INFAMES, MAS ENGRAÇADAS

Deleita-me a leitura de Duas Piadas por Dia, livro de autoria dos norte-rio-grandenses Max Azevedo e João Maria Monte. Trata-se de uma coletânea com 730 piadas para serem lidas durante um ano. Projeto despretensioso feito apenas para divertir os amigos. Eis alguns dos relatos repletos de humor:

Um velho e respeitável sertanejo, acometido de hemorroidas, procurou um proctologista. Feito o exame, o médico declarou: Realmente aqui na entrada nota-se um botão hemorroidário. Ao que o velho reagiu incisivo: Entrada, só se for no seu, no do seu pai ou no do seu avô… No meu, aí sempre foi saída!

Um grupo discutia sobre sexo, e a um integrante foi-lhe perguntado como gostava de sexo: Normal, anal ou oral? Ele de pronto respondeu: Eu prefiro esse oral, de hora em hora ou, então, esse normal, todo dia. Agora, esse anal, de ano em ano, é coisa pra doido!

A velhinha disse para o marido: Meu velho, olhe que coisa horrorosa… Está passando na televisão uma cena de sexo explícito! E ouviu: É não, minha velha…Voce não está vendo direito, porque está sem óculos… O que está passando é um barbudo comendo banana!

Duas velhinhas do interior pegaram carona num caminhão. Ao descer a serra, o motorista usou o freio motor para evitar acidente. O ajudante vendo a manobra gritou: Deixe de gastar gasolina, homem… Tire a marcha e meta na banguela! Ao ouvir a sugestão a velhinha desdentada retrucou: Em mim mesmo, não!

O médico: Sua mulher urina com abundância? O marido responde: Que é isso, doutor? É com a priquitância mesmo!

A moça casou e a mãe combinou com ela de perguntar, no dia seguinte, por telefone, se tudo correra bem. Mas, para disfarçar, a pergunta seria: Consummatum est? Feita a indagação na forma estabelecida, a moça respondeu: Est e oeste!

Um indivíduo criava dois papagaios machos, mas observou que um estava “faturando” o outro. Como eram muito parecidos, para saber quem era quem, mandou arrancar as penas da cabeça do que ficava por baixo, para saber quem era quem. Certo dia, com a gaiola colocada na janela que dava para a rua, ia passando um careca na calçada, e o louro perguntou: Ei, o amigo também queima a “rodinha”?

Um nordestino chegou a São Paulo, tomou um taxi, e pediu que o levasse ao centro da cidade. O motorista perguntou: Posso pegar o Minhocão? E ouviu do passageiro: Se souber dirigir com uma mão só, pode!

O bêbado acordou a mulher: Minha filha, temos que nos mudar desta casa, porque ela é mal-assombrada. Curiosa, a mulher perguntou: Por que você diz isso? Então, ouviu como resposta: Porque quando abri a porta do banheiro, senti aquele vento frio em cima de mim, e a luz acendeu sem eu tocar no interruptor! A mulher exclamou: Não é que o safado mijou de novo na geladeira!

Um sujeito foi ao urologista, e quando este foi fazer o toque prostático, disse: Doutor, pode fazer com dois dedos? Diante da perplexidade do especialista, ele complementou: É porque eu gosto de ouvir mais de uma opinião!

Na casa do amigo, o cara com vontade de tomar um whisky, mas sem lhe ser oferecido, saiu-se com esta: Dê-me notícias do Thomas! Então ouviu: Thomas? Que Thomas? E ele: Eu tomo, de preferência, aquele whisquinho com gelo!

O DIA QUE EU NUNCA ESQUECEREI

Depois de amanhã será 11 de setembro, o 254º dia do Calendário Gregoriano. Dia dedicado a São João Gabriel. Nessa data nasceram Carl Zeiss, Brian de Palma e Franz Bekenbauer, e faleceram Antero de Quental, Nikita Kruschov e Salvador Allende.

Ao longo da História fatos importantes destacaram o dia 11 de setembro, tais como a descoberta do Rio Hudson, por Henry Hudson, em 1609; a tomada de Barcelona durante a Guerra da Sucessão Espanhola, em 1714; e a chegada da sonda Mars Global Surveyor, a Marte, em 1997.

Todavia, nenhum evento no mundo, nas últimas décadas, marcou tão profundamente o sentimento humano quanto o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York e ao Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro de 2001, dezesseis anos atrás.

Em menos de duas horas foram eliminadas quase 3.000 pessoas e modificada a vida de milhares de famílias norte-americanas. Para melhor entendimento daquele trágico acidente atribuído à barbárie humana, tracei o seguinte resumo cronológico da ocorrência:

8h46: avião da American Airlines, que ia de Boston para Los Angeles atingiu a Torre Norte do World Trade Center;

9h03: aeronave da United Airlines, no percurso Boston – Los Angeles, acertou a Torre Sul;

9h37: outro avião da American Airlines, que viajava de Dulles, na Virgínia, para Los Angeles atingiu o prédio do Pentágono, em Washington;

10h03: aeronave da United Airlines que se deslocava de Newark para San Francisco foi derrubada num campo próximo de Shanksville, na Pensilvânia.

Às 10h28 a Torre Norte despencou.

Assistimos, naquela data, a ação de terroristas no sequestro de quatro aviões comerciais de passageiros resultando em 2.996 mortos: 246 nos quatro aviões, 2.606 na cidade de Nova York e 125 no Pentágono, além dos 19 terroristas.

Datas como essa se fixam na memória do indivíduo com um poder inexplicável. Eu lembro, como se fosse hoje, onde estava e o que fazia no momento em que recebi a notícia do ataque aos Estados Unidos.

Terça-feira, dez horas e alguns minutos, eu atendi telefonema de um colega engenheiro, anunciando: “Amigo, começou a III Guerra Mundial; estão atacando os Estados Unidos!”. Deixei a sala de trabalho e fui procurar um televisor. Encontrei-o no auditório da repartição onde estavam outros funcionários. Entrei no salão no exato instante em que a primeira das torres gêmeas desabava.

Pequenos pontos escuros escapuliam das torres em chamas para o vazio. Tratavam-se de pessoas tentando se ver livres da fumaça e do calor do incêndio. Em termos de Engenharia, uma imagem espetacular, se assistíssemos a implosão de edifícios de 526 metros de altura. Porém, víamos um retrato aterrador e em tempo real, de ação terrorista perpetrada contra civis numa manhã de trabalho normal.

Uma sensação horrorosa que eu não gostaria de sentir novamente no restante dos anos de minha vida. Entretanto, também, um motivo para profunda reflexão sobre os destinos da humanidade.

11 de setembro de 2001 será a data que eu jamais esquecerei, porque marca a implantação, pelo fanatismo religioso, da aterradora, covarde e irracional ação destruidora do terrorismo no seio da civilização.

VELHICE EM ANOS DOURADOS

Na adolescência eu trabalhava como mensageiro durante meio expediente para ganhar meio salário mínimo numa construtora com sede na Ribeira, em Natal. Atravessava diariamente a Praça Augusto Severo e ali encontrava pessoas saudáveis jogando cartas, dominó, gamão ou “porrinha” e as tachava de boas-vidas.

Não entendia o porquê de eu dar um duro danado trabalhando e estudando, enquanto elas se permitiam o luxo de nada fazer. Hoje admito o quanto estava enganado. Aqueles desocupados eram aposentados em gozo do ócio merecido.

A cena bucólica de antigamente desapareceu. Agora, na doçura do nada fazer, os idosos, curtem mesas de bares, aos sábados, e praias aos domingos.

Certa feita, enquanto aguardava amigos num desses bares da moda, eu bisbilhotava o bate-papo de aposentados em mesa vizinha a minha. Ouvi o seguinte:

– E aí rapaz, o que anda aprontando agora? – pergunta um deles.

– Estou desfazendo à tarde o que fiz de manhã! – responde outro.

– Está gostando da vida de aposentado? – insiste o primeiro.

– Se eu soubesse que era tão boa essa vida não teria sequer começado a trabalhar. Na admissão, eu já entraria com o pedido de aposentadoria. A gente faz o que quer, quando quer, na hora que bem entender – e continua:

– Agora, sem sacanagem. Estou fazendo coisas que nunca imaginei fazer ao longo da minha existência. Conhecer o mundo e me dedicar a atividades diferentes daquela na qual passei a vida trabalhando são algumas delas.

Realmente, em apenas meio século, o mundo virou de ponta cabeça e essa rotação acarretou radical transformação nos costumes dos povos. Os idosos de hoje não se satisfazem em sonhar com bailes de máscaras como os descritos em Dom Casmurro, de Machado de Assis, nem com as fantasias sexuais de Capitu, Bento e Escobar.

Tampouco matam o tempo em jardins de praças públicas. Muitos permanecem rijos e ativos. Trabalham, praticam esportes e exercícios sexualistas. Pudera. Vivenciamos a era da globalização, do encurtamento de distancias, da informação em tempo real, do prolongamento da existência, da melhoria da qualidade de vida, da liberdade sexual e do Viagra.

A imagem da avó rechonchuda, de vestido austero e óculos de grau apoiado na ponta do nariz ensinando a netinha o dever de casa, essa, há muito desapareceu dos reclamos comerciais.

É difícil encaixar tal cena no extraordinário mundo novo. As vovozinhas de agora desfilam silhuetas provocantes de mulheronas espevitadas, atuantes e indóceis, enquanto os vovôs adoram parecer garotões sarados, serelepes e antenados enganando as limitações da idade.

Isso acontece porque os anseios dos idosos são outros, onde prevalece a vontade de continuar trabalhando por prazer e de se manter socialmente ativo a maior parte da vida que lhes resta.

Chegaram os amigos sessentões e entabulamos nosso papo. Lá pras tantas perguntei a um deles que passara por delicado problema de saúde:

– Como você preencheu o tempo durante o período no estaleiro?.

– Passei os dias escrevendo poesias, atualizando minha cinemateca e vendo vídeos pornográficos na internet” – respondeu ele com sinceridade.

Pois sim, a terceira idade de hoje vive, realmente, seus anos dourados!

O FARDO NORDESTE

Os ataques dirigidos pelas redes sociais à estudante piauiense de administração Monalysa Alcântara, uma negra e nordestina eleita Miss Brasil 2017, traz à baila um preconceito já bastante nosso conhecido.

Há tempo que o Nordeste convive com a incômoda pecha de fardo demasiadamente pesado para o Brasil. Volta e meia torna-se moda discriminar nordestinos. Somos os responsáveis pelo desemprego, pela inflação alta, pela recessão, pela marginalização e por tudo de ruim que acontece à nação. 

Falta apenas nos acusarem pelas enchentes e geadas do Sul, pelas possíveis quebras das safras agrícolas e pela diminuição da camada de ozônio que circunda o globo terrestre.

Num passado não tão distante estava em voga a onda separatista. Falava-se nessa possibilidade com tanta propriedade, que se antevia a certeza de estarem sanados todos os males do país com o desligamento do Nordeste do mapa do Brasil.

É difícil acreditar que um complexo regional composto de nove estados, correspondendo a 20% do território nacional e contendo 30% dos habitantes do país, não sobrevivesse uma vez separado.

Lembremo-nos que do século XVI ao século XVIII essa região abrigou a maioria da população do Brasil-Colônia e, por mais de 200 anos, a sede do governo-geral do país, em Salvador.

A ideia que se tem do Nordeste como uma região diferenciada no espaço brasileiro, remonta do início do século XX, quando a industrialização do Sul coincidiu com a decadência econômica das áreas nordestinas. A partir daí nos tornamos, para muitos, a “região problema”.

Sim, nos tornamos uma área populacional repulsiva, que produz apenas mão-de-obra para as demais regiões, e que necessita da constante ajuda governamental para se desenvolver.

Separados, teríamos que mudar de comportamento e encontrar o nosso próprio caminho. Depuraríamos os escolhidos para representar o povo, criaríamos mecanismos para fixar o nordestino à terra, concluiríamos o mitológico programa de irrigação – mirem-se em Israel – e, incrementaríamos a indústria que mais potencial possui para crescer na região: o turismo.

Quanto ao nome desse novo país… Bem, ele poderia se chamar Brasil. Afinal de contas foi essa a designação dada, posteriormente, à Terra de Santa Cruz, quando do descobrimento do novo mundo, com base na árvore do mesmo nome que florescia ao longo da costa nordestina.

Tudo isso não passa de especulação. Imaginar o nosso país dividido é algo inconcebível para a maioria dos brasileiros. E mesmo com todas as dificuldades que atravessamos – e que teremos ainda de enfrentar -, a ideia da separação está restrita a grupos isolados e sem representatividade suficiente para deflagrar movimento de alcance nacional. Apesar de todo o preconceito.

Temos orgulho de integrarmos uma das cinco regiões brasileiras, mas, jamais abdicaremos da origem, da tradição, da cultura e do amor pelo Nordeste.

TRÊS DÉCADAS SEM GONZAGÃO

Homenagem da cidade de Campina Grande-PB ao “Rei do Baião”

O dia 2 de agosto transcorreu sem nenhuma alusão à memória do maior ídolo do cancioneiro popular nordestino. Isso mesmo, em 1989 falecia em Recife, aos 77 anos de idade, o nosso Rei do Baião. Sem percebermos, já se passaram 28 anos da ausência de Luiz Gonzaga no meio artístico nacional… Quase três décadas.

Não custa nada relembrar um pouco da trajetória do pai adotivo de Gonzaguinha. Luiz nasceu numa sexta-feira 13, no mês de dezembro de 1912, na fazenda Caiçara, área urbana do município de Exu, em Pernambuco.

Januário, seu pai, deu-lhe o nome Luiz homenageando Santa Luzia, cuja data a ela dedicada coincidiu com a do nascimento do menino. Quanto a tocar acordeão, ele aprendeu com o pai ainda criança.

Um desencanto amoroso fez o rapaz deixar a casa de Januário e Mãe Santana para ingressar no Exército, onde permaneceu por nove anos. Deixou a caserna quando morava no Rio de Janeiro para se dedicar à música. Luiz nunca renegou suas origens e se manteve fiel ao gênero musical que o consagrou.

A jornalista Ana Krepp, da Revista da Cultura, assim resumiu a carreira musical de Gonzagão: “O rei do baião pode ser também considerado o primeiro rei do pop do Brasil. Pop, aqui, empregado em seu sentido original, de popular. De 1946 a 1955 foi o artista que mais vendeu discos no Brasil, somando quase 200 gravados e mais de 80 milhões de cópias vendidas”.

O cineasta Breno Silveira, diretor da película Gonzaga – De pai para filho, filmada em 2012, enfatizou: “Comparo Gonzagão a Michael Jackson. Ele desenhava as próprias roupas e inventava os passos que fazia no palco com os músicos”.

Luiz Gonzaga também compunha. Parcerias com Zé Dantas e Humberto Teixeira resultaram em sucessos estrondosos na sua carreira. É difícil esquecer músicas como A Letra I, Acauã, A-bê-cê do Sertão, Asa Branca, Cintura Fina, Feira de Gado, Lorota Boa, No meu Pé de Serra e Respeita Januário, dentre dezenas de outras joias de sonoridade ímpar responsáveis pela construção da identidade musical nordestina. O apelido “Lua” foi-lhe posto pelo violonista Dino Sete Cordas.

Nas músicas de Gonzagão o Nordeste é exaltado com sentimento e inteligência em letras que traduzem os costumes, as tradições, a arte e a vida de dificuldades daqueles que habitam a região mais atingida pela seca sistêmica, em nosso território.

Além do colorido musical do baião, Luiz Gonzaga divulgou para o Brasil outros ritmos com o xaxado, o forró e o xote, além de instrumentais como o zabumba e o triângulo. Alegria foi a marca musical de sua obra. Porém, ele também soube dar recados bem-humorados ao perceber seu estilo musical ser superado.

Isso ficou patente no final dos anos 50. Luiz “Lua” Gonzaga, até então campeão na venda de discos no país, começou a perder espaço para o Iê-iê-iê e para a Bossa Nova. Ao conhecer o trabalho de Zé Clementino – compositor cearense -, encomendou-lhe uma música para enquadrar a nova onda de “cabras” de cabelos grandes, pulseiras, medalhões nos pescoços, calças justas, saltos altos e fivelões.

O resultado foi o “Xote dos Cabeludos”, caracterizado pela agradável sutileza paquidérmica. É ouvir e conferir a beleza de sonoridade e poesia contidas no trabalho do Rei do Baião, predicados esses tão em falta na MPB de hoje.

AMIGOS DE ONTEM E SEMPRE

Minha adorada mãe repetia à exaustão esta ladainha: “Seus verdadeiros amigos são seus país e irmãos, pessoas com quem vocês contam a qualquer hora. Amigo é aquele que fica para ajudar quando todo mundo se afasta”.

Exagero à parte, a sabedoria materna aduz a decepções constatadas no cotidiano da vida como ela é. Existem sim, amizades duradouras e confiáveis fora do âmbito familiar. Existem aqueles amigos de comunicação esporádica, contudo de presença perene na lembrança da gente.

Amigos, cuja amizade aparenta amornar com afastamentos prolongados, mas que o calor do abraço do reencontro aflora a afeição de antes. Os amigos da infância e dos bancos escolares raramente decepcionam, e não é à toa que os meus ocupam espaços de destaque em quaisquer das listas de pessoas queridas.

Deles guardo, no álbum de recordações das amizades, os retratos sentimentais que a memória protege do esquecimento. Recorro amiúde ao repositório dessas reminiscências a fim de atenuar o excesso de saudade.

No meu caso, a maioria dos amigos de infância habitava uma mesma área contida num círculo de raio não superior a 300 metros. As famílias se respeitavam e se visitavam. Os pais identificavam a todos pelos nomes próprios, não pelos apelidos, e conheciam as virtudes e as falhas (falhas?) de cada um deles.

Eles, por sua vez, se faziam merecedores dessa deferência, jamais esquecendo de acrescentar “seu” ou “dona” ao nome de cada pai ou mãe do amigo. As recordações do convívio com essas criaturas queridas fazem-me sorrir sozinho em momentos de contemplação.

Alguns já encetaram a derradeira viagem; outros, ainda pelejam nas campinas da existência pela manutenção ou concretização dos sonhos. Seus nomes, por egoísmo, não os declino.

Dois desses amigos viviam às turras. O falecido, leitor contumaz de almanaques da época, desfrutava o prazer de testar nosso conhecimento com perguntas de bolso para ridicularizar qualquer incorreção nas respostas.

O outro, tipo grosso-ternura, nunca foi afeito aos estudos. Leu ou ouviu, em algum lugar, algo sobre “Pompéia ser riscada do mapa pelo Vesúvio”, e quis saber: ”O que é Vesúvio?”. O falecido, sabedor dos limitados conhecimentos gerais do colega, esclareceu a dúvida: “Vesúvio são os pássaros que voam mais alto!”.

Gozação geral. O tempo passou e uma armadilha foi montada para dar humildade ao sabichão. Na época, era sucesso uma regravação de “Jura”, música de Sinhô, de 1929, com a maliciosa alusão sexual contida num dos versos da letra da canção: “…daí então, dar-te eu irei/ o beijo puro NA CATEDRAL DO AMOR”.

O falecido caiu na tolice de perguntar onde ficava a CATEDRAL DO AMOR na anatomia feminina. O grosso-ternura, instruído pela turma, respondeu: “Na testa, local onde se situa o cérebro que abriga toda a beleza da sabedoria humana!”.

O desfecho desse caso ocorreu num dos vesperais domingueiros do Aero Clube de Natal. O almanaquista-falecido, após longo flerte, usufruía os louros de uma difícil conquista dançando sob o olhar severo da família da moça.

Soubemos depois os detalhes do infeliz diálogo que ele protagonizou com a beldade: “Já que estamos nos entendendo tão bem, posso te fazer um pedido?”. “Depende do pedido!” – respondeu a jovem entre manhosa e provocativa. “Desejo dar-te um beijo NA CATEDRAL DO AMOR!” – foi o apelo.

Perplexo, o conquistador viu-se empurrado e largado sozinho no meio do salão, não sem antes ouvir o destempero da ex-futura namorada: “Dê-se a respeito, seu nojento!”.

Música de Sinhô interpretada por Walter Alfaiate & Negra Li:

DIO COME TI AMO

O cinema nunca deixará de ser uma grande diversão. O instrumento ideal para contar histórias verdadeiras ou inventadas, bem como adaptar literatura romanceada com o intuito de distrair, instruir ou, simplesmente, fazer as pessoas felizes.

Ele veio para ficar, pois já são passados 118 anos desde a primeira exibição de um filme na telona, projetado pelos irmãos Louis e August Lumière para expectadores da cidade de La Ciotat, sul da França, em 21 de março de 1899.

E falar de cinema é lembrar filmes românticos que marcaram várias gerações de indivíduos apaixonados ou de casais enamorados, que escondiam as emoções no escuro aconchegante das salas de projeção.

Então, por que menosprezarmos um divertimento capaz de proporcionar momentos memoráveis de deslumbramento, mediante uma mistura de movimentos, diálogos, músicas e cores, que marcam as vidas de tantas pessoas?

Daí a razão para não esquecermos o drama-romance épico …E o Vento Levou (1939), nem a fala final de Rett Buttler (Clark Gable) para uma Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) apaixonada: Francamente, minha querida, eu não dou a mínima!

Motivo idêntico para não fugir da memória Casablanca (1942) nem o diálogo da despedida de Nick (Humphrey Bogart e Ilsa (Ingrid Bergman): Ilsa: E quanto a nós? Nick: Nós sempre teremos Paris. Isso sob acordes da música As Time Goes By.

Quanto bem nos faz relembrar o casal William Holden e Jennifer Jones em Suplício de uma Saudade (Love is a Many-Splendored Thing – 1955), bem como o enlevo desfrutado por Tyrone Power e Kim Novak em Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story – 1956) ou, ainda, o drama de Ryan O’Neal e Ali MacGraw em Love Story – 1970.

Impagáveis sucessos de bilheteria foram, também, Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time – 1980), com Christopher Reeve e Jane Seymour; Ghost: Do Outro Lado da Vida – 1990), com Demi Moore e Patrick Swayze; e, Uma Linda Mulher (Pretty Woman – 1990), com Julia Roberts, deslumbrante, seduzindo Richard Gere.

Ainda dentre os festejados filmes românticos gostei de Diário de Uma Paixão (The Notebook – 2004), com Ryan Gosling e Rachel MacAdams; e, do não tão recente Amor Além da Vida (What Dreams May Come – 1988), de onde pincei esta fala, exemplo típico do que produz a fábrica de emoções chamada cinema: Você é tão maravilhosa que faz um homem preferir o inferno ao invés do céu só para ficar com você.

Uma das mais apaixonantes histórias de amor levada às telas, foi a tragédia romântica Romeu e Julieta. Filmaram inúmeras versões do clássico de William Shakespeare, porém a escolhida do público é a do diretor Franco Zeffirelle (1968), e a fala mais lembrada é o monólogo de Julieta ante o inerte Romeu:

O que é isto? Um frasco tão apertado na mão do meu fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que tão cedo o levou. Oh! Egoísta! Para que bebeste tu todo, e não deixaste uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo?… (beija-o) Os teus lábios ainda estão quentes!… Oh, punhal abençoado! Eis a tua bainha!… (apunhala-se) Cria ferrugem em meu peito e deixa-me morrer! (cai sobre o cadáver de Romeu e expira).

E para encerrar esta excursão romântica pela sétima arte, nada melhor do que a película que fez “gatinhas” chorarem a cântaros, ao lado de marmanjos durões fungando para esconder lágrimas sorrateiras. Trata-se de Deus, como te amo (Dio, come ti amo – 1966), isso 51 anos atrás. Afinal, sempre existirão pessoas que adoram sonhar!

No vídeo abaixo, o final feliz do citado filme italiano.

SIMPLIFICAR PRA QUÊ?

Fazia algum tempo que eu sentia a cabeça martelar de frustração, devido minha inabilidade no manuseio de equipamentos eletrônicos. Isso mesmo! Uma total falta de concatenação quando posto diante da complexidade operacional dos sofisticados aparelhos de processamento de dados e de comunicação.

Acostumei-me a ver crianças de cinco, seis anos de idade, destrinchando aplicativos de Tablet, iPhone, iPed, iPod, iNão-sei-o-quê com facilidade incomum, enquanto eu patinava nas operações preliminares. Logo surgiu a dúvida e, dela, o questionamento: Falta-me tendência para a informática ou é burrice mesmo? 

Aliviei-me porque o martírio resultou, em parte, num final feliz. Pesquisa recente feita na Inglaterra, deu conta da imperícia no manuseio da parafernália eletrônica por parte dos súditos de Sua Majestade Elizabeth II.

Cerca de 70% dos cidadãos utilizavam apenas as funções básicas daqueles dispositivos. Porém, a dificuldade não se restringia somente ao trato com equipamentos complexos. Incluídos estavam, também, aparelhos simples integrantes do cotidiano de cada um deles.

Do computador a máquina de lavar, passando pelo telefone celular, geladeira, máquina fotográfica e televisão, todos os eletro-eletrônicos comuns nas residências e nos escritórios.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha, ícone da televisão brasileira de 1950 a 1980, dizia: Eu vim para confundir, não para explicar! Adaptemos o jargão do apresentador para a atualidade: Se a gente pode complicar, pra que simplificar?

Os fabricantes, alegando adaptações indispensáveis, complicam esses aparelhos para encarecer as engenhocas. Entendo que, no Brasil, o resultado da pesquisa não seria diferente daquela realizada na Inglaterra.

É impressionante como a coisa funciona. Um exemplo é a máquina de lavar roupa. Uma vez localizado o painel, encontrar o interruptor liga/desliga já é uma baita sorte, pois teremos de visualizá-lo dentre a infinidade de botões idênticos. A partir daí, somente com o auxílio do intrincado manual de operação: nível de água, avança programa, performance, enxágue extra, função amaciante, e por aí vai.

A geladeira, antes um eletrodoméstico de fácil manuseio, agora contém verdadeira “Torre de Babel” de aplicativos. O forno micro ondas não foge a regra. Pra que tudo isso? Bastariam duas operações: ligar e desligar. E ponto final!

E o que dizer das máquinas fotográficas de última geração? O dispositivo criado, no passado, para registrar momentos de pura beleza e satisfação, hoje, não passa de uma máquina de fabricar debiloides em razão da complexidade funcional oferecida ao fotografo. E não me venham dizer que é fácil manuseá-la, pois existe até curso para tanto.

Abre-se o menu e lá surgem aplicativos do tipo ajuste de sombra, tamanho de imagem, compressão, modo AF, zoom digit, restaurar, orientação de foto, guia de ícones, flash remoto, marca de data, ver gravação, et cetera e tal. Por que não deixar tudo no modo automático para se resumir a operação com um simples click?

Nem falei ainda do top de linha do telefone celular nem do inigualável computador do momento. Agora que descobri não ser tão burro assim, dispenso explicações. Continuarei utilizando tão somente as funções básicas dessas doideiras digitalizadas. Isso se ainda as mantiverem nos equipamentos.

AZNAVOUR, A LENDA VIVA

Nas décadas de 60 e 70 era comum ouvirmos música romântica francesa em discos, filmes ou em programas de emissoras de rádio pelo Brasil. Algo raro atualmente. Daí a razão das vozes de Edith Piaf, Maurice Chevalier, Yves Montand, Silvie Vartan, Johnny Hollyday, Mireille Mathieu e Gilbert Bécaud me soarem familiares.

No clique, Aznavour e Edilza, minha esposa – Recife, Set/2008

Edith Piaf é a representante feminina que melhor traduz a música da França, todavia, a divulgação do cancioneiro francês, numa amplitude global, foi obra de um protegido seu. Refiro-me ao cantor e compositor Charles Aznavour.

Convidado por Piaf para acompanhá-la em turnê pela França e Estados Unidos, o jovem Aznavour viu sua carreira decolar. E como decolou! Ele compôs próximo de 850 canções e, poliglota, gravou músicas em inglês, italiano, espanhol e alemão. Já superou os 100 milhões de discos vendidos compilados em mais de 100 álbuns.

Como se não bastasse, Aznavour teve uma longa carreira paralela como ator, participando de mais de 60 filmes. Considerado o Frank Sinatra da França, ele também exaltou o amor. Com a morte de Sinatra tornou-se o último dos crooners ao velho estilo, e um dos mitos da canção e do cinema franceses.

Em 1988 Charles Aznavour foi eleito o artista do século pela CNN e pelos usuários da Time Online espalhados pelo mundo. No início do outono de 2006, iniciou a sua turnê de despedida apresentando-se nos Estados Unidos e no Canadá.

Em 2007, excursionou pelo Japão e resto da Ásia. Em 30 de setembro de 2006, Aznavour participou de um grande concerto em Erevan, capital da Armênia, terra natal de seus pais.

O cantor veio ao Brasil em quatro oportunidades: em abril e setembro de 2008; em maio de 2013; e, em março deste ano. A crítica especializada elogiou a sua recente turnê pelo Brasil com ele beirando os 93 anos de idade. A baixa estatura (1,60m) e a idade avançada em nada atrapalham o seu domínio de palco e, pelo visto, somente a morte afastará o cantor das luzes da ribalta.

Assisti à segunda apresentação de Aznavour no Recife, numa sexta-feira, dia 12 de setembro de 2008, no Chevrolet Hall. Na época, Aznavour estava com 84 anos, e contava com o magnetismo vocal de sempre. Um espetáculo acalentador para fãs e admiradores do trabalho do cantor-ator.

Viajamos para Recife, eu, minha esposa Edilza e um casal amigo (Fernando e Marinez), e nos hospedamos no Dorisol Recife Grand Hotel (hoje Wyndham Garden Recife), em Piedade, para o pernoite.

Dia seguinte ao show, durante o café da manhã, nos deparamos com músicos integrantes da banda do cantor. Nada de anormal! Certamente, não seria ali onde encontraríamos o badalado Charles Aznavour. Imaginá-lo hospedado junto à sua equipe como um simples e humilde mortal? Jamais! Aconteceu de ele estar lá, sim!

As mulheres descobriram sua boa vontade para com os fãs, e ficaram alvoroçadas à espreita do astro para obterem autógrafos. E nós, os maridos, fingindo certa relutância, torcendo para que ele aparecesse. Perdeu-se uma parte da manhã até a celebridade surgir. Gentil e pacientemente ele distribuiu autógrafos e posou para as fotografias solicitadas.

Quanto a mim, satisfiz-me clicando a lenda viva da história da música francesa. Após a sessão fotográfica, num atrevido sotaque franco-tupiniquim, tasquei-lhe um Merci, monsieur Aznavour!… Nadica de nada incomodou-me ficar sem resposta para aquele cumprimento abobalhado.

RIR É O MELHOR REMÉDIO

Houve um tempo em que a família brasileira era leitora fiel da revista Seleções – nome da versão brasileira da Reader’s Digest. Circulando no país desde fevereiro de 1942 e vendida predominantemente por assinatura, Seleções sempre apresentou um formato peculiar: menor do que um periódico como a VEJA e maior do que um livro de bolso.

A publicação contempla assuntos diversificados incluindo conhecimentos gerais, biografias e literatura com a intenção de educar e estimular a leitura. Durante anos meu pai manteve uma assinatura de Seleções, da qual eu soube tirar proveito.

Deleitavam-me, em particular, as anedotas publicadas nas seções “Ossos do ofício”, “Flagrantes da vida real” e “Rir é o melhor remédio”. Tais quais as suas matérias leves e informativas, as piadas nunca descambavam para o grotesco ou para a vulgaridade.

Remexendo em tralhas esquecidas num depósito encontrei alguns exemplares antigos da revista. Desacostumado com a leitura de Seleções, foi movido pelo inconsciente que comecei a folhear o achado. Talvez, para encontrar resquícios escondidos do meu passado. Deles pincei estas pérolas de humor refinado:

1. “Antes de nos casarmos, eu saía com homens mais inteligentes que você!” – grita a mulher raivosa para o marido. “Eu sei!” – rebate ele. “Sem dúvida foram pessoas inteligentes o bastante para não cometerem o erro que cometi”.

2. Totalmente calvo aos 70 anos, o homem olhou-se no espelho e disse ao filho: “Extraordinário!”. “O que papai?”. “Na minha idade, e nenhum fio de cabelo branco na cabeça”.

3. O chefe de Recursos Humanos explica a um jovem solteiro a razão de não contratá-lo. “Desculpe, mas nossa empresa só trabalha com homens casados”. “Por quê? Por acaso eles são mais inteligentes e competentes que os solteiros?”. “Não, eles estão mais acostumados a obedecer”.

4. No jardim do Éden, Eva pergunta a Adão: “Você me ama?”. Adão responde: “E eu tenho escolha?”.

5. O velho acaba de morrer. O padre encomenda o corpo e se rasga em elogios: “O finado era um excelente cristão, um pai exemplar, um marido fiel…!”. A viúva, então, se vira para um dos filhos e lhe diz ao ouvido: “Vá até o caixão e veja se é mesmo o seu pai que está lá dentro!”.

6. Pouco antes do casamento, o pai da noiva se aproxima do noivo e pergunta: “Meu rapaz, o senhor tem condições de sustentar uma família?”. “É claro!” – responde ele. “Ótimo, somos nove!” – alegra-se o pai.

7. A mulher queixava-se ao marido: “É um desaforo! Vocês passam o tempo todo falando mal das sogras. Elas também são humanas”. “Não se queixe, querida. Eu nunca falo mal da sua sogra. Sempre falo mal da minha”.

8. “Gostaria de morrer dormindo, como aconteceu com meu avô. E não gritando de terror, como os passageiros do ônibus que ele dirigia”.

9. Dois casais jogavam cartas todo domingo, havia 40 anos. Na falta de assunto, um dos homens disse: “Ando me esquecendo de tudo… Resolvi fazer um curso para melhorar a memória”. O outro: “Isso me interessa. Onde é o tal curso?”. O primeiro pensa e pergunta: “Como se chamava a mulher de Abraão?”. E ouve: “Sarah”. Virando-se para a esposa, tasca: “Sarah, onde é mesmo o curso que estou fazendo?”.

Realmente, rir ainda é o melhor remédio.

ENCOMENDA ESQUISITA

Sábado desses acordei com o toque irritante do telefone. Antes de me certificar quem chamava consultei o relógio de cabeceira que marcava 6h15. Era a esposa de um velho amigo. Ela sequer me cumprimentou indo direto ao assunto: Vocês estão com alguma viagem programada para os Estados Unidos? Respondi enfastiado: Não. Por quê? E ouvi: Preciso comprar um produto para salvar o nosso casamento!

Curioso, arrisquei saber quão especial era a encomenda para a amiga me acordar àquela hora. Dissipadores de gases intestinais! – adiantou-me ela. Acostumado com as presepadas da figura, mandei-a procurar outro freguês para fazer de otário e me deixar dormir. Desfiz a ligação e tentei reconciliar o sono.

Passado algum tempo, já desperto de todo, comecei a matutar sobre a pretensa pegadinha da amiga. Recorri à internet e, para minha surpresa, descobri que existe o tal artifício para amenizar a ação de puns insuportáveis. Trata-se de um produto bizarro, criado por conta de uma situação mais grotesca ainda.

Vale a pena reproduzir a história, pois é provável que inúmeros casamentos enfrentem o problema de uma vida amargurada, diante da possibilidade de desenlace de uma união estável por conta de gases intestinais. Afinal, tanto é difícil conviver com o mau cheiro gaseificado do parceiro, quanto atinar para a solução de como eliminá-lo.

Um casal norte-americano estava com o matrimônio em crise. A esposa convivia com um distúrbio inflamatório crônico chamado doença de Crohn. Tal inflamação afeta o trato digestivo causando diarreia, dor abdominal e, o pior, agrava o mau cheiro da flatulência.

Os frequentes e fedidos traques da mulher estavam tirando do sério o até então compreensivo marido. Para tentar salvar seu casamento o dito cujo procurou uma saída consensual e prática, pois ainda prezava a peidorreira como bem comprova a solução encontrada.

O artefato anti-pum nada mais é do que uma roupa de baixo com um filtro removível na parte de trás. O inventor tomou por base filtros de máscaras respiratórias utilizadas por trabalhadores de minas de carvão. O problema do casal foi resolvido e hoje eles vivem das rendas obtidas com a comercialização da invenção.

Podem rir, mas é a pura verdade. Para os Interessado no produto, as calcinhas e cuecas anti-pum são negociadas pelo site virtual Under-ease, que entrega as peças no mundo todo. É ver para crer ou, se for o caso, usar e praticar para saber.

Determinados artefatos, em momentos de extrema necessidade, saem da faixa da esquisitice para assumirem a condição de imprescindíveis e nada estranhos. Um exemplo já assimilado pela população idosa é a peça íntima fabricada para quem sofre de incontinência urinária.

Somente será entendido o seu real valor prático, quando o indivíduo estiver diante da constrangedora situação de não mais poder controlar a micção num ambiente público sem tempo de acorrer a um mictório.

O telefonema da amiga deixou-me uma lição. Num mundo virado de ponta cabeça como o nosso, até o impossível é admissível. A partir de agora não estranharei nenhuma compra que me peçam para fazer, por mais absurda que pareça.

Evitei perguntar pelo usufrutuário da encomenda, embora já desconfie quem seja, no casal, o desventurado portador da doença de Crohn.

SERÁ O BENEDITO?

Lá se vão quase quatro décadas da morte do pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980), certamente o mais festejado dramaturgo do país, autor de centenas de contos onde explorou as paixões e as tragédias do cotidiano do brasileiro.

Engendrar-se pelos enredos do escritor é também uma maravilhosa viagem ilustrativa dos usos e costumes dos anos 50 e 60, retratados com sotaque da época sem qualquer pudor ou censura.

Mas o que torna deliciosa essa leitura, principalmente para nós sessentões, é resgatar expressões e gírias escondidas, há muito, nas sombras de nossas lembranças. Nos contos de Nelson, tais citações escapolem aos borbotões de seu imaginário fértil, e se nos apresentam tão vívidas e atuais como no tempo em que foi escrita cada uma das cenas das histórias do autor.

Décadas atrás era comum externar surpresa dizendo: Carambolas! Papagaio! Mostrava-se desagrado afirmando: É de arder! Acho pau! É espeto! É de morte! Ora, que pinoia! Será o Benedito? Se algo ou alguma mulher nos era agradável aos olhos, manifestávamos a satisfação exclamando: Um brinco! Uma teteia! Bonita como uma estampa! Um biju! Bacana!

Ter receio se expressava com um Estou frito! Algum bode? Fizeram minha caveira! Para combinar um negócio recorria-se a ditos como: No duro ou De fio a pavio. Mulher rica era Cheia da gaita. Ir ou vir depressa se cobrava com um Chispando! Caracterizava-se uma mentira afirmando: É potoca!

O gabola era Garganta pura. Pessoa franzina não passava de um Espirro de gente. Recém-casado chamava-se Casadinho de fresco. Ser rigoroso era Entrar de sola. Pedia-se calma com um Sossega o periquito. Externava-se alguma contrariedade falando: Comigo não, violão! Para cobrar uma explicação recorria-se a Desembucha, anda!

Diante da possibilidade de um namoro era comum falar: Ela te dá bola, Faz fé com tua cara ou Pode dar em cima. Para acusar alguém de esnobismo ou de afetação comentava-se: Não me venhas com chiquê, com nove horas! Para insinuar que o tempo para determinada providência se esgotara, dizia-se: Até aí morreu o Neves! Classificar alguém de sonso era: Mas que mascarado você é! E por aí vai.

No fundo, as gírias de hoje traduzem o mesmo significado de outrora, com a diferença de estarem maquiadas com um vocabulário pesado, sem originalidade e, em muitas situações, chulo. Até que seria pitoresco um trabalho cotejando expressões idiomáticas extraídas do cotidiano do nosso povo, relacionadas a diferentes épocas de nossa história. Algum saudosista ao ler tal trabalho, deixaria escapar a seguinte manifestação: É um número! Digno de almanaque!

Um dos vocábulos mais utilizados nas crônicas de Nelson Rodrigues é Batata. Tanto para cobrar um compromisso quanto para corroborar um acerto: Nos veremos mais tarde. Batata?. A resposta seria: Batata! E estava selada a palavra.

Fico imaginando qual a reação de um adolescente, membro de alguma comunidade funk brasileira deste século XXI, quando questionado com um: Batata? Certamente, pensaria tratar-se de seu legume predileto e responderia algo do tipo: “Yes brother, mas tem que ser trabalhada num óleo bem esperto, acompanhando um sanduba de penosa e de um arrotante no grau que pinguim gosta”.

Batata?

AVA GINA

A recém-nascida batizada com os prenomes que intitulam esta crônica foi vítima de um arroubo da paixão do pai por Ava Gardner e Gina Lollobrigida, duas belas atrizes da cinematografia mundial, no século passado, das quais ele era fá ardoroso. Isolados, os nomes apresentam sonoridades agradáveis; unidos, aventam a um substantivo da língua portuguesa, constrangedor para intitular uma pessoa.

Agrícola Beterraba Areia, América do Sul Brasil de Santana, Amazonas Rio do Brasil Pimpão, Amim Amou Amado, Araúto do Charuto Fedido, Amável Pinto, Barrigudinha Seleida, Bende Sande Branquinho Maracujá, Coel Linho Da Páscoa, Céu Azul do Sol Poente, Chevrolet da Silva Ford.

A Lei de Registros Públicos nº 6 015, de 31/12/1973, proíbe o registro de pessoas recém-nascidas com nomes que, posteriormente, lhes sejam vexatórios ou as exponham ao ridículo. Oficiais do registro civil podem se negar a acatar nomes considerados abusivos a seus portadores, porém, ainda assim escapam denominações esdrúxulas.

Decêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco, Dona Maria Buceta, Dolores Fuertes de Barriga, Éter Sulfúrico Amazonino, Espermatocleide, Faraó do Egito de Souza, Fé Esperança e Caridade, Felicidade do Lar Brasileiro, Flávio Cavalcanti Rei da Televisão Brasileira, Himeneu Casamenteiro das Dores Conjugais.

É verdade que o Direito Civil brasileiro permite a mudança do prenome ou sobrenome, a qualquer tempo, quando fica evidenciada a exposição da pessoa a danos morais ou constrangedores. Mas, até que seja sanada a causa do problema, o efeito já terá acarretado estragos crudelíssimos na vida do cidadão.

Ilegível Inelegível, Inocêncio Coitadinho Sossegado, Lança Perfume Rodometálico de Andrade, Liberdade Igualdade Fraternidade Nova York Rocha, Menelau Rima com Pau, Menstrualina Absorvente Estragado, Maria Tributina Prostituta Cataerva, Napoleão Bonaparte Sem Medo e Sem Mácula.

Denominações como as agrupadas acima se, em adultos, causam situações embaraçosas, imaginemos agressões semelhantes em crianças na idade escolar: quantas chacotas e bullyings adviriam por conta da insensatez dos pais?

Padre Filho do Espírito Santo Amém, Produto do Amor de Mariana e Maribel, Queijo Pedrosa das Tortas, Restos Mortais de Catarina, Rodando Escada Abaixo, Safira Azul Esverdeada, Tom Mix Bala e Última Delícia do Casal Carvalho.

Como se não bastasse a coletânea de absurdos aqui registrada, existem também os erros de cartório ou aqueles decorrentes de falhas na comunicação. Exemplos: Maicon Jakisson (Michael Jackson), Shuasneguer (Schwarzenegger) e Welison Snaipi (Wesley Snipes). Não esqueçamos a mulher chamada Jafa Lei, resultado do seguinte diálogo: “Qual o nome da criança?”. A resposta: “Já falei!”.

Nada, porém, se compara ao constrangimento daquele senhor durante um check in no hotel de luxo:

– “Qual o seu nome, cavalheiro?” – pergunta o recepcionista.

– “Ri-ri-ri-cardo!” – responde o candidato à hóspede.

– “O senhor é gago?”.

– “Não. O gago era meu pai, mas o escrivão foi um grandessÍssimo filho da puta!”.

O MISTÉRIO DE LANCIANO

Quinta-feira passada a Igreja Católica celebrou o Corpus Christi, o mistério da Eucaristia, o sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo. Daí eu escrever este texto para ser interpretado sob a ótica da análise científica que o embasa, sem querer influenciar ninguém nem descambar para qualquer tipo de exagero místico.

Trata-se do mistério de Lanciano, antigo vilarejo italiano. O fato se deu no mosteiro de São Legoziano, abrigo dos monges de Sâo Basílio, em meados do ano 700 depois de Cristo. Dentre eles havia um cuja fé vacilava. Duvidava que a hóstia consagrada fosse o verdadeiro Corpo de Cristo e, o vinho, o Seu verdadeiro Sangue.

Certa manhã, celebrando a Santa Missa, atormentado por sua dúvida, o monge viu a hóstia se converter em carne viva e o vinho em sangue vivo. Confuso e dominado pelo temor, permaneceu longo tempo tomado pelo êxtase diante da constatação sobrenatural. Visivelmente emocionado ele voltou-se para as pessoas presentes à celebração conclamando-as para, também, atestarem a ocorrência.

A suspeita do monge quanto à transubstanciação havia se dissipado. Os fieis guardaram as relíquias num tabernáculo de marfim e, adiante, em 1713, as transferiram para uma custódia de prata e um cálice de cristal, onde permanecem até hoje, na Igreja de São Francisco, na mesma localidade.

Pois bem, a Hóstia-Carne, como se observa no santuário que a abriga, tem o tamanho da hóstia grande em uso na Igreja Latina. É ligeiramente escura e quando olhada contra a luz adquire um colorido róseo. O Sangue está coagulado em cinco glóbulos irregulares e diferentes um do outro e, em sua forma e tamanho, tem cor de terra tendente ao ocre. Um estupor para os olhos.

Em novembro de 1970, os Frades Menores Conventuais cuidadores da Igreja do Milagre, com a autorização de Roma, resolveram confiar a um grupo de eméritos professores italianos a perícia científica das relíquias, datadas de doze séculos.

As análises procedidas com absoluto rigor científico e documental de uma série de fotografias ao microscópio foram publicadas em inúmeras revistas científicas de todo o mundo. Eis as conclusões surpreendentes:

“A Carne é verdadeiramente carne. O Sangue é verdadeiro sangue. Um e outro são carne e sangue humanos. A carne e sangue são do mesmo grupo sanguíneo (AB) – o mesmo do Santo Sudário. A carne e sangue SÃO DE UMA PESSOA VIVA. O diagrama deste sangue corresponde a de um sangue humano que tenha sido retirado de um corpo humano NAQUELE MESMO DIA”.

“A Carne é constituída de tecido muscular do Coração (miocárdio). A conservação dessas relíquias deixadas em estado natural durante séculos e expostas à ação de agentes físicos atmosféricos e biológicos permanece um fenômeno extraordinário”.

Outro detalhe inexplicável: pesando-se as pedrinhas de sangue coagulado – e todas são de tamanhos diferentes-, cada uma delas tem o mesmo peso das pedrinhas juntas.

A verdade é que a ciência se rendeu ante as evidências extraordinárias do mistério de Lanciano. Os ateus, certamente, apontarão fraudes nas análises das relíquias ou debitarão os resultados obtidos no rol de enigmas pesquisados carentes de solução. Já os crentes, racionalizarão a ocorrência como um milagre de Deus.

Quanto a mim, se provocado, eu me alinho com os últimos.

VIDE BULA

As letras minúsculas contidas nas bulas de medicamentos escondem informações importantes, comumente desconsideradas por nosso desinteresse em conhece-las ou por preguiça de lê-las. Daí ficarmos alheios aos efeitos colaterais e às contraindicações de remédios que ingerimos visando o bem de nossa saúde.

Tomemos por exemplo o omeprazol. Trata-se de um dos medicamentos mais vendidos do planeta, indicado nos tratamentos de úlceras – tanto gástricas como duodenais -, da esofagite de refluxo, da hiperacidez gástrica e da síndrome de Zollinger-Ellison.

Acontece de o uso continuado do omeprazol ser bastante questionado devido os seus efeitos colaterais. Esses são agrupados como reação comum (diarreia, náusea, vômito, tontura e tosse); reação incomum (sonolência, insônia, vertigem e mal-estar) e, reação rara (confusão mental, agressividade, aumento da transpiração e alteração do paladar).

Existem outras reações consideradas “experiência pós-comercialização” relatadas, espontaneamente, por uma população de tamanho desconhecido, portanto, não sendo possível estimar a real frequência ou estabelecer relação de casualidade com o medicamento.

São desordens que vão de palpitação, passando por tinido, tremor, letargia, cãibra, dores nas costas e testicular, apatia, nervosismo, ansiedade e uma penca de outras mazelas.

A eficiência da droga na cura das enfermidades apontadas na bula é inquestionável, porém (sempre existe o tal porém), o uso continuado do medicamento pode causar deficiência de vitamina B12, que induz à redução da produção de testosterona.

A diminuição da testosterona no organismo do homem influencia no comportamento, em algumas características físicas e, também, no desempenho sexual. Como se não bastasse os níveis desse hormônio caírem naturalmente no sangue, a partir dos 40 anos, é cruel imaginar tal redução ser acelerada por uso de medicamentos.

Impingir ao omeprazol a pecha de causador de impotência sexual em marmanjos é uma discussão longa e abrangente, açambarcando diferentes vertentes no debate – basta consultar a internet para avaliar e plenitude dos questionamentos.

Por outro lado, a medicina natural não pode nem deve ser desconsiderada na sua totalidade. Afinal, uma boa parcela de produtos farmacológicos é originária do mundo vegetal. Então por que teimar em desqualificar a medicina natural?

Um exemplo clássico é o limão. A fruta produz um alto teor de ácido cítrico 5 a 7%) que, quando livre, é ácido. Porém, ao ser ingerido e em contato com o meio celular no interior do organismo humano, é oxidado e se transforma num agente tamponante, comportando-se como um alcalinizante. Daí se dizer que o limão combate a acidez estomacal.

É fundamental a consulta médica para estabelecer o grau de comprometimento da doença gástrica. Eu o fiz e me acostumei com o omeprazol. Todavia, não me tornei um dependente do medicamento. Hoje pratico, com parcimônia, a ingestão de gotas de limão na água, em jejum, alternando com o suco verde feito com couve e limão.

Impressionante! O estômago não tem reclamado.

PAPO CABEÇA COM UM ATEU

Dentre meus amigos diletos um é ateu de carteirinha. Sei, perfeitamente, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, razão porque a sua descrença em qualquer divindade não afeta nossa convivência salutar. Meu amigo, é um profissional competente, possui boa cultura, bom humor e grande generosidade.

Em nossas conversas evito tocar no controverso assunto religiosidade para evitar antagonismos que possam macular nossa amizade. Entretanto, aos poucos, fui descobrindo os motivos que embasaram o seu ateísmo, bem como fragmentos das opiniões que ele defende acerca da vida, da morte e sobre Deus.

Filho de mãe cristã fervorosa, meu amigo, quando criança, foi coroinha na paróquia da cidade onde nasceu – segundo ele, ainda ajudou missas celebradas em latim. A primeira desilusão com a religião aconteceu na infância, diante da doença de um avô querido. Após rezar até cansar pela recuperação do parente, ele morreu em dezembro de 1963.

Naquele mesmo ano o papa João XXIII caíra doente e fieis de todo o mundo oraram pela recuperação de Sua Santidade, que faleceu em junho de 1963. A conclusão de meu amigo: “Se as orações do mundo inteiro não foram suficientes para salvar o papa, imagine qual poder teria a da nossa família para salvar o meu avô?”.

O golpe de misericórdia na sua já abalada crença partiu de um grande amigo da família que, peremptoriamente, afirmou: “A maioria das pessoas que vai à igreja, age assim por desencargo de consciência ou com receio do que aconteça de ruim consigo, após a morte.

O amigo assevera que estamos aqui por obra e graça do acaso. Não passamos do resultado de espermatozoides desnorteados que, dentre milhões de congêneres, conseguiram germinar óvulos. A religião é um apoio para amenizar agruras. A nossa vida é uma passagem efêmera e a morte é o ponto final. Espírito é balela.

A descrença na existência de um espírito e da vida além da morte inibe quaisquer tentativas de pelejar contra seus pontos de vista. Alardeiam que os envolvidos com as ciências exatas, via de regra, são ateus. Discordo. Muitos cientistas famosos do passado criam em Deus.

Eis alguns deles: Nicolau Copérnico (1473-1543), Johannes Kepler (1561-1630), Galileu Galilei (1564-1642), René Descartes (1596-1650), Isaac Newton (1642-1727), Robert Boyle (1791-1867), Michael Faraday (1791-1867), Gregor Mendel (1822-1884) e Max Planck (1858-1947).

Albert Einstein (1879-1955), o mais reverenciado cientista do século XX, embora nunca tenha chegado a crer num Deus pessoal, reconheceu a impossibilidade de um universo não-criado. Estes são alguns de seus pensamentos: “Ciência sem religião é coxa, religião sem ciência é cega”, “Deus é a lei e o legislador do Universo”, “Deus é hábil, mas nunca enganador” e “Quanto mais me aprofundo na ciência mais me aproximo de Deus”.

Sem qualquer pieguice acredito que em algum momento da vida, haverá o chamamento de Deus a nós, para a crença na Sua existência. À minha maneira, torço para que chegue a hora da verdade para esse amigo, cujo nome resguardo. De fala fácil e grande poder de comunicação, que baita evangelizador ele seria.

A MAGIA DO “PRÍNCIPE”

Quem tem mais de 50 anos de idade deve guardar na memória o sucesso alcançado pelos concursos de Miss Brasil nos anos 60, 70 e 80. Deve recordar também a expectativa que tomava conta do país, durante o desenrolar do processo de escolha da representante nacional para a disputa anual do título de Miss Universo.

Com igual exatidão, deve lembrar o enorme contingente de candidatas que citava “strogonoff” como o seu prato predileto e, “O Pequeno Príncipe”, como o mais importante livro já lido. Mencionar a obra de Antoine de Saint-Exupéry consistia na fórmula ideal para insinuar alguma cultura a louras, ruivas e morenas, durante questionamento específico do júri do certame.

Embora banalizado na preferência das misses de antigamente, o “O Pequeno Príncipe” não é o tipo de leitura para se estereotipar. A obra foi escrita em 1943, quando do exílio do escritor nos Estados Unidos, época em que visitou o Brasil. É o livro francês mais vendido no mundo, com tiragem aproximada de 80 milhões de exemplares em cerca de 500 edições.

Depois da Bíblia, é a obra literária mais traduzida do planeta com publicações em 160 línguas ou dialetos. O título bem que pode sugerir, mas não é um livro apenas para crianças. Tem profundidade suficiente para nos fazer refletir sobre a vida e nossas atitudes, a qualquer tempo e com qualquer idade. Quem já o leu concordará com minhas palavras; quem ainda não o conhece terá uma grata satisfação ao se deparar com uma leitura leve e envolvente.

Mas, não foram esses detalhes que me fizeram reler, pela enésima vez, “O Pequeno Príncipe”. A motivação decorreu de citação de um sacerdote, durante pregação religiosa, demonstrando sincera admiração pelo trabalho do escritor francês.

Na oportunidade, utilizou o conteúdo de determinado capítulo do livro para reconfortar uma família sofrida em razão de perda recente de um ente querido. Envolver-se com a singeleza metafórica daquele ensaio sobre a natureza humana, repleto de sutil subjetividade, é um exercício cativante.

Na leitura, é comum encontrarmos citações aleatórias do enredo que nos despertam a atenção. Caminhos secretos surgem de aberturas, até então desconhecidas. São atalhos para novas reflexões, com interpretações totalmente diferentes do texto. Isso o transforma numa agradável caixa de boas surpresas.

Já li e ouvi manifestações ácidas sobre a mais conhecida obra de Saint-Exupéry. Tacharam-na de piegas, enfadonha, infantil, chata, mas isso nunca diminuiu sua aceitação pública nem afetou o sucesso de vendas. Por uma simples razão: com quase 75 anos de existência, o “O Pequeno Príncipe” é uma leitura atualizada, que toca a sensibilidade de crianças e de adultos.

Voltemos à citação do clérigo que me fez discorrer sobre a obra-prima de Exupéry. Trata-se do diálogo de despedida do pequeno príncipe, já no final do livro. Em resumo, ele fala ao seu interlocutor o seguinte:

“Quando olhares o céu de noite, tu verás estrelas e a mim, porque habitarei uma delas e estarei rindo. E será como se todas as estrelas te rissem! Então terás estrelas que sabem rir! E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Seremos sempre amigos. Para me encontrar, basta olhares para o céu e saberás que eu estarei lá, rindo. Então terás vontade de rir comigo”.

Eis a magia de o “O Pequeno Príncipe”.

A MINHA CANÇÃO

Dirigindo e sintonizando FMs ao acaso escutei, de passagem, este trecho de verso musicado: …preste atenção, essa é a nossa canção… Tratava-se de Nossa Canção, sucesso de Roberto Carlos, em 1966, com letra e música de Luiz Ayrão.

Foi quando eu atentei para o detalhe de nunca haver definido uma música para chamar de minha ou que se caracterizasse como a canção de minha vida a dois. Um baita desaforo para quem se considera um romântico de carteirinha.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

A maioria dos meus amigos ou pessoas com as quais eu me relaciono, se questionadas sobre o tema, certamente terão na ponta da língua qual a música significativa de suas existências. Realmente, não é nada incomum, haja vista permanecer no inconsciente de cada indivíduo um odor, uma visão ou uma sonoridade que o reporta a boas ou más lembranças pretéritas.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

Algumas músicas tiveram papel de destaque em diferentes fases de minha vida. A mais antiga lembrança vem do meu tempo de Ginásio São Luiz, onde eu e mais dois colegas formamos um conjunto vocal para as aulas de Canto Orfeônico. Na época estava em voga trios como o Los Panchos, o Irakitan, o Nagô e outros. A música que mais interpretamos foram Beija-me, Perfídia e Prece ao Vento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:

Quando de meu noivado, brinquei o Carnaval de 1967 ao som da marcha-rancho Máscara Negra, de Zé Keti. Curti bastante, também, Carinhoso no jeito de cantar de Bethânia e, Fascinação, com o registro inimitável de Elis Regina.

Em seguida, descobri e me amarrei nos estilos vocais de Frank Sinatra e de Nat King Cole e com o som das orquestras de Glenn Miller, Ray Conniff e Paul Mauriat. As músicas deles que mais me marcaram foram, respectivamente, All the Way e Fly Me to the Moon; Unforgettable e Mona Lisa; e as interpretações instrumentais de Moonlight Serenade, Love Is Many Splendored Thing e Love Is Blue.

Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Entretanto existe uma música que, todas as vezes que eu a ouço, sinto o corpo relaxar e uma paz misteriosa invadir meu ser. Trata-se, segundo a revista Rolling Stone Brasil, da 24ª melhor canção brasileira. São inúmeros os interpretes da composição de Vinicius de Moraes e de Tom Jobim, entretanto, ela nunca perdeu a beleza nem o encantamento em quaisquer das versões trabalhadas.

Particularmente, eu prefiro a interpretação que traga recitado o Soneto da Fidelidade, também de Vinicius, transcrito nas entrelinhas deste texto.

Eu sei que vou te amar é a música que escolho como minha canção.

* * *

MEU ENCONTRO COM MADEMOISELLE BARDOT

Somente agora tive coragem de relatar meu encontro com Brigitte Bardot, a lenda das telas do cinema nas décadas de 50 e 60, ela, na época, com 29 anos de idade. Isso, 53 anos atrás. Não o fiz antes porque ninguém acreditaria na história inverossímil de um nordestino jovem de sotaque carregado e sem dinheiro no bolso.

Ao ser aprovado no vestibular, meus pais me presentearam com uma passagem para conhecer o Rio de Janeiro. Fui parar em Niterói na casa de parentes.

Brigitte Bardot na Praia de Búzios, em 1964

Disposto a encarar o Rio, li no Jornal do Brasil, que Brigitte Bardot, a musa platinada do cinema francês, estava desenfastiando da glória mundial num recanto do litoral fluminense chamado Búzios. Ela e o namorado Bob Zagury, um playboy e produtor marroquino radicado no Brasil. Vivíamos o final de fevereiro de 64.

Eu e toda a molecada de minha idade, havíamos fantasiado momentos profanos incríveis com a ex-esposa de Roger Vadim, atriz dos filmes E Deus Criou a Mulher, Quer Dançar Comigo, Amar é Minha Profissão e O Desprezo. Eis que a diva descansava, naquele momento, no estado da Guanabara onde eu me encontrava.

Perguntei aos parentes como chegar a Búzios. Eles puseram todo tipo de obstáculo, inclusive alegando ser a dita praia uma vila de pescadores muito distante de Niterói. E mais: por que trocar as atrações turísticas e a beleza natural do Rio de Janeiro por uma praia remota e pouco habitada?

Tentei justificar dizendo que Copacabana, o Corcovado e o Pão de Açúcar ainda estariam no mesmo local, quando eu voltasse à cidade em outra ocasião; ao passo que Bardot, talvez não retornasse jamais ao Brasil. Não os convenci porque, irredutíveis, eles desqualificaram o poder de uma paixão platônica adolescente.

Os jornais informavam que a star e o seu namorado se escondiam da imprensa na Praia de Manguinhos, na casa do represente das Nações Unidas no Brasil e amigo de Bob. Enfiei numa sacola um calção de banho, um par de chinelos e uma escova de dentes, e segui para a estação rodoviária tentar alcançar a Região dos Lagos.

Cheguei ao tal povoado num final de tarde e me instalei numa pousada rústica para pernoitar. Eu estava determinada a conhecer Brigitte Bardot. Agora, tudo dependeria de sorte. Um nativo deu-me as coordenadas que faltavam mostrando uma passagem obrigatória da artista para a casa que lhe hospedava. Ali fiquei de tocaia por um dia inteiro.

Final da manhã do segundo dia, ela escultural num biquíni discreto, cabelos soltos e despenteados e o rosto sem maquiagem, surgiu andando na orla chutando areia. Ao lado dela uma amiga. Vinham na minha direção. Brigitte parou e deitou para se bronzear, enquanto a amiga retornou à casa, talvez, para buscar algo.

Na praia quase deserta, as poucas pessoas em trânsito não identificavam na loura ali esparramada, a badalada atriz internacional. Esperei alguns instantes e, quando não vi ninguém por perto, me aproximei da beldade e falei:

Bonjour, Mademoiselle Brigitte, vous êtes belle!

Ela sobressaltou-se, mas, refeita do susto, sorriu. Já sentada na areia me estirou a mão para que eu a ajudasse a levantar. Mão estendida, me aproximei da musa, mas, uma voz estranha ao contexto se interpôs entre nós, dizendo:

Narcelio, acorde! É hora de sua caminhada!

Desperto, dominaram-me dois sentimentos: frustração, porque nunca saberia o resultado daquele promissor aperto de mãos; alívio, porque BB não me veria com cara de tacho, caso resolvesse entabular qualquer conversa comigo… em francês.

E Deus Criou a Mulher

A ERA DE OURO DOS TRIOS

Não se fazem mais trios como os de antigamente. Nada como aqueles conjuntos musicais compostos por primeira, segunda e terceira vozes masculinas. Três intérpretes tendo como instrumental básico o violão, o afoxé e o tantã, com o qual obtinham o acompanhamento necessário para a perfeita colocação dos timbres vocais.

Os primeiros trios musicais a gravarem discos no Brasil foram o Trio Aurora e o Trio Royal, ambos com formações instrumentais surgidos na década de 1910. Os vocais apareceram a partir de 1930, com o Trio de Ouro de Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Francisco Sena. A partir de então mais de uma centena de trios brilharam e desaparecem no cenário musical brasileiro.

O bolero se moldou como uma luva para o trio. Esse ritmo surgiu em Cuba mesclado de raízes espanholas, porém, ficou mais conhecido como a canção romântica mexicana. Toda a América Latina sofreu a influência do bolero e, no Brasil, ele se popularizou a partir da década de 50.

Daí a importância do Trio Los Panchos como um dos divulgadores da música romântica mexicana. O conjunto formado, originalmente, por dois mexicanos e um porto-riquenho foi sucesso no Brasil, influenciando os trios que aqui se formaram.

Nessa época ocorreu a melhor safra de trios musicais do país. Para aclarar a lembrança eis alguns deles: Surdina, Prelúdio, Melodia, Cristal, Nagô, Marayá e Irakitan, os dois últimos originários do Rio Grande do Norte.

Os trios Irakitan e Marayá foram formados, respectivamente, em 1950 e 1954. O Irakitan somente gravou o primeiro disco em 1955, com o título Três vozes que encantam. Canta e encanta há quase sete décadas, pois ainda está em atividade após várias mudanças na composição original do conjunto.

Gravou perto de uma centena de discos, a maioria deles com o selo da Odeon. No meu entendimento, o mais representativo trabalho do trio chama-se Os boleros que gostamos de cantar, de 1959.

O Trio Marayá, embalado no sucesso da formação vocal conterrânea, obteve também o seu espaço no gosto popular. Assim como o Irakitan, o Marayá se apresentou em diversos países da América do Sul e da Europa com sucesso. A partir de 1975 o conjunto foi-se desintegrando.

No Ceará surgiu o Trio Nagô, em 1950, porém, foi dentre os trios o de menor duração no cenário musical. Ao se desfazer, doze anos após a criação, o conjunto abriu espaço para o crescimento do Trio Irakitan. Na curta existência, o Trio Nagô também angariou fãs e prestígio nas apresentações pelo país e no exterior.

Um dos fundadores e o líder do Trio Nagô foi Evaldo Gouveia, conhecido e festejado compositor brasileiro. Ao sair do trio, em 1962, Evaldo engatou parceria com Jair Amorim que resultou em mais de 150 composições emprestadas às vozes dos principais intérpretes brasileiros – o sucesso de Altemar Dutra deve-se às composições da dupla.

Uma das mais belas interpretações do Trio Nagô embalou o sono de meus três filhos, durante muitas noites e em diferentes épocas, quando eles interrompiam o repouso de Edilza, minha mulher. Deliciem-se com a leveza desta canção de ninar:

Sua Majestade, o Nenê – Trio Nagô

DE TOURO SENTADO A DIACUÍ

Minha iniciação no adorável mundo indígena ocorreu mediante gravuras e fotografias de quadros contidos nas páginas de livros de História do Brasil, durante meu aprendizado preliminar. Mais adiante, através da leitura da carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manoel I de Portugal, datada de 1º de maio de 1500:

“Ali vereis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelo corpo como pelas pernas, que, certo, pareciam bem. Andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal, e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que não havia desvergonha nenhuma…”.

Índia Diacuí da tribo kalapalo, aos 20 anos, no Alto Xingu, Mato Grosso

Antes de me aprofundar nos povos indígenas brasileiros, conheci as nações selvagens americanas. Filmes e seriados de faroeste mostraram-me embates impagáveis entre colonizadores brancos e peles-vermelhas.

Índios seminus, montando cavalos sem selas, com cocares de penas coloridas e portando armas artesanais, enfrentavam bem armados invasores das pradarias de seus antepassados. Eram indígenas das tribos sioux, apache, comanche, creek, navajo, cherokee e pés pretos, que fumavam cachimbos da paz e se comunicavam por sinais de fumaça, mas, também, tiravam escalpos de prisioneiros adorando totens.

A reação violenta dos índios ao avanço dos brancos sobre aquele território inóspito, ensejou a participação da cavalaria americana em defesa dos colonizadores. Dos embates sangrentos se sobressaíram as participações lendárias de chefes indígenas, tais como Gerônimo, Nuvem Vermelha, Três Cavalos e Águia Negra.

A batalha de Little Bighorn, ocasião em que os sioux comandados por Touro Sentado e Cavalo Louco exterminaram a 7ª Cavalaria do general Custer, em 1876, permanece na lembrança do povo americano, após quase 150 anos do massacre.

Sabe-se que os indígenas norte-americanos eram mais organizados do que os brasileiros. Quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, certamente, foi recepcionado por índios tupis ou guaranis, nações que habitavam nosso litoral. O interior do país era ocupado por aruaques, tapuias, caraíbas e tribos não identificadas.

Outra constatação relevante é que a unificação do território nacional se deve, em parte, à miscigenação do colonizador europeu com o índio e com o negro, e a do índio com o negro resultando, respectivamente, no mameluco, no mulato e no cafuzo, etnias raciais típicas do povo brasileiro.

Finalmente, reconheço que o trabalho do marechal Cândido Rondon no centro-oeste e norte do país, contatando tribos indígenas desconhecidas, delimitando reservas, ampliando as comunicações e criando o Serviço de Proteção ao Índio foram preponderantes na preservação das nações indígenas ameaçadas de extinção, por conta de ações do homem branco na ânsia de se apossar de suas terras.

Diacuí, a quem me refiro no título deste texto, pertencia a tribo kalapalo, do Alto-Xingu. Tinha 20 anos de idade quando conheceu o sertanista Ayres Câmara da Cunha com quem se casou. A cerimônia ocorreu em novembro de 1952, na Candelária, no Rio de Janeiro, sob espetacular cobertura jornalística dos Diários Associados, de Assim Chateaubriand, o qual apadrinhou os nubentes.

Após o retorno à sua aldeia, Diacuí (Flor do Campo), às vésperas de parir o único filho, viu-se sozinha e entregue à própria sorte, pois o marido voara para Aragarças. A índia foi vitimada por tenaz hemorragia depois de dar à luz a uma menina.

Faleceu, em agosto de 1953, antes de completar nove meses do enlace, a protagonista do primeiro casamento de um branco com uma índia no Brasil.

DO CRIOULO DOIDO AO RIO ANTIGO

Ontem transcorreu o Dia de Tiradentes, feriado nacional em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, mártir da Inconfidência Mineira. Aliás, um dos poucos heróis brasileiros.

Lembro-me, claramente, como a data era reverenciada nas salas de aula do meu tempo de ginásio. Alunos embevecidos admiravam o fervor patriótico imposto pelos mestres às homenagens alusivas à coragem do mineiro de Ritápolis, que ousou contestar a autoridade da coroa portuguesa no Brasil.

O relato de como se processou a execução da sentença do mártir brasileiro nos deixava estupefatos pela crueldade impingida ao ato. Duzentos e tantos anos depois assistiríamos, anestesiados pela persistente divulgação midiática, cenas de bestialidade que poriam no chinelo àquela presenciada pelos cariocas em 1792.

O dia 21 de abril me fez recordar, também, o cronista, escritor e compositor Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, e o seu famoso “Samba do Crioulo Doido”.

Naquela sátira musical ele explorou, com descabida irreverência, a memória do alferes autor da primeira movimentação em prol da independência brasileira. Senão vejamos: “Foi em Diamantina/Onde nasceu JK/Que a princesa Leopoldina/Arresolveu se casar/Mas Chica da Silva/Tinha outros pretendentes/E obrigou a princesa/A se casar com Tiradentes”.

Continuando com a letra do samba: “Joaquim José/Que também é/Da Silva Xavier/Queria ser dono do mundo/E se elegeu Pedro II/Das estradas de Minas/Seguiu para São Paulo/E falou com Anchieta/O vigário dos índios/Aliou-se a Dom Pedro/E acabou com a falseta/…O bode que deu vou te contar”. Saudoso Sérgio Porto.

Aproveitando a deixa saudosista, exalto a criatividade de outro memorável brasileiro. Trata-se do humorista, escritor, ator, comentarista, diretor de cinema e compositor Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, ou melhor, Chico Anysio.

Dentre a dezena de músicas que conheço de seu repertório, nenhuma se compara, em beleza e síntese, com o samba Rio Antigo. Essa composição de 1979, resultado de parceria com Nonato Buzar, é uma homenagem nostálgica ao Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Eis o primor de alguns versos da música:

Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio Antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão
O ontem no amanhã
Quero o Carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Quero um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, um zum-zum-zum dos Cafajestes
Cidade sem Aterro como Deus criou

Agora ouçam a talentosa Alcione na magistral interpretação da obra-prima de Chico Anysio.

EU TOMO VIAGRA!

Foi assim, peremptoriamente, que Bernardo se manifestou em novembro de 2016, na reunião comemorativa dos 50 anos da turma concluinte do científico, meio século atrás.

“Por favor, não me venham insinuar que serei aqui o único a tomar a azulzinha? – afirmou Bernardo, complementando o seu raciocínio com a seguinte justificativa: “Vocês sabem que eu sei quais são as duas posturas dos homens em relação ao Viagra: existem aqueles que tomam e aqueles que mentem!”.

Dos 42 concluintes do ensino médio da turma de 1966, apenas 15 estavam presentes ao encontro. Mais de uma dezena havia morrido, outro tanto morava fora do Estado, isso sem falar naqueles que simplesmente desconsideraram o convite.

35% ainda era um percentual representativo do grupo que se reunia a cada cinco anos. A rotina imposta aos encontros era inalterada, porém, nunca enfadonha. As mesmas gozações, as mesmas lembranças, as mesmas piadas, nada era levado a sério naqueles momentos de descontração.

A sinceridade de Bernardo foi um fato chocante, haja vista o tabu inviolável criado em torno do consumo daquele estimulante sexual. Acontece, que tudo poderia acontecer onde estivesse o imprevisível Bernardo.

Houve um instante de silêncio, quebrado por Anacleto: “Bom, eu admito tomar o Viagra, mas, não que eu esteja precisando de estimulante para meu apetite sexual. O medicamento tem me ajudado, e muito, na reconstituição capilar” – ato contínuo retirou a peruca e tentou mostrar pelos inexistentes na careca reluzente.

Em outra situação, a piada estaria montada. Até porque, todos sabiam da peruca de Anacleto, mas, ninguém ousava tocar no assunto. Inimaginável, também, presenciar o colega se desprover do aplique e revelar um segredo guardado a sete chaves. Mesmo assim, não houve galhofa pela constatação da gritante falta de cabelos.

Pela primeira vez discutia-se um assunto sério numa daquelas reuniões quinquenais. Intimidados pela coragem de Bernardo e Anacleto, os demais presentes começaram a abrir o jogo. Partiu de Sílvio o primeiro comentário “sincero”:

“Tenho 68 anos e, uma vez e outra, sinto necessidade de algum estimulante. Não sempre, repito, mas numa data importante eu uso, sim, o Viagra!”.

Ricardo, o intelectual da turma, falou: “Eu já tomei a azul. Deixei por conta dos efeitos colaterais, principalmente, pela alteração de minha frequência cardíaca. Agora, quando puserem no mercado a nova pílula à base de cubenina – substância presente na pimenta-de-java ou piper cubeba -, a história será outra”.

Num piscar de olhos a reunião tomou outro rumo. Nada mais de assuntos passados ou de lembranças remotas. A cubenina virou o centro das atenções:

“É verdade que ela é 50 vezes mais potente que o Viagra, o Ciales e o Levitra?”; “Andam falando que durante os testes com a cubenina, todos os camundongos ficaram de ‘pinto’ duro”; “Há 20 anos estudam a cubenina para tratar a doença de Chagas, causada pela ‘picadura’ do inseto. Agora, tentam fazer durar a tesão no macho”.

Enquanto isso, Bernardo, assistia as manifestações juvenis de entusiasmo daqueles queridos e hipócritas colegas, ante a possibilidade de um potente milagre erétil em suas vidas.

CIDADE MARAVILHOSA

Efigênia, para os íntimos Geninha, divorciada, sem filhos, independente financeiramente, amava a vida, os homens e a liberdade. Há três anos deixara sua Natal querida para matar a saudade, se perder e se encontrar no Rio de Janeiro de onde guardava boas recordações do tempo de casada. Beirando os 50 anos possuía a vitalidade de uma mulher de 30. Adepta de tudo que envolvesse ação ou esforço físico mantinha aparência saudável e sarada.

Quando questionada acerca da mudança de vida, ela respondia: “Fugi para a incerteza do futuro na esperança de fazer meu ninho num local onde vida, homens e liberdade gravitem na esteira do amor verdadeiro”. Enquanto isso, Romildo, o seu último namorado, ficou lambendo as feridas do abandono e lendo o Evangelho.

E como ela esbanjava amor e vitalidade! Por ser independente, consciente de suas limitações e bem resolvida, superava facilmente as decepções decorrentes dos envolvimentos afetivos. Amargou várias desilusões amorosas, em contrapartida destroçou, sem remorsos, inúmeros corações enamorados.

E assim se deixava levar curtindo a vida, descobrindo trilhas na beleza pura da natureza e dançando a música que sua alma cobrava. Geninha nunca imaginou enfrentar o revés que o destino lhe engendrou utilizando o mesmo fio das teias nas quais ela subjugava suas conquistas.

Há seis meses namorava, simultaneamente, dois solteirões na faixa dos 40 anos de idade, oriundos de bairro da Zona Sul do Rio. Caio, ela conhecera explorando trilhas na Floresta da Tijuca; Abel, em curso de bioenergética e danças circulares em Saquarema. Sobre ambos, ela repetia serem boa gente, mas com temperamentos e personalidades totalmente opostos.

Caio gostava de aventuras ecológicas e de esportes radicais; Abel, de tênis, ciclismo e fotografia. A agitação de Caio o direcionava para embalos, música pesada e a companhia de muitos amigos. A tranquilidade de Abel o conduzia para peças de teatro, bons restaurantes e vinhos de qualidade. Abel adorava Geninha, mas ela era vidrada em Caio. Enquanto Abel se declarava encantado, Caio se esquivava evasivo. Meses passaram sem que o triângulo amoroso alcançasse a dualidade.

De tanto Abel insistir para Geninha conhecer sua família, ela finalmente capitulou e lá se foi, num domingo ensolarado, compartilhar feijoada na casa dos pais do namorado apaixonado. Ao entrar, e antes de ser vista pelos anfitriões notou uma silhueta bastante conhecida sua, embora postada de costas para ela.

Quase desmaiou ao apresentarem Caio como irmão de Abel. Caio não moveu um músculo sequer, mas Abel desconfiou da reação de Geninha. A desunião se instalou no seio da família dos dois filhos únicos, com os pais abnegando o dúbio relacionamento e cortando relações sociais com Geninha, considerada amoral, aventureira e doidivanas.

Por outro lado, o caos dominou a vida de Efigênia. Ela procurando reatar com Caio e ele a rejeitando. Abel insistindo em renovar o namoro e ela o evitando. Cenas constrangedoras se repetiram envolvendo, inclusive, amigos de Geninha. Antevendo algum desfecho irreparável, Efigênia se viu imposta a outra decisão radical. Rompeu laços com a metrópole dos sonhos e voltou para o Nordeste.

Romildo, homem manso de coração, recebeu Geninha de braços abertos como se nada tivesse ocorrido. Geninha jamais explicou as razões do retorno nem ele quis saber se lhe puseram galhos na testa.

Certa noite, lendo para a amada trechos de Gênesis 4, na Bíblia Sagrada, distraído, ele se referiu aos filhos de Adão e Eva como Abel e Caio. Assustou-se, mas continuou a leitura. Efigênia deixou de falar em Cidade Maravilhosa, mas, permanece curtindo a vida, a liberdade e os… Ah, deixa isso pra lá!

QUAL LEITE DEVO TOMAR?

Atravessamos a onda do radicalmente correto. É o politicamente correto, o moralmente correto, a correta vida ao ar livre e, agora, a postura alimentar correta.

Quanto ao correto posicionamento alimentar, são tantas e tão contraditórias as opiniões acerca do que podemos ou não devemos consumir, que chegamos ao ponto de recear comer até uma fruta qualquer colhida do pé.

A demanda por alimentos livres de certos ingredientes, aliada à corrente que prega hábitos mais saudáveis, fez crescer o mercado de produtos sem glúten e sem lactose.

Imagino o drama de quem desenvolve intolerância à lactose – o açúcar natural existente no leite. Faço do produto oriundo dos úberes das vacas – e seus derivados -, a base de minha rotina alimentar. Consumo, com e por prazer, o queijo, o iogurte, o creme de leite, a nata e o leite. Costume esse induzido por minha mãe, alegando existir no leite fontes inesgotáveis de cálcio e de vitaminas B e D.

Dispomos de quatro opções de consumo de leite: in natura, no saquinho, em pó e na caixinha (UHT – temperatura ultra alta). O leite consumido após a ordenha é saboroso e saudável, porém, é impraticável manter uma vaca no quintal da casa ou na varanda do apartamento para usufruir desse prazer no momento desejado.

O leite no saquinho, o popular leite pasteurizado, recebe um tratamento térmico suave que garante a destruição de bactérias patogênicas. Nesse tratamento térmico, as proteínas e açucares do leite são mantidas e os lactobacilos benéficos permanecem vivos, porém, as vitaminas do complexo B sofrem pequenas perdas. A desvantagem do leite no saquinho é o reduzido tempo de validade.

Já o leite em pó se caracteriza pela quase total ausência de umidade. Uma das versatilidades do produto é a durabilidade prolongada – até 18 meses se armazenado adequadamente. O diferencial negativo consiste em não manter a sensação de frescor nem o sabor do leite líquido após ser reidratado.

Alguns aditivos são utilizados também no leite em pó. O principal deles é o emulsificante lecitina de soja, utilizado para deixar o produto com “cara de leite” após a adição de água.

Finalmente, o leite na caixinha. Esse produto sofreu campanha desabonadora após divulgação de que utilizavam água oxigenada e soda cáustica para evitar a decomposição prematura.

Segundo explicação da Associação da Indústria do Leite Longa Vida-ABLV, ao passar pelo processo de ultrapasteurização e ser envazado em embalagens assépticas, o Leite Longa Vida fica protegido de qualquer contaminação e não necessita de nenhum conservante.

A associação, porém, admite a utilização de estabilizantes como o citrato de sódio, o monofosfato de sódio, o difosfato de sódio e o trifosfato de sódio, citados na embalagem do produto. Segundo a ABLV “o estabilizante não é conservante e não faz mal à saúde” (Ambiente Brasil – Verdades sobre o leite de caixinha – 03/12/2007).

Eu gostaria de consumir um leite cujo sabor se aproximasse daquele oferecido pelas vacarias da minha infância. Qual leite devo tomar?

SAÚDE E PRECONCEITO

Dizem que a mulher é sexo frágil, porém, eu duvido que o homem tenha a capacidade de suportar tanta dor quanto ela. A começar pela dor do parto. Admiro a coragem com a qual elas se submetem a baterias periódicas de exames em prol da manutenção da saúde plena. A todos os testes, gostando ou não, elas os enfrentam com determinação e garra.

Um exemplo é a mamografia. Com a finalidade de analisar visualmente o tecido mamário à procura de nódulos cancerosos, elas aceitam que lhes comprimam os seios numa prensa, suportando estoicamente dores e desconfortos. E o que dizer da coleta de material para o exame citopatológico do colo do útero ou exame Papanicolau?

Por maior que seja o pudor, a vergonha ou o receio que as consumam, as mulheres, a eles se submetem na busca de uma vida saudável. Um dos motivos, suponho, seja o fato de se preocuparem com as próprias famílias, antes de pensaram em si mesmas.

Sim, contrair algum mal grave as apavoram. Não por receio da morte, mas, pelo temor de verem desestruturados seus lares, caso sejam acometidas por tais doenças. Daí tanta responsabilidade de manter intata a saúde.

Voltemos, agora, os holofotes para nós homens. Conosco a história é diferente. Descaso, receio, vergonha e preconceito integram o arsenal de mecanismos de defesa que nos ajudam a fugir de qualquer exame clínico, invasivo ou não, para localizar alguma mazela que nos aflija.

Querem um exemplo? Pois lá vai o mais temido de todos: o toque retal nas profundezas do ânus para identificar a possibilidade de câncer de próstata. O dito exame é a vergonha das vergonhas. Uma agressão, um acinte, uma invasão ao recanto guardião da honra imaculada tão preservada e exaltada pelo macho.
Não foi à toa que seu Amaro – um modesto servidor público, meu colega de repartição – preferiu chupar o supositório em vez de enfiá-lo fiofó adentro. E quando eu o orientei sobre como fazer o procedimento correto, ele retrucou dizendo: “Doutor, aqui por baixo nem formiga entra”.

Vasectomia? Hoje afirma-se com alguma segurança que essa cirurgia deixou de ser um tabu. Mas, num passado não tão distante, era improvável o homem pensar em planejamento familiar através desse método contraceptivo. É claro que a responsabilidade caberia a mulher mediante ligadura de trompas, procedimento esse, mais invasivo e arriscado do que buscar a infertilidade com a vasectomia.

Enfim, chegamos a colonoscopia (Ah, aquele bendito dedo à procura da próstata!). O tal exame, que aparenta ser um teste de penetração quilométrica, permite a análise das paredes do reto, cólon e parte do íleo terminal, por intermédio de um tubo flexível introduzido via ânus. Durante o procedimento injetam ar para melhorar a visualização, o que causa cólicas após o procedimento um tanto quanto deprimente.

Já ouvi marmanjo garantindo que prefere abrir a titela para implantar pontes de safena do que se submeter à colonocospia. A verdade é que, por temor ou preconceito, estamos mais susceptíveis a contrairmos doenças letais porque não nos subjugamos a exames indispensáveis quando no momento e hora devidos.
Moral da história: enquanto a mulher usa a razão para descartar o medo de exames; nós homens, com atitudes infantis, ousamos tratar o perigo com escárnio.
Por isso, tanta morte prematura na conta de um preconceito descabido.

TAPIOCA PODE MATAR

Meu amigo Tomaz Edson é um engenheiro em permanente busca por uma vida saudável. Não o reputo hipocondríaco, embora o excesso de zelo com a saúde lembre alguém portador da mania. Em sua última estada em Portugal, ele viajou sentindo uma persistente dor no estômago. Bastaram poucos dias em Lisboa para o incômodo desaparecer sem que ele identificasse a causa do mal nem o motivo da cura.

Acontece de a tapioca, iguaria tipicamente brasileira de origem indígena tupi-guarani, feita com a fécula extraída da mandioca ser, no momento, a mais nova sensação na gastronomia lusitana. A comida caiu no gosto do português ao ponto de gerar uma febre de tapiocarias em diferentes bairros de Lisboa.

Foi num programa de televisão local que debatia a iguaria brasileira, onde Tomaz supôs encontrar o motivo da mazela que o acometeu. Ao entrevistarem um coloproctologista da terra surgiu questionamento acerca dos efeitos da tapioca no intestino humano. Assim respondeu o dito especialista: “Esse produto é letal, pois contém cianeto”. Eureka! A tapioca fazia parte da dieta de Tomaz Edson, no Brasil.

A mandioca contém o ácido cianídrico, que é transformado em cianeto, um veneno mortífero para nós humanos. Ataca células nervosas, causa danos nas funções dos pulmões e dos rins e, sobremaneira, no sistema digestivo. Devido ao poder letal é o escolhido para execuções nas câmaras de gás.

A tapioca ou goma de mandioca hidratada, é um alimento secular na gastronomia brasileira. Iguaria difícil de ser abolida, sem mais nem menos, da mesa do nordestino. Por outro lado, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), em 2016, o câncer de estômago nos homens foi o segundo tipo mais frequente nas Regiões Norte e Nordeste do país.

O professor Raimundo Nascimento da Universidade do Amazonas (UFAM) é um preocupado com a manufatura adequada da tapioca. É dele este alerta: “Quando se compra a goma para o preparo da tapioca, a pessoa não sabe como ela foi preparada. Se quem vendeu a goma retirou apenas a película, induz o consumidor a ingerir o ácido cianídrico. É necessário retirar toda a casca, que representa, aproximadamente, 10% da fécula”.

E complementa o estudioso do assunto: “A cotia – mamífero roedor que vive nas matas e capoeiras -, já ensinou isso para as pessoas. Ela retira toda a casca e come somente a batata”.

Chegando em Natal, Tomaz procurou a ANVISA atrás de respostas para tranquilizá-lo. Descobriu não existir nenhum tipo de controle sobre a industrialização do produto. Apavorado, eliminou a tapioca do cardápio.

Em recente viagem a Recife, no hotel onde nos hospedamos serviam tapiocas feitas na hora. Ao ver o “absurdo” ele saiu da sala, procurou o gerente e deu-lhe a seguinte sugestão: “Entre na internet e digite estas três palavras: mandioca, tapioca e cianeto”. Coincidência ou não, no outro dia não ofereceram tapioca no desjejum. Ao fechar a conta o tal gerente lhe falou: “Fiquei estarrecido com o que li!”.

Esta semana Tomaz me mostrou a seguinte notícia veiculada num jornal de Caracas: “Alerta en Venezuela por cinco muertes causadas por yuca amarga”. Yuca é a nossa mandioca, tubérculo com o qual é feito a tapioca.

Acho um exagero o temor do amigo, mas, pelo sim pelo não, em vez de consumir duas tapiocas no café da manhã, agora só me atrevo a comer uma.

AS VELHINHAS DO JUVINO BARRETO

Você quer entender o real significado do termo crepúsculo da vida? Se esse é o seu desejo, então dedique um naco de qualquer dia a algum abrigo de idosos, e se deixe rodear pelos moradores da instituição para conhecer as suas histórias, anseios e frustrações. Tenha paciência para ouvir lamentos de cortar corações, relatos de separações dolorosas e exemplos chocantes de ausência de auxílio ao próximo, quando o auxílio e o próximo compartilhavam do mesmo teto.

Descubra focos de esperança onde predomina a desilusão. Avalie, sem temor, a possibilidade de ser um daqueles indigentes enrugados, vítima da cruel ingratidão parida do desamor no seio da própria família. Imagine-se convivendo com a monótona certeza de sentir a presença da morte rondando seu arremedo de corpo, dia após dia, tentando ceifar o pouco de vida que ainda lhe resta.

Aí, talvez, você absorva o sentimento de desamparo daqueles velhinhos, hóspedes de casas de apoio a indivíduos no limiar de suas existências. Aqui retrato algumas histórias de vida de moradores do Instituto Juvino Barreto, em Natal, cujos relatos pseudônimos os acobertam.

Leonor, 92 anos. Às primeiras horas da manhã, antes do café, ela já está com a mala arrumada e vestindo a sua melhor roupa. Passa o resto do dia numa das cadeiras dos alpendres do abrigo com o olhar de ansiedade fixado no portão de entrada. “Aonde vai tão arrumada a esta hora da manhã, dona Leonor?” – perguntam-lhe. “Espero por meu filho para me levar para João Pessoa. Ele me deixou aqui e garantiu que voltaria logo. Estou ‘pronta’ para não dar maçada nele”.

Nair, 89, espírito jovial, faladeira e esbanjando otimismo. “Olhe moço! Eu passo apenas uma chuva neste hotel. Minha filha me mandou para cá até terminar a reforma na sua casa. Ela está construindo um quarto com banheiro somente para mim. Aqui me tratam bem, mas nada se compara ao nosso cantinho junto da família, não é mesmo?” Confiando piamente na certeza de seu retorno à casa da filha, dona Nair, mãe amorosa, entende o abandono definitivo que lhe impuseram como sendo uma situação adversa, mas passageira.

Selma, 91, advogada, abastada e conceituada integrante da sociedade natalense de antigamente. Nunca casou. Sem marido sem filhos nem parentes vivos, e também sem dinheiro, estava entregue à própria sorte. Veio para o abrigo por mãos piedosas de vizinhos que a encontraram sozinha, nas piores condições de higiene e saúde numa casa tomada pela imundície. Pouco fala do passado.

Carminha, 88, professora, viúva, sempre atenta ao que acontece ao seu redor distribui conselhos, palpites e justificativas a toda hora. Quando questionada sobre a sua situação no abrigo, ela responde com sinceridade desconcertante: “A culpa de toda esta infelicidade foi de minha nora. Meu filho, coitado, viu-se obrigado a me abandonar aqui por exigência dela. Só tenho pena dos meus netos, pois são loucos por mim” – e, respondendo a outra pergunta: “Ela não permite que o marido me visite. A última vez que o vi foi numa véspera de Natal não sei de qual ano.”

Alguns traços fisionômicos daquelas mulheres guardam resquícios do quanto foram bonitas no passado. Hoje, elas autenticam verdades do Livro dos Provérbios, como a que garante: “…o encanto é enganador e a beleza é passageira”.

Esses relatos são retratos de situações corriqueiras, artífices do histórico de solidariedade daquela casa de caridade. Embora tomado pela aflição de haver conhecido uma máquina de esperanças frustradas, satisfiz-me por entender o significado do termo ocaso da vida, último e desolador estágio da condição humana.

AH! ESSAS MULHERES…

Dentre tantas homenagens fora de propósito, uma das mais pertinentes foi a escolha de 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. No embalo dos preitos à data que se aproxima, impulsionado por dever de consciência, urge admitirmos nossa condição de escravos da vontade da mulher moderna.

E pensar que já houve um tempo em que, empunhando borduna numa das mãos, as arrastávamos cavernas adentro para nos aquecer do frio ou para servir de instrumento de preservação da espécie. Hem? Quem viu essa cena, há muito virou fóssil; quem não a viu, esqueça, pois não a verá jamais.

Os homens, ao longo dos séculos, regrediram e perderam a condição de todo-poderosos para a de meros espectadores diante da evolução do sexo oposto. Enquanto as mulheres – ah, essas mulheres maravilhosas! -, ultrapassaram barreiras, derrubaram mitos, desmoralizaram convenções, superaram preconceitos e demarcaram o espaço desejado por elas na sociedade.

Escolheram o que melhor sabiam fazer e, transferiram aos homens, atribuições próprias da masculinidade como cozinhar, passar, lavar, costurar, arrumar casa, fazer supermercado, limpar cocô de cachorro e carregar peso. Parir é uma prerrogativa divina, abençoada por Deus, esta elas preservaram para si, mas imputaram aos homens a nobre tarefa de cuidar dos filhos.

No processo evolutivo de eliminação da incômoda condição de subserviência aos homens, as mulheres se tornarem livres, leves, soltas, independentes e senhoras dos próprios destinos. Abnegaram certos qualificativos diminutivos de exaltação à feminilidade, tipo gatinha, fofinha, cabritinha e bonitinha, na proporção em que economizavam elogios ao padrão masculino de qualidade subtraindo adjetivações superlativas como garanhão, homenzarrão e gostosão.

Bem cuidadas, bem produzidas, bem apessoadas, mais vaidosas e seguras das novas posições conquistadas, adoram ser tratadas como colosso, deusa, diva, musa, oitava maravilha, monumento, avião e mulherão.

Se por um lado, essa condição ampliou a autoestima feminina, por outro destruiu a masculina criando uma legião de machos intimidados, dopados, complexados, inseguros no processo de envolvimento amoroso e no papel de conquistador de mulheres poderosas.

Homens acovardados, incapazes de absorver com naturalidade o sucesso das fêmeas no mundo moderno e, desapontados, ao constatar o ocaso da virilidade masculina na relação homem e mulher independente. Será a comprovação do final dos tempos ou apenas um sinal da involução do macho? Não sei responder.

Mas nem tudo está perdido. As mulheres ainda cultivam muitas das manias, ódios e virtudes de outrora. Elas adoram ser o alvo da atenção dos parceiros, passar horas ao telefone, receber flores, senso de humor sadio e romantismo. Gostam de um ombro amigo para chorar, de elogios, beijos, de esbanjar dinheiro em compras, acompanhar novelas água com açúcar e histórias de amor.

Elas seguem detestando esquecimento de data importante, dividir conta em restaurante, barriga mole de chope no parceiro, não ser notada de visual novo e morde-se de raiva quando o marmanjo usa o vaso sanitário sem suspender o assento. Continuam amando ficar penduradas em telefones falando mal das mulheres.

Resumindo: guardam poucos dos predicados que nós homens não cansamos de admirar, e muitas das pirraças que detestamos aceitar. Segundo Arnaldo Jabor, “as mulheres não são mais para amar nem para casar, são apenas para ver”.

Discordo dele, as mulheres existem para que as amemos desde que não nos preocupemos em entendê-las. O resto é implorar aos céus com devoção: “Senhor, dai-nos força para mudar o que posso; coragem para aceitar o que não posso; e, sabedoria para bem conviver com a evolução do enigmático sexo frágil”. Assim seja!

CARNAVAL E CARNAVAIS

Dizem que o Carnaval teve origem na Antiguidade. A palavra vem do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Está relacionado com o jejum do mundo cristão, que deveria ser observado na quaresma. Esse procedimento sacro foi-se afastando da beatitude até se transformar na mais pagã das festas populares.

O entrudo, no período colonial, é considerado uma das primeiras manifestações carnavalescas no Brasil. Em seguida vieram os ranchos, os cordões, os corsos, os bailes de salão e as escolas de samba. Com o passar dos anos outras tendências culturais foram se incorporando ao movimento, até alcançar o estágio atual.

Na mitologia grega, Momo, é tida como uma das filhas da deusa Nix – personificação da noite -, gerada sem um pai. Na Roma antiga, Momo, era representada pelo soldado mais bonito, sendo coroado e reverenciado como um rei. Já o nosso Momo surgiu no Rio de Janeiro, em 1933, na forma de um boneco de papelão, denominado Rei Momo I e Único, tornando-se um monarca de carne e osso no ano seguinte.

Carnavais são festejados em diferentes nações do planeta, porém, nenhuma absorveu melhor a essência do mundanismo momesco como o nosso país. Certamente, resultado da dosagem exata da miscigenação de raças junto a alegria inata do povo, aliadas à sensualidade provocada pelo clima tropical perene da terra brasilis.

O misto de luz, cor, bebida, fantasia, alegoria, coreografia, mulher seminua, despudor, animação, irreverência, liberdade, baixo custo, música e aceitação popular não poderia ser mais oportuno para se encaixar no objetivo de divertir multidões. Daí ninguém conseguir ficar alheio à magia do Carnaval, até porque não sobra espaço para a indiferença. A farra é para ser amada ou odiada, intensamente.

Brinquei carnavais quando ainda se respeitavam determinados limites. Onde se bebia muito sem a presença de drogas pesadas e, onde o mais próximo que se chegava dos alucinógenos de hoje era o éter contido no lança-perfume Rodouro.

Participei de blocos “assaltando” casas de famílias amigas, que se insinuavam para nos receber; guardo lembranças das noitadas carnavalescas nos clubes sociais, madrugadas adentro; e, das voltas seguidas nos circuitos destinados aos corsos, sob olhares atentos e insinuantes de jovens namoradeiras.

Acompanhei, nas páginas do Cruzeiro e da Manchete, as notícias dos bailes do Rio de Janeiro e dos folguedos de rua de Recife e Olinda, babando de inveja.

Sem ser um fanático pela folia de Momo, eu vivi momentos inesquecíveis. Por essa razão, não repudio e até compreendo a tendência do Carnaval moderno. Afinal, para tudo há o seu tempo, restando aos carnavais passados ficarem armazenados nos arquivos de memórias e nas lembranças de foliões saudosistas.

Dom Helder Câmara, em 1º de fevereiro de 1975, na Rádio Olinda AM, na sua crônica radiofônica “Um Olhar sobre a Cidade”, conclamou fiéis a brincarem o Carnaval, dizendo:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o Carnaval”.

E complementou: “Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida”.

Falou pouco e disse muito, Dom Helder!

ZUMBIS CIBERNÉTICOS

Recebi correspondência de uma associação beneficente pedindo ajuda material para mantê-la em atividade. Ao enviar o ajutório o contribuinte ficaria habilitado a acender uma vela e credenciado a pedir uma indulgência ao santo protetor da entidade. O fato inusitado nesse processo consistia na comodidade de acender a vela com um simples toque de celular, não importando a distância interposta entre o doador e o círio eletrônico. Isso mesmo, uma das facilidades tecnológicas da modernidade!

Facilitar a vida do indivíduo é a tônica do momento. E já sentimos a mudança comportamental decorrente de novos procedimentos e costumes inseridos no nosso cotidiano. Num primeiro instante apareceu o computador, em seguida, a internet. Criados como artifícios corporativos tais elementos, em duas décadas e meia, assumiram a condição de acessórios particulares indispensáveis na vida do cidadão.

Aliados à telefonia celular, eles interagiram e se apropriaram da boa receptividade de quem os possuía. Daí, até mudar o uso eventual para um hábito anormal foi um passo minúsculo. À medida que a união umbilical com essas engenhocas eletrônicas se consolidava, nós nos transformávamos em miseráveis dependentes de uma virtualidade incurável condenados a um destino cibernético pavoroso.

Imaginar o espanto de quem viu a carroça ser substituída pelo carro ou com o movimento do trem sobre trilhos, de constatar a voz humana percorrendo um fio de cobre ou de visualizar um avião suspenso no ar, daria a proporção exata do sentimento que nos incomoda hoje. A velocidade das mudanças nos deixa desnorteados e num permanente estado de perplexidade, digerindo a latente sensação de ansiedade quanto ao desfecho de tudo isso.

Geração de economia e ganho de tempo são os combustíveis dos motores que deflagram essas mudanças promovidas pelo progresso. Algumas condutas até então indissociáveis do nosso dia a dia estão perdendo a utilidade e sumindo sem que percebamos. Tudo em nome do menor custo e da agilidade que requer a adequação aos novos tempos.

Um exemplo é o cheque cedendo espaço para o dinheiro de plástico. Outra vítima é o telefone fixo – em nome da praticidade está fadado ao desuso. O livro também consta desse rol, pois em breve será motivo de curiosidade nos acervos de bibliotecas centenárias ou relíquias de abnegados defensores de leitura em papel.

O cheiro de tinta das letras do jornal impresso será substituído pela luminosidade irritante das notícias projetadas em telas de computadores. Os Correios digerem o sumiço de postagem de cartas e telegramas, porque os e-mails substituem em rapidez, custo e praticidade tais correspondências. A difusão de mensagens eletrônicas e a facilitação de contatos por viva voz forçarão a adequação do objeto daquela empresa pública de mais de 350 anos de existência.

Das perdas registradas pelo avanço do progresso, a da privacidade é a mais preocupante de todas. Não bastasse a exposição de parcela da humanidade nas redes sociais, a invasão da intimidade pessoal, em nome da segurança e do bem-estar comuns, já causa desassossego. Pelo caminhar das inovações nem os mais primitivos comportamentos individuais ficarão longe do alcance da bisbilhotice institucionalizada.

No século XIX as locomotivas, o telégrafo e o telefone encolheram o mundo. No século XX a televisão, o avião e a informática globalizaram-no. Na atualidade, a internet e a telefonia celular puseram o planeta na era da nanotecnologia.

E quanto a nós, os incomodados com a rapidez do progresso, estamos fadados a conviver interligados como zumbis cibernéticos. Bem feito!

NOTAS DE VIAGEM

Li, ou ouvi dizer, aqui ou alhures, que se descortina o caráter de um indivíduo submetendo-o a uma destas três situações distintas: numa mesa de jogo com apostas, emprestando-lhe dinheiro ou acompanhando-o em viagem com duração de mais de uma semana.

Quanto às duas primeiras alternativas não posso me manifestar com conhecimento de causa, mas, comprovo na prática a teoria da última. É impressionante a transformação que se observa no comportamento de determinados companheiros quando submetidos às asperezas de uma viagem longa.

Não tenho o direito de prejulgar ninguém, e até entendo que tais alterações de compostura decorram das pressões contidas numa circunstancial e brusca mudança de hábitos, dando vazão à ansiedade, ao receio, ao estresse, à contrariedade e à necessidade de fazer valer nosso ponto de vista. É tiro e queda. Querendo ou não, nós nos mostramos como somos aos parceiros numa convivência prolongada distante do nosso habitat natural. Mas aí é que reside o foco da questão. Sem essa experiência fica difícil delinear o perfil da companhia ideal para viajar.

Para o bom convívio em viagens com amigos, me ensinaram que tudo se resumia ao trinômio: compreensão, espírito de corpo e renúncia. A teoria não teria eficácia quando em viagens atreladas a excursões, onde o grupo é manietado por horários e tangido tal qual cordeiros obedientes ao cajado ou ao assobio do condutor do rebanho.

Disseram-me ser essencial manter o espírito de corpo. Afinal você integra um grupo imbuído do mesmo objetivo: compartilhar momentos agradáveis em ambientes diferentes daqueles do dia a dia de cada um. Outro ponto seria compreender e aceitar as preferências dos membros da excursão buscando o consenso para a manutenção da unidade do conjunto. Por último, saber quando e como renunciar aos próprios anseios privilegiando a programação da equipe para não ser tachado de estraga prazer ou comparado a um roda-presa.

Isso na teoria funciona que é uma beleza. Agora leve para a prática e veja o que é bom para tosse. Existe o tal outlet, cuja única função é desestabilizar qualquer planejamento elaborado durante meses de pesquisa, em cima de mapas ou da história de cada país a ser visitado.

Mas, a quem responsabilizar pelo desmando? Ora, a quem! Àquelas com quem a vaidade melhor se identifica. Parceiras capazes de voltar às costas a pinturas e esculturas do Renascimento se houver do outro lado da rua vitrines com roupas de grife. Ou de descartar do roteiro qualquer obra arquitetônica da Idade Média se aparecer no percurso alguma promoção de produtos femininos de beleza.

Aprendi uma estratégia para o caso de amigos optarem pelas compras em detrimento de visitas a museus. Eu os deixo à vontade pedindo para não se constrangerem. Defino um local de encontro e vou satisfazer minha curiosidade em área distinta daquela.

Como para quase tudo na vida existe uma explicação, encontramos na natureza o motivo da compulsão feminina por compras de embelezamento. São as diferenças existentes no mundo animal onde, ao contrário do mundo racional, os machos são os privilegiados esteticamente. Isso desperta nas mulheres o agente patogenético causador do mal do culto à própria beleza. Se assim for, que a natureza siga o seu curso.

Tudo pode ser resumido num único conselho, para quem quiser viajar em paz. O segredo é esquecer as mulheres nas compras e aguardá-las num barzinho aprazível, se possível, na companhia de um honesto vinho nacional.

O “CROQUE”

Não se trata de um apanhado de cabelo enrolado que se fixa no alto da cabeça. Tampouco, nenhum resíduo ou derivado obtido do carvão vegetal. O “croque” aqui referido consiste naquele golpe desferido no platô da cabeça com os nós dos dedos. Também conhecido como castanha, cascudo e cocorote, o “croque”, no meu entendimento, é o castigo mais cruel e covarde aplicado numa criança.

Quem já foi vítima de um cocorote daqueles entende minha revolta. Existe toda uma técnica desde a preparação até a finalização do croque. Primeiro, a mão deve se posicionar como a ponte de um aríete. Fechada, com quatro dedos bem seguros pelo polegar, de tal forma que o nó do dedo médio se sobressaia dos demais. O golpe para ser perfeito deve atingir o centro do cocuruto do fedelho. O meio da moleira. Aí é tiro e queda.

Via de regra, o algoz que aplica o golpe é um adulto e, as vítimas, crianças. Vem sempre de cima para baixo. O efeito deletério do “croque”, de tão intenso, não se traduz apenas com palavras. Trata-se de uma dor forte, intensa e momentânea, embora o machucado permaneça por horas ou dias.

A pancada ao atingir determinada extremidade nervosa aciona um circuito elétrico que, em milésimos de segundo, percorre toda a extremidade do corpo da cabeça à ponta do pé. Dependendo da violência, desconecta o controle da bexiga ou antecipa a programação biológica da evacuação. Acredito que o “croque” una a raça humana em torno do quesito coisa mais detestável.

Dias atrás presenciei, numa avenida da cidade, um pai que na ânsia de calar o filho chorão, lhe desferiu tamanho cascudo que fez o fedelho se acocorar de dor. Lembrei-me, então, de todos os cascudos de minha vida. Nunca apliquei um único cocorote nos meus filhos. Nem cocorote, nem peteleco ou piparote, como queiram chamar.

Para quem não sabe, peteleco é o golpe infame desferido nas costas da orelha do indivíduo, decorrente da liberação da tensão imposta ao dedo médio pelo polegar. O dedo escapa como uma catapulta. Dói menos que o cocorote, porém, em compensação, deixa um ardor desgraçado na orelha.

De todos os cascudos dos quais fui vítima, um em especial o quengo nunca esqueceu. O cenário era a cidade de Natal, em 1956. Eu estudava no Colégio São Luís, de padre Eymard, na Rua José de Alencar. Era o mais franzino da turma e alvo contumaz das gozações dos colegas.

Reinava absoluto no colégio um estudante de compleição avantajada, temido por todos. Quem ele escolheu para servir de escada para as suas gaiatices? Eu, claro! Escrevia não lia, o cocorote comia. De minha mãe a recomendação era a seguinte: “Se apanhar no colégio, também apanha aqui!”. Sabendo-me incapaz de enfrentar o brutamonte, de igual para igual, eu vivia meu dilema atroz: falar ou não em casa acerca das agressões sofridas? Optei por dar um basta à incômoda situação.

A desforra aconteceu quando padre Eymard recebeu de doação alguns caminhões de paralelepípedos para pavimentar a quadra de esportes. Por economia, ele estabeleceu como aula de educação física o transporte das pedras, da rua para dentro do colégio. A tarefa sobrou para a molecada masculina.

Eu, magricela, de calção e sapatos fui, mais uma vez, ridicularizado pelo grandalhão. Humilhado, postei-me atrás de meu algoz, acompanhei-o na demonstração de sua força carregando dois paralelepípedos de uma só vez e, juntos, soltamos nossas pedras. Ele, na pilha formada no pátio do colégio. Eu, no seu pé direito. O resultado? Fui retirado do colégio, feliz da vida, pois não apanharia mais.

ÓDIO POR ÓDIO

Ao criar a situação hipotética contida no texto “Pena de morte à brasileira”, eu o fiz com a exclusiva intenção de provocar o debate. E me parece que ele se deu. Concordando ou não, a discussão é salutar. Afinal, como diria Millôr Fernandes, livre pensar é só pensar… E escrever – o adendo é meu.

Não exacerbo na questão dos direitos humanos nem comungo com a injustiça desbragada. Sou de opinião que o bom-senso deveria reger todas as ações humanas. Raciocino dessa maneira porque a sensatez, a cautela e o equilíbrio comandam o bom desempenho de qualquer atividade, decisão ou julgamento. Não é à toa a razão do adágio “ter juízo é ter bom-senso”.

Acredito que violência gera violência. E quanto mais se incite a violência em maior intensidade ela retornará. É dever do estado, sim, manter a segurança de seus concidadãos, assim como lhes fornecer o direito à saúde e à educação. Também concordo com a política de tolerância zero na manutenção da ordem pública.

Porém, considero uma pena de morte anunciada trancafiar qualquer cidadão condenado para cumprir sentença na maioria dos presídios brasileiros. Ver homens amontoados em jaulas, recebendo tratamento sub-humano, causa indignação ao apenado e a quem observa a sua decadência e degradação. Viver encarcerado sob a permanente égide da incerteza, da insegurança e do medo é preferível morrer.

Nada justifica o abandono e o descaso do poder público ao permitir a transformação de equipamentos de punição e de correção de conduta de cidadãos em fábricas de criminosos desalmados e cruéis.

Tive vergonha das cenas da rebelião no presídio de Alcaçuz veiculados pela televisão, em tempo real, durante doze dias deste fatídico janeiro de 2017. Se já oferecíamos ao mundo a imagem de nação de selvagens, alia-se agora, também, a de bárbaros que degolam os desafetos e expõem as suas cabeças como troféus. Conceber Natal, que já foi a mais pacata capital do país, transmudada numa das mais violentas cidades do planeta é estarrecedor.

Melina Duarte, no artigo “A Lei de Talião e o princípio de igualdade entre crime e punição na Filosofia do Direito de Hegel”, discorre que o “olho por olho, dente por dente” na Lei de Talião, na atualidade, nos aparece como uma forma cruel e bárbara, fomentando melhor a vingança do que a necessidade de se punir com justiça. E que é preciso que fiquemos atentos ao fato de que aquela máxima é baseada no equilíbrio adequado entre o crime e a punição.

Surge, então, a hipótese de o Estado estar ampliando a desigualdade na aplicação da punição, no instante em que mantém o apenado em prisões desumanas, acirrando o seu ódio e incitando-o à violência. Se houve barbaridade no ato criminoso do condenado, o Estado também comete a barbárie de não aplicar ao cidadão a adequada reparação do erro. Pior: anulando-o como ser humano.

Não tenho dúvidas de que se continuarmos alimentando a insensibilidade e o ódio nos criminosos mantidos em nossos antros de terror, a retaliação será a violência atingindo a sociedade, indiscriminadamente, e com ódio redobrado.

E assim sendo, que Deus se apiede dos inocentes.

PENA DE MORTE À BRASILEIRA

Samuel, 22 anos, tez morena, ensino médio concluído, arrimo de família, integrante do sistema carcerário brasileiro, foi preso por assalto à mão armada, condenado e trancafiado num dos presídios rebelados em 2017.

Foi um julgamento sumário. Tão logo de posse da peça acusatória, o juiz na ânsia de anular mais um predador da sociedade, e para não desmerecer a fama de julgador linha dura, foi inclemente na decisão judicial:

– Como demonstram os autos, o apelante foi reconhecido pela vítima que descreveu, em detalhes, como ocorreu a conduta criminosa. Nos crimes cometidos na clandestinidade, a palavra da vítima tem valor de destaque na prova e possui o condão de embasar o édito condenatório. A pena foi estabelecida pelo Juízo a quo na mais estrita observância do artigo 157, parágrafo 2º, incisos I e II do Código Penal – Assalto à Mão Armada, pelo que nada deve ser modificado no julgado ora impugnado.

– Doutor juiz, vocês vão me deixar lá e me esquecer. Três anos e quatro meses, em regime fechado, é muito tempo para o crime que eu cometi. Tudo o que falei pode ser comprovado, mas nada foi levado em conta no processo. Eu prometo arrumar minha vida, para tanto basta um emprego. Pelo amor de Deus, não me condene à morte!

Em seu desespero, Samuel chamara a atenção do juiz para fatos desprezados na sentença exarada, tais como: não ter havido agressão física, de ele ser réu primário não usuário de drogas e de não utilizar arma de fogo – a pistola encenada no ato foram os dedos anular, indicador e polegar da mão direita, em riste, escondidos no bolso da jaqueta de brim, apontados para o caixa da farmácia.

E mais: ele não encobrir o rosto para impedir a identificação, se apossar apenas de R$ 50,00 para as necessidades do momento, apelar à vítima dizendo “por favor, atenda, pois não desejo machucar ninguém”, atitudes que embasariam o amadorismo do acusado. Porém, priorizou-se a ação criminosa… E pronto!

Não afeito aos meandros diabólicos do cárcere, o jovem aprisionado serviu de porta-voz para ala insatisfeita de apenados, endereçando cartas para autoridades constituídas criticando desmandos diversos e ações impróprias praticadas por agentes penitenciários. Foi o suficiente para ficar na mira daqueles a quem acusara, como persona non grata ao sistema.

Dona Sebastiana, a mãe de Samuel, ao reconhecer o corpo do filho único sendo transportado esquartejado como um animal abatido, caiu num pranto inconsolável. Em entrevista a uma rede de televisão, desabafou:

– Ele não merecia esse destino. Samuel estava desempregado há dois anos. Naquela noite tentou arranjar dinheiro para botar alguma comida dentro de casa. Havia tentado esmolar na rua, mas sua aparência não convencia a ninguém.

Repórteres localizaram o meritíssimo juiz autor da sentença de pronúncia de Samuel, explanaram o desfecho daquele caso e perguntaram-lhe:

– O senhor não acha que decretou a sentença de morte do rapaz?

– Tudo não passou de um infeliz acidente. Cuidar do apenado é função do Estado. Ao juiz cabe, tão somente, interpretar e aplicar a Lei!

Em cada cabeça uma sentença. E se fôssemos nós os arrolados para funcionar como jurados no caso Samuel, qual seria a nosso veredicto? Culpado ou inocente? Manteríamos a pena do juiz ou aplicaríamos uma outra alternativa menos sinistra? Daríamos-lhe o direito à vida ou o condenaríamos à morte pelo crime cometido?

UM APELO SEM ECO

Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro, foi uma pessoa polêmica e um ardoroso defensor de suas ideias. Considerável parcela dos avanços obtidos na educação do Brasil deve-se ao mineiro de Montes Claros. Junto com Anísio Teixeira ele fundou a Universidade de Brasília e, na condição de vice-governador do Rio de Janeiro, desenvolveu um modelo inovador para a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a qual denominou de Universidade do Terceiro Milênio.

Profundo conhecedor do homem e do pensamento de nossa gente ele publicou a sua obra-prima “O Povo Brasileiro”, em 1995, dois anos antes de falecer de câncer. Entretanto, foi como educador que Darcy Ribeiro notabilizou-se no país. E nessa condição, em 1982, ele vaticinou: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

É de arrepiar os cabelos da cabeça prognóstico tão verdadeiro quanto devastador. O retrato antevisto por Darcy, 35 anos atrás, ocorreu antes da data por ele estabelecida, mas, atingiu o apogeu neste ano de 2017. O que assistimos nos estados do Amazonas e de Roraima, nos primeiros dias do ano-novo, foram cenas inimagináveis de conceber por seres ditos civilizados, tamanho o grau de barbárie imposto à ação.

Acidente uma ova, o acontecimento macabro de Manaus foi um roteiro bem elaborado, digno de filmes de terror, assemelhado a práticas de masmorras da Idade Média. Se um massacre em si já é estarrecedor, o que dizer de decapitar e esquartejar, a golpes de facão, companheiros de desventura encarcerados nas pocilgas brasileiras apelidadas de prisão.

Como esperar algo diferente daquelas máquinas de produzir monstros? Presídio no Brasil não ressocializa ninguém, muito pelo contrário. A maneira sub-humana como vive ali o apenado serve apenas para incitá-lo contra tudo e contra todo o mundo. Pior. Cultiva-se o antagonismo contra o Estado gerando a ira, o mais terrível dentre os sentimentos.

Jamais imaginei vivenciar outra vergonhosa chacina nos moldes do massacre do Carandiru, em São Paulo, ocorrido dez anos após a profecia de Darcy Ribeiro, num presídio abarrotado de encarcerados. Com a diferenciação no grau absurdo de crueldade do último.

E mais uma vez o antropólogo intuíra: “Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da educação”. Complementado o raciocínio com outra triste constatação: “A escola brasileira é a escola da mentira: o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende”.

Uma vez estabelecido o quadro de terror em cárceres da região Norte, causando estupefação no Brasil e no mundo, eis que aparece o jovem titular da Secretaria Nacional de Juventude burilando uma moldura patética para o cenário tétrico: “…tinha de ter uma chacina por semana”. Por acaso é do conhecimento do autor dessa colocação infeliz, que 51% da população carcerária do país é de jovens como ele, com idade entre 19 e 27 anos?

Diante de índices alarmantes de extermínio de nossos semelhantes, fica a impressão de havermos perdido a capacidade de indignação e abandonado o senso de piedade. Neste instante de incertezas, bem que poderíamos tomar como exemplo outra declaração de Darcy Ribeiro para não embarcarmos nessa onda de banalização da violência: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

Dá consternação admitir, mas o governo brasileiro, por descaso ou conveniência, se resignou ante o caos do sistema prisional do país. Caso contrário o apelo de Darcy Ribeiro já teria encontrado eco.

FERDINANDO FUGIU PARA CASAR

Somente após trinta anos de convivência eu soube que meu amigo Ferdinando fugira para casar com a sua única e querida esposa, quando adolescentes. Ele me pediu para guardar reserva acerca do fato, mas, como não existe apenas um Ferdinando no mundo, ninguém identificará meu amigo neste relato.

Dessa forma o segredo continuará guardado comigo como se estivesse num túmulo e eu poderei abordar a matéria sem traumas. Aliás, foi uma exceção que abri, pois sempre fui sincero ao alertar a todos: se alguém tiver lá os seus assuntos secretos e desejar mantê-los ocultos, nada de me confidenciá-los.

Pois bem! O tema veio à baila porque o costume causador de espanto e desaprovação na sociedade de antigamente, simplesmente desapareceu de cena. Isso mesmo! Acabou-se o romantismo e a atratividade de raptar uma jovem para obrigar a família da dita a aceitar a união do casal – recorria-se a tal prática quando existiam sérias restrições ao relacionamento amoroso em andamento.

Naquela época, após a apropriação indébita da amada, esperava-se o desenrolar dos fatos para a formalização da união. Especulava-se a postura de ambas as famílias quanto à forma de amoldar o ato tresloucado do rapaz ao rigor das regras de enlaces e tradições vigentes.

Então surgiam os questionamentos. Quando, como e em quais circunstâncias se dará a reparação do roubo da donzela? Haverá matrimônio no religioso ou apenas no civil? A jovem casará de branco dando uma prova cabal da virgindade preservada ou divulgará a consumação do ato trajando uma outra cor? Tudo isso consistia num prato cheio para fofocas ou de combustível para tiras picantes de colunas sociais, numa sociedade carente de escândalos ou de novidades chocantes.

E hoje, qual seria o comportamento das famílias e da sociedade perante um rapto de donzela para fim casamenteiro? Ah, gente, no mínimo serviria para gozações de toda ordem e natureza. Os tempos são outros e nem em pensamento tal prática se adequaria à nossa realidade.

Primeiro, porque é desnecessário, trabalhoso e careta para o jovem exercitar o rapto na acepção fiel da palavra. Segundo, por não haver espaço para a encenação, uma vez que o problema se resolve com um simples convite à parceira, e ambos viverão juntos sem qualquer lampejo de arrependimento ou dor na consciência. Isso, sem levar em conta a satisfação dos pais pela economia de despesas com as bodas.

E quanto a repercussão no âmbito social? Qual é essa, irmão? Não é motivo de preocupação, pois comentários são descartados em uniões do tipo pela banalização da ocorrência.

Até meados do século passado a conversa era outra, porque a virgindade ainda era valorizada antes do casamento. Após o advento da pílula anticoncepcional tudo mudou. Para melhor, admitem as pesquisas de opinião pública, porquanto deu início à liberação sexual feminina.

Na verdade, os raptos de antigamente não passavam de atos impensados, motivados pela paixão arrebatadora de casais enamorados, interpretados por donzelas sonhadoras como manifestações explícitas de amor profundo.

Longe de menosprezar a conduta do passado, exalto o costume do presente que, descartando a hipocrisia, prioriza a liberdade e a honestidade de decisões em assuntos do coração.

O QUE VALE A PENA

Terminarei minha participação anual neste Jornal da Besta Fubana com alguns dos pensamentos inspiradores de Felipe Cubillos, empresário e milionário chileno, que após amealhar considerável fortuna dedicou-se à filantropia. Cubillos faleceu num acidente aéreo em 2011, no Arquipélago de Juan Fernándes, aos 49 anos de idade.

Acerca de teus filhos – Definitivamente não são teus. Deves amá-los e educá-los com o exemplo e orientá-los para que busquem os próprios sonhos; não os teus. Não esperes que te agradeçam tudo o que fizeres por eles; esse agradecimento virá muitos anos depois, talvez quando já fores avô – aí eles reconhecerão o que é ser pai e mãe. Porém, se antes disso, decidirem dizer que estão orgulhosos de serem teus filhos, te consideres recompensado.

Acerca de teus pais – Nunca deixes de agradecer-lhes o fato de terem te posto neste mundo maravilhoso e de te haverem dado a possibilidade de viver, somente isso, viver.

Acerca de teus limites – Eles não existem e estão muito além do que imaginas. Quanto mais além? Esta é uma pergunta que tens que levá-la ao extremo para descobrir.

Acerca do talento – Não serve para nada se não vier acompanhado de determinação, planificação, disciplina e perseverança. O talento é efêmero, a determinação, eterna.

Acerca do amor – Deves dar graças ao Universo se te despertam a cada manhã com um beijo e um sorriso. Lembras-te das abelhas e das mariposas, elas não buscam a flor mais bonita do jardim, somente aquela que tem maior conteúdo.

Acerca dos amigos – Eleges aqueles que estiveram contigo quando estivestes por baixo, porque quanto estiveres no auge eles irão te sobrar.

Acerca da riqueza – Uma vez que tenhas consolidado o teu fluxo de caixa, tratas de comprar mais tempo do que dinheiro, mais liberdade do que escravidão.

Acerca da angústia e da amargura – Quando creres que já não é possível suportar os sofrimentos que te agoniam, que já não podes nada fazer, dás-te um tempo para ver as estrelas e esperas despertar o amanhecer, então descobrirás que sempre nasce o sol… Sempre!

Acerca do presente – Vivê-lo intensamente é o que realmente importa. Os que vivem aferrados ao passado já morreram e os que vivem sonhando com o futuro ainda não nasceram.

Acerca dos sonhos – Nunca renuncies a teus sonhos, persegue-os apaixonadamente e se não conseguires, não importa. Só o fato de haveres percorrido esse caminho terá valido a pena.

Acerca de Deus e o Céu – Creio que se vivermos fazendo o bem poderemos estar na lista de espera se é que o Céu existe, e se ele não existe, teremos tido nosso próprio Céu aqui na Terra. Quanto a Deus não o encontraremos apenas nos mares do Sul, nas ondas, nas nuvens, nas tormentas, Ele sempre esteve conosco, dentro, bem dentro de nós.

NATAL: UMA NOITE ÚNICA

Na Igreja Católica a celebração do nascimento de Cristo foi instituída pelo papa Libério no ano 354 d.C., ou seja, 1.662 anos atrás. Das tradições do catolicismo, as comemorações natalinas foram as que mais se agigantaram com o transcorrer dos anos, até se transformar numa das maiores festas do mundo cristão.

A data deveria priorizar somente o nascimento de Jesus Cristo, símbolo da maior religião do Ocidente. Entretanto, deixou avançar a exploração mercantilista dando espaço ao consumismo e ao mundanismo que preencheram lacunas sagradas do evento, antes preservadas da ganância e da usura.

Árvore de Natal de Natal/RN

Em contrapartida, despertou sentimentos de consagração à união da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.

Impressiona-nos, pobres mortais, a magia da noite de Natal. Mesmo sabedores do compartilhamento de uma cerimônia repetida durante séculos, ainda assim nos encanta e emociona as festividades do período.

A madrugada do dia 25 de dezembro evoca sentimentos relacionados à nossa história e ao passado. Ela nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal para confraternizarmos com pessoas próximas.

A nostalgia da comemoração fica por conta das lembranças de entes queridos ausentes ou falecidos. Aí não tem como evitar brotar a saudade decorrente da impossibilidade de materializar tais presenças na festividade.

O Natal traduz bem esse sentimento de perda. É só admirar a decoração típica e saborear a culinária tradicional da época para relembrar parentes ou amigos que compartilharam conosco Natais inesquecíveis.

Então explode a vontade de retornar ao tempo em que víamos a casa repleta de familiares, com as crianças pequenas e a vida fluindo embalada na felicidade de estarem todos ali reunidos, esperançosos de repetirem iguais instantes no futuro.

Recordar os Natais do passado é uma prática salutar, desde que não nos abarrotemos de lembranças tristes. Priorizando o pesar transformaremos o Natal-Alegria no Natal-Tristeza. Agindo assim vivenciaremos a comemoração com os pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos.

Nenhuma preocupação do tipo deve atrapalhar a alegria das crianças com o Papai Noel nem embotar o deslumbramento da festa. O contrário será exaltar a memória de mortos estimados em vez de exultar com a presença de vivos queridos.

No Natal o coração bate mais forte, porque celebrar o Natal é crer na força do amor. É desfrutar da felicidade de ver a família unida e contar com a presença daqueles que nos acompanharam em nossa jornada ao longo da vida. Sem percebermos tais companhias são, na verdade, os presentes que superam qualquer mimo deixado de lembrança embaixo da árvore de Natal.

O Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Mas não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas e festas.

O verdadeiro espírito do Natal é festejar a chegada do Filho de Deus, mandado ao mundo para perdoar as falhas dos homens e lhes mostrar o caminho da Salvação. Para nos inserirmos no espírito do Natal a nossa melhor oração consiste naquela que se eleva em silêncio do fundo de nossas almas para aquecer com ternura os corações dos entes que nos amam e aceitam que os amemos.

Por esbanjar tanta fascinação e magia a noite da Natividade é única.

* * *

NOITE FELIZ – CORAL FLORIANÓPOLIS

AMOR E SEXO NAS ALTURAS

A fantasia de manter relações sexuais a bordo de aeronaves, em voos comerciais, é bem maior do que a nossa vã filosofia possa imaginar. Ponham o nome que quiserem nessa prática cavilosa: fetiche, erotismo doentio, tara ou sacanagem, mas que ela existe, ah, sim, existe! E nos parece ser mais ativa e intensa nas mulheres.

O motivo desta matéria é decorrência do livro Cabin Fever (Febre na Cabine), de Mandy Smith. Essa inglesa, hoje uma senhora casada de 41 anos de idade, trabalhou por mais de dez anos como comissária de bordo da companhia Virgin Atlantic. Além de garantir como verdadeiras as peripécias descritas no livro, Mandy confessa ter feito sexo com o namorado piloto, no cockpit da aeronave em pleno voo.

Ela enumera várias situações grotescas focadas na libido e na coragem (ou irresponsabilidade) de passageiros envolvidos em tais aventuras. Como a do casal, no auge de sua paixão, correr despido na primeira classe; ou o caso da jovem, entre 19 e 20 anos de idade, viajando com os pais para Los Angeles, sendo flagrada por três vezes no toalete, com três parceiros diferentes. E por aí vai…

Esse trololó serviu de preâmbulo para eu relatar a aventura de meu amigo Dionísio. Ele saíra de Recife, num voo noturno longo da Varig, para participar de um congresso de engenharia rodoviária em Manaus. Isso no tempo em que fumar a bordo era permitido, serviam-se as refeições em pratos de porcelana com talheres de aço inoxidável, e o whisky oferecido era abundante e de boa qualidade.

Um daqueles voos transportando poucos passageiros, o que dava margem à tripulação servir logo o jantar, apagar as luzes e deixar a todos descansar.

Dionísio se acomodou nas três últimas poltronas para dormir sem ser incomodado nem incomodar ninguém. Antes, pediu mais um whisky à aeromoça. A jovem, uma bela loura na faixa dos 20 anos de idade, demorou no atendimento do pedido. O colega ficou impaciente, mas, bastou ela aparecer com o whisky, amigável e sorridente, para acalmá-lo. Surpreendeu-o ao perguntar: “Posso sentar aqui, senhor?”.

Ele acedeu e, calado, ouviu a sua justificava: “Meu nome é Sophie. Não estranhe este procedimento. É o meu último dia de trabalho. Amanhã voltarei para o Paraná sem a farda. Vou casar”. Embriagado com a beleza da moça, ele só conseguiu balbuciar um “Parabéns!” sem entusiasmo.

De chofre, sem mais nem menos, Shophie avançou para Dionísio e o beijou na boca, e ele acatou a carícia numa boa. A coisa esquentou, e fugiu dos limites da sensatez. “E se vier alguém?” – ele perguntou. E ouviu: “Fique tranquilo! Minha colega nos dará a devida cobertura!”. E os dois se amaram, literalmente, à vontade.

Ao terminar a presepada a aeromoça se recompôs e desapareceu. Dionísio nunca mais a viu naquela rota. Falando com os seus botões ele imaginou: “Ela realizou a sua fantasia e agora assumiu o papel de esposa virtuosa”.

Meses depois, viajando por outra companhia aérea, distraído na sua leitura, ouviu alguém dizer: “Senhor, eis a sua dose de whisky!”. Dionísio, surpreso, porque nada pedira, tirou o olhar do livro para cruzar com o de Sophie. Perplexo, recebeu a dose e a viu se afastar com um sorriso no rosto e uma piscadela provocante.

Comentando a sua aventura comigo e com o Praxedes – um cearense casca-grossa e sem papas na língua – Dionísio confidenciou: “Ela escreveu no guardanapo do whisky que gostava de mim”. Pragmático, Praxedes pôs uma pá de terra no romantismo do colega: “Cai fora dessa, cabra besta! Essa vadia gosta mesmo é de abater pajaraca desgarrada nas alturas”.

Dois pra lá, dois pra cá, quem tiver uma melhor pode contar!


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