Carolina (MA), na qual sua mãe fixara residência e onde passou ele a exercer o Magistério.

Sua fama como educador logo ultrapassou as fronteiras carolinenses, atingindo os municípios em derredor, e impressionou fortemente a numerosa colônia de sírio-libaneses – os carcamanos – que se formara em Balsas e ali prosperara no ramo comercial. Preocupados com a educação de seus filhos, os carcamanos, em 1928, mandaram buscar o Professor Joca em Carolina, para que ministrasse a seus descendentes os rudimentos necessários a capacitá-los a ler, escrever e fazer conta.

Assim, com apenas 20 anos de idade, o Professor Joca assumiu a direção do Colégio Sírio Brasileiro, fundado a 5 de agosto de 1928 e localizado à Praça Gonçalves Dias, passando a lecionar não só para os filhos dos carcamanos, como para todos os que buscassem seus ensinamentos. Em pouco tempo, o Sírio Brasileiro era procurado pelos habitantes de localidades adjacentes, e também por alunos vindos do Pará, do Piauí, de Goiás e até da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro. A partir de 1933, o Sírio Brasileiro passou a denominar-se Educandário Coelho Neto, com internato, semi-internato, externato e currículo escolar que ia da Carta de ABC à conclusão do Curso Primário.

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Prédio do antigo Educandário – Acervo Sakura

Tudo o que até aqui foi dito encontra-se escrito em várias fontes de consulta que subsidiaram esta matéria com suas preciosas informações. Se algum dia este livro for publicado, darei o merecido crédito a todas elas.

O que me impressiona sobremaneira é o fato de o Professor Joca ser detentor de um histórico respeitável, ter estudado no Rio de Janeiro e exercido o Magistério em Carolina e em Balsas, sem possuir documento civil algum, pois apenas foi registrado em Cartório no ano de 1934, aos 26 anos de idade, como se vê nesta Certidão:

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Tenho em mãos a Certidão verbum ad verbum do registro feito, por meu pai, Emigdio Rosa e Silva, Seu Rosa Ribeiro, Tabelião do 2º Ofício na época, ocorrido no dia 17.08.1934. Na averbação, consta que o ato obedeceu ao Decreto nº 19.710, de 18.01.1931, e modificações, que obrigava ao registro, sem multa, dos nascimentos havidos no Território Nacional, desde 1º de janeiro de 1889 até 27 de junho de 1934.

Deixo ao talante dos leitores as conclusões que lhes convierem.

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PLEBISCITO – ARTHUR AZEVEDO

Raimundo Floriano, pela cópia

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Arthur Azevedo

Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão, a 07 de julho de 1855, e falecido no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908, dramaturgo, contista, poeta comediógrafo e jornalista, irmão mais velho de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço e O Mulato, é uma das grandes figuras da Literatura Brasileira, em cuja obra campeia um fino e gracioso humorismo.

Seguiu para o Rio de Janeiro em 1873, aos 18 anos de idade, onde foi tradutor de folhetins e revisor de A Reforma, tornando-se conhecido por seus versos humorísticos. Escrevendo para o teatro, alcançou enorme sucesso com as peças Véspera de Reis e A Capital Federal, esta musical.

Dentre seus trabalhos, destacam-se Contos Possíveis, Contos Efêmeros, Contos Fora de Moda, Contos em Verso, Contos Cariocas e Vida Alheia. Espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem O Dote, A Almanjarra, O Oráculo, Vida e Morte, Entre a Missa e o Almoço, Entre o Vermute e a Sopa, Retrato a Óleo e O, Amor por Anexins. Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.

Foi Fundador da Academia Brasileira de Letras e titular da Cadeira número 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono.

No final dos Anos 1960, foi apresentada aqui em Brasília a peça musical de sua autoria, A Capital Federal, com produção de Cleyde Yaconis e grande elenco de 27 artistas, dentre os quais Etty Fraser, Suely Franco, Neuza Borges, Tamara Taxman e Carlos Alberto Riccelli, além de excelente orquestra, que considero o melhor espetáculo musical a que assisti em toda minha vida. A peça causou tal impressão em mim que, ao fundar a primeira banda carnavalesca brasiliense, em 1972, dei-lhe o nome de Banda da Capital Federal.

O texto a seguir foi extraído do livro Contos Fora da Moda, encontrável hoje em sebos virtuais, assim como diversas itens de sua vasta produção literária.

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PLEBISCITO

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio!

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

- Papai, que é plebiscito?

O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

- Papai?

Pausa!

- Papai?

Dona Bernardina intervém:

- Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O Senhor Rodrigues não tem remédio, senão abrir os olhos.

- Que é? Que desejam vocês?

- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

- Se soubesse, não perguntava.

O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…

- A senhora o que quer é enfezar-me!

- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

- Proletário – acudiu o Senhor Rodrigues – é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

- Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

- Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: – Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho!

O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

- Mas se eu sei!

- Pois se sabe, diga!

- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto, havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…

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A menina toma a palavra:

- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

- Não fosse tolo – observa Dona Bernardina – e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

- Pois sim – acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

- Sim! Sim! façam as pazes! – diz a menina em tom meigo e suplicante. – Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

- Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

- É boa! – brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio – é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

- Plebiscito…

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

- Ah! – suspiram todos, aliviados.

- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!…

CÍCERO NOVO FORNARI, UM HOMEM DE BRIO

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Cícero Novo Fornari: em 1981 e em 2013

Na sala de espera da maternidade, dois macróbios, cabelos grisalhos, ansiosos ante o limiar de um grande acontecimento em suas vidas. Eu, 77 anos, na expectativa do nascimento de meu quinto filho; ele, cinco anos mais velho, aguardando o primeiro. Unidos pelos mesmos sentimentos paternais, acabamos fazendo conhecimento, quiçá amizade, e prometendo presentear-nos mutuamente com um clone de nossos rebentos, tão logo nos fossem entregues.

Explico: a maternidade era a Thesaurus Editora, nos preparativos finais da edição dos livros que acabáramos de escrever: Pétala do Rosa, o meu, e Apresentar Armas, o dele, sobre o qual discorrerei mais adiante. Apenas quem já passou por essa experiência, pode avaliar a emoção que se sente ao ver sua produção literária sair do prelo, fresquinha, pronta a enfrentar o julgamento dos leitores, as cacetadas dos críticos e, também, a partir dali, enriquecer o currículo de seu autor.

Minhas recentes leituras têm-me proporcionado a ocasião de conhecer variados textos de veteranos do Exército Brasileiro contando suas experiências durante o serviço ativo:

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Pequena Grande Unidade, do Sargento Amador Arimathéa, relata-nos, com ilustrações e a legislação pertinente, todo o desenrolar das operações que culminaram com a instalação da primeira tropa verde-oliva em Brasília, a 21 de maio de 1958; Cavando Trincheiras, de Paulo Irineu Barreto Fernandes, Conscrito de 1985/1986 no BPEB, brinda-nos com episódios vividos pelo autor na caserna durante aquele período; Memórias do Soldado Rodrigues, de Luiz Alberto Rodrigues, Conscrito de 1969/1970, também no BPEB, dá-nos uma ideia do que foi uma dura fase daqueles tempos de combate aos assaltantes de bancos, à ladroagem, aos corruptos, aos guerrilheiros e terroristas; Terceiro Batalhão – O Lapa Azul, de Agostinho José Rodrigues, contém a experiência do autor no front, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesses quatro livros, afloram o amor ao Brasil e a reafirmação do juramento feito diante de Bandeira Brasileira, ao prometerem dedicarem-se inteiramente ao Serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderiam com o sacrifício da própria vida.

Cícero Novo Fornari, o autor de Apresentar Armas, é Coronel da Reserva do Exército Brasileiro. Durante os 40 anos de atividade, serviu nas seguintes Organizações Militares: Escola Preparatória de São Paulo; AMAM; 1º Batalhão de Polícia do Exército; 1º Batalhão de Fronteira; 1º Batalhão de Carros de Combate Leves; AMAM, como Instrutor, 12º Regimento de Infantaria; Escola Preparatória de Campinas; EsAO; 4º Regimento de Infantaria; Escola de Comando e Estado-Maior do Exército; QG do Comando Militar da Amazônia; Centro de Operações na Selva; Estado-Maior do Exército; Gabinete do Ministro do Exército; Escola Nacional de Informação; 28º Batalhão de Infantaria Blindado, como Comandante; Escola Preparatória de Cadetes do Exército, como Subcomandante; Colégio Militar de Curitiba, como Comandante; e Adido Militar junto à Embaixada do Brasil na Venezuela.

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PEDRO MARANHENSE, MEU PRIMO GUABIRABA

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Pedro Maranhense: no alto, à direita, a Fazenda Santa Rosa

O cavaleiro montado nesse tobiano – ou pampo – raceado é meu primo Pedro Maranhense, homem do campo, das matas, dos rios, das lagoas, dos riachos, dos pastos, dos currais, do gado, de tudo que é ligado à Natureza silvestre, enfim, um telúrico.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, disse Jesus Cristo a São Pedro, o pescador de almas. E esse meu primo já nasceu consinado, como se diz no sertão. Com a sina de ser Pedro e pedra lapidada, pedra-alicerce de toda uma família que ajudou nos difíceis momentos da vida. Ajuda material e, mais que isso, suporte espiritual.

Nosso avô, Capitão Pedro José da Silva, com prole de 17 filhos, criou-a na Fazenda Brejo, sertão piauiense, onde lhe ensinou o duro labutar na lavoura e na pecuária, tirando da terra as dádivas necessárias à subsistência e à aquisição de bens industrializados, estes, nas mais das vezes, obtidos na base do escambo.

Naquela fazenda, nasceu Tia Evarista. A maioria dos filhos nominou também os seus em honra ao Patriarca. Assim, tivemos Pedro Apóstolo, do Tio Mundico; Pedro Silva Neto, do Tio João Ribeiro; Pedro Del Pretes, do Tio Fructo; Pedro Carvalho, da Tia Ondina; Pedro Silva, do Rosa Ribeiro, meu pai; Pedro Ivo, do Tio Cazuza; e Pedro Maranhense, da Tia Evarista, com um detalhe: nasceu no dia 29 de junho, Dia de São Pedro. Não fugindo à tentação de fazer um trocadilho, ouso afirmar que esse nosso primo já nasceu pedrestinado.

Sua ascendência é inteiramente sertaneja: bisavós paternos, Raimundo Alves Costa e Anna Alves Ferreira Sant’Iago, Belchior de Souza Britto e Maria Bandeira de Mello, do sertão sul-maranhense; e maternos, Fructuoso José Messias da Silva e Evarista Messias da Silva, Honorato José de Souza e Lucialina Maria de Freitas Sousa, do sertão piauiense. Avós paternos, Luiz Alves Costa e Albertina de Souza Britto Costa, do sertão sul-maranhense, e maternos, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva, do sertão piauiense.

Pedro Maranhense Costa nasceu em Balsas (MA), no Bairro Tresidela, a 29 de junho de 1925, e faleceu em Brasília (DF) no dia 10 de dezembro de 2012. Era filho de Manoel Maranhense Costa, o Né Costa, nascido em Pastos Bons (MA), a 5 de julho de 1898, e falecido em Caxias (MA), no ano de 1932, e de Evarista de Sousa e Silva, nascida em Floriano (PI), na Fazenda Brejo, no dia 20 de abril de 1896, e falecida na mesma cidade, no dia 25 de abril de 1928.

Pedro Maranhense era, portanto, guabiraba, termo com que são carinhosamente chamados, no Maranhão, os nascidos na Tresidela, bairro de cidades ribeirinhas, na margem oposta do rio.

Tio Né Costa levava uma vida nômade, como se deduz pelas datas de nascimento dos filhos: Maria Albertina da Silva Costa nasceu em Pedro Afonso (GO), hoje Tocantins, a 18.09.1923; Pedro, em Balsas, a 29.06.1925; e Maria Flory, em Floriano, a 27.10.1926.

Tia Evarista sofria de problemas pulmonares. No começo do ano de 1928, sentindo aproximar-se o fim de seus dias, e prevendo que Tio Né Costa, com seu espírito cigano, não teria condições de arcar com as três crianças que deixava, entregou-as para seus pais e meus avós, Pedro José da Silva e Isaura Maria de Sousa e Silva. Falecendo ele em 1933, Albertina e Pedro passaram à tutela de Tia Maria Isaura de Sousa e Silva, que os criou como filhos. Flory, por sua vez, foi entregue à Tia Ondina de Sousa e Silva. Isso aconteceu em 1928, ano em que o inglês Sir Alexander Fleming descobria a penicilina, o santo medicamento para debelar o mal de que ela sofria.

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Pedro José da Silva, Isaura Maria e Maria Isaura, seus pais de criação

Tia Maria Isaura, alta funcionária dos Correios e Telegráficos, nunca se casou e foi um esteio em nossa família, ajudando nos estudos da maioria dos sobrinhos sertanejos, assim como eu, que se hospedaram em sua casa para cursar o ginásio. Moravam com Tia Maria Isaura sua irmã Júlia de Sousa e Silva, a Tia Julinha, e seus três filhos, Antônio Luiz, Magnólia e Nílton, que foram para o Pedro verdadeiros irmãos de criação.

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Antônio Luiz, Magnólia e Nílton

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ROSA RIBEIRO E SEUS QUINZE MINUTOS DE FAMA

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Estão vendo essa linda Pétala Negra, sorriso radiante, dentes ebúrneos, lábios grossos e sensuais, parecendo próprios para serem beijados, como de fato o são, como de fato ela o deseja, anel de brilhante, brincos de ouro e pérolas?

Essa joia preciosa é a Cleneide Maria Ramos dos Santos, mais conhecida no meio forrozeiro como Neide, a Madre Superiora Neide do Convento da Igreja Sertaneja do Recife, nomeada diretamente pelo Papa Berto, em cujo Palácio Pontifício exerce sua missão clerical.

Madre Neide é a maior agitadora cultural pernambucana e está entrosada com os grandes astros nordestinos no âmbito literomusical, fazendo-se presente em todos os acontecimentos artísticos por eles estrelados, com os quais registra o momento para a posteridade:

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Com Júnior Vieira, Santanna, O Cantador, Chico César e Irah Caldeira

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Com Jessier Quirino, Maciel Melo, Xico Bizerra e Dominguinhos

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Com Elba Ramalho, Fábio Passa Disco, Papa Berto e Capa da revista Cabras

O que mais caracteriza a Neide é esse sorriso esfuziante e avassalador, aliado a uma simpatia conquistadora de corações e mentes.

Conheci-a na festa de minha posse na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, no Recife, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho que, no ato, deu show grátis de hora e meia. A mim apresentada pelo amigo escritor Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana, que hoje preside a Academia, Neide logo se familiarizou comigo, Veroni, minha mulher, e Mara, nossa caçula, auxiliando no desencadear da solenidade e pondo-nos em contato com os muitos artistas, músicos e compositores que enriqueceram aquela inesquecível noite.

Essa amizade com a Neide só trouxe proveitos para mim. Desde então, tenho-me valido dela para completar minha coleção discográfica de Forró, principalmente no que se refere aos inúmeros cantores que conheci em minha posse. Ela os procura pessoalmente, pede, compra, copia, enfim, faz de tudo para atender-me, jamais me cobrando um centavo sequer.

Pois agora, essa Pétala Negra de primeira grandeza, apeia-se de seu altíssimo pedestal, produz-se com esmero e posta sua fotografia com as Pétalas do Rosa no Facebook, em divulgação espontânea, isso tudo sem me pedir a remuneração, o cachê pelo serviço prestado! Não é a glória para Seu Rosa Ribeiro, meu pai? Seus 15 minutos de fama?

O livrinho, com 104 páginas, e fartamente ilustrado, nasceu de uma vontade minha de homenagear meu pai nos 40 anos de seu falecimento, ocorrido a 28 de maio de 1973. Antes de fixar a quantidade de exemplares da edição, procurei contabilizar a reduzida clientela para a qual se destinaria, eis que seu assunto não era de interesse geral, como em meus trabalhos anteriores.

Fiz um lançamento diferente, indo, sem aviso prévio, à casa de cada leitor escolhido. Primeiramente, selecionei, dentre entre os 850 endereços que tenho cadastrados, 353, todos de parentes, demais amigos, 24 confrades fubânicos e pessoas bem chegadas a nosso círculo familiar, quase esgotando a edição, que estabeleci em 400 unidades.

Aos escritores e artistas que sempre me agraciaram com seus trabalhos, os exemplares seguiram como cortesia. Aos fiéis leitores que, ao longo do tempo, me vêm prestigiando em minhas ousadias literárias, e a meus familiares, solicitei pequena ajuda para recuperar os gastos de produção, conforme papeleta anexada ao livro, fixando o quantum e indicando meus dados bancários para depósito.

Do total despendido com a gráfica a remessa, R$7.500,00, salvei R$3.600,00. Houve prejuízo? – alguns perguntarão. E eu respondo que não. A diferença a menor de R$3.900,00 compensa minha satisfação de ter mais um livro em meu currículo. E só quem já experimentou a sensação de lançar um livro pode avaliar a extensão de sua magnitude.

No domingo passado, fui convidado por membro ANE – Diretoria da Associação Nacional de Escritores a nela filiar-me. Se, com 5 livros publicados, sou reconhecido como merecedor de pertencer àquela coletividade, meus amigos, parentes e conterrâneos poderão, agora, enfunar o peito e dizer: – O Raimundo Floriano é um escritor brasileiro!

A experiência também teve seus réditos, ao orientar-me no lançamento dos próximos, Memorial Balsense, Caindo na Gandaia e Albuquerques do Sul do Maranhão, no quais estou trabalhando com afinco, devendo sair o primeiro, com a Graça de Deus, dentro de, no máximo, dois anos, quando você se cansarem das Pétalas.

Mas deixemos de leriado e voltemos a falar em nossa Pétala Negra, que tanto cartaz deu a meu livrinho, proporcionando a meu pai, Seu Rosa Ribeiro, os decantados 15 minutos de fama, e isso pelas ondas internáuticas.

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A Pétala Negra em relaxamento

Como se viu na foto acima, Madre Neide é mais ela! É autêntica! É íntegra! Há poucos dias, um facebookiano a chamou de morena. Pra quê? Ela quase soltou os cachorros em cima dele: – Dobre a língua, sou negra! Que papo é esse?

Também no Facebook, de brincadeira, Fábio Passa Disco afirmou que, se ficasse algum dia sem mulher, se amigaria com a Neide. Imediatamente, eu rebati informando-lhe: – Essa nêga já tem dono! E ela retrucou, na lata: – Dono, não! Sou escrava de vários “Senhores”.

Pronto! Eis a chave do mistério! Disse pouco e disse tudo! Sua afirmação tem o significado de que vários senhores cativaram seu coração. Essa cabroeira, constituída por todos nós, colunistas, leitores e comentarista fubânicos, tem, igualmente, seus corações cativados por nossa querida Musa.

Prova disso é que eu, não muito desinteressadamente, já me atrelei a tão rara preciosidade de ser humano, o que se comprova nestes dois mais belos sorrisos de toda a Nação Nordestina e Forrozeira:

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Cardeal Raimundo Floriano e Madre Superiora Neide

Como diziam os comediantes de antigamente, vamos botar música na conversa. Em homenagem a essa joia lapidada, aqui vai o samba Ninguém Tasca (O Gavião), de Mário Pereira e João Quadrado, gravação de Marinho da Muda para o Carnaval de 1973.

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WALTER BAUTISTA, MEU AMIGO CIENTISTA QUE SE FOI

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José Walter Bautista Vidal

Dois de março de 2012! Dia de festa na Hidroterapia! Por dois motivos.

Hoje, 2 de março, quando estas maltraçadas lhes escrevo, faz 7 anos que me iniciei na atividade hidroterápica, à qual, por motivos ortopédicos e males da idade, me incorporei por todo o decorrer do restante de minha vida e por isso tenho que dela tirar o máximo de prazer, transformando todas as sessões em motivo de alegria e satisfação. E ontem, 01.03, foi aniversário da oriental Dra. Ayda Jamal Daud, a Hidroterapeuta-chefe, mais uma razão para comemorarmos em grande estilo a data e demonstramos nosso contentamento em tê-la como zelosa cuidadora de todos nós, os hidroterapatas – neologismo que criei –, assegurando-nos o bem-estar físico e moral.

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Dra. Ayda, a Favorita do Sultão

A Dra, Ayda comanda uma grande equipe de fisioterapeutas, que nos atende em sua clinica particular, a REABILIT – ESPAÇO SAÚDE, na 910 Sul, em todos os fundamentos de sua especialidade – Fisioterapia, Pilates, Acupuntura, Massagem, RPG, Nutrição, Saúde do Idoso – e nas piscinas, onde praticamos os exercícios e alongamentos necessários a nossa recuperação. Sem falar nas massagens, que, às vezes, quando acertam nos nódulos, se assemelham a ferroadas de maribondos enlouquecidos. Mas depois, que alívio! Que celestial sensação de bem-estar!

Há 7 anos, quando me via impedido de caminhar, devido à imobilidade de minha perna esquerda, fui encaminhado a essa maravilhosa equipe, sob a proteção da qual me encontro até o presente momento e, acho, por toda a vida, eis que agora enfrentando os supraditos males da idade, para a cura dos quais ainda não foram descobertos medicamentos eficazes.

Quando cheguei à Hidroterapia, fui recebido pela Dra. Karina Ribeiro e pela Dra. Bárbara Priscila. Sendo Karina loura e Bárbara morena, passei a chamá-las de Feiticeira e Tiazinha. Essa dupla foi reforçada com a inclusão da japinha Luciana Kato e da chinesinha Hoa (pronuncia-se Roá).

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Dras. Karina, a Feiticeira, Bárbara, a Tiazinha, Luciana, a japinha, e a chinesinha Hoa

No início, as sessões eram realizadas na Academia BOCA, na 906 Sul. Como esta entrou em reforma, mudamo-nos, em novembro do ano passado, para a Academia Consciência Corporal, situada na EQL 06/08 do Lago Sul, ao lado da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

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Dra. Ayda fotografou: nossa piscina em dia de pouco movimento, comigo de touca vermelha

Nesses benéficos 7 anos, fiz conhecimento com centenas de colegas, incluindo os que vieram, os que ficaram por pouco ou muito tempo, e os que até hoje permanecem na atividade hidroterápica. Um dos mais antigos é o Walter Bautista – José Walter Bautista Vidal –, meu protagonista desta matéria.

Quando chegou, com seu roupão atoalhado e a touca marrom, fui batendo o olho nele e achando-o perecidíssimo com Papa João Paulo II, vivo na época. Por isso, dei-lhe logo o cognome de Papa Walter, com o qual até hoje o trato.

A Wikipédia diz pouco de sua biografia: “é um físico brasileiro, ex-professor da Universidade de Brasília que, juntamente com Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), foi o idealizador do motor a álcool”. Na Internet, o que mais se encontram são entrevistas e palestras que ele deu em ocasiões diversas, no Brasil e no Exterior.

Em nossas conversas, descobri que ele nasceu em Salvador (BA), a 12.12.1934. É, portanto o primeiro baiano fogoió que vim a conhecer.

Mas ele não gosta de falar de si próprio. Fica difícil, assim, traçar um seu perfil completo. Por este trecho extraído da Internet, obtém-se um pouco mais de sua história: “Foi Secretário de Desenvolvimento de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio dos Governos Geisel (1974-1978) e Sarney (1985-1988), sendo o responsável pela implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

Papa Walter retém na memória todos os fatos do passado, mas rapidamente, se esquece das coisas do presente. Gosto de brincar com ele, ensinando-lhe os nomes dos Cabras de Lampião. Às vezes, eu o vejo sorrindo e pergunto o motivo, ele responde que estava lembrando o nome dos cabras, mas só consegue falar o de Zé Maria. Aí, eu volto a ensinar: Zé do Cá, Zé do Ké, Zé o Ki, Zé do Có e Zé Maria. Com isso, ele sai repetindo os nomes, para não mais os esquecer. Por ora.

Mesmo assim é com os nomes das mulheres do Bando de Lampião: Maria Pata, Maria Peta, Paria Pita, Maria Pota e Maria Xuxa. Outro motivo de descontração para o amigo Papa Walter.

Embora desligadão da atualidade – Alzheimer na área –, brinda-nos com práticas de sua juventude, como a natação, em todos os gêneros olímpicos, demonstrando-nos que, em seu tempo de rapaz, foi um verdadeiro campeão. E isso também se lhe constitui em excelente terapia.

Ao focalizar a pessoa do amigo cientista Walter Bautista Vidal, presto sincera homenagem a todos os colegas hidroterapatas que continuam persistindo nessa atividade e agradeço a todas as hidroterapeutas que se esmeram na minoração do problema maior que nos reúne naquele quadrilátero aquático: a dor!

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Detalhe de nossa Confraternização Natalina/2011

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Esta matéria foi publicada aqui no Jornal da Besta Fubana no dia 5 de março de 2012. A partir de então, várias entidades de classe, como Clubes de Engenharia, sociedades científicas, universidades e pesquisadores individuais passaram a tê-la como ponto de partida, dirigindo-se a seu Editor, que a mim repassava todas as mensagens recebidas. A todos orientei, informando os contatos telefônico e internáutico de uma das filhas do cientista.

Há coisa de um ano, o amigo Walter começou a definhar fisicamente, o que nos privou de sua companhia na piscina. Desde então, passou receber atendimento fisioterápico individual em casa, contando com a gentil dedicação da Dra. Ayda, que sempre nos dava notícias dele, ultimamente muito desanimadoras.

Sábado último, 01.06.2013, eu estava aqui no computador quando minha filha Elba saiu de seu quarto e me falou: – Pai, aquele seu amigo faleceu. Aquele que criou o carro a álcool. Acaba de dar no Jornal Nacional!

Como o noticiário já estava em outro bloco de assunto, entrei mais tarde no Google e pesquisei. Era mesmo o Walter Bautista, a quem a TV Globo dedicara 19 preciosos segundos. E só!

No dia seguinte, domingo, ao receber o Correio Braziliense, do qual sou assinante, nada encontrei sobre o cientista, a não ser esta matéria paga:

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Dezenove segundos na Globo e sequer uma linha no Correio Braziliense! Agora, imaginem vocês a hipótese de o impasse ter ocorrido com outro importante vulto nacional, tipo Michel Teló! Já pensaram no pampeiro que a mídia faria?

Aliás, tem-se escamoteado tudo de bom que os governos passados fizeram em prol do Brasil, país que começou a existir a partir de 2003, quando o petismo se instalou no Palácio do Planalto. Vocês tiveram notícia de algum telegrama da Presidenta lamentando essa grande perda?

Também, pudera! Eu até justifico esse olvido! No domingo, a prioridade era bem outra e envolvia quase todos os corações e metes da Brasileira Nação: o jogo da Seleção Canarinha e, logo após, a partida de Neymar para Barcelona. Era desmantelo demais para um dia só!

Como sei que os pesquisadores continuarão a buscar informações sobre o agora saudoso amigo Walter Bautista, republico esta matéria, com os devidos acréscimos, fornecendo mais dados para essa preciosa fonte de consulta em que se está transformando o Jornal da Besta Fubana.

Amigo Walter, segure na mão de Deus e vá!

SARGENTOS CASTELLO BRANCO E AGAPENOR

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Pelotão da Saudade/2013: Acervo veterano Paulo Irineu

A foto acima registra o Pelotão da Saudade, formado por veteranos do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília, do qual sou um dos fundadores, nas comemorações de seu 53º Aniversário, ocorrido a 13 de maio, com a festa antecipada para as 20h00 do dia 9.

Compareceram veteranos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Triângulo Mineiro, além dos residentes aqui em Brasília e entorno. Formamos um contingente de aproximadamente 150 elementos, oriundos de turmas diferentes, mas irmanados todos no sentimento que nos une, como se todos nos conhecêssemos uns aos outros, dentro do espírito que nos norteia desde quando pela vez primeira pusemos o pé no pátio daquele quartel: Uma vez PE, sempre PE.

Nas reminiscências, duas figuras notáveis se faziam presentes nas lembranças da maioria, os Sargentos Castello Branco e Agapenor, que não é de meu tempo. Deve ter incorporado ou vindo de outra unidade após minha baixa, ocorrida em 1967. Já o Castello é meu velho conhecido, veio transferido da PE do Rio de Janeiro e hoje faz parte de meu círculo de amizades, não só pessoal, como no Orkut e no Facebook.

Desde 1967, eu perdera o contato com o Castello Branco, e só a maravilha da Internet nos colocou novamente em sintonia.

No ano de 2010, quando o Batalhão comemorou o 50º Aniversário, consegui formar um Pelotão de cerca de 50 amigos veteranos, vindos de diversas partes do Brasil, no meio deles, acompanhado de uma filha, o Castello, residente na cidade paraense de Itaituba. E foi então que pude avaliar sua personalidade, pois mal nos cruzávamos no serviço ativo, ele numa Companhia de Polícia, e eu na Companhia de Comando e Serviços.

É um prefeito cavalheiro, de educação esmerada, fino no trato, uma moça, como se costuma dizer ao elogiarem-se as lhanas qualidades de alguém. Mostrou que, no cumprimento do dever, seguia os regulamentos disciplinares e cumpria as atribuições pertinentes a sua graduação de Sargento do Exército Brasileiro. Por outro lado, como cidadão, exibe no presente a formação que recebeu de seus pais, confirmando aquilo que aprendemos no labutar com os recrutas ao se incorporarem ao Exército Brasileiro: o bom filho sempre será um bom soldado!

No dia 20 de maio, publiquei aqui em minha coluna a matéria Veteranos da 6ª Companhia de Guarda, quando fiz menção a três livros escritos alguns deles, dentre os quais este, que volto a focalizar:

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Seu autor, Luiz Alberto Rodrigues, goiano de Morrinhos, serviu no BPEB na Incorporação 1969/1970, concluiu o ginasial durante o serviço ativo, foi Cabo e, após a baixa, formou-se em Engenharia, pela Universidade Federal de Uberlândia. Entre as diversas funções públicas e cargos eletivos que exerceu, foi Deputado Federal Constituinte, eleito em 1986. Além disso tudo, traz o BPEB, o Exército e a Nação Brasileira bem incrustados no fundo do coração.

Nesse livro, além de fazer-nos relembrar os primeiros tempos da rotina da caserna, ele traça dois irretocáveis perfis dos militares que mais povoam as lembranças da maioria dos veteranos, ambos acima citados. Com sua autorização e também a do Castello – não consegui comunicar-me com o Agapenor -, aqui vou transcrevê-los, considerando os textos um primor de homenagem a esses velhos camaradas.

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Castello Branco: Acervo Facebook

SARGENTO CASTELLO BRANCO

O Sargento Castello Branco, segundo ele proveniente de tronco genealógico diferente dos Casello Branco do general-presidente, era branco, pele alva, cabelos lisos pretos, penteados com apoio de brilhantina. No visual, demonstrava dificuldade para manter o peso. Tinha cintura arredondada e o corpo volumetricamente desproporcional às pernas, que eram voltadas para dentro, daquelas cujos joelhos se roçam quando a pessoa caminha. Era especialmente vaidoso e andava sempre bem arrumado e janotinha. Apresentava elegância formal de pessoa bem-educada… Falavam na Companhia que ele era especialista em explosivos.

Conversava em voz baixa, em diálogos com interlocutor próximo e, para comandar, elevava a forçava o tom de voz, destacando, então, a clara dificuldade que ele tinha de pronunciar as consoantes, por ser portador de asafia acentuada. Seu comando para o Pelotão assumir a clássica posição de sentido soava exatamente assim: – Elotão… entiiidooo! O comando de meia-volta volver! saía como se segue: – Elotão… eia olllltaaa… ollveerr…

Era, deliberadamente, mau, dentro das regras do jogo, e não alisava ninguém. Nunca perdia a chance de fazer ironia com quem marcava bobeira. Tinha agudo senso de observação, sabendo notar quem estava viajando nos fins de semana sem a indispensável Guia de Licença, o documento oficial assinado pelo Comandante do Batalhão, fixando o período e autorizando a viagem. O Sargento Castello cobrava pessoalmente informações desses soldados espertos e, diante de contradições, avisava:

- Superior não erra. Superior eventualmente se engana. Tome muito cuidado, soldado, pois estou de olho em você!

Com o Pelotão em forma, na sua maneira característica de emitir os fonemas, dava instruções de como usar o chuveiro, onde os soldados tomavam banho em grupo:

- Eu filho, e o abonete air no anheiro, uidado ara egar ele no chão. Agacha com a unda unto da arede, se não a truta oadora ode aparecer e… né?

Nas noites em que estava de Sargento de Dia, gostava de jogar xadrez. Era jogador de nível apenas razoável. O melhor jogador da Companhia, com quem eu de vez em quando disputava e perdia partidas, era o Soldado Godoy, que era muito magro, tinha o rosto levemente encovado, queixo proeminente e apresentava rugas precoces na face. Seu apelido era “Velho”.

Godoy fez o CFC – Curso de Formação de Cabos -, tendo sido aprovado e, por ser conhecida sua inteligência e habilidade no jogo de xadrez, era convidado como voluntário para jogar com o Sargento Castello Branco. Lembro-me de certa vez em que eu estava assistindo a uma partida entre os dois, na sala do Sargenteante, pouco antes do Pernoite. Godoy, brilhantemente, montou uma situação para dar o xeque-mate, momento a partir do qual começou a mover as peças de maneira bisonha. O Sargento, que tinha percebido a própria dificuldade anterior, não se fez de rogado, ganhando as posições gentilmente oferecidas pelo Godoy, enquanto dizia:

- Ão é a elhor ogada! As e ocê er assim… udo bem!

Terminado o jogo, longe, do Sargento, perguntei ao Godoy por que ele tinha entregado a partida. Ele respondeu sorrido:

- Rodrigues, eu conheço o Sargento Castello Branco. Se eu ganhasse esse jogo, ele ia arranjar uma maneira de me sacanear. E eu não sou bobo. Ele me convida para jogar é para eu perder!

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Agapenor: Arte de Juarez Leite

A FERA: SARGENTO AGAPENOR

Na Primeira Companhia de Polícia, o Sargento Agapenor era personalidade marcante e, a seu modo, carismática. Era pardavasco, tinha cabelos crespos e bigode grande descendo pelos lados da boca, quase tipo mexicano, mas aparado embaixo. Sua altura era em torno de um metro e noventa centímetros. Era muito forte. Tinha braços e peitorais estruturados, embora não possuísse corpo modelado de atleta. Estava um pouco para gordo, mas nas instruções demonstrava ótimo preparo físico. Tinha ombros largos, barriga forçando um pouco a jaqueta da farda, levemente alta por inteiro, administrada à custa de muita ginástica abdominal, por um lado, e de vodca com peppermint e ração de tira-gosto por outro. Adorava comer bem e muito. Era exigente com os companheiros de cozinha e garçons. Em operações militares pela Cia Tar no Norte do País, sugeria cardápios aos responsáveis pelo fornecimento da refeição para a Tropa, além de comparecer ao local reservado onde era servida a melhor cachaça disponível em Araguaína, da qual ele bebia dose generosa antes de “avançar rancho”.

Quando no início da incorporação, na apresentação inicial dos Sargentos feita pelo Capitão aos conscritos, o Sargento Agapenor foi indicado sobriamente como um bom instrutor. Assim que o Capitão lhe passou o comando e se retirou, iniciamos o Período de Adaptação, com a fala introdutória feita no seu vozeirão de barítono, que ecoava longe e impunha respeito. Iniciou sua autoapresentação com uma definição pessoal que foi comprovada ao longo do ano inteiro que se seguiu. Eis o que disse, começando a conversa:

- Eu sou a fera… Sargento Agapenor! E continuou: – Podem perguntar a meu respeito para aqueles Soldados que ajudei a formar. Eu sou inesquecível!

O Sargento Agapenor não só era forte: parecia muito forte. Quando comandava Patrulha em Brasília, era uma figura aterradora para os soldados alterados. Parecia ter três metros de altura por dois de largura. Vestia-se no modelo alinhado da PE. Farda bem passada e cortada justa, perna da calça virada acima do coturno, pistola Colt 45, que usava no estilo caubói, deixando o coldre descer ao lado da perna, por colocar o cinto meio folgado, em posição diagonal na cintura, mais alto do lado esquerdo do corpo e mais baixo do lado direito. Na parte final do coldre, duas tiras de couro fino amarravam-no à perna, logo acima do joelho.

Parecia pronto para um duelo cinematográfico no estilo Velho Oeste norte-americano e usava o capacete com o emblema da PE na testa, seguro justo no queixo pela barbela, dando destaque para o seu olhar de homem mau. Nessas situações, caminhava com os braços meio abertos, levemente afastados do corpo, posição natural das pessoas que fazem muito exercício físico e ficam com as asas das costas bastante definidas, como os halterofilistas. Presenciá-lo liderando uma Patrulha urbana era um acontecimento único; estar com ele numa dessas tarefas, um risco permanente.

Devo dizer, no entanto, que, com esse jeito meio fanfarrão e ameaçadoramente truculento, o Sargento Agapenor ia aos poucos conquistando a simpatia de alguns soldados, enquanto provocava fúria em outros. Na contagem final, porém, havia mais adeptos que opositores.

Ele era valente e contava prosa. Instrutor duro, fazia questão de mostrar isso todo dia. Não tinha perdão: exercício comandado por ele era de lascar. Adorava puxar treinamento simulando ataque ao inimigo, com os soldados sendo obrigados a correr pequena distância e em seguida dar um mergulho no chão, independentemente do tipo de vegetação do campo. Chamava esse treino de corre-e-deita. O avanço do treinamento seguia com a repetição do exercício e o Sargento Agapenor comandando:

- Soldados, de pé, avançar… Deitados, rastejando, rápido… De pé, correndo… Deitados, rastejando, cabeça baixa, bem junto ao chão… De pé, correndo, correndo… Deitados, rastejando…

Se algum soldado tentava embromar, não se deitando e rastejando direito, logo o Sargento estava por perto e, sem mais nem menos, pisava nos costas do enrolador, colocando no pisão todo o peso do seu corpanzil e gritando:

- Eu estou dizendo deitadoooo! Assim bem junto ao chão! Tá vendo! Não é agachado, não! É deitadoooo e rastejando… Se for preciso, eu venho te ensinar outra vez! Entendido?

Quando aplicava o corre-e-deita, o Sargento Agapenor, sem saber, recebia insultos extensivos à Senhora Sua Mãe. Era xingado em voz baixa, muito baixa, quase num sussurro, evidentemente.

Ao referir-me aqui às mães dos sargentos, quero esclarecer que nós, soldados da PE, sempre consideramos os sargentos idênticos aos juízes de futebol, quando em campo: têm duas progenitoras, a primeira, a santa e respeitável mãe verdadeira, e a outra, uma “mãe de reserva”, para ser xingada. Portanto, não havia nenhuma intenção de ofensa pessoal nos xingamentos, que eram, digamos, institucionais e silenciosos.

O Soldado Righi, natural de Belo Horizonte, era magro e legítimo descendente de italianos no nome, no tipo físico e no temperamento irritadiço. Bom companheiro, Righi ficava revoltado com esse tipo de treinamento e, como gostava de xingar para desabafar, o fazia entre dentes, sussurrando e cuspindo raiva. Quando eu estava rastejando a seu lado, não conseguia deixar de rir das referências ao Sargento. Certa vez, Agapenor percebeu minha alegria e perguntou alto:

- Ô Rodrigues, tá rindo de quê? Tem algum palhaço por aqui? Tá achando pouco?

Fiquei sério e respondi, para não piorar a situação:

- É que nós caímos de mau jeito, e achei graça, sargento!

Nas Patrulhas rotineiras, era utilizado o cassetete antidistúrbio, um porrete de setenta e oito centímetros de comprimento e cinco de diâmetro, confeccionado com o cerne maciço da popular madeira de lei chamada jacarandá. O cassetete tinha excelente empunhadura e um laço de corda fina para envolver o pulso e evitar sua queda, aumentando o alcance quando necessário. O giro em velocidade ara feito soltando o cassetete preso ao pulso pela alça e batendo no oponente em fuga. Servia para caçar soldados desordeiros. Nas incertas, o Sargento Agapenor dizia:

- Cassetete não é santo, mas faz milagres! Se for preciso, senta o jacarandá neles!

* * *

Esta matéria será lida por muitos veteranos, o que me leva postar aqui o escudo do BPEB e sua canção. Inicialmente, o escudo:

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A Canção do BPEB foi composta pelo então Tenente Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, hoje General da Reserva, que participou da Festa do 53º Aniversário, aqui interpretada pela Banda de Música daquele Batalhão: 

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SANTO ANTÔNIO, SEU FESTEJO E SEU HINO

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Santo Antônio, Padroeiro de Balsas, minha terra natal, sertão sul-maranhense, tem seu Festejo no período que vai de 1º a 13 de junho. É ele o Santo mais popular do Brasil, venerado como Padroeiro dos Pobres e Santo Casamenteiro, com seu nome sempre invocado para se achar objetos perdidos.

Fernando Bulhões – nome de batismo – nasceu em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto de 1195, numa família de muitas posses, e veio a falecer na cidade italiana de Pádua, no dia 13 de junho de 1231. Conhecido Como Antônio de Pádua, pela morte, e Antônio de Lisboa, pelo nascimento, seria mais apropriado chamá-lo apenas de Antônio de Lisboa, assim como a cidade de Assis, na Itália, deu nome para São Francisco.

Aos 15 anos, entrou para um convento agostiniano, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, onde se ordenou. Em 1220, trocou o nome para Antônio, ao ingressar na Ordem Franciscana, esperando, a exemplo dos mártires, pregar aos sarracenos no Marrocos.

Após um ano de catequese em Marrocos, teve de deixá-lo, devido a uma enfermidade, e seguiu para a Itália. Indicado Professor de Teologia pelo próprio São Francisco de Assis, lecionou nas Universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-en-Velay e Pádua, adquirindo grande renome como orador sacro em Portugal, no Sul da França e na Itália.

Ficaram célebres os sermões que proferiu em Forli, Provença, Languedoc e Paris. Em todos esses lugares, suas prédicas encontravam forte eco popular, pois lhe eram atribuídos feitos prodigiosos e milagres, o que contribuía para o crescimento de sua fama de santidade.

A saúde sempre precária levou-o a recolher-se ao convento de Arcella, perto de Pádua, onde escreveu uma série de sermões para domingos e dias santificados, alguns dos quais seriam reunidos e publicados entre 1895 e 1913.

Antônio faleceu, como foi dito, a 13 de junho de 1231, vítima de uma crise de hidropisia – acúmulo patológico de líquido seroso no tecido celular ou em cavidades do corpo. A 13 de maio de 1232, apenas 11 meses depois de sua morte, foi canonizado pelo Papa Gregório IX.

Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a Basílica a ele dedicada.

A profundidade de seus textos doutrinários fez com que, em 1946, o Papa Pio XII o declarasse Doutor da Igreja. Mesmo com esse pomposo título, o monge franciscano conhecido como Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa tem sido, ao longo dos séculos, objeto de grande devoção popular. Sua veneração é muito difundida nos países latinos, principalmente em Portugal e no Brasil.

Sua instituição como Padroeiro de Balsas deu-se com a chegada naquela região do baiano Antônio Jacobina, no final do Século XIX, considerado o verdadeiro fundador da cidade, que, por ser devoto de Santo Antônio, ali construiu sua primeira capela, dando início aos festejos anuais, ao qual acorriam moradores das redondezas, surgindo daí o povoamento com o nome de Vila Nova, depois mais conhecido como Santo Antônio de Balsas.

Muito se tem escrito sobre as festas religiosas de nosso sertão. Escolhi um poema do saudoso conterrâneo Sileimann Kalil Botelho, falecido a 24.04.13, aos 86 anos de idade, em Sobradinho (DF), como símbolo dessa nossa literatura:

FESTAS DE JUNHO

Na minha terra, tempo de menino,
Junho era festa pelo mês inteiro.
Sem importar se noite ou sol a pino,
Trezena a Santo Antonio vindo primeiro.

Treze dias de festa ao peregrino
E milagroso Santo Padroeiro;
Moças solteiras, quase em desatino,
Pedindo noivos ao casamenteiro.

Depois vinha o São João das bandeirolas:
Multicores balões subiam ao espaço
Simbolizando sonhos e esperanças.
E enamorados jovens e moçoilas
Saltavam fogos com desembaraço,
Iam às quadrilhas, se entreter nas danças.

Depois vinha o São João dos Caipiras,
Das fogueiras brilhantes, das Quadrilhas
Onde todos dançavam com fervor,
As tradições das gentes dos Timbiras,
Os doces, os petiscos-maravilhas,
Incontrastáveis relações de amor.

A TRADIÇÃO DO FESTEJO DE SANTO ANTÔNIO

Saí de Balsas no dia 5 de fevereiro de 1949, para estudar em Floriano, aos 12 anos de idade, e as lembranças do Festejo de Santo Antônio, que guardo ainda bem vivas, indeléveis no coração, remontam-se, hoje, ao período de minha venturosa infância balsense.

Padre Clóvis era o Vigário da Paróquia e, no Festejo, era auxiliado pelas mãos laboriosas de senhoras mães de família, algumas delas que ora menciono: Naninha Soares, Febrônia Tourinho, Zefinha Rocha, Naninha Cansanção, Ceci Florentino, Laura Rocha, Luzia Félix, Sindá Borba, Eva Solino, Milu Fonseca, Dolores Lima, Esperança Souza, Maria Luísa Solino, Petronilha Matos, Jesus Reis, Munduca Noleto, Alzira Barbosa, Emília Câmara. Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, sempre provia a mesa dos leilões com pratos de sua refinada culinária. Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãe, entregava-se de corpo e alma à operosidade da festa, fazendo guloseimas, angariando joias e donativos, isto é, trabalhando dia e noite sem descanso. Esse fervor e essa dedicação transmitiram-se, mais, tarde, para a Maria Alice, minha irmã, e, posteriormente, para a Isaurinha, sua filha.

O Festejo de nosso Padroeiro era esperado por toda a população urbana e rural, e os sertanejos de fora aproveitavam-no para trazerem seus produtos, ansiosamente esperados, destacando-se frutas raras na cidade, como abacate, jaca e tangerina. Havia também as delícias vindas dos engenhos: garapa, rapadura, batida, tijolo, alfenim.

Os botequins, todos de palha, armados em frente à Igreja Matriz, exibiam, além das frutas da época, miudezas em geral, como cintos, linhas de pesca, sapatos, chapéus, utensílios domésticos, lanternas, bijuterias, espelhos e bugigangas diversas.

Em adição aos itens já citados, os botequineiros vendiam comidas e bebidas, destacando-se a gengibirra – produto regional –, conhaque e cachaça, muita cachaça. Cerveja, só nos raros botequins que possuíam geladeira a querosene. Não fazia diferença se a bebida fosse quente ou fria. No Festejo, Balsas transformava-se no maior exportador brasileiro de garrafas vazias.

Também havia vários tipos de jogo, como o do bicho, na roleta, e o do caipira, este bancado pelo Cadete, simpático e popular cidadão conterrâneo, que apregoava:

– Olha o jogo do caipira, quem mais bota, menos tira!

Na barba-de-são-severino, certo tipo de pescaria, com um molhe de linhas, cada qual amarrada a objetos de pequeno valor, mas, no meio deles, um grande prêmio. O jogador pagava e escolhia a ponta da linha para puxar. Ganhava aquilo que tivesse a sina de arrastar. O marreteiro anunciava:

- Aqui é a barba-de-são-severino, jogam homens, mulheres e meninos e o povo aviciado. O homem que apanha da mulher, não vai dar parte ao delegado!

Ladeando a Matriz de Santo Antônio, as duas barracas da Paróquia, de madeira e tecido, nas quais eram oferecidas comidas típicas, saladas de fruta, café, chocolate, bolos da região, cerveja, refrigerante e refresco, que nós chamávamos de “gelado”. A renda maior, toda revertida para a Matriz, provinha dos leilões e da venda de votos para a Rainha da Festa. Luiz da Iaiá era o mais competente leiloeiro, apregoando as joias na força do gogó.

Nas madrugadas do primeiro e do último dia do Festejo, eram realizadas, no patamar da Matriz, as alvoradas festivas, com muito foguete, tendo a música a cargo do Martinho Mendes e Seu Conjunto. No mesmo molde, diariamente, ao meio-dia, realizava-se a retreta.

A Missa era celebrada apenas no dia 1º, aos domingos e no dia 13 de junho, Dia do Padroeiro, e final do Festejo, quando a população se esmerava no trajar, para louvar em grande estilo o Santo de sua devoção. Ao cair da noite do dia 13, saía a Procissão pelas ruas da cidade, com o andor do Padroeiro seguido à frente, ladeado por duas colunas: à direita, os homens; à esquerda, as mulheres. A seguir, rezava-se a última trezena, depois da qual se dava a última quermesse, com a coroação da Rainha do Festejo.

Em 1999, decorridos 50 anos, voltei a assistir ao Festejo de Santo Antônio. Quanta coisa mudara!

A barraca era uma só. Acabara-se a disputa para ver qual a mais rendosa e também qual elegeria a Rainha. Os botecos, à frente da Matriz, agora num espaço denominado Iraque, esmeravam-se apenas na venda de cerveja e refrigerantes. As tendas dos camelôs substituíram os botequins com produtos sertanejos. O leilão e toda a animação da quermesse estavam sob a batuta do criativo Likuta, com seu serviço de som, preferido por sua habilidade no trato, versatilidade e simpatia. Eram os sinais evidentes do progresso, marcado pelas novidades advindas com o passar do tempo.

Algo não mudou. A religiosidade do povo balsense permanece forte, decidida, incondicional. E isso pode ser confirmado na Procissão do dia 13. Na última vez em que dela participei, calculei uma multidão de devotos que ultrapassava a casa dos dez mil!

E outro aspecto permanece igualmente imutável: a retreta ao meio-dia, na hora do Terço. A cargo do Mestre Riba e sua turma, essa retreta me leva como num passe de mágica a minha infância distante, o que me faz dela participar todos os dias, quando por lá me encontro. Em que pese a insensibilidade dos tempos modernos, é uma tradição que não pode se acabar.

Tenho praticado minha devoção a Santo Antônio com pequenos gestos, no intuito de cada vez mais divulgar seu santo nome sempre que me surge a oportunidade. Em frente à Igreja Matriz, lancei os dois mis conhecidos de meus livros: Do Jumento ao Parlamento, na noite de 12 de junho de 2003, e De Balsas Para o Mundo, na noite de 12 de junho de 2010.

A gravação do Hino de Santo Antônio, composição e Eleutério Rezende, a duas vozes, acompanhadas por instrumentos de sopro e bateria, num andamento vibrante, como deve ser todo o hino de louvor, era um sonho que acalentei por muitos anos e só em 2013 consegui realizar. Eis a letra e a partitura, esta elaborada pela Professora Silvana Teixeira, residente em Brasília:

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Aqui, a letra em sua íntegra:

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A gravação ficou a cargo dos cantores brasilienses Mércia Cairis e Felipe Rodrigues, do Estúdio Verbo Vivo:

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Mércia Cairis e Felipe Rodrigues

E fechando com chave de ouro esse preito a Santo Antônio, produzi também um vídeo, que será posta do na Internet, especialmente no Jornal da Besta Fubana e no Facebook, ao qual vocês poderão assistir agora:

VETERANOS DA 6ª COMPANHIA DE GUARDA

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Brasão da 6ª de Guarda

Amanhã, dia 21 de maio de 2013, comemora-se o 55ª Aniversário da 6ª Companhia de Guarda, primeira Tropa Militar a instalar-se em Brasília, instituída pelo Decreto nº 42.269, de 17 de setembro de 1957, para efetuar a segurança do Presidente da República, bem como das repartições presidenciais já existentes na Nova Capital ainda em construção.

O ponto de concentração de seu pessoal fora estabelecido em Goiânia, a partir de 15 de fevereiro de 1958, compondo-se ele de militares oriundos de várias Unidades Território Nacional, a maioria do 6º Batalhão de Caçadores, ali sediado, no que se refere a cabos e soldados.

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Quartel da 6ª de Guarda: acervo Coronel Jannuzzi

No dia 21 de maio de 1958, a Unidade ocupou os barracos de madeira das antigas instalações da Companhia Pacheco Fernandes, às margens do Lago Paronoá, próximo ao Palácio da Alvorada, dando inicio ao serviço de guarda e segurança para os quais fora criada, sendo o embrião do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial e do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília, o Batalhão Brasília, ao efetivo do qual pertenci de 17 de dezembro de 1960 a 28 de maio de 1967.

O primeiro desfile oficial da Companhia aconteceu no dia 30 de junho de 1958, prestando honras ao Presidente Juscelino Kubitscheck, na inauguração do Palácio da Alvorada.

Os livros que tratam dos pioneiros de Brasília deixaram de mencionar os nomes de todos esses militares que compunham o efetivo da 6ª Companhia de Guarda no dia 30.06.58, quando ela, para todos e efeitos, passou a existir no Cenário Militar Brasileiro. O compêndio mais completo, Os Pioneiros da Construção de Brasília, de Adirson Vasconcelos, 2 volumes, 1.034 páginas, até mesmo ao relacionar os oficiais, deixa de fora os Tenentes Barbosa, Caetano, Jannuzzi e Paulo Ney. Quanto às praças, de menor visibilidade, nada a declarar.

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PÉTALAS DO ROSA LIVRO – HOMENAGEM A MEU PAI

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  Capa do livro – 104 páginas

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  Orelhas 1 e 2

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Contracapa

APRESENTAÇÃO

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Rosa Ribeiro

Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, meu pai, nasceu na Fazenda Brejo, Município de Floriano (PI), no dia 17 de fevereiro de 1891.

Filho do Capitão Pedro José da Silva e de Dona Isaura Maria de Sousa e Silva, compunha prole de dezessete irmãos. Os dois mais velhos, Raimundo Ribeiro e João Ribeiro, provinham de casamento paterno anterior, deles derivando-se o sobrenome com que os demais ficaram para sempre conhecidos.

Ainda em sua infância em Floriano, para onde a família transferiu a residência, frequentou o Curso Primário. Na adolescência, trabalhou como empregado em várias casas comerciais daquela cidade.

Organizado, meticuloso e metódico, iniciou, em 1909, a anotação numa caderneta dos fatos significativos que viveu ou presenciou, fonte agora que se revela utilíssima e imprescindível na elaboração deste trabalho. Era o prenúncio do futuro tabelião.

O ano de 1916 foi particularmente marcante em sua existência. Em meados de junho, incorporou-se a uma tropa de 350 patriotas que, sob o comando do Major Carlindo Nunes, se integrou a uma força de 1.500 guerreiros liderados pelo Coronel Constâncio Carvalho, deslocando-se para Teresina (PI), Capital do Estado, onde, a 1º de julho, vencidos os adversários, adeptos da facção denominada miguelistas, deram posse ao legítimo Governador, Doutor Eurípedes de Aguiar. A 1º de agosto, seguiu de mudança para a Vila de Santo Antônio de Balsas (MA), aonde chegou no dia 14, às seis horas da tarde, trabalhando, inicialmente, como negociante.

Referindo-se àquele período, assim se expressa Eloy Coelho Netto, no livro História do Sul do Maranhão: “Numerosos chefes de família desta época entraram definitivamente para a História de Balsas e foram elementos em prol na sua vida política, social e econômica… como os irmãos João Ribeiro da Silva, José de Sousa e Silva e Emigdio Rosa e Silva, que desenvolveram, com trabalho e inteligência, o comércio e legaram às suas famílias e ao lugar exemplos de tenacidade dos que chegam para a conquista da vida e constroem o amanhã, transmitindo a seus descendentes precioso legado moral”.

Circunspecto, tímido e extremamente reservado, dono de afiado espírito crítico e verve aguçada, divertia-se intimamente diante do açodamento daqueles que não se acanhavam na prática do disse-me-disse, na revelação de segredos e na exposição a público de assuntos pessoais. Via, ouvia e calava. Esta prudência fez escola. O nome Rosa Ribeiro virou sinônimo de discrição.

Depois da elevação, em 1918, da Vila de Santo Antônio de Balsas à categoria de Município, Rosa Ribeiro retirou-se da atividade comercial e ingressou no Serviço Público, tendo exercido os cargos de Escrivão Policial, Delegado de Polícia, Escrivão Eleitoral e Tabelião do 2º Ofício, no qual permaneceu até aposentar-se, alcançado pela Compulsória.

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Maria Bezerra

Casou-se, a 20 de dezembro de 1919, com Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, então com dezessete anos, nascida no Loreto (MA), no dia 05 de janeiro de 1902, filha de José Bezerra de Farias e Ana de Albuquerque Bezerra.

Maria Bezerra, durante toda sua vida, esmerou-se na assistência às pessoas carentes, na organização e operosidade de festejos religiosos e na transmissão de conhecimentos práticos. Perita em corte e costura, bordado, tecelagem, artesanato em tecido, massa, papel, metal e algodão, confeitaria e culinária, ministrava essas prendas domésticas a mocinhas de famílias menos abastadas. Era a Madrinha Maria de todas.

Seu salão de trabalho constituía-se numa verdadeira Escola de Arte. Consolava os aflitos, aconselhava os transtornados, visitava os enfermos, assistia aos agonizantes, e a todos ajudava espiritualmente. Ao falecer, com 67 anos, no dia 17 de fevereiro, aniversário de Rosa Ribeiro, em 1969, ano em que seriam comemoradas suas Bodas de Ouro, era comum ouvir-se na cidade e em seus arredores: “Morreu a Mãe dos Pobres de Balsas!”.

Rosa Ribeiro e Maria Bezerra tiveram 10 filhos: Maria Isaura, professora e bandolinista; Pedro, funcionário público, agropecuarista, escritor, orador e violonista; Maria Alice, tabeliã, professora e florista; José, bancário, poeta e cantor; Bergonsil, químico industrial e artífice; Afonso Celso, funcionário público, advogado, gaitista, sanfoneiro e tecladista; Raimundo Floriano, funcionário público, contador, cordelista, escritor e trombomista; Maria Iris, professora e calígrafa; Rosimar, médico e cirurgião; e Maria das Dores, recentemente renomeada Maria dos Mares, assistente social, pintora, xilógrafa e escultora. Vinte e nove netos e trinta e sete bisnetos completam sua descendência.

A 28 de maio de 1973, Rosa Ribeiro deixou a vida terrena, com a idade de 82 anos.

Em 1982, durante a Administração do Prefeito Jorge Moreira Kury, a Câmara Municipal de Balsas homenageou Rosa Ribeiro e Maria Bezerra, dando seus nomes a duas ruas da cidade.

O dia 17 de fevereiro de 1991 assinalou o Centenário de Rosa Ribeiro, e 5 de janeiro de 2002, o de Maria Bezerra.

Maria Isaura, Maria Alice e Afonso Celso já não continuam conosco.

No dia 28 de maio de 2013, portanto, faz exatamente 40 anos que papai nos deixou. Para marcar essa data, tomei a difícil resolução de editar este livreto, no intuito de, assim, prestar-lhe singela homenagem, pois conheço muito bem o quanto é difícil a arte de escrever.

Procuro publicar tudo o que escrevo. E é com esse pensamento que espero cumprir o desejo não expresso de papai, qual seja o de ter seus escritos, de 1909 a 1971, levados ao conhecimento, pelo menos, de seus filhos sobreviventes, eis que apenas três os conhecem parcialmente: Bergonsil, em posse do qual se encontra a caderneta supramencionada, Rosimar, detentor de algumas crônicas manuscritas, e eu, que tudo transcrevi.

O título deste livreto é bem apropriado: Pétalas do Rosa. Como toda rosa tem espinhos, aqui se encontram alguns, miudinhos, do ano de 1960, que não pude evitar, pois transcrevi fielmente todos os textos, sem interferir no conteúdo, restringindo-me à atualização ortográfica, divisão dos assuntos em capítulos e, em certos casos, acréscimo de datas, para melhor compreensão, e imagens, visando a amenizar a monotonia da leitura.

Com o Bergonsil, ficaram as pétalas. E, com o Rosimar, os espinhos, que papai encaminhou num antigo envelope de votação, pedindo até que os rasgasse, conforme adiante se vê:

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O conteúdo deste livreto tem caráter muito restrito, apenas interessando a historiadores, a nosso círculo familiar, demais amigos e, especialmente, aos filhos de Rosa Ribeiro e Maria Bezerra ainda vivos:

Pedro Albuquerque e Silva
José Albuquerque e Silva
Bergonsil de Albuquerque e Silva
Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva
Maria Iris Albuquerque e Silva
Rosimar Albuquerque e Silva
Maria dos Mares Albuquerque Silva e Silva

O que se lerá nas 104 páginas do livro é fruto do senso de organização de papai, assim como de sua verve criativa. São pétalas de uma rosa bem nossa.

Além de tudo isso, papai deixou-nos suas pétalas mais valiosas, configuradas na linda família que construiu, cujos membros se orgulham de sua origem e prosseguem na maravilhosa missão de ornamentar a Terra.

Brasília, maio de 2013. Raimundo Floriano

MODERNIDADE NA CASA NOVA DO TIO TRUTO

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Nova casa do Tio Truto, e a sentina modernosa

Aconteceu no ano de 1956. A notícia explodiu em Floriano como bomba atômica, de efeito avassalador:

- A casa nova que Seu Truto – meu tio – acabou de construir em Teresina tem uma sentina dentro dela!

Naquele tempo, ainda não existia apartamento no Piauí, e todas as residências tinham no quintal uma casinha ou um cercado de madeira ou de talos de buriti, a dita sentina, na qual os moradores satisfaziam suas necessidades mais urgentes e inadiáveis.

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Sentinas dos quintais sertanejos: faltou sabugo

Sob a administração da Tia Loura, mulher do Tio Truto, e com financiamento da Caixa Econômica Federal, que exigiu planta assinada por arquiteto ou engenheiro, a casa fora apetrechada de instalações sanitárias condizentes com o progresso que começava a chegar nas terras piauienses.

Tia Marinaura, irmã de papai e do Tio Truto – solteirona, que não tolerava ser chamada de tia –, alta funcionária dos Correios e Telégrafos em Floriano, esteio dos irmãos, que ajudara quase todos os sobrinhos nos estudos e na formação – inclusive eu -, convocou uma reunião familiar para debater o assunto, motivo de censura para todos os parentes, em particular, e para o povo da cidade, em geral. Ficou deliberado que o Comandante João Bínaco – Tio João Binho -, o caçula, em suas viagens pelo Rio Parnaíba com o Motor João Ferrão, ao dar a passadinha de sempre na casa do Tio Truto, de quem era afilhado, para tomar-lhe a bênção, averiguasse o boato e, na volta, fizesse um relatório circunstanciado, confirmando ou desmentindo tamanho despautério.

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Sucata do Motor João Ferrão: a sentina era todo o Rio Parnaíba

Com o retorno do Tio João Binho, Tia Marinaura convocou nova reunião, sob sua presidência, para ouvir a explanação do Comandante, da qual participaram os seguintes membros: Tia Juliana, Tia Olivinha, Tia Onedina e Pedro Barbalho, seu filho, além do Relator. Este iniciou sua exposição narrando o que testemunhara in loco, ou seja, confirmando tudo e causando verdadeiro espanto em todos os presentes, que externaram suas dúvidas: como ficaria a convivência com o odor natural de qualquer sentina?; qual seria a reação dos demais moradores se um incontido flato de maior sonoridade escapulisse daquela dependência?; como seria feita a limpeza após o uso, vez que nos quintais florianenses a faxina ficava a cargo das galinhas e dos porcos, para isso criados à solta?; usava-se o costumeiro sabugo para a limpeza corporal?

O Relator nada esclareceu, alegando que apenas averiguara o fato, mas não tivera a coragem de aliviar-se “naquilo”. Um dos presentes indagou se tal dependência também seria usada para as pessoas se banharem. A resposta positiva do Relator só fez mesmo foi aumentar o escândalo e a perplexidade que afligiam todo o clã.

Diante da cruel realidade, Tia Marinaura, não contendo sua irreprimível indignação, deu por finda a assembleia, dissolvendo-a com esta exclamação:

- Isso só pode ser invenção da Loura, pois o Truto não seria capar de fazer tamanha besteira!

(Episódio narrado por um dos filhos do Relator, o primo Mairton, que, escondido atrás duma porta, a tudo testemunhou.)

Charge extraída do Jornal da Besta Fubana em 22.03.1913:

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No Brasil, é quase assim também

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Sertão brasileiro: sentina de posto de gasolina

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Sertão africano: desentupidor flatônico de sentina

FRED MONTEIRO, O OSGÁFILO

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Fred Monteiro: talento multifacetado

Em minha idade – 77 chegando em julho próximo –, é muito difícil engatar novas amizades, motivo pelo qual esforço-me ao máximo para conservar as que amealhei em todo esse tempo, principalmente diante fato de ser eu pessoa de não fácil coexistência. Para mantê-las, faço de tudo: engulo cobras, sapos e lagartos, finjo-me de mais mouco que o natural, relevo, perdoo quando perdão não me é solicitado, na certeza de que o tempo aplainará todas as asperezas e arestas deixadas em momentos de cabeça quente ou diálogo exaltado.

Como eu falava, fazer novas amizades é para mim barreira quase intransponível. Quer dizer, era, pois isso se modificou desde o surgimento do Jornal da Besta Fubana, do qual sou colunista desde a primeira hora em que ele se transformou com blog.

O JBF teve o condão de lançar-me no cenário internáutico, publicando meus textos e comentários, e fazer-me conhecido numa coletividade de intelectuais que hoje representa a nata da Cultura Brasileira. Com 255 matérias semanais postadas ininterruptamente, incorporei-me, até pela assiduidade e persistência, aos homens que hoje, na Literatura Nordestina e na Música Regional, com seus textos e composições, resgatam nossas mais legítimas tradições culturais.

Dentre eles, o escritor, poeta, compositor, músico e produtor alagoano Fred Monteiro. Começamos tirando nossa dúvidas, trocando figurinhas, complementando nossos acervos e, quando menos percebemos, já estávamos com a amizade sedimentada, mais grudada que nem catarro na parede, da qual só venho lucrando, como vocês verão a seguir.

Com minha postagem de Música Militar na Internet, Fred revelou-me ser autor do Dobrado General Lima Verde, no que foi contestado na hora, pois de há muito eu sei que o autor da peça é Paulo Roberto Pacífico. Fred, do outro lado, teimou, fincou pé, e eu lhe pedi que mandasse o áudio de sua autoria. No que ele não se fez de rogado, até mesmo para esfregar-me sua verdade na cara, enviando-me o CD No Tempo dos Coretos:

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O CD não só tirou minha dúvida, pois o dobrado de Paulo Roberto Pacífico é General Júlio Lima Verde, como também me revelou um compositor nordestino de peso, até então desconhecido para mim. Depois de ouvi-lo, só me restou a manifestação de um desejo: quero mais!

E Fred satisfez esse irrefreável anseio de colecionador, enviando-me sua obra completa neste CD, Formato MP3, sob o título Memória Musical – As Músicas de Fred Monteiro:

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Com 71 faixas, o disco traz-nos amostra geral dos gêneros musicais que mais apreciamos: xote, arrasta-pé, baião, frevo-canção, frevo de bloco, frevo de rua, maracatu, ciranda, marcha de la ursa, maxixe, bolero, acalanto, choro, valsa, ragtime, balada, marcha americana, dobrado e, até, uma sinfonia. Madeira de dar em doido!

Fred Monteiro, desde cedo, inseriu-se na qualidade requerida de qualquer bom colecionador fubânico: o compartilhamento. Prova disso foi sua generosidade ao presentear-me com o livro Vida de Viajante, A Saga de Luiz Gonzaga, autografado pela autora, Domique Dreyfus, que veio, com sua magnitude, enriquecer minas estantes literomusicais:

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Ditas estantes que, no ano passado, já se achavam sobremaneira valorizadas com as excelentes crônicas de Fred, enfeixadas no livro Caçador de Lagartixas:

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São lembranças de infância, vividas por um menino presepeiro e aprontador. Mas quem não o foi? No capítulo-título do livro, Caçador de Lagartixas, ele conta como as capturava: usando laços com o talo de folha de coqueiro, da qual era retirada a parte verde, sobrando apenas o talo central, em cuja ponta afinada fazia o laço. Mas Fred não matava as osguinhas. Laçava-as somente no intuito de com elas dialogar: – Lagartixa, você é uma bobona? E ela balançava a cabeça pra baixo e pra cima, em assentimento. Depois de obter todo o currículo da prisioneira, Fred a libertava, fazendo dela uma amiga, que talvez por ali aparecesse novamente para novo bate-papo.

Fred Monteiro não está só em sua osgafilia, conforme se depreende desta nota, publicada na Revista Veja de 13.03.13, na Seção Veja Esta:

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Para terminar esta merecida chaleirada, e para confirmar a versatilidade deste grande amigo virtual, apresento-lhes o dobrado General Lima Verde, de sua autoria, com a Banda F. Studio. É um dobrado perfeito, três minutos e meio de duração, dentro do esquadro requerido, com primeira e segunda parte altamente marciais, um trio comovente e coda deslumbrante, fazendo-nos vibrar de emoção.

Vamos ouvi-lo e degustá-lo:

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BRASÍLIA, 53º ANIVERSÁRIO

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Avenida W/3, sentido Sul – Norte

Ontem, 21 de abril de 2013, 53º Aniversário de Brasília, eu garrei a imaginar num tempo bem feliz, num passado que foi venturoso e não volta mais.

A foto acima é de 1962, a partir da Quadra 508 Sul, quando ainda não tínhamos shopping – o primeiro foi o Conjunto Nacional, inaugurado em novembro de 1971. O ponto badalado de Brasília se concentrava a partir dessa quadra, razão pela qual se veem muitos automóveis estacionados à direita, em frente às lojas, e um trânsito bem comportado à esquerda, encabeçado por 3 viaturas importadas. Era dia de movimento, como se constata pelo número de transeuntes na calçada.

A Asa Norte praticamente não existia no cenário comercial. O grosso das compras ainda era feito a Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. O coração pulsante brasiliense localizava-se na Avenida W/3, centrado na 508 Sul. No lado direito da foto, funcionava a Lavanderia Ouro Fino; a seguir, o bar-sorveteria Caravelle; logo após, a loja Bibabô, magazine chique, com os últimos artigos da moda masculina e feminina; depois dela, um restaurante, a agência dos Correios e Telégrafos, e, na esquina, a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP.

Mais adiante, na esquina da 507, ficava o Cine Cultura; logo após, o Banco do Brasil; em sequência, um bar, a Loja Paranoá, especializada em vestuário fino para homens, outros bares e, na esquina o Banco Lowndes. Entre a 507 e a 506, o frequentadíssimo Restaurante do GTB.

À noite, o Conjunto 507/508 funcionava como verdadeira parcinha do interior, com os rapazes encostados nas paredes, apreciando o ir e vir das moças, em frente aos bares e ao cinema, a paquera estabelecida a mil.

Quase todo mundo se conhecia pelo primeiro nome. Ainda não havia, segundo me consta, o DPC – Departamento de Proteção ao Crédito e o Serasa – Serviço de Consultas a Pendências e Protestos, para atestar se o cidadão era ou não honesto. Valiam a palavra dada, o fio do bigode ou da barba, o holerite – atual contracheque –, a Carteira de Trabalho assinada.

Uma grande loja de móveis e utilidades domésticas daquele tempo, a Móveis Planalto, mais conhecida pela sigla MOPLAN, além e sortear, todos os sábados, pela TV, um fusca para quem pagasse seus carnês em dia, distribuiu aos fregueses cumpridores de suas obrigações contratuais o Cartão de Cliente Padrão, credencial que servia para que seu portador gozasse de crédito ilimitado no comercio do Distrito Federal e entorno, Goiânia e Anápolis inclusive:

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Credencial do homem de vergonha na cara

A cidade cresceu, expandiu-se, esparramou-se, extravasou e, com esse crescimento, vieram as eleições para escolher seus governantes trazendo nela atrelados os partidos políticos. Como todos sabem, Política é a ciência do possível, o que hoje é, amanhã não é mais; o que hoje não vale, amanhã vale pra danar.

Tal qual Parintins, onde os bois Caprichoso, azul, e Garantido, vermelho, dominam as festividades juninas naquela cidade amazonense, aqui, também, dois partidos preponderaram sobre os demais: o Azul e o Vermelho.

No princípio, o Azul aboletou-se no poder. E por muitos anos, tranquilão, sem aperreios. E, para deixar seu nome para sempre marcado nos Anais da História do Distrito Federal, deu, no ano de 1922, o pontapé inicial para a tão sonhada construção do Metrô de Brasília. Tarefa que se revelou indigesta, com as renitentes impugnações do Vermelho, que cresceu muito no período, culminando com sua assunção ao Poder em 1995.

Tão logo ocupou o Palácio do Buriti, o Vermelho mandou pintar com sua cor os tapumes das obras do Metrô, do início ao final do Eixão Sul, marcando território. E as obras se arrastaram mansamente, vagarosamente, pois o Vermelho não tinha pressa. Achava que conquistara o DF para todo o sempre. E tome a colorir de vermelhão tudo que era obra oficial.

Tão descuidado ficou que nem se preocupou em fazer campanha pesada para as eleições seguintes. E o castigo veio a cavalo, ou melhor, de metrô: em 1999, o Azul retomou as rédeas do Distrito Federal. Como seria de se esperar, mandou apagar toda a vermelhidão oficial e repintá-la na cor azul, começando pelas lixeiras, milhares delas espalhadas por toda a Capital Federal.

No que se deu mal, pois logo o Vermelho criou caso, e o Azul teve, compulsoriamente, de repintá-las em cor com a qual não se fizesse lembrado. E adeus cor azul em qualquer tapume ou obra oficial! Mesmo assim, o Metrô teve inaugurado seu primeiro trecho em 2001, embora não tenha se configurado como marca registrada do Azul, pois vários outros trechos foram concluídos em governos de tonalidades diferentes.

A obra que marcou para sempre o nome do Azul no Distrito Federal e no Brasil foi a Ponte JK, inaugurada em dezembro de 2002, hoje um dos mais belos cartões postais brasilienses e orgulho da Engenharia Nacional:

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Ponte JK: pedra quicando n’água

Mas a Política é, como já dito, a ciência do possível. O que ontem não valia, hoje está pra mais que validado. Em 2011, o Vermelho reconquistou o Poder. E qual foi a imediata providência tomada para marcar sua presença? Acertaram! Mandou instalar lixeiras e placas onde predominam sua coloração:

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Lixeira da 215 Sul e placa na 208: Vermelhos no domínio o pedaço

Para demonstrar o quanto em Política o comportamento e a atitude são volúveis e voláteis, eis pequena amostra de protesto realizado pelos vermelhos há bem pouco:

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Vermelhos protestando contra si próprios

Mas, aos trancos e barrancos, nossa Brasília vai. Aos empurrões e solavancos, é bem verdade, nossa Brasília vai. Ora se vai!

Com todo o mimetismo que a Política tem praticado por aqui, o Vermelho acaba de concluir o monumento que também o deixará para sempre visível aos olhos de todos brasilienses, de todos os brasileiros e, quiçá, de toda a comunidade internacional, o Estádio Mané Garrincha:

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Estádio Mané Garrincha: bola quicando no gramado

E, se não lhe faltar vontade, poderá fazer muito mais em prol de nossa felicidade, pois dinheiro há. Informantes bem posicionados no Palácio do Buriti dão-nos conta de que esse mausoleuzinho futebolístico daí já consumiu 1 bilhão e 400 milhões de reais dos cofres públicos, ou seja, dinheiro saído dos bolsos de todos nós, pacatos contribuintes brasileiros.

(O Mané Garrincha tinha inauguração marcada para ontem, 21.04, mas ela foi adiada para 18 de maio, devido às chuvas que prejudicaram a instalação do gramado de forma “irresistível”, segundo o Correio Braziliense.)

Brasília, no entanto, é maior que tudo isso!

Para relembrar famosos pioneiros, aqui vai a marchinha Brasília, Cidade Céu, de Cid Magalhães, que foi por muito tempo considerada nosso hino, gravação de Glória Maria, saudosa candanga, falecida a 7 de outubro de 2008.

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HOMOGAMIA: RENDA PER CAPITA NAS ALTURAS

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PIB grandão, renda per capita sideral

Renda per capita como todos sabemos, é o resultado da divisão do PIB – Produto Interno Bruto pelo número de habitantes de um país. Quando maior o bolo, maior é a fatia de cada cabeça. Mesmo com um pibinho igual ao nosso, havendo menos participantes, maior será o quinhão. O gaúcho, em seu jeito gozador de simplificar as conjugações verbais, explica-nos isso muito bem: quanto menos semos, melhor passemos!

Os governantes descobriram essa realidade desde os tempos imemoriais. Assim, quando a produção de um país se encontrava estagnada, inventavam uma guerra, para que a população diminuísse, incrementando, em consequência, a renda individual de seu povo.

O Governo Paraguaio, depois da Guerra contra o Brasil, contabilizou a diminuição de metade de sua população, resultando do conflito o crescimento dobrado de sua renda per capita. Hitler, para aumentá-la na Alemanha, decretou o Holocausto e, pensando que dominaria todo o Mundo, invadiu o resto da Europa, generalizando a matança, com o mesmo propósito.

Eu sempre ouvi falar que os americanos perderam a Guerra do Vietnam. Se morreram cerca de 58 mil americanos e 1 milhão de vietnamitas, quem, na realidade foi derrotado? Só muito depois, ao compreender os resultados econômicos, foi que atinei com a explicação: as perdas dos Estados Unidos foram ínfimas, diante da divisão do PIB; enquanto isso, o Vietnam conheceu magnífica renda per capita jamais vivida em seus anais. Daí a vitória.

Felizmente, as guerras deixaram de ser travadas nos campos de batalha, onde morria muita gente, e passaram a acontecer o âmbito diplomático, onde se gasta muita conversa, ouvem-se ameaças e bravatas, vide Coreia do Norte, mas não se dá um tiro sequer. Felizmente para nós, o povão, não para os economistas. Para resolver esse impasse, os governantes criaram os feriadões.

Aqui no Brasil, em cada um deles, a população se vê diminuída de uns 500 membros. E nosso pibinho, consequentemente, é dividido por menos participantes. Para que isso tenha eficácia, descobriram os economistas ser necessário o não nascimento de novos habitantes. Daí, a instituição do casamento homogâmico.

Estas imagens, publicada no Correio Brazilense de 04.04.13, e na revista Veja de 10.04.13, dizem muito da nova ordem social:

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Casamentos homogâmicos brasileiros

Homogamia, no sentido de casamento entre si de duas pessoas do mesmo sexo, é neologismo, ainda não existe nos dicionários. Foi criado por mim e usado pela primeira vez na Língua Portuguesa aqui o Jornal da Besta Fubana, no dia 21.06.10, em minha coluna, na matéria Caim Navegou na Maionese, quando eu criticava o escritor José Saramago, que escrevera o livro Caim apenas para falar mal de Deus. Eis o que ali consta:

“A palavra homogamia ainda não foi catalogada, pelo inusitado da nova realidade, como o enlace matrimonial entre duas pessoas do mesmo sexo, nem nos Tratados de Direito, nem nos mais modernos dicionários. Mas não demora muito. Em Portugal, a 17.05.10, o Presidente Cavaco Silva sancionou essa união. O termo casamento homogâmico, na minha pobre opinião, é muito mais deferente – respeitoso – do que o corriqueiro casal gay. E, se ele ainda não existe, acabei de inventá-lo! Crédito para mim, pois!”

Hoje, decorridos quase 3 anos, continuo considerando os termos casal gay e casamento gay de certo modo impróprios, galhofeiros, escarnecedores, revelando pobreza vocabular, mesmo em se tratando da Veja e do Correio. Casal homogâmico e casamento homogâmico são expressões polidas, reverentes e gentis.

Perdi-me um pouco nessa pequena aula de Etimologia, mas retomo o fio da meada, voltando o foco desta crônica para o fator econômico da homogamia.

No ano passado, ao apresentar suas credencias no Palácio do Planalto, o Embaixador da Bélgica fez-se acompanhar do esposo, com quem está casado há oito anos. Como em seu país este é um fato socioeconômico corriqueiro, pode-se deduzir que, por lá, não tem acontecido intensamente o nascimento de novos belgicaninhos, como diriam certos apedeutas. E, em assim sendo, a renda per capita belga cada vez aumenta mais.

A nova ordem econômica mundial está cheia de adesões jurídicas a esse novo tipo de enlace matrimonial, motivo por que a Literatura não lhe fica atrás. Os três últimos livros dos 25 que já li este ano, todos recomendados pela Veja, trazem como tema central este novo fato social, ou seja, a homofilia, primeiro passo para a homogamia.

No primeiro, O Pacifista, de John Boyne, autor do comovente O Menino de Pijama Listrada, o protagonista narra, na primeira pessoa, seu caso de amor por um amigo, ambos ingleses, com quem, entre carinhos e beijos, vai servir no Exército durante a Primeira Guerra Mundial e, ao vê-lo condenado à Pena de Morte, injustamente acusado de traição, covardemente participa como voluntário, movido por ciúme, do Pelotão e Fuzilamento.

No segundo, O Baile, de Danielle Steel, é narrado os percalços de jovem mãe de duas filhas gêmeas nos preparativos que antecedem o Baile de Debutante das meninas. Sua maior preocupação da com o filho varão, mais velhos, que vem demonstrando estado de espírito inquietante, e seu alívio só vem a acontecer nas páginas finais do romance, no dia do baile, quando ele se achega a ela e faz-lhe a grande revelação, após criar um clima de suspense: – Eu sou gay!

No terceiro, Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo na História do Brasil, de Mary del Priore, a autora exerce de extrema coragem ao estampar, pela vez primeira, uma cena masculina homogâmica. Até então, e até hoje, a Imprensa tem publicado flagrantes femininos, como visto acima. O livro é apresentado por Moacir Scliar, premiadíssimo escritor brasileiro, nestes termos:

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Aqui, a inovadora cena a que me referi, a qual tive o cuidado de tarjar, diminuindo-lhe, providencialmente, o impacto:

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Já no Velho Testamento, há exemplos de homogamia comprovada. Na Bíblia, o Livro de Gênesis relata a destruição de duas cidades: Sodoma e Gomorra. A palavra Sodoma deu como derivado o substantivo sodomia, que é a conjunção sexual anal entre homossexuais masculinos, ou entre homem e mulher.

Pois bem, os machos de Sodoma e Gomorra vinham, há muito tempo, praticando apenas esse ato sexual mutuamente, desconhecendo o heterossexualismo, fazendo com que o Senhor, para castigá-los, mandasse que dois anjos descessem à Terra com o objetivo de destruir as duas cidades.

Os sodomitas, sem o saberem, elevavam suas rendas per capita ao cume da Curva Econômica, porém os anjos, sem tomarem em conta esse mérito, mas considerando apenas suas vidas pregressas, os eliminaram da face da Terra.

Hoje, pelo andar da carruagem, a coisa vai nesse mesmo rumo. E nem precisaremos de anjos para exterminar-nos. Nós mesmos cuidaremos disso.

Dentro de poucos séculos, a Raça Humana, diante da morte de seus idosos e do não nascimento de novos seres para compensar a perda, conhecerá, nesta ordem, o apogeu da renda per capita, a quebradeira da Previdência Social e, por fim, sem mais remédio que lhe dê cura, nada mais havendo a tratar, a autodestruição.

Quem viver, verá!

FUTEBOL CANDANGO

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Estádio Nacional Mané Garrincha: a maquete e como se encontrava no dia 28.02.13

O Estádio Nacional Mané Garrincha será inaugurado no próximo dia 21 de abril, data em que se comemorará o 53º Aniversário de Brasília. Trazendo dois times do Rio ou de São Paulo, a festa será de casa cheia. Ainda neste ano, haverá a Copa das Confederações e, em 2014, a Copa do Mundo, o que garante presença maciça de público.

Mas, e depois? Segundo o Estadão, a obra consumirá 1,5 bilhão de reais, tudo saído dos cofres públicos. E tudo isso para que se transforme, apagadas a luzes desses eventos, num gigantesco mausoléu. Mausoléu vazio, sem despojos dentro, é bom que se diga.

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A carta acima foi publicada na edição de 04.02.2013 do Correio Braziliense, o maior jornal da Capital da República. A opinião do leitor Cezar Mariano coincide com a de todos os que verdadeiramente amam o esporte desta cidade. É um sonho pois, se assim procederem as autoridades governamentais, correrão o risco de verem as arquibancadas no jogo de estreia entregue às moscas. E isso por culpa única e exclusiva delas próprias que, nestes anos todos, nada fizeram para o fortalecimento do Futebol Brasiliense.

No diz 7 de fevereiro passado, realizou-se o primeiro clássico do ano no Distrito Federal. Jogaram os dois times candangos de maior visibilidade: Gama, na 3ª Divisão e Brasiliense na 2ª Divisão do Brasileirão. O embate foi amplamente divulgado pela imprensa, louvado, badalado, mas o público a comparecer ao Bezerrão se revelou decepcionante, frustrante: 9.489 pagantes. Em população acima de 2 e meio milhões de habitantes, isso é pingo d’água no mar.

Imaginem como seria bem diferente o cenário hoje se, por exemplo, a Caixa Econômica Federal viesse patrocinando o Gama, como faz com o Corinthians; e a Petrobrás, por sua vez, patrocinando o Brasiliense, com faz o Flamengo!!! Tendo recursos suficientes para contratar bons jogadores – e não aqueles famosos já pendurando as chuteiras –, é claro que nossos estádios viveriam tempos de capacidade superlotada.

Em passado recente, isso até acontecia, nas Satélites, quando o Gama disputava a Primeirona e recebia grandes times de fora: público lotando os estádios para torcer contra o time da casa, contra o próprio lar. Assim, não dá!

Para demonstrar o descaso com que é tratado o Futebol Candango, vou reproduzir a seguir relato que escrevi em maio de 2004.

“Domingo último, 16.05.04, reservei boa parte da manhã para assistir, na TV, ao clássico brasiliense Sobradinho x Ceilândia. Por dois motivos: prestigiar a Record, emissora que o transmitia, e apreciar a atuação do goleiro ceilandense, o famoso Serjão.

Para quem não o conhece, esclareço que esse goleiro-cartola – é o dono do time – tem o mesmo porte atlético do ator Fúlvio Estefanini, aquele que fez o prefeito na novela Chocolate com Pimenta, necessitando, urgentemente, de uma cirurgia que lhe reduza o perímetro – abdominal, claro!

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Serjão: 153 kg de garra e eficiência

Fui parcialmente recompensado. O Serjão é um show. Realizou defesas espetaculares e, numa delas, ao voar no canto para interceptar perigosíssima bola, foi seriamente contundido, mas nem por isso seu rendimento diminuiu. O Sobradinho saiu na frente, mas o Ceilândia empatou e, logo em seguida, virou o placar: 2×1.

Minutos depois, um jogador ceilandensde foi expulso, dando ao Sobradinho a chance de, com um homem a mais, igualar a contagem. Nos instantes finais do combate, o Serjão, ao cometer uma falta e receber cartão amarelo, não se conteve nem se conformou, dando um bico na bola, mandando-a para as arquibancadas. Cartão vermelho!

E, devido à confusão que se formou, mais dois minutos de acréscimo! O jogo ficou eletrizante, mesmo para quem, como eu, não torcia por qualquer dos dois times. Será que o Ceilândia, com dois homens a menos e um goleiro improvisado, resistiria à pressão do Sobradinho? Será que o Sobradinho iria se aproveitar dessa vantagem para reagir e modificar o resultado adverso?

Aí, aconteceu o inesperado: a emissora, sem qualquer explicação, cortou a imagem e passou a transmitir o segundo tempo de Ceará x Bahia. E nós, os coitados telespectadores, ficamos ali, inertes, com cara de tacho, como popularmente se diz. Salvou-nos o Correio Braziliense que, na segunda-feira, comentou a partida e confirmou a vitória do Ceilândia.”

Houve um tempo em que tínhamos um time que nos representava e disputava pau a pau com qualquer outro no Campeonato Brasileiro. Era financiado pelo CEUB, Centro Universitário de Brasília, do qual herdara o nome: CEUB Esporte Clube. Criado em 1968, teve suas atividades encerradas em 1976, deixando-nos boas recordações e muitas saudades.

Para relembrá-lo um pouco, aqui vai um recorte de jornal de seus tempo áureos:

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Outra flagrante do CEUB, mostrando o total apoio do público nas arquibancadas:

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Para completar essas lembranças, ouçamos o Hino do CEUB (Avante CEUB), de Ilber Mangla e Álvaro Guergolet, na interpretação Nivaldo Santos, gravado no ano de 1974:

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MEUS SUBTENENTES

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Subtenente: Arte de Juarez Leite

As piadas da caserna se repetem a cada ano, podendo ser adaptadas a qualquer tempo, espaço, posto ou graduação. O que vou fazer aqui não é contar mais uma, e sim lembrar grandes amigos dos velhos tempos, de quem não tenho notícia há mais de quatro décadas, desde que fui licenciado.

O Subtenente é militar escolado, traquejado, disciplinado e competente, qualidades sem as quais jamais alcançaria a mais alta graduação no âmbito das praças. Se o Capitão Comandante de Subunidade representa o pai da dos recrutas, o Subtenente, por ser mais vivido e mais experiente, poderia ser o avô, aquele sujeito bacana, compreensivo, que quebra qualquer galho. Nos três anos em que atuei como Furriel, Sargento que cuida da folha de pagamento dos praças, exerci minhas funções na Reserva – sala de trabalho do Subtenente e Almoxarifado da Companhia, cujo material emprestado só sai dali mediante cautela, uma espécie de recibo –, onde convivi com três excepcionais chefes, todos mineiros.

Na Companhia de Petrechos Pesados – 1, do 12º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte, MG, comecei, recém-saído da EsSA, com o Subtenente Bertucci – só me recordo do seu nome de guerra –, um ex-combatente, que atuou no Teatro de Operações na Itália. Logo em seguida, após sua promoção a 2º Tenente e transferência para outra Unidade, veio o Subtenente Assis Dias Brasil, Saco B – militar que, convocado para a guerra, chegou até a embarcar, mas, antes de chegar a destino, o conflito acabou –, que muito me ensinou para o bom desempenho de minhas atribuições profissionais e contribuiu sobremaneira na minha formação moral.      Vou contar um caso envolvendo o Subtenente Bertucci. Foi no ano de 1958, quando o 12º Regimento de Infantaria, o Doze de Ouro, passava do sistema hipomóvel para o motorizado.

Vocês não avaliam o rebu que tocou nas Reservas dos Subtenentes, em especial nas Companhias de Petrechos Pesados – CPP, cujos morteiros e metralhadoras eram transportados nos lombos dos muares.

Na Reserva da CPP-1, não tínhamos tempo para dizer arroz. Deveríamos recolher, em curto espaço de tempo, todo o material a substituir, como carroças, reboques, cozinhas portáteis, selas, cangalhas, brides, cabrestos, rédeas, focinheiras, antolhos e o escambau, além dos mencionados muares. Tudo isso registrado minuciosamente, no Livro-Carga, ficando toda a operação sob o comando e a responsabilidade do Subtenente da Companhia, ou seja, do Subtenente Bertucci.

Esse, assoberbado com tantos afazeres, era constantemente interrompido por algum dos envolvidos na operação, trazendo-lhe problemas os mais diversos. Por isso, tomou uma atitude assaz acertada. Toda a vez que lhe aparecia qualquer desses enrolados, ele sustinha sua lengalenga, dando-lhe a terrível ordem: “TRAGA ISSO POR ESCRITO!” Não falhava, o sujeito saía, encontrava uma solução para o caso e nunca mais voltava à Reserva com mais outro.   Mas essa tática não funcionou com o Cabo Rufino, que labutava com os muares lá nas baias. Certo dia, ele chegou nervoso na Reserva e começou um interminável blablablá, interminável não, porque o Sub o cortou com a ordem: “ESCREVA ISSO!” O Cabo Rufino retirou-se, mas não demorou. Em pouco tempo, estava ele de volta com seu relato:

“PARTICIPO-VOS QUE O BURRO 45, VULGO BONIFÁCIO, ENTROU ALOPRADO NO NOSSO DORMITÓRIO, LÁ NAS CAVALARIÇAS, ZURRANDO E ESCOICEANDO, O QUE RESULTOU NA QUEBRA DE UM POTE DE BARRO E DE UMA MORINGA DO REFERIDO METAL.”

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Pote e moringa

O Subtenente Brasil muito me orientou para o Exército e para a Vida. Era um estudioso da Língua Portuguesa, o que me fez também tomar gosto pela boa leitura e até a comprar o meu primeiro dicionário, um Aurélio, que me acompanhou de 1958 até janeiro de 1972, quando a Reforma Ortográfica acabou com o acento diferencial, tornando-o obsoleto.

A nossa Reserva era, portanto, uma sala de estudo, pois estávamos constantemente tirando as nossas dúvidas e as dos colegas que nos procuravam.  Dispúnhamos, para fornecimento ao pessoal escalado para serviço externo, de dois tipos de armas de cano curto: o revólver SMITH & WESSON e a pistola COLT, ambos de calibre 45.

Pois bem, eis que, senão quando, aparece-nos o Terceiro Sargento Baldomero, Ferrador, com esta preciosidade de cautela: “RESSEBÍ DA REZERVA DA CPP-1, PARA O SERVISSO DE PATRULHA NA ZBM, UM REVOLVER CIMITE OESSE, CALIBRE 45”.

Ao ler o documento, o Subtenente Brasil não conteve sua perplexidade e chamou o Sargento no saco:

– Sargento Baldomero, esta cautela está eivada de erros!

O Sargento tirou o corpo fora:

– Seu Sub, a culpa não é minha. Quem datilografou isso foi o Cabo Laurentino, eu só fiz assinar!

O Subtenente insistiu:

– Mas como é que você assina um documento sem ler antes? Os outros erros até que dão pra passar, mas este CIMITE está demais da conta!

Baldomero não se deu por achado:

– Pois é, Seu Sub, na hora eu até falei para o Laurentino: “Cabo Velho, esse CIMITE é com C cedilhado!”

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Revólver Smith & Wesson, calibre 45

O terceiro foi o Subtenente Haroldo Batista, já na Polícia do Exército de Brasília. Um espelho para todos nós. Natural de Patos de Minas, bem mais novo que os já citados, atualizado, culto e bem-humorado, participava – sem perder a autoridade, nem quebrar a liturgia do cargo – de todas as brincadeiras e jogos no Alojamento e no Cassino dos Sargentos, quando estávamos aquartelados, de prontidão – e isso, no início dos anos 60 era mais comum que o período de normalidade. Árduos tempos.

Como os que prestaram o serviço militar devem saber, todo Cabo é “Cabo Velho” e todo Subtenente é “Seu Sub”. Na Aeronáutica, por exemplo, os Suboficiais são assim nomeados: Sub Bessa, Sub Pereira, Sub Martins, etc. Pois bem, o Subtenente Haroldo, que topava qualquer parada, qualquer contratempo, jamais admitiu que o chamassem de Sub. Não tenho notícia de outro que assim procedesse. E a exceção era para todos, do Comandante ao Corneteiro.

Se um subordinado desatento o chamasse de Sub, imediatamente ele o enquadrava: “Tome a posição de sentido para falar comigo.” E, em seguida, dava-lhe uma mijada daquelas. Se fosse um superior seu, aí sim, ele é que tomava a posição de sentido, se apresentava e inquiria: “Sub o quê, Meu Senhor? Subsolo, submarino, sub-raça? Eu Sou é Subtenente do Exército, de acordo com a lei!”

Desarmava qualquer cristão!

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Submarino submerso

ACONTECEU NA EsSA

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Para os que não serviram, vai ser difícil captar a sutileza do lance que ora narro. Por isso, achei de bom alvitre dar uma pequena explicação, antes de enfiar a cara no sucedido.    De acordo com os regulamentos militares, a tropa também faz continência ao deslocar-se, olhando à direita ou à esquerda, conforme o local em que esteja o oficial, quer seja Tenente ou Marechal. Deu pra entender? Então, prossigamos.

Na EsSA – Escola de Sargentos das Armas, a quantidade de oficiais transitando por suas ruas – ruas sim, porque a Escola é uma pequena cidade – é deveras marcante. E o aluno tem que ficar atento para prestar as honras, sob o risco de ter uma anotação desabonadora na sua ficha ou, no mínimo, levar uma mijada.

Certa manhã primaveril, lá ia o Aluno Abdala, na função de Chefe da Turma B-8, conduzindo a mencionada para a sala de aula. De repente, não mais que de repente, surge-lhe um superioríssimo, caminhando em sentido contrário. Então, o nosso herói emitiu o comando:

– Turma, sentido! Olhar à esqueeeeeerdá!

E já ia levar a mão à pala – só o que comanda é que faz a continência –, quando percebe ser a autoridade apenas um Subtenente. Mas o Abdala era esperto, sabia se virar, não acusou o golpe. Daí, lascou em alta voz:

– Turma, ultima foooooorma! Subtenente não tem direeeeeeitô!

PESCARIA NO RIO BALSAS DE MINHA INFÂNCIA

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Menino pescador

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu fico a lembrar meus tempos de infância balsense, quando a meninada alimentava de peixes a inteira população da cidade. Não havia supermercados ou qualquer outro tipo de comércio para suprimento do produto, mas toda casa tinha um menino que, naquela ocasião, se transformava em pescador. Por isso, o feriadão começava na quarta-feira, dando o tempo necessário para que, na Sexta-Feira da Paixão, o povo jejuasse de carne, como mandava a Santa Madre Igreja.

Os peixes mais comuns de escama eram o piau, a pacu – feminino para nós – e a piranha, os três considerados nobres e pegados durante o dia.

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Peixes de escama: piau, pacu e piranha

À noite, era a vez do mandi, do surubim e do mandubé, peixes de couro, os dois últimos alcançando grande porte.

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Peixes de couro: mandi, surubim e mandubé

As iscas mais usadas eram o angu de farinha e o milho verde ou cozido para o piau e a pacu, carne para a piranha, minhoca, tripa de galinha e piabas para os peixes de couro.

Até agora, eu nada disse que não fosse o costumeiro de como se pescava em qualquer rio sertanejo. O que nos fazia diferentes era nossa tralha de pesca.

O Rio Balsas, na época da Semana Santa, apresenta suas águas límpidas e cristalinas, transparentes como em qualquer piscina. Durante o dia, enxergávamos os peixes às pequenas profundidades e, consequentemente, os peixes nos enxergavam às margens do rio.

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Rio Balsas: águas verde-azuladas, puras, límpidas, transparentes

No período noturno, não havia problema. Pescávamos com a linha zero – igual à que hoje se usa empinando pipas – para os peixes pequenos e com o cabinho – da grossura dum cadarço de tênis – para os graúdos, de couro.

De dia, esse material não funcionava, espantava os peixes. Aí é que se constata a criatividade do povo daquele tempo. Ainda não havia o náilon. Até o fim da Guerra, a gente se virava com as linhas fabricadas por nós mesmos, usando como matéria-prima crinas de rabo de cavalo.

O primeiro requisito era que o cavalo deveria ser branco ou de crinas claras, para que a linha ficasse invisível ao ser lançada n’água.

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Cavalo branco: fornecedor de linhas

Como em Balsas havia poucos cavalos, usávamos como provedores de crina os componente das tropas dos fazendeiros e agricultores rurais das cercanias que, periodicamente, se arranchavam na cidade, para vender sua produção e comprar sal e mercadorias industrializadas, numa espécie de escambo. Havia até hotéis – quintas com água e pasto – para as montarias e animais de carga. E era nessas quintas que, à noite, fazíamos a festa, arrancando as crinas, na base do coice. Tinha cavalo que, ao retornar para as fazendas, levavam apenas um sabugo no lugar do rabo.

  Com a colheita das crinas, partíamos para a fabricação da linha propriamente dita. Primeiramente, fazíamos os entrançados de dois ou três fios, cada um com a média de 30 cm de comprimento. Depois os emendávamos, até chegar ao tamanho desejado, de 6 a 10 metros. Havia os especialistas, como o Modesto, filho do Mestre Zacarias, que pescava com linha de um só fio e, quando ferrava um piau ou uma pacu, caía n’água e nadava acompanhando o peixe até que este se cansasse. Verdadeira arte!

Fabricada a linha, partíamos par a obtenção do caniço. Por lá, não havia o bambu, e a taboca não se prestava para esse fim. Em compensação, a mata era fértil de pereira, arbusto cujos galhos eram muito apropriados para servirem de vara de pesca.

Outro item raro era o anzol, que fabricávamos com um alfinete do qual dobrávamos a ponta, dando-lhe um nome também conhecido pelos baianos, güé, eficientíssimo na pesca do piau e da pacu, os peixes mais apreciados pelos balsenses. Algumas lojas vendiam anzóis, de tamanhos variados, mas dinheiro no bolso da meninada era nenhum, por isso a gente se virava como podia, não necessitando de grana e usando apenas a imaginação criativa.

Faltava a chumbada. Para isso, derretíamos tubos vazios de pasta dentifrícia, que naqueles tempos ainda não eram feitos de plástico.

E pronto! Estávamos devidamente equipados para abarrotar a cidade com a imensa quantidade de peixes que levávamos daquele generoso rio.

Só em 1946, depois da Guerra, foi que começaram a chegar as linhas de náilon, como as que hoje existem, que nós chamávamos de linha americana. A pioneira da linha de náilon em Balsas foi a Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, também uma grande pescadora de peixe de couro que, naquele mesmo ano de 1946, presenteou meu irmão Bergonsil, o Chilim, com 10 metros daquela nova invenção. Chilim, que estudada em Floriano e se encontrava em Balsas de férias, ao retornar, deu-me sua linha americana de presente, uma das grandes preciosidades com que ele me agraciou na vida.

Com o advento da linha americana, tornaram-se triviais os anzóis – havia uns com a barbela enviesada, conhecidos como ferra-no-olho –, a vara de bambu ou de náilon e a chumbada manufaturada. Aí, a pesca balsense perdeu um tanto de sua graça, vez que, com o progresso, vieram também a devastação das margens do rio e o barulho, fazendo com que os peixes sumissem para bem longe da civilização.

E por que estou contando isso a vocês agora, tantos anos passados? Apenas para que não se perca na memória de meus conterrâneos a história dum tempo em que, mesmo carentes de tudo quanto era progresso, sabíamos aproveitar totalmente o que a Natureza, magnanimamente, nos legava.

Alguém há de indagar:

– E a traíra? Vocês não pescavam esse peixe?

E eu apresso-me em explicar.

Naquele sertão, de imensa fartura e riqueza natural, a traíra, também conhecida como pau-de-nêgo e cipó-de-viúva, animal da lama e das águas toldadas, assim como o sapo, a cobra, a minhoca, o jabuti, o rato, o mambira, o morcego, o lapau, a mucura, o macaco e o camaleão, não era considerada alimento humano. Nem para isca era utilizada.

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Traíra, pau-de-nêgo ou cipó-de-viúva

Havia até um dito popular muito ouvido entre os pescadores: terra onde tromba de elefante é picolé, lamparina dá choque, galinha cisca pra frente, jumento é relógio, tostão é dinheiro e traíra é peixe, nessa terra eu não moro!

GILBERTO ALVES

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Gilberto Alves Martins nasceu no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro (RJ), no dia 15.04.1915, e faleceu em Jacareí (SP), no dia 04.04.1992, aos 76 anos de idade.                              

Criado no subúrbio de Lins de Vasconcelos, aos 12 anos fugiu de casa com o irmão mais velho e arranjou emprego como carregador de marmitas, passando a viver desse serviço. Mais tarde, aprendeu o ofício de sapateiro, ao qual passou a dedicar-se por conta própria. Paralelamente, cursava o Secundário e iniciava-se no ambiente musical, participando serestas. Nessa época, conheceu Jacob do Bandolim, então garoto, que viria a ser seu grande amigo.                              

Aos 16 anos de idade, começou a frequentar os cabarés da Lapa e o Café Nice, travando conhecimento com Grande Otelo e Sílvio Caldas. Por volta de 1935, as serestas começaram a ser proibidas, e a Guarda Noturna dissolvia os grupos seresteiros que encontrava. Foi quando Gilberto conheceu Almirante que, depois de ouvi-lo cantar, o convidou para se apresentar na Rádio Clube do Brasil, onde ele começou a se apresentar, mas sem contrato, recebendo apenas pequeno cachê.

Passou, depois, a atuar na Rádio Guanabara, no programa de Luís Vassalo, para onde fora levado pelos compositores Christóvão de Alencar e Nássara, que conhecera numa seresta em Vila Isabel. Cantou também na Rádio Educadora, no programa dos Irmãos Batista – Marília e Henrique –, atuando paralelamente em outras emissoras.                              

Em 1938, as 23 anos de idade, gravou seu primeiro disco, com os sambas Mulher, Toma Juízo, de Ataulfo Alves e Roberto Cunha, e Favela dos Meus Amores, de Roberto Cunha, pela Columbia. Conheceu, então, os compositores Roberto Martins e Mário Rossi, gravando seu segundo disco, com o samba Mãos Delicadas, dos dois, e a valsa Duas Sobras, de Roberto e Jorge Faraj. Daí em diante, gravou diversos sucessos da dupla Roberto Martins e Mário Rossi, entre os quais seu primeiro êxito em disco, a valsinha Trá-lá-lá, pela Odeon, em 1940. A seguir, vieram outros grandes sucessos, como Natureza Bela, samba de Felisberto Martins e Henrique Mesquita, em 1941, a marchinha Cecília, de dupla Martins e Rossi, e o foxe Adeus, dos mesmos autores, ambos em 1944.                              

Ainda em 1944, gravou os foxes Despedida, de Tito Ramos, e Algum Dia Te Direi, de Christóvão de Alencar e Felisberto Martins. Em 1948, deixou a Odeon e assinou contrato com a RCA Victor, gravando o samba Rosa Maria, de Aníbal Silva Éden Silva, um dos grandes sucessos do Carnaval daquele ano, passando a trabalhar também na Rádio Nacional.

Em 1949, casou-se com Jurema Cardoso. Em 1950, transferiu-se para a Rádio Tupi, onde permaneceu até 1970, quando se aposentou.

Sua vitoriosa carreira amealhou sucessos como os sambas Pombo Correio, de Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira, Recordar É Viver, de Aldacir Louro e Aluísio Martins, De Lanterna na Mão, de Elzo Augusto e J. Saccomani, Abre a Janela, de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, Isaura, de Herivelto Martins e Roberto Roberti, Chorar Pra Quê?, de Pereira Matos e Oldemar Magalhães, e Jorge Martins, Graças a Deus, de Roberto Martins e Oswaldo Santiago, O Trem Atrasou, de Artur Vilarinho, Estanislau Silva e Paquito, Recordar, de Aldacir Louro, Aluísio Marins e Adolfo Macedo, Rosa Maria, de Aníbal Silva e Éden Silva, Última Chance, de Roberto Martins e Mário Rossi, e as marchinhas A Jardineira, de Benedito Lacerda e Humberto Porto, Aurora, de Mario Lago e Roberto Roberti, e Carolina, de Hervê Cordovil e Bonfiglio de Oliveira, além dos já citados.      

Sua discografia é bem extensa, registrando 199 títulos e englobando todos os ritmos da MPB. Em meu acervo, possuo, só nos gêneros marchinha e samba carnavalesco, 109 faixas por ele gravadas. A seguir, capas de alguns de seus álbuns:

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Seus LPs são encontráveis com facilidade nos sebos virtuais. Ele morreu numa época em que o CD era a moda, por isso, em vida, não conheceu essa fase tão lucrativa do comércio fonográfico. A Editora Revivendo, maior preservadora da Discografia Brasileira, conserva em seu catálogo diversas coletâneas de Carnaval, nas quais Gilberto é um dos principais intérpretes, além de vários títulos individuais.  

Mesmo depois de aposentado, continuou ele atuando em várias emissoras de rádio e televisão, assim como em casas de shows e em espetáculos montados com a Velha Guarda da Música Popular Brasileira.                              

Seus últimos anos de vida foram passados em cidades do Interior Paulista, primeiro em Cesário Lange e, mais tarde, em Jacareí, onde veio a falecer.                              

No dia 05.04.12, a amiga Papisa Aline homenageou-o, aqui no JBF, por ocasião dos 20 anos de seu falecimento, ocorrido a 04.04.1992, postando um vídeo extraído do filme É de Chuá, de Victor Lima, lançado em 1958, no qual Gilberto interpreta o samba Você É Demais, de Sebastião Gomes e Braga Filho. No dia 15.09.2011, o pesquisador e compositor Walter Jorge, em sua coluna Conversa de Matuto, já o focalizara, não só com sua biografia, como oferecendo-nos Uma Grande Dor Não Sem Esquece, valsa de Antenógenes Silva e Ernani da Costa Campos, Minha Cabrocha, samba de Lamartine Babo e Gosto Que Me Enrosco, maxixe de Sinhô. É o Jornal da Besta Fubana, baluarte da Cultura Brasileira, também preservando os grandes vultos que fizeram nossa História Musical.                              

Agora, aqui vai minha contribuição, disponibilizando duas de suas inesquecíveis gravações.                              

Em 1941, quando se falava na Segunda Guerra Mundial, que estourara na Europa, ficaram comuns os sambas-exaltação, que nós, as crianças balsenses, aprendíamos e cantávamos com grande fervor, como Natureza Bela, de Felisberto Martins e Henrique Mesquita, com que Gilberto Alves nos maravilhou:

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Na segunda metade de 1945, acabada a Guerra, passou lá por Balsas uma trupe de comediantes, que se apresentou no Salão da Prefeitura. Havia dois palhaços, o Zé Gaiola e o Picolé, cujas paródias, todas picantes, iniciaram a formação de meu repertório circense. Também havia uma exuberante e linda sambista, a Marquise Negra que, cantando e requebrando, nos mostrou pela primeira vez o samba Última Chance, de Roberto Martins e Mário Rossi, gravado por Gilberto Alves no começo do ano, o qual se incorporou ao acervo dos sambas que canto até hoje. Detalhe hilário era quando Marquise Negra cantava “tens o corpo marcado, e eu sei o motivo” e apontava para algum homem casado e raparigueiro da cidade, fazendo a plateia cair na gargalhada. Vamos ouvi-lo:

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TOQUES DE CORNETA – PARTITURAS NO FACEBOOK

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Em abril de 2007, ao produzir 290 toques de corneta, com o auxílio de dois Cabos Corneteiros do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial, por sugestão de membros das Comunidades Orkutinas ligadas à Música Militar, e disponibilizá-los na Internet, não imaginava o sucesso que isso iria alcançar. Para vocês terem uma ideia, até meados de 2012, quando o site 4Shared, hospedeiro dos toques, exibia as estatísticas de cada um, o Toque de Alvorada – 1ª Parte chegava aos 11 mil acessos, e o de Alarme Aéreo ultrapassava os 10 mil.

Desde então, começaram a chover pedidos das partituras dos toques, advindos de soldados das três Forças Armadas e das Polícias Militares, no desejo de seguirem carreira na qualificação de corneteiro. A todos eu vinha atendendo, com a remessa do C 20-5, Manual de Toques do Exército, até que seu estoque se esgotou Estabelecimento General Gustavo Cordeiro de Farias – EGGCF, onde os adquiria.

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Neste ano de 2013, recrudesceram os pedidos. Por esta razão, resolvi escanear todo o C 20-5 e disponibilizá-lo o Facebook, no intuito de facilitar a pesquisa dos interessados. Basta abrir a página RAIMUNDO FLORIANO, clicar em Fotos, depois em Álbuns, a seguir em PARTITURAS – TOQUES DE CORNETA, escolher a página, salvá-la e imprimi-la.

Eis a relação dos toques contidos no Manual. O número ao final de cada linha indica a página onde ele se encontra:

A GRANADEIRA – 46
À VONTADE – 12
ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS – 36
ACELERADO (MARCHE) – 14
ADJUNTO AO OFICIAL DE DIA – 20
AEROTERRESTRE – 40
AJUDANTE OU ENCARREGADO DE PESSOAL – 17
ALARME AÉREO – 27
ALARME CONTRA AGENTES NUCLEARES – 27

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FUI NOTÍCIA NA CAPITAL LUDOVICENSE

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Nasci em Balsas, sertão sul-maranhense, limítrofe com o então Estado de Goiás, hoje Tocantins, no ano de 1936, mas só em 1973, por acaso, vim a conhecer São Luís, a Capital Ludovicense – assim denominada pelos franceses ao fundarem-na, em 1612, homenageando Luís XIII, o Justo, Rei da França. Para os franceses, Ludovico e Luís é tudo a lesma lerda. Para os franceses, eu disse!

Vou explicar a razão dessa demora e o motivo desse acaso.

Nos Anos 30/40, não havia estrada carroçável de Balsas para São Luís, distante 818 quilômetros em linha reta. Para os balsenses chegarem àquela cidade, no litoral, navegavam pelo Rio Balsas até Uruçuí, Piauí, acessando o Rio Parnaíba, e dali até Teresina, perfazendo um trajeto 1.080 km de meandros aquáticos. Faltando ainda 458 km para o destino – total da aventura: 1.538 km e 10 dias de viagem, no mínimo –, o jeito era desembarcar e seguir por terra, cumprindo o célebre roteiro imortalizado por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião:

“Peguei o trem, em Teresina, pra São Luís do Maranhão
Atravessei o Parnaíba, ai, ai, que dor no coração!”

Éramos, portanto, devido à distância e à carência dos meios de acesso, ignorados, completamente marginalizados pelo governo estadual, e nossos centros comerciais e culturais mais próximos eram Floriano e Teresina, acessíveis por água, via Rios Balsas e Parnaíba, e Belém do Pará, também acessível por água, via Rio Tocantins.

Estudei em Floriano, depois em Teresina, e, de lá rumei para o sul-maravilha, no intuito de conquistar o mundo. Quando isso consegui, sempre voltei a Balsas, para gozar férias junto a minha família, jamais pensando em conhecer a Capital.

E o tempo foi passando!

Em dezembro de 1973, fui passar o Natal em Balsas. No dia 22 de dezembro, um sábado, embarquei num Avro (DC-4) da Varig, em Brasília – verdade, há 40 anos, isso era possível –, e a viagem ia muito bem até as cercanias do campo de aviação balsense, quando se iniciaram os procedimentos para o pouso. Já quase tocando o chão, o Comandante verificou que a pista era um aguaceiro só, completamente inundada, o que o fez arremeter a aeronave e seguir em frente. Dessa forma, aos 37 anos de idade, por acaso, conheci São Luís!

(Nota explicativa: hoje, 04 de março de 2013, para ir-se de Brasília a Balsas, sem estrada carroçável que se apresente em razoáveis condições ou não destruam as viaturas utilizadas, pega-se um avião até Imperatriz, 2 horas de viagem, e, depois, utiliza-se de van ou de micro-ônibus, levando mais de 7 horas para vencer um percurso de 387 quilômetros de buraqueira, calor, poeira e ausência de um mínimo de condições higiênicas nas privadas que se encontram pelo caminho.)

Lá, por conta da Varig, fiquei hospedado no Hotel Central. No dia seguinte, 23, um domingo, aproveitei para conhecer os pontos turísticos mais famosos da cidade. Na segunda-feira, dia 24, o mesmo avião, retornando de Fortaleza, me levou ao meu destino, desta vez, felizmente, com a pista seca.

E o tempo foi passando!

Em julho de 2010, 37 anos depois – joguem no bicho, é a dezena do coelho! –, voltei a São Luís, em viagem programada e ansiada, para assistir ao casamento dum sobrinho. Embarquei no dia 2 de julho, sexta-feira, assisti ao casamento no sábado, cujas festividades se prolongaram no domingo, e retornei no dia 5, segunda-feira. O que aconteceu no voo e seu desdobramento são o motivo desta matéria.

Fomos eu e Veroni, minha mulher. Ainda na Sala de Embarque do Aeroporto de Brasília, apinhada de passageiros para todos os destinos, visualizamos uma jovem morena, dos seus 40 anos, irrequieta, andando dum lado para o outro, agarrada ao celular, transmitindo e recebendo. Era o tipo da mulher brasileira, estatura mediana, corpo exuberante mas não chamativo, traje elegante, uma linda mulher.

Na primeira viagem do ônibus leva-e-traz, fomos conduzidos à aeronave. Ocupamos nossos lugares, eu, como sempre, perto da janela, Veroni ao meu lado, à direita, ficando o terceiro assento desocupado. Na segunda pernada do ônibus, a morena veio e o ocupou. Ao contínuo, puxou conversa com Veroni, começando ali uma boa amizade.

Nem bem o avião levantara o rabo da pista, e Veroni me pediu que desse meu cartão de visita à morena. Depois disso, a conversa passou a ser comigo, até desembarcarmos em São Luís, quando lhe entreguei também o convite – que estava na bagagem – para o lançamento de meu novo livro, De Balsas Para o Mundo.

A morena se chama Paulinha Lobão, é filha do jornalista Expedito Quintas, meu colega aposentado da Câmara dos Deputados, e tem um programa de variedades na TV Difusora do Maranhão, afiliada ao SBT, o Algo Mais, nos sábados, a partir do meio-dia, que, em julho passado, completou 10 anos, o mais visto em toda a Capital Timbira e arredores. Detalhe: é ao vivaço, conforme ela faz questão de ressaltar.

A mulher é um show: apresenta, noticia, comenta, canta, dança, rebola, domina, contagia, agrada e encanta.

Ao nos despedirmos no Aeroporto do Tirical, em São Luís, ela prometeu-nos fazer-me uma homenagem em seu programa no dia seguinte, 3 de julho, quando eu comemoraria meus setenta e quatro anos de doce vidinha.

O resultado está aí neste vídeo de quase 6 minutos, com que ora lhes presenteio, agradecendo o apoio técnico da seção de recursos audiovisuais deste JBF.

Resumo de tudo: fui profeta em minha terra!

JORGE GOULART, O GARGANTA DE AÇO

Jorge Neves Bastos, o Jorge Goulart, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), à Rua Araripe Júnior, bairro Andaraí, no dia 16 de janeiro de 1926, cidade onde veio a falecer no dia 17 de março de 2012, aos 86 anos de idade. Era filho do jornalista Iberê Bastos e de Arlete Neves Bastos, do lar.

Sua morte aconteceu uma semana antes da do humorista Chico Anysio, ocorrida no dia 23 seguinte. Para o ator global, o Correio Braziliense dedicou, na primeira lapada, afora menção nas edições seguintes, caderno com 8 páginas, e a revista Veja, mais 4. Quanto a Jorge, o Correio se calou, e a Veja publicou apenas esta lacônica nota, na seção Datas, tópico Morreram:

Não considero descaso da grande imprensa com esse grande ídolo da Velha Guarda da MPB. Se Chico criou 209 personagens, Jorge deixou 217 títulos gravados, todos em meu acervo. A imensa discrepância entre a cobertura dada ao falecimento do humorista e ao do cantor reside no aspecto de que Chico se encontrava em plena atividade, enquanto que Jorge se distanciara dos microfones e do palco, havia muito tempo, devido a problemas de saúde.

A única homenagem digna em toda a mídia a Jorge Goulart aconteceu aqui no Jornal da Besta Fubana. No dia 19.03.12, nosso colega Walter Jorge, compositor, músico e pesquisador, em sua coluna Conversa de Matuto, dedicou-lhe oportuna crônica, estampando capa de um de seus discos e postando duas de suas gravações: o samba Divina Dama, de Cartola, e valsa Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin, versão de João de Barro e Antônio Almeida. Na ocasião, deixei um comentário sobre o quanto admirava o cantor e prometendo matéria com seu perfil, o que agora faço, trazendo seu nome novamente à tona.

Jorge Goulart, ainda menino, participava de serestas no bairro do Meyer, cantando sucessos do repertório de Francisco Alves, Vicente Celestino, Carlos Galhardo, e Orlando Silva. Estudou no Colégio Pedro II, onde foi aluno do Maestro Villa-Lobos e solista do coral.

Em 1943, aos 17 anos, foi apresentado por seu pai aos compositores Benedito Lacerda, Custódio Mesquita e Orestes Barbosa, no antigo Café Nice. Começou aí sua carreira de cantor, apresentando-se no Circo do Dudu e em dancings da Lapa, divulgando composições de Custódio, até fixar-se no Eldorado, onde cantava todas as noites. Com a ajuda do cantor João Petra de Barros, passou a cantar, uma vez por semana, em programa noturno da Rádio Tupi.

Logo que começou a despontar nas noites cariocas, seus amigos sentiram a necessidade de criar-lhe um nome artístico. Na época, a locutora Heloísa Helena, da patota, fazia o comercial do Elixir de Inhame Goulart. Inspirados no anúncio, os colegas sugeriram o nome Jorge Goulart, que ele adotou no ato.

Em 1945, por influência de Custódio Mesquita, diretor da RCA Victor, gravou seu primeiro disco 78 RPM, com a valsa A Volta e o samba Paciência, Coração, ambos de Benedito Lacerda e Aldo Cabral.

O disco, lançado logo depois do Carnaval, resultou em fracasso, talvez porque Jorge cantasse imitando Nelson Gonçalves. Depois, gravou mais dois outros discos e, não obtendo sucesso, foi dispensado da gravadora.

Continuou, porém, a participar da programação noturna da Rádio Tupi, onde conheceu Ary Barroso que, retornando dos Estados Unidos e reassumindo seu cargo de produtor da emissora, o convidou a cantar sua nova música, Xangô, batuque afro, com letra de Fernando Lobo, no programa de estreia da orquestra que havia formado. Com essa interpretação, firmou-se definitivamente no rádio brasileiro, assinando contrato de exclusividade por quatro anos com a emissora.

Em 1946, Jorge atuou no show Um Milhão de Mulheres, organizado pelo cineasta, jornalista e produtor Chianca Garcia, que permaneceu em cartaz durante dois anos no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. A seguir, rumou para Porto Alegre (RS), inicialmente com a troupe de Chianca, passando depois a cantar em boates.

Em 1949, retornando ao Rio de Janeiro, gravou, pela Continental, o samba Miss Mangueira, de Wilson Batista e Antônio Almeida, e a marchinha Balzaquiana, de Wilson Batista e Nássara, que foi um dos grandes destaques do Carnaval de 1950, consagrando-o como grande intérprete do gênero. O sucesso alcançado com a marchinha lhe valeu um contrato de três anos com a gravadora e a oportunidade de incorporar-se ao elenco da Rádio Nacional, onde ficou durante 15 anos.

A partir dessa época, lançou inúmeros sucessos carnavalescos e de meio de ano, destacando-se entre estes a valsa Dominó, de Jacques Plante e Paulo Tapajós, o beguine Jezebel, de Shamkin e Cambé da Rocha, e Canção do Moulin Rouge, de Georges Auric, Wiliam Engrnick e Carlos Alberto.

A carreira de Jorge Goulart no cinema começou em 1949, no filme Também Somos Irmãos, de José Carlos Burle. O excelente desempenho lhe rendeu um contrato de exclusividade com a Atlântida Cinematográfica. No mesmo ano, atuou em Carnaval no Fogo, de Watson Macedo. Participou ainda dos filmes Não é Nada Disso e Aviso aos Navegantes, do mesmo diretor, e Garotas e Samba, de Carlos Manga, entre outros. No filme Tudo Azul, de Moacyr Fenelon, Jorge aparece cantando um de seus maiores sucessos, o samba Mundo de Zinco, de Antônio Nássara e Wilson Baptista, que ficou em primeiro lugar no concurso de músicas para o Carnaval de 1952.

No mesmo ano, o cantor foi eleito o Rei do Rádio, em concurso organizado pela Associação Brasileira de Rádio. Nessa fase de ouro de sua carreira, Jorge Goulart fez várias gravações de sucesso. Uma de suas mais belas interpretações foi o samba-canção Cais do Porto, de Capiba, o conhecidíssimo compositor pernambucano. O poderoso timbre de sua voz valeu-lhe o apelido de Garganta de Aço.

Jorge ao microfone

Jorge Goulart teve um grande amor em sua vida, a cantora Nora Ney. Os dois se conheceram, em 1952, quando cantavam no Copacabana Palace e, após um período conturbado, assumiram o relacionamento e passaram a viver juntos até a morte da cantora em 2003.

Jorge Goulart e Nora Ney

Em meados da Década de 1950, ainda havia uma grande resistência aos sambistas do morro. Jorge Goulart trouxe para o rádio e para o disco músicas de compositores das Escolas de Samba. O primeiro grande sucesso de um desses sambistas gravado por Jorge Goulart foi o samba A Voz do Morro, de Zé Kétty, destaque do Carnaval de 1956, que também foi cantado por Jorge no filme Rio 40 Graus, de Nélson Pereira dos Santos.

No fim Década de 1950, junto com Nora Ney, Jorge Goulart excursionou por diversos países do Leste Europeu e pela China. Além deles, integravam o grupo Paulo Moura, Conjunto Farroupilha, Dolores Duran e Carmélia Alves. Fizeram vários shows divulgando a música e a cultura brasileiras. Em 1957, Jorge Goulart emplacou outro grande êxito, o samba-canção Laura, de João de Barro e Alcyr Pires Vermelho.

Na primeira metade da Década de 1960, Jorge Goulart manteve sua marcante presença no cenário musical brasileiro, gravando principalmente músicas para o Carnaval, estourando com as marchinhas Cabeleira do Zezé, de Roberto Faissal e João Roberto Kelly, em 1964, e Joga a Chave, Meu Amor, de Kelly e J. Ruy, em 1965. Nessa mesma década, estreou como intérprete de samba-enredo na Escola de Samba Império Serrano. Em 1965, a Escola levou para a avenida, com sua voz, o samba Cinco Bailes da História do Rio, de Silas de Oliveira, Bacalhau e Ivone Lara. Goulart dizia que o único lugar onde se fazia samba de chão era no morro. No início do Regime Militar que se instalara no Brasil em 1964, Jorge Goulart e Nora Ney, como alguns outros artistas, foram demitidos da Rádio Nacional.

A partir então, o meio musical se fechou para os dois, que passaram a excursionar por diversos países, em redor do mundo.  Em 1971, já no Brasil, Jorge fez uma temporada na boate Feitiço da Vila, em Belo Horizonte. Para comemorar os 25 anos de união matrimonial, Jorge Goulart e Nora Ney gravaram, em 1977, o LP Jubileu de Prata. Uma das músicas do LP, interpretadas por ele é o samba-canção Fim de semana em Paquetá, de João de Barro e Alberto Ribeiro. O último disco de Jorge Goulart saiu do espetáculo Oh! As Marchinhas, no qual atuou com Emilinha Borba. O show foi escrito e dirigido por Ricardo Cravo Albin e apresentado em 1981, na Sala Funarte.

Em 1982, Jorge Goulart e Nora Ney apresentaram-se no Teatro Gonzaga, em Marechal Hermes, numa série de shows intitulada De Coração a Coração, comemorando seus 30 anos de união.

Em 1983, Jorge Goulart encontrava-se em plena atividade quando lhe apareceu um câncer na laringe. Submetido a uma cirurgia e perdendo a voz, Jorge não se entregou. Aprendeu a falar usando o esôfago e, ainda no INCA, realizou apresentações de suas músicas em playback, para arrecadar fundos em prol de outros enfermos, mostrando-lhes que, apesar dos percalços, a vida continuava.

Com esse raciocínio, o cantor seguiu realizando atividades filantrópicas, participando de eventos onde dublava seus sucessos. Por isso, foi agraciado com a Medalha Tiradentes, concedida pela Aessembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, e recebeu homenagens do Exército, do Colégio Pedro II e do Vasco da Gama, seu clube de coração.

Em 2007, Jorge Goulart casou-se com Antônia Lúcia, que fora enfermeira de Nora Ney até seu falecimento, em 2003, e passou, desde o casamento, segundo os amigos, a ser um verdadeiro Anjo da Guarda para o marido.

Comemorou, em janeiro de 2012, seu 86º Aniversário no Teatro Mário Lago, no Colégio Pedro II, com um show que emocionou a toda a plateia. Foi sua despedida do público, deixando sua marca com um dos grandes cantores da Música Popular Brasileira.

Seu discos, ainda gravados em vida ou em coletâneas post mortem, são facilmente encontráveis na Editora Revivendo e em sebos virtuais.

Como pequena amostra de seu trabalho, ofereço-lhes o samba Isto Aqui o Que É, de Ary Barroso, lançado em 1942, que Jorge regravou em 1955:

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MÚSICO DE SOPRO: SEU OCASO NO CARNAVAL BALSENSE

Toquei o Carnaval em Balsas pela primeira vez em 1975. Naquele ano, os integrantes do Bloco Carnavalesco Jardim da Infância enviaram-me o convite e a passagem aérea. A foto acima, batida tão logo desembarquei, mostra todo o Bloco, mais o saxofonista Martinho Mendes, o sanfoneiro Edwaldo e o baterista Dumingau, que foram me receber no Campo de Aviação.

Logo após, incorporei-me à Banda FM, do Cantor Félix Matias, o Roberto Carlos do Sertão, composta de baixista, tecladistas, vocalistas, a parafernália eletrônica e um cozinha – percussão – nota 10. Do Riachão, distante70 quilômetros, juntara-se a nós o pistonista Zé Raimundo.

Em esse diminuto esquema, tocávamos 4 bailes, 2 matinês para as crianças e fazíamos o Carnaval de rua, enriba da carroceria dum caminhão, ou mesmo a pé. Para o músico de sopro e para os percussionistas, pouco importa se há eletricidade ou não, microfone ou não. Lembro-me de certa ocasião em que faltou luz durante a matinê, mas isso não foi problema. Continuamos tocando no palco, e meninada pulando, pois nós, percussionistas e músicos de sopro, éramos a Som, éramos a Música.

Dali pra frente, por inúmeras vezes fui incrementar o Carnaval Balsense, levando comigo o saxofonista Dudu e outros músicos eventuais.

A explicação para mandarem buscar instrumentistas em outras paragens era uma só: os dois músicos de sopro da cidade, Leonizard Braúna e Martinho Mendes, estavam praticamente aposentados da atividade artística. Eles, que foram meus mestres e incutiram em mim grande parte do amor que tenho pela Música e pelo Carnaval Brasileiro, também me proporcionaram imensa felicidade e emoção, ao ver-me com ambos nos palcos, lado a lado, mostrando o que me ensinaram.

O Mundo deu muitas voltas e, com ele, o Carnaval também, que veio se modificando no decorrer dos anos, pegando nova feição. O fenômeno ocorreu em todo o território brasileiro. Devido à ausência de linha aérea para Balsas e à precariedade das estradas carroçáveis, o Carnaval Balsense virou apenas história para mim.

E a cidade, sem músicos de sopro, foi-se adaptando à nova feição musical. Essa carência por muito tempo perdurou, mormente pela falta de Professor de Música, pois é necessário muito estudo, dedicação e persistência para se tocar um instrumento de sopro.

Há coisa de uns 10 anos, recebi notícia alvissareira aquiem Brasília. Foracriada em Balsas, sob os auspícios da Prefeitura Municipal, a Escola de Música Leonizard Braúna, com Maestro e Professores, o que resultou, com o desenvolvimento e evolução musical dos alunos, na criação da Banda de Música da Escola. A foto a seguir mostra os jovens em início de aprendizado:

 

Eu tenho fé nessa meninada

A semente frutificou, nesta foto, vemos a moçada em nova fase, pronta para enfrentar qualquer desafio:

 

Componentes da Banda da Escola de Música

Há pessoas que fazem Música por diletantismo, por terem outra fonte que lhes garanta os meios de subsistência. E há os que se profissionalizam, que obtêm com a Música os recursos necessários para si e para sua família. Bendita profissão! Divina profissão!

Para aqueles que não dependem de equipamentos eletrônicos para trabalhar, só há, durante o ano, duas épocas propícias ao ganho de algum dinheiro. Aos forrozeiros, o período junino, que abrange os meses de junho e julho. Aos instrumentistas de sopro, o período carnavalesco, que vai do Réveillon até a Terça Feira Gorda.

Sendo meus conterrâneos muito alegres e festeiros, eu tinha pra mim que a nova geração de bons músicos de sopro ali forjada estaria, nas jornadas momescas, vendo-se generosamente remunerada pelo que proporcionava à população balsense com sua Divina Arte.

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, chegam-me, pelo Facebook, os ecos do Carnaval Balsense.

Foram contratadas 5 (cinco) Bandas, conforme se vê neste anúncio, presumivelmente vindas de outros centros mais avançados musicalmente:

 

O movimento principal aconteceu no denominado Corredor da Folia, montado à frente do Supermercado Mateus, o espaço mais badalado da cidade. Os balsenses aplaudiram a organização de seu Carnaval, entraram no espírito da festa e brincaram como nunca, felizes e ordeiramente, como lhes é característico.

Aqui vai pequena amostra da aglomeração foliona e de uma das Bandas, com imagens postadas no Facebook:

 

A alegria do povo e os músicos que a proporcionaram

Até agora, de todas a imagens que me chegaram, não vi sinal algum de músico de sopro.

Comentando isso com minha filha Mara que, desde criança, me acompanhou em nas armações carnavalescas, quer na Banda da Capital Federal, quer no Pacotão, quer nos Blocos de Sujos, e hoje toma parte em tudo que acontece musicalmente em Brasília durante o Reinado de Momo, ela tentou me explicar o que eu já sabia:

– Pai, agora é assim. O povão, no Carnaval, quer mesmo é o show, é o Rock, o Axé, o Sertanejo, até o Forró.

Aí eu, aceitando seus argumentos, digo-lhe que qualquer desses gêneros não exclui os instrumentos de sopro, pelo contrário, até fica mais bonito com sua inclusão.

Sabendo disso é que o artista forrozeiro Herbert Lucena, em sacada genial, bolou um esquema que mescla os instrumentos tradicionais do Forró com apetrechos eletrônicos, vocalistas e sopros diversos: trombone, pistom, sax tenor e sax alto, dando um molho altamente apimentado e gostoso aos espetáculos com que hoje inebria todo o Brasil.

 

Herbert Lucena e seu genial esquema

Eu, há muito tempo, retirado da atividade instrumental, venho fazendo minha parte em prol da Música Popular Brasileira, especialmente do Carnaval, disponibilizando no Orkut 400 das partituras que colecionei nestes últimos 40 anos, bastando copiar, colar e imprimir.

Tendo o Jornal da Besta Fubana como excelente vitrine e Google como fonte encaminhadora, posso afirmar que, de dezembro de 2012 até o final deste Carnaval, atendi a solicitações de, calculadamente, uns 500 músicos brasileiros, individuais, Banda ou Orquestras, mas isso foi nada, diante do tamanho do Brasil. E também do Exterior, como de San Jose, no Uruguai, e Funchal, Barcelos e Viseu, em Portugal, mas isso foi nada, diante do tamanho do Mundo.

Mesmo assim, consolo-me ao constatar que, em algumas partes de nosso País, como no Exterior, ainda existe espaço para os músicos de sopro. Baseio-me nas mencionadas solicitações e nesta surpreendente mensagem postada no Facebook por um músico de Jacarezinho (PR), na Quarta-Feira de Cinzas, que transcrevo sem edição:

 

Amigos, nem tudo está perdido! Dos 500 atendidos, um voltou para agradecer!

Finalizando, e para comprovar o que afirmo quanto ao casamento do Forró com os instrumentos de sopro, ofereço-lhes, para avaliação e deleite, o Samba do Ziriguidum, de Jadir de Castro e Luiz Bittencourt, criação de Jackson do Pandeiro, na supimpa interpretação de Herbert Lucena e seu perfeito esquema instrumental. 

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CHICO ANYSIO E O CARNAVAL

Vocês já ouviram falar em Louis Guglielmi? Não? Ele é o compositor do foxe La Vie en Rose. E de Stephen C. Foster? Também não? Pois foi ele quem compôs o country Oh! Susanna. Ambas as músicas são popularmente conhecidas em qualquer país deste planeta.

Sabem quem são os irmãos Glauco, Homero e Ivan Ferreira? Não? Vou apresentá-los. Em 1959, Glauco escrevia um dos do programa A Praça da Alegria, da TV Rio, no qual o cantor Moacyr Franco, caracterizado de mendigo, repetia sempre o mesmo bordão: “Me dá um dinheiro aí”. Inspirados no quadro, seus dois irmãos, Homero e Ivan, a ele se juntaram para comporem a marchinha Me Dá Um Dinheiro Aí, gravada pelo próprio Moacyr, sucesso absoluto no Carnaval de 1960 e seguintes, que até hoje rende polpudos direitos autorais os três.

Chico Anysio também compôs, com parceiros, um sucesso que perdura até os dias atuais, aparecendo em qualquer antologia carnavalesca. Ninguém, ao ouvi-la, identifica-a com os autores. Mais adiante, falarei voltarei a ela.

Chico nasceu em Maranguape (CE), a 12.04.31, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 23.03.12, aos 80 anos de idade, vítima de grave pneumonia e insuficiência cardíaca.

No dia seguinte a seu falecimento, e até uma semana depois, foi a maior cobertura da mídia dedicada a uma pessoa do meio artístico brasileiro que tive a oportunidade de presenciar. A edição do dia 24.03.12 do Correio Braziliense dedicou-lhe caderno de 8 páginas! A revista Veja, a seguir, mais 4! Sua biografia, com todos os tipos criados por ele nos diversos programas da Televisão que estrelou, foi estampada nos mínimos detalhes. Faltando apenas um: ninguém se lembrou de sua atuação no Carnaval Brasileiro. E é isso que faço agora, não para louvar, nem para malhar, apenas para preencher essa lacuna que a mídia deixou escancarada.

Aprendi a gostar de Chico Anysio desde o início dos Anos 1960, quando cheguei a Brasília, ao comprar meu primeiro televisor. Meu tempo ocioso era preenchido, à noite, pelos programas da TV, e, durante o dia, por duas curtições que de mim se apossaram: a Discografia e a Literatura. Querendo comprar tudo que é disco gravado no mundo e ler todos os autores nacionais e estrangeiros mais famosos, fui-me afastando da TV e de tal modo que, já no início dos Anos 1970, eu só assistia aos noticiários e aos jogos de futebol. Por isso as 209 personagens que Chico Anysio criou para a TV são quase todas minhas ilustres desconhecidas. Até porque, vindo eu de um trabalho de 6 meses nomeio circense, abominava, e abomino até hoje, piadas que sempre terminam com a mesma frase, o que caracterizava a maioria dos tipos que Chico personalizava.

No entanto, guardo dele, em minhas prateleiras, estas duas preciosidades literárias, O Batizado da Vaca, lançado em 1972, e O Enterro do Anão, lançado em 1973:

 

Duas obras geniais

São crônicas hilariantes, nas quais Chico Anysio nos presenteia com toda sua criatividade, além do mérito que faz a qualidade dos dois livros: em momento algum ele se repete, com soía na TV.

Em minha curtição de colecionador de sucessos carnavalescos, acompanhei, mui atentamente, como pesquisador e folião, a trajetória do Chico compositor e do Chico intérprete.

 

Chico, compositor e intérprete

Para fazer-se uma marchinha que caia no agrado do povo – esta é minha opinião, e Chico dela compartilhava – são necessários dois ingredientes: refrão chamativo e apenas uma curta estrofe. Caso contrário, ninguém aprende a cantá-la. Sua primeira composição, a marchinha Guarda-chuva de Pobre, em parceria com Raul Sampaio e Rubens Silva, gravada pelos Vocalistas Tropicais para o Carnaval de 1955, já se enquadrava perfeitamente no metro e no compasso:

Oi, deixar chover. Oi, deixa molhar
No molhado é melhor de se brincar

Do guarda-chuva eu acho graça
Guarda-chuva de pobre é cachaça
Se a chuva cai, me sinto bem
Me molho por fora e por dentro também

A segunda, Marcha do Sapo, em parceria com Dantas Ruas e Raul Sampaio, gravada pelos Vocalistas Tropicais para o Carnaval de 1956, segue e mesma batida:

Sapo é que pula
E dorme no molhado
Tira a criança da cama
Que eu não durmo sossegado

Eu pulo, pulo, oi, mas não escapo
Já cansei de dormir feito sapo
Aqui está seco, ali está molhado
Quem dorme com criança
Acorda resfriado

Os anos se escorreram pelos buracos da peneira do tempo e, só em 1961, Chico Anysio voltou ao Carnaval, desta vez como intérprete, encarnando um de seus personagens da TV, com a marchinha Eu Sou Durão, de Mário Lago e Bruno Marnet:

Eu sou durão, eu sou durão
Comigo não é sopa não

Minha mulher tem um primo
Que é tipo do bonitão
Dá presente, dá passeio
P
aga a casa e a prestação
Ela me diz: – É como um irmão!
Ainda bem que eu sou durão

O filão de seus personagens dá-lhe fôlego para voltar como intérprete em 1962, com a marchinha Não Sou de Nada, também de Mário Lago e Bruno Marnet:

Ah! Lolita, fique sossegada
Eu sou criança, não sou de nada

Não vem falando mole e fino
– Valentino, Valentino
Não adianta seu derretimento
Não coincidir com meu acanhamento

A obra-prima carnavalescas de Chico Anysio viria em 1965, arrebentando a boca do balão. Trata-se da marcha-rancho Rancho da Praça Onze, em parceria com João Roberto Kelly, gravada por Dalva de Oliveira. Aqui, a letra e a melodia fogem dos padrões seguidos para as marchinhas anteriores, fazendo com que o Rancho permaneça para sempre na memória de todos e se faça presente em todos os locais em que se rememorem os sucessos carnavalescos de outrora, até em serestas, como várias vezes tive a oportunidade de testemunhar:

Esta é a Praça Onze tão querida
Do carnaval a própria vida
Tudo é sempre carnaval
Vamos ver desta praça a poesia
E sempre em tom de alegria
Fazê-la internacional

A praça existe alegre ou triste
Em nossa imaginação
A praça é nossa e como é nossa
No Rio quatrocentão

Este é o meu Rio boa praça
Simbolizando nesta praça
Tantas praças que ele tem Vamos da Zona Norte à Zona Sul
Deixar a vida toda azul
Mostrar da vida o que faz bem

Praça Onze! Praça Onze

Em meados dos Anos 1970, o Carnaval Brasileiro, no que tange a marchinhas e sambas carnavalescos vivia seu estertor. Quase nada se produzia. Mas foi aí que a poderosa Rede Globo, com sua gravadora Som Livre, decidiu reativá-lo, criando o projeto Convocação Geral e trazendo para si considerável número de compositores novos, o que foi de grande alento para o setor. O primeiro lançamento, Convocação Geral 1975, com dois volumes, apresentou 33 excelentes composições.

No Convocação Geral 1976, Chico apresentou novo trabalho, a marchinha Fazendo Tudo, em parceria com Arnaud Rodrigues, que o grupo Trama gravou, mas sem a aceitação esperada:

Eu quero brincar pra valer
Fazendo tudo, fazendo tudo
Que eu possa fazer
Carnaval só é bom com você

Quero brincar
Ao som desse som, neném
O
uça bem!

No Convocação Geral 1977, até um veterano, campeoníssimo em toda a História do Carnaval Brasileiro, reapareceu com sua colaboração. Estou falando do eterno João de Barro, o Braguinha. Em parceria com Jota Júnior, e glosando a atuação do mágico israelense Uri Geller, que fazia furor na TV, pondo pra funcionar relógios quebrados e desentortando tudo que fosse de metal, lançou a marchinha Funciona, Cocota, que Chico Anysio gravou e se constituiu em tremendo sucesso, embora passageiro, eis que agora esquecido:

Uri, Uri, Uri, Uri Geller
Em vez de entortar minha colher
Uri, Uri, Uri, Uri Geller
Vê se desentorta essa mulher

Outro dia em sentei a Cocota
Bem na frente da televisão
E gritei: – Funciona, Cocota
Na frequência do meu coração!
Ela então respondeu-me gozando:
– Para que apelas pra TV
Se eu já estou toda funcionando
E quem não funciona é você?

– É você! É você!
– É você! É você!      

O último Convocação Geral foi o de 1979, descaracterizado, a meu ver, em grande parte de suas faixas. O projeto lançou, nesses cindo anos, 116 composições, distribuídas em 8 LPs. Depois dele, os concursos de marchinhas não têm obtido o resultado que deles se espera.

   A Fundição Progresso, que lançou, em 2006, o 1º Concurso de Marchinhas de Marchinhas Carnavalescas, também conhecido por Concurso de Marchinhas do Fantástico, até que se tem esforçado. Possuo as edições em CD até 2010, ano a partir do qual comecei a observar o desinteresse dos compositores.

  Cumprida a tarefa a que me propus, compartilho com meus leitores as gravações originais dos sucessos maiores de Chico Anysio.

Como compositor, a marcha-rancho Rancho da Praça Onze, com Dalva de Oliveira: 

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Como intérprete, sua gravação da marchinha Funciona, Cocota

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VIRGÍNIA LANE, A VEDETE DO BRASIL

Virgínia Giacone, a Virgínia Lane, compositora, atriz, cantora e vedete, nasceu a 28.02.1920, no Rio de Janeiro (RJ)

Dos 6 aos 14 anos, estudou como interna no Colégio Regina Coeli, passando, depois, para o Instituto Lafayette, onde cursou o primeiro ano de Direito, especialidade na qual mais tarde se formou. Frequentou a Escola de Bailados do Teatro Municipal, dirigida por Maria Olenawa. Em 1935, começou sua carreira como cantora, no programa Garota Bibelô, de César Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga. Sua estreia no elenco do Cassino da Urca deu-se em 1943, quando atuou como cantora e dançarina à frente das orquestras de Carlos Machado, Tommy Dorsey e Benny Goodman.

  

Em 1945, contratada para curta temporada na Rádio Splendid e na Boate Tabaris, de Buenos Aires, na Argentina, acabou ficando por lá durante três anos. Gravou o primeiro disco em 1946, com a marchinha Maria Rosa, de Oscar Belandi e Dias da Cruz, e o samba Amei Demais, de Ciro de Souza e J. M. da Silva. De volta ao Brasil, em 1948, foi convidada pelo dramaturgo, cineasta, jornalista e produtor português Chianca Garcia para estrear como vedete na revista Um Milhão de Mulheres, no Teatro Carlos Gomes do Rio de Janeiro. Foi sua entrada triunfante no denominado teatro rebolado, a maior atração musical noturna da Capital Carioca.

Com o sucesso que obteve nessa revista, foi contratada por Walter Pinto, produtor teatral brasileiro, com quem atuou, durante quatro anos, como vedete de sua companhia no Teatro Recreio, o olimpo do teatro de revista brasileiro daquele tempo. Tornou-se, então, a principal vedete da Praça Tiradentes. Ali, por quatro anos seguidos, emplacou diversas revistas, em parceria com Walter. Durante a temporada de Seu Gegê, Virgínia recebeu o título de A Vedete do Brasil, dado pelo Presidente Getúlio Vargas, a quem a revista aludia e com quem mantinha um caso amoroso.

Em 1951, estrelou a revista Eu Quero Saçaricar, de Freire Júnior e Luís Iglésias, no Teatro Carlos Gomes, na qual cantava a marchinha Saçaricando, de Luís Antônio Zé Mário e Oldemar Magalhães, que gravou na Todamérica, sucesso absoluto no Carnaval de 1952, até hoje cantada pelos foliões saudosos e faixa sempre presente em todas as coletâneas de músicas carnavalescas do passado.

Desde então, passou a trabalhar no Teatro Carlos Gomes. Ainda em 1952, foi eleita Rainha das Atrizes, pela Casa das Artistas. Nessa época, destacou-se também na televisão, especialmente nos Espetáculos Tonelux, da TV Tupi.

Sem jamais fugiu a seu estilo musical, Virgínia Lane sempre gravou músicas alegres e dançantes, quer no Carnaval, quer no meio do ano. Assim é que em seu repertório constam baiões, chá-chá-chás, choros, rancheiras, foxtrotes, maxixes e marchas juninas. Sua produção fonográfica, porém, foi mais direcionada par ao cenário carnavalesco, da qual possuo 43 peças, entre sambas e marchinhas, todas gravadas em 78 RPM, algumas de sua autoria individual ou em parceria.

No ano de 2003, a gravadora Acoustic Records lançou no mercado dois CDs com as músicas mais conhecidas de sua carreira, cujas capas aí estão:

 

Virgínia fez sucesso também no cinema, participando de 37 filmes, na Cinédia e na Atlântida, principalmente nas chanchadas e comédias carnavalescas, cantando e contracenando com famosos astros da época, como Oscarito, Grande Otelo, Ankito e Zé Trindade. Além disso, chegou a montar sua própria companhia para levar o teatro de revista a diversas regiões do Brasil.

Em 2005/2006 fez parte do elenco na novela Belíssima, da TV Globo, ao lado de outras ex-vedetes, como Carmem Verônica, Íris Bruzzi, Ester Tarcitano, Lady Hilda, Teresa Costello, Dorinha Duval, Anilza Leoni, Rosinda Rosa e Lia Mara, entre outras.

Virgínia Lane, no tempo de Getúlio Vargas

Numa entrevista concedida à Jornalista Flávia Ribeiro, a 01.12.2007, Virgínia relatou seu romance com o Presidente Getúlio Vargas: – Conheci Getúlio quando eu tinha 15 anos, era muito menina. Minha mãe nasceu em São Borja (RS), como ele. Era 1935, fui para um churrasco vestindo saia curta e bota. Eu era bonita, ele ficou olhando. Mas o namoro começou mais para a frente, quando eu já estava com uns 19 anos, e durou quase 15, até a morte dele, em 1954.

Virgínia teve dois casamentos, dos quais enviuvou: com o Engenheiro Agrônomo Sérgio Kroff e com o Major Ganio Ganeff. Este último e Getúlio, segundo contou na entrevista, foram os dois grandes amores de sua vida.

Hoje, vivendo em seu sítio na cidade de Paraíba do Sul (RJ), onde mora com Marta, sua filha adotiva, Virgínia é uma veterana bem-apanhada, como atestam as fotos a seguir, e participa, todos os anos, dos desfiles de fantasias carnavalescas na Cinelândia, na plateia, bem entendido.

 

Saçaricando foi sua marchinha de maior sucesso. Não há uma coletânea carnavalesca em CD, com arranjos e vozes atuais, que não a incluam em seu repertório. Por isso, escolhi para mostrar seu trabalho outra marchinha, Zé Corneteiro, de Lalá Araújo lançada em 1953, diante dos insistentes pedidos que tenho recebido ultimamente e também por só há pouco tempo havê-la incorporada a meu acervo.

Virgínia cantando Zé Corneteiro

Ouçam-na aqui: 

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JARARACA E RATINHO

Dupla sertaneja formada em 1927 pelo violonista José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, nascido em Maceió (AL), a 19.09.1896, e falecido no Rio de Janeiro (RJ) a 11.10.1977, e pelo saxofonista Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho, nascido em Itabaiana (PB), a 13.04.1896, e falecido em Duque de Caxias (RJ), a 08.09.1972.

José Luís encontrou Severino em 1918, nas rodas artísticas do Recife. Começaram a tocar juntos, organizando um grupo, Os Turunas Pernambucanos, onde apareciam ao lado de Pirauá, Romualdo e João Frazão, violonistas, Robson, cavaquinista, Artur Souza, percussionista, e um vocalista não identificado, que usava o pseudônimo Preá.

Os Turunas Pernambucanos

Todos os seus integrantes adotavam apelidos de bichos, permanecendo os de Jararaca e Ratinho, mesmo depois de sua dissolução: Juntamente com os Turunas da Mauriceia, influenciaram a música carioca no final da Década de 1920 e começo da Década de 1930, como pode ser verificado no grupo Bando de Tangarás, criado no bairro de Vila Isabel, que contava entre outros com Noel Rosa, Almirante e Braguinha.

Em 1921, os Turunas Pernambucanos exibiram-se por 15 dias no Cine-Teatro Moderno com o conjunto Oito Batutas – formado por Pixinguinha, saxofone e flauta, Donga, violão, China, voz, violão e piano, Raul Palmieri, violão, Nélson Alves, cavaquinho, José Alves, bandolim e ganzá, Jacó Palmieri, pandeiro, e Luís Oliveira, bandola e reco-reco –, que visitava o Recife. Foi o estímulo decisivo para o grupo, convidado então para os festejos do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1922, fazendo grande sucesso com suas emboladas, cocos, choros, valsas e seus trajes típicos: alpercatas e chapéus de couro.

Desfazendo-se os Turunas, formou-se a dupla na inauguração do Teatro Santa Helena, na Praça da Sé, São Paulo, em 1927, empolgando o público com emboladas e esquetes humorísticos, geralmente satirizando o momento político vivido na época. Seus quadros exploravam também situações envolvendo “turcos”, caipiras e gente da roça.

Jararaca e Ratinho: campões de irreverência

Ratinho imortalizou-se como saxofonista, ao compor e gravar o choro Saxofone, Por Que Choras?, item obrigatório em qualquer antologia chorona. Seu trabalho como instrumentista é aqui apresentado nas Faixas de 01 a 19.

Jararaca e Ratinho em ação

Jararaca, por sua vez, não deixou por menos, isso no âmbito do Carnaval Brasileiro. A marchinha Mamãe, Eu Quero, dele e de Vicente Paiva, é até hoje a mais tocada e cantada em qualquer festejo momesco, seja nos salões ou nos blocos de sujo. Vocês avaliarão sua contribuição à MPB nas Faixas de 20 a 40.

Nas Faixas de 41 a 60, encontram-se as gravações da dupla nos gêneros que a popularizaram no início da carreira: embolada, coco, desafio e outros.

Eis as músicas de gravadas por eles, constantes do meu acervo:

RATINHO EM SOLO DE SAXOFONE

01. Brincando – Choro (Ratinho) 1930
02. Lula – Choro (Ratinho) 1930

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OS GATOS-PINGADOS DO JET SET INTERNACIONAL

Bagagem prática do homem viajado

Que sou um homem cosmopolita, traquejado, todo mundo sabe disso. Em qualquer país onde desembarco, sou logo identificado como cidadão internacional, de seu tempo, e isso apenas por visível detalhe: a bagagem que carrego, constituída de mala com rodízio e pequena valise de mão, para objetos de uso pessoal.

Ultimamente, devido à diversificação desses objetos miúdos, tais como faca amolada, calçadeira, lixa de unha, tesoura, para serviços diversos, apito, para a xerifança, todos metálicos, até minha bagagem de mão é despachada, e eu embarco e desembarco em qualquer aeroporto tendo à mão a penas um item, este de caráter inseparável: livro, para leitura no trajeto.

A leitura, vício que carrego desde a infância, faz-me lembrar, a cada check-in, do livro Oliver Twist, do inglês Charles Dickens, escrito em 1838, no qual é narrada a triste sina dum menino nascido para sofrer e que é, a certa altura, vendido aos donos duma funerária para exercer o ofício de gato-pingado, ou seja, menino que ia à frente dos cortejos fúnebres de falecidos sem eira nem beira, desvalidos, fingindo chorar. Como eram escassos os carpideiros, surgiu esta expressão: uns poucos gatos pingados. E o que isso tem a ver com minha elegante bagagem? Calma! Mais adiante, vocês hão de saber.

Prestem atenção nos filmes atuais. Vocês já viram o Tom Cruise, o Richard Gere, o Brad Pitt, o Anthony Hopkins, o Johnny Depp ou o John Travolta carregando bagagem além da acima descrita? Não! E sabem por quê? O segredo é que todos eles vêm, de há muito, me imitando.

Meu comportamento racional impôs-se desde os tempos em que, fazendo a primeira viagem em minha vida quase nada tinha pra carregar, o que era característica dos sertanejos de meu tempo, que quase podiam falar como Bias, um dos Sete Sábios da Grécia: omnia mea mecum porto – levo comigo tudo que tenho.

Naquele tempo a bagagem invariável de todo nordestino desapercebido, ao embarcar na carroceria dum caminhão, ou em balsa, lancha, vapor e motor, era a maleta, o saco de rede e um cofo ou uma cesta para carregar comida, o chamado frito da viagem. Ao desembarcar, o cofo ou a cesta já não faziam parte de sua tralha.

Cofo e cesta: munição de boca, para economizar no passadio

O sertanejo tem uma virtude que o diferencia de todos os outros patrícios brasileiros: a solidariedade. Eu constato isso todas as vezes que, no período natalino, vou embarcar algum parente ou amigo na Rodoviária de Brasília. Qualquer deles – homem ou mulher – passa o ano inteirinho trabalhando, dando duro, mas economizando cada centavo ganho, visando apenas a levar um pouco de alegria e felicidade a seus familiares que o aguardam em seu rincão. E é verdadeira mágica a acomodação de tudo o que levam nos bagageiros dos ônibus interestaduais. Nada fica sobrando. Tudo comprado no Brasil, para consumo interno, incrementando o PIB nacional.

Bagagem de nordestinos: moto e bicicleta também vão

Agora, vejamos, em contrapartida, o que ocorre com os personagens do jet set internacional. Normalmente, é esta a pequena bagagem de quem desembarca nos aeroportos internacionais brasileiros, deixando no exterior o suado dinheirinho para a riqueza dos gringos:

Há bem pouco tempo, eu presenciei, no Aeroporto de Miami, esta cena, com uma socialite brasileira fazendo seu check-in:

Elegância e descontração

O mais curioso é o fato de que, quando embarcam para o exterior, as colunáveis, mal levam a roupa do corpo, numa prática do omnia mea mecum porto. Mas, ao voltar, tchan, tchan, tchan! Tem certas malas internacionais que, perdoem-me a comparação, de tão grandes, se parecem mais com o caixão de defunto de alguém como o Jô Soares:

Mala exagerada: quase não cabia na foto

E tem mais uma. Aproveitando-se da franquia que as empresas aéreas concedem aos portadores de bagagem de mão, tem certos vivaldinos que carregam verdadeiros jacás, atopetando os compartimentozinhos que ficam sobre a cabeça da gente, com o riso de tudo aquilo despencar de lá de riba, como já soeu amiúde ocorrer.

Neste sábado, eu estava no Aeroporto Internacional de Brasília aguardando uma passageira VIP, que vinha de Miami para conhecer a Capital Federal, comigo atuando como cicerone.

Depois de mais de hora e meia de atraso, eis o placar anunciou a aeronave no pátio. O alívio foi momentâneo, passada mais de meia hora, ninguém aparecia no portão de desembarque. Alguém deu um certeiro palpite: – Tá todo mundo sofrendo na revista da Alfândega.

E o tempo marchou. Enfim, apareceu uma passageira, verdadeira locomotiva social, sumida atrás do carrinho que empurrava com sua imensa bagagem:

Vinte minutos depois, foi a vez da segunda socialite, esta não menos exagerada em seus ricos teréns:

Sobre o conteúdo de tantas malas, a revista Veja até esclarecera um pouco, em sua Edição nº 2304, de 16.01.13:

A espera começou a provocar certo desconforto nos circunstantes, alguns com placas indicativas de pessoas desconhecidas que aguardavam. O fato não chegou a incomodar-me, pois quando fora anunciado o primeiro atraso, eu corri até a Livraria e comprei o livro Big Jato, do Xico Sá, dando início imediato a sua leitura. Com um livro, o tempo flui que agente nem vê!

Uma de minhas filhas, estranhando minha demora para chegar em casa, foi ao Aeroporto saber o que o que acontecia, isso porque eu não carrego celular comigo. Ao me ver ali sentado, tranquilão, absorto na leitura, perguntou-me:

– Pai, sua convidada ainda não desembarcou?

Respondi-lhe, feito papagaio e repetindo o que ouvira, que ela deveria estar desvencilhando-se de problemas com a Alfândega. Minha filha, admirada com tamanha demora, insistiu:

– Pai, e quantos passageiros já saíram pelo Portão de Desembarque?

Foi a única resposta que me veio na hora:

– Meia dúzia de gatos-pingados!

IRAH CALDEIRA, MEU NATAL BEM NORDESTINO

Irah Caldeira e seu CD de 2006

Irah Caldeira entrou em minha vida por artes do amigo Luiz Berto, o Papa Beto I, escritor, Editor do Jornal da Besta Fubana e atual Presidente da Academia Passa Disco da Música Nordestina, ao enviar-me a excelente e irrepreensível resenha que fizera do CD acima, para que eu desse uma olhada. Cuidadoso com seus textos de responsabilidade, nada mais natural que a mim recorresse, eis que fui revisor da maioria dos livros de sua criação. Isso é comum para quem quer sair bem na foto.

Tão o logo foi lançado o álbum, Luiz Berto me enviou um exemplar, dando início a minha coleção discográfica de Irah, com a aquisição dos CDs Canto do Rouxinol, de 2001, e Irah Caldeira Canta Maciel Melo, de 2004, então disponíveis à venda na Passa Disco.

Porém isso não era o bastante. Eu queria mais. Para consegui-lo, vali-me dos préstimos da amiga Neide Santos, minha Assessora Cultural no Recife, unha e carne com Irah, sendo ela Madre Superiora, e Irah, Prioresa da Igreja Sertaneja.

A prioresa Irah e a Madre Superiora Neide

Estabelecido o contato, Irah foi atenciosíssima comigo, enviando-me os discos que ainda me faltavam, inclusive dois DVDs. Com o acervo completo, passei a curti-lo, na maciota.

Na noite de Natal, ela foi apresentada ao seleto público que superlotava minha sala, composto de 15 pessoas, incluídos aí meu irmão Carioquinha e um casal de convidados mineiros, com as respectivas famílias.

As horas arrastavam-se morosas, enquanto esperávamos a batida da meia-noite para saudarmos a chegada do Cristo Rei e darmos início à ceia e à troca de presentes. Lá pelas tantas, começou, no telão da TV, o show da Globo, aquele de todo ano, com a mesmice que já se conhece, marasmo total. Nossa plateia familiar e fraternal, com apenas uma criança, pareceu dar sinais de cansaço, alguns batendo as pestanas, outros cochilando, quase dormindo. Foi aí que me sobreveio um estalo iluminado. Perguntei:

– Vocês aceitariam desligar a TV e assistir a um show de Forró?

Todos concordaram. Corri lá em minha estante peguei este DVD, um dos mimos da Irah:

Ao recebê-lo para colocar no dvd-player, a Mara, minha caçula, Bióloga, que acabara de chegar da região do Cariri e adjacências, desenvolvendo estudo de impacto ambiental para uma empresa brasiliense, exclamou:

– Pai, conheço essa daí! É muito legal! Há poucos dias, assisti a um espetáculo com ela, quando passei pelo Exu!

A coisa já começou bem.

Logo na primeira música, o xote A Natureza das Coisas, de Accioly Neto, Irah justificou plenamente a opção que fiz por ela, e a maioria quis saber de quem se tratava. Expliquei-lhes que ela iniciara sua carreira artística na Década de 1990, em Minas Gerais, onde nascera, e depois resolveu viajar pelo Norte e Nordeste, a fim de pesquisar e aprender ritmos musicais do Pará, Maranhão, e Bahia, culminando por fixar em Pernambuco sua residência definitiva. Quando acabei de falar, os mineiros meus convidados estavam quase se explodindo de imenso orgulho bairrista, mais que justificado.

Na terceira faixa, o rojão desembestado Aperta o Nó, do amigo Fred Monteiro, foi o maior desmantelo! Irah, empolgou extasiou, encantou, conquistando os corações ali presentes, que ainda não a conheciam!

E eu na maior vibração, vibrando com o sucesso de Irah, tirando onda e serrando de cima, em minha condição de membro Imortal da Academia da Música Nordestina, pois naquele DVD estavam minha praia, minha quadrilha, meu labutar. E não contive, a partir de então, identificando cada compositor, cada participação especial, como membro da Comunidade Fubânica.

Para completar, peguei meu álbum fotográfico da posse na Academia e passei a exibir-me ao lado Cristina Amaral, Bia Marinho, Josildo Sá, Kelly Rosa e Maciel Mello, com quem Irah dividia o palco.

Terminado o show, que durou 1h45, senti-me, aos olhos de todos, muito mais nordestinho, muito mais acadêmico, muito mais imortal. Resta-me agora conseguir algo que me falta: uma foto com Irah, o que se realizará quando ela vier apresentar-se em Brasília. Não me custa nada esperar. Aí, acrescentarei mais um título a meu currículo: Amigo de Irah Caldeira!

Com o repertório do DVD Girassol de Desejos, Irah nada de braçada, passeando pelo cancioneiro e pelos ritmos sertanejos. Tem xote, pra dançar agarradinho; tem baião, carimbó e rojão, pra mostrar a coreografia sertaneja; tem valsinha, pra despertar a emoção; tem arrasta-pé, pra levantar a poeira; tem frevo, pra exibir a beleza da dança pernambucana; e tem ternura, muita ternura, o que se traduz nas seis toadas que o vídeo contém, uma das quais me comove de um tanto, levando-me quase às lágrimas.

Refiro-me à toada Avoante de Accioly Neto, apresentada no show com a participação de Santanna “O Cantador”, que escolhi como pequena amostra do trabalho de Irah Caldeira, no melhor momento de sua iluminada e vitoriosa carreira artística, em minha concepção, que é o DVD Girassol de Desejos.

Irah Caldeira e Santana “O Cantador”: momento enternecedor

AVOANTE
(Accioly Neto)

Quando o riacho vira caminho de pedra
E avoante vai embora procurar verde no chão
A terra seca fica só e num silêncio
Que mal comparando eu penso: tá igual meu coração
Que nem a chuva, você veio na invernada
Perfumando a minha casa alegrando meu viver
Mas quando o sol bebeu açude inté secar
Quem poderia imaginar que levaria (inté) você

Só resisti porque nasci num pé de serra
E quem vem da minha terra resistência é profissão
Que nordestino é madeira de dar em doido
Que a vida enverga e não consegue quebrar não
Sobrevivi e estou aqui contando a estória
Com aquela mesma viola que te fez apaixonar
Tua saudade deu um mote delicado
(Pra fazer mais serenado meu destino de cantar)
Que ajuda a juntar o gado toda vez que eu aboiar

Vamos ouvi-la:

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SÃO SEBASTIÃO, SEU FESTEJO E SEU HINO

  

São Sebastião

As comemorações religiosas no final de 1948, em Balsas, prolongaram-se pelo mês de janeiro de 1949, último ano em que assisti ali ao Festejo de São Sebastião, antes de sair para estudar fora. Todo ano era assim.

No Natal, à meia-noite de 24 para 25 de dezembro, assistia-se à Missa do Galo e entoava-se a canção Noite Feliz, celebrando o nascimento de Jesus. No dia seguinte, começava o Reis, no Sudeste e no Centro-Oeste conhecido como Folia de Reis, que ia de 26 de dezembro a 6 de janeiro, o Dia de Reis, com a peregrinação noturna dos brincantes de casa em casa, cantando temas sacros, folclóricos e profanos, relembrando a jornada dos Reis Magos na trilha da Estrela Guia até chegarem o presépio – estábulo – onde nascera o Menino Deus.

No dia 7, a Rua do Frito – atual 11 de Julho –, onde eu morava, a Praça de São Sebastião e ruas adjacentes eram impregnadas por um delicioso e inesquecível cheiro de mato, produzido pelo trabalho dos presos de bom comportamento, escoltados pelo Soldado Peteca, roçando a vegetação que crescera durante todo o ano anterior – malva, fedegoso, tiririca, carrapicho, mata-pasto, malícia, ortiga, ciúme, melão-de-são-caetano –, alcançando quase metro e meio de altura. Deixavam eles as vias e a praça completamente limpas e prontas para o que ansiosa e fervorosamente esperávamos: o Festejo de São Sebastião, que ia de 11 a 20 de janeiro, após o qual iniciavam-se os ensaios das músicas carnavalescas – marchinhas, sambas e frevos – recém-lançados, para que os foliões as cantassem nos três dias de Carnaval, numa animação que só acabava mesmo na Quarta-feira de Cinzas, com a chegada da Quaresma. No ano de 1949, foram estes alguns dos sucessos mais cantados: Chiquita Bacana, Jacarepaguá, Maior É Deus, Pedreiro Valdemar e Zé Carioca no Frevo, este apenas instrumental.

A igreja de São Sebastião fora construída pelo comerciante e industrial Hygino Pedro de Farias, o Seu Pequeno, devoto do Santo, e o Festejo tinha em sua família e pessoas das vizinhanças os principais organizadores, administradores e obreiros. Foi nela que as catequistas Alice Farias, Tonica Moura, Jacy Gomes e Regina Miranda me transmitiram os primeiros rudimentos do ensino religioso.

Deus me agraciou com fabulosa memória para até hoje guardar os nomes e as fisionomias dos quase 200 coleguinhas daquele hoje esquecido e abandonado recanto sebastianino de minha infância, companheiros de catecismo ou de brincadeiras.

Num tremendo esforço de reportagem, e com a perícia do artista plástico Juarez Leite, consegui reproduzir a Praça de São Sebastião no ano de 1949, como abaixo se vê, roçada, quando a cidade não conhecia asfalto nem calçamento.

Praça de São Sebastião – Vista aérea

Havia duas datas marcantes. O dia 10, véspera do início do Festejo, quando começava o furdunço, por ser o aniversário do adolescente Zé Farias, filho de Seu Pequeno, pau-pra-toda-obra, que fazia um tudo de muito, batendo o sino, soltando foguetes, carregando peso, quebrando qualquer galho e levando carão do pai, que só o chamava, quando nervoso, de “seu corno”; embora fosse ele seu burro de carga, nos serviços domésticos, nas oficinas e o único mecânico da usina. No futuro, viria o Zé a ser o primeiro eletricista balsense e o projecionista do primeiro cinema da cidade. No dia 20, o último do Festejo, era o aniversário de Washington Tourinho, filho de Seu Isidoro e Dona Febrônia, outra das nossas afamadas quituteiras, que traziam muitas joias para o leilão.

No primeiro e no último dia, a cidade era acordada com a Alvorada, constando de repicar do sino, queima de foguetes e música a cargo de Martinho Mendes e Seu Conjunto – Martinho no sax, Barroso na clarineta, Toinho Farias na bateria, Enoc no banjo, e pandeiristas eventuais –, quando não faltavam o dobrado Padre Cícero, de autoria do Martinho, valsas, boleros, forrós e sucessos carnavalescos. Diariamente, ao meio-dia, era tocada a Retreta, com o mesmo esquema.

Nas manhãs do dia 11 e do dia 20, era celebrada Missa à qual comparecia todo o povo da cidade. Desencadeando-se a Novena, todas as noites, quando era rezado o Terço. Tanto na Missa, quanto na Novena, era cantado o Hino de São Sebastião, de autoria do maranhense Eleutério Rezende, cuja letra conta sua história, aqui reproduzida, com a partitura elaborada pela Professora Silvana Teixeira, residente em Brasília, seguindo canto que me foi entoado pela Professora Maria da Consolação de Oliveira Andrade, Coordenadora da Comissão de Apoio à Capela do Cajueiro:

Depois do Terço, realizavam-se a venda de bebidas e comidas típicas na barraca e o leilão, com joias – capões cheios, leitoas assadas, bolos, doces, artesanatos – trazidas pelas devotas do Santo, dentre elas Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãezinha, Dona Nelsa Farias, Dona Delfina, mulher de Seu Pequeno, com o Conjunto do Martinho animando a função. Naquele tempo, ainda não existia por lá o serviço de som.

Além da barraca oficial, muitas pessoas traziam suas banquinhas, onde vendiam cachaça e outras bebidas quentes, café, bolos de arroz e de puba, orelha-de-macaco, panelada, maria-isabel e outras guloseimas. Não podiam faltar Luiz Piauí, com sua bandeja de puxas, e rebuçados, e Manoel do Pempém, com sua tábua de pirulitos. Nas quitandas do Enoc Miranda, de Dona Brígida e de Dona Domitila, era grande o consumo de rapaduras recém-saídas do engenho, alfenins, batidas, tijolos de mamão verde e casca de laranja, pamonhas, melancias e outras frutas da época.

No último dia, a Procissão saía pelas principais ruas da cidade, com São Sebastião à frente, no andor, e duas fileiras, homens de um lado e mulheres do outro.

Nós, a criançada, divertíamo-nos a valer, principalmente fazendo judiação com os romeiros que vinham de fora para a festa, botando-lhes rabo de carrapicho, ou praticando muitas travessuras. Uma delas era o biloto, constituído de bolota de cera de abelha, do tamanho de bola de pingue-pongue, fixada na ponta dum cordão de 50 centímetros, para darmos chapuletadas na cabeça dos matutos, sem que eles percebessem, pois éramos rápidos no gatilho para esconder o artefato.

No início dos Anos 1950, Seu Pequeno faleceu, mais ou menos quando foi criada a Prelazia de Balsas, com Missionários Combonianos vindos da Itália. Esses não deram continuidade ao Festejo de São Sebastião nem cuidaram da conservação de sua igreja que, aos poucos, pela ação do tempo, foi-se desintegrando, até ruir por completo.

Muitos anos depois, já na era do asfalto, foi construído outro templo para São Sebastião, no Bairro Cajueiro, onde é festejado nos moldes de antigamente, com o mesmo fervor e devoção:

Capela do Cajueiro, com a imagem de São Sebastião ali entronizada

Embora a tradição do Festejo permaneça, falta o item que encantava os meninos de meu tempo e até hoje permanece em nossas mentes como das melhores recordações da infância:

O cheiro de mato!

Há muito tempo, eu desejava efetuar a gravação dos Hinos de Santo Antônio, de Bom Jesus da Lapa e de São Sebastião, para que não se perdessem na memória do povo balsense, tão curta nos tempos atuais, como venho observando em minhas pesquisas.

Para o Hino de São Sebastião, contei com a prestimosa colaboração da amiga Socorro Vieira, minha Assessora Cultural em Balsas, que obteve o registro do canto simples com a Professora Maria da Consolação, possibilitando-me a concretização do projeto. A Interpretação ficou a cargo dos cantores Felipe Rodrigues e Mércia Cairis, do Estúdio Verbo Vivo, de Brasília:

Felipe Rodrigues e Mércia Cairis

Ouçamos, pois, esta homenagem que presto a São Sebastião, um dos Santos de minha devoção:

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E vejamos este youtube mostrando o cenário onde o Festejo de São Sebastião é agora realizado:

HOJE É DIA DE SANTO REIS

Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os Três Magos do Oriente
Seguindo a Estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na Sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A santíssima Família
Jesus, Maria e José

O cantar do Santo Reis
É um cantar excelente
Acorda quem está dormindo
Consola quem está doente

Para vocês, Folia de Reis, de Raul Torres e Rubens Ferreira, na voz de Pavão do Norte, Damião e Basílio

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RÉVEILLON 2012

Queima de fogos na Esplanada dos Ministérios

31 de dezembro! Hoje é dia de festa! À meia-noite, estaremos celebrando a entrada do ano de 2013, que já começa promissor com essa dezena final muito significativa para os homens de vergonha na cara desta Nação: dos 38 mensaleiros processados, o Supremo Tribunal Federal condenou 25, dos quais 13 cumprirão suas sentenças na cadeia. Vou repetir: 13 mensaleiros verão, atrás das grades, o sol nascer quadrado em 2013.

Invertendo o número 13, temos 31, o da sorte. Neste 31 de dezembro, minha filha caçula festeja mais um ano de sua bela existência. Portanto, as comemorações que já têm início no coração de toda a família e extravasam, empolgando nossa Quadra, Brasília, o Brasil, o Universo, enfim.

Mas há os recalcitrantes, os arautos da catástrofe, que apregoavam o Fim do Mundo a 11.11.11, e isso, pela Graça de Deus, não aconteceu. Transferiram-no para 12.12.12, e escapamos ilesos. Aí, vaticinaram que de 21.12.12 não passava, de acordo com maus agouros dos Maias. Novamente, se lascaram!

Para esses, tenho uma receita infalível: na hora da queima dos fogos, que acontecerá em todos os recantos deste planeta, aproveitem o barulho ensurdecedor e, disfarçadamente, soltem uns cinquenta peidos, bem sonoros, livrando-se, assim, do hecatombismo que lhes oprime o ser. Para eles, bando de pessimistas, peidar é o melhor remédio!

Voltemos a falar da festa de hoje. Réveillon é sinônimo de alegria, dança e, conequentemente, muita música, num prenúncio do Carnaval que, só em fevereiro, encerrará esse período de esfuziante descontração e gostosa malemolência brasileira.

Sempre que ouço uma bela canção, fico a matutar sobre quem fez o arranjo. Sim, esse artífice, que não é incluído na parceria é, na mais das vezes, quem faz a peça acontecer. Mirando o passado, imagino quem bolou a introdução de Asa Branca e Assum Preto, para Luiz Gonzaga, ou de Forró em Limoeiro e Me Dá Um Cheirinho, para Jackson do Pandeiro. Isso não consta dos selos nem das contracapas dos álbuns.

Aqui faço uma ressalva para meu amigo Benedito Honório, Presidente da Ordem dos Músicos da Paraíba, compositor de rara inspiração em todos os gêneros e que teve no forrozeiro Manoel Serafim um de seus mais constantes intérpretes. O que chama a atenção nas composições do Honório não é apenas a beleza intrínseca, mas também a força dos arranjos, cujos autores ele faz questão de ressaltar, como em seu último trabalho, Benedito Honório, Coletânea de Ritmos Diversos: Maestro Chiquinho, Maestro João Lira, Jairo Aguiar, Maestro Ramalho, Joca do Acordeom, Duda da Passsira e Maestro Duda.

Muitos sucessos carnavalescos do passado não teriam conquistado a aceitação popular, se não fosse pelos arranjos de Pixinguinha, procurado por tudo que era compositor de sua época. No bolero, no samba, na marchinha, no foxe, na valsa, ou qualquer outro ritmo, ele foi o maior.

 

Pixinguinha: Arranjador-Mor

Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, não compôs marchinhas, frevos ou sambas carnavalescos, mas seus arranjos foram a marcha registrada nos maiores sucessos do Carnaval Brasileiro. Ao ouvirmos qualquer de seus arranjos em para selos como a RCA Victor e Odeon, ou com sua Orquestra Diabos do Céu, dentre outros, identificamos, de cara, sua inconfundível assinatura.

Muitos desses trabalhos ficaram registrados em LPs gravados por Pixinguinha e sua Banda, dos quais possuo estes exemplares, hoje transformados em CDs:

 

É desse último, Pixinguinha no Carnaval e a Velha Guarda TambémNo Tempo dos Bons Tempos, que extraí pequena amostra de seus arranjos para animar a noite de hoje daqueles que ficaram em casa e agora nos dão a honra de sua visita.

Antes de postar as músicas, extraio fragmentos de textos de José Roberto Guzzo, na última página da revista Veja, sobre o atual mento político que vivemos:

No dia 05.12.12 – “O que interessa a Lula é uma coisa só: que todos continuem fazendo de conta que ele não tema nada a ver com a usina de corrupção inaugurada no Brasil em janeiro de 2003.”

No dia 19.12.12 – “Dez anos de convívio com a moral que Lula e o PT trouxeram para o governo ensinam que o patrimônio público é uma coisa relativa no Brasil de hoje. Não pode ser usado em benefício próprio por uns, mas pode por outros – e quem não souber a diferença vai ter uma carreira muito curta neste governo dedicado à causa popular.”

Portanto. Salve 2013, o ano em que começaremos a dar o troco!

E ouçamos Pixinguinha e Sua Banda:

MARCHINHAS – 11 minutos: Tem Gato na Tuba, Deixa a Lua Sossegada, Pirolito, China Pau, Pirata e Touradas em Madrid, todas de João de Barro e Alberto Ribeiro. 

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SAMBAS – 10 minutos: Nós Queremos Uma Valsa (Nássara e Frazão), O Que É que Você Quer Mais? (Nássara e Roberto Martins), Mundo de Zinco (Nássara e Wilson Batista), Me Queimei (Nássara e Walfrido Silva) e Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins). 

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XICO BIZERRA E SEU PRESENTE DE NATAL/2020

A chamada acima, destaque da primeira página do Correio Braziliense do dia 27 de novembro passado, trouxe-me à lembrança esta quase profecia atribuída ao cientista Einstein: “Temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à humanidade. Então, o mundo terá uma geração de idiotas”.                              

Esse paquerado tablet, que eu chamo de tabuleta, semelhante, no formato às pequenas ardósias que usávamos no passado – à ausência de cadernos – para escrever e fazer conta, serve apenas, em geral, para a moçada, jogar, conversar e fugir da leitura e da escrita, da qual se esquivam como o capeta da cruz. Haja vista seus textos no Facebook. Se julgam engraçado o que dizem, expressam-se com um rsrsrs; se gostaram do que leram, respondem com um kkk; se deveras adoraram algo, manifestam isso com o sinal de curtição, dando-nos a parecer que voltamos à era da escrita do homem das cavernas:

Há dois anos, convidado por um amigo para a formatura de seu neto no curso de alfabetização, resolvi agraciar o garoto com o volume Primavera, da coleção abaixo:

Fartamente ilustradas, são historinhas divertidas, bem contadas, 40 linhas no máximo, que prendem a juventude, fazendo com anseie pela aventura do dia seguinte.                              

Adquiri essa coleção em 1993, no intuito de despertar em minhas duas filhas, então com 10 e 8 anos, o amor pelos livros, não só os escolares, mas também os que se configuravam em saudável diversão. No que fui regiamente gratificado. Ambas, hoje formadas, ganharam, várias vezes, campeonatos de leituras no Cor Jesu, onde estudavam. E, atualmente, sempre estão com exemplares literários à cabeceira, quer de aventura, romance ou ação.                              

Pois bem, há poucos meses, o amigo veio devolver-me o livro, confessando-me, acanhadamente, que o neto não se dignara a ler uma história sequer.

Hoje, véspera de Natal, fico matutando quanto à dificuldade de se presentear uma criança, verdadeira saia-justa, particularmente em meu caso, viciado em livros, com 45 lidos neste ano de 2012 e considerando o livro como sendo o maior presente, mesmo de baixo custo, que uma pessoa possa almejar.                              

Mas nem tudo está perdido! Há esperança! Vamos reagir!                              

Nesse mesmo dia 27 de novembro, chegou-me às mãos este alvissareiro presente, gentileza do amigo Xico Bizerra:

Livrinhos do Xico Bizerra mais do Roberto Cruz: tamanho real, 22 cm x 22 cm

Xico Bizerra e a contracapa dos três livrinhos

Roberto Cruz é um valor emergente no cenário literomusical brasileiro e se constitui em acertada escolha de Xico nessa parceria, assim como Cléo Pontual, que a ilustrou.                              

Xico Bizerra, queridos leitores, é o maior compositor da Música Nordestina atualmente em atividade. Suas criações musicais são interpretadas pelos maiores expoentes de nosso cenário artístico. Seu projeto Forroboxote, que já está no Volume 9, apresenta valores tradicionais, bem como dá oportunidade a desconhecidos que procuram, com seu apoio, conquistar um lugar ao sol.                              

Conheci Xico Bizerra na festa de minha posse na Academia Passa Disco da Música Nordestina, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho que, na ocasião, lançou o CD Balaio de Amor, cujo carro-chefe era o xote Se Tu Quiser, composição do Xico, que já mereceu mais de 100 regravações. Nossa amizade começou ali.                              

Xico, um cabra grandão pra mais da conta, cara e alpercata de cangaceiro, surpreende-me agora com essa nova feição de seu imensurável talento: livrinhos ternos, sensíveis, bem infância, bem sertão.                              

Qual a serventia deles para um veteranão feito eu? Folhear? Ler e guardar? Qual? E aí é que está o segredo da sapiência do Xico, a confirmação de que Deus escreve certo por linhas tortas. Vou explicar, desvendar esse mistério.                              

Amigo Xico, em setembro do próximo ano, minha filha mais velha vai se casar. Pelo desenrolar natural da vida, espero que, em 2015, ela já esteja dando de mamar a um bruguelinho, que virá a ser, em 2020, já alfabetizado, o ganhador desse maravilhoso presente ora destinado a seu avô.                              

Não sei se Deus me concederá a graça de ver a alegria desse menino. Mas a certeza de que isso acontecerá é garantida pelo fato de ela ser ávida leitora, como dito acima, que incutirá em meu neto o apego aos livros, como fiz no passado ao educá-la, coisa da qual hoje mais me orgulho.                              

É esperar para ver e crer!                              

Quando é agora, me chega às mãos este Forroboxote 7, que encomendei ao amigo Fábio Cabral da Passa Disco:

Além de trazer musicado todo o texto dos livrinhos, esse disco é repleto de temas infantis. A interpretação ficou a cargo de Nena Queiroga, Geraldo Maia, Lívia Carvalho e do próprio Xico, secundados todos por um coral crianças. É Nordeste de cabo a rabo! Arrepiante!                              

É Natal!

      

Hoje é dia de dar e ganhar presente! Já sei que, à meia-noite, choverá em minha horta, com uma cacetada de livros que, de antemão, coloquei em minha lista na cartinha endereçada a Papai Noel.                              

Para comemorar de forma alegre a Grande Noite da Cristandade, mais uma obra da lavra desse surpreendente Xico Bizerra. Pois não é que dito cangaceiro, acolitado por Bebé de Natércio, compôs a trilha sonora do espetáculo Auto de Natal de João Pessoa, gravada em CD pela mineira-pernambucana Irah Caldeira, tudo no mais legítimo e gostoso pé-de-serra?

Escolhi como amostra desse trabalho o rojão Os Pastores e o Menino Deus, na interpretação do grupo regional Território Nordestino: 

Os pastores levaram seu rebanho
Para ver o Menino que nasceu
A promessa de Deus tava cumprida
O que prometera, aconteceu
Na manjedoura nasceu o Deus Menino
Salve, salve, o Menino Deus

E a luz da felicidade
Fazia seguirem a estrela guia
Se ajoelham para o Novo Divino
O Menino Deus, José e Maria
Já que por tanto tempo Ele foi esperado
Chegou e trouxe muita alegria

Para o mundo baixou a Nova Luz
Na chegada do Nosso Salvador
Muitas flores encheram os jardins
Para dar boas-vindas ao Pastor
É um tempo tão bom de esperança
De alegria, de paz e de amor 

Com votos de Feliz Natal, convido-os a apreciá-lo:

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JAMELÃO: MINHA VELHA MANGUEIRA QUE SE FOI

 (Esta matéria, publicada aqui no Jornal da Besta Fubana em junho de 2008, quando Jamelão faleceu, foi, por motivos técnicos, deletada. Agora, com a morte do Mestre-Sala Delegado, a 12.11.2012, republico-a, fazendo as devidas atualizações.)

José Clementino Bispo dos Santos, o Jamelão, e a bandeira da Verde e Rosa

Sou Mangueira desde meus tempos de pés no chão e calças curtas lá no sertão sul-maranhense. Mal atingira a idade da razão, e já me maravilhava com os lindos sambas mangueirenses, entoados por Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãezinha, enquanto controlava a meninada nas tarefas de limpar terreiro e terreno, roçar, capinar, plantar, colher, debulhar legumes, descaroçar algodão, desembaraçar meada, ou nas suas corriqueiras tarefas domésticas ao pé do fogão, à boca do forno e à frente do tear. Mangueira, Despedida de Mangueira e Sabiá de Mangueira foram das primeiras músicas que aprendi a cantar.

A Mangueira introduziu em meu altar o primeiro super-herói dos muitos que eu viria a cultuar. Chamava-se Laurindo e era seu mestre-de-bateria. Estávamos no tempo da Guerra, e o Brasil se aliara a outros países na luta contra o Eixo. Por isso, vigorava o “esforço de guerra”, no qual o governo se empenhava na angariação do máximo de metal para a fabricação de material bélico. Vivíamos, igualmente, na iminência do fim da Praça Onze como templo do Carnaval Carioca.

No samba Laurindo, vemos o sambista chegar com sua bateria àquele local, constatar seu ocaso, apitar a “evolução” e toda a Escola largar a bateria no chão, formando imensa pirâmide a ser derretida no mencionado esforço. Mas não ficou só nisso. Em Lá Vem Mangueira, vemos a Escola descer o morro sem Laurindo à frente da bateria, pois fora ele convocado para o Front. Em Cabo Laurindo, temos sua volta triunfal com as duas divisas que merecidamente conquistou. Em Comício em Mangueira, ele declina da oportunidade que lhe ofereciam para disputar qualquer cargo eletivo.

A bateria da Mangueira é inconfundível. Enquanto as outras têm o surdão e a resposta – TUM-tum, TUM-tum, TUM-tum –, ela tem apenas um tempo forte no qual, à distância, ouve-se somente a pancada do surdão – TUM-(   ),  TUM-(   ),  TUM-(   ). Deu pra entender? Não,? Pois então ouçam as gravações existentes para conferir. E isso foi invenção do inesquecível e lendário Cabo Laurindo.

Bateristas da Mangueira

Aí, em 1949, chegou o Jamelão. Ele já fizera várias incursões no mudo musical, porém foi na Mangueira que encontrou o ambiente para se afirmar como cantor e se transformar no maior intérprete de sambas-de-enredo de todos os tempos, reinado que durou por 57 anos, até sua morte. Seu primeiro disco, ainda em 1949, em 78 rotações, constou do calango A Jibóia Comeu, e do samba Pensando Nela. Naquele tempo, os sambas-de-enredo ainda não representavam possibilidade de lucro para as gravadoras, que preferiam investir com força nas marchinhas e nos sambas carnavalescos, cantados nos corsos e nos salões. Dessa forma, muita coisa boa se perdeu. Ainda que não concordasse com a nova roupagem que tomou o samba, Jamelão sempre fez questão de defender a Escola na Avenida. Como prova Das Águas do Velho Chico, Nasce Um Rio Esperança, de 2006, seu último trabalho.

Jamelão: a Mangueira e o Vasco no coração

Jamelão tinha comigo e com Jackson do Pandeiro algo em comum: não era de andar se abrindo facilmente, feito cadeado de soldado. O que levou alguns dos seus críticos a chamarem-no de mal-humorado. Mas porra, digo eu, como pode ser mal-humorado um cara que vive envolvido com música, fazendo do cântico sua profissão. Concordo com ele quando, ao ser interpelado por uma repórter sobre por que não ria, disparou: “Rir de quê?”.

Durante muitos anos foi crooner da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, com quem gravou grandes sucessos do compositor Lupicínio Rodrigues, do qual é até hoje considerado também o melhor intérprete. Cadeira Vazia, Meu Pecado e Nervos de Aço são belos sambas-canções que povoaram minhas serenatas nos tempos de rapaz solteiro, namorador e raparigueiro.

Ao falecer no dia 14 de junho de 2008, aos 95 anos de idade, Jamelão nos deixou uma obra de extrema importância para a MPB. Ao partir, levou consigo a velha Mangueira tradicional, hoje submetida a longos sambas plastificados – o último samba-de-enredo que gravou dura 6:33 min –, difíceis de cantar ou de assobiar, e que morrem na quarta-feira de cinzas.

Agora, outro vulto histórico da Velha Guarda da Mangueira se foi, deixando-a quase órfã de suas raízes:

Hélio Laurindo da Silva, o Delegado – por prender as cabrochas na conversa –, estava com quase 91 anos de idade.

Delegado, Presidente de Honra de Mangueira, foi o Mestre-Sala mais famoso do Carnaval Carioca. Jamais tirou nota abaixo de 10 nos desfiles da agremiação e, nos últimos três anos, mesmo lutando contra o câncer que o vitimou, participava de todos os eventos da Escola à qual dedicou todos os momentos de sua existência.

A Mangueira continua, sobreviverá sempre, com a força de seus fieis valores, como as cantoras Alcione Beth Carvalho:

Sua Velha Guarda será a fonte inspiradora para a juventude mangueirense:

Belas mulheres também darão brilho especial a seus desfiles:

Entretanto, mesmo com toda a beleza visual, com toda a modernidade e com toda a arte apresentada nos efeitos especais e nas coreografias, considero que a Mangueira dos sambas bonitos, que se cantavam para sempre, é apenas história. Os sambas plastificados, quilométricos, com seus ritmos acelerados, acabaram com a musicalidade, restando apenas o espetáculo, feito mais para a TV do que para verdadeiros sambistas.

Possuo em meu acervo fonográfico 42 sambas que cantam a Mangueira, alguns, como acima citados, fazendo parte de minha infância.

Para mostrar-lhes um pouquinho do trabalho do Jamelão, escolhi As Três Rendeiras do Universo, samba-enredo de Hélio Turco, Alvinho e Jurandir da Mangueira, de 1991, chamando a atenção para a batida característica do surdão:

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HOJE O DIA DE SANTA LUZIA, DIA DE LUZ, DIA DE LUIZ!

A Padroeira dos Olhos e o Rei do Baião

13 de dezembro! Dia de Santa Luzia, a divindade que nos alumia! No 13 de dezembro de 1912, um raio celeste, clarão encantado, iluminou a Terra, e nesse momento nasceu Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, o homem que botou o Nordeste no mapa do Brasil. Em homenagem a esse maravilhoso gênio, 13 de dezembro também foi consagrado como o Dia Nacional do Forró!

Muito se tem escrito sobre Luiz Gonzaga neste ano em que se festeja seu Centenário. Pela primeira vez, eu vi um artista merecer comemorações durante o ano inteirinho, em toda a mídia brasileira, principalmente aqui no Jornal da Besta Fubana, onde Luiz Berto, seu editor, vem postando, diariamente, músicas interpretadas pelo maior ídolo nordestino de todos os tempos. Neste momento, a contagem atinge a marca de 411 canções de seu vasto e riquíssimo repertório.

Mantenho em meus guardados alguns dos livros dedicados à biografia de Luiz Gonzaga: Enciclopédia da Música Brasileira, atualizada até 1975, que lhe dedica quase três páginas; O Sanfoneiro do Riacho da Brígida, de Sinval Silva, no qual Luiz conta sua história na primeira pessoa do singular; Luiz Gonzaga, o Maturo que Conquistou o Mundo, de Gildson Oliveira, a cujo lançamento assisti no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, com a presença de Edelzuíta, o grande amor do Rei; Mestre João Silva, Pra Não Morrer de Tristeza, de José Maria Almeida Marques, no qual se constata ter sido João o maior parceiro de Luiz; Gonzaginha e Gonzagão, de Regina Echeverria, com a discografia completa dos dois; e O Rei e o Baião, alentado volume, pesando 2 kg, editado pelo Ministério da Cultura e organizado por Bené Fontelles, com 100 fotos inéditas, algumas delas com Miudinho, razão pela qual vou doá-lo a Dona Sinhá, viúva desse grande zabumbeiro e memória viva do Forró.

Se mais não possuo, é porque, folheando outras publicações na livrarias, achei-as repetitivas, quase cópias do que já existe. Não querendo incorrer no mesmo pecado, falarei sobre duas obras dedicadas ao Forró lançadas recentemente, por serem livros de leitura saborosa, com novidades, sem ficarem pisando num barro já por demais amassado. A primeira é esta:

 

Foi um presente de meu primo Antônio de Pádua, o maior Dermatologista de Brasília, que o deixou na Portaria de meu Bloco. Ao recebê-lo, meu pensamento foi cruel: “mais um livro sobre Luiz Gonzaga”. Julgamento amenizado pelo início do prefácio de Assis Ângelo, autor do Dicionário Gonzagueano, de A a Z: “INFORMATIVO E CATIVANTE. Era só o que faltava: um livro que contasse de forma diferente e gostosa a história de Luiz Gonzaga do Nascimento, já tantas vezes narrada por autores os mais diversos…”.

É uma história bem contada do Rei, de forma romanceada, com lances inéditos, que prendem o leitor, do começo ao fim. Nela, Roniwalter esclarece a polêmica esterilidade de Luiz, de forma incontestável. Recomendo sua leitura para quem quiser saber mais sobre nosso Gonzagão.

A outra foi adquirida mediante encomenda na Passa Disco. Dela tomei conhecimento através de anúncio e convite para o lançamento. Interessei-me porque seu autor, Ricardo Anísio, paraibano calibrado, já fazia parte de minha vida literária, embora ele nem se lembre mais disso.

Em dezembro de 2003, autografei meu livro Do Jumento ao Parlamento, em João Pessoa, no Parahyba Café, localizado na Usina Cultural Saelpa, estando presente seleta plateia composta de intelectuais pessoenses, dentre eles Ricardo Anísio, conhecidos de minha irmã Maria dos Mares, artista plástica com ateliê naquela cidade, que comemorou seus 70 em junho passado:

 

Cumprido meu dever nepotista, passo-me ao escritor de quem falava.

O livro é todo ele composto de belas crônicas dedicadas a grandes vultos do Forró, a maioria deles figurinhas carimbadas no cancioneiro popular, outros nem tanto, e alguns para quem a mídia jamais dedicou sequer um pingo de tinta.

Pra me ganhar de vez, os dois primeiros focalizados são, pela ordem, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Não poderia ser de outra forma. Dediquei grande parte do tempo de minhas pesquisas a angariar o repertório desses dois ícones maiores da MPB. Hoje, posso gabar-me de possuir toda sua discografia, Luiz com 681 entradas, e Jackson com 438. Jackson do Pandeiro é, em minha classificação pessoal, o maior nome da Música Brasileira e Mundial. Questão de gosto. Com ele, aprendi a dançar forró, eis que surgido em minha adolescência.

Ricardo Anísio é corajoso. Desce o cacete em quem acha que bem merece, sem dó nem piedade, mas também é daqueles que mordem e depois assopram, é pródigo no elogio, mas sincero e, às vezes, cáustico, na apreciação.

O prefácio de Forró de Cabo a Rabo é de Jessier Quirino, que aconselha: “Caso você discorde do que Ricardo Anísio publicou neste livro, não se sinta incomodado e pode atirar pedras contra ele…é a polêmica que o tem alimentado durante mais de três décadas. E certamente uma coisa que ele não em é telhado de vidro”.

Já li muitas críticas quanto a este trabalho do Ricardo, principalmente quando ele tem o desplante de vir a público dizer o que pensa do Rei, neste ano de seu Centenário, em que só se lhe têm sido dedicados rapapés e louvações.

Em certos pontos, somos convergentes: que seria da popularidade de Nelson Cavaquinho sem Guilherme de Brito, de Milton Nascimento sem Fernando Brant, de Luiz Gonzaga em Humberto Teixeira, Zé Dantas e João Silva?

Ricardo é impertérrito ao revelar o de que não gosta. Eu quereria de ser assim. Mas só tenho coragem de revelar o de que gosto, ficando o resto na encolha. Mas, com coragem, falo de minhas preferências, embora a alguns cause espécie: creio em Deus Pai, Todo Poderoso, criador do Céu e da Terra, e em Jesus Cristo, seu único filho, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo. Sou devoto de Nossa Senhora, Santo Antônio, São Sebastião e Bom Jesus da Lapa.

Estabelecida minha posição religiosa, digo mais: em minha avaliação, Luiz Gonzaga não foi impecável. Achei-o de muito mau gosto quando ele, em 1955, gravou Forró do Zé Tatu, de Zé Ramos e Jorge de Castro, respondendo a Forró em Caruru, de Zé Dantas, gravado por Jackson com tremendo sucesso. Naquele momento, Luiz, já consagrado, com a carreira consolidada, pareceu impregnado de incontido ciúme daquele paraibano baixinho e metido, que procurava se firmar no cenário forrozeiro.

No mais, Luiz Gonzaga é Rei do Baião, o Rei do Forró, e nisso concordamos Ricardo Anísio, eu e todos os brasileiros de bom gosto.

Para evitar o julgamento de que fui totalmente covarde, ao esconder minhas condenações musicais, e externando algo entalado na garganta, sou solidário com Ricardo Anísio ao firmar que detesto toda a obra do parceiro de Erasmo Carlos, a quem muitos tratam também como rei.

Minha vassalagem na Monarquia Musical Brasileira só conhece três Majestades: Francisco Alves, o Rei da Voz; Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo, e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Salve Luiz Gonzaga, O Rei, homem que reinventou o Nordeste Brasileiro!

Neste seu Centenário, a maior e mais duradoura homenagem ao Rei foi prestada pelo Jornal da Besta Fubana, nas pessoas de Luiz Berto, seu editor, e de Aline, sua mulher, que se esmera nas postagens. Impressionante é o acervo de que dispõem, quase não me dando a chance de oferecer á Comunidade Fubânica, alguma faixa aqui inédita.
  
Em 1946, o Presidente Dutra, que se ocupava de problemas paroquiais, deixando seus Ministros governarem o Brasil, editou uma circular exortando o povo a trabalhar, mas sem torrar a grana. Diferentemente dum certo governante Apedeuta, que mandava o povo comprar, comprar, comprar. Aproveitando a deixa, Luiz Gonzaga, glosou o fato, com o frevo-marcha-samba Cai no Frevo, que ele mesmo gravou para o Carnaval de 1947:

– Você já leu a circular do Presidente?
– Eu não! Eu não!
– Vamos trabalhar, economizar
Vamos brincar sem gastar.

E as despesas, quem paga é o “coronel”
E as mulheres, já temos a granel
Pra nossa alegria, não falta mais nada

Quero samba, batucada
Cai no frevo, negrada!

Vamos ouvi-la:

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ARRELIA E PIMENTINHA

Arrelia

Hoje, 10 de dezembro, é Dia do Palhaço! Como ajudante de palhaço – escada – que fui, no Circo Cometa do Norte, no bairro da Piçarra, em Teresina (PI), faço merecida homenagem a meus colegas de picadeiro no dia a eles consagrado E nada mais justo do que focalizar neste ano o Palhaço Arrelia e seu escada Pimentinha, dupla pertencente a uma família umbilicalmente circense. Escada, para quem não sabe, é o acólito que prepara a piada, sempre levando a melhor no transcorrer do esquete, mas se ferrando no desfecho. Comecemos com o Arrelia.

Waldemar Seyssel, o Arrelia, nasceu em Jaguariaíva (PR), a 31.12. 1905, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 23.05.2005, com quase 100 anos. Era filho do Palhaço Pinga Pulha.

Pertencendo a uma família cujo DNA se confunde com a história do circo no Brasil, começou a atuar com seis meses de idade, no circo chileno de seu tio, irmão de sua mãe.

O clã histriônico começou a se dedicar ao circo a partir do avô paterno de Arrelia, Julio Seyssel, que nasceu e vivia na França. Era professor da Sorbonne, quando conheceu uma jovem espanhola, artista de um circo que excursionava pelo país, fazendo acrobacias em cima de um cavalo. Foi paixão avassaladora. Sua família não queria o casamento, mas os dois resolveram se casar, mesmo assim. Júlio deixou o cargo de professor e foi morar no circo, tornando-se apresentador dos números do espetáculo.

O casal acabou vindo para o Brasil com o Grande Circo Inglês, dos Irmãos Charles, e, ao invés de prosseguir com a excursão para outros paises, ficou por aqui mesmo, dando origem a uma linhagem circense: filhos e netos dedicados à arte. Arrelia tem mais cinco irmãos que foram do circo. O Palhaço Pimentinha, Walter Seyssel é filho de Paulo Seyssel, o Palhaço Aleluia, irmão de Arrelia.

Waldemar Seyssel começou no circo como saltador, passando depois pelo trapézio, pela cama elástica e por outras acrobacias, com seus dois irmãos, Henrique e Paulo. Mas quando o pai deixou o circo, substituiu seu nome artístico, usando o apelido familiar que seu tio Henrique lhe dera: Arrelia. Seu primeiro parceiro foi o ator Feliz Batista, que fazia o Palhaço de Cara Branca, vindo depois o irmão Henrique. Finalmente, quando trocou o circo pela televisão, no início dos Anos 1950, teve como parceiro o Palhaço Pimentinha. Foi o primeiro da sua família a abandonar o picadeiro, pois falava que o circo não dava dinheiro suficiente para viver. Em 1958, foi a vez de seus irmãos seguirem-no, indo trabalhar com ele na TV Record.

Arrelia era um palhaço bem diferente. Alto e desengonçado, sem sapatos de bicos imensos e finos e sem bengalas compridas, falando difícil sem saber e errando sempre. Enfim, era um tipo de rua, misto de gente que encontrava no circo, no teatro, no cinema, na TV e na própria rua. Um cara que ia indo aos trambolhões, mas ia indo, mesmo sem instrução e metido a sebo, como ele mesmo se definia.

Pimentinha

Walter Seyssel, o Palhaço Pimentinha, nasceu em Juiz de Fora (MG), a 16.06.1926, e faleceu em Itu (SP), no dia 17.06.1992, um dia após completar 66 anos. Entrou pela primeira vez no picadeiro aos 2 anos de idade, mais tarde casando-se com a artista circense Amélia Seyssel.

Arrelia e Pimentinha tornaram-se um mito das crianças paulistanas. As matinês do circo e, posteriormente, o Circo do Arrelia, da TV Record, de 1955 a 1966, fizeram parte do cotidiano da família paulistana. Deixaram como marca registrada nessa cidade o popular bordão “Como vai, como vai, como vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem!”, o qual se tornaria o refrão da Marchinha Muito Bem, de Arrelia, Manoel Ferreira e Antônio Mojica, gravada pela dupla para o Carnaval de 1957 e interpretada por Arrelia, em dueto com Berta Loran, no filme O Barbeiro Que Se Vira, de 1958.

Além dessa marchinha, a dupla deixou-nos outros grandes sucessos carnavalescos, como: Esse Cara Me Deve Cem, marcha de Arrelia, Emílio Saccomani e José Saccomani, de 1960; Fantasia de Toalha, marcha de Arrelia, José Saccomani e Ercílio Corsoni, de 1963; Três Assovios, de Arrelia e Hervê Cordovil, de 1962; Gol de Letra, marcha de Emilio Saccomani e José Saccomani, de 1958; e Hom’essa, samba, de Arrelia e José Saccomani, de 1958. Além disso, deixou-nos muitos sucessos de meio de ano. Sua discografia completa consta de 15 títulos.

Em 1995, Arrelia foi homenageado no 22º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (SP), recebendo a Medalha Reginaldo Fortuna, concedida aos maiores destaques do humor na cultura do país. Em 2003, aos 97 anos, ainda se apresentou em espetáculo em homenagem ao Dia do Palhaço, arrancando, como sempre, grande quantidade de gargalhadas da plateia.

A dupla fez tanto sucesso em sua época, que até chegou a protagonizar revistas em quadrinhos, com suas aventuras, piadas, e palhaçadas:

Sendo hoje o Dia do Palhaço e, consequentemente, meu dia, não me furto de também aparecer um pouquinho nesta matéria, homenageando a mim mesmo:

Seu Fulô

Em 1957, o ritmo calipso era a moda no Brasil, principalmente na voz de Harry Belafonte, com seu carro-chefe, Banana Boat, que foi Arrelia parodiou, em parceria com, Ercílio Cornsoni e José Sacomani, na marchinha Cacho de Banana, gravada pela dupla, tremendo sucesso no Carnaval de 1958. Para melhor avaliação dos ouvintes, aí vai ela, numa montagem que se inicia com a voz do amerijaimaicano:  

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PARTITURAS CARNAVALESCAS – 2013

 

Já estamos no mês de dezembro. Praticamente, o ano de 2012 já era, e o Mundo não se acabou, pra felicidade geral dos foliões e do povo brasileiros. Por isso, vamos falar do próximo Carnaval e do trabalho que desempenhei neste ano em prol da Memória Musical Brasileira.

Para o Carnaval de 2012, consegui amealhar um alentado acervo de partituras carnavalescas, praticamente quase arregimentando tudo que existia impresso no assunto. Grande parte dessa riqueza me foi proporcionada pelo amigo Maestro Antônio Gomes Sales, de Caraúbas (RN), que, além de me emprestar todo o arquivo musical de seu falecido pai, também colocou na pauta algumas preciosidades inéditas até então.

De posse de tanta riqueza, montei o CD denominado CARNAVAL – PARTITURAS JPEG, com 502 partituras de marchinhas e sambas carnavalescos para trombone e sax alto, e 502 dos mesmos ritmos para pistom, sax tenor e clarineta, peças musicais bem conhecidas pelo folião médio brasileiros. No total, 1004 partituras!

A repercussão foi imediata. No site de relacionamento Orkut, administro a Comunidade Dobrados Carnaval e Forró, disponibilizando aos internautas todo o acervo de partituras, independentemente de ser o pesquisador filiado ou não àquele site.

Há poucos meses, a revista Veja, noticiou, na Seção Números, que, em um ano, o site Twitter sofreu queda de 24% de membros, enquanto o Facebook teve um aumento de 60%. Isso se explica porque, no Twitter, ainda se faz necessário o uso da escrita. Enquanto que, no Facebook, as pessoas manifestam suas opinião com expressões tais como rsrsrsrs, quando está dizendo uma graça, ou kkkkk, quando ri do que leu. E, se gostou mesmo pra valer, externa sua aprovação com o sinal de curtição, representado por um polegar levantado. Assim:

Pois nessa atmosfera do menor esforço, a Comunidade Dobrados, Carnaval e Forró, num Orkut que vem conhecendo êxodo avassalador, a cada dia mais cresce. Vejam o número de membros: 31.01.12, 600; 29.02.12, 700; 30.11.12, 781. É um elenco selecionado, composto quase todo de músicos ou estudantes de Música. Número impressionante é o de acesos aos Toques de Corneta. Na última vez em que o site 4Shared exibiu a contagem, eles atingiam a marca de 10.140! Isso se explica pelo fato de soldados de todas as Forças Armadas do Brasil, estudando para o Curso de Corneteiro, buscarem a Comunidade para se instruírem. Muitos deles solicitam-me a remessa dos manuais com as respectivas partituras, o que atendo enviando-lhes cópias.

Relativamente ao Carnaval, não fiquei parado. Durante este ano, consegui mais 216 partituras, 108 para trombone e sax alto e 108 para pistom, sax tenor e clarineta, totalizando 1.220 peças, conforme anunciado na imagem que abre esta matéria. Todas elas estão disponíveis para os pesquisadores, bastando que as solicitem, aqui no Jornal da Besta Fubana, ou diretamente a mim, por este endereço virtual: raimundofloriano@brturbo.com.br

Navegar é preciso. Quem tem Internet e quer pesquisar, encontrará o que procura no Google e no Orkut, neste caso específico. Para facilitar a vida de todos os músicos de Carnaval, disponibilizei, no Orkut, as partes das 100 marchinhas e dos 100 sambas carnavalescos mais tocados de todos os tempos, para os dois tipos de naipe instrumental, resultando disso 400 títulos. Para consegui-las, basta acessar RAIMUNDO FLORIANO, fotos, copiar, colar e imprimir. Aí a vai a relação delas:

Nada disso seria possível sem a colaboração incondicional que venho recebendo de músicos de todo o Brasil, como o já citado Maestro Antonio Gomes Sales, o Filipe Fonseca, do Rio de Janeiro (RJ), o Ronald Filho, de Porto Seguro (BA), e a Professora Silvana Teixeira, aqui de Brasília.

No final de 2011, quando eu pensei que esgotara o filão de minhas pesquisas, eis que o amigo compositor escritor Bráulio de Castro, do Recife (PE), me presenteia com o tesouro abaixo, contendo 120 arranjos de frevos para orquestra, sendo 70 frevos de rua, 34 frevos-canções e 16 frevos de bloco, conforme relação constante da figura a seguir, que já se encontra digitalizada e à disposição de todos:

Há algum tempo, eu vinha pagando um mico. Constantemente, era solicita a partitura da marchinha Yes, Nós Temos Bananas, e eu nunca conseguia atender, embora esgotasse todos os meios. Em outubro passado, tomei a resolução acertada. Mandei a melodia para a Professora Silvana, que elaborou a partitura simples. Em seguida, socorri-me do Maestro Antônio Gomes, que a transcreveu para os dois naipes carnavalescos. A aí estão elas:

Às vezes, eu me surpreendo, como no dia 27 passado, ao receber este pedido:

“Que tal, tenemos una scola de samba aquí en San José, Uruguay, y nos interesarían las partituras de trombón y saxo alto de las marchiñas y sambas. De tan rico carnaval que aquí no tenemos. Desde ya muchas gracias. Roberto Colman”.

Mais um fubânico no pedaço, cabra lá das estranjas, o que enche de orgulho este balsense e justifica o título de seu último livro: De Balsas Para o Mundo.

O Carnaval de 2013 está chegando, com um Réveillon no meio, pra esquentar os tamborins. Portanto, vamos cair na folia, agradecendo a Deus por mais um no vivido, este 2012, no qual, contra todos os maus agouros, o Mundo só se acabou para quem atrás de nosso Trio Elétrico não vai.

Para começo e conversa, nada melhor que a marchinha Yes, Nós Temos Bananas, de João de Barro e Alberto Ribeiro, na voz de Almirante, gravação original para o Carnaval de 1938: 

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O MERENGUE E A MÚSICA DO CARIBE

A música caribenha entrou em minha vida muito antes de eu pensar que um dia seria colecionador de discos, ainda em minha adolescência, isso na metade dos Anos 1950. Nos rádio-bailes e nas festinhas incrementadas a radiola, os ritmos brasileiros, como o samba, a marcha, o baião, o frevo, o arrasta-pé e o xote, emparelhavam-se com outros vindos lá do Mar das Caraíbas.

Era o bolero, com o cubano Bienvenido Granda e a Orquestra La Sonora Matancera; a rumba, com o catalão-cubano Xavier Cugat e Sua Orquestra; o merengue, com o dominicano Luis Kalaff e Sua Orquestra e com Bilo e Seu Conjunto Venezuelano; o mambo, com o cubano Perez Prado e Sua Orquestra, sem falar na música ao vivo, nos salões sociais e também nos cabarés.

  

Todos esses vibrantes ritmos se originaram na fusão das culturas musicais europeia, africana e indígena, enraizadas do lado de cá do globo terrestre desde que Cristóvão Colombo descobriu as primeiras ilhas em sua histórica expedição.

Cuba foi o país que mais assimilou essa empolgante cultura e, no passado, era referência musical para todo o Mundo. Embora o merengue tenha sido inventado na República Dominicana, foi em Cuba que conheceu o auge de sua popularidade e divulgação. Havana foi o sonho dourado de todos os que amavam a música caribenha e queiram conhecer os artistas, as orquestras e os shows que extasiavam a população mundial.

O merengue foi, de forma geral, a matriz de todos os ritmos surgidos nesse mar-oceano que separa a América do Norte da América do Sul. Esparramou-se com seus derivados, como o calipso, em Trinidad e Tobago, a cúmbia, na Colômbia, o cha-chá-chá, no México.

O Brasil, em boa hora, absorveu toda essa musicalidade. No Norte, o carimbó, que teve seu período áureo nos anos 1970; no Nordeste, a lambada, sucesso absoluto nos anos 1980; e, na Costa Maranhense, o reggae, invenção jamaicana que se aboletou em São Luís, fazendo-a hoje conhecida como a Jamaica Brasileira ou Capital Brasileira do Reggae.

No início da Década de 1960, apresentou-se em Brasília um espetáculo de Trinidad e Tobago com um som para mim desconhecido: orquestra cujos instrumentos eram tambores de gasolina com os fundos rebatidos, dos quais se tirava toda a escala musical. Era a famosa steel band. E não foram só as quentes melodias que me impressionaram. A coreografia executada pelos creoles, rapazes e moças, foi algo inesquecível, a que nunca mais, nem no cinema, voltei a assistir.

Extasiado por sua exuberância, procurei adquirir discos desse gênero musical, o que não foi rápido nem fácil. Só uns 10 anos depois, calhou de eu servir de intérprete para o Embaixador de Trinidade e Tobago no Brasil, que me presenteou com o LP How You Sweet So!, da Solo Harmonites Steel Orchestra. Logo depois, minha prima Socorrinha Evelim, diplomata, retornado do México e passando pela Venezuela, me trouxe de lá o LP El Rítmo del Caribe, com a venezuelana The Invaders Steel Band. Depois disso, adquiri mais outros álbuns, como o da The Real Thing Steel Band, das Bermudas.

São, em sua totalidade, ritmos alegres, dançantes, quentes. Falando em quentura, acho que a temperatura de cada região tem a ver com a feição de sua música, efusiva ou contida, à proporção em que o clima vai esfriando. Tiremos como exemplo, países como o Chile, o Uruguai e a Argentina, dos quais pouca notícia se tem sobre suas criações musicais. O tango, marca registrada dos argentinos, é grave, soturno, dramático, circunspecto, trágico.

Outro fenômeno que observei nesta minha cachaça discófila foi o desaparecimento do cenário artístico internacional dos cantores e orquestras cubanos e venezuelanos, depois do arrocho ditatorial que se implantou naqueles países, tapando a boca de seus grandes ídolos. Ainda há pouco, o regime cubano deu permissão para que as músicas gravadas por Célia Cruz, intérprete de salsas e merengues, falecida em 2003, aos 77 anos de idade, voltassem a ser tocadas naquele país. O ritmo salsa foi uma invenção da Orquestra La Sonora Matancera, que assim rebatizou o merengue ao deixar Cuba e exilar-se em Nova Iorque, fugindo da ditadura que ali acabara de se instalar.

Onde estão os substitutos de Bievenindo Granda, de Perez Prazo, de Xavier Cugat, em Cuba, de Bilo e Sua Orquestra e The Invaders da Venezuela? Escondidos por lá?

É minha intenção, usando este espaço que me é concedido pelo Jornal da Besta Fubana, traçar, pouco a pouco, os perfis de nomes que fizeram a pujança da música caribenha. Como Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e o Buena Vista Social Club, e outros mais, destacando os maiores sucessos de cada um, peças que ficaram para sempre incrustadas em nossos corações.

Por ora, aqui vai pequena amostra de diferentes ritmos identificadores da cultura musical do Mar das Caraíbas:

STEEL BAND – Merengue, Tribute to Spree Simon, de A. Roberts, com a Solo Harmonites Steel Orchestra, de Trinidad e Tobago.

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MERENGUE – Cuando No Te Conocia, de D. & D., Com Bilo e Seu Conjunto Venezuelano, destacando o vocal com Cheo Garcia.

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CHÁ-CHÁ-CHÁ – Las Classes de Cha Cha Cha, de Marquez e Marmolejo, com Pedro Garcia and His Del Prado Orchestra, do México.

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CÚMBIA – Mentirosa, de Humberto Capello, com Nelson Henriquez, da Colômbia.

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CALIPSO – Matilda, de Harry Thomas, com Harry Belafonte, o amerijamaicano, conhecido como o Rei do Calipso.

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TRATADO GERAL DA CUECA

  Cuecas maneiras do Século XXI

Para quem não conhece as peças de vestuário masculino acima, vou esclarecer: são cuecas modernas, encontráveis facilmente na praça, muito comuns para os homens atualizados e de bom gosto. Eu, por exemplo. Existem até uns modelitos com estampas de vampiras, que é pra chupar (êpa!) o sangue do usuário – tem quem goste, tá na moda! Dito isso, passemos ao empolgante e arrebatador tema a que me propus no cabeçalho desta matéria.

 

Tal declaração foi publicada na revista Veja, de 04.04.12, na seção Veja Essa. O que me deixou a matutar sobre a precaução da grande atriz e apresentadora. Será esse o destino das jovens quando se casam? Ou será o casamento um pré-requisito para os varões que desejam ter suas cuecas sempre limpinhas? E foi aí que me lembrei da primeira vez em eu usei tal espécie de vestimenta. Foi em janeiro fevereiro de 1949.

Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãezinha, ao arrumar meu enxoval, no dia em que eu, aos 12 anos, saía de Balsas para conquistar o Mundo, colocou na maleta 6 cuecas sambas-canção, recomendando-me: – Só comece a vestir depois de desembarcar em Floriano. No doloroso momento de despedida e saudade, mamãe não se lembrou de me informar para que serviam aquelas calças curtas, de vez que eu já usava calças compridas.

 Cueca samba-canção estamapdinha

 Chegando a Floriano, conheci meu primo Nilton, Cadete do Exército, sujeito traquejado pra mais da conta, que me explicou a necessidade do uso das cuecas, ilustrando sua aula com um exemplo bem evidente. Estávamos no período carnavalesco, e a marchinha de maior sucesso era Chiquita Bacana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravada por Emilinha Borba, que dizia: “Chiquita Bacana/Lá da Martinica/Se veste com uma caca/De banana nanica/Não usa vestido/Não usa calção/Inverno pra ela/É pleno verão/Existencialista/Com toda razão/Só faz o que manda/O seu coração”.

Calção – como chamávamos, até uns 30 anos atrás, a calcinha de hoje – era um símbolo feminino, peça que mulheres direitas usavam por debaixo de todas as roupas, e a que não o fizesse, poderia ser chamada de rapariga. Assim também a cueca, segundo o Nilton, era sinal de que o homem se encontrava em plena maturidade moral, cônscio de suas responsabilidades sociais.

Convenientemente instruído, passei a usar minhas cuecas, sem que fosse necessário contrair matrimônio para que elas se conservassem dentro da limpeza requerida.

E os anos se passaram. Agora, com essa declaração da atriz, resolvi, auxiliado pelo Google, por meus cadernos de lembretes e pelas observações pessoais, ir a fundo (êpa!) no tema, procurando, não esgotá-lo, mas pelo menos dar um pouco de claridade sobre esse imprescindível componente do vestuário masculino.

Já no tempo de antigamente, o homem, desde que era parido, precisava usar algo que o impedisse de lambuzar de matérias fecais tudo em seu derredor. Daí, a invenção do cueiro.

Prevenção contra o pior

A etimologia da palavra está lá no Aurélio: Cueiro (De cu + eiro), sendo “cu” o orifício na extremidade terminal do intestino, pela qual se expelem os excremento, e “eiro” o que exerce certo ofício, profissão ou atividade. Vejam bem, os acadêmicos e lexicógrafos podiam, com certa razão, denomina essa peça de “cuzeiro”, mas isso resultaria em chulo, agressão aos ouvidos e aos bons costumes.

Chegando o bebê à idade adulta, cuidou-se logo de bolar outra vestimenta que o impedisse de fazer sujeira, não só a sua volta, mas nas próprias roupas. E a humanidade criou a ceroula.

 

Ceroula, a mãe da cueca

Higiênica, isso é o que a ceroula não era! Acostumado a ter quem lhe trocasse os cueiros a toda hora que os sujasse, o homem, por muitos anos, despreocupou-se com as medidas de higiene que a ceroula requeria, fazendo dela o uso até que se rasgasse, sem nunca lavá-la, até porque, devido a motivo de economia, só comprava uma única peça. Parecidamente como hoje a maioria dos mancebos age com relação à calça jeans.

A Queda da Bastilha, em 1789, não só representou o nascimento do desejo de liberdade em todos os povos, com trouxe em seu bojo a industrialização e incremento da produção de artigos manufaturados de uso comum, inclusive peças de vestuário. Isso não afetou, no entanto, a Corte Portuguesa, cujos mancebos, ao chegaram ao Brasil, em 1808, continuavam no hereditário costume do uso da única ceroula sem lavá-la, até seu desgaste total pela ação do tempo.

Deram-se eles muito mal. Ocorre que com as brasileiras o buraco (êpa!) era mais embaixo. Para achegar-se-lhe ao leito, o varão teria que se aprecatar de todos os cuidados higiênicos, banhar-se, acheirosar-se, caso contrário, não haveria jogo. Com a fartura de panos para as mangas, o comércio cuidou de inventar um tipo de ceroula mais apropriado ao clima tropical, de pernas curtas, o que hoje é conhecido como samba-canção, mas que, naquela época, manteve o nome de ceroula, ou ceroulas, pois os homens passaram a comprar mais de uma para uso individual. O nome permaneceu ceroula, até que um dia!

Até que um dia, certa esposa conheceu o triste fadário temido pela atriz Sabrina. Ao levar a ceroula branca de seu marido ao tanque, constatou ser ela portadora, nos fundilhos, de amarelada mancha, também conhecida como “a freada da bicicleta”, com origem na boca do cano descarga de seu cônjuge.

A freada da bicicleta

Com o pensamento no orifício escabroso e manifestando incontido asco relativo à mancha, a pobre senhora exclamou: – Eca!!! Estava criado o neologismo para a ceroula, que o Aurélio consagra: Cueca (de cu, acima já definido, + eca, porcaria, sujeira).

Falando-se na higiene pessoal, existe um produto de primordial relevância no desempenho desse mister: o papel higiênico. Para muitos que ainda não o conhecem, que ainda vivem na era do sabugo e da folha de bananeira, aqui vão duas imagens, do o liso e do estampado.

Papéis higiênicos: o liso e o estampado

Há pouco tempo, num desses programas televisivos matinais que tratam de assuntos diversos, a apresentadora foi muito didática ao ensinar o emprego correto do papel higiênico, valendo-se de linda modelo vestida apenas de maiô, que fazia todos os movimentos ilustrativos do método.

A apresentadora instruía desta maneira: pega-se um pedaço de papel medindo cerca de um metro e dá-se-lhe uma dobra, fazendo-o ficar duplicado, com cerca de meio metro; em seguida, dá-se-lhe nova dobra numa das extremidades, mais ou menos de 10 centímetros, e executa-se a primeira limpada no fiofó; isso feito, olha-se para a dobrinha ali passada, verificando se o papel veio limpo ou sujo; se limpo, está pronta a operação; se sujo, dá-se-lhe nova dobrinha, na mesma conformidade da primeira, e nova limpada, até que o papel se apresente completamente limpo. Tudo isso da frente para a retaguarda, evitando emporcalhar a genitália. Pronto! Fácil, não é?

Voltando à cueca, lembro-me duma jogada de mestre da indústria há cerca de 50 anos: o lançamento da cueca assemelhada à calcinha feminina, mais aderente ao corpo, que ficou popularmente conhecida pelo nome da marca que a consagrou: Zorba

Cueca revolucionária

De início, os homens não quiseram aceitá-la. Eu, por exemplo. Mas a indústria, com seus bons marqueteiros, soube impor essa nova moda, dando ao modelo antigo no nome de samba-canção, relacionando-o ao brega e ao cafona. Foi o santo remédio. Até eu caí nessa!

Chico Fogoió, o Assessor Piauiense deste Cardinalato, contou-me um caso deveras interessante ocorrido em Vão da Urucu, nas barrancas do Rio Parnaíba. A filha dum fazendeiro saiu de lá para estudar, ficou muito tempo em Minas e no Rio de Janeiro e, quando regressou, já formada em Veterinária, começou a namorar o capataz da fazenda, o qual, por atávicos motivos, jamais usara cueca na vida. Carinho vai, carinho vem, resolveram noivar. Aí, a doutora deu-lhe uma zorba, para que ele a vestisse no dia do pedido oficial. Ele ainda quis reagir, argumentando que ninguém saberia se ele trajava ou não a cueca, pois ficava ela escondida pela calça, mas a moça explicou que, mesmo debaixo da calça, ficava a marquinha, como se vê nas mulheres. Aí, ele capitulou.

No dia do noivado, chegou ele à casa-grande já vestido na zorba. Em dado momento, assaltado pela urgência de satisfazer uma necessidade fisiológica, dirigiu-se ao matinho, no quintal da fazenda, munido de 5 sabugos, e, em lá chegando, derrubou o barro. Sucedeu que ele se esquecera da zorba, e só abaixara a calça. Já aliviado, passou o primeiro sabugo no fiofó, e ele voltou limpinho. Olhou pro chão, procurando o tolete, mas nada viu. Espantou-se, mas raciocinou que as galinhas do terreiro já o haviam comido, assungou a calça, abotoou-a, afivelou o cinturão e seguiu para o almoço que se iria iniciar. Ao sentar-se à mesa, com toda a família da namorada já em seus lugares, sentiu uma substância fria a pesar-lhe na bunda. Intrigado, enfiou e mão atrás por dentro da calça, encheu-a com a massa desaparecida e, exibindo-a a todos, gritou:

  – Tá aqui!

  Foi uma luta para que a namorada e sua família aceitassem o pedido de noivado, mas tudo acabou em muita festa, com bebida, tira-gosto, sanfona, zabumba, triângulo e ganzá.

  No mundo político, a cueca teve sua utilidade direcionada para um outro mister, muito diferente daquele que seus inventores idealizaram: esconder dinheiro sujo, proveniente de propinas e outras maracutaias.

 

  E assim caminha a humanidade!

Não poderia faltar neste tratado uma pegadinha do tempo em trabalhei como ajudante de palhaço no Circo Cometa do Norte em Teresina. Pergunta: Qual é a diferença da cuíca pra a cueca? Resposta: A cuíca ronca, e a cueca escuta o ronco!

E não se esqueçam, meus queridos leitores: de nada vale uma cueca seda ou de veludo, se a calça não estiver rasgada no bumbum! Ninguém vai notar sua sofisticação!

Uma cueca bem lavada é meio caminho andado nos assuntos do amor. Por isso, e para terminar, não me furto de mencionar o fato de uma cueca limpinha ter sido o objeto de suposto homicídio, pois não se sabe se o intento foi concretizado, eis que o malfeitor jamais foi encontrado. É o que diz a Marcha da Cueca, de Mendes, Prestes e Sardinha, gravada por Celso Teixeira para o Carnaval de 1970.

Minha cueca tava lavada
Foi um presente
Que eu ganhei da namorada

Eu mato, eu mato
Quem roubou minha cueca
Pra fazer pano de prato

Vamos ouvi-la:

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AMELINHA, CADÊ VOCÊ?

Tomei conhecimento da existência de Amelinha a partir do final dos Anos 1970, quando a Música Nordestina passava por uma fase de renovação, pelo menos para quem, nestes lados do Sul, não conviviam com o cenário forrozeiro do Recife e adjacências.

Amelinha veio surgindo e conquistando meu gostar a conta-gotas. Ela já lançara, em 1977, o LP Flor da Paisagem, que não apareceu por estas bandas. Em 1979, surpreendeu-me com o LP Frevo Mulher, cuja música que o nomeou, um frevo-canção de Zé Ramalho, estourou no Carnaval, sendo a música mais tocada e cantada nos salões. Em 1980, no LP Porta Secreta, a toada Foi Deus Que Fez Você, de Luís Ramalho, enterneceu o Brasil, enquanto o arrasta-pé Gemedeira, de Robertinho do Recife e Capinam, pôs todo mundo para balançar o esqueleto.

Os três primeiros LPs de Amelinha

Mas foi no Carnaval de 1981, com o frevo-canção Siri na Lata, de Carlos Fernando, no LP Asas da América – Volume 2, de meados do ano anterior, que ela me ganhou de vez. E, a partir de então, passei a incorporar a minha coleção todos os discos que gravou.

Asas da América foi um projeto audacioso do compositor, músico e cantor Carlos Fernando, iniciado em 1979, numa empreitada que, para seu espanto, agradou por completo os curtidores da MPB, demonstrando que o frevo é um tipo de música para ser cantado e tocado o ano todo e não só no Carnaval, como alguns assim pensavam. O mais importante, a meu ver, foi que, além da nova roupagem para o frevo-canção, o projeto, que já chegou ao Volume 6, revelou ao mercado fonográfico novos talentos femininos. Foi ali que tomei conhecimento da existência de Elba Ramalho, Terezinha de Jesus, Teca Calazans e Amelinha.

Os três primeiros lançamentos do projeto Asas da América

Amélia Cláudia Garcia Collares Bucaretchi, a Amelinha, nasceu em Fortaleza (CE), no dia 21 de julho de 1950. Aos 20 anos de idade, mudou-se para São Paulo (SP), onde se formou em Comunicação Social.

Começou a cantar amadoramente, participando de shows do conterrâneo Raimundo Fagner. Em 1974, passou a atuar em programas de TV. No ano seguinte, viajou com Vinícius de Moraes e Toquinho, com os quais estrelou temporada dupla, fazendo-se notar na MPB na mesma época em que uma leva de artistas nordestinos era chamada genericamente de “Pessoal do Ceará”, dentre os quais o próprio Fagner, Ednardo, Belchior, Zé Ramalho, com quem Amelinha se casou, Geraldo Azevedo, Fausto Nilo e Robertinho do Recife.

Sua entrada individual no mercado fonográfico aconteceu no ano de 1977, na gravadora CBS, com o LP Flor da Paisagem, supramencionado. A partir de então, apontada como revelação nordestina, conheceu o sucesso e a fama.

Em 1982, lançou o LP Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor, nome tão comprido quanto a faixa que o nomeou: 6 minutos. Essa toada, composta por Zé Ramalho com versos de Octacílio Batista, foi um dos maiores sucessos de venda de Amelinha e serviu de tema para o seriado Lampião e Maria Bonita, exibido pela Rede Globo. Em 1983, gravou o LP Romance da Lua Lua, obtendo enorme êxito com a faixa-título, canção de Garcia Lorca e Flaviola. Em 1984, Amelinha encetou nova fase em sua carreira. Separada de Zé Ramalho, que produzira três de seus primeiros cinco discos e compusera muitos de seus sucessos, entregou sua voz à produção de Mariozinho Rocha e ao acompanhamento instrumental do grupo Roupa Nova, gravando o LP Agua, Luz, com destaque para a canção Tempo Rei, de Gilberto Gil.

Em 1985, lançou o LP Caminho do Sol, enfatizando a canção Vida Boa, de Armandinho e Fausto Nilo. Deixando a CBS, lançou, em 1987, pela Continental, o LP Amelinha, incluindo o sucesso Mistérios do Amor, de Tavinho Paes, Paulinho Lima e Serge Clemens. Em 1989, montou o espetáculo Saudades da Amélia, com repertório de compositores da moda, tais como Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso, percorrendo vários teatros do país, sob estrondosos aplausos. Após sete anos sem gravar, voltou, em 1994, desta vez com o selo Polydor, lançando o primeiro CD, Só Forró, no qual, além de gravar clássicos do gênero, revelou diversos compositores emergentes no cenário forrozeiro.

Em 1996, na mesma gravadora, lançou o CD Frutamadura, com destaque para o arraste-pé o Pra Tirar Coco, de Messias Holanda, e trazendo de volta Siri na Lata. Em 1998, lançou, pela Sony Music, o CD Amelinha, incluindo o xote Espumas ao Vento, de Accioly Neto. Em 1999, realizou turnê por todo o Brasil, com músicas inéditas desse novo disco. No ano de 2000, a Polydiscos lançou dois volumes da coletânea de seu trabalho, denominados 20 Super Sucessos.

Em 2001, lançou, pela Seven Music, o CD Vento, Forró e Folia, no qual reapresenta Frevo Mulher. Em 2002, participou, com Belchior e Ednardo, do CD Pessoal do Ceará, onde relembra o início de sua carreira. Finalmente, em 2011, pela marca Joia Moderna, especializada em cantoras e pertencente ao DJ Zé Pedro, lançou o CD Janelas do Brasil, com repertório completamente inédito.

Neste despretensioso perfil, intentei mostrar-lhes toda a iconografia dos LPs e CDs que Amelinha estrelou até agora, perfazendo mais de 180 peças da mais autêntica Música Popular Brasileira. Com um acervo de tal magnitude, e diante do ocaso que a mídia lhe reservou, só me resta, agora, modificando minha interrogação que encabeça esta matéria, perguntar a todos os órgãos de comunicação responsáveis por isso:

  – Mídia, cadê a Amelinha?

E, para que vocês recordem, aí vai o frevo-canção Siri na Lata, com o qual Amelinha entrou na bem-querença de meu gosto musical:

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BRENDA LEE, THE LITTLE MISS DYNAMITE

Brenda Mae Tarpley, a Brenda Lee, cantora estadunidense de rockabilly, pop e country, nasceu, com apenas 2 kg, na enfermaria de caridade do Grady Memorial Hospital, em Atlanta, Geórgia, a 11.12.1944.

Era filha de Ruben Tarpley, que fora, no passado, excelente arremessador canhoto de beisebol, e de Grayce Yarbrough Tarpley. A família, de origem humilde, era pobre e vivia precariamente numa casa de três cômodos, sem água corrente, onde Brenda dividia a mesma cama com duas irmãs. Ela frequentou colégios de ensino fundamental em cidades onde o pai trabalhava, principalmente nas rotas entre Atlanta e Augusta. Sua vida resumia-se em ver seus pais procurando emprego e, aos domingos, frequentar a Igreja Batista, onde ela cantava.

Brenda era um prodígio musical. Embora sua família vivesse em precárias condições, possuía um rádio a pilha, que fascinou Brenda, ainda bebê. Na época, embora tivesse apenas 2 anos, ela conseguia assobiar as melodias das canções que ouvia. Tanto a mãe, como uma das irmãs, levaram-na, muitas vezes, a uma loja de doces, onde ela, sentada sobre o balcão, ganhava doces e moedas para cantar.

Sua voz, seu rosto bonito e suas apresentações nos palcos começaram a despertar a atenção de todos a partir dos 5 anos de idade. Aos 6 anos, ela ganhou um concurso de canto patrocinado por um estabelecimento de ensino fundamental. A recompensa foi a aparição ao vivo em um programa de rádio de Atlanta, Starmakers Revue, no qual voltou a se apresentar no ano seguinte.

Seu pai morreu em 1953, e ela depois, já aos 10 anos, tornou-se a principal fonte de sustento de sua família, cantando em programas radiofônicos locais e apresentações na televisão. Em 1955, sua mãe casou-se com Jay Rainwater, que levou a família para Cincinnati, Ohio, onde ela trabalhou na Skinner Jimmy Music Center, loja de discos, e em programas de radiodifusão.

 A família logo retornou à Geórgia, mas dessa vez para Augusta, e Brenda apareceu em um show especial, WJAT-AM, na cidade de Swainsboro. O produtor do show, Sammy Barton, nessa ocasião, rebatizou-a como Brenda Lee, pois acreditava que o nome Tarpley era muito difícil de ser lembrado.

Brenda, durante toda a carreira, embora tivesse um comportamento admirável, sentia repugnância por bananas. Quando saladas de frutas lhe eram oferecidas em seu camarim, não continham bananas, para evitar que ela sofresse um ataque de raiva.

Seu grande sucesso no show business veio em fevereiro de 1955, quando ela ganhou $30 para participar, em uma estação de rádio de Swainsboro, de um programa estrelado pelo cantor Red Foley, o maior divulgador da country music da época, numa unidade de turnê promocional de seu programa TV ABC Ozark Jubilee, em Augusta, que foi convencido a ouvi-la cantar antes do show.

Foley ficou tão surpreso, como todas as outras pessoas que ouviram a potente voz da pequena menina, que, imediatamente, concordou em deixá-la cantar Jambalaya no programa. A música foi ensaiada e, mais tarde, apresentada. Ao término, Foley declarou: “Ainda fico com arrepios de frio pensando naquele momento. Um dos meus pés começou a acompanhar febrilmente o ritmo da música, como se eu estivesse me afastando de um terreno em chamas. E quando ela fez aquele truque de quebrar a voz, interrompeu meu transe, o suficiente para que eu percebesse que tinha me esquecido de sair do palco. Ali estava eu, após 26 anos de suposto aprendizado sobre como conduzir-me diante de um auditório, com a boca aberta 2 milhas de largura e um olhar petrificado”.

A plateia irrompeu em aplausos e se recusou a deixá-la sair do palco até que ela tivesse cantado mais três músicas. Em 31 de março de 1955, aos 10 anos de idade, ocorreu a sua estreia na Rede Ozark Jubilee, em Springfield, Missouri. Apesar de o seu contrato com o show ser de 5 anos, foi interrompido por causa de uma ação judicial movida por sua mãe e por seu empresário, quando ela fazia aparições regulares no programa.

Em 30 de julho de 1956, menos de dois meses depois de tal ação judicial, a Decca Records ofereceu-lhe um contrato, e seu primeiro disco foi um vinil single, 45 RPM, com Jambayala no Lado A, e Bigelow 6-200 no lado B, músicas tipicamente country.

Aos 11 anos de idade, com Jambalaya, Brenda Lee estourou a boca do balão em todo o universo. No Brasil, o sucesso foi imediato e muito imitado pela maioria dos cantores e conjuntos emergentes daquele tempo. Duvidava-se que aquela voz fosse mesmo de uma criança e até se especulava sobre a hipótese de Louis Armstrong ter feito a gravação com a voz distorcida.

Seu segundo disco apresentou duas músicas de Natal: I’m Gonna Lasso Santa Claus e Christy Natal. Embora ela já tivesse completado 12 anos de idade, os créditos de seus 2 Singles distribuídos pela Decca Records falavam em Little Brenda Lee (9 anos).

Com 1,44m de altura, ela recebeu o apelido de The Little Miss Dynamite, em 1957, após gravar a canção Dynamite, e foi dos primeiros astros da música pop a ter uma importante carreira contemporânea internacional. Teve 37 hits fonográficos estadunidenses durante a Década de 1960, número superado apenas por Elvis Presley, The Beatles, Ray Charles e Connie Francis.

Em 1960, gravou sua canção-assinatura I’m Sorry, que foi Número Um no Quadro de Avisos de Paradas. Foi seu primeiro ouro individual, pelo qual recebeu indicação para o Grammy, e também um dos primeiros grandes hits a usar o que viria a ser o som de Nashville – orquestra de cordas e vocal de apoio harmonizado

Brenda foi popular no Reino Unido no início de sua carreira. Ela visitou o país em 1959, antes de conseguir o reconhecimento pop nos Estados Unidos. Sua gravação rockabilly de Let’s Jump the Broomstick, em 1961, não entrou nas paradas estadunidenses, mas foi a Nº 12 no Reino Unido, onde seu ato de abertura de uma tour, em 1960, ficou a cargo de um então pouco conhecido grupo de Liverpool: The Beatles.

Depois disso, Brenda passou a desfrutar ali de uma distinção única entre os cantores americanos. No ano de 1962, teve dois hits Top 10 no Reino Unido, que não foram lançadas como singles em seu país natal: Speak to Me Pretty e There Comes This Feeling.

A popularidade de Brenda diminuiu um pouco no final dos anos 1960, com o amadurecimento de sua voz, porém ela continuou fazendo uma carreira musical de sucesso, retornando às raízes como cantora de música country, com uma sequência de grandes hits nas décadas de 1970 e 1980.

Durante a Década de 1970, Lee restabeleceu-se como artista de música americana e ganhou uma série de top hits nas paradas de dez países. O primeiro foi em 1973, Nobody Wins. I Can See Clearly Now, do LP Brenda, de 1960, marcou intensamente minha vida no início dos Anos 1980, pois era a música romântica com a qual eu e minha mulher embalamos nosso namoro, culminando com o casamento em julho de 1982. Estes são os LPs de Brenda constantes de minha coleção, hoje transformados em CD:

  

Embora suas canções sejam algumas vezes centralizadas em amores perdidos, e ainda que tenha ficado sem pai na infância, Brenda foi feliz na vida e em seu casamento, em 1963, com Ronnie Shacklett, que sabia lidar com a indústria da música notoriamente voraz e lhe garantiu sucesso financeiro a longo prazo. Eles têm duas filhas, Jolie e Julie, e três netos, Taylor, Jordânia e Charley.

Na era do CD, adquiri este exemplar que, assim como a maioria dos de seus discos é facilmente encontrado à venda em sebos virtuais:

 

Em setembro de 2006, comemorando 50 anos como artista de gravação ela agraciada com o Meador-Walker Lifetime Achievement Award Jo, concedido pela Fonte da Fundação, em Nashville. Em 2007, foi introduzida no Country Music Hall of Fame. É membro da Rockabilly Hall of Fame e tem os passos gravados na Hit Parade of Fame.

A atriz Kelly Clarkson apareceu como Brenda Lee em dois episódios da NBC da serie American Dreams. Fly Me to the Moon, que Brenda gravou em 1963, é usada nos créditos finais do jogo de vídeo Bayonetta.

No Brasil, a música Weep No More My Baby ficou conhecida por ser usada pelo programa de Pânico na TV, onde era tocada no quadro Dança dos Políticos.

A discografia de Brenda Lee, acima dos 30 títulos, mostra a intensidade de sua vida artística. Escolhi duas faixas de seu repertório para mostrar um pouco desse trabalho. Em primeiro lugar, Jambalaya, a música mais representativa de sua carreira, que a lançou em todo o mundo; em segundo, outro grande sucesso country, Bill Bailey Won’t You Please Come Home?, canção popular americana, composta por Hughie Cannon, em 1902, mais conhecida apenas como Bill Bailey, não só por ser muito bonita, como também pela atuação do espetacular saxofonista, que arrebenta nos solos intermediários.

Ouçam-nas aqui:

 

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PEDRO CAETANO – É COM ESSE QUE EU VOU

Pedro Caetano: bico-de-pena de Miécio Café

Pedro Walde Caetano, compositor, figura de destaque na chamada Época de Ouro da Música Popular Brasileira, nasceu numa fazenda do Município de Bananal (SP), a 01.02.1911, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 27.07.1992, aos 81 anos de idade. Era filho do agricultor Durval Mendo Caetano e da professora Zelpha Schotts Caetano.

Aos três anos de idade, os pais levaram-no para outra fazenda, em Maricá (RJ), de onde, aos doze anos, se mandou para o Rio de Janeiro, que era a Capital Federal, empregando-se numa sapataria, à Rua Uruguaiana, Nº 11, da qual viria, no futuro, a ser sócio e, mais tarde, proprietário, com a morte do sócio, o espanhol Constantino Esteves Cid, em 1951, mantendo-se no negócio até 1965, quando encerrou suas atividades.

Por essa época, já estudava piano e começou, também com a mania de fazer música. Sempre que saía do trabalho, ia encontrar-se com os companheiros na Ponte do Maracanã, que ficava na altura da Rua Senador Furtado, onde morava. Sempre trazendo um sambinha ou uma marchinha para ensaiar com a turma, surgiu, em 1933, aos 22 anos de idade, com algo diferente, metade samba, metade choro, a que deu o titulo de Foi Uma Pedra Que Rolou. Voltarei a falar dessa composição mais adiante.

Pedro Caetano e com Claudionor Cruz, seu parceiro mais constante

Em 1935, teve sua primeira composição gravada, o samba-canção O Tocador de Violão, em parceria com o músico Claudionor Cruz, pela Odeon, na voz de Augusto Calheiros, também conhecido como a Patativa do Norte. Claudionor foi seu primeiro parceiro e o mais constante, com quem produziu mais de 300 títulos.

O primeiro sucesso da dupla aconteceu em julho de 1937, com a valsa Caprichos do Destino – Se Deus um dia, olhasse a Terra e visse o meu estado… –, na voz de Orlando Silva.

Em 1941, lançou, com Claudionor Cruz, o samba-canção Nova Ilusão – É dos teus olhos a luz que ilumina e conduz… – gravação de Renato Braga, que mais tarde viria a tornar-se grande sucesso na voz de Paulinho de Viola.

Em 1942, Ciro Monteiro, um de seus melhores intérpretes, gravou o que seria um de seus maiores sucessos, o choro Botões de Laranjeira – Maria Madalena dos Anzóis Pereira… – e, no mesmo ano, Francisco Alves lançaria o samba-exaltação Sandália de Prata, de Pedro Caetano e Alcyr Pires Vermelho, que também foi um de seus grandes parceiros. Com o retumbante sucesso dessas duas músicas, o nome de Pedro Caetano estava definitivamente consagrado no Mercado Fonográfico Brasileiro.

A seguir, em traço do caricaturista Adail, vemos Pedro Caetano, Manuel Baña, espanhol, dono do Café Nice e seu parceiro eventual, e Alcyr Pires Vermelho.

Pedro Caetano, Manuel Baña e Alcyr

Em 1944, Francisco Alves lançou a marchinha Eu Brinco – Com pandeiro ou sem pandeiro… –, de Pedro Caetano e Claudionor, que obteve grande êxito no Carnaval daquele ano. Ainda em 1944, a parceria lançou o samba de meio de ano Disse Me Disse – Chega, eu já sei o que vens me dizer… –, na voz de Carlos Galhardo.

Em março de 1946, Pedro lançou o choro O Que se Leva Desta Vida – O que se leva desta vida é o que se come, o que se bebe… –, gravação de Ciro Monteiro, que se tornaria um dos clássicos do repertório do cantor.

Em 1947, lançou, em parceria com Alcyr Pires Vermelho e Silvino Neto, o samba-canção Cinco Letras Que Choram – Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram… – em magistral interpretação de Francisco Alves.

No Carnaval de 1947, estourou com o samba Onde Estão os Tamborins? – Mangueira, onde é que estão os tamborins, ó nêga?… –, gravado pelo conjunto Quatro Ases e Um Curinga. No Carnaval de 1948, dominou com o samba É Com Esse Que Eu Vou – É com esse que eu vou sambar até cair no chão… – também com os Quatro Ases e Um Curinga. No Carnaval de 1949, fez grande sucesso com o samba Mangueira em Férias – Quem foi que disse que eu não brigo mais… –, dele e de Alcyr Pires Vermelho, gravado por Nuno Roland. Para o Carnaval de 1952, lançou a marchinha Quem Tem Amor, Não Dorme – Passo a noite contemplando a lua… –, gravada pelos Vocalistas Tropicais.

Desde então, Pedro Caetano afastou-se um pouco do ambiente musical do Rio, dedicando-se mais ao cenário capixaba. Mesmo assim, em 1954, quando a brasileira Martha Rocha acabava de ser desclassificada no concurso de Miss Universo, porque tinha duas polegadas a mais nos quadris, ele, Carlos Renato e Alcyr Pires Vermelho compuseram a marchinha Duas Polegadas – Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás… –, que a própria Martha gravou e foi muito cantada durante o ano e no Carnaval de 1955. Do outro lado do disco, Martha gravou o baião Rio, Meu Querido – Rio, meu querido, é o meu coração que te diz… –, dos mesmos autores da marchinha.

Pedro Caetano era casado com Rosa Provedel Caetano, a Rosário, italiana criada no Espírito Santo, que conhecera em Minas Gerais. Em 1951, influenciado por ela, foi passear em Guarapari, famoso balneário capixada, onde, após assistir, à noite, a um show da lua nas pedras da arrebentação marinha, e ver nascer, no dia seguinte, uma linda manhã de sol, compôs a valsa Guarapari – Quer viver o sonho lindo que eu já vivi… –, que Nuno Roland Gravou e se tornou praticamente no hino daquela cidade.

No rastro de Guarapari, outras cidades do Espírito Santo foram homenageadas, o que valeu a Pedro Caetano, no decorrer do tempo, vários Títulos de Cidadão, placas de rua com seu nome, ainda em vida, e gravação de um LP, financiado pelo Governo do Estado, com as respectivas composições.

Pedro Caetano recebendo o título de Cidadão Cachoeirense, em 1969, e capa do LP oficial

Mesmo afastado do ambiente carnavalesco, Pedro Caetano, inspirado no drama do operário que vê os sambistas do morro faturando alto no Carnaval, compôs um samba mirando o infeliz que esquece sua condição de trabalhador que tem de acordar de madrugada para pegar no batente e vai pela noite adentro em busca de um tema. Assim, nasceu o samba Olha o Leite das Crianças – É madrugada, o morro está descansando, mas o sambista vai bolando uma ideia genial… –, que a cantora Marlene defendeu no Concurso Oficial do Carnaval Carioca de 1969, obtendo o honroso 4º Lugar dentre mais de 3.000 músicas inscritas. A foto a seguir registra o momento da premiação.

Pedro Caetano com Marlene e Luiz Reis

Sendo somente compositor, Pedro Caetano teve oportunidade de gravar apenas um LP, ele mesmo interpretando seus maiores sucesso, pela gravadora RCA Camden, lançado em 1975, com o título É Com Esse Que Eu Vou:

 

Em 1976, a Editora Abril lançou a série Nova História da Música Popular Brasileira, vendida nas Bancas de Revistas, com 75 volumes, cujo Número 66 focalizou o trabalho de Pedro Caetano e Claudionor Cruz:

 

No começo da Década de 1980, Pedro Caetano recebeu, das mãos de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, o troféu Velho Guerreiro, do qual muito ele se orgulhava:

 

Em 1984, foi homenageado com o primeiro show montado de sua obra, o espetáculo É Com Esse Que Eu Vou, realizado na Sala Sidney Miller da Funarte, na série Projeto Carnavalesco, com roteiro e direção de Ricardo Cravo Albin, que fez de seu repertório uma autêntica Revista Musical. Teatralizando as marchinhas de atualidade política e social, Albin produziu um espetáculo alegre e muito bem-humorado, que contou com as participações de Marlene e o grupo Céu da Boca, além do próprio compositor, incluindo peças carnavalescas recentes, como a marchinha Cineangiocoronariografia – Cineangiocoronariografia, o moderno exame de cardiologia –, feita em parceria com Alcyr Pires Vermelho e Manuel Baña, sátira aos problemas de que era vítima o então Presidente da República João Batista Figueiredo, já gravada por Nara Leão.

Pedro Caetano, e Marlene e o grupo Céu da Boca

Ainda em 1984, Pedro Caetano lançou um livro em comemoração a seus 50 anos de carreira, relançado em 1988 com o título 54 Anos de Música Popular Brasileira – O Que Fiz e o Que Vi, edição que me foi autografada por ele em 24.10.1991, nove meses antes de seu falecimento. No prefácio, José Ramos Tinhorão, jornalista, pesquisador e crítico musical, declara que, diante da memória curta da Música Popular, o ideal seria que cada artista, ao julgar cumprida sua trajetória, se debruçasse sobre seu álbum de recortes e, pessoalmente, escrevesse sua biografia. E lamenta que, salvo honrosas exceções, os compositores e cantores são os primeiros a não saber nada de suas próprias carreiras.

O exemplar cuja capa vocês veem logo abaixo serviu-me por demais na redação desta matéria, revelando-me fatos desconhecido, mas peca muito ao não os amarrar às datas em que ocorreram. Em determinados trechos, há lapsos de memória, quando o próprio autor declara não se lembrar de partes da composição que está mencionando. Mas, repito, mesmo com essa falha, orientou-me bastante e é leitura a indispensável a qualquer pesquisador.

 

Isso estabelecido, passemos ao samba-choro Foi Uma Pedra Que Rolou. Jô Soares, em seu magnífico best-seller O Homem Que Matou Getúlio Vargas, criou um personagem fictício, o bósnio Dimitri Borja Korozec, sobrinho bastardo de Getúlio Vargas. Dimitri, sujeito desastrado além da conta, vem ao Brasil para assassinar o tio, mas todas as tentativas são malogradas, devido a sua “propensão natural para a catástrofe”. Jô coloca o terrorista atrapalhado em perigosas situações verídicas, das quais Getúlio saiu ileso, mas deixou passar uma, que ficou fartamente documentada nos anais de nossa história: a pedra que rolou!

Em 1933, Getúlio seguia de automóvel pela Estrada Rio–Petrópolis quando, no Quilômetro 53, enorme bloco de pedra se desprendeu duma encosta de granito à beira da estrada, amassando a capota do carro, matando seu Ajudante de Ordens Coronel Celso Pestana, e ferindo, além do próprio presidente, sua mulher, Dona Darcy Vargas.

Se Jô Soares deixou passar esse episódio em branco, tal não aconteceu com Pedro Caetano, que soube glosá-lo muito bem. Mas, em seu livro, se esqueceu de mencionar a inspiração, contando apenas os fatos que antecederam gravação daquela que foi a primeira composição de sua vida.

Entre seus companheiros da Ponte do Maracanã, havia um, conhecido como Torrinhos, primo de Sílvio Caldas, que se prontificou a apresentá-lo ao cantor. O encontro se deu quando Sílvio jogava bilhar no Salão Trianon, que ficava em frente ao Café Nice.

Silvio os recebeu muito bem mas, naturalmente, porque já andava saturado de ouvir tantos chatos com mania e fazer música, não acreditou muito. Entretanto, quando os dois começaram a cantar o samba-choro bem próximo à mesa em que ele jogava, foi-se chegando, passou a interessar-se, chamou-os, aprendeu o samba e, assim, aconteceu o lançamento de mais um “careta” na Musica Popular Brasileira, ocorrido no início de 1934, no Programa do Casé, da Rádio Philips. Lançado o samba-choro, Sílvio Caldas prometeu gravá-lo na semana seguinte, mas o tempo foi-se passando, e a promessa só se fez cumprir 20 anos depois, quando a música já havia sido gravada, em 1940, pela dupla Joel e Gaúcho.

Esta matéria ficou muito longa, e acho que isso aconteceu pela admiração que nutro por Pedro Caetano desde meus tempos de criança, quando aprendi a gostar da Música Popular Brasileira, e suas composições ajudaram a construir meu repertório de marchinhas e sambas, tanto os carnavalescos como os de meio de ano.

Possuo em meu acervo 136 títulos de Pedro Caetano, quer dele individualmente ou com parceiros. Escolhi duas faixas como amostra de seu trabalho, uma por ter sido sua primeira composição, e a outra por ser um samba-exaltação, gênero que aprendi a curtir desde quando o Brasil mandou seus pracinha para o front na Europa, na Segunda Guerra Mundial:

Foi Uma Pedra Que Rolou, samba-choro, na voz de Silvio Caldas, gravado em 1954.

 

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Sandália de Prata, samba-exaltação, na voz de Francisco Alves, gravado em 1942.

 

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© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa