http://www.simonemouramendes.com/
UM PAPAI DE VANGUARDA

Uma alegria invadira o lar de um jovem casal: a vinda da primeira filha – que prêmio dadivoso!

De permeio, viera a insegurança de mãos dada com a inexperiência, fora-se o descanso noturno, as noitadas a dois… O bebê chorava tanto que houvera suspeita de acometimento de alguma doença. A Pediatra que o monitorava quase todas as semanas examinava cada possibilidade da literatura médica, sem que nada houvesse sido descoberto. Quando o choro estancava, esse casal absorvia-se com imensurável amor naquela vida recém-inaugurada a cumular um novo sentido à sua existência.

A mãe aumentara muito de peso durante a gestação, de modo que após o parto somente as roupas da gravidez continham o seu corpo. O remédio seria amamentar a criança, com menos de um mês de nascida, e correr até o Centro da cidade em buscas de algumas roupas novas, deixando-a aos cuidados do papai. Não decorrera uma hora de sua saída e o bebê iniciara uma sessão de choro sem precedentes, a perdurar até o retorno daquela que lhe trouxera ao mundo. O pai, completamente desnorteado, usara de inúmeros recursos para acalento, incluindo oferecer à filhinha seu peito cabeludo, o que fora de plano por ela rejeitado. Nada resolvera, senão os seios e o calor da própria mãe!

Além de tentar amamentar – numa situação de extremo desespero, é óbvio! – esse Pai fazia companhia à sua esposa em todas as mamadas do dia ou da noite, colimando oferecer-lhe tanto o carinho da presença como sua vigília em caso de eventual cochilo da nutriz, o que não seria improvável em virtude do irregular ritmo de sono do bebê. Ademais, considerando a precariedade dos recursos financeiros para compra de fraudas descartáveis, o papai lavava com o vigor de sua força as de pano manchadas pelo mecônio, madrugadas a fora, enquanto o neném estaria sendo alimentado. Essas atitudes de nobreza renderam-lhe muita admiração dessa neófita mamãe.

Esse papai sempre fora obcecado por organização, alinhamento, limpeza, padronização, de tudo o que seus olhos alcançavam. Ele mesmo fazia questão de arrumar até os mantimentos no armário a fim de que tudo ficasse na ordem por si propugnada.  A esposa esboçava muitas ponderações, inobstante tratar com parcimônia de revides certas questões imerecidas de maiores consumos emocionais. A filhinha, por sua vez, à medida que crescia, pressionava-lhe a rever seus conceitos. 

Em dada ocasião, a garotinha, com cerca de onze meses de idade, conseguira arrancar do corpo a frauda e não se preocupara com as convenções socais: agachara-se para desfazimento de seu bolo fecal. O pai, antes que o volume se precipitasse ao chão, sustivera-o em suas mãos e fora-o equilibrando até atirá-lo na privada. A mãe questionara-lhe a razão dessa conduta, já que o chão poderia ser limpo com água e desinfetante. 
Respondera-lhe resoluto: eu evitei sujar o chão, ora essa! Sujar a mão pode, o chão, não – que tipo de loucura é essa? Indagara-se a mãe.

Ao longo do tempo, com a família mais elastecida, foram muitas as manias e bizarrices objuradas e contestadas pelos filhos e esposa. Tudo, na medida do possível, regado de muito amor, humor e carinho, porquanto, de outro modo, o hospício seria alternativa para quaisquer de seus membros. Não se pode duvidar, entretanto, tratar-se de um pai de vanguarda nos idos de 1988! Felicitações ao papai e à família que souberam empregar sabedoria para conviver com os pesos e contrapesos do dia a dia!


http://www.simonemouramendes.com/
A SINA DE UM LAVRADOR

O suor brota da tez rubra
já tão arduamente sovada
pelos infortúnios pitorescos da vida
no sol causticante de todo o dia 

À hora do ocaso… não há mais a lembrança
de toda a  luta que pôde suportar
e na sua linguagem peculiar
solicita à lua que se evada
para na reiterada labuta se embrenhar
ao raiar de um novo sol

Triste sina a de um lavrador
que nunca colhe o fruto do seu labor
ou será triste a do filósofo
a do cientista  e a do doutor?

Não há fartura à sua mesa
mas se satisfaz com um torrão de açúcar
farinha, carne seca, uma gota de água
- que lhe molhe a garganta ressequida -
 e o dedilhar na viola antes de dormir

Para o filósofo… a busca do enigma da vida
para o cientista… sempre há o que descobrir
para o doutor… o saneamento da dor
já o lavrador contenta-se com a vida simples
nem refletindo se foi a única que  Deus lhe ofertou

(Poesia do livro “Eu mesma…nua”)


http://www.simonemouramendes.com/
NÃO SOU ESTADO… SOU SER

Estou invisível, risível
atormentada, soturna,
em degradação diuturna
num vão escuro, num hiato da vida
estou pedra à mercê de chute

Estou traços esparsos
letra da palavra desgarrada
palavra descontextualizada
uma bolha de sabão ao vento
um pássaro banido e combalido

Ora, assim estou
mas é só de vez em quando
na verdade, não sou estado
tenho estado, mas sou um ser
um permanente ser
em constante refazimento


http://www.simonemouramendes.com/
MODORRA INTERROMPIDA

Estava numa modorra relaxante a prometer-lhe uma noite de um sono restaurador. Ah! Nada como os lençóis tépidos a acariciar-lhe o corpo numa estação invernal! Teria lindos sonhos com borboletas multicores adejando girassóis em campos verdejantes… Nem mesmo lhe incomodava o dedo nervoso do marido teclando os canais da televisão, como se a procurar uma programação jamais existente, ou, caso existisse, os roncos sempre lhe tomariam a dianteira.

Uma lembrança repentina de um fato consumado tomou de assalto o marido. Não quis esperar o dia seguinte para relatá-lo à esposa e sequer previa o grau de interesse que pudesse ter para ela. Mas os vários dias decorridos, desde que dele tomara conhecimento carrearam-lhe um sentimento de urgência. Tocara levemente no ombro da esposa, que não reagiu. “Amor, amor, está acordada?” – que pergunta inoportuna, incongruente! “Hum, hum, hum? Ainda sem noção espaço-temporal. A pergunta seguinte a tirou por completo do estado de obnubilação: “você tem um primo chamado Dioclécio?” – É verdade que o eufemismo nunca foi muito a sua prática – disso sabia a esposa, mas…

Dioclécio? Tenho, sim! – respondera-lhe a esposa de modo peremptório, num misto de querer apreender o porquê da pergunta e a necessidade de retomar a modorra introdutora do sono severamente interrompida. “Então, tinha, porque ele morreu!


http://www.simonemouramendes.com/
FENG SHUI NO SERTÃO

Trata-se de uma cidadã de nobre linhagem: andar garboso, trajar aristocrático, cútis de seda, cabelos impecavelmente escovados e tratados, com hora marcada, em requintados coiffeurs – onde não dispensa a leitura de revistas da moda internacional; garimpeira das peças exclusivas das mais seletas boutiques de Maceió, de cujos proprietários costumam lhe levar as coleções recém chegadas em seu domicílio; frequentadora contumaz de clínicas de estética facial e corporal, onde se familiariza com as técnicas mais avançadas de rejuvenescimento…

Ela trabalhou com afinco por longos anos numa Unidade Jurisdicional da Capital. Contudo, por imperativo da aposentadoria do seu chefe, viu-se fadada a mudar de rotina, vertiginosamente. Fora, então, convidada a prestar seus misteres numa unidade, localizada no alto sertão alagoano, lá mesmo onde se diz que “urubu voa com uma asa só, porque a outra é para abanar-se”, “onde dos carros são furtados os radiadores para o aproveitamento da água”. Aceitou o convite, a despeito desses seus hábitos genuinamente citadinos – logo ela, uma apreciadora do clima londrino.

Na composição de sua nova equipe, levou consigo uma servidora que voou do Japão, fez escala em São Paulo, Maceió e, enfim, aterrissou numa plantação de palma rodeada de cactos. A oriental, no entanto, lhe toldou a faceirice, roubou sua cena. Em todos os recantos da cidade não se falava na elegância de Silvia D’Lutrec, mas na sua amiga de corpo delgado,olhos puxados, cabelo sem cachos e sorriso sempre estampado, a que desfila de botas cano longo no solo rachado do sertão, como se estivesse caminhando, em pleno inverno, na Av. Paulista.

Vendo-a aflita com o calor de 40 graus, Silvia lhe recomendou trocar as botas por uma sandália rasteirinha, por certo, mais condizente com o clima local. Pôs algum bálsamo na ferida narcísica aberta em si, por sua sofrida invisibilidade, e encaminhou-a à única loja de grife da redondeza, opinou sobre escolha do calçado ideal – embora seu recôndito desejo fosse o de indicar-lhe uma “xô boi”. Nos primeiros dias, viu-a meio cambaleante com os pés sobre as rasteiras compradas, seus dedos nus pareciam estar tímidos, daí por que, logo em seguida, sem dar qualquer satisfação, tornou a usar as botas.

Silvia, por sua vez, numa tentativa inglória de fazer notado seu charme, muda a cor do cabelo, capricha no estilo dos modelitos, com que, em Maceió, sempre fizera sucesso, realça a maquiagem, aumenta o tamanho do salto… Mas nada! Os olhares permanecem convergindo, exclusivamente, para a menina da Terra do Sol Nascente, como se esta fosse um ser extraterrestre e aquela uma mera nativa.

Todavia, a japonesinha, mostrando-se tão solícita, tão afável, orientou-a a arrumação dos novos aposentados de acordo com o feng shui, e revelou-se, em suma, uma companhia não somente das atividades laborais naquele solo quase inóspito, bem como nas idas à massagista, à academia, à manicure, ao supermercado… Não vira alternativa, senão procurar um psicólogo no município vizinho que lhe orientasse na lida com esse trauma: o de ficar invisível ao lado da delgada japonesa.


http://www.simonemouramendes.com/
ACEITA-ME COMO SOU

Meu desenho, minha escrita…
nada evoluiu
estagnou a minha vida
derrotou-me o insucesso
a inspiração, a ternura… perdi-as

É assim que sou
respeita o meu limite
meu tênue e ínfimo limite

Sou estranha 
sou extrema
e apesar do que sou
aceita-me integralmente
integralmente como sou

(Poesia do livro “Incógnita”)


http://www.simonemouramendes.com/
DA SEIVA DA LAGOA DO MUNDAÚ

Mulher refeita pelos raios do arrebol
a Deus agradece a luz salvífica
incrustada dentro dos pretos capotes
sob as águas da Lagoa do Mundaú

Com suas mãos de marisqueira
dia após dia, tece a trama do futuro
e com o orgulho de uma alagoana
de mente fortificada pelo fosfato
encaminha seu filho à escola

Não o verá nos semáforos a esmolar
limpando os parabrisas dos abastados
vendendo mariola em troca de um trocado
nem cortando os pés nos capotes do sururu
ou ao léu, nos becos, cheirando craque e cola

Chafurda na lama, mas respira esperança
e altiva, não prescinde do ar da dignidade
vai à cata do sururu que lhe dá o angu
enleva-se, eleva-se, louva o grande Deus
reverencia a Lagoa do Mundaú

Já cansada, queda-se ao declinar do sol
não sem antes beijar do filho a face
ensinar-lhe a lição, um princípio ético
 bendizer a sobrevivência à custa do sururu
 dessa rica seiva da Lagoa do Mundaú


http://www.simonemouramendes.com/
AQUELE HOMEM

enchente

Foto: Simone Moura e Mendes

Quedou-se inerte, ao abrigo do céu, aquele homem
perscrutava o caos resultante daquele repentino temporal
o naufrágio de sua identidade, de seus simplórios sonhos
a devastação de suas memórias, de seu parco patrimônio

Talvez esperasse reunir forças e, ao menos, sentir agonia
rogar o amparo do Criador e não sucumbir na zona abissal
revoltar-se contra aquele fenômeno, um insólito pesadelo
chorar, enraivecer-se, gritar, lutar, sair da letargia

Para onde levara o Mundaú sua esposa, seu filho, seu cão?
para onde levara seu pequeno baú de quinquilharia?
arrebatara-lhe, sim, seus projetos, sua identidade
deixara-lhe um corpo desalmado, um cérebro obnubilado

Antes habitava uma singela casinha à margem do rio
e agora é um resumo do ar que entra e sai dos pulmões
sua sina será peregrinar sem rumo, sofrer o arrepio do frio
e esmolar um taco de pão para acalmar o estômago vazio


http://www.simonemouramendes.com/
ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE?

kill

A amizade com sua irmã fora a oportunidade de conhecê-lo. Até descobrir que não se tratavam de um casal de namorados, os princípios éticos, morais e religiosos, contiveram seu olhar de terna cobiça naquele homem cortês, bem-humorado, com ar de fora do seu tempo. Não, não poderia querê-lo para si!

O insidioso destino fizera-lhe descobrir o ledo engano. Que salutar equívoco! Desde então, seu olhar passara a contemplá-lo como possibilidade e ao vê-lo seu coração já não trabalhava tão compassadamente. Todavia, como saber se haveria reciprocidade de sentimentos e intenções? Apesar de sua aparente brejeirice, de seu agir altaneiro e independente, não se atirava antes de ser cortejada. Não gostaria de se denotar alguém disponível. Nas relações afetivas, portava-se habitualmente do modo conservador, imaculável, resguardada pela passividade que se esperava nas mulheres.

A vida segue, contudo, o traçado do coração. Justificado ele pela amizade dela com sua irmã, através de respeitosos argumentos, convenceu-a a passar consigo o feriado de Nossa Senhora da Conceição em Salvador, na companhia do irmão, cunhada, de um velho amigo – o Sargento Pincel – e da própria irmã, eis que iriam assistir a uma luta de boxe – boxe?! Pensara ela. A programação não lhe parecia atrativa em desacordo com as esperanças que lhe brotaram no peito. Decidira doar o bilhete de ônibus já comprado para Recife e aceitar aquele alvissareiro convite.

A luta de boxe fora algo inusitado, não lamentável porém. Estivera próxima de algumas personalidades somente vistas pela televisão, a exemplo de Maguila, Pelé, Miguel de Oliveira. Certamente, não seriam elas os ícones a quem poderia assistir numa peça de teatro, novela televisa ou tratarem-se de algum gênio da música ou literatura; mas, inegavelmente, cada um notabilizara-se por sua própria luz. Ademais, fascinou-lhe passear suavemente o indicador numa cicatriz na sobrancelha esquerda de seu maior ídolo: ele, por quem suspirava – o não namorado de sua amiga. Que cicatriz é essa? Perguntara-lhe. Foi um corte quando criança. Sua voz tinha o ritmo de uma borboleta adejando a flor.

A prudência era atributo de ambos. Não se sabe se apenas pelo medo de se machucarem ou não. Porém a destreza do destino é implacável: houvera uma ocasião em que cada um daqueles viajantes teria um compromisso, exceto sua irmã acometida de uma amidalite; seria aquele o último de dia de estada na terra de todos os santos. Convidaram-se então para o saboreio da brisa do mar num barzinho da Pituba. A conversa era auspiciosa, sem, no entanto, transparecer a inauguração de um idílio. Não, não, não! Seu hálito estava tão sujeito à sua olfação!

Liberta das amarras dos paradigmas sociais, ela armara-se de audácia para indagar-lhe se em algum momento já tivera interesse por si. Sem qualquer hesitação, respondera-lhe em tom altivo e seguro: não só tinha como tenho! Mas você é amiga de minha irmã e talvez um relacionamento fracassado entre nós balançasse os alicerces dessa amizade. Não era a resposta que ela esperava. Havia-lhe,ainda, algum fôlego para ir adiante: e se eu dissesse que também já tive algum interesse por você? Bem, aí a história muda de figura – assevera-lhe ele.

E completou: você acha que teríamos algum futuro? Em tom faceiro, ela respondera-lhe: bem, daqui a uns dez anos, eu não sei! Ele, timidamente, perguntara-lhe: e como é que começa? Ah! Isso eu não sei – com o cunho da inocência que logo ele compurscaria com um beijo indefinível, para, um ano depois, sob o testemunho de Nossa Senhora da Conceição, ouvirem o Padre imperativamente dizer: “até que a morte os sep are”! Não seria até morte separá-los. Ela não os separaria, pois sacramentaram uma aliança de amor para todas as vidas.

Permanecem unidos pelas mãos e pelo coração para o festejo das cincos estações primaveris da vida dele, com as bênçãos de Deus e a vigília de Nossa Senhora da Conceição, que o batizara!


http://www.simonemouramendes.com/
POEMA ALAGOANO

guer

Foto: Sandra Salgado

Como Adélia Prado, “nasci um anjo esbelto”
e “de vez em quando Deus me tira a poesia”.
É a tal pedra de Drummond de Andrade no meu caminho.
Porém, “nada a temer senão o correr da luta”,
como lecionado pelo grande Milton Nascimento

Se no verso de Camões o “amor é fogo que arde sem se ver”,
“quero vivê-lo em cada vão momento”, como fez Vinícius de Moraes,
fazendo louvação à poesia – expressão maior da alma-
eis que “quem faz um poema abre uma janela”,
como sentenciado pelo inolvidável Mário Quintana

Adolescida, regressei da Terra do Maracatu,
para reencontrar a poética na Maceió dos meus tempos primevos
sonho em conhecer a França, a Itália, a Grécia…
até mesmo a maravilhosa Passárgada de Manuel Bandeira.
Mas, tal como o “Acendedor de Lampiões” de Jorge de Lima,
sou alagoana e do Velho Graciliano Ramos sou fã.
É, pois, dos ares dos alagoanos mares de onde emana minha inspiração.


http://www.simonemouramendes.com/
CHOCOLATE PARA APIMENTAR A PRODUÇÃO

Há muita controvérsia sobre os efeitos do chocolate. Para alguns cientistas, a substância triptofano, presente em sua composição, contribui para a produção de um neurotransmissor denominado serotonina, que provoca a sensação de bem-estar e, aliado a isso, os flavonóides colaboram para um melhor funcionamento do cérebro. Se isso tem ou não procedência, os que fazem parte do mundo leigo, os meros idólatras da iguaria, preferem mesmo saboreá-los e relegar essa preocupação aos pesquisadores.

Sem qualquer base científica, ou quiçá, pela satisfação que ele causa em si mesma, a chefa de um dos cartórios de um órgão da justiça, na esfera federal, algumas vezes, regalava os membros de sua equipe com chocolate. Quando decorria longo período sem fazê-lo, eles próprios, em tom de gracejo e com mal disfarçado despropósito, cobravam-lhe o mimo.

Trabalhar num desses cartórios requer muita disposição, comprometimento com os contribuintes, que são, na verdade, seus patrões mediatos e, acima de tudo, indistinta responsabilidade social. Requer, ainda, além de conhecimento técnico, bom-humor, sabedoria, sensatez, serenidade para prestar atendimento aos mais diferenciados clientes, que pode variar desde o mais tosco, iletrado, humilde ou, simplesmente, hipossuficiente jurisdicionado, ao mais renomado – às vezes, soberbo – operador do Direito. 

Os chefes de cartório estão continuamente premidos ao cumprimento de metas. As pressões se assemelham ao efeito de uma cascata: a sociedade exige aos órgãos superiores providências em prol da celeridade na prestação jurisdicional; estes, aos presidentes dos regionais, que, ao seu turno, pressionam os magistrados de 1º grau – até mesmo a divulgação da estatística obtida em correição gera efeito motivacional; já os magistrados cobram dos chefes de cartório e, finalmente, estes fazem de sua equipe o repositório da esperança de conquistar os pretendidos resultados de excelência.

Todos, dessarte, convivem com o estresse, que grita por mecanismos de sublimação. Nota-se que a destreza do chefe imediato com a equipe pode ser determinante na higidez do ambiente de trabalho, física e mental, o que nem sempre se obtém sem alta dose de criatividade, autoconfiança, determinação, esforço e renhida preocupação.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://www.simonemouramendes.com/
TRANSE

tran

Ser poeta e sonhar
caminhar descalço
nas águas do mar

Desditar o amor perdido
escrever o nome na areia molhada
escorregar nas dunas
correr, gritar, cantar
sentir a respiração ofegante
ouvir o choá frenético das ondas

Fazer castelo com areia e lágrima
saborear o sal gosto do choro
deglutir a saliva amarga da sede
deixar o vento desalinhar os cabelos

Voltar, contar os passos
e ter novas recordações
ter loucas loucuras
ser o louco mais feliz do asilo da vida

Ter-te perdido e encontrado o sol
que nascera bêbado
com o meu hálito de ébrio
o ébrio das manhãs, das noites,
das madrugadas e de todos os dias

(Poesia do livro “Incógnita”)


http://www.simonemouramendes.com/
EXORCISMO DA SOLIDÃO

besti

Foto: Sandra Salgado

Na solidão incontemplável
de um domingo amanhecido
com ares invernais
meu grito aflito é devorado
pela virulência de um amargo silêncio

O vento sibila e é tal meu coração
que, em agonia hipotérmica, descompassa
e o vento não é unguento para a dor d’alma
não é refrigério para essa vida insensata

Oxalá o vento leve o tempo do agora!
não quero minha alma num convento
no absurdo claustro desse inverno
até sua roupa sucumbir num cemitério

Quero encontrar as festivas serenatas
que me enlevam na face sábado dos domingos
que colorem os meus dias de primaveras febris
e, alfim, exorcizar o vírus da solidão


http://www.simonemouramendes.com/
ESCRAVA DO PASSADO

resplandecer

Foto: Delaide Scolni

Descortino meus tempos pretéritos
impressos no video-tape da memória:
sou semente germinando
no primeiro choro… esperança
depois um sonho… abstração
primeiro beijo… eternidade

Pintei inúmeras aquarelas
algumas o sofrimento desbotou
transformei-me em estereótipo
das expectativas alheias…
e as amarras do passado
tolheram meu caminhar

Sem liberdade de não ser
vítima de desditosas experiências
não pude retornar ao aconchego
das entranhas maternas
havia um mundo para vencer

O rio segue seu curso
serp enteando os sulcos da terra
e eu…
peregrino claudicando
soprando as feridas abertas
que o tempo não cicatrizou

Sem muita destreza vou seguindo
ainda escrava do passado
um adulto de infância amputada
lisonjeada por um presente promissor

(Poesia do livro “Eu mesma… nua”)


http://www.simonemouramendes.com/
MAIS-VALIA

O ser humano se distingue do animal,
pois detém profusa capacidade de pensar o próprio pensar,
de transformar a natureza consoante suas necessidades.
Antes detentor dos meios de produção,
conhecia toda a escala produtiva
e produzia somente a serviço de sua subsistência,
para as suas necessidades primárias e as de sua família.

O ser humano individualizava-se pelo seu trabalho,
era artífice de sua condição de vida, dono de seu tempo.
Seu trabalho: um patrimônio indelével, uma marca na história,
lapidado por demorado processo evolutivo
- uma justificação de sua condição existencial.
O ser humano não alimentava ilusões!
O produto de seu labor detinha valor de uso.
Mas momento chegara de germinar as sementes do capitalismo,
quando na história surge no espírito um retrocesso.
Desenfreia o afã pelo acúmulo de riqueza,
advêm transformações sociai s e a reanimalização humana.

O Ser humano não produz apenas para si, mas para uma abstração,
para longínquos e esparsos mercados consumidores,
e jaz com o desprovimento de sua nacionalidade.
Eis a perversa globalização: a contramão da autorealização.
O ser humano não mais consome o que produz,
mas fabrica em si inéditas carências e perde sua essência.
Passa a auferir apenas fração de sua produção, um valor de troca,
o que enseja a máxima da “mais-valia”.
Não mais senhor do seu trabalho, um vendedor de sua força,
que, daí em diante, uma singela mercadoria.

Não mais detentor de seu tempo, consumidor do seu produto,
foi-lhe usurpada a liberdade…
perdeu-se e tenta resignificar sua insignificância.
Despiu-se de sua identidade, passou a bem tangível.
Castrou-se seus desejos, seu anseios e existir,
está sob o império das forças alheias.
Qual a alternat iva, senão existir sem o si mesmo?


http://www.simonemouramendes.com/
NA MODA POR EMPRÉSTIMO

Minimamente afeita aos convencionalismos da sociedade burguesa ou, talvez, um tanto economicamente consciente, suas roupas de festa são adquiridas nas compras de oportunidade – promoção, liquidação, queima de estoque nas mudanças de estação, “sale”. Não se imagina pagando vultosas quantias numa peça de roupa facilmente carimbada na memória dos olhares provincianos, normalmente, femininos, o que considera execrável.

Numa sexta-feira dessas, preparava seu estado psicológico para a compra de um vestido que a “fantasiaria” numa festa de 15 anos, onde estaria presente a nata da sociedade alagoana, trajada com os últimos lançamentos. Fazer o quê? Calçaria o mesmo sapato usado no casamento de seu irmão, já divorciado há cerca de 8 anos, combinando-o com a bolsa preta-básica – a de sempre. Pensou alto na sala de trabalho minutos antes do término do expediente: “puxa vida, quando penso que tenho de ir ao shopping para a compra de um danado de um vestido de festa! – “vixe, vixe”! Nada mais me fatiga”. Da mesa do lado, respondera a amiga: “não faça isso! Prove os meus trazidos dos “States” por minha mãe”, pois, dificilmente, alguém notará. Seus olhos brilharam, sua respiração ficou mais fluida, seu bolso comemoro u…

Com o marido e a filha mais velha, para servirem-lhe de supedâneo na escolha, fora à casa da amiga e, de lá, só não levara as peças íntimas e a maquiagem. O vestido era um “tomara-que-caia” incrivelmente “fashion”, que a fez prenunciar que estaria entre as mais elegantes do reino – e não exagerara nas expectativas, estava mesmo.

Já na festa, tudo muito deslumbrante, dois beijinhos para cá, aperto de mão para lá, um muito prazer lá e acolá. Após a valsa da debutante, o marido a convidou rumarem aos “braços do morféu”. Desciam as escadas em caracol, pomposamente ornamentadas, quando se depararam com um casal. O marido desse casal lhes era familiar, mas poucos encontros haviam tido com a esposa.  “Olha benzinho, o X tem sociedade comercial com o irmão de fulana, lembra dela?” – É claro que ele lembrava, pois era justo a fulana do vestido e adereços emprestados.

“Não, diga, amor! Quanta coincidênciiiiia!!! Ele sócio do irmão dela e você sua sócia: sócia desse vestido, da bolsa, do colar, do… rsrsrs. Faltou chão à esposa, que horrorizada, mas já de ego despido de qualquer vaidade, senão de muita ira, assumiu a verdade da alusão do marido. Olhou para ele, chispando, notadamente encolerizada, e disse-lhe: “não, não acredito que você seja capaz de fazer isso comigo!!!”. “ Bobagem, amor, que mal há nisso?” – não era sarcasmo, mas seu estado natural. O amigo X, então, interveio. Segurou na bolsa de sua esposa e, gentilmente, pretendera minimizar-lhe o golpe: “liga, não, criatura! Na verdade, a bolsa dela é emprestada da mãe…


http://www.simonemouramendes.com/
NUA, TODA NATUREZA HUMANA É HUMANA!

partenon

Foto: Mariana Mendes

Sócrates, Platão, Aristóteles
Filósofos, Cristãos,
Irracionalistas, Espiritualistas,
Existencialistas…
loucos imortalizados
de todos os tempos:
tanto logro malogrado

O problema do cosmo,
da vida, do ser, do sim e do não
do Estado, da pobreza,
da paz, da corrupção…
- a despeito de tantas reflexões
teoremas e teorias
complexas equações -
cada um desses problemas
sobrevivem e, decerto, sobrevirão
sem que ao homem lhe caiba
encontrar definitiva solução

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://www.simonemouramendes.com/
PERCO-ME

100_5006

Foto: Sandra Salgado

Perco-me nas horas poéticas
no assobio do vento
no marulhar perene do mar
no bem-ti-vi cantando seu nome
no exalar perfumado das flores
num sorriso pueril
na reinaugurada fantasia

Perco-me nas horas poéticas
no ressoar das imagens mentais
que pululam em emoções
ninam o coração do universo
e salpicam palavras no papel

Perco-me nas horas poéticas
no nascer, no crescer, na procriação
perco-me no criar e recriar da vida
no renascer de almas perdidas
Perco-me nas horas de todos os dias…


http://www.simonemouramendes.com/
MEU NOME

caderno_b5_da_gazeta_de_alagoas1

Meu nome: meu patrimônio
grafado em livro ou em jornal
dá-me a certeza do meu existir

E não existo por mim mesma
vivo e insisto em mim, em Deus
com e por todos vocês
e de mãos dadas com o meu amor


http://www.simonemouramendes.com/
A BELEZA DA VIDA CRUA

img_2216

Foto: Simone Moura e Mendes

Com você, num exaltar da vida
subi as dunas de Mangue Seco
deitei sob o seu céu, em êxtase
aspirei o seu mar, o amor, seus sais
encontrei meu cais, meu laurel

Com você, mergulhei no amar
exclamei a despedida do sol
- sorrateiro entre o coqueiral -
aplaudi a estrela vigilante
e a aparição da lua minguante

Com você, vi o dia nascer
o gorjeio dos pássaros
nova esperança florescer
e a presença de Deus
em cada poro meu
no sorriso seu de face nua
vi a assaz beleza da vida crua


http://www.simonemouramendes.com/
O AMOR VINGOU

Eu queria ser breve
mas você deu o tom
e a cor mais bonita
deu o modelo exato
o toque mais singelo
o movimento sereno
o sorriso mais ingênuo

E o amor vingou
frutificou, amadureceu
venceu minha resistência
apaziguou meu coração
espancou meus medos
restituiu-me a vida perdida
a minha essência varrida

Somente você, meu amor!


http://www.simonemouramendes.com/
DINHO: SEUS MEDOS E SUAS CIRURGIAS

pe00594842

Seria medo de morrer, medo da dor ou aquele medo inexplicável inerente a grande parte da população masculina? Agulha, cortes, sangue, parece até coisa destinada à mulher, afinal, Deus foi quem a elegera para a concepção de filhos.

Inobstante isso, Dinho provocara seu organismo com alimentação desregrada. Seu lanchinho da tarde poderia ser nada menos do que dois litros de Coca-cola com sessenta ovos de codorna. A saída do Cine Pajuçara era normalmente sucedida pelos sanduíches do “Baitakão” temperados com um tubo de maionese e meio de ketchup. Além de outras extravagâncias. O que poderia ele esperar?

Precocemente, seus maus hábitos causaram-lhe severas punições com o sofrimento de fortes dores abdominais e o recebimento do parecer médico de que estaria com um enorme cálculo biliar, onde o remédio seria a colecistectomia. O que é isso doutor? Tenho salvação? Pergunta Dinho, com os olhos esbugalhados. E com um sorrisinho irônico, respondera-lhe o médico: mas é claro, meu rapaz! Apenas extrair-lhe-ei a vesícula, o resto fica. Você poderá ter vida normal. É claro que mediante o cuidado de não cometer novos exageros, máxime no tocante a ingestão de alimentos gordurosos.

Após os exames pré-operatórios de praxe e algumas noites insones, internara-se, pesarosamente, na noite do aniversário de sua genitora. E, no dia seguinte, quando o enfermeiro anunciava ser chegada a hora de conduzi-lo ao centro cirúrgico, Dinho, em segredo, rogara a seus pais que, caso a vida lhe fosse ceifada, o apartamento comprado recentemente deveria ser doado à sua noiva, com quem se casaria em data próxima. A protetora companhia de sua prima, então acadêmica de medicina, servir-lhe-ia de conforto emocional.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://www.simonemouramendes.com/
MINHA CÉLULA-TRONCO

Dormiu atônito meu ontem
numa ira de cor crepuscular
de ígnea sensação térmica
lesionando a medula do meu eu

Meu hoje despertou radiante
com a força do arrebol
com a magia da esperança
e a placidez da temperança
realinhando minha vida
reentronando meu eu
sarando minhas feridas

Tenho meu hoje em você
tenho você no meu hoje
meu amanhã será melhor
no ocaso e no arrebol
você: minha célula-tronco


http://www.simonemouramendes.com/
ESSÊNCIA INQUIETANTE

image1

Ainda que se evadisse de si
e enveredasse por outras rotas
e evocasse outros mitos
e experimentasse crença diversa
estariam vivos seus medos
- reais e imaginários -
como um fantasma onipresente
a corroer-lhe o élan vital

Ainda que emigrasse para outro País
ou saltasse para outro plano existencial
sua essência estaria ali, inquietante
a exigir-lhe coragem e atitude
para içar seu espírito planificado à plenitude
e conceder-lhe a paz das grandes altitudes


http://www.simonemouramendes.com/
TAYRA FEZ JUSTIÇA À POESIA

tayra-paris-1121

A poesia é o sopro de Deus na terra
é parceira do amor, sublimação da dor
diviniza, universaliza os sonhos
distrai a saudade, desanimaliza

Senão poesia… conflitos, corações áridos
apáticos, despidos de humanidade
e Tayra de Macedo Mendes não arriscaria
ela não conceberia a anemia do mundo

Auscultou os iguais anseios de Ricardo Cabús
e espalhou poesias nos varais de Maceió
viu sua bela cidade contagiada de versos
inspirou o Projeto “Justiça à poesia”
de onde nascerão muitos outros trajetos

Tayra já havia plantado a semente
já teria deixado na terra seu legad o de amor
não hesitou em atender o chamado dos arcanjos
para espalhar poesia nos varais do céu
em socorro dos anjos decaídos


http://www.simonemouramendes.com/
ÊXTASE PERMITIDO

Salto de um sonho e mergulho na poesia
e rendo-me ao submerso mundo da utopia
refrigero-me, protejo minha essência
defendo-a dos aliciamentos mundanos
de qualquer excrescência dolorosa
E dos ledos e tormentosos desenganos

A poesia é o meu êxtase permitido
pois que não me produz efeito colateral
não me reduz à condição animal
não me condena à decapitação social
nem me permite um sangramento moral

A poesia é condescendente com o amor
alimenta a comunhão e exala paz nos guetos
- a partir da conquistada paz interior -
abjura a crueldade, dizima as iniquidades
remedia a inapetência da alma para a alegria
é o manifesto deságüe do meu represado coração


http://www.simonemouramendes.com/
FAMÍLIA UNIDA NO “PORRE” PERMANECE UNIDA NA VIDA

k08841692

Um ano inteiro de preparação. Os pais de Dora sonhavam com a hora de entregar a filha mais velha ao noivo, no altar, para o recebimento das bênçãos do Senhor. Seria um faustoso evento, o mais memorável da pequenina Maceió; afinal, sua primogênita, menina destacada no Judô como atleta de elite, merecia o mais acurado esmero no dia de tão sagrada importância na sua vida. A família, de vários tios, de um lado e de outro, se envolvera intensamente nos preparativos; cada membro com seu palpite, a fim de que nenhuma filigrana escapasse ao requinte pretendido na cerimônia.

Chegara o dia de inédita alegria. À hora do ocaso a noiva desponta, pomposamente, na nave central da igreja, trajada num riquíssimo vestido de calda longa, enfeitado com pedras e renascença, a esbanjar pulcritude, a arrebatar encantamento nos convivas e suspiros de amor no elegante noivo. Aliás, tal como a “casa muito engraçada”, da fantasia de Vinícius de Morais, a igreja não tinha parede; fora ela ressuscitada do abandono dos fiéis, que passaram a frequentar a nova capela, ali próxima, através da farta criatividade dos decoradores contratados. Transformaram-na numa catedral de sonhos.

Tanto Dora quanto o noivo são jovens desportistas de muito carisma, e os pais de ambos, são pessoas de excelente conceito social. Portanto, o casamento esteve prestigiado por amigos de várias partes do interior e até de outros Estados. A despeito da pequena multidão de convidados, todo mundo ficou bem acomodado no local da recepção, que estava deslumbrantemente singular. Havia tendas iluminadas por todo o salão abastecidas com os mais variados tipos de bebidas e apetitosas iguarias; os doces, de tão bonitos, suscitava dó em quem fosse comê-los. O dancing recebera os noivos e os convivas para a celebração de pululante felicidade e a banda de música os fazia “balançarem o esqueleto” catarticamente. Naquele dia, até quem jamais fora visto com bebida alcoólica, moderou os freios e deixou o raiar o dia recebê-lo ébrio.

Na primeira oportunidade de ser debulhada a resenha da festa, contou-se que a única irmã da noiva, deixada pelo namorado em sua residência, somente no jardim da casa, percebera-se presa do lado de fora, tendo deixado o celular no porta-luvas do carro; alguém, cuja autoria não foi descoberta, deixara trancada aquela porta que sempre era mantida aberta. Devastada pela bebida, Leninha, sem qualquer hesitação, aconchegara o corpo no banco de madeira, à pérgola da piscina, sob a noite decrépita, e entregou-se aos ”braços do morféu”.

Duas horas depois, chegaram os pais, um se equilibrando no outro. Eles sequer fariam o “quatro” e estavam sem a chave, também. Trôpego, o pai resolveu pular o portão lateral para socorrer-se da secretária, de cujo quarto estava aos fundos; foi ele desconhecido pelo próprio cão, um dobermann, certamente, pelo tempero do álcool a confundir-lhe o olfato; inerme, sob o torpor impiedoso da bebida e do sono, não soube reagir ao ataque do ex-amigo – cão – à perna da calça de seu caríssimo terno italiano através da grade do canil, inclusive, causando-lhe ferimento.

O sol daquele dia foi saudado por um insólito acontecimento: a SAMU fora chamada e atendeu o pai da noiva, sob deplorável estado etílico, esvaindo-se em choro por ter sido traído pelo amigo fiel e pela destruição de seu traje de gala. A esposa, mãe da noiva, como ébria solidária, chorou o infortúnio do marido. A filha caçula, por sua vez, mal despertada do homérico “porre”, levantara-se do banco, com o corpo empenado, e, vendo o pai e a mãe chorarem, sob a assistência atônita dos paramédicos, engrossou o coro de pranto. Um deles, o mais irreverente dos socorristas presentes, não concebendo seriedade em tão inusitado episódio, os consolara da seguinte forma: não chorem! Família unida no “porre” permanece unida na vida.


http://www.simonemouramendes.com/
IMAGEM E AÇÃO NOS EUA

bigphoto_012

A vida impõe um contínuo contato com riscos. Aliás, o viver sem o prazer das aventuras é um viver insosso, anêmico, insípido, quase vegetativo. Nessa esteira de pensamento, dois casais de amigos jipeiros e, portanto, familiarizados com as dificuldades dos terrenos erodidos, lamacentos, pedregosos, resolveram trilhar pelas espetaculares vias asfálticas dos Estados Unidos, com um mapa à mão e o desejo de conhecer muitos dos lugares que viam através das produções hollywoodianas.

Não comungariam da sensação de aventura se já estivessem com roteiros previamente delimitados. Não! Tudo ia sendo alinhavado ao arbítrio dos humores, à hora do engate da primeira marcha. Havia, meramente, o dia de chegar e a data do regresso, bem como o marco zero da aventura e a cidade onde tomariam o voo de volta para o Brasil. Além de intencionarem viver diferentes aventuras em terras nunca dantes visitadas, objetivavam prestigiar a formatura no “high school” da filha de um dos casais e a levariam para parte do trajeto.

Sabiam conjugar o verbo “to be”, lembravam da lição do “the book is on the table”, de algumas palavras esparsas do vocabulário aprendido no colegial, e o casal mais viajado, se possível e necessário, saberia apelar para o portunhol. Interpretariam também o mimiquês, bastante praticado por meio do jogo “imagem e ação”. Alimentados pelo fascínio da realização de um sonho distante, aterrissaram em Nova York, com a pupila dilatada e o coração galopante.

Tudo decorria sem grandes dificuldades naquela cidade povoada por tantos latinos. Chegaram ao único hotel cuja reserva havia sido prévia, um pouco distante da Times Square, mas de preço permissivo. A recepcionista comunicava-se em inglês – nada de espanhol ou português. Sem problemas: voucher apresentado e chave do quarto entregue.

Um dos homens teve necessidade de utilizar o toalete e logo avistara uma porta sinalizada; emocionalmente aliviado, percebera que teria de solicitar a chave. Nada de fazer-se entender pela recepcionista e, em última instância, recorrera à onomatopéia do xiiiiiiiiii, com as pernas em aperto e saltinhos alvoroçados. Risos – muitos risos.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://www.simonemouramendes.com/
A CURVA DA ESTRADA

jovem-mulher-andar_dl_k38_01461

A curva estava lá na estrada
na mesma estrada, a mesma curva
serpenteando, furiosa, o canavial
que me soprou o verde da esperança

A curva que tentou a minha vida
que quis me apresentar à morte
fez relampejar a lembrança da sorte
de ter um Deus para me amparar
com mais poder que a sua insídia

Não morri…
e com o amor do renascimento
contei o que me fizera a curva
às vidas de mim nascidas: ungidas
e o que as curvas da vida fazem
se a Deus não se dispuserem amar


http://www.simonemouramendes.com/
A MENINA DO MUNDO DA LUA

noite-com-lua-cheia-d0ea01

Dizem que ela “não tem memória, se muito uma vaga lembrança”, porquanto esquece, com razoável frequencia, dos fatos mais imediatos. Não fixa os detalhes físicos das pessoas, bem como as nuances do ambiente que a cerca; e, conforme ela própria confessa, olhar para cima e tentar lembrar-se da roupa em que está vestida, pode redundar em tormentosa angústia. A verdade é que se abstrai do mundo circundante com extrema facilidade, daí por que muitas de suas ações, realizadas no “piloto automático”, deságuam em formidáveis asneiras. Não à-toa obtivera, desde pe quena, a insígnia de “voadora”.

Conta-se que, certa feita, estava num expediente de trabalho turbulento, quando recebera uma chamada em seu celular de alguém que precisava falar com uma funcionária de outro setor. Anunciou-lhe, educadamente, que passaria a ligação do seu celular para o ramal respectivo, conquanto houvesse protesto daquele que estava do outro lado da linha: “mulher, acorda! Eu estou ligando para o seu celular, ele não há de possuir qualquer vínculo com um ramal”. Espera, rapaz, eu consigo! – respondera com certa aspereza. Frustração para ela e motivo para muita algazarra dos que se encontravam no recinto: foi, então, flagrada com o telefone convencional numa mão e o celular outra, restringindo-se a dizer: “eita, pooosso não!!!!”

Noutra situação, tomara de seu veículo e foi à academia na primeira hora após o raiar do sol, quase sem deixar o lençol cair. Primeira aluna a chegar, como de costume; devido ao estado de sonolência e receosa pela onda de violência urbana que assola a cidade, conjecturou ser um eventual ladrão aquele que era o jardineiro da academia – ele jamais havia sido visto no local. Na pressa de deixar a rua, esqueceu de acionar o freio de mão: lá ia seu celtinha, já negociado numa concessionária, rampa abaixo; quando ele já estava fazendo a curva, num despertar forçado, conseguiu deter-lhe a marcha antes de uma colisão com um automóvel que dobrasse a esquina da rua principal.

Todavia, não se sabe o como da façanha, seu pé, calçado num tênis, ficou preso embaixo da roda traseira. A quem pediu socorro? A ele, ao talvez meliante, que, solidariamente, requereu auxílio do vendedor de mungunzá a trafegar numa bicicleta. As funcionárias da academia foram à porta tentar entender a confusão. Transposto o susto, ninguém, nem mesmo a aparvalhada vítima, conseguiu moderar os risos.

Há uma vastidão de histórias de semelhante quilate a seu respeito. Ela, preocupação à parte, considerando ter conhecimento de que dois membros de sua família estão com Alzheimer, lida com suas sandices à base de peculiar bom-humor – fazer o quê?! Todavia, o ponto culminante de seus absurdos ocorreu num meio-dia de quarta-feira de cinza. De cara limpa, para que não se pense que podia estar sob o efeito de alguma substância de caráter alucinógeno, chegou, na companhia do esposo, à casa de uns amigos dos filhos, onde estes haviam passado o carnaval.

No intento de cumprimentar o pai dos meninos, apertara sua mão, mas os dois beijinhos costumeiros foram desferidos no marido, que estava contíguo. Todos, então, se entreolharam estupefatos até que, sem encontrarem explicação plausível, desabaram numa fartura de gargalhadas. Ela, sequer teve fôlego para cumprimentar os demais familiares, também, anfitriões. Uma coisa é fato: induvidosamente, é a paixonada pelo marido!

Anos decorreram e essa história vem ganhando cada vez mais ouvidos. Algumas pessoas têm o fato por inverossímil, outras, a par da realidade de sua protagonista, apenas, contabilizam-na como mais uma atrapalhada da “menina do mundo da lua”.

Será esse curto-circuito nos neurônios imanente aos poetas? Se sim, quem sabe ela não teria essa vocação enrustida? É o mais auspicioso dos prognósticos.


http://www.simonemouramendes.com/
NINGUÉM DA SILVA

Pobre, cansado, descalço
mulato, carente de abraço
perdido, desiludido
sem afeto nem teto
infectado
abandonado…

Sou um coitado
chorando em vão
ao léu
sob a lua e as estrelas
no frio e na chuva
ou sob o azul do céu

Atormentado ao relento
sigo sedento
pedindo esmola, cheirando cola
andando sempre na contra-mão

Meu nome é Ninguém da Silva
estou à margem da sociedade
e à mercê da piedade
de algum irmão

(Poesia do livro “Eu mesma… nua”)


http://www.simonemouramendes.com/
A MÃO

fundo_maos1

O correr da mão
resolve uma equação
demonstra teoremas
projeta sistemas
defende o ecossistema

O correr da mão
desenha um poema, que
singra os mares e amares
da imaginação: a poesia

O correr da mão
maneja a aquarela
a resumir uma tela
com vidas sem querelas

O correr da mão
acorda os acordes da viola
fazendo a lua suspirar
ardente de emoção

O correr da mão
arrepia a pele amada
abre a porta do desejo
devorante da madrugada

O correr da mão
detona bombas
aperta gatilhos
provoca sequelas
sepulta sorrisos…


http://www.simonemouramendes.com/
A BIFURCAÇÃO

bifurcacao12

A bifurcação o deteve
a voz interior lhe cantou o caminho
- era o caminho da redenção -
o levaria ao arco-iris
ao pote repositório da sabedoria

Permaneceu preso aos grilhões
dos prazeres fugazes, torpes
promovidos pela utópica liberdade
mais uma vez, fez-se presidiário
perdeu o bonde da salvação
escamoteou a sorte…
Simone Moura e Mendes


http://www.simonemouramendes.com/
A COMÉDIA DA VOVÓ TRAGÉDIA

inundado-lares-iowa_15378-29lm1

Em um ambiente de trabalho compartilhado, não somente se labora. O viver coletivamente é como estar num laboratório de individualidades em permanente interação. Fala-se, inclusive, de política, de futebol, de economia, de festas, de moda, de novela, de cinema, de música, de poesia, dos livros lidos, das questões sociais circundantes, de experiências pessoais e mundanas.

Uns costumam comparecer com notícias auspiciosas; outros trazem a piada do dia a fim de espancar a monotonia, minorar as vicissitudes, a face exaustiva do dia-a-dia. Todavia, há sempre alguém que, seja por coincidência ou por peculiar escolha dos óculos que o faculta enxergar a vida, são contumazes entregadores de seus maus presságios, ou narradores das intercorrências drásticas do mund o, do seu habitat.

No setor de atendimento de uma Secretaria Municipal, há a Senhora Rafa. Uma Vovó precocemente fabricada pelos tropeços inconseqüentes dos filhos – tão que jovem que, por ironia, a chamam de Vovó. Vários netos sob sua tutela. Trata-se de uma jovem senhora austera no lidar com os compromissos de que a vida lhe incumbira; sempre em alerta e a postos para socorrer, auxiliar a quem a solicita, com o melhor de seus préstimos, movida pela prodigalidade de seu coração.

Quando ri, esbanja o ar dos pulmões, promovendo uma catarse nas agruras que teimam em lhe mitigar a alegria. Mas ela é um inveterada perseguidora da felicidade. Passa o expediente a perguntar “pois não, senhor? Pois não, senhora?”, com o resoluto escopo de cumprir o nobilitante mister de funcionária pública. Se ela tira férias ou licença, o público logo pergunta pela Senhora Rafa, da data designada para seu retorno.

O ritual da Senhora Rafa, após adentrar na grande sala da Secretaria, é sentar-se ao balcão do atendimento, ligar o computador, dar um suspiro meio agônico, e contar do homem que morrera eletrocutado na rua em que mora, em Pilar; do medo de que as chuvas torrenciais provoquem o transbordamento do rio, em Pilar; dos acidentes de trânsito na estrada de Pilar; dos assaltos a ônibus nas cercanias de Pilar; da explosão do botijão de gás numa casa vizinha à sua amiga, em Pilar; de um crime passional, em Pilar…

Os fatos que chegam ao seu conhecimento, e são recontados por si, têm sempre um quê de tragédia. Ganhara, portanto, o codinome de Vovó Tragédia e, com isso, lida de modo bem-humorado – somente vez por outra verbaliza alguns impropérios, sobremodo, quando o céu amanhece púmbleo.

No último período de suas férias anuais, fora substituída por uma colega. Esta, ao ligar o computador, menciona, fortuitamente, uma catástrofe veiculada na internet. “Mas, como é que é? Basta sentar no local da Vovó Tragédia para reproduzir seus dizeres?” Interveio o amigo que desviara a atenção dos processos de cobrança fiscal para salpicar sua pitada de irreverência. As gargalhadas ecoaram uníssonas a inaugurar a sessão de irreverências daquele expediente.

Noutra situação, aquele mesmo interventor comentara das ações repressivas do Poder Público no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Vovó Tragédia, que, nessa ocasião, fazia um atendimento e, portanto, estaria alheia aos comentários, inocentemente, perguntara onde havia ocorrido o fato narrado. A resposta foi rápida e precisa: isso foi no Pilar – você não ouviu falar? Vovó Tragédia perdera a compostura e mandou o amigo “se catar”. Novas gargalhadas espocaram…


http://www.simonemouramendes.com/
O MENINO DE BORRACHA

beud

Foto: Sandra Salgado

Coelhinho, como carinhosamente lhe chamava seu pai, era uma criança abastecida de uma mente sobejamente imaginativa. Frequentemente mergulhava nas fantasias que compunham os personagens retratados no seu agir lúdico.

O tapete verde da sala de estar era o palco das grandes batalhas criadas por si. Sem indício de inquietude ou solidão, costumava espalhar os bonecos playmobil, os índios e os animaizinhos de plásticos – leão, rinoceronte, hipopótamo, girafa, veado… – que, em sua maioria, eram-lhe presenteados por sua irmã mais velha – uma fã incondicional. Ao longe, ouvia-se “tuf, tuf, tuf”: onomatopéia atribuída aos socos desferidos nos índios pelos soldados. Os silvícolas, para defesa da vida e do seu território, valiam-se da proteção do leão de cujo rugir longínquo fugiam os inclementes soldados a serviço da civilização.

Por volta de seis anos de idade, intuíra que o tapete verde estaria um campo exíguo para a expressão de seus jogos pueris. Ademais, a ambiciosa civilização intencionava expandir suas fronteiras. Coelhinho, então, despertara os encantos da rua.

Estaria ele construindo uma fortificação para os soldados na rua de terra onde morava, quando o mundo real lhe atropelara: um técnico da companhia telefônica terminara seu trabalho na caixa afixada no poste da esquina e entrara no fusca ali estacionado sem perceber que havia uma criança na traseira daquele veículo, engatando a marcha ré. Sua irmã, que estava do outro lado da calçada, desesperou-se ao ver o caçulinha da família em baixo do veículo.

Numa corrida veloz, escalara o lanço de escada que a separava de sua genitora que, naquele momento, estava a preparar um bolo de maisena para seus três rebentos. Esta incontinenti largara a batedeira em socorro do filho. Já a aguardava a vizinha em sua Brasília do ano com o menino sujinho de areia e emocionalmente abatido pelo susto estirado no banco traseiro. A irmã e mãe choravam copiosamente receando o pior que, graças à benevolência divina, o destino não permitira acontecer. “Chora não, mainha ! Eu tou bem?” A depauperada mãe sequer tinha coragem de olhá-lo.

No rosto e no peito de Coelhinho ficaram tatuadas as marcas do pneu do fusca – um mistério!Esse fato rendera-lhe a alcunha de menino de borracha, eis que seu pai alardeava pelos quatro cantos do mundo que o carro passara por cima do filho e isso, durante alguns dias, era sustentado com a apresentação dos traçados do pneu. Estaria também tatuado o fabricante do pneu? Seria ele Firestone? Pirelli? Ou Goodyer? A longínqua ocorrência encontra-se afastada da memória. Sabe-se apenas que de borracha ou carne e osso ele é agora um homem robusto e não tão flexível.


http://www.simonemouramendes.com/
COSMOPOLITA

100_5670

Foto: Sandra Salgado

Estive em New York
e respirei o ar libertário
conheci o calor de Piranhas
fui às Cataratas do Iguaçu
onde vi o refletir do arco-íris
sob o passeio das borboletas
e no frio de Triunfo triunfei

Estive em Buenos Aires de nobres ares
em Marechal Deodoro e Montevidéu
em União dos Palmares: Terra de Zumbi
fui ver o mar do Pacífico em Valparaíso
aspirar o ar da inspiração do Neruda

Estive no Alto do Moura em Caruaru
cortejar a arte do Mestre Vitalino
Na Europa? Só em sonho
mas vi Kebec no Canadá
e sua beleza fez-me delirar

Vou de peito aberto, resoluta
sorver o mundo, sou cosmopolita
do mínimo e do maior lugar
mas de cabeça sustentada por novas ideias
volto ao meu amado Maceió
de meus ideais, de meus ancestrais
onde nunca estarei só!


http://www.simonemouramendes.com/
MUITAS VIDAS EM POESIA

axmm

Disseram-lhe que ela era poeta. Fora-lhe custoso crer que possuísse esse incrível atributo, por si considerado uma proeza do coração, uma prova inconteste de sintonia com a divindade. Pensara que as amigas estar-lhe-iam sendo generosas, que pretendessem a promoção de sua autoestima.

Todavia, os rogos foram se multiplicando e já lhe retumbavam ferozmente nos ouvidos. Passara a perguntar-se: será que sou mesmo? Será que ainda há algo a extrair de mim além do que já fiz? Findara até por concordar que se lhe fosse construído um blog: um precioso presente de uma amiga muito estimada, que lhe desferira eficaz golpe na solidão das palavras.

Resolutamente, sacara da caneta e materializara os mais dorminhocos sonhos, açoitara as mais pudicas e sacralizadas emoções em guardanapo, papel de pão e onde mais fossem possível exprimir-se. Saíra do ostracismo intelectual com destino aos olhos de muitas bandeiras, para refazer a sua vida em poesia.

Contudo, quem se redescobre, não tira o véu somente de si. Fustiga a desocultação de outros talentos. A palavra, então, passou a bailar cintilante nos mais casuais encontros de amigas, entrelaçando-se nos seus destinos e logra reverberar em muitas almas anômimas para transformação de muitas vidas em poesia.              



http://www.simonemouramendes.com/
A RODA GIRA E O DESTINO É ATREVIDO!

Seria ele um cidadão “politicamente correto”, daqueles que não bebem, não fumam, não jogam e não mentem e, ainda assim, conseguira ser “filho de boa gente”.  “Não beba e nem jogue meu filho! Já vi muita gente boa dizimar família e patrimônio em virtude da bebida e desse tal jogo de baralho. Fique longe de todo o tipo de vício menino!” Viviam a lhe recomendar os pais: um casal distinto e respeitado da sociedade alagoana.

Com tais ensinamentos incutidos durante todo o período da formação de seu caráter, Bernevaldo rechaçava os que eram afeitos às farrinhas, cigarro e outros hábitos deletérios. Baralho, dominó, gamão… Nem pensar!  Levariam à perdição, na concepção dele. “Olhe só aqueles lá: não têm mais o que fazer na vida e entregam-se ao ócio, ao vício; estragam a saúde e dinheiro com cachaça”. Sempre foram as verbalizações daquele cidadão reto, fidalgo, porém, alegre, espirituoso, a ponto de sua presença sempre ser clamada no robusto círculo de amizade de que dispunha.

Todavia, a roda gira e o destino é atrevido! Ora se é! Bernevaldo, acompanhado de Clerilda, sua esposa, uma jovem senhora de sorriso aberto e de personalidade expansiva, fora a um baile comemorativo no clube social do pequeno interior onde nascera. Os casais amigos que lá se já encontravam pasmaram ao vê-lo sentar-se à mesa com uma garrafa de um desses whiskys destilados especialmente para “bebedores de carteirinha”.

Como ninguém quisera bebericá-lo dado ao seu elevador teor alcoólico, a despeito das advertências de sua esposa, Bernevaldo desdenhou que aquilo fosse embebedá-lo e tomava vultosos goles. “Ah! Ninguém quer, então vou beber tchudchinho – hahahaha”. A certa altura, já não conseguia articular normalmente as palavras, falava como se estivesse com um “tijolinho na língua”. Queria dançar até f revo agarrado com a esposa, sob os protestos desta que conhecia muitos dos presentes no recinto e não gostaria de macular sua figura, sobremodo a de Bernevaldo naquela circunstância.

Quando raiou o sol, a esposa e os amigos ajudaram a encaminhar Bernevaldo ao carro, que por ela fora conduzido no regresso ao lar. Após adentrarem no jardim da casa, Clerilda pediu que o esposo aguardasse quietinho enquanto ela abrisse a porta. Clerilda escutara um barulho: “chulept, chulept, chulept”. Era a cadela Malhada num delicioso passear da língua na face do seu dono, que estava em profundo sono estirado ao largo da varanda. “Sai, sai Malhada”! Comandara encrespada a dedicada esposa Clerilda.  Trabalho árduo fora arrastá-lo a cama. Imagine-se um homem robusto como ele ser içado por uma mulher de natureza franzina!

A inusitadíssima cena passara a fazer parte do repertório de “causos” daquele reluzente casal e seria contada nas rodas de amigos sempre e quando o momento oportunizasse-os. Ocorrera que, gradativamente, Bernevaldo seguira presenteando os amigos com outras embora bem mais sutis “bicadas”, mas jamais voltara a sequer cheirar aquele maldito whisky. Alforriara-se inclusive para aprender a jogar um baralhinho com a esposa e os tantos amigos, vindo a saborear instantes de salutar descontração. Aprendera Bernevaldo, contudo, que com equilíbrio a diversão é mais bem degustada – nele, no equilíbrio, é onde está a chave da virtude!


http://www.simonemouramendes.com/
ARTE É VIDA

Quero viver pela arte
na Terra ou em Marte
arte é vida
quero viver a vida

Se a vida não me distrai
a arte me consola
oferta-me a esmola
que não tive na vida

Senão vida
pelo menos arte
na Terra ou em Marte
a arte é minha vida

(Poesia do livro “Incógnita”)


http://www.simonemouramendes.com/
É PÁREO ATÉ PARA O MINOUTAURO

minotauro1

Filha de Fiscal de Renda, Camélia peregrinou, durante toda a infância, pelas cidades do interior alagoano. Poderia não ter fincado raízes; mas deixara nós de marinheiro de amizade em cada morada. Essa é a marca definidora dessa menina franzina e obstinada; sua aparência débil contradiz sua capacidade de enlaçar um touro, se essa for uma meta altruísta e seu desejo repousar-lhe os olhos. Melhinha, ciganeando por colégios públicos, também, não se acovardou perante outros hercúleos obstáculos que a vida lhe impôs; quis ser médica, e foi.

Seu Pai arvorava-se do mais límpido grau de honestidade no desempenho de seus misteres de fiscal das receitas públicas e, ademais, era o único provedor de uma família de três filhos, com ninguém mais suscetível a lhe prestar eventual suporte financeiro, considerando ser, ainda, o mais abastado dos irmãos. Não obstante isso prometera devotar recurso mínimo a fim de que Melhinha pudesse administrar o seu sustento em São Paulo durante os últimos anos de medicina.

Um grave percalço tomara a dianteira da vida daquela adolescente, apto a, inclusive, lhe comprometer a trajetória acadêmica. Um câncer de cólon vitimou sua genitora. Melhinha se dividia entre os exaustivos estudos e o tratamento da mãe, que acompanhara em todos os meandros, a despeito de seus parcos conhecimentos na qualidade de mera estudante.

Chegara o momento da decisão: permanecer ao lado da mãe, cujo definitivo declínio vital era iminente ou investir no tão alentado futuro profissional conforme orientação sábia e desapegada daquela que a veiculou ao mundo. Melhinha deixara, portanto, a alma em Maceió e, levou, com a bagagem, um coração corroído pelo cupim do remorso e da tristeza. Pôs os pés na “Paulicéia desvairada”.

Como estudar para a residência em reumatologia, se estava ausente até de si? Deus inventou a coragem e somente os fortes a encontra. Lograra aprovação em duas das três provas a que se submetera. Uma das bancas examinadoras lhe atribuíra nota nove, sem entender, contudo, como uma pretensa residente de reumatologia poderia dispor de conhecimentos tão vastos acerca do tratamento para o câncer de cólon. Dentre tantos, esse foi o ponto sorteado – o dedo de Deus? Indubitavelmente. Teria, antes de passar pela banca, de fazer uma anamnese numa paciente com idêntica sorte de sua mãe. Ao chegar a seu leito, contara sua dramática história e lhe rogou colaboração no relato dos deletérios sintomas da doença. A paciente fizera jus a esse nome naquela oportunidade: PACIENTE! Descrevera com rigorosas minúcias sua caminhada para a morte.

Melhinha, por sua vez, enquanto colhia os louros da conquista, conferiu à sua genitora mais essa alegria. Agradeceu a Deus, clamando-Lhe que dispusesse de um berço confortável para sua mãe e aquela senhorinha no seu céu de amor e redenção.

Fez-se uma mulher-mãe-esposa-filha-nora-amiga-irmã dedicada e, acima de tudo, guerreira. Vencera muitas outras batalhas; é saneamento para muitas dores reumáticas, muitas convalescências anímicas. Bravíssima Melhinha! Deus está contigo! Que venha o Minotauro e você se travestirá de Teseu!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa