21 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

OS MILHÕES DE ÁUREOS LUSTRES CORUSCANTES – Manuel Maria Barbosa du Bocage

Os milhões de áureos lustres coruscantes
Que estão da azul abóbada pendendo;
O Sol e a que ilumina o trono horrendo
Dessa que amima os ávidos amantes;

As vastíssimas ondas arrogantes,
Serras de espuma contra os céus erguendo,
A leda fonte humilde o chão lambendo,
Loirejando as searas flutuantes;

O vil mosquito, a próvida formiga,
A rama chocalheira, o tronco mudo,
Tudo que há Deus a confessar me obriga.

E para crer num braço, autor de tudo,
Que recompensa os bons, que os maus castiga,
Não só da fé, mas da razão me ajudo.

20 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

CABELOS COR DE PRATA – Rogaciano Leite

Meus cabelos cor-de-prata
são beijos de serenata
que a lua mandou pra mim.
Os meus cabelos grisalhos
são pingos brancos de orvalho
num tinteiro de nanquim.
Estes meus cabelos brancos
que hoje são da cor dos bancos
solitários de um jardim,
já sentiram muitos dedos
e ouviram muitos segredos
que elas contavam pra mim.

Se hoje, estão desbotados
é porque foram beijados
com muito amor e emoção
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
estão da cor do algodão.
Eu fiz tanta serenata
que a lua, desfeita em prata,
mandou mil beijos pra mim.
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
ficaram brancos… assim!

* * *

18 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO DA AMADA – Romeu Jobim

Na minha fantasia incoercível,
imaginei-te um anjo de bondade,
o próprio sonho, a estrela inatingível,
a imagem mesma da felicidade.

Reprimindo, no entanto, o irreprimível,
não procurei falar-te, é bem verdade.
Como tentar alguém o inacessível,
que é sonho, converter em realidade?

Mas o destino quis que eu te encontrasse
e de começo logo constatasse
que excedes tudo quanto imaginei.

Verifiquei, Amada, que não eras
miragem tão-somente, que superas
a própria encarnação do que sonhei.

16 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

A SOLIDÃO E SUA PORTA – Carlos Pena Filho

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

13 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

INVENÇÃO – Nilto Maciel

De tanto não te ver, aflito o peito,
desesperado, resolvi inventar-te.
Hoje duvido se eras desse jeito
e se de fato és, no todo ou em parte.

De tanto não te ver, nunca te ver,
ou por sumires tão furtivamente,
ou minha sorte bem mesquinha ser,
achei por bem criar-te novamente.

Quem mais existe? Qual mais delas noto?
Talvez a que me fez seu criador,
talvez a que me fez versejador.

Não sei a quem amor eu mais devoto:
se a ti que foges – minha inspiração,
se a ti que chegas – minha criação.

11 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

TUAS MÃOS – Maria Braga Horta

Trazes, com o teu abraço, a carícia do arminho
com que tua mão lirial me perturba os sentidos
como a asa de um cisne a tocar, de mansinho,
a cítara do amor que me freme aos ouvidos…

Tuas mãos, sinto-as em mim: são dois vasos partidos
a entornar, no meu corpo, um rubro e estranho vinho
que me queima e embriaga e em surtos incontidos
faz-me vibrar no ardor do teu doce carinho…

Tuas mãos têm tal sabor quando as colho num beijo!
e não sei que atração se, ao levá-las ao seio,
sinto a alma vibrar em mais rápido arpejo…

Tuas mãos são dois faróis me salvando de escolhos!
Mãos que me fazem rir no mais vívido anseio
e que, quando eu morrer, irão fechar-me os olhos…

9 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

AO PARTIR – Anna Lima

A’ Antonia Tinôco

Fizeste bem, deixando-me no seio
Cahir medrosa a lagrima sentida!
Eu comprehendo as maguas da partida,
Pois tenho n’alma a chaga d’esse enleio.

Mas não esqueças que no negro anceio
D’alma que parte triste e dolorida
Sempre a esperança candida e querida
Abre-se em flor, expande-se em gorgeio.

Não chores tanto que o chorar desfeia
Teus lindo olhos cheios de fullgores,
Teu coração que a medo devaneia…

Adeus… confia no futuro que ha de
Trazer-te a flor mais bella dos amores,
Murchar, emfim, a rosa da saudade!

Natal – 1899

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

7 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

RECEBI – Judas Isgorogota

Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,

A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;

E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,

Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.

4 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO – Carlos Pena Filho

Por seres bela e azul é que te oferto
a serena lembrança desta tarde:
tudo em torno de mim vestiu um ar de
quem não te tem mas te deseja perto.

O verão que fugiu para o deserto
onde, indolente e sem motivos, arde,
deixou-nos este leve e vago e incerto
silêncio que se espalha pela tarde,

Por seres bela e azul e improcedente
é que sabes que a flor, o céu e os dias
são estados de espírito, somente,

como o leste e o oeste, o norte e o sul.
Como a razão por que não renuncias
ao privilégio de ser bela e azul.

2 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO DE TODOS OS CORNOS – Bocage

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Cornissimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes córnos tem reinado.

Sicheu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c′roa;
Amphitrião com toda a sua proa
Na Fabula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

30 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

INCERTEZA – Maria Braga Horta

Sou feliz e não sou!… ando indecisa,
sem saber, sobre o amor que sinto agora,
se traz consigo o ideal que se eterniza
ou a ilusão que nos sonhos se evapora.

Sei que o amor nunca traz como divisa
a certeza de sempre ou de uma hora
e esta dúvida eterna intranqüiliza
quem pelo amor eterno anseia e chora.

Sou feliz e não sou!… Nunca falamos:
ele passa e me fita, eu fito-o e passo,
e os lábios mudos, trêmulos, cerramos…

Ah! para ser feliz, preciso ter
os seus lábios nos meus e um longo abraço
que me afague e me prenda… até morrer!

Manhumirim, 4-Jul-1931

28 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

DEBAIXO DO TAMARINDO – Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

27 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO DA FIDELIDADE – Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

24 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO DE NATAL – Machado de Assis

Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

23 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SE TU VIESSES VER-ME… – Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca…o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte…os teus abraços…
Os teus beijos…a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

21 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

A TARDE – Anna Lima

A Nestor Lima

Nadando em risos, desbrochando em flores
Lá vem a tarde pelo azul sidereo…
Vem, como sempre, cheia de mysterio,
E como sempre cheia de explendores.

Traz aos vergeis os candidos olores
Que se exalam, talvez, do seio aereo…
Leva minh’alma pelo azul sidereo,
Faz-me esquecer o desconforto e as dores

Uns decantam a hora do sol posto,
Outros a aurora esplendida e formosa.
Alguns as noites limpidas de Agosto!

Mas eu, n’um canto que só diz saudades.
Amo as scismas da tarde supirosa,
Adoro a estrella pallida das tardes!

Natal – 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

19 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

DE ALMA EM ALMA – Cruz e Souza

Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando.

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!

16 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

ETERNA MÁGOA – Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo; o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

14 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

VELHO TEMA I – Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

12 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

FLOR DO CÉO – Anna Lima

A Carlota Leitão

Guarda esta flor; não deixes que a miseria
Vá nas azas do vento se entregar.
Ou como as folhas seccas vá rolar
Nas regiões sombrias da materia.

Tal como a doce cavatina etherea
Do passarinho ao matinal raiar,
Assim nos falta, nos convida a amar
Esta mimosa flor branca e siderea.

Ella é tão pura como as calmas noites,
Mais aromosa que os subtis açoutes…
Das auras mansas no vergel em flor…

Guarda-a em tu’alma com recato e enleio
E não te esqueças que ella tem no seio:
Perfumes, sonhos, innocencia, amor.

Dezembro de 1898

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

9 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

TUA BOCA – Maria Braga Horta

Tua boca é para mim carmínea taça
em cujas bordas sorvo, trago a trago,
o divino hidromel com que embriago
o meu sonho de amor feito em fumaça!

Tua boca é um rubro cálice sem jaça
em que meus lábios, trêmulos, afago
na incontida volúpia em que divago:
– Vivamos nosso amor… que a vida passa!

Tua boca é a minha síntese vital,
em que fica suspenso o meu ideal,
em que eu prendo minha alma semilouca!

Tua boca é um sol ardente, em chama e em brasas:
sol de equador, que queima as minhas asas,
as asas de rubis da minha boca!

Manhumirim, 31-8-1936

7 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

AS MONTANHAS – Augusto dos Anjos

I

Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!

Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!

Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,

Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!

II

Agora, oh! deslumbrada alma, perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográficos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

5 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SEMPRE A TI – Anna Lima

A’ Julia Wanderley

Si acordo às vezes quando vem o dia
Despertando festivo a natureza,
Sempre é teu nome cheio de pureza
Que o meu labio primeiro balbucia.

Si à noite, como um anjo de belleza,
Traz-me o luar um raio de alegria.
Para a minh’alma presa á nostalgia,
Para a minh’alma immersa na tristeza…

Sei que é teu coração que etherisou-se,
Que n’um beijo de luz reanimou-se
Para dourar as trevas de meu canto!

Escuta a prece d’esse amor, tristonha…
Sonha minh’alma o que tu alma sonha,
– Branca visão de constellado manto!

Natal – 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

2 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

HÁ UM POETA EM MIM QUE DEUS ME DISSE… – Fernando Pessoa

Há um poeta em mim que Deus me disse…
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efêmera e espectral ledice…

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos…
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse…

Florir do dia a capitéis de Luz…
Violinos do silêncio enternecidos…
Tédio onde o só ter tédio nos seduz…

Minha alma beija o quadro que pintou…
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e vôo…

30 novembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO 108 – Luis de Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a nao querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

28 novembro 2016 A HORA DA POESIA

MAL SECRETO – Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

25 novembro 2016 A HORA DA POESIA

SER POETA – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

23 novembro 2016 A HORA DA POESIA

O ÚLTIMO NÚMERO – Augusto dos Anjos

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A Idéia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o Último Número cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Incriado:

Bradei: – Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “E tarde, amigo!

Pois que a minha antogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”

21 novembro 2016 A HORA DA POESIA

CONTRASTE – Padre Antonio Tomás

Quando partimos no verdor dos anos
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás!

14 novembro 2016 A HORA DA POESIA

NISE – Manuel Bocage

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

13 novembro 2016 A HORA DA POESIA

FANATISMO – Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!”

12 novembro 2016 A HORA DA POESIA

SEPARAÇÃO – Anna Lima

Por uma lei fatal que rege os fados
D’esta nossa existencia desditosa,
Dos sonhos n’alvorada graciosa
Meu doce amor, vivemos separados!

Estes dias crueis e amargurados
Como a noite mais negra e dolorosa,
Eu levo a recordar, triste e saudosa,
Teus olhares tão meigos e adorados.

Cheia de maguas, sem prazer ou calma,
Vivo guardando desolada, em pranto,
Teu nome escripto nos recessos d’alma!

E quando ao longe vae morrendo a tarde
Oh! meu saudoso e delicado encanto,
O coração me estála de saudade.

Natal – Junho – 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

11 novembro 2016 A HORA DA POESIA

O VERBO NO INFINITO – Vinicius de Moraes

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito…

10 novembro 2016 A HORA DA POESIA

O LUPANAR – Augusto dos Anjos

Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetaírismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

9 novembro 2016 A HORA DA POESIA

AH, UM SONETO – Álvaro de Campos

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas – esta é boa! – era do coração
que eu falava… e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?…

8 novembro 2016 A HORA DA POESIA

IDEALISMO – Augusto dos Anjos

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaira,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
– Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

7 novembro 2016 A HORA DA POESIA

A BORBOLÊTA – Anna Lima

Quando a travessa aragem matutina
Ia as aguas do lago despertando,
Ella as azas tão louras agitando
Ia beija a rosa purpurina.

Quer no prado ou vergel, quer na campina
Sempre em adejos profugos voando,
Eu a vi quando vinha desabrochando
A flor de luz, a aurora adamantina.

Era pequena e tão mimosa e leve…
– Parecia-me um sonho côr de neve…
Ou a illusão gentil de algum poeta!

Sempre nas tardes frescas, rumorosas,
Eu prendia umas scismas amorosas
N’aza subtil daquella borbolêta.

Janeiro de 1898

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

6 novembro 2016 A HORA DA POESIA

VOLÚPIA IMORTAL – Augusto dos Anjos

Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!

Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!

Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descarnados,
Em convulsivas contorções sensuais,

Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!

5 novembro 2016 A HORA DA POESIA

COM TEU GESTO PINTADO E EXAGERADO – Álvaro de Campos

Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir

Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (…) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.

Porque a análise é a vera perversão…
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação…

Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada… Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro … (Abre a tua boca!)

4 novembro 2016 A HORA DA POESIA

AMOR É UM ARDER QUE SE NÃO SENTE – Abade de Jazente

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.


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