PENA DE MORTE À BRASILEIRA

Samuel, 22 anos, tez morena, ensino médio concluído, arrimo de família, integrante do sistema carcerário brasileiro, foi preso por assalto à mão armada, condenado e trancafiado num dos presídios rebelados em 2017.

Foi um julgamento sumário. Tão logo de posse da peça acusatória, o juiz na ânsia de anular mais um predador da sociedade, e para não desmerecer a fama de julgador linha dura, foi inclemente na decisão judicial:

– Como demonstram os autos, o apelante foi reconhecido pela vítima que descreveu, em detalhes, como ocorreu a conduta criminosa. Nos crimes cometidos na clandestinidade, a palavra da vítima tem valor de destaque na prova e possui o condão de embasar o édito condenatório. A pena foi estabelecida pelo Juízo a quo na mais estrita observância do artigo 157, parágrafo 2º, incisos I e II do Código Penal – Assalto à Mão Armada, pelo que nada deve ser modificado no julgado ora impugnado.

– Doutor juiz, vocês vão me deixar lá e me esquecer. Três anos e quatro meses, em regime fechado, é muito tempo para o crime que eu cometi. Tudo o que falei pode ser comprovado, mas nada foi levado em conta no processo. Eu prometo arrumar minha vida, para tanto basta um emprego. Pelo amor de Deus, não me condene à morte!

Em seu desespero, Samuel chamara a atenção do juiz para fatos desprezados na sentença exarada, tais como: não ter havido agressão física, de ele ser réu primário não usuário de drogas e de não utilizar arma de fogo – a pistola encenada no ato foram os dedos anular, indicador e polegar da mão direita, em riste, escondidos no bolso da jaqueta de brim, apontados para o caixa da farmácia.

E mais: ele não encobrir o rosto para impedir a identificação, se apossar apenas de R$ 50,00 para as necessidades do momento, apelar à vítima dizendo “por favor, atenda, pois não desejo machucar ninguém”, atitudes que embasariam o amadorismo do acusado. Porém, priorizou-se a ação criminosa… E pronto!

Não afeito aos meandros diabólicos do cárcere, o jovem aprisionado serviu de porta-voz para ala insatisfeita de apenados, endereçando cartas para autoridades constituídas criticando desmandos diversos e ações impróprias praticadas por agentes penitenciários. Foi o suficiente para ficar na mira daqueles a quem acusara, como persona non grata ao sistema.

Dona Sebastiana, a mãe de Samuel, ao reconhecer o corpo do filho único sendo transportado esquartejado como um animal abatido, caiu num pranto inconsolável. Em entrevista a uma rede de televisão, desabafou:

– Ele não merecia esse destino. Samuel estava desempregado há dois anos. Naquela noite tentou arranjar dinheiro para botar alguma comida dentro de casa. Havia tentado esmolar na rua, mas sua aparência não convencia a ninguém.

Repórteres localizaram o meritíssimo juiz autor da sentença de pronúncia de Samuel, explanaram o desfecho daquele caso e perguntaram-lhe:

– O senhor não acha que decretou a sentença de morte do rapaz?

– Tudo não passou de um infeliz acidente. Cuidar do apenado é função do Estado. Ao juiz cabe, tão somente, interpretar e aplicar a Lei!

Em cada cabeça uma sentença. E se fôssemos nós os arrolados para funcionar como jurados no caso Samuel, qual seria a nosso veredicto? Culpado ou inocente? Manteríamos a pena do juiz ou aplicaríamos uma outra alternativa menos sinistra? Daríamos-lhe o direito à vida ou o condenaríamos à morte pelo crime cometido?

UM APELO SEM ECO

Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro, foi uma pessoa polêmica e um ardoroso defensor de suas ideias. Considerável parcela dos avanços obtidos na educação do Brasil deve-se ao mineiro de Montes Claros. Junto com Anísio Teixeira ele fundou a Universidade de Brasília e, na condição de vice-governador do Rio de Janeiro, desenvolveu um modelo inovador para a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a qual denominou de Universidade do Terceiro Milênio.

Profundo conhecedor do homem e do pensamento de nossa gente ele publicou a sua obra-prima “O Povo Brasileiro”, em 1995, dois anos antes de falecer de câncer. Entretanto, foi como educador que Darcy Ribeiro notabilizou-se no país. E nessa condição, em 1982, ele vaticinou: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

É de arrepiar os cabelos da cabeça prognóstico tão verdadeiro quanto devastador. O retrato antevisto por Darcy, 35 anos atrás, ocorreu antes da data por ele estabelecida, mas, atingiu o apogeu neste ano de 2017. O que assistimos nos estados do Amazonas e de Roraima, nos primeiros dias do ano-novo, foram cenas inimagináveis de conceber por seres ditos civilizados, tamanho o grau de barbárie imposto à ação.

Acidente uma ova, o acontecimento macabro de Manaus foi um roteiro bem elaborado, digno de filmes de terror, assemelhado a práticas de masmorras da Idade Média. Se um massacre em si já é estarrecedor, o que dizer de decapitar e esquartejar, a golpes de facão, companheiros de desventura encarcerados nas pocilgas brasileiras apelidadas de prisão.

Como esperar algo diferente daquelas máquinas de produzir monstros? Presídio no Brasil não ressocializa ninguém, muito pelo contrário. A maneira sub-humana como vive ali o apenado serve apenas para incitá-lo contra tudo e contra todo o mundo. Pior. Cultiva-se o antagonismo contra o Estado gerando a ira, o mais terrível dentre os sentimentos.

Jamais imaginei vivenciar outra vergonhosa chacina nos moldes do massacre do Carandiru, em São Paulo, ocorrido dez anos após a profecia de Darcy Ribeiro, num presídio abarrotado de encarcerados. Com a diferenciação no grau absurdo de crueldade do último.

E mais uma vez o antropólogo intuíra: “Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da educação”. Complementado o raciocínio com outra triste constatação: “A escola brasileira é a escola da mentira: o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende”.

Uma vez estabelecido o quadro de terror em cárceres da região Norte, causando estupefação no Brasil e no mundo, eis que aparece o jovem titular da Secretaria Nacional de Juventude burilando uma moldura patética para o cenário tétrico: “…tinha de ter uma chacina por semana”. Por acaso é do conhecimento do autor dessa colocação infeliz, que 51% da população carcerária do país é de jovens como ele, com idade entre 19 e 27 anos?

Diante de índices alarmantes de extermínio de nossos semelhantes, fica a impressão de havermos perdido a capacidade de indignação e abandonado o senso de piedade. Neste instante de incertezas, bem que poderíamos tomar como exemplo outra declaração de Darcy Ribeiro para não embarcarmos nessa onda de banalização da violência: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

Dá consternação admitir, mas o governo brasileiro, por descaso ou conveniência, se resignou ante o caos do sistema prisional do país. Caso contrário o apelo de Darcy Ribeiro já teria encontrado eco.

FERDINANDO FUGIU PARA CASAR

Somente após trinta anos de convivência eu soube que meu amigo Ferdinando fugira para casar com a sua única e querida esposa, quando adolescentes. Ele me pediu para guardar reserva acerca do fato, mas, como não existe apenas um Ferdinando no mundo, ninguém identificará meu amigo neste relato.

Dessa forma o segredo continuará guardado comigo como se estivesse num túmulo e eu poderei abordar a matéria sem traumas. Aliás, foi uma exceção que abri, pois sempre fui sincero ao alertar a todos: se alguém tiver lá os seus assuntos secretos e desejar mantê-los ocultos, nada de me confidenciá-los.

Pois bem! O tema veio à baila porque o costume causador de espanto e desaprovação na sociedade de antigamente, simplesmente desapareceu de cena. Isso mesmo! Acabou-se o romantismo e a atratividade de raptar uma jovem para obrigar a família da dita a aceitar a união do casal – recorria-se a tal prática quando existiam sérias restrições ao relacionamento amoroso em andamento.

Naquela época, após a apropriação indébita da amada, esperava-se o desenrolar dos fatos para a formalização da união. Especulava-se a postura de ambas as famílias quanto à forma de amoldar o ato tresloucado do rapaz ao rigor das regras de enlaces e tradições vigentes.

Então surgiam os questionamentos. Quando, como e em quais circunstâncias se dará a reparação do roubo da donzela? Haverá matrimônio no religioso ou apenas no civil? A jovem casará de branco dando uma prova cabal da virgindade preservada ou divulgará a consumação do ato trajando uma outra cor? Tudo isso consistia num prato cheio para fofocas ou de combustível para tiras picantes de colunas sociais, numa sociedade carente de escândalos ou de novidades chocantes.

E hoje, qual seria o comportamento das famílias e da sociedade perante um rapto de donzela para fim casamenteiro? Ah, gente, no mínimo serviria para gozações de toda ordem e natureza. Os tempos são outros e nem em pensamento tal prática se adequaria à nossa realidade.

Primeiro, porque é desnecessário, trabalhoso e careta para o jovem exercitar o rapto na acepção fiel da palavra. Segundo, por não haver espaço para a encenação, uma vez que o problema se resolve com um simples convite à parceira, e ambos viverão juntos sem qualquer lampejo de arrependimento ou dor na consciência. Isso, sem levar em conta a satisfação dos pais pela economia de despesas com as bodas.

E quanto a repercussão no âmbito social? Qual é essa, irmão? Não é motivo de preocupação, pois comentários são descartados em uniões do tipo pela banalização da ocorrência.

Até meados do século passado a conversa era outra, porque a virgindade ainda era valorizada antes do casamento. Após o advento da pílula anticoncepcional tudo mudou. Para melhor, admitem as pesquisas de opinião pública, porquanto deu início à liberação sexual feminina.

Na verdade, os raptos de antigamente não passavam de atos impensados, motivados pela paixão arrebatadora de casais enamorados, interpretados por donzelas sonhadoras como manifestações explícitas de amor profundo.

Longe de menosprezar a conduta do passado, exalto o costume do presente que, descartando a hipocrisia, prioriza a liberdade e a honestidade de decisões em assuntos do coração.

O QUE VALE A PENA

Terminarei minha participação anual neste Jornal da Besta Fubana com alguns dos pensamentos inspiradores de Felipe Cubillos, empresário e milionário chileno, que após amealhar considerável fortuna dedicou-se à filantropia. Cubillos faleceu num acidente aéreo em 2011, no Arquipélago de Juan Fernándes, aos 49 anos de idade.

Acerca de teus filhos – Definitivamente não são teus. Deves amá-los e educá-los com o exemplo e orientá-los para que busquem os próprios sonhos; não os teus. Não esperes que te agradeçam tudo o que fizeres por eles; esse agradecimento virá muitos anos depois, talvez quando já fores avô – aí eles reconhecerão o que é ser pai e mãe. Porém, se antes disso, decidirem dizer que estão orgulhosos de serem teus filhos, te consideres recompensado.

Acerca de teus pais – Nunca deixes de agradecer-lhes o fato de terem te posto neste mundo maravilhoso e de te haverem dado a possibilidade de viver, somente isso, viver.

Acerca de teus limites – Eles não existem e estão muito além do que imaginas. Quanto mais além? Esta é uma pergunta que tens que levá-la ao extremo para descobrir.

Acerca do talento – Não serve para nada se não vier acompanhado de determinação, planificação, disciplina e perseverança. O talento é efêmero, a determinação, eterna.

Acerca do amor – Deves dar graças ao Universo se te despertam a cada manhã com um beijo e um sorriso. Lembras-te das abelhas e das mariposas, elas não buscam a flor mais bonita do jardim, somente aquela que tem maior conteúdo.

Acerca dos amigos – Eleges aqueles que estiveram contigo quando estivestes por baixo, porque quanto estiveres no auge eles irão te sobrar.

Acerca da riqueza – Uma vez que tenhas consolidado o teu fluxo de caixa, tratas de comprar mais tempo do que dinheiro, mais liberdade do que escravidão.

Acerca da angústia e da amargura – Quando creres que já não é possível suportar os sofrimentos que te agoniam, que já não podes nada fazer, dás-te um tempo para ver as estrelas e esperas despertar o amanhecer, então descobrirás que sempre nasce o sol… Sempre!

Acerca do presente – Vivê-lo intensamente é o que realmente importa. Os que vivem aferrados ao passado já morreram e os que vivem sonhando com o futuro ainda não nasceram.

Acerca dos sonhos – Nunca renuncies a teus sonhos, persegue-os apaixonadamente e se não conseguires, não importa. Só o fato de haveres percorrido esse caminho terá valido a pena.

Acerca de Deus e o Céu – Creio que se vivermos fazendo o bem poderemos estar na lista de espera se é que o Céu existe, e se ele não existe, teremos tido nosso próprio Céu aqui na Terra. Quanto a Deus não o encontraremos apenas nos mares do Sul, nas ondas, nas nuvens, nas tormentas, Ele sempre esteve conosco, dentro, bem dentro de nós.

NATAL: UMA NOITE ÚNICA

Na Igreja Católica a celebração do nascimento de Cristo foi instituída pelo papa Libério no ano 354 d.C., ou seja, 1.662 anos atrás. Das tradições do catolicismo, as comemorações natalinas foram as que mais se agigantaram com o transcorrer dos anos, até se transformar numa das maiores festas do mundo cristão.

A data deveria priorizar somente o nascimento de Jesus Cristo, símbolo da maior religião do Ocidente. Entretanto, deixou avançar a exploração mercantilista dando espaço ao consumismo e ao mundanismo que preencheram lacunas sagradas do evento, antes preservadas da ganância e da usura.

Árvore de Natal de Natal/RN

Em contrapartida, despertou sentimentos de consagração à união da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.

Impressiona-nos, pobres mortais, a magia da noite de Natal. Mesmo sabedores do compartilhamento de uma cerimônia repetida durante séculos, ainda assim nos encanta e emociona as festividades do período.

A madrugada do dia 25 de dezembro evoca sentimentos relacionados à nossa história e ao passado. Ela nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal para confraternizarmos com pessoas próximas.

A nostalgia da comemoração fica por conta das lembranças de entes queridos ausentes ou falecidos. Aí não tem como evitar brotar a saudade decorrente da impossibilidade de materializar tais presenças na festividade.

O Natal traduz bem esse sentimento de perda. É só admirar a decoração típica e saborear a culinária tradicional da época para relembrar parentes ou amigos que compartilharam conosco Natais inesquecíveis.

Então explode a vontade de retornar ao tempo em que víamos a casa repleta de familiares, com as crianças pequenas e a vida fluindo embalada na felicidade de estarem todos ali reunidos, esperançosos de repetirem iguais instantes no futuro.

Recordar os Natais do passado é uma prática salutar, desde que não nos abarrotemos de lembranças tristes. Priorizando o pesar transformaremos o Natal-Alegria no Natal-Tristeza. Agindo assim vivenciaremos a comemoração com os pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos.

Nenhuma preocupação do tipo deve atrapalhar a alegria das crianças com o Papai Noel nem embotar o deslumbramento da festa. O contrário será exaltar a memória de mortos estimados em vez de exultar com a presença de vivos queridos.

No Natal o coração bate mais forte, porque celebrar o Natal é crer na força do amor. É desfrutar da felicidade de ver a família unida e contar com a presença daqueles que nos acompanharam em nossa jornada ao longo da vida. Sem percebermos tais companhias são, na verdade, os presentes que superam qualquer mimo deixado de lembrança embaixo da árvore de Natal.

O Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Mas não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas e festas.

O verdadeiro espírito do Natal é festejar a chegada do Filho de Deus, mandado ao mundo para perdoar as falhas dos homens e lhes mostrar o caminho da Salvação. Para nos inserirmos no espírito do Natal a nossa melhor oração consiste naquela que se eleva em silêncio do fundo de nossas almas para aquecer com ternura os corações dos entes que nos amam e aceitam que os amemos.

Por esbanjar tanta fascinação e magia a noite da Natividade é única.

* * *

NOITE FELIZ – CORAL FLORIANÓPOLIS

AMOR E SEXO NAS ALTURAS

A fantasia de manter relações sexuais a bordo de aeronaves, em voos comerciais, é bem maior do que a nossa vã filosofia possa imaginar. Ponham o nome que quiserem nessa prática cavilosa: fetiche, erotismo doentio, tara ou sacanagem, mas que ela existe, ah, sim, existe! E nos parece ser mais ativa e intensa nas mulheres.

O motivo desta matéria é decorrência do livro Cabin Fever (Febre na Cabine), de Mandy Smith. Essa inglesa, hoje uma senhora casada de 41 anos de idade, trabalhou por mais de dez anos como comissária de bordo da companhia Virgin Atlantic. Além de garantir como verdadeiras as peripécias descritas no livro, Mandy confessa ter feito sexo com o namorado piloto, no cockpit da aeronave em pleno voo.

Ela enumera várias situações grotescas focadas na libido e na coragem (ou irresponsabilidade) de passageiros envolvidos em tais aventuras. Como a do casal, no auge de sua paixão, correr despido na primeira classe; ou o caso da jovem, entre 19 e 20 anos de idade, viajando com os pais para Los Angeles, sendo flagrada por três vezes no toalete, com três parceiros diferentes. E por aí vai…

Esse trololó serviu de preâmbulo para eu relatar a aventura de meu amigo Dionísio. Ele saíra de Recife, num voo noturno longo da Varig, para participar de um congresso de engenharia rodoviária em Manaus. Isso no tempo em que fumar a bordo era permitido, serviam-se as refeições em pratos de porcelana com talheres de aço inoxidável, e o whisky oferecido era abundante e de boa qualidade.

Um daqueles voos transportando poucos passageiros, o que dava margem à tripulação servir logo o jantar, apagar as luzes e deixar a todos descansar.

Dionísio se acomodou nas três últimas poltronas para dormir sem ser incomodado nem incomodar ninguém. Antes, pediu mais um whisky à aeromoça. A jovem, uma bela loura na faixa dos 20 anos de idade, demorou no atendimento do pedido. O colega ficou impaciente, mas, bastou ela aparecer com o whisky, amigável e sorridente, para acalmá-lo. Surpreendeu-o ao perguntar: “Posso sentar aqui, senhor?”.

Ele acedeu e, calado, ouviu a sua justificava: “Meu nome é Sophie. Não estranhe este procedimento. É o meu último dia de trabalho. Amanhã voltarei para o Paraná sem a farda. Vou casar”. Embriagado com a beleza da moça, ele só conseguiu balbuciar um “Parabéns!” sem entusiasmo.

De chofre, sem mais nem menos, Shophie avançou para Dionísio e o beijou na boca, e ele acatou a carícia numa boa. A coisa esquentou, e fugiu dos limites da sensatez. “E se vier alguém?” – ele perguntou. E ouviu: “Fique tranquilo! Minha colega nos dará a devida cobertura!”. E os dois se amaram, literalmente, à vontade.

Ao terminar a presepada a aeromoça se recompôs e desapareceu. Dionísio nunca mais a viu naquela rota. Falando com os seus botões ele imaginou: “Ela realizou a sua fantasia e agora assumiu o papel de esposa virtuosa”.

Meses depois, viajando por outra companhia aérea, distraído na sua leitura, ouviu alguém dizer: “Senhor, eis a sua dose de whisky!”. Dionísio, surpreso, porque nada pedira, tirou o olhar do livro para cruzar com o de Sophie. Perplexo, recebeu a dose e a viu se afastar com um sorriso no rosto e uma piscadela provocante.

Comentando a sua aventura comigo e com o Praxedes – um cearense casca-grossa e sem papas na língua – Dionísio confidenciou: “Ela escreveu no guardanapo do whisky que gostava de mim”. Pragmático, Praxedes pôs uma pá de terra no romantismo do colega: “Cai fora dessa, cabra besta! Essa vadia gosta mesmo é de abater pajaraca desgarrada nas alturas”.

Dois pra lá, dois pra cá, quem tiver uma melhor pode contar!

BELAS E POÉTICAS

Nem sempre as mais belas cidades são as de nomes mais poéticos. Partamos do princípio de que o bonito para mim pode não ser para outrem, isto porque a beleza é algo subjetivo. Certo? Ainda assim, a Forbes, revista americana de negócios e economia, formou uma equipe de especialistas em áreas como planejamento urbano, arquitetura e desenvolvimento sustentável para definir as cidades mais bonitas do planeta. Do trabalho surgiu a seguinte relação por ordem de classificação: Paris, Vancouver, Sydney, Florença, Veneza, Cidade do Cabo, San Francisco, Chicago, Nova York, Londres, Cambridge e Tóquio.

paris

Paris, a mais bela e poética cidade do planeta

Certamente, não haverá unanimidade nessa escolha. Se essas doze cidades enfrentassem um plesbicito, algumas seriam subtraídas para a adição de outras mais “atraentes”. Sim, porque em beleza tudo é muito relativo.

Minha pesquisa não trata da formosura das cidades, mas da poesia, sonoridade e significado contidos em seus nomes. Sei bem o quanto de contestação provocará minhas escolhas, mas não almejo a unanimidade porque emito uma opinião livre de quaisquer influências senão a do meu próprio senso de avaliação.

Nas Américas do Sul e Central escolho Buenos Aires (bons ares), Montevideo (monte visível) e Tegucigalpa (montanhas de prata). Na Europa: Bucareste (alegria), Budapeste (junção das cidades Buda e Peste), Estocolmo (ilha fortificada), Copenhague (porto do mercador) e Amsterdam (homens que vivem na terra seca). Na África, gosto dos nomes Nairobi (restinga) e Luanda (águas gélidas). Na Oceania de Camberra (ponto de encontro).

Dentre as capitais brasileiras, considero Belo Horizonte e Rio de Janeiro como as de nomes mais charmosos. Incluo Brasília por ser um derivativo feminino e deslumbrante do nome da nação. Entretanto, nenhuma delas supera em significado e simplicidade o nome da minha querida cidade de Natal.

olinda

“Oh, linda situação para se construir uma vila!”

Encontramos nos 5.570 municípios brasileiros uma extraordinária miscelânea de denominações que vão das mais singelas até aquelas absurdas e inaceitáveis. Predominam nomes de santos e santas católicos, de acidentes geográficos e de homenageados daqui e de outras plagas, comumente, figuras públicas.

Passeando sem compromisso por esse universo de designações deparei-me com Águas de Lindóia(SP), Águas Lindas de Goiás, Alegria(RS), Alterosa(MG), Arraial do Cabo(RJ), Angra dos Reis(RJ), Bela Vista do Paraíso(PR), Bonito(BA), Boa Esperança(ES), Bom Retiro(SC), Cachoeiro de Itapemirim(ES), Campina do Monte Alegre(SP), Cruz das Almas(BA) e Campo Formoso(BA).

E por aí vai. Encantado, Feliz, Gentil e Nova Esperança do Sul, no Rio Grande do Sul; Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Jaboticabal, Piedade e Taboão da Serra, em São Paulo; Formosa do Oeste, Jardim Alegre e Paraíso do Norte, no Paraná.

No Ceará, Quixeramobim, Itapipoca, Guaramiranga e Jijoca de Jericoacoara. No Maranhão, Vila Nova dos Martírios, Alto Alegre e Bom Jardim. Na Paraíba, Sossego, Mãe D’água e Belém do Brejo do Cruz. Em Alagoas, Maravilha e Olho d’Água das Flores. Em Sergipe, Itabaiana e Ilha das Flores. E, em Pernambuco, optei por Solidão, Riacho das Almas, Bom Conselho, Camaragibe e Olinda, nome decorrente de exclamação de Duarte Coelho: “Oh, linda situação para se construir uma vila!”.

Termino o passeio no Rio Grande do Norte escolhendo Jardim do Seridó, Baia Formosa e Caiçara do Rio do Vento, a cidade cujo nome é um poema.

Agora, que se estabeleça o contraditório e venham as opiniões!

IMAGINE

Na próxima quinta-feira, dia 8 de dezembro, serão 36 anos sem John Lennon, o mais reverenciado integrante dos The Beatles, ídolo inconteste de gerações amantes do rock and roll, em particular, daquela que viveu os anos 60 e 70.

Na juventude, muitos marmanjos com faixa etária igual a minha, sacolejaram os quadris tentando aprender alguns movimentos extravagantes do novo gênero musical que se estabeleceu, definitiva e mundialmente, na década de 1960.

A minha paixão pela música dos Beatles começou depois de assistir a retransmissão, numa tevê em preto e branco, da célebre apresentação do quarteto no Ed Sullivan Show, da CBS, no dia 9 de fevereiro de 1964. Nós, no Brasil, e mais 73 milhões de pessoas que não desgrudaram olhos de televisores nos Estados Unidos. Naquela noite em que os rapazes se apresentaram, algo de muito especial aconteceu.

Ninguém ficou indiferente ao charme de John, Paul, George e Ringo. Bastaram os primeiros acordes de All My Loving para não ter mais volta. Criou-se um elo emocional instantâneo entre a banda e seus fãs. As mensagens das canções eram claras e diretas: “ela te ama”, “quero segurar sua mão”, “de mim para você”. Tudo muito simples e doce. Nascia a beatlemania e entrava para a história um mito.

Ainda assim houve comentários desanimadores, como o da revista semanal Newsweek: “Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras, pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’, são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados”.

Nada, porém, conseguiu dominar a beatlemania. Na virada de 1964, os quatro músicos que começaram a carreira no pequeno Cavern Club de Liverpool, Inglaterra, se tornaram a maior banda do mundo.

Em 1970 aconteceu a dissolução definitiva do conjunto, quando cada um dos integrantes enveredou por caminho diferente – Paul McCartney e John Lennon, como cabeças do grupo, obtiveram os melhores resultados na carreira-solo.

John Lennon, ao voltar para casa às 23 horas de uma segunda-feira, em dezembro de 1980, após sessão num estúdio de gravação, foi alvejado por quatro tiros de revólver desferidos por Mark David Chapman, um homem de 25 anos, na frente do edifício Dakota, onde morava. Lennon morreu com 40 anos de idade.

Em Nova York eu fui até ao Central Park para conhecer o dito edifício e render homenagem à memória do beatle famoso. Em frente ao prédio encontrei, numa das calçadas do parque, um círculo de aproximados 3,5 metros de diâmetro, em pedras portuguesas, contendo a palavra Imagine no centro. Ali, vi pessoas reverenciando o local como se fosse o ponto do assassinado de John Lennon.

Ressabiado, procurei o porteiro do Dakota para pedir informações. Ele olhou para mim, sorriu e disse: “O senhor está pisando no local onde ele caiu ferido de morte”. E naquele ponto eu fui fotografado, numa reverência singela a um dos ícones de minha adolescência.

O círculo do Imagine é um memorial com o nome da música de maior sucesso da carreira-solo de John Lennon, preito de Nova York ao morador inesquecível.

circulo

* * *

Imagine (Legendado) – John Lennon

VÃO GÔGO E O BARÃO DE ITARARÉ

Somente após sua morte, em março de 2012, atentei para o detalhe de que Millôr Fernandes fora o substituto natural de Aparício Torelli na vanguarda do humorismo político brasileiro. Quando Aparício morreu em 1971, aos 76 anos de idade, Millôr contava com apenas 44 primaveras, metade dos anos que viveria. Comparar as oportunidades de crescimento profissional de Millôr com as de Aparício é covardia.ml

O primeiro usufruiu da integral transformação e desenvolvimento da comunicação no país; o segundo alcançou o auge de sua produção quando ainda predominava na editoração gráfica a linotipia. Millôr usou e abusou do pseudônimo Vão Gôgo; Aparício subscrevia seus escritos com o título ilustre de o Barão de Itararé.

Em épocas diferentes, ambos tiveram como característica explorar o humor satírico com coragem e determinação, quando a liberdade individual e a expressão de pensamento eram restritas.

Acerca da proficiente atividade profissional de Millôr Fernandes, devido à ampla divulgação midiática, temos completo conhecimento. Sobre a vida de Aparício Torelli, ainda sabemos pouco. No domínio público caíram muitas das expressões do Barão de Itararé, que as repetimos sem conhecimento da autoria. Exemplos: “Além dos aviões de carreira, há qualquer coisa no ar”, “O feio da eleição é se perder” e “Deputado come o milho, papagaio leva a fama”.

Aparício nasceu no Rio Grande do Sul, estudou medicina e bacharelado em línguas, mas abandonou os cursos às vésperas de concluí-los. Aos 30 anos de idade foi tentar a sorte como jornalista no Rio de Janeiro. Trabalhou em “O Globo”, transferiu-se para “A Manhã”, contudo, movido pela determinação de fundar o seu próprio jornal abandonou o emprego, retirou o til de “A Manhã” e fundou “A Manha”. O jornal teve imensa aceitação e logo se firmou na preferência dos cariocas.

Com o sucesso vieram também os inimigos advindos das críticas duras e do estardalhaço dado a cada denúncia publicada. As irreverentes estocadas nas autoridades instaladas no poder pela Revolução de 30 resultaram em inúmeras prisões do dono do jornal.ap

A Manha” era a cara do Barão. Durante os 26 anos de existência foi o veículo perfeito para suas investidas. São do período áureo de “A Manha” as máximas aqui selecionadas:

“A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana”,

“Os índios andavam à vontade porque nunca desconfiaram que um dia apareceriam na História do Brasil”,

“Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”,

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”,

“Pobre só vai para frente quando dá topadas” e

“Sabendo levá-la, a vida é bem melhor que a morte”.

Aparício e, no rastro de seus passos, Millôr, obtiveram resultados extraordinários manipulando provérbios. Eis outras pérolas do Barão:

“Quanto mais conheço os homens mais gosto das mulheres”,

“Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa”,

“Dize-me com quem andas e te direi se vou contigo”,

“De onde menos se espera daí é que não sai nada” e

“Quem empresta… Adeus.”.

Assim como Millôr, Aparício foi um pensador à frente de seu tempo. Expressou-se sem limites e pagou caro pelas críticas que teceu. Fez o que sempre gostou de fazer e tomou como doutrina, na existência, uma de suas mais famosas máxi-mas: “O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva”.

CÁPSULA DO TEMPO

É dureza ser avô. Não me refiro à grata satisfação de vermos os filhos transformados em pais. Atenho-me aqui às dificuldades que o exercício da condição paterna, em dose dupla, impõe ao despreparado, inábil e, algumas vezes, ridículo ente chamado avô, enfrentando peraltas de inteligências privilegiadas, numa realidade diferenciada daquela na qual ele criou os seus rebentos.avo

Quem já não se viu enredado numa “saia justa” por conta de alguma pergunta capciosa de neto? Ou não se sentiu diminuído ante o olhar de severa reprovação por considerar banal algo importante para o pirralho? E quanto ao mundo da alta tecnologia da informática? Não raro, um avô despreparado em computação, ousa incursionar pela área com os netos, para logo desistir da empreitada humilhado ou tachado de burro ou alienado… E por aí vai!

Mas, nem sempre são temas dessa natureza os complicadores da vida do avô. Em certas ocasiões o embaraço decorre de assuntos que requerem seriedade, porque atingem a formação da criatura alvo primordial da orientação dos genitores. Recentemente, eu me deparei com uma situação dessas.

Minha filha mais velha me pediu para escrever uma mensagem endereçada à neta mais nova. A menina havia terminado o curso infantil com seis anos de idade, e se preparava para enveredar no estágio fundamental. A escola objetivava guardar as missivas destinadas aos alunos numa espécie de cápsula do tempo, durante doze anos, até ser aberta em 2028.

O que pareceu uma tarefa simples no momento da solicitação, me deixou encafifado após raciocinar quanto ao teor a ser escrito. O que um indivíduo no limiar da existência diria a uma criança no florescer da vida, que traduzisse, no futuro, algo importante para uma mulher na plenitude de sua juventude? Quais conselhos minha neta, aos 18 anos, gostaria de encontrar naquela carta? O que eu poderia afiançar para incutir segurança em alguém começando a trabalhar o seu destino?

E quanto mais eu pensava menos atinava aonde chegar. Descartei conselhos, porque o melhor aprendizado está em vivenciar as situações. Pareceu-me despropositado citar frases de autoajuda; maior proveito ela tiraria observando os exemplos de casa e do mundo que a rodeia. Encher linguiça com palavras insinuando sentimentos desprovidos de emoções verdadeiras, não condiz com o meu feitio.

A princípio, eu nada escreveria que a entristecesse naquele longínquo dia de abertura da cápsula. Tudo que a acabrunhasse me desagradaria. Uma barreira emparedou minhas ideias deixando o branco se apossar dos pensamentos.

Então se deu o estalo. Separei algumas fotografias onde aparecíamos em situações agradáveis, e as anexei ao texto a seguir:

“Olá, Ana Júlia! Deixe a preguiça de lado e venha correndo me abraçar, dividindo sua alegria com este alquebrado oitentão. Caso a inevitável passagem tenha ocorrido, não se faça de rogada, dirija-me uma prece e ficarei feliz por ainda estar presente na sua lembrança. Que Deus lhe abençoe! Seu avô, Narcelio.”

Ponto final.

A CAPELA DOURADA

No final da semana passada, eu e minha mulher Edilza demos uma esticada até Recife. Tínhamos por objetivo conhecer a Capela Dourada, localizada na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, integrante do complexo de edificações do Convento de Santo Antonio, no bairro do mesmo nome.cpl

Sabedor da preciosidade sacra eu encontrei motivação para visitar a capela folheando as páginas do livro “Relíquias: Patrimônio Arquitetônico do Nordeste do Brasil”, autoria de Fernando Chiriboga, fotógrafo equatoriano radicado em Natal.

Deslumbrante! Não atino com outro adjetivo para qualificar o santuário. Realmente, uma relíquia do estilo barroco-rococó, construída entre 1696 e 1724. Na Capela o que não é pintura ou painel de azulejos está entalhado em cedro recoberto de gesso, arrematado por lâminas de ouro. Daí a alcunha “dourada”.
Embora com o teto abobadado em dimensões menores e sem contar com a fama nem os afrescos de artistas famosos da Renascença, a Capela Dourada lembra a Capela Sistina situada no Palácio Apostólico, na Cidade-Estado do Vaticano.

Na importante estatuária onde se destacam o grande Crucifixo, o Cristo Atado à coluna e o Senhor dos Passos, eu me ative às imagens da Rainha Santa Isabel e de Santa Beatriz da Silva, trazidas de Portugal. Assim exalto o exemplo, pouco divulgado, de fé e de retidão contido na história de vida de cada uma daquelas santas.

A Rainha Santa Isabel de Portugal (1271-1336), na verdade nasceu em Aragão, Espanha, filha do rei Pedro III. Casou-se com D. Dinis I, rei de Portugal, ela com 12 e ele com 17 anos de idade. Dedicou os 65 anos de vida a pacificar ânimos, evitar guerras e ajudar a pobres e enfermos. Foi canonizada em 1742.

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O colunista diante da imagem de Santa Beatriz

É venerada tanto em Portugal quanto na Espanha, pelos milagres operados. Dentre eles, transformar moedas para distribuir com os pobres, em rosas, quando interpelada pelo esposo que a questionou acerca do que portava no regaço.

Beatriz da Silva e Menezes nasceu no Alentejo, em 1437. Sua família pertencia à nobreza de Portugal e tinha parentesco com a realeza. Quando a princesa Isabel de Portugal, sua prima, se casou com D. João II de Castela, ela a levou como dama de honra para a corte de Tordesilhas, na Espanha.

A formosura e a simplicidade de Beatriz atiçaram o ciúme de Isabel, acentuado pelas atenções do rei para com a jovem. Isso a fez prender a prima num cofre para que morresse asfixiada. Ficou encerrada por três dias, até que seu tio D. João de Menezes, notando sua ausência, exigiu explicações à rainha que abriu o cofre.

Ao sair viva e saudável do cativeiro, estarreceu a todos que a consideravam morta. Beatriz deixou a vida palaciana indo para Toledo viver no Convento Dominicano de São Domingos por 30 anos, na sombra e silêncio do claustro.

Enfrentando toda sorte de percalços, ela fundou a Ordem da Imaculada Conceição, mas faleceu na data que a instituição abriria as portas. Era o dia 9 de agosto de 1492. Beatriz legou ao mundo uma das maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa da Igreja. Foi canonizada em 1976.

Estes são apenas dois dos relatos extraídos do acervo da Capela Dourada, onde outras histórias de religiosidade se encontram embutidas nas paredes e teto daquele tesouro de obras sacras. Tudo isto ao alcance dos olhos de nosso povo.

Visitar a Capela Dourada é se regalar com o primor e a beleza da arte, produto do fervor, talento e determinação do punhado de cristãos que a construiu.

CIÚME NO LAR DOCE LAR

Todo casal tem lá suas crises conjugais. Uns com maior, outros com menor intensidade ou frequência. Mente quem garantir viver num permanente mar de rosas no casamento. As causas das desavenças encontram origem em problemas de ordem material, social, cultural, religiosa ou pessoal.

As rixas decorrem, também, de reações e instabilidades emocionais de um dos integrantes desse complexo contrato de convivência. O ciúme tem seu espaço, sim, nesses desencontros de casais que, uma vez fora de controle, é causa de estragos devastadores no matrimônio.ciume

O ciúme advém de emoções desencadeadas por receio de ameaças à estabilidade do relacionamento a dois. Quando as dúvidas do ciúme descambam para ideias delirantes, começa a se instalar o ciúme patológico no casamento. Nele, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza se torna vaga e imprecisa.

São sentimentos perturbadores, desproporcionais ou absurdos, que determinam comportamentos inaceitáveis. Tais sentimentos envolvem o medo perturbador de perder o parceiro, além da suspeita excessiva e impessoal. O pior do ciumento mórbido é que mesmo comprovada inócua a razão da desconfiança, ele não consegue eliminar a dúvida.

Eu divago sobre o ciúme patológico sem o conhecer de perto. No cinema, sim, o tema é explorado maravilhosa e terrivelmente bem. Lembram “Atração Fatal” (Fatal Attraction – 1987)? O filme deixa o espectador petrificado e agradecido pelo ciúme civilizado que desfruta em casa.

Embora sem conviver com o ciúme patológico, já presenciei algumas manifestações explícitas do mesmo. Como o caso da esposa de um colega engenheiro que o ameaçou, jurando de pés juntos, furar seus olhos e lhe chupar o sangue, caso fosse traída algum dia, mesmo em pensamento.

Assisti ao show de uma mulher enciumada, de tesoura em punho, dando aulas a amigas de como podar o símbolo da virilidade do parceiro sem a anuência do próprio. Gozação ou não, eu notei interesse exagerado em algumas delas.

Quem me contou esta foi uma esposa, vítima, quando noiva, do ciúme exagerado do futuro marido. Fã de carteirinha de Charles Eugene Patrick Boone – norte-americano que ganhava a vida cantando e atuando em filmes de Hollywood -, na véspera do casamento, ouviu do amado a seguinte ameaça: “Ou eu ou ele!”.

Em prol de uma vida feliz sem o ciúme do esposo, abdicou da coleção de discos do ídolo, e jamais pronunciou o nome de Pat Boone naquele Lar Doce Lar.

Vivenciar um ciúme extremado? Que o diga meu amigo empresário, protagonista de casamento de 36 anos, tomado de crises de desconfiança da cara-metade. Marido e pai dedicado, solidário e presente, ele se desdobra para evitar levantar dúvidas da fidelidade à mulher ciumenta. Pelo o que eu sei de sua conduta no matrimônio, vive de casa para o trabalho e vice-versa.

Recentemente, surpreendeu a esposa com a seguinte sugestão: “Amor, acabarei de uma vez por todas com o ciúme em nosso casamento. Instalarei um chip no carro. Assim, você ficará com o controle de todos os meus movimentos!”. Ela, toda animação, contrapropôs: “Melhor seria implantar um microchip no pênis?”.

Raça Negra – Ciúme de Você (Música)

MINHA SEGUNDA CHANCE

Mesmo diante de dados estatísticos irrefutáveis dando conta da montanha de sucessos em cirurgias cardíacas, eu ainda considero o êxito obtido por pacientes submetidos a essa complexa experiência operatória, uma segunda chance de vida. E não fica por menos, porque o processo invasivo requer serrar o esterno do indivíduo e arreganhar suas costelas para trabalhar o coração.

Hoje, superados os traumas decorrentes do infarto, eu posso relatar minha provação diante da cirurgia, sem inquietação. E o faço tentando ajudar a quem estiver indeciso quanto a permitir que lhe devassem o tórax, deixando-o assemelhado a um frango com a titela aberta.crc

Eu enfartei aos 46 anos, uma idade tida como fatal para pessoas acometidas do mal. É lógico que a moça Caetana com a foice da morte na mão não me alcançou, caso contrário eu não descreveria aqui a experiência, e vocês, certamente, estariam lendo um texto psicografado por uma alma penada.

Isso aconteceu em 1990. Na época, Natal não dispunha de estrutura nem de profissionais para cirurgias do tipo. Então, recorri ao Incor de São Paulo em busca da cura. Para minha tranquilidade, a angioplastia sanou o problema naquela instância. Dela, guardo apenas a impressão de invasão de minhas artérias por um cabo de velocímetro automotivo.

Não segui o rigor imposto para levar uma vida de samaritano, mas obedeci à rotina dos medicamentos transcritos e dos check-ups estabelecidos. Assim, vivi por 19 anos. Em 2009, numa avaliação tardia do meu quadro clínico recebi o golpe de misericórdia: ainda não era infarto, mas o fluxo sanguíneo fora obstruído nas artérias principais, e chegava ao coração por obra e graça de circulação colateral. Ou seja, eu portava uma bomba relógio no peito, e a recomendação era abrir a titela.

Com o destino traçado, recordei declaração do presidente João Figueiredo, após cirurgia cardíaca nos Estados Unidos, em novembro de 1981: “Sinto-me como se uma carreta houvesse me atropelado!”.

Mergulhei fundo na literatura sobre o assunto. Afinal de contas era a minha única e preciosa vida. Descobri, que das inúmeras causas do infarto, o meu fora embasado na antecedência familiar e no estresse elevado. As informações obtidas não me deram a segurança necessária, porque eu não desejava ter a mesma sensação que a carreta deixara em Figueiredo.

Meu irmão Elmano, médico do Hospital do Coração de Natal, sugeriu eu dialogar com o cirurgião para conhecer os meandros do procedimento ao qual me submeteria. Como se não bastasse, a enfermeira-chefe do hospital, a seu pedido, descreveu qual meu sentimento ao recobrar a consciência na UTI. Se a primeira conversa foi ótima, a segunda foi extraordinária.

E assim aconteceu. Ao acordar, superei logo a angustia da imobilização causada por inúmeros drenos espalhados pelo corpo, e a dificuldade de buscar mais oxigênio para os pulmões por conta do respirador na garganta. Naquele momento, lembrei a orientação da enfermeira-chefe para manter a calma.

Ah, ainda tem as pontes! Ganhei duas de safena e duas de mamária. Lembranças inúteis eu as exclui da cachola. No contexto, de engraçado mesmo, somente a conversa do cardiologista com o meu irmão, após a cirurgia:

– Elmano, vocês foram criados com leite de jumenta?

– Não que eu me lembre! Por quê? – respondeu o mano, e ouviu:

– Nunca operei alguém de esterno tão duro quanto o de Narcelio. Isso é comum em quem bebeu muito leite de jumenta na infância!

Manda brasa irmão e enfrenta o pepino! Afinal, é a tua vida em jogo.

Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto – Coração Bobo

LAURAS

Trabalhou na agencia bancária onde opero uma gerente chamada Laura. Certa vez, por mera curiosidade, perguntei-lhe: “Você gosta do seu nome?”. Dela ouvi um sonoro “Adoooro!”. Senti sinceridade e entusiasmo naquela resposta. Trata-se, na verdade, de um nome que traduz expressividade e poder sem perder a feminilidade. Não sei se é impressão, mas, parece-me que dar o nome de Laura a filha caiu em desuso ou, como diríamos antigamente, está démodé.

Laura vem do latim e significa coroa de folhas de louro. No passado era comum batizar meninas de todas as classes sociais com essa denominação. Isso embalado no costume popular de designar filhos com alcunhas de mártires do cristianismo, após a canonização. Um exemplo dessa inclinação vem do século VIII, quando a abadessa Laura de Córdoba, sacrificada por mulçumanos num banho de óleo fervente por não renegar sua fé no cristianismo, obteve a santificação.

Outro motivo para a proliferação desse nome ocorreu no século passado com a beatificação de Laura Vicuña (1891-1904), chilena de Santiago, falecida e enterrada na Argentina aos 13 anos de idade, considerada a padroeira de vítimas de incesto e de maus-tratos.lr

Aqui abro um parêntesis. No dia 12 de maio de 2013, o papa Francisco canonizou, na Praça de São Pedro, os primeiros santos de seu pontificado. Dentre eles, madre Laura Montoya, colombiana, que será venerada como Laura de Santa Catarina de Sena (1874 – 1949). A iniciativa, certamente, provocou nova onda de batismo de Lauras na América do Sul. Fecho o parêntesis.

A incidência de Lauras famosas em outros países de língua latina é maior do que no Brasil. Principalmente nas artes cênicas, no show business e nas passarelas. Eis algumas delas: Laura Linney e Laura Herring, atrizes norte-americanas; Laura Zapata, atriz mexicana; Laura Pausini, cantora e compositora italiana; e, Laura Sánchez, atriz e modelo espanhola. Laura Chinchilla, 57 anos, cientista política, foi presidente da Costa Rica de 2010 a 2014.

No Brasil, as Lauras de destaque também pertencem ao teatro, ao cinema e a TV: Laura Cardoso, 89 anos, paulista, atriz pioneira da televisão brasileira; Laura Neiva, 23, paulista, atriz e modelo; Laura Barreto, 15 anos, atriz carioca; e, Laura de Vison, na verdade Norberto Chucri David, carioca, artista e transformista, considerado a musa do underground, falecido aos 68 anos de idade, em 2007.

Na música popular brasileira houve exaltações a Lauras, sim senhor! No meu entender a mais bonita foi “Laura”, composição de Braguinha, interpretada na voz de Jorge Goulart e, depois, nas de Agnaldo Timóteo e Emílio Santiago. A mais ouvida foi a “Lady Laura” de Roberto Carlos, homenagem prestada à sua mãe. Outra “Laura”, não tão famosa, foi uma composição de Fernanda Brum, em comemoração ao nascimento da filha.

Segundo a numerologia, a força do nome Laura produz transformações expressivas no caráter feminino. Torna-as otimistas e afetuosas, criativas e comunicativas. São mulheres de personalidade forte e de grande senso de responsabilidade. A descontração e o bom humor as mantem sempre jovens não importando a idade que tenham.

Não sei se a gerente do “Adoooro!”, citada no começo deste texto, cultiva tais predicados. Quanto a mim, posso assegurar que identificava todos eles no comportamento e nas decisões de dona Laura, minha falecida mãe.

Emílio Santiago canta Laura, da autoria de Braguinha:

ROMANTISMO NÃO OFENDE

Eu fui criado ouvindo de colegas e amigos que romantismo era coisa de “fresco” ou “veado” – termos chulos da época para apelidar o homossexual. Romancear, ser sentimental, sonhador, evocar o estado de alma e as emoções em exaltações apaixonadas eram fraquezas restritas e admissíveis somente a mulheres.

O macho que deixasse escapulir uma lágrima sequer em cena romântica de qualquer filme seria, naturalmente, alijado da patota. Tal abuso, embora tenha diminuído sobremaneira no transcorrer dos anos, ficou impregnado na personalidade e no inconsciente de muitos marmanjos.

Minha iniciação com o enlevo do romantismo aconteceu, se não me falha a memória, entre os 13 e 14 anos de idade, durante a exibição do filme Melodia Imortal (The Eddie Duchin Story – 1956). Adulto eu descobri tratar-se de um dramalhão ficcional, com Tyrone Power interpretando o famoso pianista norte-americano com tintas diferentes do que ocorreu na vida real.rt

Ser uma ficção ou pura realidade pouco importava para a mente embevecida daquele adolescente apaixonado pela beleza estonteante de Kim Novak, o par romântico do pianista na tela. A trilha sonora do filme detinha o poder catalizador de fixar aquelas imagens no subconsciente de entes sentimentais.

Comigo não foi diferente, principalmente, no tocante às músicas Manhattan e To Love Again nas interpretações desconcertantes do pianista Carmen Cavallaro. É inacreditável a emoção que ainda sinto ao ouvir os primeiros acordes de tais canções. Vem-me à lembrança cenas do filme e me vejo sentado na plateia do extinto cinema Rex, em Natal, sofrendo o mesmo drama dos personagens.

Outra lembrança forte que eu guardo de um filme romântico foi Uma História de Amor (Love Story – 1970). Em 1971, eu já casado e estudando no Rio de Janeiro, levei minha mulher Edilza para assistir ao badalado filme. E lá fomos nós a uma sessão noturna no já extinto cine Veneza, localizado em Botafogo.

O filme, um drama-romântico de emoções fortes, manteve lotação completa nas salas onde foi exibido durante semanas. Eu não recordo de ter ouvido antes, tanto fungado numa sessão de cinema. Ao término do espetáculo uma atração à parte. Vimos casais de mãos dadas tentando disfarçar, sem sucesso, suas perturbações sentimentais, evidenciadas em olhos inchados e avermelhados de tanto chorarem.

Os dramas-românticos carregam a desvantagem de não explorar finais felizes. Terminam sempre em desventura ou morte de um dos personagens da trama, como é o caso dos filmes citados acima. Já a comédia-romântica detém o poder de deixar a todos satisfeitos no final da história.

Nessa seara Woody Allen é um craque. O fato de conhecer bem o efeito do romantismo sobre as pessoas, mulheres principalmente, ele conduz com competência os enredos de seus filmes dedicados a um público cativo. O exemplo está na sua última película Café Society (2016). Umas das músicas do roteiro é Manhattan, e dela surgiu minha inspiração para escrever este texto.

Ser um romântico não arranca pedaço de ninguém. Pelo contrário, faz um bem danado. Relaxa, alivia o estresse e faz esquecer, momentaneamente, as preocupações do cotidiano. Deixar-se envolver pela magia do romantismo é agradável, divertido e nos traz boas recordações.

LA BELLE DE JOUR

Houve uma época que o período de veraneio nas praias da circunvizinhança de Natal se estendia por 90 dias seguidos. Isso mesmo! Os proprietários ocupavam suas casas litorâneas, fechadas há nove meses, no início das férias escolares de final de ano e somente retornavam à capital após o Carnaval.

Relaxar e descansar durante esse intervalo de tempo era quase impossível, diante da movimentação intensa de veranistas e amigos que se visitavam numa perene confraternização. Em contrapartida, a trabalheira doméstica recrudescia para desespero das donas de casa, que se valiam do apoio de moradores de comunidades próximas da região escolhida para curtir o calor da estação.bdj

Veraneávamos na praia de Cotovelo, vizinho ao povoado de Pium onde conhecemos Margarene, nosso apoio técnico durante alguns anos. Morena-clara, esbelta, beirando 20 anos de idade, dizia-se noiva de Toinho, motorista de ônibus da linha Natal-Pirangi. Trabalhava cantarolando as músicas mais tocadas nas rádios.

Em 1991, Alceu Valença lançou o LP “7 Desejos” onde o carro-chefe era La belle de jour. Um sucesso estrondoso! E haja Margarene a cantar sem parar: “…Era a bela da tarde/Seus olhos azuis como a tarde/Na tarde de um domingo azul/Labele diju!…”.

Perguntei-lhe se entendia o significado do termo La belle de jour, título da música. “Não senhor!” – respondeu e parou para escutar o que eu tinha a dizer. Então, resumi para ela o filme Belle de jour do diretor espanhol Luis Buñuel, lançado em 1967, com Catherine Deneuve no papel da prostituta Séverine.

Falei-lhe da insatisfação sexual de Séverine com o marido médico, e de como ela mantinha uma vida dupla marcando encontros à tarde – daí a razão do nome do filme – para concretizar suas estripulias amorosas. Fascinada com o que escutara, Margarene perguntou: “A moça se chamava mesmo Severina?”. “Em francês, Severina escreve-se Séverine, com ‘e’ no final” – expliquei.

Dia seguinte, ela nos informou da impossibilidade de continuar trabalhando na casa, porque cuidaria de uma tia enferma. Gostávamos e precisávamos do trabalho de Margarene, por isso insistimos numa negociação e acordamos que sua jornada diária terminaria à uma da tarde. Assim acertado, assim cumpriu-se o trato.

Quarta-feira de Cinzas, enquanto arrumávamos as tralhas para retornar à normalidade da vida na capital, soubemos da preocupação de Margarene diante de uma possível gravidez. Lamentamos a ansiedade da moça.

Alguns meses depois, num feriado prolongado, convocamos Margarene para o apoio costumeiro na casa de praia. Ela apareceu com uma barriga saliente e mantivemos este diálogo: “Para quando é o parto? Você já casou?”. Ela respondeu com incrível naturalidade: “É para outubro. O noivado acabou quando Toinho descobriu que não era o pai de meu filho!”.

“Ah, entendi! Escolheu um nome para a criança?” – perguntei.

“Se for homem será Alceu; se for mulher, Severine!”

Fiquei perplexo porque Margarene assumira, literalmente, o comportamento da personagem de Buñuel, embalando seu sonho erótico na musica de Alceu Valença.

Ainda hoje me bate a dúvida se agi corretamente deixando a moça a par das safadezas da desavergonhada Belle de Jour.

O BOSQUE DOS NAMORADOS

Para quem não conhece Natal, o Bosque dos Namorados está encravado no Parque das Dunas, área de 1.172 hectares do pouco que restou da Mata Atlântica no litoral do país. É considerado o maior parque urbano sobre dunas do Brasil. O ecossistema abriga diversificada fauna e flora e contribui na recarga do lençol freático e na purificação do ar da cidade.

É o local adequado para a prática de atividades físicas e o paraíso de adeptos do Cooper e de caminhadas. É comum encontrarmos grupos em conversas animadas, que mais conversam do que caminham.n1

Eu pertenço à turma dos madrugadores que caminha sozinho envolto nos próprios pensamentos. Ali se exercita também o falar alto sem meias palavras onde, concordando ou não, nos faz cúmplices de desagradável indiscrição induzida.

O frequentador do bosque, mesmo o não bisbilhoteiro, fica a par de como anda a política no estado e no país, do custo de vida, da tendência da moda, das novelas da Rede Globo, de quem traiu ou foi traído, e de todo tipo de assunto da atualidade ou de priscas eras. Para isso, basta dispensar os fones de ouvido.

Semana passada, presenciei um engraçadíssimo papo entre dois senhores, nos quais percebi traços de pessoas letradas e abonadas financeiramente. Eu havia terminado a minha série de exercícios e diminuíra o ritmo da marcha, o tempo suficiente para escutar o colóquio onde o tema era viagens.

– … Por isso não, Câmara Cascudo escrevia sobre o mundo inteiro sem sair de casa, e isso quando nem se falava ainda em computador. Hoje, eu vou aonde quiser e conheço o que bem entender de carona na internet – respondeu o senhor de cabeça grisalha a questionamento de seu interlocutor.

– Você já se imaginou observando Paris do alto da Torre Eiffel, saboreando o “coq au vin” e degustando um fenomenal vinho Borgonha?

– Não. Mesmo assim duvido que se compare à saudosa “Carne de Sol do Lira”, acompanhada de doses de cachaça “Murim” em Natal de antigamente – respondeu o grisalho contrariando o seu parceiro de caminhada.n2

– É impossível que não tenha vontade de conhecer a Torre de Londres e o quanto ela representa para o país e para a humanidade? – insistiu o mais novo.

– Dou por visto! Aquilo não passa de uma prisão decadente onde os monarcas ingleses decapitavam as suas amantes. E digo mais, nenhuma daquelas rameiras amarravam sequer as sandálias das quengas do cabaré de Maria Boa.

– Cara, é difícil lhe agradar! Mas, se você visitasse o Coliseu de Roma aposto que mudaria de ideia diante da carga de história que a estrutura detém.

– Aí é onde você se engana! Coliseu de Roma, campo de concentração nazista e cemitério, para mim não passam de antros de almas penadas.

Ao ouvir aquela opinião não contive o riso. O grisalho, percebendo minha atenção na conversa, perguntou se eu concordava com ele. Ao que respondi:

– Desculpe-me, mas não tenho opinião formada sobre o assunto! – e acelerei o passo para evitar entrar naquela discussão. Não sem antes ouvir o comentário do turrão contestador:

– Esse deve ser outro babaca azedo igual a você!

Calado eu ouvi, e assim continuei sem nada dizer… Dizer o quê?

JACKSON DO PANDEIRO, MEU CONTERRÂNEO

Eu sou um paraibano que deixou o estado aos sete anos de idade para assumir, literalmente, a cidadania norte-rio-grandense, mas, sem jamais renegar a sua origem. Por essa razão é que exulto quando me deparo com fatos pitorescos e icônicos da história e da cultura da Paraíba, até então desconhecidos para mim.

Nasci em Patos, no sertão paraibano. Ainda na infância, acompanhando meus pais, conheci Pombal, Princesa Isabel, Campina Grande e João Pessoa. Adicione-se a esse rol outra penca de cidades daquele estado, embora em número bem distante da totalidade dos municípios do Rio Grande do Norte, todos eles visitados por mim em decorrência de andanças como engenheiro rodoviário.jp

Faltou-me oportunidade de conhecer o Brejo paraibano. Como eu acredito que tudo na vida tem o seu tempo para acontecer, somente este ano eu pude percorrer parte dos municípios que integram os caminhos do frio daquela região.

Assim, acrescentei à minha lista as cidades de Bananeiras, Solânea, Areia e Alagoa Grande. Conheci engenhos, igrejas, museus, construções centenárias e um tanto da cultura e da culinária serrana da Paraíba. Descobri ser Areia, a terra natal de Pedro Américo, o pintor oficial do II Império, e de José Américo de Almeida, romancista autor de “A Bagaceira”, “O Boqueirão” e “Coiteiros”.

Surpresa maior me reservou Alagoa Grande. Não apenas pela tendência turística da cidade, mas por me fazer aprofundar o conhecimento da obra de José Silva Gomes, o Jackson do Pandeiro, filho mais ilustre e festejado do município.

Seu primeiro pandeiro foi um presente da mãe, uma cantora de coco. Com 13 anos de idade mudou-se com a família para Campina Grande, e de lá para João Pessoa até alcançar Recife onde, em 1953, gravou os sucessos “Sebastiana” e “Forró em Limoeiro”.

O passo seguinte foi a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, consolidando a trajetória artística e obtendo o reconhecimento de crítica e de público pelo ineditismo do trabalho desenvolvido. Foram quase 300 músicas compiladas em mais de 30 discos durante 29 anos de carreira.

Jackson era um ritmista inato, daí o título de “Rei do Ritmo”. Transitava com incrível facilidade pelo forró, samba, baião, xote, xaxado, coco, marcha e frevo, tocando violão e bateria, além de pandeiro. Claro!

É considerado, ao lado de Luiz Gonzaga, responsável pela nacionalização da música nordestina. Jackson faleceu em Brasília, em 1982, com 62 anos de idade. Foi enterrado no Rio de Janeiro, mas transladaram o corpo para a sua Alagoa Grande.

Eu ainda não sabia que o compositor arranjara tempo, em 1962, para tirar sarro de minha cara e da dele com a música “Como tem Zé na Paraíba”. Vejam se estou mentindo:

“Vige como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Tesconjuro com tanto Zé
Como tem Zé na Paraíba”.

Indo ao Brejo paraibano, não deixem de dar uma parada em Alagoa Grande e visitar o memorial dedicado a Jackson do Pandeiro, esse meu conterrâneo.

Espetacular este grupo de mariners americanos tentando tocar e cantar “Sebastiana”:

A TODOS E A TODAS

Nas missas dominicais da capela existente na comunidade praiana onde veraneio, o comentarista da celebração não se cansava de saudar os presentes com um efusivo Bom dia a todos e a todas! Aquilo tanto me agrediu os tímpanos, ao ponto de eu resolver lhe alertar acerca da incoerência de tal cumprimento matinal.

Ah, meus leitores, aquele foi um caso de somenos importância, pois constatei que o vírus da discrepante agressão ao português já se espalhara pelo país bem antes de minha intervenção. Hoje é comum ouvirmos gente com alto grau de escolarização se dirigir a todos e a todas, como se todos não englobasse todas.

Trata-se de um descaso nacional com a língua pátria. Um modismo inconsequente que beira o ridículo. Imagino estarem troçando de minha inteligência quando deixam escapar um despropositado qualquer um ou qualquer uma… Na ânsia de exercitar o oliticamente correto sem discriminação à mulher, confunde-se o gênero gramatical com o gênero sexual dando vez à chamada linguagem inclusiva.jn

Se não me falha a memória tal prática se iniciou no governo José Sarney (1985-1990), com a bizarra e não convincente expressão brasileiros e brasileiras. Pareceu-me que o falar correto voltara aos trilhos nos governos de Collor, Itamar e Fernando Henrique, mas, eis que surge a era Lula com seus companheiros e companheiras. Daí, para a não exclusão social foi um salto.

Agora, nada de chamar um negro de negro, fala-se, afrodescendente. Nada de apontar para um deficiente físico, mas, para um portador de necessidades especiais. Careca? Jamais! Diz-se, capilarmente diferenciado. Mesmo que eu queira nunca assumirei minha velhice explícita, pois estou sentenciado a conviver com a melhor idade.

Não sei quais as consequências nefastas desse linguajar no aprendizado da criança durante os nove anos do ensino fundamental, tampouco como os professores lidam para evitar que alunos utilizem de forma errada o pronome indefinido plural tema deste texto.

Deformar o idioma não é remédio para combater o racismo ou condenar a homofobia. É inegável a constatação da universalidade do gênero masculino dando uma conotação de machismo à cultura, todavia, nada que modifique ou auxilie no ataque as autênticas discriminações que tantos danos causam à sociedade. Uma coisa é certa: não será na linguística que harmonizaremos a falta de igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Como alguém já disse: trata-se de uma bobagem populista cujos cultores, por excelência, são os políticos. E eles exageraram tanto no modismo, que determinado parlamentar na ânsia de defender a chefe da nação prestes a perder o mandato em processo de impeachment, deixou escapar num efusivo exercício de retórica, esta pérola: …uma “presidenta inocenta” está sendo retirada do poder

Contestemos, discursemos, debatamos ideias e propostas, mas sem abrir mão da linguagem clara, precisa e elegante que herdamos de nossos antepassados, embora já bastante modificada por tantas reformas ortográficas.

Ah, o comentarista citado no início desta matéria não repetiu o destempero gramatical. Hoje, os ouvidos de homens e mulheres frequentadores das missas na aconchegante capela, agradecem o retorno ao tradicional e palatável cumprimento Bom dia a todos!

PEDRO I: VILÃO OU HERÓI BRASILEIRO?

Li, recentemente, excelente artigo do engenheiro Tomaz Edson Pereira Guimarães intitulado “O maior herói brasileiro”. O colega é viciado em história das nações, e foi essa paixão que o fez visitar a Casa Rosada, em Buenos Aires.

Ali, segundo ele, existe um salão dedicado a heróis de países sul-americanos. No panteão, a Argentina está representada por José de San Martín; a Venezuela, por Simon Bolívar; e, o Brasil, por Tiradentes e Getúlio Vargas. Daí surgiu o questionamento que ensejou sua matéria: de quais batalhas, em prol da independência do país, participaram os citados “heróis brasileiros”?dp

Na pesquisa ele se fixou em dois nomes para melhor representar nosso país naquele salão da Casa Rosada: João Fernandes Vieira e Pedro I. Ambos foram portugueses não republicanos que adotaram o Brasil como pátria. Fernandes Vieira, na opinião do articulista, tornou-se herói ao nos libertar do jugo holandês, em 1645, derrotando compatriotas de Maurício de Nassau na batalha do Monte das Tabocas, no agreste pernambucano.

Quanto a Dom Pedro I, Tomaz Edson não se estendeu nas razões para designá-lo como um herói nacional. Esse vácuo eu tento aqui preenchê-lo, no mês das comemorações de nossa Independência.

Dom Pedro de Orleans e Bragança foi um homem público contraditório. Há gerações, suas façanhas, incoerências e deslizes intrigam e encantam brasileiros. Teve uma vida privada tempestuosa – morreu aos 35 anos de idade -, emoldurada por uma personalidade romântica, comovente e revoltante. Segundo Laurentino Gomes, autor do livro 1822, Dom Pedro se presta a narrativas romanescas.

A imagem e a reputação de Dom Pedro I estão sujeitas a diferentes interpretações condizentes com as turbulências da história do Brasil. Foi um marido cruel porque causou um aborto e a consequente morte de sua esposa, a imperatriz Leopoldina; um adúltero, libertino e não seletivo por reconhecer mais de 50 filhos de suas amantes; e, um homem inteligente e sensível ao compor letras para hinos e missas. Pelos ideólogos da república, Pedro I foi o maior vilão da monarquia porque abandonou o Brasil atendendo a apelo de Portugal para assumir o trono do país.

Todavia, não fosse a sua coragem ao cortar os laços umbilicais com o além-mar, nosso futuro seria incerto. Provavelmente, a república que somos hoje, assim como a maioria dos países sul-americanos. A questão é definir a que custo isso ocorreria.

Destemido e contraditório ele marcou a história de dois continentes. Após declarar a independência do Brasil, em 1822, rumou para a Europa para lutar e instaurar a monarquia constitucional em Portugal, como Pedro IV.

Dom Pedro II, seu filho, nascido brasileiro, lutou e trabalhou bastante pelo país, mas, sem o carisma do pai não obteve o merecido reconhecimento do povo. Enxotado da nação, não a renegou e viveu seus últimos dias de vida, exilado na França.

Por outro lado, coube ao imprevisível filho de João VI o ato de desmedida ou impensada coragem, de arrancar o Brasil da influência portuguesa facilitando a proclamação da República, numa atitude semelhante às de Simon Bolívar e San Martín ao libertarem do jugo europeu inúmeros países do continente.

Dom Pedro I é venerado como herói nacional no país onde nasceu como Pedro IV. Seu coração está guardado na cidade do Porto, em Portugal, mas seu corpo foi trasladado para o Brasil, no sesquicentenário da Independência. Na minha concepção, ele, sim, deve ostentar o merecido título de verdadeiro herói brasileiro.

Hino da Independência com música de D. Pedro I

OS 100 MELHORES DO SÉCULO 21

Esta é uma matéria direcionada aos amantes da sétima arte. Para pessoas, assim como eu, vidradas em cinema. Se bem que seja impossível evitar que curiosos ou internautas ávidos por leitura invadam e detonem a página.

O século XXI ainda se arrasta na segunda década, e eis a primeira pesquisa para indicar os melhores filmes lançados no período. Isso mesmo! A BBC americana foi a responsável pela proeza. Reuniu 177 críticos cinematográficos mundo afora, colhendo opiniões em cinco dos seis continentes – excetuando a Antártida -, e o resultado foi uma compilação deleitosa para cinéfilos e afins.cl

O universo analisado compreendeu películas produzidas entre os anos de 2000 e 2016, contextualizadas numa listagem eleita por entendidos no assunto e que nos merece o respeito devido, fato certamente afiançado após avaliarmos na telona o mérito atribuído, por eles, a cada trabalho.

Muitos dos filmes escolhidos ainda não chegaram até nós ou se já foram exibidos eu não tive a oportunidade de assisti-los. Os três primeiros colocados na pesquisa são: Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, 2000) e Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007). Coincidentemente, eu os vi e gostei dos enredos, das interpretações e direções – esse último exibido na rede HBO da TV a cabo, semana passada.

Para mim, cinema é uma diversão. Na verdade, uma excelente diversão. Um filme com bom enredo e boa interpretação enche-me as medidas. Tal qual um bom livro, que eu releio quando dá vontade, um filme marcante me induz a revê-lo inúmeras vezes. Isso me fez lembrar o slogan produzido pelo Grupo Luiz Severiano Ribeiro, que durante anos monopolizou a divulgação cinematográfica no país: “Cinema é a melhor diversão”. Ao lema eu acrescento um advérbio: “Cinema ‘ainda’ é a melhor diversão”.

Voltemos à lista razão desta crônica. Dos 100 escolhidos, eu vi uns 40, todos eles muito bons. Tomo a liberdade aqui de relacionar aqueles que eu voltaria a assistir. São eles: Ela – 2001; O Pianista e A Última Noite – 2002; Encontros e Desencontros – 2003; Zodíaco e Onde os Fracos não Tem Vez – 2007; A Fita Branca e Bastardos Inglórios – 2009.

Outros imperdíveis: Carlos, o Chacal – 2010; A Árvore da Vida, Shame e Margaret – 2011; Amor – 2012; O Lobo de Wall Street, Amantes Eternos, Sob a Pele, Azul é a Cor Mais Quente e 12 Anos de Escuridão – 2013; e, Carol, Brooklyn, A Assassina e Spotlight: Segredos Revelados – 2015.

Nesse rol constam filmes dirigidos por David Linch, Roman Polanski, Martin Scorsese, Sofia Coppola, Quentin Tarantino, Spike Lee, os irmãos Joel e Ethan Coen e Steve McQueen, cineasta britânico – não confundir com o ator norte-americano falecido em 1980.

O único filme nacional a constar na relação é Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, lançado em 2002, posicionado na 38ª colocação.

A íntegra da relação está na internet à disposição dos interessados. Garanto-lhes que assistir a qualquer um deles, é melhor do que matar o tempo ouvindo as promessas da propaganda eleitoral 2016.

Abaixo o trailer de Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos), o melhor filme do século 21

VADE RETRO, CANDIDATO!

Tenho dó de quem pretende candidatar-se a prefeito ou a vereador no pleito deste ano, porque será uma tarefa árdua consolidar sua eleição.

Parto da premissa de que os partidos políticos são as organizações menos confiáveis na opinião do brasileiro. As siglas partidárias encabeçam a lista das instituições desacreditadas, seguidas do Congresso Nacional, da Presidência da República e dos ministérios. Foi o que apontou pesquisa do Instituto Datafolha realizada em junho do ano passado. Um cenário, certamente inalterado, porque desde então nada de positivo ocorreu para provocar uma avaliação diferente da anterior.ftp

Neste momento leva a pior o candidato bem intencionado, probo e de ficha limpa, pois será nivelado por baixo e considerado farinha de um mesmo saco. Não tem como evitar a comparação, já que faltarão aos eleitores os parâmetros de confiabilidade necessários para separar o joio do trigo.

A constatação de que 2 em cada 10 deputados, na Câmara, e 4 em cada 10 membros do Senado serem réus em ações que aguardam julgamento no Supremo, causa um impacto devastador no eleitor desesperançado de qualquer melhoria no panorama político nacional. Percebe-se que a atratividade pela política partidária está a minguar devido a desmandos cometidos por membros da classe.

Para dificultar a campanha, na eleição de 2016 estará ausente a contribuição financeira empresarial. O candidato contará tão somente com os recursos próprios e com o financiamento individual de seus apoiadores – se já era difícil arrecadar dinheiro em tempo de vacas gordas, imagine agora em época de recessão.

A todo esse descalabro se soma a recusa de homens de bem a emprestar seus nomes a siglas desacreditadas. No imaginário popular, somente arrisca uma candidatura o indivíduo cujo desejo seja auferir vantagem pessoal ou aquele aproveitador de ocasião na ânsia de locupletação. Mesmo diante de estágio tão adverso, muitos dos edis, prefeitos e vice-prefeitos, no exercício de seus mandatos, tentarão a reeleição. Nessa disputa postar-se-ão 485.889 candidatos para a avaliação de 144.888.192 eleitores.

Iniciada a tal propaganda eleitoral autorizada – diga-se de passagem, uma chatice abominável de 20 minutos diários, durante 35 dias contados a partir de ontem, 26 de agosto -, certamente aparecerão os candidatos “de brincadeira”. Tipos como “Cacareco” e “Macaco Tião”, de antigamente, ou os “Tiririca”, da atualidade, farão a hilaridade da campanha.

Isso sem falar na possibilidade de surgir um novo cacique Juruna – primeiro e único deputado indígena do Brasil -, de gravador em punho “para registrar tudo que o branco diz”. Esses, sim, levarão vantagem sobre os demais candidatos por representarem a insatisfação popular contra a política partidária vigente.

Vade retro, candidato! (Afasta-te, candidato!) Será o grito de repúdio, tanto inaudível quanto eloquente, que o corajoso ou desventurado aspirante a cargo eletivo enfrentará numa luta inglória de resultado imprevisível.

Foi-se o tempo em que eu observava meu avô Francisco Carneiro, getulista doente, vestir em dia de eleição o seu terno de linho branco e proteger a cabeça com um chapéu Ramenzoni para, estourando de empáfia, responder a quem perguntasse por seu candidato: “Eu não voto em candidato, eu voto em partido!”.

Sim, leitor, houve um tempo em que confiávamos nos partidos!

FAIR PLAY À BRASILEIRA

O atleta francês Renaud Lavillenie, campeão mundial no salto com vara, ao perder a medalha olímpica para o brasileiro Thiago Braz na Olimpíada Rio-2016, soltou o verbo em cima do modo de torcer do brasileiro. Apupado todas as vezes que ia saltar, ele alegou falta de espírito olímpico à plateia que lotava o Engenhão.

Num desabafo caloroso, depois de ser desbancado do pódio por Thiago, ele afirmou: “Em 1936 a multidão estava contra Jesse Owens. Não vimos isso desde então. Temos que lidar com isso”. Sutilmente, ele nos chamou de nazistas. Não sabe Renaud, que essa não era a opinião de Owens. Ao escrever a sua biografia, o atleta negro norte-americano declarou: “Não foi Hitler que me ignorou, quem o fez foi Franklin Delano Roosevelt. O presidente nem me mandou um telegrama”.fpl

O desfecho dessa história é que o francês, medalha de prata, não parabenizou o brasileiro medalhista de ouro que o derrotou; o qual, por sua vez, recebeu efusivos cumprimentos do norte-americano Sam Kendricks, ganhador do bronze. Com humildade, Thiago justificou o episódio: “Ele não fala comigo há um ano”. Renaud Lavillenie vaticinou: “Daremos o troco daqui a oito anos na França!” – provável país-sede da Olimpíada de 2024.

Acontece de o brasileiro achar natural transferir sua maneira efusiva de torcer em estádios de futebol para qualquer palco onde se desenvolva uma disputa esportiva, mesmo naqueles que requeiram silêncio absoluto para concentração dos contendores. Age assim em final de Copa do Mundo ou em Olimpíada de Matemática, e até em sisudos torneios de Xadrez. Sente-se no direito de atrapalhar o opositor ao atleta ou time de sua predileção. É justamente aí que reside o problema.

Esportes como o tênis, o hipismo, o golfe e outros tantos requerem plena concentração de atletas no início e durante as disputas, e a gritaria atrapalha. Não serão apelos ou ordens de caluda, tampouco normas do Comitê Olímpico Internacional a conter esses apupos inaceitáveis para os padrões éticos dos jogos.
O interessante é que ninguém reclamou quando a torcida se bandeou para atletas estrangeiros, mesmo nas disputas com compatriotas. Assim ocorreu com Novak Djokovic, que deixou o país cativado pelo povo, chorando de tristeza por conta da péssima exibição nas quadras de tênis. Ou, Michael Phelps, que estampou numa faixa o seu agradecimento à torcida local (“Thank you, Rio!”), depois do desempenho de ouro nas piscinas do Brasil. Ensurdecido de felicidade também ficou Usain Bolt, o velocista jamaicano ao obter nas pistas da Olimpíada Rio 2016 a tríplice coroa nos 100 e 200 metros rasos.

O brasileiro assumiu o exercitou o lema “somos todos olímpicos”, e se danou a torcer sem limites. Corroborou a previsão do alemão Thomas Bach, presidente do COI, quando no discurso de abertura dos jogos preconizou que a Olimpíada do Rio de Janeiro seria um evento “à la Brasil”.

Numa nação onde se vaia presidente da República em evento internacional e não se respeita “minuto de silêncio”, o espírito esportivo cauteloso, o jogar limpo contido, a maneira leal e comedida de agir em arenas e estádios foram todos pras cucuias.

E o país, por sua vez, não decepcionou ninguém, a ponto de instituir um fair play à brasileira eivado de entusiasmo, emotividade… E vaias.

NOSSAS LOUCAS MANIAS

Não sei se está enquadrado em mania ou doença, o desejo compulsivo de esbanjarmos dinheiro para nos assemelharmos a astros e estrelas do cinema, da televisão ou a destaques do mundo esportivo. Também não sei se tratar de mania ou doença, o indivíduo acumular centenas de um mesmo tipo de objeto dentro de um ambiente restrito, sacrificando seus espaço e bem-estar, sem qualquer finalidade mercantil.

É difícil distinguir entre mania ou doença quem dedica a existência inteira montando coleções com o fito de alimentar o ego, direcionando afeição desmesurada para o objeto da mania, e se reservando do exclusivo direito de usufruto. Mas como existem engolidores de fogo, domadores de tubarões e surfistas do espaço, é natural que aceitemos, mesmo questionando, pessoas portadoras de atitudes ou manias, digamos, um tanto excêntricas.CTD

Vejamos se eu tenho ou não razão: que uso fará aquele comprador que adquiriu em leilão, por milhares de dólares, o lençol utilizado na noite de núpcias de Madonna e Sean Penn? Por acaso ele se enrolará no tecido pensando ser o ator americano enlaçando a pop star famosa? Ou servirá apenas para colocar a peça contra a luz, a fim de lhe despertar a libido, procurando marcas reveladoras de momentos de prazer do casal protagonista de um casamento relâmpago?

É sabido existirem manias voltadas para distúrbios comportamentais como aquela do conhecido cantor brega, que se ufanava de possuir gavetas repletas de calcinhas femininas, atiradas pelas fãs nos palcos em que se apresentava no auge de sua fama. Mas, o que pensar de quem garimpa e cataloga tudo o que se refere ao seu ídolo, numa ânsia ilógica, comprometendo a própria identidade? Ah! Loucas manias capazes de nos induzir a atitudes inaceitáveis sob a ótica da racionalidade.

Li, em algum lugar, sob o título “Leilão de objetos de gente famosa”, que um homem de Hong Kong adquiriu por U$ 4,3 mil um chumaço de cabelo de John Lennon; que o manuscrito da música “All you Need is Love”, escrita pelos Beatles, foi leiloado por R$ 2,5 milhões em 2005; e, que o violão de George Harrison – um dos membros do mesmo conjunto famoso -, com o qual o artista aprendeu a tocar foi vendido em 2003, por U$ 300 mil. Soube também, na mesma leitura, que arremataram Wilson – nome dado à bola que aparece no filme Náufrago – por U$ 18,4 mil.

Todavia, me estarreceu o fato de o penico utilizado por Napoleão ter sido leiloado, em maio de 2005, com lance inicial de mil dólares. Impossível esse fato passar despercebido sem cá eu fazer meus questionamentos.

O que danado esse bendito comprador vai fazer com o penico de Napoleão? Vai expô-lo na sala de visitas da casa como um troféu irrefutável dos embates intestinais do imperador corso? Quem sabe utilizará o utensílio de alcova para ele mesmo se imaginar tão poderoso quanto o general de tantas vitórias, e tentar ganhar sua guerra particular contra os desarranjos oriundos de suas necessidades fisiológicas?

Com tamanha preciosidade em mãos, o comprador do penico de Napoleão poderá ainda se deleitar antevendo o famoso ex-proprietário acocorado majestosamente na peça, engendrando alguma estratégia para o dia seguinte, quando evacuará o exército inimigo de posições estratégicas na batalha a ser travada.

O certo é que o livre arbítrio nos permite explorar manias inaceitáveis para uns e de naturalidade estrondosa para outros… Até mesmo colecionar penicos.

ENOCHATICE

Anos atrás, li reportagem na revista Veja destacando a cerveja como a bebida alcoólica mais consumida no Brasil, respondendo por 61% das doses emborcadas, anualmente, pelos papudinhos. Em segundo lugar aparecia o vinho com 21% das doses ingeridas e, em terceiro, os destilados com 12%. Dentre os últimos, a cachaça suplantava o whisky, a vodka e o rum na preferência nacional.ec

Nas três últimas décadas, o vinho obteve extraordinária evolução no paladar do consumidor brasileiro e, decerto, ultrapassou os 21% ditados na pesquisa. Lembro bem, que no final dos anos 60 e começo dos 70, se destacavam isolados nos restaurantes de Natal, os vinhos nacionais Chateau Duvalier e Liebfraumilch.

Caso optássemos por um vinho importado, a única alternativa seria o português Mateus Rosé. Mesmo diante dessa gritante limitação de rótulos, achávamos o máximo de um correto proceder socialmente à mesa, consumindo, em ocasiões especiais, os bons vinhos disponíveis. Isso, se o bolso permitisse.

Com a ampliação do consumo de vinho no país surgiu uma curiosidade natural por conhecer mais e melhor as peculiaridades da bebida. Descobrir quais os países e regiões produtoras, rótulos e tipos de uva, como degustá-lo corretamente, sua harmonização com os diferentes alimentos, os aspectos visuais, olfativos e gustativos e outros desdobramentos.

Começamos a conviver com as figuras do enólogo – aquele que estuda e entende do assunto vinho; do sommelier, – o profissional que sugere o produto no restaurante; e, do enófilo – o bebedor que aprecia o vinho com conhecimento de causa.

Até aí tudo bem, mas eis que no bojo dessa complexa equação de produzir, conhecer e apreciar o vinho apareceu um quarto personagem: o enochato. Não é difícil identificar um exemplar da espécie. O tipo padrão é o sujeito que leu alguma coisa sobre vinhos e se acha conhecedor do assunto, aproveitando qualquer oportunidade para decantar conhecimento em cima de incautos. Tais criaturas grotescas, além de denigrir, embotam o universo maravilhoso do vinho, desprovido de afetação ou faniquito.

Algumas verdades sobre o vinho são fáceis de entender. Em excesso, tende a embebedar como qualquer outra bebida alcoólica. O vinho é uma bebida apreciada há séculos e, quanto melhor, mais caro será. Por último, no vinho está a verdade (in vino veritas), onde segredos inconfessáveis borbulham e escapolem, naturalmente, de mentes inebriadas pela bebida dos deuses.ec2

Se beber vinho é um prazer, para que tanto exercício de comparações? Essa bobagem de confrontar aromas atinge as raias da hilaridade. Podemos muito bem apreciar o bouquet de um vinho sem ficar tentando descobrir o que lembra. Daí, até surgirem paralelos estúpidos é um pulo às cegas no ridículo.

Como identificar xixi de gato Angorá, sangue de porco cevado, couro de sela holandesa, asfalto derretido em fogo lento, cereja sem caroço, cocô dormido de égua parida, leite de lhama caolha, quando você nunca cheirou, comeu ou ouviu falar de tais produtos, materiais ou excrementos? Mesmo sem a experiência olfativa, visual e gustativa do vinho, o enochato prodigaliza-se em suas escrachadas afirmações.

Cheirar a rolha, sentir o aroma do vinho e girar a taça são procedimentos aceitáveis, desde que a pessoa saiba o porquê daquilo que está fazendo. Caso contrário, o ideal é dispensar tais rituais e curtir a bebida, de preferência junto a pessoas que apreciem vinho ou daquelas cujas presenças lhe são agradáveis.

RESSUSCITARAM A MESÓCLISE

Esquecida por mais de meio século, desde que Jânio da Silva Quadros usou e abusou dela, eis que surge a mesóclise, por coincidência, ressuscitada por outro político paulista feito presidente.

Mesóclises são colocações pronominais utilizadas no meio dos verbos, quando os mesmos estiverem nos futuros do presente e do pretérito. Embora a mesóclise seja um recurso gramatical da língua portuguesa, é tratada como um maneirismo vocabular esnobe para a forma de comunicação da modernidade.JU

Imaginemos alunos de hoje ouvindo professores derramando erudição destilando termos do tipo: “Subsidiar-nos-emos de alguns exemplos…” ou “Falar-lhes-ei de experiências tais como…”, ou ainda “Avaliar-se-á, portanto…”. Ufa! Benzer-me-ei para que tal prática não emplaque.

Nos dois primeiros pronunciamentos de Michel Temer, na interinidade, ele deixou escapar exemplos de como serão suas falas na presidência do país: “Como menos fosse, sê-lo-ia pela minha formação…” e “Quando houver equívoco, tem que rever a posição. Se fizer, consertá-lo-ei”. Arre égua! Cá entre nós, aposto um bombom com quem quiser como bajuladores próximos do excelentíssimo presidente em exercício, andam aprimorar-se-ando em como bem colocar mesóclises, apenas para agradar o mandatário da nação.

No modo de falar de Michel Temer transparece um tanto de pedantismo ao lançar mão de mesóclises, mesmo supondo que seja aquela a forma natural dele se expressar. Método diferente de Jânio Quadros, uma vez que o mato-grossense tinha uma maneira graciosa de se comunicar abusando das mesmas.

Avocar-se-ando do direito de exagerar nas mesóclises no seu palrear exótico, para explorar o idioma com frases de efeito inteligentes, Jânio fá-lo-ia como um conhecedor credenciado da língua-mãe, pois, publicara em 1966, um Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura.

Dele, contam-se ótimas histórias, além do “Fi-lo porque qui-lo” – apesar dessa frase haver sido atribuída a Jânio, consta que ele não a falou. E se assim houvesse feito, certamente di-la-ia assim: “Fi-lo porque o quis”.

Participando de um debate na disputa pela presidência da República, Jânio foi interrompido pelo outro candidato e ouviu dele: “Pode falar, pois suas palavras entram por um ouvido e saem pelo outro!”. Jânio retrucou: “Mentira! O som não se propaga no vácuo!”. Ao ser interpelado por uma jornalista a respeito de sua opinião sobre os homossexuais, foi chamado de você. Não fez por menos: “Intimidade gera aborrecimentos ou filhos. Como não quero aborrecimentos com a senhora e, muito menos filhos, trate-me por Senhor”.

Quando Luciane Quadros, uma prima distante, posou nua para a revista Playboy, membros do PTB, o seu partido, ficaram preocupados com a repercussão do fato na sua campanha para prefeito de São Paulo. Embora ele não tenha se expressado conforme foi divulgado, mesmo assim foi-lhe atribuída a seguinte observação: “Se pudesse comê-la-ia; como não posso, como Eloá”.

Jânio guardou profundo silêncio sobre as razões que determinaram a sua renúncia da presidência do país. Quando um amigo, no Guarujá, o indagou sobre a incógnita do ato, ele teria dito: “Queres mesmo saber? Di-lo-ei, pois: renunciei, porque a comida do Palácio era uma merda, igual a esta de tua casa”.
Festivais de mesóclises? Aguardá-los-emos, pois, no governo em curso.

PAUSA PARA MANUTENÇÃO

Durante alguns dias o Jornal da Besta Fubana ficou fora do ar. Na verdade, um prazo longo demais para um matutino referenciado ficar desativado e afastado de seus leitores. Tratou-se de uma manutenção extemporânea e imprevisível no seu principal mecanismo criativo: o editor. Tal ocorrência serviu para evidenciar o vácuo que deixará a ausência do blog de Luiz Berto no cenário virtual nacional.

É sabido que a tendência da informação impressa tende ao encolhimento, abrindo espaço para a divulgação digital. Fato esse comprovado pela rapidez de comunicação, menor custo de elaboração e maior número de leitores conectados à modalidade moderna de se fazer jornalismo.mec

Conforme constatei, no período compreendido de 25 de abril de 2008 até o dia 11 de maio de 2016, foram editadas 2.279 páginas no blog de Luiz Berto. Portanto, o JBF permanece no ar, com algumas interrupções, desde oito anos atrás.

Durante esse período o blog cativou admiradores e conseguiu multiplicar leitores, seguidores do trabalho sério de Luiz Berto. Uma mistura de cultura musical, poesia, literatura, charges, notícias da atualidade, artigos, crônicas e editoriais com a marca humorada e escrachada do editor.

Dispomos todos os dias no JBF, daquilo que encontraríamos num informativo impresso de qualidade. Pelo que me consta, sem patrocínio de qualquer esfera de governo, em razão de total independência na linha de ação escolhida.

O JBF, no papel de porta-voz escrachado da indignação social brasileira ao governo do PT, lembra o antigo semanário alternativo O Pasquim, fundado por Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e Sérgio Cabral, reconhecido pela oposição ao regime militar. Em seu auge, aquele tabloide alcançou uma tiragem de 250 mil exemplares.

Diante do trabalho diário para pôr no ar a diversidade de informações, imaginei existir no JBF uma equipe montada de auxiliares. Qual não foi minha surpresa ao constatar apenas duas pessoas no batente: Luiz Berto e sua esposa Aline. Fiquei embasbacado de admiração pela dedicação dos dois ao trabalho informativo prestado a tanta gente, a custo zero.

A Fundação Wikimedia, que edita a enciclopédia colaborativa Wikipedia, faz campanha regular para que leitores da página ajudem a manter a independência da publicação. Algo do tipo: “Se todos lendo isso agora doassem R$ 10, a nossa arrecadação de fundos terminaria em uma hora”. Não comparemos os milhões de “usuários” impessoais da Wikipedia, com os 100 mil apaixonados leitores do JBF.

Sem consultar o editor, para o qual desde já peço desculpas pela interpretação distorcida que possa ser dada a esta sugestão, proponho que nós, leitores do Jornal da Besta Fubana, espontaneamente, ofereçamos contribuições para continuar usufruindo da satisfação de ler o seu blog com a frequência atual.

Dessa forma, poderia Luiz Berto contar com auxílio complementar profissional na editoração do jornal, atividade essa que o tem sobrecarregado mental e fisicamente. Não guardo qualquer dúvida, que entre as razões do piripaque do editor, estão o estresse e o excesso de horas dedicadas ao seu trabalho jornalístico. Problemas tais, que o reforço financeiro sanaria.

Basta a indicação de uma conta bancária e aguardar, sem qualquer remorso ou inibição, a cooperação amigável da leva de admiradores cativados pelo carismático JBF. Assim, não seremos surpreendidos por novas paralisações ou pausas para manutenção.

A FELICIDADE DO ROMANTISMO

Considero uma definição perfeita para felicidade, a que situa esse sentimento como um somatório de momentos agradáveis e inesquecíveis desfrutados pelo indivíduo. E como se encaixa bem tal conceituação. Para afastar a dúvida, basta parar, pensar e catalogar cada passagem marcante da vida, e sentirá uma sensação diferente e indefinível. Um misto de enlevo, saudade e bem-estar resultando num aperto gostoso no peito que não causa dor, mas traduz intensa satisfação. Não serão essas percepções, lembranças de momentos felizes? Claro, que sim!r1

Certos momentos deixam marcas enormes no emocional das pessoas. Sensações diferenciadas sentidas, por exemplo, ao assumir aquele emprego ambicionado, entrar na universidade ou descobrir-se amando alguém especial. São variados os estímulos motivadores desse frisson.

São momentos que podem até escapulir da memória, mas não se dissociam da condição de instantes de felicidade. E o que dizer do prazer de sentir explodir no peito as paixões?

Quanto ao romantismo, eu não sei avaliar como os jovens de hoje reagiriam às práticas romanescas de antigamente. Para muitos deles uma situação desconhecida. Certamente, estranhariam um jantar a dois à luz de velas, dançar de rosto colado ao som de música lenta ou doar ramalhetes à mulher amada.

Talvez, por desconhecimento de tais sensações, não compreenderiam as evocações da alma provocando emoções inenarráveis próprias dos românticos. Não guardo a menor dúvida de que lhes satisfariam vivenciar tais momentos mágicos. Principalmente, em se tratando do suposto sexo frágil.

O culto exagerado do macho com a própria imagem sufocou o homem romântico de antigamente. Isto as mulheres já perceberam há anos. E lamentam o fato, pois constataram que o foco da atenção de boa parcela dos marmanjos voltou-se, agora, para indivíduos do mesmo sexo, numa inversão de valores e de desejos.

Se o romantismo para o homem moderno é frescura, para a mulher de hoje é uma experiência inusitada no rol das curiosidades passíveis de vivenciar. Experimentar momentos românticos figura no âmbito dos sentimentos atrelados ao sonho do amor perfeito e como meta prioritária, dentre os anseios de vida da mulher.r2

A gentileza, o cavalheirismo e o romantismo ditaram os procedimentos masculinos no século passado, sem que o homem abdicasse da condição de macho. Época em que os homens sabiam exercitar os tipos galanteador sem ser ridículo, pegador sem ser grosseiro e romântico sem ser piegas. Hoje, tais espécimes povoam apenas páginas de romances de época, capítulos de novelas mexicanas e películas água com açúcar de comédias românticas.

Na atualidade, causa perplexidade ver um homem abrir a porta do carro para a mulher entrar ou levantar-se da cadeira, quando na mesa de um restaurante ela pedir licença para ir ao toalete. Estão de tal forma distorcidos os conceitos, que confundem gentileza com fragilidade, sensibilidade com homossexualidade e romantismo com coisa alguma, pois esse costume não passa de um ilustre desconhecido.

É bom lembrar, que todos nós carecemos de doses de felicidade para satisfazer o apetite da alma e de momentos de romantismo para fazer o coração bater mais forte dentro do peito. Moral da história: um ser romântico é, também, um ser feliz!

NADA É PARA SEMPRE

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Cinquenta anos atrás, época de minha juventude, foi também o tempo de medicamentos como a pomada Minâncora, o Elixir Paregórico, o Biotônico Fontoura, o Regulador Xavier, o Enteroviofórmio e o sabonete Eucalol.

Naqueles idos, florescia a indústria automobilística no país, e nos encantávamos com o Fusca, o Karmann Ghia, a Vemaguet, o Gordini, o Aero Willys, o Simca Chambord e o FNM JK. A Romi-Isetta, o primeiro veículo de três rodas fabricado no Brasil, ainda trafegava pelas ruas das cidades do país.

Vigorava o Regime Militar, mas a rapaziada desligada de política só pensava em estudo e diversão. As boates eram restritas aos maiores de 18 anos. Não existia pegação fácil, porque as garotas viviam submetidas à vigilância cerrada da família. O primeiro beijo se obtinha após meses de namoro.

O rock and roll atravessava a sua fase áurea. A Inglaterra, após exportar a música dos Beatles para os EUA, deixou a novidade alcançar o Brasil. A Jovem Guarda detinha a atenção da juventude do país, enquanto a Bossa Nova se estabelecia como inovação musical. Twiggy e Mary Quant ditavam a moda feminina.

Nas noitadas rolava o cuba-libre, o hi-fi (vodka com laranjada) e o whisky Old Eight. Centrava-se o vício do fumo em cigarros Hollywood, Carlton, Lucky Strike e Marlboro. A droga que se inalava, para provocar aquele zumbido gostoso na cabeça, era o cloreto de etila contido no lança-perfume Rodouro. Isso, somente nos Carnavais.neds

Sexo livre era tabu. Viagens ao exterior só para a elite. Não existia vídeo cassete, telefone celular, whatsapp, computador, cartão de crédito, nem qualquer outra engenhoca da modernidade.

Tempo de costumes bem comportados como namorar no cinema, na matinée do domingo, comendo pipoca e chupando drops. Tempo em que virgindade era virtude e não vergonha, tatuagem era uma anormalidade, davam-se postas de bacalhau de esmola na Semana Santa, casar era para sempre, as certezas pareciam durar a vida toda e, até para morrer, morria-se em câmera lenta.

Sei que pequena é a parte da vida que vivemos, pois o restante não é vida, mas, somente tempo. E que nada é tão verdadeiro e incontestável – segundo Sêneca – como o fato de que a vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazer é breve; o que faremos, dúbio; o que fizemos, certo. Portanto, não adianta querer descobrir por que o destino perdeu o controle sobre o passado e ninguém pode recuperá-lo.

Mesmo sem poder fazer voltar o passado, sinto falta da época em que formação de quadrilha não passava de entusiasmo juvenil na organização de dança folclórica nas comemorações do São João; movimentação social era reunião de adolescentes em noitadas dançantes; e, Clube dos Cafajestes era um bloco de playboys, e não aglomerados de quadrilheiros dilapidando a economia da nação e desmoralizando os seus valores, impunemente.

Sem auxílios de cinto de segurança, airbag, internet e psicoterapia, eu sobrevivi. Pertenci à geração que privilegiou o respeito, o charme e o romantismo. Vivi uma época em que se respeitou a natureza, valorizou a amizade e não teve vergonha de ser feliz.

Querer repudiar o presente não passa de completa insensatez. Insistir em reeditar anos dourados da existência, preocupando-se em tecer loas de exaltação ao passado, é pura alienação. Mas, bem que deixa saudade a juventude de meio século atrás, com toda a caretice, dificuldades e restrições a que tivemos direito.

O que importa é nos conscientizarmos de que nada é para sempre.

O BRASIL SEM CABRAL

Como seria o Brasil sem a influência da colonização portuguesa? Neste sábado, 516 anos passaram desde o dia 23 de abril de 1500, quando os índios que viviam na região onde hoje está a cidade de Porto Seguro, no sul da Bahia, viram um espetáculo estarrecedor.db

Treze navios enormes atravessarem, um após o outro, a passagem entre os recifes da Coroa Vermelha e ancorarem perto da praia. Na véspera, Pedro Álvares Cabral, comandante da frota portuguesa, chegara a alguns quilômetros ao sul e continuou costeando até aquele ponto em busca de um local seguro para fundear. Descobrira a terra por ele batizada de Vera Cruz. O que aconteceu depois é um passeio de cinco séculos e dezesseis anos, no curso da história do Brasil.

Como estaríamos agora se, em vez de portugueses, aportassem aqui outros exploradores? Ingleses, por exemplo! Sim, por que não os britânicos? Era um povo de espírito aventureiro, dominava a tecnologia da navegação marítima, possuía o maior poderio naval da época e cultuava ideias expansionistas.

A Inglaterra em 1500, sob o reinado de Henrique VII, atravessava um longo período de prosperidade e paz, além de possuir condições econômicas propícias para financiar uma expedição da mesma envergadura – ou até superior -, a da enviada ao Brasil por Portugal.

Sob o domínio do Império Britânico teríamos absorvido muito da cultura e dos costumes daquela nação, e desfrutaríamos das benesses de típica ex-colônia parlamentarista inglesa. O idioma oficial seria o inglês. Nossos mamelucos teriam olhos azuis e prenomes Charles, John, Mary e Elizabeth, com sobrenomes tradicionais como Morgan, Parker e McCartney.

O anglicanismo e o catolicismo repartiriam a tendência religiosa da nação, com predominância para o primeiro. Todos nós, alfabetizados, apuraríamos o gosto pelas artes. O futebol dividiria a preferência nacional com o golfe, o polo e o tênis. A caça à raposa teria adeptos fieis na classe média, pela abundância do animal nos campos. Pelé seria sir Edson Arantes do Nascimento e o king Roberto Carlos, posaria de ídolo internacional ao lado dos Beatles e dos Rolling Stones. Pubs em vez de botecos e whisky puro malte, substituindo a cachaça na preferência de pinguços.

Na condição de colônia do país berço da Revolução Industrial estariam aqui os maiores estaleiros do planeta. A passagem de um Rolls Royce, trafegando em mão inglesa, não causaria nenhuma estranheza. Chovendo ou sob um sol escaldante, o chá das cinco – mania nacional – seria tomado segundo a tradição da coroa inglesa, às 17 horas em ponto.qe

Na Guerra das Malvinas ofertaríamos a Margareth Thatcher incondicional apoio logístico e militar. A batata inglesa seria consumida em larga escala, e o carneiro guisado com ervas finas teria destaque na culinária brasileira, numa versão acrescida de leite de coco e azeite de dendê.

Concertos ao ar livre arregimentariam multidões de adeptos da boa música. Dondocas importariam modelitos do fog inglês para “suportar” o calor dos trópicos. James Bond, a serviço de Sua Majestade, daria assessoria a polícias de diversos estados do país no combate à marginalidade. Parte da família real inglesa veranearia em Cabo Frio ou Búzios, no litoral carioca ou, em Pipa, no Rio Grande do Norte. O restante da realeza, certamente, optaria pelo conforto do Queen Elizabeth, navegando em rios da Amazônia, disputando torneios de pesca esportiva.

Em contrapartida, nada de caipirinha nem do jeitinho brasileiro de ser, tampouco Carnaval com cabrochas seminuas. Nenhuma piada de português. São Januário sem o estádio do Vasco da Gama teria uma paisagem diferente e, nas praias, mulheres vestindo maiôs pudicos made in England. Como aguentar a ausência da alegria, do bom humor e da irreverência do nosso povo? Realmente, seria uma chatice uma colonização que não fosse portuguesa.

Por outro lado, jamais desfrutaríamos o prazer de viver sem mensalão, petrolão, corrupção ou impunidade. Daí a pergunta: é preferível deixar o Brasil como está ou esperarmos mais 516 anos para vermos como ele fica? Com a palavra o leitor.

A PRIMEIRA VEZ

Fui eu quem induziu meu amigo José Pereira a jogar sinuca. O seu primeiro contato com o esporte foi na minha casa, onde existia uma antiga e excelente mesa Tujaque Magestic. Naquela oportunidade dei-lhe uma surra acachapante. Determinado, o amigo adquiriu a sua própria mesa, aprendeu fundamentos e artifícios da sinuca, tornou-se um jogador habilidoso, e nunca mais consegui ganhar dele.

Hoje, certamente, ele me agradece a iniciação nos maravilhosos e mirabolantes meandros dinâmicos do jogo. Quanto a mim, de tanto ser surrado pelo pupilo, adquiri tamanha ojeriza pelo esporte que dele me afastei definitivamente. José Pereira pode até recordar uma ou outra partida de sinuca, dentre as inúmeras que me venceu. Lembrar todas elas é improvável. Mas, da primeira derrota que sofreu, ele jamais esquecerá.

As ações do nosso dia a dia são tabuladas como sendo uma primeira vez ou a repetição de uma primeira vez. Acontece que a primeira vez é única, pois guarda a magia de ser a primeira vez. Das muitas primeiras vezes de nossas vidas, algumas são catalogadas como primeira e única vez, e nem todas ficam armazenadas na cachola. Mas, se puxarmos pela lembrança, pelo menos as mais significativas estarão presentes nas recordações. Quem esquecerá facilmente, por exemplo, experiências radicais como aquele único mergulho ao fundo do mar ou o primeiro salto de paraquedas? E por aí vai…

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Da infância, eu guardo na lembrança a primeira vez que calcei um par de sapatos – pequenas botas de couro com solados de borracha. Sentia-me um adulto quando, sem qualquer auxílio, eu as colocava e reproduzia nos cadarços o nó ensinado por minha mãe. Também me lembro do desejo, nunca concretizado, de ganhar a primeira bicicleta e aprender a pedalar. Sem perspectiva de adquiri-la, consolava minha frustração invejando a do filho do vizinho… E como machucava vê-lo desfilar serelepe, flanando a sua vaidade em passeios pela rua onde morávamos.

Recordo bem do primeiro cocorote a me fazer agachar de dor. Isso, por conta de inocente espiadela pelo buraco da fechadura do quarto onde uma prima se trocava. Querem saber? Nunca reclamei da dor lancinante, nem do calombo na cabeça, tampouco da visão deslumbrante da prima desnuda.

Da adolescência, as lembranças da primeira vez que abarcam meus pensamentos são mais consistentes. Não posso descartar a impagável recordação de abrir a porta, ligar a ignição e dirigir meu primeiro carro, presente do pai pela aprovação no vestibular. Ainda recordo a satisfação de levar a namorada para jantar fora, pela primeira vez, pagando a despesa com o primeiro salário.

Emociono-me ao lembrar a sensação de ter nos braços meu primogênito, pela primeira vez. Bem como a triste experiência de sepultar, pela primeira vez, um parente próximo. E, de sentir, pela primeira vez, a realidade de que a morte é a única certeza que temos no transcorrer do pouco tempo de vida de que dispomos.

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Existe uma primeira vez inesquecível, tanto para o homem quanto para a mulher. Trata-se da primeira experiência sexual, chamada carinhosamente de “minha primeira vez”. Não interessa que tenha sido prazerosa ou desastrosa. Essa sensação inenarrável marcará, com a mesma intensidade, a lembrança do iniciante no processo de fazer amor ou de fazer sexo.

O extraordinário é que não ocorre um ato sexual idêntico, pois são variadas as sensações de cada momento e diferentes as circunstâncias de cada ocorrência, e isso faz de cada um deles, a primeira vez.

DE OLHO NAS OLIMPÍADAS

De 5 a 21 de agosto próximo, sediaremos a XXXI Olimpíada da Era Moderna (Olimpíada de Verão), a primeira da América do Sul. Talvez não seja o momento adequado para realizar a competição, porquanto o clima de instabilidade política da nação. Mas, é tão fenomenal o acontecimento esportivo, que inibe fatores do tipo ou assemelhados, passíveis de empanar o brilho da festa.ol1

Imagino que devamos possuir um mínimo de conhecimento sobre o evento internacional, para não ficarmos com cara de paisagem se estrangeiros nos abordarem com perguntas acerca do torneio no Brasil. Por esta razão abordei o tema “curiosidades das Olimpíadas”, porque se o assunto não servir para coisa alguma, pelo menos encherá balaios de linguiça.

Os jogos olímpicos surgiram em 776 a.C., na Grécia, em homenagem aos deuses do Olimpo. Foi essa a forma de gregos reunirem e apaziguarem as populações de suas cidades que viviam em guerra. Os jogos ocorriam em Olímpia, na península de Peloponeso.

No início, disputava-se uma única prova: a corrida de 170 metros. Aos poucos, e ao longo de mais de mil anos, incluíram novas modalidades esportivas. Como na Copa do Mundo, os jogos aconteciam de quatro em quatro anos. Isso, até 393, quando deu na telha do imperador romano Teodósio I, extinguir a competição alegando se tratar de uma festa pagã.

A ideia de recriação dos jogos olímpicos saiu da cachola do francês Pierre de Fredy, o Barão de Coubertin, também criador do juramento olímpico, repetido por atletas e juízes durante a abertura dos jogos.

A primeira edição das Olimpíadas da Era Moderna ocorreu em Atenas, na Grécia, em 1896, com disputas em nove esportes: atletismo, ciclismo, esgrima, ginástica, natação, tênis, luta, levantamento de peso e tiro – na Olimpíada do Brasil serão 42 modalidades esportivas.

Paz mundial é o significado da famosa bandeira olímpica, outra criação do Barão de Coubertin, em 1913. Os aros entrelaçados representam a união dos cinco continentes. Com o colorido dos círculos podem-se compor todas as bandeiras do mundo. Cada cor representa um continente: azul a Europa, amarelo a Ásia, preto a África, verde a Oceania e, vermelho, a América.ol2

O lema Citius, Altius, Fortius (Mais rápido, Mais alto, Mais forte) foi ideia do francês Henri Didon para os jogos de Paris, em 1900, usado até hoje. Nas aberturas dos jogos, encabeça o desfile a delegação da Grécia. Em seguida a do país-sede, depois, por ordem alfabética, as das demais nações participantes.
Modalidades curiosas já fizeram parte das Olimpíadas, do tipo: 12 horas de ciclismo, levantamento de peso com apenas uma mão, cabo de guerra, tiro ao pombo, voo livre de planador e motonáutica.

O maior ganhador de medalhas na história das Olimpíadas foram os Estados Unidos, contabilizando 2.398 subidas ao pódio, até os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Também pertence àquele país, o maior medalhista olímpico: Michael Phelps. O nadador abiscoitou 22 medalhas em duas Olimpíadas: Atenas (2004) e Pequim (2008).

O Brasil obteve, até agora, 108 medalhas assim distribuídas: 23 de ouro, 30 de prata e 55 de bronze. Adhemar Ferreira da Silva foi o primeiro bicampeão olímpico brasileiro e, Maria Lenk, a primeira brasileira e sul-americana a participar de uma Olimpíada (Los Angeles, 1932).

Torçamos para que o Brasil não reedite o desastre do Canadá, em 1976, ao sediar os Jogos Olímpicos de Montreal: o país não ganhou uma só medalha de ouro e, apenas, 5 de prata e 6 de bronze.

Não estamos imunes à crueldade destilada do ódio de fanáticos que semeiam o terror ao redor do mundo. Tampouco, os braços abertos do Cristo Redentor sobre o Rio de Janeiro serão suficientes para afastar da Olimpíada deste ano, o fantasma de tragédias semelhantes à de Munique em 1972. Que fique, pois, o alerta!

MATRIMÔNIO EM CRISE

A rotina, o desleixo e a deterioração da vida conjugal são algumas ou, provavelmente, as principais causas de crises em casamentos. É o que afiança quem se debruça sobre a temática do relacionamento a dois. E haja tratado ensinando como manter essa união consensual estável.lç

No pensar de Shakespeare, existem mais mistérios entre o Céu e a Terra do que imagina nossa vã filosofia. Fica difícil, portanto, estabelecer as razões para desmoronamentos de matrimônios feitos para durar “até que a morte os separe”.

“Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança” – disse o físico Stephen Hawking. Realmente, o casal que exercita sua capacidade de adaptação às inúmeras mudanças comportamentais num matrimônio, certamente, são pessoas inteligentes.

“Ah, isso só será possível se existir amor!” – dirão alguns. Duvido que somente o amor supere o desgaste decorrente da rotina exasperante e das dificuldades de toda ordem e dimensão, nesse relacionamento para lá de complexo.

Ouço falar de crises em casamentos com 3, 5, 7 ou 15 anos de duração. Nem sempre a parelha consegue resolver o problema no âmbito familiar. Então recorrem à ajuda profissional de psicólogos ou conselheiros matrimoniais para tentar sanar o problema, mediante terapia individual ou de casal. Mas, até chegar a esse estágio, muito água haverá passado por baixo do vão da ponte do enlace.

Em regra, eles ouvirão conselhos para amiudarem as conversações e tentarem descobrir as causas das insatisfações que tanto os incomodam. Adianto, que a falta de libido se sobressai aos demais motivos. O aconselhador não resolverá tudo, mas, pelo menos, mostrará opções para melhorar a convivência conjugal.

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The little death ou Le petite mort ou A pequena morte, mais conhecido entre nós como orgasmo, quando ausente na união, acarreta inúmeros entreveros na vida do casal. Acompanha-o, na desestruturação sexual do lar, o fetiche e o masoquismo, quando mal entendidos ou não absorvidos. Nessa área identifiquei situações hilárias, como as transcritas abaixo:

– A esposa amava o marido, mas amargava insucesso num sexo sem orgasmos. Os procedimentos recorrentes em casos semelhantes, neles falharam. Foi quando o esposo, durante o sexo, recebeu a notícia da morte da mãe e caiu num choro convulsivo. A parceira, excitada com as lágrimas de lamentação do parceiro, conseguiu vários orgasmos simultâneos naquele dia… E nos demais. Engravidou, e vivem felizes para sempre. É ele chorar e ela gozar. Tal anomalia sexual denomina-se dacryphilia.

– Na pesquisa, localizei um caso de insucesso matrimonial por causa da somnophilia (excitação sexual por ver alguém dormir). Acordados, nada de sexo na vida daquele casal. Quando a esposa adormecia, ele se excitava. Mas, se o marmanjo procurasse sexo com a dorminhoca, era rejeitado. A solução foi dopar a mulher com sedativos. Então, deitava e rolava nos braços da madame aos roncos. Grávida, ela descobriu como havia emprenhado. Recorreu à Justiça e anulou a união.

– Por último, um fato ocorrido em Nova York, com um marido insatisfeito após dez anos de fidelidade no matrimônio. Procurou aconselhamento profissional, e seguiu à risca a orientação de cometer adultério. O casamento degringolou e o casal culpou e processou o conselheiro, por conta da terapia indevida. Alegação: ele fora instado a “pular a cerca”. Merece dó esse pobre e inocente marido!

SANTO DO PAU OCO

José Coriolano, o Zeco desta história, 45 anos de idade, é empregado doméstico e trabalha para a família de João Roberto e Nair. Em 1988, com 17 anos, Zeca foi contratado para tratar da piscina e do jardim, e fazer a faxina na casa deles.

Com 20 anos, Zeco conheceu e se apaixonou por Jandira, admitida para cozinhar na mesma casa onde ele trabalhava. Ela, 21 anos, separada, um filho pequeno, sucumbiu ao charme do rapaz. Casaram, e ficaram morando com os patrões.SPO

Observando a mulher no ofício diário, Zeco aprendeu e se aprimorou nos segredos da cozinha. Quando Jandira pariu o filho de ambos e saiu para gozar a licença-maternidade, ele assumiu a cozinha da casa. Na brincadeira, lá se vão 28 anos.

Com esforço e determinação, Zeco, enfim, conseguiu a casa própria. Moradia essa, adquirida através das facilidades do primeiro governo do presidente Lula, que tornou realidade o grande sonho da vida daquele trabalhador incansável.

Mas, voltemos à atualidade. Desde 2000, amigos se reúnem, aos sábados, na casa de João Roberto para um carteado inocente. Puro divertimento! Uma mesa sortida é posta a disposição dos jogadores com a despesa rateada entre eles. Zeco prepara o ambiente, cuida do cardápio e fica ao dispor da turma, o tempo inteiro.

O grupo conhece a predileção de Zeco pelo PT, e seu culto ao ex-presidente Lula. Essa admiração advém da história, das conquistas e das realizações do sindicalista à frente da Presidência da República. Segundo Zeco, tudo o que conseguiu na vida, deve a Lula: a casa, o carro de segunda mão, a escola dos filhos e a mesa farta. Atribui, também, ao presidente, a queda da inflação e o respeito do país no exterior.

“Doutor, o senhor precisava ter visitado meu município, anos atrás, para poder avaliar os benefícios vindos do governo Lula!” – repetia ele. A turma, sabedora de sua queda pelo PT e por Lula, tentava, de toda maneira tirá-lo a terreiro. Mas, nada funcionava. A paixão do homem era inabalável. Inquebrantável.

Segundo Zeco, Lula era um exemplo para o mundo, por conta de sua origem. “Um homem do povo, nordestino e sem estudo, comandar o Brasil, é coisa pra predestinado! E mais: sem cultura nem doutorado, transformar o país numa potência mundial, somente um grande líder conseguiria tal feito. Lula amparou os pobres, porque sabia o que era a pobreza!” – o homem não cansava de repetir essa ladainha.

“Qual outro líder político havia sido chamado de ‘o cara’, pelo presidente da mais poderosa nação do planeta?” – extasiava-se ao falar sobre o comentário de Barak Obama. Zeco era um caso de adoração crônica, nunca visto antes na história deste país.

Mas, veio o dia 13 de março. E pior: as escutas telefônicas. Zeco, pela primeira vez em 16 anos, faltou ao encontro sagrado, no dia 19. “Deve ter sido, a manifestação do PT, ontem!” – prejulgaram. Naquele sábado ninguém o localizou. Na segunda-feira, Zeco retornou ao batente. Mas, já não era o mesmo homem de antes.

Desiludido, Zeco desabafou a Jandira: “Para mim, Lula se destruiu pelas próprias palavras. É um santo do pau oco!”. Ele não acreditara nas acusações feitas contra Lula, pela imprensa… Mas, o palavreado chulo das escutas telefônicas, fora demais: “Nem nos piores ambientes falam aquelas porcarias!” – referia-se aos desabafos do ex-presidente. Zeco não conseguia perdoar as pornografias contidas nas gravações da Justiça. Jurema jurou ao patrão ter visto o marido chorar.

Neste Sábado Santo, não dá. Mas, no próximo, os amigos retornarão aos encontros. Zeco já garantiu sua presença. Eles estão ansiosos para saber se a paixão desmedida feneceu, ou se tudo não passou de uma recaída atemporal. Aleluia!

A INSATISFAÇÃO NAS RUAS

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Como cidadão, eu também acompanhei o desenrolar da convocação “Vá para a rua: ou você vai ou ela fica!”, do dia 13 de março último. Lá, não pisei, porque não sou afeito a multidões. Não fui, mas, quase sete milhões de pessoas compareceram para ocupar espaços públicos em cidades de todos os estados do Brasil.

Minha gente… Era muita gente! Tanta gente, que a manchete da Folha de São Paulo, no dia seguinte, alardeou: “Ato anti-Dilma é o maior da história”. O jornal considerou a manifestação da Avenida Paulista como o maior ato político da nação, desde o famoso comício pelas Diretas-Já, em 16 de abril de 1984.

Embora sem sair de casa, eu não despreguei os olhos da televisão. Assisti a movimentação intensa do povo nas ruas, país afora. Meu interesse estava em observar o nível comportamental dos participantes. Todos imbuídos de um propósito central: protestar contra o conturbado momento político nacional.

Palavras de ordem, variadas e criativas. O Hino Nacional Brasileiro, repetido inúmeras vezes. O verde e o amarelo colorindo as multidões e… os cartazes. Ah, os cartazes! O desabafo do povo estava estampado nos cartazes. Neles, eu foquei minha atenção. Tão interessantes eram as mensagens, que fiz uma triagem daquelas mais emblemáticas, para transcrevê-las aqui:

“O que vale mais: pobre cidadão ou político ladrão?”

“Prefiro mudar o país, que mudar do país”

“Tem tanta coisa errada, que não cabe num cartaz!”

“Vamos mostrar que somos gente, que temos mente e que podemos fazer um país diferente”

“Não existe uma alma viva mais honesta do que eu. Eu sou um anjo!”

“Olha que legal, o país parou e nem é Carnaval!”

“Se o povo faz economia, por que tem mordomia para a política?”

“Petrolão: o maior roubo da história da humanidade”

“Não são milhões, são bilhões em desigualdades”

“Desculpe o transtorno, estamos mudando o país”

“Queremos os corruptos na cadeia: do PT, PSDB, PP ou PQP”

“Nos veio portrestar por uma educasssão mais melho de bom”

E não foi só no Brasil, também ocorreram manifestações no exterior. Na 46 Street, conhecida como a Rua dos Brasileiros (Little Brazil Street), em Nova York, lá estavam os nossos compatriotas portando mensagens:

“This is not Carnival; this is revolution”

“Brazil writes its future”

Para minha surpresa, a manifestação foi pacata. Pacífica. Sem violência. Procedimento esse, fortalecedor da democracia que desejamos preservar, também, caracterizado num dos cartazes: “Aqui não é Venezuela!”.

O povo saiu ileso das manifestações. Um ídolo foi eleito e enaltecido pela multidão: “Somos todos Sérgio Moro”. A insatisfação incontida, no dia do desabafo nas ruas, poderia ser resumida nos dizeres deste cartaz:

“Liberté, Igalité, Fraternité… e fora PT”

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NOSSA TÃO GRANDE CULPA

Estamos vivenciando o começo do fim de uma das mais dolorosas crises políticas do Brasil. Pergunto: tal desfecho será motivo para comemorações? Acredito, que não! Entendo que este seja um momento para reflexões e avaliações.

Afinal, não é novidade para ninguém, que os verdadeiros culpados por esse conflito podem ser identificados a qualquer instante, em quaisquer dos quadrantes do país. Basta pararmos diante de um espelho para ficarmos cara a cara com o dito. Isto mesmo: nós, o povo brasileiro, somos os culpados. Nós, eleitores. Nós, cidadãos tolerantes, coniventes e propensos a cometer pequenos delitos.bd

Escrevi este texto após reler um artigo de João Ubaldo Ribeiro, denominado Precisa-se de matéria-prima para construir um país, publicado no Jornal do Meio Ambiente, em 14 de novembro de 2005. O que o autor externou ali, dez anos atrás, está tão atualizado, que chega a doer de revolta por nada haver mudado.

Ele procurou explicar que, nós, a matéria-prima do país, permanecemos a mesma matéria desqualificada para ajeitar ou dar um rumo melhor à nação. Isso porque ainda subornamos o policial quando infringimos leis de trânsito, adulteramos o Imposto de Renda para tungar o erário, instalamos gatos para furtar água e energia elétrica, apresentamos atestados médicos sem estarmos doentes e comprovamos despesas inexistentes com notas fiscais fraudadas.

Gozando de boa saúde, ocupamos vagas de idosos e inválidos em estacionamentos públicos. Orgulhamo-nos do jeitinho brasileiro de ser e da esperteza descabida. Exaltamos o enriquecimento fácil, porque tal prática denota senso de oportunidade. Praticamos os fundamentos da Lei de Gerson, porque querer levar vantagem em tudo é astúcia, e não malandragem. Na maior desfaçatez, participamos de concursos públicos ou entrevistas de empregos com certidões falsificadas.

Na concepção da matéria-prima brasileira, a falta de pontualidade é charme, e não falta de educação. Saquear cargas de veículos acidentados é tirar partido, e não furto. Destruir patrimônio público é protesto, e não burrice criminosa.

É duro afirmar, mas é essa mesma matéria-prima contaminada, que elege presidentes da República e parlamentares para o Congresso Nacional. Temos autoridade suficiente para cobrar-lhes integridade, retidão, honestidade e ética em suas ações? Não será uma incoerência reclamar-lhes dos erros cometidos?ed

Acusar o governo é nos acusar, pois ele é o retrato fiel do povo, moldado à imagem e semelhança da matéria-prima que o elegeu. Ao denegrir o parlamentar amoral estamos desvalorizando a nós mesmos. Afinal, eles são o nosso prolongamento, e guardam as mesmas falhas que nos forjaram. Procurando esconder o sol com uma peneira, perguntamos inocentemente: cadê nossa tão grande culpa?

Mudar é fundamental, porque urge deixarmos o descaso de lado para eliminarmos vícios corriqueiros e perniciosos. Devemos realinhar a postura de como conviver em sociedade, tendo a noção exata do que seja civismo e dignidade; focar no direito de votar com seriedade, para conseguir um parlamento operoso; e, cortarmos os nacos podres da política para sanearmos o atual panorama sombrio e asqueroso, dando um basta ao pesadelo de final incerto que tanto nos angustia.

Sendo otimistas, se começarmos a exercitar tais práticas a partir de agora, talvez construamos uma nação melhor para nossos bisnetos. Da qual se ufanem de pertencer, e ao socar o peito estufado de orgulho, exclamem: sou brasileiro, sim, senhor!

BURRICE ALOPRADA

Eu não gosto de escapulir do meu estilo ameno de escrever sobre fatos do cotidiano. Muito menos de abordar assuntos polêmicos como religião, política e futebol. Mas, uma vez ou outra, vejo-me instado a apelar para a insipidez de determinados temas, como agora, em razão da preocupante fase que atravessa o país.TR

Onde foi que nós erramos para, em menos de dois anos, vermos o Brasil descambar para essa gama inesgotável de desacertos? Onde foi que nós falhamos, para nos depararmos com tantos exemplos desastrosos na saúde, na segurança e na educação?

Quem, em sã consciência, imaginaria ver a saúde pública reduzida ao estado de calamidade, semelhante ou pior ao encontrado por Osvaldo Cruz, quando deflagrou a campanha de erradicação da febre amarela e da varíola no Rio de Janeiro, no início do século XX?

Com uma atenuante: o sanitarista invadia a privacidade do carioca e forçava a vacinação coletiva, diante da oposição de hordas de fanáticos e ignorantes. Diferente de hoje, onde pessoas cientes do mal que fazem, agridem o meio-ambiente prejudicando a si mesmas e aos demais, numa autoflagelação incompreensível.

Que mentes deformadas são essas, que permitem que 300 toneladas de medicamentos do povo percam a validade, porque os mantiveram estocados sem lhes dar a destinação devida? Isso, enquanto a população de menor renda sofria com o desabastecimento de itens básicos em hospitais do governo que, por descaso, incompetência ou o sei lá o que, apodreciam em depósitos públicos.

Não é à toa que a Bloomberg – portal americano especializado em economia -, ao medir a eficiência dos serviços de saúde em 48 países, nos honrou com a última posição. Isso, dois anos atrás.

E o que dizer da segurança do cidadão? Tomarei como exemplo, minha querida cidade do Natal, capital do Rio Grande do Norte, para generalizar a avaliação. Natal, desde quando me entendo por gente, foi uma cidade pacata e segura, sem integrar qualquer lista desabonadora de excessos cometidos contra o cidadão. Entre 2010 e 2012, vimos Natal aparecer no Mapa da Violência no Brasil, ocupando a 154ª posição. Na época, éramos 818 mil habitantes e vimos assassinadas 913 pessoas.BC

Pois bem, em 2015 saltamos para a 13ª posição entre as 50 mais violentas cidades do MUNDO – no rol das capitais brasileiras, somos a 4ª mais violenta. Jamais imaginei a tranquila Natal, em tão nobre posição no conceito do mal.

Finalmente, a educação. Ah, a educação! Em 2015, no ranking da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil ocupou o 60º lugar entre 76 países listados. Pergunto: tal posição causou qualquer surpresa a nós brasileiros? Claro que não! Desde muito tempo atrás, temos conhecimento da má qualidade do ensino no país. As provas de redação do ENEM estão aí para comprovar essa verdade; quanto às demais matérias, o melhor é não procurar saber.

Ative-me, nesta análise, a setores básicos que são direitos do cidadão e dever do Estado. Poderíamos estender o exame para outros segmentos da sociedade que, certamente, encontraríamos idênticos descalabros. A perfeição é inalcançável, mas, paciência, o cidadão deseja respostas e ações para tantas interrogações.

Afinal, onde foi que erramos? Não sei! Deram-nos uma amostra do que era conviver com a inflação controlada, com as benesses do crescimento industrial e a benfazeja oferta de empregos. De repente, não mais que de repente, deu-se o retrocesso. Daí, a ânsia de sabermos quais as razões dos desacertos, para tentarmos remediar essa aloprada burrice!

NASCIDO EM 29 DE FEVEREIRO

Tão difícil quanto descobrir pé em cobra, deparar com enterro de anão ou localizar cabeça de bacalhau, é encontrar um nascido em 29 de fevereiro. E quando alguém se identifica como bissexto, é aquela surpresa para o interlocutor, como se o cidadão fosse um ente excepcional ou um alienígena. Em seguida, acompanha aquela exclamação efusivamente imbecilizada: “Não diga!”, “É mesmo!”, “O que você acha de só aniversariar de quatro em quatro anos?”, “Como você faz para comemorar a data?”. Pois bem, eu sou uma dessas raridades.ch

Não sei se é sorte ou desdita o fato de haver nascido numa data troncha como esta. Hoje, isso não me afeta em nada, mas, na infância e começo da juventude teve lá suas desvantagens. Ainda bem que atos de violência física ou psicológica, conhecidos na atualidade como bullying, eram rechaçados com rigor nas escolas de antigamente. Não fosse isso, eu seria a presa ideal para a caçoada de colegas por conta de minhas esquisitas singularidades: bissexto, canhoto, indícios de gagueira, timidez e nome difícil de entender.

Desses predicados o único que ainda me incomoda é o nome, embora ele me seja agradável tanto no significado quanto na sonoridade. O problema consiste em nunca alguém conseguir memorizá-lo de imediato. Para me fazer entender preciso pronunciá-lo articulando sílaba por sílaba ou palavra por palavra. Quando me identifico, fico irritado ao ouvir perguntas do tipo: “Marcelo?”, “Marcelino?”, “Aracélio?”, “Anacélio?” ou “Nar… o que?”. E por aí vai!

Mas nada se compara com a desfeita daquele desnaturado, caríssimo colega de turma. Vários anos sem que nos víssemos, quando o encontrei na casa de um amigo comum. “Olá João, como anda você?” – cumprimentei-o com entusiasmo. “Tudo maravilha! E você Noélio…como está?” – falou, e sorriu um “ô!, ô!, ô!” de desdém. Calei-me. Afinal, o que dizer para alguém com quem convivi durante cinco anos de faculdade, e nem sequer meu nome se dignou gravar? Até hoje não descobri se fui vítima da chacota ou do pedantismo de João Bafo de Onça.cld

Voltemos ao problema da data. Todos sabem que o ano tem 365 dias e 6 horas. De quatro em quatro anos, o somatório dessas 6 horas forma um dia extra, que adicionado no final do mês de fevereiro faz aquele ano ter 366 dias. Quando isso acontece o ano é chamado “bissexto”, e surge no calendário gregoriano, o complexo dia 29 em fevereiro. Há uma tendência para achar que a data traz agouro, e que bissextos só aniversariam de quatro em quatro anos.

Mera ignorância. Se fosse assim, a carteira de motorista somente seria liberada ao bissexto, quando completasse 72 anos de idade. Muitos pais, antevendo constrangimentos futuros para os filhos, alteram para 28 de fevereiro ou 1º de março a data de quem nasceu no dia 29. Daí a dificuldade de localizarmos bissextos puros de origem.

Diz o zodíaco, que o nascido no dia 29 do segundo mês de um ano bissexto é de Peixes. Mapas astrológicos dão conta de que a água, o zinco, o inverno, o hipopótamo e Mercúrio são, respectivamente, o elemento, o metal, a estação do ano, o animal e o planeta predominantes na vida do bissexto. Descobri também, na amplitude de minha pesquisa, que o dia de meu nascimento é consagrado a Santo Osvaldo.

Conheço pouca gente com natalício igual ao meu, embora muitos integrem essa confraria. A essas rarae aves de todo o Brasil, antecipo meus sinceros votos para um Feliz (quádruplo) Aniversário, no próximo dia 29 deste ano bissexto.

SINATRA

Eu passei o Carnaval, e mais alguns dias após a farra de Momo, debruçado sobre um calhamaço de 1.212 páginas, que constitui o segundo volume da biografia de Frank Sinatra, de autoria do jornalista James Kaplan.

Realmente, um exercício fascinante, se considerado o método que empreguei para a leitura de Sinatra – o Chefão. Com caneta marca-texto e o Google ao alcance da mão, assinalava as canções e os vídeos que mais me interessavam, para ouvi-las e assisti-los à medida que enveredava por cada capítulo do livro.SINATRA

Sinatra foi um dos personagens centrais da cultura popular do século XX. Um ítalo-americano endeusado por mulheres e invejado por homens dos cinco continentes. A Voz, Olhos Azuis ou apenas Frankie, embeveceu fãs e embalou casais enamorados, com a força e a beleza de suas interpretações.

Gente, ele viveu cada dia como se fosse o último, dependente do convívio dos amigos e administrando seu medo da solidão e as crises de insegurança. Muitas das beldades que gravitaram na sua atratividade, ele as transformou em amantes. Que nos digam Judy Garland, Natalie Wood, Anita Ekberg, Marilyn Monroe, Gloria Vanderbilt, Lana Turner, Kim Novak, Lauren Bacall, Juliet Prowse, Angie Dickinson, Jill St. John, Rhonda Fleming,… Ufa! E tantas outras a perder de vista.

Em 25 de março de 1954, ao subir ao palco do RKO Pantages Theatre, em Hollywood, para receber o Oscar de melhor ator-coadjuvante pela participação no filme A um passo da eternidade, Sinatra deu a maior volta por cima de toda a história do show business. Estava deixando para trás, a má fase decorrente dos excessos cometidos nos quinze primeiros anos de profissão, que quase lhe destruiu a carreira. Tais desacertos culminaram com o abandono da família por causa de Ava Gardner.

Foi amigo de mafiosos, fraternizou com celebridades e homens de estado, e viu aclamado por público e crítica, o trabalho dos 44 anos restantes de sua vida. Casou quatro vezes: com Nancy Barbato, com quem teve três filhos; com Ava Gardner, a mais tumultuada das relações; com Mia Farrow, casamento relâmpago; e, Barbara Marx, com quem terminou seus dias.

Sinatra ganhou 31 discos de ouro, 18 de platina e 9 Grammys. Gravou 1.800 canções e vendeu mais de 500 milhões de discos. Apareceu em 62 filmes.

No Brasil, em 1980, ele fez um show histórico no Maracanã, onde reuniu mais de 170 mil pessoas, entrando para o Livro Guiness de Records. Surpreendeu-se ao ver o público cantar com ele Strangers in the night. Ele estava tão feliz, que nem o “Beijoqueiro” ao lhe agarrar, conseguiu acender o seu pavio curto.

Suas palavras naquela noite sensibilizaram os brasileiros: “Senhoras e senhores, quero que saibam de uma coisa: este é o maior momento da minha carreira como cantor profissional. Nunca antes experimentei algo parecido. Nunca!”.

A Voz calou em 1988, no dia 14 de maio, aos 82 anos de idade. Foi sepultado no Deserte Memorial Park, no Condado de Reverside, Califórnia. No seu epitáfio lê-se uma promessa: “O melhor está por vir”.

Sua vida tumultuada já rendeu matéria para doze biografias. Pudera. Isso ele previra: “Só se vive uma vez e, do jeito que eu vivo, uma vez é suficiente!”.
A razão do seu sucesso? Entendo que nesta declaração ele resume tudo: “Se você quer uma plateia ao seu lado, só existe um jeito. Você precisa chegar até ela com humildade e com uma honestidade total. Isso é um ponto fundamental da minha parte; descobri que, se você não chega até a plateia, nada existe”.

A cortina se fechou para o astro, mas abriu-se para a lenda.

VESTÍGIOS DE MINHA JORNADA

Quando estudante de Engenharia, eu trabalhava no Departamento de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Norte (DER-RN). Era lotado em Natal, mas, por um tempo, auxiliei o engenheiro-residente do distrito rodoviário localizado em Nova Cruz, no Agreste Potiguar. Uma vez por mês, eu viajava àquela cidade para preparar planilhas de produção rodoviária. Dava um duro danado, às vezes, varando madrugadas no ofício.bt

Certa noite, após horas de trabalho, eu deixei a sala e fui ao alpendre do prédio, espairecer. Lá encontrei seu André, o vigia noturno da repartição. “Boa noite, seu André! Como andam as coisas?”. Ele, então, me respondeu com voz quase inaudível: “Tudo bem, ‘doutor’, se não fosse essa maldita rouquidão!…”. “Está tomando algo?” – bisbilhotei. “Sim, este remédio!” – ato contínuo, ele me passou uma cartela contendo cápsulas, iguais a que ele chupava na ocasião.

Ao identificar o produto, eu exclamei: “Seu André, isto não é para chupar, não!”. “E pra que serve, então, ‘doutor’?” – procurou saber. “Seu André, são supositórios! O senhor tem que enfiar no reto, entendeu?”. “Enfiar reto, onde mesmo, ‘doutor’?” – perguntou-me, admirado.

Fiquei matutando, como ensinar seu André a usar o medicamento, sem lhe melindrar. Lembrei-me, então, de história que eu ouvira, de como um médico num sufoco igual ao meu, procedera com a sua paciente, uma freira.

“Ora, pois! Se com uma freira o método funcionou, não tinha porque falhar com seu André!” – imaginei. Então iniciei a explicação: “Seu André, o primeiro passo é ficar nu. Depois, o senhor retira o remédio da embalagem, põe a ponta fina dele na testa – eu falava e demonstrava cada etapa do processo -, arrasta ele até o alto do cocuruto. Em seguida, desce pela parte de trás do pescoço, vai escorregando pelas costas e, no primeiro buraco que encontrar, o senhor enfia o supositório”.

Ele, olhar esbugalhado, magoado por se achar desrespeitado, falou: “Me desculpe, ‘doutor’, mas aqui por trás não entra nem formiga!”… Deu-me as costas, e saiu para continuar na ronda.

Para chegar à cidade de Nova Cruz no início do expediente, Coriolano, o motorista do DER-RN, me apanhava por volta das 4h30 da manhã. Duas horas e meia, de Natal até o meu destino, boa parte do percurso em estrada de barro.b3

Numa dessas viagens, o sono represado me abateu. Coriolano, conversador incontrolável, respeitou meu cansaço, e não me acordou para papear. Já dando para avistar a cidade, uma freada brusca lançou-me para frente, quase espatifando minha cabeça no para-brisa da camionete – naquela época, carros fabricados no Brasil não dispunham de cintos de segurança.

Despertei apavorado, e notei a porta do motorista aberta, sem Coriolano ao volante. Procurei-o, e o encontrei a uns vinte metros do veículo, numa atitude que me causou perplexidade e asco. Observei-o, tentando ajudar um jumento excitado a cobrir sua parceira. Isso mesmo! Obtido o intento, Coriolano reassumiu o posto, após lavar as mãos num barreiro próximo.

Nada comentei, para ele sentir que aquela atitude me desagradara. Incomodado com o silêncio, ele justificou-se: “Doutor, para mim isso é normal. Onde eu me criei, todos os moleques ajudam os jegues nas tentativas deles de montar nas jumentas. O Sertão precisa muito dos jegues. São bichos sagrados, o senhor sabia?”.

Tentei, mas não assimilei a ação de Coriolano. Hoje, meu olhar para aquela atitude, teria um rigor menor. No saber do Hamlet, de Shakespeare, descobri uma verdade: “Não há nada de bom ou mau sem o pensamento que o faz assim”.


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