QUERO

Quero um IPhone.

Quero um Chance, Chanel.

Aliás, quero dois.

Quero meus amigos perto de mim.

Quero nao sentir dor.

Quero trabalhar e ser cada dia melhor nisso.

Quero carinho, muito muito muito carinho.

Quero costelinha de porco feita pela minha irmã.

Quero minhas sobrinhas.

Quero todos os músculos relaxados e consciência leve.

Quero gostar de mim e aceitar as coisas como elas são.

Quero flutuar em nuvens de algodão .

Quero dormir numa cama de mashmellow com travesseiros de chantily

e não me preocupar em melecar os cabelos.

Quero uma maleta com 258 produtos da MAC.

Quero ir ao show da Madonna e ficar na platéia VIP.

Quero saúde e paz e um pouco de irresponsabilidade.

Quero querer o útil e o fútil.

Quero poder querer o que eu quiser,.

Quero uma garrafa de cerveja Deus todas as sextas feiras na minha geladeira.

Quero pedir mil vezes a mesma saideira.

Quero ir pra Disney  e ganhar na promoção um cartão ilimitado para compras no nono dia de viagem.

Quero um cabeleireiro exclusivo .

Quero ter mais 3 filhos e poder criá-los com amor e tranquilidade.

Quero roupas e sapatos largos.

Quero  uma semana numa taba na beira do rio  Xingú.

Quero tinta e muitas telas para colorir o que é branco sem precisar fazer sentido,

E vende-las por dois reais na feirinha da Catedral.

Quero um pé de sapoti no meu quintal.

Quero balançar a cintura e matar minhas amigas do Happy Hour de inveja

Por nao terem L.E.R. de quadril.

E quando me perguntarem:

- Mas Lu, o que tu sabes fazer?

eu possa responder com um sorriso no rosto:

- Fisioterapia de madrugada!

(De tudo o que quero, um único desejo: que amanhã o dia nasça melhor.)

Bom dia, flores do meu jardim.


PENTELHO NA MANTEIGA

Ana Maria chegou toda saudosa no Loft de  Edu.

Sim, porque mulher tem essa coisa antiquada de sentir saudades.

Não sabe decodificar sentimentos. O que ela sentia era carência, falta de um homem que a suprisse em todos os sentidos. Falta de beijo na boca, mordida na nuca, de uma boa pegada, enfim, de pica mesmo.

Mas a pobre cria ser saudades. Saudades aliás, que não conseguiu saciar. Edu estava estressadíssimo aquele dia. Assim como em todos os dias anteriores. Mas tanto nesse quanto nos demais dias, os problemas eram sempre gravíssimos e todos deveriam compreender  e apoiá-lo.

Ana dormiu. Literalmente. Pois Edu estava nervoso, e ao invés de trepar,que é a coisa mais gostosa e relaxante do mundo, foi ter com seus livros. Então, sobrou a Ana o travesseiro.

Na manhã seguinte, ao acordar, tratou de preparar um café fresquinho para o amado. Fez torradas com manteiga, ah,  que fofa….

Ao abrir o pote de manteiga, Ana deparou-se com vários pelos pubianos. Parou tudo, retirou-os cuidadosamente com palitos de dente, colocou-os sobre  um papel toalha e passou rápidos instantes observando  a cena toda.

Ana Maria era apaixonada, e era também uma daquelas pessoas que gostam mesmo é de comer o prato frio. Quanto mais frio estiver o prato da vingança, mais apetite ela tem.

Mas não se conteve. Foi até o quarto e disse: Edu, vc quer sua torrada com ou sem pentelhos?

Eduardo ficou ofendidíssimo!!! Como é que Ana Maria era capaz, como é que Ana Maria tinha coragem, como é que Ana Maria tinha a ousadia de pensar um negócio desses do rapaz?? Ana Maria era uma louca!Qualquer um haveria de concordar com ele.

De fato, era muita negligência da moça, achar pentelho na manteiga, e pensar mal do namorado. Aliás, uma boa moça acha pentelho na manteiga e pensa logo em processar a fábrica, por falta de higiene! E Ana Maria foi pensar logo mal dele? Com é que ela pode ser capaz de uma insanidade dessas?

Eu  acho é muita desconfiança. Muito ciúmes, muita insegurança da parte da moça. Vai pensar logo mal  do rapaz? Ele até explicou:

-Aninha, comprei a manteiga ainda ontem! Caiu, de fato , no chão da cozinha. Só se tinha alguma sujeira no chão!

Óbvio. Era isso. Ana até chegou a sentir remorso por pensar mal do namorado.Chegou a ter dúvidas se o pentelho era de alguma sirigaita hippie, ou se era dele mesmo….

Que maldade. Um menino tão bom. Ainda bem que Ana compreendeu que foi apenas um mal entendido e tudo ficou bem!

A última notícia que se soube foi que Ana Maria calou-se, nunca mais tocou no assunto “pentelho na manteiga”, conforme Eduardo exigiu.Foi como se nada tivesse acontecido.

E a ultima vez que se viu Aninha, ela debruçava-se dedicada e com todo o apetite, sob  imenso e saboroso prato, que foi servido frio, no momento mais oportuno ,quando sua fome foi devidamente saciada.


COMO VOCÊ SE LEMBRARÁ?

E quando tudo passar, e o que restar for apenas lembranças,
Como você se lembrará da nossa história?
Porque eu…
Vou me lembrar de nós dois
Como se lembra dos dias anteriores
A quarta feira de cinzas:
Com saudades,  com uma ponta de sorriso
No canto da boca,
Mas com muita, muita ressaca e cansaço.
O cansaço que só quem se divertiu demais,
Suou demais, brigou e brincou demais,
Molhou a camisa e enfim, jogou a toalha, sabe como é que é.
Vou me lembrar de nós dois
Como uma foto antiga e desbotada que a gente
Nunca consegue tirar do porta -retrato.
Como o cheiro do travesseiro antigo,
Como uma planta que coloriu e perfumou tudo por  décadas
E, de repente, parou de florir.
Não por  ter morrido, mas por ter seguido  as estações.
Vou me lembrar de nós dois como algo que poderia ser sido eterno,
Se a eternidade existisse
Que poderia ter  sido calmo,
Se as paixões fossem serenas.
Que poderia ter sido perfeito,
Se a perfeição existisse.
Que poderia ter sido diferente,
Se não se referisse à nós dois….


SINTO SAUDADES

Sinto saudades.

Constantemente.

Saudades  do cheiro da minha  lancheira da escolinha e da ansiedade por abri-la no meio das manhãs felizes .

Saudades de como meu primeiro cachorro me queria bem e do meu cheiro misturado ao cheiro dele no final das tardes.

Sinto saudades do pão torrado com café  que minha avó me fazia.

Sinto imensa saudade  de amamentar minha filha e da carinha de satisfação que ela me lançava enquanto alimentava-se.

Saudades da tranquilidade emanada de um amor que um dia senti, e que ja nao existe mais.

Saudades do meu avô, e da forma como ele me via.

Eu sinto saudades das tardes no clube, regadas a risada, despreocupação e coca-cola.

Sinto saudades do toque, do sabor e do cheiro do objeto do meu desejo e do modo como ele me toca e faz minhas pernas bambearem.

Sinto saudades das crianças pequenas, ao redor da arvore, esperando Papail Noel chegar.

Sinto saudades de amigos que moram longe, da alegria que sinto em revê-los.

Eu sinto saudades  das pessoas que se foram para nunca mais voltar, querendo eu, ou não.

Sinto saudades da vida que nao vivi, da paz que nao consegui, do caminho que nunca se fez, das pontes que nunca foram construídas para se chegar até mim.

Sinto saudades dos momentos bons que a vida me proporcionou, daqueles que me recusei a receber e até mesmo daqueles que não tive, mas quis ter.

Sinto saudades do meu primeiro All Star, do dia em que li   “positivo”  e soube que entao, eu nao estava mais só.

Sinto saudades do cheiro de fumo de corda que tinham as pontas dos dedos de minha avó.

Eu sinto saudades de minha bisavó me levando leite na cama.

Sinto saudades do seu Miguel Bijuzeiro, sobretudo em momentos de fome.

Sinto saudades do cheiro da grama molhada e do cheiro da chuva.

Sinto saudades dos amigos da infância.

Eu sinto muitas saudades de Luiza , Sarah e Victória e de todos os nossos momentos ingênuos.

Sinto saudades do cheiro da massinha de modelar que a tia nos dava na escolinha Pinócchio.

Sinto saudades do Topo Gigio, do Balão Mágico e da Caverna do Dragão.

Sinto saudades do primeiro beijo, mas sinto muito mais do último.

MInha saudade mora longe,  e eu sou apenas uma menina. Nao consigo alcançá-la nunca.

Estendo os braços, as maos e a  ponta dos dedos e ainda assim ela me foge.

Talvez  eu deva deixá-la  lá longe e viver somente o presente,  abrir cada laço de fita que  envolve as caixas que me são entregues e ser feliz agora, com as possibilidades a mim apresentadas, para que no futuro, eu ainda continue tendo momentos felizes para recordar.

Se isso é tudo que ambicioso?

Não. Claro que nao. Eu quero baús repletos de felicidade. Felicidade em metro, em litros,  em saquinhos descartável, em embalagens tetra pack. Eu quero a felicidade todos os momentos. Quero dormir e acordar feliz e tranquila. Eu quero a sorte de ter essa felicidade.

E sempre, sempre poder olhar para tras e ter do que sentir saudades.


ONDE VOCÊ GUARDA SEUS PRESENTES?

Noite quente.

Insuportavelmente quente.

- Vamos fazer alguma coisa.

- Tipo o quê?

- Tipo uma coisa legal.

- Tipo ir ao cinema?

- Que mané cinema, menina. Já é quase meia noite!

- É, e no cinema faz sempre muito frio.

- Essa seria a única parte boa…

- Por falar nisso, precisamos de um arkicionado urgente, hein mãe…

Pegamos um edredom, travesseiros, o binóculo e fomos pro quintal.

Forramos e nos deitamos no chão.

Luzes apagadas, banana com canela pra acompanhar.

- Pra quê essa vela?

- É de citronela, pra espantar os pernilongos.

- Citro o quê? Ah deixa pra lá, vai. Senão você vai dar palestra…

- Olha isso!

- É a coisa mais linda!

- Grande, né?

- E brilhante!

- Parece de mentira.

- E dá um pouco de medo.

- Medo?

- Dela cair em cima da gente.

- Eu tenho medo de cair pra cima.

- Mãe!

- O que foi?

- Cair pra cima?

- É.  Se a lei da gravidade falhar, a gente cai pra cima e vai parar no céu.

- Ai, mãe, como você é boba.

- Sou nada. Sou esperta.

- Olha as catreras da lua!

- Crateras.

- É. Tanto faz, né?

- E se a gente tirar uma foto pelo binóculo? A lua ficaria imensa!

- Não dá, né, mãe. Não dá certo.

- Pode ser.  É. Não precisamos fotografar.  Basta guardarmos na caixinha da memória.

- É. A nossa caixinha da memória é tão cheia de lembranças!

- Só boas.

- Porque as ruins, a gente joga fora.

-É.  É assim mesmo que a gente faz.

A Lua hoje, de fato estava linda. Um espetáculo divino e gratuito, e observá-la  ao lado de quem se ama, comendo banana com mel, deitada no chão do quintal, realmente não tem preço.

Pena   que  o ser humano hoje não tenha tempo  nem sabedoria para admirar as coisas simples e impagáveis que Deus nos oferece.

Os presentes são dados.  Recebe quem quer.

E só os mais espertos é que os guardam todos, na  “caixinha da memória”….


CU DE BÊBADO NÃO TEM DONO

 

Ultimamente estou me sentindo bem leve, desobrigada de qualquer coisa que seja profunda. Estou me permitindo. Então, aproveitando essa minha  fase momentaneamente light,  vou continuar no segmento BBB.

Sei que todos torcem o nariz. Sei que não é um programa que possa acrescentar nada de útil,  não se trata de um programa didático ou de cunho cultural, mas tenho minhas fontes  e bebo delas quando tenho sede, e ainda me sobra espaço para escrever sobre algo sem querer dizer nada a respeito.

Mas vamos a polêmica que invadiu as redes sociais nos últimos dias.

Daniel, o afro-descendente de cabelo …(não conheço nenhum sinônimo para a palavra pixaim, e não sei se pixaim tem alguma conotação preconceituosa, mas é a maneira que tenho para descrevê-lo) mostrou-se bem inxiridinho, fazendo caras e bocas, esbanjando xavecos , atirando para todos os lados, como um verdadeiro Don Juan dentro do programa.

Monique é a loira gostosona, namorada de jogador de futebol, amiga de vários jogadores famosos, já que é “do meio”. Alvo de um dos tiros de Daniel, afinal, atirando tanto, uma hora a pessoa acerta,    né mesmo?

Durante a festa, Monique mostrou-se tentada, pedindo para que Don Juan se afastasse (ele tentava beija-la) , pois , como disse a moça, “eu gosto!”

Visivelmente embriagados, ele nem tanto, foram pra cama  e protagonizaram um “monólogo “ altamente sugestivo , para não dizer implícito . O que se viu, foram vários minutos de um “lance” que rolou entre os dois, enquanto uma das partes, parecia não participar .  Nota-se claramente que ela encontrava-se desacordada.

No dia seguinte o diretor do programa chama a moça ao confessionário e pergunta o que rolou. Ela diz que só uns beijos e uns amassos. Depois, cismada com o questionamento do diretor do programa, conversa com o rapaz, que afirma não ter havido nada além de uns beijinhos e  abraços mais calorosos.

Pronto. Instaurou-se a polêmica. Estupro é a prática não-consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos. Obviamente a moça não foi ameaçada, nem forçada. Mas, se estava desacordada e inconsciente…

De todo modo, mesmo que todo mundo tenha visto, só será considerado estupro se a vítima confirmar que houve uso da força ou relação sem sua vontade. É necessário que ela faça a denuncia. Estupro é crime privado, não público.

De tudo isso, e de toda essa proposta fútil do programa, eu tiro algo de bom: a análise, a discussão que os temas podem causar e a percepção, tão diferenciada que cada indivíduo tem do mesmo fato. Isso me move. O filósofo é um curioso, e eu quero sempre saber se estou no mesmo barco, remando sozinha, se remo em direção contrária. Isso é importante. Me reconheço no outro, embora nunca me deixe conduzir.

Eu , particularmente, acho que o rapaz é o típico xavequeiro de plantão, daqueles que chegam chegando, mesmo sem ter tido nenhum espaço para isso. Dono de atitudes inconvenientes e inoportunas,  tipo de cara invasivo que , mulher de verdade, não curte.

No entanto, ela não me pareceu apresentar grandes resistências, nem ter os mesmo conceitos morais que esta escritora careta que vos escreve. Mesmo assim, não justifica , se é que houve mesmo, a relação não consensual.

Agora, está aberto mais um fórum de discussão: O que houve , afinal, embaixo do edredon?


INGÊNUO EXUPÉRY…

Então que eu ando trabalhando tanto, que  passei 3 meses sem pagar o cartão de crédito  e não  percebi . Só fui me dar conta quando não consegui efetuar um parcelamento por falta de fundos. Definitivamente, meu banco não tem gerente.  Ou os juros foram mais lucrativos do que o pagamento.

Mas, por falar em fundos, e por saber que ninguém se interessa pelas dívidas alheias, vamos falar de assuntos mais interessantes. Uma ribeirão-pretana está no  Big Brother. Não, não torçam o nariz, pois sei que de um modo ou de outro, seja lá por qual razão for, todo mundo dá uma espiadinha.

Fabiana Teixeira  , por   enquanto, ainda não mostrou  a que veio. Só pude constatar que preciso bater um papo sério com ela, pois de fato, aquele rímel  é indestrutível e preciso saber onde comprar.

Na cidade do chopp ela tem mandado muito bem e aos 35 anos , com um corpo desenhado por Deus e esculpido pelo diabo,  faz muita garotinha de 15 chorar de desgosto. Outro dia ela entrou na pizzaria com um vestido tão justo, que me fez desistir do chopinho e da  pizza quatro queijos e partir , inconsolável para a de abobrinha com mussarela de búfala light e agua sem gás.

Já no BBB,  é muito cedo para comentar . Mas o rótulo de “perua” não é o que se pode chamar de um bom começo….

Tá, mas o que isso tudo tem a ver com fundos?

É que tem (ou tinha até ontem) uma foto no facebook da moça,  que me deixou muito em dúvida , e como sei que o JBF é especializado em  um tudo de coisas, sobretudo em mulher pelada, peço que analisem e respondam:  a moça está ou não está usando tapa-sexo ?

Exupéry dizia que o essencial  é invisível aos olhos, porque não viu essa foto….


POEMA DE UM PROFESSOR DE LITERATURA PARA UMA MENINA DE OLHAR DISTANTE

Permita-me te olhar,
Respirar
E te jogar mais uma centena de sorrisos
Você é linda!
Permita-me estar com teu sorriso,
Com teu olhar sonhador
Durante todo o tempo do mundo.
Prometo te aquecer
Mais do que sua engraçada blusa de cobertor
Prometo lhe apresentar o meu mundo,
Como nunca fiz a mais ninguém.
Permita-me te decifrar em silêncio,
Longe do tumulto e do lugar comum
Para que eu possa , enfim
Decorar seus gestos e guarda-los
No lugar mais fundo da minha alma.
Prometo não errar mais
Ao recitar Vinícius
Mas não me ignore mais
Estou aqui, na sua frente,
E não mais na frente de todos.
A sala é imensa e só enxergo você roendo unhas
E em meio ao tumulto,
O som que ouço é o teu silêncio.
Eu sei que você fura a borracha com a ponta do grafite,
Que arqueia graciosamente o corpo pra trás
Ao se espreguiçar na cadeira
E que desenha estrelas no papel enquanto viaja pra longe
E foge de mim, com uma constância que ninguém jamais fugiu.
Vai pra um lugar onde eu não consigo te ver
Ou te alcançar.
Permita-me invadir seus espaços
E te provar que não é preciso ter medo
Eu te protejo de tudo
Basta não desviar mais seus olhos dos meus
E permitir que eu enfim, me apresente.
Aceite esse pedaço de papel,
Com palavras escritas não sei por quem
Pois já não sei mais quem sou
E permita que eu me revele.
Dessa vez, você não se esconde mais de mim
E mesmo que não esteja por perto,
Eu consigo te tocar.
Vou por de lado
Tudo o que eu sei,
E como uma criança,
Aprender tudo de novo, com você.
E por favor, não se esconda mais de mim!
 
Dezembro\ 1990

(Apaixonante, nao é mesmo? Nao sei nem como e nem por qual razão  resisti….Divido com vocês, com meus desejos de muita saúde e paixões adolescentes para  2012 !!)


TORRE DE BABEL

 

- Que dia é hoje?

- Olha, mãe, eu acho que é dia …21! Ta quase chegando o Natal!

- Que dia da semana é hoje?

- Terça?

- Por que você responde uma pergunta com outra pergunta?

- Quando eu não tenho certeza, faço isso. É uma estratégia.

-Se hoje é terça,  foi dia de faxina. A faxineira vai embora as 15:00. Me explica como você conseguiu sujar os dois banheiros ,das 16:00 às 19:00 ?

- Nossa, mãe, eu consigo sujar 100 banheiros em menos de meia hora. Pra mim, isso é moleza!

- Acordou Jessier Quirino hoje?

- Quem? Como assim?

- Acordou engraçadinha! Vamos estabelecer mais um acordo de férias, ok?

- Ai, ai, ai, lá vem mais regras pro Quartel General…..

- Olha, se eu entrasse num banheiro imundiciado como esse, eu ia achar que o porco do brejo escapou do chiqueiro.

- Quêêê? Pooorco do Brejo????? Eu sou menina, viu! É porca do brejo ! Substantivo feminii-noo!

- É. Difícil  vai ser alguém acreditar que uma menina, com substantivo feminino, deixa esse monte de fio de cabelo caído no chão, juntamente com esse monte de papel higiênico fazendo um composê  com o vaso sanitário sujo com o número 2 no sistema  All Inclusive, pasta de dentes aberta, armário com porta aberta, e um monte de pó de blush encardindo a pia branquinha , sabonete derretendo no piso do box…

- Chega mãe! Nooooossa, me cansou  a   filosofia!!!!

- Cansou o quê???

- A  filosofia. É uma nova gíria que inventei aí.. Quer dizer: Me cansou o pensamento, o raciocínio.

- Como assim, inventou ? Tá dando pra inventar gírias agora?

- “Como assim” é uma gíria que quem usa sou eu, e você detesta, aliás.

- Como assim, você que usa? Patenteou a gíria?

- Fiz o que?

- Patenteou.

- Patenteou. Patenteou, é isso? E depois você fica escrevendo mal de mim por aí na Besta Fumada  e ainda diz que quem usa gírias sou eu….


TIPO ASSIM, UÉ!

 

- Então, mãe, eu queria muito, muito mesmo um Tablet de Natal!

- Tablet? Que tablet? Tablete de chiclets? Ou de gominha de mascar?

- Mãe, você sabe  o que é um tablete. Não sei por que você fala como se não soubesse. Por favor mãe, eu quero muito!

- Não, fora de questão.

- Mas mãe! Qual o motivo de eu não poder ganhar?

- Eu já expliquei o motivo. Não sei por que você fala como se já não tivéssemos conversado mais de mil vezes sobre isso anteriormente.

- Mas se você não quer dar, tudo bem, mas proibir meu pai de dar, é demais, né!

- Eu não  proibi, mesmo porque não tenho esse poder. Nós conversamos sobre isso e decidimos não te dar.

- Mas mãe! Meio que todas as minhas amigas tem!

- Meio que o que?

- Tipo assim, se todas as pessoas tem, é meio que estranho, eu, só eu não ter, né!

- Só por que todas as suas amigas tem, não justifica você também ter. Afinal, todas as suas amigas andam de bicicleta, nadam, brincam de pega-pega, enquanto você fica o dia todo entre  TV, o Nintendo Wii , o Nintendo DS,  o NetBook….. Já tá ficando verde musgo e totalmente anti-social.

- Mas na minha idade isso é meio que o que todo mundo faz.

- Não é não . eu vejo todo mundo correndo, brincando, as meninas vem te chamar pra descer  pra brincar e você nunca vai.

- Mas o Tablet, tem milhares de jogos pra baixar, é meio que fundamental, sabe, tipo, todo mundo tem.

- Como assim? Você tá doente ou isso é um novo tique nervoso seu?

- Tipo …do que você ta falando?

- Desse negócio de você falar “meio que”  em todas as frases, mesmo quando não faz o menor sentido! Isso é anormal, sabia?

- Mãe, você ta ficando meio que velha, sabia? Isso é uma linguagem tipo assim, meio que geral, todo mundo fala assim!

-  É um tipo de retardamento coletivo, então?

-  Não, é só uma coisa normal de se falar.

-  Parabens, você conseguiu elaborar uma frase que não contenha  a expressão “meio que” no meio.  Mas legal! Beleza. Eu agora me atualizei. Não sabia que meio que é uma coisa tipo assim, que cabe em qualquer situação,  que é normal!

- Nossa, mas ta meio que impossível conversar com você, hein mãe…

- Um momento, telefone.

- Quem era?

- A faxineira avisando que não virá amanhã.

-  Então nós temos que arrumar a louça de hoje???

- Pois é. Coisa gravíssima, essa de ter que lavar a louça, né, filha?

- Eu acho! Mas, tipo assim,  por que ela não vai poder vir amanhã?

- Tipo assim:  o  tio dela  teve um ataque cardíaco e meio que morreu!

(Uhuu,  o falecido que me perdoe, mas fechei com chave de ouro!)


DANDO INÍCIO À SÉRIE: RETARDO MENTAL

Estava eu, linda, magra  e cansada, voltando do trabalho  assoviando uma linda canção que não era La Vie En Rose,  apreciando o entardecer,  quando notei que no carro que ia  a minha frente tinha um cãozinho com o focinho  pra fora , tomando um ar, como é comum  se ver por aí.

Ao me aproximar um pouco mais, notei que o cãozinho era um Husky Siberiano branco, imenso. Não pude deixar de pensar no quanto o tal carro seria fedorento.  Automaticamente fiquei feliz ao constatar que trocar de carro e pagar oitocentas prestações, só mesmo se o carro for zero , cheirando a plasticozinho na concessionária.

Um pouco mais à frente, nas estrofes finais de La Vie en Rose,  de repente, não mais que de repente eis que o cãozinho vê mais meia dúzia de cães de rua e todos, numa verdadeira procissão, começam a latir e a  correr atrás do carro.

Tudo bem, já vi isso acontecer muitas vezes. Só que o cãozinho , saltou pela janela do carro, na rotatória mais movimentada da cidade , para brigar com os outros cães. Saltou. Pulou. Se jogou.

Fui parar embaixo do banner  Keep Walking, e quase tenho minha cabeça esmagada por aquela bota amarela da Johnnie Walking.  Parei o carro, que já estava praticamente vendido e pensei: não vou trocar meu carro e ainda terei que pegar ônibus até consertá-lo

Graças a Deus, ao Espírito Santo e a Virgem Maria santíssima,ao Edir Macedo, A Chico Xavier e a Nosso Senhor Jesus Cristo, nada aconteceu, mas foi só freada , buzinada e palavrões para todos os lados. Desci, vários outros carros pararam,  e a dona do cão, toda preocupada com seu bichinho de estimação tamanho GGX, saltou para fora do carro, desesperada com ele, e totalmente alheia ao transtorno que causara.

Pensei comigo mesma:  “Essa mulher só pode ter retardo mental! Levar esse baita cachorro solto no banco de trás!”

Perguntei a ela o que aconteceu para o cão  saltar daquela maneira do carro.

- Não sei o que deu nele!

- Mas ele está acostumado a sair com a senhora de carro, com as janelas abertas?

- Está ué! Não muuuuito acostumado, mas eu tambem nao viajo de avião todos os dias e nem por isso me atiro de um avião quando estou viajando, né! Tenho bom senso….

Repensei comigo mesma: “ Esse cão só pode ter retardo mental! Sair pra passear  de carro com essa baita dessa louca ao volante! ”….

Pois é. Toda análise depende exclusivamente… do ponto de vista!


ZEFINETA B

Esses  dias notamos que a lagartixa prenha que caminhava lentamente por nosso teto, desapareceu. Tínhamos feito até algumas fotos dela, pois  acreditamos que ela estivesse grávida de quádruplos.

Até que um belo dia eu dou de pé com uma coisinha tão pequenininha, um cisquinho  andando pelo chão de minha casa.

Era ela, a filhotinha da dona Lagartixa. Chamei  a mochilinha para mostrar-lhe a nova integrante da casa.

-Credo, mãe, que nooojo!

-Nojo de quê? De uma filhotinha de lagartixa que acaba de sair da casca do ovo?

-Largatixa não fica no chão ! Temos que dar um jeito dela subir pra parede!

-Não é largatixa. É lagartixa.

-Tanto faz.

-Tanto faz, mas sempre aparece uma  mal comida pra te corrigir.

-Ahn??

-Nada nao, filha.  É o seguinte:  Ela é uma filhotinha ainda. Não sabe que a casa dela é na parede.

-Como assim, não sabe?

-Não sabe porque essas regras de conduta ainda não foram estabelecidas a ela. Trata-se de um ser  no  estado mais puro de natureza. Ela ainda é livre!

-Mãe, você e a liberdade Sartreana….

-Lagartixa você nao sabe pronunciar  né, mas  Sartre, você sabe. Bom sinal!  Mas não, não tem a ver com Sartre, mas o que importa é que agora temos que caminhar com muita atenção pela casa para não machucá-la.

-Como assim? Ela vai ficar andando pela casa e a gente vai andar pelas paredes  pra não machucá-la?

-Quando você começa com seus “como assim”, é sinal que está tentando resistir ao novo…

-Mas realmente, né mãe! Ela é nova demais!

-Então deve ser batizada. Vamos  à lista de possibilidades!

-Eu não vou dar nome pra essa largatixa. Tenho prova quarta feira e preciso estudar.

-Ok, ela vai se chamar Zefineta B.

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EU PERCEBI

Com o tempo  você percebe  que dormir de cabelo molhado  pode causar dor de garganta ,  que  é impossível dormir de conchinha no verão , e que nem sempre sendo uma pessoa de valor, as pessoas  te valorizarão.

Com o tempo você  percebe que imagem não é nada e que aqueles brigadeiros gigantescos  da padaria, na verdade são feitos com muita farinha e são horríveis , e que o feijão do seu avô  foi a melhor comida que você já experimentou  na vida.

Com o tempo você percebe  que ser amigo não é sinônimo de ser idiota , e que pó compacto é como  um copo:  depois de quebrado, deve ir direto pro lixo.

Com o tempo você percebe que quem gosta de você, é você mesmo e que não adianta esbravejar, pois graças ao filho da puta do futebol,  de quarta feira, a novela  é sempre mais curta.

Com o tempo você percebe que as pessoas que você  dá menos importância, são as mesmas que estão o tempo todo a seu lado e  por alguma razão indefinível, elas acabam permanecendo.

Com o tempo, você percebe que seus pais sempre quiseram o seu bem, mesmo  quando você não percebia, e que aquele instrumento de madeira que passou a vida toda juntando poeira pelos cantos do seu quarto, nas mãos de quem sabe , se transforma nas mais lindas melodias.

Com o tempo você percebe que carteira no bolso da calça é deselegantérrimo , mesmo você insistindo em usa-la  e que abrir a porta do carro para uma mulher, vale mais que 5 declarações de amor e ajudam a mantê-la por perto.

Com o tempo você percebe que salto alto só é legal pra quem te vê, mas pra você, é tão desagradável quanto dormir de  lingerie de rendinha.

Com o tempo você percebe que mulher pelada é melhor que cerveja gelada e se você não percebeu isso ainda, está na hora de rever seus conceitos.

Com o tempo você percebe que ler um livro é viajar pelo mundo e o que o conhecimento adquirido, ninguém pode tirar de você , e que  sua chave é a ultima coisa que você encontra na bolsa quando está querendo entrar em casa logo pra fazer xixí.

Com o tempo você percebe  que a promessa de nunca mais beber na vida, se quebra assim que você recupera a capacidade de levantar-se da cama e que depois dos 35, só as muito espertas conseguem manter-se gostosas.

Com o tempo você percebe que barulhos misteriosos só ocorrem tarde noite e quando você está sozinha, e conclui sabiamente que quando você estava acompanhada, quem ouvia sons estranhos de madrugada, eram os seus vizinhos.

Com o tempo você percebe que seu fígado nunca conseguiu chegar inteiro até o bolo da festa e que no dia seguinte, você sempre se arrependeu por não tê-lo experimentado, pois cerveja, tem no boteco da esquina, mas aquele bolo…..nao.

Com o tempo você percebe que amigo secreto é um saco e que todo mundo reclama de ter que ir pro shopping em pleno congestionamento de véspera de Natal pra comprar  a porra do seu presente e que essa é a época em que você fica triste por dentro, pois vai  se lembrar das pessoas que se foram e que você sente saudades na hora da ceia.

Com o tempo você percebe que mulher sem bunda é tão broxante quanto um homem de pinto pequeno e por mais que digam que não,  essas duas coisas são fundamentais num relacionamento, pois se você não tiver em casa, vai buscar fora, independente do tamanho do seu amor.

Com o tempo você percebe que as suas melhores lembranças vem daqueles momentos ingênuos, de maior simplicidade e doçura , de gestos espontâneos, de sorrisos largos , geralmente ocorridos na  adolescência e no quinto dia útil de cada mês.

Com o tempo você percebe que não deu a atenção necessária às pessoas que te amavam, que você agiu muitas vezes, como não gostaria que agissem com você e mesmo assim, a vida seguiu adiante e ninguém te cobrou nada , mas que essa regra não se estendia  a Receita Federal.

Com o tempo você percebe que não exerceu nem dez por cento de suas teorias e que suas palavras sempre foram melhores que seus atos, e provavelmente por isso você tenha oitocentos amigos no facebook,  cinco brothers de infância e ninguém que de fato, se importe verdadeiramente com você.

Com o tempo você percebe que tem pouquíssimos amigos fiéis , mas que eles valem por um batalhao de quinhentos e cinquenta e dois idiotas  e que há pessoas que não leem um texto seu há meses, mas que sempre haverá a deliciosa  possibilidade de  uma boa dor de barriga .

Com o tempo você percebe que quanto mais atrasado você estiver, mas sinais fechados você encontrará pelo  caminho e que a fila do Carrefour que você tanto escolheu, é sempre a mais demorada, mas  que poder rever no youtube os melhores desenhos animados da sua infância, não tem preço.

Com o tempo você percebe que o celular sempre pode tocar 3 segundos antes de você gozar e desgraçadamente, ele toca.

Com o tempo você percebe o quanto seus filhos lhe admiraram, mesmo quando você fumava cigarros dentro do carro e jogava o papel de chiclets pela janela , emporcalhando  o planeta em que vive ,  ou até mesmo quando te esperaram e você não apareceu para ver sua apresentação  no teatro da escola.

Com o tempo, você percebe tanta coisa, meu amigo, que a coisa que você mais deseja é que pudesse voltar no tempo, e fazer e-xa-ta-men-te   tudo de novo, mas de uma modo diferente….


ABRE O OLHO, MARIA LUCIA !

 

-Ai amiga, que bom reencontrá-la!  Como anda a vida?

-Tudo bem, tudo caminhando…

-Poxa, Maria Lúcia, que desânimo é esse? Você e  André não reataram recentemente? Não era pra você estar feliz?

-Pois é, não sei o que há comigo, mas com certeza o problema está em mim…

-Por qual razão você diz isso?

-André parecia com saudades, mas estranho, depois de tanto tempo separados,  discutimos a relação por dois dias e depois disso, devemos ter trocado no máximo uns 2 beijos , sendo que o terceiro, fui eu quem pedi, na hora de dormirmos . Se eu não tivesse pedido, ele teria dormido sem nem me dar um selinho.

-Não acredito.

-Entao.   Mas foi assim. Acho que estou precisando fazer um regiminho, né, um lifting talvez..

-Maria Lucia, você é linda! Um mulherão ! Não há nada de errado com você!

-Mas acho que sou muito carente…Não nos vemos a semana toda, então, nos finais de semana sinto muita necessidade da companhia dele, do toque, do roçar de pele, do beijo na boca….Mas ele é tão distante fisicamente de mim!

-Como assim, não se veem a semana toda?

-Vida corrida, ne… Ele na casa dele, eu na minha…

-Sim, mas vocês não se veem nenhum dia da semana?

-Não…

-E você não acha estranho?

-Ah, ele reclamou muito que precisa de espaço, quer sair com os amigos de vez em quando, conversar amenidades….

-Mas o que isso tem a ver com  o fato de não se verem durante a semana?

-Ah, não sei, mas  eu também acho legal poder sair com minhas amigas durante algum dia da semana. Me sinto tão sozinha!

-Claro, né, Maria Lucia!  Você só vê seu namorado nos finais de semana!

-A gente não precisa viver grudado um no outro, Bia…

-Não, não precisa mesmo. Mas você não acha meio estranho ele não te procurar durante a semana toda, não querer te ver, ficar com você?

-Acho que não sou uma companhia tão agradável.

-É, realmente, se ele prefere estabelecer regras onde possa ficar com os  amigos durante a semana ao invés de se interessar por te ver…você deve ser uma companhia bem desagradável pra ele…Apesar que não é pessoal. André sempre foi distante das namoradas dele….Sempre preferindo os amigos, a turminha, do que ficar a sós com a namorada.

-É, também não é assim! Todo mundo quer ter seu espaço!

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SINTO SAUDADES

Sinto saudades.

Constantemente.

Saudades  do cheiro da minha  lancheira da escolinha e da ansiedade por abri-la no meio das manhãs e pegar  a garrafinha plástica com suco de groselha quase gelado, o pedaço de bolo e o pao com manteiga.

Saudades de como meu primeiro cachorro me queria bem e do meu cheiro misturado ao cheiro dele no final das tardes.

Sinto saudades do pão torrado com café  que minha avó me fazia. Do cheiro do leite com açúcar queimado que ela me trazia quando estava com dor de garganta.

Sinto imensa saudade  de amamentar minha filha e da carinha de satisfação que ela me lançava enquanto alimentava-se.

Saudades da tranquilidade emanada de um amor que um dia senti, e que ja nao existe mais.

Saudades do meu avô, e da forma como ele me via.

Eu sinto saudades das tardes no clube, regadas a risada, despreocupação e coca-cola.

Sinto saudades do toque, do sabor e do cheiro do objeto do meu desejo e do modo como ele me toca e faz minhas pernas bambearem.

Sinto saudades das crianças pequenas, ao redor da arvore, esperando Papai  Noel chegar.

Sinto saudades de amigos que moram longe, da alegria que sinto em revê-los.

Eu sinto saudades  das pessoas que se foram para nunca mais voltar, querendo eu, ou não.

Sinto saudades da vida que nao vivi, da paz que nao consegui, do caminho que nunca se fez, das pontes que nunca foram construídas para se chegar até mim.

Sinto saudades dos momentos bons que a vida me proporcionou, daqueles que me recusei a receber e até mesmo daqueles que não tive, mas quis ter.

Sinto saudades do meu primeiro All Star, do dia em que li   “positivo”  e soube que entao, eu nao estava mais só no mundo.

Sinto saudades do cheiro de fumo de corda que tinha nas pontas dos dedos de minha avó.

Eu sinto saudades de minha bisavó  levando leite com ovomaltine pra mim na cama.

Sinto saudades do seu Miguel Bijuzeiro, sobretudo em momentos de fome.

Sinto saudades do cheiro da grama molhada e do cheiro da chuva.

Sinto saudades dos amigos da infância.

Sinto saudades do cheiro da massinha de modelar que a tia nos dava na escolinha Pinócchio.

Sinto saudades do primeiro beijo, mas sinto muito mais do último.

MInha saudade mora longe,  e eu sou apenas uma menina. Nao consigo alcançá-la nunca.

Estendo os braços, as maos e a  ponta dos dedos e ainda assim ela me foge.

Talvez  eu deva deixá-la  lá longe e viver somente o presente,  abrir cada laço de fita que  envolve as caixas que me são entregues e ser feliz agora, com as possibilidades a mim apresentadas, para que no futuro, eu ainda continue tendo momentos felizes para recordar.

Se isso é tudo que ambiciono?

Não. Claro que nao. Eu quero baús repletos de felicidade. Felicidade em metro, em litros,  em saquinhos descartável, em embalagens tetra pack. Eu quero a felicidade todos os momentos. Quero dormir e acordar feliz e tranquila. Eu quero a sorte de ter essa felicidade.

E sempre, sempre poder olhar para traz e ter do que sentir saudades.


OSSOS DO OFÍCIO

Trabalhar é bom e necessário.

Mas trabalhar fazendo aquilo que se gosta,é gratificante.

Costumo dizer que vendo sonhos. Não, não sou vendedora de bilhetes de loteria, mas sim, de vestidos de casamento (que nao deixa de ser uma loteria!)

Por aqui passam meninas lindas, charmosas, cabelos multi mega hidratados, corpitcho malhado e cheias de sonhos vida afora e um deles, é casar feito uma princesa.

Perceber em seus rostos a emoção de se ver num vestido branco com véu e grinaldas, não tem preço. Cada uma tem algo especial, uma maneira de pensar, uma experiencia que fica, enquanto elas se vão.

Mas óbvio, que vez ou outra não deixarei de postar fatos no mínimo, curiosos, pois eles existem e eu não conseguiria deixar de mencioná-los, ainda que mantendo a maior discrição e nao apresentando nada que faça qualquer relação entre fato e pessoa.

A criatura chegou aqui toda apressada, pois o filho nasceria em 6 meses e já ia adiantado o tamanho da barriguinha. Experimentou um , apaixonou-se. Experimentou o segundo e ficou decidido: era aquele o escolhido. Ela olhava, emocionada para o espelho, com as maos na boca, e dizia:

-Olha, mãããe, como eu estou lindaaaa! E nem está aparecendo a barriguinha!

De fato, ela estava linda. Meus olhos encheram-se e de lágrimas ao ver tanta emoção, pois a gente se emociona mesmo, de verdade, pois para nós, mulheres, casar-se só perde em emoção para o status dar a luz .

-Gente, é esse!! Amanha eu volto pra trazer minha tia e madrinha para poderem ver o vestido!

No dia seguinte…

-Oi gente, entao, ameeei! É esse mesmo! tá decidido!!! So vou conversar com meu pai e amanha venho para acertar tudo!

No dia seguinte…

-Oi, gente! Meu pai tá viajando, mas amanha sem falta vou até aí para fecharmos o contrato, hein!

No dia seguinte…

-Oi, meninas! Entao, to ligando porque estou sem carro hoje e meu noivo tem um compromisso e nao tenho ninguem pra me levar até aí! Podemos reagendar pra amanhã?

No dia seguinte….

-Oi, meninas! Ai, eu não pude ir, estou numa correriiiiiia, que vocês não imaginam. É muita coisa pra tão pouco tempo! Mas amanha eu vou, sem falta!

No dia seguinte…

-Oi meninas! Vocês nao vão acreditar! Marquei um horario com o decorador pela manhã, mas ele demorou tanto pra me levar pra lá e pra cá , e quando vi, já estava escurecendo! Pode ser amanha?

No dia seguinte…

-Oi, gente! Então, minha tia-avó por parte de uma tia que na verdade era apenas vizinha, faleceu e tenho que ir ao seu funeral! Assim que eu chegar eu ligo reagendando nosso horário!

No dia seguinte….

(…)

(…)

(…)

Alguns dias depois….

-Oi, meninas! Vocês não vão acreditar. Após o funeral da minha tia avó vizinha, voltando pela estrada de terra , eu estava super apressada pra chegar, pois tínhamos um horario, mas um bando de micos-leões-dourados invadiu a estrada, começaram a tentar entrar no nosso carro, e , como se trata de uma espécie em extinção, achamos conveniente nao movimentarmos o carro , pois poderíamos atropelar alguns deles e estaríamos assim, cometendo um grave delito! Ficamos lá esses dias, até que eles resolveram ir embora. Por isso não pude ir! Vamos finalmente , marcar para amanhã?

No dia seguinte….

-Meninas, eu sei que tínhamos combinado que eu iria ontem , mas eu nem vou falar o que aconteceu, pois vocês nem iam acreditar! (com certeza, nao mesmo) . Mas a partir de amanha, só estarei por conta do vestido! Posso ir até a loja amanhã?
No dia seguinte:

-Oi meninas! Ai, eu to ficando quase com vergonha,pois não pude ir, mas de amanha não passa!

No dia seguinte….

-Ai, gente, desculpem-me, eu recebi a mensagem de voces dizendo que o vestido deveria ser pago e o contrato assinado ainda hoje, então estou depositando agora mesmo o dinheiro na sua conta, ok?

No dia seguinte….

-Ai, meninas, eu nao sei o que aconteceu! Eu fui ao banco, fiz o depósito no caixa eletronico, mas me esqueci de colocar o dinheiro dentro, acreditam!!!! Mas amanha o dinheiro estará na conta de vocês!

No dia seguinte….

-Oi, meninas, vocês estão sendo uns amores comigo! Vamos fazer o seguinte: Quando der eu passo aí, ok? Ah, nao dá pra ser assim? Por que, gente? Como assim não tem horario pra amanhã? Outras noivas para atenderem? Não dá pra remarca-las em outro dia? Ah, vocês já fizeram isso, várias vezes…Entendo…Mas semana que vem dá, né? Semana que vem eu vou, confiem em mim, fiquem tranquilas! Ah, temos prazo, verdade, eu to gravida, me caso em 15 dias, realmente, ta muito em cima, voces tem razao! Pode ser semana que vem , entao? Nao tambem? Ah, tem que agendar a costureira para fazer os ajustes! Mas nao dá tempo de fazermos isso na ultima semana? Ah, a costureira nao trabalha de madrugada? Bom, tudo bem entao, amanha sem falta eu passo aí, podem confiar em mim!

O dia seguinte ainda não chegou. A nossa agenda nao aguenta mais ter seu nome escrito e riscado no dia seguinte. Se depender da pressa da noiva, provavelmente o baby é quem levará as alianças.

Quanto a nós? Ah,primeiro a gente fica Pê da Vida, nos sentimos um pouquinho otárias, abrimos uma coca zero, depois abrimos um espumante, por que ninguém merece, depois rimos muito, achamos engraçado e criamos um texto como este!


CUIDADO, FRÁGIL

“Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.” (Victor Hugo) 

Uma encomenda foi recebida, uma caixa escrita com pincel atômico:

“Cuidado, frágil.”

Coisa de profissional .

Procurou um local adequado para abri-la, acendeu um cigarro , passou a lâmina com muito cuidado sobre  a fita adesiva e abriu a caixa.

Seu coração parecia ter sido  esmagado por mãos fortes e impiedosas.

Viu o resumo  de seus últimos anos, dos bons e dos maus momentos , das alegrias e das tristezas,  de uma vida vivida sem os devidos cuidados. Amor misturado com mágoas, tristeza envolta a sentimentos de insegurança, solidão, paixão,  entusiasmo,  ingenuidade,  esperanças,  noites de amor  e de guerra. Tudo sob a sombra quase invisível  da tão almejada paz , que nunca chegou.

Uma onda gigantesca de tristeza  invadiu seus espaços, preenchendo-os como lobos no cio preenchem suas fêmeas, sem perguntarem  se podem ou devem, portadores da peculiar irracionalidade  animal.  Uma tristeza quase irracional.

Hora de chorar .

Lembrou-se de uma frase  que ouvira  envolta a lágrimas e promessas : “Eu vou te buscar!”

 Olhou para a caixa que lhe foi entregue e  achou engraçado o paradoxo.

Palavras, palavras…..

Objetos pessoais  não vistos há muito tempo vieram trazer notícias de que tudo passa  e que grandes sentimentos são facilmente  esquecidos e devidamente superados , mostrando ,além das palavras, o tamanho real de cada amor.

Sim, porque o amor tem tamanhos ,cheiro, textura  e  formas únicas  e raízes profundas.

O amor não cabe em nenhuma caixa.

Mas sim, o amor é frágil. E sua fragilidade faz doer muito.  O amor é frágil, como  capinhas de velhos cd’s.   Mas só consegue entender essa perenidade , quem é capaz de senti-lo.

O amor é para poucos.

Talvez não seja para essa que vos escreve. Mas pode ser para você.

Para quem lê, o conselho do dia:

Se você tiver a sorte  de ter um amor, e que esse amor coincidentemente, também lhe ame,  trate-o com toda atenção. Olhe para  esse amor, consciente de sua importância e preciosidade.

Não canse seu amor , não teste  seus limites. Preserve-o, esteja atento, cuide.Proteja-o. O amor precisa de proteção, de ser cuidado.  Preocupe-se.  Faça planos, estabeleça caminhos, segure a mão de quem você ama  e  siga em frente. Sonhos devem ser sonhados a dois, e nunca sozinho. Queira alguém na sua vida. Verdadeiramente. Todas as manhãs, todas as tardes, todas as noites, quentes ou frias, mas queira, todos os dias.

Por que no final de cada dia, quando você abre a porta de sua casa, aquela é sua única realidade. Quando você se deita em sua cama, sozinho ou acompanhado,  se não tiver alguém que ame,  sua vida não terá nenhum sentido.

Cuide do seu amor, mantenha-o entre suas mãos, abrace-o, proteja-o, cultive-o, como se ele fosse a coisa mais  frágil e importante do mundo. Pois ele é.

E lembre-se sempre  de colocar um “Cuidado, frágil” em suas relações, pois  caixinhas de cd’s são apenas objetos.  O amor, não.

Há quem tenha nascido para conservar relicários, que nada são além de lembranças de momentos felizes. São como vasos que guardamos  para lembrar que um dia, ali existiu uma flor.  Há quem prefira conservar sentimentos e pessoas. Se você for capaz , escolha sempre a segunda opção e cultive um jardim ao invés de vasos. Aí então você   terá a felicidade, e não apenas as lembranças dela.

(Estou de volta)


HOJE ALGUÉM PARTIU

( 23 de setembro de 2011)

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Angela, Raquel, Teta, Nath e Paulinho ( in memorian)

Hoje alguém partiu.

E deixou para traz uma família órfã.

Não pude estar lá para deixar meu abraço, mas estive lá durante todo o tempo, em pensamento e oração.

Não pretendo me estender muito, pois existem coisas  que vão além das palavras.

A morte é uma dessas coisas. Não somos criados para a morte, porque a morte é antítese da vida. Não faz sentido, nunca fará.

E ela vem quando menos esperamos, exatamente porque não a esperamos nunca, embora ela seja a única certeza que temos durante nossa jornada por aqui.

Hoje alguém partiu e deixou uma família órfã.

Orfã  do seu amor, da sua presença, do porto seguro , do simplesmente sabe-lo alí.

Eu já vi uma meninha chorando pelo rompimento do relacionamento de seus pais, e hoje não pude ver a mesma menininha chorando pela partida dele.

Com o passar do tempo, as lágrimas descobrem outras maneiras de manifestarem-se. Às vezes escondidas pelo olhar distante,  pelo riso, às vezes pela improvável indiferença, ou pelo acesso de choro…mas são sempre lágrimas, não importa como elas venham a cair.

Hoje alguém partiu e como acontece sempre, fica aquela sensação de não ter dado tempo de dizer aquele “Eu te amo”, aquele  “Você é importante demais na minha vida”…Não importa. Ele sabia de tudo isso.  Mas é bom que sempre estejamos prevenidos.

Então, vamos amar sempre e dizer o quanto amamos, vamos nos reunir mais vezes, vamos  estar por perto. Vamos reconhecer que familia é a coisa mais importante na vida. Vamos aproveitar as oportunidades e sermos felizes, e se não pudermos, ao menos saibamos qual caminho seguir. Vamos amar, vamos viver! Por que o amanha, é sempre uma estrada que não sabemos quando vai terminar.

(Para Angela,  Nath, Teta e Raquelzinha)

“ …e o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,  Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar…
 Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida   a  rir ou chorar….
Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
E o fim dela, ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela que um dia enfim….
Descolorirá!”


MUNDO ESTRANHO

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A semana foi ótima. Eu, minha princesinha, minha irmã caçula e nossa pequena Victoria.

Matamos a saudade, rimos, brincamos, passeamos todos os dias.

Até que finalmente, chega o cunhado. Em meia hora, a pequena Vivi estava com cólicas e fui com ele até a cidade procurar uma farmácia. Eis que tudo acontece.

O carro que vinha em direção contraria entrou no canteiro central da avenida, derrubou uma arvore na pancada , capotou e caiu de ponta cabeça. Foi só um poeirão que levantou na nossa frente.

Descemos, e la estava,  uma mulher de seus 50 anos, de ponta cabeça dentro do carro destruído. Esticou as mãos pra nós, pedindo socorro. Ela estava sozinha dentro do carro.

Alívio.

E ela pedindo para que não a abandonássemos lá, esticando seu braço , pedindo ajuda.

O cunhado olhou bem pro chão, aquele monte de cacos de vidro estilhaçados no gramado, e rapidamente deu a volta, procurando o outro lado do carro para poder retira-la. É o sábio pensamento racional masculino.

Antes de qualquer coisa, liguei para o 190 (desaconselho esse recurso, pois a atendente queria saber meu nome, R.G., CPF e a mulher lá, pendurada.) Deixei a atendente eficientíssima do 190 falando sozinha e fomos tentar ajuda-la.

O cu abriu a porta do lado do passageiro, mas não alcançava o cinto de segurança.

Olhei para os cacos de vidro, não pensei duas vezes. Me enfiei no pequeno espaço que havia entre a fuselagem e os cacos, entrei  e destravei o cinto. É o insano pensamento emocional feminino.

 Ele a segurou  para que não despencasse entre os pedaços de vidro do para brisas e a removeu dali, colocando-a cuidadosamente em segurança.

-Ai, meu Deus, não consigo respirar. Está doendo meu peito.

-Não se mexe, você pode ter quebrado alguma costela.

-Imagina, essa dor é da pressão do cinto de segurança.Se ela  tivesse quebrado alguma costela, não conseguiria nem conversar! (outra vez o pensamento racional masculino em ação)

-É, mas a gente não sabe, né, então melhor ela ficar sem se mover.

-Para com isso, você ta deixando a mulher nervosa.

-EU to sendo sincera, vai que ela quebrou alguma costela! (O insano pensamento feminino nao pode calar)

-Aiii, liga para meu filho.  Nao! Liga pra minha irma, porque meu filho pode se assustar!

-Qual a idade do seu filho?

-Vinte e seis.

-Liga pra ele, Caio.

Depois de alguns minutos, alguns carros foram parando .

Muita gente se movendo para ajudar. Uns correndo pra lá, outros pra cá.

Essa coisa de pessoas se preocuparem com estranhos, me comove. Normalmente nem os conhecidos se preocupam com a gente.

Até que o socorro chegava, fui conversando com ela, que me abraçava , pedindo para que eu não saísse dali. Pedia pela irmã, que chegou só 40 minutos depois, toda bem vestida e maquiada.  Não se abaixou, para não sujar sua calça de linho.

Essas coisas também  me comovem. A indiferença que não se é capaz de esconder.

No meio da conversa, ela me contou  que estava muito nervosa, tomou um calmante e decidiu ir a um centro espírita para tomar um passe e na volta, dormiu no volante.

-Vou te deixar meu telefone. Da próxima vez que estiver nervosa, me ligue e tomaremos um chá. Somos vizinhas de condomínio. Soube disso quando ela passou o endereço aos policias, que chegaram antes da ambulância.

Como a gente tem que tirar sempre alguma lição das coisas que nos acontecem,  desse episodio não tirei nenhuma lição, a não ser a certeza de que o ser humano se sente e se vê cada vez mais sozinho, mesmo se rodeado de gente.

Ninguem tem tempo para o outro, e aquela pessoa, não tinha ninguém para sentar, conversar um pouco, ou simplesmente ser ouvida. O ser humano está cada vez mais só, abandonado a própria sorte.

Seu filho chegou, de longe perguntou a mae se ela estava bem, mas também não se aproximou muito. Enquanto eu a abraçava, ele procurava sua bolsa, pegava alguns cds espalhados pela grama. Se limitou a isso.

Não quero me ater  a esse lado. Prefiro me lembrar das pessoas que pararam, se esforçaram de alguma maneira para tentar ajudar, ligando para a policia, corpo de bombeiros, ambulância, telefonando para os parentes dela, conversando para que ela se acalmasse.

Não quero julgar ninguém, e sim, pensar que, se no mundo, existem pessoas  indiferentes, também existem aquelas que se preocupam com seu próximo, de verdade.

Nos próximos dias, irei visita-la . Deixarei meu telefone e  endereço e a convidarei para um chá ou uma gelada de vez em quando.

Se não somos capazes de resolver os problemas de individualismo caótico em que o mundo se encontra,  pelo menos podemos estender nosso braço, emprestar nossos ouvidos e nos tornarmos amigos.

Mal, o bem não faz.


II FLIMAR

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Carlito Lima e o céu alagoano: duas imensidades se contemplam

Está certo.

Desejei que meus olhos  tirassem fotografias, pois só  eu, e ninguém mais, nenhuma lente conseguiu  registrar todas as imagens e momentos e expressões que ficarão guardadas na memória.

Desejei que meus ouvidos fossem gravadores, para poder  voltar  quantas vezes quisesse e ouvir cada palavra que consegui sorver  daquele lugar.

Nenhum  final de semana de compras, nenhuma viagem à Europa, nem mesmo um  mega show internacional  me impressionou e me acrescentou tanto.

Eu tive uma semana de cultura, de carinho  alagoano, baiano, carioca, pernambucano.

Eu  vi o mar do Francês com olhos de saudades, mais amadurecidos pela vida.

Eu vi Marechal Deodoro e seu povo acolhedor e multicolorido.

Eu vi Alceu Valença,  Luiz Berto, Jessier Quirino,  Chico de Assis,  Míriam Sales e não vou citar mais ninguém, pois esse texto ficaria gigante,  já que alí, eu só vi pessoas grandiosas, como nunca tinha visto.

Eu ganhei livros com dedicatórias  que me emocionaram.

Eu vi circulando pelas ruas, cães  em bando. Bando de cães felizes.

Eu conheci pessoas que poderiam passar despercebidas, até começarem a falar. Depois desse momento, jamais sairão de minha memória.

Eu recebi demonstrações de afeto tão  grandes,  que quase me senti   tão especial quanto eles todos.

Eu  vi um homem miudinho,  de quase não sei quantos anos de idade, subindo ao palco com sua rabeca,  esculpida em próprio punho,  tocar seu instrumento tão magnificamente, que virei sua fã instantaneamente, e quando pedi apaixonadamente para  tirar uma foto comigo, ele, todo feliz  com a fila que se formava, disse baixinho: “Eu âââââmo vocês!”  que traduzindo-se na linguagem do sentimento, dizia: “Obrigado por gostarem de mim!”

Eu  vi um homem de chapéu panamá, subir ao palco e com sua voz forte, sua postura de gigante e sua presença de palco,  fazer com que eu vertesse rios de lágrimas ali, no meio de todo mundo, ao recitar alguns dos mais belos poemas que conheço.

Me sentei todas as noites com gente que falava sobre ideais, sobre literatura, livros e cultura e não sobre pessoas e vida alheia.

Eu conheci Simone e Sandra, e descobri  que são minhas fãs tanto quanto sou fã delas.

Eu conheci uma família maravilhosa, cheia de paz e serenidade .

Ouvi  a frase mais linda dos últimos tempos:  “Eu só quero uma coisa na minha vida: Fazer essa mulher feliz”.

Vi casinhas com eira, vi casinhas com beira  e entendi por que a minha, não tem eira nem beira.

Vi mulheres tecendo renda, trançando fios por dias e dias e dias, para no final de uma semana, vendê-los quase de graça.  É a trama da vida de cada uma delas, que seguem felizes com a simplicidade grandiosa de sua arte.

Eu  entendi, finalmente, como se mede o tamanho de um homem e onde é que mora sua grandeza.

Eu conheci pessoas verdadeiras e indiscutivelmente   talentosas e anônimas. Conheci  também talentos que  a mim, eram anônimos.

Eu presenciei um black out  que me fez lembrar o quanto  adoro as estrelas, mas   o céu de Marechal Deodoro é mais bonito do que o céu do resto do mundo.

Eu conheci duas mulheres lindas, que se amam e tem uma parceria linda vida afora, cheias de tranquilidade, amor e carinho uma pela outra.

Eu vi e peguei no colo um filhote de bicho preguiça, que  também me fez chorar de emoção.

Uns meninos me pediram o famoso “um real”. Dei dez e recebi o abraço mais apertado do mundo.  Esse, vinha sem preço.

Fiz uns 6 bons e grandes novos amigos e reconheci  a amizade já existente, que  finalmente, se tornou  real. Só por isso, viver já teria valido a pena.

Eu vi que meu  mundo se ampliou, por que o modo como  vejo a vida, é diferente da semana passada.  Me sinto como uma pequena bexiga que  inflou, e jamais conseguirá voltar ao tamanho original.

Eu dei risada por me sentir alegre, eu gargalhei  por achar graça, eu chorei por me emocionar.

Eu percebi  que no mundo existem pessoas exacerbadamente grandiosas. Só não sabia seus endereços e nem elas, o meu.

Enfim, nada que eu seja capaz de escrever por aqui, fará  justiça  aos momentos que me foram proporcionados e eu, princesa esperta que sou,  soube aproveitar cada um deles.

Eu conheci gente de todos os cantos, com culturas diferentes e conheci  gente  de um só lugar, e compreendi  o Orgulho de Ser  Nordestino.

Quando Deus foi jogar sobre  a Terra  as sementinhas das  almas talentosas, triplicou a quantidade no nordeste, por receio das sementes não vingarem, por causa da terra seca, e deu nisso..

Eu vi um homem dedicando-se de corpo e alma para que tudo desse certo, e deu.

Esse grãozinho de areia que vos escreve,  através desta,  quer agradecer a cada um, e especialmente   a Carlito Lima, que  entre todos, foi o maior responsável    pelo sucesso  da  II Flimar .

Muito obrigada.


O SORRISO É A METADE DO CAMINHO PARA A FELICIDADE

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Acordei cedo demais para qualquer coisa.

Mas como nunca é tarde demais pra coisa alguma, tambem nunca deve ser cedo demais também. Fui arrumar o que fazer.Arrumei algumas coisas, organizei minhas contas, tomei meu banho.

Passei um café, que comi acompanhado de uma fatia de bolo com margarina.

Muito, muito calor já cedo.

Passei protetor solar, coloquei um biquini e fui conhecer a piscina. Lá encontrei duas meninas conversando, uma senhorinha linda, de cabelo roxinho, uma moça de uns 40 anos, lendo um bom livro e minha vizinha, com suas gemeas, brincando na piscininha menor.

Mergulhei, deixei o corpo flutuar por alguns minutos. Nadei um pouco, me deitei na cadeira e fiquei sentindo o sol em minha pele. Parecia uma recem saída do sarcófago. Há tantos anos nao me permitia um ” Dolce Far Niente sem culpa nenhuma”…

Uma sensação tão boa de paz e liberdade. Liberdade de mente. Uma ausencia total de sentimento de culpa. Estranho, isso, nao sei de onde vinha, nao sei pra onde foi…

Eu sei que haverá momentos de recaída, mas nada é perfeito e a vida é assim mesmo.

E eu só quero ser feliz e sentir paz, se não sempre, pelo menos na maior parte do tempo.

É obvio que a vida nos traz tristezas, decepções e rancor, muito rancor. Mas vejo que o rancor é grande, e as pessoas, geralmente pequenas demais. Quero me reaproximar de Deus, ele sempre me fez tao bem!

Eu me amo sorrindo, tendo tempo para observar as coisas belas da vida, uma criança brincando, uma mãe curtindo as crias, o pai que desce com o carrinho, levando o filho para um passeio pelo sol da manhã, o sol, a agua, o vento…

A tristeza pode bater em minha porta vez ou outra. Mas só atendo, se eu quiser. E eu nao quero. Quero crianças em casa, reuniao em familia, pipoca, quero ser chamada de tia. Quero a casa cheia de vozes e risos, quero curtir as manhãs,  quero escolher o filme que vou assistir, quero vida novamente!

Eu quero ser feliz, cultivar poucos, mas bons amigos, sorrir mais para as pessoas que passam apressadas e mau humoradas pela correria da vida, eu nao quero mais andar depressa, quero passos lentos, quero saber onde estou indo, nao quero mais o estress da multidao. Quero ser eu a multidão a sorrir, não importa se remando contra a maré. Afinal, sempre foi assim e nunca me incomodei com as torcidas adversárias. Elas sempre me impulsionaram , sempre me divertiram.

Os momento de risos, nao sao apenas momentos felizes: São a própria felicidade. Constante, e em doses homeopáticas. Quero ter ao meu lado pessoas do bem, da paz, para sorrirem comigo, para ser feliz ao lado delas e saber que as faço felizes tambem.

Eu sou um desses estranhos e raros seres humanos que sozinha, nao me basto. Sou multidao. Nao quero caverna. Quero o sol da manha , quero viver, respirar a vida sem nó na garganta, quero só boas noticias, quero só paz e felicidade.

Pode parecer poesia, mas na essência, é assim que eu sou e quem me conhece de verdade, sabe disso. E é esse meu riso que quero ver todaas as manhãs em frente ao meu espelho. Sempre.


EM MOMENTOS DIFÍCEIS NAO LIGUE O RÁDIO: ELES NÃO TOCAM RAUL!!!

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“ … O meu Sansung-Garrard-Gradiente só toca mesmo embalo quente pra lembrar do seu calor…” Raul Santos Seixas

Ela acordou de repente. O sol ainda não havia nascido , mas o ar quente dava notícias de que o dia seria bonito.

Pensou e virar-se para o lado e continuar a fazer o que há tempos  estava fazendo: dormir, para não pensar. Não pensar é o mesmo que não sofrer, não lembrar, não sentir-se só, não sentir saudades.

Num ímpeto  , e como existem certas vontades latentes no ser humano,  levantou-se, tomou um longo banho, deixou a agua correr por seus cabelos, por seu corpo todo.

Abriu a porta da sala, e ficou por alguns minutos olhando o sol nascer. Voltou para dentro, finalmente abriu as janelas, todas elas, e deixou que o ar  invadisse tudo.

Passou um café, não sem antes limpar a poeira acumulada sobre a  pia. E já que tudo estava empoeirado, lavou tudo: A pia,  o chão, o quintal, aguou as plantas que já estavam secando, jogou fora o tomate cereja que havia apodrecido embaixo da pia e também alguns vasos de flores secas.

Acendeu um cigarro, olhou para aquele espaço , agora limpo, e chorou.

E como  o cigarro acabou e porque existe essa vontade latente, essa vontade de renascer, essa força que faz com que a planta rompa com o cimento e brote no asfalto seco e quente, por mais improvável que isso pareça, ela levantou-se dali, enxugou suas lágrimas  e se lembrou que há dias não se alimentava direito.

Pegou seu carro, foi até a loja de conveniência mais próxima, comprou pães quentes, voltou para casa lentamente, passou manteiga no pao, e o mergulhou na caneca de café, para não se esquecer quem é, e de onde veio.

Colocou o feijão de molho, picou alho, cebola, cheiro verde, louro, fez arroz, bife acebolado e batata frita. Lavou salada e a temperou com limão . Serviu a mesa e comeu feito  princesa.

Abasteceu o corpo da melhor maneira possível.

Só não  sabia como abastecer a alma, o coração aflito.

Aí ligou na Rádio AM , que estava tocando  “Ó Califa, eu te chamo, em meus soooonhos com todo amooor”.

Pobre criatura. Assim como a planta rompe com o cimento para brotar no asfalto  seco e quente, dar de ouvidos com a banda Calipso num momento como esse, é o mesmo que exterminar a última semente do universo.

Desligou rapidamente o rádio, espetou um pen drive do Raulzito no som e tratou de escrever uma crônica.

Nada melhor que um bom prato de arroz e feijão e Raul Seixas de sobremesa  para restabelecer o juízo de uma pessoa….


O UMBIGO

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Filho da gente, quando nasce,  é sempre o mais bonito do mundo,  embora todos  tenham  cara de joelho  de padre.

No meu caso, não ia ser diferente.

-Ela é linda!

-Tem a sua boca.

-Tem o seu nariz!

Dias depois, o umbigo já caído,  a gente olhava e algo nos parecia meio estranho….

Passados uns 2 meses, começamos a observar certos detalhes dos outros bebês e algo continuava estranho.

-Viu, mas por que ela tem esse umbigo tão grande?

-Ah, não acho grande…

-Como não? Cabe uma moeda aí dentro!

-E o que é que tem? Cabe uma moedinha de um centavo.

-Nesse umbigo aí ? Nesse umbigo, cabe uma moeda de um real!

Passados mais algum tempo, eu, realista que sou, olhava para aquela barriguinha e só o que via era o umbigo.

-Mas o que vocês fizeram que o umbigo dela ficou desse jeito?

-Vocês fizeram, não, cara pálida! Quem tratou do umbigo nem fui eu!

-Você deixou o umbigo da menina nas mãos da sua amiga, foi isso o que deu!

-A minha amiga, era enfermeira, viu?

-Eu imagino o que seria do umbigo dessa criança se a sua amiga fosse vendedora de carros….

-Ela vendia carros, mas era enfermeira formada.

-Sei.

-Se não era formada, tinha curso de enfermagem. Não me lembro.

-Ahan…

Às vezes, caía algum farelinho de pão ou bolacha na barriguinha, ela ia limpar, acabava deixando cair dentro do dito cujo. Aí ela ia tirar, enfiava um dedo, dois, aí ela olhava pro umbigo e perguntava:

-Mãe, té isso atí?

-Umbigo, filha.

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PARA MIM

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As gotas da chuva batem incessantemente na janela e o vento ininterrupto traz de presente a minha parcela de medo. Medo que a chuva me molhe.

Ouço o movimento dos coqueiros. O vento vem, e leva tudo. Só não leva a agonia. Essa, tem âncoras firmes no coração cansado.

O cansaço chegou faz tempo, e lá permaneceu, como uma louça acumulada na pia que, mesmo tentando ignorá-la, nos  incomoda. Mas não temos forças para limpá-la.

E nesse momento , onde o mundo parece desabar e que o melhor lugar  para se ficar é embaixo dos escombros, olho no espelho e vejo alguém  com olhos de ressaca, num mar violento,  totalmente à deriva,  numa nau  sem condutor.

Procuro encontrar na imagem do espelho, onde é que foi se esconder toda a alegria que sempre morou ali. Não encontro nada.

Canto baixinho uma canção para alegra-la,  não adianta.

Tento relembrar momento felizes, e nada. Você está mais magra, menos saudável. É triste te ver assim.

Então eu fecho os olhos e faço uma oração:

Boa noite, pequena princesa. Não perca a fé, nao fume muito e nem roa as unhas. Alimente-se um pouco.

Saiba  que por pior que as coisas estejam, por mais que você se sinta sozinha e desimportante nesse mundo ,não se desespere , nem perca seu norte.

Deus tem planos maravilhosos para sua vida.

Nunca se esqueça que  eu te amo e quero que seja feliz.

Faça um chá quente, escove os dentes e durma em paz.

O melhor da vida, está por vir.

Boa noite, pequena princesa.

Peço a Deus que lhe envie mil anjos para acamparem em volta da sua cama para que velem seu sono.

Boa noite, pequena princesa.

Beijos meus para mim mesma.

Amém.


A BREVE HISTÓRIA DE UMA MENINA BONITA

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Quando eu era pequena,  tinha a  pele era branquinha feito porcelana, as bochechas rosadas,  olhos claros e cabelos loiros e lisos. Lembro-me  de algumas bonecas, que não eram minhas filhas, mas sim, minhas eternas confidentes.  Aliás, pensando bem, todas as minhas lembranças estão nessa fase : minha infância.

Diziam que me parecia com um anjinho, que eu era linda! Papai também pensava assim….Tinha um irmão mais velho, acho que se chamava  Carlos. Mas não estou bem certa. Tudo me parece um tanto confuso agora. Ele era grande e forte, apesar de ter pouco mais que 12 anos. Só que nunca estava por perto quando precisei dele.   Mamãe era uma mulher simples, de fala baixa, nunca se alterava, nunca discutia com papai, nunca discordava dele.

Morávamos numa casa simples, perto do Hospital de nossa pequena cidade. Eu via pessoas passarem em ambulâncias, sendo amparadas e socorridas e sentia inveja . Nunca fui amparada ou socorrida. A nossa vizinha,  era cabeleireira, tinha duas filhas mais ou menos da minha idade , e as protegia como uma leoa. Um dia, ela percebeu algo estranho e foi falar com a mamãe.

Pensei que finalmente meu tormento teria fim,  pois a mamãe agora me protegeria!  Aquela vizinha contaria o que eu nunca tivera  coragem de contar , e agora, tudo ficaria bem! Mamãe disse que eu era muito criativa,  que aquilo era conversa de criança.   Foi nesse dia que percebi que ela sempre soubera de tudo.

Aquilo doeu mais do que todas  as noites que fui pega de surpresa, enquanto sonhava com carrosséis coloridos,  algodão doce cor de rosa e ambulâncias a me socorrer. Ela sabia, e nunca fez nada para aquilo ter um fim.

A vizinha comunicou a polícia, mas mamãe negando, a gente sendo pobre  e papai o bom provedor,  ninguém questionou e tudo ficou como estava.

Um dia,  estávamos reunidos para jantar, e eu disse quena natureza era perfeita:   os passarinhos cuidam de seus filhotinhos até  que eles possam se alimentar sozinhos, que os gatinhos também são protegidos pelas mães, assim como todos os outros animais. Papai respondeu que os potrinhos, quando nascem, recebem um chute das mães, que é pra aprenderem que a vida não é moleza.

Eu já sabia disso. A vida não era moleza  e eu , definitivamente, não era passarinho, nem gatinho. Eu era potrinho.

Quando comecei a ir a escola, tudo ficou muito óbvio. As marcas roxas pelo meu corpo, meu pescoço,  a dificuldade em me movimentar, em me sentar, aconteciam com tanta frequência, que todos da escola  perceberam e,   o sonho daquela ambulância vir me buscar, se tornou real.

Papai foi preso, mamãe chorou muito  por ele. As lágrimas que por mim, nunca foram derramadas, vertiam constantemente agora. Seria eu a vilã de minha própria história? O pesadelo    finalmente acabara, mas a realidade que seguiu foi muito pesada para a menininha que eu era.  Quem me via  brincando com minhas bonecas, não podia imaginar a profundidade de minhas dores.

Procurava um lugar pra me esconder. Cavava buracos profundos na terra vermelha do meu quintal, queria poder entrar ali e me esconder do mundo.  Mas não sabia como me esconder de mim mesma. Fui crescendo e minha infância seguia a meu lado. Para todos, era apenas uma menininha de olhos claros e cabelos finos e loiros, brincando na terra.

Aos doze anos, me apresentaram  um pozinho mágico, que fazia com que por algum tempo,  eu me sentisse bem e livre. Depois vieram as injeções,  e aos quatorze  adoeci muito e o médico disse que eu tinha uma doença,  e que teria que tomar muitos remédios para poder continuar viva.

Aos dezesseis,  morri de overdose.  Não pude ter meus filhos e protege-los  do mundo e das pessoas más que por ventura pudessem surgir. Não tive infância, nem juventude.  A vida , para mim, foi longa demais e o descanso  demorou muito  para enfim, surgir. Embora não pareça,  meu fim foi um presente de Deus. O único que recebi  durante minha longa existência.

Peço sempre a Deus que perdoe  minha mãe, pois eu não fui capaz de perdoá-la.

 Agora finalmente, descanso em paz.

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AS MULHERES SÃO MÁS!

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Estávamos em 2001, e ela só assistia Branca de Neve. Decorou todas as falas dos personagens de uma maneira que chegava a irritar a gente. Ficava narrando o filme do começo ao fim.  E sempre tampava o rostinho com as mãos e chorava quando o lenhador  levantava o machado para matar Branca de Neve, embora cansada de saber que ele não a mataria.

Um dia ela aprontou  das suas, como já era de costume, e a deixei de castigo.

-Mae, tira eu do seu cáito, deixa eu fica de tastigo no meu!

-É, claro. No seu quarto, cheio de bonecas, né ?  Vai esperando, vai….

-Mas mãe, eu quéio atistí Banca de Véve, hoje eu nem assisti duas vêiz…

-Nem pensar. Agora você está de castigo, pensando!

-Mas mãe, mamãedinha linda….

-Pode parar, faz favor?  Quanto mais você pedir, maior vai ser o tempo que durará seu castigo.

Saí e fez-se  profundo silêncio.

Depois de 5 minutos, a liberei do castigo, e coloquei na porta da geladeira um bilhetinho escrito:  “ Hoje desobedeci a mamãe  e fiquei de castigo pensando. Agora serei uma boa menininha!” E li pra ela o que estava escrito. Ela voltou-se  pra mim e disse:

-Eu desbedeci ,então eu fiquei pensando pensando e me arrependi! Nunca mais vou fazer isso!

Que doce e meiga criaturinha….

Algumas horas depois, vi que tinha recado na minha secretaria eletrônica e fui ouvir.

A desaforada, enquanto estava de castigo no meu quarto, não contendo a raiva, tendo que desabafar com  alguém e imaginando que eu jamais ouviria, pegou o telefone e ligou pro nosso próprio número. Caiu na secretaria eletronica,  e lá ela dizia,  sussurrando baixinho , com a voz mais tenebrosa do mundo:

-Um anjo?  Você não é um anjo…Você é mulher , e as mulheres são falsas! Cheeeeeeeeias de sortilééééégios!

Como se não bastasse  imitar a frase do Zangado, ainda finalizou com chave de ouro:

-Odióóóóóóóóóóóóóósa!

( Num é pacabá com os peixe de Goiás, me digam ? )


O HOMEM EM SUA CAVERNA

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Pouco antes de senti-lo meu, consagrei-me  a ele.Assim,  sem nada saber, sem ter ouvido promessas ou nada que me servisse de alguma valia. Ele estava ali, e isso devia bastar.

E eu lutei por aquilo que era apenas um horizonte a ser apreciado de longe, de uma distância onde as imperfeições do terreno arenoso nao pudessem ser observadas.

Ele lutou para que seu terreno nao fosse aterrado. Sentia-se confortável em seus troncos, em suas valas, em seu chão marcado por folhas secas de outras estações.

Tentei mostrar-lhe um mundo fora de sua caverna, pensando que ele pudesse olhar para as manhãs de sol, e gostar delas.

Ele tentou, lutou muito para se adaptar a tanta luminosidade, que não deixam o espelho mentir. Na penumbra, tudo passa despercebido, mas a luz, a luz nao nos permite ilusoes.

Briguei muito para que ele parasse de andar em círculos, que se desapegasse da caverna. Mas ele nao via quantas coisas deixei pra tras, o quanto me afastei do meu mundo , para viver o dele.

Ele tentou,  se esforçou muito para que tudo desse certo sem que ele precisasse se mover. Não teve jeito. O amor nao foi grande o bastante.

O meu Sol  e minhas manhãs nao foram boas o suficiente para livra-lo de suas trevas tão bem iluminadas com velas , onde a realidade é facilmente distorcida e só se vê aquilo que for conveniente.

Confesso entretanto, ter vislumbrado, claro como as manhãs de primavera , o homem  que estabeleceu residência no meu coração, no privilegiado recanto que só a ele pertencia. Um lugar que era para ser sagrado como um altar, onde nos damos em sacrificio tendo  a total consciencia de quão raro e precioso é aquilo. Nada, nem ninguém, conseguiria desaloja-lo dalí. A não ele mesmo.


A TRÍADE DE CADA UM DE NÓS

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Hoje estava vendo as fotos de Yasmin, a pequena princesa, primogênita  de um casal de amigos , que acaba de chegar. Chegou para iluminar tudo, e nota-se isso ao ver o brilho nos olhos de seu pai, de sua família. Que ela seja mensageira de felicidade para o mundo, tão carente de coisas boas.  A foto-título desse texto me emocionou muito: pai e filha se apresentando. Lindo, lindo…

Nascimentos sempre me emocionam.  Mulheres grávidas me emocionam mais ainda. É a essência feminina em seu estado mais apurado. A feminilidade de estar carregando em seu ventre uma nova vida, é  quase um encantamento.

Famílias me emocionam.  Quando duas pessoas se encontram e, muito além de qualquer coisa, resolvem ficar juntas  de verdade, se multiplicar, viver em bando, é o próprio encantamento, principalmente nos dias atuais, onde tudo é  “selfishness”  e  “loneliness”.

Não tem nada que aqueça mais uma vida, do que uma casa cheia de filhos, netos, sobrinhos, pão quente e café fresco.
Enfim, uma casa cheia de  vida. Por mais que haja brigas, desentendimentos e diferenças, ainda assim, nada supera a dor e a alegria de se ter uma família.

Mas a idéia da chegada me remete sempre à partida.  Aí me lembro de quando meu avô foi embora. Ao seu redor, estavam todas as suas fiéis mulheres e os homens dessas mulheres também conquistados por ele, e seus netos e bisnetos. Ele se foi, mas enquanto fazia sua travessia, estava rodeado de sua gente.

Eu já plantei algumas árvores.

Já tive um filho,  deixei minha sementinha nesse mundo.

Se Deus quiser, escrevo um livro e terei  completada  minha tríade.

Só espero que entre um intervalo e outro, eu seja simplesmente alegria.

E que  finalmente eu aprenda a me bastar.


IMAGEM NÃO É NADA!

 

“Cellophane flowers of yellow and green,Towering over your head
Look for the girl with the sun in her eyes ,And she’s gone…” (The Beatles)

Tem dias que se tudo pode dar errado, vai dar.

Saí de casa com a bolsa errada. Sem meus documentos , sem dinheiro ou cartão de crédito e com a bateria do telefone prestes a acabar. Para não dizer que estava totalmente nua, um talão de cheques esquecido no fundo da bolsa . E era tudo. Cruzei a imensa cidade orando para que nenhum indivíduo me pedisse os documentos.

Finalmente cheguei   ao  meu destino. Abri o porta malas para pegar algumas sacolas, olhei para a casa e percebi que não havia ninguém. Viagem perdida.  Ao pensar nisso, fechei o porta malas com as chaves dentro.

É  a desgracêra  dos urubus, que como dizia meu avô, só anda em bando.

Eu ali, do outro lado do universo, sem documentos, trilhões de litros de etanol jogados fora, num calor das 3 da tarde,  sem telefone, sem dinheiro e  com as chaves do carro trancadas no porta malas.  O que mais poderia acontecer? Melhor nem querer saber.

Fui até uma vizinha,  simpaticíssima aliás , que me emprestou telefone,  ligou para o chaveiro  e depois  de tudo resolvido, teve que sair, e eu fiquei  ali, com o Sol na moleira e a boca seca, morta de sede.

Junto com o chaveiro, estaciona um carro, do outro lado da rua.

A moça desceu toda linda. O ar condicionado do carro fazia com que ela  ignorasse o calor que fazia e ela parecia refrescada  na vida. Abriu o porta malas do seu utilitário, sentou-se nele , retirou um super mega celular da bolsa Alexandre Herchcovitch ,  e avisou alguém que já havia chegado.

Um cabelo de causar inveja a qualquer uma, olhei, e não vi nada que pudesse botar defeito. A criatura parecia saída de um catálogo de moda parisiense. No punho, um bracelete em couro preto cravejado  com cristais Swarosvki, finalizava o look.

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HOMENS…

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Já se passava das 22:00, seu ombro doía freneticamente.

Procurou ajuda,  mas todos estavam ocupados fazendo aquilo que gostam:  vivendo.

Voltou pra casa, não suportou a dor e encarou o carro, o caminho, o frio , a noite escura e se encaminhou ao Pronto Socorro. Parou o carro quase na quadra de cima, mais escuridão.

Ficou sentada, esperando sua senha piscar, e depois esperou mais um pouco, até seu nome ser chamado. Olhou ao redor, e percebeu que todos ali estavam acompanhados. De pais, ou de filhos, de irmãos, de vizinhos, de amigos, tinha até uma mulher acompanhada de um taxista.

Mas ela estava sozinha,  e no escuro daquela noite , sentiu  pela primeira vez, vontade de voltar para casa. Pro seu lar.  Seu  nome foi finalmente chamado e nesse  momento, as lágrimas correram seu rosto.

- Boa noite,  o que você está sentindo?

- Meus ombros doem, não consigo mais mexer os braços, dói tudo.

- Mas está doendo  tanto assim?

- Está doendo profundamente.

Na ficha tinha  seu nome, idade e endereço. Ele a olhou com mais atenção.

- Você tem trinta e….

- Quarenta. Tenho quarenta  anos. Como  está aí na ficha.

- Mas com um rostinho de trinta, hein…

- Quando não estou chorando de dor, costumo ser mais bonitinha.

- Posso imaginar…Vou te receitar um medicamento agora, mas você não poderá sair daqui em menos de 2 horas, a não ser que alguém esteja te acompanhando, mas não vejo ninguém aqui…

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ENSAIO SOBRE A TRISTEZA

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“…E a tristeza tem sempre uma esperança, A tristeza tem sempre uma esperança,De um dia não ser mais triste não…” (Vinícius de Morais)

Eu desconfio muito das pessoas que são felizes o tempo inteiro.

Aquele sorriso constante, aquela alegria contagiante, aquele eterno estar de bem com a vida, me irritam. Soa falso demais.

A partir de agora, fica para mim, definitivamente permitido sentir tristeza, sem culpas. Se ela existe, qual o problema em falarmos nela?

Alguém me ensinou que felicidade nao existe, que apenas temos aqueles momentos, que são de felicidade.

Na verdade,  acho que tudo são apenas  momentos,  para quem  nao construiu um caminho. Aí, o que existe, são só os momentos mesmo.

Existe o momento de ser feliz, existe o  momento de ser triste…mas como ninguem gosta de falar sobre a tristeza, então, falo eu, (que sou humana , rio e choro, trago no peito alegria e tristeza, furacão e calmaria por onde passo. Sou humana,  nunca vivi num conto de fadas, e descobri, pelo caminho mais difícil, que não se deve acreditar em ilusões, e quase tudo, são ilusões.)  :

Tristeza é quando a alma se  retrai e vira as costas para a vida.

Estar triste é um estado da alma, é quando respirar fundo, dói. É quando a boca sorri e o coração não ouve.

Se analisarmos bem, percebemos que  a tristeza profunda, dificilmente é notada, pois quanto mais estreitas as pessoas se sentem, mais expansivas  parecem estar.

É que a tristeza é algo tão dolorido, que nem quem a sente, quer percebê-la,  embora a saiba na alma.

A verdadeira tristeza se percebe quando as palavras não se encaixam e as  frases não fazem sentido.

As rimas não surgem, as cadências  inexistem. É quando se dança fora do ritmo. É como cantar fora do tom.

A tristeza é um samba de Vinícius em descompasso. É quando o cobertor não te aquece. É quando um amigo te trai. É quando alguém que você gosta vai embora e você sabe que nunca mais voltará a vê-lo. É o amor que não pode ser. É se sentir sozinho no cordão do trio elétrico.

É a infeliz certeza da desimportância.  É  o vazio que mora no meio do peito e que te segue, não importa onde você vá.

Mas existe uma alegria na tristeza: Assim como  a caravana , a tristeza também passa. Independente de quanto os cães ladrem .

Porque é da natureza dos cães, ficarem ali parados, fazendo festa, vendo a caravana fazer parte de sua historia, mesmo sabendo que  não  podem  detê-la, e não querem  seguir com ela. Limitam-se em viver  aquele  breve espaço de tempo , enquanto ela passa.

Porque é da natureza da caravana seguir em frente.

Porém, não importa quanto tempo durar  o  inverno, um dia, quando menos se espera e de onde menos se imagina, o Sol surge novamente, e a primavera torna a colorir tudo com suas flores.

Ou não.


BANHO NESSE FRIO, É COISA DE PSICÓTICO!

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- Hora do banho!

-Que hora ?

-Não adianta enrolar não, já pro banho.

-Como assim ?

-Já falei que não adianta enrolar, não vou cair na sua  enrolação hoje não. Vai pro banho que depois vou eu.

-E por que eu tenho que ir primeiro?

-Porque vou fazendo a janta enquanto isso.

-Naaaada! Conversa ! Você quer que eu vá primeiro pra eu esquentar o banheiro pra você,  confessa…

-Claro que não.

-Claro que sim.

-Entao vamos decidir no par ou ímpar.

-Ok.

-Par!

-Ímpar.

-Lá se vão os dedos!

-Par. Ganhei. Já pro banho.

-Eu que pedi par!

-Nossa, você é tão previsível….Toda vez você faz isso, impressionante.

-Mas eu falei par!

-Não falou não sennhorita. Volte a barra de rolagem e verifique que eu sugeri par ou ímpar, você concordou e eu falei par e você logicamente falou ímpar…

-Tá booom, tá booom, vamos de novo então.

-Como assim?  Eu já ganhei,  garota!

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DECLARAÇÕES DE AMOR

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Eu devia ter uns 6 anos.

Ele morava em São Paulo, mas passava todas as férias e feriados na casa de sua avó, que era  vizinha da minha.

Éramos namorados. Oficialmente, já que um dia,  todo apavorado ,ele me olhou seriamente e perguntou:

-Nós somos namorados, né ?

Como eu não sabia a resposta certa, concordei,  com certa empolgação, apesar dessa coisa de compromisso  ainda não fazer parte dos meus planos .

Mas era namoro sim. De vez em quando ele, ousadíssimo e muito corajoso, dava um jeitinho de esbarrar sua mão na minha e já que elas estavam tão próximas,  segurava-a  como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.

Brincávamos no imenso quintal da casa de sua avó, e também da minha. Cada uma com suas peculiaridades interessantes e misteriosas. Pelo menos assim nos parecia.

Uma tarde, brincávamos de escorregar no chão ensaboado da cozinha da minha avó, enquanto a empregada, que naquele tempo ainda não era chamada de secretária,  esfregava o chão com a vassoura.

-Vocês vão se machucar, aí eu quero ver vocês casarem com as pernas engessadas!

Paramos abruptamente. Por alguns instantes ,até pensamos em sair e brincar no quintal, mas ela continuou:

-E cuidado com a geladeira! Vocês estão descalços, e se encostarem na geladeira, vão levar choque!

Pronto. Danou-se.

-É forte? Perguntei eu , que desde sempre fui inclinada a um desmantelo.

-Não é forte. Forte não é…

-É quanto então?

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CANTA PRA MIM …

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“Mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos, número zero”

Ela tinha pouco mais que 5 aninhos,

E estávamos num restaurante da cidade onde  íamos todas as quintas feiras para comermos, rirmos , nos reunir com os amigos e cantar no karaokê, coisa mais gostosa do mundo, que não sei por qual razão caiu em desuso.

Ela corria pra tudo quanto é canto, e como se cansou, pediu que fôssemos embora.

-Não vamos não! Tá cedo ainda e hoje é meu dia de brincar!

Ela olhou bem nos meus olhos e sorriu. 

Ela me via. E conhecia muito bem a menina que vivia a brincar  com ela, toda suja de terra e areia e cheirando a biscoito, que só partia  quando a mãe tinha que entrar em cena.

Alguém me pediu pra cantar duas músicas.  Lembro-me que uma delas  era  “Foi Deus que fez você”.

Reparei enquanto cantava, que ela parou , assim, com um brinquedo nas mãos e ficou me observando.

Quando terminei, fui ter com ela.

Sentei no chão, como costumava fazer naquela época, para estarmos sempre no mesmo nível , desprezando os olhares de estranhamento que as pessoas ditas normais lançavam sobre nós e ignorando o que pensavam a meu respeito, pois sei que pensavam. Sempre pensam.

-Mamãe, canta a múzca da casa?

-Agora mamãe já cantou 2 músicas, vamos esperar as pessoas cantarem e logo ,logo eu canto, ok?

-Então fica na fila.

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TOMÔ ????

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Estacionei o carro em frente ao vendedor de morangos, com sua modesta banca  localizada estrategicamente embaixo da sombra de uma arvore gigantesca.

Sempre que passava por lá, o via sentado ao lado da banca, no gramado que cercava o local, mas  na correria, nunca tinha tempo de parar, embora o preço dos morangos fosse tão barato, que chegava a ser desaforo pagar o triplo, o quádruplo nos grandes supermercados.

Pedi 3 caixinhas, e ele queria que eu levasse logo 6, pois pelo preço, compensava.

Na verdade, pelo preço compensava levar todos os morangos. Mas expliquei que somos em duas, e que  se eu levasse as 6 caixas, estragaria metade antes que déssemos conta de comê-los.

Um real e vinte e cinco centavos, por uma caixinha de morangos, é o que  se lia  num papelão, escrito com pincel atômico  azul.

Me agarrei numa conversa  com ele, pois me parecia impossível se vender uma caixinha de morangos por 1 real e vinte e cinco centavos, e obter algum lucro que fosse  válido.

Conforme ele me explicava  a logística dos morangos, fui desanimando ainda mais, mas ele me explicou que era preferível ganhar pouco e vender muito, do que o inverso.

Um outro carro estacionou atrás do meu e eis que desce uma jovem mulher, tão linda quanto antipática com um  cãozinho com cara de rato. Mas era cão. E peludo. Não sei precisar a raça, pois esse, eu nunca tinha visto.

Diferente de mim, a família dela devia ser grande, pois pediu  20 caixinhas, que levou um tempo sem fim para escolher. Como eu ainda não havia pago e a quantidade do pedido era bem razoável, resolvi esperar ela escolher para depois, eu pagar os meus.

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SE

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Se eu tiver que enfrentar o longo  inverno
Eu o farei, no aconchego do meu eu,
Pois a minha solidão é boa.
Embora eu já não me lembre claramente,
Eu sei sorrir e ser a melhor companhia do mundo.
Se eu tiver que  fechar os olhos ,
Aproveito para descansa-los  dentro do meu eu,
Pois  embora eu já não lembre claramente,
Moram paisagens lindas dentro de mim.
Se eu precisar evitar os sons, que  me chamam
Para  batalhas que não  vou vencer,
Me voltarei para o silêncio interno
Pois embora eu já não lembre claramente,
Minha alma compoe canções inesquecíveis,
E eu sou toda uma orquestra
Buscando harmonia.
Se eu tiver que seguir  só,
Por caminhos desconhecidos,
Sigo-os.
Pois  de uma coisa eu sei e me lembro claramente:
Sempre  fui eu,   a minha melhor companhia. 
 


TIQUES E TOCs E OUTRAS MANIAS

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A criatura era  danada para adquirir um tique.

Sim, tique, tique nervoso,  ou algo parecido com aquilo que hoje, chamam de TOC,  só que vestido com uma carinha mais retrô, até que perde a seriedade.

Mas incomoda.

O primeiro a ser percebido, era até bem engraçado. Toda vez que ela ficava brava, fechava as mãozinhas, travava os dentes e dava uma tremidinha , que fazia até sua franjinha  balançar  .De verdade, era fofinho e ninguém encarou como um tique e sim, um jeito engraçado de demonstrar seu stress.

Esse , após um certo tempo, passou.

Depois veio  outro, que consistia em  um tipo de um biquinho que ela fazia , que trazia a boca quase de encontro com a ponta do nariz.  Mas soubemos que esse, era herdado do pai, que na infância fazia exatamente igual. (O olho verde, ela não herdou, né ? )

Eu disse:

-Você parece um macaco.

Aí ela se colocou em frente ao espelho, pra admirar a beleza da imitação.

A professora da escolinha afirmou:

-Não corrija, que logo passa!

E passou mesmo.  Ela abandonou aquele  tique , e a fila andou: Começou a  mexer o nariz, como A Feiticeira, do velho seriado,  só que sem os efeito especiais de Hollywood , de modo que a face toda mexia junto. Estou certa que metade de quem está lendo, está tentando imitar o tique. Agora faça em frente ao espelho e me diga se alguem merece?

Era de chorar.

A psicóloga concluiu:

-Não vamos corrigir, pois se não dermos atenção, ela vai parar.

E parou mesmo.

E começou com um negócio de piscar os olhos, entortando-os para cima.

Ah,  aquilo era lasca, e eu pensei:  “ psicóloga o cacete!  Hora de negociar .”

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SÓ ACONTECE COMIGO ¿¿¿¿¿

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Como toda e qualquer mulher vaidosa, tenho  algumas raras excentricidades,  como  a de  fazer banho de creme nos cabelos  com um bom hidratante ao menos uma vez ao mês,  afinal, com as mudanças da minha vida  nos últimos anos, meu cabelo foi o que mais sentiu e se  rebelou.

Por isso, de vez em quando, ele merece minha dedicação.

Depois da casa limpa, roupa passada e nas gavetas,  a minha pessoa lavou os cabelos com o shampoo  que só se usa em feriado ou dia santo, massageou da raiz às pontas , enxaguou, secou levemente, passou o tal do creme delicadamente por todo o cabelo, colocou uma touca térmica e foi descansar, enquanto o produto hidratava o pobre cabelo.

Uma hora depois,  estava eu lá, retirando  o excesso do creme e sentindo aquele cheiro delicioso, que só gente rica é que tem e senti os cabelos macios, brilhantes, felizes com a vida novamente.

A próxima , mais difícil e última etapa estava por vir:  Secá-los.

Separei-os em mechas e como sempre, comecei a secar a franja. Sei lá por que começo a secar o cabelo pela franja. Deve ser pela mesma razão que começo o banho lavando o rosto:  Costume, oras.

Aí que conforme eu  secava  a franja, me veio um cheiro de mictório público em festa de São João. Cheiro de xixí. Eu olhei pra lá, olhei pra cá, me certifiquei que o vaso estava  limpo, me convenci  de que era coisa da minha cabeça, e continuei secando a franja e depois, o restante dos trilhões de fios de cabelos que parecem nunca ter fim.

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PARA NOSSOS PAIS

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Hoje nao vou contar nenhum fato engraçado,pitoresco, nao vou fazer ninguem rir ou refletir sobre nossa essência.

Peço desculpas.

A vida é dura e nem só de circo é que se vive. Temos que aprender a comer o pão e olhar para a nossa realidade.

O link abaixo fala sobre o veto de Dilma sobre o Kit Homofobia.

Nem vou entrar nos méritos da proibição da Dilma, pois sabe-se , infelizmente, que  se tratou de mais uma forçada manobra político-administrativa, e por traz de toda boa ação, existe um imenso jogo de interesses. Para saber isso, basta ler, manter-se  informado  e observar a cadeia de acontecimentos.

Fato é, que uma coisa é se fazer uma campanha contra a Homofobia e outra,  muito distinta, é fazer apologia ao homossexualismo.

Tenho amigos gays, que amo de paixao, e que naturalmente sao melhores seres humanos do que muitos héteros. Digo naturalmente, por saber que o ser humano é muito mais do que sua sexualidade. Também nao vou usar aqui o termo “opção sexual” pois acredito que esse termo nem deveria  existir, pois nao creio que alguém tenha a capacidade de “optar” , nao acho que seja uma questão de escolha. Mas isso é minha opinião pessoal e ela aqui, nao dever ser foco de nada, e dentro do amplo contexto, não deve ter qualquer relevância .

Sou contra sim, o preconceito sobre qualquer tipo de diferença, tanto sexual, quanto racial e mais ainda, o maior de todos os preconceitos: o preconceito social . Financeiro.

Eu, como mãe  verdadeiramente atenta 100 % na educação da unica filha que tenho, vi os vídeos e dei graças  por esse material ter sido vetado.

Só que  lá se foi  1,9 milhão gasto numa unica campanha que,embora o MEC tenha afirmado ter “contratado e acompanhado a produção do material,  ainda nao havia avaliado”.

Entao, como se autoriza a produção e divulgação de um material , se paga por ele , sem que ele tenha sido avaliado?

E quantas outras campanhas foram pagas, com dinheiro público, aprovadas e distribuidas, sem terem sido sequer avaliadas?

O que afinal, as crianças do nosso Brasil estão tendo que engolir , sem que pais e professores tomem conhecimento?

Ora, se nem os pais tem interesse em saber o que seus filhos estão aprendendo na escola, porque a escola, o MEC, a presidenta, vão se interessar?

Revista Isto É
 
Abaixo, os vídeos.


 

 

Infelizmente, nem todos vcs vao assisitr aos videos, o que lamento, pois  é o verdadeiro envolvimento, interesse  e comprometimento  sobre o que acontece ao nosso redor, que faz com que sejamos capazes de cobrar, de modificar, de opinar, sem estar falando besteiras. É o verdadeiro  conhecimento sobre os problemas, que podem fazer com que eles se solucionem ou ao menos,caminhem para isso.

Nao basta ter opiniao, “pensar” que sabe.

E isso cabe a todas as esferas do comportamento humano. Não sejamos tolos em falar sem propriedade. Sejamos humildes para reconhecer que nao sabemos tudo .Que sabemos quase nada.

Vamos nos interessar,nos envolver, vamos nos preocupar de verdade, vamos ler mais, falar menos asneiras. Mais conhecimento científico, menos senso comum, pelo amor de Deus…


TE TRAGO BOAS NOVAS

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Ela chegou, você viu só?

Pequenininha, puxou a Lollyzinha.

Sua terceira neta. Filha de sua terceira filha.

E eu me tornei tia pela segunda vez!

Quem diria, né,pai, que aquela menininha toda ” Sandy “, iria  nos dar um presente desses.

Até outro dia, só tomava Toddynho, tinha um piercing no umbigo que você nao podia saber…uma menina pequena e indefesa.

Virou mulher, deu à luz , colocando na roda da vida mais uma criatura frágil, pequena e ao mesmo tempo,extremamente guerreira.

Quem sai aos seus, nao degenera!

Agora me diz, como é ser avô daí de cima?

Aposto que foi maravilhoso, poder ver tudo de perto, da àrea V.I.P., poder pegar na maozinha de sua neta na U.T.I.Neonatal, onde só os pais e os do mais alto escalão tem acesso. É, você sempre se dando bem, né?

Esses dias, Lollyzinha, barrigudinha e linda que só ela, viu sua foto com  Livia, sua primeira  neta nos braços na ocasião do seu nascimento, e me disse: ” Queria ter a oportunidade de passar por esse momento” .

Eu sei que esse momento existiu. Embora ninguém tenha visto, eu sei. Posso te ver olhando para nossa mais nova pequena  e dizendo: “- Minha neta! “, com todo esse orgulho que sente por suas crias.

Orgulho aliás, totalmente bem fundamentado, modéstia à parte…

O nascimento da nossa pequena Victória, (com 42 cms e 1,850 g !) representa tambem , um pouco da sua ressurreição. Ela é um pedacinho de você!

Lembra da nossa última conversa? Hoje pensei muito sobre aquilo. As flores, inevitavelmente, perdem suas pétalas, ” uma a uma”, como voce disse. Mas elas renascem sempre , porque há algo de inexplicável no mundo, que faz com a vida pulse, que insiste em germinar , num eterno renascer.

E da história daquela flor, que perdeu suas pétalas, sobrou a saudade , mas também a alegria do renascimento:
Eis a Victória, agora, devidamente apresentada ao mundo.

Parabens ao Caio e Lolly Carol. Parabens a toda a família.

E parabéns, por mais uma Trevejo , que além de linda, como de praxe, ainda por cima ,Corinthiana.

A Deus, meu agradecimento pela oportunidade da vida.

A você, pai, a bênção.

“Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer…”
(Ao que vai chegar/ Toquinho)


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