OLLANTA O MALA

Decerto afeito a lençóis de algodão egípcio, Ollanta o Mala, aliás Humala, ex-presidente do Peru, e sua esposa, Nadine Heresia, aliás Heredia, experimentaram a primeira noite dormida na prisão, decerto sem a maciez a que estavam afeitos. O motivo, prosaico entre nós, lavagem do dinheiro recebido da onipresente Odebrecht para a campanha eleitoral.

A dormida aconteceu em cela existente no Palácio da Justiça, mas em caráter provisório, já que o ilustre casal brevemente será transferido para centros prisionais separados. Em vez dos afagos matrimoniais, o Mala, aliás Humala terá como companheiro de cela o seu talvez desafeto-mor, o também ex-presidente Alberto Fujimori, alvo de sua rebelião em 2000 quando militar. Como ficará o relacionamento entre duas pessoas que, obrigatoriamente, juntas viverão anos?

Alberto Fujimori, que cumpre pena por corrupção e crimes contra a humanidade e dedica seu tempo à jardinagem poderá ter longas conversas com o Mala, aliás Humala, e descobrir o que terá dado errado na estratégia desses dois mestres da locupletação.

No Peru, nos últimos vinte e cinco anos, cinco presidentes se envolveram em escândalos de corrupção e olhe que não estamos falando de um enorme e rico país saqueado incansavelmente, desde que a esquadra cabralina avistou o monte Pascoal.

O atual presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, diz que aquela nação adotou medidas drásticas e rápidas, impedindo que os acusados

O Mala, aliás Humala cumpre confinado o seu primeiro castigo, enquanto em um rico e gigantesco país vizinho o senhor Luiz da Silva, autointitulado a alma viva mais honesta do Brasil, se dedica a blasonar e fazer sua campanha eleitoral.

Ollanta e Lula, dois malas sulamericanos

REGOZIJAI-VOS, SENHORES LARÁPIOS

É simplesmente estarrecedor! Segundo o jornalista Gilberto Prado, quase todos os 513 deputados federais do Brasil, estariam sendo investigados. Quer mais? Dos 39 ainda ministros, 4 também estariam sob investigação. Não para aí. Dos 81 senadores, 78 estariam monitorados. E para complementar números tão imorais, há 2 ex-presidentes investigados e, o que é ainda mais dramático, um presidente, em pleno exercício de suas funções, acusado de corrupção pelo procurador-geral da República!

Curiosamente, neste instante o efetivo da Polícia Federal dedicado à Operação Lava- Jato sofre uma rigorosa redução, o que, para os procuradores daquela Operação é um retrocesso, já que prejudica as investigações e dificulta o prosseguimento do trabalho com o mesmo padrão de eficiência verificado até agora.

Só como exemplo, dizem os procuradores que são milhares de documentos carecentes de análise e que assim permanecerão por longo tempo, a clamar que o fim do grupo exclusivo da Lava-Jato não contribuirá para priorizar ainda mais as investigações. Dizem mais, que a ausência de exclusividade na Lava Jato prejudica a especialização do conhecimento e da atividade, o desenvolvimento de uma visão do todo, a descoberta de interconexões entre as centenas de investigados e os resultados, o que parece evidente. Para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, basta de hipocrisia. Não há mais espaço pra a apatia. Ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe, servil e impotente contra aqueles contra aqueles que deveriam nos representar com lealdade.

Enquanto isso, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, sapientíssimo, declara que a Operação Lava-Jato é uma ameaça à democracia, na medida que está desfazendo a classe política.

Não, ministro. Suas palavras estão ultrajando a verdade. Não é a Operação Lava-Jato que está desfazendo a classe política, mas própria classe política. Quer um exemplo?

Voltemos ao começo desta conversa: são quase 513 deputados, 4 ministros,79 senadores, 2 ex-presidentes investigados e, para finalizar estatísticas tão vergonhosas, o presidente da República é acusado de corrupção.

Com números tão gritantes, dá para acreditar que são, mesmo, os procuradores da Lava-Jato as ameaças a democracia?

UMA GUERRA SINGULAR

Os que têm olhares cúpidos para a Amazônia revelam preocupação com o propósito brasileiro de ampliar a exportação de dendê. Para os sábios do jornal inglês The Guardian, a floresta amazônica corre grande perigo ante o nosso possível protagonismo na exportação do fruto.

Esclareça-se, desde já, que o uso do dendê não se atém às fronteiras amazônicas nem aos limites culinários do acarajé e conexos. Ele é importante na produção de sabão, vela, graxas, lubrificantes, nas indústrias siderúrgica, farmacêutica e cosmética, colaborando, neste caso, para deixar as mulheres ainda mais bonitas, o que é por si um bem para o meio ambiente. O problema é que a terra apropriada para o cultivo do dendezeiro está exatamente na Amazônia, uma região que, segundo os poderosos, pertence à humanidade e não exclusivamente do Brasil.

Aí, a questão do dendê traz à lembrança uma história correlata.

Nos primeiros anos do século 20, a superpotência do mundo era a Inglaterra. As disputas, no entanto, cresciam, e a Alemanha buscava a hegemonia marítima, além de querer, a qualquer custo, uma redistribuição das colônias da África. Acendeu-se, então, o estopim da Primeira Guerra Mundial.

Sim, mas o que têm a ver a Primeira Guerra e o dendê? ─ você pode estar perguntando, com razão.

É que naquela quadra da história mundial, ao partir para a guerra os oficiais ingleses avaliavam que sob o calor da África Oriental iriam derreter que nem sorvete, valendo à conflagração o apelido de A guerra do sorvete. Aqui, sem guerra e sem violência, lembra-se aos povos cobiçosos que o calor amazônico também é grande e azeite de dendê, em excesso, causa idas sucessivas ao banheiro.

Neste caso, teremos uma guerra escatológica e não – desculpe a forma tão direta – e não a guerra do sorvete, mas a guerra do tolete.

A PÁTRIA

Olavo Bilac, com intromissões deste colunista

O poeta Olavo Bilac, um dos mais significativos representantes do Parnasianismo brasileiro, tem A Pátria como um os seus poemas mais aplaudidos.

Nele, o autor fala de um Brasil de outros tempos, e não destes em que vivemos, razão por que, como meros instrumentos de atualização, introduzimos adaptações em alguns versos, mais condizentes com este país vilipendiado em que vivemos.

Ama, com fé, embora sem motivo para orgulho, este Brasil em que nasceste!
Criança, não verás nenhum país como este!
Aqui verás que céu! que mar! que rios! que floresta!
E um grupo de gente desonesta a surrupiar a Pátria!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
E a sociedade boquiaberta diante de tanto desalinho
É um seio de mãe a sangrar pela ausência de carinho.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
E uma quadrilha de brasileiros desonestos
Vê que grande extensão de matas, onde imperava
Fecunda e luminosa, a primavera!
E hoje não é mais que uma quimera
É só uma terra que nega tudo a quem trabalha
Mesmo o pão que mata a fome e o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a umedece,
Sem ver pago o seu esforço, sem ser feliz, enquanto o ladrão enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Não imita a mesquinhez da terra em que nasceste!

DODGE EM LUGAR DE TRATOR

Justiça seja feita. Nos últimos anos o Ministério Público Federal tem se mostrado operoso, sem temer os ricos e poderosos. Sob o comando de Rodrigo Janot, porém, há que se reconhecer, mais do que antes intensificou-se de forma destemida o combate à corrupção. Chegou ao ponto de arrostar o presidente da República, isto em um regime presidencialista, especialmente no presidencialismo brasileiro que, como se sabe, é imperial. Amparado na lei, contudo, à qual estamos todos submetidos, ele acusou o presidente Michel Temer ao Supremo Tribunal Federal, por corrupção passiva.

No próximo setembro, quando terminará seu mandato, Rodrigo Janot será substituído por Raquel Dodge. O nome lembra carros confortáveis, mas a julgar pelas palavras da nomeada, não se deve esperar tratamento ameno da parte dela, assegurando um “compromisso de integral e plena continuidade do trabalho contra a corrupção da Lava-Jato, Greenfield, Zelotes e todos os demais processos em curso, sem recuar nem titubear”

Atual subprocuradora-geral, Raquel Dodge será a primeira mulher a comandar o Ministério Público Federal. Espera-se que a mudança seja para melhor, e que contribua para pôr o Brasil no caminho da decência e da igualdade de direitos e deveres. 

O BRASILEIRO MISTERIOSO QUE SUPEROU O HERÓI FRANCÊS

Pierre Cambronne, último dos generais de Napoleão, foi tão importante que tem o nome inscrito, com destaque, no Arco do Triunfo. Era tão ligado ao imperador, que o acompanhou no exílio na ilha de Elba e com ele retornou ao continente para, em março de 1815, reiniciar a quadra final da glória bonapartista.

Ferido na decisiva batalha de Waterloo, que sepultaria a glória da lenda napoleônica, com o exército francês despedaçado e seriamente ferido, Cambronne teria sido instado a render-se ao general inglês Charleslville, a quem teria respondido que a Guarda francesa morreria, mas não se renderia. Ante a insistência do inglês, então, o e, em teria aconselhado, altaneiro, a ir à merda, “à la merde!”, no original.

Recentemente um brasileiro anônimo fez mais do que o general francês. Mostrou que a história pode se repetir não necessariamente como farsa ou como tragédia. Não se limitou a verbalizar la merde, mandou-a para o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, em um protesto sobretudo pacífico, embora repugnante. Em vez de enviar uma carta-bomba, como fazem em muitas partes do mundo, optou por remeter uma carta-merde… Ao que se comenta, outros deputados também teriam recebido o excrementício regalo, talvez inaugurando uma nova forma de protesto, mas nada disseram. Não revelaram a cor da tinta – se é que se pode dizer assim – mas a mensagem foi clara.

De pronto, o presidente determinou que a polícia legislativa encontre o verdadeiro culpado, e após os primeiros passos já foram identificados um remetente falso e o conteúdo do envelope. Aconselha-se, porém, que os investigadores se preparem para enfrentar muito trabalho, já que, diante dos atos desonestos, dos escândalos que se perpetuam e se ampliam no tempo, envolvendo, invariavelmente, políticos, sobretudo os legisladores, o culpado pode ser qualquer um dos quase duzentos milhões de brasileiros que trabalham e pagam os escorchantes impostos a que são submetidos.

Presidente, a medida cabível neste caso é comprar muito papel higiênico para assear o Congresso Nacional. Mãos a la merde, pois.

DEUS NÃO É BRASILEIRO

Uma antiga piada um tanto sem graça conta a história de uma reunião convocada pelos principais líderes do mundo, presente, além deles, os líderes, ninguém menos que Deus. Isto mesmo. Deus. Pessoalmente. O motivo para tal encontro teria que ser, mesmo, muito relevante. E era. Os líderes mundiais buscavam saber por que o Brasil não era flagelado por terremotos, tornados, ciclones, tsunamis e outros desastres do gênero, enquanto eles eram tão atingidos.

Provavelmente achando ser pouco a renitente seca nordestina, Donald Trump, o impetuoso presidente dos Estados Unidos, ameaçou não mais permitir a entrada de católicos em território norte-americano enquanto o problema não estivesse sanado, o que lhe valeu um cutucão de Theresa May, a primeira-ministra inglesa, lembrando-lhe que a máquina de guerra estado-unidense de nada vale contra a vontade divina.

Sabe o que Ele fez?

Reuniu o grupo e sintonizou, um a um, os telejornais. Em todos, praticamente a totalidade do tempo de duração do programa era ocupado pela ladroagem, pelo estelionato eleitoral, pelas práticas desonestas que, em suas várias faces, todas perversas, destroem a autoestima do país.

Na sala só se ouvia um silêncio consternado, só interrompido, enfim, pela voz do Criador: Vocês viram por que não dei terremotos, não dei tsunamis, não dei essas tragédias naturais ao Brasil? Quando viram os telejornais vocês prestaram atenção ao povo que botei lá?

Triste Brasil. Neste país que a cada biênio promove uma eleição, esse mesmo povo vai reeleger todos os políticos que só pensam em seus interesses e pouco estão ligando para quem os elegeu.

Você está acabando de ler uma historieta, apenas isso, mas tratando-se do Brasil, ela é verdadeira, como as urnas têm demonstrado tempo afora.

A propósito, você viu como Michel Temer se saiu bem no Tribunal Superior Eleitoral?

O SILÊNCIO DO CANTOR

Expedito Baracho (1935-2017)

Desde sábado passado, a vida recifense está fora de compasso. Pior ainda, emudeceu. Calou-se a voz do seresteiro Expedito Baracho, talvez o último exemplar de uma privilegiada estirpe que caminha para a extinção.

Somente registrar o falecimento de Expedito Baracho, como se tratasse de um cantor de serenatas qualquer, é pouco. Muito pouco. Quem saiu de cena no último sábado foi simplesmente um dos maiores seresteiros do Brasil, o dono de uma voz aveludada que não feria os ouvidos nas notas agudas e não tornava as palavras ininteligíveis nas notas graves.

A pergunta é inevitável: quem, como ele, haverá de ter interpretado as canções de Capiba, especialmente aquelas que celebravam o amor, a paixão?

Quem, como ele, pois, terá cantado a Valsa Verde ou Maria Betânia?

Quem, como ele, terá impregnado de sentimentos Restos de Saudades ou de A uma Dama Transitória, esta composta em parceria com Ariano Suassuna? Será que Expedito Baracho cantava não com as cordas vocais, mas com o coração? Que a ciência perdoe a hipótese, mas é possível, sim, porque quando ele cantava as palavras pareciam vir do fundo do peito.

Com seu timbre refinado, Expedito Baracho cantou o amor, seja pelas pessoas, como em Maria Betânia ou Rosa Amarela, seja pelas cidades, como em Recife Cidade Lendária, Olinda Cidade Eterna e Igarassu Cidade do Passado.

Nascido no Rio Grande do Norte, em 1935, ainda criança veio para Pernambuco e aqui aprendeu a tocar violão. Participou de programas de calouros, foi vocalista da Jazz Band Acadêmica, foi para São Paulo – onde se tornou amigo do grande Sílvio Caldas – profissionalizou-se, conviveu com o reconhecimento do excepcional cantor que foi.

Resta inscrever no nosso calendário sentimental o 27 de maio como um dia de tristeza para os que ficamos sem o seu talento, mas pleno de enlevo para os anjos.

Aqui para nós, quando Expedito Baracho pegar o violão e começar a cantar, nunca mais os anjos quererão saber das harpas.

* * *

Expedito Baracho canta Maria Betânia, da autoria de Capiba

O QUE HÁ NA UNANIMIDADE?

Há algo no ar além das aves e dos aviões. E é preocupante. Como é sabido, em recente votação do fim do discricionário foro privilegiado, os 75 senadores presentes o aprovaram por unanimidade. Por unanimidade, pasme, no Senado Federal, palco, em outros tempos, de tantas discussões acaloradas!

E por que essa aprovação tão pacífica é preocupante? A resposta é simples. Quando pessoas de anseios tão díspares (não há por que falar da abstração chamada filosofia do partido) aprovam com tão inusitada velocidade a supressão de algo que os faz ainda mais diferentes de um cidadão comum, há de estar embutida uma regalia maior, o que redunda em um mal ainda mais acentuado para o Brasil. Neste caso do foro privilegiado, por exemplo, o mal é claro. Diferentemente do foro comum, que dá lugar a procrastinações até a questão ser submetida ao STF ou prescrever, no foro privilegiado são reduzidas as possibilidades de apelações. Pense, então: se os poderosos conseguem algumas protelações até nas instâncias superiores, o que acontecerá na justiça comum?

Volte-se, porém à questão da unanimidade.

Conta-se que o deputado baiano Luís Eduardo Magalhães, então presidente da Câmara, havia marcado uma reunião com alguns companheiros de ideário e, ao chegar ao local com um pequeno atraso, já encontrara todos os convocados em animada conversa. Em tom de blague, então, perguntou: ─ Vocês já conspiraram muito contra o Brasil?, a que um dos presentes retorquiu: ─ Não, ainda não. Estávamos à sua espera.

Claro que a história acima é mera brincadeira, mas é verdadeiro que a unanimidade assusta, principalmente se se pensar que setenta senadores de partidos tão putativamente antagônicos quanto PSDB e PT, optaram pela extinção do foro privilegiado. E como não se trata de uma boutade do deputado Luís Eduardo Magalhães, é imperativo orar e vigiar, como sugeriu o senador Randolfe Rodrigues, relator da matéria. Afinal, até Renan Calheiros votou assim.

UMA OBRA FEITA DE ARTE E DE DOR

Na última quarta-feira, 26 de abril de 2017, oitenta anos de um massacre haverão passado. As pessoas já não são as mesmas, as dores já foram mitigadas, o fato triste já desapareceu na bruma do tempo. A arte, no entanto, continua presente.

Aquele 26 de abril de 1937, uma segunda-feira, não seria um dia qualquer. As ruas de Guernica estavam apinhadas de gente, inclusive moradores de povoados vizinhos, quando, de repente, 24 bombardeiros da Luftwaffe, a força aérea alemã, abriram as portas do inferno, despejando sobre os indefesos civis bombas e mais bombas. O castigo durou das 16h30 às 19h45.

Como seria previsível, a hecatombe aconteceu, colocando diante do mundo uma visão catastrófica. Deixaria também a manifestação talentosa de um gênio da pintura chamado Pablo Picasso.

O quadro, Guernica, que revela as consequências da guerra sobre o povo, é uma das mais famosas pinturas do artista espanhol e uma das mais comentadas em todo o mundo. É o retrato daquele 26 de abril – o dia em que a cidade foi praticamente destruída – e uma veemente censura à devastação causada pelos nazistas em conluio com o então ditador espanhol Francisco Franco.

Com o seu caudaloso talento, Picasso mostrou em preto e branco as cores da agressão. Com o cavalo e o touro, mostrou dois dos mais importantes aspectos da cultura espanhola, e as fortes imagens foram-se sucedendo: um homem mutilado, uma mãe pranteando o filho morto nos seus braços, uma mulher em desespero vendo sua casa arder em chamas, uma mulher com a perna ferida tentando fugir daquele inferno, uma mulher portando um lampião… Por fim, com uma espada quebrada ele representou a derrota do povo, alquebrado frente à esmagadora vitória dos seus opositores, enquanto os edifícios em chamas indicaram a destruição não só de Guernica, mas da pátria, sofrida pela Guerra Civil.

A história daquela felonia foi gravada em uma tela medindo cerca de 8 por 4 metros, espaço considerado de grandes proporções para a pintura, no entanto minúsculo ante a grandeza da obra que contém.

A Guernica, talvez o mais famoso dos trabalhos do artista, traz tudo isso e, principalmente, traz a indignação do autor. Tanta, diga-se, que, certa feita, durante uma exposição de sua obra em Paris, um graduado militar alemão acercou-se de Picasso e lhe perguntou: “Foi o senhor que fez?”

“Não. Foram os senhores”, respondeu-lhe o artista secamente.

COMO SERIA HOJE, DIÓGENES?

Sua história desafia os séculos, caro Diógenes. Vem de um tempo em que você vagava pelas ruas da Grécia na mais completa miséria. Penúria tanta, aliás, que você chegou a ser vendido como escravo. Diz-se até que por não ter casa para morar você vivia em um barril. De seu, apenas um alforje, um bastão e uma tigela. Muito pouco, não é mesmo? Pois saiba que transcorridos tantos séculos, muitos brasileiros continuam a não ter nada, nem ao menos o direito a comer todos os dias.

Mas voltemos a você. Das histórias que cercam a sua vida, ilustre Diógenes, a mais conhecida é aquela em que você, em plena luz do dia, acendia uma lamparina e procurava pelas ruas homens honestos.

Outra história também marcante, é aquela de que certo dia você foi visto pedindo esmola a uma estátua, e ao lhe perguntarem o porquê de tal conduta, você teria dado uma explicação lapidar: “Por dois motivos: primeiro é que ela é cega e não me vê, e segundo é que eu me acostumo a não receber algo de alguém e nem depender de alguém.”

Quatro séculos antes de Cristo, Diógenes, você já lutava contra a mediocridade, a desonestidade, mas o mundo do seu tempo era outro. Vivesse você nos dias atuais, sua lamparina queimaria por completo sem que você encontrasse o tão procurado homem honesto. Pelo menos é o que se pode pensar ao voltar a atenção para Brasília.

A propósito, você viu a lista do ministro Edson Fachin? Tem de tudo! Tem até presidente da República! Presente e passado!

Pensando bem, Diógenes, os ladravazes deveriam ter-se espelhado no seu exemplo da estátua. Ao pedir propina, seriam ignorados por ela – já que estátua não vê nem ouve – e, assim, talvez eles se acostumassem a não receber algo de alguém, principalmente o ilícito.

No mínimo, não estariam às voltas com os rigores da lei!

REFLEXÕES SOBRE AS SURUBAS E UM SENADOR

Suruba é o termo mais atual do vocabulário político brasileiro. É chulo, verdade seja dita, pelo que não destoa do âmbito em que se sugere fique circunscrito. É termo profundamente familiar a dez entre dez frequentadores das chamadas casas de tolerância.

Não suponha, porém que, apesar do nome, ali se tolera tudo. O “xexo”, por exemplo, indicativo de quem usa os serviços da prostituta e não os remunera na forma previamente combinada, é imperdoável. No meio legislativo seria falta de decoro, aquiesça-se. Quase sempre culmina em pancadaria, da qual o “xexeiro” sai com, no mínimo, hematomas. E se for suruba, que ocupa quase toda a mão de obra (mão?) da casa alegre, pior.

A palavra suruba foi recentemente incorporada ao vocabulário político brasileiro por iniciativa do senador Romero Jucá, atônito ante a possibilidade de perder o foro privilegiado. A compostura já foi perdida quando ele usou sexo grupal como metáfora do foro privilegiado, instituto que justo ou não, integra a legislação do país.

De qualquer forma, a frase senatorial é antológica: “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.

Suruba para todos? Não existe, senador. A esmagadora maioria brasileira não tem foro privilegiado. Aliás, não tem nenhum privilégio. Essas prerrogativas são regalias de um grupo que se apoderou do Brasil, fazendo dele um motel em que organiza as surubas de acordo com os seus caprichos. À maioria, só resta cantar com os Mamonas Assassinas; “…mas o que raio de suruba, já me passaram e mão na bun…, e ainda não co… ninguém”.

Enquanto não dermos importância ao voto, cantaremos, melhor dizendo, choraremos sempre assim. Na mesma toada.

ALMAS GÊMEAS

São enormes as diferenças físicas, entretanto as coincidências anímicas são tão grandes, que encorajam supor que, nos seus treze anos à frente do Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva haja lançado um modelo de governança. De Donald Trump, contudo, não se pode dizer, haja ele enganado alguém. Ele disse claramente a que viria e como faria.

Em comício de agosto de 2016, por exemplo, um homem se encontrava ao lado do então candidato. Era Nigel Faraje, o homem que – assim ele disse – teria estado por trás do Brexit. E vieram as palavras empolgadas e empolgantes, mesmo se vazias, embaladas nas promessas de independência, decência, enfrentamento dos bancos e da mídia liberal, além do establishment político. Apesar de todos os insultos, bramiu, a vitória lhe pertenceria. E pertenceu.

Isso lembra alguém? Não? Então, avivemos a sua memória.

O candidato era tão prodigioso, que descobriu a existência de pessoas irreais nos Estados Unidos, subtraindo da Inglaterra a condição de país com a mais numerosa população de fantasmas ou “mimando as minorias e desprezando as pessoas reais”.

Agora, era só o que faltava, uma nova manifestação do lulismo invade a vida norte-americana: o novo presidente assevera que a herança recebida do governo Barack Obama, é um caos. Para começar, ele rateou entre o governo anterior, a mídia e os órgãos de inteligência a responsabilidade pela crise que atinge seu gabinete, mas não ficou por aí. “Para ser honesto” – disse ele -, “eu herdei um caos. É um caos. Em casa e no exterior”.

Em casa, queixou-se dos baixos salários e da migração de empregos para o exterior.

Da Imprensa reclamou a distorção de suas palavras.

Quando abordou a política externa, descreveu um cenário de acentuada instabilidade, não importando para onde se olhasse.

Até os setores da inteligência tiveram o seu quinhão. Estariam evitando passar determinadas informações ao novo governo.

Chegado o momento dos autoelogios, claro, afirmou que, graças a ele, é o que se subtende, “empresas de primeira divisão, como Ford e General Motors, ensaiam o retorno ao país”. E concluiu, vaidoso, que nunca antes na … desculpe o equívoco: “Acho que nunca houve um presidente que tenha feito o que fizemos em um período tão curto”, garantiu Luiz… aliás, Donald Trump.

O ESCORPIÃO E A TARTARUGA E A ELEIÇÃO

Conta uma fábula que em uma tarde chuvosa um escorpião estava apreensivo na margem de um rio prestes a transbordar, quando passou por ele uma tartaruga, indiferente à torrencialidade da água. Era ela a salvação! Pediu-lhe, então, que o levasse à outra margem, já que necessitava chegar a casa, mas se tentasse atravessar sozinho morreria afogado.

Eu gostaria de ajudar, escorpião, mas tenho medo que você me pique e eu morra, ponderou a tartaruga.

A resposta do escorpião foi imediata: Por que eu faria isso? Eu morreria também!

Para encurtar a história, o escorpião convenceu a tartaruga a lhe dar uma carona, e assim foi feito. O escorpião subiu no casco da tartaruga e teve início a travessia. Tudo estava indo muito bem, mas a certa altura a tartaruga sentiu uma picada.

Escorpião, por que você me picou? Agora nós dois vamos morrer.

Quase se afogando, retrucou o escorpião:

Desculpe, tartaruga, você foi solidária comigo, mas eu não pude evitar. É da minha natureza.

Semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depondo como testemunha de defesa em processo em que o senhor Luiz Inácio da Silva é réu, afirmou que nenhum presidente tem como saber de tudo que acontece na administração pública. Na referida ação, o senhor Luiz Inácio é acusado de corrupção passiva por supostamente ter recebido de uma empreiteira propina no valor de R$ 3,8 milhões.

Tal valor teria sido pago em forma de benesses, como, por exemplo, a reforma e ampliação do tríplex do Edifício Solaris, no Guarujá, e outra parte no custeio do armazenamento do acervo daquele ex-presidente, segundo o Ministério Público Federal. A outra parte do valor? Ora, teria sido ocultada.

Fernando Henrique Cardoso afirmou ainda que também buscou recursos privados para manutenção de seu acervo, e que os recursos, pequenos, se destinaram a fazer frente a diversas despesas, porque o presidente da República sai de lá, se for correto, sem dinheiro.

Ninguém foi mais fustigado por Luiz Inácio da Silva do que Fernando Henrique Cardoso. Foram 13 anos de uma censura implacável, de acrimônia e de incansáveis tentativas de desconstrução da imagem do sociólogo.

Agora, neste momento em que Luiz Inácio da Silva se vê na margem de um caudaloso Rubicão a ser atravessado, quiseram as artimanhas do destino que as palavras de Fernando Henrique Cardoso possam ajudar Luiz Inácio da Silva a atingir a outra margem. Ou no meio do caminho a tartaruga será picada?

BOLA MURCHA

É dramático o momento em que um jogador de futebol marca um gol na meta que deveria defender. Não há registro de tal momento na vida do craque Neymar Júnior, pelo menos nas quatro linhas do gramado como dizem alguns locutores esportivos, mas nas tantas linhas do cotidiano não se pode afirmar o mesmo.

Menino pobre, seu extraordinário talento no interagir com a bola conquistou aplausos do mundo inteiro, milhões de dólares no bolso e também – decerto impressionada com seus dribles – a preferência de bela atriz global, uma das mulheres mais desejadas do Brasil.

Na vida, no entanto, embora afortunado em proporções generosas é protagonista de suspeita de fraude na transferência para o Barcelona. Uma empresa denominada DIS, autora de processo judicial, argumenta que Neymar ficou com a maior parte da transação, mesmo não tendo direito a qualquer percentagem na negociação. O valor depositado em nome de uma das empresas da família foi nomeado direito de preferência, um expediente para mascarar a transação, razão por que pleiteia que o valor seja rateado entre os donos dos direitos do atleta naquele momento.

Foram 40 milhões de euros, dos quais 10 milhões foram depositados em 2012 à ordem de uma empresa aberta em nome do atleta, e os 30 milhões restantes na conta de outra empresa do jogador.

O fato é que Neymar Júnior e Neymar Sênior repudiam a tese da fraude, alegando que os 40 milhões de euros se referem a comissão e direitos de imagem. Tanto para a Justiça brasileira como para a espanhola, no entanto, tais pagamentos foram mera manobra para driblar o fisco e os então donos dos direitos econômicos, quais sejam o Santos, a DIS e a Teísa.

E o craque, o que diz? Diferentemente dos dribles desconcertantes que dá no gramado, só diz não sei, não sei, não sei, além do que, alega, assinava o que o pai – a pessoa em que ele mais confia, que tem total liberdade para fazer o que quiser com a sua (dele) vida, pedia para ele assinar. Não me recordo porque nunca me meti no contratos, nem no que se passava na minha carreira, que é o meu pai que sempre cuida de tudo da melhor forma possível. Eu faço o que ele me diz, assevera.

Então, já que o craque não interfere nos contratos, como assegurou que os 40 milhões de euros se referiam a comissão e direitos de imagem?

Gol contra!

PLANO DE SAÚDE, HAJA CORAÇÃO!

Saúde, no Brasil, conquanto um iluminado então presidente da República haja dito estar à beira da perfeição, em verdade está a cada dia mais doente. Exceto os casos, claro, dos que, nunca por conta própria mas quase às expensas do dinheiro público, contam, a tempo e a hora, com os melhores hospitais e as mais avançadas terapias.

Há anos, a assistência pública era deficiente, mas em nada comparável à atual. Foi aí que progrediu a boa assistência médica representada pelos planos. Hoje, não obstante as bravatas dos governantes, o país é um imenso INSS, mesmo para o que pagam caro pelo plano de saúde e a quase nada têm direito.

Precisa de uma consulta? Só daqui a trinta dias. É urgente? Não há problema: paga a consulta e é prontamente atendido. E ainda tem direito a reembolso, mas com um detalhe: o reembolso equivale, em média, a 10% do valor pago pelo usuário.

E o governo, o que faz? Nada, salvo vociferar. E a ANS? Vez por outra aplica punições inócuas, como suspender temporariamente a comercialização de três centenas de planos sem expressão, quando a tendência do mercado é determinada pelos grandes, ora.

Vivêssemos em um país sério, poderia ser criado um adicional sobre a contribuição previdenciária exclusivamente para a saúde, que, pelos ganhos de escala, teria como oferecer bons serviços e pagar dignamente aos médicos. Isso, é óbvio, não passa de uma ilusão, porque logo a política criaria um cabide de empregos que em pouco tempo nivelaria tudo ao INSS.

Em 2016 os planos de saúde perderam 1,37 milhão de pessoas, com maior incidência no Sudeste, onde 1,1 milhão de pessoas (79,9% do total do país) abandonaram os planos. Apenas em São Paulo, o estado mais rico da Federação, 630,3 mil beneficiários debandaram.

No também rico Sul, foram quase 100 mil beneficiários a menos, no Centro-Oeste, 43 mil e no pobre Nordeste 104 mil vínculos rompidos.

Os porta-vozes dos planos afirmam que os números negativos decorrem da macroeconomia desfavorável, por certo esquecidos de que também conta o fator desserviço.

A propósito, haja coração!

A IMIGRANTE

A partir desta sexta-feira, Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, dormirá com a incômoda sensação de haver um tertius em sua cama. Não será a beleza de Melania Trump, mas serão as promessas de campanha clamando que se querem ver realizadas.

Pela ameaça de fechar fronteiras, o mundo inteiro torce contra, mas pelo menos por uma delas, pelo menos uma das medidas anunciadas durante o período eleitoral, todos os homens sensíveis torcem fervorosamente a favor. Diga-se, a bem da verdade, que a querem ainda mais rigorosa. É aquela que trata do problema dos imigrantes ilegais. O clamor mundial é para que ela confronte não só os imigrantes ilegais, mas todos os imigrantes, legais ou não. Pode-se até fazer uma campanha “Os Estados Unidos só para os norte-americanos” mas, para começar, como justiça, para ser boa, deve começar em casa, que ele expulse do país, imediatamente, uma bela mulher chamada Melania Trump.

Ora, ela veio da Eslovênia, e não tem nenhum ancestral norte-americano, sendo, portanto, estrangeiríssima. Tem mais. Essa forasteira amputou das americanas a chance de casar com um bilionário de ideias estapafúrdias, mas mesmo assim bilionário. Não seria uma refinada estratégia de evasão de prestígio das sobrinhas do Tio Sam? E logo nos Estados Unidos, onde mulher é ficha valiosa no jogo político?

Quer saber de uma coisa? A ficha parece ter pouco peso no cacife político estadunidense, e tanto isso é plausível, que por orientação do próprio Donald Trump ela não dá entrevistas e raramente aparece, como que não querendo atrair a atenção do operoso Departamento de Imigração dos Estados Unidos.

O pior é que quando se pensa estar tudo acabado, surge mais um fato, este capaz de nos deixar de olhos arregalados. Literalmente. Ela já posou nua! Imagine você 1m80 de beleza emoldurada por cabelos louros e profundos olhos azuis, absolutamente sem roupa. Agora, só como exercício mental, imagine uma situação de conflito norte-americano com algum país. Todo o formidável aparato bélico da nação americana será subjugado sem que se dispare sequer um tiro. Bastará lançar as tais fotos sobre as tropas, e logo a beligerância dará lugar à fantasia.

Trata-se, está demonstrado, de uma mulher de alta periculosidade, diante do que o mundo inteiro roga que o presidente Donald Trump cumpra a promessa eleitoral. Não precisa, contudo, expulsar os imigrantes. Basta expulsar a imigrante. A ela, decerto não faltará apoio. Este comentarista oferece, desde já, casa, comida, roupa lavada…

Donald e Melania Trump

INSEGURA SEGURANÇA

Os jornais brasileiros deveriam ser rubros, já que das suas páginas, fieis espelhos de uma realidade terrível, jorra o sangue que faz da nossa segurança um mero verbete. De tão calamitosa, muitas vezes a verdade se torna mais risível do que trágica.

Há algumas semanas, por exemplo, quatro presidiários fugiram de uma prisão de segurança máxima em Pernambuco, inaugurada havia menos de um ano.

A fuga, por si, já é absurda, mas a maneira como ela aconteceu é absurdo maior.

Os fugitivos, pasme, fizeram um rombo na parede, valendo-se de uma estaca. Será a tal estaca portadora de tecnologia tão avançada que, como tal, não gera barulho? Como é possível que pessoas arrombem uma parede de um presídio de segurança máxima e ninguém veja nem ouça nada? Se é assim, o que dizer das outras?

Ora, se por aqui as prisões são tão vulneráveis, por que não fazer como a Indonésia, que está prestes a construir uma cadeia exemplar? Será situada em uma ilha artificial e os guardas serão absolutamente indiferentes ao diálogo e terminantemente incorruptíveis. Serão crocodilos, os mais ferozes existentes na face da Terra.

O Brasil, aliás, pode fazer melhor e nem precisa de crocodilos. Aqui temos já prontas algumas ilhas que bem poderiam ser utilizadas para tal. Poderia ser a Ilha da Trindade, com seus 2,5 km² de área emersa em meio ao Atlântico, que até água potável tem, e em abundância, brotando de diversas fontes. Somente a fonte principal possui vazão estimada de 230 mil litros por dia.

Tem mais: a ilha é o último vestígio do Brasil, perdida na vastidão do Atlântico, o nosso ponto mais distante do continente.

Bem, voltando ao assunto das fugas, já deu para notar que na Trindade os crocodilos seriam absolutamente dispensáveis. Primeiro, porque é grande a presença na área de tubarões e de um peixe chamado cangulo preto, dono de uma voracidade equivalente à da piranha.

Além do mais, o condenado tem que ser um inacreditável nadador, para enfrentar a distância até o continente. São mais de 2 mil quilômetros.

UMA QUESTÃO DE PESO

Moradoras do zoológico de Buenos Ayres há mais de vinte anos, Mara, Kuki e Pupi, devidamente representadas por uma ONG de combate aos maus-tratos aos animais constituíram advogado para litigar contra o já adiantado estágio da transformação daquele local em um ecoparque.

Não é uma Lei Maria da Penha para animais, esclareça-se, mas a verdade é que a Justiça argentina acatou a tese de que “Os animais têm direitos e estes devem ser respeitados pelo homem, e por sua vez a proteção destes direitos deve ser também representada pelo homem”, neste caso o presidente da ONG. A proposição, acrescente-se, ficou robustecida depois do caso do orangotango fêmea Sandra, cujos direitos como sujeito não humano foram acatados pela Justiça daquele país.

Por falar em orangotangos e elefantas, é estarrecedor o que vem a seguir: um orangotango fêmea de nome Pony foi encontrada deitada e perfumada em um prostíbulo em Bornéu. Pony é, pasme, mais uma vítima da escravidão sexual de animais naquela região da Indonésia.

Enquanto isso, os elefantes continuam a ser imolados, mercadorias que são do quarto negócio ilegal mais lucrativo do mundo, o de matar aqueles portentosos animais. Estima-se que cerca de 30 mil elefantes são abatidos por ano, já que aqueles corpanzis dificultariam decididamente o exercício da mais antiga das profissões. Traficar marfim só perde para o tráfico de drogas, de seres humanos e do comércio de armas, proporcionando lucros da ordem de 20 bilhões de euros anuais.

A propósito de animais, os vereadores recifenses Ricardo Cruz e Romero Albuquerque estão de parabéns. Eles propuseram o projeto Socorro Animal, a criação de uma unidade móvel de castração de animais, a ampliação do Samu-Animal e a criação de um Centro de Recuperação para Animais Socorridos.

Merecem elogios, sim, contudo se roga aos senhores vereadores que se lembrem de que os homens também são animais, embora ditos, muitas vezes equivocadamente, racionais. Aliás, se como avaliou Antônio Rogério Magri, o controverso ex-ministro do governo Fernando Collor, cachorro também é gente, a conclusão óbvia é que gente também é cachorro. Logo, aquela gente que está nos sinais – jovens, velhos, crianças e adultos – têm carências de alimentos e de abrigo, e por eles um dia serão capazes de latir, miar, rugir, barrir, bramir…

A SUPERLOTAÇÃO DE PRESÍDIOS PODE ACABAR

Os meios de comunicação se encontram, mais uma vez, encharcados de sangue. Desta, a tragédia aconteceu em uma prisão de Manaus, resultando no tenebroso saldo de 56 mortos por decapitação, esquartejamento e incineração.

Parece filme de terror mas, infelizmente, é pior. E, pior ainda, é realidade antiga. É resultado da permissividade em que apenados comandam seus negócios, obviamente ilegais, usam celulares, produzem bebidas e desfrutam outras regalias. Ademais, com as celas superlotadas, o espaço pessoal é solapado, ajudando a aumentar a tensão. Só para lembrar, espaço pessoal é aquela área ao redor do corpo que, normalmente, só permitimos que poucas pessoas ultrapassem É claro que, quando esse espaço é invadido, sem permissão, as pessoas geralmente reagem com mal-estares que logo acendem os estopins das guerras dos bandos de apenados.

Para o problema da superpopulação carcerária, porém, há remédio, sim, e ele está no Arizona, Estados Unidos, onde há cerca de 10 anos, o xerife concebeu uma prisão-acampamento. Em linhas gerais e em uma descrição simplista, a prisão-acampamento consiste em um conjunto de tendas de lona, cercadas por arame farpado e vigiada fortemente por guardas, como ocorre numa prisão normal.

Ali o regime é duro, advirta-se. Se, por um lado, o preço da refeição, que os detentos pagam, foi reduzido, proibiram-se o fumo, a circulação de revistas pornográficas dentro da prisão e a prática do halterofilismo. Em vez disso, prestam serviços à comunidade, trabalhando nos projetos municipais.

Comandada por Joe Arpaio, o rigoroso xerife daquele estado, na prisão-acampamento os detentos usam uniformes cor-de-rosa, e quando reclamam ouvem que os soldados norte-americanos no Iraque onde a temperatura atinge 120°F ─ o equivalente a 50°C, vivem em tendas iguais a eles, os presidiários, e ainda tem de usar fardamento, botinas, carregar todo o equipamento de soldado e, com todo esse esforço, não cometeram nenhum crime, ao contrário deles, e que, diante daquela constatação, calem a boca, parem de reclamar..

Agora, uma pergunta: qual é o problema de construir prisões como essa, de baixo custo, também no Brasil?

Claro que muitas vozes se alevantarão reputando as prisões-acampamentos como masmorras medievais, desumanas e outras qualificações. Será então o caso de se fazer mais uma pergunta: Qual seria a cadeia mais primitiva: a do Arizona, em que os sentenciados têm direitos, inclusive o direito elementar ao espaço íntimo, ou as cadeias brasileiras, tal qual a manauense, onde morreram 56 pessoas?

A superlotação de presídios pode acabar, sim. Basta que as autoridades queiram.

1º DE JANEIRO

Enfim, 2016 se foi. E não deixou saudade. Nem um pouco. Tampouco recordações agradáveis. Pelo contrário, deixou a lembrança amarga de dias conturbados sob todos os aspectos, sejam eles apreciados do ponto de vista da política, da economia, da moral e até da natureza, graças a El Niño – nome escolhido pelos pescadores para homenagear o Menino Jesus, já que, pela vontade dele, creem, as águas peruanas ficam repletas de peixes.

Já por estas bandas, El Niño deixa a seca impiedosa, a fome, a sede, a indiferença ao sofrimento de seres humanos sem eira nem beira e sem nenhuma importância política, econômica ou social, exceto durante as eleições.

El Niño, aqui entre nós, bem que poderia chamar-se, apropriadamente, El Diablo.

Deixe-se, no entanto, a amargura de parte. Primeiro dia do ano é, desde ontem, ao som do espoucar das rolhas de champanhe e ao sabor do néctar farto, o mundo se enche de esperança. Para o Brasil, diga-se, tão necessitado dela, já que talvez nem mais a tenha, exatamente pela carência tão agravada, o ano-novo, mais do que um congraçamento é um gerador de promessas para o ano novo.

A noite de 31 de dezembro é, pois, a noite em que se vai deixar de fumar, de beber excessivamente (embora naquela noite a ingestão seja homérica), de dormir tarde da noite, de de, de…

Há algo, porém, a ser considerado. Apenas 8% das promessas para o ano novo sobrevivem até o próximo ano-novo.

Os que fazemos A Propósito também fizemos uma promessa. A de, na modéstia de nossos meios, continuar denunciando, criticando, objurgando o que lhe pareça desleal para com os legítimos interesses da sociedade, salvo acontecimento de ordem superior.

Feliz ano novo, pois.

RENAN E RENÂNIA

Esclareça-se, desde já, que não se trata de dupla caipira, mas de reflexões à luz da história.

Corria o ano de 1936, quando em um indesculpável desrespeito a um acordo então vigente, as legiões de Hitler ocuparam a Renânia. Pelo que estabelecia o tal acordo, a Alemanha não só reconhecia a inviolabilidade das fronteiras definidas no Tratado de Versalhes, como se comprometia a não modificar o tratado pela força, recorrendo, sempre que necessário, a arbitragem internacional. Naquela quadra da história, o ditador ainda era poderoso. Muito. Subjugava o mundo.

Ontem, transcorridos oitenta anos da invasão nazista, legiões de brasileiros armados de faixas, cartazes e gritos de guerra, decidiram, patrioticamente abrir mão do conforto dominical para invadir as ruas do País e protestar veementes, contra o Renan – Calheiros – desrespeitador do pacto que o levou à senadoria.

Pacto? Sim, pacto. Uma troca de voto por um trabalho devotado ao bem do povo. Afinal, quando ainda candidatos eles prometem paz, harmonia, trabalho incansável, honestidade, defesa intransigente dos interesses do povo e outras platitudes.

Mas como entender seja de interesse do povo reduzir o poder investigatório dos procuradores do Ministério Público? Como imaginar seja de interesse do povo que desvios inferiores a R$ 8.800.000,00 confiram certa leniência para o ator do desvio? Que interesse têm para o povo, as regalias, as mordomias, os luxos, os privilégios? Como beneficia o povo a ação parlamentar a soldo de empresas, quando tal esforço deveria estar voltado para uma megaempresa de mais de 200 milhões de acionistas chamada Brasil?

Não, os interesses do povo são outros. São aqueles, exatamente eles, desfiados ao longo das campanhas. O problema é que uma vez contados os votos, as promessas são atiradas ao vento.

Hitler, naqueles dias, ainda era poderoso, e tudo o que dizia soava como verdade aos ouvidos de um povo hipnotizado pelo seu discurso.

Não se trata de estabelecer comparações, mas o senador ainda é poderoso, conquanto o seja menos do que há algum tempo. O povo, por seu turno, antes histórica e musicalmente deitado em berço esplêndido, aprendeu que sua voz, quando tonitruante, é ouvida. E temida.

Ontem, foi um dia. Só mais um dia, e a indignação popular vai crescer a cada ocaso, a cada alvorecer.

E a quem não quiser ouvir sua voz restará o lixo da história.

OS LOBOS E O FUTEBOL

Uma velha história atribuída aos índios norte-americanos se constitui, em verdade, uma inesquecível lição de vida. Segundo se conta, ao se sentir injustiçado um jovem índio passou a ter um comportamento hostil aos demais integrantes da tribo. O cacique, então, lhe ensinou que dentro das pessoas há dois lobos em disputa para lhe possuir o espírito. Um deles é mau. É tomado pelo despeito, pela raiva, pela inveja, pela arrogância. Enquanto isso, o outro lobo é manso, alegre, sereno, bom, generoso.

Qual deles vence? – teria perguntado o jovem hostil.

O que você alimentar, teria sido a resposta.

Pensando bem, o futebol parece ter dois lobos dentro de si. Um, o que tem se revelado mais forte, é feito de brutalidades. Dentro do campo, jogadas desleais, pancadaria, ofensas… e fora dele, tudo isso e mais as verdadeiras batalhas campais que são as brigas de torcidas que não raramente resultam em morte.

Ainda bem que, de vez em quando, o lobo bom prevalece.

Agora mesmo, ante a brutal tragédia que abate não só sobre o Chapecoense, mas sobre o próprio futebol, os jogadores do Atlético Nacional, o clube colombiano que disputaria a Copa Sul-Americana com o clube brasileiro, deram uma comovente demonstração de grandeza, pedindo à Conmebol que declare o Chapecoense campeão. Querem, além disso, que o prêmio pelo título seja revertido para as famílias dos que morreram no acidente aéreo na madrugada de ontem.

Mais ainda, convocou seus torcedores a comparecerem ao estádio, hoje, no horário em que a partida seria disputada, vestindo roupas brancas e carregando velas. No site oficial do clube, o Atlético Nacional afirma De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeão da Sul-Americana de 2016.

De nossa parte, e para sempre, o gesto do Atlético Colombiano jamais se apagará do nosso coração.

MACACOS ME MORDAM!

No filme O planeta dos macacos, astronautas passam séculos viajando pelo tempo e, ao sair do estado de hibernação em que se encontravam, se dão conta de que se encontram em um planeta dominado por macacos, onde os humanos são meros escravos.

Pois parece que de algum tempo para cá, os humanos têm como ir à desforra, como você verá mais adiante.

Primatas, sabe-se, fazem contas, cozinham e sabem usar ferramentas. Recente estudo feito no Piauí por pesquisadores da Universidade de Oxford, inglesa, e da Universidade de São Paulo, demonstrou que eles também constroem ferramentas, com destreza física e mental.

Não é de duvidar, pois, que nestes tempos bicudos surja alguém pensando em aproveitar o imenso contingente de mão de obra que se oferece, sem justificativa para custos de INSS, FGTS e quejandos. Aliás, correto é dizer que não se deve duvidar que ressurja. É o que você leu: ressurja.

Em verdade, a ideia não é nova, ao menos fora do Brasil. Em novembro de 1960, nos Estados Unidos, três chimpanzés se apresentaram para ocupar seus postos de trabalho na Superior Furniture Manufacturing Company, para substituir dois funcionários da empresa. Os prendados chimpanzés passaram a cumprir a jornada laboral de oito horas diárias, como os humanos. Segundo a convicção do dono da empresa, Ben Friedman, sob a supervisão de um funcionário humano eles fariam satisfatoriamente o trabalho de limpar almofadas, embalar camas e colocar os pés nas cadeiras. O intervalo para o almoço seria de uma hora, e a alimentação basicamente constituída de bananas e verduras.

Macacos, pensando bem, não fazem pausas para o cafezinho, como os funcionários comuns; não chegam para trabalhar deprimidos porque o time do coração perdeu ou de ressaca porque ele ganhou; e não fazem questão de dinheiro, satisfazendo-se plenamente com uma apetitosa penca de bananas.

Vivam então os macacos!

Pensando bem, teria sido muito bom se eles houvessem sido diretores da Petrobras. O petrolão, por exemplo, não teria acontecido, já que macacos, indiferentes que são a dinheiro, não seriam receptivos a propinas.

Você pensa, então, que neste caso o petrolão não teria existido?

Ledo engano. Os corruptores os subornariam com bananas deliciosas.

HISTÓRIA DE ONTEM, HISTÓRIA DE HOJE

Em junho de 1964, início do ciclo militar, uma frase entrou para se perpetuar na história brasileira. Foi proferida pelo político e, naquele momento, embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães. Para uns ali estava a demonstração inquestionável de que a direita brasileira era nada menos do que simples executora dos interesses norte-americanos na região.

Era, de fato, uma frase infeliz, carregada de subserviência, inaceitável como resposta de um diplomata brasileiro que, naqueles dias, assumia a mais importante embaixada do país, porém não estava reproduzida integralmente. O Brasil fez duas guerras como aliado dos Estados Unidos e nunca se arrependeu. Por isso eu digo que é o que bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, teria sido a resposta completa, embora não elimine a submissão. Até o embaixador americano no Brasil, naquela época Lincoln Gordon, evitou tecer comentários negativos, embora em particular a considerasse efetivamente infeliz.

O detalhe é que a sentença não é da autoria de Juracy Magalhães, mas de um diretor da General Motors. Corria o ano 1946, quando Charles Wilson, comentando uma atitude do respeitado Alfred Sloan, dirigente da empresa de 1923 àquele ano, que era intransigente opositor das políticas definidas pelo presidente Franklin Roosevelt. Ele acreditava firmemente na frase What was good for our country was good for General Motors – and vice versa.

Por que essas palavras tão antigas vêm à baila nestes dias em que os Estados Unidos vivem a surpreendente vitória eleitoral de Donald Trump sobre Hillary Clinton?

Responda-se com outra pergunta: como pôde Hillary Clinton, política de grande experiência, apoiada por Barak Obama, um presidente com apreciáveis índices de popularidade e, além de tudo, esposa de Bill Clinton, um dos mais aprovados presidentes da história norte-americana, perder para um incipiente?

Propõe-se, então, a releitura da frase atribuída a Juracy Magalhães: se o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, ao menos como mera paráfrase pode-se dizer que o que é ruim para o Brasil será ruim para os Estados Unidos.

A propósito: terá sido por isso que Hillary Clinton perdeu? Como os norte-americanos sabem muito bem, a experiência brasileira foi traumática.

CARÍSSIMA EX-PRESIDENTE,

Como vai a vida na planície? Embora sem as regalias do Planalto continua a ser nababesca, não é mesmo? Ou quase. Não tem avião exclusivo para flanar mundo afora quando e a que horas bem entender, mas sempre arranjará uma forma de voar à custa da sociedade. Não tem um exército de serviçais, é verdade, mas tem, aquiesça-se um batalhão. Não tem os sabujos para lhe massagear o ego, mas tem tempo para refletir sobre a efemeridade do poder. Por falar nisso, caríssima ex-presidente, como está o Bessias? Ele continua sendo o seu estafeta predileto? E o cartão corporativo, como é a vida sem ele, sabendo que no fim do mês a fatura vem em seu nome?carta

A vida na planície é dura, ex-presidente Dilma Rousseff, e a senhora pode se considerar uma mulher de sorte. Sim, de sorte, já que durante seis anos, se manteve incólume, exercendo o cargo mais importante da República. Faltava-lhe, no entanto, aquilo que os franceses chamam physique du rôle. Houvesse a senhora presidido uma grande\ empresa, não se manteria no cargo por mais de um ano. No Brasil, foi obra de muito tempo, para deixar um rastro de terra arrasada, e ainda é premiada por isso. Guarda-costas, motorista, salário mensal de quase 70 mil reais, isso sem contar com sua entourage política, que custa aos cofres públicos nada menos do que R$ 1,2 mensais.

Como se constata, caríssima ex-presidente, seu legado foi de inflação, recessão, desemprego para 22 milhões de brasileiros e todos os males que lhes são inerentes. Quanto ao que a senhora herdou, não lhe deixaram motivo para reclamar. Já quanto ao que legou…

De súbito, aflora à lembrança uma passagem na vida do poeta Antero de Quental. Expoente do romantismo, ele divergia do também poeta Antônio de Castilho, defensor intransigente do realismo. Certa feita, em um encontro indesejado por ambos, disse-lhe Antero de Quental: Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador nem respeitador.

Mudando o que deve ser mudado…

TELEFONE PARA VOCÊ

Um conselho: se você puder, não atenda. Trata-se de um daqueles telefonemas carregados de más notícias, de coisas desagradáveis. O pior é que mesmo assim, não há como fugir delas.oi

Sabe quem está seriamente doente? A Oi. Sim, ela mesma, aquela que adquiriu uma participação de 37% na Gamecorp, uma minúscula empresa pertencente a um dos talentosos filhos do senhor Luiz Inácio da Silva. Não por acaso, é o filho tido pelo pai como “o Ronaldinho dos negócios”. Foi um golaço, reconheça-se.

Mas voltando à Oi, a empresa está sufocada por uma dívida da ordem de 65 bilhões de reais, em sua maioria composta por recursos públicos. Só à Anatel, o maior credor, são 10 bilhões de reais! Para pagar, a Oi, que já declarou não possuir meios para tal, propõe fazer um programa de investimento em melhoria dos serviços, o que, trocando em miúdos, é modernizar-se à custa do dinheiro da sociedade.

Ao BNDES, a proposta é de uma moratória, começando a amortizar o débito dez anos depois.

Quanto ao Banco do Brasil e a Caixa Econômica, a oferta é a conversão do débito em papéis que três anos depois, só depois de três anos, frise-se, serão convertidos em ações da Oi, obviamente.

O que você tem a ver com isso? Quer saber, mesmo?

É que se o tal plano der certo, se for aceito pelos principais credores a Anatel e os bancos públicos deixarão de receber 12 bilhões dos 20 bilhões de que são credores.

Você ainda insiste em perguntar o que tem a ver com isso?

Vai saber. Nós. Você, eu, nossos parentes, nossos amigos e quem mais você pensar. Dos tais 20 bilhões de reais, 12 bilhões vão doer no nosso bolso.

A propósito, diante disso a Oi deveria mudar de nome. Não mais Oi, substituindo-o por Ui.

Ui Telecomunicações.

UM DESONROSO QUARTO LUGAR

É conspiração internacional para desqualificar o petismo: o Brasil foi claramente prejudicado pelo Fórum Econômico Mundial, ao ser classificado como menos corrupto do que o Chade, a Bolívia e a Venezuela. Absurdo. Entre 168 países, o Brasil ficou na 164ª posição! Em outras palavras, querem dizer que somos corruptos incompetentes?brasil-quarto-pais-mais-corrupto

Cabe protesto ou não? Veja você que o Chade é um país perdido nos confins de África, de que possivelmente você nunca ouviu falar, e pouco tem para ser apoderado. A Bolívia, por seu turno, é aquele vizinho “muito amigo” que, com a subserviente complacência do então presidente Luiz Inácio da Silva nos tomou duas refinarias de petróleo. Quanto à Venezuela, a maravilhosa Venezuela, o paraíso bolivariano onde falta tudo, chegando ao ponto de faltar papel higiênico, certamente porque o povo está comendo mais e, consequência do empanzinamento, impõe trabalho dobrado ao sistema digestivo para produzir mais e mais escatológicos hugos chavez e nicolás maduros.

Pense bem: como é possível três países como esses superarem o nosso querido Brasil, que tem sob investigação, sob processo ou na cadeia um ex-presidente da República, o presidente do Senado; um país que destituiu e cassou o mandato dos presidentes da República e da Câmara; e mais senadores, ministros, empresários, tantos que seria exaustivo enumerar.

A atuação do Fórum Econômico Mundial lembra a Copa do Mundo de 1978, da qual fomos eliminados, mas como disse o treinador Cláudio Coutinho, fomos os campeões morais.

Pensando bem, somos os campeões morais. Ou melhor, imorais.

TREINO É TREINO, JOGO É JOGO

didi

Valdir Pereira, o Didi (Out/1928 – Mai/2001)

Essa frase é atribuída a um cidadão chamado Valdir Pereira. Talvez você não o conheça pelo nome, mas talvez o conheça pelo apelido: Didi, um dos nomes de ouro do futebol brasileiro. Basta dizer que ao lado dele, na então bicampeã mundial Seleção Brasileira (1958 e 1962), jogaram craques como Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Amarildo…

Para sintetizar, Didi, dono de invulgar elegância em campo e referido pela imprensa europeia como o Senhor Futebol, o maior craque brasileiro até surgir Pelé, não costumava dar tudo de si nos treinamentos e justificava:

– Treino é treino, jogo é jogo.

Embora sem o talento e sem a legião de fãs de Didi, convém lembrar ao presidente Michel Temer que o treino – os meses de afastamento da senhora Dilma Rousseff -, acabou. Agora é jogo. Jogo duro. Duríssimo. E não basta atacar somente a economia, uma espécie de meta escancarada com o goleiro no chão. Há muito jogo a ser jogado, mas para chegar à vitória há que ter talento e determinação, enfrentando com coragem as caneladas dos adversários que, eles já prometeram, são inevitáveis.

Didi foi o inventor do chute folha seca, em que ele fazia a bola girar e deslocar a trajetória, enganando o goleiro adversário.

Sugere-se ao senhor presidente, encontrar soluções que possam insculpir o seu nome na história deste tão vilipendiado país, porque, afinal, o treino acabou. É hora de jogar, e já estamos no segundo tempo. Não vale fazer firula.

CUIDADO COM O CHORO FÁCIL

O Brasil está ansioso para conhecer o resultado do julgamento da senhora Dilma Rousseff. Alguns assessores a instruíram a chorar, enquanto seu mentor, senhor Luiz Inácio, recomendou o insulto, caso em que irá acelerar o impeachment.dch

Imaginando que se ela ainda não chorou, chorará, eis alguns excertos de um texto do poeta e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar:

O choro é uma arte. Uma obra-prima. Uma Pietà de Michelangelo (…). Mas, como toda escultura, é cheia de réplicas e falsificações.

Desde bebê aprendemos a fazer manha para ganhar as coisas.

Perdemos a autenticidade das lágrimas. A cobiça nos distanciou da verdadeira dor(…).

Desejando prevenir a população da ação dos impostores, estabeleço mandamentos para identificar e reprimir o estelionato emocional:

1 – O choro depende de soluço. É um engasgo precioso. Choro sem soluço é poço sem roldana. Trata-se de um motor respiratório para atravessar o vale de lágrimas. Numa visão gramática da tristeza, o soluço é a vírgula e o gemido é o ponto final. São pausas fundamentais que garantem o suspense: parece que o sofredor vai falar, mas ele se cala.

2 – O choro sincero é um miado. Não conseguiremos decifrar o que a pessoa disse. As palavras são completamente ilegíveis.

3 – O rosto ficará vermelho, inchado, como um ataque de abelhas-africanas.

4 – O sofredor não vai encarar o outro de modo nenhum, não se chora de cabeça levantada, isso é coisa de novela e de colírio. O choroso estará acovardado, de boca aberta, já que não consegue respirar.

5 – O choro é pontual, surge no meio do trabalho, no meio da aula, relâmpago incontrolável.

6 – Mulher nunca chora sem estar pintada. É regra básica, para borrar feio e oferecer espetáculo. Mulher chorando de cara limpa é farsa.

7 – Se você usa lenço ou papel higiênico para limpar o nariz, está mentindo: quem sofre mesmo assoa o ranho na manga da camisa, e não se importa com os botões.

8 – O choro é como orgasmo. Não admite discurso depois. Aquele que aproveita o choro para passar sermão é apenas um chantagista.

Mutatis mutandi, são conselhos rigorosamente aplicáveis ao julgamento de hoje.

ECOS SENATORIAIS

Tanto quanto seja possível fazer tal afirmação, em 1787 o Brasil já possuía -uma economia organizada e os ideais libertários eram intensos. No mesmo ano, os primeiros colonos ingleses chegavam à Austrália.

Hoje, como um doente crônico, nossa economia segue instável, não obstante os discretos sinais de melhora. Já a economia da Austrália, diferentemente da do Brasil, é considerada estável. Como o Brasil, o país é rico em minerais, tem na agricultura e no turismo polpuda receita, mas diferentemente do nosso país tem uma indústria que cresce ano a ano, agora mais acentuadamente, já que os australianos sediam filiais das grandes multinacionais para, fazendo da Austrália uma base logística, invadir os mercados da Ásia e da Oceania.

Entrementes, no Brasil, o assunto do momento é o impeachment da senhora Dilma Rousseff, presidente afastada da República. Afastada, mas apegada ao poder como craca ao casco de uma embarcação. Pior ainda, é que a discussão do afastamento, especialmente o definitivo, abandonou, há muito, os limites da racionalidade, para se transformar em uma discussão indigna do ambiente.rel

– Quem aqui tem moral para julgar Dilma? – indagou, expelindo fogo pelas narinas arrebitadas, a senadora Gleisi Hoffmann, e a resposta veio irônica, do senador Ronaldo Caiado, aludindo ao marido da senadora, Paulo Bernardo, ex-ministro do governo Luiz Inácio da Silva:

– Mas não fui eu quem roubou os aposentados….

Já o presidente da casa, senador Renan Calheiros, enraivecido com o senador Lindbergh Farias, aplicou-lhe um forte empurrão, e a ela, Gleisi Hoffmann, lembrou que usara a influência do seu cargo para evitar que ela e o marido fossem presos.

Em síntese, pelas palavras da senadora nenhum dos presentes, merecia r espeito. Nem a própria, tanto que disse não haver ali ninguém com estofo moral para julgar a senhora Dilma Rousseff.

Agora, pensemos juntos: naquele 1787, os primeiros barcos trouxeram criminosos condenados a sete anos de degredo, com a Inglaterra fazendo dali, durante muitos anos, nada mais que uma colónia penal.

Intrigante é que cumprida a sentença, os malfeitores decidiram não voltar, passando, tempos depois, a ser políticos, juízes, delegados… praticando, enfim, todos os atos inerentes a uma democracia.

Resta algo intrigante: por que os da Austrália deram certo e os nossos, não?

ENFIM, A OLIMPÍADA BRASILEIRA

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Neste 5 de agosto tem início a acalentada olimpíada brasileira. Mesmo levando em conta a renhida disputa esportiva que se avizinha, há que se considerar ser uma olimpíada acontecimento grandioso a unir os povos em torno do ideal olímpico. Sabe-se, contudo, que em verdade o importante não é competir, mas ganhar as cobiçadas medalhas.

Em uma modalidade, porém, já começaremos perdedores. Às vésperas da chegada de povos de todos os continentes, a cantora Preta Gil foi mais uma vítima do racismo camuflado que vige no país. Pergunta-se, então: o que fazer com os negros estrangeiros que aqui estarão disputando com os brancos – e inúmeras vezes vencendo – as tão cobiçadas medalhas? Aliás, as modernas olimpíadas têm demonstrado cabalmente que a cor da pele, é só uma questão de mais melanina ou de menos melanina. Nada mais.

Jesse Owens, Carl Lewis, Muhammad Ali, Adhemar Ferreira da Silva e o velocíssimo Usain Bolt têm pelo menos duas coisas em comum: todos são ganhadores de medalhas de ouro em olimpíadas, todos negros.

E daí?

Daí que na Olimpíada de 1936, em Berlim, Adolf Hitler pretendia mostrar ao mundo a supremacia da raça ariana. Arrogante, não considerava que os demais disputantes pudessem enfrentar seus semideuses louros de olhos azuis. Sequer desconfiava que Jesse Owens, um negro norte-americano, iria pôr água no chope nazista. Foi aí que aconteceu o pior. Como você sabe, Jesse Owens ganhou, simplesmente, as provas dos cem metros rasos, de salto em distância, dos duzentos metros rasos e da corrida de revezamento, em que os alemães eram francos favoritos. E como se fosse pouco, além de conquistar as medalhas, estabeleceu recordes mundiais nas provas dos duzentos metros e no salto em distância.

Nesta olimpíada muita emoção no espera, esperando, por outro lado, que a emoção não dê lugar à discriminação. Afinal o Brasil é um país de louros, negros, pardos, morenos, cafuzos, mamelucos…

Pensando bem, somos todos verde-amarelos.

BONITO, GRAFITE

GRAFITE

Raramente, o futebol apresenta partidas marcadas pela polidez. Dentro ou fora do campo. Fora, as torcidas se engalfinhando e a diversidade de desinteligências que, algumas vezes, terminam em morte. Dentro, não são raras as jogadas desleais.

Ainda bem que o futebol não é feito só dessas coisas. Há, por exemplo, uma passagem que enobrece o futebol mundial. A certa altura de uma partida, um jogador sofreu uma falta e o adversário, com fair play, pôs a bola para fora, de modo que o adversário tivesse atendimento médico. Tudo bem, isso é comum, acontece em todo o mundo, você deve, com razão, estar ponderando. Acontece que, jogador atendido, problema sanado, ocorreu a devolução da bola ao outro time, como também é comum. Só que a bola ficou fora do alcance do goleiro, resultando em gol, que não foi comemorado. Pelo contrário, a consternação foi geral.

O goleador, claramente constrangido, desculpou-se, mas havia um fato concreto: o adversário sofrera um gol por ter sido cortês. A compensação foi imediata. Não tardou nem faltou. Bola no centro do campo, reiniciada a partida nenhum jogador do outro time, do goleiro ao ponta esquerda, se mexeu, permitindo que o jogo fosse empatado. A partir daquele momento, então, a partida continuou normalmente, agora com todos disputando a bola.

Por outro lado, o futebol pernambucano deu, recentemente, um bom exemplo, quando o jogador Éverton Felipe, ao comparar seu companheiro de time Diego Souza, do Sport, com Grafite, do Santa Cruz, afirmou que o atacante santa-cruzense não tinha qualificações sequer para amarrar a chuteira esquerda do rubro-negro. Uma descortesia, não há como disfarçar, mas, ainda bem, o atingido teve grandeza. Minimizou o fato, afirmando não haver visto descaso e ainda declarou, com razão, que aquele que o diminuíra era um grande jogador.

A atitude de Grafite, é uma valiosa contribuição à paz no gramado. Feitas para dizer, as palavras, como ensinou Graciliano Ramos, disseram: “Acho que foi um momento de euforia dele. Acho até que se ele jogasse ao meu lado e Diego no Santa Cruz ele diria que Diego não amarraria a minha chuteira. Acho que ele foi apenas um pouco infeliz na comparação, mas futebol é assim mesmo. É um menino, está começando agora e desejo toda a sorte do mundo para ele.”

Gol de placa, Grafite. Parabéns!

TEMER: NÃO HÁ O QUE TEMER

Na guerra do impeachment, as batalhas se dão em todos os fronts, especialmente no da irracionalidade, como o argumento de que o Brasil seria ingovernável sob a presidência de Michel Temer. Pense bem: por que ingovernabilidade, se ele terá o apoio de dois dos mais importantes partidos brasileiros – PMDB e PSDB, sem falar do PPS e outros partidos relevantes? Ingovernável, convenha-se, está o Brasil de agora, com uma presidente vagando pelo seu palácio. Ademais, é sensato acreditar que Michel Temer, sabendo ser esta a grande oportunidade da sua (dele) vida, a estragaria, logo ele que, carente de carisma, jamais chegaria à Presidência pela vontade das urnas?

A propósito, Harry Truman, ex-presidente dos Estados Unidos de 1945 a 1953, era vice-presidente de Franklin Delano Roosevelt, falecido menos de três meses após a posse. Foi uma desolação. Não só pela morte de um presidente querido, mas pela assunção do cargo por um caipira rústico, sem estofo intelectual para conduzir o país. No entanto ele teve. Tanto que venceu as eleições seguintes, em 1948, tornando-se mais uma vez presidente, agora pela vontade soberana das urnas e não pelo desígnio da morte.

É verdade que seu período presidencial marcou-se por acontecimentos polêmicos, como o fim da II Guerra Mundial, a decisão de usar a bomba atômica contra o Japão, a fundação das Nações Unidas, o Plano Marshall de reconstrução da Europa… ou ainda pela Doutrina Truman de contenção do comunismo, pelo começo da Guerra Fria, pela criação da OTAN, pela Guerra da Coreia, mas também por um período de prosperidade.

Harry Truman foi um presidente sem grandes pretensões, mas superou as baixas expectativas dos analistas políticos, especialmente quando comparado ao antecessor. Houve momentos, sim, em que sua ação teve baixíssima avaliação, mas ele soube com trabalho e seriedade, reverter as expectativas desfavoráveis.

Agora pense nisto: se Harry Truman, que pouco estudou, fez um governo aprovado, por que Michel Temer, político experiente, constitucionalista de renome, não pode fazer?

Não é difícil, convenha-se, fazer melhor do que a presidente Dilma Rousseff. Ora, com Temer não há o que temer.

EX-MULHER É PARA SEMPRE

Nicéia Pitta, filha de modesta família do interior de São Paulo e ex-vendedora de frangos superfaturados à prefeitura paulistana, conheceu o poder ao casar-se com Celso Pitta, então futuro prefeito de São Paulo. A menina feia ascendeu ao posto de primeira-dama da maior cidade brasileira, passando a frequentar os grandes salões, a conhecer aduladores, a experimentar a lisonja, a conviver com o fausto. Vá se ver, há até de ter-se sentido bonita.

Acontece que o prefeito, homem afável, de gestos elegantes, tinha, como qualquer homem sensível, uma atração irresistível por mulheres bonitas, especialmente as louras. A feia Nicéia, prenhe de razão, não suportava aquilo. As brigas, o estremecimento conjugal e o ódio estavam a apenas um passo.

Passo dado, agora não mais em direção à felicidade, mas às varas de família, a vingativa Nicéia contou o que vira durante os anos de casamento. O ex-marido logo aprenderia que ex-mulher é para sempre. Como abertura, a acusação de que Celso Pitta corrompia os vereadores paulistanos e fazia do seu gabinete o núcleo da propina. Meu marido não conseguiu ser forte o suficiente para não se envolver na corrupção que está alojada na prefeitura. Ele sabia de tudo – disse -, assim como eu também sabia, reconheceu.

Foi o princípio do fim de uma carreira política.

Instável, autoritária, prepotente, Nicéia Pitta se fizera presa da sedução que o Poder exerce, a ele entregando-se de corpo e alma, a esta especialmente. Louca de paixão pelo status de primeira-dama, considerava ter como sua colega (sic) ninguém menos do que Hillary Clinton, a esposa do presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos.

Megalômana, após comprar uma faustosa cadeira caríssima, exigiu aos gritos que se lhe comprassem uma assemelhada a um trono, fazendo da tal cadeira uma metáfora da sua sede de poder absoluto.

Nestes dias tão conturbados, casada com o Poder e a ele fidelíssima, Dilma Rousseff luta para seu casamento ser eterno. Reclama veemente que lhe querem tomar a cadeira, talvez imaginando quanto será difícil viver sem os grandes salões, os poucos aduladores que ainda existam, o fausto, os salamaleques e, na síntese de tudo isso, o trono presidencial.

AH, SE SONHOS SE FIZESSEM REALIDADE…

Em verdade não é sonho. É a mais pura realidade, mas não aqui, neste país onde o pesadelo da corrupção continua a se repetir insistentemente. Já na Europa, diante do recente escândalo financeiro conhecido por Panama Papers, os mais destacados políticos bretões, a começar pelo primeiro-ministro David Cameron, foram absolutamente claros nas explicações, tornando públicas suas declarações de Imposto de Renda.

O ato resultou da defesa feita pelo primeiro-ministro do direito de ter conta em paraíso fiscal, salientando que organizações públicas, sindicatos e até a rede BBC as têm.

Você pode estar se perguntando o porquê de tudo isso, e o motivo é simples. Descobriu-se que o pai do primeiro-ministro tinha uma offshore, ou seja, uma empresa em paraíso fiscal, onde se paga menos impostos do que no país de origem.

Uma vez que os britânicos queriam saber se o filho David Cameron, tinha participação no tal fundo, o ministro tomou a atitude sem precedentes, divulgando o próprio Imposto de Renda, embora lembrando ao mesmo que ter uma offshore não é ilegal, desde que declarada no Imposto de Renda.

Ficou demonstrado que nos últimos seis anos ele teve, sim, participação na empresa do pai, no entanto vendera as ações e pagara todas os impostos devidos. O resultado é que os principais políticos se viram moralmente compelidos a publicar suas rendas, em meio a eles, o ministro das Finanças e o líder da oposição.

Pergunta-se: e se no Brasil algum político importante, resolvesse abrir sua declaração de imposto de renda, como ficariam as vestais paridas que pensando só em si envergonham o país?

Propõe-se, então, que os senhores parlamentares, se, de fato, são ilibados como afirmam ser, votem uma lei segundo a qual todo político – de vereador a presidente da República, passando pelos três Poderes – ao assinar o termo de posse esteja abrindo mão dos seus sigilos fiscal, bancário e telefônico.

Ora, eles não se reputam honestos? Se o são, não há motivo para medo. Medo de quê?

Na Inglaterra, como se viu, tudo foi prontamente esclarecido.

O FAX LIBANÊS

Circula na internet, clara ficção, ressalve-se, que o então presidente Luiz Inácio da Silva e a na época ministra Dilma Rousseff enviaram um fax para o governo do Líbano, pedindo uma robusta doação para o programa Fome Zero. A resposta não tardou: BL, MD, VBB, 6.2.

Não conseguindo entender nada, a ministra recorreu ao ex-presidente que, com os vastos conhecimentos que o credenciam a proferir palestras mundo afora, analisou a mensagem e logo chegou a mais uma de suas sábias conclusões: BL – Beleza, MD – Mandei depositar, VBB – Via Banco do Brasil, 62. – US$ 62.000.000,00.

Nossos heróis exultaram, mas ocorre que a tal conta não existia, ordenando-se então que ela fosse procurada em outros bancos passíveis de ser BB, como o Banco Bradesco, o Banco de Boston…

Como a busca foi infrutífera, alguém lembrou de chamar um funcionário de terceiro escalão, descendente de libaneses, que logo decifrou a enigmática mensagem BL, MD, V BB, 6. 2: Brezidente Lula, Ministra Dilmo, Vai Buda Bariu Seis Dois!

Quer saber o porquê de contar essa história?

Esta quadra da vida brasileira se apresenta tão conturbada, que o país parece estar tomado de libaneses. Para não ir longe, considere-se que às vésperas do julgamento do impeachment da presidente da República, o PRB, parte do PR e do PSD e os 44 deputados do PP, resolveram deixar o barco governamental.

A propósito, a esta altura a senhora Dilma Rousseff, hoje presidente, e o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, hoje almejando ser ministro, devem estar bradando aos quatro ventos: PQP!

PRESIDENTE VAI DEVOLVER DINHEIRO

Sabe por quê? Por haver gasto parte dos US$ 16 milhões pertencentes ao erário na reforma da sua (dele) residência privada.

Calma!

Isso nada tem a ver com a presidente Dilma Rousseff, mas com o presidente Jacob Zuma, da África do Sul. Acontece que lá existe um tal de Órgão do Protetor Público (nome algo estranho), que investiga os desvios de conduta dos servidores, inclusive presidentes, que declarou ser Jacob Zuma falho em “sustentar, defender e respeitar” a Constituição.

Por conta de haver construído um curral, um galinheiro, uma piscina, um anfiteatro e um cento de visitas, ele vai devolver, no prazo de 45 dias, US$ 680 mil, sem prejuízo das demais cominações pertinentes. Você já pensou se fosse uma cobertura tríplex de frente para o mar?

Pensando bem, a vida tem mostrado que presidentes não deveriam, nunca, adquirir ou reformar imóveis no transcorrer dos seus mandatos. O então presidente José Sarney, por exemplo, não deveria ter reformado o sítio do Pericumã e a ilha de Curupu, dois paraísos de sua propriedade, à custa da Servaz, uma empreiteira que crescia por conta das obras federais.

Para invocar um exemplo mais atual, vale lembrar que o ex-presidente Luiz Inácio da Silva não estaria às voltas com a cobertura tríplex do Guarujá, nem com o sitio de Atibaia que, decerto, lhe roubam minutos que valem ouro – aliás, os mais bem pagos minutos do planeta – quando os dedica às suas preciosas palestras mundo afora.

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A MANIÇOBA E O MANIÇOBA

Diferentemente do governo federal, que para fazer frente ao impeachment promove uma ampla liquidação de cargos e benesses – “é pra torar”, diria a propaganda de uma famosa cadeia de lojas – o governo de Pernambuco tem sido parcimonioso e, sobretudo, silencioso, além de aparentemente obedecer aos ditames da meritocracia.

Pelo menos é o que leva a pensar o caso da Secretaria da Agricultura, em que o esmero parece superlativo.

Além de atender a uma suposta indicação do senador Jarbas Vasconcelos, que confirma a discrição negando a indicação, o possível novo titular da pasta é um gênio na arte de administrar recursos modestos.

Trata-se do deputado federal Kaio Maniçoba, que para se eleger com 28.585 votos gastou somente R$ 55.635,85 – portanto menos de R$ 2 por voto!

O detalhe mais importante, porém, e você já deve ter atentado para ele, está no nome, Maniçoba, o que há de lhe conferir uma grande desenvoltura no enfrentamento dos problemas agrícolas.

Afinal, maniçoba é uma árvore genuinamente brasileira que, mesmo enfrentando o clima adverso, atinge os vinte metros de altura, e que agora sugere, pela coincidência do nome, ser Kaio Maniçoba o homem certo, no lugar certo.

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Deputado Maniçoba e o pé de maniçoba

PARIS REVOLUCIONÁRIA

Há alguns dias, a sitiada presidente Dilma Rousseff resolveu dirigir-se, ainda que de maneira oblíqua, à Justiça, ou mais especificamente ao juiz Sérgio Moro. Após os recados de praxe, lembrou que “Condenar adversários é mais que um crime, é erro”, encerrando a sua fala. Bela frase, não é? São palavras que remetem a fatos históricos.

Havia na França, como há no Brasil de hoje, um clima de alta tensão. Napoleão Bonaparte estava convicto da necessidade de uma ação que, pela envergadura, fosse dissuasória de qualquer pretensão a golpe (parece até coisa do Brasil), e foi então que Joseph Fouché, influenciado pelas sugestões de Talleyrand, seu êmulo na disputa pelo poder, mandou prender em território alemão, neutro, o duque d’Enghien, trazendo-o para a França.

De imediato, a presa foi submetida a um conselho de guerra presidido pelo conde de Hulin, uma farsa tão monumental que, tempos depois, o conde procurou justificar a sentença publicando um livreto que se tornou célebre.

Justificativa à parte, a verdade é que condenado à morte, por uma sentença concluída às quatro horas da madrugada, ele foi fuzilado meia hora depois e teve o corpo enterrado numa vala existente nas proximidades. Segundo se registra, a comissão teria recebido ordens expressas do Primeiro Cônsul, para que o duque fosse sumariamente condenado e executado de imediato.

Assim foi feito, sem mais delongas, acarretando a Bonaparte uma torrente de ódio.

Consumado o fato, autocrítico, Fouché teria pronunciado, então, a famosa frase “é mais do que um crime, é um erro”, a mesma pronunciada com pompa pela presidente, sem sequer de passagem citar o autor, como costumava fazer seu mentor.

A propósito, há quem diga que o autor foi Talleyrand, há quem diga que foi Fouché, há quem diga que foi Maquiavel… só não foi dito, até hoje, que a autoria seja da senhora Dilma Rousseff.


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