A MAGIA DO “PRÍNCIPE”

Quem tem mais de 50 anos de idade deve guardar na memória o sucesso alcançado pelos concursos de Miss Brasil nos anos 60, 70 e 80. Deve recordar também a expectativa que tomava conta do país, durante o desenrolar do processo de escolha da representante nacional para a disputa anual do título de Miss Universo.

Com igual exatidão, deve lembrar o enorme contingente de candidatas que citava “strogonoff” como o seu prato predileto e, “O Pequeno Príncipe”, como o mais importante livro já lido. Mencionar a obra de Antoine de Saint-Exupéry consistia na fórmula ideal para insinuar alguma cultura a louras, ruivas e morenas, durante questionamento específico do júri do certame.

Embora banalizado na preferência das misses de antigamente, o “O Pequeno Príncipe” não é o tipo de leitura para se estereotipar. A obra foi escrita em 1943, quando do exílio do escritor nos Estados Unidos, época em que visitou o Brasil. É o livro francês mais vendido no mundo, com tiragem aproximada de 80 milhões de exemplares em cerca de 500 edições.

Depois da Bíblia, é a obra literária mais traduzida do planeta com publicações em 160 línguas ou dialetos. O título bem que pode sugerir, mas não é um livro apenas para crianças. Tem profundidade suficiente para nos fazer refletir sobre a vida e nossas atitudes, a qualquer tempo e com qualquer idade. Quem já o leu concordará com minhas palavras; quem ainda não o conhece terá uma grata satisfação ao se deparar com uma leitura leve e envolvente.

Mas, não foram esses detalhes que me fizeram reler, pela enésima vez, “O Pequeno Príncipe”. A motivação decorreu de citação de um sacerdote, durante pregação religiosa, demonstrando sincera admiração pelo trabalho do escritor francês.

Na oportunidade, utilizou o conteúdo de determinado capítulo do livro para reconfortar uma família sofrida em razão de perda recente de um ente querido. Envolver-se com a singeleza metafórica daquele ensaio sobre a natureza humana, repleto de sutil subjetividade, é um exercício cativante.

Na leitura, é comum encontrarmos citações aleatórias do enredo que nos despertam a atenção. Caminhos secretos surgem de aberturas, até então desconhecidas. São atalhos para novas reflexões, com interpretações totalmente diferentes do texto. Isso o transforma numa agradável caixa de boas surpresas.

Já li e ouvi manifestações ácidas sobre a mais conhecida obra de Saint-Exupéry. Tacharam-na de piegas, enfadonha, infantil, chata, mas isso nunca diminuiu sua aceitação pública nem afetou o sucesso de vendas. Por uma simples razão: com quase 75 anos de existência, o “O Pequeno Príncipe” é uma leitura atualizada, que toca a sensibilidade de crianças e de adultos.

Voltemos à citação do clérigo que me fez discorrer sobre a obra-prima de Exupéry. Trata-se do diálogo de despedida do pequeno príncipe, já no final do livro. Em resumo, ele fala ao seu interlocutor o seguinte:

“Quando olhares o céu de noite, tu verás estrelas e a mim, porque habitarei uma delas e estarei rindo. E será como se todas as estrelas te rissem! Então terás estrelas que sabem rir! E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Seremos sempre amigos. Para me encontrar, basta olhares para o céu e saberás que eu estarei lá, rindo. Então terás vontade de rir comigo”.

Eis a magia de o “O Pequeno Príncipe”.

A MINHA CANÇÃO

Dirigindo e sintonizando FMs ao acaso escutei, de passagem, este trecho de verso musicado: …preste atenção, essa é a nossa canção… Tratava-se de Nossa Canção, sucesso de Roberto Carlos, em 1966, com letra e música de Luiz Ayrão.

Foi quando eu atentei para o detalhe de nunca haver definido uma música para chamar de minha ou que se caracterizasse como a canção de minha vida a dois. Um baita desaforo para quem se considera um romântico de carteirinha.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

A maioria dos meus amigos ou pessoas com as quais eu me relaciono, se questionadas sobre o tema, certamente terão na ponta da língua qual a música significativa de suas existências. Realmente, não é nada incomum, haja vista permanecer no inconsciente de cada indivíduo um odor, uma visão ou uma sonoridade que o reporta a boas ou más lembranças pretéritas.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

Algumas músicas tiveram papel de destaque em diferentes fases de minha vida. A mais antiga lembrança vem do meu tempo de Ginásio São Luiz, onde eu e mais dois colegas formamos um conjunto vocal para as aulas de Canto Orfeônico. Na época estava em voga trios como o Los Panchos, o Irakitan, o Nagô e outros. A música que mais interpretamos foram Beija-me, Perfídia e Prece ao Vento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:

Quando de meu noivado, brinquei o Carnaval de 1967 ao som da marcha-rancho Máscara Negra, de Zé Keti. Curti bastante, também, Carinhoso no jeito de cantar de Bethânia e, Fascinação, com o registro inimitável de Elis Regina.

Em seguida, descobri e me amarrei nos estilos vocais de Frank Sinatra e de Nat King Cole e com o som das orquestras de Glenn Miller, Ray Conniff e Paul Mauriat. As músicas deles que mais me marcaram foram, respectivamente, All the Way e Fly Me to the Moon; Unforgettable e Mona Lisa; e as interpretações instrumentais de Moonlight Serenade, Love Is Many Splendored Thing e Love Is Blue.

Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Entretanto existe uma música que, todas as vezes que eu a ouço, sinto o corpo relaxar e uma paz misteriosa invadir meu ser. Trata-se, segundo a revista Rolling Stone Brasil, da 24ª melhor canção brasileira. São inúmeros os interpretes da composição de Vinicius de Moraes e de Tom Jobim, entretanto, ela nunca perdeu a beleza nem o encantamento em quaisquer das versões trabalhadas.

Particularmente, eu prefiro a interpretação que traga recitado o Soneto da Fidelidade, também de Vinicius, transcrito nas entrelinhas deste texto.

Eu sei que vou te amar é a música que escolho como minha canção.

* * *

MEU ENCONTRO COM MADEMOISELLE BARDOT

Somente agora tive coragem de relatar meu encontro com Brigitte Bardot, a lenda das telas do cinema nas décadas de 50 e 60, ela, na época, com 29 anos de idade. Isso, 53 anos atrás. Não o fiz antes porque ninguém acreditaria na história inverossímil de um nordestino jovem de sotaque carregado e sem dinheiro no bolso.

Ao ser aprovado no vestibular, meus pais me presentearam com uma passagem para conhecer o Rio de Janeiro. Fui parar em Niterói na casa de parentes.

Brigitte Bardot na Praia de Búzios, em 1964

Disposto a encarar o Rio, li no Jornal do Brasil, que Brigitte Bardot, a musa platinada do cinema francês, estava desenfastiando da glória mundial num recanto do litoral fluminense chamado Búzios. Ela e o namorado Bob Zagury, um playboy e produtor marroquino radicado no Brasil. Vivíamos o final de fevereiro de 64.

Eu e toda a molecada de minha idade, havíamos fantasiado momentos profanos incríveis com a ex-esposa de Roger Vadim, atriz dos filmes E Deus Criou a Mulher, Quer Dançar Comigo, Amar é Minha Profissão e O Desprezo. Eis que a diva descansava, naquele momento, no estado da Guanabara onde eu me encontrava.

Perguntei aos parentes como chegar a Búzios. Eles puseram todo tipo de obstáculo, inclusive alegando ser a dita praia uma vila de pescadores muito distante de Niterói. E mais: por que trocar as atrações turísticas e a beleza natural do Rio de Janeiro por uma praia remota e pouco habitada?

Tentei justificar dizendo que Copacabana, o Corcovado e o Pão de Açúcar ainda estariam no mesmo local, quando eu voltasse à cidade em outra ocasião; ao passo que Bardot, talvez não retornasse jamais ao Brasil. Não os convenci porque, irredutíveis, eles desqualificaram o poder de uma paixão platônica adolescente.

Os jornais informavam que a star e o seu namorado se escondiam da imprensa na Praia de Manguinhos, na casa do represente das Nações Unidas no Brasil e amigo de Bob. Enfiei numa sacola um calção de banho, um par de chinelos e uma escova de dentes, e segui para a estação rodoviária tentar alcançar a Região dos Lagos.

Cheguei ao tal povoado num final de tarde e me instalei numa pousada rústica para pernoitar. Eu estava determinada a conhecer Brigitte Bardot. Agora, tudo dependeria de sorte. Um nativo deu-me as coordenadas que faltavam mostrando uma passagem obrigatória da artista para a casa que lhe hospedava. Ali fiquei de tocaia por um dia inteiro.

Final da manhã do segundo dia, ela escultural num biquíni discreto, cabelos soltos e despenteados e o rosto sem maquiagem, surgiu andando na orla chutando areia. Ao lado dela uma amiga. Vinham na minha direção. Brigitte parou e deitou para se bronzear, enquanto a amiga retornou à casa, talvez, para buscar algo.

Na praia quase deserta, as poucas pessoas em trânsito não identificavam na loura ali esparramada, a badalada atriz internacional. Esperei alguns instantes e, quando não vi ninguém por perto, me aproximei da beldade e falei:

Bonjour, Mademoiselle Brigitte, vous êtes belle!

Ela sobressaltou-se, mas, refeita do susto, sorriu. Já sentada na areia me estirou a mão para que eu a ajudasse a levantar. Mão estendida, me aproximei da musa, mas, uma voz estranha ao contexto se interpôs entre nós, dizendo:

Narcelio, acorde! É hora de sua caminhada!

Desperto, dominaram-me dois sentimentos: frustração, porque nunca saberia o resultado daquele promissor aperto de mãos; alívio, porque BB não me veria com cara de tacho, caso resolvesse entabular qualquer conversa comigo… em francês.

E Deus Criou a Mulher

A ERA DE OURO DOS TRIOS

Não se fazem mais trios como os de antigamente. Nada como aqueles conjuntos musicais compostos por primeira, segunda e terceira vozes masculinas. Três intérpretes tendo como instrumental básico o violão, o afoxé e o tantã, com o qual obtinham o acompanhamento necessário para a perfeita colocação dos timbres vocais.

Os primeiros trios musicais a gravarem discos no Brasil foram o Trio Aurora e o Trio Royal, ambos com formações instrumentais surgidos na década de 1910. Os vocais apareceram a partir de 1930, com o Trio de Ouro de Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Francisco Sena. A partir de então mais de uma centena de trios brilharam e desaparecem no cenário musical brasileiro.

O bolero se moldou como uma luva para o trio. Esse ritmo surgiu em Cuba mesclado de raízes espanholas, porém, ficou mais conhecido como a canção romântica mexicana. Toda a América Latina sofreu a influência do bolero e, no Brasil, ele se popularizou a partir da década de 50.

Daí a importância do Trio Los Panchos como um dos divulgadores da música romântica mexicana. O conjunto formado, originalmente, por dois mexicanos e um porto-riquenho foi sucesso no Brasil, influenciando os trios que aqui se formaram.

Nessa época ocorreu a melhor safra de trios musicais do país. Para aclarar a lembrança eis alguns deles: Surdina, Prelúdio, Melodia, Cristal, Nagô, Marayá e Irakitan, os dois últimos originários do Rio Grande do Norte.

Os trios Irakitan e Marayá foram formados, respectivamente, em 1950 e 1954. O Irakitan somente gravou o primeiro disco em 1955, com o título Três vozes que encantam. Canta e encanta há quase sete décadas, pois ainda está em atividade após várias mudanças na composição original do conjunto.

Gravou perto de uma centena de discos, a maioria deles com o selo da Odeon. No meu entendimento, o mais representativo trabalho do trio chama-se Os boleros que gostamos de cantar, de 1959.

O Trio Marayá, embalado no sucesso da formação vocal conterrânea, obteve também o seu espaço no gosto popular. Assim como o Irakitan, o Marayá se apresentou em diversos países da América do Sul e da Europa com sucesso. A partir de 1975 o conjunto foi-se desintegrando.

No Ceará surgiu o Trio Nagô, em 1950, porém, foi dentre os trios o de menor duração no cenário musical. Ao se desfazer, doze anos após a criação, o conjunto abriu espaço para o crescimento do Trio Irakitan. Na curta existência, o Trio Nagô também angariou fãs e prestígio nas apresentações pelo país e no exterior.

Um dos fundadores e o líder do Trio Nagô foi Evaldo Gouveia, conhecido e festejado compositor brasileiro. Ao sair do trio, em 1962, Evaldo engatou parceria com Jair Amorim que resultou em mais de 150 composições emprestadas às vozes dos principais intérpretes brasileiros – o sucesso de Altemar Dutra deve-se às composições da dupla.

Uma das mais belas interpretações do Trio Nagô embalou o sono de meus três filhos, durante muitas noites e em diferentes épocas, quando eles interrompiam o repouso de Edilza, minha mulher. Deliciem-se com a leveza desta canção de ninar:

Sua Majestade, o Nenê – Trio Nagô

DE TOURO SENTADO A DIACUÍ

Minha iniciação no adorável mundo indígena ocorreu mediante gravuras e fotografias de quadros contidos nas páginas de livros de História do Brasil, durante meu aprendizado preliminar. Mais adiante, através da leitura da carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manoel I de Portugal, datada de 1º de maio de 1500:

“Ali vereis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelo corpo como pelas pernas, que, certo, pareciam bem. Andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal, e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que não havia desvergonha nenhuma…”.

Índia Diacuí da tribo kalapalo, aos 20 anos, no Alto Xingu, Mato Grosso

Antes de me aprofundar nos povos indígenas brasileiros, conheci as nações selvagens americanas. Filmes e seriados de faroeste mostraram-me embates impagáveis entre colonizadores brancos e peles-vermelhas.

Índios seminus, montando cavalos sem selas, com cocares de penas coloridas e portando armas artesanais, enfrentavam bem armados invasores das pradarias de seus antepassados. Eram indígenas das tribos sioux, apache, comanche, creek, navajo, cherokee e pés pretos, que fumavam cachimbos da paz e se comunicavam por sinais de fumaça, mas, também, tiravam escalpos de prisioneiros adorando totens.

A reação violenta dos índios ao avanço dos brancos sobre aquele território inóspito, ensejou a participação da cavalaria americana em defesa dos colonizadores. Dos embates sangrentos se sobressaíram as participações lendárias de chefes indígenas, tais como Gerônimo, Nuvem Vermelha, Três Cavalos e Águia Negra.

A batalha de Little Bighorn, ocasião em que os sioux comandados por Touro Sentado e Cavalo Louco exterminaram a 7ª Cavalaria do general Custer, em 1876, permanece na lembrança do povo americano, após quase 150 anos do massacre.

Sabe-se que os indígenas norte-americanos eram mais organizados do que os brasileiros. Quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, certamente, foi recepcionado por índios tupis ou guaranis, nações que habitavam nosso litoral. O interior do país era ocupado por aruaques, tapuias, caraíbas e tribos não identificadas.

Outra constatação relevante é que a unificação do território nacional se deve, em parte, à miscigenação do colonizador europeu com o índio e com o negro, e a do índio com o negro resultando, respectivamente, no mameluco, no mulato e no cafuzo, etnias raciais típicas do povo brasileiro.

Finalmente, reconheço que o trabalho do marechal Cândido Rondon no centro-oeste e norte do país, contatando tribos indígenas desconhecidas, delimitando reservas, ampliando as comunicações e criando o Serviço de Proteção ao Índio foram preponderantes na preservação das nações indígenas ameaçadas de extinção, por conta de ações do homem branco na ânsia de se apossar de suas terras.

Diacuí, a quem me refiro no título deste texto, pertencia a tribo kalapalo, do Alto-Xingu. Tinha 20 anos de idade quando conheceu o sertanista Ayres Câmara da Cunha com quem se casou. A cerimônia ocorreu em novembro de 1952, na Candelária, no Rio de Janeiro, sob espetacular cobertura jornalística dos Diários Associados, de Assim Chateaubriand, o qual apadrinhou os nubentes.

Após o retorno à sua aldeia, Diacuí (Flor do Campo), às vésperas de parir o único filho, viu-se sozinha e entregue à própria sorte, pois o marido voara para Aragarças. A índia foi vitimada por tenaz hemorragia depois de dar à luz a uma menina.

Faleceu, em agosto de 1953, antes de completar nove meses do enlace, a protagonista do primeiro casamento de um branco com uma índia no Brasil.

DO CRIOULO DOIDO AO RIO ANTIGO

Ontem transcorreu o Dia de Tiradentes, feriado nacional em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, mártir da Inconfidência Mineira. Aliás, um dos poucos heróis brasileiros.

Lembro-me, claramente, como a data era reverenciada nas salas de aula do meu tempo de ginásio. Alunos embevecidos admiravam o fervor patriótico imposto pelos mestres às homenagens alusivas à coragem do mineiro de Ritápolis, que ousou contestar a autoridade da coroa portuguesa no Brasil.

O relato de como se processou a execução da sentença do mártir brasileiro nos deixava estupefatos pela crueldade impingida ao ato. Duzentos e tantos anos depois assistiríamos, anestesiados pela persistente divulgação midiática, cenas de bestialidade que poriam no chinelo àquela presenciada pelos cariocas em 1792.

O dia 21 de abril me fez recordar, também, o cronista, escritor e compositor Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, e o seu famoso “Samba do Crioulo Doido”.

Naquela sátira musical ele explorou, com descabida irreverência, a memória do alferes autor da primeira movimentação em prol da independência brasileira. Senão vejamos: “Foi em Diamantina/Onde nasceu JK/Que a princesa Leopoldina/Arresolveu se casar/Mas Chica da Silva/Tinha outros pretendentes/E obrigou a princesa/A se casar com Tiradentes”.

Continuando com a letra do samba: “Joaquim José/Que também é/Da Silva Xavier/Queria ser dono do mundo/E se elegeu Pedro II/Das estradas de Minas/Seguiu para São Paulo/E falou com Anchieta/O vigário dos índios/Aliou-se a Dom Pedro/E acabou com a falseta/…O bode que deu vou te contar”. Saudoso Sérgio Porto.

Aproveitando a deixa saudosista, exalto a criatividade de outro memorável brasileiro. Trata-se do humorista, escritor, ator, comentarista, diretor de cinema e compositor Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, ou melhor, Chico Anysio.

Dentre a dezena de músicas que conheço de seu repertório, nenhuma se compara, em beleza e síntese, com o samba Rio Antigo. Essa composição de 1979, resultado de parceria com Nonato Buzar, é uma homenagem nostálgica ao Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Eis o primor de alguns versos da música:

Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio Antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão
O ontem no amanhã
Quero o Carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Quero um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, um zum-zum-zum dos Cafajestes
Cidade sem Aterro como Deus criou

Agora ouçam a talentosa Alcione na magistral interpretação da obra-prima de Chico Anysio.

EU TOMO VIAGRA!

Foi assim, peremptoriamente, que Bernardo se manifestou em novembro de 2016, na reunião comemorativa dos 50 anos da turma concluinte do científico, meio século atrás.

“Por favor, não me venham insinuar que serei aqui o único a tomar a azulzinha? – afirmou Bernardo, complementando o seu raciocínio com a seguinte justificativa: “Vocês sabem que eu sei quais são as duas posturas dos homens em relação ao Viagra: existem aqueles que tomam e aqueles que mentem!”.

Dos 42 concluintes do ensino médio da turma de 1966, apenas 15 estavam presentes ao encontro. Mais de uma dezena havia morrido, outro tanto morava fora do Estado, isso sem falar naqueles que simplesmente desconsideraram o convite.

35% ainda era um percentual representativo do grupo que se reunia a cada cinco anos. A rotina imposta aos encontros era inalterada, porém, nunca enfadonha. As mesmas gozações, as mesmas lembranças, as mesmas piadas, nada era levado a sério naqueles momentos de descontração.

A sinceridade de Bernardo foi um fato chocante, haja vista o tabu inviolável criado em torno do consumo daquele estimulante sexual. Acontece, que tudo poderia acontecer onde estivesse o imprevisível Bernardo.

Houve um instante de silêncio, quebrado por Anacleto: “Bom, eu admito tomar o Viagra, mas, não que eu esteja precisando de estimulante para meu apetite sexual. O medicamento tem me ajudado, e muito, na reconstituição capilar” – ato contínuo retirou a peruca e tentou mostrar pelos inexistentes na careca reluzente.

Em outra situação, a piada estaria montada. Até porque, todos sabiam da peruca de Anacleto, mas, ninguém ousava tocar no assunto. Inimaginável, também, presenciar o colega se desprover do aplique e revelar um segredo guardado a sete chaves. Mesmo assim, não houve galhofa pela constatação da gritante falta de cabelos.

Pela primeira vez discutia-se um assunto sério numa daquelas reuniões quinquenais. Intimidados pela coragem de Bernardo e Anacleto, os demais presentes começaram a abrir o jogo. Partiu de Sílvio o primeiro comentário “sincero”:

“Tenho 68 anos e, uma vez e outra, sinto necessidade de algum estimulante. Não sempre, repito, mas numa data importante eu uso, sim, o Viagra!”.

Ricardo, o intelectual da turma, falou: “Eu já tomei a azul. Deixei por conta dos efeitos colaterais, principalmente, pela alteração de minha frequência cardíaca. Agora, quando puserem no mercado a nova pílula à base de cubenina – substância presente na pimenta-de-java ou piper cubeba -, a história será outra”.

Num piscar de olhos a reunião tomou outro rumo. Nada mais de assuntos passados ou de lembranças remotas. A cubenina virou o centro das atenções:

“É verdade que ela é 50 vezes mais potente que o Viagra, o Ciales e o Levitra?”; “Andam falando que durante os testes com a cubenina, todos os camundongos ficaram de ‘pinto’ duro”; “Há 20 anos estudam a cubenina para tratar a doença de Chagas, causada pela ‘picadura’ do inseto. Agora, tentam fazer durar a tesão no macho”.

Enquanto isso, Bernardo, assistia as manifestações juvenis de entusiasmo daqueles queridos e hipócritas colegas, ante a possibilidade de um potente milagre erétil em suas vidas.

CIDADE MARAVILHOSA

Efigênia, para os íntimos Geninha, divorciada, sem filhos, independente financeiramente, amava a vida, os homens e a liberdade. Há três anos deixara sua Natal querida para matar a saudade, se perder e se encontrar no Rio de Janeiro de onde guardava boas recordações do tempo de casada. Beirando os 50 anos possuía a vitalidade de uma mulher de 30. Adepta de tudo que envolvesse ação ou esforço físico mantinha aparência saudável e sarada.

Quando questionada acerca da mudança de vida, ela respondia: “Fugi para a incerteza do futuro na esperança de fazer meu ninho num local onde vida, homens e liberdade gravitem na esteira do amor verdadeiro”. Enquanto isso, Romildo, o seu último namorado, ficou lambendo as feridas do abandono e lendo o Evangelho.

E como ela esbanjava amor e vitalidade! Por ser independente, consciente de suas limitações e bem resolvida, superava facilmente as decepções decorrentes dos envolvimentos afetivos. Amargou várias desilusões amorosas, em contrapartida destroçou, sem remorsos, inúmeros corações enamorados.

E assim se deixava levar curtindo a vida, descobrindo trilhas na beleza pura da natureza e dançando a música que sua alma cobrava. Geninha nunca imaginou enfrentar o revés que o destino lhe engendrou utilizando o mesmo fio das teias nas quais ela subjugava suas conquistas.

Há seis meses namorava, simultaneamente, dois solteirões na faixa dos 40 anos de idade, oriundos de bairro da Zona Sul do Rio. Caio, ela conhecera explorando trilhas na Floresta da Tijuca; Abel, em curso de bioenergética e danças circulares em Saquarema. Sobre ambos, ela repetia serem boa gente, mas com temperamentos e personalidades totalmente opostos.

Caio gostava de aventuras ecológicas e de esportes radicais; Abel, de tênis, ciclismo e fotografia. A agitação de Caio o direcionava para embalos, música pesada e a companhia de muitos amigos. A tranquilidade de Abel o conduzia para peças de teatro, bons restaurantes e vinhos de qualidade. Abel adorava Geninha, mas ela era vidrada em Caio. Enquanto Abel se declarava encantado, Caio se esquivava evasivo. Meses passaram sem que o triângulo amoroso alcançasse a dualidade.

De tanto Abel insistir para Geninha conhecer sua família, ela finalmente capitulou e lá se foi, num domingo ensolarado, compartilhar feijoada na casa dos pais do namorado apaixonado. Ao entrar, e antes de ser vista pelos anfitriões notou uma silhueta bastante conhecida sua, embora postada de costas para ela.

Quase desmaiou ao apresentarem Caio como irmão de Abel. Caio não moveu um músculo sequer, mas Abel desconfiou da reação de Geninha. A desunião se instalou no seio da família dos dois filhos únicos, com os pais abnegando o dúbio relacionamento e cortando relações sociais com Geninha, considerada amoral, aventureira e doidivanas.

Por outro lado, o caos dominou a vida de Efigênia. Ela procurando reatar com Caio e ele a rejeitando. Abel insistindo em renovar o namoro e ela o evitando. Cenas constrangedoras se repetiram envolvendo, inclusive, amigos de Geninha. Antevendo algum desfecho irreparável, Efigênia se viu imposta a outra decisão radical. Rompeu laços com a metrópole dos sonhos e voltou para o Nordeste.

Romildo, homem manso de coração, recebeu Geninha de braços abertos como se nada tivesse ocorrido. Geninha jamais explicou as razões do retorno nem ele quis saber se lhe puseram galhos na testa.

Certa noite, lendo para a amada trechos de Gênesis 4, na Bíblia Sagrada, distraído, ele se referiu aos filhos de Adão e Eva como Abel e Caio. Assustou-se, mas continuou a leitura. Efigênia deixou de falar em Cidade Maravilhosa, mas, permanece curtindo a vida, a liberdade e os… Ah, deixa isso pra lá!

QUAL LEITE DEVO TOMAR?

Atravessamos a onda do radicalmente correto. É o politicamente correto, o moralmente correto, a correta vida ao ar livre e, agora, a postura alimentar correta.

Quanto ao correto posicionamento alimentar, são tantas e tão contraditórias as opiniões acerca do que podemos ou não devemos consumir, que chegamos ao ponto de recear comer até uma fruta qualquer colhida do pé.

A demanda por alimentos livres de certos ingredientes, aliada à corrente que prega hábitos mais saudáveis, fez crescer o mercado de produtos sem glúten e sem lactose.

Imagino o drama de quem desenvolve intolerância à lactose – o açúcar natural existente no leite. Faço do produto oriundo dos úberes das vacas – e seus derivados -, a base de minha rotina alimentar. Consumo, com e por prazer, o queijo, o iogurte, o creme de leite, a nata e o leite. Costume esse induzido por minha mãe, alegando existir no leite fontes inesgotáveis de cálcio e de vitaminas B e D.

Dispomos de quatro opções de consumo de leite: in natura, no saquinho, em pó e na caixinha (UHT – temperatura ultra alta). O leite consumido após a ordenha é saboroso e saudável, porém, é impraticável manter uma vaca no quintal da casa ou na varanda do apartamento para usufruir desse prazer no momento desejado.

O leite no saquinho, o popular leite pasteurizado, recebe um tratamento térmico suave que garante a destruição de bactérias patogênicas. Nesse tratamento térmico, as proteínas e açucares do leite são mantidas e os lactobacilos benéficos permanecem vivos, porém, as vitaminas do complexo B sofrem pequenas perdas. A desvantagem do leite no saquinho é o reduzido tempo de validade.

Já o leite em pó se caracteriza pela quase total ausência de umidade. Uma das versatilidades do produto é a durabilidade prolongada – até 18 meses se armazenado adequadamente. O diferencial negativo consiste em não manter a sensação de frescor nem o sabor do leite líquido após ser reidratado.

Alguns aditivos são utilizados também no leite em pó. O principal deles é o emulsificante lecitina de soja, utilizado para deixar o produto com “cara de leite” após a adição de água.

Finalmente, o leite na caixinha. Esse produto sofreu campanha desabonadora após divulgação de que utilizavam água oxigenada e soda cáustica para evitar a decomposição prematura.

Segundo explicação da Associação da Indústria do Leite Longa Vida-ABLV, ao passar pelo processo de ultrapasteurização e ser envazado em embalagens assépticas, o Leite Longa Vida fica protegido de qualquer contaminação e não necessita de nenhum conservante.

A associação, porém, admite a utilização de estabilizantes como o citrato de sódio, o monofosfato de sódio, o difosfato de sódio e o trifosfato de sódio, citados na embalagem do produto. Segundo a ABLV “o estabilizante não é conservante e não faz mal à saúde” (Ambiente Brasil – Verdades sobre o leite de caixinha – 03/12/2007).

Eu gostaria de consumir um leite cujo sabor se aproximasse daquele oferecido pelas vacarias da minha infância. Qual leite devo tomar?

SAÚDE E PRECONCEITO

Dizem que a mulher é sexo frágil, porém, eu duvido que o homem tenha a capacidade de suportar tanta dor quanto ela. A começar pela dor do parto. Admiro a coragem com a qual elas se submetem a baterias periódicas de exames em prol da manutenção da saúde plena. A todos os testes, gostando ou não, elas os enfrentam com determinação e garra.

Um exemplo é a mamografia. Com a finalidade de analisar visualmente o tecido mamário à procura de nódulos cancerosos, elas aceitam que lhes comprimam os seios numa prensa, suportando estoicamente dores e desconfortos. E o que dizer da coleta de material para o exame citopatológico do colo do útero ou exame Papanicolau?

Por maior que seja o pudor, a vergonha ou o receio que as consumam, as mulheres, a eles se submetem na busca de uma vida saudável. Um dos motivos, suponho, seja o fato de se preocuparem com as próprias famílias, antes de pensaram em si mesmas.

Sim, contrair algum mal grave as apavoram. Não por receio da morte, mas, pelo temor de verem desestruturados seus lares, caso sejam acometidas por tais doenças. Daí tanta responsabilidade de manter intata a saúde.

Voltemos, agora, os holofotes para nós homens. Conosco a história é diferente. Descaso, receio, vergonha e preconceito integram o arsenal de mecanismos de defesa que nos ajudam a fugir de qualquer exame clínico, invasivo ou não, para localizar alguma mazela que nos aflija.

Querem um exemplo? Pois lá vai o mais temido de todos: o toque retal nas profundezas do ânus para identificar a possibilidade de câncer de próstata. O dito exame é a vergonha das vergonhas. Uma agressão, um acinte, uma invasão ao recanto guardião da honra imaculada tão preservada e exaltada pelo macho.
Não foi à toa que seu Amaro – um modesto servidor público, meu colega de repartição – preferiu chupar o supositório em vez de enfiá-lo fiofó adentro. E quando eu o orientei sobre como fazer o procedimento correto, ele retrucou dizendo: “Doutor, aqui por baixo nem formiga entra”.

Vasectomia? Hoje afirma-se com alguma segurança que essa cirurgia deixou de ser um tabu. Mas, num passado não tão distante, era improvável o homem pensar em planejamento familiar através desse método contraceptivo. É claro que a responsabilidade caberia a mulher mediante ligadura de trompas, procedimento esse, mais invasivo e arriscado do que buscar a infertilidade com a vasectomia.

Enfim, chegamos a colonoscopia (Ah, aquele bendito dedo à procura da próstata!). O tal exame, que aparenta ser um teste de penetração quilométrica, permite a análise das paredes do reto, cólon e parte do íleo terminal, por intermédio de um tubo flexível introduzido via ânus. Durante o procedimento injetam ar para melhorar a visualização, o que causa cólicas após o procedimento um tanto quanto deprimente.

Já ouvi marmanjo garantindo que prefere abrir a titela para implantar pontes de safena do que se submeter à colonocospia. A verdade é que, por temor ou preconceito, estamos mais susceptíveis a contrairmos doenças letais porque não nos subjugamos a exames indispensáveis quando no momento e hora devidos.
Moral da história: enquanto a mulher usa a razão para descartar o medo de exames; nós homens, com atitudes infantis, ousamos tratar o perigo com escárnio.
Por isso, tanta morte prematura na conta de um preconceito descabido.

TAPIOCA PODE MATAR

Meu amigo Tomaz Edson é um engenheiro em permanente busca por uma vida saudável. Não o reputo hipocondríaco, embora o excesso de zelo com a saúde lembre alguém portador da mania. Em sua última estada em Portugal, ele viajou sentindo uma persistente dor no estômago. Bastaram poucos dias em Lisboa para o incômodo desaparecer sem que ele identificasse a causa do mal nem o motivo da cura.

Acontece de a tapioca, iguaria tipicamente brasileira de origem indígena tupi-guarani, feita com a fécula extraída da mandioca ser, no momento, a mais nova sensação na gastronomia lusitana. A comida caiu no gosto do português ao ponto de gerar uma febre de tapiocarias em diferentes bairros de Lisboa.

Foi num programa de televisão local que debatia a iguaria brasileira, onde Tomaz supôs encontrar o motivo da mazela que o acometeu. Ao entrevistarem um coloproctologista da terra surgiu questionamento acerca dos efeitos da tapioca no intestino humano. Assim respondeu o dito especialista: “Esse produto é letal, pois contém cianeto”. Eureka! A tapioca fazia parte da dieta de Tomaz Edson, no Brasil.

A mandioca contém o ácido cianídrico, que é transformado em cianeto, um veneno mortífero para nós humanos. Ataca células nervosas, causa danos nas funções dos pulmões e dos rins e, sobremaneira, no sistema digestivo. Devido ao poder letal é o escolhido para execuções nas câmaras de gás.

A tapioca ou goma de mandioca hidratada, é um alimento secular na gastronomia brasileira. Iguaria difícil de ser abolida, sem mais nem menos, da mesa do nordestino. Por outro lado, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), em 2016, o câncer de estômago nos homens foi o segundo tipo mais frequente nas Regiões Norte e Nordeste do país.

O professor Raimundo Nascimento da Universidade do Amazonas (UFAM) é um preocupado com a manufatura adequada da tapioca. É dele este alerta: “Quando se compra a goma para o preparo da tapioca, a pessoa não sabe como ela foi preparada. Se quem vendeu a goma retirou apenas a película, induz o consumidor a ingerir o ácido cianídrico. É necessário retirar toda a casca, que representa, aproximadamente, 10% da fécula”.

E complementa o estudioso do assunto: “A cotia – mamífero roedor que vive nas matas e capoeiras -, já ensinou isso para as pessoas. Ela retira toda a casca e come somente a batata”.

Chegando em Natal, Tomaz procurou a ANVISA atrás de respostas para tranquilizá-lo. Descobriu não existir nenhum tipo de controle sobre a industrialização do produto. Apavorado, eliminou a tapioca do cardápio.

Em recente viagem a Recife, no hotel onde nos hospedamos serviam tapiocas feitas na hora. Ao ver o “absurdo” ele saiu da sala, procurou o gerente e deu-lhe a seguinte sugestão: “Entre na internet e digite estas três palavras: mandioca, tapioca e cianeto”. Coincidência ou não, no outro dia não ofereceram tapioca no desjejum. Ao fechar a conta o tal gerente lhe falou: “Fiquei estarrecido com o que li!”.

Esta semana Tomaz me mostrou a seguinte notícia veiculada num jornal de Caracas: “Alerta en Venezuela por cinco muertes causadas por yuca amarga”. Yuca é a nossa mandioca, tubérculo com o qual é feito a tapioca.

Acho um exagero o temor do amigo, mas, pelo sim pelo não, em vez de consumir duas tapiocas no café da manhã, agora só me atrevo a comer uma.

AS VELHINHAS DO JUVINO BARRETO

Você quer entender o real significado do termo crepúsculo da vida? Se esse é o seu desejo, então dedique um naco de qualquer dia a algum abrigo de idosos, e se deixe rodear pelos moradores da instituição para conhecer as suas histórias, anseios e frustrações. Tenha paciência para ouvir lamentos de cortar corações, relatos de separações dolorosas e exemplos chocantes de ausência de auxílio ao próximo, quando o auxílio e o próximo compartilhavam do mesmo teto.

Descubra focos de esperança onde predomina a desilusão. Avalie, sem temor, a possibilidade de ser um daqueles indigentes enrugados, vítima da cruel ingratidão parida do desamor no seio da própria família. Imagine-se convivendo com a monótona certeza de sentir a presença da morte rondando seu arremedo de corpo, dia após dia, tentando ceifar o pouco de vida que ainda lhe resta.

Aí, talvez, você absorva o sentimento de desamparo daqueles velhinhos, hóspedes de casas de apoio a indivíduos no limiar de suas existências. Aqui retrato algumas histórias de vida de moradores do Instituto Juvino Barreto, em Natal, cujos relatos pseudônimos os acobertam.

Leonor, 92 anos. Às primeiras horas da manhã, antes do café, ela já está com a mala arrumada e vestindo a sua melhor roupa. Passa o resto do dia numa das cadeiras dos alpendres do abrigo com o olhar de ansiedade fixado no portão de entrada. “Aonde vai tão arrumada a esta hora da manhã, dona Leonor?” – perguntam-lhe. “Espero por meu filho para me levar para João Pessoa. Ele me deixou aqui e garantiu que voltaria logo. Estou ‘pronta’ para não dar maçada nele”.

Nair, 89, espírito jovial, faladeira e esbanjando otimismo. “Olhe moço! Eu passo apenas uma chuva neste hotel. Minha filha me mandou para cá até terminar a reforma na sua casa. Ela está construindo um quarto com banheiro somente para mim. Aqui me tratam bem, mas nada se compara ao nosso cantinho junto da família, não é mesmo?” Confiando piamente na certeza de seu retorno à casa da filha, dona Nair, mãe amorosa, entende o abandono definitivo que lhe impuseram como sendo uma situação adversa, mas passageira.

Selma, 91, advogada, abastada e conceituada integrante da sociedade natalense de antigamente. Nunca casou. Sem marido sem filhos nem parentes vivos, e também sem dinheiro, estava entregue à própria sorte. Veio para o abrigo por mãos piedosas de vizinhos que a encontraram sozinha, nas piores condições de higiene e saúde numa casa tomada pela imundície. Pouco fala do passado.

Carminha, 88, professora, viúva, sempre atenta ao que acontece ao seu redor distribui conselhos, palpites e justificativas a toda hora. Quando questionada sobre a sua situação no abrigo, ela responde com sinceridade desconcertante: “A culpa de toda esta infelicidade foi de minha nora. Meu filho, coitado, viu-se obrigado a me abandonar aqui por exigência dela. Só tenho pena dos meus netos, pois são loucos por mim” – e, respondendo a outra pergunta: “Ela não permite que o marido me visite. A última vez que o vi foi numa véspera de Natal não sei de qual ano.”

Alguns traços fisionômicos daquelas mulheres guardam resquícios do quanto foram bonitas no passado. Hoje, elas autenticam verdades do Livro dos Provérbios, como a que garante: “…o encanto é enganador e a beleza é passageira”.

Esses relatos são retratos de situações corriqueiras, artífices do histórico de solidariedade daquela casa de caridade. Embora tomado pela aflição de haver conhecido uma máquina de esperanças frustradas, satisfiz-me por entender o significado do termo ocaso da vida, último e desolador estágio da condição humana.

AH! ESSAS MULHERES…

Dentre tantas homenagens fora de propósito, uma das mais pertinentes foi a escolha de 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. No embalo dos preitos à data que se aproxima, impulsionado por dever de consciência, urge admitirmos nossa condição de escravos da vontade da mulher moderna.

E pensar que já houve um tempo em que, empunhando borduna numa das mãos, as arrastávamos cavernas adentro para nos aquecer do frio ou para servir de instrumento de preservação da espécie. Hem? Quem viu essa cena, há muito virou fóssil; quem não a viu, esqueça, pois não a verá jamais.

Os homens, ao longo dos séculos, regrediram e perderam a condição de todo-poderosos para a de meros espectadores diante da evolução do sexo oposto. Enquanto as mulheres – ah, essas mulheres maravilhosas! -, ultrapassaram barreiras, derrubaram mitos, desmoralizaram convenções, superaram preconceitos e demarcaram o espaço desejado por elas na sociedade.

Escolheram o que melhor sabiam fazer e, transferiram aos homens, atribuições próprias da masculinidade como cozinhar, passar, lavar, costurar, arrumar casa, fazer supermercado, limpar cocô de cachorro e carregar peso. Parir é uma prerrogativa divina, abençoada por Deus, esta elas preservaram para si, mas imputaram aos homens a nobre tarefa de cuidar dos filhos.

No processo evolutivo de eliminação da incômoda condição de subserviência aos homens, as mulheres se tornarem livres, leves, soltas, independentes e senhoras dos próprios destinos. Abnegaram certos qualificativos diminutivos de exaltação à feminilidade, tipo gatinha, fofinha, cabritinha e bonitinha, na proporção em que economizavam elogios ao padrão masculino de qualidade subtraindo adjetivações superlativas como garanhão, homenzarrão e gostosão.

Bem cuidadas, bem produzidas, bem apessoadas, mais vaidosas e seguras das novas posições conquistadas, adoram ser tratadas como colosso, deusa, diva, musa, oitava maravilha, monumento, avião e mulherão.

Se por um lado, essa condição ampliou a autoestima feminina, por outro destruiu a masculina criando uma legião de machos intimidados, dopados, complexados, inseguros no processo de envolvimento amoroso e no papel de conquistador de mulheres poderosas.

Homens acovardados, incapazes de absorver com naturalidade o sucesso das fêmeas no mundo moderno e, desapontados, ao constatar o ocaso da virilidade masculina na relação homem e mulher independente. Será a comprovação do final dos tempos ou apenas um sinal da involução do macho? Não sei responder.

Mas nem tudo está perdido. As mulheres ainda cultivam muitas das manias, ódios e virtudes de outrora. Elas adoram ser o alvo da atenção dos parceiros, passar horas ao telefone, receber flores, senso de humor sadio e romantismo. Gostam de um ombro amigo para chorar, de elogios, beijos, de esbanjar dinheiro em compras, acompanhar novelas água com açúcar e histórias de amor.

Elas seguem detestando esquecimento de data importante, dividir conta em restaurante, barriga mole de chope no parceiro, não ser notada de visual novo e morde-se de raiva quando o marmanjo usa o vaso sanitário sem suspender o assento. Continuam amando ficar penduradas em telefones falando mal das mulheres.

Resumindo: guardam poucos dos predicados que nós homens não cansamos de admirar, e muitas das pirraças que detestamos aceitar. Segundo Arnaldo Jabor, “as mulheres não são mais para amar nem para casar, são apenas para ver”.

Discordo dele, as mulheres existem para que as amemos desde que não nos preocupemos em entendê-las. O resto é implorar aos céus com devoção: “Senhor, dai-nos força para mudar o que posso; coragem para aceitar o que não posso; e, sabedoria para bem conviver com a evolução do enigmático sexo frágil”. Assim seja!

CARNAVAL E CARNAVAIS

Dizem que o Carnaval teve origem na Antiguidade. A palavra vem do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Está relacionado com o jejum do mundo cristão, que deveria ser observado na quaresma. Esse procedimento sacro foi-se afastando da beatitude até se transformar na mais pagã das festas populares.

O entrudo, no período colonial, é considerado uma das primeiras manifestações carnavalescas no Brasil. Em seguida vieram os ranchos, os cordões, os corsos, os bailes de salão e as escolas de samba. Com o passar dos anos outras tendências culturais foram se incorporando ao movimento, até alcançar o estágio atual.

Na mitologia grega, Momo, é tida como uma das filhas da deusa Nix – personificação da noite -, gerada sem um pai. Na Roma antiga, Momo, era representada pelo soldado mais bonito, sendo coroado e reverenciado como um rei. Já o nosso Momo surgiu no Rio de Janeiro, em 1933, na forma de um boneco de papelão, denominado Rei Momo I e Único, tornando-se um monarca de carne e osso no ano seguinte.

Carnavais são festejados em diferentes nações do planeta, porém, nenhuma absorveu melhor a essência do mundanismo momesco como o nosso país. Certamente, resultado da dosagem exata da miscigenação de raças junto a alegria inata do povo, aliadas à sensualidade provocada pelo clima tropical perene da terra brasilis.

O misto de luz, cor, bebida, fantasia, alegoria, coreografia, mulher seminua, despudor, animação, irreverência, liberdade, baixo custo, música e aceitação popular não poderia ser mais oportuno para se encaixar no objetivo de divertir multidões. Daí ninguém conseguir ficar alheio à magia do Carnaval, até porque não sobra espaço para a indiferença. A farra é para ser amada ou odiada, intensamente.

Brinquei carnavais quando ainda se respeitavam determinados limites. Onde se bebia muito sem a presença de drogas pesadas e, onde o mais próximo que se chegava dos alucinógenos de hoje era o éter contido no lança-perfume Rodouro.

Participei de blocos “assaltando” casas de famílias amigas, que se insinuavam para nos receber; guardo lembranças das noitadas carnavalescas nos clubes sociais, madrugadas adentro; e, das voltas seguidas nos circuitos destinados aos corsos, sob olhares atentos e insinuantes de jovens namoradeiras.

Acompanhei, nas páginas do Cruzeiro e da Manchete, as notícias dos bailes do Rio de Janeiro e dos folguedos de rua de Recife e Olinda, babando de inveja.

Sem ser um fanático pela folia de Momo, eu vivi momentos inesquecíveis. Por essa razão, não repudio e até compreendo a tendência do Carnaval moderno. Afinal, para tudo há o seu tempo, restando aos carnavais passados ficarem armazenados nos arquivos de memórias e nas lembranças de foliões saudosistas.

Dom Helder Câmara, em 1º de fevereiro de 1975, na Rádio Olinda AM, na sua crônica radiofônica “Um Olhar sobre a Cidade”, conclamou fiéis a brincarem o Carnaval, dizendo:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o Carnaval”.

E complementou: “Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida”.

Falou pouco e disse muito, Dom Helder!

ZUMBIS CIBERNÉTICOS

Recebi correspondência de uma associação beneficente pedindo ajuda material para mantê-la em atividade. Ao enviar o ajutório o contribuinte ficaria habilitado a acender uma vela e credenciado a pedir uma indulgência ao santo protetor da entidade. O fato inusitado nesse processo consistia na comodidade de acender a vela com um simples toque de celular, não importando a distância interposta entre o doador e o círio eletrônico. Isso mesmo, uma das facilidades tecnológicas da modernidade!

Facilitar a vida do indivíduo é a tônica do momento. E já sentimos a mudança comportamental decorrente de novos procedimentos e costumes inseridos no nosso cotidiano. Num primeiro instante apareceu o computador, em seguida, a internet. Criados como artifícios corporativos tais elementos, em duas décadas e meia, assumiram a condição de acessórios particulares indispensáveis na vida do cidadão.

Aliados à telefonia celular, eles interagiram e se apropriaram da boa receptividade de quem os possuía. Daí, até mudar o uso eventual para um hábito anormal foi um passo minúsculo. À medida que a união umbilical com essas engenhocas eletrônicas se consolidava, nós nos transformávamos em miseráveis dependentes de uma virtualidade incurável condenados a um destino cibernético pavoroso.

Imaginar o espanto de quem viu a carroça ser substituída pelo carro ou com o movimento do trem sobre trilhos, de constatar a voz humana percorrendo um fio de cobre ou de visualizar um avião suspenso no ar, daria a proporção exata do sentimento que nos incomoda hoje. A velocidade das mudanças nos deixa desnorteados e num permanente estado de perplexidade, digerindo a latente sensação de ansiedade quanto ao desfecho de tudo isso.

Geração de economia e ganho de tempo são os combustíveis dos motores que deflagram essas mudanças promovidas pelo progresso. Algumas condutas até então indissociáveis do nosso dia a dia estão perdendo a utilidade e sumindo sem que percebamos. Tudo em nome do menor custo e da agilidade que requer a adequação aos novos tempos.

Um exemplo é o cheque cedendo espaço para o dinheiro de plástico. Outra vítima é o telefone fixo – em nome da praticidade está fadado ao desuso. O livro também consta desse rol, pois em breve será motivo de curiosidade nos acervos de bibliotecas centenárias ou relíquias de abnegados defensores de leitura em papel.

O cheiro de tinta das letras do jornal impresso será substituído pela luminosidade irritante das notícias projetadas em telas de computadores. Os Correios digerem o sumiço de postagem de cartas e telegramas, porque os e-mails substituem em rapidez, custo e praticidade tais correspondências. A difusão de mensagens eletrônicas e a facilitação de contatos por viva voz forçarão a adequação do objeto daquela empresa pública de mais de 350 anos de existência.

Das perdas registradas pelo avanço do progresso, a da privacidade é a mais preocupante de todas. Não bastasse a exposição de parcela da humanidade nas redes sociais, a invasão da intimidade pessoal, em nome da segurança e do bem-estar comuns, já causa desassossego. Pelo caminhar das inovações nem os mais primitivos comportamentos individuais ficarão longe do alcance da bisbilhotice institucionalizada.

No século XIX as locomotivas, o telégrafo e o telefone encolheram o mundo. No século XX a televisão, o avião e a informática globalizaram-no. Na atualidade, a internet e a telefonia celular puseram o planeta na era da nanotecnologia.

E quanto a nós, os incomodados com a rapidez do progresso, estamos fadados a conviver interligados como zumbis cibernéticos. Bem feito!

NOTAS DE VIAGEM

Li, ou ouvi dizer, aqui ou alhures, que se descortina o caráter de um indivíduo submetendo-o a uma destas três situações distintas: numa mesa de jogo com apostas, emprestando-lhe dinheiro ou acompanhando-o em viagem com duração de mais de uma semana.

Quanto às duas primeiras alternativas não posso me manifestar com conhecimento de causa, mas, comprovo na prática a teoria da última. É impressionante a transformação que se observa no comportamento de determinados companheiros quando submetidos às asperezas de uma viagem longa.

Não tenho o direito de prejulgar ninguém, e até entendo que tais alterações de compostura decorram das pressões contidas numa circunstancial e brusca mudança de hábitos, dando vazão à ansiedade, ao receio, ao estresse, à contrariedade e à necessidade de fazer valer nosso ponto de vista. É tiro e queda. Querendo ou não, nós nos mostramos como somos aos parceiros numa convivência prolongada distante do nosso habitat natural. Mas aí é que reside o foco da questão. Sem essa experiência fica difícil delinear o perfil da companhia ideal para viajar.

Para o bom convívio em viagens com amigos, me ensinaram que tudo se resumia ao trinômio: compreensão, espírito de corpo e renúncia. A teoria não teria eficácia quando em viagens atreladas a excursões, onde o grupo é manietado por horários e tangido tal qual cordeiros obedientes ao cajado ou ao assobio do condutor do rebanho.

Disseram-me ser essencial manter o espírito de corpo. Afinal você integra um grupo imbuído do mesmo objetivo: compartilhar momentos agradáveis em ambientes diferentes daqueles do dia a dia de cada um. Outro ponto seria compreender e aceitar as preferências dos membros da excursão buscando o consenso para a manutenção da unidade do conjunto. Por último, saber quando e como renunciar aos próprios anseios privilegiando a programação da equipe para não ser tachado de estraga prazer ou comparado a um roda-presa.

Isso na teoria funciona que é uma beleza. Agora leve para a prática e veja o que é bom para tosse. Existe o tal outlet, cuja única função é desestabilizar qualquer planejamento elaborado durante meses de pesquisa, em cima de mapas ou da história de cada país a ser visitado.

Mas, a quem responsabilizar pelo desmando? Ora, a quem! Àquelas com quem a vaidade melhor se identifica. Parceiras capazes de voltar às costas a pinturas e esculturas do Renascimento se houver do outro lado da rua vitrines com roupas de grife. Ou de descartar do roteiro qualquer obra arquitetônica da Idade Média se aparecer no percurso alguma promoção de produtos femininos de beleza.

Aprendi uma estratégia para o caso de amigos optarem pelas compras em detrimento de visitas a museus. Eu os deixo à vontade pedindo para não se constrangerem. Defino um local de encontro e vou satisfazer minha curiosidade em área distinta daquela.

Como para quase tudo na vida existe uma explicação, encontramos na natureza o motivo da compulsão feminina por compras de embelezamento. São as diferenças existentes no mundo animal onde, ao contrário do mundo racional, os machos são os privilegiados esteticamente. Isso desperta nas mulheres o agente patogenético causador do mal do culto à própria beleza. Se assim for, que a natureza siga o seu curso.

Tudo pode ser resumido num único conselho, para quem quiser viajar em paz. O segredo é esquecer as mulheres nas compras e aguardá-las num barzinho aprazível, se possível, na companhia de um honesto vinho nacional.

O “CROQUE”

Não se trata de um apanhado de cabelo enrolado que se fixa no alto da cabeça. Tampouco, nenhum resíduo ou derivado obtido do carvão vegetal. O “croque” aqui referido consiste naquele golpe desferido no platô da cabeça com os nós dos dedos. Também conhecido como castanha, cascudo e cocorote, o “croque”, no meu entendimento, é o castigo mais cruel e covarde aplicado numa criança.

Quem já foi vítima de um cocorote daqueles entende minha revolta. Existe toda uma técnica desde a preparação até a finalização do croque. Primeiro, a mão deve se posicionar como a ponte de um aríete. Fechada, com quatro dedos bem seguros pelo polegar, de tal forma que o nó do dedo médio se sobressaia dos demais. O golpe para ser perfeito deve atingir o centro do cocuruto do fedelho. O meio da moleira. Aí é tiro e queda.

Via de regra, o algoz que aplica o golpe é um adulto e, as vítimas, crianças. Vem sempre de cima para baixo. O efeito deletério do “croque”, de tão intenso, não se traduz apenas com palavras. Trata-se de uma dor forte, intensa e momentânea, embora o machucado permaneça por horas ou dias.

A pancada ao atingir determinada extremidade nervosa aciona um circuito elétrico que, em milésimos de segundo, percorre toda a extremidade do corpo da cabeça à ponta do pé. Dependendo da violência, desconecta o controle da bexiga ou antecipa a programação biológica da evacuação. Acredito que o “croque” una a raça humana em torno do quesito coisa mais detestável.

Dias atrás presenciei, numa avenida da cidade, um pai que na ânsia de calar o filho chorão, lhe desferiu tamanho cascudo que fez o fedelho se acocorar de dor. Lembrei-me, então, de todos os cascudos de minha vida. Nunca apliquei um único cocorote nos meus filhos. Nem cocorote, nem peteleco ou piparote, como queiram chamar.

Para quem não sabe, peteleco é o golpe infame desferido nas costas da orelha do indivíduo, decorrente da liberação da tensão imposta ao dedo médio pelo polegar. O dedo escapa como uma catapulta. Dói menos que o cocorote, porém, em compensação, deixa um ardor desgraçado na orelha.

De todos os cascudos dos quais fui vítima, um em especial o quengo nunca esqueceu. O cenário era a cidade de Natal, em 1956. Eu estudava no Colégio São Luís, de padre Eymard, na Rua José de Alencar. Era o mais franzino da turma e alvo contumaz das gozações dos colegas.

Reinava absoluto no colégio um estudante de compleição avantajada, temido por todos. Quem ele escolheu para servir de escada para as suas gaiatices? Eu, claro! Escrevia não lia, o cocorote comia. De minha mãe a recomendação era a seguinte: “Se apanhar no colégio, também apanha aqui!”. Sabendo-me incapaz de enfrentar o brutamonte, de igual para igual, eu vivia meu dilema atroz: falar ou não em casa acerca das agressões sofridas? Optei por dar um basta à incômoda situação.

A desforra aconteceu quando padre Eymard recebeu de doação alguns caminhões de paralelepípedos para pavimentar a quadra de esportes. Por economia, ele estabeleceu como aula de educação física o transporte das pedras, da rua para dentro do colégio. A tarefa sobrou para a molecada masculina.

Eu, magricela, de calção e sapatos fui, mais uma vez, ridicularizado pelo grandalhão. Humilhado, postei-me atrás de meu algoz, acompanhei-o na demonstração de sua força carregando dois paralelepípedos de uma só vez e, juntos, soltamos nossas pedras. Ele, na pilha formada no pátio do colégio. Eu, no seu pé direito. O resultado? Fui retirado do colégio, feliz da vida, pois não apanharia mais.

ÓDIO POR ÓDIO

Ao criar a situação hipotética contida no texto “Pena de morte à brasileira”, eu o fiz com a exclusiva intenção de provocar o debate. E me parece que ele se deu. Concordando ou não, a discussão é salutar. Afinal, como diria Millôr Fernandes, livre pensar é só pensar… E escrever – o adendo é meu.

Não exacerbo na questão dos direitos humanos nem comungo com a injustiça desbragada. Sou de opinião que o bom-senso deveria reger todas as ações humanas. Raciocino dessa maneira porque a sensatez, a cautela e o equilíbrio comandam o bom desempenho de qualquer atividade, decisão ou julgamento. Não é à toa a razão do adágio “ter juízo é ter bom-senso”.

Acredito que violência gera violência. E quanto mais se incite a violência em maior intensidade ela retornará. É dever do estado, sim, manter a segurança de seus concidadãos, assim como lhes fornecer o direito à saúde e à educação. Também concordo com a política de tolerância zero na manutenção da ordem pública.

Porém, considero uma pena de morte anunciada trancafiar qualquer cidadão condenado para cumprir sentença na maioria dos presídios brasileiros. Ver homens amontoados em jaulas, recebendo tratamento sub-humano, causa indignação ao apenado e a quem observa a sua decadência e degradação. Viver encarcerado sob a permanente égide da incerteza, da insegurança e do medo é preferível morrer.

Nada justifica o abandono e o descaso do poder público ao permitir a transformação de equipamentos de punição e de correção de conduta de cidadãos em fábricas de criminosos desalmados e cruéis.

Tive vergonha das cenas da rebelião no presídio de Alcaçuz veiculados pela televisão, em tempo real, durante doze dias deste fatídico janeiro de 2017. Se já oferecíamos ao mundo a imagem de nação de selvagens, alia-se agora, também, a de bárbaros que degolam os desafetos e expõem as suas cabeças como troféus. Conceber Natal, que já foi a mais pacata capital do país, transmudada numa das mais violentas cidades do planeta é estarrecedor.

Melina Duarte, no artigo “A Lei de Talião e o princípio de igualdade entre crime e punição na Filosofia do Direito de Hegel”, discorre que o “olho por olho, dente por dente” na Lei de Talião, na atualidade, nos aparece como uma forma cruel e bárbara, fomentando melhor a vingança do que a necessidade de se punir com justiça. E que é preciso que fiquemos atentos ao fato de que aquela máxima é baseada no equilíbrio adequado entre o crime e a punição.

Surge, então, a hipótese de o Estado estar ampliando a desigualdade na aplicação da punição, no instante em que mantém o apenado em prisões desumanas, acirrando o seu ódio e incitando-o à violência. Se houve barbaridade no ato criminoso do condenado, o Estado também comete a barbárie de não aplicar ao cidadão a adequada reparação do erro. Pior: anulando-o como ser humano.

Não tenho dúvidas de que se continuarmos alimentando a insensibilidade e o ódio nos criminosos mantidos em nossos antros de terror, a retaliação será a violência atingindo a sociedade, indiscriminadamente, e com ódio redobrado.

E assim sendo, que Deus se apiede dos inocentes.

PENA DE MORTE À BRASILEIRA

Samuel, 22 anos, tez morena, ensino médio concluído, arrimo de família, integrante do sistema carcerário brasileiro, foi preso por assalto à mão armada, condenado e trancafiado num dos presídios rebelados em 2017.

Foi um julgamento sumário. Tão logo de posse da peça acusatória, o juiz na ânsia de anular mais um predador da sociedade, e para não desmerecer a fama de julgador linha dura, foi inclemente na decisão judicial:

– Como demonstram os autos, o apelante foi reconhecido pela vítima que descreveu, em detalhes, como ocorreu a conduta criminosa. Nos crimes cometidos na clandestinidade, a palavra da vítima tem valor de destaque na prova e possui o condão de embasar o édito condenatório. A pena foi estabelecida pelo Juízo a quo na mais estrita observância do artigo 157, parágrafo 2º, incisos I e II do Código Penal – Assalto à Mão Armada, pelo que nada deve ser modificado no julgado ora impugnado.

– Doutor juiz, vocês vão me deixar lá e me esquecer. Três anos e quatro meses, em regime fechado, é muito tempo para o crime que eu cometi. Tudo o que falei pode ser comprovado, mas nada foi levado em conta no processo. Eu prometo arrumar minha vida, para tanto basta um emprego. Pelo amor de Deus, não me condene à morte!

Em seu desespero, Samuel chamara a atenção do juiz para fatos desprezados na sentença exarada, tais como: não ter havido agressão física, de ele ser réu primário não usuário de drogas e de não utilizar arma de fogo – a pistola encenada no ato foram os dedos anular, indicador e polegar da mão direita, em riste, escondidos no bolso da jaqueta de brim, apontados para o caixa da farmácia.

E mais: ele não encobrir o rosto para impedir a identificação, se apossar apenas de R$ 50,00 para as necessidades do momento, apelar à vítima dizendo “por favor, atenda, pois não desejo machucar ninguém”, atitudes que embasariam o amadorismo do acusado. Porém, priorizou-se a ação criminosa… E pronto!

Não afeito aos meandros diabólicos do cárcere, o jovem aprisionado serviu de porta-voz para ala insatisfeita de apenados, endereçando cartas para autoridades constituídas criticando desmandos diversos e ações impróprias praticadas por agentes penitenciários. Foi o suficiente para ficar na mira daqueles a quem acusara, como persona non grata ao sistema.

Dona Sebastiana, a mãe de Samuel, ao reconhecer o corpo do filho único sendo transportado esquartejado como um animal abatido, caiu num pranto inconsolável. Em entrevista a uma rede de televisão, desabafou:

– Ele não merecia esse destino. Samuel estava desempregado há dois anos. Naquela noite tentou arranjar dinheiro para botar alguma comida dentro de casa. Havia tentado esmolar na rua, mas sua aparência não convencia a ninguém.

Repórteres localizaram o meritíssimo juiz autor da sentença de pronúncia de Samuel, explanaram o desfecho daquele caso e perguntaram-lhe:

– O senhor não acha que decretou a sentença de morte do rapaz?

– Tudo não passou de um infeliz acidente. Cuidar do apenado é função do Estado. Ao juiz cabe, tão somente, interpretar e aplicar a Lei!

Em cada cabeça uma sentença. E se fôssemos nós os arrolados para funcionar como jurados no caso Samuel, qual seria a nosso veredicto? Culpado ou inocente? Manteríamos a pena do juiz ou aplicaríamos uma outra alternativa menos sinistra? Daríamos-lhe o direito à vida ou o condenaríamos à morte pelo crime cometido?

UM APELO SEM ECO

Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro, foi uma pessoa polêmica e um ardoroso defensor de suas ideias. Considerável parcela dos avanços obtidos na educação do Brasil deve-se ao mineiro de Montes Claros. Junto com Anísio Teixeira ele fundou a Universidade de Brasília e, na condição de vice-governador do Rio de Janeiro, desenvolveu um modelo inovador para a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a qual denominou de Universidade do Terceiro Milênio.

Profundo conhecedor do homem e do pensamento de nossa gente ele publicou a sua obra-prima “O Povo Brasileiro”, em 1995, dois anos antes de falecer de câncer. Entretanto, foi como educador que Darcy Ribeiro notabilizou-se no país. E nessa condição, em 1982, ele vaticinou: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

É de arrepiar os cabelos da cabeça prognóstico tão verdadeiro quanto devastador. O retrato antevisto por Darcy, 35 anos atrás, ocorreu antes da data por ele estabelecida, mas, atingiu o apogeu neste ano de 2017. O que assistimos nos estados do Amazonas e de Roraima, nos primeiros dias do ano-novo, foram cenas inimagináveis de conceber por seres ditos civilizados, tamanho o grau de barbárie imposto à ação.

Acidente uma ova, o acontecimento macabro de Manaus foi um roteiro bem elaborado, digno de filmes de terror, assemelhado a práticas de masmorras da Idade Média. Se um massacre em si já é estarrecedor, o que dizer de decapitar e esquartejar, a golpes de facão, companheiros de desventura encarcerados nas pocilgas brasileiras apelidadas de prisão.

Como esperar algo diferente daquelas máquinas de produzir monstros? Presídio no Brasil não ressocializa ninguém, muito pelo contrário. A maneira sub-humana como vive ali o apenado serve apenas para incitá-lo contra tudo e contra todo o mundo. Pior. Cultiva-se o antagonismo contra o Estado gerando a ira, o mais terrível dentre os sentimentos.

Jamais imaginei vivenciar outra vergonhosa chacina nos moldes do massacre do Carandiru, em São Paulo, ocorrido dez anos após a profecia de Darcy Ribeiro, num presídio abarrotado de encarcerados. Com a diferenciação no grau absurdo de crueldade do último.

E mais uma vez o antropólogo intuíra: “Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da educação”. Complementado o raciocínio com outra triste constatação: “A escola brasileira é a escola da mentira: o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende”.

Uma vez estabelecido o quadro de terror em cárceres da região Norte, causando estupefação no Brasil e no mundo, eis que aparece o jovem titular da Secretaria Nacional de Juventude burilando uma moldura patética para o cenário tétrico: “…tinha de ter uma chacina por semana”. Por acaso é do conhecimento do autor dessa colocação infeliz, que 51% da população carcerária do país é de jovens como ele, com idade entre 19 e 27 anos?

Diante de índices alarmantes de extermínio de nossos semelhantes, fica a impressão de havermos perdido a capacidade de indignação e abandonado o senso de piedade. Neste instante de incertezas, bem que poderíamos tomar como exemplo outra declaração de Darcy Ribeiro para não embarcarmos nessa onda de banalização da violência: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

Dá consternação admitir, mas o governo brasileiro, por descaso ou conveniência, se resignou ante o caos do sistema prisional do país. Caso contrário o apelo de Darcy Ribeiro já teria encontrado eco.

FERDINANDO FUGIU PARA CASAR

Somente após trinta anos de convivência eu soube que meu amigo Ferdinando fugira para casar com a sua única e querida esposa, quando adolescentes. Ele me pediu para guardar reserva acerca do fato, mas, como não existe apenas um Ferdinando no mundo, ninguém identificará meu amigo neste relato.

Dessa forma o segredo continuará guardado comigo como se estivesse num túmulo e eu poderei abordar a matéria sem traumas. Aliás, foi uma exceção que abri, pois sempre fui sincero ao alertar a todos: se alguém tiver lá os seus assuntos secretos e desejar mantê-los ocultos, nada de me confidenciá-los.

Pois bem! O tema veio à baila porque o costume causador de espanto e desaprovação na sociedade de antigamente, simplesmente desapareceu de cena. Isso mesmo! Acabou-se o romantismo e a atratividade de raptar uma jovem para obrigar a família da dita a aceitar a união do casal – recorria-se a tal prática quando existiam sérias restrições ao relacionamento amoroso em andamento.

Naquela época, após a apropriação indébita da amada, esperava-se o desenrolar dos fatos para a formalização da união. Especulava-se a postura de ambas as famílias quanto à forma de amoldar o ato tresloucado do rapaz ao rigor das regras de enlaces e tradições vigentes.

Então surgiam os questionamentos. Quando, como e em quais circunstâncias se dará a reparação do roubo da donzela? Haverá matrimônio no religioso ou apenas no civil? A jovem casará de branco dando uma prova cabal da virgindade preservada ou divulgará a consumação do ato trajando uma outra cor? Tudo isso consistia num prato cheio para fofocas ou de combustível para tiras picantes de colunas sociais, numa sociedade carente de escândalos ou de novidades chocantes.

E hoje, qual seria o comportamento das famílias e da sociedade perante um rapto de donzela para fim casamenteiro? Ah, gente, no mínimo serviria para gozações de toda ordem e natureza. Os tempos são outros e nem em pensamento tal prática se adequaria à nossa realidade.

Primeiro, porque é desnecessário, trabalhoso e careta para o jovem exercitar o rapto na acepção fiel da palavra. Segundo, por não haver espaço para a encenação, uma vez que o problema se resolve com um simples convite à parceira, e ambos viverão juntos sem qualquer lampejo de arrependimento ou dor na consciência. Isso, sem levar em conta a satisfação dos pais pela economia de despesas com as bodas.

E quanto a repercussão no âmbito social? Qual é essa, irmão? Não é motivo de preocupação, pois comentários são descartados em uniões do tipo pela banalização da ocorrência.

Até meados do século passado a conversa era outra, porque a virgindade ainda era valorizada antes do casamento. Após o advento da pílula anticoncepcional tudo mudou. Para melhor, admitem as pesquisas de opinião pública, porquanto deu início à liberação sexual feminina.

Na verdade, os raptos de antigamente não passavam de atos impensados, motivados pela paixão arrebatadora de casais enamorados, interpretados por donzelas sonhadoras como manifestações explícitas de amor profundo.

Longe de menosprezar a conduta do passado, exalto o costume do presente que, descartando a hipocrisia, prioriza a liberdade e a honestidade de decisões em assuntos do coração.

O QUE VALE A PENA

Terminarei minha participação anual neste Jornal da Besta Fubana com alguns dos pensamentos inspiradores de Felipe Cubillos, empresário e milionário chileno, que após amealhar considerável fortuna dedicou-se à filantropia. Cubillos faleceu num acidente aéreo em 2011, no Arquipélago de Juan Fernándes, aos 49 anos de idade.

Acerca de teus filhos – Definitivamente não são teus. Deves amá-los e educá-los com o exemplo e orientá-los para que busquem os próprios sonhos; não os teus. Não esperes que te agradeçam tudo o que fizeres por eles; esse agradecimento virá muitos anos depois, talvez quando já fores avô – aí eles reconhecerão o que é ser pai e mãe. Porém, se antes disso, decidirem dizer que estão orgulhosos de serem teus filhos, te consideres recompensado.

Acerca de teus pais – Nunca deixes de agradecer-lhes o fato de terem te posto neste mundo maravilhoso e de te haverem dado a possibilidade de viver, somente isso, viver.

Acerca de teus limites – Eles não existem e estão muito além do que imaginas. Quanto mais além? Esta é uma pergunta que tens que levá-la ao extremo para descobrir.

Acerca do talento – Não serve para nada se não vier acompanhado de determinação, planificação, disciplina e perseverança. O talento é efêmero, a determinação, eterna.

Acerca do amor – Deves dar graças ao Universo se te despertam a cada manhã com um beijo e um sorriso. Lembras-te das abelhas e das mariposas, elas não buscam a flor mais bonita do jardim, somente aquela que tem maior conteúdo.

Acerca dos amigos – Eleges aqueles que estiveram contigo quando estivestes por baixo, porque quanto estiveres no auge eles irão te sobrar.

Acerca da riqueza – Uma vez que tenhas consolidado o teu fluxo de caixa, tratas de comprar mais tempo do que dinheiro, mais liberdade do que escravidão.

Acerca da angústia e da amargura – Quando creres que já não é possível suportar os sofrimentos que te agoniam, que já não podes nada fazer, dás-te um tempo para ver as estrelas e esperas despertar o amanhecer, então descobrirás que sempre nasce o sol… Sempre!

Acerca do presente – Vivê-lo intensamente é o que realmente importa. Os que vivem aferrados ao passado já morreram e os que vivem sonhando com o futuro ainda não nasceram.

Acerca dos sonhos – Nunca renuncies a teus sonhos, persegue-os apaixonadamente e se não conseguires, não importa. Só o fato de haveres percorrido esse caminho terá valido a pena.

Acerca de Deus e o Céu – Creio que se vivermos fazendo o bem poderemos estar na lista de espera se é que o Céu existe, e se ele não existe, teremos tido nosso próprio Céu aqui na Terra. Quanto a Deus não o encontraremos apenas nos mares do Sul, nas ondas, nas nuvens, nas tormentas, Ele sempre esteve conosco, dentro, bem dentro de nós.

NATAL: UMA NOITE ÚNICA

Na Igreja Católica a celebração do nascimento de Cristo foi instituída pelo papa Libério no ano 354 d.C., ou seja, 1.662 anos atrás. Das tradições do catolicismo, as comemorações natalinas foram as que mais se agigantaram com o transcorrer dos anos, até se transformar numa das maiores festas do mundo cristão.

A data deveria priorizar somente o nascimento de Jesus Cristo, símbolo da maior religião do Ocidente. Entretanto, deixou avançar a exploração mercantilista dando espaço ao consumismo e ao mundanismo que preencheram lacunas sagradas do evento, antes preservadas da ganância e da usura.

Árvore de Natal de Natal/RN

Em contrapartida, despertou sentimentos de consagração à união da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.

Impressiona-nos, pobres mortais, a magia da noite de Natal. Mesmo sabedores do compartilhamento de uma cerimônia repetida durante séculos, ainda assim nos encanta e emociona as festividades do período.

A madrugada do dia 25 de dezembro evoca sentimentos relacionados à nossa história e ao passado. Ela nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal para confraternizarmos com pessoas próximas.

A nostalgia da comemoração fica por conta das lembranças de entes queridos ausentes ou falecidos. Aí não tem como evitar brotar a saudade decorrente da impossibilidade de materializar tais presenças na festividade.

O Natal traduz bem esse sentimento de perda. É só admirar a decoração típica e saborear a culinária tradicional da época para relembrar parentes ou amigos que compartilharam conosco Natais inesquecíveis.

Então explode a vontade de retornar ao tempo em que víamos a casa repleta de familiares, com as crianças pequenas e a vida fluindo embalada na felicidade de estarem todos ali reunidos, esperançosos de repetirem iguais instantes no futuro.

Recordar os Natais do passado é uma prática salutar, desde que não nos abarrotemos de lembranças tristes. Priorizando o pesar transformaremos o Natal-Alegria no Natal-Tristeza. Agindo assim vivenciaremos a comemoração com os pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos.

Nenhuma preocupação do tipo deve atrapalhar a alegria das crianças com o Papai Noel nem embotar o deslumbramento da festa. O contrário será exaltar a memória de mortos estimados em vez de exultar com a presença de vivos queridos.

No Natal o coração bate mais forte, porque celebrar o Natal é crer na força do amor. É desfrutar da felicidade de ver a família unida e contar com a presença daqueles que nos acompanharam em nossa jornada ao longo da vida. Sem percebermos tais companhias são, na verdade, os presentes que superam qualquer mimo deixado de lembrança embaixo da árvore de Natal.

O Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Mas não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas e festas.

O verdadeiro espírito do Natal é festejar a chegada do Filho de Deus, mandado ao mundo para perdoar as falhas dos homens e lhes mostrar o caminho da Salvação. Para nos inserirmos no espírito do Natal a nossa melhor oração consiste naquela que se eleva em silêncio do fundo de nossas almas para aquecer com ternura os corações dos entes que nos amam e aceitam que os amemos.

Por esbanjar tanta fascinação e magia a noite da Natividade é única.

* * *

NOITE FELIZ – CORAL FLORIANÓPOLIS

AMOR E SEXO NAS ALTURAS

A fantasia de manter relações sexuais a bordo de aeronaves, em voos comerciais, é bem maior do que a nossa vã filosofia possa imaginar. Ponham o nome que quiserem nessa prática cavilosa: fetiche, erotismo doentio, tara ou sacanagem, mas que ela existe, ah, sim, existe! E nos parece ser mais ativa e intensa nas mulheres.

O motivo desta matéria é decorrência do livro Cabin Fever (Febre na Cabine), de Mandy Smith. Essa inglesa, hoje uma senhora casada de 41 anos de idade, trabalhou por mais de dez anos como comissária de bordo da companhia Virgin Atlantic. Além de garantir como verdadeiras as peripécias descritas no livro, Mandy confessa ter feito sexo com o namorado piloto, no cockpit da aeronave em pleno voo.

Ela enumera várias situações grotescas focadas na libido e na coragem (ou irresponsabilidade) de passageiros envolvidos em tais aventuras. Como a do casal, no auge de sua paixão, correr despido na primeira classe; ou o caso da jovem, entre 19 e 20 anos de idade, viajando com os pais para Los Angeles, sendo flagrada por três vezes no toalete, com três parceiros diferentes. E por aí vai…

Esse trololó serviu de preâmbulo para eu relatar a aventura de meu amigo Dionísio. Ele saíra de Recife, num voo noturno longo da Varig, para participar de um congresso de engenharia rodoviária em Manaus. Isso no tempo em que fumar a bordo era permitido, serviam-se as refeições em pratos de porcelana com talheres de aço inoxidável, e o whisky oferecido era abundante e de boa qualidade.

Um daqueles voos transportando poucos passageiros, o que dava margem à tripulação servir logo o jantar, apagar as luzes e deixar a todos descansar.

Dionísio se acomodou nas três últimas poltronas para dormir sem ser incomodado nem incomodar ninguém. Antes, pediu mais um whisky à aeromoça. A jovem, uma bela loura na faixa dos 20 anos de idade, demorou no atendimento do pedido. O colega ficou impaciente, mas, bastou ela aparecer com o whisky, amigável e sorridente, para acalmá-lo. Surpreendeu-o ao perguntar: “Posso sentar aqui, senhor?”.

Ele acedeu e, calado, ouviu a sua justificava: “Meu nome é Sophie. Não estranhe este procedimento. É o meu último dia de trabalho. Amanhã voltarei para o Paraná sem a farda. Vou casar”. Embriagado com a beleza da moça, ele só conseguiu balbuciar um “Parabéns!” sem entusiasmo.

De chofre, sem mais nem menos, Shophie avançou para Dionísio e o beijou na boca, e ele acatou a carícia numa boa. A coisa esquentou, e fugiu dos limites da sensatez. “E se vier alguém?” – ele perguntou. E ouviu: “Fique tranquilo! Minha colega nos dará a devida cobertura!”. E os dois se amaram, literalmente, à vontade.

Ao terminar a presepada a aeromoça se recompôs e desapareceu. Dionísio nunca mais a viu naquela rota. Falando com os seus botões ele imaginou: “Ela realizou a sua fantasia e agora assumiu o papel de esposa virtuosa”.

Meses depois, viajando por outra companhia aérea, distraído na sua leitura, ouviu alguém dizer: “Senhor, eis a sua dose de whisky!”. Dionísio, surpreso, porque nada pedira, tirou o olhar do livro para cruzar com o de Sophie. Perplexo, recebeu a dose e a viu se afastar com um sorriso no rosto e uma piscadela provocante.

Comentando a sua aventura comigo e com o Praxedes – um cearense casca-grossa e sem papas na língua – Dionísio confidenciou: “Ela escreveu no guardanapo do whisky que gostava de mim”. Pragmático, Praxedes pôs uma pá de terra no romantismo do colega: “Cai fora dessa, cabra besta! Essa vadia gosta mesmo é de abater pajaraca desgarrada nas alturas”.

Dois pra lá, dois pra cá, quem tiver uma melhor pode contar!

BELAS E POÉTICAS

Nem sempre as mais belas cidades são as de nomes mais poéticos. Partamos do princípio de que o bonito para mim pode não ser para outrem, isto porque a beleza é algo subjetivo. Certo? Ainda assim, a Forbes, revista americana de negócios e economia, formou uma equipe de especialistas em áreas como planejamento urbano, arquitetura e desenvolvimento sustentável para definir as cidades mais bonitas do planeta. Do trabalho surgiu a seguinte relação por ordem de classificação: Paris, Vancouver, Sydney, Florença, Veneza, Cidade do Cabo, San Francisco, Chicago, Nova York, Londres, Cambridge e Tóquio.

paris

Paris, a mais bela e poética cidade do planeta

Certamente, não haverá unanimidade nessa escolha. Se essas doze cidades enfrentassem um plesbicito, algumas seriam subtraídas para a adição de outras mais “atraentes”. Sim, porque em beleza tudo é muito relativo.

Minha pesquisa não trata da formosura das cidades, mas da poesia, sonoridade e significado contidos em seus nomes. Sei bem o quanto de contestação provocará minhas escolhas, mas não almejo a unanimidade porque emito uma opinião livre de quaisquer influências senão a do meu próprio senso de avaliação.

Nas Américas do Sul e Central escolho Buenos Aires (bons ares), Montevideo (monte visível) e Tegucigalpa (montanhas de prata). Na Europa: Bucareste (alegria), Budapeste (junção das cidades Buda e Peste), Estocolmo (ilha fortificada), Copenhague (porto do mercador) e Amsterdam (homens que vivem na terra seca). Na África, gosto dos nomes Nairobi (restinga) e Luanda (águas gélidas). Na Oceania de Camberra (ponto de encontro).

Dentre as capitais brasileiras, considero Belo Horizonte e Rio de Janeiro como as de nomes mais charmosos. Incluo Brasília por ser um derivativo feminino e deslumbrante do nome da nação. Entretanto, nenhuma delas supera em significado e simplicidade o nome da minha querida cidade de Natal.

olinda

“Oh, linda situação para se construir uma vila!”

Encontramos nos 5.570 municípios brasileiros uma extraordinária miscelânea de denominações que vão das mais singelas até aquelas absurdas e inaceitáveis. Predominam nomes de santos e santas católicos, de acidentes geográficos e de homenageados daqui e de outras plagas, comumente, figuras públicas.

Passeando sem compromisso por esse universo de designações deparei-me com Águas de Lindóia(SP), Águas Lindas de Goiás, Alegria(RS), Alterosa(MG), Arraial do Cabo(RJ), Angra dos Reis(RJ), Bela Vista do Paraíso(PR), Bonito(BA), Boa Esperança(ES), Bom Retiro(SC), Cachoeiro de Itapemirim(ES), Campina do Monte Alegre(SP), Cruz das Almas(BA) e Campo Formoso(BA).

E por aí vai. Encantado, Feliz, Gentil e Nova Esperança do Sul, no Rio Grande do Sul; Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Jaboticabal, Piedade e Taboão da Serra, em São Paulo; Formosa do Oeste, Jardim Alegre e Paraíso do Norte, no Paraná.

No Ceará, Quixeramobim, Itapipoca, Guaramiranga e Jijoca de Jericoacoara. No Maranhão, Vila Nova dos Martírios, Alto Alegre e Bom Jardim. Na Paraíba, Sossego, Mãe D’água e Belém do Brejo do Cruz. Em Alagoas, Maravilha e Olho d’Água das Flores. Em Sergipe, Itabaiana e Ilha das Flores. E, em Pernambuco, optei por Solidão, Riacho das Almas, Bom Conselho, Camaragibe e Olinda, nome decorrente de exclamação de Duarte Coelho: “Oh, linda situação para se construir uma vila!”.

Termino o passeio no Rio Grande do Norte escolhendo Jardim do Seridó, Baia Formosa e Caiçara do Rio do Vento, a cidade cujo nome é um poema.

Agora, que se estabeleça o contraditório e venham as opiniões!

IMAGINE

Na próxima quinta-feira, dia 8 de dezembro, serão 36 anos sem John Lennon, o mais reverenciado integrante dos The Beatles, ídolo inconteste de gerações amantes do rock and roll, em particular, daquela que viveu os anos 60 e 70.

Na juventude, muitos marmanjos com faixa etária igual a minha, sacolejaram os quadris tentando aprender alguns movimentos extravagantes do novo gênero musical que se estabeleceu, definitiva e mundialmente, na década de 1960.

A minha paixão pela música dos Beatles começou depois de assistir a retransmissão, numa tevê em preto e branco, da célebre apresentação do quarteto no Ed Sullivan Show, da CBS, no dia 9 de fevereiro de 1964. Nós, no Brasil, e mais 73 milhões de pessoas que não desgrudaram olhos de televisores nos Estados Unidos. Naquela noite em que os rapazes se apresentaram, algo de muito especial aconteceu.

Ninguém ficou indiferente ao charme de John, Paul, George e Ringo. Bastaram os primeiros acordes de All My Loving para não ter mais volta. Criou-se um elo emocional instantâneo entre a banda e seus fãs. As mensagens das canções eram claras e diretas: “ela te ama”, “quero segurar sua mão”, “de mim para você”. Tudo muito simples e doce. Nascia a beatlemania e entrava para a história um mito.

Ainda assim houve comentários desanimadores, como o da revista semanal Newsweek: “Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras, pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’, são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados”.

Nada, porém, conseguiu dominar a beatlemania. Na virada de 1964, os quatro músicos que começaram a carreira no pequeno Cavern Club de Liverpool, Inglaterra, se tornaram a maior banda do mundo.

Em 1970 aconteceu a dissolução definitiva do conjunto, quando cada um dos integrantes enveredou por caminho diferente – Paul McCartney e John Lennon, como cabeças do grupo, obtiveram os melhores resultados na carreira-solo.

John Lennon, ao voltar para casa às 23 horas de uma segunda-feira, em dezembro de 1980, após sessão num estúdio de gravação, foi alvejado por quatro tiros de revólver desferidos por Mark David Chapman, um homem de 25 anos, na frente do edifício Dakota, onde morava. Lennon morreu com 40 anos de idade.

Em Nova York eu fui até ao Central Park para conhecer o dito edifício e render homenagem à memória do beatle famoso. Em frente ao prédio encontrei, numa das calçadas do parque, um círculo de aproximados 3,5 metros de diâmetro, em pedras portuguesas, contendo a palavra Imagine no centro. Ali, vi pessoas reverenciando o local como se fosse o ponto do assassinado de John Lennon.

Ressabiado, procurei o porteiro do Dakota para pedir informações. Ele olhou para mim, sorriu e disse: “O senhor está pisando no local onde ele caiu ferido de morte”. E naquele ponto eu fui fotografado, numa reverência singela a um dos ícones de minha adolescência.

O círculo do Imagine é um memorial com o nome da música de maior sucesso da carreira-solo de John Lennon, preito de Nova York ao morador inesquecível.

circulo

* * *

Imagine (Legendado) – John Lennon

VÃO GÔGO E O BARÃO DE ITARARÉ

Somente após sua morte, em março de 2012, atentei para o detalhe de que Millôr Fernandes fora o substituto natural de Aparício Torelli na vanguarda do humorismo político brasileiro. Quando Aparício morreu em 1971, aos 76 anos de idade, Millôr contava com apenas 44 primaveras, metade dos anos que viveria. Comparar as oportunidades de crescimento profissional de Millôr com as de Aparício é covardia.ml

O primeiro usufruiu da integral transformação e desenvolvimento da comunicação no país; o segundo alcançou o auge de sua produção quando ainda predominava na editoração gráfica a linotipia. Millôr usou e abusou do pseudônimo Vão Gôgo; Aparício subscrevia seus escritos com o título ilustre de o Barão de Itararé.

Em épocas diferentes, ambos tiveram como característica explorar o humor satírico com coragem e determinação, quando a liberdade individual e a expressão de pensamento eram restritas.

Acerca da proficiente atividade profissional de Millôr Fernandes, devido à ampla divulgação midiática, temos completo conhecimento. Sobre a vida de Aparício Torelli, ainda sabemos pouco. No domínio público caíram muitas das expressões do Barão de Itararé, que as repetimos sem conhecimento da autoria. Exemplos: “Além dos aviões de carreira, há qualquer coisa no ar”, “O feio da eleição é se perder” e “Deputado come o milho, papagaio leva a fama”.

Aparício nasceu no Rio Grande do Sul, estudou medicina e bacharelado em línguas, mas abandonou os cursos às vésperas de concluí-los. Aos 30 anos de idade foi tentar a sorte como jornalista no Rio de Janeiro. Trabalhou em “O Globo”, transferiu-se para “A Manhã”, contudo, movido pela determinação de fundar o seu próprio jornal abandonou o emprego, retirou o til de “A Manhã” e fundou “A Manha”. O jornal teve imensa aceitação e logo se firmou na preferência dos cariocas.

Com o sucesso vieram também os inimigos advindos das críticas duras e do estardalhaço dado a cada denúncia publicada. As irreverentes estocadas nas autoridades instaladas no poder pela Revolução de 30 resultaram em inúmeras prisões do dono do jornal.ap

A Manha” era a cara do Barão. Durante os 26 anos de existência foi o veículo perfeito para suas investidas. São do período áureo de “A Manha” as máximas aqui selecionadas:

“A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana”,

“Os índios andavam à vontade porque nunca desconfiaram que um dia apareceriam na História do Brasil”,

“Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”,

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”,

“Pobre só vai para frente quando dá topadas” e

“Sabendo levá-la, a vida é bem melhor que a morte”.

Aparício e, no rastro de seus passos, Millôr, obtiveram resultados extraordinários manipulando provérbios. Eis outras pérolas do Barão:

“Quanto mais conheço os homens mais gosto das mulheres”,

“Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa”,

“Dize-me com quem andas e te direi se vou contigo”,

“De onde menos se espera daí é que não sai nada” e

“Quem empresta… Adeus.”.

Assim como Millôr, Aparício foi um pensador à frente de seu tempo. Expressou-se sem limites e pagou caro pelas críticas que teceu. Fez o que sempre gostou de fazer e tomou como doutrina, na existência, uma de suas mais famosas máxi-mas: “O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva”.

CÁPSULA DO TEMPO

É dureza ser avô. Não me refiro à grata satisfação de vermos os filhos transformados em pais. Atenho-me aqui às dificuldades que o exercício da condição paterna, em dose dupla, impõe ao despreparado, inábil e, algumas vezes, ridículo ente chamado avô, enfrentando peraltas de inteligências privilegiadas, numa realidade diferenciada daquela na qual ele criou os seus rebentos.avo

Quem já não se viu enredado numa “saia justa” por conta de alguma pergunta capciosa de neto? Ou não se sentiu diminuído ante o olhar de severa reprovação por considerar banal algo importante para o pirralho? E quanto ao mundo da alta tecnologia da informática? Não raro, um avô despreparado em computação, ousa incursionar pela área com os netos, para logo desistir da empreitada humilhado ou tachado de burro ou alienado… E por aí vai!

Mas, nem sempre são temas dessa natureza os complicadores da vida do avô. Em certas ocasiões o embaraço decorre de assuntos que requerem seriedade, porque atingem a formação da criatura alvo primordial da orientação dos genitores. Recentemente, eu me deparei com uma situação dessas.

Minha filha mais velha me pediu para escrever uma mensagem endereçada à neta mais nova. A menina havia terminado o curso infantil com seis anos de idade, e se preparava para enveredar no estágio fundamental. A escola objetivava guardar as missivas destinadas aos alunos numa espécie de cápsula do tempo, durante doze anos, até ser aberta em 2028.

O que pareceu uma tarefa simples no momento da solicitação, me deixou encafifado após raciocinar quanto ao teor a ser escrito. O que um indivíduo no limiar da existência diria a uma criança no florescer da vida, que traduzisse, no futuro, algo importante para uma mulher na plenitude de sua juventude? Quais conselhos minha neta, aos 18 anos, gostaria de encontrar naquela carta? O que eu poderia afiançar para incutir segurança em alguém começando a trabalhar o seu destino?

E quanto mais eu pensava menos atinava aonde chegar. Descartei conselhos, porque o melhor aprendizado está em vivenciar as situações. Pareceu-me despropositado citar frases de autoajuda; maior proveito ela tiraria observando os exemplos de casa e do mundo que a rodeia. Encher linguiça com palavras insinuando sentimentos desprovidos de emoções verdadeiras, não condiz com o meu feitio.

A princípio, eu nada escreveria que a entristecesse naquele longínquo dia de abertura da cápsula. Tudo que a acabrunhasse me desagradaria. Uma barreira emparedou minhas ideias deixando o branco se apossar dos pensamentos.

Então se deu o estalo. Separei algumas fotografias onde aparecíamos em situações agradáveis, e as anexei ao texto a seguir:

“Olá, Ana Júlia! Deixe a preguiça de lado e venha correndo me abraçar, dividindo sua alegria com este alquebrado oitentão. Caso a inevitável passagem tenha ocorrido, não se faça de rogada, dirija-me uma prece e ficarei feliz por ainda estar presente na sua lembrança. Que Deus lhe abençoe! Seu avô, Narcelio.”

Ponto final.

A CAPELA DOURADA

No final da semana passada, eu e minha mulher Edilza demos uma esticada até Recife. Tínhamos por objetivo conhecer a Capela Dourada, localizada na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, integrante do complexo de edificações do Convento de Santo Antonio, no bairro do mesmo nome.cpl

Sabedor da preciosidade sacra eu encontrei motivação para visitar a capela folheando as páginas do livro “Relíquias: Patrimônio Arquitetônico do Nordeste do Brasil”, autoria de Fernando Chiriboga, fotógrafo equatoriano radicado em Natal.

Deslumbrante! Não atino com outro adjetivo para qualificar o santuário. Realmente, uma relíquia do estilo barroco-rococó, construída entre 1696 e 1724. Na Capela o que não é pintura ou painel de azulejos está entalhado em cedro recoberto de gesso, arrematado por lâminas de ouro. Daí a alcunha “dourada”.
Embora com o teto abobadado em dimensões menores e sem contar com a fama nem os afrescos de artistas famosos da Renascença, a Capela Dourada lembra a Capela Sistina situada no Palácio Apostólico, na Cidade-Estado do Vaticano.

Na importante estatuária onde se destacam o grande Crucifixo, o Cristo Atado à coluna e o Senhor dos Passos, eu me ative às imagens da Rainha Santa Isabel e de Santa Beatriz da Silva, trazidas de Portugal. Assim exalto o exemplo, pouco divulgado, de fé e de retidão contido na história de vida de cada uma daquelas santas.

A Rainha Santa Isabel de Portugal (1271-1336), na verdade nasceu em Aragão, Espanha, filha do rei Pedro III. Casou-se com D. Dinis I, rei de Portugal, ela com 12 e ele com 17 anos de idade. Dedicou os 65 anos de vida a pacificar ânimos, evitar guerras e ajudar a pobres e enfermos. Foi canonizada em 1742.

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O colunista diante da imagem de Santa Beatriz

É venerada tanto em Portugal quanto na Espanha, pelos milagres operados. Dentre eles, transformar moedas para distribuir com os pobres, em rosas, quando interpelada pelo esposo que a questionou acerca do que portava no regaço.

Beatriz da Silva e Menezes nasceu no Alentejo, em 1437. Sua família pertencia à nobreza de Portugal e tinha parentesco com a realeza. Quando a princesa Isabel de Portugal, sua prima, se casou com D. João II de Castela, ela a levou como dama de honra para a corte de Tordesilhas, na Espanha.

A formosura e a simplicidade de Beatriz atiçaram o ciúme de Isabel, acentuado pelas atenções do rei para com a jovem. Isso a fez prender a prima num cofre para que morresse asfixiada. Ficou encerrada por três dias, até que seu tio D. João de Menezes, notando sua ausência, exigiu explicações à rainha que abriu o cofre.

Ao sair viva e saudável do cativeiro, estarreceu a todos que a consideravam morta. Beatriz deixou a vida palaciana indo para Toledo viver no Convento Dominicano de São Domingos por 30 anos, na sombra e silêncio do claustro.

Enfrentando toda sorte de percalços, ela fundou a Ordem da Imaculada Conceição, mas faleceu na data que a instituição abriria as portas. Era o dia 9 de agosto de 1492. Beatriz legou ao mundo uma das maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa da Igreja. Foi canonizada em 1976.

Estes são apenas dois dos relatos extraídos do acervo da Capela Dourada, onde outras histórias de religiosidade se encontram embutidas nas paredes e teto daquele tesouro de obras sacras. Tudo isto ao alcance dos olhos de nosso povo.

Visitar a Capela Dourada é se regalar com o primor e a beleza da arte, produto do fervor, talento e determinação do punhado de cristãos que a construiu.

CIÚME NO LAR DOCE LAR

Todo casal tem lá suas crises conjugais. Uns com maior, outros com menor intensidade ou frequência. Mente quem garantir viver num permanente mar de rosas no casamento. As causas das desavenças encontram origem em problemas de ordem material, social, cultural, religiosa ou pessoal.

As rixas decorrem, também, de reações e instabilidades emocionais de um dos integrantes desse complexo contrato de convivência. O ciúme tem seu espaço, sim, nesses desencontros de casais que, uma vez fora de controle, é causa de estragos devastadores no matrimônio.ciume

O ciúme advém de emoções desencadeadas por receio de ameaças à estabilidade do relacionamento a dois. Quando as dúvidas do ciúme descambam para ideias delirantes, começa a se instalar o ciúme patológico no casamento. Nele, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza se torna vaga e imprecisa.

São sentimentos perturbadores, desproporcionais ou absurdos, que determinam comportamentos inaceitáveis. Tais sentimentos envolvem o medo perturbador de perder o parceiro, além da suspeita excessiva e impessoal. O pior do ciumento mórbido é que mesmo comprovada inócua a razão da desconfiança, ele não consegue eliminar a dúvida.

Eu divago sobre o ciúme patológico sem o conhecer de perto. No cinema, sim, o tema é explorado maravilhosa e terrivelmente bem. Lembram “Atração Fatal” (Fatal Attraction – 1987)? O filme deixa o espectador petrificado e agradecido pelo ciúme civilizado que desfruta em casa.

Embora sem conviver com o ciúme patológico, já presenciei algumas manifestações explícitas do mesmo. Como o caso da esposa de um colega engenheiro que o ameaçou, jurando de pés juntos, furar seus olhos e lhe chupar o sangue, caso fosse traída algum dia, mesmo em pensamento.

Assisti ao show de uma mulher enciumada, de tesoura em punho, dando aulas a amigas de como podar o símbolo da virilidade do parceiro sem a anuência do próprio. Gozação ou não, eu notei interesse exagerado em algumas delas.

Quem me contou esta foi uma esposa, vítima, quando noiva, do ciúme exagerado do futuro marido. Fã de carteirinha de Charles Eugene Patrick Boone – norte-americano que ganhava a vida cantando e atuando em filmes de Hollywood -, na véspera do casamento, ouviu do amado a seguinte ameaça: “Ou eu ou ele!”.

Em prol de uma vida feliz sem o ciúme do esposo, abdicou da coleção de discos do ídolo, e jamais pronunciou o nome de Pat Boone naquele Lar Doce Lar.

Vivenciar um ciúme extremado? Que o diga meu amigo empresário, protagonista de casamento de 36 anos, tomado de crises de desconfiança da cara-metade. Marido e pai dedicado, solidário e presente, ele se desdobra para evitar levantar dúvidas da fidelidade à mulher ciumenta. Pelo o que eu sei de sua conduta no matrimônio, vive de casa para o trabalho e vice-versa.

Recentemente, surpreendeu a esposa com a seguinte sugestão: “Amor, acabarei de uma vez por todas com o ciúme em nosso casamento. Instalarei um chip no carro. Assim, você ficará com o controle de todos os meus movimentos!”. Ela, toda animação, contrapropôs: “Melhor seria implantar um microchip no pênis?”.

Raça Negra – Ciúme de Você (Música)

MINHA SEGUNDA CHANCE

Mesmo diante de dados estatísticos irrefutáveis dando conta da montanha de sucessos em cirurgias cardíacas, eu ainda considero o êxito obtido por pacientes submetidos a essa complexa experiência operatória, uma segunda chance de vida. E não fica por menos, porque o processo invasivo requer serrar o esterno do indivíduo e arreganhar suas costelas para trabalhar o coração.

Hoje, superados os traumas decorrentes do infarto, eu posso relatar minha provação diante da cirurgia, sem inquietação. E o faço tentando ajudar a quem estiver indeciso quanto a permitir que lhe devassem o tórax, deixando-o assemelhado a um frango com a titela aberta.crc

Eu enfartei aos 46 anos, uma idade tida como fatal para pessoas acometidas do mal. É lógico que a moça Caetana com a foice da morte na mão não me alcançou, caso contrário eu não descreveria aqui a experiência, e vocês, certamente, estariam lendo um texto psicografado por uma alma penada.

Isso aconteceu em 1990. Na época, Natal não dispunha de estrutura nem de profissionais para cirurgias do tipo. Então, recorri ao Incor de São Paulo em busca da cura. Para minha tranquilidade, a angioplastia sanou o problema naquela instância. Dela, guardo apenas a impressão de invasão de minhas artérias por um cabo de velocímetro automotivo.

Não segui o rigor imposto para levar uma vida de samaritano, mas obedeci à rotina dos medicamentos transcritos e dos check-ups estabelecidos. Assim, vivi por 19 anos. Em 2009, numa avaliação tardia do meu quadro clínico recebi o golpe de misericórdia: ainda não era infarto, mas o fluxo sanguíneo fora obstruído nas artérias principais, e chegava ao coração por obra e graça de circulação colateral. Ou seja, eu portava uma bomba relógio no peito, e a recomendação era abrir a titela.

Com o destino traçado, recordei declaração do presidente João Figueiredo, após cirurgia cardíaca nos Estados Unidos, em novembro de 1981: “Sinto-me como se uma carreta houvesse me atropelado!”.

Mergulhei fundo na literatura sobre o assunto. Afinal de contas era a minha única e preciosa vida. Descobri, que das inúmeras causas do infarto, o meu fora embasado na antecedência familiar e no estresse elevado. As informações obtidas não me deram a segurança necessária, porque eu não desejava ter a mesma sensação que a carreta deixara em Figueiredo.

Meu irmão Elmano, médico do Hospital do Coração de Natal, sugeriu eu dialogar com o cirurgião para conhecer os meandros do procedimento ao qual me submeteria. Como se não bastasse, a enfermeira-chefe do hospital, a seu pedido, descreveu qual meu sentimento ao recobrar a consciência na UTI. Se a primeira conversa foi ótima, a segunda foi extraordinária.

E assim aconteceu. Ao acordar, superei logo a angustia da imobilização causada por inúmeros drenos espalhados pelo corpo, e a dificuldade de buscar mais oxigênio para os pulmões por conta do respirador na garganta. Naquele momento, lembrei a orientação da enfermeira-chefe para manter a calma.

Ah, ainda tem as pontes! Ganhei duas de safena e duas de mamária. Lembranças inúteis eu as exclui da cachola. No contexto, de engraçado mesmo, somente a conversa do cardiologista com o meu irmão, após a cirurgia:

– Elmano, vocês foram criados com leite de jumenta?

– Não que eu me lembre! Por quê? – respondeu o mano, e ouviu:

– Nunca operei alguém de esterno tão duro quanto o de Narcelio. Isso é comum em quem bebeu muito leite de jumenta na infância!

Manda brasa irmão e enfrenta o pepino! Afinal, é a tua vida em jogo.

Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto – Coração Bobo

LAURAS

Trabalhou na agencia bancária onde opero uma gerente chamada Laura. Certa vez, por mera curiosidade, perguntei-lhe: “Você gosta do seu nome?”. Dela ouvi um sonoro “Adoooro!”. Senti sinceridade e entusiasmo naquela resposta. Trata-se, na verdade, de um nome que traduz expressividade e poder sem perder a feminilidade. Não sei se é impressão, mas, parece-me que dar o nome de Laura a filha caiu em desuso ou, como diríamos antigamente, está démodé.

Laura vem do latim e significa coroa de folhas de louro. No passado era comum batizar meninas de todas as classes sociais com essa denominação. Isso embalado no costume popular de designar filhos com alcunhas de mártires do cristianismo, após a canonização. Um exemplo dessa inclinação vem do século VIII, quando a abadessa Laura de Córdoba, sacrificada por mulçumanos num banho de óleo fervente por não renegar sua fé no cristianismo, obteve a santificação.

Outro motivo para a proliferação desse nome ocorreu no século passado com a beatificação de Laura Vicuña (1891-1904), chilena de Santiago, falecida e enterrada na Argentina aos 13 anos de idade, considerada a padroeira de vítimas de incesto e de maus-tratos.lr

Aqui abro um parêntesis. No dia 12 de maio de 2013, o papa Francisco canonizou, na Praça de São Pedro, os primeiros santos de seu pontificado. Dentre eles, madre Laura Montoya, colombiana, que será venerada como Laura de Santa Catarina de Sena (1874 – 1949). A iniciativa, certamente, provocou nova onda de batismo de Lauras na América do Sul. Fecho o parêntesis.

A incidência de Lauras famosas em outros países de língua latina é maior do que no Brasil. Principalmente nas artes cênicas, no show business e nas passarelas. Eis algumas delas: Laura Linney e Laura Herring, atrizes norte-americanas; Laura Zapata, atriz mexicana; Laura Pausini, cantora e compositora italiana; e, Laura Sánchez, atriz e modelo espanhola. Laura Chinchilla, 57 anos, cientista política, foi presidente da Costa Rica de 2010 a 2014.

No Brasil, as Lauras de destaque também pertencem ao teatro, ao cinema e a TV: Laura Cardoso, 89 anos, paulista, atriz pioneira da televisão brasileira; Laura Neiva, 23, paulista, atriz e modelo; Laura Barreto, 15 anos, atriz carioca; e, Laura de Vison, na verdade Norberto Chucri David, carioca, artista e transformista, considerado a musa do underground, falecido aos 68 anos de idade, em 2007.

Na música popular brasileira houve exaltações a Lauras, sim senhor! No meu entender a mais bonita foi “Laura”, composição de Braguinha, interpretada na voz de Jorge Goulart e, depois, nas de Agnaldo Timóteo e Emílio Santiago. A mais ouvida foi a “Lady Laura” de Roberto Carlos, homenagem prestada à sua mãe. Outra “Laura”, não tão famosa, foi uma composição de Fernanda Brum, em comemoração ao nascimento da filha.

Segundo a numerologia, a força do nome Laura produz transformações expressivas no caráter feminino. Torna-as otimistas e afetuosas, criativas e comunicativas. São mulheres de personalidade forte e de grande senso de responsabilidade. A descontração e o bom humor as mantem sempre jovens não importando a idade que tenham.

Não sei se a gerente do “Adoooro!”, citada no começo deste texto, cultiva tais predicados. Quanto a mim, posso assegurar que identificava todos eles no comportamento e nas decisões de dona Laura, minha falecida mãe.

Emílio Santiago canta Laura, da autoria de Braguinha:

ROMANTISMO NÃO OFENDE

Eu fui criado ouvindo de colegas e amigos que romantismo era coisa de “fresco” ou “veado” – termos chulos da época para apelidar o homossexual. Romancear, ser sentimental, sonhador, evocar o estado de alma e as emoções em exaltações apaixonadas eram fraquezas restritas e admissíveis somente a mulheres.

O macho que deixasse escapulir uma lágrima sequer em cena romântica de qualquer filme seria, naturalmente, alijado da patota. Tal abuso, embora tenha diminuído sobremaneira no transcorrer dos anos, ficou impregnado na personalidade e no inconsciente de muitos marmanjos.

Minha iniciação com o enlevo do romantismo aconteceu, se não me falha a memória, entre os 13 e 14 anos de idade, durante a exibição do filme Melodia Imortal (The Eddie Duchin Story – 1956). Adulto eu descobri tratar-se de um dramalhão ficcional, com Tyrone Power interpretando o famoso pianista norte-americano com tintas diferentes do que ocorreu na vida real.rt

Ser uma ficção ou pura realidade pouco importava para a mente embevecida daquele adolescente apaixonado pela beleza estonteante de Kim Novak, o par romântico do pianista na tela. A trilha sonora do filme detinha o poder catalizador de fixar aquelas imagens no subconsciente de entes sentimentais.

Comigo não foi diferente, principalmente, no tocante às músicas Manhattan e To Love Again nas interpretações desconcertantes do pianista Carmen Cavallaro. É inacreditável a emoção que ainda sinto ao ouvir os primeiros acordes de tais canções. Vem-me à lembrança cenas do filme e me vejo sentado na plateia do extinto cinema Rex, em Natal, sofrendo o mesmo drama dos personagens.

Outra lembrança forte que eu guardo de um filme romântico foi Uma História de Amor (Love Story – 1970). Em 1971, eu já casado e estudando no Rio de Janeiro, levei minha mulher Edilza para assistir ao badalado filme. E lá fomos nós a uma sessão noturna no já extinto cine Veneza, localizado em Botafogo.

O filme, um drama-romântico de emoções fortes, manteve lotação completa nas salas onde foi exibido durante semanas. Eu não recordo de ter ouvido antes, tanto fungado numa sessão de cinema. Ao término do espetáculo uma atração à parte. Vimos casais de mãos dadas tentando disfarçar, sem sucesso, suas perturbações sentimentais, evidenciadas em olhos inchados e avermelhados de tanto chorarem.

Os dramas-românticos carregam a desvantagem de não explorar finais felizes. Terminam sempre em desventura ou morte de um dos personagens da trama, como é o caso dos filmes citados acima. Já a comédia-romântica detém o poder de deixar a todos satisfeitos no final da história.

Nessa seara Woody Allen é um craque. O fato de conhecer bem o efeito do romantismo sobre as pessoas, mulheres principalmente, ele conduz com competência os enredos de seus filmes dedicados a um público cativo. O exemplo está na sua última película Café Society (2016). Umas das músicas do roteiro é Manhattan, e dela surgiu minha inspiração para escrever este texto.

Ser um romântico não arranca pedaço de ninguém. Pelo contrário, faz um bem danado. Relaxa, alivia o estresse e faz esquecer, momentaneamente, as preocupações do cotidiano. Deixar-se envolver pela magia do romantismo é agradável, divertido e nos traz boas recordações.

LA BELLE DE JOUR

Houve uma época que o período de veraneio nas praias da circunvizinhança de Natal se estendia por 90 dias seguidos. Isso mesmo! Os proprietários ocupavam suas casas litorâneas, fechadas há nove meses, no início das férias escolares de final de ano e somente retornavam à capital após o Carnaval.

Relaxar e descansar durante esse intervalo de tempo era quase impossível, diante da movimentação intensa de veranistas e amigos que se visitavam numa perene confraternização. Em contrapartida, a trabalheira doméstica recrudescia para desespero das donas de casa, que se valiam do apoio de moradores de comunidades próximas da região escolhida para curtir o calor da estação.bdj

Veraneávamos na praia de Cotovelo, vizinho ao povoado de Pium onde conhecemos Margarene, nosso apoio técnico durante alguns anos. Morena-clara, esbelta, beirando 20 anos de idade, dizia-se noiva de Toinho, motorista de ônibus da linha Natal-Pirangi. Trabalhava cantarolando as músicas mais tocadas nas rádios.

Em 1991, Alceu Valença lançou o LP “7 Desejos” onde o carro-chefe era La belle de jour. Um sucesso estrondoso! E haja Margarene a cantar sem parar: “…Era a bela da tarde/Seus olhos azuis como a tarde/Na tarde de um domingo azul/Labele diju!…”.

Perguntei-lhe se entendia o significado do termo La belle de jour, título da música. “Não senhor!” – respondeu e parou para escutar o que eu tinha a dizer. Então, resumi para ela o filme Belle de jour do diretor espanhol Luis Buñuel, lançado em 1967, com Catherine Deneuve no papel da prostituta Séverine.

Falei-lhe da insatisfação sexual de Séverine com o marido médico, e de como ela mantinha uma vida dupla marcando encontros à tarde – daí a razão do nome do filme – para concretizar suas estripulias amorosas. Fascinada com o que escutara, Margarene perguntou: “A moça se chamava mesmo Severina?”. “Em francês, Severina escreve-se Séverine, com ‘e’ no final” – expliquei.

Dia seguinte, ela nos informou da impossibilidade de continuar trabalhando na casa, porque cuidaria de uma tia enferma. Gostávamos e precisávamos do trabalho de Margarene, por isso insistimos numa negociação e acordamos que sua jornada diária terminaria à uma da tarde. Assim acertado, assim cumpriu-se o trato.

Quarta-feira de Cinzas, enquanto arrumávamos as tralhas para retornar à normalidade da vida na capital, soubemos da preocupação de Margarene diante de uma possível gravidez. Lamentamos a ansiedade da moça.

Alguns meses depois, num feriado prolongado, convocamos Margarene para o apoio costumeiro na casa de praia. Ela apareceu com uma barriga saliente e mantivemos este diálogo: “Para quando é o parto? Você já casou?”. Ela respondeu com incrível naturalidade: “É para outubro. O noivado acabou quando Toinho descobriu que não era o pai de meu filho!”.

“Ah, entendi! Escolheu um nome para a criança?” – perguntei.

“Se for homem será Alceu; se for mulher, Severine!”

Fiquei perplexo porque Margarene assumira, literalmente, o comportamento da personagem de Buñuel, embalando seu sonho erótico na musica de Alceu Valença.

Ainda hoje me bate a dúvida se agi corretamente deixando a moça a par das safadezas da desavergonhada Belle de Jour.

O BOSQUE DOS NAMORADOS

Para quem não conhece Natal, o Bosque dos Namorados está encravado no Parque das Dunas, área de 1.172 hectares do pouco que restou da Mata Atlântica no litoral do país. É considerado o maior parque urbano sobre dunas do Brasil. O ecossistema abriga diversificada fauna e flora e contribui na recarga do lençol freático e na purificação do ar da cidade.

É o local adequado para a prática de atividades físicas e o paraíso de adeptos do Cooper e de caminhadas. É comum encontrarmos grupos em conversas animadas, que mais conversam do que caminham.n1

Eu pertenço à turma dos madrugadores que caminha sozinho envolto nos próprios pensamentos. Ali se exercita também o falar alto sem meias palavras onde, concordando ou não, nos faz cúmplices de desagradável indiscrição induzida.

O frequentador do bosque, mesmo o não bisbilhoteiro, fica a par de como anda a política no estado e no país, do custo de vida, da tendência da moda, das novelas da Rede Globo, de quem traiu ou foi traído, e de todo tipo de assunto da atualidade ou de priscas eras. Para isso, basta dispensar os fones de ouvido.

Semana passada, presenciei um engraçadíssimo papo entre dois senhores, nos quais percebi traços de pessoas letradas e abonadas financeiramente. Eu havia terminado a minha série de exercícios e diminuíra o ritmo da marcha, o tempo suficiente para escutar o colóquio onde o tema era viagens.

– … Por isso não, Câmara Cascudo escrevia sobre o mundo inteiro sem sair de casa, e isso quando nem se falava ainda em computador. Hoje, eu vou aonde quiser e conheço o que bem entender de carona na internet – respondeu o senhor de cabeça grisalha a questionamento de seu interlocutor.

– Você já se imaginou observando Paris do alto da Torre Eiffel, saboreando o “coq au vin” e degustando um fenomenal vinho Borgonha?

– Não. Mesmo assim duvido que se compare à saudosa “Carne de Sol do Lira”, acompanhada de doses de cachaça “Murim” em Natal de antigamente – respondeu o grisalho contrariando o seu parceiro de caminhada.n2

– É impossível que não tenha vontade de conhecer a Torre de Londres e o quanto ela representa para o país e para a humanidade? – insistiu o mais novo.

– Dou por visto! Aquilo não passa de uma prisão decadente onde os monarcas ingleses decapitavam as suas amantes. E digo mais, nenhuma daquelas rameiras amarravam sequer as sandálias das quengas do cabaré de Maria Boa.

– Cara, é difícil lhe agradar! Mas, se você visitasse o Coliseu de Roma aposto que mudaria de ideia diante da carga de história que a estrutura detém.

– Aí é onde você se engana! Coliseu de Roma, campo de concentração nazista e cemitério, para mim não passam de antros de almas penadas.

Ao ouvir aquela opinião não contive o riso. O grisalho, percebendo minha atenção na conversa, perguntou se eu concordava com ele. Ao que respondi:

– Desculpe-me, mas não tenho opinião formada sobre o assunto! – e acelerei o passo para evitar entrar naquela discussão. Não sem antes ouvir o comentário do turrão contestador:

– Esse deve ser outro babaca azedo igual a você!

Calado eu ouvi, e assim continuei sem nada dizer… Dizer o quê?

JACKSON DO PANDEIRO, MEU CONTERRÂNEO

Eu sou um paraibano que deixou o estado aos sete anos de idade para assumir, literalmente, a cidadania norte-rio-grandense, mas, sem jamais renegar a sua origem. Por essa razão é que exulto quando me deparo com fatos pitorescos e icônicos da história e da cultura da Paraíba, até então desconhecidos para mim.

Nasci em Patos, no sertão paraibano. Ainda na infância, acompanhando meus pais, conheci Pombal, Princesa Isabel, Campina Grande e João Pessoa. Adicione-se a esse rol outra penca de cidades daquele estado, embora em número bem distante da totalidade dos municípios do Rio Grande do Norte, todos eles visitados por mim em decorrência de andanças como engenheiro rodoviário.jp

Faltou-me oportunidade de conhecer o Brejo paraibano. Como eu acredito que tudo na vida tem o seu tempo para acontecer, somente este ano eu pude percorrer parte dos municípios que integram os caminhos do frio daquela região.

Assim, acrescentei à minha lista as cidades de Bananeiras, Solânea, Areia e Alagoa Grande. Conheci engenhos, igrejas, museus, construções centenárias e um tanto da cultura e da culinária serrana da Paraíba. Descobri ser Areia, a terra natal de Pedro Américo, o pintor oficial do II Império, e de José Américo de Almeida, romancista autor de “A Bagaceira”, “O Boqueirão” e “Coiteiros”.

Surpresa maior me reservou Alagoa Grande. Não apenas pela tendência turística da cidade, mas por me fazer aprofundar o conhecimento da obra de José Silva Gomes, o Jackson do Pandeiro, filho mais ilustre e festejado do município.

Seu primeiro pandeiro foi um presente da mãe, uma cantora de coco. Com 13 anos de idade mudou-se com a família para Campina Grande, e de lá para João Pessoa até alcançar Recife onde, em 1953, gravou os sucessos “Sebastiana” e “Forró em Limoeiro”.

O passo seguinte foi a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, consolidando a trajetória artística e obtendo o reconhecimento de crítica e de público pelo ineditismo do trabalho desenvolvido. Foram quase 300 músicas compiladas em mais de 30 discos durante 29 anos de carreira.

Jackson era um ritmista inato, daí o título de “Rei do Ritmo”. Transitava com incrível facilidade pelo forró, samba, baião, xote, xaxado, coco, marcha e frevo, tocando violão e bateria, além de pandeiro. Claro!

É considerado, ao lado de Luiz Gonzaga, responsável pela nacionalização da música nordestina. Jackson faleceu em Brasília, em 1982, com 62 anos de idade. Foi enterrado no Rio de Janeiro, mas transladaram o corpo para a sua Alagoa Grande.

Eu ainda não sabia que o compositor arranjara tempo, em 1962, para tirar sarro de minha cara e da dele com a música “Como tem Zé na Paraíba”. Vejam se estou mentindo:

“Vige como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Tesconjuro com tanto Zé
Como tem Zé na Paraíba”.

Indo ao Brejo paraibano, não deixem de dar uma parada em Alagoa Grande e visitar o memorial dedicado a Jackson do Pandeiro, esse meu conterrâneo.

Espetacular este grupo de mariners americanos tentando tocar e cantar “Sebastiana”:

A TODOS E A TODAS

Nas missas dominicais da capela existente na comunidade praiana onde veraneio, o comentarista da celebração não se cansava de saudar os presentes com um efusivo Bom dia a todos e a todas! Aquilo tanto me agrediu os tímpanos, ao ponto de eu resolver lhe alertar acerca da incoerência de tal cumprimento matinal.

Ah, meus leitores, aquele foi um caso de somenos importância, pois constatei que o vírus da discrepante agressão ao português já se espalhara pelo país bem antes de minha intervenção. Hoje é comum ouvirmos gente com alto grau de escolarização se dirigir a todos e a todas, como se todos não englobasse todas.

Trata-se de um descaso nacional com a língua pátria. Um modismo inconsequente que beira o ridículo. Imagino estarem troçando de minha inteligência quando deixam escapar um despropositado qualquer um ou qualquer uma… Na ânsia de exercitar o oliticamente correto sem discriminação à mulher, confunde-se o gênero gramatical com o gênero sexual dando vez à chamada linguagem inclusiva.jn

Se não me falha a memória tal prática se iniciou no governo José Sarney (1985-1990), com a bizarra e não convincente expressão brasileiros e brasileiras. Pareceu-me que o falar correto voltara aos trilhos nos governos de Collor, Itamar e Fernando Henrique, mas, eis que surge a era Lula com seus companheiros e companheiras. Daí, para a não exclusão social foi um salto.

Agora, nada de chamar um negro de negro, fala-se, afrodescendente. Nada de apontar para um deficiente físico, mas, para um portador de necessidades especiais. Careca? Jamais! Diz-se, capilarmente diferenciado. Mesmo que eu queira nunca assumirei minha velhice explícita, pois estou sentenciado a conviver com a melhor idade.

Não sei quais as consequências nefastas desse linguajar no aprendizado da criança durante os nove anos do ensino fundamental, tampouco como os professores lidam para evitar que alunos utilizem de forma errada o pronome indefinido plural tema deste texto.

Deformar o idioma não é remédio para combater o racismo ou condenar a homofobia. É inegável a constatação da universalidade do gênero masculino dando uma conotação de machismo à cultura, todavia, nada que modifique ou auxilie no ataque as autênticas discriminações que tantos danos causam à sociedade. Uma coisa é certa: não será na linguística que harmonizaremos a falta de igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Como alguém já disse: trata-se de uma bobagem populista cujos cultores, por excelência, são os políticos. E eles exageraram tanto no modismo, que determinado parlamentar na ânsia de defender a chefe da nação prestes a perder o mandato em processo de impeachment, deixou escapar num efusivo exercício de retórica, esta pérola: …uma “presidenta inocenta” está sendo retirada do poder

Contestemos, discursemos, debatamos ideias e propostas, mas sem abrir mão da linguagem clara, precisa e elegante que herdamos de nossos antepassados, embora já bastante modificada por tantas reformas ortográficas.

Ah, o comentarista citado no início desta matéria não repetiu o destempero gramatical. Hoje, os ouvidos de homens e mulheres frequentadores das missas na aconchegante capela, agradecem o retorno ao tradicional e palatável cumprimento Bom dia a todos!

PEDRO I: VILÃO OU HERÓI BRASILEIRO?

Li, recentemente, excelente artigo do engenheiro Tomaz Edson Pereira Guimarães intitulado “O maior herói brasileiro”. O colega é viciado em história das nações, e foi essa paixão que o fez visitar a Casa Rosada, em Buenos Aires.

Ali, segundo ele, existe um salão dedicado a heróis de países sul-americanos. No panteão, a Argentina está representada por José de San Martín; a Venezuela, por Simon Bolívar; e, o Brasil, por Tiradentes e Getúlio Vargas. Daí surgiu o questionamento que ensejou sua matéria: de quais batalhas, em prol da independência do país, participaram os citados “heróis brasileiros”?dp

Na pesquisa ele se fixou em dois nomes para melhor representar nosso país naquele salão da Casa Rosada: João Fernandes Vieira e Pedro I. Ambos foram portugueses não republicanos que adotaram o Brasil como pátria. Fernandes Vieira, na opinião do articulista, tornou-se herói ao nos libertar do jugo holandês, em 1645, derrotando compatriotas de Maurício de Nassau na batalha do Monte das Tabocas, no agreste pernambucano.

Quanto a Dom Pedro I, Tomaz Edson não se estendeu nas razões para designá-lo como um herói nacional. Esse vácuo eu tento aqui preenchê-lo, no mês das comemorações de nossa Independência.

Dom Pedro de Orleans e Bragança foi um homem público contraditório. Há gerações, suas façanhas, incoerências e deslizes intrigam e encantam brasileiros. Teve uma vida privada tempestuosa – morreu aos 35 anos de idade -, emoldurada por uma personalidade romântica, comovente e revoltante. Segundo Laurentino Gomes, autor do livro 1822, Dom Pedro se presta a narrativas romanescas.

A imagem e a reputação de Dom Pedro I estão sujeitas a diferentes interpretações condizentes com as turbulências da história do Brasil. Foi um marido cruel porque causou um aborto e a consequente morte de sua esposa, a imperatriz Leopoldina; um adúltero, libertino e não seletivo por reconhecer mais de 50 filhos de suas amantes; e, um homem inteligente e sensível ao compor letras para hinos e missas. Pelos ideólogos da república, Pedro I foi o maior vilão da monarquia porque abandonou o Brasil atendendo a apelo de Portugal para assumir o trono do país.

Todavia, não fosse a sua coragem ao cortar os laços umbilicais com o além-mar, nosso futuro seria incerto. Provavelmente, a república que somos hoje, assim como a maioria dos países sul-americanos. A questão é definir a que custo isso ocorreria.

Destemido e contraditório ele marcou a história de dois continentes. Após declarar a independência do Brasil, em 1822, rumou para a Europa para lutar e instaurar a monarquia constitucional em Portugal, como Pedro IV.

Dom Pedro II, seu filho, nascido brasileiro, lutou e trabalhou bastante pelo país, mas, sem o carisma do pai não obteve o merecido reconhecimento do povo. Enxotado da nação, não a renegou e viveu seus últimos dias de vida, exilado na França.

Por outro lado, coube ao imprevisível filho de João VI o ato de desmedida ou impensada coragem, de arrancar o Brasil da influência portuguesa facilitando a proclamação da República, numa atitude semelhante às de Simon Bolívar e San Martín ao libertarem do jugo europeu inúmeros países do continente.

Dom Pedro I é venerado como herói nacional no país onde nasceu como Pedro IV. Seu coração está guardado na cidade do Porto, em Portugal, mas seu corpo foi trasladado para o Brasil, no sesquicentenário da Independência. Na minha concepção, ele, sim, deve ostentar o merecido título de verdadeiro herói brasileiro.

Hino da Independência com música de D. Pedro I

OS 100 MELHORES DO SÉCULO 21

Esta é uma matéria direcionada aos amantes da sétima arte. Para pessoas, assim como eu, vidradas em cinema. Se bem que seja impossível evitar que curiosos ou internautas ávidos por leitura invadam e detonem a página.

O século XXI ainda se arrasta na segunda década, e eis a primeira pesquisa para indicar os melhores filmes lançados no período. Isso mesmo! A BBC americana foi a responsável pela proeza. Reuniu 177 críticos cinematográficos mundo afora, colhendo opiniões em cinco dos seis continentes – excetuando a Antártida -, e o resultado foi uma compilação deleitosa para cinéfilos e afins.cl

O universo analisado compreendeu películas produzidas entre os anos de 2000 e 2016, contextualizadas numa listagem eleita por entendidos no assunto e que nos merece o respeito devido, fato certamente afiançado após avaliarmos na telona o mérito atribuído, por eles, a cada trabalho.

Muitos dos filmes escolhidos ainda não chegaram até nós ou se já foram exibidos eu não tive a oportunidade de assisti-los. Os três primeiros colocados na pesquisa são: Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, 2000) e Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007). Coincidentemente, eu os vi e gostei dos enredos, das interpretações e direções – esse último exibido na rede HBO da TV a cabo, semana passada.

Para mim, cinema é uma diversão. Na verdade, uma excelente diversão. Um filme com bom enredo e boa interpretação enche-me as medidas. Tal qual um bom livro, que eu releio quando dá vontade, um filme marcante me induz a revê-lo inúmeras vezes. Isso me fez lembrar o slogan produzido pelo Grupo Luiz Severiano Ribeiro, que durante anos monopolizou a divulgação cinematográfica no país: “Cinema é a melhor diversão”. Ao lema eu acrescento um advérbio: “Cinema ‘ainda’ é a melhor diversão”.

Voltemos à lista razão desta crônica. Dos 100 escolhidos, eu vi uns 40, todos eles muito bons. Tomo a liberdade aqui de relacionar aqueles que eu voltaria a assistir. São eles: Ela – 2001; O Pianista e A Última Noite – 2002; Encontros e Desencontros – 2003; Zodíaco e Onde os Fracos não Tem Vez – 2007; A Fita Branca e Bastardos Inglórios – 2009.

Outros imperdíveis: Carlos, o Chacal – 2010; A Árvore da Vida, Shame e Margaret – 2011; Amor – 2012; O Lobo de Wall Street, Amantes Eternos, Sob a Pele, Azul é a Cor Mais Quente e 12 Anos de Escuridão – 2013; e, Carol, Brooklyn, A Assassina e Spotlight: Segredos Revelados – 2015.

Nesse rol constam filmes dirigidos por David Linch, Roman Polanski, Martin Scorsese, Sofia Coppola, Quentin Tarantino, Spike Lee, os irmãos Joel e Ethan Coen e Steve McQueen, cineasta britânico – não confundir com o ator norte-americano falecido em 1980.

O único filme nacional a constar na relação é Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, lançado em 2002, posicionado na 38ª colocação.

A íntegra da relação está na internet à disposição dos interessados. Garanto-lhes que assistir a qualquer um deles, é melhor do que matar o tempo ouvindo as promessas da propaganda eleitoral 2016.

Abaixo o trailer de Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos), o melhor filme do século 21

VADE RETRO, CANDIDATO!

Tenho dó de quem pretende candidatar-se a prefeito ou a vereador no pleito deste ano, porque será uma tarefa árdua consolidar sua eleição.

Parto da premissa de que os partidos políticos são as organizações menos confiáveis na opinião do brasileiro. As siglas partidárias encabeçam a lista das instituições desacreditadas, seguidas do Congresso Nacional, da Presidência da República e dos ministérios. Foi o que apontou pesquisa do Instituto Datafolha realizada em junho do ano passado. Um cenário, certamente inalterado, porque desde então nada de positivo ocorreu para provocar uma avaliação diferente da anterior.ftp

Neste momento leva a pior o candidato bem intencionado, probo e de ficha limpa, pois será nivelado por baixo e considerado farinha de um mesmo saco. Não tem como evitar a comparação, já que faltarão aos eleitores os parâmetros de confiabilidade necessários para separar o joio do trigo.

A constatação de que 2 em cada 10 deputados, na Câmara, e 4 em cada 10 membros do Senado serem réus em ações que aguardam julgamento no Supremo, causa um impacto devastador no eleitor desesperançado de qualquer melhoria no panorama político nacional. Percebe-se que a atratividade pela política partidária está a minguar devido a desmandos cometidos por membros da classe.

Para dificultar a campanha, na eleição de 2016 estará ausente a contribuição financeira empresarial. O candidato contará tão somente com os recursos próprios e com o financiamento individual de seus apoiadores – se já era difícil arrecadar dinheiro em tempo de vacas gordas, imagine agora em época de recessão.

A todo esse descalabro se soma a recusa de homens de bem a emprestar seus nomes a siglas desacreditadas. No imaginário popular, somente arrisca uma candidatura o indivíduo cujo desejo seja auferir vantagem pessoal ou aquele aproveitador de ocasião na ânsia de locupletação. Mesmo diante de estágio tão adverso, muitos dos edis, prefeitos e vice-prefeitos, no exercício de seus mandatos, tentarão a reeleição. Nessa disputa postar-se-ão 485.889 candidatos para a avaliação de 144.888.192 eleitores.

Iniciada a tal propaganda eleitoral autorizada – diga-se de passagem, uma chatice abominável de 20 minutos diários, durante 35 dias contados a partir de ontem, 26 de agosto -, certamente aparecerão os candidatos “de brincadeira”. Tipos como “Cacareco” e “Macaco Tião”, de antigamente, ou os “Tiririca”, da atualidade, farão a hilaridade da campanha.

Isso sem falar na possibilidade de surgir um novo cacique Juruna – primeiro e único deputado indígena do Brasil -, de gravador em punho “para registrar tudo que o branco diz”. Esses, sim, levarão vantagem sobre os demais candidatos por representarem a insatisfação popular contra a política partidária vigente.

Vade retro, candidato! (Afasta-te, candidato!) Será o grito de repúdio, tanto inaudível quanto eloquente, que o corajoso ou desventurado aspirante a cargo eletivo enfrentará numa luta inglória de resultado imprevisível.

Foi-se o tempo em que eu observava meu avô Francisco Carneiro, getulista doente, vestir em dia de eleição o seu terno de linho branco e proteger a cabeça com um chapéu Ramenzoni para, estourando de empáfia, responder a quem perguntasse por seu candidato: “Eu não voto em candidato, eu voto em partido!”.

Sim, leitor, houve um tempo em que confiávamos nos partidos!


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