A POLÍTICA SOB A ÓTICA DE UM POLÍTICO

 De olho nas eleições deste ano, nada melhor para nos clarear a mente, do que as máximas de José Cavalcanti da Silva, político paraibano e escritor, cassado na Revolução de 1964.

Zé Cavalcanti ou seu Zé, como é conhecido em todos os municípios da Paraíba, foi um contador de estórias picantes, espirituosas e satíricas. Porém, o melhor de seu talento vem à tona, no instante em que ele direciona a crítica para a política e políticos.

Ninguém melhor que ele mesmo, um político atuante como deputado estadual e prefeito de Patos-PB, para falar sobre os seus pares e a postura deles como representantes do povo. Fez isso com maestria misturando verdade com galhofa.

Eis algumas de suas máximas:

Na política, mentiroso tem patente registrada

– Não há quem absolva ou condene com mais justiça um político que a sua própria consciência. Só que muitos não a consulta com medo

– A política sem a promessa, jamais despertaria o interesse do eleitor, mesmo ele sabedor, que do dizer para o fazer é que está a distância.

– É de estarrecer, mas há momentos na política que é vantajoso não poder ver, não poder ouvir e não poder falar.

– A política geralmente é cínica: a ambição pelo poder, jamais deixará de terminar em cinismo.

– Aquele que estiver no poder pense sempre: o futuro político é o mais tenebroso de todos os abismos.

– É de se reconhecer que os políticos honestos empobrecem nos mesmos cargos em que os velhacos ganham e enriquecem.

– Cada qual com o seu cada qual: a religião ensina a crer, a filosofia a duvidar e a política a enganar.

– No todo, a vida de um político se reparte ente a vaidade e a ambição: a primeira ocupa a metade, e a segunda a outra metade.

– É próprio da sabedoria política: quem não sabe fingir não se mete na vida pública.

– Na política, quem mais comete loucura é o povo: quase sempre dá mandato a quem não sabe usá-lo.

– As lágrimas de um político são mais suspeitas do que as de um rato no enterro de um gato.

– A compra do voto quase sempre dá certo, pois o dinheiro é como o azeite: por onde passa amolece.

– A política é como o relâmpago: de longe é bonita, mas de perto faz medo.

– Raro é o político que não faz como o pescador de linha: só coloca no anzol a isca que o peixe gosta.

– Na política, mais do que em qualquer outra profissão, mentiroso tem patente registrada.

Será que alguma coisa mudou para melhor, levando em conta o que seu Zé expôs nestas avaliações bem humoradas? Ou só piorou? Com a palavra o eleitor.

FIU-FIU PARA O ASSÉDIO SEXUAL

Parece-me que os homens estão meio atordoados diante das interpretações conceituais e jurídicas no tocante ao quesito assédio sexual. Tudo bem que o assédio agressivo é uma violação à mulher e aos seus direitos. Exemplo gritante foi a do ator global, ao chamar uma funcionária da emissora de vaca, por ela não sucumbir aos seus encantos.

Da mesma forma que é um desrespeito desmesurado, o marmanjo se achar no direito de tocar as partes íntimas da mulher sem o seu consentimento. Ou, aproveitar-se de um cargo de chefia para intimidar subalternas almejando sexo. São muitas e variadas as maneiras de perpetrar a canalhice explícita de assediar sexualmente uma mulher sem a devida aceitação ou correspondência dela.

Não é desse tipo de assédio a que eu me refiro aqui. É verdade que a insistência, a impertinência, a perseguição, a sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém é condenável em qualquer circunstância. Daí nascer a pergunta: onde termina a corte e começa o assédio? Quais os limites impostos para delinear uma cantada engraçada de uma abordagem chula?

Abro aqui um parêntese para citar o exemplo do meu amigo Reinaldo, um carioca metido a conquistador. Jantávamos num restaurante em Brasília, e depois de algumas doses de whisky, ele notou uma jovem atraente sentada no balcão do bar, com uma taça de vinho branco à sua frente, tudo indicando estar esperando alguém.

Ele não se fez de rogado, foi até lá e interpelou a moça:

– Boa noite e desculpe-me a petulância da pergunta, mas, a senhorita se machucou com a queda?

– Que queda? – questionou a jovem surpresa.

– A queda que a fez cair aqui. Porque para ser bonita como a senhorita, somente alguém caído do céu! – complementou o atrevido.

Eu fiquei jantando sozinho, enquanto os dois pombinhos se entendiam numa mesa ao lado. Reinaldo e Odete estão casados há 30 anos. Fecho o parêntese.

Nem toda abordagem é um assédio, mas pode ser assim interpretado por uma mulher intolerante a qualquer tipo de aproximação. Certamente, a população masculina tenderá a manter uma postura de cautela ficando um tanto ressabiada, a partir de agora, ante a indefinição de determinadas situações de supostos assédios.

Um fiu-fiu de admiração, quando da passagem de uma mulher bonita e atraente pelo passeio público, é assédio sexual? Será uma provocação desrespeitosa fazer uma observação do tipo: Tá bonita hoje, hein, moça? Com esse patrulhamento todo, chamar uma mulher de pecado capital ou coisinha fofa da mãe, nem pensar, né?

Qual a postura adequada para uma rapaziada assanhada, numa praia como a de Ipanema, diante do desfile provocativo de mulheres seminuas? Devem ficar impávidos devorando-as com olhar angelical ou lhes virar às costas para não sucumbirem à tentação de uma observação by Brasil? Por favor, nada de sugerir bom senso!

Pelo andar da carruagem o correto será perguntar: Posso te dar uma cantada? Ou, então, recorrer ao infame questionamento: Oi tudo bem? O seu cachorro tem telefone?

Ainda bem, que existem vozes discordantes e corajosas como a da atriz e escritora Fernanda Torres: Rejeito as campanhas Anti-Fiu-Fiu. A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo.

OS ESTATUTOS DO HOMEM

Este ano iniciarei os meus trabalhos no nosso Jornal da Besta Fubana com um texto, ao mesmo tempo inteligente e profundo, produto de um pensador brasileiro. Refiro-me ao “Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)”, de Amadeu Thiago de Mello.

Thiago de Mello nasceu no Amazonas, em 1926. Escreveu esta poesia quando estava exilado no Chile, em contraponto ao Ato Institucional nº 1, decretado pelo Regime Militar vigente no Brasil. Deleite-se você, também, com esta boa leitura!

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade,
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito de converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

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EU, MEU IRMÃO E A ELA

“Pai, neste dia em que se comemora o aniversário de Vosso Filho, venho de coração aberto, diante de toda minha família, confessar algo que busquei em livros, fatos, qualquer coisa que me convencesse de Vossa existência.”

“Hoje, eu não tenho a menor sombra de dúvida dela. Aos quase 70 anos confirmei, de forma indubitável, que a Vossa existência é real, pois ninguém pode suportar as dores físicas e psicológicas, que esta doença impõe, sem a Vossa mão como muleta.”

“Eu estou feliz em fazer esta reunião com a família, porque é a oportunidade de reunir a todos e expressar o que eles significam para mim, nesta provação que, como dá para ver, é dolorosa.”

“Mesmo assim eu nunca perguntei: ‘Por que eu?’. Sempre argui: ‘Por que não eu?’. Se essa foi a Vossa vontade, que assim seja!’”

O texto acima foi ditado pela voz metálica de um computador, reproduzindo o pensamento do meu irmão Severino Marques Sousa, no último Natal.

Severo, como nós o chamamos, é médico formado pela UFRN, coronel da Aeronáutica e o terceiro dos seis filhos de Laura e Manoel. Pai de três homens e duas mulheres, em dois casamentos, ao se aposentar resolveu cursar Gastronomia, sendo laureado como o melhor aluno da turma.

Como prêmio, ganhou um estágio em Salamanca, Espanha, e ao retornar a Natal, abriu um bistrô temático em sociedade com uma colega de turma. A proposta gastronômica caiu no gosto de determinado segmento do público consumidor. Estava feliz e exultante com o sucesso do empreendimento.

Aconteceu, de o destino lhe reservar uma dura provação. Severo foi acometido por uma doença cruel e devastadora chamada Esclerose Lateral Amiotrófica, conhecida pela inofensiva sigla ELA. Foi o início de sua Via Crucis.

Ele é prisioneiro do próprio corpo há dois anos. Apenas bate as pálpebras com certo esforço, mas mantém a mente lúcida, processando racionalmente seus pensamentos e conceitos da vida. Como médico, está ciente do que ocorre consigo.

Comunica-se com o exterior através do olhar, focando-o em letras contidas numa tela de computador, com as quais forma palavras que traduzem o seu pensamento sagaz e inteligente.

Foi com voz artificial que Severo comunicou aos familiares e amigos, num depoimento deveras comovente, a sua aceitação da existência de Deus e do Seu Filho, Jesus Cristo, no dia em que comemoramos a sua chegada ao mundo.

Embora, sendo oriundo de uma família católica e respeitando a escolha dos seus filhos pelos ensinamentos de Cristo, mantinha-se, ele mesmo, um cético quando se discutia a existência de Deus. O convívio com a doença resultou no desabafo acima.

Eu tornei pública a privacidade de Severo, porque acredito que esta manifestação de fé amenizará a dor de portadores do mesmo mal que o atormenta. Certamente, ele entenderá a minha atitude.

NOVAMENTE, O NATAL

Mais um ano se passou e eis, novamente, o Natal. O processo natalino se repete em toda plenitude motivando diferentes reações no âmago das pessoas. Erra quem imaginar ver despertadas apenas a fraternidade e a solidariedade em cada indivíduo. Para alguns, o Dia da Natividade causa mais comoção do que o Dia de Finados.

A tristeza, o estresse e a depressão somam-se ao agravamento de doenças nessa época do ano. O Natal evoca lembranças da infância que não voltarão jamais e traz a memória fatos passados que deixaram amargas recordações. Faz pensar no que construímos ao longo do ano e nas frustrações decorrentes dos insucessos.

No período das festividades de final de ano é quando resolvemos analisar os relacionamentos familiares. Verificar se continuam estáveis ou em deterioração, ou se deles somente restaram mágoas. A proximidade do fim de cada ano aumenta a expectativa em torno da recuperação de afetos perdidos e da concretização de expectativas que se arrastaram ao longo dele.

A tristeza decorre também de pessoas que colocam muitas esperanças no ano seguinte acreditando que tudo será diferente. Isso acarreta um aumento de ansiedade contribuindo para a época ficar mais tensa para muitos.

O Natal evoca sentimentos relacionados à nossa história e nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal e o Ano Novo para receber presentes e confraternizar com pessoas queridas. Porém, tudo se torna mais difícil quando aflora a lembrança dos entes estimados ausentes ou falecidos.

Aí não tem como deixar de sentir saudade. Sem dúvida, grande parcela da tristeza do Natal é alimentada pelas recordações de pessoas amadas que partiram de vez. O Natal é o momento que melhor traduz esse sentimento de perda.

Basta lançar um olhar sobre as mesas com a culinária da época, admirar os enfeites da árvore e observar os pacotes com presentes para lembrar os natais de antigamente. Explode, então, a vontade de resgatar o tempo em que a casa ficava repleta de familiares, com as crianças ainda pequenas e a vida sendo tocada com leveza e simplicidade sem lembranças amargas nem receio do futuro.

A recordação comedida é salutar, afinal, são as lembranças que unem as famílias. Porém, trocar momentos bons do presente por recordações amargas do passado é querer transformar o Natal-Alegria no Natal-Finados. É o desejo velado de vivenciar o Natal com pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos.

Tamanha preocupação faz esquecer o encanto e a alegria das crianças com o Papai Noel e o deslumbramento da festa. A satisfação de estar na presença de entes queridos é embotada pela insistente lembrança de mortos estimados.

Não podemos esquecer que o Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Mas, não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade e de bondade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas, animação e alegria.

O verdadeiro espírito do Natal está em valorizar o Presépio e festejar a chegada do Filho de Deus mandado para perdoar as falhas dos homens mostrando-lhes o caminho da salvação. O Natal é uma exaltação ao perdão, a piedade, ao amor e a fé na nossa crença. Imbuídos dessa verdade, certamente, teremos um Feliz Natal!

PERFIS DE NATAL

Garante o ditado popular que o projeto de vida do homem se completa quando ele gera um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Poucos conseguem esse tríplice objetivo; muitos nenhuma das alternativas especificadas no adágio.

Os que desconsideram os três mandamentos determinantes de uma existência realizada, estabelecem a perpetuação de suas passagens nesta vida mediante ações diferenciadas, atitudes polêmicas ou posicionamentos marcantes. Porém, existem aqueles que obtiveram o direito de permanecer na lembrança popular apenas pelo comportamento pitoresco.

Sobre alguns desses perfis inusitados descrevo aqui singularidades que os popularizaram na nossa querida Natal.

Garapa – Dele não se sabia nome ou sobrenome. Maltrapilho, mendigava inofensivo pelas ruas da cidade. Isso até que algum moleque gritasse: “Água!”. E outro acrescentasse: “Açúcar!”. Ele então perdia a compostura e destemperado gritava: “Mistura, filho de rapariga. Mistura para ver o que acontece!”.

Lambretinha – Dócil, risonho e desequilibrado mental, na sua loucura fantasiava ser um motorista de automóvel. Mãos para frente segurando uma sucata de volante percorria a cidade de uma ponta a outra, do Alecrim até as Rocas. Da garganta saia um ronronar de motor e dos lábios uma imitação de buzina. Era um “Brumm! Brumm!! Bip! Bip!” gozado e triste. Dele não se sabe nome nem paradeiro.

Joca Madureira – Derrubador de boi em vaguejada e bom de briga, impunha respeito pelo porte atlético. Contam-se dele histórias de enfrentamentos solitários e destemidos com patrulhas policiais nas noitadas mundanas de Natal. Um simulacro tupiniquim do carioca “Madame Satã”.

Marimbondo – Corneteiro da Polícia Militar, dono de um toque claro e afinado que lhe valeu o apelido de “Bico de Aço”. Foi presença de destaque tocando seu instrumento nas folias de Momo em Natal durante anos, quando era disputadíssimo por blocos e orquestras carnavalescos.

Cícero Enfermeiro – Vestimenta branca, cigarro na ponta da piteira, aplicava injeções numa clientela variada e cativa, no tempo em que enfermeiro era uma raridade em Natal. Todo adolescente portador de doença venérea sabia o endereço certo para encontrar a cura: o consultório de Ciço na Princesa Isabel.

Manoel – Se hoje é difícil encontrar um anão pela cidade, imagine isso no século passado. O nosso anão fazia ponto na entrada do Cine Rio Grande, na Cidade Alta, vendendo os bombons do patrão João (Confeitaria Mirim), num tabuleiro portátil. Olhar perspicaz e sempre sorridente cativava os clientes pela delicadeza e simpatia.

Restinho – Tratava-se de um frequentador das festas do Aeroclube. Não parava sentado porque convidava todas as moças desacompanhadas para dançar. Aproximava-se da vítima de mansinho e tascava: “Vamos dançar este restinho?”. O “restinho” aludido era o final da música em andamento naquele momento. Não o incomodava o número de “foras”, pois sempre uma alma piedosa lhe faria par.

Maria Mula Manca – Mendicante com defeito físico que a obrigava mancar e andar curvada apoiada num cajado. Vagava pelo Grande Ponto onde alardeava sua admiração por Dinarte Mariz. Chamada de Mula Manca destilava um festival de impropérios. Deixou Natal depois da derrota de Dinarte para Aluizio Alves, nos anos 60.

Maria Mula Manca

O CORINTHIANS DE SEU MATHEUS

Se o tempo o acomodasse neste 2017, ano em que o Sport Club Corinthians Paulista se sagrou campeão brasileiro pela sétima vez, o folclórico presidente Vicente Matheus no comando do Timão, em algum momento da competição decerto exclamaria: “Haja o que hajar o Corinthians será campeão!” ou, sendo mais incisivo: “Comigo ou sem migo o Corinthians vai ser campeão!”.

Afinal, foram em dois de seus oito mandatos que o Corinthians ganhou o título paulista de 1977, após 23 anos de jejum e, também, o Campeonato Brasileiro de 1990, primeiro título nacional de grande relevância do clube.

Durante 19 anos o espanhol naturalizado brasileiro dirigiu o Corinthians sendo eleito presidente, pela primeira vez, em 1959. Possuía inesgotável senso de humor e tiradas engraçadas que, de tão variadas e oportunas, nos deixam dúvidas se foram frutos da espontaneidade ou montadas, premeditadamente, de acordo com a ocasião e interesse do dirigente esportivo.

São passados 20 anos do falecimento de Vicente Matheus ocorrido em 1997, todavia, ele ainda é evocado pela herança folclórica e divertida que legou à nação corintiana. Vale a pena relembrar algumas dessas passagens hilárias do festejado presidente do Corinthians.

Sobre futebol: “Esse é um resultado que agradou a gregos e napolitanos”, “O jogo só acaba quando termina”, “Depois da tempestade vem a ambulância”, “De gole em gole a galinha enche o papo” e “O difícil, vocês sabem, não é fácil”.

Sobre a administração do Corinthians: “Peço aos corintianos que compareçam às urnas para naufragar nossa chapa”, “Vou dar uma anestesia geral para os sócios com mensalidade atrasada”, “Dirigir um clube é como uma faca de dois legumes” e “Minha gestação foi a melhor que o Corinthians já teve”.

Sobre jogadores: “Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”, “O nosso mais novo reforço para compor a zaga é o Quero-Quero” (quando da negociação para a contratação de Biro-Biro) e “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável”.

Acerca dele próprio: “Tive uma infantilidade muito difícil”, “Não sei mais, alguns dizem que eu tenho tersol, outros dizem que eu tenho pleonasmo” e “Quem está na chuva é para se queimar.”

Seis anos sem o Dr. Sócrates…E, 20 sem Seu Matheus

O folclore ou a imaginação popular sobre Vicente Matheus vai mais além. Falam, que numa entrevista ao enaltecer as qualidades de um integrante do conselho-diretor do clube, ele acrescentou: “…E tem mais, ele é um troglodita!”. “Troglodita, presidente?” – perguntou o repórter. “É, fala vários idiomas!” – respondeu o presidente.

Em outra oportunidade, num jantar de confraternização do Corinthians, levanta o presidente Matheus e inicia o seu discurso: “Primeiramente, quero agradecer a presença de todos vocês aqui, esta noite… Segundamente, desejo agradecer à Antarctica, pelas Brahmas que eles mandaram de graça…”.

O fato da lembrança de Vicente Matheus permanecer viva na memória de boa parcela dos 27,3 milhões de abnegados torcedores, integrantes da segunda maior torcida do Brasil, não se prende apenas ao reconhecimento de sua paixão pelo Corinthians; também, por ter sido ele o responsável pelo início da incrível recuperação do clube no cenário esportivo nacional e mundial.

O BOM-HUMOR DE STANISLAW

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, cronista, escritor, radialista e compositor nascido no Rio de Janeiro, faleceu aos 45 anos de idade, em 1968. Foi um profundo conhecedor da música popular brasileira, boêmio e crítico mordaz da repressão militar que se insinuava com a decretação dos primeiros Atos Institucionais.

Na época, ele teve a ousadia de publicar que a Ditadura Militar mandara prender o autor grego Sófocles, que morrera há séculos, em razão do conteúdo subversivo de uma peça encenada na ocasião.

Stanislaw com Tia Zulmira e outros seus personagens

Alcançou a fama no jornalismo pelo senso de humor refinado e críticas mordazes aos costumes do país com os livros Tia Zulmira e Eu, Primo Altamirando e Elas, Rosamundo e Outros, publicados sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Pequena História do Jazz, O Homem ao Lado e As Cariocas com o nome verdadeiro.

Porém Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País -, que simulava notas jornalísticas com invólucro de noticiário sério, foi a sua obra de maior sucesso. Sérgio trabalhava 15 horas por dia, talvez, já pressentindo a própria morte prematura.

A seguir, uma seleção de citações do talentoso cronista carioca:

– Era um especialista em vias urinárias e não tinha preferência. Qualquer que fosse a via, sendo urinária ele encarava.

– À galinha, pouco se lhe dá o aumento do preço do ovo. Para ela, só é problema quanto o diâmetro aumenta.

– Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dussedorf.

– Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.

– Era um legítimo cara-de-pau. Quando fazia a barba, saia serragem da espuma.

– Macrobiótica é o regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78.

– Crescei e multiplicai-vos. O que era imperativo hoje é temeridade.

– O bom do brasileiro é que ele, sem saber de nada, diz coisas horrendas.

– O homem de duas caras geralmente usa a pior.

– Quando terminou o velório, teve-se a impressão de que o morto ficou mais aliviado.

– Há oradores que, terminado o discurso, deviam ser presos por terem roubado o tempo da gente.

– Frequentou tantas noites de autógrafos que virou alcoólatra.

– Se um dia a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela.

– Vive acima de tuas posses e serás fotografado.

– Pode-se dizer a maior besteira, mas se ela for em latim muitos concordarão.

– O sol nasce para todos. A sombra, para quem é mais esperto.

Abaixo, O Samba do Crioulo Doido, sua composição mais conhecida numa gravação do conjunto Demônios da Garoa.

MINHA CENTÉSIMA CRÔNICA

Esta é a minha centésima crônica escrita para o Jornal da Besta Fubana. Foram ininterruptos dois anos e um mês de presença semanal neste matutino virtual, desde 24 de outubro de 2015 – as interrupções ficaram por conta do humor do antigo provedor e dos dias dedicados à manutenção da saúde do editor-chefe.

Matutei bastante acerca do que escrever nesta centésima inserção na gazeta de Luiz Berto. Optei por abordar o criador e a criatura; no caso, o responsável pelo blog e o instrumento virtual montado e posto em cena, diariamente, com dedicação e zelo pelo pernambucano de Palmares.

Eu não conheço pessoalmente o senhor Luiz Berto Filho; sequer ouvi dele o timbre vocal. O nosso contato dá-se, semanalmente, mediante e-mails. Descobri, em sua biografia autorizada, que leva nos costados 71 anos de vida, aprecia uma branquinha, gosta de tocar triangulo e zabumba e que, sob a ótica de Odorico Paraguaçu, é um casamenteiro juramentado.

O sujeito quer ser modesto, mas tem uma larguíssima folha corrida de sucessos naquilo que veio ao mundo para fazer bem: escrever. Premiado aqui e alhures a verdade é que seu Berto, com sete livros publicados, já poderia ter assento garantido na Academia Pernambucana de Letras.

Deixando de puxar o saco do editor para me manter na equipe, confesso de público a admiração e o respeito dedicado à qualidade do trabalho que ele desenvolve, às suas expensas, desde abril de 2008. A perseverança em pôr o seu blog na rua dá para avaliar a importância da criatura na vida do criador.

Agora voltemos o foco da atenção para a criatura. Diante da variedade de assuntos e de colunistas que integram o time da gazeta é natural que o leitor procure se fixar no texto de sua preferência. E nessa hora, minha gente, gosto não se discute!

Colunistas consagrados no cenário nacional já dispõem de mérito próprio. Falemos de nós outros, colaboradores de ocasião, se assim podemos ser intitulados considerando o ramo ou estilo que escolhemos abordar:

Música e poesia – A pesquisa dos catadores de antiguidades musicais é coisa de craque no assunto, e um deleite para ouvidos cansados de tanto ruído estridente que tentam nos vender como inspiração. O festival de poesia, soneto e prosa criado ou extraído da cultura nordestina, dá o tom escrachado característico do JBF.

Crônicas e artigos – A eclética gama de opiniões se apresenta imbuída do melhor contido em variadas doutrinas, métodos e estilos.

Comentários e humor – Humor suave, picante ou ferino, muito de tudo para a gula de todos. O passeio pela produção diária dos chargistas é algo fabuloso. Qual outro jornal oferece tantas ilustrações humorísticas concentradas numa mesma edição? Quanto aos comentários, esses obedecem ao mesmo critério leve, solto ou agressivo, bem ao estilo sem eira nem beira de Berto Filho.

Por fim, a informação atualizada e quente colhida das primeiras edições diárias da mídia nacional. Trabalho que era para muitos, levado a termo por apenas um réu confesso tarado por leitura.

São mais de 60 colunistas para atender a veneta de mais de 50 mil leitores diários. Isso sem falar no tempero adicional do próprio editor-chefe, dando corda ou esculachando a gregos e troianos. A política de censura zero da gazeta JBF nos incentiva à prática de Millôr Fernandes do “Livre Pensar é só Pensar”.

Valeu seu Berto!… E, por favor, não acorde deste sonho tão cedo!

* * *

Nota do Editor:

Minino, ganhei o dia, o fim de semana e o fim de mês!

Fiquei ancho que só a bixiga lixa com essa elogiação toda.

É um privilégio editar uma gazeta escrota feito esta que tem colaboradores do quilate de José Narcelio.

Brigadão mesmo, meu caro.

Um agradecimento do fundo do coração.

Meu, dos colunistas e dos leitores.

Quanto à sua afirmação de que eu já poderia ter uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras, sugiro que leia um texto que publiquei aqui em julho de 2011, intitulado “As Academias e Eu“. Basta clicar aqui para acessar.

O VELHO ATHENEU

Realmente, o Colégio Estadual do Atheneu Norte-Riograndense não é apenas uma tradicional instituição do Estado, mas uma casa de ensino quase bicentenária com 183 anos de existência, aberta em fevereiro de 1834, na monarquia.

Segundo apontamentos de Luiz da Câmara Cascudo, o fundador do Atheneu foi Basílio Quaresma Torreão, então presidente da província e, também, o seu primeiro diretor-geral. Trata-se da segunda mais antiga instituição escolar brasileira, precedida apenas pelo Ginásio Pernambucano, criado em 1825.


As diferentes sedes do velho Atheneu

O meu velho Atheneu de guerra foi o berço que embalou algumas das minhas amizades sinceras. Hoje funciona como repositório do catálogo de lembranças marcantes da minha juventude onde, uma vez ou outra, eu acesso para reviver aquelas inesquecíveis passagens repletas de emoção ou de hilaridade.

Estudei no Atheneu na gestão de Olindina Gomes da Costa, a primeira mulher a assumir a diretoria-geral. O colégio ainda dispunha de eminentes cabeças pensantes no corpo docente.

Naquele tempo ficávamos de pé, num sinal de respeito, quando professores entravam na sala de aula. Na grade curricular constavam idiomas como Inglês, Francês, Latim e Espanhol, além do Português.

Tenho na ponta da língua alguns trechos do primeiro capítulo do livro de Espanhol vigente no ginasial, cujos título e autor não consigo resgatar da memória. Tratava-se de um poema de Francisco Villaespesa que continha as seguintes estrofes:

Caperucita, la más pequeña de mis amigas, en dónde está?
Al viejo bosque se fue por leña, por leña seca para amasar.
Caperucita, di, no há venido? cómo tan tarde no regresó?
Tras ella todos al bosque han ido, pero ninguno se la encontró.

Lembro-me também que, exercitando a minha santa ignorância, testei a professora de Inglês sobre o significado de Ten Bryan. E ela, coitada, diante daquela sentença esdrúxula não soube traduzir minha dúvida. Afinal, qual o sentido de Ten Bryan? Dez colina? Dez montanha? Qual outro significado atribuir a Ten ou a Bryan?

Ufanei-me por embasbacar a professora. Passado algum tempo fiquei envergonhado de mim mesmo ao ler na farda de um oficial do Exército, outra plaqueta de identificação dizendo Ten Cardoso. Isso mesmo, tratava-se do posto e do sobrenome do militar, no caso, Tenente Cardoso. Antes, eu conhecera o Tenente Bryan.

Alcancei o ocaso da liderança de Manoel Filgueira Filho, vulgo Pecado. Líder estudantil entre os secundaristas do Atheneu, comandava greves estudantis e aplicava trotes em calouros aprovados nos exames de admissão realizado pelo colégio.

Ao ser considerado um dedo-duro, por apontar colegas a órgãos de repressão ligados ao golpe de 1964, Pecado perdeu o respeito e a liderança dos pares.

A construção em “X”, característica do Atheneu-Norteriograndense

Porém, o momento mais esperado de cada dia de aula era o retorno para casa das alunas do Colégio Imaculada Conceição. Sentados no muro da Rua Potengi, aguardávamos a passagem das meninas de azul e branco para assoviarmos marchas militares. E elas, inconscientemente, entravam no compasso da música.

Percebendo que estavam marchando, elas tentavam sair do compasso resultando em descompassos engraçadíssimos, para deleite da turma. Mesmo sabedoras da gozação, as meninas não se chateavam nem alteravam o percurso diário.

Devo muito do que aprendi no meu Atheneu de ontem, pelo o meu hoje na vida.

UMA MENTE BRILHANTE

Ariano Suassuna, numa de suas aulas-espetáculo, comentou a opinião de um produtor e jurado de programa de televisão que considerou Chimbinha, o líder da banda Calypso, um guitarrista genial. Naquela oportunidade ele abominou o dito comentário, com a seguinte justificativa: Se eu gasto o adjetivo genial com esse tal de Chimbinha, o que é que eu vou dizer de Beethoven?

Daí a razão para eu não denominar o escritor e poeta paraibano de gênio, pois assim evitarei comparar a sua obra com o legado dos grandes escritores que ele admirava, e aos quais, por modéstia ou humildade, ele não se deixaria equiparar.

Todavia, existe consenso geral na admissão de que Ariano Suassuna possuía características peculiares tais como inteligência, cultura e uma memória prodigiosa, que o transformaram num indivíduo diferenciado. Tudo isso aliado à simplicidade, simpatia e extraordinário carisma.

Afinal, qual outro palestrante de fala feia, fraca, baixa e rouca conseguiria manter uma plateia atenta, silente e interessada nas suas palavras, se fosse desprovido de carisma suficiente para tanto?

Ouvintes de todas as idades deleitavam-se com o conhecimento e a verve do dramaturgo nordestino. Grande admirador do povo e da cultura do Brasil, Ariano gostava de rir e se deliciava em arrancar sorrisos dos outros.

Os variados causos inseridos no transcorrer desses encontros consistiam no diferencial das suas aulas-espetáculo. Eis algumas das pérolas do humor sadio e inteligente, como também do pensamento de Ariano:

Eu não gosto de pintura abstrata porque não entendo o significado de nada! – manifestou-se uma senhora da plateia num desses encontros. Muito me admiraria se você entendesse, porque elas não significam nada! – rebateu Ariano.

Em palestra na inauguração do auditório do Tribunal Superior do Trabalho, em São Paulo, o presidente da casa fez a apresentação de praxe dando ênfase a condição de advogado de Ariano. Ele saiu-se com esta:

– Eu achei graça quando ele disse que eu fui advogado. Eu realmente fui… Me desculpem, eu não sei se posso dizer o que direi agora, pois eu estou no templo do Direito. Na verdade, eu estudei Direito por falta de opção. No meu tempo existiam somente três opções: Engenharia, Medicina e Direito. Quem gostava de somar, fazia Engenharia; quem gostava de abrir barriga de lagartixa, fazia Medicina; e quem não dava para coisa nenhuma ia ser advogado – gargalhada geral na plateia.

Falando do seu casamento com Zélia de Andrade, com quem namorava desde agosto de 1947, e por quem ainda se mantinha enamorado, veio à baila o nome do príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica. Tascou este comentário:

– Eu sempre desconfiei do bom gosto daquele príncipe. Trocar a princesa Diana por aquela mulher… Não é?… – referindo-se à duquesa Camila Parker.

Ariano nunca escondeu a sua predileção por palhaço, mentiroso e doido. Por palhaço, em razão das boas lembranças dos espetáculos mambembes da infância; por mentiroso, porque todo escritor é mentiroso, tanto é assim que, nas palavras do próprio autor, o Auto da Compadecida não passa de uma grande mentira.

Por fim, o doido. Segundo um seu irmão, na família Suassuna todos são doidos de atirar pedra; e, quem não é doido junta pedra para doido atirar.

Ariano faleceu em 2014, com 87 anos de idade. Se não foi um gênio conviveu, muito bem obrigado, com uma mente brilhante gerando sua própria luz.

É TUDO UM PISCAR DE OLHOS

Houve um tempo que me incomodava ouvir falar de morte ou de vida após a morte, mas, à medida que os anos atingem os costados de nossa existência o homem fica mais reflexivo com relação ao seu futuro, e queda-se perguntando: Por quantos anos ainda respirarei o ar fresco da vida? Para onde irei? O que me acontecerá após a ultrapassagem da tênue barreira que divide a vida da morte?

Sim, são perguntas pertinentes, porque a morte é a única certeza plena no transcorrer de nossa trajetória humana. E a vida?… Ah! A vida não passa de uma nuvem passageira perante a escala de tempo de Albert Einstein (1879-1955).

Por falar em Einstein, qual a visão deixada pelos grandes pensadores acerca da vida?… E sobre a morte? No entendimento de Sócrates (469a.C.- 399a.C.), que já defendia, naquela época, a imortalidade da alma, o ser humano é um espírito encarnado que vive algum tempo na matéria. Acerca do tema assim ditou ele:

No mundo físico a alma se conturba e fica perdida porque está vinculada a objetos perecíveis. Mas, ao voltar-se para si mesma, vislumbra as ideias imortais que outrora conhecera. Este é o momento definido como sabedoria. Daí a necessidade do “conhece-te a ti mesmo”. Ainda segundo Sócrates, somente os que cultivarem a virtude nada temerão da vida que continuará depois da morte.

Sócrates definiu filosofia como “preparação para a morte”. Schopenhauer (1788 – 1860), na mesma linha de pensamento do filósofo grego, afirmou que a “a morte é a musa da filosofia”. Então, será a filosofia a ciência da morte?

Também houve um tempo que eu sonhava com uma vida de riqueza, poder e feitos épicos, mas a própria vida me mostrou a utopia de tudo isso, e me fez derivar para uma interpretação mais simples e objetiva para a nossa existência.

Tanto é assim que a minha filosofia se assemelha a de Ariano Suassuna ao discorrer sobre Deus e o sentido da vida: Deus para mim é uma necessidade. Se eu não acreditasse em Deus eu seria um desesperado.

Hoje eu assimilo melhor as palavras do compositor Gonzaguinha ao aconselhar, na canção, que viver e não ter a vergonha de ser feliz. Ou quando afiança que a vida é uma doce ilusão ou, ainda, que é uma gota, é um tempo que nem dá um segundo, mas que nada impede de repetirmos que ela é bonita, é bonita e é bonita!

Voltaire (1694-1778), o filósofo francês, disse: Nós nascemos sozinhos. Nós vivemos sozinhos. Nós morremos sozinhos. E qualquer coisa neste intervalo que possa nos dar a ilusão de que não estamos sós, nós nos agarramos a ela. Ao trocarmos em miúdos esse pensamento, advém a seguinte reflexão: Nascemos sem trazer nada. Morremos sem levar nada. E nesse meio tempo brigamos por coisas que não trouxemos nem levaremos.

Segura teu filho no colo, sorria e abraça teus pais enquanto estão aqui

Que a vida é trem-bala parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir.

E nem é preciso ser um grande pensador para descrever o sentido da existência, com gritante objetividade, como a compositora Ana Vilela na canção Trem-Bala, lembrando-nos que o interregno do nascimento à morte não passa de um piscar de olhos.

A CATEDRAL DA PRAÇA PIO X

Praça Pio X, nos anos 40

Uma das lembranças marcantes da minha infância é a Praça Pio X, desativada para a construção da Catedral Metropolitana de Natal. Margeá-la integrava meu percurso obrigatório no deslocamento de casa para a escola e vice-versa.

Eu morava na Rua Mossoró e estudava no Ginásio São Luiz, situado na Rua José de Alencar, Cidade Alta, propriedade do padre Eymard L’Eraistre Monteiro. Na memória ainda pulsa a simplicidade bucólica daquele logradouro público que ocupava um quarteirão com um hectare de área encravado ao lado do cinema Rio Grande.

A praça pouco lembrava aquela dos anos 40, quando foi inaugurada. Os canteiros já sem arborização e os desenhos geométricos obtidos pela combinação de pedras brancas e pretas pavimentando o espaço careciam de conservação.

Apenas os bancos rústicos de cimento, característicos da época, ficaram preservados da ação dos anos. Alcancei resquícios do restaurante no centro da praça, aparentando asas de um avião, e o espaço acima dele de acesso ao público por lances de escadas laterais.

O ambiente ainda era dominado pelo paliteiro de postes no formato de tridentes, com globos leitosos encobrindo lâmpadas espetadas em cada uma das três extremidades das peças. Deslumbrava-me atravessar a praça iluminada à noite.

A primeira tentativa de construção da catedral aconteceu com D. Marcolino Dantas, o primeiro arcebispo de Natal. De posse de um projeto imitando templos europeus, ele conseguiu levantar algumas paredes. Entretanto, a falta de recursos fez a iniciativa soçobrar no esquecimento.

Em 1972, o jovem arquiteto Marconi Grevi apresentou aos arcebispo e bispo auxiliar de Natal, D. Nivaldo Monte e D. Antonio Soares Costa, um projeto de custo mais em conta, sem tanta pompa e priorizando a rusticidade e a praticidade.

Marconi Grevi, D. Nivaldo Monte e, ao fundo, o projeto abandonado

Mesmo primando pela simplicidade dos materiais, a proposta arrojada da catedral, num primeiro momento, chocou a população. Não por menos, pois o vão livre em concreto protendido com 60 metros de extensão, consistiria no maior do Norte e Nordeste do país.

O templo abrigaria 3.000 mil fieis sentados e disporia de gigantesco painel representando a Aurora Matutina. O efeito da visão interna seria ao mesmo tempo algo sublime, místico e grandioso. Tudo isso em apenas 25% da área do terreno.

Perguntei ao arquiteto qual o significado do entrelaçamento de cruzes da fachada da catedral, e se a ideia chocara a Cúria Metropolitana. Marconi respondeu: A aprovação foi unânime após minha explicação. São três cruzes que podem ser identificadas de qualquer ângulo em que nos posicionemos. Tanto representa a Santíssima Trindade como as cruzes do Monte Calvário, local da crucificação de Cristo.

A catedral inaugurada em 1988

A construção começou no dia 21 de junho de 1973. Depois de 18 anos de campanhas arrecadando fundos, a obra foi inaugurada por Dom Alair Vilar de Melo em 21 de novembro de 1988, dia de Nossa Senhora da Apresentação.

Da antiga praça, ainda viva nas minhas recordações, somente restaram os versos do samba de Airton Ramalho, Praça Pio X:

Pio X praça que desapareceu/Praça de muita recordação/Lá foi onde o nosso amor nasceu/E onde eu perdi meu coração/Praça, o teu nome vão guardar/E quem lá foi namorar/Não te esquecerá/Breve, tu serás a casa de Deus/Eis a nossa homenagem/E também o nosso adeus.

VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS

Volta e meia flagro-me dedilhando teclas pretéritas. Saudosismo? Não. Nada de excessiva valorização do passado. Viagem no tempo? Pode ser. Para mim, deleitar-se com os bons momentos usufruídos na existência de cada um de nós, consiste no melhor exercício para amenizar o inclemente avançar dos anos de nossas vidas.

Trazer à baila a plenitude do movimento renovador da música popular brasileira, após a Bossa Nova, é uma dessas práticas. Vivíamos a repressão oriunda do regime militar iniciado em 1964, quando jovens rebeldes descompromissados com política e influenciados pelo rock n’roll criaram a revolução musical que ficou conhecida como Jovem Guarda.

O som inovador de Elvis Presley, Roling Stones e de outros astros do iê-iê-iê – alusão direta à expressão yeah-yeah-yeah presente em sucessos dos The Beatles – impregnou parcela de nossa juventude desengajada de greves e de protestos contra o governo instaurado no país.

Eram turmas de cabelos engomados e calças colantes em forma de boca-de-sino, com cintos e botas coloridos, que apregoavam paz e amor e faça amor não faça guerra. Patotas de linguajar próprio, botando pra quebrar, mas achando tudo o maior barato sem considerar nada ruço, procurando manter a barra limpa.

Jovens cantores interpretando músicas leves e açucaradas, falando de amores ardentes, carangos, festas e brotos legais; utilizando letras fáceis de decorar emoldurando coreografias diferentes das usuais direcionadas para o público adolescente enfeitiçado pela onda em evolução.

A Jovem Guarda surgiu em 1965, na TV Record, em programa comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa definindo uma nova linguagem musical e comportamental no Brasil, que se tornou referência para adolescentes da época. Desde a forma de se vestir a gírias e expressões próprias criadas no embalo do movimento.

Além dos três titulares das jovens tardes de domingo, surgiram e se consolidaram na profissão e no cenário artístico nacional interpretes e compositores como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Ariani, Sérgio Reis, Antonio Marcos, Márcio Greyck, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Lafayette e seu Conjunto, e outros a perder de vista.

Comenta-se que o nome que deu origem ao estilo popularizado nos anos 60, foi inspirado numa frase do revolucionário russo Vladimir Lenin: O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada.

Setores da crítica afeitos à Bossa Nova, consideravam o som da Jovem Guarda música alienada, não somente porque privilegiou a guitarra em detrimento do violão, mas, sobretudo, por manter àqueles jovens afastados da discussão política que sacudiu o Brasil nos primeiros anos da ditadura militar. O programa terminou em 1968, com o desligamento de Roberto Carlos da TV Record.

Sem prescindir de outros estilos musicais, ainda hoje sinto prazer ao ouvir as inocentes e alegres canções que transformaram a Jovem Guarda num dos maiores fenômenos nacionais do século XX.

Tudo isso bicho, aconteceu meio século atrás, e foi uma brasa, mora!

ONDE ANDA VOCÊ

A quantas e por onde anda o som nacional além de nossas fronteiras? Antes de nos posicionarmos na resposta a essa pergunta, engatemos uma segunda. Qual o sentimento que nos desperta ouvir música brasileira, tocada ao acaso, no exterior? Certamente, o leitor dirá tratar-se de uma sensação agradável de orgulho e vaidade, temperada por boa pitada de saudade decorrente da distância do rincão natal.

Retornando a questão inicial, a primeira música brasileira a alcançar sucesso internacional foi Aquarela do Brasil. Em visita ao Brasil, o norte-americano Walt Disney se encantou com o samba e escolheu a composição de Ari Barroso como trilha sonora do filme de animação Alô Amigos (1942), com o recém-criado personagem Zé Carioca. Daí para se tornar a marca musical brasileira no exterior foi um pulo.

Entre os anos de 1942 e 1953, foi a vez de Carmen Miranda divulgar o nosso som para o mundo, mediante participação em 14 películas produzidas por grandes estúdios dos Estados Unidos, divulgando canções brasileiras ornamentadas por requebros e balangandãs extraídos da cultura verde-amarelo.

No meu entendimento, a música brasileira firmou-se no exterior depois de Garota de Ipanema. Isso mesmo, a canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi o divisor de águas do cancioneiro popular nacional em plagas de além-mar.

Tudo aconteceu em 1967 com um telefonema de Frank Sinatra para Tom Jobim, convidando-o para gravarem juntos um disco. O resultado foi Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967), veículo esse que alavancou The Girl of Ipanema para o sucesso mundial.

Passados 50 anos, Garota de Ipanema, segundo apregoam revistas especializadas no ramo, atingiu a marca de a segunda música mais executada no planeta, atrás apenas de Yesterday (1965), dos Beatles.

Com a trilha aberta pela obra-prima de Tom e Vinicius e, devido o encurtamento de distancias decorrente da modernidade, a boa música brasileira como também a de má qualidade, chegaram a ouvidos exigentes ou àqueles nada seletivos do exterior.

Lógico, que em países de língua portuguesa a divulgação da música brasileira é mais intensa. O programa The Voice é o veículo ideal, no momento, para tal prática. Nas versões The Voice de Cabo Verde, Moçambique e Angola já concorreram interpretes defendendo Quando a Chuva Passar (Ivete Sangalo), Esse Cara Sou Eu (Roberto Carlos) e Depois do Prazer (Alexandre Pires).

Mas não fica apenas nisso. No The Voice Polônia defenderam Mais Que Nada (Jorge Ben Jor); no da Ucrânia e no mundo Árabe, candidatos concorreram cantando Ai Se Eu Te Pego (Michel Teló) …E por aí vai.

Todavia, imperdível foi a interpretação de Onde Anda Você (Tom e Vinicius) na voz do cantor português Tiago Nacarato, no The Voice Portugal. Dedilhando o próprio violão, o candidato nada deixou a dever a qualquer interprete brasileiro, tamanha a qualidade vocal imposta à canção.

Vale a pena conferir!

MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

Monumento aos mártires de Cunhaú e Uruaçu em São Gonçalo do Amarante-RN

O Rio Grande do Norte está em festa, pois no próximo domingo 15 de outubro, a Santa Sé incluirá 30 mártires do Brasil, beatificados em 5 de março de 2000 pelo Papa João Paulo II, no rol de adoração da Igreja Católica. Para que entendamos as razões das canonizações das três dezenas de fiéis, segue-se um resumo dos fatos.

Morticínio de Cunhaú – Em 1645 o Rio Grande do Norte era dominado pelos holandeses. Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas, chegou a Cunhaú no dia 15 de julho daquele ano onde já era conhecido dos nativos do povoado, pois ali passara outras vezes escoltado por índios Tapuias.

A visita do alemão naquele dia diferiu das anteriores porque, além dos indígenas, acompanhavam-no alguns potiguares e soldados holandeses. Dia seguinte, domingo 16 de julho, os fiéis da aldeia se reuniram para celebrar a Eucaristia indo à missa, como de costume, na capela Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú.

Jacob Rabbi afixara um edital na porta da igreja informando que, após a missa, repassaria ordens do governo. O padre André de Soveral iniciou a celebração e, no momento da consagração do Corpo e do Sangue de Cristo, as portas da capela foram fechadas e se iniciou o massacre.

Ao perceberem que seriam mortos pelas tropas, os fiéis não reagiram. Pelo contrário, confessaram suas culpas ao sacerdote, enquanto o padre André exortava-os a bem morrer rezando apressadamente o ofício da agonia.

Cunhaú integra atualmente o município de Canguaretama, onde os seus mártires são lembrados no dia 16 de julho.

Morticínio de Uruaçu – Três meses passados do massacre de Cunhaú, aconteceu outro com maior requinte de crueldade, em Uruaçu, no dia 3 de outubro, provavelmente sob as ordens do mesmo Jacob Rabbi.

Nesse massacre, após a Elevação, as portas da igreja também foram trancadas e o ritual feroz e desumano teve início com o corte das línguas dos fieis para que não proferissem orações católicas. Em seguida, deceparam braços e pernas das vítimas. Crianças foram partidas ao meio e a maioria dos corpos degolada.

O celebrante, padre Ambrósio Francisco Ferro, foi bastante torturado. Já o camponês Mateus Moreira, enquanto lhe arrancavam o coração pelas costas, exclamava: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”. De acordo com relatos históricos, os invasores holandeses ofereceram aos fiéis católicos a opção de conversão ao calvinismo, mas eles escolheram o martírio.

Uruaçu está encravado no município de São Gonçalo do Amarante e a data da chacina foi declarada feriado estadual.

Existem apenas seis santos brasileiros, mesmo assim pouco difundidos na comunidade cristã do país. Dentre eles, estrangeiros enviados em missão apostólica ao nosso território e que, ao serem canonizados pela Igreja Católica Apostólica Romana, foram também considerados santos do Brasil. São eles:

São Roque González de Santa Cruz (nascido no Paraguai), Santo Afonso Rodrigues (nascido em Zamora, na Espanha) e São João de Castilho (também nascido na Espanha), considerados os três mártires do Rio Grande do Sul; Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus (nascida na Itália); Santo Antônio de Sant’Ana Galvão (nascido no Brasil); e São José de Anchieta (nascido na Espanha).

Agora, com os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, junto a Mateus Moreira e outros 27 leigos, serão 36 os santos brasileiros para veneração.

CARTA PARA MIM MESMO

Nos meus 20 anos de idade escrevi uma carta para mim mesmo imaginando-me, no futuro, com 40 anos. Mas, ao completar quatro décadas de vida, não tive a menor preocupação de responder à missiva do adolescente que Eu fora.

O excesso de trabalho, compromissos circunstanciais ou o mero descaso me serviram de desculpa para tanto. Agora, com tempo suficiente, a saúde controlada e sem riqueza acumulada resolvo reparar a descortesia de meio século atrás, escrevendo estas linhas para aquele Eu, jovem sonhador, vivendo 1964.

“Prezado parceiro de sonhos e experiências deste mundão de meu Deus. Estive em falta com você durante anos, fato que lamento. Entretanto, esse foi um daqueles males passíveis de remediar sem causar sequelas. Tenho tanto o que lhe dizer que perderíamos tempo discorrendo sobre assuntos de somenos importância neste momento. Relendo a sua carta noto-a repleta de questionamentos e dúvidas. Pudera!”.

“Nela, você me perguntou se caso chegássemos aos 40 anos, se teríamos concluído a faculdade, constituído família e, em caso positivo, se valera a pena o sacrifício despendido. Por que tanta preocupação, cara? Por acaso foi receio de soçobrarmos na jornada antes da chegada à praia?”

“Pois bem, respondo com um duplo sim aos dois primeiros itens. Falando do último, claro que valeu! Recompensou estudar, casar e criar os rebentos para desfrutar, em seguida, de uma maravilhosa prole de netos. Os filhos dos filhos são presentes generosos que a natureza nos concede para consolar o limiar da existência”.

“Perguntou-me também: ‘Como evitar pirar antes dos 40 anos?’. Detesto dar ou receber conselhos de autoajuda, mas, no nosso caso abrirei uma exceção. Baseado no que vi e vivi, direi ser salutar trabalhar no que gostar, não tentar abraçar o mundo, tolerar as perdas, superar as frustrações, parar com as lamentações, apegar-se a pessoas e desligar-se de tudo o que nos sufoca. Talvez não tenhamos sido fieis a todas essas recomendações, mas no geral deu para o gasto e para o gosto”.

“Meu caro, a partir daquela nossa boa época de jovem foi-se ampliando o tempo de vida do brasileiro. Daí eu incluir aqui algumas experiências decorrentes dos outros anos que transpusemos juntos depois dos 40”.

“Cuidar do corpo é essencial. Ele é uma máquina que requer atenção permanente. Fuja do estresse. É difícil, mas procure sublimar pequenos problemas causadores de grandes desgastes emocionais. O percurso em si já é uma caixa de surpresas: umas agradáveis outras dolorosas. Mantendo o equipamento desregulado a caminhada será mais árdua”.

“Ah, se você possuísse telefone celular a conversa seria outra. Ops! Está vendo no que dá a ansiedade? Ela foi e continua sendo o meu ‘calcanhar de Aquiles’. Que pena nos haver faltado sabedoria para subjugá-la, dando mais valor à paciência. Você descobrirá que somos todos poços de imperfeições posando de modelos de virtude num mundo impiedoso para quem ousa ser o que realmente é”.

“Estimado Eu, obrigado por lastrear com equilíbrio o nosso caminho na juventude. Reconheço que você devotou o melhor de si para alcançarmos o atual estágio da vida. Está gravado no pátio do Templo de Apolo em Delphos, na Grécia, um aforismo atribuído ao próprio Delphos, que aconselha: ‘Conhece-te a ti mesmo’”.

“Quer sinceridade? Para nós, o ideal teria sido a descoberta antecipada de que ninguém é nada mais que si mesmo. Houve erros e acertos, é verdade. Porém, tudo valeu a pena porque viver é um eletrizante, edificante e extraordinário aprendizado”.

COISAS DETESTÁVEIS

Existem situações, atitudes e ocorrências do nosso cotidiano que, para alguns, parecem naturais, mas para outros assumem proporções detestáveis beirando o insuportável. O cronista mineiro Paulo Mendes Campos, 50 anos atrás, fez um rol de algumas situações execráveis, ao qual eu tomei a liberdade de acrescentar outras circunstâncias, fruto do progresso tecnológico da contemporaneidade.

Trocar pneus de automóvel, alarme de carro disparando de madrugada, ongestionamento de trânsito, celular com toque esdrúxulo, embalagem de plástico ou de papelão difícil de abrir, decifrar manual técnico de aparelho eletroeletrônico.

Ligação telefônica errada no meio da noite, britadeira desmontando pavimento de rua, pirralho gripado com nariz escorrendo o produto da infecção, flatulência silente ou tagarela seja ela anônima ou subscrita, giz arranhando quadro-negro (arre!), borrifo de espirro quando esse foge ao controle do espirrador (ah, quanto falta faz o velho lenço de guerra guardado do bolso traseiro da calça!).

Aguardar voo atrasado, preencher declaração de Imposto de Renda, tentar vestir a calça predileta e descobrir que o cós na ataca a cintura, gaiato sem graça tentando fazer graça em plateia de cinema, descobrir falsidade de um amigo e dor de barriga das brabas.

Outras: o riso irônico daquele desafeto preferencial, apertar mão suada, falsos elogios, miserabilidade em quem tem dinheiro sobrando, prego em carro causado por falta de gasolina ou bateria sem carga, procurar vaga em estacionamento lotado, procurar carro em estacionamento lotado, discurso de bêbado e chulé nem pés alheios.

Odor de axilas imune a desodorantes, ser tungado em conta de restaurante, recorrer ao serviço eletrônico de auxílio ao assinante das companhias telefônicas (disque 1 para isto, disque 2 para aquilo, disque 3 para sei lá o quê…)

Não acabei. Viajar de avião em três situações distintas: na cadeira do centro apertado entre dois gordos; na cadeira do corredor, ao lado de alguém com incontinência urinária; e, caindo de sono sendo incomodado por chato de carteirinha desejando entabular conversa.

Vigilante de carro que só vigia o seu retorno ao carro; esmoler, vendedor ou malabarista que assina ponto em semáforo; paletó escuro polvilhado de resíduos de caspa; e, choro de moleque malcriado provocando pais tolerantes.

São milhares de coisas detestáveis impregnando o nosso dia a dia. É lógico que cada pessoa dá a sua prioridade para aquilo que mais abomina. As aqui alinhavadas não fogem à regra. Podem ser mais detestáveis para uns do que para outros, mas, que todas são irritantes, ah, quanto a isso não guardo a menor dúvida.

INFAMES, MAS ENGRAÇADAS

Deleita-me a leitura de Duas Piadas por Dia, livro de autoria dos norte-rio-grandenses Max Azevedo e João Maria Monte. Trata-se de uma coletânea com 730 piadas para serem lidas durante um ano. Projeto despretensioso feito apenas para divertir os amigos. Eis alguns dos relatos repletos de humor:

Um velho e respeitável sertanejo, acometido de hemorroidas, procurou um proctologista. Feito o exame, o médico declarou: Realmente aqui na entrada nota-se um botão hemorroidário. Ao que o velho reagiu incisivo: Entrada, só se for no seu, no do seu pai ou no do seu avô… No meu, aí sempre foi saída!

Um grupo discutia sobre sexo, e a um integrante foi-lhe perguntado como gostava de sexo: Normal, anal ou oral? Ele de pronto respondeu: Eu prefiro esse oral, de hora em hora ou, então, esse normal, todo dia. Agora, esse anal, de ano em ano, é coisa pra doido!

A velhinha disse para o marido: Meu velho, olhe que coisa horrorosa… Está passando na televisão uma cena de sexo explícito! E ouviu: É não, minha velha…Voce não está vendo direito, porque está sem óculos… O que está passando é um barbudo comendo banana!

Duas velhinhas do interior pegaram carona num caminhão. Ao descer a serra, o motorista usou o freio motor para evitar acidente. O ajudante vendo a manobra gritou: Deixe de gastar gasolina, homem… Tire a marcha e meta na banguela! Ao ouvir a sugestão a velhinha desdentada retrucou: Em mim mesmo, não!

O médico: Sua mulher urina com abundância? O marido responde: Que é isso, doutor? É com a priquitância mesmo!

A moça casou e a mãe combinou com ela de perguntar, no dia seguinte, por telefone, se tudo correra bem. Mas, para disfarçar, a pergunta seria: Consummatum est? Feita a indagação na forma estabelecida, a moça respondeu: Est e oeste!

Um indivíduo criava dois papagaios machos, mas observou que um estava “faturando” o outro. Como eram muito parecidos, para saber quem era quem, mandou arrancar as penas da cabeça do que ficava por baixo, para saber quem era quem. Certo dia, com a gaiola colocada na janela que dava para a rua, ia passando um careca na calçada, e o louro perguntou: Ei, o amigo também queima a “rodinha”?

Um nordestino chegou a São Paulo, tomou um taxi, e pediu que o levasse ao centro da cidade. O motorista perguntou: Posso pegar o Minhocão? E ouviu do passageiro: Se souber dirigir com uma mão só, pode!

O bêbado acordou a mulher: Minha filha, temos que nos mudar desta casa, porque ela é mal-assombrada. Curiosa, a mulher perguntou: Por que você diz isso? Então, ouviu como resposta: Porque quando abri a porta do banheiro, senti aquele vento frio em cima de mim, e a luz acendeu sem eu tocar no interruptor! A mulher exclamou: Não é que o safado mijou de novo na geladeira!

Um sujeito foi ao urologista, e quando este foi fazer o toque prostático, disse: Doutor, pode fazer com dois dedos? Diante da perplexidade do especialista, ele complementou: É porque eu gosto de ouvir mais de uma opinião!

Na casa do amigo, o cara com vontade de tomar um whisky, mas sem lhe ser oferecido, saiu-se com esta: Dê-me notícias do Thomas! Então ouviu: Thomas? Que Thomas? E ele: Eu tomo, de preferência, aquele whisquinho com gelo!

O DIA QUE EU NUNCA ESQUECEREI

Depois de amanhã será 11 de setembro, o 254º dia do Calendário Gregoriano. Dia dedicado a São João Gabriel. Nessa data nasceram Carl Zeiss, Brian de Palma e Franz Bekenbauer, e faleceram Antero de Quental, Nikita Kruschov e Salvador Allende.

Ao longo da História fatos importantes destacaram o dia 11 de setembro, tais como a descoberta do Rio Hudson, por Henry Hudson, em 1609; a tomada de Barcelona durante a Guerra da Sucessão Espanhola, em 1714; e a chegada da sonda Mars Global Surveyor, a Marte, em 1997.

Todavia, nenhum evento no mundo, nas últimas décadas, marcou tão profundamente o sentimento humano quanto o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York e ao Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro de 2001, dezesseis anos atrás.

Em menos de duas horas foram eliminadas quase 3.000 pessoas e modificada a vida de milhares de famílias norte-americanas. Para melhor entendimento daquele trágico acidente atribuído à barbárie humana, tracei o seguinte resumo cronológico da ocorrência:

8h46: avião da American Airlines, que ia de Boston para Los Angeles atingiu a Torre Norte do World Trade Center;

9h03: aeronave da United Airlines, no percurso Boston – Los Angeles, acertou a Torre Sul;

9h37: outro avião da American Airlines, que viajava de Dulles, na Virgínia, para Los Angeles atingiu o prédio do Pentágono, em Washington;

10h03: aeronave da United Airlines que se deslocava de Newark para San Francisco foi derrubada num campo próximo de Shanksville, na Pensilvânia.

Às 10h28 a Torre Norte despencou.

Assistimos, naquela data, a ação de terroristas no sequestro de quatro aviões comerciais de passageiros resultando em 2.996 mortos: 246 nos quatro aviões, 2.606 na cidade de Nova York e 125 no Pentágono, além dos 19 terroristas.

Datas como essa se fixam na memória do indivíduo com um poder inexplicável. Eu lembro, como se fosse hoje, onde estava e o que fazia no momento em que recebi a notícia do ataque aos Estados Unidos.

Terça-feira, dez horas e alguns minutos, eu atendi telefonema de um colega engenheiro, anunciando: “Amigo, começou a III Guerra Mundial; estão atacando os Estados Unidos!”. Deixei a sala de trabalho e fui procurar um televisor. Encontrei-o no auditório da repartição onde estavam outros funcionários. Entrei no salão no exato instante em que a primeira das torres gêmeas desabava.

Pequenos pontos escuros escapuliam das torres em chamas para o vazio. Tratavam-se de pessoas tentando se ver livres da fumaça e do calor do incêndio. Em termos de Engenharia, uma imagem espetacular, se assistíssemos a implosão de edifícios de 526 metros de altura. Porém, víamos um retrato aterrador e em tempo real, de ação terrorista perpetrada contra civis numa manhã de trabalho normal.

Uma sensação horrorosa que eu não gostaria de sentir novamente no restante dos anos de minha vida. Entretanto, também, um motivo para profunda reflexão sobre os destinos da humanidade.

11 de setembro de 2001 será a data que eu jamais esquecerei, porque marca a implantação, pelo fanatismo religioso, da aterradora, covarde e irracional ação destruidora do terrorismo no seio da civilização.


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