15 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

PRIMAVERA – Augusto dos Anjos

Primavera gentil dos meus amores,
Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul, dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!

13 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

ENCANTAMENTO – Abgar Renault

Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida…
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra…

12 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

MADONA DA TRISTEZA – Cruz e Souza

Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e lágrimas estrela
O meu ser comovido e penitente.

Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza.

Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!

8 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

ECOS DA ALMA – Augusto dos Anjos

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,
Sombra perdida lá do meu Passado,
Vinde entornar a clâmide puríssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noites tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplendor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares.

Mas quando vibrar a última balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça

Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via-Látea da Ilusão que passa!

6 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO DA HORA FINAL – Vinicius de Moraes

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

3 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

CINZAS – Heitor Lima

A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira…
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.

O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira…
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!

Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso…
Ah! pensamento presumido e curto…

E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
– Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.

1 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

RETRATAR A TRISTEZA – Marquesa de Alorna

Retratar a tristeza em vão procura
quem na vida um só pesar não sente,
porque sempre vestígios de contente
hão de surgir por baixo da pintura;

porém eu, infeliz, que a desventura
o mínimo prazer me não consente,
em dizendo o que sinto, a mim somente
parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
dos pesares o mais cruel pesar,
sinto do que perdi tristes lembranças;

condenam-se a chorar, e a não chorar,
sinto a perda total das esperanças,
e sinto-me morrer sem acabar.

1 fevereiro 2017 A HORA DA POESIA

HORAS RUBRAS – Florbela Espanca

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas …

Oiço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
e sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

30 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

CONFISSÃO – Manuel Bandeira

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora…
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura…
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora…

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo…

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim… tão linda e rara…
Que hesito, balbucio e me acobardo.

28 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

DE VIAGEM – Paula Nei

Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!

Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.

Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbena.

Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.


25 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

DOLOR – Anna Lima

A’ Beatriz Moura

Tu, minha flor, que és cheia de ternura
E de bondade e de carinho e graça,
Que da vida na triste noite escura
E’s a estrella formosa que perpassa;

Ouve o dorido canto de amargura
Que que ensinou o anjo da desgraça,
No dia em que baixou a sepultura
Aquelle que por nós velando passa.

E’s para mim o cofre abençoado,
Onde eu vejo jazendo em doce enleio
Os sonhos do porvir e do passado…

Qual a rosa de amor que és dos meus dias,
– Deixa cahir na urna de teu seio
Todas as minhas maguas e alegrias.

Natal – 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

23 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

CANÇÃO – Cecília Meireles

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.

21 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

OS MILHÕES DE ÁUREOS LUSTRES CORUSCANTES – Manuel Maria Barbosa du Bocage

Os milhões de áureos lustres coruscantes
Que estão da azul abóbada pendendo;
O Sol e a que ilumina o trono horrendo
Dessa que amima os ávidos amantes;

As vastíssimas ondas arrogantes,
Serras de espuma contra os céus erguendo,
A leda fonte humilde o chão lambendo,
Loirejando as searas flutuantes;

O vil mosquito, a próvida formiga,
A rama chocalheira, o tronco mudo,
Tudo que há Deus a confessar me obriga.

E para crer num braço, autor de tudo,
Que recompensa os bons, que os maus castiga,
Não só da fé, mas da razão me ajudo.

20 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

CABELOS COR DE PRATA – Rogaciano Leite

Meus cabelos cor-de-prata
são beijos de serenata
que a lua mandou pra mim.
Os meus cabelos grisalhos
são pingos brancos de orvalho
num tinteiro de nanquim.
Estes meus cabelos brancos
que hoje são da cor dos bancos
solitários de um jardim,
já sentiram muitos dedos
e ouviram muitos segredos
que elas contavam pra mim.

Se hoje, estão desbotados
é porque foram beijados
com muito amor e emoção
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
estão da cor do algodão.
Eu fiz tanta serenata
que a lua, desfeita em prata,
mandou mil beijos pra mim.
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
ficaram brancos… assim!

* * *

18 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO DA AMADA – Romeu Jobim

Na minha fantasia incoercível,
imaginei-te um anjo de bondade,
o próprio sonho, a estrela inatingível,
a imagem mesma da felicidade.

Reprimindo, no entanto, o irreprimível,
não procurei falar-te, é bem verdade.
Como tentar alguém o inacessível,
que é sonho, converter em realidade?

Mas o destino quis que eu te encontrasse
e de começo logo constatasse
que excedes tudo quanto imaginei.

Verifiquei, Amada, que não eras
miragem tão-somente, que superas
a própria encarnação do que sonhei.

16 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

A SOLIDÃO E SUA PORTA – Carlos Pena Filho

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

13 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

INVENÇÃO – Nilto Maciel

De tanto não te ver, aflito o peito,
desesperado, resolvi inventar-te.
Hoje duvido se eras desse jeito
e se de fato és, no todo ou em parte.

De tanto não te ver, nunca te ver,
ou por sumires tão furtivamente,
ou minha sorte bem mesquinha ser,
achei por bem criar-te novamente.

Quem mais existe? Qual mais delas noto?
Talvez a que me fez seu criador,
talvez a que me fez versejador.

Não sei a quem amor eu mais devoto:
se a ti que foges – minha inspiração,
se a ti que chegas – minha criação.

11 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

TUAS MÃOS – Maria Braga Horta

Trazes, com o teu abraço, a carícia do arminho
com que tua mão lirial me perturba os sentidos
como a asa de um cisne a tocar, de mansinho,
a cítara do amor que me freme aos ouvidos…

Tuas mãos, sinto-as em mim: são dois vasos partidos
a entornar, no meu corpo, um rubro e estranho vinho
que me queima e embriaga e em surtos incontidos
faz-me vibrar no ardor do teu doce carinho…

Tuas mãos têm tal sabor quando as colho num beijo!
e não sei que atração se, ao levá-las ao seio,
sinto a alma vibrar em mais rápido arpejo…

Tuas mãos são dois faróis me salvando de escolhos!
Mãos que me fazem rir no mais vívido anseio
e que, quando eu morrer, irão fechar-me os olhos…

9 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

AO PARTIR – Anna Lima

A’ Antonia Tinôco

Fizeste bem, deixando-me no seio
Cahir medrosa a lagrima sentida!
Eu comprehendo as maguas da partida,
Pois tenho n’alma a chaga d’esse enleio.

Mas não esqueças que no negro anceio
D’alma que parte triste e dolorida
Sempre a esperança candida e querida
Abre-se em flor, expande-se em gorgeio.

Não chores tanto que o chorar desfeia
Teus lindo olhos cheios de fullgores,
Teu coração que a medo devaneia…

Adeus… confia no futuro que ha de
Trazer-te a flor mais bella dos amores,
Murchar, emfim, a rosa da saudade!

Natal – 1899

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

7 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

RECEBI – Judas Isgorogota

Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,

A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;

E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,

Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.

4 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO – Carlos Pena Filho

Por seres bela e azul é que te oferto
a serena lembrança desta tarde:
tudo em torno de mim vestiu um ar de
quem não te tem mas te deseja perto.

O verão que fugiu para o deserto
onde, indolente e sem motivos, arde,
deixou-nos este leve e vago e incerto
silêncio que se espalha pela tarde,

Por seres bela e azul e improcedente
é que sabes que a flor, o céu e os dias
são estados de espírito, somente,

como o leste e o oeste, o norte e o sul.
Como a razão por que não renuncias
ao privilégio de ser bela e azul.

2 janeiro 2017 A HORA DA POESIA

SONETO DE TODOS OS CORNOS – Bocage

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Cornissimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes córnos tem reinado.

Sicheu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c′roa;
Amphitrião com toda a sua proa
Na Fabula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

30 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

INCERTEZA – Maria Braga Horta

Sou feliz e não sou!… ando indecisa,
sem saber, sobre o amor que sinto agora,
se traz consigo o ideal que se eterniza
ou a ilusão que nos sonhos se evapora.

Sei que o amor nunca traz como divisa
a certeza de sempre ou de uma hora
e esta dúvida eterna intranqüiliza
quem pelo amor eterno anseia e chora.

Sou feliz e não sou!… Nunca falamos:
ele passa e me fita, eu fito-o e passo,
e os lábios mudos, trêmulos, cerramos…

Ah! para ser feliz, preciso ter
os seus lábios nos meus e um longo abraço
que me afague e me prenda… até morrer!

Manhumirim, 4-Jul-1931

28 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

DEBAIXO DO TAMARINDO – Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

27 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO DA FIDELIDADE – Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

24 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO DE NATAL – Machado de Assis

Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

23 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SE TU VIESSES VER-ME… – Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca…o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte…os teus abraços…
Os teus beijos…a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

21 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

A TARDE – Anna Lima

A Nestor Lima

Nadando em risos, desbrochando em flores
Lá vem a tarde pelo azul sidereo…
Vem, como sempre, cheia de mysterio,
E como sempre cheia de explendores.

Traz aos vergeis os candidos olores
Que se exalam, talvez, do seio aereo…
Leva minh’alma pelo azul sidereo,
Faz-me esquecer o desconforto e as dores

Uns decantam a hora do sol posto,
Outros a aurora esplendida e formosa.
Alguns as noites limpidas de Agosto!

Mas eu, n’um canto que só diz saudades.
Amo as scismas da tarde supirosa,
Adoro a estrella pallida das tardes!

Natal – 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

19 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

DE ALMA EM ALMA – Cruz e Souza

Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando.

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!

16 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

ETERNA MÁGOA – Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo; o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

14 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

VELHO TEMA I – Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

12 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

FLOR DO CÉO – Anna Lima

A Carlota Leitão

Guarda esta flor; não deixes que a miseria
Vá nas azas do vento se entregar.
Ou como as folhas seccas vá rolar
Nas regiões sombrias da materia.

Tal como a doce cavatina etherea
Do passarinho ao matinal raiar,
Assim nos falta, nos convida a amar
Esta mimosa flor branca e siderea.

Ella é tão pura como as calmas noites,
Mais aromosa que os subtis açoutes…
Das auras mansas no vergel em flor…

Guarda-a em tu’alma com recato e enleio
E não te esqueças que ella tem no seio:
Perfumes, sonhos, innocencia, amor.

Dezembro de 1898

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

9 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

TUA BOCA – Maria Braga Horta

Tua boca é para mim carmínea taça
em cujas bordas sorvo, trago a trago,
o divino hidromel com que embriago
o meu sonho de amor feito em fumaça!

Tua boca é um rubro cálice sem jaça
em que meus lábios, trêmulos, afago
na incontida volúpia em que divago:
– Vivamos nosso amor… que a vida passa!

Tua boca é a minha síntese vital,
em que fica suspenso o meu ideal,
em que eu prendo minha alma semilouca!

Tua boca é um sol ardente, em chama e em brasas:
sol de equador, que queima as minhas asas,
as asas de rubis da minha boca!

Manhumirim, 31-8-1936

7 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

AS MONTANHAS – Augusto dos Anjos

I

Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!

Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!

Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,

Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!

II

Agora, oh! deslumbrada alma, perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográficos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

5 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

SEMPRE A TI – Anna Lima

A’ Julia Wanderley

Si acordo às vezes quando vem o dia
Despertando festivo a natureza,
Sempre é teu nome cheio de pureza
Que o meu labio primeiro balbucia.

Si à noite, como um anjo de belleza,
Traz-me o luar um raio de alegria.
Para a minh’alma presa á nostalgia,
Para a minh’alma immersa na tristeza…

Sei que é teu coração que etherisou-se,
Que n’um beijo de luz reanimou-se
Para dourar as trevas de meu canto!

Escuta a prece d’esse amor, tristonha…
Sonha minh’alma o que tu alma sonha,
– Branca visão de constellado manto!

Natal – 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

2 dezembro 2016 A HORA DA POESIA

HÁ UM POETA EM MIM QUE DEUS ME DISSE… – Fernando Pessoa

Há um poeta em mim que Deus me disse…
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efêmera e espectral ledice…

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos…
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse…

Florir do dia a capitéis de Luz…
Violinos do silêncio enternecidos…
Tédio onde o só ter tédio nos seduz…

Minha alma beija o quadro que pintou…
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e vôo…

30 novembro 2016 A HORA DA POESIA

SONETO 108 – Luis de Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a nao querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

28 novembro 2016 A HORA DA POESIA

MAL SECRETO – Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

25 novembro 2016 A HORA DA POESIA

SER POETA – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

23 novembro 2016 A HORA DA POESIA

O ÚLTIMO NÚMERO – Augusto dos Anjos

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A Idéia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o Último Número cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Incriado:

Bradei: – Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “E tarde, amigo!

Pois que a minha antogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”


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