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O MILAGRE

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olhará de volta, para dentro de ti. (Friedrich Nietzsche)

Conta-se que, há muito tempo, um homem inescrupuloso dizia ter o dom da cura.

Falava que podia curar qualquer doença e fazia disso o seu meio de vida. Tinha fama de benzedor e curador. Garantia enxotar água-nas-juntas, algueiro, alôjo e antójo, somente com um sopro. Era só fazer o sinal da cruz e salpicar umas gotas de água benta que curava barriga farosa, berruga, bicheira de vaca, bicho de pé, boqueira, bucho quebrado e caduquice. E ganhava muito dinheiro com isso.

Certo dia, porém, um espírito que andava por ali a rodeá-lo, desceu ao seu lado e falou dentro do ouvido dele com uma voz fria e metálica como aço, deixando no ar um aroma de cânfora. Quando o espírito falava, o homem dizia que tinha a impressão de que tudo ao seu redor silenciava, como que se estivesse envolto numa bolha. Também experimentou um gosto de cravo-da-índia na boca, como aquele gosto de metais, quando se vai ao dentista.

Querer um dom de curar os enfermos não é de bom alvitre, mas posso tocá-lo e poderás curar um homem em uma cadeira de rodas. – Disse a ele, o anjo.

O homem disse que assim o quis. O toque do anjo foi tão gélido e ao mesmo tempo como se fosse um ferro em brasa lhe queimado a pele.

O querubim apontou para um homem que levava um rapaz numa cadeira de rodas. Aquele rapaz – falou o espírito – havia nascido com paralisia cerebral e o velho pai, semblante cansado, resignado, cuidaria, é certo, daquele filho para toda a vida, sem descanso algum, e aquele filho seria como um fardo.

O espírito falou então com voz de mármore:

– Por que não tenta curá-lo?

O homem então foi, e tocou o rapaz na testa e este, levantou de um salto, como quem acorda de um pesadelo! O pai, atônito, maravilhou-se de tão grande prodígio! Um verdadeiro milagre!

O benzedor então encheu-se de orgulho e soberba e o pai do rapaz encheu-lhe de dinheiro.

– Pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, realizando sinais e maravilhas, com o objetivo de enganar, se possível, os próprios eleitos. – Falou o espírito dentro do ouvido do homem, que desdenhou do anjo.

E passou-se assim o tempo devido e o tal homem que dizia ter o dom da cura, não curou mais ninguém. Desesperado, febril, rogando e se remoendo em dor, andou procurando o anjo, sem nunca o ter encontrado. Ele disse então que, muito tempo depois, – talvez anos – foi visitar o rapaz que havia curado.

Teria sido melhor não ter sabido.

Logo depois de curado, já em casa, o rapaz começou então a espancar o próprio pai. Culpava-o por tudo, por ter nascido daquele jeito e por ter perdido toda a juventude numa cadeira de rodas. Tornou-se um homem de péssimos hábitos e começou a ter mudanças surpreendentes na personalidade e no humor. Tornou-se extravagante e antissocial, praguejador e mentiroso, dado a bebedeiras e zombarias, com péssimas maneiras, e um criminoso da pior espécie. Não demorou muito – segundo contaram – que as agressões do filho ao pai se tornassem mais violentas e o velho, não mais suportando as agressões gratuitas do filho, matou-o com um vergalhão de ferro, atravessando-o impiedosamente.

O homem, então, o benzedor, caiu em si e lembrou-se do que dissera o anjo.

E também se lembrou que desdenhou do anjo.

Pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, realizando sinais e maravilhas.

10 setembro 2017 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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ATRAVÉS DA JANELA

Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa – quase cativa – bem em frente à janela, de onde se podia ver, com folga, a praça da Matriz. O dono do bar, seu Alfredo, gostava dele. Servia-o sempre o mesmo: uma garrafa de zinebra do Conde, “Gato Preto” e uma porção de queijo com azeitonas. Como aquele horário tinha pouco movimento, ele e seu Alfredo conversavam sobre quase tudo: mulheres, futebol e política, principalmente.

À medida que o bar ia enchendo, a mesa do velho advogado ficava repleta de gente, amigos e conhecidos que lhe vinham cumprimentar e ali, muitas vezes, entabulavam conversas e debates político-filosóficos que varavam toda a tarde.

Ele saía lá pelas quatro horas da tarde, curvado para um lado, como se portasse o peso de uma imensurável dor.

Naquele sábado, porém, ele chegou bem mais cedo do que o costume, às nove horas. O seu Alfredo estranhou o horário, mas não fez caso. Foi ao balcão buscar a zinebra e o tira-gosto e quando chegou à mesa, não o viu mais ali. Pensou que ele provavelmente saíra e voltaria na hora costumeira. Também não fez caso disso.

No entanto, o velho advogado, continuou sentado na mesma mesa e estranhou o seu Alfredo voltando para o balcão com a bandeja. Chamou-o, mas o homem não lhe deu ouvidos. Ele consultou o relógio e viu que ainda era bem cedo e achou melhor mesmo pedir na hora costumeira, lá pelas onze. Pôs-se então, sossegadamente, a olhar pela janela que dava para a praça da Matriz.

O céu estava de um azul fúlgido, sem nuvens, tão belo como jamais havia visto. Admirou-se também tanto das pessoas sentadas nos bancos da praça, da revoada dos pombos e da correria das crianças que brincavam ali, como nunca antes havia se admirado.

Começou a perceber coisas – com lágrimas nos olhos – que nunca antes havia percebido, como o humilde pipoqueiro nos seus afazeres, de uma tamanha simplicidade. O varredor da praça, com seu macacão laranja, na incansável batalha contra as folhas secas que se recusavam a serem ajuntadas e rodopiavam num redemoinho, como se brincassem com o paciente varredor, que não lhes dava atenção. O mendigo, maltrapilho, sentado em um banco, a mão estendida, invisível, impassível, de um invejável ascetismo, o comoveu profundamente.

Nunca tinha visto as cores da tarde, nem o verde vívido das árvores que balançavam com o vento, sequer o gritante e belo amarelo dos ipês-amarelos!

Abriu a janela para ver mais, para sentir o vento e o perfume das flores. Estava extasiado com tanta beleza e estupefato por não ter notado antes. Achou que estava ficando já meio bêbado, mas lembrou-se de que ainda não havia bebido nada.

Voltou sua atenção para dentro do bar, que já estava cheio. Chamou o seu Alfredo, acenou, mas não obteve resposta. Foi até o balcão e ao chegar próximo, simplesmente empalideceu ao ouvir o que diziam:

– O advogado matou-se hoje, de madrugada, no escritório dele, seu Alfredo! Acabei de vir de lá. O homem tá lá, morto, com uma bala na cabeça.

– Mas não é possível! – Disse o dono bar, incrédulo – Vi ele hoje de manhã aqui no bar! Ele tava sentado ali, na mesma mesa de sempre!

Todos olharam para a mesa. A janela que estava aberta, deixou entrar um vento morno que arrancando as tolhas das mesas, arrebentou os copos no chão – em tão súbito alvoroço – saindo da mesma forma como entrou, deixando para trás um zumbido, semelhante a um lamento de dor.


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O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Canhão capturado pelas tropas do Juazeiro em 1914

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário; amanhã um grande usurário; depois um perigoso revolucionário. ” E a profecia do sertanejo, feita quando o padre Cícero era um santo, realizou-se. (Manoel Bergström Lourenço Filho – in Juazeiro do Padre Cícero)

A Sedição de Juazeiro – como figura nos livros de História – foi um sangrento e cruel confronto ocorrido em 1914 entre as oligarquias cearenses e o governo federal provocado pela interferência do poder central na política estadual nas primeiras décadas do século XX. Ocorreu no sertão do Cariri, interior do Ceará, em reação à interferência do poder central contra a política do coronelismo. Sob a liderança de Floro Bartolomeu e do padre Cícero Romão Batista, um exército de jagunços, bandidos e cangaceiros derrotou as forças do governo federal, depondo Franco Rabelo. Naquela época, o padre Cícero já era idolatrado e considerado um homem santo, “fazedor de milagres”.

Em 1922, o escritor cearense Rodolfo Teófilo – nascido na Bahia – publicou pela editora de Monteiro Lobato, um livro sobre esse triste episódio, A sedição de Juazeiro.

No meio de toda essa história, quase esquecido, há o episódio do canhão do Emílio Sá, dono de uma padaria no centro de Fortaleza, que teve a ideia de fazer um canhão que seria, segundo ele, “a arma fatal para dizimar os rebeldes do padre Cícero”. Segue-se o fato, com as próprias palavras do grande romancista e historiógrafo Rodolfo Teófilo:

“Emílio Sá, para derrocar as fortificações do padre Cícero, mandou fundir um pequeno canhão nas oficinas do Sr. Alfredo Mamede. A pequena peça – julgava-se – poderia atirar bombas de dinamite no acampamento inimigo. (…) A fundição de um canhão em Fortaleza, foi um caso extraordinário; o transporte da peça ao Juazeiro, um lance de suprema audácia”.

A investida contra o exército de jagunços do padre Cícero foi um verdadeiro desastre. O canhão não funcionou como o esperado e virou chacota em todo o Juazeiro. Em 24 de janeiro de 1914 a jagunçada invadiu e tomou a cidade do Crato – sem antes deixar um rastro de violência e mortandade – sob as bênçãos do padre Cícero e da mão de ferro de Floro Bartolomeu.

O canhão do Emílio Sá se tornou inútil contra o bando ensandecido do padre Cícero e foi abandonado na cidade de Barbalha. A jagunçada se apoderou da peça e a levou para ofertar como um troféu de guerra ao padre Cícero, que mandou enterrar na praça principal de Juazeiro, de boca para baixo, em sinal de desprezo pela inútil artilharia.

– Esse canhão de boca para baixo, vai servir somente para as velhas baterem os cachimbos. – Disse o sacerdote, em meio à gargalhada geral da tropa.

Padre Cícero, e seu séquito de bandoleiros venceram o canhão e segundo eles próprios sob a bênção de Nossa Senhora das Dores que havia aparecido ao próprio padre Cícero e dito que nenhuma bala poderia feri-los e, se fossem mortos, ressuscitariam em três dias.

Rodolfo Teófilo, em seu livro, retrata assim o cenário daqueles dias:

“A malta de criminosos não trazia bagagem, nem trem de espécie alguma. Dormia no chão, ao relento, e se alimentava do que ia roubando pelas estradas. Em caminho, praticava toda a sorte de depredações, abrindo cadeias e soltando criminosos, que a seu bando se incorporavam para, juntos, “pacificarem o Ceará”… Era a este bando de ladrões, de malfeitores, quase na sua totalidade de outros estados, especialmente da Paraíba, que o governo chamava “revolucionários” e à sedição – movimento político”.

Hoje o tal canhão se encontra no Memorial Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Inerte e em silêncio, talvez morto de vergonha de tão fracassada aventura.

Fontes: A Sedição de Juazeiro – Rodolfo Teófilo; Juazeiro do Padre Cícero – Manoel Bergström Lourenço Filho; À margem da História do Ceará – Gustavo Barroso.


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O CAJUEIRO DO FAGUNDES

Por volta do ano de 1797, no tempo do Brasil-Colônia, o Ceará era governado pelo oficial da marinha portuguesa Luiz da Mota Féo e Torres. Fortaleza era ainda uma pequena aldeia, muito embora tivesse o status de capital do Estado.

À época existia um frondoso cajueiro no cruzamento das Ruas Pedro Borges, Major Facundo e Liberato Barroso. No local onde hoje se encontra a Praça do Ferreira, havia uma vila de casas conhecida por Beco do Cotovelo, de cuja extremidade partiam três ruelas.

Na saída de uma delas estava o cajueiro, à sombra do qual ficava o açougue do Fagundes, que morava numa casinha em frente. Certa feita, ao passar o governador em seu cavalo, um galho baixo da árvore arrancou-lhe o chapéu, lançando-o ao solo.

Como o açougueiro descansava por ali, o governador ordenou-lhe que apanhasse o chapéu.

O Fagundes nem se alterou. Não gostava de ser mandado, muito menos quando o pedido não era feito com educação.

O governador insistiu colérico, mesmo assim, foi ignorado pelo açougueiro.

Irritado o governador foi embora, ameaçando mandar cortar a árvore.

Do palácio, na Rua Conde d’Eu, partiu a ordem de deitar abaixo o cajueiro. O açougueiro, com a ajuda dos seus magarefes, não deixou que os soldados executassem a ordem. É que o Fagundes já lançara por toda cidade o seu grito de revolta: vieram em seu auxílio outros açougueiros, flandeiros, merceeiros, ferreiros, até os pescadores da Prainha, todos armados com cacetes e facões, que fizeram a tropa recuar.

Levantaram-se então trincheiras na encruzilhada das três ruas perpetuando o episódio: Rua do Cajueiro (Pedro Borges), Rua das Trincheiras (Liberato Barroso) e Rua do Fogo (Major Facundo). Depois do episódio, o governador desistiu de derrubar o cajueiro.

Venceu a coragem de um povo que tinha dignidade e brio.

Extraído do livro “História Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a Cidade Amada” de Mozart Soriano Aderaldo


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O CORONEL E A BARATA

Lá no sertão, naqueles tempos, tinha um coronel muito do estribado dos cobres, dono de muitas terras a perder de vista, muito proseador, sabe-tudo, bravateiro até o meio das canelas. Orgulhoso e valentão que nem o Mata-Sete. Só porque tinha dinheiro metido nos cós, ele achava que mandava em todo mundo. E mandava mesmo.

Num tinha nada que ele num soubesse. Metia o bedelho em tudo o que não lhe dizia respeito, ralhava com tudo e com todos, dava palpite até nas coisas das mulheres. Porque tem assunto de mulher que os homens num entende nem que a vaca tussa, mas o coronel, esse sim, sabia de tudo. Num tinha um assunto que ele num botasse a colher.

Só ele tinha razão, só ele estava certo e ponto final.

A mulher dele, coitada, já conhecendo o jeito do coronel, mal pronunciava sequer uma palavrinha de nada, nem discordava dele com medo de levar um coice do bruto.

E era assim mesmo, esse coronel, cagado e cuspido.

Naqueles tempos no sertão, era comum os ricos fazendeiros convidarem o padre da paróquia para almoçar nas fazendas. O coronel, que não era muito católico nem religioso, fazia questão de chamar o padre, que era um modo dele se amostrar para os outros fazendeiros da região.

Depois do farto almoço, de bucho cheio, ele se refestelava numa cadeira de balanço na varanda para esperar o cafezinho.

Ele queria mesmo era começar uma prosa com o padre.

– Pois seu padre, eu lhe digo uma coisa: Deus fez o mundo e as criaturas, foi não?

– Foi sim, senhor coronel. Deus criou o homem e todas as outras criaturas, de forma que não faltasse nenhuma.

– Pois eu lhe digo, vossa eminência, que Deus criou umas coisas que não devia.

– Que é isso, coronel, não diga essa blasfêmia! Tudo o que Deus criou tem uma finalidade.

– Pois eu digo que não! Por exemplo: a barata!

– Que é que tem a barata?

– Não serve para nada. O senhor não concorda comigo? Pra que diacho serve uma barata?

– Ora, coronel, isso nós não sabemos, mas com certeza a barata tem o seu papel no mundo.

– Pois eu digo que não! Deus não precisava criar a barata!

Nesse dia então, a discussão foi longa. O padre, muito paciente, na maioria das vezes, ficava ouvindo as explicações do coronel acerca de tudo o que havia no mundo e que, no entender dele, deveria ser de outro jeito e não do jeito que existia.

E assim foi, conforme dito.

No dia seguinte, porém, o coronel amanheceu adoentado. Se queixava de uma dor no baixo ventre e que não conseguia urinar por mais que tentasse. A contragosto foi ao médico. Fizeram uma parafernália de exames e nada, o coronel não tinha nada que explicasse aquela dificuldade de urinar.

Foi quando a mulher dele chamou uma rezadeira. O coronel ficou meio cabreiro, mas na situação em que ele se achava, uma rezadeira era melhor do que o diabo de nada. A rezadeira chegou e começou a rezar com um ramo de jasmim em cima do coronel prostrado na cama. Pegou um saco cheio de ervas e misturas e preparou um chá pro coronel.

– Com esse chá o sinhô vai ficar curado ainda hoje mermo. – disse a benzedeira fazendo sinal da cruz no incrédulo coronel.

No dia seguinte o coronel acordou disposto. Foi no mato e mijou como um touro. Era mijo que num acabava mais. Ficou muito contente da vida e mandou chamar a tal rezadeira para poder lhe retribuir com uma generosa quantia de dinheiro e o que mais ela assim desejasse, afinal ela o tinha curado.

Quando a rezadeira chegou, o coronel foi logo perguntando de supetão.

– Dona Chiquinha, me diga uma coisa: que chá milagroso foi aquele que a senhora me deu pra beber?

– Seu dotô coroné, foi de chá de barata! É tiro e queda.

Nem é preciso dizer que naquele momento o coronel emudeceu. Teve que admitir que o padre tinha razão quando disse que a barata tem o seu papel no mundo.
E num é que tem mesmo?

(CONTO POPULAR NORDESTINO: A LIÇÃO DA BARATA)


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O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha.

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

Aí o pade viu um minino e aí chamou o minino.

Ô minino, ô de casa!

Aí foi que o minino, que tava brincando, viu o pade. Todo minino gosta de mexer com os pade.

Aí o pade diche: ô minino, cadê seu pai, cadê sua mãe?

Aí o menino diche que o pai e a mãe dele tinham ido pra feira.

Aí o pade diche assim: vosmicê minino tem não uma aguinha pra dar pru pade e pra burrinha, que é por causa que nóis tá cum sede da viaje?

Aí foi que o minino diche: vô vê se tem. Mas antes me arresponda essa pregunta: Que pregunta é echa?

Aí o menino preguntou pro pade: essa burrinha que o sinhô veio nela se transforma de noite numa muié pru mode o sinhô, seu pade, se abufelá cum ela?

É ou num é?

Aí o pade se arretô-se com o minino: me arrespeite que eu sou um pade!

Aí o minino dice: é ou num é? Me arresponda que vô vê se tem água!

É não! Essa burrinha é burrinha mermo, num é muié não!

O pade tava tiririca de ódio do minino.

Aí foi que o pade diche: tem água ou num tem, minino?

O minino diche: tem não. Mas tem garapa de rapadura, qué?

Aí o pade diche: quero.

Aí o minino diche: qué mermo? Óia lá! Vai querê mermo?

Aí o pade diche: já diche que quero, minino maluvido!

O minino foi lá dento da casa e trôxe uma cuia cheinha de garapa de rapadura. o pade bebeu e deu pra burrinha bebê.

Aí o pade diche: tem mais? O minino diche tem e foi buscar mais lá dento e trouxe a cuia mais cheia do que antes e o pade bebeu. E depois bebeu mais uma e mais ôta.

Aí o pade diche: Minino, sua mãe não vai se zangá pruiquê vosmicê me deu echa garapa todinha?

O menino diche: Vai não seu pade, ela num qué mais echa garapa pruique tinha três rato morto dento do pote!

O pade se arretô-se de novo com o minino: muleque maluvido! Pruiquê num diche antes de eu bebê?

Aí o pade pegô a cabaça de tanta reiva que tava do minino e jogou cum tava força que quebrô a cabaça no chão.

Aí o menino arregalô os zói e diche: agora sim, seu pade, por sua culpa é que eu vô levar uma surra das grandes!

Aí o pade diche: o que foi que eu fiz?

Aí o menino diche: pois o sinhô acaba de quebrar a cabacinha da minha vó mijar dento!

Aí o pade se arretô-se de novo com o minino!

Conto popular do Nordeste


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AS HORAS ABERTAS

As horas dividem os dias, as noites, os anos, os séculos e os segundos, sendo elas propícias ou maléficas. De acordo o entendimento dos antigos, desde os tempos remotos, esquecidos nas inefáveis colunas imemoriais dos tempos, existem certos espaços temporais chamados de “as horas abertas”, que são, conforme registrou Câmara Cascudo, “aquele momento em que as coisas más podem agir, deixando demônios e fantasmas atuarem livremente”.

Coincide sempre a morte chegar nessas horas. Os moribundos expelem seu último suspiro nesse pequeno espaço de tempo, pelas madrugadas, nas primeiras horas da manhã, no quebrar da barra ou ao anoitecer. São justamente essas as horas em que se morre.

“Ao escurecer e nas ultimas trevas, aparecem assombrando nas encruzilhadas negrinhos misteriosos, cavalos sem cabeça, visagens brancas e vagas, silvos, apitos, rumores sem a mínima explicação”.

Meio-Dia, Meia-Noite e pelas trindades, são horas misteriosas para o viajante. Horas de aparições e de bruxedos. Nessas horas inefáveis aparece lá em lugares ermos e sombrios o próprio Diabo a andar pela terra procurando a quem atentar com seus desejos e volúpias. Nas Trindades, que é a hora aberta, é quase de fé que nas encruzilhadas se vê coisas ruins.

À hora do Meio-Dia, encontram-se pelas estradas umas coisas más que se chamam de redemunhos e do meio deles saltam as visagens e as aparições saída dos infernos para expiar seus pecados e anunciar suas maldades.

Um caixeiro viajante ou um andarilho que, por pura má sorte, se encontrar em pleno meio-dia vagueando em uma estrada deserta e ouvir assovios, choro de criança ou vozes chamando, que nunca se vire, que não se comova e que não levante a cabeça. “O remédio é fechar os ouvidos, apressar o passo, fazer o Pai-Nosso e esconjurar o demônio”. Se olhar é certo que fica louco.

Muitas vezes, andarilhos solitários contam que se escutam vozes e passos de alguém caminhando ao lado e quando se olha para trás, somente a estrada vazia a se perder de vista.

É bom que não lhes dê ouvidos.

Acautelai-vos e apressai o passo. São as horas abertas procurando a quem devorar.


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TRÊS HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA SEXTA-FEIRA

A CRIANÇA NO BERÇO

Em um domingo à noite, meu marido tinha ido dormir com nossa filhinha de um ano no nosso quarto, e eu tinha ficado na sala de televisão, que fica de frente para o quartinho da minha filha. Todas as luzes da casa estavam apagadas, somente a TV estava ligada. Eu estava deitada no sofá, e de repente resolvi me levantar para ir ao meu quarto ver se minha filha já tinha adormecido, para eu colocá-la no berço. Quando eu passei em frente à porta do quarto dela, que estava aberta, algo me chamou a atenção para dentro do quarto, como se fosse um suspiro de alguém. Pensando ser a minha filha, imediatamente cheguei na porta do quarto, sem acender a luz. Quando olhei para dentro do berço, iluminado apenas pela luz da TV que vinha da sala, minhas pernas ficaram bambas, quase desmaiei com o que vi: havia um bebê no berço, mas não era a minha filha! Era uma criança muito branca, careca, em pé segurando nas grades do berço, olhando pra mim…

A única reação que tive foi correr para o meu quarto e olhar minha filha, que estava dormindo tranquilamente na cama, abraçada com o pai… Voltei então ao quarto dela, morrendo de medo, mas ainda assim tomei fôlego e acendi a luz. Não havia mais nada no berço…

Ninguém para quem eu contei acreditou nesse fato, meu marido até riu de mim. Mas havia realmente uma criança no berço da minha filhinha aquela noite. (Juliana – Belo Horizonte-MG)

* * *

ALGUÉM NA GARUPA DO CAVALO

Esta história aconteceu com meu tio no ano de 1982. Em certa noite, já de madrugada, ele estava voltando para o sítio montado em seu cavalo como de costume, quando em uma parte do caminho onde havia um enorme desfiladeiro ao lado da estrada, o cavalo empacou e mesmo com chicotadas e esporadas o bicho não se mexia, parecia petrificado. Foi quando ele pôde sentir que atrás dele, aparentemente montado na garupa do cavalo, havia alguém ou alguma coisa.

Sua espinha se arrepiou neste momento, sendo que ele podia sentir até mesmo o frio da respiração daquilo que estava ali com ele em suas costas. Sem coragem de descer do cavalo e nem de olhar para trás, ele gritou o nome de sua Santa de devoção – Nossa Senhora do Monte Serrat. Nesse momento ele sentiu um solavanco no cavalo todo, como se alguém tivesse saltado de cima do animal, e logo em seguida ouviu um grito grave e atormentador de alguma coisa que se precipitava no desfiladeiro em meio à escuridão.

Ao mesmo tempo o cavalo disparou a todo galope quase derrubando meu tio pela estrada, e só parando quando chegou na porteira do sítio, morrendo de medo assim como meu tio. Depois desta noite ele nunca mais ficou até altas horas na cidade e sempre rezava a sua santa agradecendo pela sua proteção naquela madrugada assustadora. (Robson – São Paulo)

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O VÔO FATÍDICO

O incêndio começou em um dos banheiros e se houvesse começado no banheiro esquerdo, a fumaça, sem ter para onde escapar, teria passado para a área da galley (área de armazenagem e preparação de alimentos e bebidas da aeronave) através dos dutos de ventilação, logo tanto a tripulação quanto os passageiros notariam imediatamente o início de incêndio, devido ao forte cheiro de fumaça que iria ficar, mas, como era no banheiro central, a fumaça se expandia e era expelida para fora do avião por um tubo sem que ninguém notasse. Uma minuciosa investigação sobre as causas do incêndio foi feita e para surpresa de todos a causa do incêndio foi um cigarro aceso jogado no lixo do banheiro do avião pouco antes do pouso. A partir desse acidente o fumo foi proibido nos aviões.

O tráfego aéreo na área encontrava-se particularmente congestionado naquela tarde devido a uma greve que paralisara o aeroporto e Frankfurt, na Alemanha, e diversos voos haviam sido desviados para Paris.

Infelizmente o avião acabou caindo faltando apenas um minuto para pousar no aeroporto de Orly, fazendo um pouso de emergência em uma plantação de repolhos, tendo no final, o avião feito um “cavalo de pau” e parado em uma posição contrária a do aeroporto de Orly, tendo sobrevivido quase todos os tripulantes e de sobreviventes passageiros, matando o total de 123 pessoas com apenas um único passageiro sobrevivente, Ricardo Trajano, um jovem que desobedeceu todos os procedimentos e correu para perto da cabine onde a fumaça não estava tão densa.

O fato arrepiante da história e que é contado em detalhes e de maneira bem clara no livro Caixa Preta do Autor Ivan Sant’Anna, é que quando o avião levantou voo e sobrevoava o Rio de Janeiro, afastando-se do restaurante Antonio’s, onde se reuniam grandes artistas, intelectuais, jornalistas e socialites, a foto emoldurada de Regina Lecláry despencou da parede, sem que ninguém a tocasse, num presságio do que iria acontecer naquele triste dia.

Tudo deu errado naquele voo, o qual matou entre os passageiros, personalidades como a socialite e belíssima atriz Regina Léclery, o senador e Presidente do Senado Filinto Muller, o cantor Agostinho dos Santos, o iatista tricampeão mundial Joerg Bruder e o jornalista Júlio Delamare, primeiro diretor do departamento de esportes da Rede Globo. (Soninha – Rio de Janeiro)


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A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ

Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

– Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

Eu, meu irmão e minha irmã, ainda pequenos, ficávamos assustados com aquela transformação de minha avó. Alguém havia morrido realmente.

Na casa dela, nesse dia fatídico e proibitivo, minha avó fazia várias recomendações que tínhamos que seguir à risca e em silenciosa obediência.

Ela dizia, por exemplo, que se numa casa estiver treze pessoas e todas se sentarem na mesma mesa do almoço, uma delas – a que for mais velha ou a mais jovem – morrerá ao cabo de poucos dias. Isso era assustador. Nós, ainda meninos, tínhamos tanto medo que preferíamos comer sentados no chão, só para garantir.

Outra coisa que ela dizia era que na Sexta-feira da Paixão não se pode cortar as unhas de jeito maneira!

– Porque faz unheiro, a pessoa fica com dor de dentes ou as juntas dos dedos podem até mesmo inchar. Só a madrinha de batismo é que pode cortar as unhas de uma criança, mas é melhor que não corte. – Nesse dia, minha avó escondia todas as tesouras e alicates de unha da casa.

– Cuidado para não varrer a casa. Faz mal. Pode ficar com o braço torto, porque vai estar varrendo os cabelos de Nosso Senhor. Ave Maria! – E se benzia toda.

– Também não pode cortar nem se chupa cana.

– Viajar, nem pensar. Também faz mal e é muito perigoso. Conheci um homem que teimou com a mulher, viajou na Sexta-feira Santa e morreu num desastre.

– Também para os homens que são muito teimosos e não acreditam nas coisas sagradas, não podem fazer a barba, pois não se deve olhar no espelho, pois é agouro.

– Também não pode rir. Quem ri na sexta-feira chora no domingo. – Dizia taxativa.

– Para as mulheres que têm o mesmo nome de Maria não devem cortar o cabelo, nem podem se pentear, porque Nossa Senhora Maria Santíssima não se penteou. Se alguma mulher que se chame Maria se pentear nesse dia, vem o Diabo e carrega ela num pacote.

– Socar os temperos no pilão para fazer alguma comida, não pode. É proibido.

– Quando fizer o café, tem que ser tomado amargo, porque os soldados romanos deram fel amargoso ao Nosso Senhor Jesus Cristo – para sempre seja louvado.

– Se pular uma janela na Sexta-feira Santa vira um cachorro.

– Se lavar roupa na Sexta-feira Santa a água se torna suja de sangue e estraga a roupa.

– Não pode falar nome feio que fica com a língua presa e os dentes caem.

– Não pode usar o martelo, nem pode pregar prego, pois está martelando Jesus na cruz.

– Não pode negociar. Quem vender alguma coisa na Sexta-Feira da Paixão, está vendendo Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Não pode usar o moinho de jeito nenhum. Se moer milho, em vez de sair fubá sai é o sangue de Jesus.

– Também não se doar nenhuma roupa, porque os demônios estão a postos e podem fazer feitiço com as roupas.

– Também não se pode dançar, nem cantar música de carnaval ou fazer alguma festa pois pode virar mula-sem-cabeça ou lobisomem.

– Se andar para trás ou deixar a chinela emborcada para cima está agourando os pais. Também não pode dormir antes da meia-noite.

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, sem nem poder se mexer porque tudo era proibido. Minha avó ficava de olho na gente e de vez em quando nos lembrava de mais uma outra proibição que ela ainda não tinha dito.

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, esperando o sábado de aleluia, pois sabíamos que se acabavam as proibições e era dia de alegria.

Jesus ressuscitou.


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O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA

Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

E o Chiquim de Nóca, comparecia no serviço direitim ou num dava no couro?

Aí eu já num sei! Mas ouvi dizer que lá pras bandas dos lados do Peixe Gordo, tinha um vaqueiro bem afeiçoado, todo reluzente, cheio do cobre, dentede ouro, todo vestido de gibão de couro de bode, que arrebatou o coração da muié do Chiquim de Nóca.

Vixe! Agora lascou! E o que aconteceu?

Pois é, a muié fugiu com o vaqueiro reluzente e deixou o Chiquim de Nóca chorando pelos cantos, chêi de chifre!

Êita! Foi mermo?

Pois foi! Entonce, o Chiquim de Nóca endoideceu. O pessoal diche que depois dele levar o mói de chifre, o hôme perdeu as estribeiras. O que num é pra menos!

Vixemaria! O que aconteceu?

Pois o hôme se apaixonou por uma mala véia que ele tinha em riba do guarda-roupa. Ficou se abufelando com a mala véia, como se fosse uma muié de verdade. Pois ele beijava a tal da mala até na boca! Já imaginasse?

Valha meu santontôin! Pense num mói de chifre inviezado!

Pois ele abaicava a mala véia com gosto de gás. Quando ele saía de casa, guardava a mala véia em cima da cama e ainda dava um beijim de despedida, como se fosse mermo uma muié.

Pois num é que um dia, a mãe dele, sabendo dessa arrumação, foi lá na casa dele quando ele não tava, pra acabar com aquela marmota e deu fim na mala véia! Eu soube depois que me disseram, que a mãe dele diche que a mala véia fedia mais do que as cuecas do cão dos infernos! A mãe dele tocou foi fogo na tranqueira!

Êita do estrupício medonho!

Bote estrupício nisso! Aí quando ele soube que a mãe dele tinha dado fim na mala véia, que ele dizia que era a mulher da vida dele, perdeu o resto do juízo e saiu correndo nu no mêi dos matos e os cachorros correndo atrás!

Viuxe! Tem hôme que num aguenta levar chifre que perde a rabiola!

Eche negóço de chifre num existe não. É coisa que botam na nossa cabeça!

Aí dento! Chifre é igual a consórcio, quando mesmo se espera a gente é contemplado!

Pois falando em chifre, eu vô pra casa que é pru mode eu vê a muié. Sabe lá se num aparece um vaqueiro reluzente deche que abaicou a muié do Chiquim de Nóca?

Valha mindeuso! Ramo simbóra!


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HISTÓRIAS ESTRANHAS DO SERTÃO DO CEARÁ

* * *

A misteriosa bola de fogo de Pentecoste

Moradores do município de Pentecoste, no Norte do Ceará, relatam que são perseguidos por uma estranha bola de fogo. Eles não sabem do que é feito a bola, nem se é real.

Alguns habitantes disseram que o “ser estranho” parece uma estrela. Outros afirmaram que já confundiram com luzes de avião ou helicóptero. Porém a informação é de que, de repente, surge a tal luz amarela e desaparece.

Vítima da perseguição da bola de fogo, Maiara Barbosa disse que ela surgiu durante a madrugada, depois das 3h, quando voltava de carona para casa. “Quando olhei pro céu, tinha uma luz muito forte e grande. Ela veio perseguindo a gente. Paramos no posto e ela parou também. Depois, nos seguiu até minha casa”, conta.

Já Etervaldo Souza disse que já avistou o tal ser por volta das 17h. Segundo outras vítimas, a bola surge e esquenta o local, provocando mal estar nas pessoas. A maioria afirma que ela aparece depois das 3h, no céu, acendendo e apagando.

A equipe do Barra Pesada foi conferir a tal história e constatou que a maioria das vítimas entrevistadas faziam parte da mesma empresa. Em uma simulação do caso, já por volta das 3h, a luz amarela apareceu. Ninguém sabe no que consisto o ser estranho. O mistério continua. Confira a matéria

A maldição do homem-jumento de Tauá

Em meio as lembranças saborosas da infância, aquelas que nos fazem sentir vontade de voltar no tempo, há aquelas em que não se deveria ter vivido. É o caso do autônomo João Oliveira, de 35 anos, que hoje vive em Fortaleza. Nascido no município de Tauá, ele conta que quando era criança escutava muita história de terror.

“Essa história que vou contar é do tempo do meu avô. É muito antigo e já aconteceu com um conhecido nosso da época”, revela. Dentre a verdades e lendas contadas, João frisa que a tal história contada pelo avô é mais real do que se imagina.

“Isso acontece com homem que faz coisa errada, que é mau. Um cara que comete um crime ou, então, alguém que tenha três ou quatro mulheres ao mesmo tempo”, relembra.

Um homem, a partir de um erro, herda uma maldição. Agora, durante toda a vida terá que se transformar em jumento a partir da meia-noite de todo dia. João relata que o indivíduo escolhe um local para se transformar em animal, um quartinho ou até o estábulo.

A partir da transformação, o homem-animal sai em disparada, aterrorizando pessoas, dando coices e mordidas. “Dizem que quem encontra com ele não sai vivo. É um bicho do mal”, alerta. Essa fase dura até as 3h da madrugada. Com o primeiro canto do galo, o jumento deve voltar ao esconderijo para tornar-se humano novamente.

Mas como todo vilão, há sempre uma forma de reverter o encanto. A lenda relata que um corajoso pode quebrar a maldição do homem jumento. “Basta que o valente fure o bicho com uma faca, mas tem que ser com a mão esquerda. Com a mão direita não vale”, destaca João.

Após esse combate, João dá a certeza de que o amaldiçoado nunca mais volta a ser jumento. O problema é que o ferimento da faca persiste na fase humana, por isso deve-se ter cuidado ao dar o golpe no animal.

A mulher de branco de Ipueiras

Ela aparece vestida de branco, é magra. Muito magra. Não fala nada. Às vezes emite um som, mas ninguém entende nada. Na verdade só um ouviu, mas guarda tudo em segredo. Não dá para ver seu rosto, ela não quer ser revelada.

Moradores de Ipueiras, na região de Ipu, relatam a estranha presença de uma mulher de branco que costuma seguir quem anda pela estrada carroçal da região. Sem falar nada, a “assombração” anda ao lado da pessoa por alguns minutos e some de repente.

“Eu vinha na bicicleta quando ela apareceu. Vinha atrás de mim e depois ficou do meu lado. Certo momento a corrente da minha bicicleta caiu e eu sai correndo. Ela também correu. Quando cheguei no alto morro ela desapareceu’, conta o auxiliar de pedreiro José Sales.

Além de Seu José, o mecânico de motos Alan Silva também viu a tal mulher de branco. “Eu vinha pela estrada tarde da noite. De repente ela saiu de uma árvore. Saiu do matagal bem ligeiro e ficou me acompanhando. Não consegui ver o rosto dela. Eu tava todo arrupiado”, conta o jovem que nunca mais andou sozinho à noite.

A mulher de branco chegou a aparecer em plena praça iluminada, no início da madrugada, como conta a aposentada Luiza Ferreira Pereira. “Eu tinha acabado de entrar em casa. Era por volta de 1h30. Eu ouvi os cachorros latir. Olhei uma vez pela brecha da porta, mas não vi nada. Os cachorros continuaram a latir e quando voltei, vi uma mulher de branco na praça. Ela era muito magra e fazia um roncando. Algo que eu não conseguia ouvir”, diz Dona Luiza, ainda assustada.

A aposentada comentou ainda que chamou o marido, mas quando ele saiu não viu nada. “Meu marido pegou uma faca e saiu correndo. Ele disse que não viu nada. Mas eu vi a mulher de branco sumindo quando a luz do poste apagou do nada’.

‘Não sei se vou morrer. Acho que ela é uma alma atrás de algo. Eu não posso dar nada para ela’. Muito assuntada, Dona Luiza comenta o momento e ainda diz que sente muito medo.

Um agricultor de Ipueiras, que preferiu não se identificar, revelou ter escutado a mulher de branco lhe pedir três coisas, mas que isso nunca fosse revelado. A assombração teria aparecido duas vezes em uma sexta feira 13 de 2011.

O pedido do fantasma teria sido revelado a um radialista de Ipueras, mas depois disso o agricultor tinha sido atormentado e preferiu nunca mais comentar com ninguém.

Procissão misteriosa de Viçosa: a flor de osso humano

A história é de uma moça, moradora de Viçosa, que todas as noites ficava na janela olhando a rua e, sua mãe, sempre reclamava, pois ela não devia ficar na janela porque era perigoso. Em um certo dia, na hora do café, ela disse: “A senhora tanto me recomenda para não ficar na janela, mas ontem passou uma procissão linda pela rua, todo mundo de branco e vocês perderam. Só eu vi.”

A mãe da menina ficou admirada pois naquele período do ano não havia festa ou comemorações religiosas, muito menos àquelas horas da noite. Mas a menina continuou a falar e disse que tinha até provas concretas de que a procissão tinha acontecido. “Eu tenho provas de que a procissão passou por aqui esta noite, porque uma das pessoas que iam na procissão me deu uma linda vela. Ela é branca e bem grande, vou buscar para lhe mostrar.”

Com pouco tempo depois, todos escutaram um grito assustado da menina. Quando a mãe foi ver, ela estava desmaiada em seu quarto segurando um grande osso de um esqueleto humano

A ilusão do amor de Sobral

O caso aconteceu na época em que não existiam telefones para a comunicação e um casal de namorados de Sobral, cidade do interior do Ceará, sofria com a distância. Já que o rapaz vivia viajando para ganhar a vida. Ele mantinha contato com a namorada apenas por meio de cartas e telegramas.

Num belo dia ele resolve fazer uma surpresa para ela, e volta a cidade para que pudessem se reencontrar e matar as saudades.

Ele chegou na cidade tarde da noite e, quando bateu a porta da casa da namorada ela o recebeu com um sorriso e o convidou para entrar e sentar no sofá. Como já era muito tarde, o casal combinou de conversar no outro dia. O rapaz acomodou suas malas na sala e dormiu no sofá mesmo.

Já no outro dia, o rapaz acordou bem cedo devido o calor que faz na cidade. Para não incomodar ninguém, ele tratou de ir até um barzinho da rua tomar um café e comer alguma coisa. Ao retornar pra casa, a fim de reencontrar e conversar com sua namorada e seus familiares, ele encontra a porta da casa trancada e resolve bater para que alguém o atendesse. Uma vizinha observa o rapaz batendo à porta e pergunta o que ele desejava e ele responde. “Bom dia, é que eu sou o namorado da filha dos donos desta casa. Eu dormi aqui essa noite e saí pra tomar um café, só que quando eu retornei encontrei a porta fechada e ninguém me atende”.

A vizinha olhou bem assustada para o rapaz e disse: “O senhor deve estar enganado. Essa casa está fechada a mais de seis meses e todos desta família já morreram. A casa está fechada pra alugar. Vou buscar a chave.”

Quando a vizinha abriu a porta, a casa estava toda empoeirada. A mala do rapaz estava do mesmo jeito que ele havia deixado e não havia poeira na parte do sofá onde ele havia passado toda a noite”. A partir daí, ninguém teve mais notícias do rapaz. Ninguém sabe, se ele ficou louco ou morreu com o susto.

Extraído do blog: Tribuna do Ceará


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QUANDO CHOVE NO SERTÃO

Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.

O inverno chegou.


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A CIDADE ENCANTADA DE PEDRA

As construções mencionadas neste texto não são as únicas curiosas estruturas de pedra que podem ser encontrada nos arredores da cidade de Tauá.

João Mocó, um sertanejo empenhado em vasculhar a região em busca de novos achados pictóricas (foto de: Arqueologia Social)

No sertão dos Inhamuns encontra-se um lugar conhecido com “A cidade encantada de Pedra”, onde podem ser avistadas estranhas formações, onde pedras parecem cuidadosamente equilibradas umas sobre as outras. Na cidade encantada também se pode observar painéis pictóricos, onde o dia a dia do nativo da região é o tema central de pinturas feitas principalmente com os dedos. Outros recursos como cipó e espinhos também foram utilizados em algumas minúsculas e delicadas figuras de até 2 cm. Algumas figuras humanas aparecem em movimento e se apresentam com o corpo quadrado preenchido com pequenos pontos, lembrando o Estilo Serra Branca.

Pedra chamada “Torre do Castelo”(foto de: Arqueologia Social)

O vale do Riacho Carrapateiras visto do alto apresenta-se aos olhos da imaginação como a profética lenda dos Kariri: Uma imensa cidade encantada de pedra, onde em cada pedreira o testemunho milenar de grupos caçadores coletores está registrado. Os grupos humanos utilizaram como suporte para a prática pictórica as rochas cristalinas às margens do Carrapateiras ou rochas associadas a um dos seus afluentes. Como preferência, as altas pedreiras foram utilizadas de onde estrategicamente pode-se observar todo o vale e numerosos outros abrigos pintados ao redor, como uma pretérita ‘cidade de pedra’. Outros grupos pintaram em um plano mais baixo, nas pedreiras junto a tanques naturais de água, um aparente balneário pré-histórico.

Tanques naturais do Açude Carrapateiras (foto de: Arqueologia Social)

Por do sol mostrando ao fundo a Torre do Castelo (foto de: Arqueologia Social)

Como atrativos culturais o município de Tauá possui três sítios paleontológicos e 15 arqueológicos, que podem ser visitados, porém só podem ser explorados por pesquisadores profissionais e cadastrados.

O maior ícone natural é o Serrote Quinamuiú. Ele pode ser avistado de qualquer ponto da cidade.

Serrote Quinamuiú, que pode ser visto de várias partes de Tauá

* * *

Fontes: Noite Sinistra, Arqueologia Social, Arqueolovia e Wikipédia

Fotos: Arqueologia Social


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A FOME DO CHICO DON-DON

Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas.

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia.

– Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

– Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

– Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. – Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

– Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

– Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

– E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

– Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho.

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave.

No leito de morte, ainda suplicava por comida.


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AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO

Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.

Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

– Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

– Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

– Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

19 novembro 2016 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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O BARÃO DO CRATO E SUA PAIXÃO INFAME ENVOLTA EM SANGUE E DOR

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O sobrado do Barão do Crato e a Igreja Matriz de Icó

Bernardo Duarte Brandão já era homem feito quando voltou da Europa, depois de longa temporada. Robusto e arrogante, com trejeitos finos, acostumado com os ares parisienses, achou a cidade uma miséria de tão provincial, que quase lhe embrulhou o delicado estômago europeu.

O cheiro de terra e poeira, o odor do estrume do gado e a secura do tempo, por certo, deve ter-lhe dado terrível arrependimento de ter voltado a mando do seu pai, rico fazendeiro e senhor de terras e escravos da Ribeira dos Icós.

Ao chegar, os escravos de seu pai vieram ao seu encontro, apenas com o intuito de ajudá-lo com a bagagem. O jovem mancebo, enfunado de orgulho e soberba, empurrou os negros com tanta fúria, que os jogou violentamente contra as estacas pontiagudas da porteira da fazenda. Os escravos apenas sorriram, como se aquilo fosse apenas uma pilhéria típica dos moços ricos. Sorriram com aquele sorriso subserviente e humilde, típico dos mansos.

– Não toquem em minhas coisas da Europa! – esbravejou com acentuado sotaque francês, vociferando como um animal raivoso. Ali, naquele momento, já se ia demonstrando a sua aura cruel de um desalmado abusador de escravos. Mas é bom lembrar de que a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.

Ele falava o tempo todo dos tempos em que morou na Europa, de como tudo lá é diferente, de como as pessoas são civilizadas, brancas, louras, olhos azuis e de como lá, as pessoas certamente são mais bonitas e mais elegantes do que aqui, nesta província miserável. Tudo que ele falava, sempre vinha a comparação com a Europa, que ele sempre se referia por “lá”, como se falasse de um mundo mágico e maravilhoso, como se um paraíso na Terra, fosse.

– Lá, não se come açúcar, nem sal, senão muito pouco! Também não se toma café, por causa dos dentes. Doces então, nem pensar! – dizia ele, com empáfia, aos bajuladores que o cercavam com vergonhosa adulação. – Lá, o sol é muito leve e o clima é sempre ameno, por isso a nossa pele é assim tão bela! – vangloriava-se com repugnante prosápia.

Passaram então muitos dias da chegada do esnobe falastrão. Mal sabia ele que o destino lhe reservava a arrebentação de uma dor lancinante e cruel que lhe iria consumir a sua pobre alma até os estertores da morte.

Quando ele fora mandado para a Europa, a fim de estudar numa das mais conceituadas escolas do Velho Mundo – que era o desejo de seu pai, que queria ver o filho formado e retornasse à sua terra, transformado em um proeminente doutor -, deixou aqui sua irmã, ainda uma menina. Quase não a conhecia, sequer se lembrava dela. O pai promoveu então um jantar para que os dois irmãos se conhecessem, já que passaram muitos anos separados pelo mar imenso. Quando Bernardo viu Maria do Rosário, sua irmã pura e singela, sua pobre alma indecente se inflamou de paixão avassaladora. Não pôde se conter diante de uma mulher tão bela e deixou-se ser encarcerado naquele desejo proibido, querendo ele mesmo acreditar que ela também o desejava e o amaria como um homem e não como um irmão. Adoeceu febrilmente e sofreu de uma dor inclemente e devastadora a partir daquele encontro.

Sigmund Freud em escreveu em 1927, em seu livro Die Zukunft einer Illusion, que “…Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a ideia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade”.

Em 14 de setembro de 1866, recebeu do então Imperador dom Pedro II, o título de Barão do Crato e tornou-se um importante chefe político. Não podendo desposar a irmã e sofrendo com o fascínio de uma paixão proibida por Maria do Rosário, tornou-se um homem cruel e sanguinário, que descontava sua fúria incontrolável nos mais humildes – seus escravos – torturando-os até a morte. Implacável, o próprio Barão, pessoalmente, martirizava e afligia, impiedosamente, torturando-os de tal maneira, pendurando-os vivos pelas costelas, até ver correr-lhes o sangue abundante e viscoso, por conta das chicotadas e suplícios cruéis dos anéis de ferros, arrancando-lhes os dentes e a língua, em uma sequência aterrorizante de lamentos, vagidos infernais e dor. É sabido que muitos negros foram objetos de tortura e muitos, assassinados por conta dos terríveis castigos executados impiedosamente pelo Barão, e que depois de satisfeitos seus desejos sanguinários, os corpos eram jogados em covas rasas no quintal de seu sobrado, e largados esquartejados nas margens saibrosas do Rio Salgado.

Apesar da imensa riqueza, o Barão tornou-se um homem triste, solitário, embora temido por sua lendária crueldade, avesso ao convívio social, sempre envolvido em disputas, em meio a arengas e intrigas políticas. A paixão amaldiçoada por sua irmã Maria do Rosário o consumiu impiedosamente. Diz a lenda que ele próprio foi ao Vaticano e que suplicou ao Papa Pio IX a bênção papal para que se realizasse o matrimônio com sua irmã, negado veemente por sua Santidade, é claro.

Morreu em Paris, no ano de 1880 aos 58 anos, só, doente e abandonado. É pertinente que não se sabe o quanto de tudo isso possa ser verdade, mas o diretor de cinema John Ford escreveu certa vez que “Se a lenda for mais interessante que a realidade, publique-se a lenda”.


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AS MAQUINAÇÕES DO MAL

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Hesíodo era um homem feio. Magro, tinha um andar oblíquo, o lombo encurvado, como quem carrega um peso nas costas. Tinha a face escaveirada, desdentado, com a pele amarelada como a de um sapo e ainda por cima, mancava de uma perna desde o nascimento, pois havia nascido a fórceps, como quem que não quisesse ter nascido.

Desde criança fora abandonado pelos pais, jogado de casa em casa, crescendo ora com tios, ora com vizinhos, e algumas vezes na rua. Mesmo assim, aprendeu a arte da ourivesaria e mantinha um pequeno quiosque em um shopping da cidade, onde além de relógios e joias, consertava quase qualquer coisa que as mãos caveirosas e pálidas tocassem. Por conta disso, era grande o vai e vem de pessoas em busca de seus serviços.

Sempre às dez horas da manhã, deixava o quiosque com um funcionário e saía para passear pelo shopping, conversando com um e outro, olhando as vitrines e falando entre jornais, sobre política e futebol.

Era um homem muito culto. Na solidão das noites lia livros e mais livros, pois nunca teve o afago de uma mulher. Além disso, contaminado pelas filosofias, tornou-se ateu ferrenho e escarnecedor, dizendo coisas terríveis sobre a cristandade. Discutia longas e intermináveis horas, sempre se encharcando de café e exaltando-se ao ponto de quase ter um aneurisma.

Havia um rapaz evangélico dessas igrejas pentecostais, que vendo a amargura ateísta dele, de vez em quando vinha e lhe entregava um panfletinho sobre mensagens bíblicas. Ele apenas recebia displicentemente, amassava e jogava na lixeira mais próxima. Certa vez, porém, um desses panfletos lhe chamou a atenção, pois estava escrito em letras vermelhas: “O que Deus quer de nós”? Considerou que aquilo era uma pergunta filosófica e esse guardou na carteira para ler posteriormente.

Certa tarde, estando ele em seu pequeno quiosque, surgiu de repente, uma bela mulher que, sorrindo-lhe com o mais belo sorriso que jamais havia visto, trouxe-lhe um broche de ouro velho para conserto. A presença daquela mulher o destreinou completamente, que mal conseguiu entender o que ela dizia, inebriado com aquela concupiscente e provocante boca vermelha, transbordante de lascívia, pois o pecado é mais fecundo do que a virtude. O pobre miserável tentou em vão esconder a feiura e a pobreza que o atormentava, mas a mulher não pareceu se importar. Ao sair, prometendo voltar no dia seguinte, ela tocou-lhe a face escaveirada com tanta meiguice que ele sentiu-se mal e uma diarreia morna lhe escorreu pernas abaixo.

Durante a noite não dormiu, varando a madrugada, adoentado, febril, lendo e relendo os “vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda, delirando de paixão, remoendo-se de dor e de desejo.

“Áspero amor, violeta coroado de espinhos, brejal entre tantas paixões eriçadas, lança das dores, coroa da cólera, por quais caminhos e como te dirige a minha alma? Por que precipitaste teu fogo doloroso, de súbito, entre as folhas frias do meu caminho”?

No dia seguinte estava exausto, indeciso e nervoso. Fez o conserto da joia de ouro velho da mulher e a esperou febrilmente, tal um moribundo a esperar a morte.

A mulher chegou finalmente, mil vezes mais bela do que no dia anterior, mas ele já eivado e cego pela súbita e encaniçada paixão, não enxergaria outra coisa além da beleza dela. Em poucos minutos já estavam tomando café e conversando sobre o Céu, a Terra e as Potestades do ar. Ele não acreditava que aquela mulher o queria de alguma forma. Além do mais ele era pobre e feio. Ela, porém, gostava de ouvir suas palestras intelectualizadas e já tinha dito o quanto admirava o seu conhecimento sobre quase tudo! Em pouco tempo, já eram grandes amigos e se encontravam todo dia. Ele já desvairado de paixão, incrédulo, dizia a todos que deixaria ser levado por ela até mesmo até os confins do inferno, se realmente tal lugar existisse.

No entanto, nada ainda havia acontecido, até um dia em que ela lhe chegou provocante e insinuante, convidando-o para ir ao apartamento dela. Atônito, ele entrou no carro em que ela veio, um surpreendente sedan Lexus SC, que custaria algo em torno de cem mil dólares. Em poucos minutos já estavam no condomínio de luxo, numa cobertura no trigésimo andar, de frente para o mar. Foi aí que Hesíodo envergonhou-se de sua pobreza.

Ela entrou em um dos quartos, dizendo que iria tomar banho e vestir algo mais apropriado e que ele se sentisse à vontade e que podia se servir de alguma bebida. Ele notou que o silêncio dentro do apartamento era insidioso. Ele sentiu um odor acre de amêndoas… Quem sabe um perfume, talvez, imaginou. Naquele momento, atormentou-lhe também um sentimento de medo.

Pôs a mão no bolso de trás da calça e encontrou o panfleto onde estava escrito, “O que Deus quer de nós?”. Segurou o papel por alguns instantes e leu rapidamente Provérbios 18: “O nome de Jeová é uma torre forte. O justo corre para dentro dela e recebe proteção”. Sentiu um pouco de alívio, logo ele, um ateu convicto.

Como a mulher demorava a voltar ele pôs-se a explorar o local. Novamente sentiu o odor acre e viu uma porta entreaberta de onde parecia vir o cheiro. Empurrou a porta e atônito, deparou-se com uma cena impressionante. A princípio, ele pensou que fosse um quarto de UTI. Havia um homem imobilizado a uma cama de hospital. Ligado a ele, saíam diversos tubos sanfonados que alcançavam o teto e pareciam se conectar com o quarto ao lado. Apavorado, Hesíodo viu quando o homem acamado abriu os olhos e olhou para ele numa expressão de horror e dor. Era um homem ainda jovem, mas nas condições em que se encontrava ali, parecia já ter uns cem anos.

Os diversos tubos que saíam de seu corpo pareciam lhe sugar as entranhas. O pobre homem fez sinal com os olhos esbugalhados para que Hesíodo olhasse no quarto contíguo ao que estavam. Ao abrir a porta dessa vez, experimentou a real visão do inferno. Diversos corpos dilacerados estavam pendurados em ganchos, como em um açougue. Vários tonéis, cheios do que parecia ser gordura humana borbulhavam, deixando sair aquele odor acre de amêndoas.

Hesíodo saiu em direção à porta da frente, já sentindo o desarranjo intestinal. Pelo barulho do chuveiro, percebeu que a mulher ainda continuava no banho. Em seu desespero, desabou em lancinante carreira escada abaixo, desengonçado, arquejando como um cão. Sequer se lembrou de que estava no trigésimo andar. Quando enfim chegou embaixo, ouviu o barulho dos sapatos da mulher. Como ela havia chegado em tão pouco tempo era um misto de horror e preocupação. Pareceu-lhe ter ouvido uns gemidos por sobre o sussurro de vozes, como um som saído de um túnel. Era ela que o chamava carinhosamente. O sangue lhe gelou nas veias quando ela parecia estar cada vez mais perto. Lembrou-se então do panfleto evangélico e clamou em silêncio pelo nome de Deus, como havia lido nos Provérbios. Pediu a Jeová que o protegesse em sua torre forte.

No dia seguinte foi acordado por um vigilante. Estava todo sujo, encolhido dentro de um anel de concreto, no meio das ruínas de um edifício completamente abandonado. Descobriu que estava desaparecido há vários dias e por mais que contasse o que tinha se passado, nunca ninguém acreditou nele. Ele, no entanto, sabia agora que havia mesmo um nome a quem clamar nas horas de angústia e solidão.


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O NEGRO QUE MATOU O PADRE, O BOI SANTO E OS MISTÉRIOS DE JUAZEIRO

Os diversos golpes de faca rasgaram com violência o peito do monsenhor Joviniano Barreto que, ainda envergando o roquete, desfaleceu já sem vida nos braços de alguns atônitos seminaristas que o ajudavam a entrar no carro.

As Parcas lhe tinham já fiado o tecido da morte.

Há menos de um minuto o religioso havia deixado a solenidade de lançamento da pedra fundamental do convento dos capuchinhos. O assassino, ainda de faca em punho, arquejando como um porco ensanguentado no matadouro, como que possuído pelo Pazuzu, balbuciava grunhidos, roncos e coisas ininteligíveis. Alguns circunstantes afirmaram que ouviram ele dizer em alto e bom som a estranha frase: “Matei o Monsenhor por que ele remexeu nos mistérios de Juazeiro”. Mas, quem iria naquele momento, saber o que um assassino enlouquecido queria dizer? O criminoso, chamado de Manoel Pedro da Silva, ficou conhecido como “o negro que matou o padre”.Mons. Joviniano

Oficialmente a História conta que o matador queria constituir matrimônio com uma mulher já casada, o que o monsenhor negou veementemente, proibindo-o de entrar na igreja e até de assistir à missa, ameaçando-lhe de excomunhão, caso ele insistisse naquele sacrilégio. O homem então, fora de si, ali mesmo, insistiu mais uma vez com o padre para que o casasse, sob ameaça de que iria morar com a moça, com ou sem o casamento religioso. Diante de tal sentença, o vigário perdeu todas as expressões de serenidade, deixando lhe ferver nas veias o sangue de filho dos Inhamuns e, com desmedida violência para um sacerdote, empurrou o pobre homem escada abaixo. A sentença de morte do monsenhor, foi proferida irreversivelmente, então, naquele momento.

Tendo isso exposto, então, a que mistérios de Juazeiro, o assassino teria se referido?

De fato, durante o sermão de uma missa que celebrara, o vigário Joviniano Barreto pusera em dúvida os milagres de transmutação da hóstia em sangue, ocorridos na pequena vila em que o Padre Cícero era vigário. E bem muito antes do assassínio, o monsenhor já denunciava às autoridades eclesiásticas da região que, na Baixada da Anta, os fanáticos estavam se desviando da ortodoxia da Igreja Católica, praticando o fetichismo em total heresia aos cultos da Santa Igreja, principalmente em relação à “santificação” do boi Mansinho, presente dado por padre Cícero aos seguidores do beato José Lourenço. O animal foi cuidado com todo zelo e carinho pelos fanáticos, mormente por se tratar de uma doação feita pelo “Santo Padim Cíco”, como gostavam de se referir ao sacerdote.

Aos poucos, a estima dedicada ao boi Mansinho, que fiou sendo chamado de “Boi Santo”, foi se transformando em adoração. Os chifres eram adornados com flores e fitas; sua urina transformada em remédio milagroso e as pontas das unhas em amuletos.

As autoridades da época, tendo À frente o Dr. Floro Bartolomeu, atendendo os anseios do monsenhor e tentando evitar críticas da imprensa, pôs fim no totemismo ao prender o Beato José Lourenço e mandar sacrificar em praça pública o “Boi Santo”, na presença de muitos fanáticos, inclusive entre os presentes, estava o negro que matou o padre.

E o que dizer de dona Hermínia Marques Gouveia que tinha estranhas visões e que escrevia tudo a mandado de Padre Cícero? Poucos dias antes de morrer, queimou vários rolos de papéis e mandou enterrar muitos outros, coisa que desagradou bastante ao padre Cícero, que fez arrancar os papéis enterrados que se encontravam totalmente encharcados, não se aproveitando quase nenhum, pois havia chovido muito naqueles dias. O que tinha nesses papeis?

Eram esses mistérios, entre muitos outros, que o monsenhor Joviniano havia remexido, sendo punido com tão violenta morte?

Para selar o mistério, o assassino do padre foi assassinado na prisão oito anos depois, com três profundas peixeiradas.

13 fevereiro 2016 NEWTON SILVA - AÍ DENTO!


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A RUA CONDE D’EU DEU EM SANGUE

Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmo se atormentaram com muitas dores. – 1 Timóteo 6:10

Na cidade de Fortaleza, a Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu, era a zona do comércio de secos e molhados, dos cabarés, pensões altas ou alegres – como assim se dizia nos idos anos da década de 1950.

Uma vez o Diabo, cheio de ciúme e avareza, arrastando desde as profundezas infernais o fétido manto negro embotado de cobiça, botou o olho em um homem de índole miserável que andava por ali, no meio daquele antro de prostituição e jogos de azar. Esse homem desprezível, já tinha sido um bem sucedido jogador de futebol, mas agora afundado em dívidas, daria o que lhe restava por qualquer preço que se lhe ofertasse, a sua pobre alma. O Diabo sorriu cofiando os bigodes.

O Príncipe das Trevas então, seguro de que faria um bom negócio, ofertou ao homem um automóvel da marca Chevrolet 1950, de luxo, último modelo. Negociou-lhe ao pé do ouvido os termos do conchavo – e a alma seria dele, do Diabo – bastando para isso que o infeliz tirasse duas vidas.

ruacondedeu

Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu

Com o coração cheio de cobiça e os olhos amarelados de ganância, o malogrado indivíduo exultou entre copos de zinebra e, sufocado pelo espesso fumo aziago, aceitou sem questionar nada, afinal ter a posse de robusto automóvel Chevrolet era seu sonho de consumo. E assim o fez conforme lhe ordenara o Mafarrico. Atraiu os dois rapazes, donos do luxuoso automóvel, com a justificativa que tinha a intenção de comprar o carro por um bom preço, o que seria à época a vultosa quantia de 145 contos de Réis.

No dia Primeiro de Setembro daquele ano, levou os dois incautos e infelizes rapazes para um quarto de pensão que ficava na Rua Conde D’Eu para celebrar o contrato de compra e venda do veículo. Mal sabiam os dois que o próprio Satanás os seguia de perto, tripudiando e divertindo-se com o que haveria de acontecer. O patife e desprezível, sem dar a nenhum deles sequer uma chance de defesa, covardemente, mata-os com uma barra de ferro, escondendo os corpos em um guarda-roupa, levando-os depois para as dunas ermas e desertas na Barra do Ceará e decapitando-os, os enterra em covas rasas.

Dias depois, passou a rodar com o carro pelas ruas da cidade, como se fosse mesmo o legítimo proprietário do automóvel. Mas ele só não sabia, nem sequer desconfiava que tudo o que o Diabo dá com uma mão, tira com a outra. No mês seguinte, precisamente no dia Treze de Outubro, o pavoroso e impiedoso crime foi descoberto, levando o desgraçado à condenação de trinta anos de prisão, segundo crônica policialesca da época. Há relatos também de que o destino do cruel assassino teve final semelhante ao de suas vítimas: no ano de 1968, dezoito anos depois do bárbaro crime, o monstro fora encontrado morto nas mesmas condições. Decapitado e trucidado como um porco.

O Diabo, naquele caso, havia mais uma vez cumprido o seu sutil e vergonhoso papel. De tanto andar em derredor da Terra, como um leão que espreita sua caça, rugindo e procurando a quem devorar.

Baudelaire já nos havia advertido certa vez que, existem a todo o momento de nossas vidas, duas postulações simultâneas: uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.


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O PADRE

JGI

Uma pequena cidadezinha nos confins do sertão atormentado pela seca, esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, tinha como prefeito um coronel abastado que morava na Capital e só ia lá uma vez por mês para assinar os papeis da prefeitura.

Conta-se que durante a campanha eleitoral, além da troca de votos por dentaduras, ele tinha prometido que iria pedir para a Arquidiocese, um padre para comandar a recém construída Igreja que tinha como patrono Santo Antônio de Pádua. Para angariar mais votos e enganar o povo fervoroso, o tal coronel por pura megalomania, mandou buscar na Itália uma estátua do Santo Antônio em tamanho natural, esculpida em mármore Carrara por um famoso escultor italiano, exaurindo completamente os cofres públicos do já minguado município, claro, sem antes superfaturar a negociação.

Mas antes disso, o coronel tivera uma ideia bem bizarra. Em vez de solicitar para a Arquidiocese um padre de verdade, contratou um velho turco que ele tinha conhecido em uma zona de baixo meretrício, onde gostava de passar as noites jogando carteado e se abufelando com as quengas, tudo com dinheiro público. Esse turco já tinha sido seminarista e conhecia um pouco da liturgia católica. A ideia do coronel era que ele iria se passar por padre e assim enganar o povo mais uma vez. Assim dito, assim feito.

O falso padre chegou e foi recebido com festa. Passou a celebrar as missas sem chamar muita atenção, embolsando o dinheiro das ofertas e se embriagando com o vinho na sacristia. O coronel teve outra ideia. Queria que o falso padre obrigasse o povo a se confessar e assim, ficaria sabendo de algum segredo que pudesse tirar alguma vantagem. O falso padre então mandou avisar que todos os paroquianos tinham a obrigação de se confessarem todos os domingos antes da missa, mas apesar disso, ninguém aparecia no confessionário. Quando ele perguntava diziam que já tinham se confessado com o outro padre.

Que outro padre? Berrou o coronel. O falso padre, o turco, se limitava a repetir a história que o povo dizia. Havia outro padre que estava no confessionário. O coronel teve então a ideia deles ficarem escondido dentro da igreja para saber quem seria esse outro padre. Logo depois de se esconderem, viram com terrível espanto, a estátua de Santo Antônio de Pádua descer do pedestal. Ficaram ali petrificados sem saber nem entender o que estavam presenciando. Santo Antônio de Pádua foi até o altar, ajoelhou-se e pareceu estar fazendo uma oração em silêncio. A estátua, agora já com aparência humana, caminhou então lentamente para onde estava o coronel e o falso padre que já se tremiam de medo. Naquele momento o turco teve um ataque cardíaco e morreu ali mesmo, sendo encontrado depois. Quanto ao coronel nada se sabe, nem que rumo tomou. Sumiu por completo.

Até hoje, dizem, na igreja daquela pequena cidade esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, existe um sacerdote humilde e inspirador dentro do confessionário.


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