NOTÍCIAS DE BRASÍLIA

Brasília sempre foi considerada uma cidade segura, ao menos quanto aos delitos de pequena monta. Tão segura, aliás, que muita gente cansada da violência das metrópoles, almeja se mudar para lá. Isso sem se falar dos políticos de outras cidades, que estão sempre ávidos por uma cadeira no Senado ou na Câmara, um ministério ou, em última análise, um cargo comissionado qualquer. Para estes, protegidos pela couraça dos carros oficiais e da segurança armada, Brasília é Shangri-la, porém, se você é uma pessoa comum, recomenda-se mudar de ideia e não de cidade.

Segundo relata a Veja da semana passada, o aumento de assaltos e sequestros-relâmpagos tem angustiado os brasilienses, privados que estão de passear à noite pelos parques do Plano Piloto. Nos últimos dez anos — e aqui não vai nenhuma insinuação de natureza política — o crime, em todas as suas faces, ficou robustecido. Tráfico e porte de drogas triplicaram, homicídios e assaltos se multiplicaram. O craque, esse verdadeiro flagelo que tivera apreendido pela polícia, em 2007, apenas meio quilo, teve apreendidos, em 2011, 63 quilos. Enquanto isso, os sequestros-relâmpagos setuplicaram e indicam estar em pleno avanço. Basta dizer que no ano passado houve 675 casos e este ano, de janeiro a abril, já foram 300 as ocorrências.

Em outras palavras, Brasília, que só operava no atacado, como, por exemplo, o famoso mensalão, passou a abrigar também o pessoal do varejo, o que, com as devidas adaptações, remete à célebre indagação do dramaturgo Bertolt Brecht: “O que é um assalto a banco comparado à fundação de um banco?”

Por paráfrase, o que é a ação de um assaltante comparada a uma corrupção galopante?

A MORTE DO TERRORISTA

Faz um ano que ele morreu e, mesmo assim, quase todos os dias ele marca presença nos meios de comunicação de todo o planeta. É como se estivesse vivo, no entanto é mais oportuno comentar-lhe a morte.

Após longa investigação, um general paquistanês concluiu que Osama Bin Laden foi entregue aos americanos por uma de suas primeiras esposas, com ciúmes de uma rival mais jovem na casa em que viviam. Para o general, Bin Laden foi vítima de um complô da Al-Qaeda, que utilizou os ciúmes de uma de suas esposas para colocar os ianques em seu rastro.

A razão? Bin Laden começara a sofrer, em 2001, de uma deficiência mental, o que levara seu braço direito, o egípcio Ayman al-Zawahiri, à decisão de eliminá-lo.

Decisão tomada, plano traçado, a Al-Qaeda deliberou que depois de vários anos de fuga no Paquistão, ele deveria ficar escondido em Abbottabad, onde mandou construir uma quase mansão, aparentemente inexpugnável. Nela, então, Bin Laden se estabeleceu em 2005 com duas de suas esposas, Amal e Seehan, e vários de seus filhos, inclusive Khalid, fruto da relação com Seehan, e que, como os guarda-costas de seu pai, tinha mulheres e filhos. Em 2011, porém, quando chegou à casa outra esposa, Jairia, com quem ele havia se casado no fim dos anos 1980 e não via desde 2001, a harmonia se foi. Com o tempo, diga-se, iria muito mais.

A propósito, o que se diz é foi Jairia quem traiu Bin Laden. Diga-se de passagem, ela já era conhecida por seus ciúmes doentios e, ademais, era enigmática: quando perguntada sobre as razões da sua ida para Abbottabad e o que queria com Bin Laden. Invariavelmente respondia que precisava fazer uma última coisa por seu marido.

Fez. Orientou os americanos a chegar à casa, e o final foi a operação cinematográfica a que o mundo assistiu surpreso.

Dizem que ex-esposa — com as dores e rancores que a fazem denunciar falcatruas de ex-marido — é para sempre.

Esposa ciumenta, então, nem se fala…

UMA PEC PECULIAR

Fruto de uma conjunção de deputados evangélicos e católicos nasceu e já está aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, por unanimidade, registre-se, uma PEC – Proposta de Emenda à Constituição segundo a qual o Congresso poderá sustar decisões do Judiciário. Atualmente, o Legislativo só pode mudar decisões do Executivo, prerrogativa raramente utilizada e mais das vezes usada como moeda de troca nas liberações de verbas para as bases eleitorais dos parlamentares mais influentes.

Segundo o texto — que traz à mente a Constituição de 1937, a mal-afamada “polaca”, do Estado Novo, que conferia a Getúlio Vargas a onipotência —, compete ao Congresso sustar “atos normativos dos outros poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites da delegação legislativa”, podendo, até, anular decisões do Supremo Tribunal Federal com repercussão geral e também súmulas vinculantes. Arrazoa o cândido autor do projeto, o deputado Nazareno Fonteles, do PT piauiense, que o Poder Judiciário, que não é eleito pelo povo, não pode legislar, como, segundo afirma, ocorre com frequência.

Diz mais o deputado, que é necessário fortalecer o Legislativo, provavelmente esquecido de que sem mensalões, sem subornos, sem transações espúrias que são descobertas todos os dias, aquele poder estaria fortalecido pela conduta, pela integridade, pela honradez. Mas, indaga-se, como é possível isso acontecer com as pilantragens que se veem todos os dias?

Em síntese, mesmo diante de tão depreciativas referências pretende o projeto tornar o Legislativo o mais forte dos poderes, algo filosoficamente correto, mas como é possível aceitar a ideia quando se tem um Legislativo assim?

Fazendo eco aos queixumes dos articuladores da PEC, o deputado João Campos, do PSDB goiano, coordenador da bancada evangélica, ressabiado pelo posicionamento do STF ante as questões da união estável de homossexuais e do aborto de anencéfalos, rosna ser imprescindível pôr um fim no que denomina “governo de juízes”.

Talvez deseje um governo de aiatolás.

O FURADOR DE FILAS

O site Acidez Mental diz, com razão, que se existe um povo oportunista é o povo brasileiro, traço que aflora quando se está no final de uma fila. Como se verá, são muitos os truques dos espertos para passar na frente dos tolos que tiveram o cuidado de chegar mais cedo.

O mais tradicional dos golpes é aquele em que o pilantra mira todos da fila e escolhe o de aparência mais cansada e distraída. Então, para ao seu lado e, quando a fila anda, ele se adianta rapidamente, incluindo-se na frente da vítima com uma triunfante cara cínica.

Já no truque do amigo, o calhorda tenta reconhecer alguém da fila e, encontrando, acena de longe, esperando um sorriso receptivo. Acontecendo, o esperto se aproxima, começa a conversar, e quando a fila anda, ele, disfarçando, fica à frente do suposto amigo e ali permanece.

No golpe do atendimento prioritário o delinquente conta uma história triste a quem está prestes a chegar à caixa, e não tendo sucesso oferece propina, dizendo-lhe para ficar com o troco. Considerando-se o que recebem os aposentados brasileiros, sempre há quem aceite.

A guarda de lugar não é vista como golpe, mas proporciona vantagens ao autor. O oportunista chega apressado, toca no ombro da pessoa à frente, e avisa que está ali. Em seguida, pede-lhe para guardar o lugar, sai, faz outras coisas, e após algum tempo procura a vítima — decerto já bem perto da caixa — e avisa que voltou.

Também tem o golpe direto no caixa. Nele, o patife chega à caixa e simula um pedido de informação. Fica ao lado da pessoa que está sendo atendida, e avisa ao próximo da fila que vai apenas pedir uma informação. Quando chega a sua vez, já que está ali resolve todos os seus problemas e sai aliviado por não haver ficado na fila, como os idiotas…

Revoltante, não é mesmo?

A propósito, a coluna Cláudio Humberto de hoje relata que o senhor Luiz Inácio da Silva, todos os dias, encontra no Hospital Sírio-Libanês quase os mesmos pacientes que estão em tratamento anticâncer ou, como ele, tratamento fonoaudiológico. Pois todos os dias, como apologia da desfeita, garantido por seguranças ele fura a fila do elevador, pisoteando o direito dos que chegaram mais cedo. Que nome dar a esse golpe?

USAR OU POSSUIR?

Como cenário, uma cidade do sertão pernambucano. A festa é animada. Alguns homens observam um grupo de mulheres e, como sempre acontece nessas ocasiões, logo surgem os comentários sobre os seus detalhes anatômicos. Em meio às tantas opiniões, um dos homens, com seu sotaque característico, sentencia que mulhé, pra usar, é bom, mas para pissuir dá muito trabalho (sic). E se vale de Paul McCartney para comprovar a veracidade das suas palavras. Comprovar não com música, mas com experiência vivida. Pelo artista, entenda-se.

Lembra, então, que ao se divorciar de Heather Mills após cinco anos de casamento, Paul McCartney pagou à ex-mulher nada menos do que polpudos 49 milhões de dólares. E vai adiante, propondo que se acompanhe este cálculo: presumindo-se que o casal tenha feito sexo todas as noites desses cinco anos, o que é exponencialmente improvável, cada noite terá custado a Paul McCartney absurdos 16.780 dólares, mais ainda se considerado que Heather Mills não é bonita, possui rugas, e provavelmente reclamava de tudo. Enfim, fazia essas coisas próprias do cotidiano a dois.

Por outro lado, dava como exemplo Kristen, a prostituta que foi flagrada com Elliot Spitzer, ex-governador de New York, que cobra 4.000 dólares por noite, o que se pode considerar um valor absurdo do mercado do sexo, embora represente muito menos do que o custo de Heather Millls. Além do que Kristen é linda, tem somente 22 anos, seios empinados, não alega estar com dor de cabeça, faz tudo que lhe é pedido, não se queixa, não reclama, está sempre cheirosa e arrumada, e, convém lembrar, por praticamente um quarto do custo de Heather Mills.  Isto sem encargos adicionais ou obrigações legais como a partilha de bens.

Em síntese, se Paul McCartney tivesse contratado os serviços de Kristen durante cinco anos, pagaria um total de 7,3 milhões de dólares para ter sexo todas as noites, o que diante daquele corpo esplendoroso seria talvez possível, e como benefício adicional ainda economizaria 41,7 milhões de dólares.

Claro que diferentemente do corpo de Kristen, o raciocínio do sertanejo é deformado, mas, voltando-se ao parágrafo inicial, a pergunta é irreprimível: é melhor usar ou pissuir?

O MARKETING DE UMA GAROTA DE PROGRAMA

Em 2009, uma ex-profissional do sexo lançou, com sucesso, o livro O Diário de Marise — sua história de militante do orgasmo —, passando a palestrar sobre marketing em empresas e escolas, ao custo de 3 a 5 mil reais por sessão. Passou a ganhar falando muito mais do que os tempos em que nada dizia e apenas gemia. Para ela, o que aprendera noite adentro valera para ganhar dinheiro vida afora.

Da prática à teoria, sentenciou que vender sexo é uma prestação de serviço, e que o corpo de uma mulher não deixa de ser um produto, ela própria, aliás, um belo produto. Os meios para conquistar clientes são os mesmos, enfatizou, como experiente praticante de marketing. Revelou, então, que após análise do mercado decidiu buscar um segmento mais exigente, disposto a pagar mais, e enquanto a concorrência cobrava R$ 50,00, ela, uma ruiva atraente, um produto premium, digamos, prestava seus serviços a R$ 250,00. A concorrência visava à quantidade, ao passo que ela, trabalhando menos, ganhava mais.

Assim, os negócios caminharam tão bem que ela resolveu diversificar a linha de atuação, e como uma espécie de Fernando Pessoa da lubricidade, criou heterônimos que logo se posicionaram no mercado. Ora era especialista em apreciadores de acessórios, ora dedicava mais tempo a clientes e lhe servia bebidas, e assim por diante. Eram várias segmentações, que lhe proporcionaram um confortável market share.

Mesmo diante de tanto sucesso, ressalte-se, o cuidado com os clientes acontecia não só na hora da efetiva prestação do serviço, mas também antes e depois. Após a terceira contratação, por exemplo, o cliente tinha 20% de desconto na contratação seguinte. Ademais, no final do mês a garota sabia o que lhe proporcionava maior lucro e, assim, direcionava o investimento em propaganda, em que aplicava 10% do faturamento. Seu sucesso atestava ser a comunicação o caminho mais curto para conquistar clientes e posicionar sua marca.

Agora, longe das atividades profissionais de alcova, a garota de programa que dá nome a uma linha de roupas íntimas femininas pontifica: “O marketing é aquilo que dá base para a empresa crescer”.
Pena que muitas empresas ainda ignoram essa verdade.

DOIS DEMÓSTENES

Demóstenes foi um político grego que viveu antes de Cristo. Demóstenes (Torres) é um político brasileiro.

A oratória do primeiro exprimiu um olhar sobre a política grega. A oratória do segundo, também voltada para a política, lançou contundências sobre os desmandos do poder desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu as rédeas da nação.

Demóstenes, o grego, aos sete anos de idade perdeu o pai e teve sua herança roubada por seus tutores. Demóstenes, o senador, tem, no nono ano de sua senadoria e quinquagésimo primeiro de vida, sua atualidade feita de dissabores.

Demóstenes, o grego, processou os que o roubaram e recuperou muitos dos bens que lhe pertenciam. Demóstenes, o senador, enfrenta um momento bem difícil, em que terá de recuperar sua respeitabilidade ou dela abrir mão de uma vez.

Demóstenes, tartamudo, venceu a gagueira e com voz firme se tornou o maior orador da Grécia, conclamando os cidadãos a unir forças contra a Macedônia antes que fosse demasiadamente tarde. Demóstenes, o senador, parecia lutar com voz firme contra a corrupção, mas, pilhado em relações pecaminosas, não consegue se explicar de forma convincente.

Demóstenes, o grego, tal qual o Demóstenes, o senador, viu decair tanto sua reputação quanto a influência. O grego chegou mesmo a ser condenado por ter se deixado subornar por um ministro de Alexandre Magno. Foi preso, mas fugiu de Atenas por longo um longo período. Demóstenes, o senador, foi flagrado em relações espúrias com o contraventor Carlos Cachoeira, titular de uma torrente de acusações, e tenta fugir dos dissabores.

Demóstenes, o grego, após o autoexílio voltou a Atenas e se aliou aos revoltosos contra Antípatro, mas, conjurada a rebelião, fugiu para o templo de Poseidon na ilha grega de Calauria. Ali, percebendo-se cercado pelos soldados de Antípatro, suicidou-se tomando veneno.

Como paráfrase de Demóstenes, o grego, Demóstenes, o senador, envenenado pela sedução das facilidades do mandato, terá cometido suicídio político?

Neste caso, sua voz de paladino dos bons costumes há que emudecer para sempre.

REFLEXÕES MUARES

Em 1859 o Brasil importava burros.

É o que você leu, mesmo. Importava burros, quadrúpedes, bem entendido. Tanto que em outubro daquele ano chegou ao Recife uma partida de burros espanhóis importados via Uruguai. Reputavam-se os animas como de apurada raça, jovens, muito bonitos, de força superior e, portanto, muito úteis, não só para o serviço da agricultura, como também para conduções de cargas de açúcar dos engenhos para o centro comercial. Naquele lote então recentemente chegado, poderiam ser escolhidas bonitas parelhas para o serviço de carros, estando avisados, portanto, os senhores de engenho.

Agora, transcorridos mais de 150 anos, somos exportadores de jumentos. E a China, com seus exageros, superquantifica a compra, pretendendo importar nada menos que trezentos mil animais, que sairão do Nordeste.

Ocorre que o jumento agora mobiliza os nordestinos que querem evitar sua exportação para a China, onde seriam transformados em carne e derivados.

Por conta disso, campanhas pela salvação do jumento já estão em curso, uma delas sob o criativo tema Adote um Jumento. O Menino Jesus lhe agradecerá.

Pergunta-se: será que os promotores da campanha comem carne bovina? Ou suína? Ou frango? Ou peixe?

Ou será que adotaram espécimens de tais fontes de proteínas?

Pensando bem, não seria mais humano adotar uma criança abandonada? O Menino Jesus ficaria muito mais agradecido.

A PRIVATARIA DOS AEROPORTOS

Fabricaram a tal da “privataria tucana” e olha aí… A *Dilma* sentiu de cara o buraco em que se meteu. Acompanhou o leilão em tempo real mas, em vez de comemorar os R$ 24,5 bilhões “angariados” – muito, mas muito mesmo a mais do que qualquer pessoa séria esperava que oferecessem pelo que estava à venda – saiu murmurando:

“Vocês sabem como é governo: faz uma etapa e tem de fazer todas as outras. Agora tem que fazer com que as outras etapas aconteçam“.

São 30% dos passageiros e 57% da carga do transporte aéreo nacional entregues a uma *empresa africana* de credenciais duvidosas que ficou com nada mais nada menos que *Guarulhos*; um *trambiqueiro argentino* de extensa folha corrida que, muito adequadamente, ficou com *Brasília*; e uma *operadorazinha francesa* especializada em negociar com genocidas africanos que levou *Viracopos*.

Se os dois outros vencedores são duvidosos, o argentino que levou *Brasília*é explícito. Daqueles que não se aperta nem regula mixaria. “Pagou” nada menos que 673,39% de ágio! R$ 4,5 bi pela outorga mais compromissos contratuais de R$ 2,8 bi de investimentos.

Andou fazendo coisa parecida na* Argentina*, onde opera aeroportozinhos regionais. Prometeu mundos e fundos. E aí, nada. Quando as contas começaram a indicar que seria mais caro para o governo retomar os aeroportos que renegociar o contrato com o espertalhão, ele foi ficando espaçoso… Tentou primeiro com *Duhalde* em 2003. Não conseguiu. Empurra daqui, empurra dali, acabou arrancando uma renegociação de *Nestor Kirshner* em 2007.  Em vez dos royalties anuais devidos (equivalentes às nossas prestações pela outorga), enfiou goela abaixo do governo 15% das receitas, quaisquer que fossem elas. E evidentemente elas são muito menores que os royalties devidos. Repactuou também os planos de investimentos e emitiu títulos para pagar com papéis o resto do que devia. Ainda assim, continua devendo US$ 104 milhões à *Casa Rosada*, segundo o jornal *Valor*.

Como um tipo desses leva o aeroporto da capital do Brasil com a simples promessa de pagar quase sete vezes o que foi pedido pela concessão é coisa que o PT terá de explicar logo logo à Nação…

Já *Guarulhos*, o maior aeroporto do país, fica para uma obscura companhia da África do Sul que se apresenta à frente dos – adivinhem? – *fundos de pensão das estatais (leia-se, o próprio PT).* Esse consórcio *Invepar* é da onipresente *Previ*, que tem 38% do capital, mais o *Funcef* e o *Petros*, seus fiéis escudeiros representando os funcionários da “*Nossa **” Caixa* e do “nosso” petróleo (o Brasil bem que merece!), e ainda da *OAS* (19,4%), aquela empreiteira da família do finado *Antônio Carlos Magalhães* que andou encolhendo desde que ele se foi deste mundo.

Pois é. O dinheiro tem o condão de enterrar ideologias… O governo não esperava obter por *Guarulhos* mais que R$ 6 bi. Quando o leilão chegou aos R$ 12 bi, um adviser das companhias mais experientes do mundo na administração de aeroportos já garantia aos presentes que “essa conta não fecha“. Pois depois disso ela aumentou mais um terço. Foi a R$ 16,2 bi, mais R$ 4,6 bi em reformas contratuais para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016!

A receita total do aeroporto de *Guarulhos* calculada pelo governo para os 20 anos da concessão é de R$ 17 bi, apenas 5% a mais do que os *fundos do PT * pagaram só pela outorga. As prestações por essa outorga, posto esse número, sobem a R$ 800 milhões por ano. E hoje o faturamento total de *Guarulhos* é de R$ 500 milhões… Como fechar essa conta se o contrato diz que as tarifas aeroportuárias não podem subir?

“Com receitas não tarifárias como estacionamentos e restaurantes“, diz candidamente *Gustavo Rocha*, presidente da* Invepar*. (E com financiamentos do *BNDES*, é claro). Nada, enfim, como fazer contas com dinheiro “nosso”…

Ao fim e ao cabo, a proposta mais “pé no chão” foi a do endividado *Grupo Triunfo* com seus franceses misteriosos, que pagou “apenas” 159% de ágio por *Viracopos*. É o mesmo grupo que, em 2008, “levou” as *rodovias Ayrton Senna* e *Carvalho Pinto*, em São Paulo, mas acabou sendo desabilitado porque não conseguiu cumprir o que prometeu. Pelo menos ele devolveu o que não conseguiu pagar.

Enfim, não perca os próximos capítulos. Este caso tem tudo para transformar o Mensalão numa brincadeira de crianças.

O texto acima, de autoria desconhecida, está circulando na internet

UM PROJETO ABJETO

É difícil, compreende-se, mas imagine que os mensaleiros e o “chefe da sofisticada quadrilha” sejam condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Nesse caso, os réus poderão apelar, sim, mas ao próprio STF.

Agora, outra situação não menos inverossímil: imagine que os mesmos mensaleiros sejam julgados e condenados em um tribunal de primeira instância. Você sabe o que vai acontecer, não é mesmo? Prolatada a sentença, virá uma série interminável de embargos, apelações, chicanas, até o caso chegar ao STF, de onde emanará a decisão final. Serão processos arrastados por anos intermináveis, para, ao fim, com os digamos, “malfeitos” prescritos, os culpados gargalharem da moralidade.

Passando da imaginação à realidade, saiba que fatos como esse poderão vir a acontecer, sim.

O nobilíssimo deputado Miro Teixeira começou a buscar as assinaturas necessárias à apresentação da Proposta de Emenda Constitucional que veda a aplicação do foro privilegiado — direito hoje concedido a autoridades de não serem julgadas pela Justiça comum — para crimes como peculato, corrupção e tráfico de influência. É exatamente esse o busílis da questão, já que os senhores parlamentares não se têm envolvido com outros crimes que não os abrangidos pela PEC.

Fingindo enfrentar um enorme desafio, o deputado superavalia sua missão de obter as assinaturas necessárias, decerto esquecido de que, como os próprios parlamentares estão entre as autoridades especialmente favorecidas, não haverá nenhum empecilho à legislação em causa própria. O deputado raciocina que as garantias constitucionais para o bom exercício da função pública ficarão desacreditadas, caso não se excluam do rol das garantias os crimes praticados contra a administração pública puníveis pelo Código Penal, a exemplo do peculato, da concussão, da inserção de dados falsos em sistema de informações e do tráfico de influência, enfim, da corrupção ativa ou passiva.

Pretendendo-se um presente para a sociedade, o projeto é, no final das contas, um presente de grego, um autêntico cavalo de Troia. Com a diferença de que este resgatou a bela Helena, enquanto o projeto irá consolidar a horripilância da impunidade.

A propósito, indague-se ao deputado: se julgado na justiça comum, em que etapa estaria o processo dos mensaleiros? A resposta é fácil.

CURIOSAS PROFISSÕES

Contrariando promessa eleitoral, a presidente Dilma Rousseff vetou, recentemente, o projeto de regulamentação da profissão de catador de materiais recicláveis. O ato negou o comprometimento da presidente dos pobres com os pobres catadores, mas como a promessa alentou as urnas, sugere-se sejam criadas ou cortejadas outras profissões.

Especialistas em odores, por exemplo, sentiriam de longe o cheiro de problemas quanto às transações do poder, antecipando explicações convincentes. Já os psicopompos — na Grécia eram caçadores de fantasmas — seriam utilíssimos por aqui, espantando os fantasmas que embolsam o dinheiro público e nunca aparecem.

E as calçadoras de sapatos? Na Grécia e em Roma, as senhoras de respeito levavam a eventos sociais suas calçadoras, escravas para trocar-lhes os sapatos usados na rua por sapatilhas de festa.

Alguma malquerença? Na Antiguidade, bastava visitar um registrador de maldições, que escrevia, em uma tábua, uma praga, qualquer praga, de acordo com as especificações fornecidas pelo cliente ou oferecia uma praga genérica. Para funcionar, a praga devia ser feita em templo dedicado à divindade adequada e a tábua pregada nas paredes ou no altar. Quanta utilidade na política…

Sem intenção de lembrar uma famosa casa brasiliense, outra profissão apropriada seria a de organizador de orgias. No cardápio, danças desinibidas, muito vinho e, claro, sexo. Os gregos criaram os mistérios dionisíacos, mais tarde incorporados pelos romanos, que os chamavam de bacanais. Naqueles tempos, felizmente para os participantes das festas, não existiam Brasília nem um boquirroto caseiro de nome Francenildo dos Santos Costa.

Eis outra profissão criativa: animador de funeral. Em Roma, trupes de mímicos eram contratadas para animar os funerais. O papel do morto era representado pelo chefe da equipe, que deveria com seu desempenho aplacar os espíritos dos ancestrais ou levantar o astral do funeral. Usava as roupas e uma máscara mortuária do falecido e à medida que o cortejo com o cadáver se deslocava da casa até a pira funerária, o animador de funerais era cercado por outros mímicos, que faziam palhaçadas pelo caminho. Profissão utilíssima para funerais de opositores…

É melhor regulamentar profissões mais modernas? Então, que tal a de operador de siga e pare, aquele trabalhador presente nas obras das rodovias?

O NÚMERO SETE

Faz tempo, o número sete está presente em nossas vidas. Na Antiguidade era sagrado, por representar, supunha-se, a quantidade de planetas então conhecidos. Era a imagem e modelo da ordem divina e da harmonia, tanto que foram incontáveis as concepções sociais e religiosas formadas a partir dele.

Deus fez o mundo em sete dias e sete anos foram gastos na construção do Templo de Salomão. Considera-se que a Terra é formada por sete continentes – Américas, Europa, África, Oceania, Ásia, Polo Norte e Polo Sul.

São sete as maravilhas do Mundo Antigo — as pirâmides do Egito, os jardins suspensos da Babilônia, a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em Éfeso, o mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria.

Também são sete as maravilhas do Mundo Moderno — a Muralha da China; Petra, na Jordânia; Machu Picchu, no Peru; as pirâmides do México; o Coliseu de Roma; o Taj Mahal, na Índia; e o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.

No Egito Antigo, tanto o mundo quanto o homem eram constituídos de sete princípios básicos: chat – o corpo material, bas – o coração e vida física, ka – o corpo astral e a personalidade, ab – a vontade, ba – a alma, chaib – a sombra do espírito, e chu – o espírito.

São sete as virtudes humanas – fé esperança, prudência, amor, justiça, fortaleza e temperança, assim como são sete as cores do arco-íris – vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.

São sete as notas musicais — dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, e sete são as artes — música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema. Aliás, por ser a sétima da lista, o cinema é a “sétima arte”.

Sete são os mares navegáveis — mar Adriático, mar Arábico, mar Cáspio, mar Mediterrâneo, mar Negro, Golfo Pérsico e mar Vermelho.

Sete são os pecados capitais — vaidade, avareza, ira, preguiça, luxúria, inveja e gula.

Sete (palmos de terra) é a medida do enterro dos restos mortais dos homens, e também é a conta do mentiroso.

Sétimo, ordinal de sete, é um dos mandamentos da lei de Deus, aquele que diz não roubarás, e também a conta exata dos sete ministros brasileiros que, por “pintar o sete”, foram demitidos por corrupção.

EDIFÍCIO: É DIFÍCIL…

No Brasil, enormes edifícios desabam como castelos de areia. Inabaláveis, por aqui, só a crônica ausência de explicações plausíveis para acontecimentos tão trágicos e, cessada  a perplexidade dos primeiros dias, o silêncio ensurdecedor, diria Nelson Rodrigues..

Mas, afinal, onde está a decantada competência brasileira? Será que sabemos, de verdade, construir?

Incursione-se no passado: conquanto não haja registro de uma data certa da construção do primeiro edifício do planeta, tem-se como certo que, desde as primeiras civilizações de peso, grandes palácios e templos haviam surgido. Os sumérios, por exemplo, que viveram no sul da Mesopotâmia de 3.500 a 1.600 a.C., tiveram cidades com mais de trinta mil habitantes, em que existiam grandes — para a época — prédios plenos de colunas e terraços.

Uma coisa é instigante: observe-se que naquele tempo não havia cimento, concreto, vergalhões de aço, britadeiras, gruas e conexos, e tudo era tão difícil que, por conta da escassez de pedras, usava-se uma  argamassa processada à base de junco e barro, além de tijolos de barro secos ao sol. Dá para imaginar o quanto deveria ser difícil construir, não é mesmo?

Era, mas mesmo assim, na maior das edificações da época, o zigurate de Ur, havia um pavimento elevado com mais de trinta metros de altura, o equivalente a um moderno edifício de dez andares.

Já a civilização minoica, que ocupou Creta em torno de 2.000 a.C., deixou fragmentos de enormes palácios e diversas edificações construídas antes de 1.750 a.C., ano em que tais construções foram soterradas por um cataclismo. Não houvesse aquela catástrofe, conjecturam alguns especialistas, possivelmente elas estariam, a exemplo das pirâmides, contemplando o tempo.

Responda-se: com poderosos computadores, cimento, vergalhões de aço, gruas e, enfim, um sem-número de recursos, como é possível que, transcorridos quase seis mil anos edifícios se desmanchem no ar? É difícil.

LETÍCIA BIRKHEUER

Há mulheres que, decerto sem querer, robustecem o preconceito de que a beleza feminina não anda lado a lado com a inteligência. A obtusidade não merece comentário, é claro, mas esse parece ser o caso de Letícia Birkheuer, uma ex-modelo aspirante a atriz, que em absoluta discrepância com a beleza dos seus olhos azuis proferiu palavras disformes: “Na televisão não tem lugar para gente feia”, afirmou.

Faltou alguém dizer que não deveria haver lugar, isto sim, para frases fátuas.

Ora,  desde quando a televisão só tem lugar para pessoas com medidas apropriadas para portar os lançamentos da moda?

Para responder, não é preciso ir longe. Basta que a ex-modelo pare, pense um pouco — um pouquinho só —, relacione mentalmente os grandes nomes da nossa televisão e, certamente, só para exemplificar, encontrará Fernanda Montenegro e Marília Pêra, expressões maiúsculas da arte interpretativa.

Fruto de tal busca, talvez Letícia Birkheuer constate que, embora sem um par de peitos intumescidos e hipnóticos olhos azuis, sobra naquelas damas algo que transcende a beleza física: o talento que lhes assegura um lugar de honra na história da televisão brasileira. Um lugar que não se conquista apenas com o corpo, mas, principalmente, com a alma emprestada às personagens interpretadas.

O VERDADEIRO PODER BRASILEIRO

Quem, em sua opinião, detém o real poder no Brasil? A presidente da República? O ministro da Defesa? Os presidentes das câmaras legislativas federais? O presidente do Supremo Tribunal Federal?

Pensou em algum deles? Errou.

Pensou no pessoal das drogas? Acertou em parte. Só em parte. O verdadeiro poder brasileiro, em verdade, está nas mãos dos planos de saúde ou, mais genericamente nas mãos das seguradoras, segurem elas sua saúde ou sua vida. Aliás, elas asseguram o afogamento dos que se deixam seduzir pelo seu canto de sereia. É só ver dois casos: o primeiro é o de um famigerado Clube dos Executivos, que conquistou clientes ainda jovens e, transcorridos cerca de vinte anos, velhice chegando ou chegada, a SulAmérica, titular do famigerado plano decreta a sua morte. Diminui as coberturas, aumenta o valor das mensalidades e, de desatino em desatino, faz voltar o tempo em que vender seguros era ocupação de desclassificados. Em outras palavras, enquanto o (in)segurado foi moço e forte, foi o cliente ideal, mas agora, idade avançada, de que serve? Só para causar prejuízo…

O que dizer dos planos ditos de saúde?

Idosos, os pobres idosos, por seu turno, segundo o Código de Defesa do Consumidor não podem ter seus custos majorados por idade. Pergunta-se, no entanto: quem freia a voracidade das seguradoras? A presidente da República? O ministro da Defesa? Os presidentes das duas câmaras legislativas? O presidente do Supremo Tribunal Federal?

Pensando bem, talvez seja melhor apelar para o pessoal das drogas. Afinal, drogas e remédios, assim como planos de saúde e (in)ação governamental, têm tudo a ver.

PALAVRAS ALHEIAS

Recentemente, em um comercial do PT, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva fez o que mais gosta: exercitou a vanglória, e o fez com inegável competência.

Em uma das passagens, em busca de sectários para engrossar seu contingente de adoradores, ares de filósofo do ABC, foi profundo, afirmando que o destino de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta.

Que frase perfeita! Luiz Inácio da Silva, como o vinho, parece melhorar à medida que o tempo passa. Será? Ou, na verdade, não é vinho, é só zurrapa? A frase, em verdade, é do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Não é novo, contudo, esse vezo do ex-presidente. Em abril de 2003, quarto mês do seu primeiro mandato, também omitindo o nome do autor, recorreu à intelectualidade inglesa, declarando que “O estadista pensa nas gerações seguintes. Foi assim que as grandes obras da Humanidade foram realizadas. Não foram feitas com o pensamento nas próximas eleições.”

Em verdade, naquela fala o então presidente, introduzindo um enxerto, valeu-se de Benjamin Disraeli, ex-primeiro-ministro inglês, que sentenciou: “O estadista pensa nas próximas gerações, enquanto o político pensa apenas nas próximas eleições”.

Juntando esses fatos a fotos recentes do senhor Luiz Inácio da Silva, sobrevém a constatação de que “O lobo perde o pelo, mas não perde o vício”.

Em tempo: trata-se de um provérbio português.

PALAVRAS DISSONANTES

Crescida à luz dos holofotes e ao som das palmas, Sandy, ainda criança, em dupla com Júnior, seu irmão, conquistou o sucesso. No compasso do tempo, entre uma canção e outra a menina doce se fez mulher e, talvez se sentindo poderosa ante a imagem do espelho, resolveu deitar falação. Começou falando de sexualidade, esse tema que é tão grato a todos.

À revista Playboy, revelou a curiosidade de participar de um suingue, e declarou ser possível ter prazer anal. Claro que partidas de uma mulher famosa tais palavras, especialmente aquelas de cunho sodômico, logo ocuparam fartos espaços nos meios de comunicação e na internet. Como acontece a todos os assuntos, porém, as declarações de Sandy foram paulatinamente consumidas, mas não pelos homens de comunicação. Ora, a garota de ar inocente, agora era uma mulher ousada, ainda que o fosse apenas em pensamento, e possuía o physique du rôle para protagonizar a campanha da cerveja Devassa.

Cachê pago, produção feita, mídia comprada, milhões de reais em jogo, surgiu outra declaração inopinada da cantora: “Cerveja realmente não é minha bebida preferida. Mas isso (fazer propaganda de cerveja para a Devassa) não tem problema. Ou todo mundo acha que a Xuxa usa Monange e que o Luciano Huck e a Angélica usam Niely Gold?”.

Poderia haver disparate maior? Preferências sexuais eram personalíssimas e ela podia  tornar públicas, se quisesse. No caso da Devassa, porém, ela fora regiamente paga, para simbolizar a marca. Como entender tal desdém?

O intervalo entre uma patacoada e outra foi curto e agora Sandy, em declaração à revista Contigo, desentoa outra vez: “Tenho medo de envelhecer. É assustador”, diz.

Assustador? Envelhecer é a última etapa da vida, mas velhice não impede que as pessoas continuem produtivas, inclusive artistas, como é o caso do maestro João Carlos Martins, respeitado no mundo inteiro.

Quanto aos tementes do envelhecimento, convém lembrar que só resta a alternativa da abreviação da vida, o que, se de um lado é terrível, de outro tem a vantagem de não dar muito tempo para sandyces. Aliás, sandices.

UM HOMEM DE PALAVRA

A oposição recalcada costuma atribuir ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva acentuada tendência à mitomania. Há que se convir, no entanto, que sob diversos aspectos o presidente foi absolutamente sincero, comprometido com a verdade. Quer um exemplo? Ele disse que iria “mudar isso tudo que está aí”, e em parte cumpriu. De maneira acentuada quando findou o seu oitavo ano de governo.

A mudança foi evidente. E que mudança!

Ao deixar o governo, foram necessários onze caminhões para conduzir sua mudança para São Bernardo do Campo. Onze caminhões! — um deles, ao que se comenta, refrigerado.  O que levaria tal caminhão: vitualhas, águas minerais?

Consta que entre os objetos mudados estava a cama de casal presidencial, que, muito grande, não caberia no apartamento de São Bernardo do Campo, ficando, por isso, em um depósito.

Onze caminhões induzem uma pergunta: quantos desses veículos levou o senhor Luiz Inácio da Silva para Brasília em 1º de janeiro de 2003?

Se não levou nenhum, ou levou menos de onze, sobrevém outra pergunta: móveis e utensílios do Palácio da Alvorada não pertencem à Presidência (não confundir com presidente)?

Registra-se até que na mudança foi, provavelmente por engano, é lógico, um crucifixo que havia muitas décadas adornava a sala de visitas do presidente da República. Segundo a Folha de São Paulo, a presidenta Dilma Rousseff, teria retirado o crucifixo e a bíblia do gabinete, porém Helena Chagas, ministra da Secretaria de Comunicação Social, afirmou que a peça pertencia ao ex-presidente, que a ganhara de um amigo. Mas tem um detalhe: se o crucifixo era do presidente Luiz Inácio da Silva, como poderia ter estado no gabinete presidencial desde o governo Itamar Franco?

Conta-se que à beira da morte Alexandre, o Grande ditou os seus últimos desejos, e um deles exigia que suas mãos fossem deixadas balançando ao ar, fora do caixão,  para mostrar que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.

A propósito, como disse Shakespeare, “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.

DE PEITOS SUSPEITOS E DOS QUE MERECEM RESPEITO

Peitos femininos inspiram os mais arrebatados sentimentos, especialmente os mais lascivos. Ora, como resistir à perspectiva de escalar aqueles dois montes, fazendo-o docemente, cobrindo-os de beijos?

Nestes dias estranhos, no entanto, seios têm sido não delícias, mas objeto de curiosas notícias.

Na Itália busca-se identificar as mulheres que tiveram seus seios inturgescidos com uma marca de silicone que apresenta risco de rompimento. Já nos Estados Unidos, em meados deste ano — noticiou o site Espaço Vital — o advogado Thomas Gooch acusou seu oponente, Dmitry Feofanov, de ser desleal, por colocar uma mulher de seios fartos sentada perto dele no julgamento. A única finalidade da mulher, disse, seria desviar a atenção do júri dos aspectos relevantes do caso, uma disputa sobre um carro usado. E foi mais além, pedindo à juíza que fizesse a mulher sentar-se nas galerias com os outros espectadores, pretensão refutada pela outra parte, argumentando ser a mulher sua assistente.

Thomas Gooch, então, explicou que não objetava a presença da mulher de seios fartos por sua aparência física, e confessou: Pessoalmente, gosto de seios grandes (quem não gosta?), mas rejeito que alguém sem qualificação para ser assistente de advogado sente-se à mesa do Conselho, ainda mais vestida de modo a chamar a atenção para si.

A propósito, para a gaúcha Pâmela Martini, 1m75 de altura, 62cm de cintura, 89cm de quadril e 86cm de busto, um par de seios avantajados deixa o homem tão hipnotizado, que ele até esquece de prestar atenção no que a pessoa está realmente dizendo. Do alto de suas medidas, ornadas por olhos castanhos e cabelos negros, ela possui, sem dúvida, autoridade para discorrer sobre o assunto.

Mas voltando ao júri — viu como o assunto desvia a atenção? —, não se tem notícia do desfecho, mas se sabe que a tal mulher foi paga como assistente em dois casos judiciais, a US$ 115 dólares por hora, algo como R$ 195,00 — muito pouco para tanta opulência.

Pensando bem, a julgar pela fotografia de Daniella Atencia a assistente, é tarefa difícil tirar os olhos dos seus encantos lautos para se debruçar sobre a frieza dos autos.

A PRIVATARIA TUCANA E A PETRALHICE INSANA

Há nove anos fustigado por sucessivos escândalos, o governo petista obteve, enfim, os meios de jogar de igual para igual neste campeonato da sem-vergonhice. Se antes — no primeiro tempo, digamos — o petismo perdia de goleada (era como jogar contra o Barcelona), agora, com um fato novo, pretende inverter o jogo.

O trunfo é o livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, que analisa o processo de privatização das telecomunicações brasileiras no governo Fernando Henrique Cardoso. A julgar pelo conteúdo do livro, o assunto deveria transformar-se em processo criminal, já que, segundo o autor, dirigentes do PSDB e familiares do senhor José Serra teriam desviado bilhões de dólares.

De um lado, líderes petistas convidam seus adversários para debater o assunto, enquanto do outro lado os líderes peessedebistas afirmam estar prontos para o embate. Quando será, se é que haverá, a nova fase do jogo? Do segundo tempo, digamos.

Vale lembrar que será jogo muito disputado, já que o atual governo, franciscano em relação ao esbanjamento do anterior, teve, só no ano que se encerra, o seu primeiro após a eleição, seis ministros afastados por corrupção e um ainda ministro está sob artilharia intensa e pesadas suspeitas.

E se a partida não acontecer, cingindo os disputantes aos bate-bocas tão comuns que mais confundem do que esclarecem? Será chegada a hora, então, dos apupos da torcida clamando pela expulsão dos jogadores.

Afinal, ainda que usem camisas diferentes, serão pessoas do mesmo estofo fingindo um confronto da privataria tucana com a petralhice insana.

LAÇOS OU NÓS?

Registra-se que o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, é marido da bonita senadora Gleisi Hoffmann, a ministra chefe da Casa Civil.

Registra-se que o secretário geral da Presidência, Gilberto Carvalho, é irmão de Miriam Belchior, a ministra do Planejamento, que foi casada com Celso Daniel, o assassinado ex-prefeito de Santo André.

Registra-se que a doutora Elizabete Sato, delegada nomeada para investigar o tal assassinato, por seu turno, é tia de Marcelo Sato, marido de Lurian Cordeiro da Silva, filha do ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Sim, aquela do escândalo arquitetado por Fernando Collor na campanha eleitoral de 1989.

Registra-se que Marcelo Sato é o titular de uma empresa de assessoria que presta serviços ao federalizado Banco do Estado de Santa Catarina, presidido pelo marido da senadora Ideli Salvati, e tem como diretor Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro oficial do então presidente Luiz Inácio da Silva e um dos protagonistas do escândalo da compra de dossiês.

Registrado está, pois, nestas poucas e suficientes linhas, o entrelaçamento que une apaniguados e parentes em apertados laços de família.

De famiglia.

VIVER, APRENDER

Quando o governo federal lançou quinhentos mil exemplares do livro Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, a oposição raivosa e a mídia golpista logo se puseram a ridicularizar a iniciativa. O tempo, porém, se encarregou de estabelecer a verdade, e mais uma vez o governo se afirma onisciente, demonstrando com fatos toda a profundidade das suas decisões, naturalmente voltadas para promover o bem comum.

Pois saiba que o tão criticado livro precisou de pouquíssimo tempo para evidenciar sua importância para o aprendizado. Tanta que, segundo registrou no último dia 27 a jornalista Dad Squarisi, em Brasília (só poderia ser em Brasília, ora), um pai foi surpreendido quando sua filha de nove anos disse: Pai, eu tinha trago o livro.

Trago!

Teria sido apenas um descuido, relevou, no entanto, dias depois, folheando o caderno da filha, observou que a frase Mamãe tinha comprado e trazido o presente estava, segundo a professora, errada. Em seguida, grafada em letras vermelhas, a correção: Mamãe tinha compro e trago o presente.

É assim que a nova língua se espraia, primeiro entre amigos, nas mesas dos bares, nos bancos da praça e, por fim, nas bancas das escolas, tornando a Última flor do Lácio inculta e bela mais inculta e menos bela.

O marquês de Maricá disse que se tirando aos homens a vantagem das línguas e idiomas eles ficarão reduzidos talvez à categoria dos bugios e orangotangos. Talvez nem precise tanto.

BRASIL NUMA BOA

Decerto robustecido pela convicção de que a crise europeia não atravessará o Atlântico — agora como correta referência geográfica —, transborda nos meios de comunicação o otimismo das marcas quanto às vendas do próximo Natal. Para se fazer ideia da exaltação, o varejo, elo preferencial entre a indústria e o consumidor, estima um crescimento de 30%.

Na esfera governamental não é diferente. A presidente Dilma Rousseff afirma, com fundamento, conquanto em uma declaração literalmente singular, que o Brasil está diante de várias oportunidade, e prossegue enfática: Nós não vamos permitir no Brasil que se exporte empregos para fora (Crise pode favorecer o Brasil | DP 261111).

Há, de fato, um conjunto de boas notícias deixando o Brasil exultante.

Para a ONU, até 2020 os preços dos alimentos serão, em média, maiores. Grãos, aproximadamente mais 20%; carnes, mais 30%. Há quem estime alta de até 55%, isso sem falar no preço da cana-de-açúcar, que até o fim da década deverá estar 20% mais alto. Só este ano, as exportações brasileiras de alimentos terão crescido 20% nos preços e no aumento da safra, e nosso frango seguirá cocoricando mundo afora para comemorar os dólares que entram.

Minérios? — haja ferro brasileiro para suprir a demanda! Aliás, para José Carlos Martins, diretor de vendas da Vale, apud Veja 220611, experimentaremos um ciclo longo, semelhante ao da Revolução Industrial.

Como se vê, o setor primário brasileiro evolui ano após ano, respondendo apropriadamente à demanda, que tem crescido em todo o planeta, especialmente na Ásia.  Apesar das crises da Europa e dos Estados Unidos. Crise deles, com muito mar a nos separar.

O QUE É PAÍS RICO

País rico é país sem pobreza, afirma a comunicação do governo federal.

À luz do slogan, no entanto, pergunta-se: será que país em busca de ser rico e ainda com tanta pobreza, tem o direito de não saber o que faz com o dinheiro do contribuinte?

Ora, tão ricos pensamos ser que não constam do banco de dados do Siconvi – Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse do Ministério do Planejamento informações sobre a destinação de R$ 26,5 bilhões entre setembro de 2008 e junho de 2011. Pela ausência de registro, pode-se supor que em menos de três anos um rio de dinheiro desaguou em foz não conhecida.

Releve-se a insistência, mas é desalentador o fato de que o governo central não tenha conhecimento, pelo menos até ontem, quando o jornal O Estado de São Paulo revelou o destino incerto de nada menos que a substanciosa quantia de R$ 26,5 bilhões. Bilhões! — entendeu? Um rio de dinheiro, como já se disse, suficiente para que as soluções dos muitos problemas nacionais nele navegassem.

Curiosamente, a deplorável revelação veio à luz quando se discutiam os pontos da Estratégia Nacional de — veja quanta ironia — Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro.

Insista-se: são R$ 26,5 bilhões saídos do esmolambado bolso dos que trabalham e consomem para alimentar com suculentos impostos a fome do governo. São, não é demais lembrar, quase R$ 30 bilhões entregues às famigeradas ONGs – Organizações Não Governamentais, essas singulares entidades que, com raríssimas exceções, apesar de expressamente não governamentais vivem à fronde do governo, colhendo as cédulas que caem em pencas e apodrecem no terreno baldio dos escândalos cotidianos.

Pensando bem, país sério é país sem essas coisas.

O REAL E O IMAGINÁRIO

Depois de um dia de trabalho, talvez sonhando com o carinho da mulher, um biscateiro volta a casa. Ao chegar, porém, o sonho logo se faz pesadelo. A mulher sonhada e desejada, sua companheira, geme sobre a cama do casal, não de dor, mas de amor. De puro prazer, melhor dizendo. Está em meio às mais íntimas carícias, com ninguém menos que o seu próprio irmão. O sangue lhe sobe à cabeça, e ele busca cortar a desonra com uma faca que está ao seu alcance. Menos ágil do que o irmão, porém, é dominado, é ferido na cabeça, exatamente o ponto que, desde antes, mais lhe doía.

Do hospital onde é atendido à delegacia mais próxima, basta um instante, e ali poucas palavras bastam para fazer uma triste revelação: sua família inteira tem uma deprimente história de traição. Diz que o marido da irmã dele, seu cunhado, tem um caso amoroso com a sogra, com sua mãe, portanto. E pesaroso confessa querer a mulher do seu sonho-pesadelo mesmo infiel.

Já em outro cenário, outro momento, outro contexto, durante uma tempestade um homem ferido, em fuga dos seus inimigos pede abrigo na residência não de um biscateiro, mas de um guerreiro. O dono da casa não está, mas, sua linda esposa recebe o estranho com visível satisfação. Após beber um pouco do hidromel oferecido pela mulher, o homem se direciona para a saída, alegando não poder ficar por ser amaldiçoado pelo infortúnio, acrescentando que costuma levar a desgraça aonde quer que vá. Mesmo assim, a bela mulher o convida a permanecer, justificando que ele não pode trazer infortúnio a um lar onde a má sorte já reside.

Para encurtar a história, Siegmund, o estranho, toma a mulher, Sieglinde, por noiva e juntos se vão daquele lugar. Cheios de paixão, levam até hoje, sua doce e incestuosa vida mitológica, mesmo sabendo que são irmãos. Depois nasce Siegfried, que vem a ter um ardente romance com sua tia Brünnhilde, mas isso é outra história.

Por falar em história, a primeira é real — está no jornal —, acontecida com um brasileiro qualquer, desses que carregam uma existência penosa e tornam o cotidiano mais feio. A segunda é ficção, em linhas gerais, síntese da ópera A Valquíria, de Richard Wagner.

São duas histórias abjetas, sim, com muito em comum. Contudo, enquanto a primeira é assunto de uma delegacia de um bairro periférico qualquer, a outra, plena de beleza, lota sofisticados teatros e se enche de aplausos mundo afora, tempo adentro.

SCHWARZENEGGERS TROPICAIS

Não há como escapar da morte nem dos impostos, ensina um dito popular norte-americano. Tributos são lição amarga que os brasileiros conhecemos na prática, ao dedicar quase quarenta por cento do PIB para alimentar a voracidade da máquina pública. Descortina-se agora, contudo, a possibilidade de uma saída para este problema que tanto aflige o nosso cotidiano, já que não vemos na aplicação correta dos recursos a contrapartida do que pagamos.

Ora, já que os nossos políticos — todos — apreciam tanto criar taxas, contribuições e afins para separar o cidadão do seu suado dinheiro, sugere-se eles se mudem do Brasil. Todos. Sem exceção. Do vereador interiorano ao presidente da República. E não é por ira que se faz tal sugestão. É que em diversos países, milionários e bilionários vêm pedindo para pagar mais impostos, deixando, portanto, terreno fértil para os políticos e administradores públicos brasileiros.

Tal grupo de pessoas, aliás, só tem crescido. Começou pelo norte-americano Warren Buffett, passou pela francesa Liliane Bettencourt, da L’Oreal, mais quinze outros franceses, acelerou na Itália de Luca di Montezemolo, da Ferrari, e agora, cerca de cinquenta alemães querem que o governo daquele país aumente os impostos que eles pagam! O que mais chama a atenção, no entanto, é que o grupo se robustece com o ingresso de professores, médicos e médios empresários sugerindo, até, que o governo alemão cobre, por dois anos, 5% de imposto sobre investimentos acima de € 500 mil, reduzindo-o depois para 1%.

É, convenha-se, uma iniciativa ímpar, embora alguns sugiram que antes de aumentar impostos o governo os utilize de forma mais responsável. É exatamente aí que reside o único problema para uma tão desejada dispersão dos políticos nacionais. É que nesses países em que os contribuintes se propõem pagar mais impostos, desvios de verba, superfaturamento, propinas, malfeitos e afins sofrem pesada punição.

De qualquer forma, vale a pena sonhar nestas poucas linhas com umo dia em que, como Schwarzeneggers tropicais, os veríamos partir e, enfim, vitoriosos exclamaríamos aliviados: Hasta la vista, babies.

SETE BILHÕES!

Nesta segunda-feira, 31 de outubro de 2011, nosso mundo, aparentemente tão grande, mas apenas um grão de areia na imensidão do universo, chega aos sete bilhões de habitantes.

É muita gente para habitar um espaço tão pequeno.

A Terra é extensa — possivelmente é o que você está avaliando, mas pense no que resta dessa presumida grandeza, quando descontados o espaço dos desertos, das florestas, das regiões polares, dos rios e dos mares. Sobra, releve-se a metáfora, apenas uma quitinete cósmica, na qual moramos juntos e de onde ninguém, por mais poder e dinheiro que possua, pode se mudar. Resta, pois, cuidar da casa, fazendo-a melhor e mais bonita.

Não se trata de pessimismo, mas a cada minuto se torna vital pensar o planeta e não só aos governos cabe tal responsabilidade. Ver a Terra como sua propriedade, mas também como uma dádiva, é obrigação de todos, independentemente de sexo, estrato social, nacionalidade, credo, orientação política.

Zelar pelo planeta é, mais do que nunca, zelar por si.

É autopreservação.

É começar, agora, a controlar a natalidade, a não poluir, a optar pelo uso de materiais recicláveis ou biodegradáveis, é fazer, enfim, as coisas de que ouvimos falar todos os dias, mas que a elas não damos atenção, como se dissessem respeito a outro mundo.

É hora de, ante o desafio dos sete bilhões de pessoas, abandonar o conformismo drummondiano do Poema de Sete Faces, aquele que diz Mundo mundo vasto mundo | se eu me chamasse Raimundo | seria uma rima, não seria uma solução.

Raimundos ou não, somos todos, sim, a solução. A única, aliás.

Solução que começa dentro de cada um de nós e precisa se fazer ação.

Antes que a Terra morra, e morramos com ela.

O NAVIO DE TROIA

“Foi bonita a festa, pá”, como disse Chico Buarque na música “Tanto mar”. Em Suape, um mundo de gente, a claque pronta e ativa. Naquele ensolarado 7 de maio do ano passado, antevéspera das últimas eleições presidenciais¸ o petroleiro “João Cândido” seria, como foi, lançado ao mar. Não é sabido se no batismo o presidente da República quebrou uma garrafa de champanhe no casco (do navio). Ele não havia prometido ressuscitar a indústria naval brasileira? Ali estava a prova. O povo delirava.

Acabada a festa, como sempre acontece após toda festa, era hora da arrumação da casa. O navio voltou para o estaleiro, já que aquele “Titanic” de alpercatas e gibão fazia água.

Desde então sua singradura é a imobilidade do estaleiro em que parece encalhado. Com a entrega repetidamente adiada, zarpará, como prometido, em dezembro?

Pode  parecer um despropósito, mas o “João Cândido” traz à lembrança a Guerra de Troia, aquela em que os gregos teriam mobilizado mais de mil navios.

De antemão, entenda-se que o “João Cândido” não serve de paralelo com as embarcações gregas, já que aquelas navegavam. Serve, contudo, à lembrança do rapto por Páris da bela Helena, esposa do rei Menelau, embora, como é fácil inferir, a comparação também não seja pela formosura.

A causa é, sim, um cavalo. Não um cavalo-marinho — já que se trata de mar —, mas um imenso cavalo de madeira com o ventre empanturrado de soldados, que os gregos usaram para entrar em Troia.

No caso do “João Cândido”, seu bojo estava vazio, mas, como o abdome do cavalo de madeira, trazia nos seus 280 metros de comprimento e 25 mil toneladas de peso, soldados em forma de luta pela manutenção do poder, de proselitismo, de embuste.

A Guerra de Troia, que teria acontecido entre 1.300 e 1.200 antes de Cristo, durou cerca de dez anos.

A guerra pela zarpagem do petroleiro “João Cândido” completa, no primeiro semestre de 2012, dois anos.

PQP!

Ontem, em Manaus, com pompa, circunstância e os morubixabas a caráter, inaugurou-se uma ponte de três quilômetros e meio sobre o rio Negro. Foram quatro anos de espera, um a mais do que o previsto, com o custo final da obra quase dobrado, algo como R$ 1 bilhão.

Esses, digamos, imprevistos, no Brasil não ocorrem só “por esporte”, diga-se a bem da verdade. Ocorrem também por “saúde”, por “agricultura”, enfim por múltiplas razões, e em todos os casos, registre-se, não é coisa de amadores. Tanto que, segundo a arqui-inimiga revista Veja, entre janeiro de 2002 e junho de 2011 poderão ter sido desviados dos cofres públicos R$ 6,89 bilhões. Só no Ministério da Saúde, permanentemente prostrado ante a doença dos desvios, o embolso poderá ter sido de R$ 2,2 bilhões.

Com tal valor, diz a revista, poderiam ser construídas 2.446 unidades de pronto-atendimento, melhorando a vergonhosa ausência de serviços médicos, ainda que certo ex-presidente haja dito estar a saúde brasileira “à beira da perfeição”.

Voltando às pontes, não faz muito tempo a China inaugurou uma sobre o mar, um colosso com 42 quilômetros de extensão, que custou o equivalente a R$ 2,4 bilhões. Mais ou menos na mesma época, foi aprovado no Brasil o projeto da nova ponte sobre o rio Guaíba, que custará R$ 1,16 bilhão — em números de hoje, é claro.

Viu como somos econômicos? Viu como as notícias sobre corrupção são mesquinhas, frutos podres de uma imprensa que só sabe denunciar?

Ocorre que Gilberto Flach, um matemático intrometido, resolveu comparar as duas obras, chegando a resultados devastadores. Se o Guaíba ficasse na China e se em vez de rio fosse mar, a obra custaria R$ 170 milhões, enquanto a ponte chinesa, se construída no Brasil, custaria trilhões de reais. Quer fazer o cálculo? O preço da ponte chinesa é de R$ 57 milhões por quilômetro, enquanto o da brasileira é de absurdos R$ 400 milhões. Daí, a ponte ontem inaugurada, que custou R$ 1 bilhão, custaria na China R$ 199,5 milhões.

E pensar que o dinheiro dessas — aquiesça-se — diferenças seria suficiente para resolver muitos dos nossos problemas, dói. É o caso da ponte sobre o rio Negro, cujo custo é de partir o coração.

A propósito, os corruptos bem que deveriam ter consciência e pensar na PQP.

Na “ponte que partiu”, bem entendido.

VIAGEM PARA A ITÁLIA

Cesare Battisti, sim, aquele italiano condenado em seu país pelo assassinato de quatro pessoas, desfruta no Brasil, graças à mão amiga do senhor Luiz Inácio da Silva, uma existência de múltiplas regalias, como jatos executivos e hotéis de luxo, segundo registra o jornalista Cláudio Humberto. É plausível, pois, pensar que o crime compensa, e muito.

Ocorre que, segundo a sabedoria popular “Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe”, e agora surge alguém com disposição de fazer cumprir a lei. Caso cumprida, nos próximos seis meses — prazo de tramitação do processo — o italiano  poderá ser extraditado, e a razão é simples: o Ministério Público Federal do Distrito Federal se dispõe a fazer valer o Estatuto do Estrangeiro, segundo o qual o Brasil não pode abrigar pessoas condenadas em seu país de origem. Ressalte-se, a propósito, que à luz da legislação Cesare Battisti não poderia ter visto de trabalho no Brasil, mas o poder sobranceiro do então presidente da República se sobrepôs, levando o Supremo Tribunal Federal, que poderia decidir a questão, a devolver ao presidente, a prerrogativa.

Naqueles dias, o país já sabia qual seria a decisão, tanto que, o mesmo presidente que quis expulsar o jornalista Larry Rother, do The New York Times, foi o mesmo que, em uma espécie de condenação dos tribunais italianos, agasalhou o terrorista Cesare Battisti. Jornalista, terrorista, poderá ter sido por uma questão de rima, talvez, mas agora poderá acontecer a cassação do visto, caso em que se “dará a Cesare o que é de Cesare”: a Itália.

Com passagem só de ida.

ESDRAS E O CONGRESSO

Recente pesquisa do Ibope concluiu que o povo brasileiro confia menos em partidos políticos e no Congresso, do que em dezesseis instituições, inclusive as Forças Armadas, que ocupam confortável posição na enquete.

Claro que não há nenhuma novidade quanto à má fama dos políticos, mas um fato lembra outro. Certa vez, em entrevista à Istoé, o plenipotenciário senador José Sarney disse que o instituto da medida provisória matara o Congresso, concedendo ao Executivo o poder de legislar. O debate desaparecera, passando o Congresso a ter função meramente homologatória, concluiu.

A apreciação é correta, embora o Congresso é que venha se matando a cada dia, mas é imprescindível considerar os caminhos que levaram a essa letargia. Em linhas gerais, destaca-se o fisiologismo parlamentar, tão arraigado, que os senhores legisladores parecem não ter tempo para externar uma visão prospectiva do Brasil. Parece até que o único objetivo dos inquilinos das nossas casas legislativas é a satisfação do interesse imediato, em forma de mensalão, de cargos ou na forma de qualquer outra moeda cunhada nas engrenagens políticas.

O troco, claro, e não poderia ser diferente, é um Legislativo a cada dia mais flácido em seu estofo moral, contentando-se em ser apenas um deplorável poder sufragâneo, à disposição dos caprichos legiferantes do Executivo. Não é sem razão, pois, que o Congresso, faz muito tempo, é visto com desprezo pela sociedade, que considera seus membros oportunistas bem-sucedidos, parasitas que, por inação nefasta ou ação incasta, fazem florescer os falsos messias, os que se imaginam valer sozinhos mais do que os poderes da República reunidos.

Esdras, personagem da tradição judaico-cristã que liderou o segundo grupo dos israelitas que retornaram da Babilónia em 457 a.C. e primeiro sumo-sacerdote de Israel, deixou palavras que — mudando-se o que precisa ser mudado — bem se aplicam ao laxismo congressual: “Sim, são numerosos os que perderam o espírito por causa de mulheres e que, por elas, se tornaram escravos. Numerosos também os que, por causa delas, pereceram, erraram ou pecaram. Homens, como quereis que as mulheres não sejam fortes, vos vendo agir assim?”

Permita-se a paráfrase: congressistas, como quereis respeito, agindo assim?

BRAVO!

Há dois anos, ao tocar violino no Domingão do Faustão, o menino Lucas Farias levou o maestro João Carlos Martins a prometer-lhe que, muito cedo, ele estaria tocando no Lincoln Center, em Nova Iorque. Este ano, o dia chegou. O menino emocionou as 2.800 pessoas presentes, foi aplaudido de pé, emocionou também o maestro. “No momento em que ele estava pronto para começar, saiu uma lágrima do meu olho”, confessou.

Ainda bem que há pessoas especiais como o menino Lucas e o maestro João Carlos Martins. Aquele por seu enorme e jovem talento, este por, além do talento reconhecido por plateias de todo o mundo, altruísmo.

Pianista famoso, considerado o melhor intérprete de Bach, o maestro, compelido a deixar tocar, não deixou que sua vida desafinasse. Pelo contrário, fez dela um concerto em sol sustenido maior, composto em um projeto de inclusão social por meio da formação musical de jovens carentes.

A partitura da vida de João Carlos Martins é prodigiosa. Aos oito anos ganhou um concurso tocando Bach, aos treze começou uma carreira nacional, aos dezoito era internacional. Cruzou o mundo, tocando e fazendo o mundo parecer menor. E melhor.

Infelizmente, porém, às venturas corresponderam adversidades. Aos 26 anos, com um nervo do braço rompido, ficou com os movimentos comprometidos em três dedos da mão direita. O The New York Times observou que ele já não era o pianista de antes.

Recomeçou a estudar piano, remarcou concertos, programou uma exibição no Carnegie Hall. Sucesso retumbante, estava de volta a vida de viajar e tocar mundo afora.

As adversidades, contudo, insistiam nas dissonâncias e, na Bulgária, golpeado com uma barra de ferro, sofreu uma lesão cerebral. Passou oito meses tentando recuperar os movimentos do lado direito do corpo, e um ano depois voltou a fazer concertos. A lesão, no entanto, causava muita dor, impondo fosse cortada determinada terminação nervosa. O preço? Nunca mais poderia tocar piano com a mão direita. Resistiu, mas um dia, cortou.  A dor se foi, e com ela o movimento da mão.

Foi em busca, então, de outro recomeço, tocando só com a mão esquerda. Exibiu-se mundo afora, mas um ano depois, um tumor o fez perder o movimento daquela mão.

O maestro continua fazendo música, porém, com as mãos de Lucas Farias e de tantos jovens igualmente talentos, como o violinista que, um dia, faminto, lhe pediu R$ 10,00 — e pelas mãos dele estava, dois anos depois, tocando no Carnegie Hall.

Bravo, maestro!

O SERTANEJO E O DOUTOR

Em torno do ano 400 Vatsyayana escreveu o Kama Sutra, um livro cujas primeiras edições eram manuscritas em cerca de setecentas páginas acessíveis somente a nobres e endinheirados. Registre-se, só para constar, que Kama é a literatura do desejo, do prazer sexual, enquanto Sutra é uma série de aforismos.

Naqueles tempos, porque levavam uma vida de ócio, os nobres indianos tinham bastante tempo para o aprendizado e o aperfeiçoamento de suas habilidades sociais, artísticas e sexuais descritas no livro que vem atravessando séculos. Nele, em algum trecho está dito que “não há ordem ou momento exatos entre o abraço, o beijo e as pressões ou arranhões com as unhas ou dedos, mas que todas essas coisas devem ser feitas, de um modo geral, antes que a união sexual se concretize, ao passo que as pancadas e a emissão dos vários sons devem ocorrer durante a união.” Mais adiante, afirma-se que “qualquer coisa pode ocorrer em qualquer momento, pois o amor não se incomoda com o tempo ou ordem.”

Pois saiba que Luiz Costa de Oliveira, 90 anos de idade, 69 filhos, 100 netos e 60 bisnetos, ocupante de uma casa humilde no sertão do Rio Grande do Norte, nunca leu o Kama Sutra — talvez nunca tenha lido nada —, mas diz à sua maneira a mesma coisa do livro: “Pra fazer amor não tem hora e nem lugar; basta querer”, afirma, do alto de sua experiência de coabitar com a companheira, a sogra e a cunhada, com as quais teve 45 filhos, isso sem falar das outras três relações, essas por ele consideradas extraconjugais, que resultaram em outros tantos filhos.

A casa de Luiz Costa de Oliveira é pequena — apenas quarto, sala, cozinha e banheiro —, mas isso não causa embaraço. “Não tem muito conforto, mas dá pra fazer amor. Quando eu faço amor é sempre na mesma casa, no mesmo quarto”, diz.

Como, segundo revelou, não bebe, não fuma, alimenta-se bem e dorme melhor ainda, presume-se que não há tempo para passar a vista em algum livro antes de dormir, mesmo que seja tão estimulante quanto o Kama Sutra. Mas, pensando bem, para que livros?  A propósito, o sertanejo Luiz Costa de Oliveira e o multidoutor “honoris causa” Luiz Inácio da Silva, cada um a seu modo, estão aí, mostrando o quanto livros são irrelevantes.

INFLEXIBILIDADE TOTAL

Muito antes de assumir os destinos da Nação, a presidente Dilma Rousseff sentenciou que queria ser referida não como presidente, mas como presidenta, assim, com terminação na primeira letra do alfabeto. Poucos se manifestaram favoráveis à exigência, muitos a criticaram, muitas vezes de forma equivocada, e assim ambas as formas passaram a ser utilizadas no cotidiano, com prevalência do tradicional substantivo de dois gêneros presidente, assim, com término na segunda vogal.

O tempo passou, tudo ficou acomodado, a questiúncula foi para o merecido limbo, mas agora ressurge a velha questão entre o masculino e o feminino, novamente por iniciativa da presidente da República. Registre-se, aliás, que ela brilhou, recentemente, nos Estados Unidos, como a primeira mulher a abrir os trabalhos da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Fez um belo discurso, embora com platitudes como a condenação das armas nucleares — o que todos fazem, embora acalentando o recôndito desejo de, um dia, ter a sua bomba ao alcance de um botão vermelho —, defendeu a paz mundial e a criação do estado palestino.

Não defendeu, no entanto, a língua portuguesa.

Ao encerrar suas palavras, como prelúdio dos estrepitosos aplausos que receberia agradeceu a atenção dos presentes dizendo “muito obrigado”. Assim, no masculino, com a quarta vogal encerrando a segunda palavra do agradecimento.

Será que a presidente da República, uma mulher referida como extremamente inflexível, decidiu não flexionar o adjetivo?

OPERADORES E MANDADORES

Os dicionários, esses mestres silenciosos e prestativos, ensinam que operador é o que ou aquele que opera, que executa uma ação, uma pessoa encarregada de operar uma máquina, um sistema. Exemplos: operador de câmera e operador de telemarketing.

Na Aeronáutica e na Marinha, é o militar que faz comunicações pelo rádio. No cinema, o técnico que trabalha com a câmera ou, nas salas de cinema, o encarregado de fazer funcionar o projetor do filme. Pode até ser também o “operador de siga e pare”, aquele trabalhador que, na mão única das estradas em manutenção, acena uma placa ora verde ora vermelha, sinalizando que os carros devem ora prosseguir, ora parar. Ademais, é também o profissional que desenvolve certas funções, especialmente no âmbito comercial ou financeiro, como o operador de pregão ou o operador de câmbio.

Observadas essas definições, tem-se que operador é simples executante.

Deixar de ser operador e passar a ser mandador, é, provavelmente, um sonho dos que operam. Nada mais compreensível. Na linha de montagem, por exemplo, melhor que comandar a máquina é comandar a empresa, assim como é preferível ser o produtor do filme a ser o cinegrafista. Aquele sempre ganha muito mais do que este, embolsa os lucros.

Há, todavia, pessoas como o publicitário Marcos Valério, que pode facilmente passar de simples operador do mensalão a protagonista. Seus mandadores são tão despojados, que lhe querem transferir a honraria de liderar uma sofisticada qua… — aliás, engenharia financeira. Querem-no protagonista, mas como será possível se, como se vê, operador é alguém de incontestável anonimidade?

Por que, então, tentam dar a um coadjuvante o “status” de protagonista, é a instigante questão.

A propósito, vale lembrar que o primeiro passo para a elucidação um crime é ter a resposta à pergunta “A quem beneficia?”

Indague-se, pois: a quem beneficiou o mensalão?

MAIS UM MINISTRO QUE CAI

Pasme, mas nos últimos dezesseis anos, divididos equitativamente entre os governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva, nada menos do que catorze ministros ou auxiliares com status ministerial foram compelidos a abandonar seus cargos, a maioria por envolvimento em malfeitos.

Na octaetéride do senhor Fernando Henrique Cardoso se foram Luiz Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações; Júlio César dos Santos, chefe do Cerimonial; Odacir Klein, ministro dos Transportes; Rafael Greca, ministro do Esporte e Turismo; e Mauro Gandra, ministro da Aeronáutica. Foram cinco demissões resultantes, claro, de escândalos.

Nos oito anos seguintes, o senhor Luiz Inácio da Silva demonstrou que superaria em tudo o seu antecessor e, logo nos primeiros meses, se foi Benedita da Silva, a secretária especial de Assistência e Promoção Social.

A partir de então, os casos se sucederam, ceifando Antonio Palocci, ministro da Fazenda; Waldomiro Diniz, subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil; José Dirceu, ministro da Casa Civil; Luiz Gushiken, secretário de Comunicação da Presidência da República; Silas Rondeau, ministro das Minas e Energia; Walfrido dos Mares Guia, ministro das Relações Institucionais; Matilde Ribeiro, secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e Erenice Guerra, ministra da Casa Civil de abril a setembro do ano passado. Foram nove escândalos!

O governo atual, porém, reconheça-se, evidencia extrema competência.  Em apenas nove meses, já pariu a demissão de cinco ministros, alguns, a bem da verdade, herdados do governo anterior. Já se foram Antonio Palocci, da Casa Civil; Jalin Rabei, dos Transportes; Nelson Jobim, da Defesa; Wagner Rossi, da Agricultura e, ontem, finalmente, Pedro Novais, do Turismo, aquele que espetou no contribuinte a conta de uma esbórnia em um motel e usa o dinheiro público para pagar o salário de seu motorista particular. O problema maior, agora, é que se ele gastava tanto, imagine-se o substituto, que se chama Gastão (Vieira)…

Gabriel Garcia Marquez afirmou, certa feita, que na Colômbia, onde se pusesse o dedo sairia pus. Pensando bem, neste Brasil apostemado por ministros tão sinistros e eminências tão pardas, há o risco de septicemia.

TRISTÃO E ISOLDA

O batido clichê de que a arte imita a vida e esta a arte é totalmente gasto, sabe-se. Às vezes, porém, ajuda a contar uma história. Aí, a lenda de Tristão e Isolda serve como pauta de um acontecimento atual.

Da arte, o tema básico da história é a morte decorrente de uma triangulação amorosa, talvez buscando provar que, se durante vida a força do amor cedeu ao poder da força, na morte o amor se faz invencível. Tão poderoso, aliás, que uma árvore que antes separava seus dois sepulcros os entrelaçou. Seria o símbolo de que o amor definitivamente vencera?

Na história, Tristão foi criado pelo rei da Cornualha, seu tio, que o fez cavaleiro da Távola Redonda.

Numa das batalhas, o herói foi gravemente ferido, e somente a rainha da Irlanda, figadal inimiga de seu tio, tinha o dom da cura, o poderia salvar. Tristão, então, disfarçou-se de músico, e se tornou professor da princesa Isolda, a Loura. Já curado, voltou para o castelo de seu tio, a quem descreveu a beleza de Isolda. Foi aí que seus problemas começaram.

Ora, não se deve fazer alarde de mulheres bonitas, e a prova é que, para acabar com a inimizade entre os dois reinos Marc, o tio de Tristão, mandou o sobrinho ao reino da Irlanda pedir a mão de Isolda em casamento. A rainha irlandesa logo aceitou, organizou um banquete e preparou uma poção do amor para o casal. Por engano, porém, quem bebeu a poção do amor foi Tristão, e logo após beberem o líquido mágico se apaixonaram eternamente. O casamento de Isolda e Marc, contudo, prosseguiu. Naqueles tempos, mais do que hoje, os casamentos de conveniência passavam por cima de tudo. O problema é que Tristão e Isolda não conseguiam sufocar o desejo de estar juntos e se encontravam secretamente. Expulso do reino, Tristão foi para a França, casou-se com uma mulher conhecida como Isolda, a das Mãos Brancas, que nunca sentiu retribuído o amor que dedicava a Tristão. Este, aliás, fiel ao seu amor primeiro, nunca consumou o casamento.

Depois vieram outras batalhas e em uma delas Tristão ficou gravemente ferido. Mandou chamar a sua Isolda amada, a Loura, que também possuía o dom da cura, mas Isolda, a das Mãos Brancas, enciumada, enganou Tristão dizendo-lhe que a Loura estava morta. A dor foi tão insuportável, que Tristão morreu, e ao chegar, Isolda, a Loura, abraçou-se ao corpo do eterno amado, e também morreu.

Recentemente, no Rio de Janeiro, o cineasta Emiliano Ribeiro sofreu um infarto fulminante e morreu. Sua companheira, a roteirista Karla Hansen, ao ver o amado morto, entrou em choque, abraçou-se a ele e, três dias depois, repetindo a lenda de Tristão e Isolda também se foi.

Pena que, diferentemente da de Tristão e Isolda, a história de Emiliano e Karla seja verdadeira.

Pensando bem, a vida imitar a arte é algo de extremo mau gosto.

A CÓPULA DA PREFEITA

Noticiam os jornais desta quinta-feira que a prefeita Ilse Uytternsprot, de Aalst, uma cidade belga, foi filmada fazendo sexo na Turquia, no alto de uma torre que é atração turística do país. Instada a falar sobre o assunto, em vez de culpar a imprensa ou a oposição raivosa, a prefeita explicou que o flagrante ocorreu durante uma viagem de férias, e que o casal não desconfiava da presença de outras pessoas nas proximidades, já que o ponto de onde ocorreu a gravação quase nunca era visitado.

A tórrida cena, obtida em outubro do ano passado, corre mundo neste final de agosto. Em alguns países há que causar estranheza, mas no Brasil devia ser encarada com naturalidade.

Ora, o que significa a cópula prefeitoral da burgomestra belga, um ato de amor — pouco intenso, ao menos aparentemente, e quase burocrático —, diante da cópula de que a sociedade brasileira escolhe ser passiva, submetendo-se a estupros repetidos pela mentira, pelos escândalos, pela corrupção, pelos desvios de dinheiro público, enfim pela mais deslavada locupletação?

O pior é que, pasme! — uma enorme parcela desta mesma sociedade, se extasia, como que ingressada no sétimo céu, quando, no céu, ou ao menos perto dele, já que a torre é alta, estava o casal de belgas.

Bertolt Brecht, o teatrólogo alemão, perguntava: “O que significa um assalto a banco, diante da fundação de um banco?” Por paráfrase, pergunta-se: o que significa uma… você sabe, no alto de uma torre deserta, diante da torre de traficâncias que envilecem o país?

O VERBO E O BACALHAU

E agora, o que dirão os recalcados, os invejosos, os que criticam tudo, sem sequer observar a realidade em volta?

Recorde-se: quando, através do Programa Nacional do Livro Didático do Ministério da Educação, o governo distribuiu no meio estudantil quase quinhentos mil exemplares do magnífico, do inspirador, do seminal livro Por uma vida melhor, os oposicionistas amargurados, os do contra, os que sempre torcem pelo quanto pior, melhor ─ logo acorreram com as mais acerbas críticas.

Agora, decerto como demonstração inequívoca do acerto da iniciativa governamental, o ministro Luiz Sérgio, da Pesca, parece haver passado a rede de arrasto no livro e, semana passada, exibiu o produto de tal pescaria ao discursar na Noruega. Brindou os presentes com palavras inovadoras, segundo registrou o jornalista Ancelmo Gois no último dia 18. Foram autênticos primores da nossa última flor do Lácio, hoje mais inculta do que bela. Quer exemplos?

Você sabe o que significa se basia? É o que antigamente era se baseia.

Você sabe como resolver o problema de uma taixa desfavorável? Talvez baste substituir a palavra por taxa.

Por fim como o Brasil é um país plural e goza de prestígio internacional nas alturas, o ministro não fez por menos: falou em aviãos, talvez novo plural de avião.

O ministro proferiu tais palavras na Noruega, relembre-se. Terá sido excesso de “bacaiau”?

O PALESTRANTE

“Quando se aposentarem, por favor, não fiquem em casa atrapalhando a família. Tem que procurar alguma coisa para fazer.”

“Falar de doença mental não deve ser difícil para ninguém (…) sabemos que o problema não atinge apenas os que já foram identificados como pessoas com algum problema de deficiência, porque a dura realidade é que todos nós temos um pouco de louco dentro de nós. Todos nós. Quem não acreditar, é só fazer uma retrospectiva do seu comportamento pessoal nos últimos dez anos.”

“Estou vendo aqui companheiros portadores de deficiência física. Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, tentando me olhar, mas ele não pode me olhar porque ele é cego. Estou aqui à tua esquerda, viu, Arnaldo! Agora, você está olhando pra mim.”

“Estou otimista porque estamos reduzindo as ‘taxas de interesses’ dentro do Brasil.”

“Se fosse fácil resolver o problema da fome, não teríamos fome.”

“Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”

“Estou com uma dor no pé, mas não posso nem mancar, para a imprensa não dizer que estou mancando porque estou num encontro com os companheiros portadores de deficiência.”

“O objetivo desta competição é conquistar vagas para os jogos paraolímpicos de Antenas (sic), em 2004, nas modalidades basquete, vôlei masculino e feminino e adestramento. E aumentar a quantidade de vagas em atletismo, natação, ciclismo e esgrima. Todos vocês vão competir a uma vaga para Antenas (sic)? E quem é que acha que vai ganhar? Levante a mão aí para eu ver.”

“Um brinde à felicidade do presidente Al Assad”.

“Dois gaúchos se entendem ou não se entendem.”

São, indiscutivelmente, frases antológicas, conquanto deva ser registrado que “tasa de interés” significa, em espanhol, taxa de juros, mas em português não significa absolutamente nada. Absolutamente nada, frise-se. Ademais, quando da proposta do brinde o presidente sírio não se levantou nem ergueu a taça, simplesmente porque os muçulmanos não ingerem bebidas alcoólicas.

Todas as frases acima são da lavra de um dos mais substanciosos e caros palestrantes da atualidade, o senhor Luiz Inácio da Silva, cujas palavras custam, não raramente, algo em torno de US$ 300 mil.

Guarde bem esta edição de A Propósito, pois. Ela vale ouro e não lhe custou absolutamente nada.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa