ALMAS GÊMEAS

São enormes as diferenças físicas, entretanto as coincidências anímicas são tão grandes, que encorajam supor que, nos seus treze anos à frente do Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva haja lançado um modelo de governança. De Donald Trump, contudo, não se pode dizer, haja ele enganado alguém. Ele disse claramente a que viria e como faria.

Em comício de agosto de 2016, por exemplo, um homem se encontrava ao lado do então candidato. Era Nigel Faraje, o homem que – assim ele disse – teria estado por trás do Brexit. E vieram as palavras empolgadas e empolgantes, mesmo se vazias, embaladas nas promessas de independência, decência, enfrentamento dos bancos e da mídia liberal, além do establishment político. Apesar de todos os insultos, bramiu, a vitória lhe pertenceria. E pertenceu.

Isso lembra alguém? Não? Então, avivemos a sua memória.

O candidato era tão prodigioso, que descobriu a existência de pessoas irreais nos Estados Unidos, subtraindo da Inglaterra a condição de país com a mais numerosa população de fantasmas ou “mimando as minorias e desprezando as pessoas reais”.

Agora, era só o que faltava, uma nova manifestação do lulismo invade a vida norte-americana: o novo presidente assevera que a herança recebida do governo Barack Obama, é um caos. Para começar, ele rateou entre o governo anterior, a mídia e os órgãos de inteligência a responsabilidade pela crise que atinge seu gabinete, mas não ficou por aí. “Para ser honesto” – disse ele -, “eu herdei um caos. É um caos. Em casa e no exterior”.

Em casa, queixou-se dos baixos salários e da migração de empregos para o exterior.

Da Imprensa reclamou a distorção de suas palavras.

Quando abordou a política externa, descreveu um cenário de acentuada instabilidade, não importando para onde se olhasse.

Até os setores da inteligência tiveram o seu quinhão. Estariam evitando passar determinadas informações ao novo governo.

Chegado o momento dos autoelogios, claro, afirmou que, graças a ele, é o que se subtende, “empresas de primeira divisão, como Ford e General Motors, ensaiam o retorno ao país”. E concluiu, vaidoso, que nunca antes na … desculpe o equívoco: “Acho que nunca houve um presidente que tenha feito o que fizemos em um período tão curto”, garantiu Luiz… aliás, Donald Trump.

O ESCORPIÃO E A TARTARUGA E A ELEIÇÃO

Conta uma fábula que em uma tarde chuvosa um escorpião estava apreensivo na margem de um rio prestes a transbordar, quando passou por ele uma tartaruga, indiferente à torrencialidade da água. Era ela a salvação! Pediu-lhe, então, que o levasse à outra margem, já que necessitava chegar a casa, mas se tentasse atravessar sozinho morreria afogado.

Eu gostaria de ajudar, escorpião, mas tenho medo que você me pique e eu morra, ponderou a tartaruga.

A resposta do escorpião foi imediata: Por que eu faria isso? Eu morreria também!

Para encurtar a história, o escorpião convenceu a tartaruga a lhe dar uma carona, e assim foi feito. O escorpião subiu no casco da tartaruga e teve início a travessia. Tudo estava indo muito bem, mas a certa altura a tartaruga sentiu uma picada.

Escorpião, por que você me picou? Agora nós dois vamos morrer.

Quase se afogando, retrucou o escorpião:

Desculpe, tartaruga, você foi solidária comigo, mas eu não pude evitar. É da minha natureza.

Semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depondo como testemunha de defesa em processo em que o senhor Luiz Inácio da Silva é réu, afirmou que nenhum presidente tem como saber de tudo que acontece na administração pública. Na referida ação, o senhor Luiz Inácio é acusado de corrupção passiva por supostamente ter recebido de uma empreiteira propina no valor de R$ 3,8 milhões.

Tal valor teria sido pago em forma de benesses, como, por exemplo, a reforma e ampliação do tríplex do Edifício Solaris, no Guarujá, e outra parte no custeio do armazenamento do acervo daquele ex-presidente, segundo o Ministério Público Federal. A outra parte do valor? Ora, teria sido ocultada.

Fernando Henrique Cardoso afirmou ainda que também buscou recursos privados para manutenção de seu acervo, e que os recursos, pequenos, se destinaram a fazer frente a diversas despesas, porque o presidente da República sai de lá, se for correto, sem dinheiro.

Ninguém foi mais fustigado por Luiz Inácio da Silva do que Fernando Henrique Cardoso. Foram 13 anos de uma censura implacável, de acrimônia e de incansáveis tentativas de desconstrução da imagem do sociólogo.

Agora, neste momento em que Luiz Inácio da Silva se vê na margem de um caudaloso Rubicão a ser atravessado, quiseram as artimanhas do destino que as palavras de Fernando Henrique Cardoso possam ajudar Luiz Inácio da Silva a atingir a outra margem. Ou no meio do caminho a tartaruga será picada?

BOLA MURCHA

É dramático o momento em que um jogador de futebol marca um gol na meta que deveria defender. Não há registro de tal momento na vida do craque Neymar Júnior, pelo menos nas quatro linhas do gramado como dizem alguns locutores esportivos, mas nas tantas linhas do cotidiano não se pode afirmar o mesmo.

Menino pobre, seu extraordinário talento no interagir com a bola conquistou aplausos do mundo inteiro, milhões de dólares no bolso e também – decerto impressionada com seus dribles – a preferência de bela atriz global, uma das mulheres mais desejadas do Brasil.

Na vida, no entanto, embora afortunado em proporções generosas é protagonista de suspeita de fraude na transferência para o Barcelona. Uma empresa denominada DIS, autora de processo judicial, argumenta que Neymar ficou com a maior parte da transação, mesmo não tendo direito a qualquer percentagem na negociação. O valor depositado em nome de uma das empresas da família foi nomeado direito de preferência, um expediente para mascarar a transação, razão por que pleiteia que o valor seja rateado entre os donos dos direitos do atleta naquele momento.

Foram 40 milhões de euros, dos quais 10 milhões foram depositados em 2012 à ordem de uma empresa aberta em nome do atleta, e os 30 milhões restantes na conta de outra empresa do jogador.

O fato é que Neymar Júnior e Neymar Sênior repudiam a tese da fraude, alegando que os 40 milhões de euros se referem a comissão e direitos de imagem. Tanto para a Justiça brasileira como para a espanhola, no entanto, tais pagamentos foram mera manobra para driblar o fisco e os então donos dos direitos econômicos, quais sejam o Santos, a DIS e a Teísa.

E o craque, o que diz? Diferentemente dos dribles desconcertantes que dá no gramado, só diz não sei, não sei, não sei, além do que, alega, assinava o que o pai – a pessoa em que ele mais confia, que tem total liberdade para fazer o que quiser com a sua (dele) vida, pedia para ele assinar. Não me recordo porque nunca me meti no contratos, nem no que se passava na minha carreira, que é o meu pai que sempre cuida de tudo da melhor forma possível. Eu faço o que ele me diz, assevera.

Então, já que o craque não interfere nos contratos, como assegurou que os 40 milhões de euros se referiam a comissão e direitos de imagem?

Gol contra!

PLANO DE SAÚDE, HAJA CORAÇÃO!

Saúde, no Brasil, conquanto um iluminado então presidente da República haja dito estar à beira da perfeição, em verdade está a cada dia mais doente. Exceto os casos, claro, dos que, nunca por conta própria mas quase às expensas do dinheiro público, contam, a tempo e a hora, com os melhores hospitais e as mais avançadas terapias.

Há anos, a assistência pública era deficiente, mas em nada comparável à atual. Foi aí que progrediu a boa assistência médica representada pelos planos. Hoje, não obstante as bravatas dos governantes, o país é um imenso INSS, mesmo para o que pagam caro pelo plano de saúde e a quase nada têm direito.

Precisa de uma consulta? Só daqui a trinta dias. É urgente? Não há problema: paga a consulta e é prontamente atendido. E ainda tem direito a reembolso, mas com um detalhe: o reembolso equivale, em média, a 10% do valor pago pelo usuário.

E o governo, o que faz? Nada, salvo vociferar. E a ANS? Vez por outra aplica punições inócuas, como suspender temporariamente a comercialização de três centenas de planos sem expressão, quando a tendência do mercado é determinada pelos grandes, ora.

Vivêssemos em um país sério, poderia ser criado um adicional sobre a contribuição previdenciária exclusivamente para a saúde, que, pelos ganhos de escala, teria como oferecer bons serviços e pagar dignamente aos médicos. Isso, é óbvio, não passa de uma ilusão, porque logo a política criaria um cabide de empregos que em pouco tempo nivelaria tudo ao INSS.

Em 2016 os planos de saúde perderam 1,37 milhão de pessoas, com maior incidência no Sudeste, onde 1,1 milhão de pessoas (79,9% do total do país) abandonaram os planos. Apenas em São Paulo, o estado mais rico da Federação, 630,3 mil beneficiários debandaram.

No também rico Sul, foram quase 100 mil beneficiários a menos, no Centro-Oeste, 43 mil e no pobre Nordeste 104 mil vínculos rompidos.

Os porta-vozes dos planos afirmam que os números negativos decorrem da macroeconomia desfavorável, por certo esquecidos de que também conta o fator desserviço.

A propósito, haja coração!

A IMIGRANTE

A partir desta sexta-feira, Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, dormirá com a incômoda sensação de haver um tertius em sua cama. Não será a beleza de Melania Trump, mas serão as promessas de campanha clamando que se querem ver realizadas.

Pela ameaça de fechar fronteiras, o mundo inteiro torce contra, mas pelo menos por uma delas, pelo menos uma das medidas anunciadas durante o período eleitoral, todos os homens sensíveis torcem fervorosamente a favor. Diga-se, a bem da verdade, que a querem ainda mais rigorosa. É aquela que trata do problema dos imigrantes ilegais. O clamor mundial é para que ela confronte não só os imigrantes ilegais, mas todos os imigrantes, legais ou não. Pode-se até fazer uma campanha “Os Estados Unidos só para os norte-americanos” mas, para começar, como justiça, para ser boa, deve começar em casa, que ele expulse do país, imediatamente, uma bela mulher chamada Melania Trump.

Ora, ela veio da Eslovênia, e não tem nenhum ancestral norte-americano, sendo, portanto, estrangeiríssima. Tem mais. Essa forasteira amputou das americanas a chance de casar com um bilionário de ideias estapafúrdias, mas mesmo assim bilionário. Não seria uma refinada estratégia de evasão de prestígio das sobrinhas do Tio Sam? E logo nos Estados Unidos, onde mulher é ficha valiosa no jogo político?

Quer saber de uma coisa? A ficha parece ter pouco peso no cacife político estadunidense, e tanto isso é plausível, que por orientação do próprio Donald Trump ela não dá entrevistas e raramente aparece, como que não querendo atrair a atenção do operoso Departamento de Imigração dos Estados Unidos.

O pior é que quando se pensa estar tudo acabado, surge mais um fato, este capaz de nos deixar de olhos arregalados. Literalmente. Ela já posou nua! Imagine você 1m80 de beleza emoldurada por cabelos louros e profundos olhos azuis, absolutamente sem roupa. Agora, só como exercício mental, imagine uma situação de conflito norte-americano com algum país. Todo o formidável aparato bélico da nação americana será subjugado sem que se dispare sequer um tiro. Bastará lançar as tais fotos sobre as tropas, e logo a beligerância dará lugar à fantasia.

Trata-se, está demonstrado, de uma mulher de alta periculosidade, diante do que o mundo inteiro roga que o presidente Donald Trump cumpra a promessa eleitoral. Não precisa, contudo, expulsar os imigrantes. Basta expulsar a imigrante. A ela, decerto não faltará apoio. Este comentarista oferece, desde já, casa, comida, roupa lavada…

Donald e Melania Trump

INSEGURA SEGURANÇA

Os jornais brasileiros deveriam ser rubros, já que das suas páginas, fieis espelhos de uma realidade terrível, jorra o sangue que faz da nossa segurança um mero verbete. De tão calamitosa, muitas vezes a verdade se torna mais risível do que trágica.

Há algumas semanas, por exemplo, quatro presidiários fugiram de uma prisão de segurança máxima em Pernambuco, inaugurada havia menos de um ano.

A fuga, por si, já é absurda, mas a maneira como ela aconteceu é absurdo maior.

Os fugitivos, pasme, fizeram um rombo na parede, valendo-se de uma estaca. Será a tal estaca portadora de tecnologia tão avançada que, como tal, não gera barulho? Como é possível que pessoas arrombem uma parede de um presídio de segurança máxima e ninguém veja nem ouça nada? Se é assim, o que dizer das outras?

Ora, se por aqui as prisões são tão vulneráveis, por que não fazer como a Indonésia, que está prestes a construir uma cadeia exemplar? Será situada em uma ilha artificial e os guardas serão absolutamente indiferentes ao diálogo e terminantemente incorruptíveis. Serão crocodilos, os mais ferozes existentes na face da Terra.

O Brasil, aliás, pode fazer melhor e nem precisa de crocodilos. Aqui temos já prontas algumas ilhas que bem poderiam ser utilizadas para tal. Poderia ser a Ilha da Trindade, com seus 2,5 km² de área emersa em meio ao Atlântico, que até água potável tem, e em abundância, brotando de diversas fontes. Somente a fonte principal possui vazão estimada de 230 mil litros por dia.

Tem mais: a ilha é o último vestígio do Brasil, perdida na vastidão do Atlântico, o nosso ponto mais distante do continente.

Bem, voltando ao assunto das fugas, já deu para notar que na Trindade os crocodilos seriam absolutamente dispensáveis. Primeiro, porque é grande a presença na área de tubarões e de um peixe chamado cangulo preto, dono de uma voracidade equivalente à da piranha.

Além do mais, o condenado tem que ser um inacreditável nadador, para enfrentar a distância até o continente. São mais de 2 mil quilômetros.

UMA QUESTÃO DE PESO

Moradoras do zoológico de Buenos Ayres há mais de vinte anos, Mara, Kuki e Pupi, devidamente representadas por uma ONG de combate aos maus-tratos aos animais constituíram advogado para litigar contra o já adiantado estágio da transformação daquele local em um ecoparque.

Não é uma Lei Maria da Penha para animais, esclareça-se, mas a verdade é que a Justiça argentina acatou a tese de que “Os animais têm direitos e estes devem ser respeitados pelo homem, e por sua vez a proteção destes direitos deve ser também representada pelo homem”, neste caso o presidente da ONG. A proposição, acrescente-se, ficou robustecida depois do caso do orangotango fêmea Sandra, cujos direitos como sujeito não humano foram acatados pela Justiça daquele país.

Por falar em orangotangos e elefantas, é estarrecedor o que vem a seguir: um orangotango fêmea de nome Pony foi encontrada deitada e perfumada em um prostíbulo em Bornéu. Pony é, pasme, mais uma vítima da escravidão sexual de animais naquela região da Indonésia.

Enquanto isso, os elefantes continuam a ser imolados, mercadorias que são do quarto negócio ilegal mais lucrativo do mundo, o de matar aqueles portentosos animais. Estima-se que cerca de 30 mil elefantes são abatidos por ano, já que aqueles corpanzis dificultariam decididamente o exercício da mais antiga das profissões. Traficar marfim só perde para o tráfico de drogas, de seres humanos e do comércio de armas, proporcionando lucros da ordem de 20 bilhões de euros anuais.

A propósito de animais, os vereadores recifenses Ricardo Cruz e Romero Albuquerque estão de parabéns. Eles propuseram o projeto Socorro Animal, a criação de uma unidade móvel de castração de animais, a ampliação do Samu-Animal e a criação de um Centro de Recuperação para Animais Socorridos.

Merecem elogios, sim, contudo se roga aos senhores vereadores que se lembrem de que os homens também são animais, embora ditos, muitas vezes equivocadamente, racionais. Aliás, se como avaliou Antônio Rogério Magri, o controverso ex-ministro do governo Fernando Collor, cachorro também é gente, a conclusão óbvia é que gente também é cachorro. Logo, aquela gente que está nos sinais – jovens, velhos, crianças e adultos – têm carências de alimentos e de abrigo, e por eles um dia serão capazes de latir, miar, rugir, barrir, bramir…

A SUPERLOTAÇÃO DE PRESÍDIOS PODE ACABAR

Os meios de comunicação se encontram, mais uma vez, encharcados de sangue. Desta, a tragédia aconteceu em uma prisão de Manaus, resultando no tenebroso saldo de 56 mortos por decapitação, esquartejamento e incineração.

Parece filme de terror mas, infelizmente, é pior. E, pior ainda, é realidade antiga. É resultado da permissividade em que apenados comandam seus negócios, obviamente ilegais, usam celulares, produzem bebidas e desfrutam outras regalias. Ademais, com as celas superlotadas, o espaço pessoal é solapado, ajudando a aumentar a tensão. Só para lembrar, espaço pessoal é aquela área ao redor do corpo que, normalmente, só permitimos que poucas pessoas ultrapassem É claro que, quando esse espaço é invadido, sem permissão, as pessoas geralmente reagem com mal-estares que logo acendem os estopins das guerras dos bandos de apenados.

Para o problema da superpopulação carcerária, porém, há remédio, sim, e ele está no Arizona, Estados Unidos, onde há cerca de 10 anos, o xerife concebeu uma prisão-acampamento. Em linhas gerais e em uma descrição simplista, a prisão-acampamento consiste em um conjunto de tendas de lona, cercadas por arame farpado e vigiada fortemente por guardas, como ocorre numa prisão normal.

Ali o regime é duro, advirta-se. Se, por um lado, o preço da refeição, que os detentos pagam, foi reduzido, proibiram-se o fumo, a circulação de revistas pornográficas dentro da prisão e a prática do halterofilismo. Em vez disso, prestam serviços à comunidade, trabalhando nos projetos municipais.

Comandada por Joe Arpaio, o rigoroso xerife daquele estado, na prisão-acampamento os detentos usam uniformes cor-de-rosa, e quando reclamam ouvem que os soldados norte-americanos no Iraque onde a temperatura atinge 120°F ─ o equivalente a 50°C, vivem em tendas iguais a eles, os presidiários, e ainda tem de usar fardamento, botinas, carregar todo o equipamento de soldado e, com todo esse esforço, não cometeram nenhum crime, ao contrário deles, e que, diante daquela constatação, calem a boca, parem de reclamar..

Agora, uma pergunta: qual é o problema de construir prisões como essa, de baixo custo, também no Brasil?

Claro que muitas vozes se alevantarão reputando as prisões-acampamentos como masmorras medievais, desumanas e outras qualificações. Será então o caso de se fazer mais uma pergunta: Qual seria a cadeia mais primitiva: a do Arizona, em que os sentenciados têm direitos, inclusive o direito elementar ao espaço íntimo, ou as cadeias brasileiras, tal qual a manauense, onde morreram 56 pessoas?

A superlotação de presídios pode acabar, sim. Basta que as autoridades queiram.

1º DE JANEIRO

Enfim, 2016 se foi. E não deixou saudade. Nem um pouco. Tampouco recordações agradáveis. Pelo contrário, deixou a lembrança amarga de dias conturbados sob todos os aspectos, sejam eles apreciados do ponto de vista da política, da economia, da moral e até da natureza, graças a El Niño – nome escolhido pelos pescadores para homenagear o Menino Jesus, já que, pela vontade dele, creem, as águas peruanas ficam repletas de peixes.

Já por estas bandas, El Niño deixa a seca impiedosa, a fome, a sede, a indiferença ao sofrimento de seres humanos sem eira nem beira e sem nenhuma importância política, econômica ou social, exceto durante as eleições.

El Niño, aqui entre nós, bem que poderia chamar-se, apropriadamente, El Diablo.

Deixe-se, no entanto, a amargura de parte. Primeiro dia do ano é, desde ontem, ao som do espoucar das rolhas de champanhe e ao sabor do néctar farto, o mundo se enche de esperança. Para o Brasil, diga-se, tão necessitado dela, já que talvez nem mais a tenha, exatamente pela carência tão agravada, o ano-novo, mais do que um congraçamento é um gerador de promessas para o ano novo.

A noite de 31 de dezembro é, pois, a noite em que se vai deixar de fumar, de beber excessivamente (embora naquela noite a ingestão seja homérica), de dormir tarde da noite, de de, de…

Há algo, porém, a ser considerado. Apenas 8% das promessas para o ano novo sobrevivem até o próximo ano-novo.

Os que fazemos A Propósito também fizemos uma promessa. A de, na modéstia de nossos meios, continuar denunciando, criticando, objurgando o que lhe pareça desleal para com os legítimos interesses da sociedade, salvo acontecimento de ordem superior.

Feliz ano novo, pois.

RENAN E RENÂNIA

Esclareça-se, desde já, que não se trata de dupla caipira, mas de reflexões à luz da história.

Corria o ano de 1936, quando em um indesculpável desrespeito a um acordo então vigente, as legiões de Hitler ocuparam a Renânia. Pelo que estabelecia o tal acordo, a Alemanha não só reconhecia a inviolabilidade das fronteiras definidas no Tratado de Versalhes, como se comprometia a não modificar o tratado pela força, recorrendo, sempre que necessário, a arbitragem internacional. Naquela quadra da história, o ditador ainda era poderoso. Muito. Subjugava o mundo.

Ontem, transcorridos oitenta anos da invasão nazista, legiões de brasileiros armados de faixas, cartazes e gritos de guerra, decidiram, patrioticamente abrir mão do conforto dominical para invadir as ruas do País e protestar veementes, contra o Renan – Calheiros – desrespeitador do pacto que o levou à senadoria.

Pacto? Sim, pacto. Uma troca de voto por um trabalho devotado ao bem do povo. Afinal, quando ainda candidatos eles prometem paz, harmonia, trabalho incansável, honestidade, defesa intransigente dos interesses do povo e outras platitudes.

Mas como entender seja de interesse do povo reduzir o poder investigatório dos procuradores do Ministério Público? Como imaginar seja de interesse do povo que desvios inferiores a R$ 8.800.000,00 confiram certa leniência para o ator do desvio? Que interesse têm para o povo, as regalias, as mordomias, os luxos, os privilégios? Como beneficia o povo a ação parlamentar a soldo de empresas, quando tal esforço deveria estar voltado para uma megaempresa de mais de 200 milhões de acionistas chamada Brasil?

Não, os interesses do povo são outros. São aqueles, exatamente eles, desfiados ao longo das campanhas. O problema é que uma vez contados os votos, as promessas são atiradas ao vento.

Hitler, naqueles dias, ainda era poderoso, e tudo o que dizia soava como verdade aos ouvidos de um povo hipnotizado pelo seu discurso.

Não se trata de estabelecer comparações, mas o senador ainda é poderoso, conquanto o seja menos do que há algum tempo. O povo, por seu turno, antes histórica e musicalmente deitado em berço esplêndido, aprendeu que sua voz, quando tonitruante, é ouvida. E temida.

Ontem, foi um dia. Só mais um dia, e a indignação popular vai crescer a cada ocaso, a cada alvorecer.

E a quem não quiser ouvir sua voz restará o lixo da história.

OS LOBOS E O FUTEBOL

Uma velha história atribuída aos índios norte-americanos se constitui, em verdade, uma inesquecível lição de vida. Segundo se conta, ao se sentir injustiçado um jovem índio passou a ter um comportamento hostil aos demais integrantes da tribo. O cacique, então, lhe ensinou que dentro das pessoas há dois lobos em disputa para lhe possuir o espírito. Um deles é mau. É tomado pelo despeito, pela raiva, pela inveja, pela arrogância. Enquanto isso, o outro lobo é manso, alegre, sereno, bom, generoso.

Qual deles vence? – teria perguntado o jovem hostil.

O que você alimentar, teria sido a resposta.

Pensando bem, o futebol parece ter dois lobos dentro de si. Um, o que tem se revelado mais forte, é feito de brutalidades. Dentro do campo, jogadas desleais, pancadaria, ofensas… e fora dele, tudo isso e mais as verdadeiras batalhas campais que são as brigas de torcidas que não raramente resultam em morte.

Ainda bem que, de vez em quando, o lobo bom prevalece.

Agora mesmo, ante a brutal tragédia que abate não só sobre o Chapecoense, mas sobre o próprio futebol, os jogadores do Atlético Nacional, o clube colombiano que disputaria a Copa Sul-Americana com o clube brasileiro, deram uma comovente demonstração de grandeza, pedindo à Conmebol que declare o Chapecoense campeão. Querem, além disso, que o prêmio pelo título seja revertido para as famílias dos que morreram no acidente aéreo na madrugada de ontem.

Mais ainda, convocou seus torcedores a comparecerem ao estádio, hoje, no horário em que a partida seria disputada, vestindo roupas brancas e carregando velas. No site oficial do clube, o Atlético Nacional afirma De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeão da Sul-Americana de 2016.

De nossa parte, e para sempre, o gesto do Atlético Colombiano jamais se apagará do nosso coração.

MACACOS ME MORDAM!

No filme O planeta dos macacos, astronautas passam séculos viajando pelo tempo e, ao sair do estado de hibernação em que se encontravam, se dão conta de que se encontram em um planeta dominado por macacos, onde os humanos são meros escravos.

Pois parece que de algum tempo para cá, os humanos têm como ir à desforra, como você verá mais adiante.

Primatas, sabe-se, fazem contas, cozinham e sabem usar ferramentas. Recente estudo feito no Piauí por pesquisadores da Universidade de Oxford, inglesa, e da Universidade de São Paulo, demonstrou que eles também constroem ferramentas, com destreza física e mental.

Não é de duvidar, pois, que nestes tempos bicudos surja alguém pensando em aproveitar o imenso contingente de mão de obra que se oferece, sem justificativa para custos de INSS, FGTS e quejandos. Aliás, correto é dizer que não se deve duvidar que ressurja. É o que você leu: ressurja.

Em verdade, a ideia não é nova, ao menos fora do Brasil. Em novembro de 1960, nos Estados Unidos, três chimpanzés se apresentaram para ocupar seus postos de trabalho na Superior Furniture Manufacturing Company, para substituir dois funcionários da empresa. Os prendados chimpanzés passaram a cumprir a jornada laboral de oito horas diárias, como os humanos. Segundo a convicção do dono da empresa, Ben Friedman, sob a supervisão de um funcionário humano eles fariam satisfatoriamente o trabalho de limpar almofadas, embalar camas e colocar os pés nas cadeiras. O intervalo para o almoço seria de uma hora, e a alimentação basicamente constituída de bananas e verduras.

Macacos, pensando bem, não fazem pausas para o cafezinho, como os funcionários comuns; não chegam para trabalhar deprimidos porque o time do coração perdeu ou de ressaca porque ele ganhou; e não fazem questão de dinheiro, satisfazendo-se plenamente com uma apetitosa penca de bananas.

Vivam então os macacos!

Pensando bem, teria sido muito bom se eles houvessem sido diretores da Petrobras. O petrolão, por exemplo, não teria acontecido, já que macacos, indiferentes que são a dinheiro, não seriam receptivos a propinas.

Você pensa, então, que neste caso o petrolão não teria existido?

Ledo engano. Os corruptores os subornariam com bananas deliciosas.

HISTÓRIA DE ONTEM, HISTÓRIA DE HOJE

Em junho de 1964, início do ciclo militar, uma frase entrou para se perpetuar na história brasileira. Foi proferida pelo político e, naquele momento, embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães. Para uns ali estava a demonstração inquestionável de que a direita brasileira era nada menos do que simples executora dos interesses norte-americanos na região.

Era, de fato, uma frase infeliz, carregada de subserviência, inaceitável como resposta de um diplomata brasileiro que, naqueles dias, assumia a mais importante embaixada do país, porém não estava reproduzida integralmente. O Brasil fez duas guerras como aliado dos Estados Unidos e nunca se arrependeu. Por isso eu digo que é o que bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, teria sido a resposta completa, embora não elimine a submissão. Até o embaixador americano no Brasil, naquela época Lincoln Gordon, evitou tecer comentários negativos, embora em particular a considerasse efetivamente infeliz.

O detalhe é que a sentença não é da autoria de Juracy Magalhães, mas de um diretor da General Motors. Corria o ano 1946, quando Charles Wilson, comentando uma atitude do respeitado Alfred Sloan, dirigente da empresa de 1923 àquele ano, que era intransigente opositor das políticas definidas pelo presidente Franklin Roosevelt. Ele acreditava firmemente na frase What was good for our country was good for General Motors – and vice versa.

Por que essas palavras tão antigas vêm à baila nestes dias em que os Estados Unidos vivem a surpreendente vitória eleitoral de Donald Trump sobre Hillary Clinton?

Responda-se com outra pergunta: como pôde Hillary Clinton, política de grande experiência, apoiada por Barak Obama, um presidente com apreciáveis índices de popularidade e, além de tudo, esposa de Bill Clinton, um dos mais aprovados presidentes da história norte-americana, perder para um incipiente?

Propõe-se, então, a releitura da frase atribuída a Juracy Magalhães: se o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, ao menos como mera paráfrase pode-se dizer que o que é ruim para o Brasil será ruim para os Estados Unidos.

A propósito: terá sido por isso que Hillary Clinton perdeu? Como os norte-americanos sabem muito bem, a experiência brasileira foi traumática.

CARÍSSIMA EX-PRESIDENTE,

Como vai a vida na planície? Embora sem as regalias do Planalto continua a ser nababesca, não é mesmo? Ou quase. Não tem avião exclusivo para flanar mundo afora quando e a que horas bem entender, mas sempre arranjará uma forma de voar à custa da sociedade. Não tem um exército de serviçais, é verdade, mas tem, aquiesça-se um batalhão. Não tem os sabujos para lhe massagear o ego, mas tem tempo para refletir sobre a efemeridade do poder. Por falar nisso, caríssima ex-presidente, como está o Bessias? Ele continua sendo o seu estafeta predileto? E o cartão corporativo, como é a vida sem ele, sabendo que no fim do mês a fatura vem em seu nome?carta

A vida na planície é dura, ex-presidente Dilma Rousseff, e a senhora pode se considerar uma mulher de sorte. Sim, de sorte, já que durante seis anos, se manteve incólume, exercendo o cargo mais importante da República. Faltava-lhe, no entanto, aquilo que os franceses chamam physique du rôle. Houvesse a senhora presidido uma grande\ empresa, não se manteria no cargo por mais de um ano. No Brasil, foi obra de muito tempo, para deixar um rastro de terra arrasada, e ainda é premiada por isso. Guarda-costas, motorista, salário mensal de quase 70 mil reais, isso sem contar com sua entourage política, que custa aos cofres públicos nada menos do que R$ 1,2 mensais.

Como se constata, caríssima ex-presidente, seu legado foi de inflação, recessão, desemprego para 22 milhões de brasileiros e todos os males que lhes são inerentes. Quanto ao que a senhora herdou, não lhe deixaram motivo para reclamar. Já quanto ao que legou…

De súbito, aflora à lembrança uma passagem na vida do poeta Antero de Quental. Expoente do romantismo, ele divergia do também poeta Antônio de Castilho, defensor intransigente do realismo. Certa feita, em um encontro indesejado por ambos, disse-lhe Antero de Quental: Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador nem respeitador.

Mudando o que deve ser mudado…

TELEFONE PARA VOCÊ

Um conselho: se você puder, não atenda. Trata-se de um daqueles telefonemas carregados de más notícias, de coisas desagradáveis. O pior é que mesmo assim, não há como fugir delas.oi

Sabe quem está seriamente doente? A Oi. Sim, ela mesma, aquela que adquiriu uma participação de 37% na Gamecorp, uma minúscula empresa pertencente a um dos talentosos filhos do senhor Luiz Inácio da Silva. Não por acaso, é o filho tido pelo pai como “o Ronaldinho dos negócios”. Foi um golaço, reconheça-se.

Mas voltando à Oi, a empresa está sufocada por uma dívida da ordem de 65 bilhões de reais, em sua maioria composta por recursos públicos. Só à Anatel, o maior credor, são 10 bilhões de reais! Para pagar, a Oi, que já declarou não possuir meios para tal, propõe fazer um programa de investimento em melhoria dos serviços, o que, trocando em miúdos, é modernizar-se à custa do dinheiro da sociedade.

Ao BNDES, a proposta é de uma moratória, começando a amortizar o débito dez anos depois.

Quanto ao Banco do Brasil e a Caixa Econômica, a oferta é a conversão do débito em papéis que três anos depois, só depois de três anos, frise-se, serão convertidos em ações da Oi, obviamente.

O que você tem a ver com isso? Quer saber, mesmo?

É que se o tal plano der certo, se for aceito pelos principais credores a Anatel e os bancos públicos deixarão de receber 12 bilhões dos 20 bilhões de que são credores.

Você ainda insiste em perguntar o que tem a ver com isso?

Vai saber. Nós. Você, eu, nossos parentes, nossos amigos e quem mais você pensar. Dos tais 20 bilhões de reais, 12 bilhões vão doer no nosso bolso.

A propósito, diante disso a Oi deveria mudar de nome. Não mais Oi, substituindo-o por Ui.

Ui Telecomunicações.

UM DESONROSO QUARTO LUGAR

É conspiração internacional para desqualificar o petismo: o Brasil foi claramente prejudicado pelo Fórum Econômico Mundial, ao ser classificado como menos corrupto do que o Chade, a Bolívia e a Venezuela. Absurdo. Entre 168 países, o Brasil ficou na 164ª posição! Em outras palavras, querem dizer que somos corruptos incompetentes?brasil-quarto-pais-mais-corrupto

Cabe protesto ou não? Veja você que o Chade é um país perdido nos confins de África, de que possivelmente você nunca ouviu falar, e pouco tem para ser apoderado. A Bolívia, por seu turno, é aquele vizinho “muito amigo” que, com a subserviente complacência do então presidente Luiz Inácio da Silva nos tomou duas refinarias de petróleo. Quanto à Venezuela, a maravilhosa Venezuela, o paraíso bolivariano onde falta tudo, chegando ao ponto de faltar papel higiênico, certamente porque o povo está comendo mais e, consequência do empanzinamento, impõe trabalho dobrado ao sistema digestivo para produzir mais e mais escatológicos hugos chavez e nicolás maduros.

Pense bem: como é possível três países como esses superarem o nosso querido Brasil, que tem sob investigação, sob processo ou na cadeia um ex-presidente da República, o presidente do Senado; um país que destituiu e cassou o mandato dos presidentes da República e da Câmara; e mais senadores, ministros, empresários, tantos que seria exaustivo enumerar.

A atuação do Fórum Econômico Mundial lembra a Copa do Mundo de 1978, da qual fomos eliminados, mas como disse o treinador Cláudio Coutinho, fomos os campeões morais.

Pensando bem, somos os campeões morais. Ou melhor, imorais.

TREINO É TREINO, JOGO É JOGO

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Valdir Pereira, o Didi (Out/1928 – Mai/2001)

Essa frase é atribuída a um cidadão chamado Valdir Pereira. Talvez você não o conheça pelo nome, mas talvez o conheça pelo apelido: Didi, um dos nomes de ouro do futebol brasileiro. Basta dizer que ao lado dele, na então bicampeã mundial Seleção Brasileira (1958 e 1962), jogaram craques como Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Amarildo…

Para sintetizar, Didi, dono de invulgar elegância em campo e referido pela imprensa europeia como o Senhor Futebol, o maior craque brasileiro até surgir Pelé, não costumava dar tudo de si nos treinamentos e justificava:

– Treino é treino, jogo é jogo.

Embora sem o talento e sem a legião de fãs de Didi, convém lembrar ao presidente Michel Temer que o treino – os meses de afastamento da senhora Dilma Rousseff -, acabou. Agora é jogo. Jogo duro. Duríssimo. E não basta atacar somente a economia, uma espécie de meta escancarada com o goleiro no chão. Há muito jogo a ser jogado, mas para chegar à vitória há que ter talento e determinação, enfrentando com coragem as caneladas dos adversários que, eles já prometeram, são inevitáveis.

Didi foi o inventor do chute folha seca, em que ele fazia a bola girar e deslocar a trajetória, enganando o goleiro adversário.

Sugere-se ao senhor presidente, encontrar soluções que possam insculpir o seu nome na história deste tão vilipendiado país, porque, afinal, o treino acabou. É hora de jogar, e já estamos no segundo tempo. Não vale fazer firula.

CUIDADO COM O CHORO FÁCIL

O Brasil está ansioso para conhecer o resultado do julgamento da senhora Dilma Rousseff. Alguns assessores a instruíram a chorar, enquanto seu mentor, senhor Luiz Inácio, recomendou o insulto, caso em que irá acelerar o impeachment.dch

Imaginando que se ela ainda não chorou, chorará, eis alguns excertos de um texto do poeta e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar:

O choro é uma arte. Uma obra-prima. Uma Pietà de Michelangelo (…). Mas, como toda escultura, é cheia de réplicas e falsificações.

Desde bebê aprendemos a fazer manha para ganhar as coisas.

Perdemos a autenticidade das lágrimas. A cobiça nos distanciou da verdadeira dor(…).

Desejando prevenir a população da ação dos impostores, estabeleço mandamentos para identificar e reprimir o estelionato emocional:

1 – O choro depende de soluço. É um engasgo precioso. Choro sem soluço é poço sem roldana. Trata-se de um motor respiratório para atravessar o vale de lágrimas. Numa visão gramática da tristeza, o soluço é a vírgula e o gemido é o ponto final. São pausas fundamentais que garantem o suspense: parece que o sofredor vai falar, mas ele se cala.

2 – O choro sincero é um miado. Não conseguiremos decifrar o que a pessoa disse. As palavras são completamente ilegíveis.

3 – O rosto ficará vermelho, inchado, como um ataque de abelhas-africanas.

4 – O sofredor não vai encarar o outro de modo nenhum, não se chora de cabeça levantada, isso é coisa de novela e de colírio. O choroso estará acovardado, de boca aberta, já que não consegue respirar.

5 – O choro é pontual, surge no meio do trabalho, no meio da aula, relâmpago incontrolável.

6 – Mulher nunca chora sem estar pintada. É regra básica, para borrar feio e oferecer espetáculo. Mulher chorando de cara limpa é farsa.

7 – Se você usa lenço ou papel higiênico para limpar o nariz, está mentindo: quem sofre mesmo assoa o ranho na manga da camisa, e não se importa com os botões.

8 – O choro é como orgasmo. Não admite discurso depois. Aquele que aproveita o choro para passar sermão é apenas um chantagista.

Mutatis mutandi, são conselhos rigorosamente aplicáveis ao julgamento de hoje.

ECOS SENATORIAIS

Tanto quanto seja possível fazer tal afirmação, em 1787 o Brasil já possuía -uma economia organizada e os ideais libertários eram intensos. No mesmo ano, os primeiros colonos ingleses chegavam à Austrália.

Hoje, como um doente crônico, nossa economia segue instável, não obstante os discretos sinais de melhora. Já a economia da Austrália, diferentemente da do Brasil, é considerada estável. Como o Brasil, o país é rico em minerais, tem na agricultura e no turismo polpuda receita, mas diferentemente do nosso país tem uma indústria que cresce ano a ano, agora mais acentuadamente, já que os australianos sediam filiais das grandes multinacionais para, fazendo da Austrália uma base logística, invadir os mercados da Ásia e da Oceania.

Entrementes, no Brasil, o assunto do momento é o impeachment da senhora Dilma Rousseff, presidente afastada da República. Afastada, mas apegada ao poder como craca ao casco de uma embarcação. Pior ainda, é que a discussão do afastamento, especialmente o definitivo, abandonou, há muito, os limites da racionalidade, para se transformar em uma discussão indigna do ambiente.rel

– Quem aqui tem moral para julgar Dilma? – indagou, expelindo fogo pelas narinas arrebitadas, a senadora Gleisi Hoffmann, e a resposta veio irônica, do senador Ronaldo Caiado, aludindo ao marido da senadora, Paulo Bernardo, ex-ministro do governo Luiz Inácio da Silva:

– Mas não fui eu quem roubou os aposentados….

Já o presidente da casa, senador Renan Calheiros, enraivecido com o senador Lindbergh Farias, aplicou-lhe um forte empurrão, e a ela, Gleisi Hoffmann, lembrou que usara a influência do seu cargo para evitar que ela e o marido fossem presos.

Em síntese, pelas palavras da senadora nenhum dos presentes, merecia r espeito. Nem a própria, tanto que disse não haver ali ninguém com estofo moral para julgar a senhora Dilma Rousseff.

Agora, pensemos juntos: naquele 1787, os primeiros barcos trouxeram criminosos condenados a sete anos de degredo, com a Inglaterra fazendo dali, durante muitos anos, nada mais que uma colónia penal.

Intrigante é que cumprida a sentença, os malfeitores decidiram não voltar, passando, tempos depois, a ser políticos, juízes, delegados… praticando, enfim, todos os atos inerentes a uma democracia.

Resta algo intrigante: por que os da Austrália deram certo e os nossos, não?

ENFIM, A OLIMPÍADA BRASILEIRA

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Neste 5 de agosto tem início a acalentada olimpíada brasileira. Mesmo levando em conta a renhida disputa esportiva que se avizinha, há que se considerar ser uma olimpíada acontecimento grandioso a unir os povos em torno do ideal olímpico. Sabe-se, contudo, que em verdade o importante não é competir, mas ganhar as cobiçadas medalhas.

Em uma modalidade, porém, já começaremos perdedores. Às vésperas da chegada de povos de todos os continentes, a cantora Preta Gil foi mais uma vítima do racismo camuflado que vige no país. Pergunta-se, então: o que fazer com os negros estrangeiros que aqui estarão disputando com os brancos – e inúmeras vezes vencendo – as tão cobiçadas medalhas? Aliás, as modernas olimpíadas têm demonstrado cabalmente que a cor da pele, é só uma questão de mais melanina ou de menos melanina. Nada mais.

Jesse Owens, Carl Lewis, Muhammad Ali, Adhemar Ferreira da Silva e o velocíssimo Usain Bolt têm pelo menos duas coisas em comum: todos são ganhadores de medalhas de ouro em olimpíadas, todos negros.

E daí?

Daí que na Olimpíada de 1936, em Berlim, Adolf Hitler pretendia mostrar ao mundo a supremacia da raça ariana. Arrogante, não considerava que os demais disputantes pudessem enfrentar seus semideuses louros de olhos azuis. Sequer desconfiava que Jesse Owens, um negro norte-americano, iria pôr água no chope nazista. Foi aí que aconteceu o pior. Como você sabe, Jesse Owens ganhou, simplesmente, as provas dos cem metros rasos, de salto em distância, dos duzentos metros rasos e da corrida de revezamento, em que os alemães eram francos favoritos. E como se fosse pouco, além de conquistar as medalhas, estabeleceu recordes mundiais nas provas dos duzentos metros e no salto em distância.

Nesta olimpíada muita emoção no espera, esperando, por outro lado, que a emoção não dê lugar à discriminação. Afinal o Brasil é um país de louros, negros, pardos, morenos, cafuzos, mamelucos…

Pensando bem, somos todos verde-amarelos.

BONITO, GRAFITE

GRAFITE

Raramente, o futebol apresenta partidas marcadas pela polidez. Dentro ou fora do campo. Fora, as torcidas se engalfinhando e a diversidade de desinteligências que, algumas vezes, terminam em morte. Dentro, não são raras as jogadas desleais.

Ainda bem que o futebol não é feito só dessas coisas. Há, por exemplo, uma passagem que enobrece o futebol mundial. A certa altura de uma partida, um jogador sofreu uma falta e o adversário, com fair play, pôs a bola para fora, de modo que o adversário tivesse atendimento médico. Tudo bem, isso é comum, acontece em todo o mundo, você deve, com razão, estar ponderando. Acontece que, jogador atendido, problema sanado, ocorreu a devolução da bola ao outro time, como também é comum. Só que a bola ficou fora do alcance do goleiro, resultando em gol, que não foi comemorado. Pelo contrário, a consternação foi geral.

O goleador, claramente constrangido, desculpou-se, mas havia um fato concreto: o adversário sofrera um gol por ter sido cortês. A compensação foi imediata. Não tardou nem faltou. Bola no centro do campo, reiniciada a partida nenhum jogador do outro time, do goleiro ao ponta esquerda, se mexeu, permitindo que o jogo fosse empatado. A partir daquele momento, então, a partida continuou normalmente, agora com todos disputando a bola.

Por outro lado, o futebol pernambucano deu, recentemente, um bom exemplo, quando o jogador Éverton Felipe, ao comparar seu companheiro de time Diego Souza, do Sport, com Grafite, do Santa Cruz, afirmou que o atacante santa-cruzense não tinha qualificações sequer para amarrar a chuteira esquerda do rubro-negro. Uma descortesia, não há como disfarçar, mas, ainda bem, o atingido teve grandeza. Minimizou o fato, afirmando não haver visto descaso e ainda declarou, com razão, que aquele que o diminuíra era um grande jogador.

A atitude de Grafite, é uma valiosa contribuição à paz no gramado. Feitas para dizer, as palavras, como ensinou Graciliano Ramos, disseram: “Acho que foi um momento de euforia dele. Acho até que se ele jogasse ao meu lado e Diego no Santa Cruz ele diria que Diego não amarraria a minha chuteira. Acho que ele foi apenas um pouco infeliz na comparação, mas futebol é assim mesmo. É um menino, está começando agora e desejo toda a sorte do mundo para ele.”

Gol de placa, Grafite. Parabéns!

TEMER: NÃO HÁ O QUE TEMER

Na guerra do impeachment, as batalhas se dão em todos os fronts, especialmente no da irracionalidade, como o argumento de que o Brasil seria ingovernável sob a presidência de Michel Temer. Pense bem: por que ingovernabilidade, se ele terá o apoio de dois dos mais importantes partidos brasileiros – PMDB e PSDB, sem falar do PPS e outros partidos relevantes? Ingovernável, convenha-se, está o Brasil de agora, com uma presidente vagando pelo seu palácio. Ademais, é sensato acreditar que Michel Temer, sabendo ser esta a grande oportunidade da sua (dele) vida, a estragaria, logo ele que, carente de carisma, jamais chegaria à Presidência pela vontade das urnas?

A propósito, Harry Truman, ex-presidente dos Estados Unidos de 1945 a 1953, era vice-presidente de Franklin Delano Roosevelt, falecido menos de três meses após a posse. Foi uma desolação. Não só pela morte de um presidente querido, mas pela assunção do cargo por um caipira rústico, sem estofo intelectual para conduzir o país. No entanto ele teve. Tanto que venceu as eleições seguintes, em 1948, tornando-se mais uma vez presidente, agora pela vontade soberana das urnas e não pelo desígnio da morte.

É verdade que seu período presidencial marcou-se por acontecimentos polêmicos, como o fim da II Guerra Mundial, a decisão de usar a bomba atômica contra o Japão, a fundação das Nações Unidas, o Plano Marshall de reconstrução da Europa… ou ainda pela Doutrina Truman de contenção do comunismo, pelo começo da Guerra Fria, pela criação da OTAN, pela Guerra da Coreia, mas também por um período de prosperidade.

Harry Truman foi um presidente sem grandes pretensões, mas superou as baixas expectativas dos analistas políticos, especialmente quando comparado ao antecessor. Houve momentos, sim, em que sua ação teve baixíssima avaliação, mas ele soube com trabalho e seriedade, reverter as expectativas desfavoráveis.

Agora pense nisto: se Harry Truman, que pouco estudou, fez um governo aprovado, por que Michel Temer, político experiente, constitucionalista de renome, não pode fazer?

Não é difícil, convenha-se, fazer melhor do que a presidente Dilma Rousseff. Ora, com Temer não há o que temer.

EX-MULHER É PARA SEMPRE

Nicéia Pitta, filha de modesta família do interior de São Paulo e ex-vendedora de frangos superfaturados à prefeitura paulistana, conheceu o poder ao casar-se com Celso Pitta, então futuro prefeito de São Paulo. A menina feia ascendeu ao posto de primeira-dama da maior cidade brasileira, passando a frequentar os grandes salões, a conhecer aduladores, a experimentar a lisonja, a conviver com o fausto. Vá se ver, há até de ter-se sentido bonita.

Acontece que o prefeito, homem afável, de gestos elegantes, tinha, como qualquer homem sensível, uma atração irresistível por mulheres bonitas, especialmente as louras. A feia Nicéia, prenhe de razão, não suportava aquilo. As brigas, o estremecimento conjugal e o ódio estavam a apenas um passo.

Passo dado, agora não mais em direção à felicidade, mas às varas de família, a vingativa Nicéia contou o que vira durante os anos de casamento. O ex-marido logo aprenderia que ex-mulher é para sempre. Como abertura, a acusação de que Celso Pitta corrompia os vereadores paulistanos e fazia do seu gabinete o núcleo da propina. Meu marido não conseguiu ser forte o suficiente para não se envolver na corrupção que está alojada na prefeitura. Ele sabia de tudo – disse -, assim como eu também sabia, reconheceu.

Foi o princípio do fim de uma carreira política.

Instável, autoritária, prepotente, Nicéia Pitta se fizera presa da sedução que o Poder exerce, a ele entregando-se de corpo e alma, a esta especialmente. Louca de paixão pelo status de primeira-dama, considerava ter como sua colega (sic) ninguém menos do que Hillary Clinton, a esposa do presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos.

Megalômana, após comprar uma faustosa cadeira caríssima, exigiu aos gritos que se lhe comprassem uma assemelhada a um trono, fazendo da tal cadeira uma metáfora da sua sede de poder absoluto.

Nestes dias tão conturbados, casada com o Poder e a ele fidelíssima, Dilma Rousseff luta para seu casamento ser eterno. Reclama veemente que lhe querem tomar a cadeira, talvez imaginando quanto será difícil viver sem os grandes salões, os poucos aduladores que ainda existam, o fausto, os salamaleques e, na síntese de tudo isso, o trono presidencial.

AH, SE SONHOS SE FIZESSEM REALIDADE…

Em verdade não é sonho. É a mais pura realidade, mas não aqui, neste país onde o pesadelo da corrupção continua a se repetir insistentemente. Já na Europa, diante do recente escândalo financeiro conhecido por Panama Papers, os mais destacados políticos bretões, a começar pelo primeiro-ministro David Cameron, foram absolutamente claros nas explicações, tornando públicas suas declarações de Imposto de Renda.

O ato resultou da defesa feita pelo primeiro-ministro do direito de ter conta em paraíso fiscal, salientando que organizações públicas, sindicatos e até a rede BBC as têm.

Você pode estar se perguntando o porquê de tudo isso, e o motivo é simples. Descobriu-se que o pai do primeiro-ministro tinha uma offshore, ou seja, uma empresa em paraíso fiscal, onde se paga menos impostos do que no país de origem.

Uma vez que os britânicos queriam saber se o filho David Cameron, tinha participação no tal fundo, o ministro tomou a atitude sem precedentes, divulgando o próprio Imposto de Renda, embora lembrando ao mesmo que ter uma offshore não é ilegal, desde que declarada no Imposto de Renda.

Ficou demonstrado que nos últimos seis anos ele teve, sim, participação na empresa do pai, no entanto vendera as ações e pagara todas os impostos devidos. O resultado é que os principais políticos se viram moralmente compelidos a publicar suas rendas, em meio a eles, o ministro das Finanças e o líder da oposição.

Pergunta-se: e se no Brasil algum político importante, resolvesse abrir sua declaração de imposto de renda, como ficariam as vestais paridas que pensando só em si envergonham o país?

Propõe-se, então, que os senhores parlamentares, se, de fato, são ilibados como afirmam ser, votem uma lei segundo a qual todo político – de vereador a presidente da República, passando pelos três Poderes – ao assinar o termo de posse esteja abrindo mão dos seus sigilos fiscal, bancário e telefônico.

Ora, eles não se reputam honestos? Se o são, não há motivo para medo. Medo de quê?

Na Inglaterra, como se viu, tudo foi prontamente esclarecido.

O FAX LIBANÊS

Circula na internet, clara ficção, ressalve-se, que o então presidente Luiz Inácio da Silva e a na época ministra Dilma Rousseff enviaram um fax para o governo do Líbano, pedindo uma robusta doação para o programa Fome Zero. A resposta não tardou: BL, MD, VBB, 6.2.

Não conseguindo entender nada, a ministra recorreu ao ex-presidente que, com os vastos conhecimentos que o credenciam a proferir palestras mundo afora, analisou a mensagem e logo chegou a mais uma de suas sábias conclusões: BL – Beleza, MD – Mandei depositar, VBB – Via Banco do Brasil, 62. – US$ 62.000.000,00.

Nossos heróis exultaram, mas ocorre que a tal conta não existia, ordenando-se então que ela fosse procurada em outros bancos passíveis de ser BB, como o Banco Bradesco, o Banco de Boston…

Como a busca foi infrutífera, alguém lembrou de chamar um funcionário de terceiro escalão, descendente de libaneses, que logo decifrou a enigmática mensagem BL, MD, V BB, 6. 2: Brezidente Lula, Ministra Dilmo, Vai Buda Bariu Seis Dois!

Quer saber o porquê de contar essa história?

Esta quadra da vida brasileira se apresenta tão conturbada, que o país parece estar tomado de libaneses. Para não ir longe, considere-se que às vésperas do julgamento do impeachment da presidente da República, o PRB, parte do PR e do PSD e os 44 deputados do PP, resolveram deixar o barco governamental.

A propósito, a esta altura a senhora Dilma Rousseff, hoje presidente, e o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, hoje almejando ser ministro, devem estar bradando aos quatro ventos: PQP!

PRESIDENTE VAI DEVOLVER DINHEIRO

Sabe por quê? Por haver gasto parte dos US$ 16 milhões pertencentes ao erário na reforma da sua (dele) residência privada.

Calma!

Isso nada tem a ver com a presidente Dilma Rousseff, mas com o presidente Jacob Zuma, da África do Sul. Acontece que lá existe um tal de Órgão do Protetor Público (nome algo estranho), que investiga os desvios de conduta dos servidores, inclusive presidentes, que declarou ser Jacob Zuma falho em “sustentar, defender e respeitar” a Constituição.

Por conta de haver construído um curral, um galinheiro, uma piscina, um anfiteatro e um cento de visitas, ele vai devolver, no prazo de 45 dias, US$ 680 mil, sem prejuízo das demais cominações pertinentes. Você já pensou se fosse uma cobertura tríplex de frente para o mar?

Pensando bem, a vida tem mostrado que presidentes não deveriam, nunca, adquirir ou reformar imóveis no transcorrer dos seus mandatos. O então presidente José Sarney, por exemplo, não deveria ter reformado o sítio do Pericumã e a ilha de Curupu, dois paraísos de sua propriedade, à custa da Servaz, uma empreiteira que crescia por conta das obras federais.

Para invocar um exemplo mais atual, vale lembrar que o ex-presidente Luiz Inácio da Silva não estaria às voltas com a cobertura tríplex do Guarujá, nem com o sitio de Atibaia que, decerto, lhe roubam minutos que valem ouro – aliás, os mais bem pagos minutos do planeta – quando os dedica às suas preciosas palestras mundo afora.

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A MANIÇOBA E O MANIÇOBA

Diferentemente do governo federal, que para fazer frente ao impeachment promove uma ampla liquidação de cargos e benesses – “é pra torar”, diria a propaganda de uma famosa cadeia de lojas – o governo de Pernambuco tem sido parcimonioso e, sobretudo, silencioso, além de aparentemente obedecer aos ditames da meritocracia.

Pelo menos é o que leva a pensar o caso da Secretaria da Agricultura, em que o esmero parece superlativo.

Além de atender a uma suposta indicação do senador Jarbas Vasconcelos, que confirma a discrição negando a indicação, o possível novo titular da pasta é um gênio na arte de administrar recursos modestos.

Trata-se do deputado federal Kaio Maniçoba, que para se eleger com 28.585 votos gastou somente R$ 55.635,85 – portanto menos de R$ 2 por voto!

O detalhe mais importante, porém, e você já deve ter atentado para ele, está no nome, Maniçoba, o que há de lhe conferir uma grande desenvoltura no enfrentamento dos problemas agrícolas.

Afinal, maniçoba é uma árvore genuinamente brasileira que, mesmo enfrentando o clima adverso, atinge os vinte metros de altura, e que agora sugere, pela coincidência do nome, ser Kaio Maniçoba o homem certo, no lugar certo.

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Deputado Maniçoba e o pé de maniçoba

PARIS REVOLUCIONÁRIA

Há alguns dias, a sitiada presidente Dilma Rousseff resolveu dirigir-se, ainda que de maneira oblíqua, à Justiça, ou mais especificamente ao juiz Sérgio Moro. Após os recados de praxe, lembrou que “Condenar adversários é mais que um crime, é erro”, encerrando a sua fala. Bela frase, não é? São palavras que remetem a fatos históricos.

Havia na França, como há no Brasil de hoje, um clima de alta tensão. Napoleão Bonaparte estava convicto da necessidade de uma ação que, pela envergadura, fosse dissuasória de qualquer pretensão a golpe (parece até coisa do Brasil), e foi então que Joseph Fouché, influenciado pelas sugestões de Talleyrand, seu êmulo na disputa pelo poder, mandou prender em território alemão, neutro, o duque d’Enghien, trazendo-o para a França.

De imediato, a presa foi submetida a um conselho de guerra presidido pelo conde de Hulin, uma farsa tão monumental que, tempos depois, o conde procurou justificar a sentença publicando um livreto que se tornou célebre.

Justificativa à parte, a verdade é que condenado à morte, por uma sentença concluída às quatro horas da madrugada, ele foi fuzilado meia hora depois e teve o corpo enterrado numa vala existente nas proximidades. Segundo se registra, a comissão teria recebido ordens expressas do Primeiro Cônsul, para que o duque fosse sumariamente condenado e executado de imediato.

Assim foi feito, sem mais delongas, acarretando a Bonaparte uma torrente de ódio.

Consumado o fato, autocrítico, Fouché teria pronunciado, então, a famosa frase “é mais do que um crime, é um erro”, a mesma pronunciada com pompa pela presidente, sem sequer de passagem citar o autor, como costumava fazer seu mentor.

A propósito, há quem diga que o autor foi Talleyrand, há quem diga que foi Fouché, há quem diga que foi Maquiavel… só não foi dito, até hoje, que a autoria seja da senhora Dilma Rousseff.

LIÇÃO DE PORTUGUÊS

A maioria dos eleitores portugueses estava desolada pela vitória com que haviam sagrado nas últimas eleições daquele país o Partido Socialista.

Foi então que na página 58 do jornal Público, edição do hoje distante 9 de setembro de 2005, apareceu um anúncio exemplar, assinado por um cidadão de nome Rogério Guimarães:

“PEDIDO DE DESCULPA – Rogério Guimarães, cidadão eleitor nº 6823, da unidade geográfica de recenseamento de Caldas da Rainha, vem por este meio pedir desculpas a todos os democratas por ter contribuído com o seu voto para a eleição deste Governo.”

Analisando-se o deplorável quadro da política brasileira, em que são preponderantes a falta de escrúpulos, a desonestidade, a pouca-vergonha, a falência moral, enfim, há que se perguntar: como dar lições a esses bandidos irrecuperáveis que se travestem de representantes do povo?

Uma nota de jornal, como a de Rogério Guimarães é pouco, muito pouco, insignificante, é absolutamente nada, por incapaz de causar a mínima comoção no seio da camarilha que se apossou do Brasil.

Dói constatar que, em verdade, o futuro do Brasil está, hoje como nunca esteve, nas mãos do Judiciário, embora devesse estar nas mãos do eleitor. Assim fosse, não elegeríamos candidatos messiânicos, desses que prometem o melhor dos mundos e depois de eleitos patrocinam deslavada corrupção. Cabe a cada brasileiro, pois, fiscalizar o trabalho do candidato em que votou e não lhe fazer concessões.

Ora, sabe-se que, existente desde tempos imemoriais, a corrupção não tem fim, mas os corruptos podem ser ceifados da vida pública pela lâmina aguçada do voto. Ou enérgicos protestos, enquanto as eleições não chegam.

DILMA ROUSSEF E ANA BOLENA

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Ana Bolena foi rainha, Dilma Rousseff é plebeia. A esguia Ana Bolena era vivaz, cativante, bonita, admirada em toda a Europa. Dilma Rousseff – dizem – é lenta, irascível, e dela só são ouvidas grosserias.

De igual, só o fato de haverem chegado ao poder.

Ana Bolena, de família nobre, tornou-se uma esperança para o rei Henrique VIII que almejava ter o herdeiro varão que a rainha Catarina de Aragão, com quem era casado, não lho dera. Além do mais, ele estava sinceramente apaixonado pela jovem e bela Ana. Tanto, aliás, que para casar-se com ela, rompeu com a Igreja Católica que não lhe quis dar o divórcio, e criou a Igreja Anglicana.

E o que Dilma Rousseff tem a ver com isso?

Em 2010, o pretenso rei do Brasil, por muitos conhecido por Luiz 51, era legalmente obrigado a fazer uma pausa de quatro anos em seu reinado de oito anos, mas precisava de alguém que guardasse o seu lugar. Alguém sem brilho, sem a mínima possibilidade de ofuscar o antecessor. Nenhuma Ana Bolena, pois. Dilma Rousseff, esta sim, tinha as qualificações desejadas.

Ocorre que tanto quanto a vida a realeza é efêmera.

Ana Bolena, a bela dama tão ardentemente desejada por Henrique VIII não conseguiu lhe dar um filho homem, levando-o a se interessar por outra. Urgia, pois, tirar Ana do caminho e o desvio foi a condenação por adultério, incesto e conspiração contra o próprio marido, ele, o rei.

Assim, Ana Bolena, que protagonizou ao longo de seus 36 anos de vida, sentimentos de amor e ódio, que esbanjou o poder que julgava ter, que colecionou aliados e desafetos em fartas doses foi condenada à decapitação, executada com um único golpe que fez rolar sua linda cabeça.

E o que isso tem a ver com Dilma Rousseff? – você vai insistir na pergunta.

Resposta: Dilma Rousseff não será decapitada, mas vem, de há muito, tendo seu governo esquartejado, com o rei lhe solapando mais e mais nacos de poder, como, por exemplo, a prerrogativa de demitir e nomear ministros.

Ana Bolena foi rainha por mil dias. Dilma Rousseff tem mil dias de governo pela frente.

Governará?

PLATÃO E A POLÍTICA BRASILEIRA

Platão foi um grego que viveu muitos anos antes de Cristo nascer. Como é óbvio, naquele tempos não havia internet, não havia o onisciente Google, tudo começava do nada. É aí que Platão mostra toda a sua importância.platao

Ele foi filósofo, matemático e autor de diversos diálogos filosóficos, além de fundador da Academia de Atenas, a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental. Fez mais. Ajudou a construir os alicerces da ciência e da filosofia, e seus ensinamentos são tão importantes que, até hoje, cerca de 2.500 anos depois, ele é reverenciado como um dos homens mais sábios de todos os tempos.

Uma das lições platônicas ensina que o juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis.

Até hoje, prevalece a convicção de que o juiz julga obedecendo a tal preceito, embora vez por outra se observe uma tendência para julgar o juiz. É o caso de Sérgio Moro, que vem sendo sistematicamente atacado pelos envolvidos nos escândalos que comprometem ainda mais a imagem internacional do Brasil.

Além dos defensores dos acusados que, por força da situação, exercem o múnus do “jus esperneandi”, agora ocorre também a ira dos envolvidos, como é o caso de um dos filhos do senhor Luiz Inácio da Silva. Não, não se trata do filho multimilionário, aquele que recebeu milhões de uma operadora de telefonia, mas do mais novo, que recebeu R$ 2,5 milhões de um lobista envolvido com a compra de medidas provisórias, para, pasme! – aplicar uma conhecida sequência do computador, a famosa Control C + Control V e transformar o movimento em um abalizado parecer sobre marketing esportivo.

O esperneio chegou ao ponto em que, valendo-se da internet, o abonado filho veiculou no Facebook um post em que o envergando a sua toga, o juiz parece exibir cartaz com este apelo: Contrata-se delatores com ou sem experiência. Em outras palavras, insinua-se que o juiz é analfabeto, que não conhece as regras do pronome se apassivado.

Pensando bem, já que o filho mais novo cobra tanto por pareceres, por que em vez de atacar o juiz ele não procura ler um pouco de Platão?

POR QUE TANTO ÓDIO CONTRA ESTE HOMEM?

Texto de autoria do advogado Jesus Ivandro

O juiz Sérgio Moro não é um bom orador; é um jovem de fala mansa, que tem no olhar a força da sinceridade. Suas ações na operação Lava Jato, entretanto, estão renovando o Poder Judiciário brasileiro e elevando a autoestima da sociedade.

Há 2 anos, ele toca uma megaoperação inimaginável neste país paupérrimo em valores morais. Já chegou a centenas o número dos investigados nas 22 fases da Lava Jato. 396 operações de buscas e apreensões e 199 mandados de prisão foram cumpridos. 80 criminosos já foram condenados a penas de prisão, que somam 783 anos. Busca ressarcir os cofres públicos de recursos surripiados da ordem de R$ 14 bilhões e 500 milhões, já recuperados R$ 2 bilhões e 800 milhões e repatriados R$ 659 milhões.

Esses impressionantes resultados decorrem da estratégia da colaboração premiada, combinada com prisões preventivas dos poderosos delinquentes, com respaldo dos tribunais superiores. São frutos dos 40 acordos de colaboração premiada e de 5 acordos de leniência com empresas envolvidas. Furiosos e frustrados, os advogados marajás, desacostumados ao estilo do juiz, tentaram – inclusive com auxílio do ex-presidente Lula e da própria presidente Dilma em algumas ocasiões – desacreditá-lo.

Entretanto, tal confrontação, até agora, pouco conseguiu. Pelo contrário, induziram o STF a tomar, esta semana, uma decisão histórica: atacar o exagero de recursos protelatórios de uma decisão jurisdicional definitiva, que obriga o litigante a percorrer, em tese, 5 instâncias jurisdicionais antes de alcançar o julgamento final. Agora, uma condenação em 2a. Instância já obriga o delinquente a ir para a cadeia, podendo continuar a buscar outras instâncias, mas já no xilindró. Nesta hipótese, o réu já apresentou sua ampla defesa na 1a. Instância e a ampliou na 2a. Instância. Nestas duas etapas, mais de um juiz e mais de um promotor pensaram igual, sendo uma exceção a hipótese que a verdade só surja numa 3a. Instância.

Conta-se, no ordenamento processual pátrio, um cipoal de recursos, que podem adiar por 10 anos a prestação jurisdicional ou até tornar inválido o direito pleiteado, a saber: a Apelação; o Agravo; os Embargos Infringentes; os Embargos de Declaração; o Recurso Ordinário; o Recurso Especial; o Recurso Extraordinário; o Recurso de Divergência em Recurso Especial e em Recurso Extraordinário; a Remessa de Ofício; os Embargos de Declaração Dobrados (a sentença e o Acórdão); o Agravo de Instrumento; os Recursos Regimentais como os Agravos Regimentais e o Mandado de Segurança, comumente usado como sucedâneo recursal.
Essa parafernália de insanidades faz a festa dos chicaneiros e dos corruptos; e o inferno dos aplicadores da Justiça.

Os ataques, antes dirigidos ao Sérgio Moro, agora também atingem o próprio STF, taxando-o de violador da Constituição. A própria OAB engrossa o alarido insano. Essa gente me causa nojo. Senhores advogados, “se algum dia encontrares o Direito em conflito coma Justiça, fiquem com esta última”. (Edouard Couture).

Começo a ver um futuro melhor para meus filhos e netos. Viva a força do povo.

ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE

Luiz Inácio da Silva, o homem que tantas vezes quis depor governantes, poupou-se de depor sobre um assunto que lhe é desagradável. Logo ele, o destemido, o blasonador, o palrador incontrolável, o senhor da razão, teve seu depoimento, marcado para a tarde de ontem, suspenso pelo Conselho Nacional do Ministério Público. O Ministério Público de São Paulo buscava esclarecimentos sobre o sítio em Atibaia e o apartamento tríplex no Guarujá, inspiradores de suspeitas de ocultação de patrimônio.

O pedido de suspensão, feito por um fiel escudeiro do ex-presidente, o deputado Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, resultou na proibição da prática de qualquer ato do promotor de Justiça Cassio Roberto Conserino, até o plenário do CNMP deliberar sobre o caso.

No dito pedido, consta que o promotor teria transgredido seus deveres funcionais, e também violado as regras de atribuição e distribuição de feitos previstas nas normas do Ministério Público paulista.

Algo, porém, chama a atenção na iniciativa do deputado: sabe-se que na prática do direito os atos protelatórios convêm aos que se consideram culpados, ao contrário dos autores, que têm todo o interesse em consumar o processo. Causa estranheza, então, que o senhor Luiz Inácio da Silva, autorreputado como a mais honesta das vivalmas haja concordado com a protelação obtida pelo deputado Paulo Teixeira.

O caso chega a lembrar, embora sem graça e sem humor, um dos conterrâneos do ex-presidente, que dizia ter vindo para confundir e não para explicar. A diferença é que, com Chacrinha, era tudo brincadeira, ao passo que o assunto que envolve o senhor Luiz Inácio da Silva é sério, muito sério.

Fosse vivo, Chacrinha, o Velho Guerreiro, certamente tocaria sua implacável buzina no ouvido do conterrâneo.

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UMA MULHER BÁRBARA

Digno do seu hino, Pernambuco tem sido, como se ouve na primeira estrofe da letra de Oscar Brandão da Rocha, uma Nova Roma de bravos guerreiros. Faça-se, contudo, justiça às mulheres, já que, desde os seus primórdios, nosso estado tem sido defendido também por bravas guerreiras, ontem brandindo armas, hoje lutando nas fábricas, no comércio, nas profissões liberais, nas artes, na política….

Você vai ver que a luta das mulheres pernambucanas vem de longe.

Em 1645, acuados pelas tropas pernambucanas os holandeses se viram impedidos de buscar alimentos e, debilitados pela fome contraíram escorbuto. O remédio, no entanto, cajus túrgidos de vitamina C, estava na Vila de Tejucupapo, em Goiana. Cerca de 600 holandeses tentaram chegar a eles, mas para se defender da invasão, os cem homens que habitavam Tejucupapo e suas mulheres resistiram e venceram. Foi aí que nasceram as heroínas de Tejucupapo. Individualmente, porém, a primeira heroína brasileira nasceu um pouco mais tarde.

A primeira mulher considerada individualmente como a primeira heroína do Brasil nasceu a 11 de fevereiro de 1760, em Exu, Pernambuco, e teve três filhos: Tristão Gonçalves Pereira de Alencar, que na Confederação do Equador mudou o nome para Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, José Martiniano de Alencar e Carlos José dos Santos, todos revolucionários.

Mãe e filhos dedicaram a vida a libertar o Brasil de Portugal, tanto que aquela sertaneja foi a protagonista do movimento que pretendia proclamar a independência brasileira em 1817, cinco anos antes do célebre Grito do Ipiranga.

Rica, firme, decidida, espírito de liderança e de notórios pendores políticos, ela era, ademais, transbordante de coragem, mais ainda considerando-se que, naqueles anos, as mulheres, de modo geral submissas e ignorantes, eram limitadas, obrigatória e exclusivamente, aos assuntos domésticos.

Bárbara Alencar, todavia, conquanto exemplar mãe de família, fugiu ao estereótipo. Foi uma mulher diferenciada que, plena de destemor, arrostou a Coroa em um tempo em que a realeza era considerada desígnio divino e os atos de conspiração costumavam ser punidos com a morte.

Pelo anseio libertário, Bárbara Alencar foi presa, a primeira presa política do Brasil, diga-se de passagem.

O sonho da Revolução Republicana de 1817 esboroou-se, mas nos legou valiosas realidades.

Ficou o exemplo de uma mulher invulgar, mãe e heroína, de uma mulher que marcou a própria vida pelo enfrentamento dos preconceitos, pelo patriotismo, pela decência, pela coragem.

De uma mulher que, cheia de ideais, foi ré de crime revolucionário, a primeira mulher republicana do Brasil.

De uma mulher, enfim, que, pelas qualidades que a plasmaram, é um exemplo permanente para as gerações que vieram depois e continuarão a vir através dos tempos.

Pena que a combalida política brasileira já não abriga mulheres como ela.

REVISITANDO O SÉCULO PASSADO

Na eleição de 1989 ocorreu uma explosão de catastrofismo, pavio aceso pelo senhor Mario Amato, então presidente da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo. No fragor daquela batalha, disse ele que se o senhor Luiz Inácio da Silva fosse eleito, oitocentos mil empresários sairiam do Brasil para se estabelecer em Miami. Passados alguns anos, com a chegada de 2002 o líder experimentou sua primeira vitória, e ninguém saiu do Brasil, exceto o próprio eleito, que comprou um Airbus e se pôs a percorrer o mundo.

Pois não é que, quase trinta anos depois, o negro vaticínio de Mário Amato parece estar se confirmando? Embora sem o temido êxodo e, portanto, sem os hiperbólicos oitocentos mil empresários, a verdade é que o fluxo de grandes fortunas brasileiras trocando, em caráter definitivo, o Brasil pelo exterior, especialmente a Inglaterra, é crescente, conforme informou, há alguns dias, a coluna Cláudio Humberto.

Os números apresentados são exponenciais. Não têm emoções, mas assustam os que com eles se envolvem, quer ver? De 2014 para 2015 o fluxo, tecnicamente denominado transferência de patrimônio, aumentou 57%. Só no ano passado, o valor de tais transferências atingiu os R$ 2 bilhões, o equivalente a US$ 488 milhões. Fato relevante, por outro lado, é que o fluxo de R$ 1,7 bilhão em 2013 se reduziu para R$ 1,3 em 2014, quando mais se descortinava o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O dinheiro não está indo para Miami, como previu Mario Amato, mas que está deixando o país, está, e isso é muito ruim. Afinal, se nem os brasileiros têm motivos para confiar no Brasil, como pretender que os estrangeiros confiem e invistam aqui?

SE MEU APARTAMENTO FALASSE

Provavelmente, ao começar a leitura você pensou em um apartamento tríplex de um certo Condomínio Solaris, à beira-mar do igualmente famoso – e caro – Guarujá. Em verdade, o que aqui se pretende é falar do filme Se meu apartamento falasse, produzido em 1960, um grande sucesso de público e de crítica. Basta dizer que ele foi premiado com os Oscares de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor direção de arte, melhor montagem…

A história é banal, tanto quanto a de qualquer pessoa que de tudo faz para alcançar o sucesso, seja ele econômico, artístico, político ou tudo isso junto. Em síntese, aquele tipo de pessoa disposta a tudo para galgar melhores posições, inclusive emprestar o apartamento em que mora, para os diretores da empresa realizarem seus encontros extraconjugais. Dizem os analistas que o filme é uma crítica ao capitalismo das empresas em que, para se ter sucesso, é preciso ter falta de escrúpulos. Apesar de tanto sucesso, uns reputaram o filme como imoral, enquanto outros o consideraram simplesmente realista.

Mas já que no começo você pensou que se tratava daquele apartamento do Condomínio Solarias, façamos um exercício de imaginação: o que ocorreria se ele falasse?

Diria muito da empreiteira OAS, alvo da Operação Lava Jato, que pagou a reforma que custou R$ 777 mil? Isso mesmo, uma simples reforma… Simples é força de expressão. O que você quer? A reforma abrangia novo acabamento, além de uma outra piscina, mudança da escada e instalação de elevador privativo que só ele custou mais de R$ 60 mil.

Ah, se aquele apartamento falasse… Certamente diria quantas vezes foi visitado pela família do ex-presidente e diria, ainda mais, quem dava as ordens, e ao gosto de quem a reforma atendia.

Como apartamentos não falam, e se falassem ficariam ruborizados, o jeito é aguardar o fim das investigações.

Ah, se ele falasse, talvez pudesse dizer que o apartamento não pertence ao ex-presidente, porque ele, como se sabe, é um homem de palavra, e certa vez prometeu: “Quando eu deixar a Presidência vou continuar morando no mesmo apartamento, na mesma distância do sindicato que me projetou na política [chorando] o que vai mais me dar orgulho é que vou poder acordar de manhã e olhar para qualquer trabalhador e dizer para ele ‘bom dia, companheiro.”

É óbvio que ele dificilmente encontrará um operário veraneando no Guarujá.

* * *

Xiuf, xiuf, snif, snif….

DILMA VARGAS

Nas suas sempre pertinentes falas, a presidente da República é pontual no dizer coisas merecedoras de comentários. Na última sexta-feira, por exemplo, parecendo estar inspirada na verborragia do seu criador, ela desandou a brindar a nação com suas habituais platitudes.

Para começar, condenou pontos fora da curva (o ministro Luís Roberto Barroso fez escola) da Operação Lava-Jato, segundo ela, incorretos, devendo os referidos pontos, assim prescreveu, ser colocados dentro da curva. Afinal, disse ela no mais casto “dilmês”, o mínimo que a gente espera que quando falarem uma coisa que forem perguntar para uma pessoa, que provem. Porque depois não é verdade e tá lascado, né? Mais brilhante, impossível e a conclusão não poderia reluzir menos: assim como qualquer coisa na vida, a Lava-Jato também não está acima de qualquer suspeita.

A presidente é, mesmo, uma usina de conjecturas. Questionada quanto a estar exercendo controle sobre o Ministério Público Federal, a presidente, em um ataque de modéstia, se disse uma incompetente na arte do controle. Seja lá o que isso signifique, será que, ao responder, ela terá pensado no controle da inflação ou dos gastos públicos?

O ponto alto da fala presidencial, porém, ficou reservado para a questão do impeachment. Em evento do PDT, nivelou-se a Getúlio Vargas que, vítima de enorme pressão para renunciar ao cargo, terminou se suicidando. Segundo ela, 1954 foi um prenúncio do que está acontecendo agora no Brasil.

Como em toda crise sempre existe uma oportunidade, com a atual descortina-se a chance de desarmar o Brasil. Basta a presidente anunciar que quer seguir todos os passos de Getúlio Vargas, mas para o desfecho precisa de uma arma.

Horas depois, o Brasil estará desarmado.

 DG

O MORUBIXABA FALOU, ESTÁ FALADO

O papa é argentino, mas Deus, segundo há muito dizem, é brasileiro. Claro que nisso não há nenhuma novidade, já que é fato sabido de todos, o Todo-Poderoso, sim, ele mesmo, é brasileiro nascido em Caetés, um distrito do município pernambucano de Garanhuns.

Pobre do país que tem um deus como tem o Brasil, um deus que se imagina acima de tudo e de todos, do bem e do mal, da vida e da morte, de tudo, enfim, que existe entre o céu e a Terra. Não faz muito tempo, o tuxaua proferiu mais uma das suas sentenças.

Se antes ele afirmava que não iria admitir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, não iria admitir, ressalte-se, em seguida, em mais uma das suas refinadas metáforas, Ele sentenciou que o tal impedimento está morto, mas não enterrado. Então estará o cadáver insepulto à espera do ressuscitamento?

Mas, como se sabe, a verborragia divina é inesgotável. Em seguida, proferiu uma metáfora ictiológica, recomendando à presidente da República ser este – o recesso do Legislativo – o momento certo para ela vender o peixe do governo. Coitado, não se dá conta de que o peixe está deteriorado e, portanto, impróprio para alimentar o orgulho nacional.

Mas, há que se perguntar, por que o nosso Exu enfeixa tanto poder, mais ainda se considerado que possuindo apenas nove dedos perde um pouco da capacidade de abarcar tanto, embora, segundo os seus muitos desafetos, não haja perdido a capacidade de açambarcar.

A propósito, a Entidade Suprema jura que não existe alma mais pura que a dele.

O RESTO É SILÊNCIO

Por onde que se vá, o encontro com a poluição é inevitável, seja ela visual, sonora, seja lá como for. O mau hábito de muitos que estacionam seus carros nas portas dos bares, pedem uma cerveja gelada e ligam o som do carro no último volume, causam, justificadamente, indignação.

Atenta ao fato, a prefeitura de um município pernambucano radicalizou. Espalhou placas proibindo todo tipo de som. Repetindo, todo tipo de som, e não só, pelo que se avalia, o som proveniente dos carros.

Em nome da clareza, pois, algumas perguntas são inevitáveis.

E os gemidos dos casais que trocam caricias, como ficam?

E os espirros que, como se sabe, não aceitam confinamento?

Pior que tudo, o que fazer com a flatulência, que é voluntariosa e não raro inconveniente?

Ao que tudo indica, pois, a prefeitura terá que especificar os sons, sob pena de a medida municipal terminar não cheirando bem.

Como se isso fosse pouco, o deputado Heráclito Fortes, do PSB piauiense, apresenta um projeto que torna os ventos patrimônio da União. É o que você acabou de ler. Ventos passam a ser patrimônio da União. Agora veja você uma coisa: o deputado não especificou que ventos. Todos? Vejam-se alguns, referidos pelos melhores dicionários existentes. O vento em questão é o ar atmosférico em movimento natural; é agitação ou corrente de ar produzida artificialmente por meios mecânicos; é o próprio ar atmosférico; é uma bolha que ocorre no metal fundido ou no vidro, devido à entrada de ar ao solidificar-se; é influência malévola ou benévola; sorte, fado; é coisa vã, fugaz, ou é simplesmente flato?

Admitindo-se que o projeto se torne lei e abranja todos os tipos de vento, como a União irá armazenar o patrimônio em forma de vento? Será engarrafado? Respondidos tais questionamentos, o resto será silêncio, embora o odor repugnante fale mais alto…

BRASIL: SOCIEDADE ANÔNIMA OU DE IRRESPONSABILIDADE ILIMITADA?

Imagine-se o Brasil como uma grande corporação, com toda a estrutura dessas gigantescas multinacionais. Quem manda nessas empresas? Os acionistas.

Quer saber como eles têm o retorno do dinheiro investido nas ações? Disputando acirradamente o trabalho de executivos superqualificados para presidir seus negócios. Para isto oferecem altíssimos salários e os extremamente sedutores fringe benefits, aquelas vantagens irresistíveis que se adicionam ao salário.

Para ser merecedor de tudo isso, porém, o que faz o contratado? Leva para a corporação executivos capazes de proporcionar aos acionistas lucros crescentes. Quando as coisas funcionam assim, todos ficam felizes. Quando não, perdem-se os empregos milionários e muito da credibilidade do executivo. Mais uma vez, é contratado um novo executivo que seja capaz de satisfazer aos acionistas.

Imagine-se agora a nação brasileira como uma empresa. Brasil S/A, digamos, uma enorme empresa com duzentos milhões de acionistas, na qual o presidente é o da República, e os ministros os executivos.

No caso da Brasil S/A, diga-se, o emprego é excepcional. Um dos melhores do mundo. Salário, casa, comida, roupa lavada, um exército de serviçais; três palácios; segurança 24 horas por dia, frota de automóveis à disposição onde quer que ele esteja e, além de helicópteros, um Airbus moderníssimo, dos grandes, para seu uso exclusivo.

É emprego tão sedutor que todos se apegam a ele, lutando a cada quatro anos pela aprovação dos acionistas.

Agora, veja você: se o principal executivo das corporações privadas responde com seus cargos pelos prejuízos causados aos acionistas, por que o principal executivo da Brasil S/A, que tem causado tantos males à corporação deve permanecer? Por que continuar sofrendo prejuízos diários? Em nome de que devem-se suportar desenvolvimento em queda livre, juros estratosféricos, corrupção e um número incontável de mazelas?

Diante de quadro tão desolador, a executiva principal bem que poderia ter um gesto de\ grandeza. Por que não se demitir?


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