MARIA RODRIGUES, NOSSO ANGELITO NEGRO

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Maria Rodrigues

Maria Rodrigues da Silva nasceu em Floriano (PI), no dia 29.09.1929, filha de Laurindo Rodrigues da Silva e Cesária Maria da Conceição. Aos três anos de idade, ficou órfã de pai e mãe. Dona Cesária morreu em decorrência de males oriundos de sua intensa exposição ao calor nas bocas dos fornos das olarias onde trabalhava. Seu Laurindo, também, vítima de infecção no calcanhar, provocada pela mordida de um gato, no rabo do qual pisara.

Seu irmão mais velho, num total de sete, Fernando, já casado e com três filhos, residente em Uruçuí (PI), ciente dos demais irmãos desamparados, foi buscá-los. A viagem de volta, num percurso de 208 km, foi feita a pé, levando seis dias na caminhada. Um dos pousos foi a Fazenda Brejo, antiga propriedade do meu avô paterno, Capitão Pedro José da Silva, hoje em poder do meu primo Airton, médico residente em Teresina, filho do Comandante João Clímaco, o Tio Joãozinho.

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Maria Rodrigues e Comandante Puçá

Maria Rodrigues era irmã de José Rodrigues dos Santos, o Comandante Puçá, que a trouxe para Balsas na Década de 1940, quando começou a tripular embarcações pertencentes a armadores de nossa cidade.

Sua família está, desde o início da Década de 1950, intimamente ligada à minha. Fernando é o pai da Maria Júlia, que foi morar conosco em 1951, ainda menina, sendo, praticamente, criada por Dona Maria Bezerra, minha mãe. Seguiu ela com minha irmã Maria Alice para Engenheiro Dolabela (MG), quando esta se casou, acompanhando-a nas mudanças para Brotas-(SP), Anápolis (GO), e, finalmente, Balsas. Em 1974, veio cuidar de minha residência aqui em Brasília. Mais tarde, casou-se com Odílio Silva, seu primo, antigo craque da Seleção Balsense de Futebol, com o qual teve um filho, o Reinaldo, meu afilhado, hoje Engenheiro da Computação, todos residentes em Anápolis, Odílio já falecido, e ela aposentada pelo INSS.

Maria Rodrigues, a Maria, como sempre a chamei, veio a ser um forte esteio para minha gente em Balsas, nas ocasiões mais delicadas. Fechou os olhos de minha mãe, em seu último suspiro, tendo-a velado como se parente fosse. Igualmente, esteve à cabeceira de Seu Rosa Ribeiro, meu pai, até que expirasse. Desde 1969, constituiu-se em amiga, conselheira, companheira, praticamente mãe de minha irmã Maria Alice, falecida de mal súbito em 2002.

Lembram-se daquele filme Mary Poppins, em que uma fada apareceu do espaço sideral, navegando em seu guarda-chuva, para dar jeito numa família inglesa toda desnorteada? Pois bem assim aconteceu conosco!

Na madrugada de 17 de fevereiro de 1969, estávamos todos os irmãos perplexos, apavorados, inertes, diante do leito de morte de nossa mãe – era o primeiro ente querido que perdíamos na família -, quando se materializou no quarto, enviado pelo firmamento celeste, aquele angelito negro, que se impôs perante nós e os demais presentes, encomendando a alma de Maria Bezerra aos braços do Senhor, fechando-lhe os olhos, dando-lhe banho, amortalhando-a, colocando-a no caixão e passando, desde então, a cuidar de todos nós.

Depois da Missa do Sétimo Dia, retornamos às cidades onde morávamos, ficando em Balsas apenas a Maria Alice, que lá exercia o cargo de Tabeliã do 2° Ofício.

Maria Bezerra deixou-nos para sempre, mas sua partida legou-nos outra Maria que passou a substituí-la no papel de nossa mãe. Aos 40 anos de idade, Maria Rodrigues assim se impunha pelo carisma e pela dedicação demonstrada até seus momentos finais.

Maria Alice, desde o início dessa maravilhosa simbiose, teve a premonição de que um dia deixaria o mundo antes de Maria Rodrigues. Por isso, a partir de quando foi por ela perfilhada, passou a contribuir para o INSS em seu nome, garantindo-lhe futura aposentadoria. E mais, ao constatar que o valor de seus proventos seria ínfimo, conseguiu, com o prestígio de que gozava, sua nomeação como funcionária pública do Estado do Maranhão. Dessa forma, ao completar 70 anos, Maria se aposentou com duas fontes de renda.

Há muito, Maria se constituíra como arrimo de Raimunda, sua irmã, e de grande quantidade de sobrinhos e parentes afins que ainda batalhavam na luta pela subsistência.

Nesse tempo, residia na Rua Nova, em casa alugada, bem distante da Rua do Frito, hoje 11 de Julho, onde Maria Alice morava. Esta, visando a garantir uma velhice tranquila para Maria e sua irmã, mandou construir, na metade do terreno onde morava, belíssima casa de esquina, na Rua Isaac Martins, que lhe foi entregue com escritura passada em cartório. Adiante, a frente da simpática moradia, escondida por um muro, exigência de segurança no modernismo balsense:

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Pelos arbustos floridos que a enfeitam, pode-se avaliar como seria o jardim, entre sua casa e a de Maria Alice, do qual Maria cuidava com esmero, sendo o local preferido para a foto oficial dos casais menos apercebidos que contraíam matrimônio no Cartório, situado na esquina da Rua do Frito.

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Maria Rodrigues em seu impecável jardim

Maria era pessoa antenada com os acontecimentos da cidade e com a sociedade balsense. Zeladora do Sagrado Coração de Jesus, como foram Maria Bezerra e Maria Alice, participava, anualmente, da Comissão Organizadora dos Festejos de Santo Antônio.

Maria viveu num tempo em que não havia esse negócio chamado selfie, e as raras fotografias que temos dela são todas esmaecidas, razão pela qual pedi ao amigo Juarez Leite, artista plástico, que as reproduzisse, dando-lhes mais vigor.

Maria Alice, como previra, foi embora primeiro. No dia 3 de março de 2002, partiu mansamente, como dito acima. Maria, que já desempenhara competentemente o papel de sua mãe, irmã e amiga, assumia, tacitamente, esse mesmo papel junto a seus filhos. A seguir, vêmo-la, já em idade avançada, em companhia do Doutor Raimundinho, filho da Maria Alice, que, diariamente, tomava refeições em sua casa.

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Maria Rodrigues e Raimundinho

Maria teve um grande amor na vida. Chamava-se Camilo. Durante a construção de Brasília, ele para aqui arribou, com a promessa de mandar buscá-la tão logo se ajeitasse financeiramente, porém jamais deu notícia. Por essa razão, Maria nunca mais quis saber de homem.

No dia 9 de novembro de 2013, aos 84 anos de idade, nosso angelito negro encantou-se, voltando à Casa do Pai, de onde viera para cuidar de todos nós.

Hoje, 29 de setembro, Maria Rodrigues comemora mais um aniversário. Desta vez no Paraíso, juntamente com sua grande amiga, como todos os anos acontecia em sua vida terrena. Lá no Céu, em singelo congraçamento, enquanto ela corta o bolo, Maria Alice canta-lhe “Parabéns pra você”.

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O Angelito e Maria Alice: Festa no Céu

Para musicar essa festa, nada melhor que um bolerão das antigas, como Angelitos Negros, poema do venezuelano Adrés Eloy Blanco, com letra do mexicano Manuel Álvarez Macisto, na interpretação da madrilenha Nati Mistral. Vamos ouvi-lo:

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DUZINDA: O BRIO DO BRASILEIRO POBRE DE OUTRORA

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Leitor compulsivo que sou, ultimamente tenho procurado conhecer trabalhos de autores contemporâneos, preferencialmente moradores no Distrito Federal e Entôrno – com acento, para não pensarem que estou derramando o Distrito –, pessoas facilmente encontráveis em shoppings, salas de espera, feiras, pontos de ônibus, restaurantes, enfim, aonde quer que se vá. Gente da gente!

Isso me é deveras facilitado pela Thesaurus, minha editora, cujas prateleiras concentram mais de noventa por cento da produção literária brasiliense e adjacente.

Quando o trabalho não me agrada, calo-me. Se gosto, dou um jeito de entrar em contado com o autor e expressar-lhe minha aprovação. No caso de embevecer-me por demais, não me contenho e faço tudo para apregoar isso aos os quatro cantos, como é o caso deste em evidência.

Vocês sabem qual é o melhor chá para o careca? É o chapéu! Para o veado? A chapada! Para a lavadeira? O chafariz! Para o fumante, charuto! Para o inglês, a chávena! Para o gaúcho? A chaleira! Para o caipira? A chácara! Para o ginecófago? A chavasca! Para o gatuno? A chave! Para o estudante? A chamada! Para o meliante? A chapuletada! Para a boazuda? O chanel! Para o fogueteiro? O chabu! Para o showman? A chacrete! Para o terrorista? A chacina! Para o gozador, a chacota! Para o barqueiro? A chalana! Para o hóspede? O chalé! Para o namorado? O chamego! Para o açougueiro? O charque! Para o enigmático? Para o antipático? A chatura! A charada! Para o escritor? O chá de cadeira na sala de espera das editoras!

E foi num desses chás que tive minha atenção voltada para a capa deste livro, exposto nas prateleiras da Thesaurus, pela fisionomia sofrida ostentada pela Duzinda, seu personagem-título. Imediatamente, dirigi-me ao setor competente e comprei um exemplar começando a leitura ali mesmo na espera. O que me foi muito gratificante, compensador.

Ele me fez relembrar o caráter da população pobre brasileira de um passado que vivi, quando os nordestinos desapercebidos, ao receberem donativos dos sulistas ou do governo, o faziam com acara no chão, morrendo de vexame, embora agradecidos pelo socorro. O brio de meus conterrâneos daquele tempo foi bem retratado por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ao declarar, em Vozes da Seca “Mas doutô uma esmola a um homem qui é são/Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

A população de Duzinda é toda constituída de pessoas carentes, sofridas, algumas famélicas, porém sem jamais pensar em entrar na mendicância ou se valer das benesses governamentais, que viciam, fazem o homem perder a vergonha, nessa compra de votos em que se transformaram as inúmeras bolsas ora distribuídas aos desvalidos deste país, sem que vislumbrem um mínimo de dignidade.

Duzinda, já na terceira edição, recebeu versões em Espanhol e Inglês, além de um lançamento em audiolivro, este contido em CD.

Suas contracapa e orelhas dizem muito de seu conteúdo e um tanto de sua autora:

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A seguir, correspondência enviada à Clotilde Chaparro, com minha apreciação sobre seu livro, que recomendo a todos vocês.

Doutora Clotilde,

Peguei seu livro na Thesaurus. Sempre que dou as caras por lá, faço uma garimpada nos títulos de escritores de Brasília, eis que aspirante a plumitivo candango sou, além de viciado no mais gratificante prazer existente no Planeta Terra: a leitura.

Duzinda foi uma boa novidade. Chegando a seu final, ficou-me a vontade de conhecer outros textos da autora, motivo pelo qual a você me dirijo.

Eu gostara de, em algum dia no futuro, escrever assim, simples, sem circunlóquios, direto ao ponto, narrando o cotidiano de pessoas comuns, com tramas que fazem parte de nosso dia a dia, sem surpresas, tudo plausível, com final feliz para poucos, como na vida real.

Os personagens compõem que o universo de Duzinda, a maioria gente trabalhadora, seriam, hoje, fatalmente, clientela dependente do Bolsa-Família, acomodados com a esmola, jamais saindo dali um Vitório que, por seus méritos, progrediu na vida. Sucesso, na atualidade, é ofensa pessoal.

Em regimes onde a população se acostumou a depender das espórtulas dos governantes, como o de Cuba, só há duas espécies de indivíduos, tal qual bem ressaltou a revista Veja, há duas semanas: os dirigentes e os indigentes.

É nisso que querem transformar o Brasil, desvirtuando o caráter da gente trabalhadora brasileira, como era, naqueles Anos 1930, a maioria do povo humilde do bairro do Tatuapé.

Iolanda era uma mulher instigante. Visualizei nela a figura da cantora Emilinha Borba, um de meus ídolos de MPB, que sempre usou uma pinta na bochecha, ora à esquerda, ora à direita, conforme lhe desse na veneta.

Não vou mais tomar seu tempo. Dou-lhe parabéns pelo excelente livro e digo-lhe que quero mais.

Atenciosamente,

Raimundo Floriano
Brasília

P. S. Em meu último livro, tal qual farei nos próximos, fiz questão de apor este recorte na folha de rosto, num alerta àqueles que só veem em nosso trabalho motivos para a crítica negativa:

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O VELHO DO RESTELO

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Leitor compulsivo que sou, ultimamente tenho procurado conhecer trabalhos de autores contemporâneos, preferencialmente moradores no Distrito Federal e Entôrno – com acento, para não pensarem que estou derramando o Distrito -, pessoas facilmente encontráveis em shoppings, salas de espera, feiras, pontos de ônibus, restaurantes, enfim, aonde quer que se vá. Gente da gente!

Isso me é deveras facilitado pela Thesaurus, minha editora, cujas prateleiras concentram mais de noventa por cento da produção literária brasiliense e adjacente.

Quando o produto não me agrada, calo-me. Se gosto, dou um jeito de entrar em contado com o autor e expressar-lhe minha aprovação. No caso de embevecer-me por demais, não me contenho e faço tudo para apregoar isso aos os quatro cantos, como é o caso deste em evidência.

Vocês sabem qual é o melhor chá para o careca? É o chapéu! Para o veado? A chapada! Para a lavadeira? O chafariz! Para o fumante? O charuto! Para o inglês, a chávena! Para o gaúcho? A chaleira! Para o caipira? A chácara! Para o ginecófago? A chavasca! Para o gatuno? A chave! Para o estudante? A chamada! Para o meliante? A chapuletada! Para a boazuda? O chanel! Para o fogueteiro? O chabu! Para o showman? A chacrete! Para o terrorista? A chacina! Para o gozador? A chacota! Para o barqueiro? A chalana! Para o turista? O chalé! Para o namorado? O chamego! Para o açougueiro? O charque! Para o decifrador? A charada! Para o antipático? A chatura! Para o escritor? O chá de cadeira na sala de espera das editoras!

E foi num desses chás que tive minha atenção voltada para a capa deste livro, exposto nas prateleiras da Thesaurus, apenas pela beleza de sua capa. Lendo a contracapa e as orelhas, interessei-me sobremaneira em conhecer o inteiro teor, razão pela qual me dirigi ao setor competente e comprei um exemplar, dando continuidade à leitura ali mesmo na espera.

Aficionado pelas águas, pelos oceanos, pelos rios, por tudo que diz respeito à navegação, mergulhei de ponta-cabeça, indo cada vez mais fundo. Em dois dias, cheguei à última página, num total de 182, completamente fascinado pela história de Camões.

Quem imagina esse grande poeta como intelectual sentado numa mesa e escrevendo sua obra-prima, a mãe da Língua Portuguesa, nem de leve supõe como sua vida foi agitada, recheada de trepidantes episódios. Vejamos um resumo desse arriscoso viver.

Aos 23 anos, alistou-se como soldado e foi mandado para Ceuta, no Marrocos, onde perdeu o olho direito num combate. De volta a Lisboa, foi preso, por ferir a espada um servidor do Rei. Perdoado, partiu para a Índia, onde participou de várias expedições militares. Viajou para a China, para exercer um cargo administrativo em Macau. Retornando à Índia, naufragou na foz do Rio Mekong, conseguindo salvar-se a nado, com parte dos manuscritos de Os Lusíadas. Após algum tempo de ostracismo, foi encontrado em Moçambique pelo historiados Diogo do Couto, que assim o descreveu: “tão pobre, que comia de amigos.” Regressando a Portugal, teve publicado Os Lusíadas, em 1572, por concessão do Rei Dom Sebastião, a quem dedicou o livro.

A Espada de Camões é toda essa saga romanceada, com belas mulheres, partícipes de lances amorosos dignos das mais picantes e imaginosas novelas. A contracapa e as orelhas da obra dizem um pouco de seu conteúdo.

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Terminada a leitura, em me encontrava tão fascinado pelo universo camoniano, que não contive o ímpeto de reler Os Lusíadas, agora com outra visão, bem diferente fase de análise lógica – hoje sintática – de meus tempos de colegial.

Ao saber disso, o português Victor Alegria, dono da Thesaurus, pôs-me em contato telefônico com Jarbas Junior, seu autor, a quem expressei meu desvalido aplauso, merecendo dele emocionados agradecimentos.

O livro narra, basicamente, a vitoriosa jornada de Vasco da Gama, que chefiou uma esquadra portuguesa na primeira viagem marítima da Europa para Índia. As quatro naus, denominadas São Gabriel, comandada por Vasco da Gama; São Rafael, sob o comando de Paulo da Gama, irmão de Vasco; São Miguel, tendo como capitão Gonçalo Nunes; e Bérrio, comandada por Nicolau Coelho, partiram da Praia do Restelo, em 8 de julho de 1497, dobraram o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África – façanha já realizada dez anos antes por Bartolomeu Dias -, em expedição que durou dois anos, chegaram até Calicute, na Índia, onde foram estabelecidas relações comerciais com a Coroa Portuguesa, e retornaram à Foz do Rio Tejo sem perder sequer uma embarcação.

O ridículo dessa aventura é o que aconteceu bem no início, quando os homens embarcavam, fato que ficou para sempre conhecido como O Velho do Restelo, ficando esse personagem estigmatizado como o Arauto da Catástrofe!

A população de Lisboa comparecera em peso à Praia do Restelo para assistir à partida da esquadra, com a saudade e a tristeza estampadas em cada semblante. Os marinheiros caminhavam para o embarque acompanhados por uma procissão solene de religiosos. Mulheres choravam pelos maridos, pais choravam pelos filhos, enfim, todos temiam pela sorte dos entes queridos envolvidos na perigosa aventura. Tal como hoje acontece com os astronautas tripulando foguetes enviados ao espaço sideral.

Movido pela ira, quiçá inveja, um velho que estava na praia entre a multidão, meneou a cabeça três vezes e começou a falar, levantando a voz de tal forma a ser ouvidos pelos que estavam na faina das naus.

Maldizia a glória de mandar, a vã cobiça da vaidade chamada fama, o engano estimulado pelo que se conhece como honra. E falava em castigos, mortes, tormentas, perigos, desastres, crueldade, pecado, ferocidade, guerras com os mouros e acenando com o eterno castigo do Inferno. Vide, hoje, a Presidenta e o Senador Candidato apavorados diante da meteórica ascensão da Boia-Fria nas pesquisas eleitorais.

Era, na linguagem do povão, um autêntico boca de azar!

Enquanto o velho vociferava suas blasfêmias, os navegantes abriram as velas ao vento tranquilo e partiram rumo ao que seria mais um memorável feito da Pátria Lusitana!

JOSÉ ALBUQUERQUE, O CARIOQUINHA DAS MENINAS

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José Albuquerque e Silva, o Carioquinha das Meninas, meu irmão, nasceu em Balsas (MA), no dia 8 de junho de 1928. Filho de Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, era o quarto de uma prole de dez, da qual sou o sétimo. Coincidentemente, seu aniversário caía no dia de outro irmão, o Afonso, nascido em 1933. Esta é a foto mais antiga que temos dele, em 1928, no colo do velho Rosa:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro, Maria Isaura e Maria Alice

Sempre que lhe perguntavam por que a alcunha de Zé Carioca, se nascido no sertão maranhense, ele dizia que fizera um curso de carioca por correspondência. Mas a explicação é bem outra. No ano de 1942, o americano Walt Disney, dentro da Política de Boa Vizinhança, criou o personagem Zé Carioca, no filme Alô, Amigos, que se encaixou como uma luva no José, dono de olhos meio esverdeados e, naquele tempo, já fazendo suas papagaiadas, como enfiar a cabeça numa lata de querosene vazia, para ampliar a voz ao cantar. Assim, Zé Carioca passou ele a se chamar.

Neste flagrante, vemos nossa família em 1938, com José aos 10 anos, e eu de cabelos cacheados:

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Maria Alice, Maria Isaura, Magnólia, prima, e Pedro; Bergonsil, Afonso, Maria Bezerra, Maria Iris, Rosa Ribeiro, Raimundo Floriano e José

José fez o Curso Primário em Balsas, após o que, como todos os que queriam conquistar o futuro, embarcou numa balsa rumo ao saber, primeiramente em Floriano, depois em Teresina. Era de Balsas para Mundo.

Concluído o Ginásio, conseguiu emprego na Companhia de Fiação e Tecidos União Caxiense S/A. Trabalhava durante o dia e, à noite, preparava-se para o dificílimo concurso para o Banco do Brasil, o melhor emprego do país na época. Aprovado, foi admitido nos quadros do Banco no início de 1948, tomando posse em Teresina.

Sendo o que maior remuneração recebia em toda a família, transformou-se, desde então, em fonte segura na ajuda aos que a ale recorriam, parentes ou amigos.

Na data de hoje, 5 de setembro, quando elaboro este perfil, comemora-se o Dia do Irmão. Nada mais apropriado, pois, para que eu lhe renda um preito de gratidão pelo que representou em minha vida, não só nestes últimos 54 anos aqui em Brasília, em que nos apoiamos e socorremos mutuamente, mas também por dois benefícios marcantes com que me agraciou, decisivos para meu sucesso profissional, pelos quais constantemente lhe agradecia e deixo aqui patenteados: o primeiro, ao custear meus estudos, no Ginásio e no Científico, inclusive em colégio interno; o segundo, ao cortar por completo qualquer ajuda financeira, quando percebeu que eu não queria nada com a dureza.

José trabalhou em Teresina até 1951 quando, desejando residir à beira-mar e também procurando integrar-se ao meio artístico nordestino predominante no eixo Paraíba-Pernambuco, pediu transferência para João Pessoa.

Na Capital Paraibana e no Recife, cidades-gêmeas, conviveu com grandes estrelas nordestinas como Nélson Ferreira, Capiba, Claudionor Germano, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Severino Araújo, Marinês e outros, bem como com os que vinham de fora, em temporadas artísticas. Nos flagrantes abaixo, vemo-lo, todo enfatiotado, em companhia de Carmélia Alves, Abel Ferreira, Ary Barroso e pessoal da Orquestra Tabajara:

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Dono de potente e educada voz, José tocava gaita de boca e violão, o que o deixava à vontade na convivência com o pessoal envolvido no meio artístico:

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Também era muito enfronhado no esporte, especialmente no futebol, atuando como goleiro em times da AABB:

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Com todos os pré-requisitos – jovem, solteiro, desportista, músico, alto salário -, José era excelente partido para as moças casadoiras de então, aprovado por 10 entre 10 pais de família da região. Por isso, teve muitas namoradas, namoro inocente, como do costume, de apenas pegar na mão, dançar colado, e pronto. Beijo? Só depois de casar. Algumas de suas namoradas, que mudaram sua alcunha apenas para Carioquinha, deixaram-lhe estas lembranças:

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Embora grande romântico, namorador, seresteiro e paquerador, Carioquinha vangloriava-se como vacinado contra o casamento, chegando a compor marchinhas carnavalescas nas quais proclamava que jamais cairia no laço.

Em 1960, com dois de nossos irmãos já morando em Brasília – Afonso, desde 1957, e Maria Isaura, desde 1958 -, Carioquinha transferiu-se para cá, logo após a inauguração, tendo eu chegado em dezembro daquele ano. Em 1961, veio a Maria dos Mares que, nos Anos 1970, se mudou para o Estado da Paraíba, onde mora até hoje.

Foi um período em que a vida noturna de Brasília, para os rapazes solteiros, era intensa nos arredores, com muitas boates lotadas de meninas cortesãs, que preenchiam a vidas dos mancebos solitários da Capital Federal. Por ser frequentador assíduo daquela dolce-vita, José passou a ser conhecido como o Carioquinha das Meninas, pseudônimo que adotou para sempre. Por ficarem os principais cabarés na região denominada por Sete Quedas, nos arredores de Luziânia, ficou também conhecido como Embaixador Sete Quedas.

José foi o primeiro em nossa família a possuir automóvel zerado, um DKW-Vemag Belcar, sedã, verde-escuro, capota creme, que passou a servir de transporte de luxo para todos nós.

Seu currículo escolar estendeu-se até a conclusão do Ginásio. Desde então, passou a instruir-se como autodidata, adquirindo saber enciclopédico, notadamente no campo da Biologia, Filosofia, Esoterismo, Fisioterapia, Literatura, Ciências Sociais, Astrologia, Astronomia e Espiritualismo. Versado em Inglês, Espanhol, Latim e Francês, era bamba na Língua Portuguesa e atualizadíssimo com o Novo Acordo Ortográfico, sendo um dos revisores de dois de meus livros, o primeiro, Do Jumento ao Parlamento, e o último, Memorial Balsense, já na gráfica.

Ele foi nosso guru, nosso doutor, nosso consultor, e nos orientava em qualquer tipo de problema, mormente os de saúde, às vezes até prescrevendo o medicamento correto.

Além de mestre no cordel sarcástico, era humorista e dotado de incrível capacidade de construir frases de efeito. É dele esta, quando avaliava o comportamento de certa dama: “É direita, só entorta quando se deita”. Sabia desmontar, no ato, argumentos que lhe pareciam descabidos. Como no lance que passo a lhes contar.

No comecinho de Brasília, quando acontecia uma batida de carro – não falo em acidente, mas simples encostada -, acorriam ao local a televisão, os jornais, a perícia, o escambau. Uma dessas aconteceu com um sobrinho nosso adolescente, amassada besta, hoje resolvida pelos “martelinhos” de qualquer oficina, tendo ocasionado a presença de grande parte de nossa família e de toda a mídia brasiliense. Um coroa baixinho, ao ver nosso sobrinho com cara de criança, foi logo condenando: – É nisso que dá um menino desses dirigindo na rua!

Ao ouvi-lo, o José rebateu: – Você está enganado! Menino, não! Ele é maior de idade e tem Carteira de Motorista!

Não contente, o coroa retrucou: – Ainda bem que isso aconteceu, porque eu estava mesmo sem assunto para publicar amanhã em meu jornal.

Aí, funcionou a ferina verve do Carioquinha das Meninas. Encarando o jornalista coroa, falou-lhe: – Pois quando você estiver sem assunto, reúna um bando de garotos, leve-os para o cerrado, dê para todos eles e, no dia seguinte, publique esta manchete: VELHO SAFADO DANDO O C* NO MEIO DO MATO!

Durante muito tempo, manteve-se por aqui o reinado do Carioquinha das Meninas, solteirão cobiçado, autovacinado contra a instituição matrimonial.

Mas um dia ele mesmo decretou o fim dessa vida de folgazão, ao apaixonar-se por uma colega de trabalho do Banco, a bela capixaba Lúcia Maria Garcia Frias, com quem se casou no dia 26 de setembro de 1970, na Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima. O casal teve três filhos: Lara Maria, Ima Aurora e Alden Garcia.

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José e Lúcia

Esse casamento durou até o início da Década de 1980, quando lhe adveio o divórcio, voltando o José a ser novamente o Carioquinha das Meninas e solteiro juramentado.

Sua atenção voltou-se totalmente para a Música, a Poesia, as Artes Manuais, o Espiritualismo e a Beneficência. Sem grandes ambições, gostava de proclamar que, enquanto pudesse andar com um carro velho pelas ruas e comer carne todos os dias, o Mundo estaria bom para ele.

Montou em sua garagem uma oficina profissional de serralheria – em que se especializou – e de conserto de bicicleta, atendendo a quem o procurasse, com um detalhe: nada cobrava! Não há morador nas redondezas de sua quadra, a 714 Sul, hoje na idade dos 30, que não teve uma bicicleta arrumada por ele.

Apaixonava-se facilmente, o que lhe inspirava montões de poemas, porém a “vacina” não deixava os romances prosperarem.

Formou, com amigos violonistas, trupes que se apresentavam nas noites candangas, notadamente em festas beneficentes, Embaixadas e domingueiras na AABB, dentre eles o Alencar Sete Cordas, o Alberto Vasconcelos e o Expedito Dantas, seu parceiro mais constante.

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Carioquinha, Expedito e Alencar – Expedito, Carioquinha, Alberto e Raimundo Moura

Em meados da Década de 1990, o Carioquinha das Meninas, solteirão inveterado, quase depôs as armas ao inebriar-se por mimosa goiana, com quem vivenciou paixão adulta e avassaladora, que, embora efêmera, lhe rendeu alentada produção de românticas poesias. Ei-lo com sua Musa Inspiradora, Sonhado Sonho, no Réveillon 1994/1995:

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Ao completar 80 anos, gravou, em dupla com o Expedito, este CD:

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Capa do CD – Expedito e Carioquinha no Estúdio

Desde 1960, quando nos reunimos em Brasília, José sempre foi para mim mais que um irmão, ajudando-me nas dificuldades, orientando-me nas atribulações, participando de todos os momentos, tristes ou, a mais das vezes, alegres de minha vida: meu primeiro filho tem seu nome, sou padrinho de sua primeira filha, e minha caçula é sua afilhada.

José, talvez incorporando o Zé Carioca americano, sempre gostou de exibir-se e de fazer suas mungangas, como adiante se vê:

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De uns poucos anos para cá, ele andava um tanto depressivo, cabisbaixo, silente, preocupando a todos nós, parentes e amigos, que não lhe compreendíamos esse comportamento. Na certa, ele, lá nos esconsos de seu coração, percebia, sem contar para ninguém, que the end was near, como fala a canção My Way, uma de suas preferidas.

No dia 15 de julho, ele partiu. Na véspera, deitou-se para dormir, na hora costumeira, e amanheceu sem vida. Saiu do palco do jeito que sempre pediu em seus trabalhos espiritualistas e, além disso, fazendo piada: a todos os amigos que comunico seu falecimento, tenho que escutar esta, em tom amenizador de nossa tristeza: – Quando acordou, tava morto!

Dos cinco irmãos que éramos aqui em Brasília, agora só resta apenas eu para contar a história de todos nós. É a vida nos levando, como diz o samba do Zeca Pagodinho. Em sua Missa do Sétimo Dia, a Missa da Redenção, escolhi esta foto, bem representativa do que ele foi, para distribuir com os que à solenidade compareceram:

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Como lembrança auditiva de seu trabalho, escolhi estas três faixas, extraídas do CD que nos deixou, ao tornar-se octogenário:

Piscina, guarânia de Chrystian e Ralf,

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A Media Luz, tango de Carlos Cesar Lenzi e Edgardo Donato;

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e Índia, guarânia de M. Ortiz Guerrero, J. Assunción Flores e José Fortuna.

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A ECT E EU: ENTRE BEIJOS E TAPAS

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Homenagem à FEB e ao 5º Exército Americano

Meu relacionamento com o DCT – Departamento de Correios e Telégrafos, depois renomeado ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, começou em 1945, quando eu tinha 9 anos, ao dar início a minha coleção de selos, a partir dos que se veem acima, que quase todo menino brasileiro possuía, vez que refletiam o sentimento patriótico que vivíamos, com nossos pracinhas lutando na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Decorridos quase 70 anos, parece-me que sou o único, dentre os conhecidos de meu tempo, a continuar com essa diversão, trazendo minha coleção de selos comemorativos brasileiros atualizada semestralmente, cujo acervo contabiliza desde o primeiro, lançado no início de 1900, em homenagem ao 4º Centenário do Descobrimento do Brasil, até as emissões atuais.

No ano de 1974, essa coleção ganhou o Prêmio Olho de Boi, ao concorrer, sob a representação de meu sobrinho Luís Fernando da Costa e Silva, por se tratar de certame dirigido aos adolescentes. Aí estão imagens da medalha:

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Frente e verso da Medalha do Prêmio Olho de Boi

Encerrada a exposição, partes dessa coleção, que mereceu o prêmio levando-se em conta sua apresentação, foram emprestadas à ECT que, durante 6 meses, a exibiu a filatelistas nos Estados Brasileiros e no Exterior.

Pela proximidade de onde moro, e pela facilidade de estacionamento, escolhi a Agência da 508 Sul para realizar as diversas operações envolvidas em lançamentos de livros, envio de convites e objetos diversos, e também a emissão de selos personalizados. Como estes:

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De tanto andar por lá, fiz amizade com todos os funcionários, e, a pedido deles, compus um cordelzinho, Louvação à ECT da 508 Sul, publicado aqui no JBF, como correspondência, no dia 22.12.2012.

No ano passado, fui presenteado pela Dorinea, gerente da agência, com esta folha de selos, comemorativa dos 350 Anos da ECT:

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Chamou-me a atenção, dentre todos, este selo, por referir-se a um Centro de Serviço Pneumático, do qual eu nunca ouvira falar, por isso não sabia do que se tratava:

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A folha veio acompanhada de um edital bilíngue, com informações sobre o lançamento, mas sem descer a detalhes sobre cada selo:

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Como bom filatelista, procurei tirar minha dúvida, primeiramente no Google, onde nada encontrei, e, depois, na própria ECT, a quem fiz uma consulta, recebendo esta resposta:

“No dia 5 de outubro de 1910, com uma carta do Diretor dos Telégrafos, Francisco Sá, do Edifício dos Telégrafos, no antigo Paço Imperial, ao Presidente da República Nilo Peçanha, no Palácio do Catete, era inaugurado, extraoficialmente, no Rio de Janeiro, o Serviço Pneumático, a cargo da Repartição-Geral dos Telégrafos. O sistema consistia de máquinas compressoras de ar e câmaras de vácuo, impulsionando ou sugando a correspondência, 20 a 30 cartas de cada vez, colocadas dentro de cursores – “balas” ou êmbolos em forma de projéteis, nos tubos de aço subterrâneos, de aproximadamente 70 mm de diâmetro, em velocidade de até 50 km/h, da origem ao destino.

“Criado pela Portaria nº 1.386, de 10 de novembro 1910, o nosso correio pneumático passou a fazer remessa expressa de cartas padronizadas e telegramas urbanos entre várias estações postais telegráficas da antiga Capital Federal. A rede subterrânea de tubos pneumáticos expandiu-se rapidamente pelo subsolo do Centro do Rio de Janeiro, a partir da Estação-Tronco, na Av. Rio Branco, possibilitando a troca de correspondências pneumáticas por duas linhas de tubos, entre a Estação Central da Praça XV, o Banco do Brasil, todos os ministérios, a Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, e vários bairros, como o Catete, Botafogo e Andaraí. As estações ou agências para a postagem de cartas pneumáticas chegaram a ser as seguintes: Largo do Machado, Lapa, Praça XV, Av. Rio Branco, Correio Central, Estação D. Pedro II, Estácio de Sá e São Cristóvão.”

Essa gentil e minuciosa explicação, veio acompanha desta imagem, para que se tenha uma ideia visual do que era o Serviço Pneumático:

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Isso funcionou muito a contento no Brasil durante algum tempo, até que a tecnologia bolasse outros métodos mais eficientes e modernos. Mas reparem bem, se fosse num país recém-criado, um tal de Banânia, até os tubos seriam surrupiados, como, no passado, os índios faziam com os fios telegráficos.

Agora, que deixei bem claro minha relação amorosa com a ECT, vou, depois dessa assoprada amiga, dar minha mordida. Vinha cuidando dos beijos, passando, doravante, a falar dos tapas – de um, pelo menos.

A demora na entrega de correspondência pela ECT é motivo de críticas, às vezes injustas, outras merecidamente, o que faz a festa dos chargistas:

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Desde que comecei a transacionar com a Agência da 508 Sul, calculo já ter postado ali, entre livros, convites, cartas e outros itens, mais de 10 mil objetos. Inteiramente satisfeito com os serviços prestados, é natural que, em algum momento, “de tanto o jarro ir à fonte”, acabe se quebrando. Foi o que ocorreu em 2010.

No dia 9 de agosto, enviei para meu sobrinho Cazuza Ribeiro, médico, o convite para o lançamento de meu livro De Balsas para o Mundo, conforme se vê no envelope carimbado abaixo. O consultório dele ficava na 716 Sul, quilômetro e meio da Quadra onde moro, a 215 Sul.

O tempo passou. Nem o Cazuza foi ao lançamento, pois dele não soube, nem o convite jamais chegou lá. Ficou zanzando por aí, dormiu em alguma gaveta e, em 2013, recebeu outra carimbada. Nova demora, e a informação “mudou-se”, esta sem data. Finalmente, no dia 21.02.2014, dois anos e seis meses depois de postada, a correspondência foi devolvida na portaria do Bloco onde resido.

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Preciso dizer mais?

É bonito isso?

ÚLTIMOS AFAGOS

O primeiro selo postal editado no mundo foi o Penny Black, na Inglaterra, em 1840. O Brasil foi o segundo país a editá-los, lançando, a 1º de agosto de 1843, o famoso Olho de Boi, com os valores de 30, 60 e 90 réis.

No dia 1º de agosto deste ano, em comemoração ao Dia do Selo Postal, uma equipe da TV Brasil, por indicação do Guichê Filatélico da ECT, compareceu aqui a meu apartamento, para fazer matéria sobre selos personalizados. O resultado é que vocês verão clicando aqui.

BARBOSINHA, UM AMANTE DA BOA MÚSICA

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Cesário Barbosa Bonfim, o Barbosinha, filho de Jonas Ferreira Bonfim e Maria Aracy Barbosa Bonfim, nasceu em Independência (CE), no dia 5.5.1934.

Em janeiro de 1944, quando eu estava com 7 anos e meio, a Família Bonfim mudou-se para Balsas, trazendo o Barbosinha, filho mais velho, e duas lindas meninas, a do meio, Leonor, e a mais novinha, Maria Núbia, regulando minha idade, pela qual, à primeira vista, fiquei perdidamente apaixonado, demonstrando meu amor com beliscões, tapas e puxões de cabelo. Esse romance unilateral durou só até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando ficamos para sempre intrigados.

Em Balsas, Barbosinha estudou no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo, concluindo o Primário em dezembro de 1947, após o que embarcou numa balsa, rumo a Floriano, para cursar o Ginásio, daí partindo para outras plagas até formar-se em Direito e conquistar, mediante aprovação em concurso público, o cobiçado cargo de Fiscal de Tributos do Estado de Goiás e do Tocantins. De Balsas para o Mundo, como soía acontecer com todo garoto pobre que desejasse progredir na vida.

Arguto obeservador, de tanto viajar nas balsas, escreveu bela crônica sobre essa rústica embarcação, da qual me vali, com sua autorização, para ilustrar meu texto sobre a navegação fluvial de Balsas para o Oceano Atlântico.

Em Balsas, Seu Jonas exerceu as atividades de Promotor de Justiça e Agente da Companhia Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul.

A Agência da Cruzeiro foi um dos locais mais paquerados da cidade naquele tempo. Era onde se compravam passagens, e onde se despachavam as bagagens a embarcar e se recebiam as encomendas que chegavam, além dos carretéis com os filmes a serem exibidos no Cine Santo Antônio, a cargo do projecionista Zé Farias. Diante da algazarra que os curiosos e desocupados faziam, Seu Jonas não teve outro jeito senão afixar estas duas placas na parede atrás de seu birô:

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Os Bonfim eram grandes consumidores de palmas, roscas, cacetes, brevidades e biscoitos que Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãezinha, fazia e me mandava vender na rua, deixando-me na maior saia-justa quando chegava na casa daquela família, morrendo de vergonha das duas meninas.

Em meados do século passado, surgiu riquíssimo Eldorado na região norte-goiana, hoje norte-tocantina, com terras devolutas, água farta, chovendo no tempo certo, atraindo nordestinos da periferia, que para ali acorreram na busca de vida melhor para si e suas famílias. Assim, em 1952, Seu Jonas e Dona Aracy mudaram-se em definitivo para Itacajá, onde ele assumiu o cargo de Administrador do Serviço de Proteção aos Índios – SPI, atual FUNAI.

Enquanto as meninas permaneceram em Balsas, para darem continuidade aos estudos, Barbosinha pontificava por aí, alhures e algures, na busca da conquista de seu espaço no mercado de trabalho.

Em 1956, ele foi visitar os pais em Itacajá, pretendendo ficar poucos dias, o que não conseguiu. Ali, enraizou-se e constituiu família, casando-se, em 25.7.1962, com a itacajaense Dulce Soares Bonfim, com quem teve os filhos Jonas, Sandra, Cláudia, Flávio, Stella e Cesário.

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Barbosinha e Dulce

Nas horas vagas, atuava como locutor da amplificadora Voz do Sertão, difundindo a Música Popular Brasileira em algo grau, pois os sons de seus alto-falantes alcançavam todos os recantos da cidade. De sua cabeça, saiu o nome do futuro município de Itapiratins, combinação de Ita, primeira sílaba de Itacajá, e piratins, parte final de Tupiratins, cidade vizinha.

Sua cartada genial veio em 1968, quando ele, Coletor Estadual, e João Pinheiro, Fiscal Arrecadador do Estado, juntamente com próceres da cidade, fundaram o Ginásio Progresso de Itacajá – GPI, possibilitando aos filhos daqueles colonos o estudo sem terem de buscá-lo em outros centros mais adiantados. Iniciado o primeiro ano letivo, Barbosinha tornou-se professor de História e OSPB.

Mas não parou aí a devoção de Barbosinha por Itacajá. Em 2011, ele a homenageou com este preciosíssimo documento:

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O livro conta a história de Itacajá, desde o início do povoamento, por volta de 1900, com nomes dos primeiros moradores, passando pela emancipação administrativa municipal, em novembro de 1953, e instalação em janeiro de 1954, consignando os nomes de todos os prefeitos desde então, e das primeiras-damas, com suas principais realizações. A importância desse trabalho é tamanha, que foi logo consagrado pela juventude da cidade, como demonstra a foto abaixo:

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Pelo conjunto da obra, a Câmara Municipal de Itacajá deveria já ter outorgado ao Barbosinha o título de Cidadão Itacajaense. Se ainda não o fez, viajou na maionese!

Minha amizade com o Barbosinha perdura desde sempre. Começou em Balsas, quando ainda éramos crianças, continuou em Floriano, ao cursarmos o Ginásio, notadamente no ano de 1949, nas férias de julho, ao viajarmos para Balsas, ele, meus primos Pedro Ivo e João Ribeiro e eu, na carroceria do caminhão do Pedro Duarte – dois dias de poeira -, e fortificou-se mais ainda, tempos depois, com o casamento do Pedro Ivo com sua irmã Leonor. Fraternos laços de família.

Baseado nesses laços, ele me enviou, em agosto de 2012, uma solicitação deveras instigante. Sabedor que detenho um acervo fonográfico superior a 100 mil títulos, pediu-me que gravasse para ele a trilha sonora dos principais momentos de sua vida, 296 peças, com esta justificativa:

“Desde muito cedo na vida, passei a apreciar a boa música, em todas as suas modalidades, variantes e formas. Creio que isso teve início, com as canções maternas que me embalaram nos primeiros sonos. Mais tarde, com as mudanças de idade e gostos, fui sentindo que cada etapa, se fazia acompanhar por uma trilha musical, sempre presente, nos devaneios e fantasias, como expressão máxima de meus sentimentos, embelezando cada momento de minha maneira de ser e de viver.

“Senti, desde que tomei conhecimento de alguma das melhores coisas da vida, que, a determinadas pessoas, a natureza concedeu dons especiais, justificando-se, dessa forma, a existência dos artistas, músicos, poetas, escritores, compositores e intérpretes, capazes de levar, aos demais viventes menos dotados, a beleza de suas artes e, especialmente, dos sons que, associados à poesia das letras, envolvem a nós outros, apreciadores, conduzindo-nos à importante tarefa de aplaudi-los e transformá-los meritoriamente em nossos ídolos. Foi assim que nasceu a figura do “fã”, provavelmente derivada da palavra fanático.

“São grupos distintos, porém integrados entre si. Um depende do outro. Que seria do artista se não tivesse ninguém que apreciasse o que faz? Roberto Carlos resume isso numa estrofe, quando se apresenta ao seu público: ‘Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo’. Esse momento é dividido com todos aqueles que gostam dele e de sua música.

“Nisso tudo, o peso de nosso valor de ouvinte é incomensurável, pois somos uma imensa maioria e, sem o nosso apoio e aplauso, não tinha significado a existência dos artistas. Quem não gostaria de ser privilegiado com um desses dons que parecem até divinos? Contudo, satisfazemo-nos em aplaudir quem os possui, fazendo de seus sucessos o nosso próprio sucesso, levitando às suas sombras. Talvez seja por isso, que Ruy Barbosa tenha dito, como uma grande vantagem: ‘Não canto nem pinto, mas revejo e recordo’.

“Pertenço a esse imenso grupo. E foi justamente pensando assim que resolvi juntar minhas preferências musicais, através dos tempos, sem contar com os clássicos que, por falta de audiência, apenas aprecio aqueles mais divulgados e popularizados. Minha trilha musical, como creio que cada apreciador de música deve ter a sua, é essa que segue e que constantemente gosto de ouvir, para sentir-me vivo.

“Foi assim que selecionei as mais queridas, convertidas no que chamo de trilha musical, inserida nas diversas fases de minha vida, ocorridas, no Ceará, Maranhão, Piauí, Goiás e Tocantins, locais por onde passei, nas andanças da vida. E, como na vida tudo também passa com rapidez incrível, só as boas recordações ficam, e a música é uma delas, por estar geralmente associada a esses bons e inesquecíveis momentos.”

A Trilha Musical do Barbosinha, como ele bem frisou, contempla todas as localidades por onde passou, amarrando os períodos em que ali viveu, constituindo-se na história de sua vida: Independência (CE), 1939/1943; Balsas (MA), 1944/1947; Floriano (PI), 1948/1951; Fortaleza (CE), 1952/1954; Kraolândia (GO), 1956/1961; Apinagés (GO) 1962/1965; Itacajá (GO-TO), 1966/1972; Luziânia, 1973/1976; Goiânia (GO), 1977/1991; Palmas (TO), 1993/2004; e Velhos Carnavais.

Na lista, veio o samba Balsas Cidade Sorriso, de 1946, composição de Martinho Mendes e Caixeiro Viajante Desconhecido, do qual eu só possuía a letra e a partitura. Não querendo faltar com o amigo, mesmo que fosse em um só item, contratei um estúdio aqui de Brasília e concretizei a gravação. Depois de tudo providenciado, salvei as 296 faixas num pen-drive e o remeti para ele, o que foi muito de seu agrado.

Barbosinha, aos 80 anos, completados em maio passado, era um cara atualizado, por dentro, atuante, em dia com a tecnologia, com perfil no Facebook, na qual fazia postagens quase que diárias.

Além disso, era meu leitor fiel, adquirindo todos os livros que escrevi, bem como curtindo e elogiando as matérias por mim postadas semanalmente em minha coluna aqui no Jornal da Besta Fubana.

O Destino, em suas deliberações, é implacável: no dia 20 de julho passado, em Goiânia, uma embolia pulmonar fulminante levou o Barbosinha para o Plano Superior.

Para marcar musicalmente esta saudosa homenagem, escolhi duas faixas de seu pedido:

Adeus, foxe de Roberto Martins e Mário Rossi, na voz de Gilberto Alves, em 1941;

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e Balsas, Cidade Sorriso, cujos créditos se encontram neste Youtube:

MEU FILHO GANHOU UM CACHORRO. E AGORA?

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Sou leitor compulsivo. No ano de 2013, devorei 95 peças. Neste 2014, mesmo com o pé na freio, já estou na quadragésima primeira!

Ultimamente, tenho procurado conhecer trabalhos de autores contemporâneos, preferencialmente moradores no Distrito Federal e Entôrno – com acento, para não pensarem que estou derramando o Distrito -, pessoas facilmente encontráveis em shoppings, salas de espera, feiras, pontos de ônibus, restaurantes, enfim, aonde quer que se vá. Gente da gente!

Isso me é deveras facilitado pela Thesaurus, minha editora, cujas prateleiras concentram mais de noventa por cento da produção literária brasiliense e adjacente.

Quando o trabalho não me agrada, calo-me. Se gosto, dou um jeito de entrar em contado com o autor e expressar-lhe minha aprovação. No caso de embevecer-me por demais, não me contenho e faço tudo para apregoar isso aos os quatro cantos, como é o caso deste em evidência, a cujo lançamento compareci, acompanhado da Veroni, minha mulher.

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Raimundo, Cristina e Veroni

Para não derrapar na digitação, aqui exibo a contracapa e as duas orelhas:

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Satisfazendo o desejo do compartilhamento de minha satisfação com todos vocês, nada melhor do que me valer desta excepcional vitrine, o Jornal da Besta Fubana, maior movimento cultural brasileiro na atualidade, o que agora farei, tal qual meus fieis leitores, neste frio inverno, verão.

Em seu primeiro livro, Cristina Umpierre já vem arrebentando! Direta ao ponto, sem rebuscamento nem introspecção, dá o recado, diverte e instrui. Livre de consulta a dicionário, 103 páginas, li-o de uma lapada só. Além de ver nele qualidade no conteúdo, admirei sua correção gramatical. Num ponto, até temos algo em comum: evitar o uso de artigo definido antes de possessivos, a não ser para dar clareza ao enunciado.

Escrever é uma coceira. Quando começamos, não mais podemos parar. Em 2003, aos 67 de idade, lancei meu primeiro livro. Desde então, tomei gosto pela coisa e já estou no sexto, em fase de acabamento lá na Thesaurus. Mire-se Cristina em mim e mande brasa!

Porque ela tem talento, imaginação, bom humor, tudo, enfim, para conquistar o sucesso no mundo das letras.

Quando falo que seu livro instrui, refiro-me a meu caso pessoal, que passei, após sua leitura, a respeitar os cachorros e compreender seus donos. Pelo menos, tenho esse propósito, haja vista que, até agora, tinha – não sei se acabou mesmo – verdadeiro pavor de cachorro. Mais do que de alma do outro mundo ou de cobra cascavel. Quando chego à residência de alguém que o possui, vou logo cantando este refrão da axé-music: Segure o cão, amarre o cão, segure o cão, cão, cão, cão, cão!

Isso porque, aos 13 anos, fui mordido de cachorro, motivo que me fez proibir a entrada deles aqui em casa. Felizmente, minhas filhas nunca o desejaram. Doravante, com esse novo aprendizado, serei tolerante para com algum neto que, porventura, chegue aqui do colégio premiado com um exemplar.

Minha caçula, bióloga, possui uma tartaruga. Há dez anos, quando a ganhou, o bicho não passava de um palmo. Hoje, deve medir palmo e meio. Gosta de dormir enrolada nos fios do computador e periféricos, fazendo-nos supor que adora levar choque. É um tartarugo, macho. Durante o dia, fica na cozinha, apoiado no pé da empregada, se relando, denotando nisso algum apelo sexual. Esse tartarugo é uma compensação, uma transigência, em vista de meu veto a gatos, cachorros e assemelhados.

Curiosidade: por que é que os cachorros só andam de boca aberta? Não acho quem me explique esse fenômeno. A dupla Alvarenga e Ranchinho dizia que é para equilibrar o rabo. Sei não!

Para outras dúvidas, já consegui explicação nestes meus 78 anos de labuta. Por que é que o cachorro entra na igreja? Porque acha a porta aberta! Por que o cachorro sai da igreja? Porque entrou! Por que o cachorro corre atrás de automóveis e até de trens de ferro? Porque sua visão minimiza tudo o que enxerga, transformando o avistado numa escala menor que seu próprio tamanho! Assim falou Chico Fogió, meu Assessor em Assuntos Piauizeiros!

A autora refere-se à famosa “cheirada”! Isso não poderia faltar! É fenômeno internacional e até interplanetário. Não há cachorro no mundo, de qualquer raça, que, ao encontrar-se com outro, não lhe dê uma cheirada “naquele lugar”, e vice-versa. Conheço duas explicações.

A primeira: houve uma festa no céu para todos os cachorros do mundo. Na entrada, São Pedro, temendo a bagunça, determinou que eles retirassem os fiofós e os deixassem depositados na Portaria, para pegá-los ao término da função. Aconteceu que, de repente, surgiu uma briga entre a cachorrada, e todos debandaram em disparada, afobados, pegando qualquer fiofó na saída. Passado o susto, cada qual está até hoje conferindo para saber se o companheiro recém-avistado é o portador de sua peça anatômica trocada na festa.

A segunda: no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, houve uma desgraceira. Algum deles, às escondidas, comeu um dos laços linguiçais, de forma que, à noite, na hora da amarração, deu-se por falta da peça devorada pelo ladrão. Para descobrir o infrator e puni-lo, o Rei dos Cachorros determinou que todos os súditos cheirassem mutuamente o sub-rabo, costume que se mantém até hoje. E nada de identificar o guloso meliante!

Por que o cachorro, ao fazer xixi, levanta a perna? Porque, no início do Mundo, um cachorro foi mijar numa parede, que caiu por cima dele. Por precaução, eles agora seguram o apoio, antes da micção, seja parede, árvore, poste, carro, etc.

Na metade do livro, a autora narra a frustrada tentativa de acasalamento do vira-lata Bigu, herói da história, com uma cadela de sua laia, pertencente a um vizinho, a qual o rejeitou. Fiquei com peninha dele nesse malfadado lance, que só malogrou devido à fêmea não se encontrar no período propício à luxúria. Porque cachorra no cio dá até para bicicleta, velocípede e cano do tanque de lavar roupas.

No livro A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, há um episódio muito engraçado, faceto, hilariante, envolvendo um cachorro supostamente no cio. Vinha a mãe da Secretaria do Corregedor caminhando calmamente pela rua, quando foi assediada voluptuosamente por um cachorrão, que a enlaçou pela cintura, segurando-a com firmeza, e transou com suas pernas. No dizer popular, botou-lhe nas coxas!

Que a escritora Cristina Umpierre, assim como vocês, meus leitores, me desculpem o atrevimento e as saliências brincalhonas. O que eu quero dizer mesmo é que seu livro é Nota Dez, gostei muito dele, pois lúdico, inteligente, didático e educativo, merecendo a adoção nas escolas infantojuvenis, para a formação cívica de nossos estudantes.

À autora, meus parabéns! Que prossiga em sua trilha criativa, o que só engrandecerá a Literatura Brasileira!

 

SUASSUNA, TEJO E O ORDÁLIO DAS MÃOS POSTAS

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Ordálio, como todos vocês tão cansos de saber, era prova judiciária sem combate, usada na Idade Média. No cenário nordestino, sertanejo, cordelista e armorial, constitui-se em debate de ideias entre atores envolvidos com a criação literária.

No começo da Década de 1980, eu pertencia a um grupinho em que os ordálios aconteciam diariamente, no Salão do Café da Câmara dos Deputados, antes do início do expediente matinal.

Havia Maurício Melo Junior, iniciando-se nas letras, que viria mais tarde a ser o escritor mais prolífero da Editora Bagaço, inclusive com o vigoroso Paranã-puca, e o Berço da Pátria; Celestino Alves, cordelista, com sua alentada denúncia O Nordeste e as Secas; Manoel Damasceno, jornalista, autor de O Jerimum de Chico Melão; Esmeraldo Braga, com Danação em Terra Quente; Orlando Tejo, parceiro de Esmeraldo Braga em A Hora e a Vez do Jumento, e Luiz Berto, contando com o recém-lançado A Prisão de São Benedito.

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Éramos sete, todos nordestinos, todos dando os primeiros passos nessa coceira que é a arte de escrever, menos Orlando Tejo, Gigante de nossa Literatura, já consagrado em seu brilhante Zé Limeira, Poeta do Absurdo. Tejo era nosso guru, ali perto, ao vivo, extasiando-nos com suas histórias, seus versos, suas invenções, enquanto enchia ou pitava seu inseparável cachimbo. Eu pertencia ao grupo mais como ouvinte atento e extasiado, embora já contasse também com um folhetinho, normativo, lançado em 1977, Regras de Pontuação e Sinais de Revisão.

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Respirávamos o realismo fantástico por todos os poros. Gabriel García Marquez acabara de ganhar, em 1982, o Nobel de Literatura, e esse galardão teve o mérito de trazer à baila duas obras-primas mundiais do gênero que se encontravam um tanto esquecidas: Cem Anos de Solidão, de Gabriel, e O Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Altamente influenciado por esses dois monumentos, Luiz Berto que já contabilizava A Prisão de São Benedito, preparava os originais do que viria ser outra obra-prima nordestina e brasileira, O Romance da Besta Fubana.

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Tejo era ouvido com respeito, e suas opiniões, acatadas sem restrições. Em certo dia, surgiu com uma novidade, dizendo haver encontrado um cochilo de Ariano em A Pedra do Reino. Era num episódio, à Página 44, em que o pai decepa o braço do filho, e a vítima, ajoelhada, bradava de mãos postas. Aí Tejo pegava no pé de Ariano, pois uma pessoa não poderia ter as mãos postas, se o braço fora decepado.

Até que, em evento literário em João Pessoa, esses dois gênios paraibanos, amigos fraternos, ícones da criatividade brasileira, foram personagens do ordálio esclarecedor dos fatos, que procurarei narrar da forma que me contaram.

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Ariano abriu o livro na Página 31 e mostrou-lhe o texto adiante por mim escaneado.

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Depois, explicou a Tejo que, assim como o subtítulo do livro era E o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, os episódios iam e voltavam, repetindo-se os já acontecidos nos futuros, com personagens diferentes. Ao escrever o lance evidenciado pelo Tejo, a redação original estava assim:

“Em seguida, José Vieira pega um filho de dez anos, coloca-o na Pedra dos Sacrifícios e decepa-lhe o braço do primeiro golpe. Na hora do sacrifício (grifo meu), a vítima, ajoelhando-se, bradava-lhe, de mãos postas…”

Prossegue Ariano:

– Um camarada meu ao ler os originais, chamou-me a atenção para esse trecho, no qual a palavra sacrifício tinha uma repetição muito próxima da primeira. Acatando-lhe a sugestão, e tendo em vista a anterioridade descrita na degolação à Página 31, cortei o eco “na hora do sacrifício”, e o resultado ficou como se vê à Página 44:

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E continuou:

– Jamais pensei, Tejo, que algum leitor fosse ter dúvidas, até porque a fala do menino sacrificado, neste caso, dava a entender que acontecera antes do decepamento, em analepse, técnica literária que vocês hoje chamam de flashback.

Dizem que Tejo, convencido, mas cabreiro, não querendo dar o braço a torcer por completo, tentou esta saída honrosa:

– Mestre Ariano, depois dessa explicação, tenho de concordar plenamente, com você, mas uma coisa não ficou bem clara: qual foi “o” braço decepado, o direito ou o esquerdo?

Ao que Ariano respondeu:

– Sei não, Tejo! Só sei que foi assim!

COPA DO MUNDO DE 2014: EU NUM FUI, MAS TAVA LÁ

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Ora, dirão vocês, como é que pode? Uma pessoa não ir e estar? Ao que respondo: para entender minha presença telepática, é necessário assimilar o sentido deste trava-língua sertanejo e os mistérios nele contidos:

Eu fui na casa de Tinga
Pensando que Tinga tava
Porém lá Tinga não tava
Mas sobrim de Tinga tava
E o sobrim de Tinga tando
É mesmo que Tinga tá

Perceberam? Nossos sobrinhos tando, é o mesmo que tá eu, é o mesmo que tá tu!

Isso tudo já exposto é para marcar minha presença na Copa das Copas. Para tanto, começo por mostrar-lhes matéria publicada na revista Encontro, distribuída como encarte pelo jornal Correio Brziliense no comecinho do mês de junho passado:

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Vejamos a parte que me toca, na leitura da reportagem abaixo, que faço questão de postar com imagens, para não incorrer em erros de digitação:

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Luís – com s, como foi batizado – Fernando e Ana Alice

Agora, tá na hora de eu entrar no esquema. Esses dois aí são filhos de minha saudosa irmã e madrinha Maria Isaura de Albuquerque e Silva e de Pedro da Costa e Silva, sendo Ana Alice nascida em Balsas e moradora em Brasília desde dezembro de 1958. A empresa A&C Eventos, em retribuição aos serviços não remunerados de revisão gramatical e ortográfica ali por mim prestados, e também levando em conta laços afetivos, promoveu, a custo zero, o lançamento de dois livros meus, Do Jumento ao Parlamento, em 27.08.3, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, e De Balsas para o Mundo, em 26.08.10, no Restaurante Carpe Diem, tudo aqui em Brasília.

Esses dois sobrinhos acham-se há muito tempo mais intimamente atrelados a nossos laços familiares: Luís Fernando é padrinho de batismo de minha primogênita Elba – na primeira foto a seguir, vemo-lo com outra cobrinha, digo sobrinha, Valéria, a madrinha, ante a pia batismal. Na segunda, Ana Alice, com minha caçula Mara, no dia em que a batizou. Os três, Luís Fernando, Valéria e Ana Alice são padrinhos de casamento da Elba, ou seja, compadres em dose dupla.

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Convenceram-se, destarte, de minha presença na Copa das Copas? Não? Querem mais evidências? Então, lá vai tinta!

Maurício de Albuquerque e Silva é meu sobrinho, filho de meu irmão Bergonsil de Albuquerque e Silva e de nossa prima Izaura Maria de Sousa e Silva, residentes em Niterói. Bamba em eletrônica, informática e efeitos audiovisuais, Maurício é fervoroso botafoguense, curtidor das coisas boas da vida e verdadeiro golbetrotter quando o assunto é Copa do Mundo.

Pequena amostra disso foi na copa de 2006 na Alemanha, quando ele percorreu todo o país, assistindo a estas oito partidas: em Berlim, Brasil 1 x 0 Croácia; em Munique, Brasil 2 x 0 Austrália; em Dortmund, Brasil 4 x 1 Japão e Brasil 3 x 0 Gana; em Hamburgo, Costa Rica 0 x 3 Equador; em Gelsenkirchen, Argentina 6 x 0 Sérvia; em Kaiserlautern, Paraguai 2 x 0 Trinidad e Tobago; e, finalmente, em Leipzig, Irã x 1 Angola.

Se, no dia 2 de julho, a bruzacã entrou em campo, travestida como a bola teamgeist, e o Brasil foi eliminado pela França, não foi por falta de torcida brasileira, pois o Maurício tava lá!

Nesta Copa das Copas, veja o que ele aprontou. Mas, primeiro, conheçamos um pouco de seu perfil, publicado pela revista eletrônica Equipe, de circulação interna no BNDES, onde ele trabalha:

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Essa imagem tem dimensões originais de 20,14 cm x 16,98 cm. Para sua leitura, é necessário usar o recurso copiar/salvar/ampliar. Facilitando e simplificando, aqui vai sua transcrição: 

“A relação do analista de sistema Maurício de Albuquerque, gerente da GESAM (ATI/DESIS2), com o BNDES vem de longa data. Em 1977, quando ele tinha onze anos de idade, sua mãe, Izaura Maria de Sousa e Silva, entrou para o BNDES, através de concurso público, para a carreira de técnico de comunicação. Izaura, que se aposentou há sete anos, fez uma carreira de sucesso no Banco e cultivou muitos amigos, tornando-se uma pessoa muito querida e popular.

“– Até há pouco tempo, antes da renovação do quadro de funcionários do Banco, eu era conhecido pelos mais antigos como ‘o filho da Izaura’, enfatizou o niteroiense Maurício.

“O gosto pelo futebol vem mais ou menos da mesma época. Desde pequeno, ele gostava de jogar bola e herdou do pai a paixão pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Amor que transmitiu para o filho Lucas, de 16 anos, que o acompanha pelos estádios da vida, principalmente se, em campo, estiver jogando o time da estrela solitária. Como ex-jogador, Maurício se define como um ‘esforçado’ zagueiro.

“Hoje, às vésperas da Copa do Mundo, Maurício orgulha-se de ter adquirido 18 ingressos – ele insiste em frisar, ‘pelas vias normais’ – para nove jogos, distribuídos por Rio de Janeiro (três, incluindo a cobiçada final), Salvador (dois), Brasília (um jogo das quartas de final), São Paulo (dois jogos, um da semifinal), e Porto Alegre (um). Lucas, seu fiel escudeiro, o acompanha em sete partidas. Luciana, sua esposa, em duas.

“Essa não é a primeira Copa do Mundo de que Maurício participa assistindo aos jogos nos estádios. Em 2006, na Alemanha, apesar de o Brasil não ter trazido o ‘caneco’, ele considerou a experiência fantástica:

“– Foram 20 dias percorrendo de trem cerca de cinco mil quilômetros. Conheci praticamente o país inteiro. Assisti a oito jogos em estádios (quatro do Brasil) e outros em ‘FIFA Fan Fest’ (eventos públicos organizados pela FIFA para exibição dos jogos ao vivo). – Interessante também foi o intercâmbio com as torcidas de outros países e ter encontrado, o que não causa nenhum espanto, benedenses por onde passou.

“Maurício, que se formou em engenharia eletrônica pela UFRJ em 1989, ingressou no Banco em dezembro de 1992, após ter passado em seleção pública para o cargo de analista de sistemas.

“– A linha em que me especializei em engenharia eletrônica é muito ligada a sistemas. Nos primeiros três anos, após a formatura, trabalhei no laboratório de projetos GEMD, na própria UFRJ, no desenvolvimento de projetos de eletrônica e sistemas. Minha primeira lotação no Banco foi na antiga GESIS, no Departamento de Sistemas. Naquela época, não existia ainda a área de TI, concluiu Maurício”

Agora, vamos conhecer os estádios por onde o Maurício passou:

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                 13.06 – Salvador, Espanha x Holanda, e 18.06 – Rio de Janeiro, Espanha x Chile

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22.06 – Porto Alegre, Argélia x Coreia, e 25.06 – Rio de Janeiro, França x Equador

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26.06 – São Paulo, Bélgica x Coreia, e 01.07 – Salvador, Bélgica x EUA

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05.07 – Brasília, Argentina x Bélgica, e 09.07 – São Paulo, Argentina x Holanda

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13.07 – Rio de Janeiro, Alemanha x Argentina 

Vocês notaram o sentido de organização de que é possuidor esse meu sobrinnho? Sim? Então, me digam: Para quem ele puxou?

E também me respondam: Dentro do espírito nepotelepático, eu tava ou num tava lá?

COPA 2014 – AS AFRICANAS QUE A MÍDIA NÃO VIU

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Mapas da Mãe África

Se tem coisa que eu gosto pra caramba de ver é retrato de mulher. E nesse item, o Correio Braziliense, maior órgão da Imprensa da Capital Federal, do qual sou assinante há muitos anos, se esmerou Copa 2014, publicando, diariamente, sob o título A Musa do Dia, foto das gatas que compareceram às arenas.

Colecionei-as todas, na esperança de possuir, ao final da competição, boa amostra internacional das sublimes prendas de 32 diferentes países em disputa, que enfeitaram e alegraram nossos estádios, nossas ruas, nossos logradouros públicos, nossas vidas.

No dia 13.06, após a abertura da Copa, e no dia 14.06, foram estas as Musas clicadas pelos fotógrafos do Correio:

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A seguir, as imagens das Musas publicadas nos dias 15 e 16 de junho:

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E a rotina prosseguia nessa batida, até que chegou o dia em que a primeira Nação Africana estrearia em Brasília, 19.06, com o jogo Colômbia e Costa do Marfim, país este de etnia composta de negros puros, originais, retintos. Nos dias 20 e 21 de junho, eis as Musas flagradas pelas lentes do jornal:

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Nesse ritmo, as Musas forem se sucedendo. No dia 23.06, nova Nação Africana se apresentava no Mané Garrincha, dessa vez no jogo Brasil x Camarões. No dia 24, um após o jogo, e no dia 25, eis as Musas fotografadas:

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A 26 de junho, foi a vez de outra Nação Africana apresentar-se no Mané Garrincha, no jogo Portugal x Gana. E as fotos dos dois dias seguintes, 27 e 28, mantiveram a escrita:

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Passou a fase de classificação, entramos na Oitavas de Final, e nada de aparecer a foto de uma nativa da África, embora 3 Nações Africanas tenham jogado em Brasília, encantando os torcedores e a população em geral.

Flutua no ar brasileiro um perigoso clima de apartheid, o que se nota, primeiramente, pelo sistema de cotas nos colégios e no serviço público, e, em segundo lugar, declarações como a da figura maior do partido político ora no poder, ao afirmar a existência, nas plateias que lotaram os estádios, de uma “elite branca”. Coisa nunca vista antes neste País!

Nas Oitavas de Final, outra Nação Africana, a Nigéria, veio a Brasília para, no dia 30, jogar contra a França. A seguir as imagens das Musas publicadas nos dias 1º e 2 de julho:

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As duas últimas páginas retratando as Musas saíram nos dias 13 e 14 de julho. Aí estão elas:

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Perceberam? Tal qual na canção do Chico, a africanas passaram por Brasília, só o Correio não viu!

E eu não entendo essa discriminação com a etnia negra, pois desconheço brasileiro legítimo que não traga nas veias gotas, copo e até mesmo litro de sangre indígena ou africano. Naquele continente, há mulheres tão bonitas quanto outras de qualquer Nação do Planeta. Digo isso de cadeira, pois sou, há 32 anos, casado com uma delas, que permanece linda como sempre. Justificando o que afirmo, vejam quatro representantes das Nações que a Mídia Brasileira ignorou:

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COPA 2014: A COPA DAS COPAS

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Nossa Presidenta entrega a taça ao Capitão Germânico

Sublime inspiração teve a pessoa que rotulou a Copa da Fifa 2014 como A Copa das Copas! Nada mais profético, nada mais premonitório!

Tal Copa jamais será esquecida por esta geração e pelas vindouras! A derrota pelo placar de 7 x 1 que sofremos diante dos alemães obnubilou, relegou ao olvido, obumbrou, trancou no fundo do baú do esquecimento um vice-campeonato, frente aos uruguaios, em 1950, no Maracanã, com a falha do goleiro Barbosa, e outro, frente aos franceses, em 1998, lá fora, com o piripaque do Fenômeno!

Há outros dados para fazê-la inesquecível: o primeiro gol da Copa foi perpetrado por um de nossos jogadores contra nossas próprias metas; nosso primeiro gol, e segundo da Copa, decorreu de um pênalti inexistente; em 1974 atropelados pela Holanda, ficamos em quarto lugar e a Alemanha foi campeã, o que se repetiu 40 anos depois, agora, quando fomos atropelados pela Holanda, ficamos em quarto lugar e a Alemanha foi campeã; perdemos nosso maior craque durante essa Copa, não havendo alguém para substituí-lo à altura; perdemos para a um alemão a artilharia de todas as Copas; nosso goleiro foi o mais vazado na Copa das Copas… O leitor completará essa extensa lista de fracassos que fizeram dessa Copa algo indelével em nossos corações.

E não foi por falta de aviso. No dia 02.06.2014, aqui no Jornal da Besta Fubana, eu já alertava para que todos nos aprecatássemos, na matéria sob o título “Cuspidores, Cuidado com a Bruzacã!”, explicando que a Brazuca, nome da bola nesta Copa, nada mais era que o anagrama da Bruzacã, besta fantástica citada por Ariano Suassuna, em A Pedra do Reino, e que tal assombração já aparecera na copa de 2006, na Alemanha, sob o nome de Teamgeist, e, em 2010, na África do Sul, sob o nome de Jabulani. No Brasil, para a Copa das Copas, apenas pegaram o nome da Bruzacã, trocaram a ordem das letras, tiram o til e o resultado já se viu: Brazuca! Deu no que deu!

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A Bruzacã, em duas aparições, e a Brazuca

Não sou de misturar futebol com política, até mesmo porque de futebol entendo bulhufas e, por ser quase octogenário, da política fui alijado, eis que dispensado de votar. Mas não custa lembrar que a dupla Itamar/FHC ganhou duas Copas e foi vice em uma, enquanto a dupla Lula/Dilma, já perdeu as três que disputou.

Depois dos 7 x 1, assisti a um debate na TV, no qual o jogador Carlos Alberto, Capitão do Tri, afirmava que enquanto houver o clima de oba-oba, o Brasil jamais voltará a ser Campeão Mundial de Futebol.

E oba-oba foi o que mais se viu na Copa das Copas! Aqui em Brasília, o exemplo irretocável disso foi o Correio Braziliense, maior jornal da Capital Federal, cuja capa inteira do Caderno de Esportes da manhã do dia 8 de julho, quando o Brasil enfrentaria a Alemanha, trazia esta certeza de nossa vitória:

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Tradução: QUERIDOS ALEMÃES, BRASÍLIA ESPERA POR VOCÊS!

Resultado desse oba-oba: 7×1, e, em vez dos Alemães, nós, os brasileiros, é que tivemos de virmos para Brasília com o rabo entre as pernas, disputar o terceiro lugar, que resultou na vergonhosa quarta colocação.

Em 1982, na Espanha, com uma Seleção Brasileira considerada por alguns como a melhor de todos os tempos, ocorreu o que se passou a denominar A Tragédia do Sarriá, referência ao estádio do mesmo nome. No dia 5 de julho, segunda-feira, aquele dito inexpugnável elenco, que batera a União Soviética por 2×1, a Escócia por 4×1, a Nova Zelândia por 4×0, e a Argentina por 3×1, foi surpreendido, quando lhe bastaria o empate, pela Esquadra Azurra, perdendo por 2×3, três gols do reserva Paolo Rossi.

Quase toda a Nação Brasileira caiu em pranto, e muitos dos torcedores mais exaltados, ou inspirados pelo álcool, rasgaram a camisa amarelinha e queimaram a bandeira brasileira. Isso eu vi, lá na Rua do Beirute.

Mais ou menos às 21h00 daquele dia, correu, como um estopim, por todo o País, a notícia de que a Fifa anularia o resultado e daria a vitória para o Brasil, devido a terem descoberto, no exame antidoping, que Paolo Rossi jogara dopado e, consequentemente, seus gols não seriam computados.

Imediatamente tratei de espalhar boa nova, ligando para minha inteira agenda e anunciando essa ressuscitada esperança. Mas foi só fogo de palha. Naquela mesma noite, a Rede Globo jogou água fria em nossas cucas, desmentindo o boato. Frustrado, fui dormir e, mais frustrado ainda, rumei na manhã seguinte para o trabalho.

Ao abrir o jornal Última Hora, deparo com esta carta, que guardei por todos esses anos, porque parecia endereçada a mim:

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Embora não concorde no todo com essa carta, acho que, em muitos aspectos, José Benedito Assunção está coberto de acertos, cabendo-lhe pequeno alerta quanto ao final de sua missiva:

– Seu Zé Bendito, a coisa agora mudou! Nossos craques aprenderam a cantar o Hino Nacional Brasileiro e o fizeram a plenos pulmões, com ardor, com patriotismo! Se julgados por esse item, nesta Copa da Copas fomos os verdadeiros campeões!

VAI TOMAR NO C* – A VINGANÇA!

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O temido vocativo

Isso que vocês estão vendo aí embaixo, se apreciado voluptuosamente, fesceninamente, afrodisiacamente, assemelha-se a um esfíncter deflorado – eis que sem pregas – e sustentado por centenas de falos em ereção. Ganhou o nome de arena, como todos os campos de futebol recém-construídos para a Copa 2014. Mas esse daí tem história!

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Estádio Nacional Mané Garrincha

Para edificar uma arena obedecendo aos padrões da Fifa, aqui na Capital Federal, tornou-se necessária a demolição da outra que no local se encontrava e vinha atendendo muito bem à demanda brasiliense. E assim o velho Mané Garrincha se foi. Mas opondo tenaz resistência, muito diferente da população, que num tava nem aí. Vou lhes contar.

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O velho Mané Garrincha, em tarde/noite de Vasco x Gama

Era necessário implodi-lo. Para isso, usaram carradas de dinamite, isolaram a área e tacaram fogo! Tudo filmado! Foi aquela fumaceira, que encobriu o Setor Hoteleiro, mas quando a poeira baixou, lá estava o Mané Garrincha, incólume, soberbo, como que dizendo, para vingar-se:

– Implosão, vai tomar no c*!

Aí, os implodidores se danaram! Redobraram a carga! E foi aquele papoco, que se ouviu até nas Satélites. Abaixada a poeira, lá estava o Mané, com a cara mais safado do mundo, novamente a exclamar, em solitária vingança:

– Implosão, vai tomar no c*!

Desiludidos, os implodidores resolveram derrubá-lo a golpes de picareta – já disseram que, só no Congresso Nacional, tem 300 -, trincha, enxada, marreta, tudo que erra ferramenta manual destrutiva.

Mas sabem por que o Mané bradava aquele impublicável e sonoro vocativo? É porque o estádio é o templo do palavrão! Não há juiz de futebol que não voltou pra casa com os ouvidos zonzos de tanto ouvi-lo. Igualmente, não há juiz de futebol no qual o vocativo pegou nem que o tenha obedecido. Sabem por quê? Eu mesmo respondo: porque todos não ligaram!

Aliás, muito antes da implosão, esse terrível vocativo já se fizera ouvir dentro do saudoso Mané. Aconteceu no início de 2007, numa partida entre o Vasco e o Gama, quando o Romário tentava marcar o milésimo gol – faltavam dois -, à qual compareci com minha família.

Foi uma festa, a partir dar imediações do Mané, com os vendedores ambulantes de camisetas, churrasquinho, refrigerante, cerveja, pinga e tudo que era de guloseima, além da bagunça lá dentro, os torcedores fazendo de tudo que lhes era de direito.

Em certo momento, correu um zunzum de que o Presidente de um dos times se encontrava no estádio, e aí aconteceu a unanimidade que jamais eu presenciara entre torcidas adversárias. Todos, em uníssono, passaram a gritar, durante quase dois minutos:

– Fulano, vai tomar no c*! Fulano, vai tomar no c*! Fulano, vai tomar no c*!…

No dia seguinte, nenhuma nota em toda a mídia sobre o degradante vocativo. E sabem por quê? Respondo-lhes: porque o Fulano não se importou!

Quando eu era menino, botaram-me o apelido de “catingudo”, no Grupo Escolar. Fui queixar-me à Diretora, e ela me aconselhou: – Não ligue, que eles param de chamar! Assim fiz, e o apelido não pegou!

O caso acontecido no Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo/2014, foi emblemático. Mandaram Certa Autoridade tomar no c* e, logo depois do jogo, a mídia brasileira e internacional foi só do que se ocupou. E sabem por quê? Respondo: porque a Autoridade ligou, se importou, passou recibo.

Caso ela tivesse jogo de cintura, chamaria as câmeras e holofotes para si e cantaria, para toda a arena, esse refrão de samba carnavalesco gravado por Zilda do Zé:

– Vai, vai, amor! Vai, que depois eu vou!

Mas não, além de ela passar recibo, vestir a carapuça, sua assessoria ficou a investigar quem, dentro da arena, lhe dirigiu tal vocativo, quando seria impossível individualizar, pois me parece ter sido a totalidade, segundo dizem, pois não assisti ao jogo.

Um Prócer, em gesto inteiramente racista e segregativo, culpou a “elite branca”, o que fez com que a mira de seus correligionários se voltassem para a apresentadora Xuxa, querendo saber se ela igualmente o proferira, vez que também comparecera ao Itaquerão e pertence à tal “elite” criada pelo dito Prócer.

Embora eu não estivesse lá, tenho know-how para livrar a “elite branca” de qualquer culpa e debitá-la inteiramente aos torcedores menores de 40 anos, ali presentes, homens e mulheres, independentemente da etnia, por não saberem, devido à pouca idade, quanto dói tomar no c*. Se assim procederam, na ignorância, só merecem perdão e nada mais!

E aqui abordo o tema principal deste meu relambório, que é a vingança daqueles machos que acima dos 40 já se encontram e, se quiserem viver mais 40, devem uma anual visita ao urologista. Da primeira vez, já sai de lá diagnosticado e também sabendo o que é tomar no c* e como isso doloroso o é!

Ano passado, no Dia do Diabético, aqui em Brasília, muitos laboratórios montaram estandes em frete à UNICOM e adjacências, na Rua das Farmácias, para orientar a população sobre as enfermidades que aperreiam, principalmente, as pessoas de idade avançada. Eram médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, acupunturistas e outras especialidades, de ambos os sexos, prestando-nos todos os tipos de informação.

Num dos boxes, desconhecido aparelho me chamou especial atenção. Devido a sua finalidade, batizei-o logo de TOMADOR NO C*’! Servia para que os homens resistentes ao exame de toque pelos urologistas se cientificassem do que é a próstata e como detectar se ela é portadora ou não de tumor maligno.

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Aparelho Tomador no C*

Não resisti à tentação!

E, nessa dedada que vocês me veem executando acima, vai minha vingança contra todos os urologistas brasileiros que, em sua maioria jovens, ainda não passaram pelo toque e, por isso mesmo, não sabem como dói levar futucadas no fiofó!

TEODORO SOBRAL, O GIGANTE DA CULTURA PIAUIENSE

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Teodoro Ferreira Sobral Neto

Teodoro Sobral é único! Ao usar artigo definido para intitulá-lo como O Gigante da Cultura Piauiense, desejo determinar que, no meio empresarial do Piauí – quiçá do Brasil -, já não existe homem de tal porte, que dedique grande parte de seus lucros e de seu precioso tempo à divulgação de nossa cultura, de nossos valores, de nossa tradição, da vida de homens e mulheres que fizeram a pujança de nossa história.

Em passado um tanto distante, houve outro abnegado assim, Ranulpho Torres Ramoso, capitaneando o Almanaque da Parnaíba, alentada publicação anual de 350 páginas, que conseguiu manter-se em circulação de 1923 a 1980, ano em que teve sua edição interrompida, quem sabe devido a problemas financeiros. Nesse almanaque, aprendi, durantes os serões de Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãe, a ler os primeiros textos sérios de minha vida, em voz alta, interpretando-os depois, para os demais. Aqui, três capas dessa preciosidade.

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Hoje, a totalidade das crianças e dos adolescentes não sabe o que são almanaques e a alegria que eles traziam aos brasileiros de outrora, à disposição de qualquer um, grátis, nas farmácias e drogarias brasileiras. Valendo-me de minuciosa pesquisa do Teodoro, apresento-lhe a capa de alguns:

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O mais famoso deles, Almanaque Capivarol, trazia, na última página, uma Carta Enigmática, a cujos decifradores prometia brindes especiais. Prometiam e cumpriam!

Teodoro Sobral parece ter assimilado a sabedoria de Ranulpho, seus benfazejos eflúvios, bem como a tradição do almanaque. É o que se pode facilmente deduzir com leitura deste seu primeiro trabalho no campo editorial:

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Com 202 páginas, este compêndio, altamente iconográfico, contém informações sobre hotéis, bares e restaurantes, lojas, indústrias, prestação de serviços, teatro, museus, igrejas, escolas, casas de show, boates e danceterias, rádios, jornais e televisão, passeios ecológicos, políticos, juízes, times de futebol, clubes de serviços, cinquentenário da cidade, cinemas, blocos de Carnaval, associações de classe, misses, cabarés, hinos, principais ruas, curiosidades municipais, tipos populares, companhias aéreas, e muito mais, de hoje e de ontem, configurando-se, assim, em verdadeiro almanaque, nos moldes mais tradicionais.

Nele, é riquíssima a pesquisa de imagens. Como pequena amostra, disponibilizo a vocês duas de suas páginas, estampando propagandas comercias de antanho:

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Vejamos, agora, um pouco da biografia desse admirável sonhador, cuja amizade por demais nos honra.

Teodoro Ferreira Sobral Neto é florianense, nascido em 26.6.1951, filho único de Amilcar Sobral e Jaci Guimarães Sobral. Casado com Maria do Socorro Carvalho Sobral, tem 4 filhos: Valéria, Igor e as gêmeas Paula e Sofia.

Seu avô, Theodoro Ferreira Sobral, nascido em Amarante (PI), no dia 7.1.1891, e radicado em Floriano, fundou, em 1911, sua Empresa Farmacêutica, embrião do Laboratório Sobral, do qual falarei mais adiante. Seu pai, Amilcar Ferreira Sobral, nascido em Floriano em 13.10.1917, inicialmente militar, depois médico, deu continuidade aos negócios da família e agilizou as operações da empresa, que passou a se denominar Laboratório Sobral.

Com os estudos iniciados no Piauí, o jovem Teodoro bacharelou-se em Economia pelo Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, em 1973, vendeu um apartamento em Brasília, presente do pai e, com o dinheiro obtido, retornou a sua cidade natal, onde se entregou a dar novos rumos e modernizar o Laboratório Sobral. O sucesso não tardou – foi imediato. Hoje, é um empreendimento vitorioso, reconhecido e admirado nacionalmente.

O amor por Floriano fez de Teodoro um garimpeiro, pesquisando, ouvindo, anotando, juntando documentos, e dados que lhe dissessem respeito. Isso, mercê de seu espírito empreendedor e pertinaz, gerou maravilhosos frutos. Hoje, possui o maior e mais completo documentário fotográfico da região.

Nele, ressalto o museu iconográfico sobre as embarcações que singraram a Bacia do Parnaíba, transportando pessoas, mercadorias, o progresso, enfim, às cabeceiras de seus afluentes, do qual me vali, quando na elaboração de meu livro De Balsas para o Mundo.

Nossa amizade começou ali. Mas Teodoro não se ateve apenas a enviar-me imagens pela Internet. Mandou editar algumas e até compareceu a meu apartamento aqui em Brasília, por duas vezes, acompanhado de Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, fiel escudeiro, para trocarmos figurinhas e informações. Devo mencionar também Luiz Paulo de Oliveira Lopes e Rosenilta de Carvalho Attem como eficazes colaboradores no Estado-Maior desse Gigante.

Em 2011, comemorando o Primeiro Centenário do Laboratório Sobral, presenteia-nos ele com novo almanaque, contendo 208 páginas:

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Escolhi dele, aleatoriamente, algumas páginas, para que os leitores tenham pálida ideia das preciosidades que contêm, como propagandas dos produtos do Laboratório e sua foto:

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Teodoro Sobral se fez tão grande, que essa magnitude ultrapassou os limites de sua paróquia, fez-se presente por todo o Piauí, transformando cada coestaduano em amigo íntimo, empatia essa traduzida pelo nome como é conhecido por todos: Teodorinho. E é como Teodorinho que passo a chamá-lo agora.

Teodorinho distribui, anualmente, para sua clientela, um bonito calendário. Alguém pode argumentar que a Caixa Econômica Federal o faz também, mas eu rebato, citando que a Caixa é financiada por recursos públicos, o meu, o seu dinheiro, enquanto Teodorinho age por seus próprios meios. E não é só isso. Para facilitar a vida das esferas mais carentes de seus conterrâneos, Teodorinho produz medicamentos genéricos de indicações as mais variadas. Vejam as capas de alguns calendários e os genéricos do Laboratório Sobral:

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Teodorinho é incansável. Ele e seus colaboradores acima citados, com apoio da Fundação Floriano Clube, lançaram-se em novo empreendimento editorial. Com a denominação de Florianenses, o Volume 1, com 130 páginas, foi espécie de balão de ensaio, para testar sua aceitação. Com seu estrondoso sucesso, foi lançado o Volume 2, este com 320 páginas:

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No ano passado, Teodorinho me enviou mensagem solicitando os perfis de Seu Rosa Ribeiro, meu pai, e de Tio Cazuza Ribeiro, dois florianenses que, no início do século passado, ainda adolescentes, navegaram a Bacia do Parnaíba, rios acima, para fixarem-se em Balsas, onde foram pioneiros da colonização e onde construíram uma prole que hoje ultrapassa a casa dos 200 componentes.

Meu Tio Cazuza constará do Volume 4, a sair no próximo ano. Meu pai, mesmo em plagas longínquas, nunca parou de amar sua terra natal, deixando isso bem patente ao batizar-me com seu nome – Raimundo Floriano -, o que me fez também venerá-la com ardor. Seu perfil encontra-se no Volume 3, lançado inicialmente em Floriano, no dia 5 de julho, sábado passado, nas comemorações do aniversário da cidade, que ocorrerá amanhã, dia 8, como se vê no convite abaixo. Posteriormente, haverá mais dois lançamentos, um em Teresina, capital piauiense, e outro aqui em Brasília.

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Tudo isso é almanaque, tudo isso é Teodoro Sobral, o Teodorinho, o gigante, inexpugnável baluarte na defesa e preservação de nossos valores culturais!

Salve Teodorinho Sobral, orgulho da gente piauiense!

Salve Teodorinho Sobral, honra e glória da Filha do Sol do Equador!

NA COPA DE 1974, QUASE ME BORREI DE MEDO!

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Aconteceu no dia 3 de julho de 1974, data em que eu completava 38 anos! Naquele dia, o Brasil jogaria contra a Holanda, então conhecida como Laranja Mecânica!

A Seleção Brasileira já entrou na Copa/74 derrotada. Sem contar com os craques Carlos Alberto, Brito, Clodoaldo, Gerson, Tostão e Pelé, que nos maravilharam na conquista do Tri, em 1970, surgia uma geração de perdedores, que só levantaria a cabeça 24 anos depois, em 1994, com a genialidade de Romário e Bebeto, ao sagrarmo-nos Tetra. Em 1974, ficamos em 4º lugar.

Mesmo com o Brasil praticamente entrando em campo para cumprir tabela, a Banda da Capital Federal fez a festa do povão nos três primeiros jogos, porque nosso objetivo era a alegria das ruas, a presepada, a aprontação, a paquera, com nossas marchinhas, sambas e frevos, coisas das quais os brasileiros tanto gostam, não importando o resultado em campo.

Empatamos o primeiro jogo em 0x0 com a Iugoslávia; o segundo, também sem abrir o placar, com a Escócia; ganhamos do Zaire por 3×0, passando para a 2ª Fase. Nesta, ganhamos da Alemanha Ocidental por 1×0 e da Argentina por 2×1. Aí, tivemos de encarar a Holanda, que vinha comendo todo mundo pelas beiradas.

Aquele 3 de julho caiu numa quarta-feira. Como a partida terminaria já na boca da noite de um dia útil, combinamos que, na hipótese de sairmos vitoriosos, o desfile seria no Guará I, com a Banda se reunindo na QI 12, Conjunto U, daquela satélite, onde eu residia.

Desfilariam como Porta-Estandartes, naquela noite, Graça Souza, minha colega na UDF, e Edna Neves, filha do Sebastião, trombonista da Banda, de quem passarei a falar.

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Graça Souza e Edna Neves

Sebastião Francisco Neves tocava escaleta, sanfona e qualquer instrumento de bocal. Mineiro de Belo Horizonte, pertenceu, na graduação de 3º Sargento, às Bandas de Música da Polícia Militar de Minas Gerais, do 12º Regimento de Infantaria e do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial. Conhecemo-nos na caserna, ainda nos tempos pioneiros de Brasília.

Intelectual de vasta cultura, foi aprovado em todos os concursos que fez. Assim, no início dos Anos 1960, deixou o Exército, indo pertencer aos quadros da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, e, depois, do Itamaraty, como Oficial de Chancelaria. Bacharelando-se em Ciências Contábeis, passou no concurso para Fiscal de Tributos do Estado de Goiás, cargo no qual se aposentou.

Sebastião pertenceu ao efetivo permanente da Banda da Capital Federal desde sua fundação, em 1972, e, para todos os desfiles ou funções, levava suas três filhas, Edna, Vera e Vilma.

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Sebastião e seu trombone

Foi um grande amigo, e seu falecimento, a 23.8.2001, aos 70 anos de idade, vítima de câncer de pele – era muito branco e viveu muito exposto ao sol –, entristeceu não só a mim, mas a todos aqui em casa, porque pertencia a nosso círculo familiar. Meu abalo foi tamanho que, em seus funerais, no momento em que baixavam seu caixão ao túmulo, não me contive e pronunciei breve despedida, emocionando a todos, não conseguindo também eu conter as lágrimas.

Sebastião era pessoa com quem eu contava na certa para todos os movimentos musicais que bolava e, por isso mesmo, era acolhido por nós com muito calor humano. E era em nossa casa que ele se sentia bem. No Natal, por exemplo, após a ceia com sua família, era certa sua vinda para cá – morávamos em Quadras vizinhas -, com o trombone ou a escaleta, para continuarmos a festa até o raiar do dia. Assim era nos aniversários e nas demais datas festivas.

Nunca vi o Sebastião pronunciar uma palavra negativa a alguém! Sempre que começava qualquer frase, era com esta expressão: – Pois é!

Em certa noite, depois do Natal de 1980, quando eu ainda era solteiro, Sebastião e eu estávamos em minha garçoniere, na 416 Sul, combinando o que faríamos nas festividades vindouras, quando chegou meu sobrinho Pedro Ivo, que vinha despedir-se, pois estava saindo de viagem em seu fusca para o Maranhão onde ia se casar, e lamentando o fato de ter que enfrentar a estrada sozinho, sem companhia para conversar ou ajudá-lo durante o percurso. Perguntei ao Sebastião se ele topava acompanhá-lo, e ele aceitou no ato.

Combinamos, então, que ele iria e ficaria me esperando em Balsas, onde eu chegaria no dia 30, para tocar-mos no Réveillon.

Imediatamente, Sebastião foi a sua casa, apanhou o trombone e a escaleta, e os dois pegaram a estrada. Mas tão desligado era ele, que seguiu com a roupa do corpo, nem se lembrando de calçar os sapatos, de forma que, no casamento do Pedro Ivo, lá estava ele de chinelos.

Em Balsas, tocamos no Réveillon no CRB e, no dia seguinte, numa farra com amigos na Churrascaria Batatais. Vejam bem que, em ambos os momentos, ele está com a mesma roupa:

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Este flagrante foi colhido num aniversário de sua filha Edna:

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Zé do Bombo, Raimundo e Sebastião

Sebastião partiu desta vida em 2001, mas meu contato e minha amizade com sua família permanecem inalterados. No mês de julho de 2006, em meu Forrozão/70, dancei com 25 damas, dentre elas a Vera – companheira inseparável do pai aonde quer que ele fosse – e a Alice, filha desta e sua neta, como vemos a seguir:

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Falemos agora no grande susto que levei na Copa de 1974, chegando às raias de perder a dignidade. Mas, primeiro, quero esclarecer-lhes um pormenor. Das duas coisas que eu mais tenho medo no mundo, a segunda é cachorro. De tal modo que, quando chego à casa de qualquer pessoa que tem a fera, vou logo cantando este refrão da axé-music: – Segure o cão! Amarre o cão! Segure o cão, cão, cão, cão, cão A primeira é de alma do outro mundo. Nunca vi qualquer delas, mas tenho tal pavor que me pelo, pois que las hay, las hay!

Voltemos ao 3 de julho de 1974, dia do jogo do Brasil com a Holanda!

Era no tempo do calor humano na Câmara dos Deputados, quando havia congraçamento entre os funcionários. No Departamento de Administração, onde eu era lotado, comemoravam-se todos os aniversários. Naquela quarta-feira, levei para minha festa um panelão de vatapá, outro de marizabel, preparados por minha Comadre Maria Júlia, 5 frangos assados, comprado num galeto, e refrigerantes.

Mal começara o ágape, um dos colegas apareceu com uma garrafinha cheia de líquido que, segundo declarou, os passarinhos de sua casa não quiseram beber. Experimentei-o, era de meu agrado, e foi só o que tomei durante a congratulação.

A seu término, rumei para minha garçoniere, no Guará I, sentindo-me já um pouco baleado pela água que os passarinhos rejeitaram. Ao chegar, liguei a TV e, sozinho, assisti ao jogo, tomando lapadas de água ardente a cada gol que levávamos. Terminado o jogo, deitei-me, bem mareado, ali mesmo no sofá da sala, e peguei no sono. Sono profundo!

Mais ou menos às 9 da noite, bateram insistentemente em minha porta. Levantei-me um tanto estremunhado e, ao abri-la, dei de cara com o Sebastião e a Vera, que deveria ter em volta de 10 anos na época.

Recebi-os, como era de boa educação, mas pê da vida por terem me acordado. E a conversa fluía sem graça, cada qual sem assunto, eu querendo que eles se mandassem dali. De repente, outras pancadas na porta. Fui abrir e quase morro de susto: dei de cara com o Sebastião! Olhei para ele, que ria, olhei para o sofá, e lá estava ele, também rindo! Naquele momento, me arrupiei todo e pensei:

– É abantesma! É alma!

E fui amarelando, desfalecendo, quase me estatelava no chão, não fosse a rápida ação do Sebastião que me segurou e gritou, para acalmar-me:

– Aquele ali é o Geraldo, meu irmão gêmeo!

Durante quase 15 anos em que nos conhecíamos, ele jamais me falara que tinha esse irmão. Geraldo era Sargento na Banda de Música da PM Mineira e outro presepeiro de marca maior. Para se ter ideia, possuía um coreto em frente a sua casa no bairro belo-horizontino onde morava.

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Os dois irmãos engemados

Passado o susto, resolvemos esticar a noite, festejando o resto de meu aniversário. Saímos do Guará I e rumamos para o Plano Piloto, onde só deparamos com ruas desertas, o que nos fez dirigirmo-nos para o Centro Comercial Gilberto Salomão, point dos boêmios e da juventude naquela época.

Chegando àquele shopping, ocupamos mesa na calçada dum barzinho quase lotado, fizemos nossos pedidos e, sem solicitar permissão, iniciamos o show, com o Sebastião na escaleta, o Geraldo no violão e eu no cavaquinho, os dois últimos no vocal, auxiliados pela Vera e trovadores eventuais, entoando repertório totalmente voltado para canções seresteiras da Velha Guarda. Foi sucesso retumbante! Dali pra frente, os aplausos e pedidos de bis eram consagradores, sendo o hit mais reprisado – para o público novidade – a valsinha Seresta, de Alvarenga, Ranchinho e Newton Teixeira, composta em 1940.

Geraldo veio a falecer no ano passado, em Belo Horizonte, aos 82 anos de idade. Em homenagem a esses dois amigos e também para relembrar aquela belíssima noite em que, há 40 anos, conseguimos, com nossa música, levar alegria para grande número de brasilienses entristecidos pela derrota na Copa, aqui vai, na interpretação de Rolando Boldrin, a valsinha Seresta:

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ANDERSON BRAGA HORTA E A RIMA QUE EU PROCURAVA

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O gênio, no lançamento de Signo, em 4.8.2010, e este colunista

Minha formação literária teve início, na prosa, com Monteiro Lobato, Edgar Rice Burroughs, Alexandre Dumas e muita revista em quadrinho, tendo estas exercido tanta influência sobre mim que hoje não sei elaborar um texto sem imagens. A poesia foi-me apresentada por Gonçalves Dias, Catulo da Paixão Cearense, Castro Alves e folhetos de cordel. Assim, desde cedo, deduzi que a poesia devia ser rimada, o que não é regra geral, como verifiquei muito depois.

Dentre os cordelistas, os que mais me influenciaram foram João Martins de Athayde, Manoel Pereira Sobrinho, Leandro Gomes de Barros e Firmino Teixeira Amaral, com estes romances que até hoje guardo em minha coleção centre centenas de outros:

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E durante muito tempo, eu achava que também era poeta, fazendo versos e até vencendo desafios com a meninada de meu sertão sul-maranhense. Até hoje, trago a rima na massa do sangue, mas sem aquele convencimento de outrora. O que me fez acabar com a marra aconteceu na quarta série ginasial.

Certa vez, em Teresina, no Colégio Diocesano, o Professor Arimateia Tito, em aula de versificação e métrica, mandou que cada aluno compusesse uma estrofe, o que fizemos. Ao ler a minha o professor balançou a cabeça e falou:

– Aqui só tem rima pobre. Janela com canela; oração com coração…

E explicou-nos que rima pobre era esse tipo da minha, que não requeria muita imaginação. Mais ou menos como esta de Florbela Espanca, em Velhinha, que eu mostro agora para vocês:

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Como exemplo de rima rica, o Professor Arimateia apresentava-nos este trecho do poema Meus Oito Anos, de Casemiro de Abreu:

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Há muito tempo, procuro outra rima tão rica quanto essa. E a tarefa a cada dia que passa fica mais difícil, pois quase já não se faz poesia rimada. E também porque há rimas e rimas.

O Velho Faceta, cordelista de truz, vinha cantando os 25 bichos, numa boa, até que chegou o momento de encontrar rima para o tigre. Como aqui é diferente do jogo, não vale o que está escrito e sim a eufonia, ele deu uma guinada e se saiu com esta:

Eu ando devagarzinho
A mim ninguém persigue
Eu ando devagarzinho
A mim ninguém persigue
O 21 é touro
E o 22 é tigre

Dizem que não existe rima para a palavra mãe. Pesquisando no Google, encontrei como única rima para mãe a palavra Oçãe, nome de orixá cuja epifania são as folhas e as ervas medicinais litúrgicas usadas no candomblé. Consultei o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e lá esse termo não consta. Portanto, não existe em nosso idioma.

Quando eu estava na chefia do Gabinete da Deputada Ivete Vargas, então Líder do PTB, admirei-me com a correspondência dum eleitor que, ao cumprimentar a deputada pelo Dia das Mães, enaltecia o fato da maternidade ser tão importante, sublime, que não existia rima para a palavra mãe. Fazia, no entanto, uma ressalva, afirmando que os portugueses rimam-na com também, que eles pronunciam tambãe. Olha a eufonia aí de novo!

Pois bem, depois de ler a carta, caiu-me a ficha! Lembrei-me de um hino trazido para o Brasil pela Corte Portuguesa, Dá-nos a Bênção, cujo refrão diz:

Dá-nos a bênção, ó Virgem Mãe
Penhor seguro do sumo bem

Um de meus colegas de trabalho na Diretoria do Patrimônio, da Câmara dos Deputados, era o falecido cantador, poeta e improvisador Tira-Teima que, certo dia, me procurou, agoniado, querendo uma rima para Corinthians. Eu quase que lhe falei o nome duma amiga minha, a Cyntia, mas, com medo de levar uma vaia, saltei de banda, tirei o corpo fora, e a poesia não se fez.

Falta de cultura minha. Ou coragem. Aos poetas, por falarem com o coração e, por isso mesmo, serem inimputáveis, tudo é permitido, tudo lhes é justificado, dentro de sua lei maior, a licença poética. E isso eu aprendi lendo este importante trabalho, verdadeiro tratado poético, que recomendo a toda Comunidade Fubânica:

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Para não esquecer detalhe algum sobre a biografia do autor, aqui exibo as duas orelhas do livro:

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Com obra literária tão extensa, e sendo detentor de dezenas de prêmios, dentre eles o Jabuti, maior laurel da Literatura Brasileira, Anderson Braga Horta poderia deitar-se na cama e viver da fama. Mas não! De quando em vez, extasia-nos com novidades, como este Proclamações, lançado a 12.2.2014.

Sendo ele, na atualidade, o maior poeta vivo da Língua Portuguesa, a magnitude não lhe afetou a personalidade, o que constato ao vê-lo, com extrema benevolência, no autógrafo de seus livros, chamar-me de colega de trabalho e de letras.

Numa coisa, ele até que acerta. Somos colegas de trabalho. Anderson é filho de um casal de poetas, já falecidos, cujos lindos sonetos, tanto de seu pai quanto de sua mãe, vêm sendo publicado aqui no Jornal da Besta Fubana. Compõe uma prole de uma irmã e quatro irmãos. A irmã, Glória Braga Horta, focalizada em minha coluna no dia 16.6.14, na matéria Três Joelhos Musicais, é funcionária do Poder Executivo, escritora, poetisa, instrumentista e cantora, além de Madre Superiora diretamente subordinada a meu Cardinalato.

Os varões são meus colegas de serviço, todos funcionários da Câmara dos Deputados, nomeados mediante aprovação em concurso público de âmbito nacional: Flávio, que já se encontra junto ao Pai Celestial, Goiano, cujo trabalho consta de Três Joelhos, Arlyson, mais dedicado às atividades aeronáuticas, e Anderson, nosso Poeta Maior. A seguir, da família Braga Horta, em flagrante colhido no ano de 1942:

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Maria Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Arlyson, Goiano, Flávio, Glória e Anderson

Anderson domina todos os campos da Literatura. Nestes tempos de Copa do Mundo, podemos afirmar que, num time campeão, ele é o técnico e joga em qualquer das posições: poesia, conto, romance, biografia, ensaio, o que mais for. Adiante, capas de alguns de seus livros:

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Bom, desçamos do Olimpo! Voltemos à chapada, que é meu lugar, e de onde eu jamais deveria ter saído.

Chico Fogoió, meu amigo e Assessor para Assuntos Piauizeiros, metido a letrado e cordelista, vive me atormentando com uns versinhos de sua autoria, nos quais rima pai com papai, afora barbaridades várias. Eu dou-lhe broncas, dizendo-lhe que se esforce mais e não me venha com essas rimas paupérrimas, e sempre exemplifico o que é rima rica com esta quadrinha que decorei ainda nos Anos 1940, publicada no Almanaque Capivarol:

O padre da Abadia
Mandou comprar uma lâmpada
Para iluminar a estampa
Da Santa Virgem Maria

Aí ele rebate, dizendo que isso é verso de pé quebrado, são duas palavras que rimam apenas na eufonia. E nossa teima continua.

No dia 28 de maio passado, aconteceu minha vitória na pinimba! O Correio Braziliense, na Seção Tantas Palavras, dedicada aos poetas, vates, aedos e bardos, publicou esta joia de soneto, com riquíssima rima, da lavra da genialidade andersoniana:

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– E agora, Fogoió? Sai dessa!

TRÊS JOELHOS MUSICAIS

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Almira Castilho, a Musa do Forró

A olindense Almira Castilho foi rumbeira e radioatriz na Rádio Jornal do Commercio do Recife. Apareceu artisticamente em 1954, participando do coro na apresentação do rojão Sebastiana, primeiro sucesso de Jackson do Pandeiro, a quem alfabetizou e com quem se casou, “zero quilômetro”, com gostava de afirmar.

A partir de então, foi parceira do Rei do Ritmo em composições, em discos, no radio, no cinema, em circos e onde quer que os contratassem.

Compôs, só ou com parceiros, estes sucessos de Jackson: Babá de Babá, coco; Baião do Bambolê, baião; Forró Quentinho, rojão, Lá Vem Mulher, marchinha; Lá Vou Eu, samba; Mandaú, coco; Naquela Base, marchinha; O Velho Gagá, marchinha; Papel Crepom, marchinha; Praia do Janga, baião; Sanfona Braba, rancheira; Serenou, samba; Tililingo, rojão; Tipo Violão, arrasta-pé; e Vamos Chegar Pra Lá, arrasta-pé. No cinema, atuou, com Jackson, nestas chanchadas: Minha Sogra é da Polícia; O Batedor de Carteiras; Aí Vem a Alegria; O Viúvo Alegre; Pequeno por Fora; Cala a Boca, Etelvina; Bom Mesmo é Carnaval; e Rio à Noite.

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(Acervo Inaldo Soares)

Por ser dona desses belos joelhos, apresentava-se sempre com a barra das saias abaixo das canelas, devido ao grande ciúme de Jackson que, para preservar esse patrimônio de olhos cobiçosos, brigou, deu e levou porrada em circos mambembes, mas, até sua morte, jamais permitiu que fossem exibidos. O flagrante acima, bem como o de Almira com o embigo de fora, riqueza que Jackson permitia mostrar, de consta do livro A Musicalidade de Jackson do Pandeiro, de Inaldo Soares, com a Musa aos 81 anos de idade!

Depois do reinado de Almira, a MPB levou um bom tempo para coroar nova Musa, o que só veio a acontecer com o aparecimento da Bossa Nova, em 1957, quando Nara Leão fazia reuniões no apartamento de seus pais, localizado no edifício Champs-Elysées, em frente ao Posto 4, da Avenida Atlântica, em Copacabana, das quais participavam nomes que seriam consagrados no gênero, como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli.

A Bossa Nova, enquanto teve seus 15 minutos de fama, podia ser definida assim: um banquinho, um violão e os joelhos de Nara Leão:

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Nara Leão, na pose que a consagrou

Agora, permitam-me falar-lhes de uns joelhos que nada têm a ver com o jet-set internacional, nem das badalações televisivas ou radiofônicas, mas, em contrapartida, pertencentes a talentosa jovem, gente como a gente, que até hoje nos encanta com sua maviosas atuações. Comecemos pelo começo.

Em 1973, Meu Chefe me convidou para um sarau em seu apartamento, onde várias pessoas, quase todas conhecidas entre si, mostrariam suas virtuosidades, cantando, declamando, representando, tocando, enfim, fazendo suas graças.

Foi reunião das mais artísticas das mais completas, quando tive a chance de calorosamente aplaudir Meu Chefe, que se exibiu cantando sucessos brasileiros, americanos e latinos, e também de exibir-me com minha gaita de boca, surpresa para todos, que não me creditavam essa habilidade.

Em dado momento, com a sala na penumbra, como sói caracterizar-se um bom sarau, anunciaram a próxima atração, a Irmã de Meu Chefe, a qual eu não conhecia nem de nome, que cantaria, acompanhando-se ao violão. Quando a garota posicionou o instrumento, banquinho e cruzou a perna direita sobre a esquerda, a sala se iluminou, um clarão mágico dominou o ambiente, foi a glória! E aquele joelho ficou para sempre em minha lembrança, fazendo com que eu nunca, jamais, em momento algum, o esquecesse!

Passou-se o tempo. Em 2003, trinta anos depois, recebi convite para novo sarau, este no Espaço Cultural Café com Letra, onde se apresentariam Meu Chefe – já aposentado – e sua talentosa Irmã. Compareci, acompanhado de minha mulher, esta bem agraciada no item, para quem falei sobre as prendas da gloriosa: – Você vai ver que joelho mais fascinante!

Chegando ao local, tremenda decepção: a Irmã de Meu Chefe, em solo ou acompanhando-o, se apresentava atrás de um teclado, escondendo, inconscientemente, seus tão famosos atributos físicos!

Quando Luiz Berto criou o Jornal da Besta Fubana, e sendo eu um de seus primeiros colaboradores, cuidei logo de apresentá-lo a Meu Chefe que, além de aderir no ato, trouxe consigo a inesquecível irmã. Esta, desde então, quando lhe apetece, dá-nos sua canja, interpretando belas páginas de nosso cancioneiro e prometendo um CD que, capricho do destino, não tem jeito de sair. Minha esperança era de que, na capa do esperado álbum, os encantadores joelhos apareceriam.

Mesmo devendo-nos o CD, essa Musa foi ordenada Madre Superiora deste Cardinalato, pelo conjunto da obra. Para não ficar devendo aos leitores, aqui vai uma foto sua, entre dois de seus irmãos, no tempo dela pequetitinha, mas já mostrando a que veio:

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Em compensação, aqui vai um espetacular brinde musical para vocês, coisa que eu já deveria ter feito há muito tempo, e venho adiando, sem motivo e sem razão.

Trata-se deste importante trabalho fonográfico, a mim presenteado por Meu Chefe, que entronizei em minhas estantes no nicho seresteiro:

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A estas alturas, quando todos já sabem de quem se trata, passarei a mencionar o real nome de Meu Chefe e de Sua Irmã, uma de nossas Musas.

Goiano Braga Horta é o Cara! Filho de dois grandes escritores e poetas, vez em quando presentes aqui no JBF, nasceu em Goiás Velho, terra de Cora Coralina, tudo isso fazendo com que, desde tenra infância, respirasse os eflúvios da Arte e do Saber.

Cardeal de Igreja Sertaneja e colunista deste jornal, além de escritor, músico, compositor poeta e cantor, é irmão de outros dois grandes astros nossos confrades: a Madre Superiora Glória Braga Horta, acima citada, e Anderson Braga Horta, nosso poeta maior na atualidade brasileira, Prêmio Jabuti, para em pouco dizer tudo.

Neste CD, Goiano se esmerou. Primeiramente, pelo respeito ao Direito Autoral, dando os devidos e merecidos créditos aos criadores envolvidos na composição das faixa que interpreta.  Em segundo lugar, soube mesclar instrumentos eruditos, como o flughorn – taludo ancestral do pistom -, violinos, viola, violoncelo e piano, com seus irmãos populares: clarineta, trompete, trombone, bandolim, violão, baixo, bateria e percussão em geral, resultando disso um som de linda roupagem seresteira, o que me chamou a atenção logo no início de cada canção. E mais, em todas elas, os instrumentistas têm sua vez, mostram sua virtuosidade, com solos impecáveis, o que é difícil de se observar na modernidade que hoje campeia no cenário artístico nacional. Isso é coisa da antiga, como diziam Wilson Moreira e Nei Lopes, na voz de Clara Nunes. De meu tempo, digo eu!

Last, but not least, dominando tudo o que foi dito, há a maravilhosa interpretação vocal do Goiano, seresteiro de proa, que nos inebria em todo o repertório do disco, do qual escolhi, aleatoriamente, duas faixas como amostras de seu trabalho:

Molambo, samba-canção de Jayme Tomás Florence e Augusto Mesquita,

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e Segredo, samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto.

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AFONSO CELSO, O PERFORMÁTICO

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Afonso Celso aos 18 anos

Aconteceu bem no comecinho de Brasília. Ao amanhecer de belo dia ensolarado, um jipe da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, que fazia o percurso Taguatinga/Plano Piloto, capotou já na saída do Setor de Indústria. Imediatamente, juntou um monte de curiosos, que socorreu o motorista, levou-o para o Hospital Distrital – atual Hospital de Base –, onde ele foi devidamente atendido. Umas três horas depois, quando tomou consciência de si, ele perguntou:

– Cadê Seu Afonso?

Foi uma correria que nem te conto! Médicos enfermeiros, pressurosos, dirigiram-se ao local do acidente, encontrando-o desacordado, no meio de umas moitas de capim. Devido ao grande tempo em que fixou exposto aos raios solares, sua cabeça ficou toda inchada, a cara completamente deformada, parecendo um ET, mas com a agravante de que não se lhe viam os olhos. Mais ou menos assim:

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Na época, Afonso era Chefe de Pessoal na NOVACAP, quer dizer, o Homem da Caneta, que assinava a Carteira de Trabalho de tudo quanto era candango. Por isso, o Hospital ficou superlotado de pessoas querendo visitá-lo, do peão ao engenheiro, sendo necessário fazer uma escala para não tumultuar os serviços. Houve um peão, Seu Raimundo Paz, antigo magarefe em Balsas, para quem o Afonso arrumara um gancho, que se emocionou dum tanto ao ver o lastimável estado em que se encontrava o conterrâneo que, ao sair, deixou, na mesinha da sala de espera, uma nota de um cruzeiro! Nunca me esqueço desse lance!

Afonso era duro na queda. Aliás, queda era com ele mesmo!

Doutra feita, bem antes, ainda éramos meninos, eu ia saindo da escola, quando me disseram que ele caíra do pé de imbu de nosso quintal e quebrara o braço. Eu, no caminho de casa, ia imaginando onde colocariam os pedaços do braço, achando que a quebra era igual à de um prato de loiça ou dum copo de vidro. Ao chegar, já o encontrei com o braço direito entalado – não existia gesso por aquelas bandas – e, com a mão esquerda, tocando seu vialejo, como chamávamos a gaita de boca naquele em nosso sertão.

Outras quedas houve, a maior delas com ele perto dos 70, por demais traumática, mas da qual saiu numa boa.

Outra coisa em que ele era craque era exibir-se! Foi a única pessoa, além do Mudo do Salomão, que atravessava o Rio Balsas – largura de 60 metros – mergulhando, chegava à outra margem, dava um sinal com uma das mãos e voltava, isso de um fôlego só! Foi também a única pessoa que vi caminhar descalço sobre brasas avivadas nas fogueiras de São João!

Em Balsas, havia dois pés de eucalipto, um em nossa casa e outro no Egito, sítio distante cerca de meia légua, cujas folhas eram muito procuradas para chás com fins medicinais. Como ambos tinham caules finos, sem galhos, e copas muito altas, feito tetos de arranha-céus, era necessário alguém que subisse para colhê-las. Em Balsas, só o Afonso era capaz dessa proeza!

Afonso Celso de Albuquerque e Silva, meu irmão, nasceu em Balsas (MA), no dia 8 de junho de 1933. Filho de Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, era o sexto de uma prole de dez, da qual eu sou o sétimo. Ontem, se vivo fosse, faria 81 anos. Coincidentemente, seu aniversário caía no de outro irmão, o Carioquinha, nascido em 1928. Esta é a foto mais antiga que temos dele:

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Afonso é esse à esquerda, encostado no sofá – Eu sou o de macaquinho e cabelo cacheado

Este outro flagrante foi colhido também em nossa infância:

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Afonso Celso e Raimundo Floriano

Em 1947, concluído o Curso Primário, Afonso embarcou na carroceria dum caminhão com destino a Goiânia, onde morava nossa avó materna, para prosseguir nos estudos.

Ele sempre gostou de ter seu dinheirinho. Em Balsas, exercia a profissão de sineiro, cobrando 2 cruzeiros de cada comerciante para bater as horas de abrir e fechar as lojas, atividade que me repassou ao sair de lá. E de vestir-se com roupinhas mais ajeitadas, coisas que a minguada mesada paterna era incapaz de suprir, razão pela qual, desde que chegou à capital goiana, paralelamente aos estudos, trabalhou duro para concretizar seus desejos e vaidades.

Como emprego fixo, exerceu a função de repórter fotográfico na Foto HB, do armênio Haroutiun Berberiam. Naquele tempo, as fotos eram coloridas manualmente, no que o Afonso era perito. Como bico, foi hipnotizador, professor de jiu-jítsu, contrarregra radiofônico, ator teatral e gaitista, na Rádio Brasil Central e posteriormente, na Rádio Clube de Goiânia, compondo o elenco efetivo do Carrossel da Semana, badalado programa de auditório.

Em dezembro de 1957, o Carrossel da Semana veio apresentar-se aqui em Brasília, num espetáculo para Juscelino e a candangada, ocasião em que o Presidente o convidou a integrar a equipe da construção da Nova Capital. Convite aceito, Afonso, já com o Segundo Grau completo, foi admitido como Assistente Administrativo da Divisão de Pessoal da NOVACAP.

Dentro de pouco tempo, galgou ao cargo de Chefe de Pessoal e, com o decorrer do tempo, até aposentar-se, foi Diretor de Pessoal da DTUI – Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos e da COTELB – Companhia de Telefones de Brasília, depois TELEBRASÍLIA – Telecomunicações de Brasília.

Seresteiro, paquerador, romântico e apaixonado, casou-se, a 6 de novembro de 1963, com Lígia Magnólia Reis e Silva, que lhe deu três filhos: Luciene, Patrícia e Afonso Celso.

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Afonso e Lígia, no dia do enlace matrimonial

Em 1973, Afonso bacharelou-se em Ciências Jurídicas e, ao aposentar-se, montou seu Escritório de Advocacia, onde obteve magnífico êxito, não só na esfera trabalhista, sua maior especialidade, como em outras áreas. Teve como cliente, por exemplo, num processo de emigração, o designer austríaco Hans Donner que, juntamente com a Globeleza – essa vestida como nasceu –, posou com ele para uma foto, troféu exibido e guardado com muito carinho, mas que se perdeu, como muitos outros flagrantes de momentos análogos em que foi partícipe, depois que ele nos deixou.

Afonso curtia a vida. Foi um globetrotter: conhecia todo o Brasil, as 3 Américas – do Norte, do Sul e Central -, o Caribe, o Oriente Médio, e toda a Europa. Tendo uma filha residente em Munique, Alemanha, fez daquela cidade sua base para percorrer os países do Velho Continente.

Tudo o que usava era da melhor qualidade – óculos, relógio, tênis, carro, computador e periféricos -, e suas gaitas, as germânicas Hohner, 64 vozes, em várias afinações, eram compradas diretamente na fábrica. Ei-lo aqui com uma delas:

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Afonso e sua Hohner

Além da gaita, Afonso também tocava sanfona e escaleta. Na era do teclado, ele rapidamente se adaptou, incluindo esse instrumento em seu show musical, às vezes até com um solo na gaita, acompanhando-se no teclado, ou vice-versa. Eis o último que possuiu, com sua coleção de gaitas.

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Afonso Show, seu teclado e suas gaitas

Afonso era dotado de habilidades incontáveis, dentre elas a prestidigitação, a arte origami, a computação gráfica e o artesanato em madeira, papelão, metal, plástico, isopor e buriti.

Tudo na vida tem início, meio e fim. Embora Afonso Celso fosse duro na queda, havia algo que lhe vinha bagunçando o coreto há certo tempo: o coração! Vez em quando, pregava-nos sustos! E que sustos!

No dia 04.04.04 – repararam na data, não é performática? – um domingo, Afonso chegou de Palmas, onde mora uma de suas filhas, e, ao meio-dia, telefonou-me convidando para uma grande pescaria no mês de julho no Araguaia. Confirmada minha presença, saí para uma festinha de aniversário à qual estavam presentes muitos balsenses. Mais ou menos às 5 da tarde, recebi ligação comunicando-me que ela havia morrido. Foi difícil acreditar, pois eu, ao meio-dia, falara com ele!

Infelizmente, era verdade! Depois do almoço, deitou-se para um cochilo e nunca mais acordou. Caprichos do coração. Consola-nos saber que se foi mansamente, sem muito sofrer.

Esta foi a última foto que tiramos, com os dez irmãos juntos:

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Afonso, Raimundo, Bergonsil, José, Rosimar, Pedro, Maria Isaura, Maria dos Mares, Maria Alice e Maria Iris

A 8 de junho de 2003, curtindo as coisas boas da vida, como era de seu feitio, Afonso comemorara a chegada aos 70 em grande estilo, em ágape musical e dançante, com a presença da família, dos confrades do Rotary e de seus amigos leais.

Perpetuando sua memória musical, Afonso deixou-nos este CD, no qual apresenta solos na gaita e no teclado:

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Nestes dois flagrantes, vemo-lo em atuação:

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Foi o Afonso que me apresentou a gaita com chave e me ensinou a fazer os baixos com a língua, dando a impressão de que se ouvem dois instrumentos. Outra técnica especial dele, com o mesmo efeito, nunca fui capaz de assimilar: tocar oitavando, o que produz efeito de rara beleza sonora e também nos faz pensar em dois instrumentos a tocar.

Ontem, 8 de junho, foi seu aniversário. Como pequena amostra do talento desse querido e saudoso irmão, escolhi, de Ernesto Lecuona, a fantasia Malagueña, em solo de gaita:

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CUSPIDORES, CUIDADO COM A BRUZACÃ!

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A Bruzacã: metamorfose ambulante

Peraí! Mas o nome da bola não é Brazuca? – dirão vocês. E eu respondo: – Calma no Brasil! Até eu me enrolei, caçando um jeito de redigir esta matéria sem muita dispersão, eis que meu intuito é especular sobre a mania que têm os jogadores de futebol de cuspir a toda a hora.

Esse nome Brazuca, sempre me deixava muito perturbado, por não atinar eu com seu motivo ou significado. Alguns explicam que, assim como carinhosamente chamamos os portugueses de portugas, eles, em contrapartida, nos chamam de brasucas. Bom, neste caso, a grafia seria sem o “z” da Brazuca, como batizaram nossa bola. Eis que a derivação vem de Brasil.

E estava eu, raspsodo, cordelista, logogrifeiro, diascevasta, cruciverbista, parafrasta, calemburista, decifrador, enigmático, filósofo, profeta, Cavaleiro da Távola Sertaneja, Imperador da Bandeira do Divino, paladino das almocrevadas do sertão nordestino, enrolado com semelhante dilema, quando me deu uma estralada no coco cabeludo: todos esses títulos me foram conferidos – ou melhor, por mim usurpados – após a leitura do livro Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, no ano de 1971.

A ficha caiu! Está naquela obra-prima a solução desse grande mistério! A Pedra do Reino apresenta-nos um ser mitológico que habita o universo das crendices de todos os sertanejos que se prezam: a Besta Bruzacã.

Inconscientemente, mas inspirados pelos eflúvios astrosos de Ariano, os próceres da CBF e da Fifa nomearam nossa bola com o anagrama da entidade mitológica sertaneja: Brazuca. Isso porque a danada aparece com vários nomes, maneiras e figuras diferentes, conforme a exigência da ocasião requerente de sua presença.

A Bruzacã, com a denominação de Hipupriapa, ou Hipupiara, é uma diaba-fêmea do mar e do litoral, uma bicha horrorosa, mas que desempenhou papel importantíssimo na epopeia empreendida por Dom Pedro Dinis Quaderna, o herói do livro. Adiante, duas de suas ilustrações, uma de autoria do gravador xilógrafo Taparica, baseada em desenho de Frei Vicente do Salvador, e outra saída da imaginação do próprio artista sertanejo:

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No cenário futebolístico pós-Penta, a Bruzacã apareceu duas vezes, com nomes modificados: na Alemanha, em 2006, como Teamgeist, que significa “espírito de equipe”, e, na África do Sul, em 2010, como Jabulani, “trazendo alegria para todos”. Nelas, o Brasil se ferrou:

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A Bruzacã, travestida de Teamgeist e Jabulani

Agora, a Bruzacã surge-nos anagramada aqui no Brasil, levando-nos a fazer estas advertências aos jogadores, aprecatai-vos! Cuspidores futebolísticos, cuidado com Bruzacã!

Passemos, doravante e por conseguinte, ao item principal desta matéria, que é o cuspe no Futebol Mundial.

É deveras impressionante esse fenômeno, que se observa em todos os cantos da Terra, mostrado, às escâncaras, pelas câmeras da TV. Há muito tempo, a colunista Danuza Leão já se mostrava estarrecida com o as escarradas que os jogadores de futebol executam em campo.

Uma das explicações que encontrei na Internet é a de que a cusparada dos jogadores se constitui, num mecanismo de defesa do organismo para evitar irritação das mucosas associado a mudanças nas características normais da constituição da saliva. Se fosse assim, os jogadores de basquetebol, que se movimentam muito mais, estariam constantemente cuspindo, o que nunca acontece. O jogador de futebol é único atleta que cospe no campo onde exerce sua profissão.

Só para ilustrar, aí vão três imagens que garimpei na Internet. Respeitando a privacidade dos focalizados, coloquei-lhes uma venda, para que não sejam identificados:

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E não é só no terreno gramado não! Às vezes, o atleta utiliza-se da escarrada para atingir a cara do adversário. Houve um que foi mais além. Um certo Nico, se não me engano de nome, que ficou milionário no futebol, em determinado jogo, ao ser expulso de campo, para vingar-se do árbitro, cuspiu na bola, que tanta fama lhe trouxera no cenário internacional.

Acho, salvo melhor juízo, que o problema é falta de civilidade mesmo.

Quando eu estudada no Colégio Diocesano, em Teresina (PI), numa aula de boas maneiras, o preceptor expendeu seu juízo de que tudo que sai de nosso corpo é excremento. Assim, as pessoas jamais deviam cuspir em público, preservando-se do mesmo modo que procedem no ato de defecar ou no momento da micção.

Questionado sobre como devia proceder alguém que se visse possuído de insopitável desejo de cuspir, o preceptor respondeu que, nesse caso, a pessoa devia cuspir no lenço. Lembro bem da reação do Almir, um parnaibano, que o interpelou, achando que era nojento de mais guardar no bolso um lenço cuspido, ao que o preceptor matou a pau:

– E o que é que você faz com o lenço depois de assoar o nariz?

E terminou a aula dizendo que o correto mesmo seria a pessoa engolir o cuspe, mesmo nas ânsias de mulher parida.

Eu até que reconheço a impossibilidade de cada jogador ter um lenço à mão, sempre que lhe vem o irrefreável desejo. Mas eles devem se convencer de que estão num palco, diante de uma plateia que pagou caro para assistir ao espetáculo esportivo e não para vê-los expelir seus dejetos orgânicos. Ainda mais diante das câmeras, que transmite o ato, ao vivo e em cores, para os quatro cantos do Mundo.

No próximo dia 12, a bola começa a rolar neste Mundial, com o jogo Brasil x Croácia. Embora o resultado seja perfeitamente previsível, com goleada a nosso favor, não custa nada o alerta. Olho vivo com a Bruzacã!

Tem um jogador de fama internacional em nosso escrete, esperança da torcida brasileira, que, de tanto desabar no gramado, ganhou o apelido de cai-cai. Lembram-se dele?

Acho que é de tanto escorregar no cuspe!

MANEZINHO ARAÚJO, O REI DA EMBOLADA

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Manezinho Araújo, em charge de Nássara

Manuel Pereira de Araújo o Manezinho Araújo, nasceu em Cabo de Santo Agostinho (PE), a 7.09.1910, e faleceu e São Paulo (SP), a 23.05.1993. Cantor, compositor e artista plástico, era filho de José Brasilino de Araújo e Joventina Pereira de Araújo.

Funcionário da antiga Estrada de Ferro Great Western, desde a adolescência interessou-se por música, frequentando as rodas boêmias do bairro de Casa Amarela, no Recife, onde estudava. Numa delas, ficou conhecendo o cantor de emboladas Minona Carneiro, que o ensinou a cantá-las.

Com a Revolução de 1930, ingressou como soldado nas forças revolucionárias, mas, quando seu pelotão chegou à Bahia, o governo se havia rendido, e a tropa viajou para o Rio de Janeiro. Nessa época, Manezinho já cantava emboladas e chegou a se apresentar em cabarés do Rio.

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Manezinho, em ótima caricatura

Retornando de navio para Pernambuco, na Bahia embarcaram os artistas Carmen Miranda, Josué de Barros, Bentinho e Almirante, que vinham de uma temporada em Salvador e iam apresentar-se no Recife. Em uma roda musical a bordo, Manezinho, ainda na farda, como Sargento, agradou muito com suas emboladas. Carmen Miranda, então, aconselhou-o a ir para o Rio de Janeiro, e o violonista Josué de Barros prometeu lançá-lo no rádio.

Ao chegar em Pernambuco, já desligado da caserna, ficou por ali um tempo, mas, no início de 1933, se mudou para a capital carioca, hospedando-se com Josué, no Bairro de Santa Teresa, onde ficou ensaiando. Em abril do mesmo ano, Josué levou-o à Rádio Mayrink Veiga, onde Manezinho se apresentou, sendo escalado para voltar na semana seguinte. Na segunda apresentação, Ademar Casé, que comandava o Programa Casé, na Rádio Philips, ofereceu-lhe um contrato com exclusividade. Manezinho aceitou, participando duas vezes por semana no programa.

Ainda em 1933, foi levado por Josué à Odeon, gravando duas emboladas de sua autoria e assinando contrato com a gravadora. E, daí pra frente, sua carreira deslanchou.

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Flagrantes de Manezinho Araújo

Três anos depois, fez sua estreia no cinema, cantando duas emboladas no filme Maria Bonita. Atuou ainda em diversos outros filmes e participou de 22 cinejornais da Atlântida, em que aparecia na parte final cantando um verso de embolada ou contanto uma história.

De 1937 a 1940, gravou na Odeon algumas emboladas de sucesso, como Segura o Gato, Pra Onde Vai, Valente?, Quando eu Vejo a Margarida, Sá Turbina e Sordado Aburricido, todas de sua autoria.

Em 1941, deixou a Odeon, depois de gravar, além das emboladas, cocos, frevos, sambas, etc. Em 1945, obteve grande sucesso com a gravação de Dezessete e Setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima.

Manezinho foi um dos pioneiros na gravação de jingles no Brasil, tendo participado da campanha dos produtos Lifebuoy, e também o primeiro artista a ser contratado por uma fábrica, a do Óleo de Peroba, cantando duas vezes por semana, um na Rádio Nacional, e outra na Mayrink Veiga.

Durante sua carreira, apresentou-se em todas as regiões do País, cantou em diversas casas de espetáculos gravou dezenas de discos em diferentes gravadoras, quase sempre com enorme aceitação. A seguir, capas alguns discos que gravou, incluindo um CD, lançado pela Editora Revivendo, e elepês facilmente encontráveis em sebos virtuais:

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Em 1954, desgostoso com o meio artístico, que criava fãs-clubes para autopromoção, decidiu interromper sua carreira e realizou um espetáculo de despedida no Tijuca Tênis Clube, ao qual compareceram cerca de 15 mil pessoas. Com a renda obtida nesse show, inaugurou em Copacabana um restaurante típico, o Cabeça Chata, onde passou a cantar e contar causos.

No início da década de 1960, começou também a pintar.

Em 1962, fechou o restaurante e transferiu-se para São Paulo, abrindo outro Cabeça Chata.

Meses depois, deixou o negócio, dedicando-se exclusivamente à pintura, atividade em que também obteve enorme êxito.

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Dois quadros de Manezinho Araújo

Como amostra de seu trabalho, escolhi duas emboladas ambas de sua autoria:

Pra onde Vai, Valente?;

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e Cuma É o Nome Dele?

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PASTORIL DO VELHO FACETA

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Velho Faceta

O Velho Faceta já foi apresentado aqui, em outras oportunidades, pelo Editor deste jornal, por Geraldo Pereira e por mim mesmo. Mas nunca é demais reacendermos nos leitores a memória de nossos ídolos populares, trazendo-os à baila sempre que se possa.

Em meu caso especial, mais isso se justifica, pois falar do Velho do Pastoril é falar de mim mesmo. Frustrado em minha carreira circense, continuo a trazer dentro de mim o palhaço que não consegui ser para sempre, mas hoje, aonde quer chegue, alegro o ambiente com piadas, chistes, pegadinhas cançonetas e charadas.

Há uns 25 anos, ensaiei com minhas filhas o grito do palhaço na rua, e isso se transformou no maior sucesso em todas as festinhas a que comparecíamos. Eis aqui uma tomada, feita em julho de 1991 – Elba com 7 anos e Mara com 5 –, num quiosque à beira do Rio Maravilha, em Balsas, minha terra natal:

Isso posto, voltemo-nos para nosso homenageado.

Constantino Leite Moisakis, o Velho Faceta, nasceu em Carpina, Pernambuco, no dia 08.01.1925.

Seu pai queria que ele estudasse para formar-se em doutor, mas Constantino optou por ser Velho do Pastoril e, até à sua morte, em agosto de 1986, esforçou-se para conservar acesa essa brincadeira típica do Estado de Pernambuco.

Preservando a tradição, o Velho Faceta manteve sempre regras originais em seu pastoril. Nas apresentações, que começavam às oito da noite e terminavam só na madrugada, dividia o palco com as suas pastoras, dançando, dizendo piadas, fazendo charadas e entoando cançonetas. Sempre com um tom malicioso, apimentado, Faceta inebriava o público.

Não gostava de se apresentar nos centros mais evoluídos, preferindo os pequenos povoados, onde a miuçalha sabia melhor participar da folgança. Apresentava também seu Pastoril em folias interativas, quando a plateia pagava para ouvir piadas chulas ou impropérios contra outras pessoas, presentes ou ausentes.

As canções de seu repertório gravado foram amenizadas pela mídia, mas as rimas e a rica imaginação dos ouvintes funcionam como tradutores daquilo que ele realmente queria dizer.

Quase não ficaram registradas imagens do Velho Faceta. As poucas que existem na Internet, foram editadas das capas de seus elepês, como estas:

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(Abro parêntese, aproveitando, já que estou com a mão na massa, para comunicar a todos os leitores que acabo de assumir meu verdadeiro papel no mundo histriônico, bufão, incorporando duas personalidades virtuais, a do Palhaço Seu Mundinho e a do Velho Fulô. Espero, em 2016, publicar um livro com presepadas dos dois. Fecho parêntese):

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Seu Mundinho e Velho Fulô

Houve muitos Velhos de Pastoril no Nordeste: Cebola, Dengoso, Futrica, Rabeca, Xaveco, Balalaica, Xumbrega, Mangaba, Barroso, irmão do Velho Faceta.

O pastoril é um auto natalino muito difundido no Nordeste, geralmente realizado no período que vai do Natal ao Dia de Reis. Em suas origens européias, os pastoris – adjetivo substantivado de “autos pastoris” – eram dramas litúrgicos apresentados nas igrejas, nos quais se teciam loas aos personagens do Natal. Chegou ao Brasil trazido pelos jesuítas, havendo indícios de sua existência aqui já no Século XVI.

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Pastoril familiar

Os brasileiros logo os assimilaram, e de tal maneira que criaram outra espécie de espetáculo: o pastoril profano.

Sem as pastorinhas angelicais, entraram as escrachadas. Sem as ladainhas religiosas, chegaram as sátiras sociais.

O pastoril de ponta-de-rua é a dessacralização do presépio ou lapinha. Nele, as mocinhas dos cordões azul e encarnado foram substituídas por mulheres-da-vida, com um Velho ou Bedegueba. Com tal elenco, as funções já não se regulam pela moral vigente. O sexo é o carro-chefe. Neste, cabras muito safados fazem as vezes das pastoras:

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Pastoril profano, escabroso e esculachado

Outro pastoril famoso, é o do Velho Xaveco, apresentando lindas pastoras, escolhidas ‘a dedo” como ele gosta de dizer:

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Pastoril do Velho Xaveco

Atualmente, quem faz sucesso em todo o Nordeste é o Velho Mangaba, personagem criado e vivido pelo ator, músico, compositor, dançarino e palhaço Walmir Chagas, que também é ilustre membro da Comunidade Fubânica. Vejam-no aqui em ótima companhia:

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Velho Mangaba, cercado de belezuras

Podemos considerar Walmir Chagas um teimoso, um persistente e, por isso mesmo, um herói, porque hoje o pastoril profano está praticamente apagado na memória do povo, e os poucos ainda renitentes quase não mais despertam na assistência o mesmo interesse de outrora. É o progresso!

Voltemos ao Velho Faceta. Em 1970, pelas mãos de Hermilo Borba Filho, o Velho Faceta chegou à gravadora Bandeirantes, fazendo sucesso nacional com as músicas Nabo Seco, Dona Maçu, É Mais Embaixo, Bacorinha, e A Espiga. Chegou a lançar 3 elepês:

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E aqui está o mérito do Velho Faceta: consagrou no vinil um bocado de nossas tradições nordestinas para todo o sempre.

Como pequena amostra de seu trabalho, aí vão duas faixas, na gravação das quais participaram o sanfoneiro Edinaldo Castanha, o zabumbeiro Zeca, o pandeirista Jegue, o triangueiro Ivo e as pastoras Terezinha, Biuzinha, Genilda, Biazinha, Cleides e Séo:

Chamada do Velho Faceta, marcha, Boa-Noite do Velho Faceta, fala, e Amor de Criança, bolero;

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e Cuidado, Cantor, embolada.

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ARY LOBO, O HOMEM DO SPUTNIK

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 Ary Lobo: morador da Lua

Gabriel Eusébio dos Santos Lobo, o Ary Lobo, cantor e compositor, nasceu em Belém do Pará, a 14.08.1930, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, a 22 de agosto de 1980, aos 50 anos de idade.

Era soldado da Aeronáutica, quando se apresentou em programas de calouros da Rádio Clube do Pará. Por essa época, fez parte do conjunto Namorados Tropicais, quando conheceu o então compositor Pires Cavalcanti que, além de influenciar sua maneira de cantar, convenceu-o a mudar-se para o Rio de Janeiro.

Na capital fluminense, entrou em contato com o pianista e compositor Gadé, que o levou para a Rádio Mauá, onde começou sua carreira como cantor regional nordestino.

Lançado em disco pela dupla Gadé/Valfrido Silva, gravou na RCA Victor vários discos 78 RPM, e um LP intitulado Aqui Mora o Ritmo, com A Mulher Que Vendia Siri, de Severino Ramos e Alias Ramos e Garoto do Amendoim, de B. Lobo e Manoel Moraes, sendo as músicas mais tocadas:

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Em 1962, ainda na RCA, gravou o LP Ary Lobo, incluindo duas composições suas, Moça de Hoje, com Jacinto Silva e Eu Vou Pra Lua, com Luiz de França, que obteve estrondoso sucesso, dominando todas as paradas. No ano seguinte, lançou o LP Poeira de Ritmos, incluindo Quem Encosta em Deus Não Cai, de João do Vale, José Ferreira e Ary Monteiro, e Escada da Glória, de Adoniran Barbosa e Edmundo Cruz.

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Sempre na RCA Victor, lançou os LPs Ary Lobo e Seus Grandes Sucessos, em 1964, destacando Último Pau-de-arara, de Venâncio, Corumba e J. Guimarães, e Vendedor de Caranguejo, de Gordurinha; Zé Mané, em 1965, com Cheiro de Gasolina, de Severino Ramos e Barros de Oliveira, e Madame Paraíba, dele e Dílson Dória; Quem É o Campeão, em 1966, com a faixa-título dele e Luiz Boquinha; Ary Lobo e Seus Maiores Sucessos, em 1971, com Evolução, de J. Cavalcanti, Lino Reis e Aguiar Filho, e Paulo Afonso, de Gordurinha.

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Sua discografia contabiliza, além de fonogramas em 78 RPM, 9 LPs.

Meu acervo contém 121 faixas representativas do seu trabalho. Ele compôs mais de 600 títulos, gravados por ele e outros intérpretes, sempre defendendo ferrenhamente a música nordestina de raiz.

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De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, e voz parecida, cantando ritmos variados, como baião, xote, coco, samba, frevo, samba-canção, arrasta-pé e toada, teve sua época de ouro nos Anos 1950 e 1960, retratando sempre a vida e os costumes do Nordeste, às vezes em números divertidos, como Cheiro de Gasolina e Madame Paraíba.

Seus maiores sucesso, Eu Vou Pra Lua, Súplica Sertaneja, de Gordurinha, e o Último Pau-de-arara, permanecem dominando até os dias correntes, merecendo constantes regravações pelos mais importantes forrozeiros deste país.

Para mostrar-lhes um pouco de seu trabalho, escolhi os baiões Eu vou Pra Lua, dele e de Luiz de França, e o Último Pau-de-arara, Venâncio, Corumba e J. Guimarães:

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FORRÓ SANFONADO, A ALEGRIA DA LATADA

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Triângulo, sanfona e zabumba: ai, que saudade me dá!

No dia 31 de maio de 2008, eu iniciei minha coluna como segue.

Ontem, 30.05.2008, a TV Globo anunciou um Som Brasil em homenagem a Luiz Gonzaga, o Lua, o Gonzagão, o Rei do Baião, logo após o Programa do Jô. Estava previsto para começar à 01h25 da madrugada de hoje, com término às 02h25, ou seja, 50 minutos e duração que, descontados os comerciais, resultariam em 40 minutinhos dedicados à alma e ao coração da Cultura Musical Nordestina. Um gênio que nos legou 658 registros fonográficos – dos quais possuo a maioria –, todos considerados obras-primas da MPB, alijado nos socavões da noite, como se de propósito, para que pouca gente tomasse conhecimento do fato. Eu mesmo, atolado os quatro pneus pelo Forró, até que tentei me manter acordado, mas o sono foi superior à devoção. Por isso, não posso comentar o que se passou ali, apenas registro a ocorrência.

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Trio Siridó, em sua formação inicial Mocó, Torres do Rojão e Djaci

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Trio Siridó e Banda: Valdinei, Taciva, Torres, Cipó e Dico

Não é de se estranhar esse descaso. Há muito tempo, o Forró vem recebendo intensa agressão pela modernidade dos teclados e das guitarras, sendo atualmente quase impossível assistir-se na TV a programa em que os forrozeiros se apresentem na composição clássica: sanfoneiro, zabumbeiro e triangueiro. Com tristeza, vejo o Trio Siridó, que eu considerava o mais legítimo representante do Forró pé-de-serra aqui do Planalto Central, transformado em Trio Siridó e Banda, com parafernália eletrônica capaz de lotar a carroceria dum caminhão dos grandes. É a pertinácia do amigo Torres, seu líder, na luta pela sobrevivência.

Mas, afortunadamente, a pureza ainda existe. Meu amigo, minha amiga, vocês que estão lendo estas maltraçadas procurem aí em sua cidade e ainda encontrarão autênticos trios nordestinos – em outra oportunidade, direi da sua invenção – com repertório e competência para animar suas festas juninas e outras afins. Caso isso já não mais seja possível, apresento-lhes pequena amostra do trabalho desses abnegados, que tanto contribuíram para manter em nosso espírito a pureza e a simplicidade da infância e da adolescência.

São consagrados sanfoneiros, com ritmos juninos variados, a mostrar-nos um pouco de sua arte, como Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Severo, Zé Gonzaga, Abdias, Mário Gennari Filho, Mário Zan, Gérson Filho, Zé Calixto, Zé Piatã, Luiz Sérgio, Kariri, Manoel David, Negrão dos 8 Baixos, Zé Cupido, Sanfoneiro Guido, Zé Paraíba, Zé do Forró, Tony Martins, Raimundo Soldado, Hugo Cantarino e Severino Januário.

Bom, isso foi em 2008. Mas, depois disso, tive que dar a mão à palmatória no que se refere à Rede Globo, diante o tratamento que deu a Luiz Gonzaga, nosso ídolo maior, no ano passado, quando se comemorou o Centenário do Rei, tanto em sua central, quanto nas emissoras regionais. Está de parabéns à Globo!

Também minha visão relativamente ao Forró em seu todo foi modificada quando, a 27 de maio de 2009, fui empossado na Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Musica Nordestina, no Recife, tendo como Patrona a cantora Elba Ramalho, que compareceu à solenidade e deu grátis um show de quase hora e meia.

Naquela noite, conheci uma Nação Forrozeira que me era estranha e ali acorreu para me homenagear. Astros como Flávio Leandro, Rogério Rangel, Eliezer Setton, Xico Bizerra, Terezinha do Acordeom, Júnior Vieira, Anchieta Dali, Luizinho Calixto, Cristina Amaral, Kelly Rosa, Hélio Donato e Conjunto Forroviário, Nena Queiroga, Bia Marinho, Josildo Sá, Targino Gondim, Cezzinha, Fábio Simões, Arimateia Ayres, Lourdinha Oliveira, Tostão Queiroga, Anjo Caldas, Gabriel Sá, João Cláudio Moreno, Gonzaga Leal, Valter Azevedo, Arluce Carvalho, Jeová da Gaita, Nilson Araújo, Ismael Gaião, Paulo Wanderley, Antônio Marinho, Greg Marinho, Paulo Carvalho, Zelito Nunes, Neide Santos e Júnior do Bode.

Infelizmente, nós aqui do quase-sul-maravilha desconhecemos a existência de pessoas tão talentosas e que agora, passadas as deferências a Gonzagão, se encontram no escaninho do esquecimento para a grande mídia.

Felizmente, temos, em contrapartida, o Jornal da Besta Fubana, maior movimento cultural hoje existente no Brasil, que postou diariamente, em 2013, uma composição diferente de Luiz Gonzaga e continua com o espaço aberto a todos os cronistas, compositores e intérpretes brasileiros. Em 2017, será a vez de homenagearmos diariamente Jackson do Pandeiro, em seu Centenário, postando músicas por ele compostas ou gravadas.

Meu propósito, hoje, é apresenta-lhes o trabalho de nossos sanfoneiros, em números instrumentais, executando os ritmos mais representativos do Forró, quais sejam o arrasta-pé, o baião, o xote, o rojão e, pra não dizer que não falei de flores, o choro e o samba, muito dançados em nossas festas de latada.

Como são inúmeros esses geniais sanfoneiros, foi difícil escolher, dentre todos, os seis abaixo, que nos deliciarão com suas virtuosidades:

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Luiz Gonzaga, Mário Gennari Filho e Zé Cupido

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Dominguinhos, Zé Calixto e Kariri

Vamos ouvi-los:

ARRASTA-PÉ: São João a Roça, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com Luiz Gonzaga;

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BAIÃO: Baião Caçula, de Mário Gennari Filho, com o autor;

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XOTE: Forró de Mané Vito, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com Zé Cupido;

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ROJÃO: Bigode de Arame, de Dominguinhos e Guadalupe, com Dominginhos;

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CHORO: Escadaria, de Pedro Raimundo, com Zé Calixto;

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e SAMBA: Nacional de Brasília, autor desconhecido, com Kariri.

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HINOS DO FUTEBOL BRASILEIRO

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Começou o Campeonato Brasileiro de Futebol! Desde o dia 20 de abril, o Brasileirão/2014 ta botando pra derreter!

E não tem escapatória, meus camaradinhas. Daqui até a primeira quinzena dezembro, um só assunto será dominante em todas as rodas e conversas, no boteco na esquina, no trabalho, em qualquer local onde se reúnam legítimos torcedores e outros não tanto: o Campeonato Brasileiro. E, como subproduto, a Copa do Brasil, Taça Libertadores da América e até o Mundial de Clubes, se nossos plantéis prosseguirem na jornada gloriosa rumo ao título máximo, o que tá muito difícil.

No meio de tudo isso, como subproduto, a Copa do Mundo, cujo resultado influirá, positiva ou negativamente, no resultado das Eleições Gerais, com 1º Turno em outubro e 2º Turno em novembro. É muita cana pra moer, muito assunto pra arder e encardir.

Comportamento perfeitamente compreensível num país detentor de inúmeras glórias futebolísticas, único Pentacapeão em todo o planeta, onde os governantes usam os chavões do esporte bretão pra justificar sua filosofia de governar, tais como em time que está ganhando, não se mexe; o jogo só acaba no final do segundo tempo; bola pra frente, e outros análogos.

Se futebol será o assunto de todo brasileiro, também me animo a dar minhas cacetadas nessa jurisdição tão árida para mim e na qual sou completamente ignorante.

Ignorante sim, pois não sei nem dizer o nome dos jogadores do time, o Vasco da Gama, para o qual torço desde 1949. O que sei mesmo é sair na rua com a Banda da Capital Federal, tocando para o povão, a cada título conquistado pela Seleção Brasileira. Aí, meus camaradas, eu fico feito uma besta quadrada, mas só em relação ao Escrete Nacional, pois há muito tempo meu time do coração teime e não me proporciona alegria alguma para merecer meus salamaleques.

Em Brasília, há muitos e muitos anos, meu carro é conhecido nas ruas pelas duas bandeiras do meu time que o ornamentam. Todos os flanelinhas do Distrito Federal, ao vê-lo de longe, já vão me apontando a vaga e pensando lá com seus botões: “tá chegando aquele vascaíno babaca, que sempre nos remunera a vigiada com moeda de um reais”. Era assim, tenho que declarar. De certo tempo pra cá, torcedores de outros times, suponho, deram para quebrar as bandeiras, fazendo com que eu desistisse, depois de umas vinte reposições, dessa marca tão característica de minha a pessoa. Agora, só um adesivo no vidro traseiro, para não ser tachado de infiel.

Como declarei acima, não sei a escalação do Vasco, que hoje joga ignoro com quem. Apenas posso dizer que tem goleiro, defesa, meio-de-campo e atacantes.

E ainda bem! Vocês, por acaso, viram o escudo do Vasco lá em cima? Não viram? Explico-lhes: este ano, fomos novamente rebaixados – contra Juiz, nem a pau! Como não há mal que não traga algo de bom, há a compensação de que não sofrerei todas as segundas e quintas-feiras, com as indefectíveis piadas e gozações dos impiedosos, que só se preocupam, felizmente para mim, com os times pica-grossa da Primeira Divisão.

Enquanto isso, nós, os coitadinhos, vamos remando, labutando para, pelo menos, não descermos para a Terceirona. Vejam a boa companhia em que nos encontramos:

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Mas o hino do Vascão eu sei cantar. E é para vocês, meus amigos, que talvez nem se amarrem muito nesse negócio de futebol, porém alimentam simpatia ou amor por um dos times que ora disputam o Brasileirão, na Primeira Divisão ou na Segundona, que pesquisei e consegui incorporar a meu acervo os hinos de todos esses valorosos esquadrões. Na hipótese de o leitor querer ouvir o de seu time, basta entrar em contato pessoal comigo neste endereço virtual: raimundofloriano@brturbo.com.br.

Há uns 5 anos, havia um site de busca, atualmente deletado, no qual eram disponibilizados todos os hinos oficiais do Futebol Brasileiro, com estatística das visitas. Para surpresa minha, o hino mais acessado era o do Santa Cruz, que recebia dez vezes mais downloads que o segundo colocado.

E é ele que disponibilizarei agora para vocês. Vamos ouvir, portanto, o Hino do Santa Cruz, composição de Capiba, com o Coral e Orquestra Musika.

Mas antes, deixem-me comentar um pouco a urucubaca que anda perseguindo a torcida vascaína. Não é chorar pele leite derramado não. Aceito placidamente todo o resultado do jogo jogado. Mas tudo tem limite. Vocês mesmos vão tira suas conclusões, vendo estas imagens:

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Gol do Vasco anulado e gol em impedimento validado

Com vocês, o Hino do Santa Cruz:

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BRASÍLIA, 54 ANOS: CAPITAL NACIONAL DOS SHOPPINGS

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Shopping Center em dia calmo

21 de Abril de 2014! Hoje, aos 54 anos, Brasília é o Paraíso dos Shopping Centers!

Daqui de minha cadeira, relaciono 33, com a maior facilidade: Park Shopping, Conjunto Nacional Brasília, Pátio Brasil, Brasília Shopping, Terraço Shopping, Iguatemi Brasília, Fashion Mall, Boulevard Shopping, Liberty Mall, Águas Claras Shopping, Alameda Shopping, JK Shopping, Casa Park, Píer 21, Shopping ID, Park Design, Shopping Quê, Gama Shopping, Florida Mall, Vitrinni Shopping, Flamingo Shopping, Serra Shopping, Riacho Mall, Top Mall, Santa Maria Shopping, Shopping Popular do Gama, Shopping Lazzat, Jardim Botânico Shopping, Deck Norte Shopping, Deck Brasil Shopping, Metrópole Shopping e Centro Comercial Gilberto Salomão.

A seguir, imagens de quatro dos mais badalados:

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Park Shopping e Pátio Brasil

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Iguatemi Shopping e Píer 21

E uma charge de Santiago, publicada no Jornal da Besta Fubana de 13.04.14

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Até novembro de 1971, não sabíamos o que era isso! A propósito, reproduzo episódio de meu livro Do Jumento ao Parlamento, lançado em agosto de 2003:

A INAUGURAÇÃO DO CONJUNTO NACIONAL BRASÍLIA

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Conjunto Nacional Brasília: nosso primeiro shopping

24 de novembro de 1971! Inauguração do Conjunto Nacional Brasília e suas duas âncoras principais: o Supermercado Pão de Açúcar, que ficaria mais conhecido pelo nome de Jumbo, e o Banco Econômico!

Os jornais da cidade – Correio Braziliense e Diário de Brasília – estampavam grandes anúncios e convidavam a população em geral para comparecer ao evento, que marcaria o início das operações do primeiro shopping da capital, com a presença de Pelé, já então considerado Rei do Futebol.

Aquele empreendimento ainda não tinha sido bem assimilado pelo povo candango, e muitas lojas, mesmo a preço de banana, permaneciam fechadas, por falta de interessados. A verdade é que não sabíamos bem o que era um shopping. Fazíamos nossas compras na W/3, ou no Núcleo Bandeirante, mais conhecido como Cidade Livre. Os supermercados de que dispúnhamos, mesmo os do Plano Piloto, não passavam de meras quitandas bem sortidas.

O Conjunto Nacional Brasília assinalou, portanto, a chegada da modernidade empresarial no Planalto Central Brasileiro.

Era uma manhã de quarta-feira. Eu trabalhava na Câmara dos Deputados e havia combinado com meu colega e amigo Luiz Berto que tomaríamos parte nos festejos até ao meio-dia, pois o expediente normal no Congresso só começava às 13h30. Esse Luiz Berto viria mais tarde a ser autor de várias obras premiadas, como O Romance da Besta Fubana, A Prisão de São Benedito e A Guerrilha de Palmares. E por que eu o cito aqui? Porque ele não me deixa mentir.

Estávamos vivendo o milagre econômico, e o ministro Delfim Netto – atualmente, deputado federal -, titular da Fazenda, era figura infalível nos noticiários noturnos das estações de TV. Eu, gordinho, com uma bela papada e óculos, me parecia um bocado com ele. Tanto que meus filhos, Zezinho e Floriano, de 6 e 5 anos, quando viam aquela autoridade na telinha, exclamavam:

– Olha o papai!

Devidamente enfatiotados para o turno vespertino – terno escuro e gravata -, eu e Luiz Berto chegamos ao Conjunto e, por não conhecermos nada ali, nem o protocolo da solenidade, nos encaminhamos diretamente ao Banco Econômico, onde era servido um lauto coquetel, como se podia notar através das paredes de vidro. Muita gente bonita e elegante enfeitava o ambiente. Ao chegarmos à porta, fomos barrados por um segurança que, educadamente, falou:

– Por favor, o convite!

– Não temos convite – respondi.

– Então, infelizmente, os senhores não podem entrar.

– Mas espere aí – disse eu -, os jornais convidaram todo o povo de Brasília para a inauguração!

– É, mas eles se referiam às outras lojas. Aqui, só mediante convite.

Já íamos nos retirar, quando um cidadão bem apessoado, que fazia parte da diretoria do Econômico, se dirigiu apressado ao segurança, falando rispidamente:

– O que é isso? Não vê que é o ministro?

E, virando-se para mim, franqueou-nos a entrada:

– Ministro, por gentileza!

Se calados estávamos, calados ficamos.

Aproveitamos o mais possível.

À noite, ao verem na TV as reportagens sobre o acontecimento, meus filhos, cheios de razão, orgulhosos apontavam:

– Olha o papai!

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Comparem: Raimundo Floriano e Ministro Delfim Netto

PESCARIA NO RIO BALSAS DE MINHA INFÂNCIA

(Ontem, 13 de abril, começou a Semana Santa! Para quem não sabe, a Quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Ramos. Assim, publico novamente esta matéria, agora revista e com novas ilustrações, a cargo do Juarez Leite, artista plástico que enriquece minhas ousadias literárias).

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Menino pescador

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu fico a lembrar meus tempos de infância balsense, quando a meninada alimentava de peixes a inteira população da cidade. Não havia supermercados ou qualquer outro tipo de comércio para suprimento do produto, mas toda casa tinha um menino que, naquela ocasião, se transformava em pescador. Por isso, o feriadão começava na quarta-feira, dando o tempo necessário para que, na Sexta-Feira da Paixão, o povo jejuasse de carne, como mandava a Santa Madre Igreja.

Os peixes mais comuns de escama eram o piau, a pacu – feminino para nós – e a piranha, os três considerados nobres e pegados durante o dia.

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Peixes de escama: piau, pacu e piranha

À noite, era a vez do mandi, do surubim e do mandubé, peixes de couro, os dois últimos alcançando grande porte.

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Peixes de couro: mandi, surubim e mandubé

As iscas mais usadas eram o angu de farinha e o milho verde ou cozido para o piau e a pacu, carne para a piranha, minhoca, tripa de galinha e piabas para os peixes de couro.

Até agora, eu nada disse que não fosse o costumeiro de como se pescava em qualquer rio sertanejo. O que nos fazia diferentes era nossa tralha de pesca.

O Rio Balsas, na época da Semana Santa, apresenta suas águas límpidas e cristalinas, transparentes como em qualquer piscina. Durante o dia, enxergávamos os peixes às pequenas profundidades e, consequentemente, os peixes nos enxergavam às margens do rio.

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Rio Balsas: águas verde-azuladas, puras, transparentes

No período noturno, não havia problema. Pescávamos com a linha zero, igual à que hoje se usa nas pipas, para os peixes miúdos, e com o cabinho, da grossura dum cadarço de tênis, para os graúdos, de couro.

De dia, esse material não funcionava, espantava os peixes. Aí é que se constata a criatividade do povo daquele tempo. Ainda não havia o náilon. Até o fim da Guerra, a gente se virava com as linhas fabricadas por nós mesmos, usando como matéria-prima crinas de rabo de cavalo.

O primeiro requisito era que o cavalo deveria ser branco ou de crinas claras, para que a linha ficasse invisível ao ser lançada na água.

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Cavalo de rabo branco: fornecedor involuntário de linha de pesca

Como em Balsas havia poucos cavalos, usávamos como provedores de crina os componente das tropas dos fazendeiros e agricultores rurais das cercanias que, periodicamente, se arranchavam na cidade, para vender sua produção e comprar sal e mercadorias industrializadas, numa espécie de escambo. Havia até hotéis – quintas com água e pasto – para as montarias e animais de carga. E era nessas quintas que, à noite, fazíamos a festa, arrancando as crinas, na base do coice. Tinha cavalo que, ao retornar para as fazendas, levava apenas um sabugo no lugar do rabo.

Com a colheita das crinas, partíamos para a fabricação da linha propriamente dita. Primeiramente, fazíamos os entrançados de dois ou três fios, cada um com a média de 30 cm de comprimento. Depois os emendávamos, até chegar ao tamanho desejado, de 6 a 10 metros. Havia os especialistas, como o Modesto, filho do Mestre Zacarias, que pescava com linha de um só fio e, quando ferrava um piau ou uma pacu, caía na água e nadava acompanhando o peixe até que este se cansasse. Verdadeira arte!

Fabricada a linha, partíamos par a obtenção do caniço. Por lá, não havia o bambu, e a taboca não se prestava para esse fim. Em compensação, a mata era fértil de pereira, arbusto cujos galhos eram muito apropriados para servirem de vara de pesca.

Outro item raro era o anzol, que fabricávamos com um alfinete do qual dobrávamos a ponta, dando-lhe um nome também conhecido pelos baianos, güé, eficientíssimo na pesca do piau e da pacu, os peixes mais apreciados pelos balsenses. Algumas lojas vendiam anzóis, de tamanhos variados, mas dinheiro no bolso da meninada era nenhum, por isso a gente se virava como podia, não necessitando de grana e usando apenas a imaginação criativa.

Faltava a chumbada. Para isso, derretíamos tubos vazios de pasta dentifrícia, que naqueles tempos ainda não eram feitos de plástico.

E pronto! Estávamos devidamente equipados para abarrotar a cidade com a imensa quantidade de peixes que levávamos daquele generoso rio.

Só em 1946, depois da Guerra, foi que começaram a chegar as linhas de náilon, como as que hoje existem, que nós chamávamos de linha americana. A pioneira da linha de náilon em Balsas foi a Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, também uma grande pescadora de peixe de couro que, naquele mesmo ano de 1946, presenteou meu irmão Bergonsil, o Chilim, com 10 metros daquela nova invenção. Chilim, que estudada em Floriano e se encontrava em Balsas de férias, ao retornar, deu-me sua linha americana de presente, uma das grandes preciosidades com que ele me agraciou na vida.

Com o advento da linha americana, tornaram-se triviais os anzóis – havia uns com a barbela enviesada, conhecidos como ferra-no-olho -, a vara de bambu ou de náilon e a chumbada manufaturada. Aí, a pesca balsense perdeu um tanto de sua graça, vez que, com o progresso, vieram também a devastação das margens do rio e o barulho, fazendo com que os peixes sumissem para bem longe da civilização.

E por que estou contando isso a vocês agora, tantos anos passados? Apenas para que não se perca na memória de meus conterrâneos a história dum tempo em que, mesmo carentes de tudo quanto era progresso, sabíamos aproveitar totalmente o que a Natureza, magnanimamente, nos legava.

Alguém há de indagar:

– E a traíra? Vocês não pescavam esse peixe?

E eu apresso-me em explicar.

Naquele sertão, de imensa fartura e riqueza natural, a traíra, também conhecida como pau-de-nêgo e cipó-de-viúva, animal da lama e das águas toldadas, assim como o sapo, a cobra, a minhoca, o jabuti, a lesma, o rato, o mambira, o morcego, o lapau, a mucura, o macaco e o camaleão, não era considerada alimento humano. Nem para isca era utilizada.

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Traíra, pau-de-nêgo ou cipó-de-viúva

Havia até um dito popular muito ouvido entre os pescadores: terra onde tromba de elefante é picolé, lamparina dá choque, galinha cisca pra frente, jumento é relógio, tostão é dinheiro e traíra é peixe, nessa terra eu não moro!

MEUS SUBTENENTES: UM DELES CHEGOU LÁ!

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Subtenente: Arte de Juarez Leite

(O assunto é palpitante! De repente, não mais que de repente, sobressai, no Cenário Internacional, um Subtenente! Motivo pelo qual, repito esta matéria, com o acréscimo pertinente).

As piadas da caserna se repetem a cada ano, podendo ser adaptadas a qualquer tempo, espaço, posto ou graduação. O que vou fazer aqui não é contar mais uma, e sim lembrar grandes amigos dos velhos tempos, de quem não tenho notícia há mais de quatro décadas, desde que fui licenciado.

O Subtenente é militar escolado, traquejado, disciplinado e competente, qualidades sem as quais jamais alcançaria a mais alta graduação no âmbito das praças. Se o Capitão Comandante de Subunidade representa o pai da dos recrutas, o Subtenente, por ser mais vivido e mais experiente, poderia ser o avô, aquele sujeito bacana, compreensivo, que quebra qualquer galho. Nos três anos em que atuei como Furriel, Sargento que cuida da folha de pagamento dos praças, exerci minhas funções na Reserva – sala de trabalho do Subtenente e Almoxarifado da Companhia, cujo material emprestado só sai dali mediante cautela, uma espécie de recibo -, onde convivi com três excepcionais chefes, todos mineiros.

Na Companhia de Petrechos Pesados – 1, do 12º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte, MG, comecei, recém-saído da EsSA, com o Subtenente Bertucci – só me recordo do seu nome de guerra -, um ex-combatente, que atuou no Teatro de Operações na Itália. Logo em seguida, após sua promoção a 2º Tenente e transferência para outra Unidade, veio o Subtenente Assis Dias Brasil, Saco B – militar que, convocado para a guerra, chegou até a embarcar, mas, antes de chegar a destino, o conflito acabou – que muito me ensinou para o bom desempenho de minhas atribuições profissionais e contribuiu sobremaneira na minha formação moral.    Vou contar um caso envolvendo o Subtenente Bertucci. Foi no ano de 1958, quando o 12º Regimento de Infantaria, o Doze de Ouro, passava do sistema hipomóvel para o motorizado.

Vocês não avaliam o rebu que tocou nas Reservas dos Subtenentes, em especial nas Companhias de Petrechos Pesados – CPP, cujos morteiros e metralhadoras eram transportados nos lombos dos muares.

Na Reserva da CPP-1, não tínhamos tempo para dizer arroz. Deveríamos recolher, em curto espaço de tempo, todo o material a substituir, como carroças, reboques, cozinhas portáteis, selas, cangalhas, brides, cabrestos, rédeas, focinheiras, antolhos e o escambau, além dos mencionados muares. Tudo isso registrado minuciosamente, no Livro-Carga, ficando toda a operação sob o comando e a responsabilidade do Subtenente da Companhia, ou seja, do Subtenente Bertucci.

Esse, assoberbado com tantos afazeres, era constantemente interrompido por algum dos envolvidos na operação, trazendo-lhe problemas os mais diversos. Por isso, tomou uma atitude assaz acertada. Toda a vez que lhe aparecia qualquer desses enrolados, ele sustinha sua lengalenga, dando-lhe a terrível ordem: “TRAGA ISSO POR ESCRITO!” Não falhava, o sujeito saía, encontrava uma solução para o caso e nunca mais voltava à Reserva com mais outro.    Mas essa tática não funcionou com o Cabo Rufino, que labutava com os muares lá nas baias. Certo dia, ele chegou nervoso na Reserva e começou um interminável blablablá, interminável não, porque o Sub o cortou com a ordem: “ESCREVA ISSO!” O Cabo Rufino retirou-se, mas não demorou. Em pouco tempo, estava ele de volta com seu relato:

“PARTICIPO-VOS QUE O BURRO 45, VULGO BONIFÁCIO, ENTROU ALOPRADO NO NOSSO DORMITÓRIO, LÁ NAS CAVALARIÇAS, ZURRANDO E ESCOICEANDO, O QUE RESULTOU NA QUEBRA DE UM POTE DE BARRO E DE UMA MORINGA DO REFERIDO METAL.”

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Pote e moringa

O Subtenente Brasil muito me orientou para o Exército e para a Vida. Era um estudioso da Língua Portuguesa, o que me fez também tomar gosto pela boa leitura e até a comprar o meu primeiro dicionário, um Aurélio, que me acompanhou de 1958 até janeiro de 1972, quando a Reforma Ortográfica acabou com o acento diferencial, tornando-o obsoleto.

A nossa Reserva era, portanto, uma sala de estudo, pois estávamos constantemente tirando as nossas dúvidas e as dos colegas que nos procuravam.  Dispúnhamos, para fornecimento ao pessoal escalado para serviço externo, de dois tipos de armas de cano curto: o revólver SMITH & WESSON e a pistola COLT, ambos de calibre 45.

Pois bem, eis que, senão quando, aparece-nos o Terceiro Sargento Baldomero, Ferrador, com esta preciosidade de cautela: “RESSEBÍ DA REZERVA DA CPP-1, PARA O SERVISSO DE PATRULHA NA ZBM, UM REVOLVER CIMITE OESSE, CALIBRE 45”.

Ao ler o documento, o Subtenente Brasil não conteve sua perplexidade e chamou o Sargento no saco:

– Sargento Baldomero, esta cautela está eivada de erros!

O Sargento tirou o corpo fora:

– Seu Sub, a culpa não é minha. Quem datilografou isso foi o Cabo Laurentino, eu só fiz assinar!

O Subtenente insistiu:

– Mas como é que você assina um documento sem ler antes? Os outros erros até que dão pra passar, mas este CIMITE está demais da conta!

Baldomero não se deu por achado:

– Pois é, Seu Sub, na hora eu até falei para o Laurentino: “Cabo Velho, esse CIMITE é com C cedilhado!”

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Revólver Smith & Wesson, calibre 45

O terceiro foi o Subtenente Haroldo Batista, já na Polícia do Exército de Brasília. Um espelho para todos nós. Natural de Patos de Minas, bem mais novo que os já citados, atualizado, culto e bem-humorado, participava – sem perder a autoridade, nem quebrar a liturgia do cargo – de todas as brincadeiras e jogos no Alojamento e no Cassino dos Sargentos, quando estávamos aquartelados, de prontidão – e isso, no início dos anos 60 era mais comum que o período de normalidade. Árduos tempos.

Como os que prestaram o serviço militar devem saber, todo Cabo é “Cabo Velho” e todo Subtenente é “Seu Sub”. Na Aeronáutica, por exemplo, os Suboficiais são assim nomeados: Sub Bessa, Sub Pereira, Sub Martins, etc. Pois bem, o Subtenente Haroldo, que topava qualquer parada, qualquer contratempo, jamais admitiu que o chamassem de Sub. Não tenho notícia de outro que assim procedesse. E a exceção era para todos, do Comandante ao Corneteiro.

Se um subordinado desatento o chamasse de Sub, imediatamente ele o enquadrava: “Tome a posição de sentido para falar comigo.” E, em seguida, dava-lhe uma mijada daquelas. Se fosse um superior seu, aí sim, ele é que tomava a posição de sentido, se apresentava e inquiria: “Sub o quê, Meu Senhor? Subsolo, submarino, sub-raça? Eu Sou é Subtenente do Exército, de acordo com a lei!”

Desarmava qualquer cristão!

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Submarino submerso

ACONTECEU NA EsSA

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Para os que não serviram, vai ser difícil captar a sutileza do lance que ora narro. Por isso, achei de bom alvitre dar uma pequena explicação, antes de enfiar a cara no sucedido.    De acordo com os regulamentos militares, a tropa também faz continência ao deslocar-se, olhando à direita ou à esquerda, conforme o local em que esteja o oficial, quer seja Tenente ou Marechal. Deu pra entender? Então, prossigamos.

Na EsSA – Escola de Sargentos das Armas, a quantidade de oficiais transitando por suas ruas – ruas sim, porque a Escola é uma pequena cidade – é deveras marcante. E o aluno tem que ficar atento para prestar as honras, sob o risco de ter uma anotação desabonadora na sua ficha ou, no mínimo, levar uma mijada.

Certa manhã primaveril, lá ia o Aluno Abdala, na função de Chefe da Turma B-8, conduzindo a mencionada para a sala de aula. De repente, não mais que de repente, surge-lhe um superioríssimo, caminhando em sentido contrário. Então, o nosso herói emitiu o comando:

– Turma, sentido! Olhar à esqueeeeeerdá!

E já ia levar a mão à pala – só o que comanda é que faz a continência -, quando percebe ser a autoridade apenas um Subtenente. Mas o Abdala era esperto, sabia se virar, não acusou o golpe. Daí, lascou em alta voz:

– Turma, ultima foooooorma! Subtenente não tem direeeeeeitô!

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Bom, tudo o que relatei até agora se refere a Subtenentes Combatentes que, na carreira militar, após conquistar e graduação de 3º Sargento e fazer o Curso de Aperfeiçoamento, pode esperar sentado, calmamente, que as outras promoções virão somo sem falta: Segundo Sargento, Primeiro Sargento e Subtenente. Para isso, basta ter comportamento. No Quadro de Músicos, o buraco é mais embaixo, como se diz, por isso, estou vibrando com a seguinte notícia publicada no Estadão:

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Pra começo de conversa, considero todo Músico um intelectual. Mais ainda, quando se trata de um Músico Militar, que precisa ralar muito, queimar as pestanas, estudar pra valer, visando a transpor cada degrau. De Soldado, estuda para sair Cabo; De Cabo, para 3º Sargento; de 3º Sargento, para 2º Sargento; de 2º Sargento, para 1º Sargento; de 1º Sargento, para Subtenente. Ao ser promovido a essa graduação – classificada como de Praça Especial –, o Música já é um Maestro perfeito e acabado, podendo reger orquestras em qualquer País do Globo Terrestre!

Sim, porque a Música é Linguagem Universal. Um Subtenente Musico brasileiro está apto a reger orquestra no Japão, Malásia ou Rússia, de primeira, sem conhecer os instrumentistas, que o obedecerão de imediato, se submeterão a sua regência, dada a Universalidade da Música.

Sem um poliglota, um multilíngue, nada mais apropriado que designar um Subtenente Músico para compor qualquer comissão internacional. No caso em exame, acho que o Subtenente epigrafado, era mais globe-trotter idiomático de toda a equipe. A Partitura, ou Notação Musical, é cosmopolita, e a Música é Arma Poderosa, que transpõe qualquer barreira, conquista o mais empederni coração, um Esperanto que deu certo, eis que, no Século XXI, é linguagem falada em todo o Planeta Terra.

Parabéns para esse valoroso Subtenente que, além de competente conquistador, mostrou garra, se esforçou, e ora vê recompensada toda sua dedicação ao estudo e ao saber!

CINQUENTANÁRIO DA REVOLUÇÃO DE 31.03. 1964

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Com a ilustração acima, foi publicada na Internet, no dia 15.03.14, esta matéria assinada:

“DILMA PROÍBE AS FORÇAS ARMADAS DE COMEMORAREM OS 50 ANOS DA REVOLUÇÃO DE 64

José Carlos Werneck

A presidente Dilma Rousseff determinou, sexta-feira, que não quer celebrações dos militares da ativa em comemoração aos 50 anos do Movimento Militar de 31 de março de 1964. Ela comunicou sua decisão ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que já conversou sobre o assunto, com os comandantes militares.

Os Chefes das Forças Armadas orientaram a tropa para que se evitem comemorações em 31 de março, interna ou externamente.

A maior preocupação é com os militares da reserva.

Os chefes militares já haviam aproveitado as reuniões, antes do Carnaval, de seus Altos Comandos, que trataram, também, das promoções do final do mês, para comunicar aos comandados que se abstivessem de qualquer tipo de polêmica sobre o assunto, para evitar choques com o Planalto. Os comandantes das forças já haviam comunicado a determinação aos seus subordinados a ordem de não serem feitas comemorações dentro e fora dos quartéis.

A data, no entanto, não será ignorada pelas Forças Armadas. No Exército, o tema será abordado com palestra e divulgação de informações para a tropa apenas para que “as novas gerações” não se esqueçam do que chamam de “fato histórico”, contextualizado à época da guerra fria.

O clima na ativa das Forças Armadas, até agora, é de total distensionamento. Não há movimentações para promover atos para exaltar a data, embora existam insatisfações em relação à condução dos trabalhos da Comissão da Verdade. Grande parte dos militares reconhece que houve avanços nos investimentos das Forças durante os governos Lula e Dilma.

Ainda há grande preocupação com o pessoal da reserva. Ainda não se sabe exatamente o que eles poderão promover para comemorar os 50 anos do Movimento de 31 de março. Para evitar problemas com os colegas que já estão fora dos quartéis, mas que, quando querem, fazem manifestações, os comandos das Forças Armadas fizeram contatos com os presidentes dos Clubes Militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica pedindo moderação nas manifestações. Mas vários militares que já estão reformados, porém, atuam de forma independente e não costumam atender às solicitações dos comandantes.

Quem está na Ativa não pode se manifestar, por força do Regulamento Militar. Os da Reserva não têm tantas restrições, mas, também, estão sujeitos a algumas regras e podem ser punidos, inclusive, com prisão por declarações que forem consideradas ofensivas à presidente da República.”

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Sem querer entrar no mérito de tão complexo assunto, restrinjo-me a reproduzir esta figura, também obtida na Internet:

GVF

PEDRO SILVA, O MENESTREL DO SERTÃO SUL-MARANHENSE

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Pedro Silva e seu amigo violão

Pedro Albuquerque e Silva, o Pedro Silva, meu irmão, nasceu em Balsas (MA), no dia 13 de novembro de 1922. Filho de Emigdio Rosa e Silva, o Rosa Ribeiro, e Maria de Albuquerque e Silva, a Maria Bezerra, é o primeiro varão e segundo de uma prole de dez, da qual eu sou sétimo.

Completando 92 anos em novembro próximo, pode-se afirmar que este sertanejo é, depois de tudo, um forte, eis que continua em plena atividade, fazendo tudo de que gosta, como se tantos anos não lhe pesassem nas costas. É nosso herói!

A seguir, a fotografia mais antiga da família, batida em 1929:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro Maria Isaura e Maria Alice

Passou toda sua infância em Balsas, levando vida sadia e cheia de peripécias e traquinagens, como de todo menino do sertão. Já nesse tempo, começou a aprender a “bater” o violão, ou seja, acompanhar-se cantando, Arte que o acompanha desde antes, agora e sempre.

Aprendeu as primeiras letras e concluiu o Curso Primário nas escolas da Dra. Maria Justina, Melquíades Moreira Ferraz, Dr. Domingos Tertuliano e Educandário Coelho Neto, do Professor Joca Rêgo. Em Teresina, foi aprovado no Exame de Admissão para o Liceu Piauiense, onde cursou o Ginasial, após o qual, naquele primeiro quarto do Século XX, se considerou preparado para o exercício de sua verdadeira vocação: a atividade comercial.

Voltando para Balsas, começou a trabalhar como caixeiro na loja de José de Sousa e Silva, nosso Tio Cazuza Ribeiro, atendendo os fregueses no balcão. Tio Cazuza, vendo sua habilidade e tino para o comércio, designou-o para viajar pela Região Tocantina, para comprar gêneros de exportação – couros, peles silvestres, produção agrícola – e vender sal a comerciantes e fazendeiros. Era responsabilidade imensa para um adolescente naquelas plagas.

Lembro-me bem de uma chegada dele de uma dessas viagens. Trouxe uma lata, tipo de leite em pó, cheia de moedas de valores diversos, chamou os irmãos mais novos, derramou o dinheiro na mesa de jantar e mandou que fôssemos pegando, um de cada vez, em rodízio. Eu, por exemplo, só escolhia os patacões. Já o Bergonsil traquejado, primeiro olhava o valor, para pegar as dele. Essas atitudes de bom irmão faziam com que nós, os menores, o chamássemos de padrinho – Padim Pêdo -, numa espécie de sadio puxa-saquismo familiar.

Depois de um certo tempo, trabalhou, por conta própria, nos garimpos cristal de rocha em Xambioá, Piaus e Dois Irmãos, região ainda goiana, onde contraiu impaludismo, difícil de ser curado. Com a ajuda de Deus venceu essa moléstia assaz ceifadora.

Em 1945, aos 23 anos de idade, abriu uma casa comercial em Miracema, em sociedade com o Tio Cazuza, vendendo produtos industrializados e comprando as matérias-primas produzidas na cidade e em suas imediações. Nas horas vagas, o violão e a seresta eram seu lazer.

Pedro tinha um dom inato, que nele aflorou desde o tempo de rapazinho. Para discorrer sobre isso, mostro-lhes duas fotografias dele na juventude:

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Pedro Silva no tempo de rapaz solteiro

Como viram, era um sertanejo comum, sem nada de especial a não ser o dom acima citado: um visgo para atrair o sexo feminino. Quem o conhecia ficava perplexo, abismado, já não digo invejoso. Onde quer que chegasse, as pequenas choviam-lhe em profusão. Nem precisava que ele se esforçasse. Galante e dançarino de primeira, era o preferido nos salões. Houve até um amigo seu que um dia lhe falou: – Pedro Silva, não sei o que há com minha namorada. Quando dança comigo, é toda durona, sem jeito, parece que engoliu uma alavanca. Mas quando tu tiras ela pra dançar, aí a coisa muda de figura! Fica toda mole, se requebrando, se rindo, parece até que tá no céu! Por que será?

Se eu estivesse por perto, na ocasião, teria explicado: – É o visgo, rapaz, é o visgo! -, porque Pedro Silva era o verdadeiro Porta-Estandarte do Amor.

Em termos de namoro, não precisava se mexer. Era como o Mar Oceano, para onde correm todos os rios. Era como o Sol, a atrair os astros em seu derredor. Com esse imenso poderio, colheu, um dia, a mais bela flor morena da sociedade miracemense: Naide Noleto, com quem se casou, no dia 7 de outubro de 1949, e com quem teve cinco filhos: Ceres, Pedro Silva Júnior – o Silva -, José Emídio, Luís Ernesto e Jânio.

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Pedro Silva e Naide: simpatia e elegância do jovem casal

Mudou-se para Carolina (MA), a 9 de fevereiro de 1951, iniciando suas atividades comerciais à Praça Goiás, nº 55, onde construiu esta confortável casa com linda vista para o majestoso Rio Tocantins, na qual até hoje reside:

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Em Carolina, sempre em sociedade com o Tio Cazuza, praticava o comércio de estivas em geral e gêneros exportáveis da região: couros bovinos, peles silvestres, crinas, penas de ema, arroz, babaçu, algodão e outros. Fez parte de diversas sociedades e empreendimentos vários até que passou a operar por conta própria, dedicando-se com mais afinco à pecuária. Paralelamente, foi nomeado Servidor da Prefeitura Municipal de Carolina, atuando no Setor de Finanças e no Departamento de Administração.

A Música, como sempre, era seu principal derivativo. Fundou a Escola de Samba Unidos de Carolina, que desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1963.

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Belinha, Porta-estandarte em 1977

Em outubro de 1975, inspirado no grupo musical que acompanhou Carmen Miranda para os Estados Unidos, Pedro criou o conjunto Bando da Lua, com o objetivo principal de divulgar e promover a MPB em nossa região. Sem aparelhagem eletrônica, contava com uma sanfona, pau, corda, percussão e as vozes de seus integrantes, no gogó. A seresta, então, viu-se revigorada naquele sertão. Mais tarde, incluíram-se teclado, guitarra, contrabaixo, metais, palhetas, bateria e aparelhagem, para que alguns integrantes provessem o ganha-pão. Adiante, o Bando da Lua em sua feição seresteira:

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Inácio, pandeiro; Djael, voz; Adelino, cavaquinho; Luzimar, sanfona; Pedro Silva, violão; e Sitônio, surdão

Pedro Silva tem também sua veia literária. Orador oficial da família, é cronista, articulista, compositor, escritor e cordelista. Adiante, a capa de seu livro Som e Ritmo da Terra, onde narra toda sua trajetória musical, com dados biográficos, e do cordel Navaiadas, elogiando políticos amigos e descendo o cacete nos adversários.

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Ao aposentar-se do Serviço Público, Pedro Silva continuou em plena atividade econômica, como dono de caminhões e jipes, de embarcações fluviais, do Sítio Tangará, fornecendo leite para o consumo da cidade, das Fazendas Santa Maria e Jacaracy, especializadas na criação de gado Nelore e mestiço. Nessa última, construiu, no alto dum morro, o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, de quem é devoto.

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Detalhes do Sítio Tangará e da Fazenda Santa Maria

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Santuário de Nossa Senhora da Conceição e Motor São Pedro de Alcântara

Nestes 75 anos de árdua labuta, Pedro Silva exerceu, além das já citadas, as seguintes atividades: Fundador da Companhia Industrial do Tocantins – CITOCAN, para extração de óleo de babaçu, 1ª Sociedade Anônima da região, sendo seu Diretor-Presidente por 9 anos; Fundador da Liga Esportiva Carolinense, sendo um dos construtores do Estádio Alto da Colina; Fundador da Associação Recreativa de Carolina – ARCA; Fundador e Primeiro Presidente da Associação Comercial e Industrial de Carolina; Fundador da Loja Maçônica Caridade e Justiça, ocupando cargo de direção; Fundador da primeira Loteria Esportiva em Carolina; Fundador e Primeiro Presidente Municipal da ARENA, partido político; Fundador da Empresa Telefônica de Carolina, que presidiu; Diretor-Presidente da Comissão de Implantação do Sistema de Televisão em Carolina; e Suplente de Juiz de Direito, nomeado em outubro de 1973.

Recentemente, analisando essa rica trajetória, ele comentou comigo: – Raimundo, durante todo esse tempo, eu nunca tirei um dia sequer de férias do trabalho! Ao que eu acrescento: Nem da Boemia Seresteira! Nem de Porta-Estandarte do Amor, pois em suas serestas muitos casamentos foram engatilhados! Isso explica a razão de sua longevidade, atestada nestas duas imagens, uma colhida em julho de 2006, na comemoração de meus 70 anos, e a outra, em novembro de 2012, na festinha de seus 90:

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Pedro Silva, aos 84, comigo, em meu Forrozão/70, e com sua Turma, ao festejar seus 90

Carolina, hoje, mantém dois movimentos culturais preservadores de suas legítimas tradições. Uma delas é o Clube das Onze.

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Clube das Onze: aguardando a chegada de seus membros

Situado na Praça Alípio Carvalho, em frente ao quiosque Lanche Bar, em área adredemente cimentada para tal fim, é o ponto de reunião da Velha Guarda Carolinense. De segunda-feira a sábado, às 10h30, Lindomar, dono do quiosque, onde se bebe a cerveja mais gelada, e a cachaça mais pé-de-serra, com tira-gosto do pastel mais saboroso e crocante da paróquia, dispõe mesas e cadeiras, conforme se vê na foto acima, à espera dos membros que, aos poucos, vão chegando. Quando a frequência é maior, cadeiras e mesas adicionais são disponibilizadas. Às onze horas em ponto, começam os trabalhos que, ao meio-dia, impreterivelmente, são encerrados, seguindo cada membro para sua residência. Fundadores como Luiz Braga, Achiles, Hermógenes, Paulo Noleto, Alfredo Maranhão. Genésio, Maninho, Agnelo Jácome, Raimundinho Caetano, Zé Biô, Ulisses Braga e Darwin Noleto já não comparecerão, sendo representados pela nova geração que os sucede. Por ser o decano, Pedro Silva é, tacitamente, considerado o Presidente do Clube.

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O outra é o Conjunto Ouro & Couro. Como o próprio nome insinua, é formado por instrumentos de cordas – o ouro – e percussão – o couro. Fundado por Pedro Silva, que atua no violão e no vocal, conta ainda com os artistas Inácio, no pandeiro; Maria do Amparo, no violão e no vocal; Adelino, no cavaquinho; e Mangueirinha, na percussão. Essa turma, que mantém a tradição seresteira carolinense, está também pronta, a qualquer hora do dia ou da noite, para levar animação a todo tipo de função musical, seja um simples aniversário infantil ou uma festa de arromba.

Pelo conjunto da obra, Pedro Silva foi agraciado, a 13.11.2002, pela Câmara Municipal de Carolina, como o título de Cidadão Carolinense.

O CD Cheiro de Mato, artesanal, sem grandes recursos técnicos, mostra um pouco do trabalho desses sonhadores. Escolhi para ilustrar esta matéria o samba-canção que lhe empresta o título, Cheiro de Mato, composição recente de Pedro Silva, que o interpreta como vocalista principal.

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PRETO, O QUÍPER CHAMPRADOR

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Já estamos na Quaresma, e o ano teima em não começar. Isso vai continuar assim até dezembro. Praticamente, podemos passar uma borracha no ano de 2014, pelo menos aqui no Brasil, considerando-o como se não tivesse existido.

Senão, vejamos. Passada a Quaresma, vem a Semana Santa; depois dela, a Copa do Mundo, que acabará em meados de julho; a seguir, a campanha eleitoral, as Eleições, com Primeiro Turno em outubro e Segundo Turno em novembro; aí, entra-se no clima de Natal, Réveillon, e pronto! Acabou-se o que não foi-se!

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E não sou só eu que pensa assim não. Vejam esta charge publicada dia 05/Mar/14, Quarta-feira de Cinzas, no Correio Braziliense:

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Por isso, respirando esse ar futebolístico, que perdurará, como foi dito, até meados de julho, começo contando-lhes um caso muito engraçado, chistoso, do qual vocês vão rir pra cadete.

Era no tempo do Réis!

Tempo em que a terminologia do esporte era bem diferente: o goleiro era chamado de quíper; na defesa, jogavam os beques; no meio de campo, os ralfes; no ataque, a linha, onde se destacavam o ponta-esquerda, o ponta direita e o centroavante, que era chamado de centerfor. O juiz ou árbitro era o rifiri; o impedimento era ofisaide; escanteio era córner; a falta era mão ou bruta: e pênalti era pênalti mesmo.

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Tempo em que a bola era fechada com cadarço e não tinha nome de batismo como as das últimas Copas. Eram chamadas de pelota, couro, pneu, ou, simplesmente, bola.

Estávamos no início da Década de 1940, quando ainda não fora mudado nosso padrão monetário para o Cruzeiro. Era, portanto, no tempo do Réis. O que nada tem a ver com o que aqui será narrado e serve apenas para situar o episódio nas calendas de antigamente.

Havia em Balsas um negro, chamado Preto, agregado do Tio Cazuza, de Seu Tarcísio Moreira, de Seu Elias Kury, de Seus Luiz Silva e de outros comerciantes, prestando muitos tipos de serviço, como varrer a loja, carregar fardos de mercadorias no lombo – trabalho de cangueiro, como era chamado o estivador por lá –, sendo também chofer e, nos finais de semana, quíper da Seleção Balsense.

O “estádio” não tinha grama, era um campo escalvado, chão duro e batido, onde cada queda resultava em ferida ou contusão grave. Não havia rede nas traves. Muitas vezes, o rifiri, devido a alguma tomada de decisão polêmica, voltava pra casa debaixo de taca. Num campo sem marcação de cal no meio, nas as laterais, na linha de fundo, ou definindo a grande e a pequena área, apitar era atividade intensamente heróica, arriscosa e insalubre por demais.

Imaginem o sacrifício, naquele tempo, do quíper, sem luvas, caneleiras, joelheiras e tornozeleiras, enfrentar a brutalidade dos atacantes adversários.

Mas o Preto a tudo enfrenta com bravura e de modo estiloso. Inventara uma jogada a que deu o nome de champrar. Quando a bola vinha na altura conveniente, ele a agarrava nesta posição que eu, por não dispor de bola no momento, demonstro com um melão:

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O estilo do Preto champrando a pelota

Isso fez escola.

No entanto, o que eu pretendo lhes contar nada tem a ver com o futebol.

Certa vez, o Tio Cazuza e alguns comerciantes amigos viajaram a São Paulo, no intuito de comprarem mercadorias e um caminhão, que as transportaria, levando o Preto como chofer.

As negociações demoraram, levaram dias, fazendo com que o Preto, em dado momento, chegasse para o Tio Cazuza e falasse:

– Seu Cazuza, eu quero ir simbora! Num aguento essa vida de Sun Palo!

Tio Cazuza até se espantou, pois o Preto estava recebendo o melhor tratamento possível, hospedado no mesmo hotel que os patrões e comendo nos mesmos restaurantes. Ao perguntar-lhe a causa de seu desassossego, o Preto respondeu:

– Seu Cazuza, neste mundo, só ficou um divertimento pra pobre como eu, que é f*der, mas já tô com quaje um mês aqui e ainda num dei nem uma bimbada! Vou simbora! Fico aqui mais não!

Diante do exposto, e com todas as pendências resolvidas, Tio Cazuza e seus companheiros encetaram a viagem de volta no dia seguinte.

Conta que, na estrada, confortavelmente na boleia do Chevrolet zerado, o Preto, macunaíma sul-maranhense, enquanto dirigia, cantava este refrão que, mais de 30 anos depois, virava tema de enredo de uma escola de samba carioca:

“Vou simbora, vou simbora
Eu aqui fico mais não
Vou voltar pras rapariga
Dos cabaré do sertão”

MARIA ALICE: 12 ANOS SEM ELA!

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Maria Alice, caricaturada por Juarez

Esta crônica deveria sair no último dia 3, mas como a data caiu na Segunda-feira Gorda, quando todos vocês estariam envolvidos, direta ou indiretamente, com a folia do Carnaval, dificilmente ela seria digna da atenção por mim almejada. Espero que agora, refeitas as forças, e abaixada a poeira momesca, vocês se dignem a relembrar comigo essa pessoa que foi um símbolo de alegria, da caridade e do amor ao próximo. Um paradigma de filha, irmã, esposa, mãe, e avó, além de amiga sincera e incondicional de todos que a conheceram.

Quero salientar, embora estejamos na Quaresma, que as lembranças mais nítidas que tenho dessa minha irmã são as marcadas pelas festas, principalmente o Carnaval, quando ela ensaiava com as amigas as canções lançadas no ano e, nos bailes, divertia-se a valer, naquela inocência das festividades carnavalescas do sertão de outrora. Na foto abaixo, ela, com primas e amigas, preparando-se para o ensaio do Carnaval de 1950. Queriam sorriso mais brejeiro, mais espontâneo, mais faceto, mais puro?

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Violeta, Maria Alice, Criseida, Flory, Iracy e Yolanda

Para abrir esta crônica, pedi ao Juarez Leite, meu ilustrador, que fizesse uma caricatura da Maria Alice, partindo de foto mais recente, batida há uns quinze anos, muito esmaecida. E ele, mesmo sem tê-la conhecido, captou, de forma brilhante, a jovial personalidade dessa irmã querida.

Maria Alice Albuquerque e Silva nasceu no dia 25 de junho de 1926, em Balsas (MA). Era filha de Rosa Ribeiro e Maria Bezerra, meus pais. Dez anos mais velha do que eu, era a terceira, numa prole de dez irmãos, da qual eu sou o sétimo.

Esta é sua foto mais antiga, batida quando estava com dois anos de idade:

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Rosa Ribeiro, Maria Bezerra, José, Pedro, Maria Isaura e Maria Alice

Estudou em Balsas até concluir o Primário, quando, em busca da realização do sonho de toda moça da época – ser professora – foi estudar em Teresina (PI), onde cursou a Escola Normal Estadual.

Faço questão de relatar um episódio daquela época, que ela me contou em 1991, quando festejávamos o Centenário de Rosa Ribeiro, nosso pai, in memoriam.

Ainda adolescente, ela se encontrava de férias escolares em Balsas, devendo retornar para Teresina numa balsa, a chamada “balsa dos estudantes” que sairia num domingo, em viagem que, ao sabor das águas, teria 15 dias de duração. Vejam bem como era sacrificada a vida dos estudantes da época, devendo interromper as férias duas semanas antes, para chegarem a tempo de pegar o início das aulas.

Sucedeu que, no mesmo dia em que se daria a partida da balsa, seria realizado em Balsas um grande piquenique, com muita música e animação, na Fazenda Maravilha, que a Maria Alice não queria perder de jeito e maneira. Por isso, na véspera da viagem, ela andava na maior tristeza, com a cara inchada de tanto chorar escondido pelos cantos lá de casa. Papai, notando isso e, cientificando-se do motivo, tomou uma providência inesperada. Sabendo que a balsa, que só viajava de sol a sol, pernoitaria na Fazenda Capim Branco, umas seis léguas rio abaixo, decidiu que Maria Alice iria ao piquenique e que, terminada a festa, ele a levaria até a dita fazenda. Assim se fez. Já no crepúsculo, montados em dois cavalos bons de sela, guiados pela lua e pelas estrelas, venceram o percurso, alcançando a balsa ao romper da aurora, antes de ela ser desamarrada para prosseguir viagem. Tal ação do velho Rosa Ribeiro me serviu de verdadeira lição para o modo de como me portar na condução da vida de minhas filhas.

Em Teresina, Maria Alice chamava a atenção pela beleza sertaneja. Essa rara formosura fez com que, em meados dos Anos 1940, fosse eleita Rainha dos Estudantes da Capital Piauiense.

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Rainha dos Estudantes

Conquistado o diploma de professora, retornou para Balsas, onde lecionou no Grupo Escolar Professor Luiz Rêgo até 1956.

Sempre que me recordo daquela época, vêm-me à lembrança as festas das quais ela participava e as músicas que ela cantava, principalmente no período carnavalesco. Sendo a mulata da família, minha imaginação infantil levava-me a crer que a marchinha A Mulata é a Tal – “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal, é a tal…” – de Ruy Rey, lançada em 1948, fora composta especialmente pensando nela.

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A mulata brejeira

Também ficou gravada em minhas recordações a imagem dela, de nossas primas Violeta e Iracy, as amigas Criseida e Yolanda e outras, fantasiadas de odaliscas, cada qual com um pandeiro árabe na mão direita, no Carnaval de 1947, em cordão que tinha como tema a marchinha Odalisca – “Vem, odalisca, pro meu harém…” – , gravação de Nélson Gonçalves. Como o Oriente Médio sempre foi rica fonte de inspiração para os compositores do passado, recordo-me, dela, novamente, fantasiada com seu grupinho de odalisca, no Carnaval de 1951, dentro do tema da marchinha Levanta o Véu – “Levanta o véu, iaiá, levanta o véu, iaiá, eu sei que o teu Alá há de te perdoar…” – gravação do desconhecido Ivan de Alencar. A seguir, duas odaliscas.

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Maria Alice e Yolanda

No dia 25 de fevereiro de 1956, Maria Alice casou-se com Raimundo de Sousa e Silva, nosso primo, filho de Cazuza Ribeiro e Ritinha Pereira, indo residir na vila de engenheiro Dolabela (MG), onde se localizava a Usina Malvina, uma das fábricas de açúcar e álcool do Grupo Matarazzo, da qual Raimundo era o Químico Industrial, situada em terras do Município de Bocaiúva. Seguiu com o casal a jovem Maria Júlia, que já vivia em nossa casa desde menina, sobrinha do Comandante Puçá e de Maria Rodrigues, de quem falarei em outra oportunidade.

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Em Minas, o casal teve dois filhos: Pedro Ivo, nascido em Bocaiúva, no ano de 1957, e Maria Isaura, nascida em Belo Horizonte, em 1958.

No início dos Anos 1960, o casal mudou-se para Brotas (SP), onde Raimundo recebera melhor proposta de trabalho em outra grande usina açucareira, pertencente àquele grupo empresarial. Ali permaneceu até 1963, quando veio a fixar residência em Anápolis (GO), onde Raimundo e outros empresários fundaram uma indústria no ramo de saboaria. Nessa cidade, em 1966, Maria Alice deu à luz Raimundinho, o filho caçula.

No ano de 1967, nova mudança, dessa vez em caráter definitivo. Com aposentadoria de Rosa Ribeiro, Maria Alice foi nomeada Tabeliã do Cartório do 2º Ofício de Balsas, sucedendo a papai, enquanto Raimundo assumia o cargo de Fiscal de Rendas do Estado. Eram as aves voltando ao ninho antigo. E a cidade muito ganhou com isso.

Inicialmente, porque, com eles, voltava a se instalar naquele meio um pouco da alegria do passado, um tanto perdida com o progresso vivido nos novos tempos. No sítio Bebedouro, distante cerca de légua e meia do centro da cidade, passaram a se realizar as mais animadas comemorações e os mais festivos encontros, com a participação de todos os familiares e demais amigos.

O sítio Bebedouro, oásis balsense de alegria e felicidade:

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A seguir, o casal em meio à juventude foliona, no Clube Recreativo Balsense:

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Maria Alice e Raimundo – Carnaval de 1975

Paralelamente ao trabalho e ao lazer, Maria Alice, com o total apoio e cooperação do Raimundo, deu continuidade ao trabalho de Maria Bezerra, nossa mãe, esmerando-se na assistência às pessoas carentes, na organização de festejos religiosos, na consolação dos aflitos, no aconselhamento aos transtornados, na visitação aos enfermos, na assistência aos agonizantes e na ajuda aos carentes, material ou espiritualmente. Com sua morte, passou-se a ouvir, novamente, 33 anos depois, no Município e em seus arredores, a mesma frase comum quando Maria Bezerra nos deixou: – Morreu a Mãe dos Pobres de Balsas!

Sua última viagem a Brasília foi realizada com um pretexto: comparecer à festa de aniversário dos filhos do Luís Fernando, nosso sobrinho, e à formatura, em Anápolis, de Reinaldo, filho da Maria Júlia, a garota que a acompanhou para Minas quando casou. O negão – clone do goleiro Dida -, meu afilhado, aos 21 anos de idade, graduava-se em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Goiás. Festa? Era com ela mesmo!

A solenidade se daria no dia 7 de março de 2002. No início do mês, já aqui em Brasília, Maria Alice, com problemas respiratórios – sofria de asma -, foi internada no HGO para os devidos cuidados médicos. A última vez em que a vi, foi na tarde do dia 2, quando ela, recuperada e rodeada de parentes, relembrava, cantando, sucessos carnavalescos do passado.

No dia seguinte, 3 de março, domingo, ela teve alta e foi para a casa do Afonso, nosso irmão, onde se hospedava. À tardinha, estando à mesa fazendo um lanche com ele, passou mal, perdeu os sentidos e nunca mais voltou. Partiu imediatamente, sem muito sofrer.

Hoje, sabemos que a vinda para festas era mais um pretexto por nós ignorado. Ela viera mesmo para despedir-se dos irmãos e do resto da família. E despedida mais alegre não poderia haver. No aniversário das crianças, estavam presentes cinco de seus irmãos e todos os descendentes e agregados das famílias de Rosa Ribeiro e Cazuza Ribeiro.

Maria Alice era Ministra da Eucaristia. Seu trabalho, juntamente com o Apostolado da Oração, mais conhecido como Grupo das Romeiras, em muito contribuiu para arraigar no coração de seus conterrâneos o sentimento da caridade e da fé católica.

Antes de exalar o último suspiro, nos braços de nosso irmão Afonso, ainda teve um átimo de lucidez e, ao ouvir a Lígia, nossa cunhada, telefonar pedindo uma ambulância, exclamou: – Não é preciso, gente, estou bem!

E estava mesmo! Naquele santo momento, ela já segurava na mão de Deus!

Neste 3 de março de 2014, doze anos passados, relembramos com muita saudade, sua pessoa, mas, ao mesmo tempo, trazemos à memória os alegres momentos que ela viveu, que com ela vivemos, podendo afirmar, com segurança, que ela se encontra junto ao Pai Celestial, velando por todos nós.

ARACY DE ALMEIDA E O CARNAVAL

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Hoje, dia 3 de fevereiro de 2014, segunda-feira gorda, o Carnaval deve estar pegando fogo por todo o Brasil, e eu dou por terminada esta série sobre grandes ídolos carnavalescos do passado trazendo-lhes o perfil de Aracy de Almeida, essa grande Musa da MPB, cujo repertório dominou os festejos momescos dos quais participei, primeiro como folião e, depois, como trombonista e Mestre da Banda da Capital Federal, nos bailes, vesperais e blocos de sujo deste país.

Aracy de Almeida – batizada Araci Teles de Almeida -, nasceu no dia 19.08.1914, no Bairro Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde veio a falecer no dia 20.06.1988, no Hospital dos Servidores do Estado, vítima de embolia pulmonar. Ficou conhecida como A Dama do Encantado, O Samba em Pessoa e A Dama da Central do Brasil. Em agosto deste ano, comemoraremos seu Centenário de Nascimento.

Cresceu no Encantado, juntamente com a família. Seu pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Estudou num colégio em Engenho de Dentro, onde foi colega do radialista Alziro Zarur e, depois, no Colégio Nacional, no Meyer. Garota pobre, ainda jovem Aracy cantava no coro da Igreja Batista da qual seu irmão Alcides era Pastor. Desde os tempos de criança, sonhava em ser cantora de rádio. Cantava samba, mas era apreciadora de música clássica e se interessava por leituras de psicanálise, além de ter em sua casa quadros de importantes pintores brasileiros como Aldemir Martins e Di Cavalcanti, com quem mantinha amizade.

Os que conviviam com ela, na intimidade ou profissionalmente, tinham-na como uma mulher lida e esclarecida. Tratada por amigos pelo apelido de Araca, Noel Rosa disse, em 1933, numa entrevista a Orestes Barbosa, para o jornal A Hora: “Aracy de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo”.

Começou a cantar profissionalmente na Rádio Educadora, em 1933, o que aconteceu a partir de seu conhecimento com o compositor Custódio Mesquita, para quem cantou o foxtrote Bom Dia, Meu Amor, de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano, tornando-se logo um dos nomes mais evidentes da fase de ouro do rádio. Por essa época, já conhecia Noel Rosa e, segundo o pesquisador Antônio Epaminondas, saía muito com o compositor, “ele de violão em punho, frequentando tudo o que era casa suspeita, botequins, nas imediações da Central do Brasil, na Taberna da Glória, etc., e ela ainda de menor”.

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Em 1934, gravou, para o Carnaval seu primeiro disco, na Columbia, interpretando as marchinhas Em plena Folia, de Julieta de Oliveira, e Golpe Errado, de um compositor conhecido apenas como Jaci. No final o mesmo ano, fez o seu primeiro registro de uma música de Noel Rosa, o samba Riso de Criança, ainda pela Columbia.

Em 1935, assinou, com a Rádio Cruzeiro do Sul, seu primeiro contrato e passou a integrar o elenco da gravadora Victor, participando de diversas gravações como integrante do Coro. No mesmo ano, realizou sua primeira gravação solo na Victor, interpretando os sambas Triste Cuíca, de Noel Rosa e Hervê Cordovil e Tenho Uma Rival, de Valfrido Silva. Ainda em 1935, gravou o samba Pedindo a São João, de Herivelto Martins e Darci de Oliveira, e a marchinha Santo Antônio, São Pedro, São João, de Herivelto Martins e Alcebíades Barcelos.

Seu talento para cantar sambas e músicas carnavalescas fez com que fosse chamada pelo locutor César Ladeira de O Samba em Pessoa. 

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Foi casada com o goleiro de futebol Rei – José Fontana -, que jogou pelo Vasco e pelo Bangu, entre as décadas de 1930 e 1940, mas o casamento durou pouco tempo.

Em 1936, gravou seus primeiros grandes sucessos, os samba Palpite Infeliz e O X do Problema, ambos de Noel Rosa. Palpite Infeliz foi muito cantado no Carnaval daquele ano, embora não originalmente destinado aos festejos de Momo. No mesmo período, assinou contrato com a  Rádio Tupi.

Em 1937, lançou, de Noel Rosa, os sambas Eu Sei Sofrer e O Maior Castigo Que Eu Te Dou. Também, no mesmo ano, fez bastante sucesso com o samba Tenha Pena de Mim, de Ciro de Souza e Babaú, e tranferiu-se para a Rádio Nacional.

Em 1938, lançou o samba-canção Último desejo, derradeira composição de Noel Rosa. No mesmo ano, gravou os sambas Século do Progresso e Rapaz Folgado, também de Noel. Em 1939 lançou, para o Carnaval de 1940, com grande êxito, o samba Camisa Amarela, de Ary Barroso, que se tornou um clássico da Música Popular Brasileira.

Além das rádios Educadora, que se tornaria mais tarde Rádio Tamoio, e Cruzeiro do Sul, atuou nas rádios Mayrink Veiga, Ipanema, Cajuti e Philips, onde, no Programa Casé, fez dupla com o cantor e compositor Sílvio Caldas.

Daí em diante, com a carreira completamente consolidada e reverenciada pelo público, lançou grandes nomes e grandes títulos da MPB, quer de Carnaval, quer de ano, com retumbante sucesso.

Em 1950, foi morar em São Paulo (SP), onde residiu até 1962, quando retornou para o Rio de Janeiro.

Como já foi dito aqui nos perfis de Linda e Dicinha Batista, os Anos 1960 forma cruéis para com os ídolos da Velha Guarda da MPB, com a força do Rock, da Jovem Guarda e da TV, cujo requisito principal era a aparência visual, sempre exigindo rostos novos e corpos com apelo sexual. Assim, Aracy de Almeida, como cantora, foi, aos poucos, caindo no esquecimento das novas gerações.

Em 1964, ela participou, juntamente com outros cantores, do show de despedida – o primeiro de uma série – do cantor Sílvio Caldas no Maracanãzinho, despedida que acabou não se concretizando. Em 1968, participou do programa de calouros Proibido Colar Cartazes, ao lado do homorista Pagano Sobrinho, apresentado pela TV Record, de São Paulo, e apresentou-se, com Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e Billy Blanco na boate Zum-Zum, do Rio de Janeiro.

Em 1965, fez vários shows no Rio de Janeiro: Samba Pede Passagem, no Teatro Opinião, Conversa de Botequim, dirigido por Miele e Boscoli, no Crepúsculo, e na boate Le Club, com o cantor Murilo de Almeida. Em Em 1969, apresentou-se na boate paulista Canto Terzo e participou do show Que Maravilha!, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola, no Teatro Cacilda Becker, em São Paulo.

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Nas Décadas de 1970 e 1980, ficou conhecida por grande parte do público como jurada de programas de calouros na TV, aparecendo como uma senhora rabugenta, sempre de óculos escuros e mau-humor. Na verdade, tratava-se de uma personagem criada pela cantora para atrair a atenção do telespectador de programas como A buzina do Chacrinha e Sílvio Santos.   

Em 1980, realizou show no Teatro Lira Paulistana, que acabou chegando ao disco, num lançamento póstumo da Continental, em 1988, intitulado Aracy de Almeida ao Vivo.

Após sua morte, a remasterização de antigas gravações e o relançamento em CD de antigos sucessos redimensionaram sua importância como intérprete. Em 1998, a cantora Olívia Byington lançou o CD A Dama do Encantado onde lhe prestou homenagem, reunindo 20 sucessos de seu repertório, e contando com participações especiais como as de Chico Buarque e direção musical de Maurício Carrilho. Em setembro do mesmo ano, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, patrocinou o musical Aracy de Almeida no País de Araca, com texto e direção de Eduardo Wotzick, baseado em sua vida. Essas regravações, assim como o disco de Olívia, são facilmente encontráveis em sebos virtuais. Eis algumas das capas:

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Possuo em meu acervo 290 títulos com que ela nos presenteou em sua carreira artística, sendo 94 dedicados ao Carnaval, destacando-se, dentre eles: A Mulher do Leiteiro, marcha, 1942; Cala a Boca, samba, 1949; Camisa Amarela, samba, 1940; Cansei de Pedir, samba, 1935; Caramuru, marcha, 1939; Chorou Madureira, samba, 1950; Com Razão ou sem Razão, samba, 1941; Eu e Você, samba; 1937; Fez Bobagem, samba, 1942; Furacão, marcha, 1941; Louco, samba, 1947; Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção, 1936; Miau, Miau, marcha, 1939; Não Me Diga Adeus, samba, 1948; Não Sou Manoel, marcha, 1945; Ninguém Ensaiou, samba, 1944; O Circo Vem Aí, marcha, 1949; O Maior Castigo Que Eu Te Dou, samba, 1937; O Passo da Girafa, marcha, 1949; O Passo do Canguru, marcha, 1941; Palpite Infeliz, samba, 1936; Passarinho do Relógio, marcha, 1940; Qual o Quê, samba, 1938; Que Passo É Esse, Adolfo, marcha, 1943; Quebrei a Jura, samba, 1938; Tenha Pena de Mim, samba, 1938; Vaca Amarela, marcha, 1938; e Veneza Americana, frevo-canção, 1938.

Como pequena amostra de seu trabalho, escolhi três dessas faixas:

Manda Embora Essa Tristeza, frevo-canção de Capiba, do Carnaval de 1936;

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Passarinho do Relógio, marchinha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, do Carnaval de 1940;

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e Palpite Infeliz, samba Noel Rosa, do Carnaval de 1936.

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DIRCINHA BATISTA E O CARNAVAL

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Dando continuidade a minha postagem pré-carnavalesca, volto a relembrar outra grande artista do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. Na semana passada, dediquei-me a Linda, a mais velha das Irmãs Batista. Hoje, trago-lhes o perfil da mais nova, Dircinha, cujo repertório fonográfico de 222 títulos, que compõem meu acervo, contém 121 dedicados ao Carnaval.

Ela já teve seu perfil retratado aqui neste jornal, pelo colunista Bruno Negromonte, no dia 05.04.2012, com dois sambas-canções, Carro de Boi, de Capiba e Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria, ambos sucessos de meio de ano.

Dirce Grandino de Oliveira, a Dircinha Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 07.04.1922, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 18.06.1999. Filha do ventrículo e humorista Batista Júnior e de Emília Grandino de Oliveira, era irmã da também cantora Linda Batista.

Após seu nascimento, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Aos quatro anos de idade, Dircinha começou a ser alfabetizada num grupo escolar da Praça José de Alencar, cursando a seguir os Colégios Sion e São Marcelo.

Já aos seis anos de idade, em 1928, fez sua estreia artística cantando Morena Cor de Canela, de Ari Kerner, num show organizado por Raul Roulien, no Teatro Santana, em São Paulo, para o qual seu pai fora convidado. Ainda no mesmo ano, cantou com sucesso, no Cine Boulevard, em Vila Isabel. No ano seguinte, ingressou no colégio Divina Providência, onde concluiu o Curso Primário.

Em 1930, aos oito anos de idade, gravou seu primeiro disco, na Columbia, com o nome de Dircinha Oliveira, contendo as músicas Borboleta Azul e Dircinha, compostas pos seu pai. No ano seguinte, ingressou na Rádio Cajuti, depois Vera Cruz, participando do programa de Francisco Alves, e gravou, pela Odeon, seu segundo disco, cantando Órfã e Anjo Enfermo, de Cândido das Neves.

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Em 1935, quando cursava o ginásio no Ateneu São Luís, estreou no cinema, cantando Eu Vi Você no Posto Seis, de João de Barro, no filme Alô, Alô, Brasil. Em 1936, já com o nome de Dircinha Batista, cantou e dançou no filme Alô, Alô, Carnaval, as marchinhas Pirata e Muito Riso, Pouco Siso, ambas de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravadas na RCA Victor no mesmo ano, assim como as marchinhas Meu Sonho Foi Um Balão, de Alberto Ribeiro, e Meu Moreno, de Hervê Cordovil.

Seu primeiro sucesso no Carnaval aconteceu em 1938, com a marchinha Periquitinho Verde, de Nássara e Sá Róris. No mesmo ano, participou de três filmes: Bombonzinho, Banana da Terra e Futebol em Família.

Desde então, vieram outros títulos consagrados pelo público, como a marchinha Tirolesa, de Osvaldo Santiago, muito cantada em 1939, Upa, Upa (Meu Trolinho), de Ary Barroso, êxito que marcou sua presença no Carnaval de 1940.

Sua carreira foi marcada por contratos diversos com várias gravadoras e estações de rádio, além de atuação como atriz, como na novela Meu Amor, de Hélio Soveral. em 1951, gravou, com tremendo sucesso, o samba-canção Nunca, de Lupicínio Rodrigues, e fez parte do elenco da Companhia Teatral de Dercy Gonçalves, apresentando-se no Teatro Glória, no Rio de Janeiro.

No final de 1951, assinou contrato com as Rádios Nacional e Clube. Nesta última, fez o programa Recepção, escrito por Eugênio Lira e dirigido musicalmente pelo Maestro Alceu Bocchino. Quando a Rádio Clube fechou, Dircinha permaneceu no elenco da Nacional, onde fazia o programa Galeria Musical, escrito por Paulo Roberto e dirigido pelo Maestro Leo Peracchi.

O ano de 1953 marcou sua segunda experiência teatral, também no Teatro Glória, com a Companhia Barreto Pinto, quando gravou o samba-canção Se Eu Morresse Amanhã, de Antônio Maria. Nos seis anos seguintes, participou de sete filmes: Carnaval em Caxias, em 1954; Guerra ao Samba, em 1955; Tira a Mão Daí, e Depois Eu Conto, em 1956; Metido a Bacana, em 1957; É de Xuá, em 1958; e Mulheres à Vista, em 1959.

Em 1961, passou a trabalhar na TV Tupi, como repórter e animadora de programas. Para o Carnaval de 1963, estourou a banca com a marchinha O Último a Saber, de Klécius Caldas e Brasinha. Em 1964, outro grande sucesso, com a marchinha A Índia Vai Ter Neném, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira.

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A Década de 1960 foi cruel para com os grandes ídolos da Velha Guarda, e muito contribuíram para isso a força do Rock, da Bossa Nova e da Jovem Guarda, além da insensibilidade da TV, sempre mais voltada à aparência de seus astros e, na mais das vezes, desprezando o talento.

Assim, no início da década seguinte, Dircinha encerrou sua carreira, depois de mais de 40 anos de atividade artística, não sem arrebentar a boca do balão: em 1970, foi sucesso absoluto com a marcha-rancho O Primeiro Clarim, de Klécius Caldas e Ruthnaldo.

Turrona, enjeitou propostas vultosas para gravar programas especiais para a TV. Em 1978, quando o Programa Banco de Memória, da TV Globo, gravou, em seu apartamento, o depoimento da irmã Linda, entrevistada por Ricardo Cravo Albin, a equipe ficou esperando por Dircinha mais de três horas, sem qualquer resultado, pois ela recusava-se a sair de seu quarto. A depressão que já a acometia, piorando a partir daí.

Em 1985, Dircinha e as irmãs Linda e Odete foram encontradas no apartamento onde moravam, em Copacabana, em condições de completo abandono. Ela foi conduzida, em estado deplorável, pelo cantor José Ricardo, dois anos depois da morte de Linda, para viver numa cadeira de rodas no Hospital Dr. Eiras, onde faleceu em 1999. No mesmo ano, antes de seu falecimento, o espetáculo teatral Somos Irmãs, escrito por Sandra Werneck e interpretado por Sueli Franco e Nicete Bruno, contou as vidas de Dircinha e de sua irmã Linda nos palcos das principais cidades do Brasil, com enorme sucesso de público.

Dos 121 sucessos carnavalescos que nos deixou, estes ficaram para sempre na memória dos foliões e hoje fazem parte de coletâneas lançadas pelas gravadoras: A Coroa do Rei, samba, 1950; A Índia Vai Ter Neném, marcha, 1964; A Mulher Que É Mulher, samba, 1954; A Tirolesa, marcha, 1939; A Última Orquestra, marcha-rancho, 1971; Baile dos Casados, marcha, 1946; Barba Azul, marcha, 1940; E o Vento Levou, samba, 1941; Ela Foi Fundada, marcha, 1957; Forrobodó, marcha, 1941; Holandesa, marcha, 1941; Índio do Xingu, marcha, 1966; Juro, frevo-canção, 1940; Luar de Paquetá, marcha, 1940; Mamãe, Eu Levei Bomba, marcha, 1958; Máscara da Face, samba, 1953; Minha Terra Tem Palmeiras, marcha, 1959; Na Casa do Seu Tomaz, 1939; Não Se Sabe a Hora, samba, 1958; O Cachorrinho do Lalau, marcha, 1966; O Primeiro Clarim, marcha-rancho, 1970; O Último a Saber, marcha, 1963; Ó, Abre Alas, marcha-rancho; Oh! Suzana, marcha, 1943; Periquitinho Verde, marcha, 1938; Pirata, marcha, 1936; Se Eu Tivesse Um Milhão, samba, 1941; e Upa, Upa (Meu Trolinho) marcha, 1940.

Para relembrar um pouco essa grande Musa da MPB, escolhi dois de seus grandes Sucessos.

Máscara da Face, samba de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, lançado no Carnaval de 1953:

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O Primeiro Clarim, marcha-rancho de Klécius Caldas e Ruthnaldo, lançada no Carnaval de 1970:

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LINDA BATISTA E O CARNAVAL

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Chegando à temporada pré-carnavalesca, fico relembrando os grandes artistas do passado e suas gravações, sucessos que alegraram toda minha vida, desde os vesperais infantis, passando pelos blocos de sujo, pelos salões e pela Banda da Capital Federal, onde eu, Mestre e trombonista, gozei da felicidade de proporcionar ao povão nas ruas a oportunidade de também brincar naqueles dias de festa. E logo me vem à lembrança a figura de Linda, a mais velha das Irmãs Batista, cujo repertório fonográfico de 162 títulos, que compõem meu acervo, contém 73 dedicados ao Carnaval.

Florinda Grandino de Oliveira, a Linda Batista, cantora e compositora, nasceu em São Paulo (SP), no dia 14.06.1919, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 17.04.1988. Filha do ventríloquo e humorista Batista Júnior, e de Emilia de Grandino de Oliveira, era irmã da cantora Dircinha Batista.

Ainda criança, sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro do Catete. Linda fez o Curso Primário no Colégio Sion, época que a empregada costumava levá-la para ouvir música na Corbeille de Flores, gafieira pertinho de sua casa.

Aos dez anos, começou a aprender violão com o cantor Patrício Teixeira, chegando a compor uma canção intitulada Tão Sozinha. Aos 12, passou a frequentar programas de rádio, acompanhando a irmã Dircinha ao violão. Terminado o Ginásio, no Colégio São Marcelo, iniciou-se no curso de Contabilidade e Corte e Costura.

Em 1936, devido a um atraso de Dircinha, substituiu-a, estreou como cantora no programa de Francisco Alves, na Rádio Cajuti, interpretando o samba Malandro, de Claudionor Cruz. Com o sucesso obtido, foi convidada para outras apresentações na emissora. Em 1937, foi eleita Rainha do Rádio, num concurso promovido no Iate dos Laranjas, barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, título que manteve durante 11 anos consecutivos.

A 3l de março de 1937, casou-se com Paulo Bandeira, de quem se separou menos seis meses depois. Ainda no mesmo ano, trabalhou no filme Maridinho de Luxo, realizou uma excursão pelo Nordeste, tornou-se crooner da Orquestra Kolman, no Cassino da Urca, e, contratada pela Odeon, lançou um disco em que interpretava, em dupla com Francisco Alves, os rasqueados Chimarrão, de Djalma Esteves, e Churrasco, de Esteves e Augusto Garcez.

Em 1938, participou do filme Banana de Terra, fez uma temporada na Rádio Cultura de São Paulo e apresentou-se na inauguração do Cassino da Ilha Porchat, em são Vicente (SP), ali atuando por seis meses.

Retornando ao Rio de Janeiro, em 1939, continuou a trabalhar no Cassino da Urca, onde foi a atração principal até 1945. Nesse período, lançou vários sucessos, como Passei na Ponte, marcha-conga de Ary Barroso, Tudo É Brasil, samba de Vicente Paiva e Sá Róris, Batuque no Morro, samba de Russo do Pandeiro, Clube dos Barrigudos, marcha de Christóvão de Alencar e Haroldo Lobo, e No Boteco do José, marcha de Wilson Batista e Augusto Garcez.

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Na época, foi, assim com Carmen Miranda, uma das primeiras estrelas de grande popularidade em todo o Brasil. Em virtude desse renome, excursionou pela América do Sul, estrelou filmes e peças teatrais e se apresentou nas principais emissoras brasileira, além de fazer show musicais por todo o Território Nacional.

Em 1947, foi contratada pela Boate Vogue, onde permaneceu até 1952. Em 1948, gravou o samba Enlouqueci, de Luís Soberano, Valdomiro Pereira e João Sales. Para o Carnaval de 1950, gravou o samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, que obteve tanto sucesso ao ponto de se tornar nome rua no bairro paulistano do Jabaquara.

Em 1951, voltou à Rádio Nacional com o programa Coisinha Linda, atuou no filme Aguenta Firme, Isidoro, excursionou pela Europa, apresentando-se em Portugal, Paris e Roma, e lançou o samba-canção Vingança, de Lupicínio Rodrigues, o maior sucesso de sua carreira.

Em 1952, atuou nos filmes Tudo Azul, Está Com Tudo, e É Fogo na Roupa. Em 1954, participou dos filmes Carnaval em Caxias e O Petróleo É Nosso. em 1955, foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga e estrelou o filme Carnaval em Marte. Em 1956, transferiu-se para a Rádio tupi e atuou nos filmes Tira a Mão Daí e Depois Eu Conto.

Em 1957, trabalhou nos filmes Metido a Bacana e É de Xuá, e excursionou pelo Uruguai e Argentina. Após retornar, recebeu da UBC e da SBACEM, entidades arrecadadoras de Direitos Autorais, o Troféu Noel Rosa, por gravar exclusivamente música brasileira.

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A partir de 1960, passou a dedicar-se apenas ao repertório carnavalesco, inclusive com músicas de sua autoria, como a marchinha Olha a Italiana, de 1961 e participou de alguns programas especais da TV.

O tsunami avassalador do Anos 1960, formado pelo Rock, a Bossa Nova e a discriminação da TV quanto ao visual, levou Linda Batista de roldão, fazendo com que ela se retirasse da vida artística.

Mas ela o fez em grande estilo. Em 1962, foi campeã absoluta com Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, sátira aos fuzilamentos que estavam ocorrendo em Cuba, da qual falarei mais adiante.

Nos Anos 1980, Linda deixou completamente de participar da vida pública, recolhendo-se à companhia das irmãs, Dircinha e Odete, em seu apartamento no bairro carioca de Copacabana, o último bem imóvel que lhes restou. No fim da vida, elas passaram por dificuldades financeiras, tendo sido auxiliadas pelo cantor e fã José Ricardo.

Linda veio a falecer, a 17.04.1988, no Hospital Evangélico da Tijuca, vítima de infecção respiratória. Rainha do Rádio por mais de uma década, sofria também de depressão crônica, acentuada pelo esquecimento do público.

Em 1998, o musical intitulado Somos Irmãs, de Sandra Werneck, foi encenado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, revivendo a vida, o sucesso e a decadência das irmãs Batista. A montagem, dirigida por Ney Matogrosso e estrelada por Sueli Franco e Nicete Bruno, ainda percorreu o Brasil em várias apresentações, sempre com êxito de público e de crítica.

Dentre os grandes sucessos carnavalescos que nos legou, estes foram mais tocados nos salões e cantados pelo público nas ruas: A Cobra Está Fumando, marcha, 1945; Chico Viola, samba, 1953; Clube dos Barrigudos, marcha, 1944; Coitado do Edgar, samba, 1943; Cordão dos Magricelas, marcha, 1945; Criado com Vó, frevo-canção, 1945; Enchente da Maré, marcha, 1955; Enlouqueci, samba, 1948; Escocesa, marcha, 1944; General da Banda, samba, 1950; Levou Fermento, samba, 1957; Madalena, samba, 1951; Marcha da Penicilina, marcha, 1954; Marcha do Paredão; marcha. 1962; Me Deixe em Paz, samba, 1952; Nega Maluca, samba, 1950; No Boteco do José, marcha, 1946; Nova Capital, marcha, 1957; O Gemido da Saudade, samba, 1958; O Soro e os Velhinhos, marcha, 1950; Pente do Careca É a Mão, marcha, 1951; Quero Morrer no Carnaval, samba, 1961; e Se Me Der na Cabeça, samba; 1949.

Para mostrar-lhes um pouquinho de seu trabalho, escolhi 2 títulos desse lindo repertório. O primeiro é samba Nega Maluca, de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, gravado para o Carnaval de 1950, seu maior sucesso carnavalesco:

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O segundo é Marcha do Paredão, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, campeã em 1962. Essa marchinha era premonitória. Previu o comportamento do brasileiro atual que, diante das condenações dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal, estão a absolvê-los, pagando as multas que lhes foram impostas e dando-lhes grande visibilidade ma mídia. Pra completar, menciona o nada-consta para quem roubar ou trem ou suicidar alguém:

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ASSIS MEDEIROS, UM BURRO TALENTOSÍSSIMO

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Foto garimpada no Google

É assim mesmo que Assis Antônio Medeiros autodenomina-se em seu endereço eletrônico: burrodecarga@etc.com.

Assis Medeiros é cantor, compositor, músico e arranjador, tocando primorosamente os seguintes instrumentos: violão de 6 cordas, violão de 7 cordas, violão de 12 cordas, viola de 10 cordas, cavaquinho, guitarra, berimbau e percussão. Pra não dizerem que é instrumentista só de pau e corda, é exímio também no piano, no teclado e no trompete, este de bocal.

Conheci-o na piscina da Academia Consciência Corporal, no Lago Sul, onde praticamos atividades hidroterápicas, sob o eficiente e gentil comando da Dra. Ayda Jamal, proprietária da Clínica Reabilit – Espaço Saúde.

O que me leva e escrever estas maltraçadas é apenas a admiração que tenho por esse jovem artista, e nada mais. O conflito de gerações – diferença de em torno de 40 anos – faz com que nossos assuntos em comum sejam nadica de nada. Além do que, ninguém conversa com velho, ninguém conversa com surdo. Avaliem, então, qual seria o diálogo comigo, idoso e mouco!

Assis é homem de poucas palavras, não é desses que jogam conversa fora. No entanto, há algo em comum entre nós dois, um profundo sentimento que nos domina e nos encaminhou aos cuidados da Dra. Ayda e sua dedicada equipe: a dor!

Aos poucos, quando a Dra. Hoa – pronuncia-se Roá -, chinesa, uma de nossas hidroterapeutas, a quem nomeei minha Assessora Memorial, Onomástica Auditiva, me traduz, aos gritos, os diálogos dos demais hidroterapatas, fico sabendo que o Assis nasceu no Recife (PE), a 29 de agosto de 1971, e morou grande parte de sua juventude em João Pessoa (PB). Pernambucano por nascimento, paraibano por adoção, é servidor da Câmara Alta do Congresso Nacional, lotado na TV Senado, sendo colega de Maurício Melo Junior, colunista fubânico e meu amigo desde sempre.

A garimpagem na Internet me faz saber que Burrodecarga é seu primeiro CD a ter distribuição comercial, uma mistura de rock, samba, reggae e funk, além da música regional e eletrônica. Em suma, o roteiro é qualificado pelo músico como “um sem estilo, um depravado musical”. Entre os instrumentos que compõem as 14 faixas, estão bateria, percussão, baixo, teclado, violão, guitarra, naipe de metais, cordas e loops eletrônicos. Além da faixa-título, Burro de Carga, o CD contém É Carnaval e Banzo Beleza, pela qual o artista confessou ter um carinho maior, pois a letra remete à época em que ele morou no Maranhão. Eis a capa do Burro:

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A ilustração deste disco é de autoria de Flora, sua filha de 11 anos. Talento e sapiência que de Assis transmite à prole.

Sua passagem pela Nação Timbira lhe deixou marcas indeléveis no coração. Ali, conheceu a Dra. Adriana, Arquiteta, com quem se casou. Ela, além de outros trabalhos de vulto, no Brasil e na Capital Federal, é autora do projeto da casa do Maurício Melo Junior, onde incrustou um salão medindo pra mais de 100 metros quadrados, no qual instalou a famosa Biblioteca Mauriciana, fazendo com que nós, leitores compulsivos, fiquemos a babar de inveja, por não termos onde guardar os compêndios que lemos:

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Detalhes da Biblioteca, com o Maurício e o Papa Berto, que me cedeu as fotos

Assis é formado em Jornalismo e chegou a exercer a profissão no jornal O Imparcial, integrante dos Diários Associados. Já na música, o artista conta que tocou em bares dos 16 aos 24 anos, para ganhar o dicumê. Hoje, graças ao Senado, conquistou a estabilidade, trabalhando naquilo de que gosta, atuando na área de produções especiais, editando exposições e shows.

Apaixonado pelo que faz, Assis Medeiros já criou várias trilhas sonoras para curtas-metragem e documentários, Cartas ao País dos Sonhos, lançado em novembro de 2007, escrito e dirigido por Renata de Paula. Anteriormente, produzira, de forma independente, dois CDs: um com músicas infantis, denominado Bandoleta, e outro feito em parceria com Hamilton Oliveira e Ana Areias, intitulado Pirata. Há poucos anos, Assis foi um dos 50 classificados no Projeto Rumos Itaú de Música 2008/2009, um dos mais importantes na área de música do país.

No dia 7 de dezembro de 2013, a TV Senado exibiu o documentário abaixo, homenagem a Orlando Tejo, grande amigo e guru meu e da Comunidade Fubânica, sob a direção do Maurício Melo Junior:

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A trilha sonora original é foi composta pelo Assis. Preciso dizer mais? Pois digo.

Da Internet, pincei estas informações, postadas, suponho, em 2013, dando conta da versatilidade desse fabuloso músico: “O projeto Rádio Pocket Show prossegue, em sua Terceira Edição, no dia 31 de maio, sexta-feira, a partir das 21h00, no bar e restaurante L`Apero – Praia de São Marcos, São Luís (MA). Nesta versão, o músico paraibano, radicado em Brasília, Assis Medeiros apresenta o show NUAR, acompanhado de Hamilton Oliveira, baixo, Guilherme Raposo, guitarra, e Hilton Oliveira, bateria, além da participação do poeta multimídia Celso Borges e da discotecagem mundana de Pedro Sobrinho em formato de uma programação de rádio.”

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Para isso, suponho novamente, ele deve deslocar-se todas as semanas para aquela cidade, em cumprimento de agenda cultural.

Há poucos dias, eu, que falo até pelos ouvidos, tagarelando na piscina, expus minha dificuldade em localizar elepês do início dos Anos 1980, para formar um acervo das músicas de duplo sentido que dominaram cenário forrozeiro naquela época, e o Assis, magnanimamente, se ofereceu para emprestar-me alguns, como de fato o fez. Sandro Becker, Zenilton, Marinalva, Antonio Barros e Cecéu foram os mais conhecidos. Dentro da sacola, sem qualquer aviso ou promessa, veio este CD duplo, do qual passarei a falar:

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Baiãozinho NUAR, é seu último trabalho discográfico. Contém arranjos eruditamente elaborados, mas assim mesmo agradáveis ao ouvinte. As faixas são todas de autoria do Assis, individualmente ou com parceiros, cantadas por ele, que também nelas atua como instrumentista – mágica das possibilidades tecnológicas.

O Volume 1 traz apenas baião, uns do tipo rojão e outros mais comportados – os baiãozinhos -, enquanto o Volume 2, no qual Assis abusa de sua capacidade de compositor, brinda-nos com baião e toada, às vezes passeando na área do foxe.

Ainda não posso dizer, qual de todas as músicas do CD a que mais me agradou. Tenho tempo para isso. Mas escolhi uma faixa representativa, apenas por Assis ter nela como parceiro nosso amigo Maurício Melo Junior.

Trata-se do baiãozinho Vento Geral, que vocês agora ouvirão na voz do Assis:

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DIA DO BOM VIZINHO

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Esta matéria deveria ter ido ao ar no dia 23 de dezembro passado, data consagrada na Folhinha como o Dia do Vizinho. Atropelada por outros assuntos mais prementes, como o Réveillon e Dia de Reis, só hoje é publicada, mas com a necessária explicação: na convivência social, todo o dia do ano é também o Dia do Bom Vizinho.

Isso posto, passemos aos fatos!

Em certa madrugada do mês de agosto de 2013, o morador do Ap. WWW, parede-e-meia com o nosso, o XXX, andou arrumando suas malas para uma viagem que aconteceria logo mais, e a movimentação, obviamente, provocou um pouco de barulho, mas nada que nos incomodasse do lado de cá.

No dia seguinte, fomos surpreendidos com esta Ocorrência registrada no Livro do Condomínio por inquilino, morador do Ap. YYY, embaixo do nosso:

“Senhora Síndica. Solicito sua intervenção junto aos moradores do Ap. XXX, no sentido de reduzirem seus barulhos intensos como derrubada muito ruidosa de objetos e arrastar de móveis. Isto ocorre principalmente nos fins de semana, a partir das 6h da manhã. Impossibilita descanso.”

Não satisfeita com isso a reclamante passou a interpelar-nos pessoalmente, dedo em riste, sem ao menos averiguar quem lhe causara tanto desconforto, o que me levou a registrar, no mesmo Livro, esta defesa:

“Brasília, DF, 17 de agosto de 2013.

Senhora Síndica,

– Deus te livre da praga do mau vizinho!

Esta era uma das rogativas do Cego Adriano, lá no sertão sul-maranhense, em meu tempo de menino, cada vez que recebia qualquer dádiva.

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Já se vão mais de setenta anos. Na época, a criançada, que morava em casas não geminadas, cujos pais conviviam na mais perfeita harmonia com os moradores das redondezas, socorrendo-se, ajudando-se e, às vezes, sofrendo mutuamente, não compreendia bem o sentido das palavras do cego. Mas ele, cantador e cordelista, homem estudado e viajado, explicava-nos:

– Quando Deus andou no mundo, estando um dia à sombra duma figueira, onde a caravana havia feito alto para o descanso dos apóstolos, e vendo Cefas Simão sentado numa grande pedra, teria exclamado: “Levanta-te daí, Cefas Simão, porque, há duzentos mil anos, sentou-se nessa mesma pedra um mau vizinho!”

A narração me impressionou por demais. E, quando entrei para o Catecismo, ao aprender quais eram os Dez Mandamentos da Lei de Deus, acrescentei o 11º: Ser bom vizinho! Sob pena de, ao deixar a existência, ir padecer no fogo do inferno!

E venho cumprindo à risca esse preceito. Nos dois blocos de apartamento em que morei, na 416 Sul e neste, fui aprovado em meu comportamento gregário, o que comprovam os convites recebidos para ser síndico, tanto lá, quanto aqui.

Resido neste Bloco, com minha família, há 18 anos. Aqui, criamos nossas filhas, demos-lhes educação para conviver com a sociedade, em geral, e com os vizinhos, em particular. Hoje, temos duas moças formadas, bem orientadas na vida, exemplo para todos os pais de família de nossa Comunidade.

Este prédio não possui isolamento acústico, fazendo com que uma festinha de aniversário no Ap. 101 seja ouvida até no Ap. 608. Aproximando-se um pouco mais, ouvem-se o bater duma porta, o fechar duma gaveta, a descarga dum vaso. À pequena distância, podem-se ouvir tapas e beijos e até gemidos e sussurros na hora do amor. 

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Os bons vizinhos – tais como nossa família – a tudo relevam, mesmo por empatia, pois o receptor de ruído de hoje pode ser o barulhento de amanhã. Isso é o que os americanos chamam de política da boa vizinhança.

A Moradora do Ap. YYY, em sua reclamação, motivo desta correspondência, poderia ter melhor averiguado a origem do barulho que a incomodou sem, açodadamente, identificar nosso apartamento como seu causador. Na verdade, o ruído foi originado em outra unidade, cujo número não vem ao caso, vez que seu morador estava arrumando as malas para viajar. E isso não durou por toda a noite. Daqui, ouvimos toda a operação, mas, adotando a empatia e a compassividade, ignoramos o fato, levando em conta, também, que tal morador é um dos mais silenciosos do prédio. 

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O desassossego da Moradora do Ap. YYY persiste, embora tenhamos adotado todas as providências para não incomodá-la. Agora, suas recriminações já não mais se limitam às páginas deste livro. São-nos dirigidas pessoalmente.

E isso faz com que nos transformemos todos em vítimas de cruel paranoia. De um lado, nós, do XXX, tomando todas as precauções no sentido de preservar o bem-estar da Reclamante, patrulhando-nos 24 horas por dia, pisando em ovos, como se diz. Enquanto isso, do outro lado, a Reclamante parece – repare bem, eu disse parece – estar a policiar-nos, atenta a qualquer som que provenha de nosso lar até mesmo o de um flato mais forte descuidadamente escapulido.

Isso pode levar qualquer um à instabilidade emocional! Deus, no entanto, é maior, é Pai, e nos ajudará!

No intuito de solucionar o problema, sugiro a criação de uma Comissão de Moradores que passe, sem avisar-nos, uma noite no Ap. YYY, observando nosso comportamento, para depois emitir um laudo com sugestões que acataremos, contanto que não seja mudarmo-nos para outro local.

Não há erro sem solução, não há solução sem defeito e não há defeito que não possa a qualquer tempo ser corrigido.

O Correio Braziliense de hoje traz, em seu caderno Cidades, página inteira intitulada Meu Vizinho, Meu Irmão, enfatizando que “a convivência com quem mora na casa ou no apartamento ao lado, por vezes, transforma-se em um laço duradouro”. E conta três histórias de pessoas que descobriram, bem pertinho, amigos para a vida inteira.

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Está em nós a possibilidade de sermos assim também!

Em nome da Boa Vizinhança, subscrevo-me,

Atenciosamente,   

Proprietário e Morador do Apartamento XXX.”

ANTÔNIO BARROS E CECÉU: CASAL NOTA DEZ DO FORRÓ

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Antonio Barros e Cecéu

O início dos Anos 1980 dava a entender, pelo menos para nós residentes neste quase-sul brasileiro, que o Forró perdera sua força criativa, estava carente de compositores novos que o revigorassem, que o tirassem do marasmo em que se encontrava. E foi aí que apareceu, para a felicidade de todos os forrozeiros, o casal Antonio Barros e Cecéu, cujas composições, desde então e até hoje, são disputadas por todos os astros da Música Nordestina.

É bem verdade que Antonio Barros já era conhecido por aqui na década anterior, com o xote Procurando Tu, em parceria com J. Luna e interpretado pelo Trio Nordestino, mas apenas pela letra de duplo sentido, um filão que também começava a surgir. O lançamento dos xotes Homem com H, de Antonio Barros, em 1981, Por Debaixo dos Panos, de Cecéu, em 1982, na voz de Ney Matogrosso, e Bate, Coração, de Cecéu, no mesmo ano, gravado por Elba Ramalho, balançou a estrutura do Forró e consagrou o nome desse inspiradíssimo casal de compositores no gosto de toda a população brasileira. São mais de 30 anos de intensa visibilidade na midiática.

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Faço minhas as palavras de Marcus Vinícius de Andrade, Diretor-Artístico da Gravadora CPC-UMES, extraídas do encarte do CD acima, Antonio Barros e Cecéu – Forró Número Um:

“Antonio Barros e Cecéu formam uma dupla de compositores que todo o Nordeste (melhor dizendo, todo o País) conhece, pelos inúmeros sucessos que já produziu. Gente simples e boa, cuja música fala o Português gostoso do Brasil – como diria o grande Manuel Bandeira –, eles são o exemplo mais perfeito de autores que sabem conciliar simplicidade e refinamento, picardia e criatividade linguagem popular e bom gosto. Paraibanos de raça, conseguem ser universais: não foi à toa que sua canção Bate, Coração, com o talento esfuziante de Elba Ramalho, causou o maior fuzuê em Montreaux, quando o Forró desmontou a cintura dura das suíças… Até em Israel, as canções de Antônio Barros e Cecéu são conhecidas, cantadas em Iídiche com o mais puro sotaque sertanejo.

“Autores de mais de 700 obras, das quais mais de 200 se tornaram sucesso, Antonio Barros e Cecéu conhecem a fundo a linguagem da canção, da boa e simples canção que atinge todos os segmentos do público, sendo assobiada nas ruas e cantada com naturalidade em choupanas e palácios, por gente de todas as idades e condições sociais. Esse domínio do artesanato da canção é fruto não apenas de seu talento, mas também de uma experiência de muitos anos, aprimorada junto a nomes como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, com quem eles trabalharam e de quem são alguns dos mais legítimos herdeiros.”

Vejamos um pouco de suas biografias.

ANTONIO BARROS

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Antônio Barros Silva, cantor, compositor e poeta, nasceu a 11.03.1930, em Queimadas, Região Metropolitana de Campina Grande, Paraíba, filho de Severino Barros da Silva e Luiza Rodrigues da Silva. Casado com a compositora e cantora Cecéu, fixou residência em São Paulo.

Estudou no Grupo Escolar José Tavares, e a maior parte de sua infância foi vivenciada na Zona Rural. Quando sobrava tempo para brincar, costumava pegar uma lata de querosene vazia de 20 litros, colocava a cabeça dentro, batia do lado de fora com as duas mãos, fazendo ritmo, enquanto cantava para ouvir sua própria voz com efeito reverberado.

Aos dezenove anos de idade, foi trabalhar como músico tocando pandeiro na Rádio Caturité, em Campina Grande. Por volta dos 20 anos, mudou-se para o Recife onde, na Rádio Tamandaré, deu continuidade a seu trabalho como pandeirista. Foi nessa mesma época que escreveu sua primeira música e conheceu Jackson do Pandeiro, o qual se tornou seu grande amigo, apoiando-o na vida profissional.

A partir daí, começou a gravar suas primeiras canções profissionalmente com Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Zito Borborema. Logo depois, foi para o Rio de Janeiro, conquistando ainda mais seu espaço no meio musical, onde passou a gravar com Marinês, Trio Nordestino e também tocando triângulo no Regional de Luiz Gonzaga, na casa de quem morou, na Ilha do Governador.

Trabalhou como contrabaixista no navio Ana Neri, que fazia cruzeiros turísticos pelo litoral brasileiro. Em 1970, numa dessas viagens compôs Procurando Tu, a partir de lembranças da infância, e entregou a música para gravação pelo Trio Nordestino. Aceitou a parceria de J. Luna disc-jóquei baiano, que o ajudou a divulgar a música no Nordeste, tornando-se um dos sucessos daquele ano e regravada por ele mesmo, Ivon Curi e Jackson do Pandeiro, entre muitos. Outros de seus sucessos gravados pelo Trio Nordestino foram, Corte o Bolo, Cuidado Com as Coisas, É Madrugada e Faz Tempo Não Lhe Vejo. Na maioria, letras de duplo sentido que se fizeram amplamente conhecidas, mas obnubilavam o nome do compositor.

Em 1974, teve a música Vou ver Luiza, parceria com Lindolfo Barbosa gravada por Bastinho Calixto pela EMI. Um dos muitos grupos que gravaram suas composições e obteve sucesso foi o trio Os Três do Nordeste, que alcançou as paradas de sucesso com É Proibido Cochilar, Forró do Poeirão, Forró de Tamanco e Homem com H.

Em 1981 teve a música Estrela de ouro, parceria com José Batista, gravada por Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e Quebra Pote, pelo Trio Mossoró. No mesmo ano, conheceu a consagração nacional com, Homem com H, composta anos antes para a novela O Bem Amado, quando Ney Matogrosso a regravou, conquistando o Primeiro Lugar na Parada de Sucessos daquele ano.

Desde então, sua carreira musical se consolidou, crescendo a cada ano que passa.

CECÉU

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Cecéu – Mary Maciel Ribeiro -, cantora e compositora, nasceu a 02.04.1950 na cidade de Campina Grande, na Paraíba, filha de Severino Lourenço Ribeiro e Maria Maciel Ribeiro. Morou 10 anos no Rio de Janeiro, radicando-se depois em São Paulo. É casada com o compositor Antônio Barros.

Quando menina, acompanhava o pai comerciante ao centro da cidade e lá fazia questão de comprar a Revista do Rádio. Desde muito pequena, era encantada pelo rádio. Uma das músicas que a marcaram nessa época foi o samba Iracema, gravado por Os Demônios da Garoa, ouvida na radiola de uma festinha infantil, que contava a triste história de uma moça que é atropelada a poucos dias do casamento. Aquilo a sensibilizou tanto, que não conseguiu aproveitar a festa com as outras crianças. Nessa época, tinha apenas sete anos, e fui profundamente influenciada pela música.

A característica marcante de Cecéu sempre foi a música romântica, que fala de sentimento, de coração. Apaixonada por programas de rádio, sua infância foi marcada por cantores que não combinavam com sua faixa etária como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Emilinha Borba e Anísio Silva o Rei do Bolero. Sua mãe até que tentava convencê-la de que aquelas não eram músicas para criança, mas isso de nada adiantava.

Conheceu Luiz Gonzaga nos Anos de 1970, quando fazia gravações na CBS com os Três do Nordeste e Marinês. Ficou amiga do Rei do Baião, e sempre que este ia a Campina Grande, costumava dividir com ela o mesmo palco.

Em 1982, o cantor Ney Matogrosso gravou com enorme sucesso o xote Por Debaixo dos Panos. No mesmo ano, a cantora Elba Ramalho obteve sucesso espetacular com o xote Bate Coração, gravado ao vivo no Festival de Montreux na Suíça.

Foi a consagração no Universo Forrozeiro, o que se prolongou até os dias atuais.

ANTONIO BARROS E CECÉU

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Dois paraibanos filhos de Severinos! Só podia dar no que deu! Antonio Barros e Cecéu encontraram-se em 1971, quando formaram uma parceria no trabalho musical e no amor. Passaram a compor juntos e se tornaram um casal de sucesso. Levantando a bandeira de forte expressão artística no companheirismo do dia-a-dia, essa dupla se transformou num paradigma da cultura popular brasileira, pois nesse decorrer são mais de setecentas obras gravadas pela maioria dos intérpretes brasileiros, alcançando popularidade até no exterior onde também suas músicas foram gravadas na Itália, Espanha, Portugal e Israel.

Homem Com H, Por Debaixo Dos Panos, Bate, Coração, como também as famosas Procurando Tu, Casamento de Maria, Sou o Estopim, Amor Com Café, Forró do Poeirão, Forró do Xenhenhém, Óia Eu Aqui de Novo são algumas das canções que fazem parte do acervo de músicas autorais dessa dupla e gravadas por expressivos nomes da MPB como Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Dominguinhos, Gilberto Gil, Alcione, Ivete Sangalo, Fagner, Gal Costa, MPB-4 e os saudosos Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês.

Esses consagrados artistas, que fazem parte da realidade e da história de nossa música, conseguiram romper a regionalidade sem perder o sotaque. Na capital paulista, onde reside desde 1995, o casal apresenta shows com classe e charme através de seus inúmeros sucessos. A história e a música de Antonio Barros e Cecéu se mantém sempre em atividade. Exemplo disso é encontrar regravações e releituras de suas músicas feitas por uma nova geração de intérpretes, não somente de ídolos regionais, mas, muitas vezes, de artistas pops e DJs de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que, constantemente, estão cultivando essa obra genial.

Estes elepês e cedês, bem como o acima estampado, são facilmente encontráveis em sebos virtuais:

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É tarefa impossível selecionar uma só faixa como amostra da colossal produção desse talentoso casal, principalmente para a nova geração, que conhece a maioria de suas músicas, mas desconhece o nome de quem as compôs. Por isso, encareço a benevolência dos editores do Jornal da Besta Fubana, no sentido de que relevem meu abuso com estas postagens:

PUPURRI COM ANTONIO BARROS E CECÉU:

01 – NÃO LHE SOLTO MAIS – Rojão (Cecéu), NA CAMA E NO CHÃO (Cecéu), BULI COM TU (Cecéu)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM ANTÔNIO BARROS:

02 – POR BAIXO DOS PANOS – Xote (Cecéu), HOMEM COM H (Antônio Barros), PROCURANDO TU (Antônio Barros e J. Luna)

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PUPURRI INDIVIDUAL COM CECÉU:

03 – NAQUELE SÃO JOÃO – Arrasta-pé (Antonio Barros), BRINCADEIRA NA FOGUEIRA (Antônio Barros), JÁ É MADRUGADA (Antonio Barros)

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ANTONIO BARROS, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

04 – NA PALMA DA MÃO – Rojão (Antonio Barros e Cecéu)

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CECÉU, EM GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

05 – BATE, CORAÇÃO – Xote (Cecéu)

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MARINALVA E SUA GENTE

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Marinalva no começo da carreira

No dia 07.05.12, quando lancei aqui no JBF o perfil de Marivalda, a Forrozeira da Amazônia, muitos estranharam, achando que eu me confundira, trocando o nome da Marinalva, de quem eu nunca ouvira. Só se convenceram diante das evidências comprobatórias, ou seja, das imagens de vários registros fonográficos de Marivalda. Houve um, o Augusto TM, que postara em seu blog Toque Musical matéria falando sobre uma, mas pensando que ela fosse a outra, com a única informação concreta: Marinalva era irmã de Marinês.

Depois disso, entrei em contato com alguns curtidores do Forró, e a maioria, ou também nunca ouvira falar de Marinalva, ou escutara o canto da cigarra não se sabia onde, e a informação era samba de uma nota só: Marinalva era irmã de Marinês.

Senti-me, então, desafiado a produzir algo que resgatasse a memória dessa forrozeira, postando aqui o resultado de minha pesquisa, à disposição de todos.

Raciocinando que Marinês nascera na cidade pernambucana de São Vicente Ferrer, procurei entrar em contato com o Cartório do Registro Civil daquela cidade, no intuito de conseguir qualquer documento referente a Marinalva: certidão de nascimento ou de óbito, caso ali existissem. Não foi fácil.

De cara, o número telefônico da referida repartição não consta da Telelista.net. Assim, apelei aos leitores do JBF, sendo orientado pala redação a dirigir-me ao número de um celular que obtivera não sei de que modo. Viva! Hip, hurra! Até enfim, consegui falar com alguém de lá, não sei se serventuário ou titular do órgão. Expus o problema e solicitei uma busca, mediante pagamento das custas, evidentemente. Mandaram que eu ligasse dali a uma semana.

No prazo estipulado, entrei em contato, mas o pessoal de lá havia se esquecido de minha solicitação. Alguém marcou para que eu ligasse na outra semana. O que fiz. Novamente, pediram mais prazo. Resumo da ópera: passado quase um mês, fui informado de que ali nada consta sobre Marinalva, nem sobre Marinês.

Abro aqui um parêntese para elogiar o Cartório do 2º Ofício de Balsas, Maranhão, minha cidade natal, e Maria do Socorro Ferreira Vieira, minha Assessora Cultural, que o informatizou. Seu Rosa Ribeiro, meu saudoso pai, foi o Tabelião até aposentar-se, passando a titularidade para Maria Alice, minha irmã, que admitiu a Socorro, em 1977, como escrevente. Em 1978, Socorro galgou, por seus méritos, a posição de Tabeliã Substituta. Com o falecimento de minha irmã, em 2002, Socorro assumiu o posto de Tabelião Titular e uma de suas primeiras providências foi a informatização do Cartório, onde qualquer busca, atualmente, é atendida no ato, com resposta em cima do laço.

Nessa minha mania de fuçar em Cartórios do Brasil para dar veracidade aos dados biográficos constantes dos trabalhos que lhes disponibilizo, posso dizer que são poucos, pouquíssimos mesmo, aqueles em todo o Território Nacional que dispõem dessa ferramenta, tão indispensável à correria que caracteriza o século atual.

Ironia do destino: no final de 2002, Socorro teve de entregar o Cartório, no qual empregou todos os recursos de modernização, a um Bacharel nomeado pelas autoridades da Capital, vez que ela não era concursada. Assim mesmo, com 32 anos de bons serviços, sem tchau nem bença! Fecho o parêntese.

Retomando o fio da meada, ocupemo-nos de Marinalva. Os dados biográficos de que disponho foram colhidos em duas fontes altamente confiáveis: Abílio Neto, Membro da Academia Passa Disco da Música Nordestina, pessoa altamente qualificada em assuntos pertinentes à Cultura Nacional; e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Maria Caetana de Oliveira, mais conhecida como Marinalva, nasceu em São Vicente Ferrer, Agreste de Pernambuco, em 1950. Era irmã da também da forrozeira Marinês, conhecida nacionalmente.

Durante sua carreira, Marinalva gravou 26 elepês, sempre tendo a música nordestina como temática. Outra característica em sua carreira foram canções de duplo sentido. A cantora veio a falecer em 11 de setembro de 2008, no Hospital da Restauração, no Recife, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

Alguns vinis que deixou ainda se encontram à venda em sebos virtuais:

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Na falta de textos relativos a Marinalva, transcrevo a apresentação constante do LP acima, De Rolha na Boca, de 1980, assinada por J. Garcia:

“O Nordeste, com seu povo sofrido, suas tradições imorredouras, seu fabuloso folclore, tem se constituído numa fonte inesgotável de inspiração poética.

Muitos são os que cantam o Nordeste, mas só aqueles – filhos da terra – íntimos de sua realidade, seus problemas e aspirações, podem fazê-lo com propriedade e autenticidade.

Seguindo as pegadas de sua famosa irmã Marinês, Marinalva vem se firmando, dia a dia, como grande intérprete que é, assumindo, com justiça, uma posição destacada dentro de nossa música.

Este é seu 7º LP. Nele, iremos encontrar somente músicas de compositores paraibanos, alguns veteranos famosos, como Luiz Ramalho e João Gonçalves, ao lado do estreante Calazans Sabury. As músicas escolhidas abrangem uma larga faixa da temática nordestina que vai, desde o picante Nena do Asfalto, até a religiosidade do sertanejo, tão bem retratada em Frei Damião, sem esquecer a tradicional e ingênua marchinha junina.”

Com tantos itens constantes de sua discografia, é incompreensível o fato de Marinalva ser completamente desconhecida no Nordeste, em particular, e no Brasil, em geral. O aspecto de ser irmã de Marinês, em meu entender, era mais um detalhe para dar-lhe visibilidade, como aconteceu com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga.

Como pequena amostra do talento de Marinalva, escolhi para vocês, pinçado do LP Marinalva e Sua Gente – Marinalva, Selo Polydisc, terceiro acima relacionado, o rojão Forró de Cabra Macho, composição de Cecéu. Vamos ouvi-lo:

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TOQUES DE CLARIM MILITAR

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No inicio de 2007, atendendo a insistentes pedidos, produzi, auxiliado por dois Cabos Corneteiros do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial, 218 toques de corneta que, somados aos 72 já existentes na Internet, atingiram o total de 290, os quais, a 24.04.2007, disponibilizei no site 4Shared: (Clique aqui para acessar)

O retorno foi mais que o esperado. Chamam a atenção os acessos aos dois toques mais baixados até agora: Alvorada, 1ª Parte, com 10.888 visitas, e Alarme Aéreo, o campeão, com 10.953.

Desde aquela época, os curtidores da Música Militar passaram a cobrar-me outros dois itens importantíssimos do setor: os exórdios e os toques de clarim.

Depois de muita procura, consegui com a Banda de Música do BPEB – Batalhão de Polícia do Exército de Brasília a gravação do exórdio básico. Após sua adaptação a cada nível de autoridade, e combinado com os toques de corneta já disponíveis, resultou neste repertório, postado no site 4Shared a 21.09.2010, sendo o de Marcha Batida de Comandante do Exército o mais acessado, com 963 visitas:

01 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DE HONRA – Todo o Hino Nacional.
02 – TOQUE E EXÓRDIO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – RECEPÇÃO PELA GUARDA DO QUARTEL – Introdução do Hino Nacional mais a coda – final.
03 – TOQUE E EXÓRDIO DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
04 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DA DEFESA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
05 – TOQUE E EXÓRDIO DE PATRONO – Composição especial para o Patrono.
06 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
07 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA MARINHA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
08 – TOQUE E EXÓRDIO DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
09 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE EXÉRCITO – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
10 – TOQUE E EXÓRDIO DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – Os 12 compassos da marcha grave General Barbosa.
11 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE DIVISÃO – Os 8 compassos da marcha grave General Barbosa.
12 – TOQUE E EXÓRDIO DE GENERAL DE BRIGADA – Os 4 compassos da marcha grave General Barbosa.
13 – TOQUE E EXÓRDIO DE OFICIAL SUPERIOR COMANDANTE DE OM – Marcha A Granadeira.
14 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA – Marcha Batida completa.
15 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
16 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DA DEFESA – 12 últimos compassos da marcha Batida
17 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DO EXÉRCITO – 12 últimos compassos da marcha Batida.
18 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA MARINHA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
19 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE COMANDANTE DA AERONÁUTICA – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
20 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE EXÉRCITO – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
21 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE MINISTRO DE ESTADO OU GOVERNADOR – 12 últimos compassos da Marcha Batida.
22 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE DIVISÃO – 8 primeiros compassos da Marcha Batida.
23 – TOQUE E MARCHA BATIDA DE GENERAL DE BRIGADA – 4 últimos compassos da Marcha Batida.

OBS.: Os exórdios e marchas batidas correspondentes a Oficiais Generais apresentados na gravação referem-se a militares sem comando. Para identificá-los, acrescenta-se o toque de comandante – mi-dó-SOL-dó-mi-dó-SOL – e o toque indicativo da OM comandada.

Ouçam-nos clicando aqui.

Restavam, para completar, os toques de clarim.

Em agosto de 2011, quando a Fanfarra do 1º RCG – Regimento de Cavalaria de Guarda, no ato em que fui nomeado Amigo da Fanfarra e recebi a gravação dos dobrados Tenente Raimundo Floriano, Padre Cícero e Três de Maio, recebi a promessa da gravação dos toques de clarim, dependo da disponibilidade de tempo. Ouçam os três dobrados clicando aqui.

Com a Fanfarra sempre assoberbada de serviço, nunca foi possível realizar o prometido. A 20 de setembro passado, no casamento de minha primogênita, vislumbrei a solução, quando a conduzia até o altar, ao som de dois clarins. Tão logo se encerrou a cerimônia, saí em campo buscando a contratação de dois clarinistas, contando para isso com os préstimos do amigo Jorge Rocha, meu Assessor para tudo quanto é de assunto pertinente a esta minha coluna, ou seja, som, imagem, etc. e coisa e tal. Com suas providências, os toques de clarim foram gravados, na interpretação destes dois excelentes músicos:

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Jonas Cerqueira Santos e Isaac Elias

Ouçam o produto final, postado no dia 12.10.2013, clicando aqui.

Os toques de corneta e clarim existem desde quando surgiu a primeira força armada no mundo – no início, com búzios, evidentemente. Constituem-se no modo mais rápido e eficaz de comunicação em todos os quartéis de tropa terrestre existente no Planeta Terra.

Atualmente, os toques de clarim são empregados apenas nas unidades de tropa montada e apenas em ocasiões especiais, mantendo uma tradição que veio com os colonizadores portugueses. Fora dos 21 abaixo relacionados, constantes do C 20-5 – Manual de Toques do Exército, e FA-M-13 – Manual de Toques, Marchas e Hinos das Forças Armadas, são executados os toques de corneta comuns no dia a dia da caserna. Estes são os toques que ainda persistem:

01 – A BANDEIRA
02 – A PODEROSA
03 – A VITÓRIA
04 – ALVORADA – 1ª PARTE
05 – ALVORADA – 2ª PARTE
06 – ALVORADA – 3ª PARTE
07 – ARTILHARIA A CAVALO
08 – AVANÇAR
09 – COMANDANTE DE ESQUADRÃO DE CAVALARIA
10 – COMANDANTE DE REGIMENTO DE CAVALARIA
11 – FORMATURA GERAL – 1ª PARTE (APRONTAR)
12 – FORMATURA GERAL – 2ª PARTE (FORMAR)
13 – MARCHA BATIDA
14 – MARCHA FÚNEBRE
15 – PARADA – 1ª PARTE (APRONTAR)
16 – PARADA – 2ª PARTE (FORMAR)
17 – REVISTA DO RECOLHER – 1ª PARTE
18 – REVISTA DO RECOLHER – 2ª PARTE
19 – REVISTA DO RECOLHER – 3ª PARTE
20 – SILÊNCIO
21 – VITÓRIA

Para facilitar a pesquisa, aqui vão as partituras desses 21 toques:

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Voltando aos exórdios, que são os toques executados nas honras de recepção e despedida de autoridade quando em visita ou inspeção a uma Organização Militar, ressalto o aspecto de que a postagem constante da relação do site 4Shared acima indicado se refere a oficiais generais ou alguém a eles superior. Na recepção às demais, após o toque indicativo do posto e/ou função da autoridade, dado pelo corneteiro ou clarinista, a Banda de Música ou Fanfarra executará os exórdios a seguir.

Para Oficiais Superiores, Comandantes de OM e Comandantes ou Diretores de Estabelecimentos Militares:

01 – Marcha A GRANADEIRA – Exército (para tropa a pé), Marinha e Aeronáutica;

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02 – Marcha A VITÓRIA – Exército (para tropa montada, motorizada, blindada ou aeroterrestre);

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03 – Marcha A PODEROSA – Exército (para Artilharia).

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Para finalizar, numa amostra do trabalho dos clarinistas, disponibilizo-lhes o maior dos toques de clarim constantes da relação e partituras acima, a Marcha Fúnebre:

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HOJE É DIA DE SANTO REIS

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Em minha infância sertaneja sul-maranhense, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, a meninada saía, de porta em porta, declamando, na esperança de ganhar alguma prenda, o que faço agora para vocês também:

Eu plantei um pé de rosa
Pra nascer no dia seis
Ele nasce, e eu lhes peço
Ano-bom, Festas e Reis

E acrescento:

Os Três Magos do Oriente
Seguindo a Estrela-guia
Louvaram o Deus Menino
Na Sagrada Epifania

Pastores em serenata
Idolatraram com fé
A santíssima Família
Jesus, Maria e José

O cantar do Santo Reis
É um cantar excelente
Acorda quem está dormindo
Consola quem está doente

Belchior veio da Pérsia
Da Etiópia, Baltazar
E Gaspar veio da Índia
Todos a Jesus saudar

Belchior portando ouro
Com mirra veio Gaspar
Baltazar trouxe o incenso
Pra Jesus presentear

Para vocês, Folia de Reis, adaptação folclórica, com Trio Parada Dura (Creonte, Barrerito e Mangabinha):

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RÉVEILLON 2013

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Amanhã, 31 de dezembro, é dia de festa! À meia-noite, estaremos celebrando a entrada do ano de 2014 e o término 2013, com essa dezena final muito positiva para os homens de vergonha na cara desta Nação: dos 38 mensaleiros processados pelo Supremo Tribunal Federal, 17 condenados já se encontram vendo o sol nascer quadrado. Derrota do 13, vitória do lado não apodrecido deste amado Brasil!

Invertendo o número 13, temos 31, o da sorte. Neste 31 de dezembro, minha filha caçula festeja mais um ano de sua bela existência. Portanto, as comemorações já têm início no coração de toda a família e extravasam, empolgando nossa Quadra, Brasília, o Brasil, o Universo, enfim.

O ano de 2013 deixa saldo extremamente significativo em minha vida. Com as bênçãos de Deus, consegui ultrapassá-lo sem submissão a qualquer tipo de cirurgia, li 92 livros, lancei um, mantive ininterrupta, semanalmente, A Coluna de Raimundo Floriano aqui no JBF, e nossa família, cheia saúde e alegria, juntamente com os parentes e demais amigos, celebrou o casamento de minha primogênita, em recepção/festa com jantar para 500 talheres. Eis-nos a entrar na Dom Bosco:

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Para que vocês conheçam um pouco da história de Elba e Fábio, cujo namoro começou em 2000, aos 16 anos dela, mostro-lhes, neste vídeo de 10 minutos, o início de tudo:

2014 será marcado por muitas comemorações, motivo pelo qual ouso afirmar que o ano começará mesmo só no segundo semestre, depois da Copa do Mundo. Sempre que ela acontece, relembro o balde de água fria jogada sobre todos nós, fervorosos torcedores, com esta carta publicada um dia após a derrota do Brasil diante da Itália, na Copa de 1982:

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Vejam bem o que ele diz no início do primeiro parágrafo: “O que falta ao Brasil é uma identidade nacional, pois o povo só se une em torno de um objetivo comum quando o motivo é futebol.” Essa afirmação se viu cabalmente comprovada durante a Copa das Confederações/2013, quando a turba ocupou as ruas de todo o País, mas, depois, com a Seleção Brasileira vitoriosa, amansou que nem as tranquilas águas da Lagoa do Abaeté.

Gosto muito de Copa do Mundo. Não pelo futebol em si, mas pela oportunidade de aprontar o maior furdunço, botando a Banda da Capital Federal na rua para alegrar o povão, a massa de torcedores. Foi assim em 2002, na conquista do Penta, quando na partida final, fechamos o trânsito na 215 Sul, começando a tocar às 8 horas da manhã, certos da vitória. Eis a composição da Banda naquele dia:

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Aliás, em matéria de previsão, quase nunca erro. Sempre que a Seleção Brasileira Masculina de Futebol vai ao Palácio do Planalto pedir a bênção do Presidente, é ferro na certa. Assim foi com o atual Partido no Poder, que já perdeu 2 Copas. Tomara que o Escrete Nacional desta vez não dê as caras por lá, arriscando-se a perder a terceira.

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Se, como diz o livro acima, a década foi perdida politicamente, também o foi futebolisticamente falando – refiro-me à Seleção Brasileira, ópio do povo.

Há uns dois meses, a Presidenta do Brasil, em visita a Minas Gerais, não titubeou em referir-se ao futebol, usando a expressão “Meu Galo!”. Deu no que deu!

Na recente visita à África do Sul, para assistir aos funerais de Mandela, novamente a Presidenta trouxe à baila o futebol. Em conversa com o Presidente francês, garantiu-lhe que o Brasil seria campeão em 2014, mas que a França ficaria bem classificada no torneio, ao que o outro, diplomaticamente, comentou: – Pode ser, mas na última decisão Brasil x França, não foi bem assim!

O Penta, apesar de inflar-nos os corações de orgulho tupiniquim, foi uma pedreira par aos cordelistas, eis que difícil encontrar rimas para o termo, restando-nos apenas o trivial: venta, jumenta, presidenta, aguenta, nojenta, pimenta, etc. Meu amigo Asclepíades Abreu, em inspiradíssima criação, exibiu em sua Quadra uma comprida faixa com estes dizeres: TODO MUNDO TENTA, MAS SÓ O BRASIL É PENTA! Perceberam?

Já o Hexa será a mão-na-roda para o pessoal do cordel. Vejam a quantidade de preciosas rimas: guexa, rexa, sexa, reflexa, anexa, caxexa, almadraquexa, aduzirhexa, carrexa, barexa, centenariohexa, amexa, alexa, campeonatohexa, brunirhexa, convexa, colexa, circunflexa, genuflexa, conexa… Difícil mesmo vai ser encaixar!

Volto às palavras de José Benedito Assunção, na carta Ufanismo do Louco, acima transcrita: “Concluo portanto que a única coisa que brasileiro leva a sério mesmo é festa.” Estamos quase empatados, digo eu. Falou em festa, é comigo mesmo!

Terminando, para alegrar o réveillon de todos nós, saudando o Ano Novo, esse 2014, que será praticamente só de festa, escolhi uma seleção de pupurris de marchinhas, sambas e frevos de rua que, tenho certeza, serão do agrado geral.

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Com Pixinguinha e sua Banda:

MARCHINHAS – 11 minutos: Tem Gato na Tuba, Deixa a Lua Sossegada, Pirolito, China Pau, Pirata e Touradas em Madrid, todas de João de Barro e Alberto Ribeiro.

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SAMBAS – 10 minutos: Nós Queremos Uma Valsa (Nássara e Frazão), O Que É que Você Quer Mais? (Nássara e Roberto Martins), Mundo de Zinco (Nássara e Wilson Batista), Me Queimei (Nássara e Walfrido Silva) e Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins).

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Com a Orquestra 1º de Novembro, a Pé da Cará, de Timbaúba (PE):

FREVOS DE RUA – 09 minutos: Brasil/Espanha (Paulo Silva), Cabelo de Fogo (Maestro José Nunes), e Toureiro (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira).

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