O VELHO ATHENEU

Realmente, o Colégio Estadual do Atheneu Norte-Riograndense não é apenas uma tradicional instituição do Estado, mas uma casa de ensino quase bicentenária com 183 anos de existência, aberta em fevereiro de 1834, na monarquia.

Segundo apontamentos de Luiz da Câmara Cascudo, o fundador do Atheneu foi Basílio Quaresma Torreão, então presidente da província e, também, o seu primeiro diretor-geral. Trata-se da segunda mais antiga instituição escolar brasileira, precedida apenas pelo Ginásio Pernambucano, criado em 1825.


As diferentes sedes do velho Atheneu

O meu velho Atheneu de guerra foi o berço que embalou algumas das minhas amizades sinceras. Hoje funciona como repositório do catálogo de lembranças marcantes da minha juventude onde, uma vez ou outra, eu acesso para reviver aquelas inesquecíveis passagens repletas de emoção ou de hilaridade.

Estudei no Atheneu na gestão de Olindina Gomes da Costa, a primeira mulher a assumir a diretoria-geral. O colégio ainda dispunha de eminentes cabeças pensantes no corpo docente.

Naquele tempo ficávamos de pé, num sinal de respeito, quando professores entravam na sala de aula. Na grade curricular constavam idiomas como Inglês, Francês, Latim e Espanhol, além do Português.

Tenho na ponta da língua alguns trechos do primeiro capítulo do livro de Espanhol vigente no ginasial, cujos título e autor não consigo resgatar da memória. Tratava-se de um poema de Francisco Villaespesa que continha as seguintes estrofes:

Caperucita, la más pequeña de mis amigas, en dónde está?
Al viejo bosque se fue por leña, por leña seca para amasar.
Caperucita, di, no há venido? cómo tan tarde no regresó?
Tras ella todos al bosque han ido, pero ninguno se la encontró.

Lembro-me também que, exercitando a minha santa ignorância, testei a professora de Inglês sobre o significado de Ten Bryan. E ela, coitada, diante daquela sentença esdrúxula não soube traduzir minha dúvida. Afinal, qual o sentido de Ten Bryan? Dez colina? Dez montanha? Qual outro significado atribuir a Ten ou a Bryan?

Ufanei-me por embasbacar a professora. Passado algum tempo fiquei envergonhado de mim mesmo ao ler na farda de um oficial do Exército, outra plaqueta de identificação dizendo Ten Cardoso. Isso mesmo, tratava-se do posto e do sobrenome do militar, no caso, Tenente Cardoso. Antes, eu conhecera o Tenente Bryan.

Alcancei o ocaso da liderança de Manoel Filgueira Filho, vulgo Pecado. Líder estudantil entre os secundaristas do Atheneu, comandava greves estudantis e aplicava trotes em calouros aprovados nos exames de admissão realizado pelo colégio.

Ao ser considerado um dedo-duro, por apontar colegas a órgãos de repressão ligados ao golpe de 1964, Pecado perdeu o respeito e a liderança dos pares.

A construção em “X”, característica do Atheneu-Norteriograndense

Porém, o momento mais esperado de cada dia de aula era o retorno para casa das alunas do Colégio Imaculada Conceição. Sentados no muro da Rua Potengi, aguardávamos a passagem das meninas de azul e branco para assoviarmos marchas militares. E elas, inconscientemente, entravam no compasso da música.

Percebendo que estavam marchando, elas tentavam sair do compasso resultando em descompassos engraçadíssimos, para deleite da turma. Mesmo sabedoras da gozação, as meninas não se chateavam nem alteravam o percurso diário.

Devo muito do que aprendi no meu Atheneu de ontem, pelo o meu hoje na vida.

UMA MENTE BRILHANTE

Ariano Suassuna, numa de suas aulas-espetáculo, comentou a opinião de um produtor e jurado de programa de televisão que considerou Chimbinha, o líder da banda Calypso, um guitarrista genial. Naquela oportunidade ele abominou o dito comentário, com a seguinte justificativa: Se eu gasto o adjetivo genial com esse tal de Chimbinha, o que é que eu vou dizer de Beethoven?

Daí a razão para eu não denominar o escritor e poeta paraibano de gênio, pois assim evitarei comparar a sua obra com o legado dos grandes escritores que ele admirava, e aos quais, por modéstia ou humildade, ele não se deixaria equiparar.

Todavia, existe consenso geral na admissão de que Ariano Suassuna possuía características peculiares tais como inteligência, cultura e uma memória prodigiosa, que o transformaram num indivíduo diferenciado. Tudo isso aliado à simplicidade, simpatia e extraordinário carisma.

Afinal, qual outro palestrante de fala feia, fraca, baixa e rouca conseguiria manter uma plateia atenta, silente e interessada nas suas palavras, se fosse desprovido de carisma suficiente para tanto?

Ouvintes de todas as idades deleitavam-se com o conhecimento e a verve do dramaturgo nordestino. Grande admirador do povo e da cultura do Brasil, Ariano gostava de rir e se deliciava em arrancar sorrisos dos outros.

Os variados causos inseridos no transcorrer desses encontros consistiam no diferencial das suas aulas-espetáculo. Eis algumas das pérolas do humor sadio e inteligente, como também do pensamento de Ariano:

Eu não gosto de pintura abstrata porque não entendo o significado de nada! – manifestou-se uma senhora da plateia num desses encontros. Muito me admiraria se você entendesse, porque elas não significam nada! – rebateu Ariano.

Em palestra na inauguração do auditório do Tribunal Superior do Trabalho, em São Paulo, o presidente da casa fez a apresentação de praxe dando ênfase a condição de advogado de Ariano. Ele saiu-se com esta:

– Eu achei graça quando ele disse que eu fui advogado. Eu realmente fui… Me desculpem, eu não sei se posso dizer o que direi agora, pois eu estou no templo do Direito. Na verdade, eu estudei Direito por falta de opção. No meu tempo existiam somente três opções: Engenharia, Medicina e Direito. Quem gostava de somar, fazia Engenharia; quem gostava de abrir barriga de lagartixa, fazia Medicina; e quem não dava para coisa nenhuma ia ser advogado – gargalhada geral na plateia.

Falando do seu casamento com Zélia de Andrade, com quem namorava desde agosto de 1947, e por quem ainda se mantinha enamorado, veio à baila o nome do príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica. Tascou este comentário:

– Eu sempre desconfiei do bom gosto daquele príncipe. Trocar a princesa Diana por aquela mulher… Não é?… – referindo-se à duquesa Camila Parker.

Ariano nunca escondeu a sua predileção por palhaço, mentiroso e doido. Por palhaço, em razão das boas lembranças dos espetáculos mambembes da infância; por mentiroso, porque todo escritor é mentiroso, tanto é assim que, nas palavras do próprio autor, o Auto da Compadecida não passa de uma grande mentira.

Por fim, o doido. Segundo um seu irmão, na família Suassuna todos são doidos de atirar pedra; e, quem não é doido junta pedra para doido atirar.

Ariano faleceu em 2014, com 87 anos de idade. Se não foi um gênio conviveu, muito bem obrigado, com uma mente brilhante gerando sua própria luz.

É TUDO UM PISCAR DE OLHOS

Houve um tempo que me incomodava ouvir falar de morte ou de vida após a morte, mas, à medida que os anos atingem os costados de nossa existência o homem fica mais reflexivo com relação ao seu futuro, e queda-se perguntando: Por quantos anos ainda respirarei o ar fresco da vida? Para onde irei? O que me acontecerá após a ultrapassagem da tênue barreira que divide a vida da morte?

Sim, são perguntas pertinentes, porque a morte é a única certeza plena no transcorrer de nossa trajetória humana. E a vida?… Ah! A vida não passa de uma nuvem passageira perante a escala de tempo de Albert Einstein (1879-1955).

Por falar em Einstein, qual a visão deixada pelos grandes pensadores acerca da vida?… E sobre a morte? No entendimento de Sócrates (469a.C.- 399a.C.), que já defendia, naquela época, a imortalidade da alma, o ser humano é um espírito encarnado que vive algum tempo na matéria. Acerca do tema assim ditou ele:

No mundo físico a alma se conturba e fica perdida porque está vinculada a objetos perecíveis. Mas, ao voltar-se para si mesma, vislumbra as ideias imortais que outrora conhecera. Este é o momento definido como sabedoria. Daí a necessidade do “conhece-te a ti mesmo”. Ainda segundo Sócrates, somente os que cultivarem a virtude nada temerão da vida que continuará depois da morte.

Sócrates definiu filosofia como “preparação para a morte”. Schopenhauer (1788 – 1860), na mesma linha de pensamento do filósofo grego, afirmou que a “a morte é a musa da filosofia”. Então, será a filosofia a ciência da morte?

Também houve um tempo que eu sonhava com uma vida de riqueza, poder e feitos épicos, mas a própria vida me mostrou a utopia de tudo isso, e me fez derivar para uma interpretação mais simples e objetiva para a nossa existência.

Tanto é assim que a minha filosofia se assemelha a de Ariano Suassuna ao discorrer sobre Deus e o sentido da vida: Deus para mim é uma necessidade. Se eu não acreditasse em Deus eu seria um desesperado.

Hoje eu assimilo melhor as palavras do compositor Gonzaguinha ao aconselhar, na canção, que viver e não ter a vergonha de ser feliz. Ou quando afiança que a vida é uma doce ilusão ou, ainda, que é uma gota, é um tempo que nem dá um segundo, mas que nada impede de repetirmos que ela é bonita, é bonita e é bonita!

Voltaire (1694-1778), o filósofo francês, disse: Nós nascemos sozinhos. Nós vivemos sozinhos. Nós morremos sozinhos. E qualquer coisa neste intervalo que possa nos dar a ilusão de que não estamos sós, nós nos agarramos a ela. Ao trocarmos em miúdos esse pensamento, advém a seguinte reflexão: Nascemos sem trazer nada. Morremos sem levar nada. E nesse meio tempo brigamos por coisas que não trouxemos nem levaremos.

Segura teu filho no colo, sorria e abraça teus pais enquanto estão aqui

Que a vida é trem-bala parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir.

E nem é preciso ser um grande pensador para descrever o sentido da existência, com gritante objetividade, como a compositora Ana Vilela na canção Trem-Bala, lembrando-nos que o interregno do nascimento à morte não passa de um piscar de olhos.

A CATEDRAL DA PRAÇA PIO X

Praça Pio X, nos anos 40

Uma das lembranças marcantes da minha infância é a Praça Pio X, desativada para a construção da Catedral Metropolitana de Natal. Margeá-la integrava meu percurso obrigatório no deslocamento de casa para a escola e vice-versa.

Eu morava na Rua Mossoró e estudava no Ginásio São Luiz, situado na Rua José de Alencar, Cidade Alta, propriedade do padre Eymard L’Eraistre Monteiro. Na memória ainda pulsa a simplicidade bucólica daquele logradouro público que ocupava um quarteirão com um hectare de área encravado ao lado do cinema Rio Grande.

A praça pouco lembrava aquela dos anos 40, quando foi inaugurada. Os canteiros já sem arborização e os desenhos geométricos obtidos pela combinação de pedras brancas e pretas pavimentando o espaço careciam de conservação.

Apenas os bancos rústicos de cimento, característicos da época, ficaram preservados da ação dos anos. Alcancei resquícios do restaurante no centro da praça, aparentando asas de um avião, e o espaço acima dele de acesso ao público por lances de escadas laterais.

O ambiente ainda era dominado pelo paliteiro de postes no formato de tridentes, com globos leitosos encobrindo lâmpadas espetadas em cada uma das três extremidades das peças. Deslumbrava-me atravessar a praça iluminada à noite.

A primeira tentativa de construção da catedral aconteceu com D. Marcolino Dantas, o primeiro arcebispo de Natal. De posse de um projeto imitando templos europeus, ele conseguiu levantar algumas paredes. Entretanto, a falta de recursos fez a iniciativa soçobrar no esquecimento.

Em 1972, o jovem arquiteto Marconi Grevi apresentou aos arcebispo e bispo auxiliar de Natal, D. Nivaldo Monte e D. Antonio Soares Costa, um projeto de custo mais em conta, sem tanta pompa e priorizando a rusticidade e a praticidade.

Marconi Grevi, D. Nivaldo Monte e, ao fundo, o projeto abandonado

Mesmo primando pela simplicidade dos materiais, a proposta arrojada da catedral, num primeiro momento, chocou a população. Não por menos, pois o vão livre em concreto protendido com 60 metros de extensão, consistiria no maior do Norte e Nordeste do país.

O templo abrigaria 3.000 mil fieis sentados e disporia de gigantesco painel representando a Aurora Matutina. O efeito da visão interna seria ao mesmo tempo algo sublime, místico e grandioso. Tudo isso em apenas 25% da área do terreno.

Perguntei ao arquiteto qual o significado do entrelaçamento de cruzes da fachada da catedral, e se a ideia chocara a Cúria Metropolitana. Marconi respondeu: A aprovação foi unânime após minha explicação. São três cruzes que podem ser identificadas de qualquer ângulo em que nos posicionemos. Tanto representa a Santíssima Trindade como as cruzes do Monte Calvário, local da crucificação de Cristo.

A catedral inaugurada em 1988

A construção começou no dia 21 de junho de 1973. Depois de 18 anos de campanhas arrecadando fundos, a obra foi inaugurada por Dom Alair Vilar de Melo em 21 de novembro de 1988, dia de Nossa Senhora da Apresentação.

Da antiga praça, ainda viva nas minhas recordações, somente restaram os versos do samba de Airton Ramalho, Praça Pio X:

Pio X praça que desapareceu/Praça de muita recordação/Lá foi onde o nosso amor nasceu/E onde eu perdi meu coração/Praça, o teu nome vão guardar/E quem lá foi namorar/Não te esquecerá/Breve, tu serás a casa de Deus/Eis a nossa homenagem/E também o nosso adeus.

VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS

Volta e meia flagro-me dedilhando teclas pretéritas. Saudosismo? Não. Nada de excessiva valorização do passado. Viagem no tempo? Pode ser. Para mim, deleitar-se com os bons momentos usufruídos na existência de cada um de nós, consiste no melhor exercício para amenizar o inclemente avançar dos anos de nossas vidas.

Trazer à baila a plenitude do movimento renovador da música popular brasileira, após a Bossa Nova, é uma dessas práticas. Vivíamos a repressão oriunda do regime militar iniciado em 1964, quando jovens rebeldes descompromissados com política e influenciados pelo rock n’roll criaram a revolução musical que ficou conhecida como Jovem Guarda.

O som inovador de Elvis Presley, Roling Stones e de outros astros do iê-iê-iê – alusão direta à expressão yeah-yeah-yeah presente em sucessos dos The Beatles – impregnou parcela de nossa juventude desengajada de greves e de protestos contra o governo instaurado no país.

Eram turmas de cabelos engomados e calças colantes em forma de boca-de-sino, com cintos e botas coloridos, que apregoavam paz e amor e faça amor não faça guerra. Patotas de linguajar próprio, botando pra quebrar, mas achando tudo o maior barato sem considerar nada ruço, procurando manter a barra limpa.

Jovens cantores interpretando músicas leves e açucaradas, falando de amores ardentes, carangos, festas e brotos legais; utilizando letras fáceis de decorar emoldurando coreografias diferentes das usuais direcionadas para o público adolescente enfeitiçado pela onda em evolução.

A Jovem Guarda surgiu em 1965, na TV Record, em programa comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa definindo uma nova linguagem musical e comportamental no Brasil, que se tornou referência para adolescentes da época. Desde a forma de se vestir a gírias e expressões próprias criadas no embalo do movimento.

Além dos três titulares das jovens tardes de domingo, surgiram e se consolidaram na profissão e no cenário artístico nacional interpretes e compositores como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Ariani, Sérgio Reis, Antonio Marcos, Márcio Greyck, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Lafayette e seu Conjunto, e outros a perder de vista.

Comenta-se que o nome que deu origem ao estilo popularizado nos anos 60, foi inspirado numa frase do revolucionário russo Vladimir Lenin: O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada.

Setores da crítica afeitos à Bossa Nova, consideravam o som da Jovem Guarda música alienada, não somente porque privilegiou a guitarra em detrimento do violão, mas, sobretudo, por manter àqueles jovens afastados da discussão política que sacudiu o Brasil nos primeiros anos da ditadura militar. O programa terminou em 1968, com o desligamento de Roberto Carlos da TV Record.

Sem prescindir de outros estilos musicais, ainda hoje sinto prazer ao ouvir as inocentes e alegres canções que transformaram a Jovem Guarda num dos maiores fenômenos nacionais do século XX.

Tudo isso bicho, aconteceu meio século atrás, e foi uma brasa, mora!

ONDE ANDA VOCÊ

A quantas e por onde anda o som nacional além de nossas fronteiras? Antes de nos posicionarmos na resposta a essa pergunta, engatemos uma segunda. Qual o sentimento que nos desperta ouvir música brasileira, tocada ao acaso, no exterior? Certamente, o leitor dirá tratar-se de uma sensação agradável de orgulho e vaidade, temperada por boa pitada de saudade decorrente da distância do rincão natal.

Retornando a questão inicial, a primeira música brasileira a alcançar sucesso internacional foi Aquarela do Brasil. Em visita ao Brasil, o norte-americano Walt Disney se encantou com o samba e escolheu a composição de Ari Barroso como trilha sonora do filme de animação Alô Amigos (1942), com o recém-criado personagem Zé Carioca. Daí para se tornar a marca musical brasileira no exterior foi um pulo.

Entre os anos de 1942 e 1953, foi a vez de Carmen Miranda divulgar o nosso som para o mundo, mediante participação em 14 películas produzidas por grandes estúdios dos Estados Unidos, divulgando canções brasileiras ornamentadas por requebros e balangandãs extraídos da cultura verde-amarelo.

No meu entendimento, a música brasileira firmou-se no exterior depois de Garota de Ipanema. Isso mesmo, a canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi o divisor de águas do cancioneiro popular nacional em plagas de além-mar.

Tudo aconteceu em 1967 com um telefonema de Frank Sinatra para Tom Jobim, convidando-o para gravarem juntos um disco. O resultado foi Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967), veículo esse que alavancou The Girl of Ipanema para o sucesso mundial.

Passados 50 anos, Garota de Ipanema, segundo apregoam revistas especializadas no ramo, atingiu a marca de a segunda música mais executada no planeta, atrás apenas de Yesterday (1965), dos Beatles.

Com a trilha aberta pela obra-prima de Tom e Vinicius e, devido o encurtamento de distancias decorrente da modernidade, a boa música brasileira como também a de má qualidade, chegaram a ouvidos exigentes ou àqueles nada seletivos do exterior.

Lógico, que em países de língua portuguesa a divulgação da música brasileira é mais intensa. O programa The Voice é o veículo ideal, no momento, para tal prática. Nas versões The Voice de Cabo Verde, Moçambique e Angola já concorreram interpretes defendendo Quando a Chuva Passar (Ivete Sangalo), Esse Cara Sou Eu (Roberto Carlos) e Depois do Prazer (Alexandre Pires).

Mas não fica apenas nisso. No The Voice Polônia defenderam Mais Que Nada (Jorge Ben Jor); no da Ucrânia e no mundo Árabe, candidatos concorreram cantando Ai Se Eu Te Pego (Michel Teló) …E por aí vai.

Todavia, imperdível foi a interpretação de Onde Anda Você (Tom e Vinicius) na voz do cantor português Tiago Nacarato, no The Voice Portugal. Dedilhando o próprio violão, o candidato nada deixou a dever a qualquer interprete brasileiro, tamanha a qualidade vocal imposta à canção.

Vale a pena conferir!

MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

Monumento aos mártires de Cunhaú e Uruaçu em São Gonçalo do Amarante-RN

O Rio Grande do Norte está em festa, pois no próximo domingo 15 de outubro, a Santa Sé incluirá 30 mártires do Brasil, beatificados em 5 de março de 2000 pelo Papa João Paulo II, no rol de adoração da Igreja Católica. Para que entendamos as razões das canonizações das três dezenas de fiéis, segue-se um resumo dos fatos.

Morticínio de Cunhaú – Em 1645 o Rio Grande do Norte era dominado pelos holandeses. Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas, chegou a Cunhaú no dia 15 de julho daquele ano onde já era conhecido dos nativos do povoado, pois ali passara outras vezes escoltado por índios Tapuias.

A visita do alemão naquele dia diferiu das anteriores porque, além dos indígenas, acompanhavam-no alguns potiguares e soldados holandeses. Dia seguinte, domingo 16 de julho, os fiéis da aldeia se reuniram para celebrar a Eucaristia indo à missa, como de costume, na capela Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú.

Jacob Rabbi afixara um edital na porta da igreja informando que, após a missa, repassaria ordens do governo. O padre André de Soveral iniciou a celebração e, no momento da consagração do Corpo e do Sangue de Cristo, as portas da capela foram fechadas e se iniciou o massacre.

Ao perceberem que seriam mortos pelas tropas, os fiéis não reagiram. Pelo contrário, confessaram suas culpas ao sacerdote, enquanto o padre André exortava-os a bem morrer rezando apressadamente o ofício da agonia.

Cunhaú integra atualmente o município de Canguaretama, onde os seus mártires são lembrados no dia 16 de julho.

Morticínio de Uruaçu – Três meses passados do massacre de Cunhaú, aconteceu outro com maior requinte de crueldade, em Uruaçu, no dia 3 de outubro, provavelmente sob as ordens do mesmo Jacob Rabbi.

Nesse massacre, após a Elevação, as portas da igreja também foram trancadas e o ritual feroz e desumano teve início com o corte das línguas dos fieis para que não proferissem orações católicas. Em seguida, deceparam braços e pernas das vítimas. Crianças foram partidas ao meio e a maioria dos corpos degolada.

O celebrante, padre Ambrósio Francisco Ferro, foi bastante torturado. Já o camponês Mateus Moreira, enquanto lhe arrancavam o coração pelas costas, exclamava: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”. De acordo com relatos históricos, os invasores holandeses ofereceram aos fiéis católicos a opção de conversão ao calvinismo, mas eles escolheram o martírio.

Uruaçu está encravado no município de São Gonçalo do Amarante e a data da chacina foi declarada feriado estadual.

Existem apenas seis santos brasileiros, mesmo assim pouco difundidos na comunidade cristã do país. Dentre eles, estrangeiros enviados em missão apostólica ao nosso território e que, ao serem canonizados pela Igreja Católica Apostólica Romana, foram também considerados santos do Brasil. São eles:

São Roque González de Santa Cruz (nascido no Paraguai), Santo Afonso Rodrigues (nascido em Zamora, na Espanha) e São João de Castilho (também nascido na Espanha), considerados os três mártires do Rio Grande do Sul; Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus (nascida na Itália); Santo Antônio de Sant’Ana Galvão (nascido no Brasil); e São José de Anchieta (nascido na Espanha).

Agora, com os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, junto a Mateus Moreira e outros 27 leigos, serão 36 os santos brasileiros para veneração.

CARTA PARA MIM MESMO

Nos meus 20 anos de idade escrevi uma carta para mim mesmo imaginando-me, no futuro, com 40 anos. Mas, ao completar quatro décadas de vida, não tive a menor preocupação de responder à missiva do adolescente que Eu fora.

O excesso de trabalho, compromissos circunstanciais ou o mero descaso me serviram de desculpa para tanto. Agora, com tempo suficiente, a saúde controlada e sem riqueza acumulada resolvo reparar a descortesia de meio século atrás, escrevendo estas linhas para aquele Eu, jovem sonhador, vivendo 1964.

“Prezado parceiro de sonhos e experiências deste mundão de meu Deus. Estive em falta com você durante anos, fato que lamento. Entretanto, esse foi um daqueles males passíveis de remediar sem causar sequelas. Tenho tanto o que lhe dizer que perderíamos tempo discorrendo sobre assuntos de somenos importância neste momento. Relendo a sua carta noto-a repleta de questionamentos e dúvidas. Pudera!”.

“Nela, você me perguntou se caso chegássemos aos 40 anos, se teríamos concluído a faculdade, constituído família e, em caso positivo, se valera a pena o sacrifício despendido. Por que tanta preocupação, cara? Por acaso foi receio de soçobrarmos na jornada antes da chegada à praia?”

“Pois bem, respondo com um duplo sim aos dois primeiros itens. Falando do último, claro que valeu! Recompensou estudar, casar e criar os rebentos para desfrutar, em seguida, de uma maravilhosa prole de netos. Os filhos dos filhos são presentes generosos que a natureza nos concede para consolar o limiar da existência”.

“Perguntou-me também: ‘Como evitar pirar antes dos 40 anos?’. Detesto dar ou receber conselhos de autoajuda, mas, no nosso caso abrirei uma exceção. Baseado no que vi e vivi, direi ser salutar trabalhar no que gostar, não tentar abraçar o mundo, tolerar as perdas, superar as frustrações, parar com as lamentações, apegar-se a pessoas e desligar-se de tudo o que nos sufoca. Talvez não tenhamos sido fieis a todas essas recomendações, mas no geral deu para o gasto e para o gosto”.

“Meu caro, a partir daquela nossa boa época de jovem foi-se ampliando o tempo de vida do brasileiro. Daí eu incluir aqui algumas experiências decorrentes dos outros anos que transpusemos juntos depois dos 40”.

“Cuidar do corpo é essencial. Ele é uma máquina que requer atenção permanente. Fuja do estresse. É difícil, mas procure sublimar pequenos problemas causadores de grandes desgastes emocionais. O percurso em si já é uma caixa de surpresas: umas agradáveis outras dolorosas. Mantendo o equipamento desregulado a caminhada será mais árdua”.

“Ah, se você possuísse telefone celular a conversa seria outra. Ops! Está vendo no que dá a ansiedade? Ela foi e continua sendo o meu ‘calcanhar de Aquiles’. Que pena nos haver faltado sabedoria para subjugá-la, dando mais valor à paciência. Você descobrirá que somos todos poços de imperfeições posando de modelos de virtude num mundo impiedoso para quem ousa ser o que realmente é”.

“Estimado Eu, obrigado por lastrear com equilíbrio o nosso caminho na juventude. Reconheço que você devotou o melhor de si para alcançarmos o atual estágio da vida. Está gravado no pátio do Templo de Apolo em Delphos, na Grécia, um aforismo atribuído ao próprio Delphos, que aconselha: ‘Conhece-te a ti mesmo’”.

“Quer sinceridade? Para nós, o ideal teria sido a descoberta antecipada de que ninguém é nada mais que si mesmo. Houve erros e acertos, é verdade. Porém, tudo valeu a pena porque viver é um eletrizante, edificante e extraordinário aprendizado”.

COISAS DETESTÁVEIS

Existem situações, atitudes e ocorrências do nosso cotidiano que, para alguns, parecem naturais, mas para outros assumem proporções detestáveis beirando o insuportável. O cronista mineiro Paulo Mendes Campos, 50 anos atrás, fez um rol de algumas situações execráveis, ao qual eu tomei a liberdade de acrescentar outras circunstâncias, fruto do progresso tecnológico da contemporaneidade.

Trocar pneus de automóvel, alarme de carro disparando de madrugada, ongestionamento de trânsito, celular com toque esdrúxulo, embalagem de plástico ou de papelão difícil de abrir, decifrar manual técnico de aparelho eletroeletrônico.

Ligação telefônica errada no meio da noite, britadeira desmontando pavimento de rua, pirralho gripado com nariz escorrendo o produto da infecção, flatulência silente ou tagarela seja ela anônima ou subscrita, giz arranhando quadro-negro (arre!), borrifo de espirro quando esse foge ao controle do espirrador (ah, quanto falta faz o velho lenço de guerra guardado do bolso traseiro da calça!).

Aguardar voo atrasado, preencher declaração de Imposto de Renda, tentar vestir a calça predileta e descobrir que o cós na ataca a cintura, gaiato sem graça tentando fazer graça em plateia de cinema, descobrir falsidade de um amigo e dor de barriga das brabas.

Outras: o riso irônico daquele desafeto preferencial, apertar mão suada, falsos elogios, miserabilidade em quem tem dinheiro sobrando, prego em carro causado por falta de gasolina ou bateria sem carga, procurar vaga em estacionamento lotado, procurar carro em estacionamento lotado, discurso de bêbado e chulé nem pés alheios.

Odor de axilas imune a desodorantes, ser tungado em conta de restaurante, recorrer ao serviço eletrônico de auxílio ao assinante das companhias telefônicas (disque 1 para isto, disque 2 para aquilo, disque 3 para sei lá o quê…)

Não acabei. Viajar de avião em três situações distintas: na cadeira do centro apertado entre dois gordos; na cadeira do corredor, ao lado de alguém com incontinência urinária; e, caindo de sono sendo incomodado por chato de carteirinha desejando entabular conversa.

Vigilante de carro que só vigia o seu retorno ao carro; esmoler, vendedor ou malabarista que assina ponto em semáforo; paletó escuro polvilhado de resíduos de caspa; e, choro de moleque malcriado provocando pais tolerantes.

São milhares de coisas detestáveis impregnando o nosso dia a dia. É lógico que cada pessoa dá a sua prioridade para aquilo que mais abomina. As aqui alinhavadas não fogem à regra. Podem ser mais detestáveis para uns do que para outros, mas, que todas são irritantes, ah, quanto a isso não guardo a menor dúvida.

INFAMES, MAS ENGRAÇADAS

Deleita-me a leitura de Duas Piadas por Dia, livro de autoria dos norte-rio-grandenses Max Azevedo e João Maria Monte. Trata-se de uma coletânea com 730 piadas para serem lidas durante um ano. Projeto despretensioso feito apenas para divertir os amigos. Eis alguns dos relatos repletos de humor:

Um velho e respeitável sertanejo, acometido de hemorroidas, procurou um proctologista. Feito o exame, o médico declarou: Realmente aqui na entrada nota-se um botão hemorroidário. Ao que o velho reagiu incisivo: Entrada, só se for no seu, no do seu pai ou no do seu avô… No meu, aí sempre foi saída!

Um grupo discutia sobre sexo, e a um integrante foi-lhe perguntado como gostava de sexo: Normal, anal ou oral? Ele de pronto respondeu: Eu prefiro esse oral, de hora em hora ou, então, esse normal, todo dia. Agora, esse anal, de ano em ano, é coisa pra doido!

A velhinha disse para o marido: Meu velho, olhe que coisa horrorosa… Está passando na televisão uma cena de sexo explícito! E ouviu: É não, minha velha…Voce não está vendo direito, porque está sem óculos… O que está passando é um barbudo comendo banana!

Duas velhinhas do interior pegaram carona num caminhão. Ao descer a serra, o motorista usou o freio motor para evitar acidente. O ajudante vendo a manobra gritou: Deixe de gastar gasolina, homem… Tire a marcha e meta na banguela! Ao ouvir a sugestão a velhinha desdentada retrucou: Em mim mesmo, não!

O médico: Sua mulher urina com abundância? O marido responde: Que é isso, doutor? É com a priquitância mesmo!

A moça casou e a mãe combinou com ela de perguntar, no dia seguinte, por telefone, se tudo correra bem. Mas, para disfarçar, a pergunta seria: Consummatum est? Feita a indagação na forma estabelecida, a moça respondeu: Est e oeste!

Um indivíduo criava dois papagaios machos, mas observou que um estava “faturando” o outro. Como eram muito parecidos, para saber quem era quem, mandou arrancar as penas da cabeça do que ficava por baixo, para saber quem era quem. Certo dia, com a gaiola colocada na janela que dava para a rua, ia passando um careca na calçada, e o louro perguntou: Ei, o amigo também queima a “rodinha”?

Um nordestino chegou a São Paulo, tomou um taxi, e pediu que o levasse ao centro da cidade. O motorista perguntou: Posso pegar o Minhocão? E ouviu do passageiro: Se souber dirigir com uma mão só, pode!

O bêbado acordou a mulher: Minha filha, temos que nos mudar desta casa, porque ela é mal-assombrada. Curiosa, a mulher perguntou: Por que você diz isso? Então, ouviu como resposta: Porque quando abri a porta do banheiro, senti aquele vento frio em cima de mim, e a luz acendeu sem eu tocar no interruptor! A mulher exclamou: Não é que o safado mijou de novo na geladeira!

Um sujeito foi ao urologista, e quando este foi fazer o toque prostático, disse: Doutor, pode fazer com dois dedos? Diante da perplexidade do especialista, ele complementou: É porque eu gosto de ouvir mais de uma opinião!

Na casa do amigo, o cara com vontade de tomar um whisky, mas sem lhe ser oferecido, saiu-se com esta: Dê-me notícias do Thomas! Então ouviu: Thomas? Que Thomas? E ele: Eu tomo, de preferência, aquele whisquinho com gelo!

O DIA QUE EU NUNCA ESQUECEREI

Depois de amanhã será 11 de setembro, o 254º dia do Calendário Gregoriano. Dia dedicado a São João Gabriel. Nessa data nasceram Carl Zeiss, Brian de Palma e Franz Bekenbauer, e faleceram Antero de Quental, Nikita Kruschov e Salvador Allende.

Ao longo da História fatos importantes destacaram o dia 11 de setembro, tais como a descoberta do Rio Hudson, por Henry Hudson, em 1609; a tomada de Barcelona durante a Guerra da Sucessão Espanhola, em 1714; e a chegada da sonda Mars Global Surveyor, a Marte, em 1997.

Todavia, nenhum evento no mundo, nas últimas décadas, marcou tão profundamente o sentimento humano quanto o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York e ao Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro de 2001, dezesseis anos atrás.

Em menos de duas horas foram eliminadas quase 3.000 pessoas e modificada a vida de milhares de famílias norte-americanas. Para melhor entendimento daquele trágico acidente atribuído à barbárie humana, tracei o seguinte resumo cronológico da ocorrência:

8h46: avião da American Airlines, que ia de Boston para Los Angeles atingiu a Torre Norte do World Trade Center;

9h03: aeronave da United Airlines, no percurso Boston – Los Angeles, acertou a Torre Sul;

9h37: outro avião da American Airlines, que viajava de Dulles, na Virgínia, para Los Angeles atingiu o prédio do Pentágono, em Washington;

10h03: aeronave da United Airlines que se deslocava de Newark para San Francisco foi derrubada num campo próximo de Shanksville, na Pensilvânia.

Às 10h28 a Torre Norte despencou.

Assistimos, naquela data, a ação de terroristas no sequestro de quatro aviões comerciais de passageiros resultando em 2.996 mortos: 246 nos quatro aviões, 2.606 na cidade de Nova York e 125 no Pentágono, além dos 19 terroristas.

Datas como essa se fixam na memória do indivíduo com um poder inexplicável. Eu lembro, como se fosse hoje, onde estava e o que fazia no momento em que recebi a notícia do ataque aos Estados Unidos.

Terça-feira, dez horas e alguns minutos, eu atendi telefonema de um colega engenheiro, anunciando: “Amigo, começou a III Guerra Mundial; estão atacando os Estados Unidos!”. Deixei a sala de trabalho e fui procurar um televisor. Encontrei-o no auditório da repartição onde estavam outros funcionários. Entrei no salão no exato instante em que a primeira das torres gêmeas desabava.

Pequenos pontos escuros escapuliam das torres em chamas para o vazio. Tratavam-se de pessoas tentando se ver livres da fumaça e do calor do incêndio. Em termos de Engenharia, uma imagem espetacular, se assistíssemos a implosão de edifícios de 526 metros de altura. Porém, víamos um retrato aterrador e em tempo real, de ação terrorista perpetrada contra civis numa manhã de trabalho normal.

Uma sensação horrorosa que eu não gostaria de sentir novamente no restante dos anos de minha vida. Entretanto, também, um motivo para profunda reflexão sobre os destinos da humanidade.

11 de setembro de 2001 será a data que eu jamais esquecerei, porque marca a implantação, pelo fanatismo religioso, da aterradora, covarde e irracional ação destruidora do terrorismo no seio da civilização.

VELHICE EM ANOS DOURADOS

Na adolescência eu trabalhava como mensageiro durante meio expediente para ganhar meio salário mínimo numa construtora com sede na Ribeira, em Natal. Atravessava diariamente a Praça Augusto Severo e ali encontrava pessoas saudáveis jogando cartas, dominó, gamão ou “porrinha” e as tachava de boas-vidas.

Não entendia o porquê de eu dar um duro danado trabalhando e estudando, enquanto elas se permitiam o luxo de nada fazer. Hoje admito o quanto estava enganado. Aqueles desocupados eram aposentados em gozo do ócio merecido.

A cena bucólica de antigamente desapareceu. Agora, na doçura do nada fazer, os idosos, curtem mesas de bares, aos sábados, e praias aos domingos.

Certa feita, enquanto aguardava amigos num desses bares da moda, eu bisbilhotava o bate-papo de aposentados em mesa vizinha a minha. Ouvi o seguinte:

– E aí rapaz, o que anda aprontando agora? – pergunta um deles.

– Estou desfazendo à tarde o que fiz de manhã! – responde outro.

– Está gostando da vida de aposentado? – insiste o primeiro.

– Se eu soubesse que era tão boa essa vida não teria sequer começado a trabalhar. Na admissão, eu já entraria com o pedido de aposentadoria. A gente faz o que quer, quando quer, na hora que bem entender – e continua:

– Agora, sem sacanagem. Estou fazendo coisas que nunca imaginei fazer ao longo da minha existência. Conhecer o mundo e me dedicar a atividades diferentes daquela na qual passei a vida trabalhando são algumas delas.

Realmente, em apenas meio século, o mundo virou de ponta cabeça e essa rotação acarretou radical transformação nos costumes dos povos. Os idosos de hoje não se satisfazem em sonhar com bailes de máscaras como os descritos em Dom Casmurro, de Machado de Assis, nem com as fantasias sexuais de Capitu, Bento e Escobar.

Tampouco matam o tempo em jardins de praças públicas. Muitos permanecem rijos e ativos. Trabalham, praticam esportes e exercícios sexualistas. Pudera. Vivenciamos a era da globalização, do encurtamento de distancias, da informação em tempo real, do prolongamento da existência, da melhoria da qualidade de vida, da liberdade sexual e do Viagra.

A imagem da avó rechonchuda, de vestido austero e óculos de grau apoiado na ponta do nariz ensinando a netinha o dever de casa, essa, há muito desapareceu dos reclamos comerciais.

É difícil encaixar tal cena no extraordinário mundo novo. As vovozinhas de agora desfilam silhuetas provocantes de mulheronas espevitadas, atuantes e indóceis, enquanto os vovôs adoram parecer garotões sarados, serelepes e antenados enganando as limitações da idade.

Isso acontece porque os anseios dos idosos são outros, onde prevalece a vontade de continuar trabalhando por prazer e de se manter socialmente ativo a maior parte da vida que lhes resta.

Chegaram os amigos sessentões e entabulamos nosso papo. Lá pras tantas perguntei a um deles que passara por delicado problema de saúde:

– Como você preencheu o tempo durante o período no estaleiro?.

– Passei os dias escrevendo poesias, atualizando minha cinemateca e vendo vídeos pornográficos na internet” – respondeu ele com sinceridade.

Pois sim, a terceira idade de hoje vive, realmente, seus anos dourados!

O FARDO NORDESTE

Os ataques dirigidos pelas redes sociais à estudante piauiense de administração Monalysa Alcântara, uma negra e nordestina eleita Miss Brasil 2017, traz à baila um preconceito já bastante nosso conhecido.

Há tempo que o Nordeste convive com a incômoda pecha de fardo demasiadamente pesado para o Brasil. Volta e meia torna-se moda discriminar nordestinos. Somos os responsáveis pelo desemprego, pela inflação alta, pela recessão, pela marginalização e por tudo de ruim que acontece à nação. 

Falta apenas nos acusarem pelas enchentes e geadas do Sul, pelas possíveis quebras das safras agrícolas e pela diminuição da camada de ozônio que circunda o globo terrestre.

Num passado não tão distante estava em voga a onda separatista. Falava-se nessa possibilidade com tanta propriedade, que se antevia a certeza de estarem sanados todos os males do país com o desligamento do Nordeste do mapa do Brasil.

É difícil acreditar que um complexo regional composto de nove estados, correspondendo a 20% do território nacional e contendo 30% dos habitantes do país, não sobrevivesse uma vez separado.

Lembremo-nos que do século XVI ao século XVIII essa região abrigou a maioria da população do Brasil-Colônia e, por mais de 200 anos, a sede do governo-geral do país, em Salvador.

A ideia que se tem do Nordeste como uma região diferenciada no espaço brasileiro, remonta do início do século XX, quando a industrialização do Sul coincidiu com a decadência econômica das áreas nordestinas. A partir daí nos tornamos, para muitos, a “região problema”.

Sim, nos tornamos uma área populacional repulsiva, que produz apenas mão-de-obra para as demais regiões, e que necessita da constante ajuda governamental para se desenvolver.

Separados, teríamos que mudar de comportamento e encontrar o nosso próprio caminho. Depuraríamos os escolhidos para representar o povo, criaríamos mecanismos para fixar o nordestino à terra, concluiríamos o mitológico programa de irrigação – mirem-se em Israel – e, incrementaríamos a indústria que mais potencial possui para crescer na região: o turismo.

Quanto ao nome desse novo país… Bem, ele poderia se chamar Brasil. Afinal de contas foi essa a designação dada, posteriormente, à Terra de Santa Cruz, quando do descobrimento do novo mundo, com base na árvore do mesmo nome que florescia ao longo da costa nordestina.

Tudo isso não passa de especulação. Imaginar o nosso país dividido é algo inconcebível para a maioria dos brasileiros. E mesmo com todas as dificuldades que atravessamos – e que teremos ainda de enfrentar -, a ideia da separação está restrita a grupos isolados e sem representatividade suficiente para deflagrar movimento de alcance nacional. Apesar de todo o preconceito.

Temos orgulho de integrarmos uma das cinco regiões brasileiras, mas, jamais abdicaremos da origem, da tradição, da cultura e do amor pelo Nordeste.

TRÊS DÉCADAS SEM GONZAGÃO

Homenagem da cidade de Campina Grande-PB ao “Rei do Baião”

O dia 2 de agosto transcorreu sem nenhuma alusão à memória do maior ídolo do cancioneiro popular nordestino. Isso mesmo, em 1989 falecia em Recife, aos 77 anos de idade, o nosso Rei do Baião. Sem percebermos, já se passaram 28 anos da ausência de Luiz Gonzaga no meio artístico nacional… Quase três décadas.

Não custa nada relembrar um pouco da trajetória do pai adotivo de Gonzaguinha. Luiz nasceu numa sexta-feira 13, no mês de dezembro de 1912, na fazenda Caiçara, área urbana do município de Exu, em Pernambuco.

Januário, seu pai, deu-lhe o nome Luiz homenageando Santa Luzia, cuja data a ela dedicada coincidiu com a do nascimento do menino. Quanto a tocar acordeão, ele aprendeu com o pai ainda criança.

Um desencanto amoroso fez o rapaz deixar a casa de Januário e Mãe Santana para ingressar no Exército, onde permaneceu por nove anos. Deixou a caserna quando morava no Rio de Janeiro para se dedicar à música. Luiz nunca renegou suas origens e se manteve fiel ao gênero musical que o consagrou.

A jornalista Ana Krepp, da Revista da Cultura, assim resumiu a carreira musical de Gonzagão: “O rei do baião pode ser também considerado o primeiro rei do pop do Brasil. Pop, aqui, empregado em seu sentido original, de popular. De 1946 a 1955 foi o artista que mais vendeu discos no Brasil, somando quase 200 gravados e mais de 80 milhões de cópias vendidas”.

O cineasta Breno Silveira, diretor da película Gonzaga – De pai para filho, filmada em 2012, enfatizou: “Comparo Gonzagão a Michael Jackson. Ele desenhava as próprias roupas e inventava os passos que fazia no palco com os músicos”.

Luiz Gonzaga também compunha. Parcerias com Zé Dantas e Humberto Teixeira resultaram em sucessos estrondosos na sua carreira. É difícil esquecer músicas como A Letra I, Acauã, A-bê-cê do Sertão, Asa Branca, Cintura Fina, Feira de Gado, Lorota Boa, No meu Pé de Serra e Respeita Januário, dentre dezenas de outras joias de sonoridade ímpar responsáveis pela construção da identidade musical nordestina. O apelido “Lua” foi-lhe posto pelo violonista Dino Sete Cordas.

Nas músicas de Gonzagão o Nordeste é exaltado com sentimento e inteligência em letras que traduzem os costumes, as tradições, a arte e a vida de dificuldades daqueles que habitam a região mais atingida pela seca sistêmica, em nosso território.

Além do colorido musical do baião, Luiz Gonzaga divulgou para o Brasil outros ritmos com o xaxado, o forró e o xote, além de instrumentais como o zabumba e o triângulo. Alegria foi a marca musical de sua obra. Porém, ele também soube dar recados bem-humorados ao perceber seu estilo musical ser superado.

Isso ficou patente no final dos anos 50. Luiz “Lua” Gonzaga, até então campeão na venda de discos no país, começou a perder espaço para o Iê-iê-iê e para a Bossa Nova. Ao conhecer o trabalho de Zé Clementino – compositor cearense -, encomendou-lhe uma música para enquadrar a nova onda de “cabras” de cabelos grandes, pulseiras, medalhões nos pescoços, calças justas, saltos altos e fivelões.

O resultado foi o “Xote dos Cabeludos”, caracterizado pela agradável sutileza paquidérmica. É ouvir e conferir a beleza de sonoridade e poesia contidas no trabalho do Rei do Baião, predicados esses tão em falta na MPB de hoje.

AMIGOS DE ONTEM E SEMPRE

Minha adorada mãe repetia à exaustão esta ladainha: “Seus verdadeiros amigos são seus país e irmãos, pessoas com quem vocês contam a qualquer hora. Amigo é aquele que fica para ajudar quando todo mundo se afasta”.

Exagero à parte, a sabedoria materna aduz a decepções constatadas no cotidiano da vida como ela é. Existem sim, amizades duradouras e confiáveis fora do âmbito familiar. Existem aqueles amigos de comunicação esporádica, contudo de presença perene na lembrança da gente.

Amigos, cuja amizade aparenta amornar com afastamentos prolongados, mas que o calor do abraço do reencontro aflora a afeição de antes. Os amigos da infância e dos bancos escolares raramente decepcionam, e não é à toa que os meus ocupam espaços de destaque em quaisquer das listas de pessoas queridas.

Deles guardo, no álbum de recordações das amizades, os retratos sentimentais que a memória protege do esquecimento. Recorro amiúde ao repositório dessas reminiscências a fim de atenuar o excesso de saudade.

No meu caso, a maioria dos amigos de infância habitava uma mesma área contida num círculo de raio não superior a 300 metros. As famílias se respeitavam e se visitavam. Os pais identificavam a todos pelos nomes próprios, não pelos apelidos, e conheciam as virtudes e as falhas (falhas?) de cada um deles.

Eles, por sua vez, se faziam merecedores dessa deferência, jamais esquecendo de acrescentar “seu” ou “dona” ao nome de cada pai ou mãe do amigo. As recordações do convívio com essas criaturas queridas fazem-me sorrir sozinho em momentos de contemplação.

Alguns já encetaram a derradeira viagem; outros, ainda pelejam nas campinas da existência pela manutenção ou concretização dos sonhos. Seus nomes, por egoísmo, não os declino.

Dois desses amigos viviam às turras. O falecido, leitor contumaz de almanaques da época, desfrutava o prazer de testar nosso conhecimento com perguntas de bolso para ridicularizar qualquer incorreção nas respostas.

O outro, tipo grosso-ternura, nunca foi afeito aos estudos. Leu ou ouviu, em algum lugar, algo sobre “Pompéia ser riscada do mapa pelo Vesúvio”, e quis saber: ”O que é Vesúvio?”. O falecido, sabedor dos limitados conhecimentos gerais do colega, esclareceu a dúvida: “Vesúvio são os pássaros que voam mais alto!”.

Gozação geral. O tempo passou e uma armadilha foi montada para dar humildade ao sabichão. Na época, era sucesso uma regravação de “Jura”, música de Sinhô, de 1929, com a maliciosa alusão sexual contida num dos versos da letra da canção: “…daí então, dar-te eu irei/ o beijo puro NA CATEDRAL DO AMOR”.

O falecido caiu na tolice de perguntar onde ficava a CATEDRAL DO AMOR na anatomia feminina. O grosso-ternura, instruído pela turma, respondeu: “Na testa, local onde se situa o cérebro que abriga toda a beleza da sabedoria humana!”.

O desfecho desse caso ocorreu num dos vesperais domingueiros do Aero Clube de Natal. O almanaquista-falecido, após longo flerte, usufruía os louros de uma difícil conquista dançando sob o olhar severo da família da moça.

Soubemos depois os detalhes do infeliz diálogo que ele protagonizou com a beldade: “Já que estamos nos entendendo tão bem, posso te fazer um pedido?”. “Depende do pedido!” – respondeu a jovem entre manhosa e provocativa. “Desejo dar-te um beijo NA CATEDRAL DO AMOR!” – foi o apelo.

Perplexo, o conquistador viu-se empurrado e largado sozinho no meio do salão, não sem antes ouvir o destempero da ex-futura namorada: “Dê-se a respeito, seu nojento!”.

Música de Sinhô interpretada por Walter Alfaiate & Negra Li:

DIO COME TI AMO

O cinema nunca deixará de ser uma grande diversão. O instrumento ideal para contar histórias verdadeiras ou inventadas, bem como adaptar literatura romanceada com o intuito de distrair, instruir ou, simplesmente, fazer as pessoas felizes.

Ele veio para ficar, pois já são passados 118 anos desde a primeira exibição de um filme na telona, projetado pelos irmãos Louis e August Lumière para expectadores da cidade de La Ciotat, sul da França, em 21 de março de 1899.

E falar de cinema é lembrar filmes românticos que marcaram várias gerações de indivíduos apaixonados ou de casais enamorados, que escondiam as emoções no escuro aconchegante das salas de projeção.

Então, por que menosprezarmos um divertimento capaz de proporcionar momentos memoráveis de deslumbramento, mediante uma mistura de movimentos, diálogos, músicas e cores, que marcam as vidas de tantas pessoas?

Daí a razão para não esquecermos o drama-romance épico …E o Vento Levou (1939), nem a fala final de Rett Buttler (Clark Gable) para uma Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) apaixonada: Francamente, minha querida, eu não dou a mínima!

Motivo idêntico para não fugir da memória Casablanca (1942) nem o diálogo da despedida de Nick (Humphrey Bogart e Ilsa (Ingrid Bergman): Ilsa: E quanto a nós? Nick: Nós sempre teremos Paris. Isso sob acordes da música As Time Goes By.

Quanto bem nos faz relembrar o casal William Holden e Jennifer Jones em Suplício de uma Saudade (Love is a Many-Splendored Thing – 1955), bem como o enlevo desfrutado por Tyrone Power e Kim Novak em Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story – 1956) ou, ainda, o drama de Ryan O’Neal e Ali MacGraw em Love Story – 1970.

Impagáveis sucessos de bilheteria foram, também, Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time – 1980), com Christopher Reeve e Jane Seymour; Ghost: Do Outro Lado da Vida – 1990), com Demi Moore e Patrick Swayze; e, Uma Linda Mulher (Pretty Woman – 1990), com Julia Roberts, deslumbrante, seduzindo Richard Gere.

Ainda dentre os festejados filmes românticos gostei de Diário de Uma Paixão (The Notebook – 2004), com Ryan Gosling e Rachel MacAdams; e, do não tão recente Amor Além da Vida (What Dreams May Come – 1988), de onde pincei esta fala, exemplo típico do que produz a fábrica de emoções chamada cinema: Você é tão maravilhosa que faz um homem preferir o inferno ao invés do céu só para ficar com você.

Uma das mais apaixonantes histórias de amor levada às telas, foi a tragédia romântica Romeu e Julieta. Filmaram inúmeras versões do clássico de William Shakespeare, porém a escolhida do público é a do diretor Franco Zeffirelle (1968), e a fala mais lembrada é o monólogo de Julieta ante o inerte Romeu:

O que é isto? Um frasco tão apertado na mão do meu fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que tão cedo o levou. Oh! Egoísta! Para que bebeste tu todo, e não deixaste uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo?… (beija-o) Os teus lábios ainda estão quentes!… Oh, punhal abençoado! Eis a tua bainha!… (apunhala-se) Cria ferrugem em meu peito e deixa-me morrer! (cai sobre o cadáver de Romeu e expira).

E para encerrar esta excursão romântica pela sétima arte, nada melhor do que a película que fez “gatinhas” chorarem a cântaros, ao lado de marmanjos durões fungando para esconder lágrimas sorrateiras. Trata-se de Deus, como te amo (Dio, come ti amo – 1966), isso 51 anos atrás. Afinal, sempre existirão pessoas que adoram sonhar!

No vídeo abaixo, o final feliz do citado filme italiano.

SIMPLIFICAR PRA QUÊ?

Fazia algum tempo que eu sentia a cabeça martelar de frustração, devido minha inabilidade no manuseio de equipamentos eletrônicos. Isso mesmo! Uma total falta de concatenação quando posto diante da complexidade operacional dos sofisticados aparelhos de processamento de dados e de comunicação.

Acostumei-me a ver crianças de cinco, seis anos de idade, destrinchando aplicativos de Tablet, iPhone, iPed, iPod, iNão-sei-o-quê com facilidade incomum, enquanto eu patinava nas operações preliminares. Logo surgiu a dúvida e, dela, o questionamento: Falta-me tendência para a informática ou é burrice mesmo? 

Aliviei-me porque o martírio resultou, em parte, num final feliz. Pesquisa recente feita na Inglaterra, deu conta da imperícia no manuseio da parafernália eletrônica por parte dos súditos de Sua Majestade Elizabeth II.

Cerca de 70% dos cidadãos utilizavam apenas as funções básicas daqueles dispositivos. Porém, a dificuldade não se restringia somente ao trato com equipamentos complexos. Incluídos estavam, também, aparelhos simples integrantes do cotidiano de cada um deles.

Do computador a máquina de lavar, passando pelo telefone celular, geladeira, máquina fotográfica e televisão, todos os eletro-eletrônicos comuns nas residências e nos escritórios.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha, ícone da televisão brasileira de 1950 a 1980, dizia: Eu vim para confundir, não para explicar! Adaptemos o jargão do apresentador para a atualidade: Se a gente pode complicar, pra que simplificar?

Os fabricantes, alegando adaptações indispensáveis, complicam esses aparelhos para encarecer as engenhocas. Entendo que, no Brasil, o resultado da pesquisa não seria diferente daquela realizada na Inglaterra.

É impressionante como a coisa funciona. Um exemplo é a máquina de lavar roupa. Uma vez localizado o painel, encontrar o interruptor liga/desliga já é uma baita sorte, pois teremos de visualizá-lo dentre a infinidade de botões idênticos. A partir daí, somente com o auxílio do intrincado manual de operação: nível de água, avança programa, performance, enxágue extra, função amaciante, e por aí vai.

A geladeira, antes um eletrodoméstico de fácil manuseio, agora contém verdadeira “Torre de Babel” de aplicativos. O forno micro ondas não foge a regra. Pra que tudo isso? Bastariam duas operações: ligar e desligar. E ponto final!

E o que dizer das máquinas fotográficas de última geração? O dispositivo criado, no passado, para registrar momentos de pura beleza e satisfação, hoje, não passa de uma máquina de fabricar debiloides em razão da complexidade funcional oferecida ao fotografo. E não me venham dizer que é fácil manuseá-la, pois existe até curso para tanto.

Abre-se o menu e lá surgem aplicativos do tipo ajuste de sombra, tamanho de imagem, compressão, modo AF, zoom digit, restaurar, orientação de foto, guia de ícones, flash remoto, marca de data, ver gravação, et cetera e tal. Por que não deixar tudo no modo automático para se resumir a operação com um simples click?

Nem falei ainda do top de linha do telefone celular nem do inigualável computador do momento. Agora que descobri não ser tão burro assim, dispenso explicações. Continuarei utilizando tão somente as funções básicas dessas doideiras digitalizadas. Isso se ainda as mantiverem nos equipamentos.

AZNAVOUR, A LENDA VIVA

Nas décadas de 60 e 70 era comum ouvirmos música romântica francesa em discos, filmes ou em programas de emissoras de rádio pelo Brasil. Algo raro atualmente. Daí a razão das vozes de Edith Piaf, Maurice Chevalier, Yves Montand, Silvie Vartan, Johnny Hollyday, Mireille Mathieu e Gilbert Bécaud me soarem familiares.

No clique, Aznavour e Edilza, minha esposa – Recife, Set/2008

Edith Piaf é a representante feminina que melhor traduz a música da França, todavia, a divulgação do cancioneiro francês, numa amplitude global, foi obra de um protegido seu. Refiro-me ao cantor e compositor Charles Aznavour.

Convidado por Piaf para acompanhá-la em turnê pela França e Estados Unidos, o jovem Aznavour viu sua carreira decolar. E como decolou! Ele compôs próximo de 850 canções e, poliglota, gravou músicas em inglês, italiano, espanhol e alemão. Já superou os 100 milhões de discos vendidos compilados em mais de 100 álbuns.

Como se não bastasse, Aznavour teve uma longa carreira paralela como ator, participando de mais de 60 filmes. Considerado o Frank Sinatra da França, ele também exaltou o amor. Com a morte de Sinatra tornou-se o último dos crooners ao velho estilo, e um dos mitos da canção e do cinema franceses.

Em 1988 Charles Aznavour foi eleito o artista do século pela CNN e pelos usuários da Time Online espalhados pelo mundo. No início do outono de 2006, iniciou a sua turnê de despedida apresentando-se nos Estados Unidos e no Canadá.

Em 2007, excursionou pelo Japão e resto da Ásia. Em 30 de setembro de 2006, Aznavour participou de um grande concerto em Erevan, capital da Armênia, terra natal de seus pais.

O cantor veio ao Brasil em quatro oportunidades: em abril e setembro de 2008; em maio de 2013; e, em março deste ano. A crítica especializada elogiou a sua recente turnê pelo Brasil com ele beirando os 93 anos de idade. A baixa estatura (1,60m) e a idade avançada em nada atrapalham o seu domínio de palco e, pelo visto, somente a morte afastará o cantor das luzes da ribalta.

Assisti à segunda apresentação de Aznavour no Recife, numa sexta-feira, dia 12 de setembro de 2008, no Chevrolet Hall. Na época, Aznavour estava com 84 anos, e contava com o magnetismo vocal de sempre. Um espetáculo acalentador para fãs e admiradores do trabalho do cantor-ator.

Viajamos para Recife, eu, minha esposa Edilza e um casal amigo (Fernando e Marinez), e nos hospedamos no Dorisol Recife Grand Hotel (hoje Wyndham Garden Recife), em Piedade, para o pernoite.

Dia seguinte ao show, durante o café da manhã, nos deparamos com músicos integrantes da banda do cantor. Nada de anormal! Certamente, não seria ali onde encontraríamos o badalado Charles Aznavour. Imaginá-lo hospedado junto à sua equipe como um simples e humilde mortal? Jamais! Aconteceu de ele estar lá, sim!

As mulheres descobriram sua boa vontade para com os fãs, e ficaram alvoroçadas à espreita do astro para obterem autógrafos. E nós, os maridos, fingindo certa relutância, torcendo para que ele aparecesse. Perdeu-se uma parte da manhã até a celebridade surgir. Gentil e pacientemente ele distribuiu autógrafos e posou para as fotografias solicitadas.

Quanto a mim, satisfiz-me clicando a lenda viva da história da música francesa. Após a sessão fotográfica, num atrevido sotaque franco-tupiniquim, tasquei-lhe um Merci, monsieur Aznavour!… Nadica de nada incomodou-me ficar sem resposta para aquele cumprimento abobalhado.

RIR É O MELHOR REMÉDIO

Houve um tempo em que a família brasileira era leitora fiel da revista Seleções – nome da versão brasileira da Reader’s Digest. Circulando no país desde fevereiro de 1942 e vendida predominantemente por assinatura, Seleções sempre apresentou um formato peculiar: menor do que um periódico como a VEJA e maior do que um livro de bolso.

A publicação contempla assuntos diversificados incluindo conhecimentos gerais, biografias e literatura com a intenção de educar e estimular a leitura. Durante anos meu pai manteve uma assinatura de Seleções, da qual eu soube tirar proveito.

Deleitavam-me, em particular, as anedotas publicadas nas seções “Ossos do ofício”, “Flagrantes da vida real” e “Rir é o melhor remédio”. Tais quais as suas matérias leves e informativas, as piadas nunca descambavam para o grotesco ou para a vulgaridade.

Remexendo em tralhas esquecidas num depósito encontrei alguns exemplares antigos da revista. Desacostumado com a leitura de Seleções, foi movido pelo inconsciente que comecei a folhear o achado. Talvez, para encontrar resquícios escondidos do meu passado. Deles pincei estas pérolas de humor refinado:

1. “Antes de nos casarmos, eu saía com homens mais inteligentes que você!” – grita a mulher raivosa para o marido. “Eu sei!” – rebate ele. “Sem dúvida foram pessoas inteligentes o bastante para não cometerem o erro que cometi”.

2. Totalmente calvo aos 70 anos, o homem olhou-se no espelho e disse ao filho: “Extraordinário!”. “O que papai?”. “Na minha idade, e nenhum fio de cabelo branco na cabeça”.

3. O chefe de Recursos Humanos explica a um jovem solteiro a razão de não contratá-lo. “Desculpe, mas nossa empresa só trabalha com homens casados”. “Por quê? Por acaso eles são mais inteligentes e competentes que os solteiros?”. “Não, eles estão mais acostumados a obedecer”.

4. No jardim do Éden, Eva pergunta a Adão: “Você me ama?”. Adão responde: “E eu tenho escolha?”.

5. O velho acaba de morrer. O padre encomenda o corpo e se rasga em elogios: “O finado era um excelente cristão, um pai exemplar, um marido fiel…!”. A viúva, então, se vira para um dos filhos e lhe diz ao ouvido: “Vá até o caixão e veja se é mesmo o seu pai que está lá dentro!”.

6. Pouco antes do casamento, o pai da noiva se aproxima do noivo e pergunta: “Meu rapaz, o senhor tem condições de sustentar uma família?”. “É claro!” – responde ele. “Ótimo, somos nove!” – alegra-se o pai.

7. A mulher queixava-se ao marido: “É um desaforo! Vocês passam o tempo todo falando mal das sogras. Elas também são humanas”. “Não se queixe, querida. Eu nunca falo mal da sua sogra. Sempre falo mal da minha”.

8. “Gostaria de morrer dormindo, como aconteceu com meu avô. E não gritando de terror, como os passageiros do ônibus que ele dirigia”.

9. Dois casais jogavam cartas todo domingo, havia 40 anos. Na falta de assunto, um dos homens disse: “Ando me esquecendo de tudo… Resolvi fazer um curso para melhorar a memória”. O outro: “Isso me interessa. Onde é o tal curso?”. O primeiro pensa e pergunta: “Como se chamava a mulher de Abraão?”. E ouve: “Sarah”. Virando-se para a esposa, tasca: “Sarah, onde é mesmo o curso que estou fazendo?”.

Realmente, rir ainda é o melhor remédio.

ENCOMENDA ESQUISITA

Sábado desses acordei com o toque irritante do telefone. Antes de me certificar quem chamava consultei o relógio de cabeceira que marcava 6h15. Era a esposa de um velho amigo. Ela sequer me cumprimentou indo direto ao assunto: Vocês estão com alguma viagem programada para os Estados Unidos? Respondi enfastiado: Não. Por quê? E ouvi: Preciso comprar um produto para salvar o nosso casamento!

Curioso, arrisquei saber quão especial era a encomenda para a amiga me acordar àquela hora. Dissipadores de gases intestinais! – adiantou-me ela. Acostumado com as presepadas da figura, mandei-a procurar outro freguês para fazer de otário e me deixar dormir. Desfiz a ligação e tentei reconciliar o sono.

Passado algum tempo, já desperto de todo, comecei a matutar sobre a pretensa pegadinha da amiga. Recorri à internet e, para minha surpresa, descobri que existe o tal artifício para amenizar a ação de puns insuportáveis. Trata-se de um produto bizarro, criado por conta de uma situação mais grotesca ainda.

Vale a pena reproduzir a história, pois é provável que inúmeros casamentos enfrentem o problema de uma vida amargurada, diante da possibilidade de desenlace de uma união estável por conta de gases intestinais. Afinal, tanto é difícil conviver com o mau cheiro gaseificado do parceiro, quanto atinar para a solução de como eliminá-lo.

Um casal norte-americano estava com o matrimônio em crise. A esposa convivia com um distúrbio inflamatório crônico chamado doença de Crohn. Tal inflamação afeta o trato digestivo causando diarreia, dor abdominal e, o pior, agrava o mau cheiro da flatulência.

Os frequentes e fedidos traques da mulher estavam tirando do sério o até então compreensivo marido. Para tentar salvar seu casamento o dito cujo procurou uma saída consensual e prática, pois ainda prezava a peidorreira como bem comprova a solução encontrada.

O artefato anti-pum nada mais é do que uma roupa de baixo com um filtro removível na parte de trás. O inventor tomou por base filtros de máscaras respiratórias utilizadas por trabalhadores de minas de carvão. O problema do casal foi resolvido e hoje eles vivem das rendas obtidas com a comercialização da invenção.

Podem rir, mas é a pura verdade. Para os Interessado no produto, as calcinhas e cuecas anti-pum são negociadas pelo site virtual Under-ease, que entrega as peças no mundo todo. É ver para crer ou, se for o caso, usar e praticar para saber.

Determinados artefatos, em momentos de extrema necessidade, saem da faixa da esquisitice para assumirem a condição de imprescindíveis e nada estranhos. Um exemplo já assimilado pela população idosa é a peça íntima fabricada para quem sofre de incontinência urinária.

Somente será entendido o seu real valor prático, quando o indivíduo estiver diante da constrangedora situação de não mais poder controlar a micção num ambiente público sem tempo de acorrer a um mictório.

O telefonema da amiga deixou-me uma lição. Num mundo virado de ponta cabeça como o nosso, até o impossível é admissível. A partir de agora não estranharei nenhuma compra que me peçam para fazer, por mais absurda que pareça.

Evitei perguntar pelo usufrutuário da encomenda, embora já desconfie quem seja, no casal, o desventurado portador da doença de Crohn.


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