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A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ

Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

– Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

Eu, meu irmão e minha irmã, ainda pequenos, ficávamos assustados com aquela transformação de minha avó. Alguém havia morrido realmente.

Na casa dela, nesse dia fatídico e proibitivo, minha avó fazia várias recomendações que tínhamos que seguir à risca e em silenciosa obediência.

Ela dizia, por exemplo, que se numa casa estiver treze pessoas e todas se sentarem na mesma mesa do almoço, uma delas – a que for mais velha ou a mais jovem – morrerá ao cabo de poucos dias. Isso era assustador. Nós, ainda meninos, tínhamos tanto medo que preferíamos comer sentados no chão, só para garantir.

Outra coisa que ela dizia era que na Sexta-feira da Paixão não se pode cortar as unhas de jeito maneira!

– Porque faz unheiro, a pessoa fica com dor de dentes ou as juntas dos dedos podem até mesmo inchar. Só a madrinha de batismo é que pode cortar as unhas de uma criança, mas é melhor que não corte. – Nesse dia, minha avó escondia todas as tesouras e alicates de unha da casa.

– Cuidado para não varrer a casa. Faz mal. Pode ficar com o braço torto, porque vai estar varrendo os cabelos de Nosso Senhor. Ave Maria! – E se benzia toda.

– Também não pode cortar nem se chupa cana.

– Viajar, nem pensar. Também faz mal e é muito perigoso. Conheci um homem que teimou com a mulher, viajou na Sexta-feira Santa e morreu num desastre.

– Também para os homens que são muito teimosos e não acreditam nas coisas sagradas, não podem fazer a barba, pois não se deve olhar no espelho, pois é agouro.

– Também não pode rir. Quem ri na sexta-feira chora no domingo. – Dizia taxativa.

– Para as mulheres que têm o mesmo nome de Maria não devem cortar o cabelo, nem podem se pentear, porque Nossa Senhora Maria Santíssima não se penteou. Se alguma mulher que se chame Maria se pentear nesse dia, vem o Diabo e carrega ela num pacote.

– Socar os temperos no pilão para fazer alguma comida, não pode. É proibido.

– Quando fizer o café, tem que ser tomado amargo, porque os soldados romanos deram fel amargoso ao Nosso Senhor Jesus Cristo – para sempre seja louvado.

– Se pular uma janela na Sexta-feira Santa vira um cachorro.

– Se lavar roupa na Sexta-feira Santa a água se torna suja de sangue e estraga a roupa.

– Não pode falar nome feio que fica com a língua presa e os dentes caem.

– Não pode usar o martelo, nem pode pregar prego, pois está martelando Jesus na cruz.

– Não pode negociar. Quem vender alguma coisa na Sexta-Feira da Paixão, está vendendo Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Não pode usar o moinho de jeito nenhum. Se moer milho, em vez de sair fubá sai é o sangue de Jesus.

– Também não se doar nenhuma roupa, porque os demônios estão a postos e podem fazer feitiço com as roupas.

– Também não se pode dançar, nem cantar música de carnaval ou fazer alguma festa pois pode virar mula-sem-cabeça ou lobisomem.

– Se andar para trás ou deixar a chinela emborcada para cima está agourando os pais. Também não pode dormir antes da meia-noite.

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, sem nem poder se mexer porque tudo era proibido. Minha avó ficava de olho na gente e de vez em quando nos lembrava de mais uma outra proibição que ela ainda não tinha dito.

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, esperando o sábado de aleluia, pois sabíamos que se acabavam as proibições e era dia de alegria.

Jesus ressuscitou.


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O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA

Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

E o Chiquim de Nóca, comparecia no serviço direitim ou num dava no couro?

Aí eu já num sei! Mas ouvi dizer que lá pras bandas dos lados do Peixe Gordo, tinha um vaqueiro bem afeiçoado, todo reluzente, cheio do cobre, dentede ouro, todo vestido de gibão de couro de bode, que arrebatou o coração da muié do Chiquim de Nóca.

Vixe! Agora lascou! E o que aconteceu?

Pois é, a muié fugiu com o vaqueiro reluzente e deixou o Chiquim de Nóca chorando pelos cantos, chêi de chifre!

Êita! Foi mermo?

Pois foi! Entonce, o Chiquim de Nóca endoideceu. O pessoal diche que depois dele levar o mói de chifre, o hôme perdeu as estribeiras. O que num é pra menos!

Vixemaria! O que aconteceu?

Pois o hôme se apaixonou por uma mala véia que ele tinha em riba do guarda-roupa. Ficou se abufelando com a mala véia, como se fosse uma muié de verdade. Pois ele beijava a tal da mala até na boca! Já imaginasse?

Valha meu santontôin! Pense num mói de chifre inviezado!

Pois ele abaicava a mala véia com gosto de gás. Quando ele saía de casa, guardava a mala véia em cima da cama e ainda dava um beijim de despedida, como se fosse mermo uma muié.

Pois num é que um dia, a mãe dele, sabendo dessa arrumação, foi lá na casa dele quando ele não tava, pra acabar com aquela marmota e deu fim na mala véia! Eu soube depois que me disseram, que a mãe dele diche que a mala véia fedia mais do que as cuecas do cão dos infernos! A mãe dele tocou foi fogo na tranqueira!

Êita do estrupício medonho!

Bote estrupício nisso! Aí quando ele soube que a mãe dele tinha dado fim na mala véia, que ele dizia que era a mulher da vida dele, perdeu o resto do juízo e saiu correndo nu no mêi dos matos e os cachorros correndo atrás!

Viuxe! Tem hôme que num aguenta levar chifre que perde a rabiola!

Eche negóço de chifre num existe não. É coisa que botam na nossa cabeça!

Aí dento! Chifre é igual a consórcio, quando mesmo se espera a gente é contemplado!

Pois falando em chifre, eu vô pra casa que é pru mode eu vê a muié. Sabe lá se num aparece um vaqueiro reluzente deche que abaicou a muié do Chiquim de Nóca?

Valha mindeuso! Ramo simbóra!


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HISTÓRIAS ESTRANHAS DO SERTÃO DO CEARÁ

* * *

A misteriosa bola de fogo de Pentecoste

Moradores do município de Pentecoste, no Norte do Ceará, relatam que são perseguidos por uma estranha bola de fogo. Eles não sabem do que é feito a bola, nem se é real.

Alguns habitantes disseram que o “ser estranho” parece uma estrela. Outros afirmaram que já confundiram com luzes de avião ou helicóptero. Porém a informação é de que, de repente, surge a tal luz amarela e desaparece.

Vítima da perseguição da bola de fogo, Maiara Barbosa disse que ela surgiu durante a madrugada, depois das 3h, quando voltava de carona para casa. “Quando olhei pro céu, tinha uma luz muito forte e grande. Ela veio perseguindo a gente. Paramos no posto e ela parou também. Depois, nos seguiu até minha casa”, conta.

Já Etervaldo Souza disse que já avistou o tal ser por volta das 17h. Segundo outras vítimas, a bola surge e esquenta o local, provocando mal estar nas pessoas. A maioria afirma que ela aparece depois das 3h, no céu, acendendo e apagando.

A equipe do Barra Pesada foi conferir a tal história e constatou que a maioria das vítimas entrevistadas faziam parte da mesma empresa. Em uma simulação do caso, já por volta das 3h, a luz amarela apareceu. Ninguém sabe no que consisto o ser estranho. O mistério continua. Confira a matéria

A maldição do homem-jumento de Tauá

Em meio as lembranças saborosas da infância, aquelas que nos fazem sentir vontade de voltar no tempo, há aquelas em que não se deveria ter vivido. É o caso do autônomo João Oliveira, de 35 anos, que hoje vive em Fortaleza. Nascido no município de Tauá, ele conta que quando era criança escutava muita história de terror.

“Essa história que vou contar é do tempo do meu avô. É muito antigo e já aconteceu com um conhecido nosso da época”, revela. Dentre a verdades e lendas contadas, João frisa que a tal história contada pelo avô é mais real do que se imagina.

“Isso acontece com homem que faz coisa errada, que é mau. Um cara que comete um crime ou, então, alguém que tenha três ou quatro mulheres ao mesmo tempo”, relembra.

Um homem, a partir de um erro, herda uma maldição. Agora, durante toda a vida terá que se transformar em jumento a partir da meia-noite de todo dia. João relata que o indivíduo escolhe um local para se transformar em animal, um quartinho ou até o estábulo.

A partir da transformação, o homem-animal sai em disparada, aterrorizando pessoas, dando coices e mordidas. “Dizem que quem encontra com ele não sai vivo. É um bicho do mal”, alerta. Essa fase dura até as 3h da madrugada. Com o primeiro canto do galo, o jumento deve voltar ao esconderijo para tornar-se humano novamente.

Mas como todo vilão, há sempre uma forma de reverter o encanto. A lenda relata que um corajoso pode quebrar a maldição do homem jumento. “Basta que o valente fure o bicho com uma faca, mas tem que ser com a mão esquerda. Com a mão direita não vale”, destaca João.

Após esse combate, João dá a certeza de que o amaldiçoado nunca mais volta a ser jumento. O problema é que o ferimento da faca persiste na fase humana, por isso deve-se ter cuidado ao dar o golpe no animal.

A mulher de branco de Ipueiras

Ela aparece vestida de branco, é magra. Muito magra. Não fala nada. Às vezes emite um som, mas ninguém entende nada. Na verdade só um ouviu, mas guarda tudo em segredo. Não dá para ver seu rosto, ela não quer ser revelada.

Moradores de Ipueiras, na região de Ipu, relatam a estranha presença de uma mulher de branco que costuma seguir quem anda pela estrada carroçal da região. Sem falar nada, a “assombração” anda ao lado da pessoa por alguns minutos e some de repente.

“Eu vinha na bicicleta quando ela apareceu. Vinha atrás de mim e depois ficou do meu lado. Certo momento a corrente da minha bicicleta caiu e eu sai correndo. Ela também correu. Quando cheguei no alto morro ela desapareceu’, conta o auxiliar de pedreiro José Sales.

Além de Seu José, o mecânico de motos Alan Silva também viu a tal mulher de branco. “Eu vinha pela estrada tarde da noite. De repente ela saiu de uma árvore. Saiu do matagal bem ligeiro e ficou me acompanhando. Não consegui ver o rosto dela. Eu tava todo arrupiado”, conta o jovem que nunca mais andou sozinho à noite.

A mulher de branco chegou a aparecer em plena praça iluminada, no início da madrugada, como conta a aposentada Luiza Ferreira Pereira. “Eu tinha acabado de entrar em casa. Era por volta de 1h30. Eu ouvi os cachorros latir. Olhei uma vez pela brecha da porta, mas não vi nada. Os cachorros continuaram a latir e quando voltei, vi uma mulher de branco na praça. Ela era muito magra e fazia um roncando. Algo que eu não conseguia ouvir”, diz Dona Luiza, ainda assustada.

A aposentada comentou ainda que chamou o marido, mas quando ele saiu não viu nada. “Meu marido pegou uma faca e saiu correndo. Ele disse que não viu nada. Mas eu vi a mulher de branco sumindo quando a luz do poste apagou do nada’.

‘Não sei se vou morrer. Acho que ela é uma alma atrás de algo. Eu não posso dar nada para ela’. Muito assuntada, Dona Luiza comenta o momento e ainda diz que sente muito medo.

Um agricultor de Ipueiras, que preferiu não se identificar, revelou ter escutado a mulher de branco lhe pedir três coisas, mas que isso nunca fosse revelado. A assombração teria aparecido duas vezes em uma sexta feira 13 de 2011.

O pedido do fantasma teria sido revelado a um radialista de Ipueras, mas depois disso o agricultor tinha sido atormentado e preferiu nunca mais comentar com ninguém.

Procissão misteriosa de Viçosa: a flor de osso humano

A história é de uma moça, moradora de Viçosa, que todas as noites ficava na janela olhando a rua e, sua mãe, sempre reclamava, pois ela não devia ficar na janela porque era perigoso. Em um certo dia, na hora do café, ela disse: “A senhora tanto me recomenda para não ficar na janela, mas ontem passou uma procissão linda pela rua, todo mundo de branco e vocês perderam. Só eu vi.”

A mãe da menina ficou admirada pois naquele período do ano não havia festa ou comemorações religiosas, muito menos àquelas horas da noite. Mas a menina continuou a falar e disse que tinha até provas concretas de que a procissão tinha acontecido. “Eu tenho provas de que a procissão passou por aqui esta noite, porque uma das pessoas que iam na procissão me deu uma linda vela. Ela é branca e bem grande, vou buscar para lhe mostrar.”

Com pouco tempo depois, todos escutaram um grito assustado da menina. Quando a mãe foi ver, ela estava desmaiada em seu quarto segurando um grande osso de um esqueleto humano

A ilusão do amor de Sobral

O caso aconteceu na época em que não existiam telefones para a comunicação e um casal de namorados de Sobral, cidade do interior do Ceará, sofria com a distância. Já que o rapaz vivia viajando para ganhar a vida. Ele mantinha contato com a namorada apenas por meio de cartas e telegramas.

Num belo dia ele resolve fazer uma surpresa para ela, e volta a cidade para que pudessem se reencontrar e matar as saudades.

Ele chegou na cidade tarde da noite e, quando bateu a porta da casa da namorada ela o recebeu com um sorriso e o convidou para entrar e sentar no sofá. Como já era muito tarde, o casal combinou de conversar no outro dia. O rapaz acomodou suas malas na sala e dormiu no sofá mesmo.

Já no outro dia, o rapaz acordou bem cedo devido o calor que faz na cidade. Para não incomodar ninguém, ele tratou de ir até um barzinho da rua tomar um café e comer alguma coisa. Ao retornar pra casa, a fim de reencontrar e conversar com sua namorada e seus familiares, ele encontra a porta da casa trancada e resolve bater para que alguém o atendesse. Uma vizinha observa o rapaz batendo à porta e pergunta o que ele desejava e ele responde. “Bom dia, é que eu sou o namorado da filha dos donos desta casa. Eu dormi aqui essa noite e saí pra tomar um café, só que quando eu retornei encontrei a porta fechada e ninguém me atende”.

A vizinha olhou bem assustada para o rapaz e disse: “O senhor deve estar enganado. Essa casa está fechada a mais de seis meses e todos desta família já morreram. A casa está fechada pra alugar. Vou buscar a chave.”

Quando a vizinha abriu a porta, a casa estava toda empoeirada. A mala do rapaz estava do mesmo jeito que ele havia deixado e não havia poeira na parte do sofá onde ele havia passado toda a noite”. A partir daí, ninguém teve mais notícias do rapaz. Ninguém sabe, se ele ficou louco ou morreu com o susto.

Extraído do blog: Tribuna do Ceará


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QUANDO CHOVE NO SERTÃO

Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.

O inverno chegou.


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A CIDADE ENCANTADA DE PEDRA

As construções mencionadas neste texto não são as únicas curiosas estruturas de pedra que podem ser encontrada nos arredores da cidade de Tauá.

João Mocó, um sertanejo empenhado em vasculhar a região em busca de novos achados pictóricas (foto de: Arqueologia Social)

No sertão dos Inhamuns encontra-se um lugar conhecido com “A cidade encantada de Pedra”, onde podem ser avistadas estranhas formações, onde pedras parecem cuidadosamente equilibradas umas sobre as outras. Na cidade encantada também se pode observar painéis pictóricos, onde o dia a dia do nativo da região é o tema central de pinturas feitas principalmente com os dedos. Outros recursos como cipó e espinhos também foram utilizados em algumas minúsculas e delicadas figuras de até 2 cm. Algumas figuras humanas aparecem em movimento e se apresentam com o corpo quadrado preenchido com pequenos pontos, lembrando o Estilo Serra Branca.

Pedra chamada “Torre do Castelo”(foto de: Arqueologia Social)

O vale do Riacho Carrapateiras visto do alto apresenta-se aos olhos da imaginação como a profética lenda dos Kariri: Uma imensa cidade encantada de pedra, onde em cada pedreira o testemunho milenar de grupos caçadores coletores está registrado. Os grupos humanos utilizaram como suporte para a prática pictórica as rochas cristalinas às margens do Carrapateiras ou rochas associadas a um dos seus afluentes. Como preferência, as altas pedreiras foram utilizadas de onde estrategicamente pode-se observar todo o vale e numerosos outros abrigos pintados ao redor, como uma pretérita ‘cidade de pedra’. Outros grupos pintaram em um plano mais baixo, nas pedreiras junto a tanques naturais de água, um aparente balneário pré-histórico.

Tanques naturais do Açude Carrapateiras (foto de: Arqueologia Social)

Por do sol mostrando ao fundo a Torre do Castelo (foto de: Arqueologia Social)

Como atrativos culturais o município de Tauá possui três sítios paleontológicos e 15 arqueológicos, que podem ser visitados, porém só podem ser explorados por pesquisadores profissionais e cadastrados.

O maior ícone natural é o Serrote Quinamuiú. Ele pode ser avistado de qualquer ponto da cidade.

Serrote Quinamuiú, que pode ser visto de várias partes de Tauá

* * *

Fontes: Noite Sinistra, Arqueologia Social, Arqueolovia e Wikipédia

Fotos: Arqueologia Social


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A FOME DO CHICO DON-DON

Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas.

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia.

– Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

– Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

– Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. – Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

– Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

– Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

– E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

– Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho.

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave.

No leito de morte, ainda suplicava por comida.


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AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO

Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.

Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

– Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

– Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

– Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

19 novembro 2016 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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O BARÃO DO CRATO E SUA PAIXÃO INFAME ENVOLTA EM SANGUE E DOR

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O sobrado do Barão do Crato e a Igreja Matriz de Icó

Bernardo Duarte Brandão já era homem feito quando voltou da Europa, depois de longa temporada. Robusto e arrogante, com trejeitos finos, acostumado com os ares parisienses, achou a cidade uma miséria de tão provincial, que quase lhe embrulhou o delicado estômago europeu.

O cheiro de terra e poeira, o odor do estrume do gado e a secura do tempo, por certo, deve ter-lhe dado terrível arrependimento de ter voltado a mando do seu pai, rico fazendeiro e senhor de terras e escravos da Ribeira dos Icós.

Ao chegar, os escravos de seu pai vieram ao seu encontro, apenas com o intuito de ajudá-lo com a bagagem. O jovem mancebo, enfunado de orgulho e soberba, empurrou os negros com tanta fúria, que os jogou violentamente contra as estacas pontiagudas da porteira da fazenda. Os escravos apenas sorriram, como se aquilo fosse apenas uma pilhéria típica dos moços ricos. Sorriram com aquele sorriso subserviente e humilde, típico dos mansos.

– Não toquem em minhas coisas da Europa! – esbravejou com acentuado sotaque francês, vociferando como um animal raivoso. Ali, naquele momento, já se ia demonstrando a sua aura cruel de um desalmado abusador de escravos. Mas é bom lembrar de que a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.

Ele falava o tempo todo dos tempos em que morou na Europa, de como tudo lá é diferente, de como as pessoas são civilizadas, brancas, louras, olhos azuis e de como lá, as pessoas certamente são mais bonitas e mais elegantes do que aqui, nesta província miserável. Tudo que ele falava, sempre vinha a comparação com a Europa, que ele sempre se referia por “lá”, como se falasse de um mundo mágico e maravilhoso, como se um paraíso na Terra, fosse.

– Lá, não se come açúcar, nem sal, senão muito pouco! Também não se toma café, por causa dos dentes. Doces então, nem pensar! – dizia ele, com empáfia, aos bajuladores que o cercavam com vergonhosa adulação. – Lá, o sol é muito leve e o clima é sempre ameno, por isso a nossa pele é assim tão bela! – vangloriava-se com repugnante prosápia.

Passaram então muitos dias da chegada do esnobe falastrão. Mal sabia ele que o destino lhe reservava a arrebentação de uma dor lancinante e cruel que lhe iria consumir a sua pobre alma até os estertores da morte.

Quando ele fora mandado para a Europa, a fim de estudar numa das mais conceituadas escolas do Velho Mundo – que era o desejo de seu pai, que queria ver o filho formado e retornasse à sua terra, transformado em um proeminente doutor -, deixou aqui sua irmã, ainda uma menina. Quase não a conhecia, sequer se lembrava dela. O pai promoveu então um jantar para que os dois irmãos se conhecessem, já que passaram muitos anos separados pelo mar imenso. Quando Bernardo viu Maria do Rosário, sua irmã pura e singela, sua pobre alma indecente se inflamou de paixão avassaladora. Não pôde se conter diante de uma mulher tão bela e deixou-se ser encarcerado naquele desejo proibido, querendo ele mesmo acreditar que ela também o desejava e o amaria como um homem e não como um irmão. Adoeceu febrilmente e sofreu de uma dor inclemente e devastadora a partir daquele encontro.

Sigmund Freud em escreveu em 1927, em seu livro Die Zukunft einer Illusion, que “…Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a ideia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade”.

Em 14 de setembro de 1866, recebeu do então Imperador dom Pedro II, o título de Barão do Crato e tornou-se um importante chefe político. Não podendo desposar a irmã e sofrendo com o fascínio de uma paixão proibida por Maria do Rosário, tornou-se um homem cruel e sanguinário, que descontava sua fúria incontrolável nos mais humildes – seus escravos – torturando-os até a morte. Implacável, o próprio Barão, pessoalmente, martirizava e afligia, impiedosamente, torturando-os de tal maneira, pendurando-os vivos pelas costelas, até ver correr-lhes o sangue abundante e viscoso, por conta das chicotadas e suplícios cruéis dos anéis de ferros, arrancando-lhes os dentes e a língua, em uma sequência aterrorizante de lamentos, vagidos infernais e dor. É sabido que muitos negros foram objetos de tortura e muitos, assassinados por conta dos terríveis castigos executados impiedosamente pelo Barão, e que depois de satisfeitos seus desejos sanguinários, os corpos eram jogados em covas rasas no quintal de seu sobrado, e largados esquartejados nas margens saibrosas do Rio Salgado.

Apesar da imensa riqueza, o Barão tornou-se um homem triste, solitário, embora temido por sua lendária crueldade, avesso ao convívio social, sempre envolvido em disputas, em meio a arengas e intrigas políticas. A paixão amaldiçoada por sua irmã Maria do Rosário o consumiu impiedosamente. Diz a lenda que ele próprio foi ao Vaticano e que suplicou ao Papa Pio IX a bênção papal para que se realizasse o matrimônio com sua irmã, negado veemente por sua Santidade, é claro.

Morreu em Paris, no ano de 1880 aos 58 anos, só, doente e abandonado. É pertinente que não se sabe o quanto de tudo isso possa ser verdade, mas o diretor de cinema John Ford escreveu certa vez que “Se a lenda for mais interessante que a realidade, publique-se a lenda”.


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AS MAQUINAÇÕES DO MAL

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Hesíodo era um homem feio. Magro, tinha um andar oblíquo, o lombo encurvado, como quem carrega um peso nas costas. Tinha a face escaveirada, desdentado, com a pele amarelada como a de um sapo e ainda por cima, mancava de uma perna desde o nascimento, pois havia nascido a fórceps, como quem que não quisesse ter nascido.

Desde criança fora abandonado pelos pais, jogado de casa em casa, crescendo ora com tios, ora com vizinhos, e algumas vezes na rua. Mesmo assim, aprendeu a arte da ourivesaria e mantinha um pequeno quiosque em um shopping da cidade, onde além de relógios e joias, consertava quase qualquer coisa que as mãos caveirosas e pálidas tocassem. Por conta disso, era grande o vai e vem de pessoas em busca de seus serviços.

Sempre às dez horas da manhã, deixava o quiosque com um funcionário e saía para passear pelo shopping, conversando com um e outro, olhando as vitrines e falando entre jornais, sobre política e futebol.

Era um homem muito culto. Na solidão das noites lia livros e mais livros, pois nunca teve o afago de uma mulher. Além disso, contaminado pelas filosofias, tornou-se ateu ferrenho e escarnecedor, dizendo coisas terríveis sobre a cristandade. Discutia longas e intermináveis horas, sempre se encharcando de café e exaltando-se ao ponto de quase ter um aneurisma.

Havia um rapaz evangélico dessas igrejas pentecostais, que vendo a amargura ateísta dele, de vez em quando vinha e lhe entregava um panfletinho sobre mensagens bíblicas. Ele apenas recebia displicentemente, amassava e jogava na lixeira mais próxima. Certa vez, porém, um desses panfletos lhe chamou a atenção, pois estava escrito em letras vermelhas: “O que Deus quer de nós”? Considerou que aquilo era uma pergunta filosófica e esse guardou na carteira para ler posteriormente.

Certa tarde, estando ele em seu pequeno quiosque, surgiu de repente, uma bela mulher que, sorrindo-lhe com o mais belo sorriso que jamais havia visto, trouxe-lhe um broche de ouro velho para conserto. A presença daquela mulher o destreinou completamente, que mal conseguiu entender o que ela dizia, inebriado com aquela concupiscente e provocante boca vermelha, transbordante de lascívia, pois o pecado é mais fecundo do que a virtude. O pobre miserável tentou em vão esconder a feiura e a pobreza que o atormentava, mas a mulher não pareceu se importar. Ao sair, prometendo voltar no dia seguinte, ela tocou-lhe a face escaveirada com tanta meiguice que ele sentiu-se mal e uma diarreia morna lhe escorreu pernas abaixo.

Durante a noite não dormiu, varando a madrugada, adoentado, febril, lendo e relendo os “vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda, delirando de paixão, remoendo-se de dor e de desejo.

“Áspero amor, violeta coroado de espinhos, brejal entre tantas paixões eriçadas, lança das dores, coroa da cólera, por quais caminhos e como te dirige a minha alma? Por que precipitaste teu fogo doloroso, de súbito, entre as folhas frias do meu caminho”?

No dia seguinte estava exausto, indeciso e nervoso. Fez o conserto da joia de ouro velho da mulher e a esperou febrilmente, tal um moribundo a esperar a morte.

A mulher chegou finalmente, mil vezes mais bela do que no dia anterior, mas ele já eivado e cego pela súbita e encaniçada paixão, não enxergaria outra coisa além da beleza dela. Em poucos minutos já estavam tomando café e conversando sobre o Céu, a Terra e as Potestades do ar. Ele não acreditava que aquela mulher o queria de alguma forma. Além do mais ele era pobre e feio. Ela, porém, gostava de ouvir suas palestras intelectualizadas e já tinha dito o quanto admirava o seu conhecimento sobre quase tudo! Em pouco tempo, já eram grandes amigos e se encontravam todo dia. Ele já desvairado de paixão, incrédulo, dizia a todos que deixaria ser levado por ela até mesmo até os confins do inferno, se realmente tal lugar existisse.

No entanto, nada ainda havia acontecido, até um dia em que ela lhe chegou provocante e insinuante, convidando-o para ir ao apartamento dela. Atônito, ele entrou no carro em que ela veio, um surpreendente sedan Lexus SC, que custaria algo em torno de cem mil dólares. Em poucos minutos já estavam no condomínio de luxo, numa cobertura no trigésimo andar, de frente para o mar. Foi aí que Hesíodo envergonhou-se de sua pobreza.

Ela entrou em um dos quartos, dizendo que iria tomar banho e vestir algo mais apropriado e que ele se sentisse à vontade e que podia se servir de alguma bebida. Ele notou que o silêncio dentro do apartamento era insidioso. Ele sentiu um odor acre de amêndoas… Quem sabe um perfume, talvez, imaginou. Naquele momento, atormentou-lhe também um sentimento de medo.

Pôs a mão no bolso de trás da calça e encontrou o panfleto onde estava escrito, “O que Deus quer de nós?”. Segurou o papel por alguns instantes e leu rapidamente Provérbios 18: “O nome de Jeová é uma torre forte. O justo corre para dentro dela e recebe proteção”. Sentiu um pouco de alívio, logo ele, um ateu convicto.

Como a mulher demorava a voltar ele pôs-se a explorar o local. Novamente sentiu o odor acre e viu uma porta entreaberta de onde parecia vir o cheiro. Empurrou a porta e atônito, deparou-se com uma cena impressionante. A princípio, ele pensou que fosse um quarto de UTI. Havia um homem imobilizado a uma cama de hospital. Ligado a ele, saíam diversos tubos sanfonados que alcançavam o teto e pareciam se conectar com o quarto ao lado. Apavorado, Hesíodo viu quando o homem acamado abriu os olhos e olhou para ele numa expressão de horror e dor. Era um homem ainda jovem, mas nas condições em que se encontrava ali, parecia já ter uns cem anos.

Os diversos tubos que saíam de seu corpo pareciam lhe sugar as entranhas. O pobre homem fez sinal com os olhos esbugalhados para que Hesíodo olhasse no quarto contíguo ao que estavam. Ao abrir a porta dessa vez, experimentou a real visão do inferno. Diversos corpos dilacerados estavam pendurados em ganchos, como em um açougue. Vários tonéis, cheios do que parecia ser gordura humana borbulhavam, deixando sair aquele odor acre de amêndoas.

Hesíodo saiu em direção à porta da frente, já sentindo o desarranjo intestinal. Pelo barulho do chuveiro, percebeu que a mulher ainda continuava no banho. Em seu desespero, desabou em lancinante carreira escada abaixo, desengonçado, arquejando como um cão. Sequer se lembrou de que estava no trigésimo andar. Quando enfim chegou embaixo, ouviu o barulho dos sapatos da mulher. Como ela havia chegado em tão pouco tempo era um misto de horror e preocupação. Pareceu-lhe ter ouvido uns gemidos por sobre o sussurro de vozes, como um som saído de um túnel. Era ela que o chamava carinhosamente. O sangue lhe gelou nas veias quando ela parecia estar cada vez mais perto. Lembrou-se então do panfleto evangélico e clamou em silêncio pelo nome de Deus, como havia lido nos Provérbios. Pediu a Jeová que o protegesse em sua torre forte.

No dia seguinte foi acordado por um vigilante. Estava todo sujo, encolhido dentro de um anel de concreto, no meio das ruínas de um edifício completamente abandonado. Descobriu que estava desaparecido há vários dias e por mais que contasse o que tinha se passado, nunca ninguém acreditou nele. Ele, no entanto, sabia agora que havia mesmo um nome a quem clamar nas horas de angústia e solidão.


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O NEGRO QUE MATOU O PADRE, O BOI SANTO E OS MISTÉRIOS DE JUAZEIRO

Os diversos golpes de faca rasgaram com violência o peito do monsenhor Joviniano Barreto que, ainda envergando o roquete, desfaleceu já sem vida nos braços de alguns atônitos seminaristas que o ajudavam a entrar no carro.

As Parcas lhe tinham já fiado o tecido da morte.

Há menos de um minuto o religioso havia deixado a solenidade de lançamento da pedra fundamental do convento dos capuchinhos. O assassino, ainda de faca em punho, arquejando como um porco ensanguentado no matadouro, como que possuído pelo Pazuzu, balbuciava grunhidos, roncos e coisas ininteligíveis. Alguns circunstantes afirmaram que ouviram ele dizer em alto e bom som a estranha frase: “Matei o Monsenhor por que ele remexeu nos mistérios de Juazeiro”. Mas, quem iria naquele momento, saber o que um assassino enlouquecido queria dizer? O criminoso, chamado de Manoel Pedro da Silva, ficou conhecido como “o negro que matou o padre”.Mons. Joviniano

Oficialmente a História conta que o matador queria constituir matrimônio com uma mulher já casada, o que o monsenhor negou veementemente, proibindo-o de entrar na igreja e até de assistir à missa, ameaçando-lhe de excomunhão, caso ele insistisse naquele sacrilégio. O homem então, fora de si, ali mesmo, insistiu mais uma vez com o padre para que o casasse, sob ameaça de que iria morar com a moça, com ou sem o casamento religioso. Diante de tal sentença, o vigário perdeu todas as expressões de serenidade, deixando lhe ferver nas veias o sangue de filho dos Inhamuns e, com desmedida violência para um sacerdote, empurrou o pobre homem escada abaixo. A sentença de morte do monsenhor, foi proferida irreversivelmente, então, naquele momento.

Tendo isso exposto, então, a que mistérios de Juazeiro, o assassino teria se referido?

De fato, durante o sermão de uma missa que celebrara, o vigário Joviniano Barreto pusera em dúvida os milagres de transmutação da hóstia em sangue, ocorridos na pequena vila em que o Padre Cícero era vigário. E bem muito antes do assassínio, o monsenhor já denunciava às autoridades eclesiásticas da região que, na Baixada da Anta, os fanáticos estavam se desviando da ortodoxia da Igreja Católica, praticando o fetichismo em total heresia aos cultos da Santa Igreja, principalmente em relação à “santificação” do boi Mansinho, presente dado por padre Cícero aos seguidores do beato José Lourenço. O animal foi cuidado com todo zelo e carinho pelos fanáticos, mormente por se tratar de uma doação feita pelo “Santo Padim Cíco”, como gostavam de se referir ao sacerdote.

Aos poucos, a estima dedicada ao boi Mansinho, que fiou sendo chamado de “Boi Santo”, foi se transformando em adoração. Os chifres eram adornados com flores e fitas; sua urina transformada em remédio milagroso e as pontas das unhas em amuletos.

As autoridades da época, tendo À frente o Dr. Floro Bartolomeu, atendendo os anseios do monsenhor e tentando evitar críticas da imprensa, pôs fim no totemismo ao prender o Beato José Lourenço e mandar sacrificar em praça pública o “Boi Santo”, na presença de muitos fanáticos, inclusive entre os presentes, estava o negro que matou o padre.

E o que dizer de dona Hermínia Marques Gouveia que tinha estranhas visões e que escrevia tudo a mandado de Padre Cícero? Poucos dias antes de morrer, queimou vários rolos de papéis e mandou enterrar muitos outros, coisa que desagradou bastante ao padre Cícero, que fez arrancar os papéis enterrados que se encontravam totalmente encharcados, não se aproveitando quase nenhum, pois havia chovido muito naqueles dias. O que tinha nesses papeis?

Eram esses mistérios, entre muitos outros, que o monsenhor Joviniano havia remexido, sendo punido com tão violenta morte?

Para selar o mistério, o assassino do padre foi assassinado na prisão oito anos depois, com três profundas peixeiradas.

13 fevereiro 2016 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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A RUA CONDE D’EU DEU EM SANGUE

Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmo se atormentaram com muitas dores. – 1 Timóteo 6:10

Na cidade de Fortaleza, a Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu, era a zona do comércio de secos e molhados, dos cabarés, pensões altas ou alegres – como assim se dizia nos idos anos da década de 1950.

Uma vez o Diabo, cheio de ciúme e avareza, arrastando desde as profundezas infernais o fétido manto negro embotado de cobiça, botou o olho em um homem de índole miserável que andava por ali, no meio daquele antro de prostituição e jogos de azar. Esse homem desprezível, já tinha sido um bem sucedido jogador de futebol, mas agora afundado em dívidas, daria o que lhe restava por qualquer preço que se lhe ofertasse, a sua pobre alma. O Diabo sorriu cofiando os bigodes.

O Príncipe das Trevas então, seguro de que faria um bom negócio, ofertou ao homem um automóvel da marca Chevrolet 1950, de luxo, último modelo. Negociou-lhe ao pé do ouvido os termos do conchavo – e a alma seria dele, do Diabo – bastando para isso que o infeliz tirasse duas vidas.

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Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu

Com o coração cheio de cobiça e os olhos amarelados de ganância, o malogrado indivíduo exultou entre copos de zinebra e, sufocado pelo espesso fumo aziago, aceitou sem questionar nada, afinal ter a posse de robusto automóvel Chevrolet era seu sonho de consumo. E assim o fez conforme lhe ordenara o Mafarrico. Atraiu os dois rapazes, donos do luxuoso automóvel, com a justificativa que tinha a intenção de comprar o carro por um bom preço, o que seria à época a vultosa quantia de 145 contos de Réis.

No dia Primeiro de Setembro daquele ano, levou os dois incautos e infelizes rapazes para um quarto de pensão que ficava na Rua Conde D’Eu para celebrar o contrato de compra e venda do veículo. Mal sabiam os dois que o próprio Satanás os seguia de perto, tripudiando e divertindo-se com o que haveria de acontecer. O patife e desprezível, sem dar a nenhum deles sequer uma chance de defesa, covardemente, mata-os com uma barra de ferro, escondendo os corpos em um guarda-roupa, levando-os depois para as dunas ermas e desertas na Barra do Ceará e decapitando-os, os enterra em covas rasas.

Dias depois, passou a rodar com o carro pelas ruas da cidade, como se fosse mesmo o legítimo proprietário do automóvel. Mas ele só não sabia, nem sequer desconfiava que tudo o que o Diabo dá com uma mão, tira com a outra. No mês seguinte, precisamente no dia Treze de Outubro, o pavoroso e impiedoso crime foi descoberto, levando o desgraçado à condenação de trinta anos de prisão, segundo crônica policialesca da época. Há relatos também de que o destino do cruel assassino teve final semelhante ao de suas vítimas: no ano de 1968, dezoito anos depois do bárbaro crime, o monstro fora encontrado morto nas mesmas condições. Decapitado e trucidado como um porco.

O Diabo, naquele caso, havia mais uma vez cumprido o seu sutil e vergonhoso papel. De tanto andar em derredor da Terra, como um leão que espreita sua caça, rugindo e procurando a quem devorar.

Baudelaire já nos havia advertido certa vez que, existem a todo o momento de nossas vidas, duas postulações simultâneas: uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.


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O PADRE

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Uma pequena cidadezinha nos confins do sertão atormentado pela seca, esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, tinha como prefeito um coronel abastado que morava na Capital e só ia lá uma vez por mês para assinar os papeis da prefeitura.

Conta-se que durante a campanha eleitoral, além da troca de votos por dentaduras, ele tinha prometido que iria pedir para a Arquidiocese, um padre para comandar a recém construída Igreja que tinha como patrono Santo Antônio de Pádua. Para angariar mais votos e enganar o povo fervoroso, o tal coronel por pura megalomania, mandou buscar na Itália uma estátua do Santo Antônio em tamanho natural, esculpida em mármore Carrara por um famoso escultor italiano, exaurindo completamente os cofres públicos do já minguado município, claro, sem antes superfaturar a negociação.

Mas antes disso, o coronel tivera uma ideia bem bizarra. Em vez de solicitar para a Arquidiocese um padre de verdade, contratou um velho turco que ele tinha conhecido em uma zona de baixo meretrício, onde gostava de passar as noites jogando carteado e se abufelando com as quengas, tudo com dinheiro público. Esse turco já tinha sido seminarista e conhecia um pouco da liturgia católica. A ideia do coronel era que ele iria se passar por padre e assim enganar o povo mais uma vez. Assim dito, assim feito.

O falso padre chegou e foi recebido com festa. Passou a celebrar as missas sem chamar muita atenção, embolsando o dinheiro das ofertas e se embriagando com o vinho na sacristia. O coronel teve outra ideia. Queria que o falso padre obrigasse o povo a se confessar e assim, ficaria sabendo de algum segredo que pudesse tirar alguma vantagem. O falso padre então mandou avisar que todos os paroquianos tinham a obrigação de se confessarem todos os domingos antes da missa, mas apesar disso, ninguém aparecia no confessionário. Quando ele perguntava diziam que já tinham se confessado com o outro padre.

Que outro padre? Berrou o coronel. O falso padre, o turco, se limitava a repetir a história que o povo dizia. Havia outro padre que estava no confessionário. O coronel teve então a ideia deles ficarem escondido dentro da igreja para saber quem seria esse outro padre. Logo depois de se esconderem, viram com terrível espanto, a estátua de Santo Antônio de Pádua descer do pedestal. Ficaram ali petrificados sem saber nem entender o que estavam presenciando. Santo Antônio de Pádua foi até o altar, ajoelhou-se e pareceu estar fazendo uma oração em silêncio. A estátua, agora já com aparência humana, caminhou então lentamente para onde estava o coronel e o falso padre que já se tremiam de medo. Naquele momento o turco teve um ataque cardíaco e morreu ali mesmo, sendo encontrado depois. Quanto ao coronel nada se sabe, nem que rumo tomou. Sumiu por completo.

Até hoje, dizem, na igreja daquela pequena cidade esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, existe um sacerdote humilde e inspirador dentro do confessionário.


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A HORA

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Durante toda aquela noite quente, que bem podia ter sido silenciosa, além do ladrar incessante dos cachorros, ouviram-se murmúrios nos quartos do palacete assobradado do Comendador.

Pareceu que ninguém ali dormiu bem, pois logo cedo do dia, lá pelas quatro horas, todos já estavam de pé, na cozinha, comentando entre si o que mais lhes parecia impossível de se acreditar. Todos tiveram o mesmo e impressionante pesadelo quase que ao mesmo tempo. Acordaram sobressaltados e atônitos. Nem todos se lembravam com clareza sobre o que tinham sonhado, mas concordavam entre si que foram atormentados vigorosamente pelo mesmo pesadelo.

Na verdade, nem todos, acrescento, tiveram esse pesadelo coletivo. Além do Comendador, sua esposa, dona Hermengarda e seus oito filhos, quatro homens e quatro mulheres, só quem não sonhou naquela noite fora Dona Glorinha, uma negra que desde criança ajudava na cozinha e o filho pequeno do Comendador, que se chamava carinhosamente de Felipinho, que nessa época tinha apenas cinco anos.

Dona Glorinha quando soube do estranho evento, benzeu-se toda e acendeu três velas para cada um dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael, dos quais era fervorosa devota.

Dona Hermengarda observou ainda que os cachorros estavam nervosos desde muito cedo e não sossegaram durante a noite toda. O papagaio tagarela que ficava na cozinha, estava também estranhamente mudo, o que não era muito comum. O Comendador fez pouco caso do assunto e botou a culpa dos pesadelos na comida pesada de Dona Glorinha. Todos riram.

Dona Glorinha ainda sugeriu ao Comendador que chamassem um padre com urgência para benzer a casa, pois coisas assim não eram de bom agouro. O Comendador, avesso a qualquer tipo de crença, desconversou. Chamar um padre para quê? Os padres que fiquem lá com suas bíblias e suas hóstias, escarneceu entre estrondosa gargalhada, seguida pelos filhos, visivelmente nervosos. Na minha casa não entra padre, disse taxativo, encerrando o assunto. Antes tivesse engolido tal ofensa.

Dona Glorinha chamou dona Hermengarda à parte e disse que precisava sair mais cedo naquele dia, pois teria que ir buscar o filho na rodoviária, pontualmente ao meio-dia. Dona Hermengarda concordou, mas antes ela teria que deixar o almoço pronto e que levasse com ela o menino Felipinho. Assim ficou então acertado entre as duas mulheres.

A manhã transcorreu normalmente, como de costume. Como era um dia de sábado, todos ficaram em casa. O Comendador sentou-se na enorme varanda do sobrado para ler o jornal e beber uns aperitivos para esperar o almoço. Os filhos do Comendador ficaram na piscina e as meninas sentadas nos bancos do jardim entre conversas e risinhos de adolescentes. Uma manhã agradável.

Às onze horas, Dona Glorinha terminou o almoço e conforme havia dito, saiu acompanhada do menino Felipinho rumo à rodoviária para buscar o filho. Segundo ela, tencionava retornar ao sobrado lá pelas duas horas, ainda a tempo de pôr a mesa para o almoço. Dona Hermengarda sossegou e disse que ela não se avexasse. Poderia tirar a tarde de folga e só voltasse no fim do dia. E assim o fez.

Ao meio-dia em ponto, todos estavam sentados à mesa do almoço: o Comendador, dona Hermengarda e os oito filhos do casal. Um dos rapazes observou que o papagaio havia sumido e não foi encontrado em lugar nenhum da casa. Dona Hermengarda também avisou ao marido que os cachorros, que eram dois, da raça rottweiler, pularam o muro e fugiram para o terreno ao lado. O Comendador impassível, prometeu ir buscá-los depois do almoço. O almoço então foi servido.

Às treze horas em ponto, ouviu-se um ruído surdo seguido de um assobio. Ninguém deu importância. No minuto seguinte o centenário palacete assobradado de três andares desabou de uma vez só, ruindo sobre todos, elevando uma descomunal coluna de poeira nunca antes vista. O barulho foi tão grande e ensurdecedor que foi ouvido a quilômetros de distância. Uma impressionante montanha de destroços tomou o lugar do sobrado, afundada no chão pelo peso descomunal da construção centenária, abrindo uma cratera de tão grande porte, como se um terremoto tivesse passado por ali.

Longe dali, dona Glorinha, o filho dela que foram buscar na rodoviária e o menino Felipinho, mal sabiam o que tinha acontecido, mas o que o menino falou, a fez estremecer da cabeça aos pés. Sem ver para quê, o menino virou-se para ela e disse pausadamente: “Agora estão todos definitivamente enterrados!”. Claro que dona Glorinha só foi entender horas depois e o menino não falou mais sobre o assunto.

Anos depois, Dona Glorinha, “como um fantasma que se refugia na solidão da natureza morta”, voltou ao local onde antes era o robusto e centenário palacete assobradado do Comendador e só encontrou um enorme vazio.

Ali mesmo desceu ao “tenebroso abismo, onde a dúvida ergueu altar profano”.

21 novembro 2015 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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UMA NOITE DE DOR E ÓDIO NA RUA DA PALMA

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O ano era 1841, dia oito de dezembro, dezenove horas e trinta minutos. A escuridão já tomava o Largo das Trincheiras e a noite escura escondia o terror que se avizinhava para compor a tragédia que não poderia mais ser adiada, pois os braços do mal já se estendiam sobre a Rua da Palma.

O Major acabara de jantar e enquanto bebia uma taça de vinho tinto, ouviu batidas na porta da frente do casarão. Dona Florencia estremeceu. Tinha tido sonhos inquietantes na noite anterior e passou o dia todo com um mau pressentimento. Diz-se também que o próprio Major não conseguiu dormir, agonizando toda a noite com uma dor de cabeça terrível.

As batidas continuaram. Dona Florencia segurou o braço do marido, tentando detê-lo e se adiantou para a janela que dava para a rua escura. Olhou pela janela e parou institivamente. Teve a impressão de ter visto fagulhas no meio do breu da noite, como de arma que negou fogo. O major sorriu. Ele era dado ao trato com armas e sem nenhum medo, debruçou-se na janela para ver quem estava batendo à porta. Antes tivesse ouvido as preocupações de dona Florencia.

Sem nem mesmo ter tido tempo de abotoar a camisa, ainda de peito aberto, ouviu-se um estrondo e o major desabou com estardalhaço, ensanguentando todo o piso de taco, já morto. Recebeu três tiros de bacamarte e de acordo com o laudo de corpo de delito, as balas por pouco não arrancaram a cabeça do infeliz major. Ferida na mão por estilhaços, dona Florencia, enlouquecida, clamava aos Céus por vingança, envenenada pelo ódio e pela dor impronunciável.

O assassinato do Major já era quase que certo. Todos sabiam que ele era jurado de morte. Só não se sabia o dia nem a infeliz hora. O militar era chefe do Partido Liberal e Comandante dos Nobres e tinha inimigos de grande porte e adversários irreconciliáveis, além de muitas divergências políticas. Já tinha sido vítima de dois atentados, escapando ileso. O primeiro, tentaram matá-lo com tiros em uma tocaia na Rua da Ponte. O outro atentado foi na Praça Carolina, esquina das ruas da Boa Vista e da Assembleia Provincial.

Havia rumores de que o mandante de tão cruel assassinato, fora um chefe político do interior, que havia ficado bastante debilitado desde quando tomou a água de uma quartinha na Assembleia Provincial e que, dizem, teria sido envenenada a mando do próprio major. Esse coronel tinha a fama de homem vingativo e cruel, que não levava desaforo para casa. Segundo conta-se, ele era “lobo carniceiro, tramoso e sereno, capaz das maiores perfídias e crueldades sem um franzir de cara, sempre a falar manso e adocicado.” – mas nada ficou provado.

Porém, a esposa do Major, dona Florencia, jurava de joelhos aos pés da imagem de Nossa Senhora do Rosário e até do Santíssimo Sacramento, que quem ordenara a morte de seu amado esposo fora a esposa do então presidente da Província. Mas isso já seria uma outra história que não convém agora se estender.

O sepultamento do Major deu-se de forma incomum: a pedido da chorosa esposa, dona Florencia, mandou-se sepultá-lo de pé, emparedado em uma coluna na Igreja do Rosário, ornada com uma belíssima lápide feita em mármore de Carrara. Diz-se que de tal lápide escorre sangue e que cujas letras lapidadas, vez por outra, contorcem-se de ódio, rancor e dor.

O casarão, depois de tão triste episódio, desfez-se por completo, desabando sobre si mesmo, deixando marcas de choro em suas paredes enegrecidas pelo tempo. Ainda hoje, é impossível passar em frente ao local e não sentir um mal estar repentino ou uma sensação de angustiosa tristeza, um abismo escuro e um vale de lágrimas.


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O SONHO

O suicida ia pular, mas do alto do edifício, na fímbria do horizonte, viu o mar. (Nemésio Silva Filho)

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Sonhava que estava caindo, caindo, caindo, num cair sem fim. Acordava depois, assustado, no chão ao lado da cama, ensopado de suor, tremendo. Ouvia o tique-taque do relógio em cima da cabeceira da cama e conferia que já passava das três da manhã, como das outras vezes do mesmo sonho. Morava só. Não tinha nem com quem comentar o sonho que já o vinha atormentando há vários meses. Não dormia mais, com medo de cair de novo dentro do sonho. Saía para ver a rua, ainda deserta, silenciosa. O vento da madrugada açoitava as árvores, únicas testemunhas silentes do seu terror noturno. Amanhecia completamente exausto, mal humorado, irascível, com uma dor de cabeça do tamanho dos astros.

Algumas vezes caminhava até a biblioteca pública para pesquisar sobre sonhos. Leu quase todos os livros sobre o assunto, mas não se convencia com as explicações simplórias e simplistas. Queria mais, queria desvendar que tipo de premonição o sonho lhe queria dar.

Foi aí que um dia, em suas andanças, viu um cartaz de uma cartomante, cuja conduta, dizia-se, era altamente ilibada. Numa tarde então, depois de seu sonho inquietante, sentou-se de frente com a quiromante, que sorriu-lhe com o canto da boca. Pareceu-lhe que ela desdenhava dele. Antes que abrisse a boca a pitonisa botou cartas sobre a mesa e ordenou-lhe, fitando-o com enormes olhos sonsos e agudos, que escolhesse uma carta. Ordenou-lhe. Ele não acreditava em nada, mas apontou uma.

A cartomante ficou séria, mas lhe falou que não havia com o que se preocupar. A carta que ele escolheu era a Torre que anuncia eventos inesperados, que algo irá mudar ou provocar uma transformação súbita. Ele saiu vazio. A cartomante em nada acrescentou à sua busca por respostas. Que eventos inesperados? Que transformação súbita?

Acordou no dia seguinte restabelecido. Teve a impressão de que o temível sonho em que caía não lhe havia atormentado como das outras noites. No entanto, percebeu que não se encontrava em casa e sim em um quarto de hospital. Alguém acendeu a luz e atônito, viu-se rodeado por médicos e enfermeiras que lhe sorriam. Soube depois que, milagrosamente, havia acordado de um coma profundo.

Ainda assustado e incrédulo, ouviu dos médicos que ele estava ali no hospital há mais de um ano, depois de ter caído de um edifício, numa suposta tentativa de suicídio.

26 setembro 2015 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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O HOMEM QUE DECIDIU NÃO MORRER

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Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para a Divina Comédia de Dante

O coronel Alarcão morreu na fria madrugada do dia vinte e cinco de setembro de mil novecentos e cinquenta e nove, há exatos cinquenta e seis anos. No dia da sua morte, estava confortavelmente sentado em sua poltrona defronte para o janelão de onde se avistava o verde-azul do mar, saboreando a sua costumeira chávena de café. E assim passava os dias, observando o sinuoso e incansável dançar das vagas, que se espatifava no quebra-mar. Descansava a vista fatigada na fímbria do horizonte, donde balouçavam distantes velas brancas de jangadas.

Sem que ele percebesse, sentou-se ao seu lado, sorrateiramente, o Ceifador, o Mercador de Almas, o chamado Espectro das Trevas, com suas enormes asas abertas em leque, pronto para arrastá-lo para a voragem dos infernos.

O coronel estreitou-se na poltrona sentindo lhe invadir o sopro morno da morte. Deu-lhe ânsias de vômito, pois sentou-se ao seu lado o próprio Demônio. Refez-se do asco que lhe causava o odor podre da efígie funesta que lhe atormentava. Atreveu-se então a desafiá-la e perguntou-lhe, inconscientemente como Dante:

“Quem és tu que vens antes do tempo”?

E a Alma Negra que espreita o Orgulho e a Avareza, respondeu na mesma réplica de Virgílio:

“Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que se espera”.

O velho estremeu, pois sabia que a Morte o tinha encontrado e já o algemava. Tinha ainda tanta coisa que queria fazer! Chorou em desespero e o anjo escarlate cingiu-lhe num abraço putrefato e disse taxativo:

Abandonai toda a esperança!

Mas não quero morrer ainda. – sussurrou o coronel aflito com a iminente desgraça. Ainda tinha a pequenina esperança de ganhar mais alguns anos, quem sabe uma trinca. O ceifador sorriu deixando escapar o hálito azedo dos mortos.

Queres mais trinta anos? Terás que me convencer. Aí não te levo em meu manto.

O coronel então propôs para o anjo comedor de almas, um ardil, cujo conteúdo e tratado não poderemos jamais saber, por ser um acordo entre almas perdidas. O chamado Espectro das Trevas topou a espicaçada, mas advertiu o coronel solenemente:

– Mas tenhais muito cuidado, pois não se engana a Morte. A cidade de Dite tem muitas moradas e que culpa tenho eu de vossa vida perversa?

O ceifador então saiu e deixou o velho sentado em sua poltrona, como era seu costume passar ali as tardes. Ficou acertado que voltaria daqui a trinta anos para levá-lo definitivamente. A brisa sadia da tarde voltou a soprar e o velho coronel ficou ali petrificado defronte para o janelão de onde se avistava o verde-azul do mar.

Depois disso, depois que o Mercador de Almas desamarrou as cordas da morte, desvencilhando-se da funérea tarefa, o velho coronel permaneceu ali sentado, impassível, calado, pensativo e apreensivo quanto ao que acabara de acontecer. Havia com sucesso negociado a sua Hora com o Ceifador e obtido êxito. Permaneceu assim absorto por muito, muito tempo, até a terceira vigília. E foi assim que o encontraram na manhã seguinte. Completamente catatônico.

Os médicos, um a um, o examinaram e meneavam a cabeça entre si. Não havia mais o que ser feito, a não ser deitá-lo o mais confortavelmente possível, pois era certo que tinha sofrido um derrame fulminante, resultando em um quadro de catalepsia patológica grave. Provavelmente nunca mais se recuperaria.

Ele, o coronel Alarcão, irremediavelmente encarcerado em seu corpo petrificado, ouvia tudo sem poder mover sequer um dedo.

Dizem que ficou assim durante exatos trinta anos, tendo uma morte atroz em seguida.

E nada mais foi dito.


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O HOMEM SENTADO

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Caronte ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia

Defronte para o nada, esquecido em sua própria solidão, de vez em quando “projetando a sua sombra magra, pensava no Destino e tinha medo”.

Em sua cadeira de rodas, à noite, lia de Augusto dos Anjos, “As cismas do Destino”, com olhos opacos, “fecundando os ovos do vício”, gemendo como geme o arvoredo.

“Ninguém compreendia o seu soluço, nem mesmo Deus”! Ateu, já tinha posto de lado as quatro letras hebraicas do nome de Deus, esqueceu-as e as deitou enroladas nos pergaminhos ancestrais. Por isso, sabia que ali, sentado, imóvel, paralisado e com a alma vil algemada à cadeira de rodas, sabia que o Deus hebreu do tetragrama impronunciável, o castigava. Ia portanto, “de um abismo a outro abismo”, remoendo os erros do passado, réu confesso. Tinha a impressão de que ouvia um juiz que lia e relia o seu processo.

“Ninguém, de certo, estava ali para espiar-lhe”.

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes”, tal e qual o pesadelo de Gregor Samsa, deparou-se de pé no quarto, andando de um lado para o outro. Estava curado da paralisia que o atormentava. Não queria crer que Deus o tinha perdoado. Preferia sim, que fosse um demônio que o tivesse libertado da cadeira de rodas. Não queria o perdão de Deus. Não era um hipócrita.

“Desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado” que despencava suas nuvens sobre o mar da cor de chumbo.

Arrastou-se até a porta como um verme, “este operário das ruínas”, tentado ir até o mar que há tempos não via, tencionando molhar os pés nas vagas frias. Com o andar destreinado, como se fosse “um fantasma que se refugia” nos cemitérios esquecidos, tropeçou no batente da porta aberta qual boca escancarada de um demente.

Caiu por terra, o infeliz, “sem o escândalo fônico de um grito, mergulhou a cabeça” no chão duro, espatifando-se como um vaso canópico do Egito.

O Diabo não custou a cobrar-lhe o preço, o óbolo último do barqueiro, ouvindo o som característico da morte, “como um bemol e como um sustenido”.

Agora está sozinho de novo e imóvel. O mar a poucos passos dos seus dedos.


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O VAZIO

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Caatinga (Ilustração de Percy Lau – 1903-1972)

O sol, quando ao meio-dia, causa estranhas vertigens. Vislumbra-se vultos distorcidos embrenhados na caatinga, caminhando entre serrotes de pura pedra, no meio da vegetação seca, árida, de difícil acesso, distritos abandonados, onde mal se vê a presença humana, senão aqui e ali, uma casinha feita de barro, coberta de palha da carnaubeira, distante de praticamente tudo, sem água nem energia elétrica, construídas na solidão do sertão, não se sabe por quem, tendo apenas a imensidão do azul do céu e a caatinga miserável como vizinhança.

Nesses lugares ermos, encontra-se de tudo: pontes sobre rios secos, açudes no chão duro e poeirento, postes plantados no meio do matagal implacável, e o vento em redemunho correndo contra o tempo, construindo colunas de poeira num trabalho extenuante e contínuo, dia após dia.

Nessas condições severas, quem se perder ali, vai observar quando o silêncio invadir a tarde luminosa. Muitas vezes, no meio do nada, vai escutar o quase imperceptível bater de marretas ao longe e de vez em quando o repetir das batidas no meio da mata. Não haverá mais ninguém ali. Mas há a impressão de se ter ouvido alguém cantando uma canção antiga.

Quantos mistérios ocultos na mata poderá haver. Já se ouviu muitas histórias dos vaqueiros que passam por essas estradas desertas. Histórias fantásticas de árvores que escondem botijas, lugares encantados dentro da mata e o medo de um dia os encontrar. Muitos já se perderam na caatinga levados embora pela moça encantada.

À noite as estradas se aquietam. Dormem na sua imensidão, mergulhadas no vazio da noite.

Amanhã é outro vazio.


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O VAMPIRO

STRIGOI (2)

Naquela manhã fria e chuvosa, um homem velho e esquálido, de tez amarelada que demonstrava claramente a vigência de uma dor que lhe causava grande sofrimento, entrou no bar e pediu uma cerveja. Andava trêmulo e devagar como se contasse os passos. Se alguém o estivesse observando, diria que ele tinha o sinistro aspecto doentio de um strigoi.

Ficou ali por horas, sentado na mesa de frente para a rua. Era certo que sua mente doentia maquinava alguma coisa, quem sabe talvez um crime de morte. A sua tristeza intrínseca estampava-se nos seus olhos azuis avermelhados.

Quem tivesse o dom de ler mentes, certamente iria despencar dentro do poço obscuro de seus pensamentos e saberia que lhe martelava a certeza de que a mulher dele o estava traindo, embora ele não aparentasse que era ele vítima de um abominável adultério. É provável e certo para um homem que não exista dor maior do que essa.

Logo chegou os jornais com a notícia. O bar tornou-se um burburinho só. Debatia-se nas mesas o assunto do dia. Um casal teria sido atacado brutalmente na noite anterior em um quarto de hotel que ficava bem ao lado do bar. Os corpos estavam estrangulados em cima da cama e parecia, segundo a polícia, que teria sido um crime passional, pois conforme havia sido apurado junto ao gerente do hotel, as vítimas se encontravam frequentemente ali, como se fosse às escondidas. Já era sabido que a mulher era casada e estaria tendo um caso extraconjugal com o homem. É possível que o marido traído os tenha seguido e os flagrados em pleno ato libidinoso.

A cena do crime era esta: o casal estava nu em cima da cama. Garrafas de bebidas e duas taças de vinho ainda pela metade em cima do criado-mudo. Não havia sinal de arrombamento, nem sinal de luta, como se o casal tivesse sido surpreendido e não podido sequer ter tido tempo de saber o que os teria atingido. Ambos estavam semi-degolados com as gargantas rasgadas como por garras. O que mais impressionou os paramédicos e os peritos forenses foi a total ausência de sangue nos corpos, como se tivessem sido totalmente sugados por um vampiro.

O velho esquálido de tez amarelada fez sinal ao garçom e pediu mais uma cerveja. O frenesi causado pela notícia do crime do hotel já havia se acalmado e as pessoas já voltavam a outros assuntos. Finalmente o garçom voltou com a cerveja.

O senhor vai querer comer alguma coisa, senhor? – perguntou o rapaz se dirigindo ao velho querníctero.

Não obrigado, meu rapaz, estou farto. Esta noite tive um manjar dos deuses e ainda estou satisfeito.

Quem o estivesse observando desde a hora em que ele entrou no bar, teria a nítida impressão de que ele parecia bem mais jovem e saudável do que aparentava ser.


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O ENTARDECER

entardecer

Agamenon, um velho professor aposentado havia sofrido um traumático acidente de carro, fraturando as duas pernas, costelas, tíbias, patelas, clavículas, inclusive a mandíbula que lhe impedia até de falar e, por esta razão, depois de enfim sair do hospital, onde havia permanecido internado por meses, ficou prostrado em uma cama em sua casa. Como era solteiro e não tinha sequer um só parente ou amigo fiel que lhe pudesse fazer companhia, contratou uma enfermeira para vir todos os dias, no final das tardes, a fim de tratar dos seus inúmeros ferimentos, aplicar as intermináveis injeções e manusear os infames medicamentos, coisa que certamente ele não seria capaz de fazer.

Embora ela fosse ficar somente por algumas horas, o pobre professor permanecia ali imobilizado, solitário, preso aos ferros da fria cama de hospital, mergulhado na penumbra à espera de que ela chegasse. Pelo menos teria com quem compartilhar a solidão.

Para sua surpresa, no entanto, bem cedo, percebeu que havia alguém na cozinha, pois o barulho de louças, o tilintar de copos, talheres e o cheiro forte de café fresco chegou-lhe até o quarto. De sua cama dava para ver a porta da cozinha e curioso, ficou à espreita para saber de quem se tratava, pois tinha certeza de que não tinha contratado mais ninguém para os afazeres domésticos, além da enfermeira que só viria no final da tarde, conforme o acertado.

Em pouco minutos chegou-lhe uma distinta e gentil senhora vestida de jaleco branco com uma bandeja, trazendo-lhe café quente, torradas, geleia e suco de laranja. Sem dizer palavra, dirigiu-lhe um sorriso doce e em silêncio começou a tratar de seus ferimentos com uma delicadeza impressionante. O professor maravilhado, tomou o delicioso café também no silêncio de sua mudez, enquanto aquela discreta senhora, sem pronunciar sequer uma sílaba que fosse, cuidava dele com grande zelo e dedicação.

Sem ainda dizer nada, a mulher terminou, sorriu para ele, tomou-lhe a bandeja e saiu do quarto em silêncio que mal se ouvia o barulho de seus sapatos. O professor Agamenon também não pôde falar nada, já que com a mandíbula fraturada, decerto lhe seria impossível. Logo, satisfeito, ainda surpreso e maravilhado com a cuidadora, adormeceu profundamente.

Acordou de supetão quando adentrou no quarto uma enfermeira com cara de poucos amigos. Já passava das cinco horas da tarde. Ele percebeu que não era a mesma cuidadora que tinha vindo mais cedo. A mulher mostrava-se visivelmente aborrecida, dizendo que fora enganada, que ele não tinha nenhum ferimento, nem precisava de nenhum cuidado ambulatorial e que aliás, não tinha nada que o prendesse àquela cama e que só foi ali perder o seu precioso tempo, pois tinha outros doentes de verdade para cuidar.

Atônito, Agamenon experimentou falar e para sua surpresa, não sentia mais nada na mandíbula fraturada. Aliás não sentia nenhuma dor. Parecia mesmo que nunca estivera doente nem que sofrera nenhum acidente. A enfermeira saiu bastante aborrecida, batendo a porta com toda a força de que dispunha.

O velho professor levantou-se da cama disposto e abriu a vidraça. Uma brisa suave invadiu o quarto, agora iluminado pelos últimos raios de sol. O céu estava vermelho-alaranjado com nuvens rosadas que se pronunciavam por detrás da torre da igreja. Pássaros pequeninos cruzavam o céu em revoada ao entardecer. Respirou fundo e sentou-se em uma poltrona de frente para a janela.

Percebeu então que havia uma fumegante xícara de café quente em cima do criado mudo.


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O BODE DEZESSETE

bode

O bode é um dos bichos mais parecidos com gente que dá até medo. Certa vez meu avô Alfredo me contou uma estranha e curiosa história.

Ele criava no quintal um bode pai de chiqueiro, dez cabras leiteiras e cinco cabritinhos que somavam no total dezesseis bichos, conforme ele tinha contado antes de ir pra feira, naquele sábado. Quando ele voltou, lá pras bandas do meio-dia, contou dezessete, tendo inclusive, outro bode macho, bonito, imponente, o pelo todo preto, lustroso e os olhos amarelos.

– Ôxente! Da donde apareceu eche bicho? Eche bicho num é meu, não!

Contou os bichos mais uma vez pra ver se tinha contado direito. Chamou minha avó, dona Rita.

– Ô Rita, minha véia, a gente contou dezesseis bichos, contando com os cabritim novos, num foi? – Minha avó assentiu, confirmando, enquanto estendia umas roupas no varal.

– Pois olhe eche estrupício aqui – apontou para o bode preto que ruminava impassível, observando tudo, com os olhos amarelados fixos em minha avó.

– Ôxente, hôme de Deus, que bicho é eche, Alfredo meu véi?

– E eu sei lá! Apareceu aí do nada!

– Vai ver eche bicho te seguiu da feira até aqui. Vai ter que voltar lá pra devolver pro dono, seu Alfredo!

– Me seguiu nada, muié! Comé que eu num ia notar um troço desse tamanhão atrás de mim a viagem toda?

O fato é que meu avô voltou na feira para ver se alguém andava procurando aquele pai de chiqueiro, mas ninguém tinha perdido nenhum bode daquele tamanho. Bonito como era, teve foi gente querendo comprar o bicho. Meu avô voltou com o bode pra Jurema já com a ideia de ficar com ele uns tempos até para cruzar com as cabras e aumentar a criação, até o dono aparecer para buscar. Meu avô botou o nome dele de Dezessete.

O bode não gostava de ficar no chiqueiro junto com os outros bichos e vivia dentro de casa mesmo. Onde meu avô ia, o bode estava atrás. Parecia até gente. No começo meu avô ficou meio cabreiro, mas depois se acostumou. De tarde, depois do almoço, o bicho dormia debaixo da rede de meu avô e tomava até café com ele. Minha avó reclamava do mal cheiro do bode, mas não tinha jeito. O Dezessete já tinha conquistado mesmo o coração de todos, apesar de tudo. Era teimoso que só a peste.

O bodão sem cerimônia nenhuma ficou fazendo parte da família por um ano. O maior mistério foi mesmo foi quando ele desapareceu da mesma maneira como tinha surgido. Exatamente ao completar um ano. Havia chovido muito na noite anterior e no dia seguinte procuraram Dezessete por todo lugar e nunca mais o encontraram.

Coisas do sertão.


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OS ZÓI AZUL

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Mané Cabôco era preto nagô, neto de quilombolas do Cinzento da Bahia. Homem íntegro, muito trabalhador e temente a Deus. Era casado com a angolana Isidora, mulher muito bonita, faceira, dos olhos de mel, cheia dos balangandãs. Ela vivia sempre na igreja da matriz, ajudando no que fosse preciso. Muito devota de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, só não virou freira mesmo porque se abufelou com o Mané Cabôco numa dessas festas da Padroeira, atrás da igreja. E deu no que deu.

Qualquer um diria que era um casal feliz, até o dia em que nasceu o filho deles.

Quando Mané Cabôco soube que a mulher tinha parido, tava no roçado trinchando a terra para o plantio. Vieram avisar que ela tava com dor de menino, quase já nos finalmentes. Ele soltou as coisas e desatou a correr pra chegar a tempo de ver o filho nascer, pois era bom o marido estar presente nessas horas de dor da esposa.

Chegando a casa, viu um monte de gente estancada na entrada. Quando viram Mané Cabôco chegar esbaforido, seguraram ele antes de entrar. Mas não deixaram ele entrar de jeito maneira! Ele esperneou, quis brigar, mas os amigos levaram ele pra detrás da casa. E o pobre ainda sem entender nada. A todo custo queria ver o filho que acabara de nascer e precisava estar com a mulher naquela hora.

– Antes de mais nada, Mané, fique tronquilo e num se meta a besta, não.

– O que foi que houve, pessoal? O menino nasceu morto? A minha Isidora morreu no parto? – perguntou ele tentando entrar na casa.

– Nada disso, homem! Deus nos livre! Bota essa boca pra lá! – falou um dos amigos mais chegados dele. – Vá conhecer o seu filho, mas num se meta a besta não!

Mané Cabôco emburacou porta a dentro, doido pra ver o recém-nascido, o primeiro de uma penca de filhos, conforme tinha prometido pra Isidora. Quando chegou no quarto, percebeu que a mulher estava com o bruguelo todo enrolado, como se fosse um casulo de borboleta. A parteira fez menção de empurrá-lo pra fora do quarto. Ele que já tava meio desconfiando de que alguma coisa estava errada, tomou a criança das mãos da mulher que desatava no choro.

Muito nervoso, o homem jogou o pacote em cima da cama e o desembrulhou, puxando o cobertor pelas pontas, fazendo a criança rolar por sobre o colchão. Mané Cabôco deu um pulo pra trás, caindo em cima de um tamborete, ainda segurando o cobertor. Aprumou a vista e abriu a janela do quarto, deixando entrar a claridade da manhã. Em cima da cama, o bebê soltou um chorinho e se aquietou. Mané Cabôco se aproximou, pegou a pequena criaturinha com uma das mãos, trazendo-a mais para a luz. Olhou para a esposa encolhida a um canto do quarto.

– Ele é branco, Isidora. O diacho do pestinha num puxou a nós, não. É branco! – pegou a mulher pelo braço delicadamente, como se quisesse que ela também visse o que estava vendo.

– E tem os zói azul! O azul mais bonito como eu nunca tinha visto! Até parece o céu! – declarou ele, felicíssimo, abraçando forte a esposa que atônita, desfazia-se em choro, inconsolável.


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O SONETO DO DIABO

A escassez tira o Diabo de sua toca – Provérbio turco

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Como se tivesse saído do soneto do padre Antônio Tomás, uma pobre e desgraçada mulher, ficava todos os dias sentada no chão sobre um papelão. Tremendo em ânsias de fadiga, estendia a mão mirrada a quem passasse, rogando que lhe jogassem uma moeda.

Foi outrora uma belíssima mulher, porém muito mimada. Esnobava sua beleza e partia corações, além de propositalmente humilhar os seus inúmeros e sinceros pretendentes, alucinados por avassaladora paixão incorrespondida.

O pai dela, homem muito simples e temente a Deus, advertia-lhe de que a beleza é coisa passageira. Que tivesse cuidado, pois a beleza é fogueira das vaidades! Recitava constantemente o Eclesiastes e admoestava-lhe diariamente:

“…Aplica o teu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e descobrirás que também tudo isto é aflição de espírito”.

Ela porém, gargalhava, blasfemando contra o doce das palavras de sabedoria que o seu pai inutilmente lhe oferecia, maldizendo a Deus, maldizendo os feios, maldizendo os pobres! Dizia que queria mesmo era conhecer um homem rico, um príncipe, nem que fosse o próprio diabo, que a enchesse de muito dinheiro, joias e pedras preciosas, que a levasse a restaurantes caros e hotéis de luxo, que a levasse para conhecer o mundo inteiro em viagens intermináveis. Sua alma fútil tinha escassez de tudo. E a escassez tira o Diabo de sua toca.

Conta-se que, de tanto desejar um príncipe, o desejo realizou-se da forma que ela queria.

Conta-se que certo dia, um anjo caído que andava a rodear a terra e a passear por ela, desencaminhando os soberbos e fracos de juízo, apaixonou-se perdidamente por aquela bela senhorita. Então ascendeu do quinto dos infernos para ouvir os desejos dela, transformado em um belo mancebo, muito rico, bonito e elegante, vestido de roupas brancas, sapatos brancos e gravata branca. Tinha os cabelos louros e reluzentes como o ouro. O belo sorriso branco e a pele pálida, deixava saltar-lhe olhos enigmáticos, da cor esverdeada de uma esmeralda. Quem chegou perto dele o bastante, percebeu que, na verdade, ele tinha os olhos amarelados, tal e qual os olhos de um gato, com as pupilas fixas e inquietantes e um olhar de um vazio profundo.

O casamento aconteceu rápido, a despeito da não aprovação pelos pais da bela moça. O tal moço excêntrico, embora perdidamente apaixonado, não quis se casar na igreja, de branco como ela queria, pois professava outra religião. Dizia ele que só dobrava os joelhos para Melek Tauus, o Anjo Pavão e somente rezava ao Sol, e não à cruz.

Mesmo assim, desafiando a autoridade dos seus genitores, o que já era de se esperar, a beldade se casou com o rico homem de branco. A festa foi inesquecível e ocupou toda a cidade. No mesmo dia em que se casaram, sumiram no mundo em lua-de-mel. Nunca mais se ouviu falar deles, a não ser de vez em quando vinham notícias de que estavam a bordo de cruzeiros luxuosos ao redor do mundo. Os pais dela ficaram sós, lamentando a ausência da filha única, que não se dignava ao menos de enviar sequer uma carta qualquer que fosse. E nunca mais voltou à sua terra, nem mesmo quando soube da morte dos pais.

Tempos depois, ela voltou só, maltrapilha, velha e doente. Ninguém mais a reconhecia, o que não era de estranhar, pois dizia-se que já tinham passado mais de cem anos. Ela então nada mais pôde fazer, a não ser cair na mendicância e viver na rua.

Uma vez, ao passar por ela, pus um par de moedas em sua esquelética mão. Ela me olhou e sorriu-me com a boca desdentada e oca. Pronunciou um mantra qualquer ininteligível.

Apesar da idade já avançada e da condição miserável na qual se encontrava, os olhos dela ainda guardavam um resquício de sua beleza de outrora.

Foi quando ela me disse sem que eu perguntasse, que enganou a todos e a si mesma. Mas não enganou o Diabo. Ele lhe deu tudo: riquezas, dinheiro, joias, viagens, prosperidade, poder, fartura, luxúria, desejos infinitos. A única coisa que ele quis dela foi amá-la como um mortal. Mas ela não era mulher de um homem só.

Em sua cegueira causada pela ganância, ela não se deu conta de que até mesmo nos mais sórdidos pactos celebrados com o Demônio, era possível existir um mínimo de ética e de decência.


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CABELOS DE MILHO

MILHO

A tarde calma estendia sombras enormes no quintal. De vez em quando o vento bulia com a água abandonada no tanque de cimento, rodopiando pequenas ondas circulares como restos de sonhos, que iam e vinham, balançando as folhas amareladas que caíam na água e saíam flutuando como barquinhos de papel.

Por cima do tanque havia uma latada onde se enroscava um magnífico pé de maracujá, já todo carregado de buquês abundantes de flores que anunciando seus frutos, era constantemente visitado por abelhas, borboletas e buliçosos beija-flores.

O raios de sol já amarelados, reverberavam nos tijolos adormecidos, riscando desenhos inconstantes que brincavam de esconder.

A brisa vespertina entrava escancarando as janelas, batendo nas portas, estilhaçando os potes de vidros na penteadeira, folheando livros e jornais velhos, estufando cortinas, abrindo panelas, invadindo a intimidade da penumbra das alcovas, fazendo o portão de ferro gemer nos gonzos, abandonando a casa pelas frestas do telhado, por onde entrava raios de sol do entardecer.

Era já quase noite e o velho de cabelos avermelhados, já há vários meses adoecido no quarto, prostrado com uma dor descomunal, sorriu consigo mesmo com o atrevimento do vento. Debaixo das cobertas que tinham cheiro de cânfora, viu o sol se avermelhar por detrás da serra e ouviu o coral de andorinhas cruzando o céu ainda azul.

Levantou-se da cama, como não fazia há muito tempo. Estralando o velho esqueleto combalido, soltando um suspiro de muitas noites mal dormidas, “uma insônia da largura dos astros e um bocejo inútil do comprimento do mundo”, saltou então pela janela aberta como se fosse ainda um menino.

Sentiu a terra frouxa e morna sob seus pés descalços e fincou-se ao pé de um abacateiro, experimentando um vertigem alucinógena como se estivesse em alto mar. Depois que o mundo rodou sobre ele, aprumou a vista cansada ao longe, onde se podia ver o imenso milharal.

A lua já prateava o campo, a noite já se estendia sobre tudo, cobrindo as estradas, escondendo casas, muros, mourões e serras. Já estava escuro quando o velho adentrou no meio dos pés de milho cujas espigas já soltavam seus cabelos vermelhos ao vento, como se fossem os dele.

Nunca mais voltou.


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O HOMEM NO OUTRO LADO DA JANELA

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Anton Giulio Bragaglia e o seu “Doppelganger” em 1913

O Diabo às vezes permeia a sua sombra nefasta entre nós de forma sutil, mas neste caso específico, engendrou ele uma diabólica maquinação. Verdadeiramente, divertimento para ele é causar confusão e disparates.

Mas, se isto for mesmo obra do Diabo, como diz dona Glória, entronizada em seus já setenta anos de existência, no ofício de secretária já há mais de cinquenta anos, não é nada de se duvidar, afinal, alguém que chegue são e salvo aos setenta e é certo que já tenha visto todo tipo de coisas neste mundo. E se ela diz que o que se passará, é coisa do Diabo, convenhamos, é melhor acreditar, pois outra explicação não há.

Nos anos setenta, dona Glória trabalhava em uma repartição pública. Eu trabalhava no mesmo lugar, servindo o cafezinho e fazendo serviços gerais. Ao lado dela, um senhor muito distinto de nome Osmundo, sentava-se numa mesa que ficava defronte a uma enorme janela de onde se podia ver a praça da matriz. Quando ele se desvencilhava dos afazeres burocráticos, por volta do meio-dia, gostava de sentar-se junto à janela para ver a vida passar, conforme ele mesmo dizia para ela.

Foi em um desses dias que ele, visivelmente assustado, chamou a atenção de dona Glória. Lá na praça ele viu a si próprio sentado em um dos bancos. O outro vestia a mesma roupa que ele naquele momento. Dona Glória disse-lhe que podia ser alguém muito parecido, quem sabe até um irmão gêmeo. O senhor Osmundo ficou muito perturbado com aquela visão, afinal ele não tinha irmão algum, que dirá um gêmeo. Desceu até a praça, mas não encontrou ninguém, o que era de se esperar. Dona Glória o tranquilizou dizendo que não se afobasse por causa daquilo. Ele, no entanto, confessou para ela que não era a primeira vez que tinha visto a si próprio lá na praça. Geralmente sempre às sextas-feiras, era certo que o “outro” estaria lá.

Diante daquela confidência, dona Glória preocupou-se pela saúde mental do senhor Osmundo, mas não lhe disse nada.

No decorrer do tempo em que o senhor Osmundo trabalhava lá, invariavelmente dona Glória o encontrava petrificado diante da janela, miseravelmente esgotado e de uma palidez mortal. A visão de si próprio o tinha causado um estrago enorme em sua fisionomia. De um homem robusto e bem afeiçoado, tornou-se esquálido e de aspecto doentio.

Foi então que ela se lembrou do fenômeno chamado “Doppelgänger”. De acordo com a lenda, o “Doppelgänger” é uma criatura que se torna um clone de alguém e que anuncia maus augúrios, já que “a pessoa vê sua alma se projetando para fora do corpo”. Em determinadas circunstâncias, se esta criatura for avistada também por outra pessoa, significa que haverá má sorte e sérios problemas físicos e emocionais. Já para quem avistar a própria cópia, está fadado para um destino cruel que o levará à morte iminente e em alguns casos, para a loucura e para o esquecimento. É claro que dona Glória não lhe falou nada sobre isso. Melhor seria se o dissesse. Teria talvez evitado o pior.

Com o passar do tempo o senhor Osmundo praticamente deixou de ir ao trabalho. Ninguém mais o encontrava em lugar nenhum. O mais estranho é que quase ninguém mais se lembrava dele, como se ele jamais tivesse existido. A própria dona Glória se recordava vagamente dele e fazia um esforço enorme para se lembrar de sua fisionomia.

Com o desaparecimento do senhor Osmundo, dona Glória instintivamente mudou-se a mesa que era dele, pois ficava defronte para a janela que dava para a praça da matriz. Certa vez, em um dia atarefado, perto do meio-dia, numa sexta-feira, olhando pela janela enquanto se servia de café, ela viu a si própria cruzar a praça e sentar-se em um dos bancos. A miserável mulher estremeceu até a raiz da alma. Soltou a xícara e a garrafa de café, que estrondou no chão, espatifando-se em mil pedaços. As pessoas correram para ver do que se tratava aquele barulho, mas nada encontraram a não ser a xícara e a garrafa espatifada no chão e quase todo o café derramado próximo à janela. Deve ter sido o vento, disseram, em seguida fechando a janela.

Como eu trabalhava nos serviços gerais, fui chamado para por ordem no estrago. Enquanto limpava a sala, senti um forte cheiro de alfazema e leite de rosas. O perfume agridoce penetrou insistentemente na sala. Achei que fosse do produto que eu estava utilizando na limpeza, mas repentinamente me lembrei que era o perfume característico de dona Glória.

Espere…quem é dona Glória?

28 fevereiro 2015 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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O PIERROT E A COLOMBINA

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Federico Cantú “Arlequines” (1930)

Agenor era um homem pacato. Não gostava dessa história de folia. Carnaval para ele era coisa de vagabundo, de gente sem noção. Durante o feriado carnavalesco, Agenor gostava mesmo era de ficar em casa, tranquilo, ouvindo os mozartes, betôvens, xúbertes, óperas e o diabo a quatro. Aquilo sim, é que era música de verdade, dizia ele estufando o peito!

Ele tinha ficado viúvo já há um bom par de anos e apesar de ainda ser um homem relativamente jovem, nunca mais tinha procurado mulher nenhuma para ocupar o outro lado da sua cama. Vivia do trabalho para casa. Os amigos de mesa de bar viviam tentando rebocar Agenor para curtir a noite, para levar para alguma festa, mas ele resistia a tudo. Não gostava de sair de casa.

– Eu não vou sair nem que a vaca tussa! – Falava decidido.

– Bora, Agenor, Deixa de ser abestado! Vai ter um bailezinho de carnaval lá no centro comunitário. A gente nem vai dançar. É só pra tomar umas cachaças e ver as meninas. – argumentava a curriola.

– Vô nada! Detesto baile de carnaval.

O fato é que de tanto insistirem os amigos, Agenor acabou cedendo.

– Eu vou, mas é só pra tomar umas duas cachaças e volto pra casa.

Chegando lá, no centro comunitário, o baile carnavalesco já rolava solto. Todo mundo pulando, dançando, fazendo estripulias, sujos de goma, o som dos carnavais em volume intenso e ensurdecedor. Agenor, meio contrariado, se sentou numa mesinha reservada no canto com os amigos, doido pra ir-se embora dali.

De repente, do meio dos foliões, surge uma bela loira, vestida de índia, mostrando as coxas grossas e bem torneadas. Ficou ali, próximo da mesa do Agenor, toda serelepe, se rebolando como uma odalisca. Agenor já meio calibrado começou a admirar a moçoila indecente e ela também, começou a trocar olhares e beijinhos pras bandas do Agenor.

Os amigos começaram a alcovitar a paquera, empurrando o Agenor pro rumo da foliona, que vendo a timidez dele, veio até a mesa e jogou uma mão de confetes na cabeça do Agenor, visivelmente encabulado com a desfaçatez da moça, que chegou tão perto que propositalmente, chegou a roçar o par de coxas nele, fazendo o desgraçado se estremecer dos pés à cabeça.

– Eita, Agenor! A louraça tá a fim de se abufelar contigo! – instigava a nêgada.

– Que conversa! É muita areia pro meu caminhãozinho! – disse Agenor emborcando mais um copo duma vez só.

Ouvindo isso, a loura pegou o Agenor pelo braço, puxando-o pro meio da folia. Ele meio sem jeito, mas já encachaçado, saiu aos trôpegos com a dita moça, se saracoteando no meio do salão. Depois disso, quem foi que disse que o pacato Agenor queria ir-se embora dali? Qual o quê! O cabra véi caiu na folia, agarrado na cintura da loura destemperada. Só se sabe, pela língua do povo, que Agenor e essa dita moça, se abufelaram foi com gosto de gás. Dizem até que viram o Agenor sair do baile de braços dados com ela, bêbados como gambás, indo em direção da casa dele. Ele todo atrapalhado, apalpando a despudorada criatura, doido pra entrar em vias de fato. Isso foi o que disseram.

No dia seguinte, quarta-feira de cinzas, o falatório sobre a aventura amorosa do Agenor já tava nas mesas de bar. O pessoal tava doido pra perguntar pro Agenor como foi que terminou a noitada com a loura fogosa. Foi quando chegou o dono do bar, assim de mansinho, falando em voz baixa:

– Loura, o carai! Aquilo ali num é mulher não pessoal!

Fez um silêncio sepulcral no bar. O povo se aprochegou, os olhos arregalados, babando de curiosidade..

– Parecia uma mulher. Eu mesmo vi! – Disse um, meio desconfiado.

– Eu vi também e tinha um par de coxas, que só vendo! – Falou outro.

O dono do bar deu uma gargalhada.

– É tudo silicone, pessoal! Aquela tal loura é aquele boiola do salão de beleza, ali da esquina! Eu vi quando ele passou aqui, vestido de índia paraguaia!

A esculhambação foi geral. O pobre Agenor ficou na boca do povo.

– Comé que pode pessoal, logo o Agenor?

– Mas dá pra enganar. Eu jurava de pé junto que era uma mulher!

– O viado até que é bem aprumado!

O negócio foi o seguinte, pra encurtar a conversa: passou quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e nada do Agenor aparecer. O disgramado devia estar em casa roxo de vergonha. Era bem possível que ele não iria aparecer tão cedo, até que a fofoca esfriasse. Mas o que mais chamou a atenção, é que o cabeleireiro também não apareceu nem pra abrir o salão de beleza, o que é compreensível, diga-se de passagem. Afinal o povo preconceituoso iria tirar o couro dele com essa história do Agenor. O fato é que os dois sumiram, literalmente.

Ainda hoje se especula o que pode ter acontecido depois daquele fatídico baile de carnaval. O disse-me-disse foi geral. O falatório ganhou as ruas. Os mexeriqueiros de plantão afiavam a língua, destilando todo tipo de conversa.

Tempos depois se soube que ambos fugiram juntos para viver um grande amor, nunca visto. Agenor largou tudo, vendeu os bens, a casa, o carro e partiu com a loura fatal que impiedosamente lhe roubara o coração, naquela noite de carnaval.

Vivem muito bem em Buenos Aires. Mas o povo inventa casa história….


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O ANJO

banco praça

Crédito da imagem: WordPress

Aquele senhor distinto, como quase sempre fazia nos finais de tarde, sentou-se em um dos bancos da Praça do Ferreira, em frente ao Cine São Luiz, num desses dias calorentos de dezembros de finais de ano, exausto dos dias em vão percorridos, suspirando devagar, como se quisesse renovar o ar para o novo ano que já se avizinhava lentamente.

Percorria, sem nenhuma expectativa, o olhar sereno e displicente pela multidão que se atropelava no vai-e-vem das lojas e das liquidações natalinas. Aquilo tudo não lhe impressionava mais nem um pouco. Tantos dezembros já lhe tinham passado, tantos natais e anos novos, e não tinha visto nunca nenhum milagre, nenhuma mudança, nada de novo, a não ser um novo calendário com um dígito a mais.

Sentou-se ao seu lado, no mesmo banco, um homem simples, trazendo consigo um tabuleiro de cocadas cheirosas. O homem lhe sorriu generosamente como um presente de natal. Sorriu-lhe também só por cortesia, embora não tivesse o interesse de puxar conversa nem de comprar cocadas. Não obstante, ignorando-lhe totalmente o fragrante desinteresse de travar algum tipo de diálogo, o vendedor das cheirosas cocadas perguntou-lhe de supetão, sem mais nem menos:

– Pensando na sua irmã falecida recentemente?

O homem então virou-se bruscamente, pálido como um fantasma.

– Como você sabe?

O vendedor de cocadas olhava para ele serenamente.

Ela está aqui ao seu lado, no banco. – disse, fazendo o assustado homem saltar de lado. completamente mudo, o pobre homem fez menção de sair dali. O simpático vendedor de cocadas pôs a mão em seu ombro.

– Sossegue. Ela está dizendo que esse é o milagre de Natal que tanto o senhor queria ver, apesar de seu ceticismo incorrigível. Há muito mais coisas que ela gostaria de lhe contar, mas não é chegada a hora.

– Como você sabe que minha irmã morreu? – perguntou apreensivo.

Ao se virar para o vendedor de cocadas, percebeu que ele não estava mais sentado ao seu lado. Assustado, levantou-se e o procurou por toda a praça, perguntando por ele aqui e ali, mas ninguém o tinha visto. Sequer o conheciam.
Na Coluna da Hora o relógio badalou a Hora do Ângelus, anunciando o coral de meninos cantores, que se agrupavam nas janelas da sacada do prédio do antigo Excelsior Hotel para mais uma apresentação do Natal de Luz.

O homem ainda atônito, sequer percebeu que já era noite.

Na praça do Ferreira, no meio do formigueiro humano agitado de transeuntes, crianças e famílias inteiras que já se agrupavam na praça para ver as luzes de Natal, no mormaço infernal de dezembro, mal percebiam que havia um anjo entre eles que vendia cocadas cheirosas.

12 dezembro 2014 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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A MÃO DA GLÓRIA

MendigoPeloMundo

Foto de Lee Jeffries

O homem macérrimo e doente, andava às voltas com a uma ideia fixa, que o vinha há dezenas de meses exaurindo-lhe o semblante, agora mortificado, de aparência abjeta, desprezível, como um edifício oco.

Havia já sido advertido de que sua saúde inspirava cuidados, mas não dera ouvidos aos médicos, pois havia urgência em obter o seu intento. Era um homem de maus trabalhos. A doença não adoece o caráter de um homem.

Desde quando ainda jovem, vivia de pequenos roubos que, com o passar do tempo, evoluiu para a prática de assaltos à mão armada, sequestros, assassinatos e toda a sorte de delitos. Passou boa parte da vida atrás das grades, emparedado em um presídio de segurança máxima. Mas foi lá, encarcerado, sem ver a luz do sol, privado da liberdade, que aprendeu muito sobre o mundo e as coisas. Tal e qual Edmond Dantès, porém nem tanto inocente e injustiçado, obteve o conhecimento de uma grande fortuna, mas que não poderia ser roubada, a não ser de forma misteriosa. Ele então quis saber.

Há um encanto bastante perturbador, com uma reputação de fazer invisível aquele que o invocar e há ainda, um objeto demoníaco, uma vela que faz paralisar aqueles que vêem a sua luz. De fato, ninguém de alma decente jamais ousaria fazer uso de tal feitiçaria.

Ele então quis saber. Os olhos amarelos brilharam de cobiça.

A Mão da Glória é um terrível artefato de magia negra e decerto, como um amuleto demoníaco, nunca é conseguido de maneira fácil. Para se conseguir uma Mão da Glória é necessário decepar a mão de um criminoso que tenha sido enforcado. Mas não basta decepar a mão do primeiro que encontrar. O corpo tem de estar dependurado, não menos do que vinte e quatro horas em um patíbulo, na beira de alguma estrada.

A mão deve ser separada do corpo de um só golpe. Nesse momento também, se pegaria cabelo e gordura do cadáver para produzir a vela que a mão segurará. A mão deve ser drenada de todo o sangue, utilizando-se para isso de um pedaço de tecido de mortalha, mergulhado em uma mistura de sal, salitre, amônia, pimenta, entre outras especiarias e enfurnada por duas semanas em um recipiente de terracota.

Depois disso, tal amuleto ficaria secando ao sol nos dias mais quentes do ano, ou na falta disso, um forno servirá, onde junto, seria queimado verbena e abeto. A mão seria então moldada como um punho, onde se encaixaria a vela, feita com a gordura humana, cera e óleo de sásamo. O cabelo do enforcado servirá para moldar o pavio. Uma vez dentro da casa onde se planeja o assalto, basta o possuidor pronunciar um determinado verso enquanto se acende a vela e quem estiver adormecido na casa, não poderá despertar.

Além dessa propriedade maligna, a vela poderá até mesmo ser mergulhada em água e mesmo assim não se apagará. Apenas leite fresco, sangue ou a vontade do seu dono poderá apagar a chama da vela que queimará eternamente, sem se consumir.

O homem ouviu tudo atentamente e fez anotações minuciosas, escrevendo a sangue frio na própria pele com uma navalha.

Anos depois, disseram que o encontram jogado ao léu, na imundície das ruas. Os braços em carne viva, onde ainda se podia ver caracteres intraduzíveis rasgados na pele, numa profusão de feridas infeccionadas e purulentas. Ouvia-se dele que tinha o poder da invisibilidade. Que podia entrar em qualquer lugar sem ser visto. Que era proprietário do mais demoníaco dos amuletos.

Porém é certo que ninguém lhe dava ouvidos. Perguntava-se como um homem portador de poder tão assustador vivia ali naquela miséria humana? Se podia entrar em qualquer lugar sem ser visto, por que não entrava no J.P.Morgan Chase, Casa da Moeda, no Gold Bullion Depository em Fort Knox ou no enigmático cofre mórmon na Cordilhera Wasatch e sairia então carregado de ouro e posses valiosas?

Os olhos vazios dele, amarelados pela icterícia escleral, tomavam uma cor escura nas órbitas. Seu semblante se modificava repentinamente, ruborizava a face escaveirada e abria um discreto sorriso, digno do mais sábio dos homens.

Sabia que lhe viriam tais perguntas. Quando tomou posse da Manu Gloriae achava mesmo que lhe viriam imensas fortunas. Poderia conquistar todos os tesouros que assim almejasse. Teria acesso ao mais intransponível dos cofres. Desvendaria todos os segredos guardados a sete chaves.

E assim o fez.

Mas a Manu Gloriae não lhe daria tanto poder a troco de nada. Ao conhecer os segredos humanos, ao penetrar nos mais profundos segredos da Humanidade, aquele homem adoeceu profundamente e quis devolver o poder amaldiçoado da Manu Gloriae e fracassou de forma miserável. Já era muito tarde para o arrependimento.

Depois disso, acuado, como se fosse Lázaro, caiu em abstrusa desgraça.

Qual invisibilidade seria maior do que um homem doente, enlouquecido e de péssima reputação jogado nas ruas?


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O PESADELO

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Não era de hoje, mas o menino se queixava sempre que tinha pesadelos horríveis.

Contava que tinha um sonho repetitivo, recorrente, atribulado, difícil. Sentia-se quase sempre sufocado e que era puxado e arrastado pelas pernas em direção a uma espécie de banheiro, pois no sonho, dizia, dava para ver os azulejos brancos nas paredes e o odor de desinfetante, aquele cheiro de pinho misturado com o fedor de urina. Aí o pesadelo acabava ali no banheiro, não continuava e o menino não sabia o que acontecia depois que ele era puxado para ali.

No dia seguinte, sabia que o pesadelo se repetiria e que acabaria de novo sendo arrastado para o banheiro. De outras vezes, o sonho recomeçava com uma nova roupagem. Era como se estivesse em uma casa nova, espaçosa e com janelas grandes que davam para um quintal ainda maior, onde se via um milharal. Ele também dizia, o menino, que quase sempre sentia no ar, uma fragrância que quase não podia descrever, como se fosse a mistura de diversos cheiros, como seiva de alfazema e tangerina, ou até mesmo percebeu algumas vezes, um cheiro adocicado, semelhante ao cheiro da fervura de calda de abacaxi. Chamava esses odores de “cheiro alienígena”, pois desconfiava que teria sido abduzido por entidades de outro planeta, no dia em que presenciou um objeto metálico no quintal. Mas isso já seria uma outra história.

Nos dias em que sentia no ar esses estranhos e específicos odores, era certo que teria o tal pesadelo do banheiro.

Mas tal sonho não o assustava mais. Pelo contrário, esperava o dia em que o sonho ultrapassasse a cena fatídica do banheiro. Queria a todo custo saber o que iria acontecer logo depois, mas por capricho, o sonho só acabava naquele mesmo ponto. O que viria depois ainda era um mistério e a curiosidade mal o deixava dormir.

Tempos depois, já passando dos cinquenta anos, tinha ainda o pesadelo recorrente e interminável. O sonho às vezes o atormentava durante semanas, mas parecia que não chegaria a nenhum término. Às vezes, o pesadelo era tão real que, no meio da noite, apertava a mão da esposa sonolenta ao seu lado, querendo que ela o socorresse e impedisse que fosse levado para sempre dali. E quase sempre ela o abraçava e o sonho cessava.

Mas amanhã começaria tudo outra vez.


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HISTÓRIAS DO SERTÃO: A MULHER DO CACIMBÃO

Desta feita a história era de um menino que todo dia ia no cacimbão para buscar água. Mas de uma hora para a outra, sem mais nem menos, se negava a ir. A mãe desse menino, atarefada nos afazeres da casa, insistia muito, mas o menino não queria ir mais no cacimbão de jeito nenhum. A mãe desse menino ficou cabreira com aquilo e se aquietou. E perguntou o que tinha lá no cacimbão. O menino assustado disse sussurrando que toda vez que ia buscar água, tinha uma mulher lá, sentada em cima da tampa. E essa mulher não era gente não.mcb

Passou o tempo e ninguém mais quis buscar água no cacimbão. Ninguém tinha coragem de ir lá por causa da mulher sentada na tampa. Por causa disso, tempos depois se descobriu que o filho do coronel, dono daquelas terras, tinha assassinado uma mulher e jogado o corpo no cacimbão, descobrindo assim um crime que talvez nunca teria sido descoberto.

O sertão é uma colcha de retalhos de histórias que não têm fim. Ainda hoje, as pessoas se reúnem em torno da mesa da cozinha para prosear. Conversa vai, conversa vem, a prosa descamba sempre para as histórias de alma penada. Quase todo mundo sabe de uma dessas histórias, ou que ouviu alguém contar ou mesmo que conheceu alguém que a protagonizou.

Meu avô, muito eloquente, contador de causos, se adiantava sempre quando o assunto era esse. Os meninos se acotovelavam na mesa, assustados com mais aquela história. A luz da lamparina tremulava, projetando sombras descomunais na parede. O cheiro do cuscuz e do café enchiam as narinas. Lá fora, a noite era escura como breu, salpicada das brasas dos vaga-lumes e o vento frio ondulava as palhas das carnaubeiras, prateadas pela lua branca, silvando e rangendo nos galhos secos do cajueiro. De quando em quando, o pio da rasga-mortalha cortava o silêncio.

O sertão por si só já é um poema.

Meu avô sabia de um monte de histórias assim. Dizia até que dava pra escrever um livro. E dava mesmo. Mas nunca escreveu. Não porque não sabia escrever, mas porque gostava mesmo era de contar com a boca. Cada vez que contava uma mesma história, tinha coisas novas, que era para aumentar a história como se fosse outra. Sempre começava dizendo que tinha ouvido alguém contar aquela história e que tinha acontecido há muito tempo, quando não tinha esse negócio de televisão nem de internet, quando as pessoas pareciam ser mais inteligentes e criativas. Mas o bom da internet é que agora a gente conta essas histórias para o mundo todo.

Bem que o Conselheiro avisou que o sertão ia virar mar.


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O COURO DE BODE

Por fim das forças, Agripino queria ficar rico. Andava preenchido até à alma com a mais profunda depressão – a doença da cobiça – que lhe atormentava noite e dia. Sua figura magra, taciturna e encurvada, causava repugnância. Sua sombra disforme projetava no solo um edifício negro, cujas janelas, semelhantes órbitas destituídas de espírito, vagava desolada alheia a ele próprio, como se quisesse desvencilhar-se dele, numa inútil batalha, infértil delírio, terrível desolação.

Consultava febril o jornal à cata dos números sorteados, ávido de vê-los como se fossem seus números. Jogava diariamente em toda sorte dos jogos azarentos, nunca tendo sido contemplado com a sorte grande, a qual perseguia com unhas e dentes dia após dia.

Agripino também era dado às orgias e frequentava o baixo meretrício. Uma vez embriagou-se em um cabaré e começou a falar de seus anseios de riqueza com uma puta velha. A mulher também se embriagou com a possibilidade de obter riqueza súbita e fácil, além de também concretizar os anseios de se juntar àquele homem como consorte. Chamou-o à parte e sussurrando-lhe como num segredo de morte, com o olhar transtornado de um moribundo, confidenciou-lhe que conhecia uma mulher que dominava as artes demoníacas do vaticínio e que era certo que ela conseguiria realizar o desejo de Agripino em tornar-se milionário da noite para o dia. Os olhos deles se esbugalharam e de braços dados com a meretriz, adentrou a noite em busca da jabiraca, afilhada do Demônio.

Encontraram-na, a bruxa velha, em sua casa e tão logo ela viu Agripino, soube de que tipo de homem ele se tratava. Viu-lhe a alma corroída pela ganância e esfomeada de riqueza e lucro fácil. Propôs-lhe uma série de coisas odiosas, doze trabalhos que deveria fazer para atrair os dinheiros, não antes de lhe impor centenas de advertências, sob a pena de malograr o trabalho dos mortos e se endividar com o Demônio e boa coisa é não contrair dívidas com o maligno Senhor das Moscas.

Depois de ter empreendido todas as etapas dos doze trabalhos, entre eles o mais reprovável tendo sido o de violar o túmulo de uma criança e ofertá-lo ao amaldiçoado Belzebu, Agripino então se encontrou novamente com a velha necromante, para receber dela o objeto do desejo, o qual iria enfim torná-lo rico, milionário, como sempre sonhara. A velha megera, a boneca de pano do Diabo, trouxe-lhe enrolado um couro de bode curtido, advertindo-o severamente de que não o desenrolasse de forma alguma, pois naquele couro de bode estavam todas as maldições, doenças, pestes terríveis e misérias possíveis. O próprio mijo do Demônio estava ali enrolado naquele couro e que o Todo-Poderoso Deus se apiede da alma daquele que o desenrolar antes do devido tempo, como assim tinha que ser.

Assim Agripino tornou-se milionário, proprietário de fazendas e imóveis nas mais diversas partes do mundo, empresário bem sucedido, reconhecido internacionalmente, tendo sido inclusive convidado pela mais alta elite do país a pleitear cargos políticos que o fariam mais rico ainda. Agripino sempre, no entanto, de guarda do couro de bode, cioso do objeto, não deixando ninguém chegar perto o bastante para desenrolá-lo, o que decerto seria a sua ruína.

Mas o tempo é o senhor da razão. Descuidou-se Agripino uma única vez da guarda do objeto da maldição e viajou a negócios. Quando chegou a casa, estancou horrorizado ao se deparar com o fatídico couro de bode estendido na sala, como um objeto de decoração. O coração quase lhe salta boca a fora. Um ar quente vindo de fora da casa soprou, trazendo consigo um odor nauseabundo impregnando totalmente o ambiente. Tresloucado, na mais profunda agonia, sentindo esvair-se a si próprio, trôpego, ofegante, tenta em vão enrolar o couro, agora coberto de vermes. Tinha enfim chegado o seu devido tempo.

O domínio sem misericórdia das trevas estendeu-se sobre tudo.


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A LUZ MISTERIOSA DE CANINDÉ

Aqui no Ceará, na cidade de Canindé, numa localidade chamada Salgado Ingá, anda aparecendo umas histórias de uma luz misteriosa que vem atacando as pessoas no meio da noite. Dizem que essa luz surge por detrás de uns montes e voa baixo, silenciosamente pelas estradas à noite, assustando os agricultores que já andam apavorados com a seca medonha que campeia no meio dos roçados, sem falar na situação caótica por que passa a cidade de Canindé, refém da violência urbana, assaltos a bancos, tráfico de drogas e todo tipo de crime. E agora, mais essa luz misteriosa!ccdd

Uma pobre e esbaforida moradora de Salgado Ingá disse que ficou cara a cara com a aparição da luz misteriosa. Ela disse que viu na noite anterior “…uma tocha vermelha muito forte, e ela ficou parada. Eu bem poderia descrever como um disco-avuadô, uma coisa que eu nunca vi”. Como ela poderia descrever como um disco-voador se ela nunca viu um, é outro mistério. Aliás, de qualquer modo, desconfio às pampas desses mistérios que aparecem em pleno ano eleitoral. Vai ver, não me admiraria, deve ser algum bandido da luz vermelha à cata de votos.

Eu fui lá em Canindé para conferir de perto essa história. A localidade onde aparece a tal da luz misteriosa fica no meio do matagal, onde o cão perdeu as botas. O perigo mesmo é encontrar alguma quadrilha de assaltantes por aquelas bandas. Andam explodindo bancos em quase todo o Estado do Ceará, como se aqui fosse uma terra sem lei, como se morássemos no velho oeste dos filmes de Hollywood. Aliás, estou quase certo que o Ceará se tornou mesmo uma terra sem Lei, onde os fracos não têm vez, jogados na imensidão de uma terra seca, abandonada pelos sucessivos governos que saqueiam os cofres públicos ano após ano, deixando o povo no meio da peleja de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Lá em Salgado Ingá fui conversar com o povo sobre a tal da luz misteriosa. Uma mulher aflita disse quando ligou pra rádio de Canindé que tinha presenciado a luz mal-assombrada.

– Aquela luz grande, aí quando vai abaxando, ele diche que num abaxô, pruquê ele aumentô a velocidade da mota mais a muié e as criança. Fica aquela quentura medonha quando vai abaxando. Muita gente lá num sai mais de casa com medo…num sabe o que é!

Aí apareceu um homem que disse que sabia o que era a tal luz. Esses homens acostumados com o sertão, lavradores, ferrador de gado, sábios por natureza, que não gostam de mentiras nem de conversa fiada. Ele disse que essa luz nem nada de disco-voador.

– Essa luz, eu sei o que é, sim sinhô! Essa luz é São Francisco de Canindé vigiando o povo! Aqui no Canindé tá a maior disgraceira da peste com esse negóço de droga! O povo nu quer mais trabaiá é de jeito manêra! Os mininos num querem mais estudar! Quando num tão aviciado em crack ou bebendo cachaça, tão nesse negóço de fêicibuque e zap-zap falando da vida alheia! Essa luz aí que anda aparecendo em Salgado Ingá num é nada mais nada menos do que São Francisco com sua lanterna alumiando o sertão do Canindé, pra ver se salva alguma alma boa, que é pru mode o sertão miorá!

O velho tomou um gole de café quente. Se benzeu e subiu na montaria, pois já tava na hora de ir pro açude buscar água pra molhar a plantação.

– Esse ano a seca tá medonha e se a gente num cuidar do roçado não vai ter farinha, nem rapadura nem feijão para encher o bucho. Saco seco não se põe de pé.

Pura verdade. Ele está coberto de razão. Acabou-se o que era doce. O povo foi para suas casas acender velas para São Francisco de Canindé e rezar para Deus se apiedar do Ceará calcinado pela seca. Domingo vai ter novena e é certo que São Francisco vai estar lá para alumiar as estradas solitárias do sertão.


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OS MISTERIOSOS ROCHEDOS DE QUIXADÁ

galinha choca

Pedra da Galinha Choca

O anoitecer lá é um grande mistério.

Primeiro o céu todo, no horizonte, fica tingido de matizes multicores: uns azuis amarelados, verdes avermelhados, cúmulos rosáceo-alaranjados, nuvens cinzas transparentes esgarçadas como algodão, coroam os rochedos sombreados que despencam vertiginosamente sobre o vale. As águas do açude, ainda refletindo os últimos raios fugidios de sol, espelham também as enormes sentinelas de pedra centenárias, libertando espectrais gemidos dos mortos, levados pela fria aragem noturna.

Você está em Quixadá.

Quando a noite então ali se instala, o pretume toma conta de tudo, mal dando para enxergar os caminhos pedregosos e tortuosos no meio do matagal. Então carece de se ter cuidado para saber por onde se andar naquele lugar. Naquela extensão a se perder de vista, encontra-se então um deserto medonho,  habitado por solenes e gigantescos monólitos, que se elevam do solo, prisioneiros da solidão centenária, erguendo para o céu salpicado de miríades de estrelas, seus  longos pescoços fantasmagóricos. E do meio dos temíveis rochedos, ouve-se atemorizado, murmúrios confusos, como se fossem murmurejos saídos das entranhas da terra seca. E os penhascos  imponentes e melancólicos, voltam-se uns para os outros, em um abraço descomunal, arquejando na desolação do vale.

Lá nem chove. Mas quando chove, é possível presenciar sombras fantasmagóricas dos monólitos estilhaçando-se por sobre o deserto tenebroso e belo, relâmpagos colossais iluminando até o fim infernal dos precipícios, trovões descomunais tremem repetidas vezes o assustador bombardeio nas rochas encharcadas pela torrente.

Sabe-se que no meio da noite, avistam-se luzes misteriosas que rondam o cume dos rochedos. Pessoas já foram subtraídas pelas luzes e voltaram mudadas para sempre, enlouquecidas, rejuvenescidas e adoecidas de puro pavor. Por certo, teriam sido levadas até  os confins dos abismos do outro mundo e devolvidas não se sabe o porquê.

Sentemo-nos extasiados à sombra dos monólitos. Quem sabe, porém é certo, que um dia não nos veremos mais.


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OS DESAPARECIDOS

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O velho Antônio, quando bebia, vidrava os olhos verdes de esmeralda em um ponto fixo, fitando através da  janela, espelhando o céu. Ficava assim por tempos e tempos, remoendo velhas memórias, fotos amareladas de pessoas esquecidas,  regurgitadas ali mesmo na toalha quadriculada da mesa do bar.

Meu pai… – dizia ele sem tirar o olhar fixo da paisagem imaginária – uma vez saiu de casa dizendo que iria até a padaria para comprar leite e pão. Minha mãe me disse que como ele fazia isso toda manhã de domingo, não estranhou nada. Só percebeu que ele tinha sumido, perto da hora do almoço.

O velho Antônio servia-se de mais uma dose cachaça, espremia meio limão na borda do copo e acendia um cigarro. A fumaça diáfana desenhava coisas no ar. Ele me narrava quase sempre com lágrimas nos olhos, aquela mesma história.

…minha mãe, coitada, nunca entendeu o porquê de o meu pai ter ido embora daquele jeito. Naquele dia fatídico eu ainda era pequeno, tinha seis anos, mas eu vi o desespero dela correndo de um lado para o outro, o almoço esfriando em cima da mesa à espera de meu pai que nunca veio. Foi marcante como ela enlouqueceu nos anos seguintes. Culpava-se constantemente. Nos dias  que se seguiram ao sumiço de meu pai, a cidade toda o procurou em vão. Munidos com fotos dele, saíram numa busca frenética nos hospitais, delegacias, hoteis, rodoviárias e nunca o tinham visto ou ouvido falar dele. Procuraram em todas as cidades circunvizinhas, publicaram a foto dele em quase todos os jornais e programas de televisão. Por muito anos depois, ainda se viam cartazes colados nos postes de toda a região. A foto dele varou o mundo, mas nunca o encontraram.

É claro que muita gente veio até minha mãe com histórias rocambolescas,  suposições estapafúrdias,  extravagantes devaneios de mentes doentias e teorias conspiracionistas de toda a sorte. Surgiam boatos de que o tinham visto por toda parte, ora encontrava-se só, ora acompanhado de uma bela mulher. Minha pobre mãe sofria só em  pensar que ele poderia ter ido embora por conta de uma outra mulher. Eu, ainda pequeno, sofria com o sofrimento dela.

Um dia veio-lhe um homem que dizia falar com o mundo do além, mandado não se sabe por quem. Trouxe-lhe o conforto de que dele tinha recebido uma mensagem de que estava bem. Minha mãe acreditou nele e sossegou. Era bem melhor acreditar que ele tinha morrido. Mesmo assim, ainda lembro, ela nunca mais fechou a porta da frente, que era para o caso de ele um dia voltar e encontrar a porta sempre aberta.

Trinta anos depois, um homem entrou por aquela porta. Disse que era ele, mas não se parecia com ele. Não de como nos lembrávamos. Minha mãe o recebeu sem grande entusiasmo. Aquele homem não deu nenhuma explicação. Passava o tempo todo em silêncio, como se tentasse lembrar de algo. Minha mãe uma vez me chamou e cochichou no meu ouvido que aquele homem era ele sim, mas não era ele. Fiquei ainda mais confuso, mesmo trinta anos depois. Tentei travar contato com aquele homem que dizia ser meu pai desaparecido. Ele me olhava e parecia não me ver. Apenas sorria.

Num certo dia de domingo, esse mesmo homem disse que iria sair para comprar um jornal. Como se esperava, ele não mais voltou, como da última vez. Minha mãe fez pouco caso. Não o quis mais procurar. Também não preparou-lhe o almoço, pois sabia que ele tinha ido embora, dessa vez para sempre.

Pela primeira vez vi minha mãe com o semblante tranquilo. Depois que meu pai foi embora outra vez, ela passou a tarde toda na varanda, pensativa, absorta, envolta em um silêncio sepulcral. Minha mãe agora estava em paz e eu sabia que ela também não voltaria mais.


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O ANEL

Havia um homem naquela rua que tinha por muitos anos um armarinho, muito sortido de coisas várias. Podia-se ali, sem nenhum exagero, encontrar-se de tudo o que se procurasse e mesmo que não se encontrasse o que se queria, aquele homem se prontificava e se empenhava de tal zelo, a ponto de consegui-lo em poucos dias, aquilo que se procurasse.MANU GLORIAE

Dizia-se também que aquele homem naquela rua, gozava da má fama de  “incomparável infâmia, inexprimível miséria humana e crimes imperdoáveis”. Não havia para ele, quaisquer que fossem os empecilhos para se conseguir itens para seu armarinho abarrotado de artigos de origens duvidosas, principalmente quando recebia a incumbência de um artigo raro, incumbência essa que se tornava um desafio. Movia pedras e montanhas para que se concretizasse o êxito da empreitada, o mais rápido que fosse, numa guerra pessoal e infindável consigo mesmo, para se sobrepor aos prazos estipulados por ele e superar-se a si próprio, numa conduta doentia e frenética de superação.

Em uma noite pesada e chuvosa chegou até ele um homem muito aflito. Buscava um objeto de altíssimo valor sentimental. Sentou-se com ele no soturno escritório para que ali fosse iniciada a negociação pelo tal objeto.

Um anel. Busco simplesmente um anel e ponho no senhor toda a minha esperança de encontrá-lo. Não é um anel comum. Tenho por ele grande apreço sentimental. O valor dele é para mim inestimável. A verdade é que sei onde ele se encontra, mas falta-me arrojo e determinação para buscá-lo. – balbuciava o homem em aflição.

– E onde ele está? Esse anel?

O homem aflito então abaixou a voz. O ambiente pesado sufocava-lhe as palavras. Era noite e a chuva caía aos cântaros, embalada por trovões gigantescos e assustadores relâmpagos.

Vez em quando, quando relampejava, as sombras se amontoavam num canto como refugiados e refletia-se a figura horrenda do Demônio na vidraça da janela, pousando a mão sobre a cabeça daquele homem.


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A CIDADE DESERTA

HF

Uma vez voltei ao lugar antigo da minha infância antiga. Era um lugar de céu aberto, ensolarado, de manhãs de azuis intermináveis, onde árvores verdes deitavam suas sombras nas calçadas anchas pela tarde inteira.

Onde outrora era campo aberto, encontrei concreto. Andei à esmo, em busca do passado, para ver se via se ainda os lugares tinham permanecido intactos. Achava que poderia ainda sentir algum aroma antigo, tangerina, abacaxi, bolo de baunilha.

As ruas tinham mudado até de sentido. O que eu pensei que estava ali, estava noutro lado, opostamente colocado contra as lembranças. Não havia mais ninguém. A cidade vazia não me esperava.

Onde está o Zé Maria da banca de revistas? Não soube? Morreu. Infarto fulminante numa bela manhã de sábado.

O Germano, meio índio, que consertava todo tipo de eletrodoméstico sem nunca ter feito sequer um curso, também tinha morrido bem jovem.

Aquele campo enorme, descampado, onde à noite avistávamos as constelações, onde está? Hoje está ocupada por um prédio de apartamentos, mal a encontro.

Aquela nossa professora, quem nem mais o nome lembro? Ainda mora aqui? – Sumiu um dia. Dizem que foi por aí, embarcada numa dramática desilusão amorosa. Enlouqueceu, perdeu o prumo. Nunca mais se soube dela o paradeiro.

Mas o professor Epaminondas, que era militar do Exército, que nos obrigava a cantar o Hino Nacional, ainda mora aqui, não mora? – Que nada! Foi transferido daqui. Mora agora nos confins de algum desses lugares distantes do norte do País.

E o colégio onde estudávamos? Como está agora? – Fechou. Não existe mais.

Então não sobrou ninguém para que possamos conversar, relembrar os tempos de nossa meninice, um lugar onde possamos tomar um café? – Na verdade, não.

Foi então que percebi que eu não pertencia mais àquele lugar. Outras pessoas ocupavam as ruas que eram nossas, as calçadas sombreadas onde brincávamos nas tardes ensolaradas de verão, e as estrelas, ora, as estrelas eram outras. Uma a uma as coisas vão sumindo.

Foi então que eu percebi que eu mesmo me tinha ido embora.


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MISTÉRIOS DO SERTÃO

CCT

Imagem do blog Crônicas de um brasileiro

Quando a gente era menino, andava mato adentro, atrás de aventuras, caçando passarinho, tomando banho no açude, pescando traíras gordas que eram assadas ali mesmo nas pedras do lajeiro, enchendo o bucho de goiabas, mangas, azeitonas, pitombas, siriguelas, macaúbas, coco babão… era uma alegria quando algum de nós encontrava um pé de caju carregado! Naquele tempo tinha-se a impressão de que os dias eram mais longos, as tardes majestosas, verdes, o céu de um azul profundo. O vento rodopiava nas estradas levantando colunas de poeira e folhas secas. Às vezes observávamos um silêncio enorme, como se o tempo parasse literalmente. Ouvíamos apenas um longo assovio dentro dos ouvidos. Os mais velhos diziam que quando alguém estiver no meio do mato e o tempo parar assim, carecia de ter muito cuidado para não ser “encantado” e sumir para sempre.

A gente conhecia muitas histórias de meninos que tinham sumido e que nunca mais apareceram. Meu avô, muito temeroso, apesar de ser um homem valente e corajoso, contava-nos sempre  uma história de um vaqueiro que saiu muito cedo de casa para tanger a boiada. Ele costumava levar na garupa o filho dele, que tinha uns dez anos de idade, que era para o menino aprender logo a lidar com o gado. No meio do mato ele sentiu o tempo ficar parado, ouvindo apenas um assovio longo no meio da estrada. O cavalo estancou e o garoto sumiu da garupa como por encanto. Depois disso o menino nunca mais apareceu. O vaqueiro enlouquecido, passou o resto de seus dias a procurar o filho no meio do mato, sem nunca mais o ter encontrado. A gente morria de medo, mas mesmo assim, se entranhava dentro do mato, revigorados pela sede de aventura e à cata de mistérios.

Ouvíamos dizer que, se subíssemos no alto do serra do boqueirão, poderíamos ver o mar. Ora, que aventura melhor do que aquela? Meu avô dizia que era verdade e que uma vez subiu e viu mesmo lá do alto, a linha azul do mar. Mas nos desencorajou.

No meio do mato fechado, antes de chegar ao boqueirão, tinha uma casa antiga onde morava uma velha catimbozeira. O povo dizia que ela era leprosa e por conta dessa doença vivia isolada. Outros dizia que não, que ela não era leprosa, coisa nenhuma. Na verdade era uma feiticeira que roubava crianças nos sítios e arrancava as orelhas, somente as orelhas e fazia com elas um colar. Muitos meninos apareciam sem as orelhas, outros nem apareciam mais, pois a velha gostava de comer os meninos mais gordinhos e rechonchudos. Depois dessas histórias, quem é que tinha vontade de dormir?

Meu avô atiçava a fogueira e contava as mais estranhas histórias que ele sabia e que tinha ouvido alguém contar. O vento frio cortava a pele e uivava na copa das árvores, assoviando no telhado. A lua prateava o sertão e de vez em quando tempo parava. Minha avó se encolhia enrolada em uma manta de crochê e meu avô, iluminado pela fogueira, com brasas dentro dos olhos, começava outra história de arrepiar os cabelos.

Aí a gente ficava com medo de subir a serra e ficava no alpendre até tarde da noite olhando para a serra azulada, lá no fim do horizonte, imaginando que lá de cima, dava pra ver a linha azul do mar.


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O OITIZEIRO

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Imagem: Copyright: Vera Messias Marques (Trek Nature)

Sentado em um banco da praça, sob a sombra generosa de um oitizeiro antigo, um homem simples e de aparência humilde, sem grandes pretensões para com o mundo, armava todo dia sua banquinha de quinquilharias e miudezas. Ficava ali por horas, comercializando seus produtos tão simples quanto ele próprio.

Alguns vinham ali jogar conversa fora, apenas para se sentarem também debaixo da sombra do oitizeiro, esbaforidos com o calor tropical, refestelando-se nos bancos, travando calóricos debates sobre quase tudo o que se passava pelo país. O homem ouvia as exasperadas queixas em silêncio, assentia com cabeça e invariavelmente sorria.

Aquele homem simples bem que podia ter sido um homem de negócios ou quem sabe até mesmo um médico conceituado na cidade ou até sabe-se lá, um político bem assentado na vida pública. Mas não. Ele dedicou-se a coisas pequenas, não almejou ser grande em nada e, por fim, já velho, sobrou-lhe apenas a pequena oportunidade de ter conseguido licença da prefeitura para negociar miudezas no centro da cidade. Mesmo assim, ele parecia que não invejava nada, nem queria nada a não ser saúde para poder trabalhar (como ele mesmo dizia com sua voz quase inaudível), mesmo que o ganho obtido daquela pequena banquinha fosse ínfimo e risível.

Mas ele agradecia a Deus por aquele oitizeiro ter nascido justamente ali, onde construíram a praça, onde ele podia se sentar todo o dia e armar sua banquinha sob aquela sombra dadivosa e refrescante.

Porém, havia uma história terrível em torno daquele homem simples e de aparência humilde (somente para nos mostrar que as coisas nunca são o que parecem ser).

Fala-se, à boca pequena, que esse dito homem já fora muito rico, dono de muitas posses, latifundiário e por causa dessa imensa riqueza, tinha se tornado em um homem de maus bofes, perverso e desalmado. Tratava todos de forma absolutamente cruel, principalmente para com sua esposa. Mantinha-a em cárcere privado, batia nela e a humilhava na frente de todos. Certo dia, chegado de uma viagem que não lhe foi muito lucrativa, encontrou a desventurada mulher adoentada, de cama. Sem saber que ela estava grávida (não que isso fizesse diferença para ele), despejou nela toda sua ira, submetendo-a às mais bárbaras torturas. Mas antes de morrer, a pobre mulher, ofegante, disse-lhe que estava esperando um filho dele. Ele, estarrecido, estancou petrificado ainda com o chicote na mão e sentiu sua alma esvair-se como fumaça. Percebeu tardiamente que de toda a sua exuberante riqueza, ele tinha perdido um tesouro bem maior e muito mais valioso: um filho. A mulher jazia morta a seus pés e nada mais havia o que ser feito.

Conta-se ainda, que ele caiu em desgraça e perdeu tudo o quanto tinha, ficando pobre  e miseravelmente só. Alguns dizem que logo depois daquele crime hediondo, ele sepultou o corpo da mulher no terreiro atrás da casa, no mesmo lugar onde hoje foi construída a praça, exatamente  sob as raízes daquele oitizeiro centenário.


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O PADRE ROMILDO VIROU LOBISOMEM

PRL

Dona Bastiana amanheceu atarefada. O padre Romildo veio cedo tomar café e almoçar na casa dela. Não era todo dia que ela recebia uma visita importante, ainda mais sendo o padre Romildo. Um homem de Deus. Um verdadeiro santo na Terra.

Dona Bastiana também tinha um filho, o Tião, menino traquina, danado, virado na gota serena, desobediente que só a peste, que passava o tempo todo no meio do mato caçando rolinha. Não queria estudar nem gostava de ajudar nas tarefas da casa. Vivia no açude fazendo estripulias com os meninos dos outros sítios da vizinhança e tinha uma amizade medonha com dona Benedita, uma velha catimbozeira que morava numa casinha no alto do serrote. Isso ela não gostava nem um pouco, dessa amizade com essa macumbeira. Por isso queria que o menino tivesse amizade com o padre Romildo, pra ver se ele pelo menos tomasse gosto e fosse ajudar o padre na igreja e quem sabe um dia virasse padre também.

Bem cedo, mal o sol raiou por riba do serrote, dona Bastiana mandou o menino buscar água pra fazer o almoço e nada dele chegar.

– Eche menino parece que tá é tangendo caranguejo!

O menino chegou com a água no lombo do jumento quase às onze horas. Dona Bastiana ralhou com ele, mas o menino parecia que tinha ouvido de mercador.

Vá pedir a bênção pro padre Romildo, menino! Deixe de ser herege!

– Vô não sinhora! – respondeu já se afastando como o cão com medo da cruz.

Dona Bastiana pegou o relho.

– Prefiro levar uma surra do que falar com esse pade véi! A dona Benedita disse que de noite ele vira lubisôme!

Dona Bastiana deu um pulo pra frente com o relho na mão. O menino deu um pulo pra trás.

– Vá pedir perdão pro padre Romildo, menino! Onde já se viu falar assim de um homem santo?

– Ele num é santo não mãe. Ele gosta de pegar na piroca e nos zóvos dos meninos lá na sacristia. Até a dona Benedita disse que ele vira lubisôme!

Dona Bastiana se benzeu três vezes e pegou o chiquerador para aplicar uma surra merecida no menino Tião, mas ele mais rápido do que um raio se atrepou no lombo do jumento e sumiu no meio do mato, rasgando o folharal, rodopiando no meio da poeira. 

Então ela se lembrou que deixou o padre Romildo sozinho na sala, esperando pelo café. Dona Bastiana tomou um susto quando padre Romildo de repente apareceu atrás dela, com os olhos esbugalhados, a batina toda rasgada, as mãos peludas, babando como um cão raivoso. A pobre mulher apavorada quase desmaia de pavor ao se encontrar frente a frente com aquela criatura saída dos quintos dos infernos. Paralisada de medo, ainda ouviu o padre Romildo tentar pronunciar alguma coisa, um misto de fala humana e de rosnado de um lobo faminto.

– Cadê o menino Tião, dona Bastiana? Eu tô doido pra pegar nos zóvos dele, pra ver se ele é mesmo macho!

Dona Bastiana correu em desabalada carreira, tendo o padre Romildo  já virando lobisomem no encalço dela. Ao chegar na sala, dona Bastiana se apoderou de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que tava em cima de uma mesinha e atingiu a cabeça do padre-lobisomem com toda força que tinha naquele momento. O miserável do padre caiu com todo o corpo no chão, destrambelhado, urrando como um porco no matadouro. Da estátua de Nossa Senhora de Fátima, só sobrou a cabeça, que saiu rolando porta a fora.

A cena era grotesca. De um lado, a dona Bastiana, arquejando de puro cansaço, se tremendo como vara verde, agarrada com um rosário numa mão e uma vela acesa na outra. Do outro lado, estatelado no chão, no meio de um monte de caco de gesso, o padre Romildo com a testa aberta com um rombo jorrando sangue.

O padre velho se levantou lentamente, se ajeitou numa poltrona, arrumou o cabelo, limpou o sangue da testa com um lenço e num sorriso, se dirigiu para dona Bastiana, paralisada de medo:

– Como é, dona Bastiana. Esse café sai ou não sai?


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OS GATOS PARDOS

gp

À noite todos os gatos são pardos.

Quando a porta de vidro deslizou fazendo aquele ruído característico, cabeças sincronizadas se viraram, curiosas. As mulheres atentas, os homens extasiados. A nova cliente que já era esperada por todos, enfim dava o ar da graça. E realmente a moça era muito bonita. Embora seja certo de que a expectativa é a grande filha da puta da história,  a beleza daquela senhorita superou acima do esperado.

Ela, trajando um micro vestido vermelho, propositalmente bem curto acima dos joelhos, deixava à mostra as bem torneadas coxas e pernas, delineadas por uma provocante meia cor da pele, como naqueles anúncios de revistas. A boca sensualmente insinuou um sorriso para os homens já hipnotizados, reféns do batom propositalmente vermelho-pecado. As mulheres, lançando-lhe um olhar à egípcia, desdenhavam da ofuscante beleza da moçoila.

O chefe visivelmente nervoso e ao mesmo tempo mantendo a compostura de um homem bem casado, censurou a todos com um olhar reprovador, principalmente para os machos afoitos, bem no estilo de Iracebeth, a Rainha de Copas: “cabeças rolarão”!

A partir daqui, a história toma um outro rumo.  Não se sabe ao certo o que aconteceu logo após a visita daquela cliente. Tudo era apenas especulações. Dizia-se que o chefe fora fisgado pela beleza da moça e que por causa dela afundou na mais profunda miséria humana, destruindo um sólido casamento e aplicando um vultoso desfalque na empresa, sendo sumariamente exonerado por justa causa.

A cliente ficou um bom par de horas na sala do chefe e perto das dezenove horas  saíram da sala, a título de jantarem juntos, no intuito meramente comercial, para tratar de negócios. A secretária ainda na porta do elevador, lembrou ao chefe que ele teria no dia seguinte, uma importante reunião com a holding da empresa e que o vôo para São Paulo estava marcado pontualmente para as oito horas da manhã. O chefe a tranquilizou, dizendo que estaria no aeroporto bem antes disso.

Depois do suposto jantar de negócios, o chefe e a cliente saíram para um barzinho somente com o intuito de espairecer e jogar conversa fora, sem maiores consequências, afinal ele estava cônscio de que deveria estar presente na reunião da holding em São Paulo, no dia seguinte.

Depois do barzinho, a situação fugiu do controle do casal, que tomados pelo sabor adocicado dos espumantes, alucinados pela embriaguês dos notívagos, encontraram-se febril e voluptuosamente numa cama de casal no apartamento da concupiscente  cliente. Sabe-se lá o que fizeram a noite inteira.

O homem acordou atordoado pela ressaca devastadora. Já passava das onze horas da manhã e desesperado, lamentou profundamente pela sua ausência na reunião em São Paulo. Aliás, a reunião já era! Seria preciso uma desculpa muito bem elaborada para justificar tamanha falha. Na verdade nenhuma justificativa seria suficientemente aceitável. O aparelho celular tocava como um louco.

Procurou pela moça. O vestido vermelho tentador e as sensuais meias cor da pele estavam jogadas sobre uma cadeira. Olhou ao redor e estranhou que o quarto mais parecia um quarto de hospital. Viu muitos equipamentos hospitalares, um suporte para soro ao lado da cama e sentiu um leve odor de medicamentos, como num ambulatório de hospital.

Aturdido, mas uma vez procurou pela moça e a encontrou no banheiro. Estava nua, de costas. Ele pôde ver a pele flácida das pernas e das coxas, agora sem as lascivas meias. Observou também, ainda, alguns hematomas e cicatrizes cirúrgicas nas costas. Para piorar ainda aquele terrível pesadelo, percebeu uma considerável quantidade de medicamentos sobre uma mesinha no canto. Atônito e agora assustado ainda pôde ler o festival de rótulos: abacavir, didanosina, estavudina, lamivudina, tenofovir, zidovudina, efavirenz, nevirapina e etravirina. Sobre a mesa viu também uma pilha de exames laboratoriais. Em um misto de curiosidade e de pavor, leu na etiqueta em letras vermelhas: paciente HIV positivo.

Abriu a janela do quarto e a tarde principiava-se bela sobre a cidade…


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa