25 maio 2017 HORA DA POESIA

SONETO DO AMOR TOTAL – Vinicius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

24 maio 2017 HORA DA POESIA

AS ESTRELLAS – Anna Lima

Hontem á tarde, ao desmaiar do dia,
As estrellas inquietas e medrosas
Procuravam nas plagas luminosas
Um’outra estrella que fugido havia,

Ellas todas choravam silenciosas,
Cheias de mêdo e cheias de agonia,
E o claro pranto das estrellas ia
Cahir no seio das nevadas rosas

Porém, mais tarde, quando a lua algente
Transpoz a curva triumphal do oriente,
– Noiva do sul, pela amplidão vagando…

Ellas viam do espaço interminavel
A meiga estrella pallida, adoravel,
Na doce luz de teu olhar brilhando.

Açù – Janeiro de 1899.

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

23 maio 2017 HORA DA POESIA

ETERNA MÁGOA – Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa magoa que o acompanha ainda!

22 maio 2017 HORA DA POESIA

DE UM LADO CANTAVA O SOL – Cecília Meireles

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim . . .

20 maio 2017 HORA DA POESIA

ESPERA – Maria Braga Horta

Tu não vens, meu amor, porque te espero
e nunca o amor, quando esperamos, vem.
Quanto mais tardas, mais e mais te quero
e, se aqui estás, eu mais te quero bem.

Espero-te e suponho que ninguém
pode reter-te aí, se aqui te espero:
és meu amor, és meu, e é meu também
teu coração, onde obedeço e impero.

Mas… tu não vens, e eu olho para a estrada
como quem olha fixamente o nada,
ouvindo as aves, só, sem compreendê-Ias…

E ainda te espero (a noite erma e deserta)
até que a vista se confunda, incerta,
na luz de vaga-lumes e de estrelas.

1931

17 maio 2017 HORA DA POESIA

VOLÚPIA – Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

13 maio 2017 HORA DA POESIA

13 DE MAIO – Dom Pedro II

No Brasil sempre brilhou o mês de Maio,
Mas só da redenção foi este o dia
Em que o meu coração já não ouvia
A voz do cativeiro em seu desmaio.

Brilhou da Divindade enfim o raio
Que há muito o Brasileiro pressentia,
E exultando em sua íntima alegria
Diz: – Firmei-me no bem, no mal não caio!

Já todos como irmãos agora unidos
Serviremos à Patria com fervor,
Para assim resgatarmos tempos idos…

E hosanas entoando ao Criador,
Vejo enfim meus esforços concluidos:
E sou de um Povo Livre o Imperador.

10 maio 2017 HORA DA POESIA

O QUE TU ÉS… – Florbela Espanca

És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera…
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!…

2 maio 2017 HORA DA POESIA

SONETO DA SEPARAÇÃO – Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

29 abril 2017 HORA DA POESIA

SONETO DAS METAMORFOSES – Carlos Pena Filho

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

25 abril 2017 HORA DA POESIA

INSCRIÇÃO – Manuel Bandeira

Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais…

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.

A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava…

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis…
Tinha os olhos azuis… Era loura e dançava…
Seu destino foi curto e bom… – Não a choreis.

23 abril 2017 HORA DA POESIA

A IDÉIA – Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

21 abril 2017 HORA DA POESIA

SONETO – Carlos Pena Filho

Por trás do musgo silencioso e espesso,
que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço,

Sei apenas que às vezes, quando teço
canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei por que sombras,
exilado para além do meu fim e meu começo.

Esse teu mundo, concha que é morada
de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.

E é por isso talvez que não se entrega
e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega.

18 abril 2017 HORA DA POESIA

A’S AMIGAS DO CORAÇÃO – Anna Lima

Quando através das plagas infinitas
Surgem bellas manhãs esplendorosas,
Ellas mandam-me rosas e mais rosas,
Brancas, rubras, olentes e bonitas.

Minh’alma, então, beijando essas bemditas
Lembranças das amigas carinhosas,
Esquece as tristes maguas dolorosas
De umas saudades tremulas e afflictas.

Como é grato da vida nos encolhos,
Quando a sorte nos fere impiedosa
E um mar de pranto nos alaga os olhos…

Ter-se amigas sinceras e queridas,
Em cujo seio e em cada flor mimosa
As nossas crenças vivem repartidas.

Natal – Março de 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

15 abril 2017 HORA DA POESIA

ZELOS – Maria Braga Horta

Cansei-me de enviar beijos e amor e abraços
nas cartas que te escrevo… e reclamas! Agora,
nem sei por quê, desfiz a última em pedaços
e atirei tanto sonho e ideal janela em fora!

Cansei-me de escrever tanto sonho! Nos laços
com que nos prende o amor, nosso amor me apavora
se eu tenho de escrever: “Aperta-me em teus braços”
e os teus braços estão distantes nessa hora.

Não me conformo em ver rolar de mão em mão
como um sonho que alguém poderá surpreender
nossas cartas de amor que traduzem paixão…

Deste amor que é só teu, só tu terás ensejo
de ler no meu olhar quanto te amo, e colher
no cristal de tua boca o néctar do meu beijo!

13 abril 2017 HORA DA POESIA

AS TRÊS IRMÃS DO POETA – Castro Alves

É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão três pálidas virgens silenciosas
Através da procela irrequieta.
Vão três pálidas virgens… vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias…

– Na fronte cismadora do Poeta -.

– “Saúde, irmão, eu sou a Indiferença.
Sou eu quem te sepulta a idéia imensa,
Quem no teu nome a escuridão projeta…
Fui eu que te vesti do meu sudário…
Que vais fazer tão triste e solitário?…”

– “Eu lutarei!” – responde-lhe o Poeta.

– “Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome…
O teu mísero pão, mísero atleta!
Hoje, amanhã, depois… depois (qu’importa?)
Virei sempre sentar-me à tua porta…”

– “Eu sofrerei!” – responde-lhe o Poeta.

– “Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hino augusto e forte.
Marquei-te a fronte, mísero profeta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cântico gelar-se no meu seio?”

– “Eu cantarei no céu” – diz o Poeta!

11 abril 2017 HORA DA POESIA

AQUI MORAVA UM REI – Ariano Suassuna

Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

8 abril 2017 HORA DA POESIA

AH! OS RELÓGIOS – Mário Quintana

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…

6 abril 2017 HORA DA POESIA

HIMENEU – Vinicius de Moraes

Na cama, onde a aurora deixa
Seu mais suave palor
Dorme ninando uma gueixa
A dona do meu amor.

De pijama aberto, flui
Um seio redondo e escuro
Que como, lasso, possui
O segredo de ser puro.

E de uma colcha, uma coxa
Morena, na sombra frouxa
Irrompe, em repouso morno

Enquanto eu, desperto, a vê-la
Mesmo sendo o homem dela
Me morro de dor-de-corno.

4 abril 2017 HORA DA POESIA

TÂNTALO – Maria Braga Horta

Não seria maior, nem mais forte o castigo,
fosse o crime de morte ou pecado de amor!
Mas o néctar do céu, que trouxeste contigo,
trouxe o fogo do inferno a teu mundo interior.

Foi cruel o suplício, e cruel o inimigo
ao negar-te, da água, a doçura, o frescor;
ao negar-te um só pomo, ao negar-te um abrigo,
e te expondo ao olhar um país de esplendor.

Por teu crime sofreste e foi grande a tortura!
(Era o néctar tão doce, a ambrosia tão pura!
Se não fossem de Zeus, tentariam a Zeus!)

Não amaste, porém, e não foste obrigado
a partir triste e só, e deixar o ente amado
sem um beijo de amor, sem um gesto de adeus…

Lajinha, 2-2-1956

31 março 2017 HORA DA POESIA

MARINHA – Carlos Pena Filho

Tu nasceste no mundo do sargaço
da gestação de búzios, nas areias.
Correm águas do mar em tuas veias,
dormem peixes de prata em teu regaço.

Descobri tua origem, teu espaço,
pelas canções marinhas que semeias.
Por isso as tuas mãos são tão alheias,
Por isso teu olhar é triste e baço.

Mas teu segredo é meu, ó, não me digas
onde é tua pousada, onde é teu porto,
e onde moram sereias tão amigas.

Quem te ouvir, ficará sem teu conforto
pois não entenderá essas cantigas
que trouxeste do fundo do mar morto.

30 março 2017 HORA DA POESIA

NO ALBUM DE MARIA – Anna Lima

Quero lembrar-te os sonhos do passado,
Voltar da puberdade aos roseos dias…
E tu, oh! flor das minhas alegrias,
Recorda as crenças desse tempo amado.

No teu olhar dulcissimo e maguado
Passam as sombra das melancholias
Que tinhas n’alma, e que tu não sentias,
Branco lyrio de amor, immaculado!

Perdôa, si minh’alma ousar se atreve
A relembrar-te agora, entre sorrisos,
Os sonhos de tu’alma côr de neve…

Foi em Maio… nas tardes amorosas…
Teu labio ingenuo se expandia em risos,
Teu coração desabrochava em rosas.

Agosto de 1900

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

28 março 2017 HORA DA POESIA

CRIANÇAS – Rodrigues de Abreu

Somos duas crianças! E bem poucas
no mundo há como nós: pois, minto e mentes
se te falo e me falas; e bem crentes
somos de nos magoar, abrindo as bocas…

Mas eu bem sinto, em teu olhar, as loucas
afeições, que me tens e também sentes,
em meu olhar, as proporções ingentes
do meu amor, que, em teu falar, há poucas!

Praza aos céus que isto sempre assim perdure:
que a voz engane no que o olhar revela;
que jures não amar, que eu também jure…

Mas que sempre, ao fitarmo-nos, ó bela,
penses: “Como ele mente” – e que eu murmure:
“quanta mentira têm os lábios dela!”

21 março 2017 HORA DA POESIA

OS VERSOS QUE TE FIZ – Florbela Espanca

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder …
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda …
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei …
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

18 março 2017 HORA DA POESIA

REMORSO – Olavo Bilac

Às vezes, uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

16 março 2017 HORA DA POESIA

AI! SE SÊSSE… – Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!

Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?

Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?

E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…

Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

14 março 2017 HORA DA POESIA

O NAVIO NEGREIRO – Castro Alves

Castro_Alves

No data de hoje, 14 de março, no ano de 1847, nascia em Muritiba, Bahia, Antônio Frederico de Castro Alves. Encantou-se em julho de 1871, com apenas 24 anos de idade

* * *

(Tragédia no mar)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar – dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo – o mar em cima – o firmamento…
E no mar e no céu – a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra – é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar – doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês – marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês – predestinado –
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

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14 março 2017 HORA DA POESIA

CONTRASTE – Anna Lima

A’ Virginia Wanderley

As nossas almas de alegrias ungidas
E ungidas de suave encantamento,
Iam passando a vida sem tormento
E sem maguas ou lagrimas doridas.

As minha rimas pallidas, sentidas,
Tinham teu caridoso acolhimento…
Como era bello o nosso firmamento!
E como eram ditosas nossas vidas!

E tudo transformou a desventura
Que de pungir-me a alma não se cansa!
E és sempre a mesma alegre creatura…

Somos hoje um contraste em realidade:
– Tú és a meiga e candida esperança,
Eu sou a triste e perennal saudade!

Natal, 14 de julho de 1901

* * *

Nota da Editoria:

Anna Lima é avó materna da colunista fubânica Violante Pimentel. O poema acima está no livro Verbenas – Versos (1898-1901) e foi aqui transcrito com a mesma ortografia de quando foi publicada a 1ª edição em 1901.

6 março 2017 HORA DA POESIA

AS POMBAS – Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

22 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

HORAS MORTAS – Alberto de Oliveira

Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel – rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

15 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

PRIMAVERA – Augusto dos Anjos

Primavera gentil dos meus amores,
Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul, dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!

13 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

ENCANTAMENTO – Abgar Renault

Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida…
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra…

12 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

MADONA DA TRISTEZA – Cruz e Souza

Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e lágrimas estrela
O meu ser comovido e penitente.

Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza.

Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!

8 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

ECOS DA ALMA – Augusto dos Anjos

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,
Sombra perdida lá do meu Passado,
Vinde entornar a clâmide puríssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noites tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplendor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares.

Mas quando vibrar a última balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça

Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via-Látea da Ilusão que passa!

6 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

SONETO DA HORA FINAL – Vinicius de Moraes

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

3 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

CINZAS – Heitor Lima

A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira…
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.

O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira…
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!

Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso…
Ah! pensamento presumido e curto…

E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
– Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.

1 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

RETRATAR A TRISTEZA – Marquesa de Alorna

Retratar a tristeza em vão procura
quem na vida um só pesar não sente,
porque sempre vestígios de contente
hão de surgir por baixo da pintura;

porém eu, infeliz, que a desventura
o mínimo prazer me não consente,
em dizendo o que sinto, a mim somente
parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
dos pesares o mais cruel pesar,
sinto do que perdi tristes lembranças;

condenam-se a chorar, e a não chorar,
sinto a perda total das esperanças,
e sinto-me morrer sem acabar.

1 fevereiro 2017 HORA DA POESIA

HORAS RUBRAS – Florbela Espanca

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas …

Oiço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
e sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

30 janeiro 2017 HORA DA POESIA

CONFISSÃO – Manuel Bandeira

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora…
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura…
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora…

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo…

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim… tão linda e rara…
Que hesito, balbucio e me acobardo.

28 janeiro 2017 HORA DA POESIA

DE VIAGEM – Paula Nei

Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!

Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.

Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbena.

Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.



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