22 julho 2017 HORA DA POESIA

LYRA DE SAUDADES – Anna Lima

A meus irmãos

Oh! minha infancia, oh! quadra venturosa
Dos meus primeiros e risonhos dias!
Estrella radiante e fulgurosa
De santas alegrias!

Quantas saudades a minh’alma sente,
Meu juvenil e claro sol de amor,
Quando me quedo a recordar somente
O céo de Maio em flor!

Oh! vida já passada e deliciosa…
De minha lyra virginal agora;
Mereces a canção mais perfumosa
Vibrada á luz d’aurora.

Estancia encantadora e sorridente,
Flor divinal de candida esperança,
Eras pleno luar meigo e fulgente,
Meu tempo de creança!

Que lembranças suaves e propicias
Me commovem de manso o coração,
Ao relembrar as candidas caricias
D’um pequenino irmão.

Uma infinda alegria, ardente e louca,
Eu sinto ao recordar, nesta manhã,
Os sorrisos gentis da rosea bocca
De minha terna irmã,

Quadra de encantos e gazia chimeras,
Oh! aurora ditosa e pueril!…
Que adornavas de minhas primaveras
O puro céo de anil!

Acceita a minha estrophe colorida.
Casto idéal de amor e suavidade,
Grava-a em teu manto, como a flor sentida
De mystica saudade!

Açù – 1898.

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

14 julho 2017 HORA DA POESIA

O NOSSO LIVRO – Florbela Espanca

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
“Versos só nossos, só de nós os dois!…”

30 junho 2017 HORA DA POESIA

CÍRCULO VICIOSO – Machado de Assis

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– “Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

– “Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– “Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– “Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

21 junho 2017 HORA DA POESIA

CONCEIÇÃO 63 – Orlando Tejo

Rua da Conceição, sessenta e três
(a artéria tem o ar de um cais comprido)
aqui, anos sem fim tenho vivido
buscando a infância azul que se desfez.

Talvez seja isso um sonho, mas talvez
este meu velho abrigo tenha sido
da mesma argila minha construído,
porque é a mesma a nossa palidez!

Ele a mim se assemelha: é ermo e triste.
No jardim, no quintal, no chão, no teto
em tudo a mesma semelhança existe.

No tempo, entanto, aos céleres arrancos,
o seu telhado vai ficando preto
e os meus cabelos vão ficando brancos.

18 junho 2017 HORA DA POESIA

CONTRIÇÃO – Chico Jó

Com migalhas de amor me satisfaço,
De nada, ou pouco menos, me sustento:
Vejo-te – e já venci todo o cansaço,
Sorris – e já esqueci todo tormento.

Na mesa farta em que te serves, passo
Por bem do que me dás, a teu contento:
Se me deixares o menor pedaço,
Será esse meu único alimento.

Não exijo, não peço, não suplico:
Espero – e se tu ficas, também fico,
E se foges de mim, eu te procuro.

Da luz que há nos teus olhos me cobriste:
Uma réstia de sol num dia triste,
Um raio de luar no céu escuro.

15 junho 2017 HORA DA POESIA

CENSURADO – Glauco Mattoso

Sabendo que a censura não me trava,
pediram-me um soneto sem calão
pra pôr na antologia de salão
que o tal do [censurado] organizava.

Queriam até tônica na oitava,
mas nada de recurso ao palavrão.
Usei o ingrediente mais à mão,
porém sem [censurado] não passava.

Desisto. Quanto mais remendos meto,
mais roto vai ficando o [censurado].
Poema não é texto de panfleto

pra ter que se estampar todo truncado!
Pois esta [censurado] de soneto
que vá pra [censurado] [censurado]!

12 junho 2017 HORA DA POESIA

SONETO OCO – Carlos Pena Filho

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.

10 junho 2017 HORA DA POESIA

RETORNO DOS RETIRANTES – Maria Braga Horta

Na volta, achamos os perdidos passos
do abandono da terra: nos currais
velhos cochos lascados e os baraços
destorcidos e secos dos manguais;

esqueletos fundidos nos penhascos
e caveiras no espanto dos pardais;
ferraduras com esquírolas de cascos
e mofados arneses nos portais;

por estirões sem fim de álveos vazios,
devassados mistérios, por assente
que nem sempre de água são seus rios,

e, nos toscos casebres, negros fumos
com que a vida marcou, no tempo ausente,
dos rudes passos os cansados rumos.

6 junho 2017 HORA DA POESIA

SONETO A QUATRO MÃOS – Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos

Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

3 junho 2017 HORA DA POESIA

A CIGARRA QUE FICOU – Olegário Mariano

Depois de ouvir por tanto tempo, a fio,
As cigarras, bem perto ou nas distâncias,
Só me ficou no coração vazio
A saudade de antigas ressonâncias…

Todas se foram… bando fugidio
Em busca do calor de outras estâncias,
Carregando nas asas como um rio
Leva nas águas – seus desejos e ânsias…

E ainda cantaram na hora da partida:
Era um clamor dentro da madrugada…
Essa, entretanto, desgarrou daquelas,

E entrou, tonta de luz, na minha vida,
Porque sabia que era a mais amada,
E cantava melhor que todas elas…

30 maio 2017 HORA DA POESIA

A ULISSES – Judas Isgorogota

Quando à manhã parti – era a partida
de um novo Ulisses à Ítaca sonhada –
eu vivia da homérica investida
e empolgavam-me os lances da chegada!

Menino, ia este sonho me levando…
Não nasci para Ulisses… melhor fora
não ouvir a sereia enganadora
e ter ficado junto ao mar, sonhando…

Mas, se voltasse a ser, numa outra vida,
a mesma criança de alma forasteira,
sempre a rolar como uma pedra mó,

certo, madrugaria na partida,
na ânsia de não ser nada a vida inteira
e ser Ulisses um minuto só…

28 maio 2017 HORA DA POESIA

TEMPO-ETERNIDADE – Paulo Mendes Campos

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As íntimas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
A luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história,
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões

25 maio 2017 HORA DA POESIA

SONETO DO AMOR TOTAL – Vinicius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

24 maio 2017 HORA DA POESIA

AS ESTRELLAS – Anna Lima

Hontem á tarde, ao desmaiar do dia,
As estrellas inquietas e medrosas
Procuravam nas plagas luminosas
Um’outra estrella que fugido havia,

Ellas todas choravam silenciosas,
Cheias de mêdo e cheias de agonia,
E o claro pranto das estrellas ia
Cahir no seio das nevadas rosas

Porém, mais tarde, quando a lua algente
Transpoz a curva triumphal do oriente,
– Noiva do sul, pela amplidão vagando…

Ellas viam do espaço interminavel
A meiga estrella pallida, adoravel,
Na doce luz de teu olhar brilhando.

Açù – Janeiro de 1899.

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

23 maio 2017 HORA DA POESIA

ETERNA MÁGOA – Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa magoa que o acompanha ainda!

22 maio 2017 HORA DA POESIA

DE UM LADO CANTAVA O SOL – Cecília Meireles

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim . . .

20 maio 2017 HORA DA POESIA

ESPERA – Maria Braga Horta

Tu não vens, meu amor, porque te espero
e nunca o amor, quando esperamos, vem.
Quanto mais tardas, mais e mais te quero
e, se aqui estás, eu mais te quero bem.

Espero-te e suponho que ninguém
pode reter-te aí, se aqui te espero:
és meu amor, és meu, e é meu também
teu coração, onde obedeço e impero.

Mas… tu não vens, e eu olho para a estrada
como quem olha fixamente o nada,
ouvindo as aves, só, sem compreendê-Ias…

E ainda te espero (a noite erma e deserta)
até que a vista se confunda, incerta,
na luz de vaga-lumes e de estrelas.

1931

17 maio 2017 HORA DA POESIA

VOLÚPIA – Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

13 maio 2017 HORA DA POESIA

13 DE MAIO – Dom Pedro II

No Brasil sempre brilhou o mês de Maio,
Mas só da redenção foi este o dia
Em que o meu coração já não ouvia
A voz do cativeiro em seu desmaio.

Brilhou da Divindade enfim o raio
Que há muito o Brasileiro pressentia,
E exultando em sua íntima alegria
Diz: – Firmei-me no bem, no mal não caio!

Já todos como irmãos agora unidos
Serviremos à Patria com fervor,
Para assim resgatarmos tempos idos…

E hosanas entoando ao Criador,
Vejo enfim meus esforços concluidos:
E sou de um Povo Livre o Imperador.

10 maio 2017 HORA DA POESIA

O QUE TU ÉS… – Florbela Espanca

És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera…
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!…

2 maio 2017 HORA DA POESIA

SONETO DA SEPARAÇÃO – Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

29 abril 2017 HORA DA POESIA

SONETO DAS METAMORFOSES – Carlos Pena Filho

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

25 abril 2017 HORA DA POESIA

INSCRIÇÃO – Manuel Bandeira

Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais…

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.

A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava…

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis…
Tinha os olhos azuis… Era loura e dançava…
Seu destino foi curto e bom… – Não a choreis.

23 abril 2017 HORA DA POESIA

A IDÉIA – Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

21 abril 2017 HORA DA POESIA

SONETO – Carlos Pena Filho

Por trás do musgo silencioso e espesso,
que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço,

Sei apenas que às vezes, quando teço
canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei por que sombras,
exilado para além do meu fim e meu começo.

Esse teu mundo, concha que é morada
de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.

E é por isso talvez que não se entrega
e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega.

18 abril 2017 HORA DA POESIA

A’S AMIGAS DO CORAÇÃO – Anna Lima

Quando através das plagas infinitas
Surgem bellas manhãs esplendorosas,
Ellas mandam-me rosas e mais rosas,
Brancas, rubras, olentes e bonitas.

Minh’alma, então, beijando essas bemditas
Lembranças das amigas carinhosas,
Esquece as tristes maguas dolorosas
De umas saudades tremulas e afflictas.

Como é grato da vida nos encolhos,
Quando a sorte nos fere impiedosa
E um mar de pranto nos alaga os olhos…

Ter-se amigas sinceras e queridas,
Em cujo seio e em cada flor mimosa
As nossas crenças vivem repartidas.

Natal – Março de 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

15 abril 2017 HORA DA POESIA

ZELOS – Maria Braga Horta

Cansei-me de enviar beijos e amor e abraços
nas cartas que te escrevo… e reclamas! Agora,
nem sei por quê, desfiz a última em pedaços
e atirei tanto sonho e ideal janela em fora!

Cansei-me de escrever tanto sonho! Nos laços
com que nos prende o amor, nosso amor me apavora
se eu tenho de escrever: “Aperta-me em teus braços”
e os teus braços estão distantes nessa hora.

Não me conformo em ver rolar de mão em mão
como um sonho que alguém poderá surpreender
nossas cartas de amor que traduzem paixão…

Deste amor que é só teu, só tu terás ensejo
de ler no meu olhar quanto te amo, e colher
no cristal de tua boca o néctar do meu beijo!

13 abril 2017 HORA DA POESIA

AS TRÊS IRMÃS DO POETA – Castro Alves

É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão três pálidas virgens silenciosas
Através da procela irrequieta.
Vão três pálidas virgens… vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias…

– Na fronte cismadora do Poeta -.

– “Saúde, irmão, eu sou a Indiferença.
Sou eu quem te sepulta a idéia imensa,
Quem no teu nome a escuridão projeta…
Fui eu que te vesti do meu sudário…
Que vais fazer tão triste e solitário?…”

– “Eu lutarei!” – responde-lhe o Poeta.

– “Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome…
O teu mísero pão, mísero atleta!
Hoje, amanhã, depois… depois (qu’importa?)
Virei sempre sentar-me à tua porta…”

– “Eu sofrerei!” – responde-lhe o Poeta.

– “Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hino augusto e forte.
Marquei-te a fronte, mísero profeta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cântico gelar-se no meu seio?”

– “Eu cantarei no céu” – diz o Poeta!

11 abril 2017 HORA DA POESIA

AQUI MORAVA UM REI – Ariano Suassuna

Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

8 abril 2017 HORA DA POESIA

AH! OS RELÓGIOS – Mário Quintana

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…

6 abril 2017 HORA DA POESIA

HIMENEU – Vinicius de Moraes

Na cama, onde a aurora deixa
Seu mais suave palor
Dorme ninando uma gueixa
A dona do meu amor.

De pijama aberto, flui
Um seio redondo e escuro
Que como, lasso, possui
O segredo de ser puro.

E de uma colcha, uma coxa
Morena, na sombra frouxa
Irrompe, em repouso morno

Enquanto eu, desperto, a vê-la
Mesmo sendo o homem dela
Me morro de dor-de-corno.

4 abril 2017 HORA DA POESIA

TÂNTALO – Maria Braga Horta

Não seria maior, nem mais forte o castigo,
fosse o crime de morte ou pecado de amor!
Mas o néctar do céu, que trouxeste contigo,
trouxe o fogo do inferno a teu mundo interior.

Foi cruel o suplício, e cruel o inimigo
ao negar-te, da água, a doçura, o frescor;
ao negar-te um só pomo, ao negar-te um abrigo,
e te expondo ao olhar um país de esplendor.

Por teu crime sofreste e foi grande a tortura!
(Era o néctar tão doce, a ambrosia tão pura!
Se não fossem de Zeus, tentariam a Zeus!)

Não amaste, porém, e não foste obrigado
a partir triste e só, e deixar o ente amado
sem um beijo de amor, sem um gesto de adeus…

Lajinha, 2-2-1956

31 março 2017 HORA DA POESIA

MARINHA – Carlos Pena Filho

Tu nasceste no mundo do sargaço
da gestação de búzios, nas areias.
Correm águas do mar em tuas veias,
dormem peixes de prata em teu regaço.

Descobri tua origem, teu espaço,
pelas canções marinhas que semeias.
Por isso as tuas mãos são tão alheias,
Por isso teu olhar é triste e baço.

Mas teu segredo é meu, ó, não me digas
onde é tua pousada, onde é teu porto,
e onde moram sereias tão amigas.

Quem te ouvir, ficará sem teu conforto
pois não entenderá essas cantigas
que trouxeste do fundo do mar morto.

30 março 2017 HORA DA POESIA

NO ALBUM DE MARIA – Anna Lima

Quero lembrar-te os sonhos do passado,
Voltar da puberdade aos roseos dias…
E tu, oh! flor das minhas alegrias,
Recorda as crenças desse tempo amado.

No teu olhar dulcissimo e maguado
Passam as sombra das melancholias
Que tinhas n’alma, e que tu não sentias,
Branco lyrio de amor, immaculado!

Perdôa, si minh’alma ousar se atreve
A relembrar-te agora, entre sorrisos,
Os sonhos de tu’alma côr de neve…

Foi em Maio… nas tardes amorosas…
Teu labio ingenuo se expandia em risos,
Teu coração desabrochava em rosas.

Agosto de 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

28 março 2017 HORA DA POESIA

CRIANÇAS – Rodrigues de Abreu

Somos duas crianças! E bem poucas
no mundo há como nós: pois, minto e mentes
se te falo e me falas; e bem crentes
somos de nos magoar, abrindo as bocas…

Mas eu bem sinto, em teu olhar, as loucas
afeições, que me tens e também sentes,
em meu olhar, as proporções ingentes
do meu amor, que, em teu falar, há poucas!

Praza aos céus que isto sempre assim perdure:
que a voz engane no que o olhar revela;
que jures não amar, que eu também jure…

Mas que sempre, ao fitarmo-nos, ó bela,
penses: “Como ele mente” – e que eu murmure:
“quanta mentira têm os lábios dela!”

21 março 2017 HORA DA POESIA

OS VERSOS QUE TE FIZ – Florbela Espanca

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder …
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda …
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei …
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

18 março 2017 HORA DA POESIA

REMORSO – Olavo Bilac

Às vezes, uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

16 março 2017 HORA DA POESIA

AI! SE SÊSSE… – Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!

Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?

Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?

E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…

Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

14 março 2017 HORA DA POESIA

O NAVIO NEGREIRO – Castro Alves

Castro_Alves

No data de hoje, 14 de março, no ano de 1847, nascia em Muritiba, Bahia, Antônio Frederico de Castro Alves. Encantou-se em julho de 1871, com apenas 24 anos de idade

* * *

(Tragédia no mar)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar – dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo – o mar em cima – o firmamento…
E no mar e no céu – a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra – é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar – doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês – marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês – predestinado –
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

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14 março 2017 HORA DA POESIA

CONTRASTE – Anna Lima

A’ Virginia Wanderley

As nossas almas de alegrias ungidas
E ungidas de suave encantamento,
Iam passando a vida sem tormento
E sem maguas ou lagrimas doridas.

As minha rimas pallidas, sentidas,
Tinham teu caridoso acolhimento…
Como era bello o nosso firmamento!
E como eram ditosas nossas vidas!

E tudo transformou a desventura
Que de pungir-me a alma não se cansa!
E és sempre a mesma alegre creatura…

Somos hoje um contraste em realidade:
– Tú és a meiga e candida esperança,
Eu sou a triste e perennal saudade!

Natal, 14 de julho de 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.


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