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C 13

- Atenção passageiros com destino à poltrona C13, favor ocupar seus lugares.

Deve ter sido isso que a moça de sombra azul (para combinar com o lencinho no pescoço) e batom rosa falou no microfone do aeroporto antes do embarque. É a única explicação.

A minha  poltrona era a 13A que, estranhamente e seguindo uma lógica que só aeromoças e duendes de jardim entendem, fica ao lado do assento 13C.  Do outro lado do corredor, você desavisado, pode imaginar que ficam as cadeiras 13B e 13D, certo? Errado, lá estão localizadas as poltronas 13D e 13F. Onde danado foi parar a 13B ou a 13E eu não sei e, sinceramente, no momento não me interessa.

13A eu, 13C o resto do avião. Exagero, ok. Vamos aos fatos (que no fim do dia é o que menos interessa):

Sentei, me espalhei naquela poltrono “enorme” do avião e fiquei ali na esperança, quase certeza, de que a poltrona 13C ficaria vazia. Vazia não, com minha mochila, meus dois livros e um pedaço da minha perna. A esperança, que é uma característica linda, porém ilógica do ser humano, tinha suas razões: o avião estava vazio.

Mas, logo, logo chegou a moça magrinha dona da 13C.

Ok, no panic.  Magrinha, cara de legal, razoavelmente bem vestida. Dava para engulir sem muito drama.

Levantei, ela passou (13C é janela), sentou, colocou o cinto e relaxou quando… chegou o outro dono da poltrona 13C.

- Com licença, a minha cadeira é a 13C.

- Não, a minha é 13C, olha aqui meu bilhete.

Eu? Em pé no corredor esperando o vencedor do duelo levantar a espada e dizer “eu tenho a força”. Não, não, esse é outro filme, esquece.

Chamaram a aeromoça, os bilhetes eram iguais. De uma lado do octógono a magrinha sentada, do outro o homem com uma camisa cor de abóbora (jerimun, para os íntimos) . A moça com cara de choro, o abóbora com cara de “ninguém vai tomar meu lugar”  e a aeromoça com cara de aeromoça.

Eu?

- Allow pessoal, o avião está v-a-z-i-o. E essa poltrona 13C nem é tão legal assim.  Decide logo senão quem vai mudar de lugar sou eu. Vocês num querem marcar um jantar para resolver essa disputa judicial?

Ganhou o homem jerimum com o argumento de que ele ia até Manaus e não queria ficar mudando de assento a cada escala. A magrinha levantou, humilhada e levemente deprimida.

Eu?

- Bora pessoal! Resolvido? Abraço de amigos. Não?

O Jerimun sentou, suou, comeu e, claro, roncou.

”E esse Dramin que não faz efeito?” era a única coisa que vinha na minha cabeça quando cheguei ao meu destino.

O vencedor da disputa ficou lá, feliz com sua vitória, a caminho do seu destino final. Saí do avião com um certo alívio e uma pergunta que não me sai da cabeça:

- Quem, em sã consciência das faculdades mentais, compra uma camisa cor de jerimum?

*Texto sem correção e sob efeito do Dramin (demorô). Favor desconsiderar erros. Em minha defesa: “a culpa é da reforma ortográfica”.


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VISTA PARA O MAR!

Estou precisando de uma vida com vista para o mar.

Não, não é de uma casa com vista para o mar porque a maresia acaba com a geladeira e enferruja a bicicleta.

É a vida mesmo.

É acordar com o barulho da vitamina de banana nos liquidificadores do mundo e ir dormir com o silêncio do fundo da piscina.

Entre um e outro, posso simplesmente ser a pessoa que leva, traz, carrega, assina, estaciona, abre e fecha.

Ter a vida com vista para o mar é ter gosto de sal. É ter areia no biquine. Ou no calção. Ou no juízo.

Principalmente no juízo.

É ter 39 opções, mas só querer aquela mesmo: uma vida com vista para o mar.


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MEU SISTEMA NÃO É NERVOSO, MAS MINHA PACIÊNCIA É CURTA

- Eu tenho Sistema Nervoso.

Foi o que respondeu a senhora do posto de saúde quando eu perguntei por que ela estava na fila da acupuntura.

- Ufa, ainda bem né, Dona Socorro? Se a senhora não tivesse  sistema nervoso é que ia ser um problema.

- É problema nos nervos, minha filha. Continuou a idosa sem entender meu comentário.

- Tenho tuberculose e sistema nervoso. Ontem nem levantei da cama aí hoje vim no médico das agulhas que é um santo. Até curou minha dor nas pernas.

- É só ansiedade. Interrompeu a psicóloga, Elianne (com dois NNs, como ela fez questão de frisar).

Era uma entrevista para a Secretaria de Saúde e Dra. Elianne não estava afim de perder espaço no horário nobre para Dona Socorro. Interrompeu quatro vezes a filmagem e conseguiu enfiar um “porque eu tenho doutorado em Paris” três vezes durante a conversa.

- O JC tirou minha foto deste ângulo. Porque você também não faz sua “tomada” de foto no mesmo ângulo? Perguntou a médica, sem entender porque o meu interesse era em Dona Socorro, e não nela.

- Porque eu nem sou o JC nem tiro foto. E enquanto a “tomada” for minha, quem decide o enquadramento sou eu.

No final, a Dra. me deu o cartão de visita com o número do consultório particular. Provavelmente ela acha que eu também tenho o Sistema Nervoso.

Obs – quem vai sair no comercial é Dona Socorro porque é melhor um “sistema nervoso”do que um sistema prepotente.


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COMO NÃO AMAR UMA CIDADE ONDE UM MCDONALD’S FALIU?

Eu olindo, tu olindas, ele olinda. Nos domingos, nós olindamos.

Descobri que Olinda era verbo quando dei uma carona para o músico Erasto, irmão do percussionista Naná Vasconcelos. O irmão menos famoso do clã dos Vasconcelos escolheu a cidade alta para passar seus dias. Por lá escreveu o guia “das Olindas” que diz assim:

“Subi Mercado da Ribeira
Desci largo de São Bento
No largo do Varadouro
Na Praça do Jacaré

Afoxé, afoxé
Olinda mandou me chamar”

E, enquanto cantarolava no carro durante a carona, avisou: “pode me deixar nos Quatro Cantos mesmo, estou precisando Olindar”.

E como não amar a única cidade no mundo onde um McDonald’s faliu?

Olinda é mesmo uma cidade estranha. E isso me faz lembrar um causo, passado numa segunda-feira chuvosa num bar da cidade histórica. E esse conto, caro leitor, não se passou com a amiga da prima da minha sogra, não. Foi comigo mesmo que aconteceu, por isso posso atestar de pés juntos, a estranheza do acontecido.

Lá estávamos nós, amigos boêmios, numa festinha regada a jazz na sede da Pitombeira (bloco famoso nos dias de Carnaval). Entre uma música e outra, rolou um zum zum zum, à boca miúda, de que naquela mesma festinha estava Matt Dillon (ator famoso das bandas de Hollywood).

- Matt quem? É aquele que fez Supremacia Bourne?

- Não, é o do filme Crash, no Limite. Aquele do Oscar, pô.

Passada a confusão para diferenciar Matt Dillon de Matt Damon (americano é tudo igual) e Brad Pitt de Tom Cruise (que no calor na discussão, entraram na conversa sem ter nada a ver com o assunto), confirmamos a presença do famoso no local. Sim, era ele.

A notícia, que tinha potencial para se transformar em euforia, autógrafos e briga por fotos em qualquer lugar do mundo, parou por aí. É de Olinda que estamos falando, afinal de contas. Ninguém, repito, ninguém no recinto abordou o cara. Matt ficou lá; sozinho, carente.

O desprezo pelo moço chegou a tal ponto que ele teve que tirar fotos dele mesmo no balcão do bar. Deu até pena (dó, na linguagem do Sul, porque quem tem pena é galinha). Mas a atitude blasé dos olindenses dizia “Pra que Matt se a gente tem Erasto?”. Que mais além se transforma em “pra que McChicken, se aqui tem tapioca?” ou “pra que badalar, se a gente pode Olindar”?

O fato, meus amigos, é que Olinda não é uma cidade, é um estado de espírito. E ai dos turistas que passam rápido demais, tiram fotos demais, compram bugingangas demais e nem têm tempo de conjugar o verbo Olindar. Desses dá pena, de verdade.


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O PEQUENO PRÍNCIPE DESENCANTADO!

O Pequeno Príncipe é que nem Coca Cola, todo mundo gosta.

Se não gosta, finge que gosta.

Ele não desentope pia, mas tem o teor filosófico alto o suficiente para você colocar no curriculum pessoal que lê, gosta e, o mais importante, entende filosofia.

E ler-gostar-entender filosofia deixa a pessoa, automaticamente, mais inteligente logo; mais interessante. Ninguém precisa mais discutir a teoria do eterno retorno de Nietzsche, basta saber que o essencial é invisível aos olhos, e pronto, já pode tirar a carteirinha nacional de filósofo de bolso, com direito a meia entrada em saraus intelectuais.

Nada contra o príncipe que, aqui pra nós, está pior do que eu no quesito amigos reais. Acho, sinceramente, que ter amigos imaginários é mais saudável que conversar com uma flor.

Mas, tudo bem, cada um com seus problemas.

Se na época da aventura literária existisse facebook, o pequeno notável não teria que ficar pulando de planeta em planeta para entender o significado da vida. Bastava dar um rolé nos perfis da rede social pra descobrir que nem todo mundo é eternamente responsável por aquilo que cativa.

Muito pelo contrário, inclusive.

Em respeito a Saint-Exupéry (que é o nome daquele prédio branco com cara de geladeira retrô que fica na Av. Boa Viagem), faremos um minuto de silêncio para analisar a clássica: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Observação 1 – Paulo Coelho queria muito ter escrito essa frase.

Observação 2 – Se as pessoas levassem isso a sério, Brutus não teria dado uma facada em Júlio César (ver Shakespeare), sua amiga da sétima série não teria roubado seu namorado e seu chefe não teria te passado a perna naquele trabalho (que ia ser massa, mas ele colocou outro no teu lugar).

Observação 3 – Eternamente é muito tempo.

Sendo assim, tudo que é bom tem seu lado ruim. Do mesmo jeito que Coca-Cola é uma delícia mas acaba com seu estômago; o Pequeno Príncipe é lindo mas fode sua vida pessoal.

Porque na vida real, não tem eternamente, nem cativa, muito menos responsável.
E a única coisa que posso dizer para te consolar, cara amiga leitora, é:

- Engole o choro!


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O SERTÃO VAI VIRAR VINHO!

Já que o assunto da última crônica foi o bode à moda da casa do bodódromo de Petrolina, nada mais justo do que hoje falar do vinho produzido na mesma cidade sertaneja. Se bode harmoniza (palavra chique dos entendedores de gastronomia) com vinho, aí já é outra história que eu vou deixar para os enólogos de plantão.

O fato é que o semiárido pernambucano é o segundo maior centro produtor de vinho do país. Calma amigos baianos, vou dividir com vocês o título, porque é ali, na divisa entre Pernambuco e Bahia que fica a primeira região vinícola tropical da história.

O verdadeiro movimento tropicalista do vinhedo!

Tropicalistas, graças a Deus, diriam os produtores locais que, graças ao clima quente (bota quente nisso) e seco (bota seco nisso), colhem uva o ano todo. Se a gente vive reclamando do eterno calor, as uvas fazem a festa!

E num é que é justamente do sol que torra nossa cabeça que as danadas gostam? Quem diria hein, amigos chileno, italianos e franceses!

Se foi o próprio Jesus que transformou água em vinho, e não em cerveja, é porque a bebida só pode ser divina. “Bebo, logo existo”, diz Roger Scruton em seu Guia de Um Filósofo para o Vinho, provando que além de celestial, a bebida é responsável pela sociedade civilizada.

Paz e perdão ficam mais acessíveis depois de uma taça de vinho, diz o expert.

Não bebo vinho com aquele pantim* de cheirar, bochechar, dizer que tem aroma de grama molhada ou vestígios de noz-moscada da Indonésia. Bebo e sei dizer se é gostoso ou tem gosto de vinagre. Ok, minha expertise passa longe dos sommeliers que cospem, sempre para meu espanto, antes de validar a safra da uva em questão.

Minha experiência no assunto vem mesmo da repetição: bebo vinho todos os dias. E, antes que me chamem de cronista bebum, bebo apenas o suficiente para acalmar a alma.

Se o Sertão vai virar mar, não posso garantir, mas que está no prumo certo de virar um grande e bem sucedido vinhedo, isso eu posso garantir.

E se o senhor se empolgou para vir provar o bode à moda da casa, aproveite e dê um golinho nos vinhos de Petrolina e do Vale do São Francisco. Não, ainda não sei se vinho harmoniza com bode, mas que harmoniza com gente feliz, isso eu tenho certeza.

*Pantim no nordestinês quer dizer: frescura, manha, onda.


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- ALÔ!

Ele toca e você sai em desabalada carreira.

Não, não foi a sirene de incêndio que tocou, foi seu celular mesmo.

E você corre como se fosse perder do trem das onze.

E se o alô vier seguido de “você acaba de ganhar na mega sena” ou, “pode comemorar, você recebeu um aumento”, ótimo, você está fora das estatísticas. Mas, em 99.9% dos casos, aquela ligação (que fez você abrir a bolsa com uma mão só enquanto dirigia e colocava batom com a outra), não tem urgência nenhuma! Pode acreditar, Israel não vai deixar de assinar aquele tratado de paz com a Palestina só porque você não atendeu seu celular. E, pasme, o mundo não gira em torno daquela ligação (que provavelmente é da sua mãe perguntando se você vai almoçar lá no domingo).

Não sei exatamente em que momento da história moderna o som do telefone passou a significar: imediatamente! Sim, você sai do banheiro, larga o almoço, solta seu filho caçula, a qualquer sinal do objeto tirintante (inventei essa palavra para definir o TRIM do celular, sem sucesso, pelo que tudo indica).

Antigamente, e eu sou de antigamente por isso posso falar com propriedade, os aparelhos de telefone residenciais tocavam, tocavam, tocavam….até alguma alma bondosa ter coragem de levantar para dizer o indefectível ALÔ. Só pra depois ter que gritar:

- Fulanooooooooooo, telefone.

No que o fulano gritava de lá:

- Estou almoçaaaaaando. Diz que eu ligo depois!

Mas quando o aparelho ganhou status de portátil, o som do trim passou a significar “se você não atender vai ter sete anos de azar”. A função “silencioso”,por exemplo, é apenas ilustrativa porque ninguém usa. As pessoas querem deixar seus aparelhos ligados no avião, no chuveiro, na praia, na aula, no cinema, na cama (e sim, atendem mesmo estando em alguma posição estranha do KamaSutra.).

Privacidade é uma palavra recentemente encontrada por arqueólogos, durante escavação do cérebro humano, que significava o direito de não ser monitorado.

Nada mais romântico do que você ligar para seu afeto/amor/ficante/peguete e alguém do outro lado da linha dizer:

- Ele não está. Liga mais tarde.

Você esperava p-a-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e e só ligava mais tarde. Segundo pesquisas da DataFolha, ninguém nunca morreu por conta disso.

Isso sem falar que o bina ACABOU com a magia do “quem está falando?”. Era lindo você passar uns 8 a 10 segundos tentando advinhar (pelo som da voz ou entonação da frase) o seu misterioso interlocutor.

Dito isto, preciso parar esse texto por aqui porque meu celular tá tocando.

Beijo, me liga! 


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O BODE À MODA DA CASA

O prato do dia fica ali entre o: “é o que temos” e o “iguaria exótica da culinária regional”. Estou falando do bode que pode vir cozido, ensopado, assado, recheado, ao forno ou à moda do chef.

Vendo assim, de longe, é mesmo uma iguaria. De perto é, praticamente, a única opção de refeição pelas bandas do semi-árido. Em viagens a trabalho por Petrolina, Salgueiro ou Serra Talhada, virei expert da gastronomia local que se divide em: carne de sol, charque ou bode. E ai de você se quiser um Penne à Putanesca.

Além de ter sua mãe, que até então não tinha entrado na história, xingada e mal falada, ainda será expulso do estabelecimento sob protestos de que ali é ambiente familiar.

Viajo muito ao interior de Pernambuco e, pasmem, não gosto de bode. O animal é até simpático, mas a carne não me alegra nem um pouco. Se dependesse de mim, a culinária exótica e cheia de “pra quê isso” iria à falência. Me contento com filé, arroz e fritas.

Não procuro no cardápio do restaurante de beira de estrada um “foie gras” (que, desde que descobri que é fígado de pato, tenho pesadelos constantes).

Por falar em “foie gras”, essa é uma lição que os nordestinos deveriam aprender: é só colocar um nome francês na comida para ela ficar, automaticamente, mais cara.

Chamar bode de bode não tem glamour. Se, ao ler o menu, você encontrar um rôti bouc (bode assado, numa tradução livre via google), vai sair do restaurante, seja ele na França ou no bodódromo de Petrolina, crente que provou um manjar feito por um Chef com certificação do Instituto Paul Bocuse, em Lyon.

Mas como no Sertão bode é bode e faz bééé, o máximo que você vai dizer é que nordestino é estranho e come comidas mais estranhas ainda.

Tudo bem, concordo que fica difícil defender o bode, sendo eu a primeira a dizer: “Não, obrigado.Tem ovo frito?” para a decepção do anfitrião local.

Quando, dia desses, pedi para um petrolinense me levar numa pizzaria, sob desculpa de ser vegetariana para não ofender a culinária regional, o cidadão me levou para a melhor pizzaria da cidade, a única com pizza de bode!

Provavelmente ele desconfiou da veracidade da minha alimentação vegetariana e me colocou nessa empreitada gastronômica.

Se você é adepto da carne de bode, ou gosta de provar coisas “diferentes”, no interior de Pernambuco vai encontrar a melhor carne do caprino ruminante de todo o Norte e Nordeste (incluindo a Bahia).

E aconselho fazê-lo logo, antes que bode vire bouc e inflacione o cardápio nacional.


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EU, O TRÂNSITO E O RECIFE (A ÚNICA MÉNAGE À TROIS POSSÍVEL DOS DIAS MODERNOS)!

Posso me imaginar, tranquilamente, abandonando o carro no meio de um engarrafamento da Agamenon. Ou da Domingos Ferreira, ou em qualquer lugar do Recife. Já esgotada minhas fontes de entretenimento para longos períodos de espera (lixa de unha, palavra cruzada, mp3, conversa com amigos imaginários e curso de auto maquiagem entre a primeira e a segunda marcha) estou preparada para me inscrever num supletivo à distância que ensina como utilizar seu tempo ocioso num espaço relativamente pequeno: o carro.

Não, esse curso ainda não existe, mas quem inventar vai ficar rico.

Foi-se o tempo do saudoso horário do rush. Agora três da manhã tem trânsito intenso, incluindo engarrafamento de blitz do bafômetro. Duas da tarde é horário de pico e às 10 da manhã, só saia de casa de carro se for tirar sua mãe da forca. Que, neste caso, vai morrer enforcada pois você não conseguirá chegar a tempo de impedir o desastre.

Chegar atrasado e culpar o trânsito não cola mais desde, pelo menos, 2009. E não adianta buzinar, meu filho, porque o carro da frente do da frente do da frente, não vai andar só porque você buzinou. Até porque, o da frente dele também está parado.

Para ser pontual no Recife, só tem uma solução: acorde mais cedo!

E não adianta ser 15 minutos mais cedo não colega, porque outras 39 mil pessoas já tiveram essa ideia antes de você. Tem que ser uma hora mais cedo (caso o deslocamento aconteça dentro do mesmo bairro), uma hora e meia mais cedo (pra translados entre bairros) e duas horas mais cedo caso um dos bairros (o de chegada ou o de partida) seja Boa Viagem.

E enquanto aguardo pacientemente o carro da frente andar, observo os ciclistas.

Ao mesmo tempo que tenho inveja dos ciclistas, temo pela vida deles.

Ainda prefiro ler o Alcorão de trás pra frente num engarrafamento do que pagar de moderna preocupada com o nível de monóxido de carbono na atmosfera e ser atropelada, não pelo efeito estufa, mas por uma Hilux 4×4 de 16 válvulas.

Por falar em ciclistas, é engraçado como eles se dividem em dois grupos totalmente diferentes (fisicamente e ideologicamente).

O primeiro, que está super na moda, é o ciclista por opção. É o cara que tem carro, mas para evitar o derretimento das calotas polares, comprou uma bike de mil reais, E.P.Is adequados para a segurança e mochila nike para levar o terno. Mas, apesar do aparato, este tipo de ciclista é o inseguro. Ele titubeia para atravessar uma rua, para indeciso nos cruzamentos e sua bike treme um pouco mostrando instabilidade e pouca intimidade com aquele tipo de transporte. Admiro a coragem, juro.

O segundo tipo de ciclista é por falta de opção mesmo. O cara é mestre do obra, ou vigia de prédio, ou pintor de escritório, ou entregador de pizza. Mora longe e trabalha mais longe ainda. Sabe que não pode contar com o transporte público e, por isso, já nasceu numa bicicleta. O pai levava ele e os três irmãos na mesma bicicleta para a escola (que ele só fez até a quarta série) e de lá pra cá, ele passa mais tempo cruzando as ruas da cidade na sua magrela do que em casa com seus cinco filhos. Esse, apesar de não ter capacete, nem tênis fluorescente, passa pelos carros como quem passa pela vida: numa nice!

O problema é que, quando a Hilux aparece com pressa e na tpm, ela atropela um ou outro, sem discriminação de marca de bicicleta.

Assim sendo, continuo no meu carro, durante o engarrafamento. E agora, além de fazer a unha, a maquiagem e a palvra cruzada, faço também um estudo sócio-psicológico das categorias e estilos de ciclistas. Quando acabar minha tese, entrarei na análise dos motoqueiros porque engarrafamento e trânsito tem de sobra!


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AMIGO IMAGINÁRIO

Ele não é seu namorado, nem ficante,nem terapeuta, nem livro de auto-ajuda.

Ele é seu amigo imaginário.

E se você não tem um, não sabe o que está perdendo.

Vantagens do amigo imaginário:

- Como ele não existe, dificilmente vai discordar de você.
- Como ele não existe, não vai te cobrar pela hora no final da conversa.
- Como ele não existe, não vai perguntar o que você estava fazendo no verão passado.

Desvantagens do amigo imaginário

- Como ele não existe, não vai poder te colocar no colo e te consolar.
- Como ele não existe, pode ser que as pessoas achem estranho você falar sozinha no meio de um engarrafamento na Agamenon e sei lá, podem te mandar para Tamarineira.
- Como ele não existe, não tem graça nenhuma!

Pessoas reais às vezes podem ser confundidas com amigos imaginários. Entram nesta categoria as pessoas que você só consegue ver de vez em quando (leia-se quase nunca), as que não podem te ligar (porque estão fazendo um doutorado na Groelândia e lá não pega TIM – não que a TIM pegue em outros lugares, mas isso é outro assunto) e as que, por mais que você adore, não fazem parte do seu dia-a-dia.

Então esse texto é para meus amigos-amores/reais-imaginários. Aqueles que trabalham demais, viajam demais ou fazem parte de outra dimensão (não, esquece, esses são os imaginários de verdade).

Para as pessoas que eu gostaria que estivessem mais perto mas que, mesmo longe, estão no meu coração.

Porque, aqui pra nós, amigos imaginários são muito chatos. 


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É MUITO “ERA UMA VEZ” PARA POUCO “FELIZES PARA SEMPRE”!

Pra começo de conversa: “para sempre”é muito tempo. Tipo assim, muito.

Mesmo que você ame/adore/idolatre, ainda assim, é muito tempo.

É triste, eu sei. Mas continua sendo muito tempo.

Digo isso porque o novo (vestido-namorado-carro-apartamento-sapato) é sempre atraente. O que me faz pensar na incoerência das nossas buscas.

Tenho uma exemplo bem idiota: comprei um vestido na promoção da C&A (coisas de classe média) e estou apaixonada por ele. De repente, aquela peça de 29,90 é mais importante do que minhas roupas caras e de marca. Por que? Porque é nova. É diferente e consequentemente faz com que eu me sinta diferente. Eu avisei que o exemplo era idiota!

Pra sempre mesmo só filho. Isso se você tiver sorte e o menino não montar uma banda de rock e largar tudo para fazer tour pelo mundo, lembrando de você no dia das mães e, se tudo der certo, no seu aniversário. Se for menina, tem sempre a possibilidade da mesma fugir com o circo, casar com um argentino e só ligar no natal.

Mas o amor é para sempre. Dizem.

Então cada vez mais me apego a filosofia do “que seja infinito enquanto dure” de Vinícius (antes que alguém venha reivindicar a autoria da frase). Ele era um cara que sabia viver.

Essa promessa do “para sempre” fode com a vida da gente. Porque acaba, seja lá o que for, acaba (a menos que, como diria Valentina, você seja plástico/garrafa pet). E a gente fica querendo morrer, cortar os pulsos, se achando incompetente porque acabou, quando alguém deveria ter avisado desde o começo: atenção ao prazo de validade!

Para amenizar nossas frustrações, deveriam ter luminosos com os dizeres: “Não se empolgue. O produto expira em 9 anos” ou “Aproveite pois o consumo só é indicado até 2016”.

Exceções? Claro. E é por elas que a gente levanta a cabeça, vira a casaca, muda de time, vai jogar pelo adversário e diz: esse sim vai ser para sempre.


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‘NÃO TROCO MEU OXENTE PELO OK DE NINGUÉM’

Se alguém inventou o stand up comedy no Nordeste, esse cara foi Ariano Suassuna. Só ele para, de fato, conseguir entreter sozinho (sem fantasia, nem cenário) uma plateia por horas contando, não piadas, mas causos.

Claro que se o poeta, romancista e dramaturgo for ler esse texto e aceitar o cargo de inventor da comédia sertaneja, não vai fazê-lo em inglês. Vai chegar logo dizendo: “é comédia em pé, minha filha”.

Porque é assim que Ariano trata o americanês que a gente adora enfiar no meio do nosso bem dizido português. “Não troco meu oxente pelo ok de ninguém”! – diz o paraibano mais pernambucano do mundo.

Mas, vamos ao assunto da comédia em pé, já devidamente traduzida pra o brasileiro armorial.

Fico imaginando como deve ser difícil, ficar ali, em pé, contando história pro povo rir. Isso sem falar no medo de levar um processo. O politicamente correto dificultou a vida desses profissionais do riso que, além de ter que enfrentar uma plateia ansiosa por diversão, também está ansiosa por uma batalha judicial.

Soube até que pelas bandas do sul (leia-se São Paulo*) tem um espetáculo de stand up comedy onde o público tem que assinar um termo de responsabilidade, atestando não se ofender com o conteúdo.

Desviei de novo do assunto; já estou em processo e guerra judicial, quando o tema era piada. Piada simples, em português e sem ofender ninguém. Vendo assim, parece que o show de stand up do cara vai ficar parecendo uma palestra sobre o aquecimento global e a crise na Europa, mas na prática é possível sim contar uma história engraçada, com conteúdo liberado para menores de 16 anos e sem precisar xingar a mãe de ninguém.

E é isso que Ariano Suassuna faz em suas aulas-espetáculo. É verdade que é um sit down comedy porque o contador de histórias prefere ficar sentado mesmo. Mas nada que interfira na graça dos causos (que só tem graça mesmo quando ele conta). E o mais engraçado é que não são piadas. São histórias do dia a dia mesmo.

Conversas com o taxista, com a costureira, com os amigos. Conversas que ficam engraçadas pela maneira que são contadas, pelas ênfases nas palavras, e não necessariamente pelo conteúdo extravagante ou final surpreendente.

Então, pelo nosso direito de rir sem precisar preencher um formulário de imunidade jurídica, sugiro aos comediantes da nova geração beber um pouco da fonte armorial.

*Sei que São Paulo fica no Sudeste. Mas é que pra a gente do Nordeste, pra baixo da Bahia, tudo é sul.


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O PODER DAS PALAVRAS!

Uma palavra, colocando o ditado popular de cabeça para baixo, pode valer mais que mil imagens.

Às vezes elas, as palavras, vêm juntas, de mãos dadas, formando frases e poesias.

Às vezes, sozinhas mesmo, carregando o peso do mundo.

A palavra ditadura, por exemplo, não é maracatu mas pesa uma tonelada. E carrega mais imagens do que nosso repertório imagético é capaz de armazenar.

Sozinho é um verbete tão solitário que nem precisa de dois pontos pra explicar a que veio. Basta um ponto final depois dela que a gente já entendeu o resto do parágrafo inteiro.

Gosto muito de palavras, principalmente as felizes.

É quase impossível, por exemplo, colocar  algodão-doce no meio de uma frase triste. Basta jogar ela ali, no meio da história, que o enredo fica, automaticamente, cor-de-rosa e saltitante de alegria. Grama, abraço, livraria, pipa, nuvem e samambaia são também palavras normalmente felizes. É raro ver uma nuvem de tpm ou uma samambaia no meio de uma tragédia.

Assim como as pessoas, algumas palavras não se dão bem umas com as outras. Tipo; alguém já conseguiu juntar borboleta e futebol da mesma sentença?  Elas não têm nada uma contra a outra, é só falta de afinidade mesmo.

Honestidade e hipocrisia, apesar de começarem com a mesma letra, foram separadas no parto e dificilmente se juntam para formular uma ideia única. A não ser, claro, que uma esteja falando mal da outra (coisa muito comum nessa época de redes sociais e reality shows).

Tem palavra não deveria, nunca, (por contradição ideológica) vir junto de outra, mas vira e mexe e elas se encontram no mesmo texto. Quando isso acontece, o final quase sempre é trágico. Veja beijo e traição. Não seria melhor elas estarem em livros diferentes?

Minhas preferidas são as palavras que enfeitam como delicioso, interessante, otimista, calmo e alto. Gosto de palavras altas.

Tem palavras que chamam mais palavras, é o caso de  inclusive. Basta você colocar um inclusive no meio do pensamento, seguido de uma vírgula, e continuar falando (ou escrevendo) como se não houvesse amanhã. Ela pode também enfatizar, como poucas, um pensamento.

- Eu quero te beijar, inclusive.

Minha filha, esse inclusive aí, quer dizer tanta coisa que nenhum ponto parágrafo de meia tigela é capaz de explicar. Nem imagem. Acho que é justamente por isso que adoro  inclusives.

Algumas palavras, por mais que seu significado sejam bonitos, vêm acompanhadas de palavras feias. É o caso de  amigo quando vem seguido de decepção.

É triste juntar verbetes assim, onde um enfeia o outro.

Queria conseguir escrever só com as palavras bonitas, as alegres e verdadeiras. Mas aí, a frase não ia fazer sentido algum.

Então tento, na maioria das vezes, juntá-las de maneira que amenizem o estrago.

Nem sempre consigo!


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BRIGA ENVOLVE CHINESES EM PRÉDIO DE LUXO NO RECIFE

A crônica de hoje poderia ser a sinopse de um filme do asiático John Woo, onde seqüências de lutas coreografadas se intercalam com diálogos sobre a máfia chinesa, policiais corruptos, imigração ilegal e preconceito.

Aqui, discorreremos sobre todos esses assuntos, menos as lutas coreografadas, pois essas sim, só acontecem no cinema.

Para aumentar a emoção da narrativa, colocaremos nossos personagens e cenas num prédio de classe média alta da tradicional e abastada sociedade recifense.

A polêmica começou com a inauguração de um condomínio de luxo instalado no coração do Recife, carinhosamente apelidado de Torres Gêmeas. A julgar pelos protestos da população, os recifenses querem que a cidade fique menos parecida com Nova York e mais com uma aldeia rural chinesa. A contradição de uma sociedade que mora em apartamentos e que protesta contra a verticalização da cidade.

Sigamos com a história: já que falamos de aldeia rural chinesa, foram eles, os chineses, que trabalhando na ChinaTown local, compraram 5 dos apartamentos de uma das Torres. Lá, instalaram cerca de 20 chineses por unidade (segundo fofoca local dos moradores ricos e que não curtem o cheiro de peixe frito às 5 da manhã).

O ápice do filme, quer dizer da crônica, aconteceu quando a polícia civil invadiu o prédio chique para prender Lin Aiyun por pagar propina para não ter suas mercadorias ilegais apreendidas.

Calma, antes do senhor colocar a culpa na chinezinha e dizer o velho “bem feito” vamos repensar o fato usando o estudo da lógica: se ela pagou propina, logo alguém recebeu; se ela vende mercadorias de contrabando mas tem dinheiro pra morar no prédio de luxo, logo alguém compra suas mercadorias.

O que me traz à seguinte conclusão: esse “alguém” é local, tem dinheiro e fala português! É justamente nessa cena que entram os policiais corruptos, o preconceito e a imigração ilegal. Uma verdadeira pena eu não poder incluir aqui as lutas coreografadas.

O prédio de luxo virou uma briga de comadres: Lin denunciou os agentes da polícia civil enquanto os vizinhos reclamam do cheiro do peixe e da falta de higiene dos asiáticos. Os estudiosos dizem que é um choque cultural e acusam os moradores brasileiros do prédio de preconceito e falta de conhecimento. No meio disso tudo, a Polícia Civil não atende o telefone e prefere não comentar o assunto.

O que me leva à segunda conclusão lógica desta história: vou largar essa vida de jornalista e ser roteirista de filme policial em Hollywood!


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UMA NOVELA AÉREA. NO CAPÍTULO DE HOJE: O COMANDANTE EMPOLGADO!

- Atenção senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante. Eu gostaria de dar as boas vindas e coisa e tal, coisa e tal….

Confesso que ignorei solenemente o começo da fala do extra-simpático piloto, tentando me concentrar numa revista de moda gringa que mostrava as tendências de um inverno que nunca vai chegar ao Recife, com roupas que custam meu salário de três meses.

Mas fui praticamente obrigada a largar minha “leitura” de moda porque, mesmo depois de dizer o tempo de vôo, a temperatura externa, a altitude, latitude e todos os detalhes do plano de viagem , o comandante continuava falando.

Sim, o stand up comedy e o “eu quero meus 15 minutos de fama”  invadiram as cabines das aeronaves comerciais.

O comandante – Eu gostaria de aproveitar esta segunda-feira pós feriado para contar a vocês um pouco da minha história….

Eu -??????

O comandante – Comecei minha carreira nas forças armadas e, enquanto pilotava os aviões por lá, não tinha contato com passageiros nem com tripulação…

Eu – ?????

O comandante – …então, quando passei a trabalhar em vôos comerciais é que percebi a importância destas magníficas e elegantes aeromoças. Profissionais que passam por um treinamento duro que exige dedicação e disciplina.

Eu -??????

O comandante – Essas excelentes comissárias têm uma formação muito mais completa do que vocês possam imaginar. De primeiros socorros a salvamentos em condições adversas…

Passada minha confusão mental inicial com aquela narração inesperada,  comecei a imaginar aeromoças de salto agulha, sujas de lama, fazendo treinamento militar na selva fechada enquanto se alimentavam de frutos silvestres.

Era isso ou o meu Dramin já estava fazendo efeito!

Nada, nada justificava aquele discurso sem fim sobre as peripécias das babás aéreas. Procurei com os olhos Cinthia e Vanessa (as mencionadas heroínas do ar) e tudo que encontrei foram duas moças de rostos oleosos e maquiagem exagerada que distribuíam amedoim e barra de cereal para os passageiros.

- Suco senhor?

Pelo que tudo indica, o comandante, que depois deu o ar da graça com um passeio pelo corredor do avião para cumprimentar os passageiros (incrédulos e confusos), tem grande potencial para ser autor de novela das oito. O cidadão mostrou que aumentar e realidade é com ele mesmo. Transformou um vôo doméstico de apenas 1 hora em um episódio de Lost, versão tupiniquim-sertaneja. Aposto que se tivesse sido escritor, roteirista ou blogueiro, seria sucesso de bilheteria.

Voltando à cabine,  foi direto ao microfone:

- Attention, ladies and gentlemen….

Pronto, agora ele vai repetir a novela toda, pensei. No que ele só disse:

- If you need help, ask Cinthia or Vanessa.

Moral da história: ou esse piloto tá comendo as aeromoças ou ele quer ser aeromoça quando crescer. E, a julgar pelo cabelo do cidadão (pintado de preto azulado estilo Casting da Loreal), posso apostar que é a segunda opção.

- Portas em automático.

OBS 1 – Isso aconteceu de verdade!

OBS2 – Só pra dizer que estou fora por uns dias (a trabalho) e que esta coluna vai ficar temporariamente órfã de posts.


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PT ARMA UMA CONFUSÃO PARA ESCOLHER SEU CANDIDATO A PREFEITO DO RECIFE

Lula amava João que era a favor de Humberto que era amigo de Eduardo que defendia Maurício que já foi parceiro de João da Costa que não amava ninguém.

Esse é o cenário da sucessão municipal do Recife. Não entendeu? A gente também não.

Sabe nos Estados Unidos, onde a eleição interna dos partidos para definir seus candidatos é mais importante que os votos dos eleitores? Pronto, é o que está acontecendo com o PT local.

João Paulo foi prefeito por 8 anos, amado pelo povo e apoiado por Lula. Ficou contra o ex-presidente para apoiar seu secretário, João da Costa, na sucessão. Depois que o da Costa assumiu a prefeitura eles ficaram de mal e cortaram relações.

Aí, o atual prefeito se uniu ao senador Humberto Costa e ficaram contra João Paulo que, por sua vez, se arretou e está esperando Lula se pronunciar para, ele também, entrar na disputa municipal.

Humberto, por enquanto, está a favor do candidato do governador, o secretário de Estado Maurício Rands. E o atual prefeito João da Costa? Quer sua reeleição e está sendo apoiado por, por, por… ele mesmo (cri,cri,cri). O guizalhar dos grilos ecoa no silêncio do partido.

A real é que tudo isso não passa de um teste para fazer parte do elenco do espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. É a única explicação!

Já posso ver o ex-prefeito e atual deputado federal João Paulo no papel de Pedro (aquele que negou Jesus 3 vezes na Bíblia). Sim, ele negou João da Costa desde o começo. Maurício Rands, assim como Lázaro, foi ressuscitado do além. Não que o atual governador Eduardo Campos vá fazer o papel de Jesus, mas foi ele quem tirou o nome de Rands do túmulo.

Já Humberto Costa vai ter que ficar com o papel de Pôncio Pilatos! Beijou um, apoiou outro, driblou aqui, passou pra lá e está sempre do lado de quem está bem nas pesquisas. Aprendeu direitinho com o aposentado Marco Maciel (ex-senador, ex-governador, ex-deputado federal, ex-ditadura, ex-direita). Os dois estão ali, sempre em cima do muro, lavando as mãos com sabonete francês.

E João da Costa, vai ficar com que personagem nesta encenação?

Bom, ele vai ter que vestir a roupa de coelho da páscoa: ninguém sabe o que significa, ninguém entende o que coelho tem a ver com ovos e todo mundo sabe que é puro marketing publicitário para vender chocolate!

Resta saber quem vai entrar na pele de Judas e dar o beijo da traição.

Cenas dos próximos capítulos.


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FERIADO É PARA OS FRACOS (OU RICOS)!

É normal querer que um feriadão acabe logo?

Minha vida que normalmente é cheia de emoção (maneira legal de dizer: altos e baixos emocionais) fica tranqüila demais no feriado (maneira legal de dizer que estou lisa para viajar e embarcar em aventuras turístico/praieira/alcoólicas).

Muito pior do que ficar em casa num feriado prolongado é acompanhar via instagram-facebook-twitter as peripércias farrísticas dos amigos (em breve inimigos).

Poderia mentir e dizer (para criar uma falsa imagem intelectualóide) que este está sendo um final de semana literário, regado à Guimarães Rosa e clássicos de Drummond. A verdade é que minha preguiça se apegou às coisas fúteis do mundo: seriados americanos, internet wireless, comida de microondas e edredom.

Para animar o sábado, passei a manhã estudando gramática com meu filho porque, “não basta ser mãe, tem que se fuder!”.
Para a noite estamos planejando uma sessão de ciências, regada à pitadas dos capítulos 3 e 4 de química.

No entanto, estudando com ele o assunto “coerência do discurso” de português descobri que interdiscursividade é fazer a relação entre dois textos onde o segundo faz menção ao primeiro (normalmente um texto famoso), com o objetivo de inverter ou distorcer suas ideias.

Então, lá vai minha versão  de intertextualidade pascoal:

“Meu feriado não tem palmeiras e o sabiá foi pra Carneiros
As aves que aqui gorgeiam são os caminhões abastecendo o Carrefour
Nosso céu tem mais poluição
Nossas varandas menos flores
Só no Instagram tem mais vida
Nossa vida sem tantos amores

(…)

Não permita Deus que eu morra, antes desse feriado acabar
Sem que eu volte a trabalhar
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá
Sem que aviste as palmeiras do hotel 5 estrelas
Onde o sabiá filho-da-puta está passando esse feriado”

Já é segunda feira?


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FELIZ PÁSCOA!

Nem vou entrar na controvérsia óbvia de que coelho não bota ovo e que o certo mesmo seria ter a galinha da páscoa. Ou o pato da páscoa. Ou o ornitorrinco da páscoa. Porque, se a ideia era ter um mamífero como símbolo da ressurreição de Cristo, que fosse pelo menos o único mamífero que bota ovo: o ornitorrinco!

Coitado, mais feio que Elke Maravilha depois de um acidente de trem, o pobre do ornitorrinco jamais poderia ser símbolo de coisa alguma, muito menos da subida de Jesus ao céu.

- Maria, se coelho não bota ovo, o que danado ele está fazendo na páscoa?

- Ô tia, é um símbolo. Só um símbolo. O coelho representa fertilidade.

Hummm, essas professoras primárias realmente trabalham duro nessa época do ano pra conseguir colocar Jesus, Pilatos, Coelho e Ovo tudo na mesma história.

Sem falar que, quando as palavras  fertilidade e coelho estão na mesma frase, é muito difícil não imaginar a cena do coelhinho transando loucamente com a coelhinha debaixo da moita. Cena esta que dificilmente combina com o filho de Deus subindo aos céus sob fortes luzes e muito gelo seco.

Ok, deixemos o ato sexual coelhístico de lado para imaginar a historinha, contada alegremente pelas professorinhas primárias, na semana que antecede o feriadão da Semana Santa.

Aposto que é mais ou menos assim:

“Era um vez um belo príncipe chamado Jesus que morava no reino tão distante da Galileia. Lá, coelhinhos tarados tinham filhotes e mais filhotes que eram todos amiguinhos de Jesus. Na páscoa os coelhos roubavam os ovos das galinhas e distribuíam para a população. Judas, que era um amiguinho do mal, não ganhou ovo. Aí, ele ficou puto e traiu Jesus com um beijo. Pilatos, que estava com as mãos sujas de chocolate, lavou as mãos e mandou Jesus para a cruz. O filho de Deus foi crucificado mas ressuscitou depois de três dias. Aí, foram todos felizes para sempre.”

Não, não, nada disso faz sentido.

Na real, pouquíssima coisa faz sentido nesta história religiosa.

É melhor simplesmente acreditar e nem tentar entender.

Mas, alguns fatos podem ser cientificamente provados:

1 – O coelho tem mais marketing pessoal que o ornitorrinco.

2 – Esse feriado cristão é longo e eu estou lisa. O que me faz passar muito tempo em casa pensando besteira e escrevendo abobrinhas.

Uma páscoa com muito chocolate e pouco ornitorrinco para você!

São os votos desta colunista.


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OS PAÍSES DE UM PAÍS

Que o Brasil é grande a gente já sabe desde pequeno.

E nele, gigante pela própria natureza, cabem histórias e países inteiros.

Caruaru, por exemplo, é um país. Sim senhor, aquela cidadezinha no Agreste de Pernambuco só não gritou “independência ou morte” por pura falta de tempo.

De cara, o Sr. leitor vai me dizer que para ser país é preciso ter história. Eu digo, ou melhor, quem diz é Austregésilo de Athayde, jornalista, cronista e caruaruense ilustre: “A história do homem é a história da inteligência, da crença e da dor”.

Considerando que este novo país se localiza no Nordeste, o mais acertado é começar logo pela categoria dor!

Fome, seca, falta de vontade política e discriminação resumem bem a parte dor deste relato. A crença fica por conta da esperança que tudo isso aí, recém citado, mude.

Já a inteligência fica a cargo de homens como Azulão, Mestre Vitalino, Álvaro Lins, Jacinto Silva e seu coronel Ludugero.

Diria até que Vitalino é mais do que um mero cidadão ilustre do país, é o anti-heroi pop de que, todo país que se preze, precisa. Anti-herói porque, ao contrário dos americanos que carregam a alcunha de herói, esse não voava, nem soltava raio laser pelos olhos e principalmente, não era rico. Vindo do pó, transformou o pó em barro que virou arte e ao pó voltou. Sem um tostão no bolso.

Ei peraí, vão dizer vocês – afobados leitores de países sulistas – , se é pra ser país, carece de hino e exército!

E eu respondo: hino já tem, escrito e composto por Onildo Almeida e entoado pelo igualmente pop Luiz Gonzaga, o rei do baião e do Sertão.

“A Feira de Caruaru,
Faz gosto a gente vê.
De tudo que há no mundo,
Nela tem pra vendê,
Na feira de Caruaru.”

Não que Caruaru seja chegado numa guerra, mas se precisar, tem exército também. Formado pelos bacamarteiros do Agreste, filhos da guerra do Paraguai, nossos soldados só atiram pro alto pra comemorar mesmo. Esse negócio de briga eles deixam pros países frios. Lá, briga só se for de quadrilha.

Caruaru também sofre, assim como Recife, de superlativos. Tem a maior pamonha do mundo, a maior canjica e, claro, o maior São João. Não que isso vá constar na Constituição da nova nação, mas vai ficar interessante no google na categoria “curiosidades”.

Então, já que lá tem hino, exército e história, só falta a gente carimbar o passaporte e ir fazer um turismo forrosístico na nação independente de Caruaru.

Por que o assunto de hoje é Caruaru? Porque depois do Carnaval e antes do Natal, tudo no meio é São João!


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SOBRE ABELHAS!

O universo está de mau humor. A mesa conspira, secretamente, contra o quadro que foi colocado acima do sofá da sala de estar.

E já que a sala tem que estar, que esteja com textura de carpete e cheiro de borboleta.

A abelha, que hibernava tranquilamente no hemisfério esquerdo do meu cérebro, acordou com a sensação de atraso. Por isso, provavelmente, voa tão agitada essa manhã. Enquanto bate nas paredes do lobo frontal, esse inseto cerebral tenta, inadvertidamente, nocautear minhas habilidades de compreensão e tolerância.

Inadverdidamente, repito.

Sem minha dose neuronal de transigência, essas 24 horas ficam do tamanho do ego do artista famoso da novela: gigante.

24  horas sem nenhuma possibilidade de desenvolvimento da apicultura literária.

Nada contra abelhas que habitam dentro do juízo, mas a de hoje está precisando de um chazinho de camomila.

Mais um post da categoria: “esse-texto-não-faz-sentido-algum”, mas que faz, faz!


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PAUL

Passado o momento euforia-fofoca-correria foi oficializado: Paul, o ex-Beatle setentão vem ao Recife!

Pelo que tudo indica, a capital pernambucana já pode ser considerada (seguindo sua tradição de grandeza) a cidade mais procurada por bandas semi-aposentadas e quase-em-fim-de-carreira do mundo.

Iron Maiden, A-Ha, Scorpions, Air Suply e mais uma túia de grupos que fizeram sucesso nos anos 70, 80 e 90 resolveram dar o ar da graça na ensolarada Hellcife.

Não tenho certeza se a cidade ficou importante ou se foi a desimportância dos ídolos o responsável por tantos shows internacionais na Veneza Brasileira.

Não, não estamos reclamando. Pelo contrário, assistir ao Beatle (mesmo que o cara seja ex) é massa.

O que são 30 anos de atraso, né Paul?

Aposto que Jude não tem nenhuma ruga e que Sgt. Pepper’s tá um coroa enxuto.

Yesperday nunca foi tão today!

Esse circuito alternativo pós terceira idade é bem vindo. Claro que os caras não têm a mesma vibe-empolgação-energia-voz de antes mas, no lugar de ficar choramingando, preferimos imaginar que as bandas andaram ensaiando bastante, durante décadas inteiras inclusive, só para fazer o show perfeito: o do Recife.

E por falar no Recife, outra característica desta província urbana é o engarrafamento de eventos. É assim: meses sem nenhum evento interessante na cidade e um dia com tudo junto estilo salve-se quem puder.

Desde o Carnaval que não aparece nem batizado de boneca pra ir. Nada! A situação estava tão grave que quase aceitei o convite da vizinha para ir ao aniversário do cachorro da moça do sétimo andar. Aí, me aparece o 21 de Abril com Chico Buarque, Paul MacCartney e Abril Pro Rock no m-e-s-m-o dia!

Vai ser uma delícia pegar um táxi.

Mas, o objetivo desta crônica era, em princípio, dar umas dicas úteis para Paul, já que esse é o primeiro show dele por aqui. Vamos lá:

No lugar de pedir 200 toalhas brancas, engolidores de facas, gueixas massagistas ou qualquer outro desses pedidos estranhos que só os pop stars da música têm criatividade suficiente para fazer, você deve pedir bolo de rolo (no momento larica). Quando for para o show, a dica é ir de helicóptero, estilo o Papai Noel do Shopping, sabe? Porque, meu filho, a situação dos engarrafamentos e ruas esburacadas por aqui não tá fácil não.

Se te convidarem para evento oficial do tipo que você vai conhecer o Prefeito, é pegadinha! O Prefeito não existe.

No mais, seja bem vindo e vê se canta direitinho (porque o ingresso é o preço de duas cestas básicas).


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SUSPIROS

Eles nascem no pulmão, percorrem a traquéia e acabam no desejo.

Uns, os mais bipolares, nascem no desejo pra só então, chegar ao pulmão!

Podem ser de amor, de desgosto ou de açúcar. Mas suspiros são, inveriavelmente, sinceros.

Há uma verdade quase melancólica nos suspiros.

Entre o inspirar e o expirar, cabe o começo o meio e o fim da história (quando existe uma história)

A palavra suspiro, suspira.

Eu suspiro, tu suspiras, ele guarda os suspiros num pote. Pra não gastar!

Hoje em dia gasta-se o desejo à toa.

Na próxima encarnação não quero vir uma samambaia nem gelo-baiano.

Quero vir suspiro!


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SOBRE FOTOGRAFIAS

Fotos de mamãe na época em que ainda existia silêncio neste mundo!*

Queria morar numa fotografia.

Fotografia não, retrato. Retratos têm mais poesia.

Não é pela beleza nem atemporalidade, mas  pelo silêncio.

Retratos têm mais silêncio que fundos de piscina e ipods sem bateria.

Retratos são Monalisas que sorriem sem dizer nada.

Na época da minha mãe, silêncios eram abundantes. Vendiam na farmácia e nas padarias.

Quando eu nasci, estava em falta. Não se sabe ao certo o que aconteceu com os silêncios. Simplesmente ficaram escassos no mercado até que um dia, desapareceram por completo.

- Foi a televisão, dizem uns.

- É culpa dos meteoros, dizem outros – sempre confundindo silêncios com dinossauros (deve ser pela semelhança de tamanho).

Silêncios mesmo pequenos, são enormes!

Queria muito morar numa fotografia.

* Ela já era It Girl antes mesmo da existência dos blogs de moda! Inventora do Look do Dia, desde a era de Aquarius.


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YO NO FALO AMERICANO!

- Atenção colaboradora Jennifer, favor comparecer ao setor L13.

E lá vai Jenny, como é conhecida pelos amigos, com seu crachá de vendedora do setor de cosméticos, andando faceira pelos corredores da loja.

No setor L13 encontra seu supervisor, Maicon. Ele quer apenas apresentar Jeniffer a seus novos colegas de trabalho: Evellyn e Williames.

Não, não se trata de um episódio de novela americana nem filme de Hollywood. Trata-se de uma invasão sorrateira e silenciosa do estrangeirismo nos nomes próprios e vida familiar sertaneja.

O Nordeste virou Miami e nossas Marias e Josés se transformaram em Carolaines e Washingtons.

O y e o w assumiram a realeza letreira e reinam absolutos nas aulas de alfabetização.

Engraçado é que, da última vez que eu chequei, nossa colonização tinha sido portuguesa (quase holandesa), confere produção? Ok, vieram uns ingleses enxeridos para construir umas ferrovias e tal, mas nada que justifique tanto th nos nomes das crianças nordestinas.

Certo, nosso forró vem do for all.

Também nos consideramos o raio da silibrina. A expressão, que significa que somos massa, vem dos faróis ingleses “sealed beam”. O cara olhava de longe aquela luz inebriante e dizia: “lá vem o raio da silibrina”. Daí pra virar expressão “oficial” foi rapidinho: o cabra que é massa, virado no mói de coentro é, automaticamente, considerado o raio da silibrina.

Até aí, tudo bem. Mas daí a Wesleys e Keylas invadirem nossos cartórios e registros, é um longo caminho a ser percorrido. Como João virou John, assim de uma hora para outra, sem que o Governo decretasse estado de alerta e eminência de ataque inimigo?

Verdade seja dita, e aqui entre nós (que nossos cumpadres portugueses não me ouçam), nossos colonizadores mudaram de nome. Hoje atendem por: Walt Disney, Universal Pictures, Sony Music, Warner Brothers e, o chefe da máfia, Tio Sam!

A invasão foi sem armas e não precisou ativar nenhuma ogiva nuclear. Foi mais pra orgia mesmo. Uma orgia econômica/política/globalizada que transformou nosso pão com ovo do café da manhã em cereal com leite. Nossos cabelos castanhos e crespos em loiras de farmácia com madeixas de chapinha. Nossos Ricardos em Richards.

Nos resta esperar que algum Pedro ou Severino, fartos do império, grite um “independência ou morte” antes que a gente comece a hastear a bandeira branca, vermelha e azul enquanto cantamos “the land of the free and the home of the brave”.


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A MÁQUINA DO TEMPO!

Não, a gente não se contenta.

Quando pode, não quer.

Quando quer, não pode.

E segue querendo sem poder. E podendo sem saber se quer.

Hoje descobri que posso querer e poder misturado. Isso graças a Maria (sobrinha de 6 anos) que ligou para perguntar:

- Tia, estou contruindo uma máquina do tempo. Tu quer vir me ajudar?

Como eu não pensei nisso antes? Tudo que eu preciso nesta breve e superficial existência é uma máquina do tempo! Que venha,  claro, com uma tecnologia by Steve Jobs com direito a tirar fotos com Instagram da semana de arte moderna de 1922.

Tudo indica que Maria (cujo sobrenome deveria ser Jobs) será a responsável por essa inovação tecnológica. Arrumou dois  amiguinhos e está juntando uma caixa de geladeira com clips e chicletes (Magaiver feelings) e jura, com a convicção dos que  mudaram o mundo, que ainda esta semana vai visitar os dinossauros.

- Quando tu voltar, posso dar uma passadinha na minha vida daqui há 10 anos? 2022 está ótimo pra mim! Não vou demorar,  prometo.

Hummm, pensando bem, melhor não. Vai que eu me decepciono com o eu do futuro e corto os pulsos por lá mesmo!

Não, não quero daqui há 10 anos. Muito menos minha vida de 10 anos atrás.

Quero o hoje e quero agora!

Não quero conjugar minha vida do pretérito (mesmo que ele seja o perfeito ou o mais-que-perfeito) nem no futuro do  indicativo. Quero uma vida conjugada toda no presente ou, no máximo, no gerúndio. Estou amando, beijando, abraçando é muito  mais legal do que amarei ou beijarei.

Então, vou deixar Maria planejar o futuro e visitar o passado, enquanto eu me resolvo no presente mesmo!

obs – Mas se alguém estiver interessado em visitar dinossauros, ela só está cobrando um pacote de pipoca (do saquinho  amarelo) pela viagem. Aproveita a promoção.


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O JOGO DOS SETE ERROS!

Tenho meus erros de estimação! Aqueles que erro convicta, quase com orgulho.

Antes de enumerar e nomear meus desregramentos voluntários, vou fazer a pergunta que não quer calar: o que é certo e o que é errado?

Quem disse que dar na primeira noite é errado? Ou que é certo amar a pessoa errada?

Cazuza dizia que “tem o certo, tem o errado e tem todo o resto.”

Pelo que tudo indica, me enquadro no “todo o resto”.

Isso porque, segundo minha teoria de que “errado são os outros”, o que é errado hoje pode não ser errado amanhã (ou depois de amanhã).

O mundo gira, as opiniões mudam e a vida se derrete no calor dos dogmas.

Confesso: queimei a língua algumas vezes.

- Jamais vou….

- Nunca na vida vou perdoar alguém que…..

E lá ia eu, atirando certezas e julgamentos em quem _______ (insira aqui seu pecado favorito) e naqueles que________ (preencha com seu segundo pecado favorito).

Alguns tropeços depois estou eu fazendo exatamente aquilo que, há um tempinho atrás, jogaria na fogueira quem fizesse.

Não sigo mais o luminoso que promete o céu pra quem: dormir 8 horas por dia, comer frutas e verduras, casar virgem, não trair, não perdoar quem trai, for magro, rico, estudioso e morrer bem velhinho depois de uma longa vida de labuta.

A vida não fica  melhor nem pior por conta do manual do bom comportamento sócio/político/afetivo.

No momento tenho inventado amores, certezas e pecados, só por falta de ter o que fazer.

Acho que porque as normas não estão dando conta do recado.

Gosto de errar, mas pelos motivos certos.

Vivo sob a filosofia inventada por mim mesma: Se a vontade for maior que a culpa, é porque não deve ser tão errado assim!

De uma maneira geral, minha regra dá certo pelo mesmo motivo que com você também pode dar certo: não tem ninguém olhando. Por mais que a gente se ache phoda e imagine que está todo o mundo prestando atenção no que a gente faz, a verdade é que não!

Simples assim!

Então os meus erros (intencionais ou não) são de estimação e ninguém mexe.

E já estou querendo inventar uns erros novos!


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AS IRMÃS

No começo eram trevas.

Aí Deus pensou: já que eu estou aqui, de bobeira, vou criar o mundo.

E criou rios, mares, oceanos, Olinda e Recife, nesta ordem.

Olinda veio primeiro! Chegou junto com o português Duarte Coelho que, quando aportou em terras brasilis disse: “Oh, linda situação para se construir uma vila!”.

Aí, “Oh, linda” virou Olinda num piscar de olhos.

E a filha do Brasil já nasceu muito disputada: era português pra cá, holandês pra lá. Um puxava de um lado, o outro puxava do outro. No que Olinda disse: “calma, tem beleza pra todo mundo” e trouxe à vida Recife, sua irmã caçula.

As duas cresceram no esquema: tudojuntomisturado.

Ninguém sabia onde acabava uma e começava a outra.

A verdade é que, no começo, Recife era um puxadinho de Olinda. Isso porque a irmã caçula nasceu praticamente da costela da outra, ou melhor, de um foral (carta de direitos feudais) de Olinda, concedido por Duarte Coelho em 1537, como uma referência a “Arrecife dos navios”, um lugarejo habitado por mareantes e pescadores.

Aí, como em toda família que se preze, cada uma seguiu seu rumo nesta vida de Deus.

Uma puxou ao pai e guarda até hoje as memórias e casarios de sua herança portuguesa. Foi Olinda que, com seu amor à terra paterna, conquistou o título de cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Já a caçula, toda moderna e inovadora, saiu pelo mundo construindo pontes, viadutos, prédios e centros tecnológicos. Se Recife fosse uma menina, teria piercing no umbigo, se fosse rapaz, sairia por aí com seu alargador de orelha e tatuagens nos braços.

No aniversário das duas, que é no mesmo dia como convém a irmãs tão unidas, poderíamos comemorar com um bolo em forma de igreja e uma vela de raio laser. Porque por aqui, história e modernidade são da mesma família.

No DNA um pedaço de cada canto do mundo: a ginga africana, os claros cabelos holandeses, a brancura portuguesa, o dourado índio. Um povo que nasceu de mãos dadas com colonizados e colonizadores, na quentura dos trópicos e com a brisa do além mar.

E juntas permanecem.

A ladeira da Sé desemboca na Av. Agamenon Magalhães e ali, pelo meio, fica uma divisão que ninguém viu, ninguém vê. Uma faixa de gaza que não separa cidades gêmeas.

Dizem que a melhor coisa que tem em Olinda é a vista do Recife. Mas que, se estiver no Recife, o coração bate de saudade “das Olindas”.

O meu bate pelas duas.


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DEGLUTINDO BATRÁQUIOS!

Hoje engoli dois atrasos, quatro metáforas e um subway de rosbife.

No fim do mês, meu médico não entende porque o meu estômago não tá lá uma Brastemp.

Engulo ironias sem sofrer. Pessoas irônicas são, em sua maioria, inteligentes. Então engulo com um fiapo de inveja entre os dentes e bebo um gole de “como eu não pensei nisso antes” para facilitar aquela descida incômoda pela garganta abaixo.

Engulo algumas desculpas esfarrapadas, ideias estranhas e filmes ruins (não engulo livros ruins).

Engulo arte, devoro poemas, lambo fotografias, trago músicas, mastigo silêncios.

Não engulo sapos.

Desculpem!


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A PESCARIA!

Sabe quando você está com vontade de comer pão de queijo, mas ainda faltam 20 minutos pra ele sair do forno?

Ou quando seu programa favorito de tv só passa nas quintas, e hoje ainda é sábado?

E quando você quer usar bota, mas tem que esperar chover?

Nietzsche deveria ter escrito sobre a eterna espera, e não o eterno retorno.

A eterna espera de que a vida comece, valendo.

É como a pescaria: você senta ali e espera.

Joga a isca e espera.

Adiciona o peixe no facebook e espera.

Espera 10 minutos, espera que seja amanhã, espera que seja da próxima vez.

Espera que pelo menos o peixe (ou répitl, ou mamífero – vai depender muito da espécie que você esteja tentando pescar) dê notícias qualquer dia desses. Sei lá, só pra te dar umas dicas para uma boa e produtiva pescaria.

Não, não precisa ser história de pescador, porque dessas eu tenho coleção.

Umas dicas, só isso.

Segundo meu guia de pesca, recentemente adquirido no google, é preciso ter informações básicas antes de sair pescando por aí. Senão, você vai usar isca pra bagre quando, na verdade, quer pegar um jacaré de papo amarelo. Aí já viu, voltar pra casa no fim do dia (ou da noite, já que pescas noturnas são muito populares) com um bagre no samburá, pode ser bem decepcionante.

É importante saber qual o melhor local pra pescar, que tipo de anzol usar, se é melhor isca viva ou artificial.

O manual não diz onde comprar isca artificial, mas sei onde encontrar pessoas artificiais. Serve?

Enquanto isso o pescador profissional diria:

- Paciência, Téta, paciência!

Mas dá pra se ter paciência quando se quer pão de queijo agora, e não daqui há 20 minutos? Sem falar que esse negócio de preaquecer o forno antes é pura sacanagem.

Só não tenho certeza se pão de queijo combina com sopa de jacaré!

Ficção da categoria: “este-texto-não-faz-sentido-algum”


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DIA DA MULHER!

Troféu “zé mané” do dia vai para todo e qualquer bofe que soltou a piadinha: “um dia para a mulher porque todos os outros são dos homens!”

O prêmio exalta a falta de criatividade e excesso de mesmismo.

Acho o dia babaca, mas adoro ganhar chocolates.

Acho hipócrita, mas curto uma florzinha no meio da tarde.

Sou machista, pero no mucho.

É como “friends with benefits”, sabe? Aqueles amigos que, na hora da carência dão uns pegas, uns beijos, resolvem o problema, mas no dia seguinte são só amigos.

Simples, descomplicado, feliz.

Assim é meu machismo, “with benefits”.

Quero que abram a porta do carro, que mandem flores, paguem as contas. Mas, no dia seguinte, quero direitos iguais, respeito profissional e o bofe no fogão preparando um jantarzinho delícia pra mim que passei o dia todo trabalhando.

É pedir muito?

Dia da mulher é a maior furada.

Os machos-alfa-dominantes já entenderam o truque: eles deixam a gente eternamente querendo provar que somos phoda (coisa que a gente já sabe desde 1814 antes de Cristo). Aí, fazem a linha:

- Eu acho que as mulheres não conseguem fazer isso….

Aí, a gente de otária, vai lá provar que sabe. No fim do dia estamos, trabalhando, votando, mandando, lavando prato, levando o menino na escola, dirigindo um filme, passando roupa, administrando o país, salvando vidas, marcando a hora do dentista e preparando o jantar. Tudo isso num salto agulha e com maquiagem à prova d’água.

Então, colega dona de casa, da próxima vez que seu pretê disser que você não sabe/pode/deve fazer alguma coisa você diz:

- É, sei mesmo não. Vai lá e faz pra mim, amor!

*Atenção feministas descabeladas: esse texto contém alto teor de ironia e pouco (ou nenhuma) relação com a realidade.


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AUTO AJUDA, SAI DESTA TIMELINE QUE NAO TE PERTENCE!

Existe um duende de jardim, primo em primeiro grau de Paulo Coelho, cujo emprego é criar/copiar frases de efeito duvidoso, juntar com fotos de gosto ainda mais duvidoso e espalhar pelo mundo. E assim o auto-ajudismo domina, lento e pegajoso, as redes sociais, mundo virtual e minha timeline.

“Sim, você pode”

- Se seu pai for rico e seu cartão de crédito sem limites, sim, você pode!

“Você atrai aquilo que você mentaliza”

- Mega-sena, mega-sena, mega-sena.

“Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, estará fazendo o impossível”

- Um triplo mortal carpado?

E o duende trabalha incansável, transformando frases óbvias (e quase sempre falsas) em cartões ilustrados com design horrendo. Não basta o teor “biscoito da sorte” dos textos, ele precisa sempre usar fotos avermelhadas de paisagens da Groelândia ou praias com pôr do sol de photoshop.

Deve existir uma lei, do comportamento auto-ajudístico, formulada à portas fechadas, que diz:

- Não basta ser ruim, tem que ser feio.

“Quantas coisas perdemos por medo de perder” diz o guru motivacional, Paulo, o Coelho que tirou da cartola uma conta bancária estimada em mais de R$ 200 milhões, só em livros vendidos (segundo a Isto é Dinheiro).

No que eu só posso dizer:

- Por falar em perder, você viu a tampa da minha caneta bic que estava aqui agorinha?

Não, ele não viu. Estava ocupado demais traduzindo seus livros para outras línguas (o que prova que este é um mal mundial) e formulando novas frases de efeito que vão gerar novas cifras.

Desculpe mago, mas só consegui concordar com uma única frase sua até agora:

“Os sonhos tem um preço. Há sonhos caros e baratos, mas todos os sonhos tem um preço.”

E seu preço, pelo que tudo indica, é alto.

Mas, o que me deixa verdadeiramente em estado de alerta não é o sucesso financeiro do escritor-bruxo, mas a quantidade de pessoas alfabetizadas, criadas com leite Ninho e razoavelmente intelectualizadas que consomem esta “literatura” de fermento da auto-estima.

Como um cidadão com ensino médio completo e diploma na gaveta pode compartilhar uma frase tipo “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.”?

Se você tiver 4 neurônios, e só 2 deles funcionarem, eles vão te dizer (em coro ensaiado):

- Que mentira do caralho!

A frase é bonita mas é ficção. Na real, quando você quer uma coisa, você pode ou não conseguir (50% por cento de chance pra cada lado da equação). Se você for político, ou rico, ou sortudo, a equação aumenta pro seu lado.

Vivemos num caos onde sua condição social, tipo de educação, país em que nasceu, cor, raça e religião vão (mesmo que a gente não admita) influenciar diretamente na porcentagem das chances que você tem de se dar bem e conseguir o que quer. E não a conspiração do Universo (que ultimamente está mais preocupado com bombas nucleares e efeito estufa do que com a realização dos seus desejos).

Autoestima não se compra no supermercado. Não vende em seminários nem em palestras motivacionais. Porque, allow, o nome é AUTO. Basta prestar atenção ao significado da palavra: AUTOestima, AUTO-ajuda. Ou vem da própria pessoa ou é AUTO-mentira, AUTO-enganação.

Então, passado meu momento revolta, resolvi fazer uma livre adaptação das clássicas frases de auto-chatice (trazendo para o mundo real, onde as pessoas não são alquimistas e têm contas para pagar) :

Por Paulo Coelho:

“Se você não acorda cedo, nunca conseguirá ver o sol nascendo”

Por Téta:

“Se você não acordar cedo, seu filho vai chegar atrasado na escola”

Por Edilson Ramos

“A nossa visão da vida determinará o nosso sucesso ou fracasso.”

Por Téta:

“A nossa visão da vida determinará a conta do oftalmologista”

I rest my case!


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A FORMIGA BIPOLAR E A CIGARRA TARJA PRETA!

Nesta fábula não temos formigas trabalhadoras nem cigarras que só aparecem no inverno para pedir comida. Até porque, no Recife não tem inverno.

Aqui a formiga é voadora e já começa, nesta história de terceiro mundo, com um crise de existência: nem é formiga, nem é mariposa. Por isso, não sabe se é de esquerda ou se vota no DEM. Ainda não decidiu se casa ou se monta uma banda de rock progressivo. Pelo menos, não decidiu pela escova progressiva!

Nesta conturbada crise de identidade, ela só tem uma certeza: aparece quando chove e voa direto para luz!

- Mas só quando chove?

- Só quando chove. E muito.

Antes disso, ela era um pingo de chuva. Se transformou em formiga de asa quando avistou, de longe, a luz inebriante da tela do seu computador ou a lâmpada fluorescente da cozinha.

Aí já viu: suicído premeditado!

Não adiantou as amigas avisarem que aquela luz não era de confiança, que era bonita mas que era artificial e que, na real, aquela luz não valia nem um ponto no Bomclube.

Pelo que tudo indica, luzes e pessoas artificiais estão super na moda e, nossa formiga voadora deprimida e levemente bipolar, voou direto para o lustre da casa do vizinho e morreu eletrocutada.

Aqui jaz uma formiga voadora com grande potencial para se tornar aeromoça ou baliza da banda escolar.

A cigarra, que nem conheceu a formiga (dado à brevíssima existência da mesma) foi atraída por outro tipo de luz: o canto da cigarra macho!

Serelepe e apaixonada voou direto para os braços do amado que, depois do acasalamento, deixou a coitada cuidando da cria sozinha.

Sem pensão alimentar e com oito cigarrinhas para sustentar, ela teve um colapso nervoso e está, atualmente, internada na Tamarineira sob efeito de tranqüilizantes fortíssimos.

A barata, que era amiga da formiga e vizinha da cigarra, vive tranquilamente aguardando a hecatombe nuclear para dominar o mundo!

Moral da história: estou de TPM!


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O RÉPTIL!

Ele era um réptil.

Não, não do tipo cobra ou jacaré. Era do tipo réptil do amor!

Eu sei, parece nome de banda brega ou música de Reginaldo Rossi, com direito a copo de uísque na cabeceira da cama. Mas o fato é que ser réptil do amor é uma característica invejável.

Vejamos o porquê:

Répteis são ectotérmicos, palavra difícil, tirada diretamente do google, que significa que eles não possuem temperatura corporal constante. Ou seja: se tiver frio, tá beleza mas se fizer calor, melhor ainda. Palavrinha mágica – adaptáveis.

E ele era um réptil adaptável do amor. Se estivesse casado era massa, mas se o pé da amada chutasse sua bunda de escamas, nada de pânico! Ele era feliz de qualquer jeito.

Não sofria. Não reclamava. Se adaptava e ponto, parágrafo.

Ela não era réptil. Era o oposto de réptil. Queria sol de 40 graus no inverno e chuva torrencial no verão. Quando casada queria desesperadamente ficar solteira, mas…. solteira, achava mesmo é que devia ficar casada. Ou calada. Ou parada. Ou desenrolada.

Ela era desenrolada, sejamos sinceros.

Só não era adaptada.

Tentou coitada.

Tentou 16 vezes sem sucesso, depois de sete desistências e nove fracassos consecutivos.

Ser réptil é difícil, pô!

E enquanto ele era jacaré, ela era uma bolsa feita de couro de jacaré.

Se ele fosse dinossauro, ela era extinção.

Se fosse cobra, ela era Jeff Corwin.

Essa história poderia ter um final feliz se, quando ele resolvesse ser tartaruga ela decidisse ser o Projeto Tamar. Aí, iriam para Fernando de Noronha ser felizes para sempre.

Só que não!

Ela resolveu virar hippie e namorar um surfista no Hawaii. Ele, adaptável às condições adversas, foi morar em Nova York e fazer bonecos de neve.

Porque, como diria Tati Bernardi, “a vida é um conto de falhas!”


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366!

Pularíamos, sem grandes transtornos, da terça para quinta como se nada tivesse acontecido. No máximo, algum desavisado iria comentar:

- Essa semana está passando rápido, né?

Na real, esta quarta-feira, que não iria fazer falta nenhuma na vida de seu ninguém, só existiu porque foi 29 de fevereiro (dia estranhíssimo, diga-se de passagem) de um ano bissexto.

Não bastam os 365 dias de calor, trânsito, moças do telemarketing, dores de cotovelo, blitz de bafômetro, problemas com a TIM, tragédias no telejornal, greves na Europa, aumento de passagem de ônibus e 1 mega da Velox (quando você está pagando por 10) e ainda me chegam com mais um dia! Vinte e quatro horas inteiras que não se importam se o calendário Maia ou o Gregoriano fizeram uns cálculos errados no passado e agora vão descontar neste dia 29 de fevereiro (ainda estranhíssimo, por sinal).

O ano bissexto só serve para dois tipos de pessoas:

1 – As que nasceram nesta data – o que é ótimo porque só fazem aniversário a cada quatro anos. Imagino que, assim como a vida dos cachorros, que se conta em anos caninos, os aniversariantes de ontem têm uma contagem diferente da nossa. Tipo: 20 anos humanos são 5 anos para os bissextos. Ou sei lá…

2 – Para as mulheres da Escócia! Sim, neste país lá do outro lado do mundo (que por incrível que pareça fica mais longe que Piedade e Candeias) durante os anos bissextos são as mulheres que devem/podem escolher seus maridos. E se o cara não quiser casar, paga uma multa. Pelo menos, era assim na antiguidade. Espero que elas tenham botado moral e façam isso até hoje.

Não sendo você aniversariante de ontem nem escocesa, poderia ter tomado um Dramin pra dormir e só acordar hoje. Porque, na real, poderíamos ter passado tranquilamente sem essa quarta-feira bissextamente ingrata! Se pelo menos fosse um sábado….

29 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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AQUELE ABRAÇO!

Dura três segundos.

Cinco, no máximo.

Mas abraços, tagarelas de nascença, falam mais neste intervalo de tempo do que político em véspera de eleição.

E dizem, (se você tiver sorte);

- Quanto tempo!

- Você vem sempre aqui?

- Como é seu nome mesmo?

- Bom te ver

- Ainda bem que eu te achei!

-Volta amanhã!

E enquanto o abraço fala, você responde:

- Eu também.

Abraços são mais verdadeiros que beijos e bem mais aconchegantes que apertos de mão.

Deveriam, inclusive, fazer parte da Declaração dos Direitos Universais.

Parágrafo 20, artigo 14: Toda pessoa tem direito a, pelo menos, um abraço sincero por dia.

Porque no abraço se dissolvem todas as interrogações.

E nele se respondem as perguntas que ainda nem foram perguntadas.

Certeza absoluta de que se o príncipe tivesse dado um abraço a bela não teria ficado adormecida por tanto tempo.

Beijo está tão fora de moda, diria a princesa, cansada de ser beijada por sapos.

O pior é beijar príncipe que vira sapo. Como proceder nestes casos?

Melhor abraçar.

*Mas só vale se for sincero, beleza?

27 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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ÁRVORE SÃO OS OUTROS

Não sou árvore.

Tentei.

Li todos os poemas de Manoel de Barros*, mas não escutei a cor do passarinho.

Não agarrei o rabo do vento nem peguei a voz do peixe.

Sou asfalto. E poeira, e fios, e poluição e viadutos. Nasci na cidade, nos prédios altos, no calor do Recife, no cheiro das pontes.

Não sou árvore, sou poste.

Poste com fios e energia elétrica. A mesma energia feita pela Chesf*, onde meu pai trabalhou a vida inteira. A energia que virava luz, a luz que vinha de um rio com nome de homem: Francisco!

E o senhor Rio São Francisco pagava nossas contas.

Na casa do poeta Manoel, o rio era uma cobra de vidro mole, na minha vinha em forma de contra-cheque. Um rio-salário líquido (que sempre tinha uma grande diferença em relação ao rio-salário bruto).

Coisa que eu nunca entendi, se tratando de um rio.

Imaginava apenas que um rio líquido era um rio sem barragens nem adutoras.

Um rio que circulava livremente e que tinha, dentro dele, novas espécies da fauna ainda não descobertas pelos biólogos especialistas: o jacaré Xingó, a garça Paulo Afonso e a sucuri Itaparica.

O rio do poeta conversa com as rãs e por lá falam de poesia.

O meu rio é amigo das hidroelétricas e os dois, velhos conhecidos, versam sobre linhas de transmissão.

Manoel de Barros é árvore.

Meu pai é rio.

Eu sou poste. Mas, sabe que pode haver muita poesia num poste?

 *Chesf – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco

* Manoel de Barros – Poeta Mato Grossense, autor do poema “Árvore”

20 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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TEMPORARIAMENTE FORA DA ÁREA DE COBERTURA!

Eu tentei. Juro.

Prometi que, depois de três crônicas seguidas falando sobre o Carnaval e o frevo, essa seria diferente.

Afinal, vocês, senhoras e senhores do júri, vêem visitar este respeitado blog para saber das notícias importantes do país. Querem saber quem roubou quem, quem matou quem, quem saiu impune de que!

Acho justo.

Pelo menos justo para quem está longe do Recife.

Por aqui, enquanto tento me concentrar na frente deste computador, o bloco da Saudade desfila pela rua cantarolando músicas de antigos carnavais. No meu email: duas mensagens são para saber que horas eu vou chegar na prévia dos Amantes de Glória, um perguntando se vou para o Eu Acho é Pouco e três falam do Segura o Briefing – bloco dos publicitários. No Facebook se combina o horário do encontro no Mucha Lucha e no twitter só se comenta da Queirogada de hoje à noite.

O Recife já parou! O trânsito mudou, as ruas já foram bloqueadas, o Galo, enorme e imponente, já ocupou seu lugar na Ponte Duarte Coelho.

Em nossa defesa, digo: não, não somos um bando de desocupados. É porque é Carnaval. E já não se vêem pessoas sem fantasias e, se eu não largar esse computador agora para seguir o bloco meu coração pode parar repentinamente, sem maiores explicações.

Enquanto você lê este texto, eu estarei fora da área de cobertura, porque é segunda-feira de Carnaval. E no bloco não tem sinal de celular, não chega email e ninguém quer saber quem roubou quem, nem quem matou quem, nem quem ficou impune de que.

Tentei, juro.

E sempre que me encontro nas vésperas do deadline de entregar esse texto e nada de “importante” acontece, eu apelo:

- Alô Carlos Eduardo, alguma notícia bombástica nos bastidores da redação?

- Das 10 páginas do jornal, 9 são do Carnaval.

- Alô Souza, aqui é Téta do 1002. Algum evento estranho no prédio nos últimos dias?

- De estranho mesmo, só a fantasia do síndico: ele vai de Seu Lunga!

- Alô Percol, o que o Governador andou aprontando essa semana?

- Bom, ele participou do Baile Municipal e pretende aparecer no Galo da Madrugada.

- Alô Sônia Braga, como vai Hollywood?

- Oi querida, fala mais alto! Não estou te ouvindo porque a música aqui na prévia do Siri na Lata tá muito alta. Esse ano foi homenagem a Nelson Rodrigues e eu estou aqui junto da orquestra. Fala mais alto.

- Alô, alô?

Desculpem a falta de assunto “importante”. Eu tentei, juro.

Mas é que por aqui, a gente acha importante ser feliz!

Bom carnaval. E feliz ano novo (sim, porque 2012 começa na quinta-feira de cinzas).

14 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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(ENTRE PARÊNTESES)

Meu nome é Téta Barbosa, tenho 38 anos e sou viciada em parênteses.

Seguindo os 12 passos, já me encontro no terceiro: admito minha fraqueza, acredito que é mais forte que eu e até já fiz um minucioso e destemido inventário moral de mim mesmo, como manda a cartilha.

Fiz planos e tracei metas: daqui para 2013 serei capaz de escrever um texto inteiro sem que nada esteja entre parênteses (reais ou imaginários).

Não, ainda não consegui, como observado na frase anterior.

Imagino haver vida inteligente fora dos parênteses, onde frases livres conversam animadamente com parágrafos inteiros que se explicam por si só, sem precisar abrir um parêntese para explicar o que o leitor já entendeu.

Só não tenho certeza se, fora do Word, a vida é melhor sem parênteses.

Porque, na vida real, acho que é ali, no conforto e proteção dos parênteses que as coisas importantes acontecem. É ali que se explica, bem direitinho, que isso é isso e não aquilo.

Um abraço, por exemplo, pode ser só um abraço ou pode querer dizer, abre parênteses

(você vem sempre aqui? Que bom que eu te achei! Não vai embora não, tá?), fecha parênteses. Sou a favor de deixar as coisas bem explicadas. Não dá pra colocar um ponto, parágrafo no final de um beijo e esperar que o outro entenda o que você quis dizer só que ops, não disse.

Então, fica decidido assim: vou tentar tirar os parêntesis dos textos.

Mas só dos textos.

13 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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ELE ENTRA NA CABEÇA, DEPOIS TOMA O CORPO E ACABA NO PÉ!

Voltei Recife, de Luiz Bandeira, com a Alceu Valença

E quando toca a gente pula feito pipoca

Não é exatamente uma dança. Pelo menos não é apenas uma dança.

É, se eu tivesse que descrever, um exorcismo cultural ritmado.

Não é coisa de americano nem aprendemos com os portugueses. Não herdamos dos holandeses nem imitamos os africanos.

Não tem roupas de marca, nem mulatas nuas, nem corpos sarados.

Araras e bananeiras não estão estampadas em nossas vestes.

Não está enquadrado no estereotipo brasileiro que vendemos para o mundo. Mas é o mais brasileiro dos ritmos brasileiros. Vem do Nordeste, seu moço.

Vem do chão rachado pela seca e tem o cheiro do suor do Sertão quando recebe a brisa do mar.

Mas não meta os pés pelas mãos: tem que aprender os passos e seguir o ritmo.

A menos que ele já tenha nascido dentro de você.

Ele nasceu dentro de Maria. Ela tem cinco anos e, outro dia, quando abriu a porta do elevador no terceiro andar de um shopping, ela ouviu de longe. Era ele! Não resistiu e fez os passos ali mesmo, dentro do recinto de 1,5m por 2m. O cubículo balançou. A menina, nascida no carnaval, olhou em volta e se desculpou com os outro “passageiros”:

- Desculpa. Foi mais forte do que eu!

Foi o frevo que ela ouviu.

E é do frevo, minha senhora, que eu estou falando.

Essa dança que é um ritmo. Esse ritmo que é daqui.

e abre a sombrinha mesmo que não esteja chovendo e faz os passos que a gente nunca ensaiou.

O frevo não toca no intervalo da novela das oito, nem na festinha do Big Brother. Não se ouve “Vassourinhas” no comercial da cerveja nem no bar “brasileiro”em Miami. Porque o nosso frevo não tem preço e não exportamos o nosso coração.

Ele é do carnaval. E o carnaval é do povo como o céu é do Condor.

*Homenagem ao aniversário de 105 anos do frevo!

12 fevereiro 2012 A COLUNA DE TÉTA BARBOSA


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38!

38 vezes!

38 foi a quantidade de vezes que eu olhei meu celular, num intervalo de 15 minutos, para checar se você tinha respondido meu recado.

Vai que ele tocou e eu não ouvi. Vai que ele tremeu e eu não senti.

Aí, abria a bolsa e checava, just in case.

Então entrei na maldição da espera – parte dois: imaginar todas as 38 razões que fizeram você não responder minha mensagem.

Sendo eu um ser criativo no quesito pensar besteira, consegui imaginar muito mais de 38 motivos! Vai que seu celular estava esquecido numa gaveta em casa? Como é, meu Deus do céu, que você ia saber que eu te mandei uma mensagem te convidando para uma festa chata (mas que tinha espumante de graça)? O pior, e se você tivesse sido atropelado e estivesse em coma num hospital público sem ninguém saber seu nome, RG ou, mais grave, sem ninguém saber que eu estava na festa chata (mas com espumante de graça) esperando a porra da resposta.

Como poderia aquele enfermeiro, que estava há dois dias de plantão, imaginar que o cidadão sem nome na maca do corredor teria que responder uma mensagem de celular sobre a ida ou não ida à uma festa chata (mas com uma moça bem boazinha )?

Coitado do enfermeiro.

Claro que também imaginei outros motivos menos dramáticos para a resposta não ter chegado: reunião, celular descarregado, furacão, tsumani, doença da mãe, guerra nuclear, protesto de estudantes, amnésia repentina, fim do mundo!

Então, resolvi checar a mensagem pela trigésima nona vez.

Foi só então que percebi que, enquanto você estava em estado de coma vegetativa, meu celular estava sem sinal! Sem sinal, minha gente.

Por isso meu convite não foi enviado, e você não recebeu, nem foi atropelado, nem está desacordado numa maca de um hospital público.

Ufa, vejam vocês como uma mensagem não enviada evitou tanta desgraça.

Se eu tivesse mandado, você teria respondido e teria vindo e teria dito

- Oi princesa.

No que, esta princesa responderia, do alto do bairro da Torre:

- Se eu jogar as minhas tranças, você joga o seu iphone (no lixo)?

*Peço licença aos leitores de crônicas, para invadir o blog com minha primeira incursão no mundo da quase ficção. Sim, porque quase tudo nesta história é ficção. Quase tudo!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa